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FP106 - Desenho curricular, programação e desenvolvimento de competências Trabalho recuperação 1 Nome e sobrenome/s: Maria do Perpétuo Socorro Pereira Melo Matos Código: BRFPMME 4597674 Curso: FP106 - Desenho curricular, programação e desenvolvimento de competências Grupo: Individual Professora tutora Luciene Maldonado Data: 27/07/2026 Sumário 1. Resumo 2. Comentário crítico 3. Conclusões Referência Resenha crítica: Pode a política pública mentir? A Base Nacional Comum Curricular e a disputa da qualidade educacional 1. Resumo Eduardo Donizeti Girotto, no artigo "Pode a política pública mentir? A Base Nacional Comum Curricular e a disputa da qualidade educacional" (2019), questiona se a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em 2017, de fato enfrenta as desigualdades da educação brasileira ou se apenas desloca o debate para o campo dos conteúdos, das competências e das habilidades, deixando de lado as condições concretas em que professores e alunos vivem o dia a dia escolar. É essa a hipótese que sustenta o texto inteiro: sem mexer na infraestrutura das escolas, na formação dos professores e no financiamento da educação, qualquer mudança curricular corre o risco de ser só aparência. Antes de entrar nos dados, o autor faz questão de mostrar que "qualidade educacional" não é um conceito simples nem consensual. Apoiado em Oliveira e Araújo, Dourado e Oliveira e Libâneo, ele argumenta que a qualidade envolve pelo menos quatro planos - o do sistema, o da escola, o do professor e o do aluno - e que reduzir isso a notas de avaliações padronizadas é uma simplificação perigosa, porque esconde as causas reais do fracasso escolar. A parte mais forte do artigo, a meu ver, é justamente onde Girotto sai da teoria e vai para os números. Usando o Censo Escolar de 2017 e os microdados do SAEB de 2015, ele mostra que menos de 10% das escolas do país têm laboratório de ciências, que a rede federal está muito à frente da estadual, municipal e até da privada em termos de estrutura, e que os pais de alunos da rede municipal têm escolaridade bem mais baixa do que os da rede privada. Esses dados aparecem também de forma regional, com Norte e Nordeste sempre em desvantagem em relação ao Centro-Sul do país. A conclusão do autor é direta: sem enfrentar essas desigualdades de base, a BNCC pode até ampliar o problema, funcionando como mais um instrumento de gestão da pobreza dentro da lógica da Nova Gestão Pública. 2. Comentário crítico Um dos pontos centrais do artigo é justamente mostrar que existem outros componentes, além do currículo, que determinam se a educação vai ser de qualidade ou não. Girotto trata basicamente de quatro deles: a infraestrutura física das escolas (laboratórios, biblioteca, quadra coberta), as condições de formação e de trabalho dos professores (quantos alunos por turma, se há tempo e recursos para formação continuada), o perfil socioeconômico das famílias dos estudantes e, por trás de tudo isso, o financiamento público da educação, que ele associa ao debate sobre o Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQi) e à política de ajuste fiscal representada pela Emenda Constitucional nº 95. Eu concordo com o argumento do autor. Faz sentido dizer que não adianta escrever no papel que todo estudante brasileiro tem direito a desenvolver certas competências se, na prática, boa parte das escolas nem tem laboratório de ciências para dar suporte a essa aprendizagem. Os próprios dados do PISA citados no texto reforçam isso: escolas com clima favorável e recursos pedagógicos melhores têm alunos com desempenho mais alto, e isso pouco tem a ver com o conteúdo do currículo em si. Nesse sentido, tratar a BNCC como se fosse suficiente para resolver a desigualdade educacional é, no mínimo, ingênuo - e talvez seja também, como sugere o título do artigo, uma forma de a política pública "mentir" sobre o problema que diz estar resolvendo. Ainda assim, não acho que os componentes levantados por Girotto sejam os únicos que pesam na qualidade da educação. Faltou, por exemplo, falar mais sobre a dimensão propriamente pedagógica: como o professor conduz a aula, o vínculo que consegue construir com a turma, a forma como a escola é gerida no dia a dia. Duas escolas com a mesma infraestrutura podem ter resultados bem diferentes dependendo de como esse trabalho é feito. O clima escolar e a violência no entorno da escola - que o próprio autor cita ao falar do Atlas da Violência - também mereceriam mais espaço, assim como o bem-estar emocional de alunos e professores, que afeta diretamente a permanência e a aprendizagem, mas quase nunca entra nesse tipo de debate sobre política curricular. Eu acrescentaria ainda um ponto que o artigo, por ter sido escrito antes de 2020, não podia prever: a desigualdade no acesso à internet e a dispositivos digitais, que ficou muito evidente durante o período de aulas remotas e que amplia ainda mais a distância entre as redes de ensino. Também vejo como essencial falar da valorização da carreira docente - salário, plano de carreira, condições de trabalho - já que sem isso fica difícil atrair e manter bons profissionais na escola pública, algo que o autor toca de leve no fim do texto, mas sem desenvolver muito. No fundo, acho que o próprio Girotto tem razão quando cita Young: reduzir desigualdade social é tarefa política, não só curricular. E é por isso que nenhuma base nacional, sozinha, vai dar conta desse problema. 3. Conclusões Depois de ler o artigo, fica difícil discordar da tese de Girotto: a BNCC, sozinha, não é capaz de reverter um quadro de desigualdade que é muito mais antigo e muito mais estrutural do que qualquer currículo. Os dados que ele traz deixam isso bastante claro, principalmente quando comparam infraestrutura, formação docente e perfil socioeconômico entre as diferentes redes de ensino do país. Ao mesmo tempo, entendo que o debate sobre qualidade educacional não se esgota nos aspectos que o autor prioriza. Questões pedagógicas, o clima escolar, a saúde emocional de quem ensina e de quem aprende, e o acesso à tecnologia também precisam entrar nessa conta. De qualquer forma, o texto cumpre bem seu papel de provocar essa reflexão: educação de qualidade não se resolve com um documento curricular, por mais bem elaborado que seja, mas com investimento contínuo em condições reais de ensino e de aprendizagem para todos os estudantes, em qualquer rede e em qualquer região do país. Referência GIROTTO, Eduardo Donizeti. Pode a política pública mentir? A Base Nacional Comum Curricular e a disputa da qualidade educacional. Educação & Sociedade, Campinas, v. 40, e0207906, 2019. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302019000100803. Acesso em: 27 jul. 2026. 1