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AVALIAÇÃO, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO 
 
2 
 
Sumário 
Introdução ................................................................................................................. 3 
Unidade 1 – Fundamentos e Classificações do TEA ................................................. 4 
1.1 Conceito e Definição do TEA .............................................................................. 4 
1.2 Evolução das Classificações: CID-10 para CID-11 .............................................. 6 
1.3 Estrutura do DSM-5-TR e Critérios para TEA ...................................................... 8 
1.4 Terminologia Inclusiva e Ética ........................................................................... 10 
1.5 Comorbidades no TEA ...................................................................................... 13 
Unidade 2 – Avaliação e Diagnóstico ...................................................................... 15 
2.1 Diagnóstico Clínico e Critérios Atuais ................................................................ 15 
2.2 Avaliação Multiprofissional ................................................................................ 17 
2.3 Instrumentos e Protocolos Padronizados .......................................................... 18 
2.4 Diagnóstico Diferencial e Exclusões ................................................................. 20 
2.5 Comunicação dos Resultados e Orientações à Família .................................... 22 
Unidade 3 – Intervenção e Tratamento ................................................................... 25 
3.1 Intervenções Baseadas em Evidências ............................................................. 25 
3.2 Plano de Intervenção Individualizado (PII) ........................................................ 27 
3.3 Educação Inclusiva e Adaptações Curriculares ................................................. 28 
3.4 Intervenção Multiprofissional ............................................................................. 30 
3.5 Uso de Medicamentos ...................................................................................... 32 
Unidade 4 – Direitos, Políticas Públicas e Ética Profissional ................................... 35 
4.1 Direitos Fundamentais ...................................................................................... 35 
4.2 Benefícios e Apoios Sociais .............................................................................. 36 
4.3 Mercado de Trabalho e Lei de Cotas ................................................................ 38 
4.4 Conduta Ética Profissional ................................................................................ 40 
4.5 Formação Continuada e Atualização ................................................................. 42 
Considerações Finais ............................................................................................. 44 
Referências ............................................................................................................. 45 
 
 
3 
 
INTRODUÇÃO 
 
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do 
neurodesenvolvimento caracterizada por déficits persistentes na comunicação 
e interação social, associados a padrões restritos e repetitivos de 
comportamento, interesses ou atividades. Sua compreensão, diagnóstico e 
manejo requerem atualização constante, pois o avanço científico e a evolução 
das legislações influenciam diretamente a prática profissional e as políticas 
públicas. 
O presente material foi estruturado em quatro unidades interligadas, 
abordando desde os fundamentos conceituais e classificações atuais até as 
diretrizes de intervenção, direitos e conduta ética profissional. Em cada 
subtópico, buscou-se integrar a base científica contemporânea com as 
exigências legais brasileiras, garantindo que a atuação seja simultaneamente 
técnica, ética e socialmente responsável. 
As recentes atualizações da CID-11 (Organização Mundial da Saúde, 
2022) e do DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) redefiniram 
critérios diagnósticos, enfatizando a natureza dimensional do espectro e a 
importância de subclassificações que consideram a presença de deficiência 
intelectual e o nível de linguagem funcional. Paralelamente, leis como a Lei nº 
12.764/2012 e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) consolidaram 
direitos e políticas específicas para as pessoas com TEA no Brasil. 
A abordagem aqui adotada reconhece que o TEA exige avaliação 
multiprofissional e intervenções baseadas em evidências, como ABA, 
TEACCH, PECS e ESDM, integradas a planos individualizados que 
contemplem tanto aspectos terapêuticos quanto educacionais. Além disso, 
destaca-se a relevância da comunicação empática com a família, do 
planejamento de estratégias inclusivas e da articulação intersetorial entre 
saúde, educação, assistência social e mercado de trabalho. 
Cada capítulo apresenta também as normas e resoluções mais recentes 
dos conselhos profissionais (CFP, CFM, CFFa, COFFITO), que estabelecem 
parâmetros para a prática ética e segura. Assim, o conteúdo busca não apenas 
fornecer conhecimento técnico, mas também servir como referência para a 
aplicação prática nas mais diversas áreas de atuação que lidam com o TEA. 
 
4 
 
UNIDADE 1 – FUNDAMENTOS E CLASSIFICAÇÕES DO TEA 
 
1.1 Conceito e Definição do TEA 
 
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido, segundo a 
Classificação Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11), como um 
transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na 
capacidade de iniciar e manter interações sociais recíprocas e na capacidade 
de compreender e utilizar comportamentos comunicativos não verbais, 
acompanhados por padrões restritos e repetitivos de comportamento, 
interesses ou atividades (OMS, 2022). Essa definição considera a variabilidade 
na apresentação clínica e a amplitude do espectro, abrangendo desde quadros 
com suporte mínimo até condições que exigem apoio substancial ao longo da 
vida. 
O DSM-5-TR (APA, 2022) reforça que o diagnóstico de TEA requer a 
presença de sintomas nas duas áreas centrais: (1) déficits persistentes na 
comunicação e interação social em múltiplos contextos e (2) padrões restritos e 
repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Essas características 
devem estar presentes desde o período de desenvolvimento inicial, embora 
possam tornar-se mais evidentes à medida que as demandas sociais superam 
as capacidades adaptativas do indivíduo. Importante destacar que, conforme o 
manual, os sintomas não podem ser explicados apenas por deficiência 
intelectual ou atraso global do desenvolvimento, devendo haver prejuízos 
específicos nas áreas de interação social. 
O termo “espectro” é adotado para refletir a heterogeneidade dos 
quadros clínicos. Como ressaltam Lai, Lombardo e Baron-Cohen (2014), o TEA 
não é uma condição única e uniforme, mas um conjunto de manifestações que 
variam em intensidade, combinação e impacto funcional. Essa perspectiva 
substitui classificações antigas como “autismo infantil precoce”, “síndrome de 
Asperger” e “transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação”, 
que foram incorporadas em uma única categoria diagnóstica no DSM-5 (2013) 
e mantidas no DSM-5-TR (2022). 
No contexto brasileiro, a Lei nº 12.764/2012, conhecida como a Política 
Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA, estabelece que a 
 
5 
 
pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos 
legais, garantindo-lhe acesso a direitos previstos na Lei Brasileira de Inclusão 
(Lei nº 13.146/2015). Essa equiparação legal é fundamental para assegurar 
acesso a políticas públicas de saúde, educação e assistência social, bem como 
a benefícios fiscais e trabalhistas. 
A definição contemporânea do TEA reconhece a importância dos 
aspectos neurobiológicos e genéticos na etiologiapessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) possuem uma 
série de direitos assegurados pela legislação brasileira, sendo equiparadas às 
pessoas com deficiência para todos os efeitos legais, conforme estabelecido 
pela Lei nº 12.764/2012. Essa equiparação garante acesso às políticas 
públicas e aos mecanismos de proteção previstos na Lei Brasileira de Inclusão 
da Pessoa com Deficiência (LBI) – Lei nº 13.146/2015. 
A Lei nº 12.764/2012, também conhecida como Política Nacional de 
Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA, dispõe sobre a garantia de 
atendimento multiprofissional no Sistema Único de Saúde (SUS), acesso à 
educação e inclusão no mercado de trabalho. Ela estabelece que a pessoa 
com TEA não pode ser privada de matricular-se em escolas regulares, públicas 
ou privadas, e que deve receber os apoios necessários para o aprendizado e 
participação. 
Já a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) define, em seu artigo 
4º, que a pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades e à 
não discriminação. Essa lei reforça direitos fundamentais como acesso à 
saúde, educação, cultura, transporte, lazer, esporte e informação, com 
eliminação de barreiras físicas, comunicacionais e atitudinais. 
O direito à saúde engloba não apenas o acesso a consultas médicas e 
terapias, mas também a oferta de tratamentos multiprofissionais, 
medicamentos e reabilitação, conforme a necessidade de cada indivíduo. A LBI 
e a Lei nº 12.764/2012 proíbem qualquer forma de recusa de atendimento por 
parte de hospitais, clínicas ou planos de saúde, sob pena de sanções 
administrativas e judiciais. 
No campo da educação, a legislação garante matrícula obrigatória em 
escolas regulares, com adaptações curriculares e oferta de profissionais de 
apoio escolar, intérpretes e recursos de acessibilidade. O descumprimento 
dessa garantia por instituições privadas é considerado discriminação, passível 
de multa e outras penalidades. 
 
36 
 
O direito ao trabalho também é protegido. Empresas com 100 ou mais 
funcionários são obrigadas, pela Lei de Cotas (art. 93 da Lei nº 8.213/1991), a 
destinar um percentual de vagas a pessoas com deficiência, incluindo aquelas 
com TEA. Além disso, devem oferecer condições adequadas para o 
desempenho das funções, como adaptações no ambiente e apoio 
especializado, quando necessário. 
A acessibilidade é um direito transversal que perpassa todas as áreas. 
Isso inclui acessibilidade arquitetônica, comunicacional, digital e atitudinal. No 
caso do TEA, a acessibilidade comunicacional pode envolver o uso de 
pictogramas, linguagem simples e apoio visual para facilitar a compreensão de 
instruções e informações. 
A legislação também protege o direito à participação social e cultural, 
garantindo que pessoas com TEA possam frequentar eventos, espaços 
públicos e atividades recreativas com os devidos ajustes razoáveis. A exclusão 
por ausência de adaptação configura violação de direitos. 
O descumprimento desses direitos pode ser denunciado ao Ministério 
Público, Defensoria Pública, Conselhos de Direitos da Pessoa com Deficiência 
e órgãos de fiscalização, como Procons e secretarias estaduais e municipais 
de saúde e educação. Em casos mais graves, a violação pode configurar crime 
de discriminação, previsto no artigo 88 da LBI. 
Por fim, a efetivação dos direitos fundamentais das pessoas com TEA 
depende não apenas da legislação, mas também da conscientização social e 
da capacitação contínua dos profissionais que atuam nos setores de saúde, 
educação, assistência social e trabalho. O respeito e a aplicação desses 
direitos são pilares para promover a inclusão plena e garantir a dignidade e a 
cidadania das pessoas com TEA. 
 
4.2 Benefícios e Apoios Sociais 
 
As pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por serem 
legalmente equiparadas às pessoas com deficiência, conforme a Lei nº 
12.764/2012, têm direito a uma série de benefícios e apoios sociais destinados 
a garantir sua dignidade, autonomia e participação plena na sociedade. Esses 
 
37 
 
direitos abrangem benefícios assistenciais, isenções fiscais e gratuidades no 
transporte, previstos em legislações federais, estaduais e municipais. 
O Benefício de Prestação Continuada (BPC), regulamentado pela Lei 
Orgânica da Assistência Social – LOAS (Lei nº 8.742/1993), garante um salário 
mínimo mensal à pessoa com deficiência que comprove não possuir meios de 
prover a própria manutenção nem de tê-la provida por sua família. Para ter 
direito ao benefício, é necessário atender aos critérios de renda familiar per 
capita estabelecidos pela lei e comprovar, por meio de avaliação 
biopsicossocial, a condição de deficiência e o grau de impedimento. 
No campo tributário, a Lei nº 8.989/1995 assegura a isenção do Imposto 
sobre Produtos Industrializados (IPI) na aquisição de veículos por pessoas com 
deficiência, incluindo aquelas com TEA. Essa isenção pode ser 
complementada, conforme a legislação vigente em cada estado, por isenções 
de ICMS, IPVA e IOF, que variam de acordo com as normas estaduais e 
municipais. 
O direito à gratuidade ou desconto no transporte coletivo urbano e 
intermunicipal é previsto em leis estaduais e municipais, e regulamentado de 
forma distinta em cada localidade. Em alguns estados, a gratuidade se estende 
ao transporte metropolitano e interestadual, especialmente para pessoas com 
deficiência e seu acompanhante, quando necessário. 
Em determinadas cidades e estados, existem também programas de 
cartão de estacionamento especial para pessoas com deficiência, garantindo 
prioridade e vagas exclusivas, inclusive para pessoas com TEA, como medida 
de acessibilidade e segurança. 
Além dos benefícios diretos, diversas legislações estaduais e municipais 
preveem isenções ou descontos em taxas públicas e prioridade em serviços 
como atendimento bancário, consultas médicas e matrículas escolares, 
reforçando a proteção e a inclusão da pessoa com TEA. 
O acesso a esses direitos exige, na maioria dos casos, a apresentação 
de documentação comprobatória, que pode incluir laudos médicos, relatórios 
multiprofissionais, documentos pessoais e comprovantes de residência e 
renda. A clareza e precisão nos laudos são essenciais, e estes devem seguir 
os critérios estabelecidos por normas como a Resolução CFM nº 2.324/2022 
para a emissão de documentos médicos. 
 
38 
 
A assistência social, por meio dos Centros de Referência de Assistência 
Social (CRAS) e Centros de Referência Especializados de Assistência Social 
(CREAS), desempenha papel importante no apoio à família, orientando sobre 
benefícios e realizando encaminhamentos para os serviços de saúde e 
educação, quando necessário. 
A ampliação e efetivação dos benefícios e apoios sociais dependem 
tanto de regulamentações específicas quanto da mobilização das famílias e 
organizações de defesa de direitos, que atuam para garantir que as leis sejam 
cumpridas e que barreiras burocráticas sejam superadas. 
Por fim, os benefícios e apoios sociais não devem ser vistos como 
privilégios, mas como mecanismos de compensação das barreiras que a 
pessoa com TEA enfrenta no exercício de seus direitos. Eles representam um 
instrumento de justiça social e de efetivação da cidadania, alinhados aos 
princípios da Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e da Convenção 
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. 
 
4.3 Mercado de Trabalho e Lei de Cotas 
 
O direito ao trabalho para pessoas com Transtorno do Espectro Autista 
(TEA) é assegurado pela equiparação legal à pessoa com deficiência, 
conforme a Lei nº 12.764/2012 e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 
13.146/2015). No Brasil, um dos principais instrumentos que promovem a 
inserção profissional dessas pessoas é a chamada Lei de Cotas, prevista no 
art. 93 da Lei nº 8.213/1991, que obriga empresas com 100 ou mais 
empregados a preencher de 2% a 5% de seus cargos combeneficiários 
reabilitados ou pessoas com deficiência, incluindo o TEA. 
O percentual de vagas reservadas varia conforme o porte da empresa: 
• 2% para empresas de 100 a 200 empregados; 
• 3% para empresas de 201 a 500 empregados; 
• 4% para empresas de 501 a 1.000 empregados; 
• 5% para empresas com mais de 1.001 empregados. 
O Decreto nº 3.298/1999, que regulamenta a Política Nacional para a 
Integração da Pessoa com Deficiência, reforça que a reserva de vagas deve 
ser cumprida sem discriminação e que as empresas devem adotar medidas de 
 
39 
 
acessibilidade no ambiente de trabalho, garantindo condições adequadas para 
o exercício das funções. 
No caso das pessoas com TEA, a inclusão no mercado de trabalho pode 
exigir adaptações razoáveis, como flexibilização de horários, adequação de 
tarefas, oferta de apoio de supervisores treinados e ambientes menos ruidosos. 
Essas medidas visam reduzir barreiras e possibilitar o desempenho adequado 
das funções, estando em conformidade com o princípio de acessibilidade 
previsto na LBI. 
Além das adaptações físicas e organizacionais, é fundamental investir 
em programas de capacitação e sensibilização de equipes e gestores. A falta 
de conhecimento sobre o TEA ainda é um obstáculo para a plena inclusão no 
mercado de trabalho, podendo gerar preconceito e subaproveitamento das 
habilidades do trabalhador. 
A fiscalização do cumprimento da Lei de Cotas é realizada pelo 
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Empresas que não cumprem a cota 
podem ser autuadas e obrigadas a apresentar planos de inclusão. Em alguns 
casos, há possibilidade de celebração de Termos de Ajuste de Conduta (TAC) 
com o Ministério Público do Trabalho para regularizar a situação. 
Outro aspecto relevante é a promoção de contratos de aprendizagem 
para jovens com TEA, conforme a Lei da Aprendizagem (Lei nº 10.097/2000). 
Essa modalidade possibilita o ingresso gradual no mercado de trabalho, com 
formação teórica e prática supervisionada, facilitando a adaptação e a 
aquisição de habilidades profissionais. 
Algumas empresas adotam programas de inclusão mais amplos que vão 
além do cumprimento legal, utilizando o desenho universal e políticas de 
diversidade para atrair, contratar e reter profissionais com TEA. Esses 
programas reconhecem que a neurodiversidade pode trazer perspectivas 
inovadoras e contribuir positivamente para a cultura organizacional. 
A efetividade da Lei de Cotas depende não apenas da obrigação legal, 
mas também de uma mudança de mentalidade empresarial. A verdadeira 
inclusão ocorre quando o trabalhador com TEA é valorizado por suas 
competências, recebe oportunidades de crescimento e encontra um ambiente 
de trabalho que respeita suas necessidades. 
 
40 
 
Por fim, a inserção de pessoas com TEA no mercado de trabalho deve 
ser compreendida como um direito humano e uma estratégia de fortalecimento 
da cidadania, estando alinhada aos compromissos assumidos pelo Brasil na 
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. O trabalho é um 
instrumento de autonomia, autoestima e participação social, e sua promoção 
para pessoas com TEA é responsabilidade compartilhada entre Estado, 
empresas e sociedade. 
 
4.4 Conduta Ética Profissional 
 
A conduta ética profissional no diagnóstico e acompanhamento de 
pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um princípio fundamental 
que orienta a atuação dos profissionais de saúde, educação e assistência 
social. Essa conduta está ancorada em legislações e códigos de ética 
específicos, como a Resolução CFP nº 10/2005, que aprova o Código de Ética 
Profissional do Psicólogo, e a Resolução CFM nº 2.217/2018, que dispõe sobre 
o Código de Ética Médica. 
O sigilo profissional é um dos pilares dessa conduta. Ele garante que 
todas as informações obtidas no processo de avaliação e acompanhamento 
sejam mantidas em confidencialidade, sendo compartilhadas apenas com o 
consentimento expresso da pessoa atendida ou de seus responsáveis legais. 
Essa proteção se aplica a dados clínicos, relatórios, laudos e qualquer registro 
que contenha informações pessoais. 
O consentimento informado é outro elemento central. Ele consiste no 
processo de explicar, de forma clara e compreensível, o objetivo da avaliação 
ou intervenção, os métodos utilizados, os possíveis riscos e benefícios, bem 
como as alternativas existentes. No caso de crianças e adolescentes com TEA, 
o consentimento deve ser obtido junto aos pais ou responsáveis, respeitando, 
sempre que possível, a participação do próprio indivíduo de acordo com seu 
nível de compreensão. 
A linguagem não estigmatizante deve ser adotada em toda a 
comunicação profissional, seja ela verbal, escrita ou visual. Termos pejorativos, 
diagnósticos rotuladores e descrições que reduzam a pessoa à sua condição 
clínica devem ser evitados. Essa orientação está em consonância com a Lei 
 
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Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que defende a dignidade, a 
autonomia e o respeito às pessoas com deficiência. 
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) orienta que a atuação 
deve estar baseada em conhecimentos científicos, respeitando a diversidade e 
os direitos humanos. Isso implica utilizar métodos e instrumentos validados e 
adequados ao contexto cultural e linguístico do indivíduo avaliado, bem como 
reconhecer os limites da própria competência profissional. 
No caso dos médicos, o Código de Ética Médica (CFM) reforça que o 
diagnóstico deve ser fundamentado em evidências e nunca utilizado para 
discriminar, excluir ou negar direitos. A prescrição de tratamentos e a emissão 
de laudos devem obedecer aos critérios científicos e legais, garantindo clareza 
e precisão nas informações fornecidas. 
A atuação ética também envolve transparência no relacionamento 
interprofissional. No contexto multiprofissional, é essencial que as informações 
compartilhadas entre membros da equipe sejam limitadas ao necessário para o 
atendimento, preservando a privacidade do paciente. Essa troca deve ocorrer 
com base no respeito às competências de cada área e com o objetivo de 
melhorar a qualidade da intervenção. 
Outro aspecto relevante é a responsabilidade na produção de 
documentos técnicos. Laudos, pareceres e relatórios devem ser redigidos de 
forma objetiva, com informações precisas e fundamentadas, evitando juízos de 
valor ou afirmações sem respaldo clínico. Esses documentos podem ter 
implicações legais e devem seguir a terminologia reconhecida pela CID-11 e 
pelo DSM-5-TR. 
A postura ética inclui ainda a atualização profissional contínua. Trabalhar 
com TEA requer conhecimento sobre novas evidências científicas, atualizações 
diagnósticas e avanços terapêuticos. O não aprimoramento pode resultar em 
práticas desatualizadas e prejudiciais ao indivíduo. 
Por fim, a conduta ética profissional no TEA vai além do cumprimento 
formal de códigos e leis: trata-se de uma postura de respeito integral à pessoa, 
considerando sua individualidade, promovendo sua autonomia e garantindo 
que cada decisão seja tomada em seu melhor interesse. Essa postura fortalece 
a confiança entre profissional, pessoa atendida e família, sendo fundamental 
para a efetividade do trabalho. 
 
42 
 
4.5 Formação Continuada e Atualização 
 
A formação continuada e a atualização profissional constituem pilares 
essenciais para a qualidade do atendimento prestado às pessoas com 
Transtorno do Espectro Autista (TEA). No contexto contemporâneo, em que as 
evidências científicas e as normativas legais são constantemente atualizadas, o 
aperfeiçoamento constante é um requisito ético, técnico e legal para todos os 
profissionais envolvidos no diagnóstico, intervenção e acompanhamento. 
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 
9.394/1996), em seus artigos 61 e 67, estabelece que a formação dos 
profissionais da educação, e por extensão de outras áreas de atuaçãocorrelatas, deve ser pautada pela atualização permanente, incorporando novos 
métodos, técnicas e conhecimentos ao exercício da profissão. Esse princípio 
se aplica de forma direta à atuação no TEA, dada a complexidade da condição 
e a necessidade de abordagens integradas. 
A atualização profissional é igualmente exigida pelas resoluções dos 
conselhos de classe, como o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o 
Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Fonoaudiologia 
(CFFa) e o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional 
(COFFITO). Essas normativas reforçam que a prática deve estar sempre 
alinhada aos avanços científicos e às diretrizes nacionais e internacionais 
vigentes. 
No campo do TEA, a formação continuada deve abranger temas como 
novas diretrizes diagnósticas (por exemplo, mudanças na CID-11 e no DSM-5-
TR), protocolos de avaliação, intervenções baseadas em evidências, legislação 
inclusiva e práticas de acessibilidade. Isso garante que o profissional possa 
oferecer um atendimento atualizado, seguro e eficaz. 
Além da dimensão técnica, a atualização profissional contribui para o 
cumprimento de exigências legais relacionadas à acessibilidade, direitos 
humanos e inclusão social. Um exemplo é a necessidade de conhecer e aplicar 
corretamente as disposições da Lei nº 12.764/2012, da Lei Brasileira de 
Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e de legislações complementares estaduais e 
municipais. 
 
43 
 
A formação continuada pode ocorrer por meio de cursos presenciais e a 
distância, congressos, grupos de estudo, supervisão clínica, leitura crítica de 
artigos científicos e participação em comunidades acadêmicas e profissionais. 
A diversidade de formatos permite que os profissionais escolham caminhos 
compatíveis com suas rotinas e necessidades de aprendizado. 
O investimento na atualização não beneficia apenas o profissional, mas 
também o usuário do serviço e sua família. Profissionais atualizados tendem a 
apresentar maior segurança na tomada de decisões, maior capacidade de 
adaptar intervenções e melhor comunicação sobre as opções terapêuticas 
disponíveis. 
Outro ponto importante é que a formação continuada fortalece o trabalho 
multiprofissional, pois promove a linguagem comum entre diferentes áreas e 
favorece a compreensão das competências e limites de cada profissão. Isso 
resulta em maior integração e eficácia nas estratégias de cuidado. 
A desatualização, por outro lado, pode levar a condutas inadequadas, 
uso de métodos ultrapassados ou ineficazes e falhas na observância de 
normas legais. Em casos mais graves, pode configurar infração ética ou 
mesmo responsabilização civil e criminal, especialmente quando há prejuízo 
para a pessoa atendida. 
Portanto, a formação continuada e a atualização profissional no campo 
do TEA não devem ser vistas como uma obrigação burocrática, mas como um 
compromisso com a excelência do cuidado, a defesa dos direitos das pessoas 
com TEA e a promoção de sua plena inclusão na sociedade. É um 
investimento permanente na qualidade, na ética e na efetividade das ações 
profissionais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
44 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
O desenvolvimento deste material evidenciou que o cuidado com 
pessoas com Transtorno do Espectro Autista vai muito além do diagnóstico. Ele 
envolve uma rede complexa de ações coordenadas, sustentadas por 
evidências científicas e garantidas por um sólido arcabouço legal. 
Do ponto de vista clínico, a utilização de classificações atualizadas, 
como a CID-11 e o DSM-5-TR, é indispensável para padronizar e qualificar a 
avaliação. No campo terapêutico, as intervenções precisam ser personalizadas, 
com metas claras e mensuráveis, incorporando as necessidades individuais e 
as preferências da família. 
No aspecto social, o acesso a benefícios, políticas públicas e 
oportunidades no mercado de trabalho é parte fundamental da inclusão. Leis 
como a Lei de Cotas (Lei nº 8.213/1991) e o Decreto nº 3.298/1999 são 
instrumentos importantes para garantir igualdade de oportunidades e combater 
barreiras estruturais e atitudinais. 
A ética profissional, sustentada por códigos e resoluções específicas, 
deve permear todas as etapas do atendimento, assegurando sigilo, 
consentimento informado e linguagem não estigmatizante. Da mesma forma, a 
formação continuada é uma exigência que se traduz em maior qualidade de 
atendimento, inovação nas práticas e alinhamento às normas vigentes. 
Por fim, a efetividade de qualquer ação voltada à pessoa com TEA 
depende da integração multiprofissional e intersetorial. A soma de esforços de 
profissionais, famílias, instituições e sociedade é o que garante avanços 
concretos em inclusão, autonomia e qualidade de vida. 
Este material, portanto, não é apenas um compilado de informações 
técnicas e legais, mas um guia de referência para a prática responsável e 
humanizada, que reconhece no indivíduo com TEA não um diagnóstico, mas 
uma pessoa com direitos, potencialidades e singularidades. 
 
 
 
 
 
 
45 
 
REFERÊNCIAS 
 
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical 
Manual of Mental Disorders – Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). 
Washington, DC: APA, 2022. 
 
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 
2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br. 
 
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: 
Senado Federal, 1988. 
 
BRASIL. Decreto nº 10.502, de 30 de setembro de 2020. Institui a Política 
Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao 
Longo da Vida. Diário Oficial da União, Brasília, 1º out. 2020. 
 
BRASIL. Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999. Regulamenta a 
Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Diário 
Oficial da União, Brasília, 21 dez. 1999. 
 
BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção 
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo. 
Diário Oficial da União, Brasília, 26 ago. 2009. 
 
BRASIL. Lei nº 10.097, de 19 de dezembro de 2000. Dispõe sobre a 
contratação de aprendizes e dá outras providências. Diário Oficial da União, 
Brasília, 20 dez. 2000. 
 
BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política 
Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro 
Autista. Diário Oficial da União, Brasília, 27 dez. 2012. 
 
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de 
Inclusão da Pessoa com Deficiência. Diário Oficial da União, Brasília, 7 jul. 
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BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de 
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BRASIL. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Dispõe sobre a Lei 
Orgânica da Assistência Social (LOAS). Diário Oficial da União, Brasília, 8 dez. 
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BRASIL. Lei nº 8.989, de 24 de fevereiro de 1995. Concede isenção do IPI na 
aquisição de automóveis para pessoas com deficiência. Diário Oficial da União, 
Brasília, 27 fev. 1995. 
 
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e 
bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996. 
 
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Institui a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. Diário Oficial da União,Brasília, 25 abr. 2012. 
 
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Adota oficialmente a CID-11 no SUS. Diário Oficial da União, Brasília, 15 jul. 
2022. 
 
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria MS nº 3.502, de 5 de dezembro de 
2017. Atualiza diretrizes da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. 
Diário Oficial da União, Brasília, 6 dez. 2017. 
 
CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL. 
Resolução nº 316, de 17 de maio de 2006. Dispõe sobre a atuação do 
terapeuta ocupacional. 
 
CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA. Resolução nº 356, de 6 de 
dezembro de 2008. Dispõe sobre a atuação do fonoaudiólogo em linguagem e 
audiologia educacional. 
 
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução nº 2.217, de 27 de 
setembro de 2018. Aprova o Código de Ética Médica. Diário Oficial da União, 
Brasília, 1º nov. 2018. 
 
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução nº 2.324, de 11 de abril de 
2022. Dispõe sobre a adoção da CID-11 em laudos e documentos médicos. 
Diário Oficial da União, Brasília, 13 abr. 2022. 
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 10, de 21 de julho 
de 2005. Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Diário Oficial da 
União, Brasília, 9 ago. 2005. 
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 9, de 25 de abril de 
2018. Define diretrizes para a avaliação psicológica. Diário Oficial da União, 
Brasília, 26 abr. 2018. 
 
 
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DAWSON, G. et al. Randomized, controlled trial of an intervention for toddlers 
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ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística 
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SANDIN, S. et al. The heritability of autism spectrum disorder. JAMA, v. 318, n. 
12, p. 1182–1184, 2017.da condição. Estudos como 
o de Sandin et al. (2017) apontam herdabilidade elevada, embora fatores 
ambientais — especialmente aqueles que atuam no período pré-natal e 
perinatal — também tenham papel relevante. No entanto, não há evidência 
científica que relacione práticas parentais ou vacinação ao surgimento do TEA, 
e essa informação deve ser constantemente reiterada para combater mitos e 
preconceitos. 
A CID-11, adotada oficialmente no SUS pela Portaria MS nº 1.876/2022, 
classifica o TEA no código 6A02, subdividindo-o em categorias que consideram 
a presença ou ausência de deficiência intelectual e/ou comprometimento da 
linguagem funcional. Essa subclassificação é útil para o planejamento 
terapêutico e educacional, pois auxilia na identificação das necessidades de 
suporte. 
Do ponto de vista clínico, a apresentação do TEA pode incluir 
dificuldades na compreensão de pistas sociais, ausência ou limitação no uso 
de gestos e expressões faciais, padrões de fala atípicos (como ecolalia ou 
entonação incomum), resistência a mudanças de rotina, interesses restritos e 
comportamentos repetitivos como estereotipias motoras. Entretanto, há 
indivíduos com TEA que desenvolvem linguagem fluente e habilidades 
cognitivas acima da média, o que evidencia a diversidade do espectro. 
A definição de TEA também incorpora a ideia de funcionalidade, ou seja, 
a avaliação não se restringe aos sintomas em si, mas ao impacto que eles 
geram na vida diária do indivíduo. A Classificação Internacional de 
Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) complementa essa visão ao 
propor que a análise das barreiras e facilitadores ambientais seja parte 
integrante da compreensão do quadro clínico. Assim, o diagnóstico e o 
planejamento de intervenções não podem ser dissociados do contexto social e 
cultural do indivíduo. 
 
6 
 
Importante salientar que tanto a CID-11 quanto o DSM-5-TR orientam 
para a necessidade de uma avaliação multiprofissional, considerando que o 
diagnóstico não é apenas uma classificação médica, mas uma ferramenta para 
organizar o cuidado e garantir direitos. A articulação entre saúde, educação e 
assistência social é fundamental para assegurar uma abordagem integral. 
Por fim, compreender o conceito e a definição do TEA à luz das 
normativas atuais significa integrar o conhecimento científico às garantias 
legais e aos princípios éticos da prática profissional. Isso implica adotar 
linguagem inclusiva, basear-se em critérios diagnósticos atualizados e 
assegurar que toda a condução clínica, educacional e social respeite a 
dignidade, a autonomia e a participação plena da pessoa com TEA em todos 
os espaços da vida. 
 
1.2 Evolução das Classificações: CID-10 para CID-11 
 
A Classificação Internacional de Doenças (CID) é um sistema 
padronizado, elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que 
orienta o diagnóstico e a coleta de dados epidemiológicos em todo o mundo. A 
passagem da CID-10, implementada na década de 1990, para a CID-11, 
oficialmente publicada em 2019 e adotada no Brasil a partir de 2022, 
representou uma mudança significativa na forma como os transtornos do 
neurodesenvolvimento, incluindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA), são 
categorizados e descritos. 
Na CID-10, o TEA estava incluído sob o termo “Transtornos Globais do 
Desenvolvimento” (TGD), no capítulo F84, que englobava categorias como 
autismo infantil, síndrome de Asperger, transtorno desintegrativo da infância e 
outros TGDs não especificados. Essa estrutura refletia uma visão mais 
compartimentalizada e hierárquica, com subdivisões diagnósticas baseadas em 
diferenças clínicas que, na prática, nem sempre se mostravam claras ou 
consistentes entre profissionais e contextos. 
Com a CID-11, houve uma unificação dessas categorias sob o termo 
“Transtorno do Espectro Autista” (código 6A02), alinhando-se à abordagem já 
adotada pelo DSM-5 em 2013 e mantida no DSM-5-TR em 2022. Essa 
unificação reconhece que as antigas subcategorias, como a síndrome de 
 
7 
 
Asperger, não tinham base científica robusta para distinções tão rígidas, já que 
os sintomas se distribuem ao longo de um continuum, variando em intensidade 
e impacto funcional. 
Uma inovação importante da CID-11 é a classificação por subcódigos, 
que permitem especificar a presença ou ausência de deficiência intelectual e 
de comprometimento funcional da linguagem. Por exemplo, o código 6A02.0 
refere-se ao TEA com deficiência intelectual e comprometimento funcional da 
linguagem, enquanto o 6A02.5 descreve o TEA sem deficiência intelectual e 
sem comprometimento funcional da linguagem. Essa abordagem facilita a 
personalização do planejamento terapêutico e educacional, permitindo um 
mapeamento mais preciso das necessidades. 
A adoção oficial da CID-11 no Brasil foi normatizada pela Portaria MS nº 
1.876, de 14 de julho de 2022, que determinou sua implementação no Sistema 
Único de Saúde (SUS), com impacto direto na emissão de laudos, registros em 
prontuários eletrônicos e sistemas de informação em saúde. Essa mudança 
exige que profissionais se atualizem para codificar corretamente diagnósticos e 
para compreender a nova terminologia utilizada. 
No âmbito da medicina, a Resolução CFM nº 2.324/2022 tornou 
obrigatória a utilização do CID-11 nos documentos médicos, como laudos e 
atestados, assegurando uniformidade nas descrições diagnósticas e garantindo 
validade administrativa e legal. Essa obrigatoriedade visa padronizar a 
comunicação entre profissionais, instituições de saúde e órgãos 
governamentais. 
A transição da CID-10 para a CID-11 não foi apenas uma atualização 
terminológica, mas também um reflexo de avanços científicos sobre o TEA. 
Estudos de genética, neuroimagem e epidemiologia reforçaram a compreensão 
de que o autismo é uma condição heterogênea, com múltiplas etiologias 
possíveis, e que as antigas categorias diagnósticas eram insuficientes para 
capturar essa complexidade. A abordagem dimensional da CID-11 está mais 
alinhada às evidências científicas contemporâneas. 
Além da mudança na nomenclatura e na estrutura, a CID-11 adota uma 
linguagem mais inclusiva e culturalmente sensível. A descrição do TEA evita 
termos potencialmente estigmatizantes e reconhece a diversidade funcional 
como parte do espectro humano, o que está em consonância com princípios de 
 
8 
 
direitos humanos e inclusão social previstos na Convenção sobre os Direitos 
das Pessoas com Deficiência (Decreto nº 6.949/2009) e na Lei Brasileira de 
Inclusão (Lei nº 13.146/2015). 
Para os profissionais que atuam na área, a mudança implica em 
necessidade de formação continuada, tanto para correta interpretação e 
aplicação dos novos códigos quanto para atualização de protocolos e fluxos de 
atendimento. Essa adaptação não se restringe ao campo médico, mas envolve 
psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e 
educadores, já que o diagnóstico formal influencia diretamente o acesso a 
serviços, benefícios e direitos. 
Outro ponto relevante é que a CID-11, por ser uma classificação digital e 
interativa, oferece recursos adicionais, como descrições ampliadas, exemplos 
clínicos e informações sobre diagnóstico diferencial. Isso favorece uma 
aplicação mais consistente e embasada, desde que os profissionais tenham 
acesso e treinamento para utilizar essas funcionalidades. 
Em síntese, a evolução da CID-10 para a CID-11 no que se refere ao 
TEA representa um avanço em termos de precisão diagnóstica, alinhamento 
internacional e inclusão social. A unificação do espectro, a possibilidade de 
subclassificação por deficiência intelectual e linguagem, e a obrigatoriedade 
legal de sua adoção no Brasil consolidam um marco importante na 
padronização da atenção às pessoas com TEA, com impactos diretos na 
prática clínica, na pesquisa e na formulação de políticas públicas. 
 
1.3 Estrutura do DSM-5-TR e Critérios paraTEA 
 
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição, 
revisão de texto (DSM-5-TR), publicado pela American Psychiatric Association 
(APA) em 2022, é uma das principais referências internacionais para a 
classificação e diagnóstico de transtornos mentais, incluindo o Transtorno do 
Espectro Autista (TEA). Esta versão atualizada mantém a estrutura geral do 
DSM-5 (2013), mas incorpora modificações importantes na redação, inclusão 
de exemplos culturais, atualização de prevalência e revisão de alguns critérios, 
o que impacta diretamente a prática clínica. 
 
9 
 
No DSM-5-TR, o TEA permanece no grupo dos Transtornos do 
Neurodesenvolvimento, sendo caracterizado pela presença simultânea de dois 
conjuntos principais de critérios: 
1. Déficits persistentes na comunicação e interação social em múltiplos 
contextos. 
2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou 
atividades. 
O primeiro conjunto inclui dificuldades em: (a) reciprocidade 
socioemocional, (b) comportamentos comunicativos não verbais usados para 
interação social e (c) desenvolvimento, manutenção e compreensão de 
relacionamentos. Essas manifestações podem ir desde ausência de interesse 
por interações sociais até dificuldades sutis em compreender convenções 
sociais. 
O segundo conjunto envolve pelo menos dois dos seguintes aspectos: 
(a) movimentos, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos; (b) 
insistência em mesmice, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de 
comportamento verbal e não verbal; (c) interesses fixos e altamente restritos, 
anormais em intensidade ou foco; e (d) hiper ou hiporreatividade a estímulos 
sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente. Esses 
padrões devem estar presentes desde o período de desenvolvimento inicial, 
ainda que se manifestem plenamente apenas quando as demandas sociais 
excedem as capacidades individuais. 
Uma mudança relevante no DSM-5-TR é a inclusão de descritores de 
gravidade para cada domínio sintomático, graduados em três níveis (nível 1 – 
precisa de apoio; nível 2 – precisa de apoio substancial; nível 3 – precisa de 
apoio muito substancial). Essa graduação não é estática e deve ser revisada 
periodicamente, pois a necessidade de suporte pode mudar ao longo da vida, 
em função de intervenções, adaptações ambientais e evolução clínica. 
O manual também enfatiza a importância do diagnóstico diferencial e da 
comorbidade, orientando que o TEA pode coexistir com condições como 
deficiência intelectual, TDAH, transtornos de ansiedade e epilepsia. A distinção 
adequada é essencial para um planejamento terapêutico eficaz, evitando tanto 
o subdiagnóstico quanto o sobrediagnóstico. 
 
10 
 
Outro aspecto valorizado pelo DSM-5-TR é a sensibilidade cultural. 
Reconhece-se que a expressão dos sintomas pode variar entre culturas, e o 
manual fornece exemplos que auxiliam o clínico a diferenciar manifestações do 
TEA de padrões comportamentais culturalmente esperados. Essa abordagem 
evita interpretações equivocadas que poderiam gerar diagnósticos incorretos 
ou estigmatização. 
No contexto brasileiro, a aplicação dos critérios do DSM-5-TR deve 
respeitar as normativas éticas e legais. O Código de Ética Profissional do 
Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005) determina que o psicólogo utilize 
instrumentos e métodos cientificamente reconhecidos, garantindo 
confidencialidade, consentimento informado e clareza na comunicação dos 
resultados. Assim, qualquer diagnóstico emitido deve ser fundamentado, 
tecnicamente adequado e socialmente responsável. 
O DSM-5-TR também propõe que a avaliação do TEA seja 
multifacetada, integrando observação clínica, entrevistas estruturadas e 
aplicação de instrumentos padronizados, como ADOS-2 e ADI-R. Essa diretriz 
converge com as recomendações de organismos internacionais como a OMS e 
garante maior confiabilidade ao processo diagnóstico. 
Finalmente, a utilização do DSM-5-TR, embora não seja obrigatória no 
SUS — que adota oficialmente a CID-11 —, continua sendo fundamental para 
pesquisa, prática clínica privada e contextos acadêmicos. Sua convergência 
conceitual com a CID-11 favorece a harmonização dos critérios diagnósticos 
em âmbito global, beneficiando a comunicação entre profissionais e o acesso a 
dados epidemiológicos comparáveis. 
Assim, o DSM-5-TR representa um avanço no refinamento dos critérios 
e na humanização da descrição do TEA, ao mesmo tempo em que reforça a 
necessidade de diagnósticos contextualizados, éticos e baseados em 
evidências. Sua aplicação criteriosa, aliada ao cumprimento das normativas 
brasileiras, contribui para um atendimento mais preciso, inclusivo e alinhado às 
demandas contemporâneas das pessoas com TEA e suas famílias. 
 
1.4 Terminologia Inclusiva e Ética 
 
 
11 
 
O uso de terminologia inclusiva na área da saúde, educação e 
assistência social é um elemento essencial para promover respeito, dignidade 
e participação plena das pessoas com deficiência, incluindo aquelas com 
Transtorno do Espectro Autista (TEA). A forma como nomeamos e 
descrevemos uma condição impacta diretamente a percepção social e o modo 
como essas pessoas são tratadas nos diferentes espaços da vida. Assim, o 
cuidado com a linguagem é parte integrante da conduta ética dos profissionais 
que atuam na área. 
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 
13.146/2015) estabelece, em seu artigo 4º, que toda pessoa com deficiência 
tem direito à igualdade de oportunidades, à não discriminação e ao respeito 
pela sua dignidade. Isso se reflete na exigência de adotar termos que evitem 
conotações negativas ou depreciativas. Nesse contexto, a expressão “pessoa 
com TEA” é preferível a termos como “portador de autismo” ou “autista” 
(quando usada de forma redutiva), pois enfatiza que a condição não define a 
totalidade do indivíduo. 
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto nº 
6.949/2009) também orienta para uma abordagem baseada no modelo social 
da deficiência, no qual as barreiras impostas pela sociedade são vistas como 
determinantes da limitação, e não a condição em si. Essa perspectiva reforça 
que a terminologia deve deslocar o foco da limitação para o direito à 
participação e inclusão. 
Termos historicamente usados, como “retardo mental”, “doente mental” 
ou “portador de necessidades especiais”, são considerados inadequados e 
estigmatizantes. Eles foram substituídos, respectivamente, por “deficiência 
intelectual”, “transtorno mental” ou “transtorno do neurodesenvolvimento” e 
“pessoa com deficiência”. Essa atualização linguística é não apenas uma 
recomendação ética, mas também um dever legal para documentos oficiais, 
laudos e comunicações institucionais. 
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 
10/2005) e o Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) 
determinam que a comunicação com pacientes, familiares e sociedade deve 
ser clara, respeitosa e livre de preconceitos. Isso inclui tanto a interação oral 
quanto a produção de documentos técnicos, pareceres e relatórios. A 
 
12 
 
linguagem, portanto, é considerada parte do cuidado e da responsabilidade 
profissional. 
No campo educacional, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as 
diretrizes de educação inclusiva reforçam que o uso de terminologia adequada 
é uma prática pedagógica necessária para criar um ambiente escolar livre de 
preconceito e favorável à diversidade. Professores e gestores devem estar 
capacitados para evitar o uso de apelidos, rótulos ou classificações que 
reduzam o estudante à sua condição clínica. 
O uso de linguagem inclusiva também se relaciona com a construção da 
identidade. Muitos indivíduos com TEA preferem ser chamados de “autistas” 
como uma forma de afirmação identitária, enquanto outros preferem a 
formulação “pessoa com autismo”. Assim, recomenda-se que osprofissionais 
escutem e respeitem a forma como o próprio indivíduo deseja ser identificado, 
sem impor uma terminologia que possa ser percebida como distante ou 
impessoal. 
Além da escolha de palavras, a forma de comunicação é igualmente 
relevante. Isso inclui adequar o discurso ao nível de compreensão da pessoa, 
usar materiais visuais de apoio quando necessário e garantir que as 
informações sejam transmitidas de maneira acessível. A acessibilidade 
comunicacional é um direito previsto na LBI e abrange tanto a linguagem oral 
quanto a escrita e a visual. 
O cuidado ético com a terminologia também se estende à pesquisa 
científica. Artigos e estudos acadêmicos devem empregar linguagem que 
esteja de acordo com padrões atuais de respeito e inclusão, evitando termos 
ultrapassados e explicando as escolhas terminológicas quando houver debate 
sobre elas. Isso contribui para a padronização científica e para a construção de 
uma literatura mais ética e sensível. 
Por fim, adotar terminologia inclusiva e ética não é apenas cumprir uma 
norma, mas reforçar o compromisso com a humanização do cuidado. As 
palavras que escolhemos moldam percepções, influenciam atitudes e, em 
última análise, podem contribuir para a inclusão ou para a exclusão. Na prática 
profissional, isso significa alinhar-se a legislações vigentes, normas éticas e, 
acima de tudo, ao princípio de que cada pessoa tem direito de ser tratada com 
respeito e reconhecimento de sua plena dignidade. 
 
13 
 
1.5 Comorbidades no TEA 
 
O Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo as diretrizes atuais, 
não é uma condição isolada na maioria dos casos. Uma parcela significativa 
das pessoas diagnosticadas apresenta comorbidades — isto é, a ocorrência 
simultânea de outros transtornos ou condições médicas que interagem e 
influenciam a manifestação clínica do autismo. A identificação dessas 
condições associadas é fundamental para garantir um plano de cuidado mais 
abrangente e eficaz. 
Entre as comorbidades mais frequentemente observadas no TEA estão 
o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a deficiência 
intelectual, a epilepsia e os transtornos de ansiedade. Estudos como o de Lai et 
al. (2019) indicam que mais de 70% das pessoas com TEA têm pelo menos 
uma condição associada, e cerca de 40% apresentam duas ou mais. Essa 
sobreposição de diagnósticos exige avaliação diferenciada, para que os 
sintomas não sejam interpretados de forma equivocada. 
O TDAH é uma das comorbidades mais prevalentes, e sua coexistência 
com o TEA é reconhecida tanto no CID-11 quanto no DSM-5-TR. 
Anteriormente, a presença de TEA excluía formalmente o diagnóstico de 
TDAH, mas essa limitação foi revista à luz de evidências clínicas e 
neurobiológicas que demonstram que os dois transtornos podem coexistir, 
embora com padrões de atenção, impulsividade e hiperatividade que podem se 
sobrepor ou se diferenciar. 
A deficiência intelectual está presente em uma parte significativa da 
população com TEA, variando de acordo com os critérios diagnósticos e 
amostras estudadas. A CID-11 inclui subcódigos que indicam a presença ou 
ausência de deficiência intelectual e comprometimento funcional da linguagem, 
permitindo um registro mais detalhado das necessidades do indivíduo. Essa 
diferenciação é essencial para ajustar as intervenções educacionais e 
terapêuticas. 
A epilepsia é outra comorbidade relevante, com prevalência estimada 
entre 20% e 30% em pessoas com TEA, especialmente naquelas com 
deficiência intelectual associada. A presença de crises epilépticas pode 
impactar o desenvolvimento cognitivo, a aprendizagem e a regulação 
 
14 
 
comportamental, exigindo acompanhamento neurológico e tratamento 
medicamentoso adequado, sempre integrado ao plano geral de cuidados. 
Os transtornos de ansiedade, como fobia social, transtorno obsessivo-
compulsivo e transtorno de ansiedade generalizada, também são comuns no 
TEA. Essas condições podem se manifestar de forma atípica, com sintomas 
internalizados que muitas vezes são confundidos com características do 
próprio espectro. A correta identificação e tratamento da ansiedade podem 
melhorar significativamente a qualidade de vida e a adaptação social. 
A avaliação diagnóstica das comorbidades no TEA deve seguir um 
protocolo cuidadoso, conforme orientam os Protocolos Clínicos e Diretrizes 
Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde (2022). Isso envolve entrevistas 
clínicas, aplicação de escalas padronizadas e colaboração entre diferentes 
profissionais — médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais 
— para assegurar uma visão multidimensional do paciente. 
O manejo clínico das comorbidades exige uma abordagem integrada e 
intersetorial, alinhada às diretrizes do SUS para atenção à saúde da pessoa 
com deficiência. Por exemplo, o tratamento farmacológico para epilepsia ou 
TDAH deve ser coordenado com intervenções comportamentais e suporte 
educacional, evitando interações medicamentosas e garantindo coerência nas 
estratégias. 
Reconhecer e tratar comorbidades não apenas melhora os resultados 
clínicos, mas também impacta diretamente o acesso a direitos e benefícios. A 
presença de determinadas condições associadas pode reforçar a necessidade 
de apoio especializado na escola, acesso a terapias no SUS e elegibilidade 
para benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada 
(BPC/LOAS). 
Por fim, a identificação precoce e o manejo adequado das comorbidades 
no TEA são determinantes para o desenvolvimento global da pessoa. Isso 
requer formação continuada das equipes, protocolos claros e integração efetiva 
entre saúde, educação e assistência social, de modo a garantir que nenhuma 
necessidade seja negligenciada e que cada indivíduo tenha um plano de 
cuidado personalizado e responsivo. 
 
 
 
15 
 
UNIDADE 2 – AVALIAÇÃO E DIAGNÓSTICO 
 
2.1 Diagnóstico Clínico e Critérios Atuais 
 
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é 
essencialmente clínico e fundamenta-se na observação sistemática do 
comportamento, na análise do histórico de desenvolvimento e na aplicação de 
critérios internacionalmente reconhecidos, como os descritos na Classificação 
Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11) e no Manual Diagnóstico e 
Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. A confirmação diagnóstica 
não depende de exames laboratoriais ou de imagem, embora esses possam 
ser úteis para investigar condições associadas ou descartar diagnósticos 
diferenciais. 
Segundo a CID-11 (OMS, 2022), o TEA é caracterizado por déficits 
persistentes na capacidade de iniciar e manter interações sociais recíprocas e 
por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. 
A classificação permite subclassificações que especificam a presença ou 
ausência de deficiência intelectual e comprometimento funcional da linguagem, 
auxiliando na definição de estratégias terapêuticas e educacionais mais 
adequadas. 
O DSM-5-TR (APA, 2022) apresenta critérios diagnósticos que agrupam 
os sintomas em dois domínios principais: (1) déficits persistentes na 
comunicação e interação social em múltiplos contextos; e (2) padrões restritos 
e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Os sintomas devem 
estar presentes desde o período do desenvolvimento inicial, embora possam 
manifestar-se de forma mais evidente quando as demandas sociais aumentam. 
O processo diagnóstico requer a coleta detalhada do histórico de 
desenvolvimento, incluindo informações sobre marcos motores, aquisição de 
linguagem, interações sociais precoces, padrões de brincadeira e 
comportamentos repetitivos. Essa etapa é fundamental, pois algumas 
manifestações podem ter ocorrido de forma sutil ou sido interpretadas como 
“traços de personalidade” em fases anteriores da vida. 
 
16 
 
A observação direta do indivíduo, em diferentes contextos, é um 
componente-chaveda avaliação clínica. Essa observação deve abranger 
interações sociais, resposta a estímulos, comportamentos repetitivos e 
flexibilidade cognitiva e comportamental. Idealmente, a observação deve ser 
feita tanto em ambiente estruturado quanto em situações cotidianas, para 
capturar a variabilidade do comportamento. 
Embora o diagnóstico seja clínico, o uso de instrumentos padronizados 
como o Autism Diagnostic Observation Schedule – Second Edition (ADOS-2) e 
a Autism Diagnostic Interview – Revised (ADI-R) pode aumentar a precisão da 
avaliação, especialmente em casos mais complexos. No Brasil, a aplicação 
desses instrumentos deve ser feita por profissionais devidamente treinados e 
habilitados, conforme as normativas dos respectivos conselhos. 
O diagnóstico diferencial é um aspecto crítico, pois diversas condições, 
como deficiência intelectual, transtornos de linguagem, TDAH e transtornos de 
ansiedade social, podem apresentar sintomas semelhantes. A CID-11 e o 
DSM-5-TR oferecem diretrizes para distinguir o TEA dessas outras condições, 
destacando a natureza qualitativa e persistente das dificuldades sociais e 
comunicativas no autismo. 
A abordagem diagnóstica deve ser multiprofissional, envolvendo 
médicos (psiquiatras ou neuropediatras), psicólogos, fonoaudiólogos e 
terapeutas ocupacionais. Cada profissional contribui com uma perspectiva 
específica, enriquecendo a análise e garantindo que todos os aspectos do 
funcionamento do indivíduo sejam considerados. Essa abordagem integrada é 
recomendada tanto pela OMS quanto pelas diretrizes do Ministério da Saúde. 
É importante ressaltar que o diagnóstico precoce está associado a 
melhores prognósticos, pois possibilita a implementação imediata de 
intervenções baseadas em evidências. Por isso, a capacitação de profissionais 
da atenção primária para identificar sinais precoces de TEA é uma prioridade 
em políticas públicas de saúde e educação. 
Finalmente, a comunicação do diagnóstico à família deve ser conduzida 
com clareza, empatia e responsabilidade, garantindo que os responsáveis 
compreendam não apenas o significado clínico do TEA, mas também as 
possibilidades de intervenção, os direitos legais e os recursos disponíveis. 
Essa prática está alinhada com os princípios da Política Nacional de 
 
17 
 
Humanização (Portaria MS nº 2.528/2006) e com as diretrizes éticas dos 
conselhos profissionais. 
 
2.2 Avaliação Multiprofissional 
 
A avaliação multiprofissional no Transtorno do Espectro Autista (TEA) é 
considerada um padrão de excelência no diagnóstico e no planejamento de 
intervenções. Essa abordagem pressupõe a atuação coordenada de diferentes 
profissionais — médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, 
entre outros — para obter uma compreensão global do indivíduo, considerando 
aspectos clínicos, cognitivos, linguísticos, motores, sensoriais e sociais. 
A Resolução CFP nº 09/2018 estabelece diretrizes para a avaliação 
psicológica, definindo-a como um processo estruturado que deve utilizar 
instrumentos cientificamente validados, entrevistas e observações. No contexto 
do TEA, o psicólogo contribui com a análise do desenvolvimento 
socioemocional, da cognição, do comportamento adaptativo e da presença de 
características compatíveis com o espectro, utilizando protocolos específicos 
quando necessário. 
No campo médico, a Resolução CFM nº 2.324/2022 oficializa o uso do 
CID-11 nos laudos e documentos clínicos, o que garante uniformidade na 
codificação diagnóstica. Médicos, especialmente pediatras, neuropediatras e 
psiquiatras infantis, desempenham papel fundamental na exclusão de outras 
condições médicas que possam simular ou agravar os sintomas do TEA, além 
de identificar comorbidades neurológicas ou psiquiátricas. 
A atuação do fonoaudiólogo, regulamentada pela Resolução CFFa nº 
356/2008, é essencial para avaliar a comunicação verbal e não verbal, a 
linguagem receptiva e expressiva e as habilidades pragmáticas. No TEA, 
alterações nessas áreas são marcantes e exigem avaliação detalhada para 
subsidiar intervenções específicas que favoreçam a interação social e a 
autonomia comunicativa. 
O terapeuta ocupacional, segundo a Resolução COFFITO nº 316/2006, 
contribui com a análise do desempenho ocupacional nas atividades de vida 
diária, escolares e sociais, incluindo a avaliação das habilidades motoras finas 
e grossas, do processamento sensorial e da adaptação ao ambiente. Essa 
 
18 
 
perspectiva é especialmente importante para criar planos de intervenção que 
facilitem a participação plena da pessoa com TEA em diferentes contextos. 
A integração entre essas áreas não se limita à soma de relatórios 
individuais; ela requer comunicação contínua e construção conjunta de 
hipóteses diagnósticas. Reuniões de equipe, discussões de caso e devolutivas 
compartilhadas com a família são práticas recomendadas para assegurar que 
todas as informações relevantes sejam consideradas e que as orientações 
sejam coerentes e complementares. 
A avaliação multiprofissional também favorece a triagem precoce. Cada 
profissional, em seu campo de atuação, pode identificar sinais sugestivos de 
TEA e encaminhar para avaliação aprofundada. Essa detecção precoce é 
fundamental para iniciar intervenções antes que prejuízos secundários se 
instalem, maximizando o potencial de desenvolvimento. 
Além de qualificar o diagnóstico, a avaliação multiprofissional permite 
traçar um perfil funcional detalhado do indivíduo, identificando pontos fortes, 
dificuldades específicas e necessidades de apoio. Essa visão integral orienta 
não apenas o tratamento clínico, mas também adaptações educacionais e 
estratégias de inclusão social. 
Outro ponto relevante é a padronização documental. Os laudos e 
relatórios elaborados por diferentes profissionais devem estar alinhados em 
termos de terminologia, critérios diagnósticos e linguagem inclusiva, evitando 
contradições que possam prejudicar o acesso da pessoa com TEA a serviços, 
benefícios e direitos previstos na legislação, como a Lei nº 12.764/2012 e a Lei 
Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015). 
Por fim, a avaliação multiprofissional é mais do que uma exigência 
técnica; trata-se de uma abordagem ética e centrada na pessoa. Ela reconhece 
que o TEA é uma condição complexa e multifacetada e que apenas o trabalho 
integrado entre diferentes áreas pode oferecer um diagnóstico preciso, um 
plano de intervenção efetivo e, sobretudo, respeito à singularidade de cada 
indivíduo. 
 
2.3 Instrumentos e Protocolos Padronizados 
 
 
19 
 
A avaliação do Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve um 
conjunto de procedimentos que combinam a observação clínica com o uso de 
instrumentos e protocolos padronizados. Essas ferramentas oferecem métodos 
sistemáticos de coleta de dados sobre comportamentos, habilidades e 
dificuldades, aumentando a precisão diagnóstica. No entanto, como enfatizado 
nas Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA do Ministério da 
Saúde (2022), nenhum instrumento substitui a avaliação clínica completa 
conduzida por profissionais capacitados. 
Entre os protocolos mais reconhecidos internacionalmente está o ADOS-
2 (Autism Diagnostic Observation Schedule – Second Edition). Trata-se de um 
instrumento de observação semiestruturada que avalia comunicação, interação 
social, brincadeira e uso imaginativo de materiais. O ADOS-2 é organizado em 
módulos adaptados à idade e ao nível de linguagem do indivíduo, sendo 
considerado um padrão-ouro para a avaliação comportamental do TEA. 
Outro protocolo amplamente utilizado é o ADI-R (Autism Diagnostic 
Interview – Revised), uma entrevista clínica estruturada aplicada aos 
cuidadores. O ADI-R investiga, de forma detalhada, comportamentos 
relacionados à comunicação, interação social recíproca e padrões restritos e 
repetitivos de comportamento, desde o desenvolvimento inicial até o momento 
daavaliação. Sua combinação com o ADOS-2 é recomendada para aumentar 
a confiabilidade diagnóstica. 
O CARS-2 (Childhood Autism Rating Scale – Second Edition) é uma 
escala que auxilia na identificação e na determinação da gravidade do TEA. 
Baseia-se na observação direta e em informações fornecidas por familiares ou 
cuidadores. Embora seja mais breve que o ADOS-2 e o ADI-R, o CARS-2 é útil 
tanto para triagem clínica quanto para monitoramento da evolução do paciente. 
No campo da triagem precoce, destaca-se o M-CHAT-R/F (Modified 
Checklist for Autism in Toddlers, Revised with Follow-Up), um questionário 
destinado a identificar sinais de risco para o TEA em crianças pequenas, 
geralmente entre 16 e 30 meses de idade. É de fácil aplicação e pode ser 
utilizado na atenção primária, servindo como ferramenta para encaminhamento 
a avaliações mais aprofundadas. 
As Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA do 
Ministério da Saúde enfatizam que a aplicação desses instrumentos deve ser 
 
20 
 
feita apenas por profissionais treinados, garantindo a validade dos resultados. 
A utilização inadequada pode levar a erros diagnósticos, seja pela 
superestimação, seja pela subestimação dos sintomas. 
Além dos protocolos formais, existem escalas complementares que 
avaliam áreas associadas, como comportamento adaptativo, funções 
executivas e integração sensorial. Exemplos incluem a Vineland Adaptive 
Behavior Scales e a Sensory Profile, que ajudam a construir um panorama 
funcional mais completo do indivíduo. 
A seleção do instrumento mais adequado depende da idade, do nível de 
linguagem, das habilidades cognitivas e dos objetivos da avaliação. Em alguns 
casos, pode ser necessário combinar diferentes protocolos para captar a 
complexidade das manifestações clínicas do TEA. 
É fundamental destacar que os resultados obtidos nos instrumentos 
padronizados devem ser integrados ao histórico clínico, à observação direta e 
às informações fornecidas pela família. Um escore elevado em um protocolo 
não confirma, por si só, o diagnóstico, assim como um resultado dentro da 
normalidade não exclui a possibilidade de TEA quando há fortes indícios 
clínicos. 
Finalmente, a padronização e o uso criterioso de protocolos não apenas 
qualificam o diagnóstico, mas também permitem documentar de forma mais 
objetiva a evolução do paciente ao longo do tempo. Isso é fundamental para 
reavaliar estratégias de intervenção e para subsidiar relatórios e laudos 
necessários ao acesso a direitos, terapias e adaptações escolares. 
 
2.4 Diagnóstico Diferencial e Exclusões 
 
O diagnóstico diferencial do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um 
processo fundamental para garantir que o quadro clínico apresentado não seja 
resultado de outras condições do neurodesenvolvimento, transtornos 
psiquiátricos ou doenças neurológicas que possam manifestar sintomas 
semelhantes. A CID-11 (OMS, 2022) e o DSM-5-TR (APA, 2022) apresentam 
diretrizes específicas para auxiliar os profissionais na distinção entre TEA e 
outras condições, enfatizando que a avaliação deve ser minuciosa e 
multidimensional. 
 
21 
 
O TEA compartilha características com outros transtornos, o que pode 
levar a confusões diagnósticas. Por exemplo, crianças com transtorno 
específico da linguagem podem apresentar atraso ou dificuldades de 
comunicação semelhantes às do TEA, mas mantêm habilidades sociais e 
interesse pela interação compatíveis com seu nível de desenvolvimento. No 
TEA, por outro lado, as dificuldades comunicativas são acompanhadas de 
prejuízos qualitativos na reciprocidade social. 
Outro ponto crítico é a diferenciação entre TEA e Transtorno de Déficit 
de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Embora ambos possam apresentar 
dificuldades na regulação da atenção e comportamento impulsivo, no TDAH os 
déficits centrais estão relacionados à autorregulação e ao controle inibitório, 
sem necessariamente haver os padrões restritos e repetitivos de 
comportamento que caracterizam o TEA. É possível, contudo, que os dois 
transtornos coexistam, o que exige atenção para não atribuir todos os sintomas 
a apenas uma condição. 
No campo das condições psiquiátricas, o transtorno de ansiedade social 
pode ser confundido com o TEA, especialmente em adolescentes e adultos que 
evitam interações sociais. A diferença central está na motivação: na ansiedade 
social, a evitação decorre do medo de julgamento, enquanto no TEA as 
dificuldades sociais são resultado de déficits na compreensão e manejo de 
interações, frequentemente presentes desde a infância. 
Condições neurológicas como epilepsia, paralisia cerebral ou síndromes 
genéticas (por exemplo, síndrome de Rett, síndrome do X frágil) também 
podem apresentar manifestações que se sobrepõem ao TEA, incluindo atraso 
no desenvolvimento e dificuldades de comunicação. Nessas situações, a 
avaliação diagnóstica deve considerar a etiologia subjacente e se os sintomas 
do espectro são explicados pela condição primária ou se configuram um 
diagnóstico adicional. 
O transtorno de apego reativo, decorrente de privações severas no 
cuidado na primeira infância, pode apresentar comportamentos que lembram o 
TEA, como dificuldades de vinculação e contato visual reduzido. Contudo, o 
histórico de negligência grave e a possibilidade de melhora significativa com 
intervenções ambientais diferenciam o quadro do autismo, que tem origem 
neurobiológica e manifestação persistente. 
 
22 
 
A CID-11 orienta que, para confirmar o diagnóstico de TEA, os sintomas 
devem estar presentes desde o período inicial do desenvolvimento, mesmo que 
só se tornem mais evidentes com o aumento das demandas sociais. Assim, 
quadros adquiridos após lesões cerebrais, traumas ou doenças infecciosas não 
se enquadram no diagnóstico de TEA, ainda que apresentem comportamentos 
semelhantes. 
O DSM-5-TR também destaca que o diagnóstico deve ser feito 
considerando a história de desenvolvimento e não apenas o estado atual do 
indivíduo. Isso evita erros, como confundir dificuldades sociais decorrentes de 
depressão grave ou psicose com os déficits centrais do TEA. Esses 
transtornos, apesar de comprometerem a interação social, têm causas, curso e 
resposta a tratamento diferentes. 
A realização do diagnóstico diferencial exige abordagem 
multiprofissional, envolvendo médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas 
ocupacionais e, quando necessário, geneticistas e neurologistas. Cada 
especialista contribui com uma perspectiva complementar, permitindo excluir 
causas alternativas ou identificar condições coexistentes que demandem 
tratamento específico. 
Em síntese, o diagnóstico diferencial e a exclusão de outras condições 
não apenas aumentam a precisão diagnóstica, mas também direcionam 
intervenções mais adequadas. Um diagnóstico incorreto pode levar a 
tratamentos ineficazes, atraso no início de terapias apropriadas e dificuldades 
no acesso a serviços e direitos. Por isso, seguir os critérios da CID-11 e do 
DSM-5-TR e realizar uma investigação criteriosa é uma exigência técnica, ética 
e legal para todos os profissionais envolvidos no cuidado à pessoa com TEA. 
 
2.5 Comunicação dos Resultados e Orientações à Família 
 
A comunicação dos resultados do diagnóstico do Transtorno do Espectro 
Autista (TEA) é uma etapa sensível e de grande impacto no processo de 
avaliação. Ela deve ser conduzida de maneira ética, empática e fundamentada 
em evidências, garantindo que a família compreenda não apenas o significado 
clínico do diagnóstico, mas também as possibilidades de intervenção e os 
 
23 
 
direitos assegurados à pessoa com TEA. Trata-se de um momento que pode 
definir o engajamento e a adesão ao tratamento. 
Segundo a Política Nacional de Humanização (Portaria MS nº 
2.528/2006), toda comunicação em saúde deve ser orientada pelos princípios 
da escuta qualificada, do respeito �� singularidade do indivíduo e da valorizaçãodo vínculo entre profissional e usuário. No contexto do TEA, isso implica 
adequar a linguagem à compreensão da família, evitando termos técnicos 
excessivos ou expressões que possam gerar medo ou confusão. 
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 
10/2005) reforça que as informações devem ser transmitidas de forma clara, 
precisa e sem julgamentos, respeitando o direito à informação e o princípio do 
consentimento informado. Isso significa que, desde a avaliação inicial, a família 
deve ser envolvida no processo e ter acesso às etapas e objetivos da 
investigação. 
Um dos pontos críticos da devolutiva é evitar rótulos estigmatizantes. 
Expressões como “não tem cura” ou “é incapaz” não são apenas imprecisas, 
mas também prejudiciais, pois podem limitar as expectativas e desmotivar a 
busca por intervenções eficazes. O foco deve estar na identificação de 
necessidades e no planejamento de estratégias para o desenvolvimento de 
habilidades e a inclusão social. 
Além da explicação diagnóstica, a devolutiva deve incluir informações 
sobre intervenções baseadas em evidências, como Análise do Comportamento 
Aplicada (ABA), TEACCH, PECS e ESDM, bem como orientações sobre 
estimulação precoce, adaptação escolar e acompanhamento multiprofissional. 
Essas orientações devem ser adaptadas à realidade socioeconômica e 
geográfica da família, indicando recursos disponíveis na rede pública e privada. 
Outro aspecto essencial é apresentar à família os direitos legais da 
pessoa com TEA, previstos na Lei nº 12.764/2012 e na Lei Brasileira de 
Inclusão (Lei nº 13.146/2015). Isso inclui acesso prioritário a serviços de saúde, 
educação inclusiva, benefícios assistenciais como o BPC/LOAS, isenções 
fiscais e adaptações no ambiente de trabalho, quando aplicável. 
A comunicação dos resultados também deve prever espaço para que a 
família faça perguntas, manifeste suas preocupações e compartilhe suas 
expectativas. Esse diálogo favorece a construção de um plano terapêutico 
 
24 
 
compartilhado, no qual a família é reconhecida como parte ativa do processo 
de intervenção. 
Em alguns casos, especialmente quando o diagnóstico é feito em 
crianças pequenas, é necessário oferecer apoio emocional à família. A notícia 
pode desencadear reações de choque, tristeza ou negação, e o 
encaminhamento para grupos de apoio ou atendimento psicológico pode 
auxiliar na adaptação e no fortalecimento das estratégias de cuidado. 
É importante registrar formalmente as informações fornecidas, tanto para 
garantir a continuidade do atendimento quanto para facilitar o acesso da família 
a serviços especializados e direitos legais. Relatórios e laudos devem seguir a 
terminologia inclusiva e estar em conformidade com a legislação vigente, como 
a Resolução CFM nº 2.324/2022 no caso de documentos médicos. 
Por fim, a devolutiva diagnóstica deve ser entendida como o início de um 
processo contínuo de acompanhamento e orientação. O suporte à família não 
termina na entrega do laudo, mas se estende ao longo do percurso terapêutico, 
com revisões periódicas, reavaliações e ajustes no plano de intervenção 
conforme as necessidades e conquistas do indivíduo com TEA. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 
 
UNIDADE 3 – INTERVENÇÃO E TRATAMENTO 
 
3.1 Intervenções Baseadas em Evidências 
 
As intervenções baseadas em evidências são aquelas cuja eficácia foi 
comprovada por meio de estudos científicos rigorosos, revisões sistemáticas e 
metanálises. No contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), abordagens 
como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), o Treatment and Education 
of Autistic and related Communication-handicapped Children (TEACCH), o 
Picture Exchange Communication System (PECS) e o Early Start Denver 
Model (ESDM) figuram entre as mais recomendadas para promover o 
desenvolvimento de habilidades adaptativas e reduzir comportamentos 
desafiadores. 
A ABA é uma abordagem terapêutica que se baseia nos princípios da 
análise experimental do comportamento para promover mudanças significativas 
e socialmente relevantes. Diversos estudos, como o clássico de Lovaas (1987) 
e pesquisas mais recentes de Makrygianni et al. (2018), demonstram que 
programas intensivos e individualizados de ABA podem melhorar 
significativamente habilidades cognitivas, linguísticas e sociais em crianças 
com TEA, especialmente quando iniciados precocemente. 
O TEACCH é um programa educacional estruturado que organiza o 
ambiente físico, utiliza pistas visuais e promove a previsibilidade das rotinas, 
facilitando a compreensão e a autonomia do indivíduo. Embora seja 
frequentemente utilizado em contextos escolares, também pode ser adaptado 
para o ambiente doméstico, auxiliando na transição entre diferentes tarefas e 
reduzindo a ansiedade diante de mudanças. 
O PECS é um sistema de comunicação alternativa que utiliza figuras e 
cartões para promover a comunicação funcional. É especialmente útil para 
crianças com TEA que apresentam ausência ou limitações significativas na 
linguagem verbal. Ao possibilitar a expressão de necessidades e desejos, o 
PECS contribui para a diminuição de comportamentos disruptivos relacionados 
à frustração comunicativa. 
 
26 
 
O ESDM é uma intervenção precoce de base comportamental e 
relacional, voltada para crianças de 12 a 48 meses. Integra princípios da ABA 
com técnicas de interação social positiva, brincadeira compartilhada e 
engajamento afetivo. Estudos como o de Dawson et al. (2010) demonstram que 
o ESDM pode melhorar habilidades cognitivas, linguagem e comportamento 
adaptativo. 
No Brasil, as Diretrizes de Reabilitação do SUS, estabelecidas pela 
Portaria GM/MS nº 793/2012 e complementadas pela Portaria MS nº 
3.502/2017, reconhecem a importância de terapias multiprofissionais e de 
intervenções baseadas em evidências para o desenvolvimento global de 
pessoas com TEA. Essas diretrizes preveem a atuação de equipes compostas 
por psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e 
outros profissionais especializados. 
É fundamental que a escolha da intervenção considere as características 
individuais, a idade, o nível de suporte necessário e o contexto familiar. 
Intervenções padronizadas, sem adaptação às necessidades específicas, 
tendem a ter resultados limitados. A personalização é, portanto, um princípio 
central das práticas recomendadas. 
Outro aspecto importante é o monitoramento contínuo dos resultados. A 
efetividade das intervenções deve ser avaliada periodicamente, utilizando 
instrumentos padronizados e observações funcionais. Essa prática permite 
ajustes no plano terapêutico e evita a manutenção de estratégias ineficazes. 
Além das abordagens principais, há outras metodologias e recursos 
complementares que podem ser integrados, como terapias mediadas por pais, 
programas de habilidades sociais e tecnologia assistiva. Contudo, é essencial 
diferenciar práticas validadas de abordagens sem respaldo científico, evitando 
desperdício de recursos e expectativas irreais. 
Por fim, intervenções baseadas em evidências não se restringem ao 
ambiente clínico. Elas devem ser incorporadas à rotina diária, com orientação e 
capacitação da família, cuidadores e equipe escolar, assegurando a 
generalização das habilidades adquiridas. Essa integração multiprofissional e 
intersetorial é um dos pilares das políticas públicas brasileiras voltadas para o 
TEA. 
 
 
27 
 
3.2 Plano de Intervenção Individualizado (PII) 
 
O Plano de Intervenção Individualizado (PII) é um documento técnico 
que organiza, de forma estruturada, as metas e estratégias de intervenção para 
a pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), considerando suas 
necessidades específicas, pontos fortes e contexto de vida. Ele integra 
objetivos terapêuticos e educacionais, articulando a atuação de diferentes 
profissionais e setores envolvidos no cuidado.A Portaria GM/MS nº 793/2012, que institui a Rede de Cuidados à 
Pessoa com Deficiência no âmbito do SUS, determina que o planejamento 
terapêutico seja individualizado e multiprofissional, com revisão periódica. Essa 
diretriz está em consonância com a Lei nº 12.764/2012, que estabelece a 
Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA e assegura 
acesso a serviços especializados de saúde e educação. 
Um PII eficaz deve conter metas específicas, mensuráveis, alcançáveis, 
relevantes e com prazo definido — seguindo o modelo SMART (Specific, 
Measurable, Achievable, Relevant, Time-bound). Por exemplo, em vez de 
estabelecer a meta genérica “melhorar a comunicação”, o plano pode 
especificar “aumentar o uso espontâneo de frases de três palavras para pedir 
objetos durante brincadeiras estruturadas, em 3 meses”. 
O processo de elaboração do PII começa com uma avaliação 
multiprofissional detalhada, incluindo diagnósticos clínicos e funcionais, 
avaliação de habilidades cognitivas, linguagem, comportamento adaptativo, 
aspectos sensoriais e motores. Essa etapa permite definir prioridades de 
intervenção com base em evidências, evitando sobrecarga de metas e 
garantindo foco no que é mais significativo para a qualidade de vida. 
Outro ponto essencial é a integração entre objetivos terapêuticos e 
educacionais. Crianças e adolescentes com TEA, por exemplo, devem ter um 
plano que contemple tanto o desenvolvimento de habilidades acadêmicas 
quanto sociais, de comunicação e autonomia. Isso implica alinhar o PII com as 
adaptações previstas no plano educacional individualizado (PEI), utilizado no 
contexto escolar, para evitar ações desconexas. 
A participação da família é um elemento central no sucesso do PII. Os 
pais ou cuidadores devem ser envolvidos desde a definição das metas, para 
 
28 
 
que o plano seja realista e condizente com a rotina familiar. Além disso, é 
importante oferecer treinamento e orientações que permitam a aplicação de 
estratégias em casa, favorecendo a generalização das habilidades aprendidas. 
A revisão do PII deve ocorrer periodicamente, geralmente a cada 3 ou 6 
meses, ou conforme definido pela equipe. Essa revisão serve para analisar o 
progresso, ajustar metas e, se necessário, incluir novas estratégias. A ausência 
de revisões pode levar à estagnação do desenvolvimento ou à manutenção de 
objetivos que já foram alcançados ou deixaram de ser prioritários. 
O documento do PII deve ser claro, objetivo e acessível, de forma que 
todos os profissionais envolvidos compreendam suas diretrizes e possam 
acompanhar sua execução. A linguagem inclusiva e o registro de 
responsabilidades de cada membro da equipe são fundamentais para manter a 
coesão e a corresponsabilidade pelo progresso do indivíduo. 
Do ponto de vista legal, um PII bem elaborado e documentado também 
pode servir como instrumento de garantia de direitos, auxiliando em processos 
administrativos ou judiciais para obtenção de recursos, terapias e adaptações, 
caso haja negativa por parte de instituições ou órgãos públicos. 
Por fim, o PII deve ser visto como um instrumento vivo e dinâmico, 
adaptável às mudanças nas necessidades e potencialidades da pessoa com 
TEA. Ele não é apenas um registro burocrático, mas uma ferramenta de 
planejamento estratégico que direciona o trabalho terapêutico e educacional, 
garantindo que cada ação esteja alinhada ao objetivo maior: promover a 
autonomia, a inclusão e a qualidade de vida da pessoa atendida. 
 
3.3 Educação Inclusiva e Adaptações Curriculares 
 
A educação inclusiva é um direito fundamental das pessoas com 
Transtorno do Espectro Autista (TEA), garantindo o acesso, a participação e a 
aprendizagem em igualdade de condições com os demais estudantes. Esse 
princípio está consolidado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), 
no Decreto nº 10.502/2020 e na Lei nº 14.254/2021, que reforçam a 
obrigatoriedade de adaptações pedagógicas e estratégias personalizadas de 
ensino para atender às necessidades específicas desses alunos. 
 
29 
 
A BNCC estabelece competências gerais que devem ser desenvolvidas 
por todos os estudantes, incluindo aqueles com deficiência. No caso do TEA, 
isso implica não apenas na adequação de conteúdos, mas também na 
modificação de metodologias, avaliação e recursos didáticos. O objetivo é 
garantir que o estudante alcance o máximo de seu potencial acadêmico e 
social, respeitando seu ritmo e estilo de aprendizagem. 
O Decreto nº 10.502/2020 institui a Política Nacional de Educação 
Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida, que prevê 
a identificação e eliminação de barreiras que impeçam ou dificultem a plena 
participação do estudante com TEA na escola. Essa política abrange desde 
adaptações arquitetônicas e tecnológicas até a formação de professores para o 
uso de práticas pedagógicas inclusivas. 
A Lei nº 14.254/2021 acrescenta uma dimensão importante ao prever o 
acompanhamento especializado de estudantes com TEA na rede escolar, por 
meio de profissionais de apoio escolar, intérpretes e cuidadores, conforme a 
necessidade. Essa legislação reforça o papel da escola como espaço de 
acolhimento e não apenas de transmissão de conhecimento. 
As adaptações curriculares para estudantes com TEA devem ser 
individualizadas, levando em conta o diagnóstico, o perfil de habilidades e 
dificuldades, e o plano educacional individualizado (PEI), que deve estar 
alinhado ao Plano de Intervenção Individualizado (PII) utilizado no contexto 
terapêutico. Essas adaptações podem incluir a simplificação de instruções, uso 
de linguagem clara, apoio visual, flexibilização no tempo de atividades e 
avaliação por meio de diferentes formatos. 
O uso de metodologias ativas e recursos visuais é particularmente eficaz 
para alunos com TEA, que muitas vezes apresentam facilidade em 
compreender informações apresentadas de forma concreta e estruturada. 
Estratégias como o uso de agendas visuais, roteiros de tarefas e organizadores 
gráficos ajudam a antecipar eventos e a reduzir a ansiedade. 
Outro elemento essencial é a formação continuada dos professores. A 
BNCC e o Decreto nº 10.502/2020 destacam que o desenvolvimento de 
práticas inclusivas depende da capacitação docente em temas como 
desenvolvimento infantil, estratégias de ensino diferenciadas e manejo de 
comportamentos desafiadores no contexto escolar. 
 
30 
 
A avaliação escolar também precisa ser adaptada, valorizando o 
progresso individual e não apenas o desempenho em relação aos padrões da 
turma. Isso pode incluir avaliações orais, uso de recursos assistivos e 
adequações no ambiente de prova. A Lei nº 14.254/2021 orienta que as 
adaptações sejam garantidas para promover a equidade no processo 
avaliativo. 
A parceria entre escola, família e equipe terapêutica é determinante para 
o sucesso da inclusão. A comunicação constante permite alinhar expectativas, 
compartilhar estratégias e reforçar as aprendizagens em diferentes contextos. 
Essa integração garante coerência nas abordagens e fortalece o 
desenvolvimento global do estudante. 
Por fim, a educação inclusiva não deve ser vista apenas como 
cumprimento de uma obrigação legal, mas como parte de uma transformação 
cultural que reconhece a diversidade como um valor. As adaptações 
curriculares, quando bem planejadas e implementadas, não beneficiam apenas 
o aluno com TEA, mas toda a comunidade escolar, promovendo uma 
convivência mais rica, empática e colaborativa. 
 
3.4 Intervenção Multiprofissional 
 
A intervenção multiprofissional no atendimento ao Transtorno do 
Espectro Autista (TEA) é reconhecida como uma das estratégias mais eficazes 
para promover o desenvolvimento global da pessoa, potencializar resultados e 
prevenir a sobreposição ou lacunas nas condutas terapêuticas. Trata-se de um 
modelo colaborativo que reúne profissionais de saúde, educação e assistência 
social,articulados em torno de objetivos comuns. 
A atuação multiprofissional é respaldada pelas resoluções específicas de 
cada conselho profissional — Conselho Federal de Psicologia (CFP), Conselho 
Federal de Medicina (CFM), Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) e 
Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) — que 
estabelecem atribuições, limites éticos e parâmetros técnicos para a atuação 
no TEA. Essas normativas garantem que cada profissional atue dentro de sua 
competência legal, favorecendo a complementaridade e a segurança do 
atendimento. 
 
31 
 
No campo da psicologia, a Resolução CFP nº 09/2018 orienta a 
avaliação e intervenção com base em métodos cientificamente reconhecidos, 
garantindo que estratégias como ABA, treino de habilidades sociais e manejo 
comportamental sejam aplicadas por profissionais capacitados. O psicólogo 
atua na promoção da regulação emocional, no desenvolvimento de habilidades 
sociais e na modificação de comportamentos disfuncionais. 
O médico, conforme a Resolução CFM nº 2.324/2022, é responsável 
pelo diagnóstico clínico e pela prescrição de tratamentos farmacológicos, 
quando necessários, bem como pelo acompanhamento de comorbidades 
médicas ou psiquiátricas. O papel do médico é crucial na articulação entre 
avaliação clínica e intervenções terapêuticas. 
O fonoaudiólogo, respaldado pela Resolução CFFa nº 356/2008, 
contribui para o desenvolvimento da comunicação verbal e não verbal, 
linguagem funcional e habilidades de compreensão e expressão. Atua também 
em orientações para a família e escola, auxiliando na implementação de 
estratégias comunicativas no cotidiano. 
O terapeuta ocupacional, regido pela Resolução COFFITO nº 316/2006, 
foca na autonomia funcional, no processamento sensorial, na coordenação 
motora e na adaptação de ambientes, permitindo que a pessoa com TEA 
participe de forma mais plena nas atividades da vida diária, escolares e sociais. 
A integração desses profissionais evita sobreposição de condutas, um 
problema comum quando as intervenções são planejadas de forma isolada. Por 
exemplo, estratégias de comunicação desenvolvidas pela fonoaudiologia 
podem ser incorporadas nas sessões de psicologia e nas atividades escolares, 
reforçando a aprendizagem e ampliando sua generalização. 
A comunicação contínua entre os profissionais é essencial. Reuniões 
periódicas, registros compartilhados e uso de plataformas de prontuário 
integrado são práticas recomendadas para assegurar que todos estejam 
alinhados quanto às metas, progressos e ajustes necessários no plano de 
intervenção. 
A presença de profissionais da educação no trabalho multiprofissional é 
igualmente relevante. Professores, coordenadores pedagógicos e profissionais 
de apoio escolar, quando capacitados e integrados à equipe, contribuem para a 
 
32 
 
coerência das estratégias entre o contexto terapêutico e o ambiente 
educacional, fortalecendo a inclusão. 
Além da saúde e educação, a participação de assistentes sociais pode 
ser fundamental para orientar a família sobre benefícios, legislações e recursos 
comunitários disponíveis. Essa dimensão social garante que a intervenção não 
se restrinja ao consultório ou à sala de aula, mas abranja também a defesa de 
direitos e a redução de barreiras sociais. 
Por fim, a intervenção multiprofissional deve ser centrada na pessoa e 
adaptada às suas necessidades específicas. Mais do que a soma de 
especialidades, trata-se de uma prática integrada, na qual cada profissional 
entende o papel do outro e contribui para um plano coeso e funcional. Quando 
bem executado, esse modelo amplia as oportunidades de desenvolvimento, 
favorece a inclusão e assegura o cumprimento dos princípios éticos e legais 
que regem o atendimento às pessoas com TEA. 
 
3.5 Uso de Medicamentos 
 
O uso de medicamentos no Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é 
direcionado ao tratamento do núcleo do transtorno — déficits na comunicação 
social e padrões restritos e repetitivos de comportamento —, mas sim ao 
manejo de sintomas associados e comorbidades que possam comprometer 
significativamente o funcionamento e a qualidade de vida. Esses sintomas 
incluem irritabilidade grave, agressividade, hiperatividade, transtornos de 
ansiedade, depressão, insônia e crises epilépticas. 
De acordo com as Diretrizes de Prescrição do Conselho Federal de 
Medicina (CFM), a indicação farmacológica deve ser precedida de avaliação 
clínica completa e de tentativa prévia de intervenções não farmacológicas 
sempre que possível, especialmente no manejo de comportamentos 
desafiadores. A medicação é considerada uma ferramenta complementar, e 
não substitutiva, das abordagens psicossociais e educacionais. 
Entre os medicamentos mais frequentemente utilizados no TEA, 
destacam-se os antipsicóticos atípicos, como risperidona e aripiprazol, 
aprovados para o tratamento de irritabilidade associada ao autismo. Evidências 
científicas, incluindo revisões sistemáticas da Cochrane, apontam que esses 
 
33 
 
fármacos podem reduzir comportamentos agressivos e episódios de 
autoagressão, embora demandem monitoramento rigoroso devido a possíveis 
efeitos colaterais, como ganho de peso e alterações metabólicas. 
Para sintomas de hiperatividade e impulsividade, especialmente quando 
há diagnóstico comórbido de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade 
(TDAH), medicamentos psicoestimulantes como o metilfenidato podem ser 
considerados. No entanto, a resposta ao tratamento é variável e requer ajuste 
individualizado da dose, com acompanhamento cuidadoso dos efeitos 
adversos. 
Em casos de ansiedade grave ou depressão, antidepressivos como os 
inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) podem ser utilizados, 
embora a literatura científica indique resultados mistos e a necessidade de 
prescrição cautelosa, principalmente em crianças e adolescentes, devido ao 
risco de aumento de ideação suicida. 
Para distúrbios do sono, frequentemente relatados no TEA, a melatonina 
tem sido amplamente prescrita e apresenta bom perfil de segurança, segundo 
estudos clínicos controlados. A melhora do sono pode, indiretamente, contribuir 
para a redução de irritabilidade e para melhor desempenho diurno. 
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para o TEA, 
elaborado pelo Ministério da Saúde, orienta que todo tratamento farmacológico 
seja acompanhado de avaliação periódica de eficácia e segurança. Isso implica 
não apenas monitorar os sintomas-alvo, mas também realizar exames 
laboratoriais e avaliações clínicas para identificar precocemente efeitos 
adversos. 
É fundamental que a prescrição esteja documentada em prontuário e 
que a família seja devidamente informada sobre os objetivos do uso da 
medicação, possíveis efeitos colaterais e sinais de alerta. O consentimento 
informado é uma exigência ética prevista no Código de Ética Médica e nas 
normativas de prática clínica. 
O tratamento farmacológico deve sempre ser parte de um plano 
terapêutico integrado, articulado com intervenções comportamentais, 
educacionais e de suporte familiar. Essa integração favorece a potencialização 
dos efeitos positivos e evita que a medicação seja vista como solução isolada 
para questões que requerem abordagem multidimensional. 
 
34 
 
Por fim, é necessário enfatizar que a decisão de iniciar, manter ou 
suspender o uso de medicamentos no TEA deve ser baseada em critérios 
clínicos objetivos, nas diretrizes nacionais e internacionais e na participação 
ativa da família ou cuidadores. O uso responsável e ético da farmacoterapia 
contribui para o manejo adequado de sintomas associados, melhorando a 
funcionalidade e a qualidade de vida da pessoa com TEA. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35 
 
UNIDADE 4 – DIREITOS, POLÍTICAS PÚBLICAS E ÉTICA PROFISSIONAL 
 
4.1 Direitos Fundamentais 
 
As

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