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Fenômenos Cadavéricos O estudo desse tema permite compreender todas as alterações físicas, químicas, biológicas e microbiológicas que ocorrem no organismo após a morte, possibilitando estimar o intervalo pós-morte (IPM), avaliar a dinâmica do óbito, reconhecer eventual movimentação do cadáver, distinguir alterações produzidas em vida das ocorridas após a morte e orientar a investigação criminal. Nenhum fenômeno cadavérico possui valor absoluto quando analisado isoladamente. A estimativa do tempo de morte sempre deve resultar da integração entre os achados necroscópicos, as condições ambientais, a causa do óbito e os exames complementares. Após a cessação definitiva das funções vitais, instalam-se imediatamente os chamados fenômenos abióticos imediatos, caracterizados pela interrupção da circulação sanguínea, da respiração e da atividade encefálica, acompanhadas pela perda dos reflexos e do tônus muscular. Nesse primeiro momento ocorre o relaxamento muscular primário, também denominado flacidez cadavérica, em que toda a musculatura torna-se completamente relaxada. Como consequência, observa-se abertura parcial das pálpebras, queda da mandíbula, relaxamento dos esfíncteres e eventual eliminação passiva de urina, fezes ou sêmen. Essa fase é transitória e geralmente dura de uma a três horas, sendo posteriormente substituída pela rigidez cadavérica. Paralelamente inicia-se a desidratação cadavérica, fenômeno decorrente da evaporação contínua da água corporal. Sua intensidade depende principalmente da temperatura ambiente, da umidade relativa do ar, da ventilação e da exposição das superfícies corporais. Os olhos constituem a estrutura mais sensível a esse processo, tornando-se extremamente importantes para a cronotanatognose. Nos cadáveres com olhos abertos, a córnea perde progressivamente seu brilho e transparência, originando o chamado Sinal de Stenon-Louis, que costuma aparecer entre duas e três horas após a morte. Persistindo a exposição ocular, desenvolve-se a mancha negra escleral de Sommer-Larcher, caracterizada por áreas triangulares enegrecidas na esclera devido ao ressecamento e à oxidação da hemoglobina, surgindo aproximadamente entre três e sete horas após o óbito. Nos cadáveres com olhos fechados, esses fenômenos aparecem muito mais tardiamente. Outro fenômeno precoce é o algor mortis, ou resfriamento cadavérico. Com a morte, cessa a produção metabólica de calor, fazendo com que o organismo perca temperatura até atingir o equilíbrio térmico com o meio ambiente. Essa perda ocorre por radiação, condução, convecção e evaporação. Embora a literatura clássica descreva redução aproximada de 0,5 a 1°C por hora, essa regra possui utilidade limitada, pois inúmeros fatores interferem nesse processo, como obesidade, idade, roupas, vento, umidade, temperatura ambiente, febre antes da morte, hipotermia, submersão e massa muscular. Atualmente, a Medicina Legal moderna prefere utilizar modelos matemáticos, como o nomograma de Henssge, que fornece estimativas mais confiáveis do intervalo pós-morte. Entre os fenômenos mais importantes encontra-se o livor mortis, também denominado hipóstase cadavérica ou lividez cadavérica. Após a parada cardíaca, o sangue deixa de circular e, por ação exclusiva da gravidade, acumula-se nas regiões mais declivosas do corpo. Esse acúmulo produz manchas inicialmente violáceas, que começam a surgir entre vinte minutos e duas horas após a morte, tornam-se bem evidentes por volta de três a seis horas e atingem sua máxima intensidade entre oito e doze horas. Durante esse período inicial, os livores ainda são móveis; portanto, caso o cadáver seja mudado de posição, eles migram para as novas áreas declivosas. Após a fixação, geralmente entre oito e doze horas, deixam de migrar, permitindo ao perito concluir se houve movimentação do cadáver após o óbito. Outro aspecto extremamente explorado em concursos é que os livores respeitam as áreas submetidas à compressão, permanecendo pálidas nas regiões apoiadas sobre o solo ou comprimidas por roupas, cintos ou objetos. A coloração dos livores também possui importância pericial. Embora não seja diagnóstica isoladamente, pode sugerir determinadas intoxicações. A clássica coloração vermelho-cereja é observada nas intoxicações por monóxido de carbono, enquanto o vermelho vivo pode ocorrer na intoxicação por cianeto. Tons castanhos são descritos nas metemoglobinemias produzidas por nitritos e outras substâncias oxidantes, ao passo que livores róseos podem ser encontrados em casos de hipotermia. A rigidez cadavérica (rigor mortis) representa um dos fenômenos mais cobrados em concursos. Sua fisiopatologia está diretamente relacionada ao esgotamento do ATP. Enquanto existe ATP disponível, as fibras musculares conseguem romper continuamente as ligações entre actina e miosina. Após a morte, a produção energética cessa, impedindo essa dissociação e provocando endurecimento progressivo da musculatura. A instalação da rigidez segue a clássica Lei de Nysten, iniciando-se pelos músculos da face e da mandíbula, estendendo-se para pescoço, membros superiores, tronco e, por último, membros inferiores. Seu desaparecimento ocorre exatamente na mesma sequência. Geralmente inicia-se entre uma e três horas após o óbito, torna-se generalizada em torno de seis a oito horas, alcança intensidade máxima por volta de doze horas e desaparece entre vinte e quatro e trinta e seis horas, quando a putrefação destrói as proteínas musculares responsáveis pela rigidez. É importante diferenciar a rigidez comum do espasmo cadavérico, também chamado rigidez cataléptica. Trata-se de fenômeno raro, que surge instantaneamente no exato momento da morte, sem passar pela fase de relaxamento muscular. Está relacionado a mortes extremamente violentas ou emocionalmente intensas e preserva a última contração voluntária da vítima, como ocorre, por exemplo, em alguns suicídios por arma de fogo, nos quais a arma permanece firmemente presa à mão. Seu valor médico-legal é elevado, pois pode indicar a posição ou a atividade desenvolvida imediatamente antes do óbito. Encerrada essa fase inicial, iniciam-se os fenômenos transformativos destrutivos, começando pela autólise, processo exclusivamente enzimático e asséptico, no qual as próprias enzimas intracelulares promovem digestão progressiva dos tecidos. Os órgãos ricos em enzimas digestivas, como pâncreas, estômago, fígado e glândulas suprarrenais, sofrem autólise mais rapidamente. É fundamental lembrar que a autólise ocorre independentemente da ação bacteriana, sendo frequentemente confundida pelos candidatos com a putrefação. A putrefação corresponde ao principal processo destrutivo do cadáver e resulta da intensa proliferação bacteriana, principalmente da flora intestinal anaeróbia. Divide-se classicamente em quatro períodos evolutivos. O primeiro é o período cromático, cuja principal manifestação é a mancha verde abdominal localizada inicialmente na fossa ilíaca direita, devido à proximidade do ceco, região de maior concentração bacteriana. Posteriormente, a degradação da hemoglobina produz sulfometemoglobina, tornando visível a rede venosa superficial em um desenho arboriforme conhecido como circulação póstuma de Brouardel, que não representa circulação verdadeira, mas apenas impregnação pigmentária das veias. Em seguida instala-se o período gasoso, caracterizado pela intensa produção de gases decorrentes da fermentação bacteriana. O cadáver torna-se volumoso, apresentando distensão abdominal, protrusão ocular, edema facial, exteriorização da língua, enfisema subcutâneo, prolapso retal e eliminação de líquidos pelas cavidades naturais. A pressão exercida pelos gases pode inclusive provocar ruptura espontânea de tecidos, simulando lesões traumáticas. Posteriormente ocorre o período coliquativo, marcado pela liquefação progressiva dos órgãos e destruição quase completa dasestruturas anatômicas. Finalmente instala-se a esqueletização, fase terminal da decomposição, cujo tempo é extremamente variável e depende das condições ambientais, podendo ocorrer em poucos meses ou somente após vários anos. Entre os fenômenos destrutivos especiais merece destaque a maceração fetal, observada exclusivamente quando o feto morre e permanece no interior do útero imerso no líquido amniótico. Como o ambiente é praticamente estéril, não ocorre putrefação bacteriana. O principal achado consiste no descolamento fácil da epiderme, conferindo aspecto característico à pele fetal. Essa diferenciação entre maceração e putrefação é uma das preferidas das bancas examinadoras. Nem todos os cadáveres evoluem para decomposição completa. Em determinadas circunstâncias desenvolvem-se os chamados fenômenos conservadores, capazes de preservar parcial ou totalmente as estruturas corporais. Na mumificação, observada em ambientes quentes, secos e bem ventilados, ocorre intensa perda de água, deixando a pele escurecida, endurecida e semelhante ao couro, com preservação relativamente boa da anatomia. Já a saponificação, também denominada adipocera, ocorre em ambientes úmidos, pouco oxigenados e ricos em água, onde a gordura corporal sofre hidrólise e hidrogenação, transformando-se em uma substância cerosa esbranquiçada. Esse fenômeno possui enorme importância pericial porque preserva lesões, cicatrizes, tatuagens e outras características identificadoras mesmo após longos períodos. Mais raramente pode ocorrer a corificação, observada principalmente em cadáveres mantidos em urnas metálicas hermeticamente fechadas, nos quais a pele adquire aspecto semelhante ao couro curtido. Do ponto de vista pericial, um dos maiores erros consiste em utilizar apenas um fenômeno para estimar o intervalo pós-morte. A cronotanatognose moderna baseia-se na análise conjunta da temperatura corporal, da evolução dos livores, da intensidade da rigidez, do estágio da putrefação, da concentração de potássio no humor vítreo, do conteúdo gástrico, da entomologia forense, das condições ambientais, da causa da morte e de todas as circunstâncias observadas no local do fato. Por essa razão, a estimativa do tempo de morte é sempre probabilística, nunca absoluta. Para concursos da Polícia Civil de Pernambuco, alguns conceitos são considerados indispensáveis: a Lei de Nysten, que determina a instalação e o desaparecimento da rigidez da cabeça para os pés; a diferença entre rigidez cadavérica e espasmo cadavérico; a distinção entre autólise (enzimática e asséptica) e putrefação (bacteriana); a sequência evolutiva da putrefação (cromática, gasosa, coliquativa e esqueletização); a localização inicial da mancha verde abdominal na fossa ilíaca direita; o reconhecimento da circulação póstuma de Brouardel; a interpretação da mobilidade ou fixação dos livores cadavéricos para determinar eventual movimentação do corpo; a diferenciação entre maceração fetal e putrefação; e as condições ambientais que favorecem a mumificação ou a saponificação. Esses detalhes aparecem repetidamente nas provas e costumam ser explorados em questões clínicas, discursivas e na interpretação de laudos periciais.