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Resumo História da Psicologia Cap. 5: Wilhelm Wundt e o estudo da experiência interna Saulo de Freitas Araújo Wundt é considerado o fundador da psicologia científica por ter criado o primeiro laboratório em 1879 – o laboratório de Leipzig. Suas idéias sofreram muitas distorções devido a historiadores que captaram apenas uma parte de sua extensa obra. Ou seja, a compreensão do lugar que seu projeto psicológico ocupa em seus estudos ainda é incompleta. Novas pesquisas reavaliam seu pensamento, mas ainda são superficiais. Há questões mal resolvidas: Wundt propunha um único sistema psicológico ou sistemas múltiplos e distintos? A realidade é que o autor era um filósofo, só que com lógica, teoria do conhecimento, ética e metafísica próprios. Posto isso, aprofundar suas idéias seria muito extenso. Nesse capítulo, focar-se-á nos principais tópicos do seu pensamento psicológico tendo como base o “Compêndio de Psicologia” (1ª Ed. 1896), que não é um de seus escritos iniciais. A natureza da psicologia é experimental. A psicologia pode ser definida como “uma ciência empírica cujo objeto de estudo é a experiência imediata” (Araújo, 2005). Mas o que é “experiência imediata”? É a análise da experiência por seu conteúdo subjetivo, contrapondo-se ao objetivo, chamada de experiência mediata. A primeira trata do sujeito da experiência, a segunda, de objetos. Logo, uma está associada à psicologia, e outra às ciências naturais, ambas ciências empíricas. Nesse conceito, é perceptível a ausência das palavras alma e mente: elas eram criticadas por Wundt. Para ele, a psicologia assentada em hipóteses metafísicas não poderia ser aceita. O filósofo propunha a construção de outra, que se ateria somente à experiência psicológica propriamente dita, vista como nada além de um conjunto de processos interligados. Para Wundt, as ciências da natureza (Naturwissenschaften) e a psicologia se complementam, tendo em vista que a experiência é um todo organizado que abrange mundo externo e interno. Contrariamente ao pensamento do criador do laboratório, a psicologia foi incluída nas ciências do espírito (Geisteswissenschaften) – embora seu paralelismo psicofísico[footnoteRef:2] não deslegitime de todo essa inclusão. A psicologia pode ser considerada a mais geral de todas as ciências do espírito (Geisteswissenschaften) porque é a ciência das formas universais da experiência humana imediata. [2: Paralelismo psicofísico é uma doutrina que afirma, sobre o problema mente-corpo, que o físico e o psíquico (leia-se corpo e alma/mente) não podem ser reduzidos um ao outro: assim, são processos paralelos. Ela supera o dualismo por meio da interdependência de substâncias bem como o monismo materialista.] Ademais, psicologia e filosofia se relacionam de forma que a primeira é preparatória para a segunda: os resultados psicológicos podem guiar a construção de um sistema filosófico. A questão do método é semelhante ao da antropologia e a subdivisão da psicologia é entre individual e dos povos. A psicologia estuda uma mesma experiência que as ciências naturais, mas de outro ponto de vista. Mesmo assim, seus métodos são experimento - manipulação do pesquisador sobre o início, a duração e o modo de apresentação dos fenômenos investigados - e observação – apreensão de fenômenos ou objetos sem interferência. O experimento visa a uma relação, notável na psicologia individual, na fisiológica e na experimental. O que difere a perspectiva psicológica das ciências naturais é sua especificidade. Revela processos, jamais objetos estáveis, e não pode desconsiderar o sujeito da experiência. A intenção do observador, além disso, altera significativamente o rumo dos processos psíquicos. No domínio da psicologia individual, o psicólogo estaria impossibilitado de utilizar a observação pura ou a auto-observação (Selbsbeobachtung). Entretanto, há diferença entre esse conceito e o de percepção interna (innere Wahnehmung), que se baseia no controle experimental das condições externas da experiência. A psicologia individual atribui aos produtos mentais surgidos ao longo da história características comuns. Por isso, linguagem, religião, crenças, são objetos psíquicos para pura observação. A psicologia dos povos (Volkerpsychologie) complementa a individual na busca de uma compreensão geral dos princípios fundamentais da vida psíquica. Contudo, ao contrário da psicologia individual, que é investigada por Wundt direta e empiricamente, na dos povos ele o fez indiretamente, com relatos e estudos etnológicos. Se a psicologia individual baseia-se em experimentos e analisa processos mais simples, a dos povos analisa processos superiores e baseia-se em observação de produtos mentais. Wundt cria alguns conceitos e idéias psicológicas. É principal, para ele, a ideia de que “a vida psíquica desenvolve-se gradual e contiguamente do simples para o complexo, através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência psicológica na vida cotidiana.” (ARAÚJO, 2005). Assim, a base de toda nossa vida mental são os denominados “elementos psíquicos”: sensações (conteúdo objetivo) e sentimentos simples (conteúdo subjetivo). A partir deles, formam-se os chamados “complexos psíquicos” (psychische Gebilde). Esses complexos psíquicos assumem a forma de representações, sentimentos compostos, afetos e processos volitivos. Traduzindo o esquema presente no livro, a experiência imediata gera conteúdo objetivo e conteúdo subjetivo. O primeiro conteúdo forma sensações, que, por sua vez, produz representações. O segundo, sentimentos simples que criam sentimentos complexos, afetos e processos volitivos. Esses quatro, os complexos psíquicos, são fundidos para que sejam denominados como tal. Também são chamados de conteúdos da consciência. A ligação dos elementos (fusão) produz novas características, que são os complexos psíquicos e deles, somente, enquanto tais. A Fusão (Verschmelzung) origina o princípio da síntese criadora e constitui os complexos psíquicos. Nesse ponto, faz-se necessária diferenciação entre fusão e associação. Esta é um processo secundário, é a ligação de elementos já presentes em diversos compostos. Por isso, Verschmelzung é o processo fundador da complexidade psíquica, a associação, não. O associacionismo britânico passa longe dos conceitos de Wundt. É um conceito empirista em que a ligação de elementos simples constitui um mecanismo fundador da dinâmica psíquica. Voltando aos termos wundtianos, a conexão de complexos psíquicos gerará a consciência. Nela, aparecem a “apercepção” e a “percepção”, que se distinguem. A primeira (Apperception) é o processo através do qual um conteúdo psíquico é trazido à clareza da consciência e vem acompanhado de um estado de atenção. A segunda (Perception) consiste na apreensão de conteúdos sem a presença da atenção. Ambas também se caracterizam por seu conteúdo: aquele ao qual a atenção está dirigida chama-se ponto focal (Blickpunkt) e o conteúdo restante é o campo visual (Blickfeld) da consciência. Esquematicamente, temos que a consciência (conexão de complexos psíquicos), contém apercepção (ligada à atenção) e percepção. A primeira possui o ponto focal. A segunda, o campo visual. Outra idéia importante de Wundt é a causalidade psíquica. O conhecimento psicológico possui uma autonomia inegável, no caso de conteúdos de experiências individuais que só podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista. Assim, é justificável supor uma causalidade própria para o domínio dos processos mentais. A fundamentação última desse conceito está nas leis fundamentais da vida psíquica. A institucionalização da psicologia é dada por meio de laboratórios e periódicos. A fundação do Laboratório de Leipzig foi o que caracterizou Wundt como criador da psicologia. Entretanto, existiam outros laboratórios em atuação antes. Na verdade, o feito tem grande significado porque representou uma institucionalização formal da psicologia. Leipzig possuía o primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de psicólogos. Disseminou a criaçãode novos laboratórios, agora nos moldes wundtianos. Impulsionou o reconhecimento do Instituto de Psicologia. Contudo, a psicologia ainda era vista como parte da filosofia: até a metade do século XX, era subordinada a essa Faculdade. Foi proposta por Wundt uma desvinculação programática, em que as especulações metafísicas não influenciassem seu novo campo de investigação científica. Assim, em 1906, o antigo Philosophische Studien (Estudos Filosóficos), periódico fundado por ele, torna-se Psychologische Studien (Estudos Psicológicos), principal veículo de publicação de trabalhos da psicologia. O próprio Wundt reivindicava para si a fixação do significado de “psicologia”, conforme a tradição científica alemã. No Brasil, chega a sua configuração aplicada da psicologia, portanto, a influência de Wundt – se houve – é deveras indireta, já que o dito fundador da ciência pouco se interessava com a aplicação. Wundt e Titchener são muitas vezes associados, mas são muito diferentes. Nesse sentido, trata-se de um equívoco associar Wundt e Titchener, uma vez que o segundo, mesmo antigo aluno e colaborador do primeiro, construiu sua própria concepção de psicologia. Divergiu de seu professor e criou o estruturalismo. Para Titchener, a psicologia é fundamentalmente o estudo dos elementos da consciência através da introspecção, um sistema restrito. Segundo Araújo (2005), “grande parte da análise wundtiana dos conteúdos relativos à psicologia dos povos não teria lugar no sistema titcheneriano”. Além disso, Titchener é defensor do associacionismo, ou seja, sua psicologia estruturalista tinha como objetivo decompor os processos psíquicos conscientes em seus elementos mais básicos e descobrir seus mecanismos associativos subjecentes. Para Wundt, a análise é um meio de descobrir leis universais da vida psíquica em todas as suas manifestações. Sua insatisfação com a psicologia associacionista ficava evidente no seu sistema psicológico chamado “voluntarismo”. Segundo ele, o associacionismo era incapaz de explicar sentimentos e vontades da vida mental. Mais estudos sobre a vida de Wundt, enfim, fazem-se necessários e urge que sejam mais consistentes do que os que hoje existem.