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ABDOME AGUDO Guia Completo para Tutoria APG 4º Período de Medicina Baseado em: Gastroenterologia Essencial 4ª ed. | Harrison | Guyton | Goldman | Porth 1. Definição Abdome agudo é uma síndrome clínica caracterizada por dor abdominal de início súbito ou progressivo, de intensidade variável, que geralmente exige avaliação médica urgente e, frequentemente, intervenção cirúrgica de emergência. "Abdome agudo é todo quadro de dor abdominal intensa, aguda, que pode ou não ter indicação cirúrgica, mas que sempre exige investigação rápida e sistematizada." — Gastroenterologia Essencial, 4ª ed., Cap. 112 ⚠ Importante: nem todo abdome agudo é cirúrgico. Reconhecer essa distinção é uma das habilidades clínicas mais importantes na emergência. 2. Importância Clínica • Principal causa de atendimento de emergência abdominal nos pronto-socorros em todo o mundo • Exige raciocínio clínico rápido para evitar retardo diagnóstico • Atraso no diagnóstico aumenta mortalidade (especialmente nas causas isquêmicas e perfurativas) • O médico generalista será sempre o primeiro a avaliar o paciente • Inclui diagnósticos diferenciais abdominais e extraabdominais, exigindo visão sistêmica 3. Etiologia 3.1 Causas Abdominais Grupo Exemplos Inflamatório-infeccioso Apendicite aguda, colecistite, pancreatite, diverticulite Obstrutivo Obstrução intestinal, volvo, hérnia encarcerada Perfurativo Úlcera péptica perfurada, divertículo perfurado Hemorrágico Ruptura de baço, gravidez ectópica rota Isquêmico Isquemia mesentérica, torsão ovariana 3.2 Causas Extraabdominais (frequentemente esquecidas!) • Cardíacas: infarto agudo do miocárdio (especialmente parede inferior) • Pulmonares: pneumonia de base, pleurite, embolia pulmonar • Metabólicas: cetoacidose diabética, porfiria aguda, crise addisoniana • Neurológicas: herpes-zóster, tabes dorsalis • Hematológicas: crise falciforme, leucemia Harrison (Medicina Interna): causas extraabdominais são responsáveis por até 10% dos abdomes agudos. O IAM de parede inferior é o mais perigoso por mimetizar dor epigástrica. 4. Epidemiologia • Apendicite aguda: causa cirúrgica mais comum de abdome agudo no mundo (risco de ~7-8% ao longo da vida) • Colecistite aguda: predomina em mulheres acima de 40 anos, obesas (regra dos 4 F's: Fat, Fertile, Female, Forty) • Isquemia mesentérica: ocorre principalmente em idosos com fibrilación atrial ou aterosclerose. Mortalidade > 60-80% sem tratamento precoce • Gravidez ectópica rota: principal causa de abdome agudo hemorrágico em mulheres em idade fértil • No Brasil, apendicite aguda é a cirurgia abdominal de urgência mais realizada no SUS 5. Fisiopatologia — Passo a Passo Segundo Guyton & Hall (Tratado de Fisiologia Médica), a dor abdominal é mediada por três mecanismos distintos: 5.1 Dor Visceral • Fibras: C amielínicas, de condução lenta • Origem: órgãos ocos (intestino, vesícula, ureter) por distensião, espasmo ou isquemia • Características: difusa, mal localizada, em cólica ou queimação, frequentemente periumbilical • Acompanhada de náuseas, vômitos, sudorese (ativação autonômica) • Exemplo: dor inicial da apendicite é periumbilical porque o apêndice é inervado por aferentes viscerais do segmento T10 5.2 Dor Somática (Parietal) • Fibras: Aδ mielínicas, de condução rápida • Origem: peritônio parietal quando há contato com conteúdo inflamatório, infeccioso ou hemático • Características: aguda, bem localizada, constante, piora com movimento • Gera sinais clássicos: sinal de Blumberg, defesa, contratura involuntária • Exemplo: inflação do apêndice atinge o peritônio parietal → dor migra para a FID 5.3 Dor Referida Ocorre quando fibras aferentes viscerais e somáticas convergem no mesmo dermAtômo medular (fenômeno de convergência). Causa Dor Referida Colecistite Ombro direito (nervo frênico, C3-C5) IAM de parede inferior Epigástrio Pancreatite Faixa no dorso Ureterolitíase Virilha e genitália 5.4 Fisiopatologia Específica por Tipo Inflamatório/Infeccioso: Agressão tecidual → ativação de macrófagos e mastócitos → liberação de IL-1, IL-6, TNF-α, bradicinina, substância P → sensibilização de nociceptores viscerais e parietais → dor progressiva + resposta sistêmica inflamatória Obstrutivo: Obstrução mecânica → distensião do lúmen → isquemia de parede → aumento da pressão intraluminal → ativação de mecanorreceptores → dor em cólica com intervalos Perfurativo: Solução de continuidade → extravasamento de conteúdo (ácido, bile, fezes) → irritação química do peritônio parietal → dor somática súbita e intensa → peritonite generalizada Hemorrágico: Sangramento intraperitoneal → irritação do peritônio por sangue → dor difusa + sinais de choque hipovolemico Isquêmico: Oclusão vascular → hipóxia tecidual → liberação de radicais livres → necrose → dor inicialmente desproporcional ao exame físico (característico da isquemia mesentérica) 6. Manifestações Clínicas 6.1 Anamnese Segundo o Harrison, a anamnese bem conduzida permite o diagnóstico correto em mais de 70% dos casos de abdome agudo. • Início: súbito (perfuração, ruptura, isquemia) x gradual (inflação, obstrução) • Caráter: cólica (obstrução, ureterolitíase) x constante (inflação, peritonite) • Fatores de melhora/piora: posição antiaálgica, movimento • Sintomas associados: febre, vômitos, parada de flatos, disúria, amenorreia 6.2 Localização da Dor x Diagnóstico Localização Pensar em Epigástrio Pancreatite, úlcera péptica, IAM inferior, colecistite inicial FID Apendicite, Crohn, gravidez ectópica, adenite mesentérica FIE Diverticulite sigmoide, vólvo de sigmoide HCD Colecistite, hepatite, abscesso hepático Hipogástrio ITU, DIP, torsão ovariana Difusa Peritonite, isquemia mesentérica, obstrução avançada 6.3 Sinais do Exame Físico Sinal Técnica Significado Blumberg Descompresso brusca dolorosa Irritação peritoneal Murphy Pausa inspiratória na palpação do HCD Colecistite aguda Psoas Extensão do quadril com resistência Apendicite retrocecal Obturador Rotação interna do quadril direito Apendicite pélvica Rovsing Palpação da FIE causa dor na FID Apendicite Defesa/Contratura Rigidez muscular involuntária Peritonite Abdome em tábua Rigidez difusa e involuntária Peritonite generalizada 7. Diagnóstico 7.1 Exames Laboratoriais Exame O que indica Hemograma Leucocitose com desvio (infecção); anemia (hemorragia) PCR / VHS Marcadores inflamatórios Amilase / Lipase Pancreatite aguda (lipase mais específica) TGO/TGP, Bilirrubinas Doença hepatobiliar Ureia/Creatinina Função renal, hidratação β-hCG OBRIGATÓRIO em toda mulher em idade fértil Lactato Isquemia mesentérica (elevado) EAS / Urina ITU, ureterolitíase Exame O que indica ECG Excluir IAM como causa extraabdominal 7.2 Exames de Imagem Radiografia de abdome (em pé + deitada): • Pneumoperitônio (ar livre subdiafragmático) → perfuração • Níveis hidroaéreos → obstrução intestinal • Simples, rápida, disponível em todo serviço Ultrassonografia (USG): • Primeira escolha para colecistite, apendicite (crianças/gestantes), torsão ovariana, gravidez ectópica • Operador-dependente; limitada em obesos e com muito gás Tomografia Computadorizada (TC) com contraste: Padrão-ouro para a maioria dos abdomes agudos no adulto. Sensibilidade >95% para apendicite. Segundo a Gastroenterologia Essencial (4ª ed., Cap. 112), a TC é o exame de maior acurácia diagnóstica no abdome agudo do adulto. Ressonância Magnética (RM): • Indicada em gestantes quando USG é inconclusiva (evita radiação) 8. Tratamento 8.1 Medidas Gerais Imediatas • NPO (nada por via oral) — preparo para possível cirurgia • Acesso venoso calibroso + hidratação vigorosa Analgesia precoce não deve ser postergada — estudos (metaanálises citadas no Harrison) mostram que opioides precoces não mascaram o diagnóstico • Monitorização: PA,FC, SpO2, diurese • Correção de distúrbios hidroeletrolíticos 8.2 Tratamento por Tipo Tipo Tratamento Principal Inflamatório (apendicite) Apendicectomia laparoscópica ± antibióticos Tipo Tratamento Principal Inflamatório (colecistite) Colecistectomia laparoscópica + antibióticos Obstrutivo Descompresso + cirurgia conforme etiologia Perfurativo Cirurgia de urgência + antibióticos amplo espectro Hemorrágico Ressuscitação volêmica + cirurgia/embolização Isquêmico Revascularização cirúrgica ou endovascular urgente Pancreatite aguda leve Suporte: jejum, hidratação, analgesia, nutrição enteral precoce 9. Complicações e Prevenção 9.1 Principais Complicações • Peritonite generalizada → sepse abdominal → choque séptico → disfunção de múltiplos órgãos • Abscesso intraabdominal → complicação pós-operatória ou de perfuração contida • Fístula entérica • Síndrome compartimental abdominal → nos grandes edemas/cirurgias • Obstrução intestinal por bridas → complicação tardia pós-cirurgia • Morte → especialmente na isquemia mesentérica não tratada e peritonite fecal 9.2 Medidas Preventivas • Tratamento precoce de cálculos biliares sintomáticos • Dieta com fibras (reduz risco de diverticulite) • Controle de fatores de risco cardiovascular (previne isquemia mesentérica) • Erradicação de H. pylori (previne úlcera péptica perfurada) 10. O Que Mais Cai em Provas 1. Apendicite = causa cirúrgica mais comum de abdome agudo 2. Dor visceral x somática x referida — mecanismos e diferenças 3. Pneumoperitônio na Rx = perfuração até prova em contrário 4. β-hCG obrigatório em mulher em idade fértil com dor abdominal 5. Isquemia mesentérica = dor desproporcional ao exame físico + lactato elevado 6. Sinal de Murphy = colecistite aguda 7. Lipase > amilase na pancreatite (mais específica) 8. Analgesia não contraindica o exame físico (questão clássica) 9. IAM de parede inferior pode causar dor epigástrica (causa extraabdominal) 10. TC com contraste = padrão-ouro para diagnóstico no adulto 11. Dicas de Memorização Mnemônico — Tipos de Abdome Agudo: "I O P H I" → Inflamatório | Obstrutivo | Perfurativo | Hemorrágico | Isquêmico Causas Extraabdominais: "Como Possíveis Mímicos Não Habituais" → Cardíaco | Pulmonar | Metabólico | Neurológico | Hematológico Dor Visceral x Somática — Comparação Rápida: Visceral Somática Fibra C (lenta) Aδ (rápida) Localização Difusa, periumbilical Precisa, localizada Movimento Não piora Piora muito Exemplo Apendicite início Apendicite evoluída Relação Fisiológica para Lembrar Dor Referida: "O cérebro não sabe exatamente de onde vem o sinal — ele só sabe o dermátômo. Fibras viscerais e somáticas entram no mesmo segmento medular → convergência → o cérebro 'erra' a origem." 12. Exemplo Clínico Caso Clínico Homem, 22 anos, apresenta dor abdominal há 18 horas. Iniciou na região periumbilical, difusa, com náuseas e um episodio de vômito. Após 12 horas, a dor migrou para a fossa ilíaca direita, tornando-se constante e piorando com movimento. Febre de 38,2°C. Exame: dor à palpação em FID, Blumberg positivo, Rovsing positivo. Hemograma: leucocitose de 14.000 com desvio à esquerda. Raciocínio Clínico: • Dor periumbilical inicial → Dor visceral (fibras C, T10) • Migração para FID + piora com movimento → Dor somática (peritônio parietal) • Blumberg+ → Irritação peritoneal localizada • Leucocitose com desvio → Processo inflamatório infeccioso agudo Diagnóstico: Apendicite Aguda Conduta: TC/USG para confirmação → Apendicectomia laparoscópica de urgência + antibióticos profiláticos Referências • Dani, R. Gastroenterologia Essencial, 4ª ed., Cap. 112 — Abdome Agudo • Kasper, D.L. et al. Harrison's Principles of Internal Medicine, 20ª ed. • Hall, J.E. Guyton & Hall — Tratado de Fisiologia Médica, 13ª ed. • Goldman, L. Goldman-Cecil Medicine, 26ª ed. • Porth, C.M. Fisiopatologia, 9ª ed. 1. Definição 2. Importância Clínica 3. Etiologia 3.1 Causas Abdominais 3.2 Causas Extraabdominais (frequentemente esquecidas!) 4. Epidemiologia 5. Fisiopatologia — Passo a Passo 5.1 Dor Visceral 5.2 Dor Somática (Parietal) 5.3 Dor Referida 5.4 Fisiopatologia Específica por Tipo 6. Manifestações Clínicas 6.1 Anamnese 6.2 Localização da Dor x Diagnóstico 6.3 Sinais do Exame Físico 7. Diagnóstico 7.1 Exames Laboratoriais 7.2 Exames de Imagem 8. Tratamento 8.1 Medidas Gerais Imediatas 8.2 Tratamento por Tipo 9. Complicações e Prevenção 9.1 Principais Complicações 9.2 Medidas Preventivas 10. O Que Mais Cai em Provas 11. Dicas de Memorização Mnemônico — Tipos de Abdome Agudo: Causas Extraabdominais: Dor Visceral x Somática — Comparação Rápida: Relação Fisiológica para Lembrar Dor Referida: 12. Exemplo Clínico Raciocínio Clínico: Referências