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DIDÁTICA DA GEOGRAFIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Organizar o plano de ensino a partir das bases legais considerando prá- ticas ativas de ensino. > Reconhecer a avaliação como processo ao longo do trabalho pedagógico. > Identificar o planejamento e a avaliação como elementos favoráveis à promoção da aprendizagem. Introdução Você já escutou que “professor bom é aquele que reprova”? Ou que “quanto mais difícil a prova, melhor é aquela matéria ou aquele professor”? A avaliação deve ser aliada do processo educativo e, além de demonstrar se os alunos estão aprendendo, deve fornecer dados para que o professor oriente seu planejamento e favoreça a aprendizagem. Provas muito difíceis e reprovação podem revelar uma concepção tradicional de ensino (e de avaliação), contribuindo mais para a autoridade do professor do que para avaliar o processo de aprendizagem dos alunos. Essas são avaliações cujos objetivos didáticos se perdem, ficando apenas em destaque a atribuição de notas. As avaliações podem ser compreendidas de maneira a contribuir ou interferir no planejamento do ensino. Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem Aline Lucia Nogueira Medeiros Neste capítulo, você vai ler sobre como organizar o planejamento conside- rando as práticas ativas de ensino. Além disso, vai compreender a avaliação como processo ao longo do trabalho e como ela está diretamente relacionada ao planejamento do ensino. Planejar o ensino: tarefa contínua e complexa O cotidiano escolar envolve inúmeras atividades: planejar e ministrar as aulas, interagir com os alunos e buscar entender seus contextos e realidades, avaliar, interagir com os outros docentes, realizar projetos extraclasse, pla- nejar as atividades da escola, se reunir com os pais e responsáveis, deliberar e decidir junto as instâncias de discussão da escola, entre outras. Todas as ações no espaço escolar precisam ser planejadas; compor o Projeto Político Pedagógico da escola, bem como seu currículo; e refletir os documentos normativos da educação, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Lei de Diretrizes e Bases (LDB). É por meio de um planejamento bem elaborado, alinhado com as diretrizes e normativas educacionais, executado e documentado para entendimento dos acertos e erros que uma educação de qualidade é ofertada e garantida, e que realmente atenda aos estudantes. Desde a sala de aula até a escola como um todo, planejar é fazer escolhas coerentes, organizar a rotina escolar e dimensionar os objetivos e o quão distante está de realizá-los. Para o docente, planejar é entender quais são os objetivos do ensino e o que será feito para atingi-los. Este é um trabalho orientado por diversas nor- mativas legais, que deve considerar ainda o conteúdo ensinado e os recursos disponíveis na escola. Planejar o ensino (e depois executar o planejado) é o que garante a coerência na didática do professor entre sua concepção de ensino baseada no protagonismo do aluno e as atividades propostas e avaliações do processo. Será que há diferenças no processo avaliativo entre um baseado em uma concepção tradicional do ensino-aprendizagem e outro elaborado considerando o protagonismo do aluno em uma perspectiva construtivista? De acordo com Morais et al. (2020, p. 15), “O planejamento é uma etapa decisiva para orientar a prática pedagógica”. Veja a seguir algumas indica- ções que as autoras apresentam acerca do que é necessário para elaborar o planejamento do ensino. Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem2 � Conhecimento da legislação e dos documentos normativos que orientam o currículo e a ação educacional. � Conhecimento dos recursos e materiais disponíveis na escola. � Conhecimento prévio dos alunos sobre o conteúdo abordado. � Entendimento prévio do contexto escolar e da realidade sociocultural dos estudantes. � Articulação entre a teoria e a prática. � Utilização de metodologias que auxiliem no processo de ensino- -aprendizagem. � Sistematização das atividades com o tempo. � Flexibilidade. � Pesquisas sobre diferentes referências. O ensino precisa ser adequado à realidade sociocultural dos alunos e ao contexto escolar, bem como ser planejado a partir do conhecimento dos recursos e materiais disponíveis. Isso é justificado como forma de garantir a execução do planejamento. Preparar aulas muito distantes da realidade dos alunos ou que utilizem recursos não disponíveis na escola pode comprometer o planejamento. Além disso, é preciso deixar certa margem de flexibilidade na sistematização das atividades, para que compreendam períodos de avaliação do que foi executado e se é necessário modificar o planejado para garantir o aprendizado dos alunos (MORAIS et al., 2020). Veja a seguir os aspectos necessários para o planejamento docente, que podem ser utilizados como guia. � Elaborar um esquema a partir do que você já sabe sobre a turma, a escola, as avaliações, os objetivos e as metodologias pode ajudar a organizar as ideias e propostas. Deve ser funcional e significativo, de forma a fazer sentido para o professor e atender às necessidades reais dos alunos, considerando a disponibilidade de recursos da escola. � Considerar as análises das avaliações da aprendizagem. � Definir os objetivos de aprendizagem, as estratégias didáticas, as atividades propostas, os critérios e instrumentos de avaliação e as possíveis intervenções didáticas. � Considerar o conhecimento prévio dos estudantes e sua realidade sociocultural. Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem 3 A definição dos objetivos de aprendizagem deve ser contemplada como passo inicial do planejamento. Para facilitar esse entendimento, é pertinente buscar os documentos normativos da ação educacional, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e outras orientações curriculares referentes à rede de ensino em que atua. A definição de competências gerais e de acordo com o componente curricular orienta a ação intencional que conduz o processo de ensino, ou seja, o que deve ser desenvolvido no conjunto da aprendizagem (do conteúdo e das habilidades): A BNCC indica que as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desen- volvimento de competências. Por meio da indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer” (considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas com- plexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho), a explicitação das competências oferece referências para o fortalecimento de ações que assegurem as aprendizagens essenciais definidas na BNCC (BRASIL, 2017, p. 13). O Plano de Ensino: materialização do planejamento O planejamento do ensino para o docente se materializa por meio da elabo- ração do Plano de Ensino, a proposta didático-pedagógica do professor que direciona sua ação. É um documento que apresenta alguns componentes essenciais e deve ser preenchido pelo professor de acordo com o que foi planejado. A elaboração do Plano de Ensino é apenas um passo do planeja- mento, que deve ser pensado e imaginado antes pelo professor a partir de diversos aspectos que já foram apresentados aqui. Morais et al. (2020) afirmam que o Plano de Ensino deve conter os seguintes itens. � Descrição básica: escola, professor, ano, ano/série, número de horas/ aulas totais. � Identificação do componente curricular. � Definição de objetivos e competências. � Detalhamento em tópicos dos conteúdos (dividido por recorte temporal – etapas, bimestre, semestre, trimestre, etc.). � Metodologias e atividades (procedimentos e estratégias). � Procedimentos de avaliação. � Bibliografia básica. Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem4 Algumas dessas informações podem ser encontradas nos documentos normativos do currículo, como os objetivos e competências,mas é importante que o professor articule essas informações de forma que consiga visuali- zar sua execução na forma de conteúdo, metodologias e procedimentos de avaliação. Para que o planejamento seja efetivo, bem articulado e coerente, o professor pode fazer alguns questionamentos, demonstrados no Quadro 1. Quadro 1. Questões essenciais ao planejar o ensino Questões orientadoras Planejamento O que o aluno deve aprender? Listar conteúdos essenciais. Por que aprender tais conteúdos? Listar os objetivos de aprendizagem a ser alcançados – desenvolver as competências e habilidades previstas. Como trabalhá-los em sala de aula? Listar encaminhamentos metodológicos e recursos didáticos (podem ser relacionados aos conteúdos listados, aos objetivos e às competências previstas). Como avaliar? Listar critérios e instrumentos de avaliação (podem ser relacionados aos encaminhamentos metodológicos, aos conteúdos, aos objetivos, às competências e às habilidades). Fonte: Adaptado de Morais et al. (2020). Responder a essas questões é garantir que seu Plano de Ensino esteja coerente e bem compreendido, por isso é recomendado que tente respondê- -las após já ter elaborado o Plano e retorne para adequá-lo quando achar necessário. Esse é o processo de finalização e fechamento do Plano. Modifi- cações poderão ser feitas apenas durante o processo de ensino, quando as avaliações indicarem a necessidade. O uso de metodologias ativas, que valorizam o protagonismo do aluno e da aprendizagem por resolução de problemas, é orientado nos documentos normativos de currículo. A aplicação dessas metodologias deve ser pensada a partir do conteúdo a ser ensinado e da habilidade que se espera que o aluno desenvolva, unindo, assim, teoria e prática. Tanto as metodologias como o conteúdo são peças fundamentais do planejamento do ensino. Quando com- binadas, observa-se a elaboração de diversas atividades, potencializadas e Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem 5 limitadas aos materiais e recursos disponíveis na escola. Dessa forma, procure conhecer a escola em que atua, os seus recursos e materiais disponíveis e os projetos que já estão em andamento. As possibilidades de atividades são diversas, variando desde a exposição dialogada do conteúdo, debates, simulação de juris, elaboração de murais temáticos, uso de jogos e desafios, análise de notícias, pesquisas progra- madas, contação de histórias, etc. A adoção dessas metodologias passa por outra relação com o conteúdo, que não deve ser ofertada pronta ao estudante. A organização temporal dos conteúdos trabalhados pode ser diferente daquela exposta no livro didático, pois geralmente uma mesma atividade associa diferentes tipos de conteúdo. Por isso, é preciso pensar o planejamento em todos os seus aspectos, considerando a concepção didática adequada, e um dos aspectos que devem ser elaborados coerentemente é o processo avaliativo. Se os conteúdos não são entregues prontos, é preciso considerar que o aluno passou por diferentes processos de mera assimilação e repro- dução do ensinado. Os caminhos que os alunos percorreram no processo de aprendizagem não são os convencionais, de memorização do transmitido, e o processo avaliativo precisa refletir essa mudança. Mas como fazer isso? Leia a dissertação de mestrado da pesquisadora Sônia Weber, defen- dida em 2007, intitulada “Avaliação da aprendizagem escolar: práticas em novas perspectivas”. A pesquisa aborda mudanças na organização escolar que sinalizam práticas inovadoras, tanto no ensino quanto na avaliação da aprendizagem dos alunos, a partir do estudo de duas escolas de ensino básico. Avaliar para quê? Antes de apresentar como avaliar, é preciso pensar um pouco nos objetivos da avaliação. Em uma prática de ensino convencional, a avaliação aparece como fim, um dado quantitativo que supostamente demonstra se o aluno aprendeu, e pode acarretar como consequência sua reprovação caso ele não atinja a nota mínima nas provas regulares e nas atividades de recuperação de nota. Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem6 Mendes (2005) descreve o processo avaliativo tradicional da seguinte forma: [...] apresentamos um conteúdo novo por meio da exposição, às vezes dialogada; aplicamos exercícios para fixação; tiramos as dúvidas durante a correção dos exercícios; logo em seguida avaliamos os alunos, geralmente através de provas e testes; realizamos a correção contando os acertos obtidos; e depois desse proces- so, reiniciamos uma nova unidade com um novo conteúdo (MENDES, 2005, p. 175). A autora ainda afirma que “dificilmente nos detemos nos erros, embora sejam eles que possibilitam detectar as não aprendizagens e, muito me- nos paramos para pensar sobre o que fazer para que as dificuldades sejam superadas” (MENDES, 2005, p. 175). Para que serve a avaliação nesse caso? Restringe-se à contabilização dos resultados obtidos pelos alunos: a nota, que é um fim em si mesma, uma “verificação”. Nessa concepção didática, a nota é a motivação para o estudo, já que ser aprovado na avaliação ao atingir a nota mínima garante a passagem para o próximo nível de ensino e a diplomação. A LDB afirma em seu art. 12 que a escola deve “prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento” (BRASIL, 1996, documento on-line). Portanto, institui, no art. 24, a “obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao período letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disci- plinados pelas instituições de ensino em seus regimentos” (BRASIL, 1996, documento on-line). A atribuição das notas é o único objetivo da avaliação na concepção tradicional de ensino, por isso há a necessidade da instituição de um processo de recuperação dessa nota, pois, do contrário, os alunos seriam diretamente reprovados. Assista ao vídeo intitulado “Reprovação escolar ainda é um meca- nismo de poder para o professor?” no YouTube, que apresenta um debate com a professora Vanda Ribeira. Modificando a concepção de ensino de forma a valorizar o protagonismo do aluno e adotando um processo avaliativo coerente, “a nota passa a ser consequência e não motivação para o estudo. Quanto à reprovação, ela tende a desaparecer, pois cada resultado ruim significa fazer de tudo para ajudar os alunos a superarem suas dificuldades” (MENDES, 2005, p. 175). Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem 7 O documento normativo do currículo, a Base Nacional Comum Curricular, indica que o professor deve “construir e aplicar procedimentos de avaliação formativa de processo ou de resultado que levem em conta os contextos e as condições de aprendizagem, tomando tais registros como referência para melhorar o desempenho da escola, dos professores e dos alunos” (BRASIL, 2017, p. 16). Falaremos mais sobre avaliação formativa na próxima seção. A importância da avaliação formativa Existem diferentes tipos de avaliação, e cada uma deve ser adequada à pro- posta e à concepção didática do professor. Weber (2007) elenca os seguintes tipos. � Formativa: ocorre durante o processo de ensino, fornecendo informa- ções ao professor sobre as condições de aprendizagem do aluno. Per- mite identificar falhas no processo de ensino, que pode ser adequado para superação das dificuldades e garantia de melhores condições de aprendizagem para o aluno. � Somativa ou tradicional: ocorre ao final de cada etapa com a finalidade de verificar se o aluno aprendeu. Está relacionada à contabilização dos resultados obtidos pelos alunos (nota), podendo ser sinônimo de seleção e classificação (vestibulares, concursos públicos). � Diagnóstica: permite ao professor identificar em que momento do processo de construção do conhecimento o aluno se encontra, de modo a possibilitar a identificação das atividades pedagógicas que irão favorecer a aprendizagem. � Mediadora: caracterizada pelo acompanhamento do processo de apren- dizagem do aluno, ajudando a melhorá-la por meio dadiscussão das razões de sua efetivação, entre o aluno e o professor, na busca de soluções. � Dialógica: se contrapõe à avaliação com a finalidade de classificar e punir, sendo identificada com uma escola democrática, transdisciplinar e plural, difundida com base nas ideias de Paulo Freire. A avaliação formativa é “toda prática de avaliação contínua que pretenda contribuir para melhorar as aprendizagens em curso, qualquer que seja o quadro e qualquer que seja a extensão concreta da diferenciação do ensino” (MENDES, 2005, p. 177). Nesse sentido, o professor deve ressignificar o processo avaliativo: ele deve ser considerado como prática de investigação e não de Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem8 classificação, e as apreciações devolutivas devem ser constantes, ou seja, tendo retorno sobre a avaliação feita. O primeiro passo é pensar sobre quais situações são possíveis de serem avaliadas no cotidiano da sala de aula. A resposta está nos momentos mais óbvios e previsíveis, ou seja, todas as situações podem ser avaliadas, desde que estejamos atentos, registrando os fatos e tomando uma atitude frente ao que está sendo verificado, essas são o que chamamos de apreciações devolutivas (MENDES, 2005, p. 179). Quais situações são possíveis de ser avaliadas no cotidiano da sala de aula? Quais atividades? Quais habilidades? Mendes (2005) afirma que esse é o primeiro passo. Ao planejar as atividades, é preciso já contemplar os momentos de avaliação, mas ela pode acontecer ao longo da formação, não apenas em provas. Veja a seguir os aspectos do processo avaliativo de acordo com Mendes (2005). 1. Definição da função avaliativa: não como punição, verificação, para atribuir nota, etc. Fornecer informações ao professor sobre as condições de aprendizagem do aluno. 2. Práticas metodológicas adequadas: valorizar o protagonismo do aluno. Se o aluno não aprendeu de uma forma, é preciso tentar outras não como punição, verificação, para atribuir nota, etc. Fornecer informações ao professor sobre as condições de aprendizagem do aluno. 3. Diminuir a ênfase na avaliação: existem rituais especiais para que a avaliação aconteça, valorização maior ao dia da prova do que dos outros dias. É preciso romper com a centralidade da avaliação. Diversificar os instrumentos de avaliação. 4. Alterar a postura diante dos resultados: é necessário perceber as necessidades/dificuldades dos alunos e conseguir intervir na realidade para ajudar na superação. Devolutivas constantes. Para desenvolvimento do processo avaliativo pertinente, é preciso com- preender sua função: entender o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos e intervir quando necessário para potencializar o processo. Portanto, é fundamental, na prática avaliativa formativa, a perspectiva daquele que aprende: o aluno. Tanto ele como o professor devem: Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem 9 [...] registrar, desde o início, suas observações e impressões no sentido de indi- car ajustes ou propostas para que as dificuldades detectadas sejam superadas. Instrumentos como observação e entrevista são fundamentais e o diálogo como metodologia de trabalho é condição básica (MENDES, 2005, p. 179). Os instrumentos avaliativos são recursos didáticos utilizados para coletar informações para investigar se a aprendizagem está ocorrendo conforme planejado, e não se limitam a provas e testes. Eles podem ser: exercícios em sala de aula; tarefas e/ou pesquisas extraclasse; organização e apresentação de trabalhos; observação; entrevista; autoavaliação; diário; entre outros. Todas as manifestações dos alunos que permitem ao professor acompanhar o processo ensino-aprendizagem, como por exemplo: testes, trabalhos, tarefas, resenhas, textos, pesquisas, trabalhos em grupos, apresentação oral, expressão corporal, etc. (SANTOS; BENEVIDES, 2013, p. 16045). Essas manifestações se tornarão instrumentos avaliativos a partir do regis- tro das observações e impressões sobre a aprendizagem dos alunos. Portanto, a avaliação se torna processual, uma vez que não está centrada em um mo- mento específico, ritualizado, o que gera uma ênfase desnecessária a esse momento e na própria nota. Essas observações e impressões vão compor as apreciações devolutivas, e vão orientar diversas ações do professor: pode retomar, rever, replanejar, alterar o ritmo, buscar novas estratégias de abordagem para garantir que os alunos tenham condições de aprender. Segundo Mendes (2005, p. 183), “O erro revela que o aluno precisa de nossa ajuda”, por isso é importante que haja a avaliação formativa do processo e dos resultados. Dessa forma, é possível observar como o aluno está aprendendo, o que vai acrescer o desenvolvimento do ensino, podendo gerar necessidade de replanejamento da proposta. Avaliar é uma atitude orientada para o futuro. Avalia-se para melhorar a nossa atuação e para garantir aos alunos uma aprendizagem de melhor qualidade; a avaliação funciona, se bem feita, como uma reflexão sobre as informações colhidas e analisadas (VIEIRA, 2018, p. 100). Pesquise em seu mecanismo de busca pelo artigo de Antonio Vieira (2018) intitulado “Avaliação escolar: um estudo sobre a importância dos instrumentos de avaliação no processo de ensino aprendizagem” para saber mais sobre a importância da avaliação no ensino. Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem10 Planejar e avaliar a aprendizagem O planejamento do ensino é fundamental para que o professor alcance os objetivos propostos pelas normativas curriculares e assumidos no seu Plano de Ensino. Os objetivos permitem que os alunos construam aprendizagens, de forma a se tornarem capazes de agir e transformar a sociedade em que vivem. Dessa forma, o planejamento passa não só por propor ações edu- cacionais contextualizadas pela realidade sociocultural dos alunos e pelas condições da escola, mas também por avaliar esse processo de forma coerente, analisando os resultados e alterando o planejado quando necessário para garantir condições de aprendizagem e, portanto, um ensino de qualidade. Tanto o planejamento quanto a avaliação são elementos fundamentais para a promoção de um ensino protagonizado pelo aluno, desde que seja coerente com essa proposta. O planejamento deve considerar os objetivos do ensino, as competências a serem desenvolvidas, os recursos disponíveis, a realidade sociocultural e o conhecimento dos alunos, as metodologias e atividades propostas, o conteúdo a ser trabalhado e, por fim, as avaliações. As avaliações devem ser formativas, isto é, considerar o processo de aprendizagem dos alunos de forma a proporcionar mudanças e alterações no planejado quando necessárias. Podem ser diagnósticas, do processo, do resultado, mediadoras, somativas e dialógicas, e é importante que considerem os objetivos do ensino, a função da avaliação, os instrumentos de avaliação e a necessidade da devolutiva. Ao planejar as situações de ensino, os professores organizam propostas que per- mitem acompanhar os alunos em seus processos de aprendizagem. É por meio de práticas avaliativas contínuas que os professores também avaliam o seu pla- nejamento, o que lhes permite promover ajustes no processo de ensino (ZANON; KAILER; ALTHAUS, 2016, p. 49). O planejamento do ensino é a possibilidade de alterar a realidade segundo os princípios e concepções que centralizam o processo de aprendizagem no aluno, garantindo, assim, uma educação de qualidade. Você já viu que o planejamento e a avaliação são questões complexas do ensino, que vão definir a forma prática como o professor executa suas concepções didáticas. Por isso, dizer que um “professor bom é aquele que reprova” ou que “uma matéria é boa porque é impossível de ser aprovado” é complicado, pois reflete um conceito de ensino tradicional, preocupada apenas em transmitir o conteúdo que o professor já domina, não em desenvolver competências e aprendizagens. Em uma concepção voltada para o protago-Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem 11 nismo do aluno no processo de aprendizagem, o erro do aluno é um sinal de que é preciso entender suas causas e modificar o previsto. O objetivo não é conseguir notas boas nos exames, mas aprender. Veja um exemplo a seguir. Ensino de geografia, planejamento e avaliação formativa Ao planejar, o professor organiza de forma clara e intencional seus objetivos, conteúdos, competências e habilidades a serem desenvolvidas, escolhe a metodologia mais adequada, os recursos e o tipo de avaliação. Na metodologia, tem-se o momento de diálogo sobre o seu objetivo com o conteúdo, para que o aluno possa desenvolver as competências e habilidades previstas por meio das atividades propostas. Por fim, a avaliação deve estar alinhada nesse percurso e dialogando com tudo isso, ou não haverá uma proposta coerente. Embora esse planejamento ocorra geralmente no início das atividades do professor visando ao período letivo, ele deve ser executado e revisitado periodicamente. O que vai definir se o professor deve seguir o planejado ou alterar de alguma forma é a devolutiva das avaliações. Se, na devolutiva, o professor constatar que os alunos não estão aprendendo, é preciso alterar o planejado. Vamos tomar como exemplo o caso de um professor de geografia do sexto ano do ensino fundamental. Ele já planejou seu ano letivo, com definições de atividades e horas/aulas para trabalhar cada conteúdo e desenvolver as competências previstas na normativa, bem como as avaliações e devolutivas. Acompanhando um momento da execução desse planejamento de ensino, vê-se que ele planejou uma aula com o objetivo de promover a compreensão do conceito de lugar. Em seu plano de aula, ele evidencia o objetivo daquele momento, as atividades previstas (conteúdo e competência a ser desenvolvida), os recursos disponíveis e a avaliação do momento. Na normativa curricular nacional (BRASIL, 2017, p. 384–385), está escrito que, para o 6º ano, há um objeto do conhecimento chamado “Identidade sociocultural” relacionado a duas habilidades: “(EF06GE01) Comparar mo- dificações das paisagens nos lugares de vivência e os usos desses lugares em diferentes tempos” e “(EF06GE02) Analisar modificações de paisagens por diferentes tipos de sociedade, com destaque para os povos originários”. Para oferecer essa aprendizagem, o professor planejou uma atividade que consiste em entender as diferentes formas de brincar das crianças, e percebendo que as brincadeiras acontecem em ambientes de segurança para crianças, constituindo diferentes lugares e identidades, e se relacio- nam com as possibilidades da paisagem (em termos de acesso aos recursos Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem12 ambientais). Assim, como dever de casa, o professor pede que os alunos questionem seus pais, irmãos ou responsáveis sobre as brincadeiras que eles realizavam quando eram mais novos e que as anotem para compartilhar com o professor e os colegas. O professor dedica a primeira parte da aula para um diálogo com os alunos sobre as brincadeiras mais comuns em suas vidas e nas de seus parentes mais velhos. Ele utiliza o quadro para anotar quais são essas brincadeiras, sendo uma parte para as dos alunos e outra para as de seus parentes. Então, começam a aparecer algumas diferenças relativas às transformações na paisagem e no acesso aos recursos ambientais. Os próprios alunos trazem algumas manifestações nesse sentido, ao dizer que “meu pai nadava lá no rio, mas o rio nem existe mais”, ou que “minha mãe e as amigas brincavam de fazer arranjo de flor, ela disse que tinha muitas flores no bairro, mas agora é tudo casa”. A segunda parte da atividade consiste em exibir alguns curtas-metragens do projeto “Territórios do brincar”, que revelam as formas como brincam as crianças de diferentes regiões do Brasil, inclusive de povos tradicionais (indígenas e quilombolas). O professor incentiva os alunos a comentarem os vídeos, e continua anotando no quadro as brincadeiras que aparecem. Acesse o canal no YouTube “Território do Brincar”, projeto que con- siste em um trabalho de escuta, intercâmbio de saberes, registro e difusão da cultura infantil. Por fim, o professor preparou três perguntas para a turma: 1. Todo mundo brinca do mesmo jeito? 2. Seus pais brincam da mesma forma que vocês? 3. Os povos que vimos nos curtas-metragens brincam da mesma forma que vocês? A partir das respostas para estas perguntas, ele divide a fala com o aluno que gostaria de comentar algum ponto e incentiva outros com perguntas mais direcionadas. E assim se dá um diálogo. Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem 13 O professor, ao pensar essa atividade, já planejou os momentos de ava- liação. O primeiro acontece no momento em que os alunos compartilham as brincadeiras de seus parentes, indicando que iniciaram essa conversa com os pais e compararam e estabeleceram relações com o que vivem atualmente. O professor observa também os comentários dos alunos sobre os curtas- -metragens que exibiu e as respostas às perguntas que fez. Ele percebe quais alunos estão compreendendo a atividade, desenvolvendo a habilidade de comparar modificações na paisagem e os usos (brincadeiras) que acontecem em cada uma. Ao incentivar que outros alunos respondam, ele pode perceber se estão entendendo e desenvolvendo a habilidade; portanto, sua avaliação é formativa processual a partir da observação e do diálogo. Por fim, ele utiliza o diário reflexivo, no qual anota suas observações e impressões sobre o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos na atividade proposta. Essa atividade contribui para que os alunos entendam, na prática, o que é o lugar enquanto espaço afetivo e constituído a partir das vivências das pessoas e das possibilidades do meio. Os recursos que o professor utilizou para isso foram: quadro branco, pincel, projetor audiovisual, computador e vídeos-documentários. Ele pode ainda pedir que os alunos relatem a atividade em forma de texto ou desenho, buscando relacionar o conteúdo do que foi dito à noção de lugar com um enunciado como “qual é o seu lugar preferido para brincadeiras?”, e continuar desenvolvendo o diálogo a partir disso. Se perceber na devolutiva da avaliação, isto é, na hora de refletir sobre os resultados da atividade (os comentários dos alunos e outras expressões do que pensaram) que não houve aprendizagem significativa, por exemplo, caso os alunos não tivessem feito comentários ou realizado comparações entre as diferentes paisagens e seus usos a partir da proposta, o professor precisa replanejar suas aulas. Seria necessário entender quais foram as dificuldades e, a partir daí, repensar e tentar outras formas de ensinar. Isso vai influenciar diretamente no seu planejamento do ensino, e deve ser feito a cada nova avaliação e consequente devolutiva. Dessa forma, é possível entender como as avaliações influenciam o plane- jamento do ensino e a sua importância, pois é por meio delas que se garante a aprendizagem. As avaliações referem-se tanto ao aluno que aprende quanto ao professor e sua forma de ensinar, por isso não devem repercutir apenas para o aluno – na sua nota, por exemplo. Os alunos são diferentes entre si e aprendem de formas diferentes, por isso um mesmo planejamento de ensino pode ser vivido e propiciar aprendiza- gens diferentes a cada ano. É necessário adaptar o planejamento aos alunos, considerando os diferentes contextos socioculturais. O trabalho docente é Planejamento e avaliação na promoção da aprendizagem14 vivido cotidianamente, sendo que, a cada atividade ou diálogo com os alunos, o professor pode entender se e como está ocorrendo a aprendizagem – e assim se planejar e replanejar, se for o caso. Referências BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Presidência da República, 1996. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm.Acesso em: 22 nov. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Base nacional comum curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2017. 468 p. 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