Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

TRANSTORNO MENTAL E AUTISMO 
 
 
2 
 
 
Sumário 
INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 3 
UNIDADE 1 – FUNDAMENTOS E CLASSIFICAÇÕES ATUAIS ............................................................ 4 
1.1 Conceitos de Transtorno Mental e Neurodesenvolvimento ................................................... 4 
1.2 Do CID-10 ao CID-11: Mudanças e Impactos........................................................................... 6 
1.3 Estrutura do DSM-5-TR ............................................................................................................ 8 
1.4 Terminologia Ética e Inclusiva ............................................................................................... 11 
1.5 Classificações Comórbidas .................................................................................................... 13 
UNIDADE 2 – TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) ......................................................... 16 
2.1 Definição Atual e Critérios Diagnósticos ............................................................................... 16 
2.2 Epidemiologia e Prevalência.................................................................................................. 18 
2.3 Etiologia e Fatores de Risco ................................................................................................... 20 
2.4 Avaliação Diagnóstica ............................................................................................................ 22 
2.5 Intervenções Baseadas em Evidências .................................................................................. 24 
UNIDADE 3 – DIREITOS E POLÍTICAS PÚBLICAS ........................................................................... 27 
3.1 Direitos Fundamentais .......................................................................................................... 27 
3.2 Educação Inclusiva ................................................................................................................. 29 
3.3 Atendimento no SUS ............................................................................................................. 31 
3.4 Mercado de Trabalho e Inclusão Profissional ........................................................................ 33 
3.5 Benefícios e Apoios Sociais ................................................................................................... 35 
UNIDADE 4 – PRÁTICAS PROFISSIONAIS E ÉTICAS ....................................................................... 38 
4.1 Conduta Profissional no Diagnóstico ..................................................................................... 38 
4.2 Trabalho Multiprofissional..................................................................................................... 39 
4.3 Comunicação com Famílias ................................................................................................... 42 
4.4 Planejamento de Intervenção Individualizada ...................................................................... 43 
4.5 Formação Continuada e Atualização ..................................................................................... 45 
Plano Anual de Formação Continuada – Equipe Multiprofissional em TEA ................................ 48 
Estrutura Geral .................................................................................................................. 48 
Avaliação............................................................................................................................ 50 
CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................................. 51 
REFERÊNCIAS ............................................................................................................................... 52 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
A atuação multiprofissional no cuidado e inclusão da pessoa com 
Transtorno do Espectro Autista (TEA) demanda não apenas competências 
técnicas adquiridas na formação inicial, mas também atualização constante 
frente aos avanços científicos, às mudanças nos sistemas classificatórios e à 
evolução das práticas baseadas em evidências. A formação continuada é, 
portanto, um requisito ético e legal, previsto na Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996, arts. 61 e 67) e respaldado por 
normativas específicas de cada conselho profissional, garantindo que o 
atendimento seja qualificado, humanizado e centrado na pessoa. 
Este plano anual de formação continuada foi elaborado para atender às 
necessidades de atualização de equipes que atuam em contextos de saúde, 
educação e assistência social, contemplando módulos temáticos que abrangem 
desde aspectos diagnósticos — com base no CID-11 e no DSM-5-TR — até 
metodologias de intervenção, comunicação com famílias, elaboração de planos 
individualizados e uso de tecnologias assistivas. O documento também integra 
diretrizes legais e normativas nacionais, como a Portaria MS nº 793/2012, que 
institui a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no SUS, e a Lei nº 
12.764/2012, que reconhece a pessoa com TEA como pessoa com deficiência 
para todos os efeitos legais. 
O propósito central desta proposta é criar uma trilha de aprendizagem 
contínua, acessível e adaptável à realidade das equipes, visando ao 
desenvolvimento de competências técnicas, à integração de saberes e ao 
fortalecimento de práticas interdisciplinares. Ao investir na formação contínua, 
reforça-se não apenas a qualidade das intervenções, mas também o 
compromisso social e ético de promover inclusão, autonomia e qualidade de vida 
às pessoas com TEA e suas famílias. 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
UNIDADE 1 – FUNDAMENTOS E CLASSIFICAÇÕES ATUAIS 
1.1 Conceitos de Transtorno Mental e Neurodesenvolvimento 
 
Os transtornos mentais e do neurodesenvolvimento configuram um 
conjunto de condições de saúde que afetam de forma significativa o 
funcionamento cognitivo, emocional e comportamental dos indivíduos. Segundo 
a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022), essas condições podem 
envolver alterações persistentes no pensamento, no humor, na percepção e no 
comportamento, interferindo diretamente na qualidade de vida e na participação 
social. De acordo com o CID-11, os transtornos do neurodesenvolvimento 
incluem uma gama de diagnósticos cujo início ocorre tipicamente na infância ou 
adolescência, refletindo disfunções no desenvolvimento do sistema nervoso 
central. 
O conceito de transtorno mental evoluiu historicamente, passando de 
visões moralistas e religiosas para perspectivas fundamentadas em evidências 
científicas. Foucault (2003) descreve como a sociedade, ao longo dos séculos, 
reinterpretou comportamentos considerados desviantes, deslocando-os do 
campo da “loucura” para a esfera clínica. Atualmente, a compreensão de 
transtornos mentais envolve um olhar biopsicossocial, considerando fatores 
biológicos, psicológicos e sociais na gênese e manutenção das condições. 
No campo específico dos transtornos do neurodesenvolvimento, o DSM-
5-TR (APA, 2022) define-os como condições com início no período do 
desenvolvimento, caracterizadas por déficits que causam prejuízos no 
funcionamento pessoal, social, acadêmico ou profissional. Entre esses 
transtornos, destacam-se o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno 
de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), os Transtornos Específicos da 
Aprendizagem e os Transtornos da Comunicação. 
A terminologia atualizada desempenha papel crucial na 
desestigmatização. Expressões como “retardo mental” foram substituídas por 
Deficiência Intelectual, conforme preconiza o CID-11 e a Lei Brasileira de 
Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015). Essa mudança não é 
apenas linguística, mas reflete um compromissoinstrumentos de incentivo à 
inclusão. Programas como o Pronatec/TEA e parcerias com o Sistema S (Senai, 
Senac, Sesi, Senar) possibilitam capacitação profissional adaptada. Além disso, 
acordos de cooperação entre Ministério do Trabalho, entidades representativas 
e empresas privadas têm fomentado iniciativas de formação e empregabilidade 
para pessoas com TEA. 
O cumprimento da Lei de Cotas é fiscalizado pelo Ministério do Trabalho 
e Emprego (MTE), que pode aplicar multas em caso de descumprimento. No 
entanto, a mera contratação formal não garante inclusão efetiva. O artigo 34 da 
LBI estabelece que a acessibilidade no ambiente de trabalho deve ser plena, o 
que inclui adaptações tecnológicas, arquitetônicas, comunicacionais e 
metodológicas, de forma a permitir o desempenho adequado das funções. 
Outro ponto relevante é a permanência no emprego. A taxa de rotatividade 
entre trabalhadores com deficiência, incluindo TEA, pode ser alta quando não há 
suporte adequado. Por isso, o acompanhamento pós-contratação é tão 
importante quanto a etapa de admissão, permitindo ajustes no trabalho e 
 
 
35 
 
 
garantindo que as necessidades do funcionário sejam atendidas de forma 
contínua. 
Por fim, a inclusão profissional da pessoa com TEA é um compromisso 
social que exige ações conjuntas do setor público, das empresas, das famílias e 
das próprias pessoas com deficiência. A legislação brasileira oferece a estrutura 
normativa — por meio da Lei nº 8.213/1991, Decreto nº 3.298/1999 e Lei nº 
12.764/2012 —, mas a efetivação desse direito depende da construção de 
ambientes de trabalho realmente inclusivos, que reconheçam e valorizem a 
diversidade como um ativo humano e organizacional. 
3.5 Benefícios e Apoios Sociais 
 
As pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), equiparadas por 
lei às pessoas com deficiência, têm acesso a um conjunto de benefícios e apoios 
sociais que visam reduzir barreiras à sua participação plena na sociedade e 
garantir condições dignas de vida. No Brasil, esses direitos encontram respaldo 
em legislações como a Lei Orgânica da Assistência Social (Lei nº 8.742/1993) e 
a Lei nº 8.989/1995, além de outras normas complementares. 
Um dos principais benefícios é o Benefício de Prestação Continuada 
(BPC/LOAS), previsto no artigo 20 da Lei nº 8.742/1993. O BPC garante o 
pagamento de um salário-mínimo mensal à pessoa com deficiência, 
independentemente de idade, desde que comprove não possuir meios de prover 
a própria manutenção nem de tê-la provida por sua família. Para efeito de 
cálculo, a renda familiar per capita deve ser igual ou inferior a 1/4 do salário-
mínimo, embora decisões judiciais e normativas recentes flexibilizem esse 
critério considerando outros fatores de vulnerabilidade. 
A concessão do BPC ao público com TEA é possível porque a Lei nº 
12.764/2012 estabelece, em seu artigo 1º, § 2º, que a pessoa com TEA é 
considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Além disso, a 
Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) reforça esse enquadramento e 
garante o acesso a todos os direitos e benefícios previstos para pessoas com 
deficiência. 
Outro direito importante é a isenção de tributos para aquisição de veículos. 
A Lei nº 8.989/1995 concede isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados 
 
 
36 
 
 
(IPI) na compra de veículos novos por pessoas com deficiência física, visual, 
mental severa ou profunda, e por autistas. Essa isenção pode ser utilizada tanto 
para aquisição de veículo para uso próprio quanto para transporte pelo 
representante legal, quando a pessoa com TEA não puder conduzir. 
Além do IPI, legislações estaduais e municipais podem prever isenção de 
ICMS e IPVA, variando conforme a unidade federativa. Essas isenções visam 
facilitar o acesso a transporte adequado, o que é especialmente relevante para 
famílias que precisam deslocar a pessoa com TEA com frequência para terapias, 
consultas e atividades sociais. 
No campo do transporte público, diversas cidades e estados oferecem 
passe livre ou gratuidade no transporte coletivo para pessoas com TEA e, em 
alguns casos, para um acompanhante. Essa política busca reduzir barreiras de 
deslocamento, especialmente para tratamentos regulares e participação em 
atividades comunitárias. 
As pessoas com TEA também podem se beneficiar de programas sociais 
vinculados ao Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal 
(CadÚnico), que permite acesso a iniciativas como a Tarifa Social de Energia 
Elétrica e programas de transferência de renda. A inscrição no CadÚnico é 
frequentemente um requisito para acessar benefícios complementares ao BPC. 
Em alguns municípios, existem ainda programas de apoio domiciliar e 
serviços de cuidador, ofertados por secretarias de assistência social, destinados 
a famílias em situação de vulnerabilidade. Embora não haja obrigatoriedade 
nacional, essas iniciativas contribuem para o alívio da sobrecarga dos 
cuidadores e para a melhoria da qualidade de vida da pessoa com TEA. 
Cabe destacar que o acesso a esses benefícios requer, em geral, 
documentação comprobatória do diagnóstico, emitida por profissional habilitado 
e, para alguns casos, laudo codificado no CID-11, conforme exigência da 
Resolução CFM nº 2.324/2022. Esse cuidado padroniza o reconhecimento do 
direito e evita indeferimentos por questões formais. 
Apesar do arcabouço legal robusto, barreiras burocráticas e falta de 
informação ainda dificultam o acesso a benefícios e apoios sociais. Por isso, a 
atuação de profissionais da saúde, assistência social e advocacia é essencial 
para orientar famílias sobre seus direitos e procedimentos. 
 
 
37 
 
 
Por fim, é fundamental que o conjunto de benefícios e apoios sociais seja 
compreendido como parte de uma política de proteção social ampliada, e não 
como concessão assistencialista. O BPC, as isenções tributárias e outros apoios 
devem funcionar como instrumentos para garantir a autonomia, a inclusão e a 
plena participação da pessoa com TEA na vida comunitária, em consonância 
com os princípios da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência 
(ONU, 2006) e da legislação brasileira. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38 
 
 
UNIDADE 4 – PRÁTICAS PROFISSIONAIS E ÉTICAS 
4.1 Conduta Profissional no Diagnóstico 
 
A conduta profissional no diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista 
(TEA) deve se pautar por princípios éticos, científicos e legais que assegurem o 
respeito à dignidade e aos direitos da pessoa avaliada. Tanto o Código de Ética 
Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005) quanto o Código de Ética 
Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) estabelecem diretrizes para que o 
processo diagnóstico ocorra com responsabilidade técnica e compromisso 
social, evitando estigmatizações e garantindo a confidencialidade das 
informações. 
O primeiro princípio é o respeito à autonomia e à autodeterminação da 
pessoa avaliada. Isso implica fornecer informações claras sobre o processo, 
seus objetivos, possíveis desdobramentos e limitações. O consentimento 
informado, previsto no art. 6º do Código de Ética Médica e no art. 8º do Código 
de Ética do Psicólogo, é obrigatório e deve ser obtido de forma livre e 
esclarecida, levando em conta o nível de compreensão do paciente ou, no caso 
de crianças, de seus responsáveis legais. 
Outro elemento central é o sigilo profissional. O art. 9º do Código de Ética 
do Psicólogo e o art. 73 do Código de Ética Médica determinam que informações 
obtidas durante a avaliação só podem ser compartilhadas com autorização 
expressa do paciente ou por exigência legal. No contexto do TEA, isso significa 
que relatórios e laudos devem circular apenas entre profissionais diretamente 
envolvidos no cuidado e com a anuência da família ou do próprio indivíduo. 
A evitação de estigmas é também um princípio norteador.A utilização de 
terminologia atualizada, conforme o CID-11 e o DSM-5-TR, contribui para afastar 
termos ultrapassados e pejorativos, reduzindo preconceitos. O profissional deve 
enfatizar que o diagnóstico não define a totalidade da pessoa e que o TEA é uma 
condição de neurodesenvolvimento com ampla variabilidade funcional. 
A responsabilidade técnica exige que o diagnóstico seja fundamentado 
em métodos e técnicas cientificamente reconhecidos. Isso inclui a utilização de 
instrumentos validados, entrevistas clínicas estruturadas e observações 
sistemáticas. Diagnósticos emitidos sem evidências robustas podem causar 
 
 
39 
 
 
danos significativos, tanto pela aplicação indevida de intervenções quanto por 
prejuízos à autoestima e aos direitos da pessoa avaliada. 
No caso específico do psicólogo, a Resolução CFP nº 09/2018 orienta 
sobre a elaboração de documentos escritos, destacando a necessidade de 
clareza, precisão e contextualização das informações. Laudos e pareceres 
devem conter apenas dados relevantes para o objetivo do documento, evitando 
exposição desnecessária de aspectos da vida pessoal que não guardem relação 
com o diagnóstico. 
Já no campo médico, a Resolução CFM nº 2.324/2022 reforça que os 
laudos devem utilizar a codificação oficial do CID-11, garantindo uniformidade e 
validade administrativa para fins de acesso a direitos e benefícios. O médico 
também deve respeitar os limites de sua especialidade e, quando necessário, 
encaminhar para outros profissionais ou equipes multiprofissionais para 
complementar a avaliação. 
Outro ponto relevante é a sensibilidade cultural e social. Tanto o CFP 
quanto o CFM destacam que o profissional deve considerar as variáveis 
socioculturais que possam influenciar a manifestação e a interpretação dos 
sinais e sintomas. Isso evita que comportamentos culturalmente esperados 
sejam erroneamente interpretados como patológicos. 
O trabalho multiprofissional no diagnóstico do TEA demanda 
comunicação ética entre diferentes áreas, como psicologia, psiquiatria, 
fonoaudiologia, terapia ocupacional e pedagogia. Essa comunicação deve 
ocorrer de forma estruturada, respeitando o sigilo e a autonomia do paciente, e 
com o objetivo único de favorecer a compreensão integral do caso. 
Por fim, é essencial compreender que a conduta profissional no 
diagnóstico do TEA não se encerra com a entrega do laudo. O pós-diagnóstico 
exige acompanhamento, orientações adequadas à família e encaminhamentos 
para serviços de apoio e intervenção. Essa continuidade do cuidado garante que 
o diagnóstico seja um instrumento de inclusão e promoção da qualidade de vida, 
e não apenas um rótulo clínico. 
 
4.2 Trabalho Multiprofissional 
 
 
 
40 
 
 
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição complexa e 
heterogênea, que impacta diferentes áreas do desenvolvimento humano, 
exigindo uma abordagem terapêutica integrada e coordenada por uma equipe 
multiprofissional. Essa perspectiva está alinhada às diretrizes internacionais da 
Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022) e às normativas nacionais dos 
diversos Conselhos Profissionais, que reconhecem a importância da atuação 
interdisciplinar para alcançar resultados significativos no desenvolvimento e na 
inclusão social da pessoa com TEA. 
A atuação multiprofissional envolve a colaboração de profissionais de 
diferentes áreas, entre os quais destacam-se psicólogos, psiquiatras, 
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, pedagogos, 
educadores físicos e assistentes sociais. Cada profissional contribui com 
competências específicas, mas todos trabalham de forma articulada, 
compartilhando informações e objetivos para um plano de intervenção unificado. 
Essa abordagem evita duplicidade de ações, assegura coerência no tratamento 
e potencializa ganhos funcionais. 
No campo da psicologia, regulamentado pela Resolução CFP nº 013/2007 
e pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005), a 
atuação inclui avaliação diagnóstica, intervenções comportamentais baseadas 
em evidências (como ABA), apoio socioemocional e orientação familiar. O 
psicólogo também desempenha papel central na coordenação de estratégias de 
generalização de habilidades para diferentes contextos. 
O médico psiquiatra, conforme normativas do Conselho Federal de 
Medicina (CFM), é responsável pelo diagnóstico diferencial, prescrição de 
medicamentos quando necessário, e acompanhamento clínico de comorbidades 
como ansiedade, TDAH e epilepsia. No caso de crianças, a atuação do 
neuropediatra pode ser fundamental na investigação inicial e na integração das 
informações para um laudo conclusivo, utilizando o CID-11 conforme determina 
a Resolução CFM nº 2.324/2022. 
O fonoaudiólogo, segundo a Resolução CFFa nº 356/2008, atua no 
desenvolvimento da comunicação verbal e não verbal, incluindo a 
implementação de sistemas de comunicação alternativa e aumentativa, como o 
 
 
41 
 
 
PECS. Ele também intervém em questões relacionadas à motricidade orofacial 
e alimentação, áreas frequentemente afetadas em indivíduos com TEA. 
O terapeuta ocupacional, regulamentado pelo COFFITO (Resolução nº 
316/2006), contribui com estratégias para o desenvolvimento da autonomia nas 
atividades de vida diária, adaptação de ambientes, treinamento de habilidades 
motoras finas e regulação sensorial. Sua intervenção é especialmente relevante 
para minimizar dificuldades que interferem na participação social e escolar. 
Em conjunto, o pedagogo e outros profissionais da educação têm papel 
fundamental na adaptação curricular e no uso de metodologias inclusivas, de 
acordo com a BNCC (2017) e o Decreto nº 10.502/2020. Eles colaboram com a 
equipe de saúde para alinhar objetivos educacionais com metas terapêuticas, 
garantindo coerência entre os contextos escolar e clínico. 
A fisioterapia, também regulamentada pelo COFFITO, quando indicada, 
auxilia no desenvolvimento motor global, equilíbrio e coordenação, além de 
contribuir para prevenção de deformidades e melhoria da postura, aspectos que 
podem impactar o conforto e a participação em atividades escolares e sociais. 
Para que o trabalho multiprofissional seja eficaz, é necessário estabelecer 
planos de intervenção individualizados (PII), construídos de forma colaborativa 
entre todos os profissionais e a família. Esses planos devem conter objetivos 
claros, mensuráveis e revisados periodicamente, considerando a evolução do 
indivíduo e suas necessidades em diferentes fases da vida. 
As reuniões de equipe são fundamentais para alinhar estratégias, 
compartilhar resultados e ajustar abordagens. Esse tipo de comunicação, que 
respeita as normas de sigilo de cada conselho profissional, evita contradições 
nas orientações e garante que todos trabalhem em direção aos mesmos 
objetivos. 
Por fim, o trabalho multiprofissional no TEA deve ser centrado na pessoa 
e orientado pela família, considerando não apenas os aspectos clínicos, mas 
também sociais, educacionais e ocupacionais. A integração efetiva das 
diferentes áreas não apenas otimiza o progresso, mas também reduz o estresse 
dos cuidadores, favorece a inclusão e promove a autonomia, pilares defendidos 
pelas legislações brasileiras de proteção à pessoa com deficiência. 
 
 
42 
 
 
4.3 Comunicação com Famílias 
 
A comunicação entre profissionais de saúde, educação e assistência 
social e as famílias de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um 
elemento central para o sucesso das intervenções terapêuticas e educacionais. 
O diálogo claro, empático e orientado à realidade da família não apenas fortalece 
a relação de confiança, mas também favorece a adesão ao tratamento, aspecto 
amplamente destacado na Política Nacional de Humanização (PNH), instituída 
pela Portaria MS nº 2.528/2006. 
O primeiro princípio de uma comunicação eficaz é a escuta qualificada, 
que vai além de registrar informaçõesobjetivas, buscando compreender 
sentimentos, expectativas e dificuldades vivenciadas pela família. Essa escuta 
ativa, prevista como diretriz da PNH, permite que o profissional identifique 
barreiras não apenas clínicas, mas também emocionais e sociais, que podem 
interferir na implementação das estratégias de cuidado. 
A clareza na transmissão de informações é outro ponto fundamental. 
Termos técnicos devem ser explicados de forma acessível, evitando jargões que 
possam gerar confusão. Ao comunicar um diagnóstico ou evolução clínica, o 
profissional deve fornecer informações sobre o que é o TEA, quais são as 
possibilidades de intervenção e quais recursos estão disponíveis, sempre 
contextualizando conforme a realidade da família. 
A comunicação empática implica também respeitar o tempo de 
assimilação da informação. Receber um diagnóstico de TEA pode desencadear 
diferentes reações emocionais, como choque, tristeza, negação ou alívio por 
encontrar uma explicação para as dificuldades observadas. O profissional deve 
estar preparado para lidar com essas reações, oferecendo apoio e 
encaminhamentos adequados. 
O envolvimento ativo da família nas decisões sobre o plano terapêutico é 
uma recomendação tanto da PNH quanto das diretrizes da Organização Mundial 
da Saúde (OMS, 2022) para os transtornos do neurodesenvolvimento. Isso 
significa que os objetivos e métodos de intervenção devem ser discutidos e 
acordados com pais ou responsáveis, reconhecendo-os como parte essencial da 
equipe de cuidado. 
 
 
43 
 
 
Um aspecto frequentemente negligenciado é a comunicação contínua, e 
não apenas pontual. A interação com a família deve ocorrer de forma 
sistemática, com atualizações sobre o progresso do indivíduo, revisões do plano 
terapêutico e ajustes necessários. Essa prática contribui para o alinhamento 
entre a atuação clínica e as ações realizadas no ambiente doméstico. 
A sensibilidade cultural também deve ser observada. Valores, crenças e 
práticas familiares influenciam a percepção do diagnóstico e a receptividade às 
intervenções. O profissional deve evitar julgamentos e buscar adaptar 
estratégias que respeitem a cultura da família, sem comprometer a efetividade 
do tratamento. 
Outro fator essencial é a orientação sobre direitos. Muitas famílias 
desconhecem legislações como a Lei nº 12.764/2012 (Política Nacional de 
Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA) e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 
13.146/2015), que asseguram acesso à saúde, educação, trabalho e benefícios 
sociais. Informar sobre esses direitos e sobre como acessá-los é parte do 
compromisso ético e social do profissional. 
A comunicação deve ser também proativa na prevenção de expectativas 
irreais. É papel do profissional esclarecer que, embora as intervenções baseadas 
em evidências possam promover avanços significativos, não existe cura para o 
TEA. Essa postura realista evita frustrações e direciona a energia da família para 
metas alcançáveis e significativas. 
Por fim, a construção de uma relação de confiança entre família e equipe 
multiprofissional se consolida quando há consistência nas orientações e 
coerência entre os diferentes profissionais envolvidos. Para isso, é necessário 
que a equipe adote uma linguagem unificada e compartilhe informações 
relevantes de forma coordenada, respeitando sempre as normas de sigilo 
previstas nos respectivos códigos de ética. 
4.4 Planejamento de Intervenção Individualizada 
 
O planejamento de intervenção individualizada para pessoas com 
Transtorno do Espectro Autista (TEA) constitui uma prática essencial no contexto 
terapêutico e educacional, alinhada ao princípio da atenção centrada na pessoa 
e à promoção da autonomia. No Brasil, essa diretriz está prevista nas Diretrizes 
 
 
44 
 
 
de Reabilitação do SUS instituídas pela Portaria MS nº 793/2012, que determina 
que o plano terapêutico seja elaborado por equipe multiprofissional, 
considerando as necessidades específicas de cada indivíduo e sua família. 
O plano de intervenção individualizada (PII) é um documento que organiza 
e integra as metas, estratégias e recursos necessários para o desenvolvimento 
das habilidades da pessoa com TEA. Sua elaboração começa a partir de uma 
avaliação abrangente, envolvendo aspectos cognitivos, linguísticos, motores, 
sociais, adaptativos e sensoriais. Essa avaliação deve ser conduzida por 
diferentes profissionais, garantindo uma visão holística do perfil funcional do 
indivíduo. 
A personalização é um elemento-chave. Embora existam abordagens 
baseadas em evidências com protocolos definidos — como ABA, TEACCH e 
ESDM —, a seleção de objetivos e métodos deve ser ajustada de acordo com 
as habilidades, interesses e necessidades específicas da pessoa. Esse 
alinhamento aumenta a motivação, melhora a adesão e potencializa os 
resultados. 
O PII deve conter metas mensuráveis e específicas, definidas de forma 
objetiva e passíveis de monitoramento. A metodologia SMART (Specific, 
Measurable, Achievable, Relevant, Time-bound) é amplamente utilizada para 
estruturar essas metas. Por exemplo, em vez de “melhorar a comunicação”, uma 
meta bem formulada poderia ser: “A criança irá iniciar interações verbais 
espontâneas com colegas pelo menos três vezes por hora durante o recreio, em 
8 de cada 10 dias escolares, ao longo de 3 meses”. 
Outro princípio fundamental é a revisão periódica. Conforme orientam as 
Diretrizes de Reabilitação do SUS, o PII deve ser reavaliado em intervalos 
definidos (por exemplo, a cada 3 ou 6 meses) para verificar o progresso e ajustar 
estratégias. Essa prática evita a estagnação, assegura a adequação contínua 
das metas e mantém a intervenção responsiva às mudanças no 
desenvolvimento. 
A participação da família na elaboração e revisão do PII é indispensável. 
Os cuidadores oferecem informações essenciais sobre as rotinas, preferências 
e desafios da pessoa com TEA fora do ambiente terapêutico, permitindo que as 
metas sejam funcionais e relevantes para o dia a dia. Além disso, quando a 
 
 
45 
 
 
família compreende e se envolve nas estratégias, há maior generalização das 
habilidades aprendidas para diferentes contextos. 
O PII também deve articular intervenções intersetoriais, especialmente 
nas áreas de saúde, educação e assistência social. Isso significa que, para um 
estudante com TEA, as metas terapêuticas e escolares devem ser coerentes, 
evitando sobrecarga e garantindo continuidade. Essa integração está prevista no 
artigo 2º da Lei nº 12.764/2012, que estabelece o caráter intersetorial das 
políticas voltadas às pessoas com TEA. 
Outro aspecto importante é o registro documentado do PII. O documento 
deve estar disponível para todos os profissionais envolvidos, respeitando as 
normas de sigilo de cada conselho profissional. Isso assegura que as ações 
sejam coordenadas e que as responsabilidades de cada membro da equipe 
estejam claramente definidas. 
No contexto do SUS, o planejamento de intervenção individualizada 
também cumpre papel de rastreabilidade e avaliação de políticas públicas. 
Dados agregados sobre metas, progressos e dificuldades permitem que 
gestores identifiquem demandas prioritárias, planejem capacitação de equipes e 
ajustem a oferta de serviços especializados. 
Por fim, o PII deve ser entendido como um instrumento dinâmico, 
adaptável e centrado na pessoa. Mais do que um protocolo formal, ele é uma 
ferramenta viva, que orienta e dá sentido às ações da equipe multiprofissional, 
fortalecendo a autonomia, a participação social e a qualidade de vida da pessoa 
com TEA. 
4.5 Formação Continuada e Atualização 
 
A formação continuada dos profissionais que atuam com pessoas com 
Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um requisito fundamental para garantir 
qualidade no diagnóstico, na intervenção e na promoção da inclusão. O avanço 
das pesquisas científicas, a atualização dos sistemas classificatórios — comoo 
CID-11 (OMS, 2022) e o DSM-5-TR (APA, 2022) — e a constante evolução das 
práticas baseadas em evidências exigem que médicos, psicólogos, educadores, 
terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e demais integrantes da equipe 
multiprofissional mantenham-se em permanente atualização. 
 
 
46 
 
 
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), em 
seus artigos 61 e 67, estabelece que a formação de profissionais da educação, 
em qualquer nível de ensino, deve ser orientada para a atualização permanente, 
visando à melhoria da qualidade educacional e à adequação às novas demandas 
sociais. Isso se aplica diretamente aos professores e demais educadores que 
atuam no contexto da educação inclusiva, onde o conhecimento sobre TEA é 
essencial. 
No campo da saúde, os Conselhos Profissionais — como CFM, CFP, 
COFFITO e CFFa — também determinam que a prática profissional seja pautada 
por competência técnica e atualização científica. A Resolução CFP nº 13/2007, 
por exemplo, orienta que psicólogos mantenham conhecimento atualizado sobre 
métodos de avaliação e intervenção, garantindo a qualidade e a ética de sua 
atuação. 
A formação continuada não deve se limitar à participação em cursos 
formais ou congressos. Inclui também a leitura crítica de artigos científicos, a 
discussão de casos clínicos em grupos de estudo, a participação em 
treinamentos específicos sobre protocolos e instrumentos, e a troca de 
experiências interprofissionais. Essa diversidade de fontes de atualização 
contribui para a construção de um repertório mais amplo e aplicável na prática 
cotidiana. 
No caso específico do TEA, novas descobertas genéticas, avanços em 
neuroimagem, estudos sobre neuroplasticidade e o desenvolvimento de 
métodos de intervenção mais eficazes, como o Early Start Denver Model (ESDM) 
ou adaptações culturais do ABA, reforçam a necessidade de atualização 
constante. Um profissional que não acompanha essas mudanças corre o risco 
de aplicar estratégias obsoletas ou menos eficazes. 
A formação continuada interdisciplinar é particularmente relevante, pois o 
trabalho com TEA envolve múltiplas áreas do conhecimento. O diálogo entre 
profissionais de diferentes especialidades permite uma compreensão mais 
abrangente da condição, favorecendo a elaboração de planos de intervenção 
integrados e mais eficazes. Isso está em consonância com as diretrizes da 
Portaria GM/MS nº 793/2012, que institui a Rede de Cuidados à Pessoa com 
Deficiência no SUS. 
 
 
47 
 
 
Outro aspecto importante é que a atualização constante favorece a 
segurança profissional. A tomada de decisão baseada em evidências científicas 
e em protocolos reconhecidos reduz o risco de erros, garante respaldo ético e 
legal, e aumenta a confiança da família e do próprio paciente no trabalho 
desenvolvido. 
A tecnologia também desempenha papel crescente na formação 
continuada. Plataformas de ensino a distância, cursos on-line certificados, 
webinars e bibliotecas virtuais permitem que profissionais de diferentes regiões 
tenham acesso a conteúdos atualizados sem barreiras geográficas. Essa 
democratização do conhecimento é essencial em um país com desigualdades 
regionais significativas no acesso à educação formal e especializada. 
No entanto, a formação continuada não deve ser vista como um fim em si 
mesma, mas como parte de um compromisso ético com a melhoria contínua da 
qualidade do atendimento. O Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 
2.217/2018) e o Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 
10/2005) reforçam que o exercício profissional exige competência, e esta, por 
sua vez, depende de constante atualização. 
Por fim, a construção de políticas institucionais que incentivem e 
viabilizem a formação continuada é fundamental. Hospitais, clínicas, escolas e 
centros de reabilitação devem oferecer ou facilitar o acesso a capacitações 
regulares, garantindo que suas equipes estejam aptas a aplicar práticas 
atualizadas e baseadas em evidências. Assim, assegura-se que o avanço 
científico se traduza em melhorias concretas na vida das pessoas com TEA e de 
suas famílias. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
48 
 
 
Plano Anual de Formação Continuada – Equipe Multiprofissional em TEA 
 
Objetivo Geral: 
Garantir que todos os profissionais da equipe se mantenham atualizados 
em relação às evidências científicas, protocolos clínicos, legislações e práticas 
inclusivas, assegurando qualidade, ética e efetividade no atendimento às 
pessoas com TEA. 
 
Estrutura Geral 
• Duração: 12 meses 
• Carga Horária Total: 80 horas anuais 
• Modalidade: Mista (presencial e on-line) 
• Público-alvo: Psicólogos, médicos, fonoaudiólogos, terapeutas 
ocupacionais, fisioterapeutas, pedagogos, assistentes sociais, educadores 
físicos, nutricionistas e demais profissionais envolvidos no cuidado e inclusão 
de pessoas com TEA. 
• Metodologia: Palestras, oficinas práticas, estudos de caso, simulações, 
grupos de discussão, supervisão clínica e módulos assíncronos. 
 
Mês Tema 
Carga 
Horária 
Formato 
Objetivos 
Específicos 
Janeiro 
Atualização em 
Classificação e 
Diagnóstico (CID-11 
e DSM-5-TR) 
8h 
Presencial + 
On-line 
Revisar critérios 
diagnósticos e 
codificação; promover 
uniformidade nos 
laudos e pareceres. 
Março 
Intervenções 
Baseadas em 
Evidências (ABA, 
TEACCH, PECS, 
ESDM) 
12h 
Oficina 
prática 
Aplicar protocolos e 
adaptar estratégias ao 
contexto brasileiro. 
 
 
49 
 
 
Mês Tema 
Carga 
Horária 
Formato 
Objetivos 
Específicos 
Maio 
Comunicação com 
Famílias e Direitos 
da Pessoa com TEA 
8h 
Palestra 
interativa 
Desenvolver 
habilidades de escuta 
ativa, transmitir 
informações de forma 
clara e orientar sobre 
direitos legais. 
Julho 
Trabalho 
Multiprofissional e 
Planos de 
Intervenção 
Individualizada (PII) 
12h 
Workshop 
colaborativo 
Elaborar e revisar PIIs 
integrados, com metas 
SMART e 
acompanhamento 
periódico. 
Setembro 
Manejo de 
Comportamentos 
Desafiadores e 
Estratégias 
Inclusivas no 
Contexto Escolar 
12h 
Simulação + 
Estudo de 
Caso 
Desenvolver 
protocolos de manejo 
positivo e práticas 
inclusivas alinhadas à 
BNCC. 
Outubro 
Saúde Mental e 
Autocuidado 
Profissional 
8h 
Roda de 
conversa + 
Aula 
expositiva 
Prevenir burnout, 
promover bem-estar e 
fortalecer a resiliência 
das equipes. 
Novembro 
Tecnologias 
Assistivas e 
Comunicação 
Aumentativa e 
Alternativa (CAA) 
8h 
Oficina 
prática 
Implementar recursos 
tecnológicos e visuais 
para ampliar a 
comunicação 
funcional. 
Dezembro 
Avaliação Final e 
Supervisão de 
Casos Complexos 
12h 
Supervisão 
clínica 
Integrar conteúdos, 
revisar protocolos e 
 
 
50 
 
 
Mês Tema 
Carga 
Horária 
Formato 
Objetivos 
Específicos 
discutir casos 
multidisciplinares. 
 
Avaliação 
• Formativa: participação em discussões, exercícios práticos e estudos de 
caso. 
• Somativa: prova teórica (on-line) e avaliação prática (aplicação de 
protocolo ou elaboração de PII). 
• Certificação: emissão de certificado para quem obtiver frequência mínima 
de 75% e aproveitamento igual ou superior a 70%. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
51 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
A implementação de um plano estruturado de formação continuada é uma 
estratégia indispensável para assegurar que as práticas adotadas por equipes 
multiprofissionais estejam alinhadas às melhores evidências científicas e aos 
marcos legais vigentes. No atendimento às pessoas com TEA, essa atualização 
constante ganha relevância ainda maior, dada a complexidade da condição e a 
necessidade de respostas adaptadas às singularidades de cada indivíduo. 
Ao longo do ano, a execução das etapas previstas neste plano permitirá 
que os profissionais não apenas ampliem seus conhecimentos, mas também 
construam redes de colaboração interprofissional,favorecendo a troca de 
experiências e a integração das práticas. Essa cooperação efetiva entre áreas é 
o que garante um cuidado integral e consistente, conforme preconizado pela 
Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA e pela Lei 
Brasileira de Inclusão. 
É importante ressaltar que a formação continuada não deve ser entendida 
como um evento pontual, mas como um processo permanente que se renova à 
medida que a ciência avança e que novas demandas sociais e clínicas emergem. 
O desafio está em manter a equipe engajada e em criar condições institucionais 
para que essa atualização se torne parte da cultura organizacional. 
Por fim, investir na capacitação contínua é investir na própria qualidade 
do serviço e na garantia de direitos. Profissionais bem preparados são agentes 
de transformação, capazes de contribuir para uma sociedade mais inclusiva, 
equitativa e comprometida com a promoção da dignidade humana de todas as 
pessoas, com e sem deficiência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
52 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and Statistical 
Manual of Mental Disorders. 5th ed., Text Revision. Washington, DC: APA, 
2022. 
 
BIKLEN, D.; BURKE, J. Presuming competence. Equity & Excellence in 
Education, v. 39, n. 2, p. 166–175, 2006. 
 
BONDY, A.; FROST, L. The Picture Exchange Communication System. 
Newark, DE: Pyramid Educational Consultants, 1994. 
 
BRASIL. Decreto nº 10.502, de 30 de setembro de 2020. Institui a Política 
Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao 
Longo da Vida. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 out. 2020. 
 
BRASIL. Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999. Regulamenta a Lei 
nº 7.853/1989 e dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa 
com Deficiência. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 dez. 1999. 
 
BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção 
Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Diário Oficial da 
União, Brasília, DF, 26 ago. 2009. 
 
BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política 
Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro 
Autista. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 28 dez. 2012. 
 
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de 
Inclusão da Pessoa com Deficiência. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 7 jul. 
2015. 
 
BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as 
condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde. Diário Oficial 
da União, Brasília, DF, 20 set. 1990. 
 
BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de 
Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Diário Oficial da 
União, Brasília, DF, 25 jul. 1991. 
 
BRASIL. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Dispõe sobre a 
Organização da Assistência Social (LOAS). Diário Oficial da União, Brasília, 
DF, 8 dez. 1993. 
 
BRASIL. Lei nº 8.989, de 24 de fevereiro de 1995. Concede isenção de IPI na 
compra de veículos por pessoas com deficiência e autistas. Diário Oficial da 
União, Brasília, DF, 27 fev. 1995. 
 
 
 
53 
 
 
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e 
bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 
1996. 
 
BRASIL. Portaria GM/MS nº 793, de 24 de abril de 2012. Institui a Rede de 
Cuidados à Pessoa com Deficiência no âmbito do SUS. Diário Oficial da União, 
Brasília, DF, 25 abr. 2012. 
 
BRASIL. Portaria MS nº 1.876, de 14 de julho de 2022. Regulamenta a 
adoção do CID-11 no SUS. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 jul. 2022. 
 
BRASIL. Portaria MS nº 3.502, de 5 de dezembro de 2017. Estabelece 
diretrizes para organização da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. 
Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 dez. 2017. 
 
BUIE, T., et al. Evaluation, diagnosis, and treatment of gastrointestinal 
disorders in individuals with ASDs. Pediatrics, v. 125, suplemento 1, p. S1-
S18, 2010. 
 
CHRISTENSEN, D. L., et al. Prevalence and characteristics of autism spectrum 
disorder among children aged 8 years. MMWR Surveillance Summaries, v. 
68, n. 2, p. 1–19, 2019. 
 
CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL 
(COFFITO). Resolução nº 316, de 17 de maio de 2006. Dispõe sobre a 
atuação do terapeuta ocupacional em contextos de reabilitação. Diário Oficial 
da União, Brasília, DF, 18 maio 2006. 
 
CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA (CFFa). Resolução nº 356, 
de 6 de dezembro de 2008. Dispõe sobre a competência do fonoaudiólogo na 
área de linguagem. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 dez. 2008. 
 
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Resolução nº 2.217, de 27 de 
setembro de 2018. Aprova o Código de Ética Médica. Diário Oficial da União, 
Brasília, DF, 1 nov. 2018. 
 
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Resolução nº 2.324, de 19 de 
agosto de 2022. Regulamenta a adoção do CID-11 em documentos médicos. 
Diário Oficial da União, Brasília, DF, 22 ago. 2022. 
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 09, de 25 de 
abril de 2018. Estabelece diretrizes para avaliação psicológica. Diário Oficial 
da União, Brasília, DF, 30 abr. 2018. 
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 10, de 21 de 
julho de 2005. Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Diário 
Oficial da União, Brasília, DF, 9 ago. 2005. 
 
 
 
54 
 
 
DAWSON, G., et al. Randomized, controlled trial of an intervention for toddlers 
with autism: the Early Start Denver Model. Pediatrics, v. 125, n. 1, p. e17–e23, 
2010. 
 
HANSEN, S. N., et al. Explaining the increase in the prevalence of autism 
spectrum disorders. JAMA Pediatrics, v. 169, n. 1, p. 56–62, 2015. 
 
LAI, M. C., et al. The neurodiversity of autism. Nature Reviews Neurology, v. 
15, p. 141–151, 2019. 
 
LOKE, Y. J.; HANNAN, A. J.; CRAIG, J. M. The role of epigenetic change in 
autism spectrum disorders. Frontiers in Neurology, v. 6, p. 107, 2015. 
 
LOOMES, R.; HULL, L.; MANDY, W. P. L. What is the male-to-female ratio in 
autism spectrum disorder? Journal of the American Academy of Child & 
Adolescent Psychiatry, v. 56, n. 6, p. 466–474, 2017. 
 
LORD, C., et al. Autism spectrum disorder. The Lancet, v. 392, n. 10146, p. 
508–520, 2020. 
 
LOVAAS, O. I. Behavioral treatment and normal educational and intellectual 
functioning in young autistic children. Journal of Consulting and Clinical 
Psychology, v. 55, n. 1, p. 3–9, 1987. 
 
MAKRYGIANNI, M. K., et al. The effectiveness of applied behavior analysis 
interventions for children with ASD. Research in Autism Spectrum Disorders, 
v. 51, p. 18–31, 2018. 
 
MATSON, J. L.; NEBEL-SCHWALM, M. S. Comorbid psychopathology with 
autism spectrum disorder in children. Research in Developmental 
Disabilities, v. 28, n. 4, p. 341–352, 2007. 
 
MODABBERNIA, A., et al. Environmental risk factors for autism: an evidence-
based review of systematic reviews and meta-analyses. Molecular Autism, v. 
8, n. 13, 2017. 
 
OONO, I. P.; HONEY, E. J.; MCCONACHIE, H. Parent-mediated early 
intervention for young children with autism spectrum disorders. Cochrane 
Database of Systematic Reviews, Issue 4, 2013. 
 
PAULA, C. S., et al. Early identification and intervention for autism spectrum 
disorder in Brazil: barriers and opportunities. Autism Research, v. 13, n. 7, p. 
1119–1132, 2020. 
 
PAULA, C. S., et al. Prevalence of autism spectrum disorder in a Brazilian 
community: a pilot study. Autism Research, v. 4, n. 3, p. 189–197, 2011. 
 
 
 
55 
 
 
REED, G. M., et al. Innovations and changes in the ICD-11 classification of 
mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. World Psychiatry, v. 
18, n. 1, p. 3–19, 2019. 
 
SANDIN, S., et al. The heritability of autism spectrum disorder. JAMA, v. 318, 
n. 12, p. 1182–1184, 2017. 
 
SCHALOCK, R. L., et al. Intellectual Disability: Definition, Classification, and 
Systems of Supports. 11th ed. Washington, DC: AAIDD, 2010. 
 
SCOTT, M., et al. Employment interventionsfor young adults with autism 
spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 47, 
p. 2632–2648, 2017. 
 
TICK, B., et al. Heritability of autism spectrum disorders: A meta-analysis of twin 
studies. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 57, n. 5, p. 585–595, 
2016. 
 
UNITED NATIONS (UN). Convention on the Rights of Persons with 
Disabilities. New York: UN, 2006. 
 
VOLKMAR, F. R.; WIESNER, L. A. A Practical Guide to Autism: What Every 
Parent, Family Member, and Teacher Needs to Know. 2nd ed. Hoboken, NJ: 
Wiley, 2019. 
 
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on the management 
of developmental disorders, including autism spectrum disorders. 
Geneva: WHO, 2022. 
 
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). International Classification of 
Diseases – 11th Revision (ICD-11). Geneva: WHO, 2022.ético e político com os direitos 
humanos, alinhado à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência 
 
 
5 
 
 
(ONU, 2006), incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 
6.949/2009. 
Do ponto de vista clínico, Kaplan e Sadock (2017) enfatizam que o 
diagnóstico de um transtorno mental ou do neurodesenvolvimento exige não 
apenas a presença de sintomas, mas também a constatação de prejuízo 
funcional. Tal abordagem evita a patologização de comportamentos que, embora 
incomuns, não comprometem a vida do indivíduo. Esse cuidado é essencial em 
contextos educacionais e de saúde, especialmente em crianças e adolescentes. 
O CID-11 (OMS, 2022) apresenta os transtornos do 
neurodesenvolvimento no Capítulo 6, abrangendo códigos de 6A00 a 6A8Z. O 
TEA, por exemplo, está classificado como 6A02, subdividindo-se de acordo com 
a presença ou ausência de deficiência intelectual e comprometimento da 
linguagem funcional. Essa classificação unificada substitui termos como 
“Transtornos Globais do Desenvolvimento” (presentes no CID-10), refletindo a 
convergência científica e clínica. 
Já o DSM-5-TR (APA, 2022) mantém a definição ampla, mas oferece 
especificadores clínicos que auxiliam na elaboração de planos de intervenção 
individualizados. No caso do TEA, por exemplo, descrevem-se três níveis de 
suporte necessário (leve, moderado e intenso), permitindo maior precisão no 
planejamento terapêutico. Esse detalhamento dialoga com as diretrizes de 
atendimento do Ministério da Saúde (Portaria GM/MS nº 793/2012, atualizada), 
que orienta a organização da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. 
A relevância do diagnóstico precoce nos transtornos do 
neurodesenvolvimento é amplamente reconhecida. Lord et al. (2020) destacam 
que intervenções iniciadas antes dos três anos de idade tendem a gerar 
melhores resultados, pois aproveitam períodos críticos de plasticidade neural. 
Essa perspectiva reforça a importância de políticas públicas que facilitem o 
rastreamento e a avaliação multidisciplinar, como previsto na Lei nº 12.764/2012, 
que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA. 
Do ponto de vista ético e social, compreender e definir transtornos mentais 
e do neurodesenvolvimento exige romper com paradigmas reducionistas. A 
Política Nacional de Saúde Mental e a Política Nacional de Educação Especial 
na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC, 2008) estabelecem que o foco deve 
 
 
6 
 
 
estar no potencial e no direito à participação plena, e não apenas na limitação. 
Isso implica garantir acessibilidade atitudinal, comunicacional e metodológica. 
Por fim, a articulação entre definições acadêmicas, classificações 
internacionais e legislação nacional permite uma atuação mais assertiva dos 
profissionais de saúde, educação e assistência social. Ao adotar o CID-11 e o 
DSM-5-TR como referenciais, integrando-os às garantias legais da Lei Brasileira 
de Inclusão e da Lei 12.764/2012, constrói-se uma base sólida para avaliação, 
diagnóstico e intervenção, assegurando que o trabalho clínico e educacional seja 
tecnicamente consistente, juridicamente respaldado e socialmente responsável. 
 
1.2 Do CID-10 ao CID-11: Mudanças e Impactos 
 
A Classificação Internacional de Doenças (CID) é um sistema 
padronizado, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para 
classificar condições de saúde e doenças, utilizado globalmente tanto para 
estatísticas epidemiológicas quanto para codificação em sistemas de saúde. Em 
1º de janeiro de 2022, entrou em vigor a 11ª revisão (CID-11), substituindo a 
CID-10, vigente desde os anos 1990. Essa atualização foi motivada por avanços 
no conhecimento médico, mudanças na terminologia e a necessidade de maior 
alinhamento com práticas clínicas contemporâneas e tecnologias digitais (OMS, 
2022). 
Entre as mudanças mais significativas, destaca-se a substituição da 
categoria “Transtornos Globais do Desenvolvimento” (CID-10, códigos F84.x) 
pelo termo “Transtornos do Espectro Autista” (CID-11, código 6A02). Essa 
alteração não é meramente nominal, mas reflete um consenso científico de que 
as antigas subdivisões — como autismo infantil, síndrome de Asperger e 
transtorno desintegrativo da infância — representam variações de um mesmo 
espectro clínico (APA, 2022). No novo modelo, essas condições são 
diferenciadas por especificadores clínicos, como presença de deficiência 
intelectual e nível de suporte necessário. 
O CID-11 também reorganizou outras categorias relevantes, como a 
Deficiência Intelectual (antes chamada “Retardo Mental”), que passa a ser 
classificada sob o código 6A00–6A04, com níveis definidos por gravidade (leve, 
 
 
7 
 
 
moderada, grave e profunda) e ênfase nas habilidades adaptativas. Essa 
mudança atende às diretrizes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com 
Deficiência (ONU, 2006) e à Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), 
promovendo uma terminologia inclusiva e desestigmatizante. 
No Brasil, a Portaria MS nº 1.876/2022 regulamentou a implementação do 
CID-11 no Sistema Único de Saúde (SUS), estabelecendo prazos para 
adaptação dos sistemas de informação e orientando profissionais quanto ao uso 
dos novos códigos. Em paralelo, a Resolução CFM nº 2.324/2022 determinou 
que médicos utilizem o CID-11 em laudos e prontuários, reforçando sua adoção 
obrigatória na prática clínica. 
Segundo Reed et al. (2019), uma das vantagens do CID-11 é sua 
estrutura digital amigável, que permite fácil navegação e busca por termos 
relacionados, além de integração com sistemas eletrônicos de saúde. Isso 
favorece não apenas a codificação precisa dos diagnósticos, mas também a 
coleta e análise de dados epidemiológicos em tempo real, algo crucial para 
políticas públicas voltadas ao TEA e outros transtornos do 
neurodesenvolvimento. 
Do ponto de vista clínico, a reorganização de categorias no CID-11 
melhora a precisão diagnóstica e facilita a comunicação entre equipes 
multiprofissionais. Por exemplo, ao invés de utilizar múltiplos códigos para 
condições que antes eram vistas como entidades distintas, o profissional agora 
adota um único código-base (6A02) para o TEA e adiciona especificadores que 
detalham a apresentação clínica. Isso permite maior clareza nos 
encaminhamentos, laudos e relatórios escolares ou de reabilitação. 
A transição do CID-10 para o CID-11, no entanto, exige capacitação 
contínua dos profissionais. Como observa Kaplan e Sadock (2017), mudanças 
classificatórias não devem ser interpretadas apenas como uma atualização de 
nomenclatura, mas como uma reestruturação conceitual que influencia 
diagnósticos, intervenções e até mesmo elegibilidade para benefícios e serviços. 
Assim, compreender a lógica do CID-11 é essencial para evitar sub ou 
superdiagnósticos. 
Um impacto prático dessa mudança está na elaboração de laudos para 
solicitação de direitos previstos em lei. Com a padronização do CID-11, 
 
 
8 
 
 
documentos que antes poderiam gerar dúvidas interpretativas (por uso de 
códigos antigos) passam a ter maior uniformidade, facilitando o acesso ao 
Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), ao atendimento educacional 
especializado e a isenções fiscais previstas para pessoas com TEA ou 
deficiência intelectual. 
No campo da pesquisa, a adoção do CID-11 favorece a comparabilidade 
internacional dos dados, visto que sua estrutura está alinhada ao DSM-5-TR e 
às classificações de outros sistemas de saúde. Isso é particularmente relevante 
para o estudo do TEA, cuja prevalência tem aumentado nas últimas décadas, 
demandando análises consistentes para formulação de políticas públicas. 
Por fim, é fundamental ressaltar que a mudança para o CID-11 não altera 
o direito adquirido de pacientes diagnosticados sob a CID-10. A legislação 
brasileira garante a continuidade do tratamento e benefícios, 
independentemente da nomenclatura, desde que a condiçãoclínica se 
mantenha. No entanto, para novas avaliações e documentos oficiais, a utilização 
da codificação CID-11 é obrigatória, conforme estabelecido pela Portaria MS nº 
1.876/2022 e Resolução CFM nº 2.324/2022, marcando um novo padrão de 
qualidade e atualização no cuidado em saúde mental e no 
neurodesenvolvimento. 
1.3 Estrutura do DSM-5-TR 
 
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto 
Revisado (DSM-5-TR), publicado pela American Psychiatric Association (APA) 
em 2022, é a versão atualizada do DSM-5 (2013) e representa um dos sistemas 
classificatórios mais utilizados no mundo para diagnóstico de transtornos 
mentais. Sua estrutura mantém a organização por grupos diagnósticos, mas 
incorpora revisões terminológicas, critérios mais claros e, sobretudo, exemplos 
culturais que favorecem o diagnóstico transcultural. Essa inclusão busca atender 
à crescente demanda por avaliações que respeitem contextos socioculturais 
diversos, reduzindo viés diagnóstico (APA, 2022). 
No que tange aos transtornos do neurodesenvolvimento, o DSM-5-TR 
reafirma a definição de que essas condições se iniciam tipicamente na infância 
e resultam de disfunções no desenvolvimento cerebral, afetando a comunicação, 
 
 
9 
 
 
o comportamento, a cognição ou a motricidade. A categoria inclui: Transtorno do 
Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), 
Transtornos da Comunicação, Transtornos Específicos da Aprendizagem, 
Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação e Transtornos Motores (APA, 
2022). 
O TEA, no DSM-5-TR, é definido pela presença de déficits persistentes 
na comunicação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento, 
interesses ou atividades. O manual mantém os dois domínios principais 
introduzidos no DSM-5: 
 
1. Déficits na comunicação social e interação social (incluindo reciprocidade 
social, comportamentos comunicativos não verbais e habilidades para 
desenvolver, manter e compreender relacionamentos); 
2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento (movimentos motores 
estereotipados, insistência em rotinas, interesses fixos e incomuns, hiper 
ou hiporreatividade a estímulos sensoriais). 
 
Um dos avanços do DSM-5-TR em relação às edições anteriores foi a 
eliminação das categorias separadas como "Síndrome de Asperger", 
"Transtorno Desintegrativo da Infância" e "Transtorno Invasivo do 
Desenvolvimento Sem Outra Especificação". Agora, todas essas condições 
estão unificadas sob o diagnóstico de TEA, com especificadores que indicam 
nível de suporte necessário, presença ou ausência de deficiência intelectual, 
comprometimento da linguagem e condições comórbidas. Essa decisão foi 
embasada em estudos que apontam maior confiabilidade diagnóstica com o 
modelo dimensional (Lord et al., 2020). 
Outro aspecto relevante é a forma como o DSM-5-TR aborda o TDAH. 
Mantém-se a divisão dos sintomas em duas dimensões – desatenção e 
hiperatividade/impulsividade – e a necessidade de que os sintomas estejam 
presentes em dois ou mais contextos (escola, casa, trabalho). Houve também 
atualização de exemplos clínicos para contemplar faixas etárias mais amplas, 
reconhecendo que o TDAH pode persistir na vida adulta e se manifestar de 
maneiras menos evidentes (APA, 2022). 
 
 
10 
 
 
A introdução de exemplos culturais representa uma inovação importante. 
O DSM-5-TR inclui o "Glossário de Conceitos Culturais de Sofrimento", que 
auxilia o clínico a diferenciar sintomas patológicos de manifestações normativas 
dentro de determinado contexto cultural. Essa abordagem dialoga com o Código 
de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005), que estabelece 
como dever do psicólogo considerar variáveis históricas, sociais e culturais no 
processo diagnóstico. 
Do ponto de vista ético, a utilização do DSM-5-TR deve estar ancorada 
em práticas de avaliação responsáveis, evitando o uso de rótulos diagnósticos 
sem embasamento clínico adequado. O Código de Ética Profissional do 
Psicólogo orienta que a emissão de documentos, como laudos e pareceres, seja 
pautada por informações precisas e suficientes para a compreensão da condição 
avaliada, respeitando a dignidade da pessoa atendida. 
O DSM-5-TR também reforça a importância de considerar comorbidades. 
No caso do TEA, por exemplo, é comum a presença concomitante de TDAH, 
transtornos de ansiedade, epilepsia ou distúrbios do sono. A identificação dessas 
condições associadas é fundamental para a elaboração de um plano de 
intervenção eficaz e personalizado, conforme indicam Kaplan e Sadock (2017). 
Em termos estruturais, o manual mantém uma organização hierárquica: 
 
• Introdução e uso clínico; 
• Critérios diagnósticos e códigos (compatíveis com CID-10 e CID-11); 
• Descritores de especificadores e severidade; 
• Informações descritivas (prevalência, desenvolvimento e curso, fatores de 
risco, questões diagnósticas e culturais, diagnóstico diferencial, 
comorbidade). 
 
Por fim, é importante salientar que, embora o DSM-5-TR seja amplamente 
utilizado, seu uso no Brasil deve ser sempre articulado com o CID-11 para fins 
administrativos e de políticas públicas. Enquanto o DSM oferece maior 
detalhamento clínico, o CID é o padrão oficial para registro de diagnósticos no 
SUS e em documentos legais, conforme determina a Portaria MS nº 1.876/2022 
e a Resolução CFM nº 2.324/2022. 
 
 
11 
 
 
1.4 Terminologia Ética e Inclusiva 
 
A terminologia utilizada para designar condições de saúde e 
características humanas exerce influência direta na forma como a sociedade 
percebe e trata indivíduos com tais condições. No campo da saúde mental e do 
neurodesenvolvimento, a evolução dos termos reflete um movimento de 
superação de paradigmas discriminatórios. Termos historicamente empregados, 
como “retardo mental”, foram gradualmente substituídos por expressões como 
“Deficiência Intelectual”, alinhando-se a orientações internacionais e legislações 
de direitos humanos (Schalock et al., 2010). 
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 
13.146/2015) consolida essa mudança ao adotar “deficiência” como conceito 
social e relacional, deixando de tratar a questão apenas sob uma ótica médica. 
O artigo 2º da LBI define a pessoa com deficiência como aquela que tem 
impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, 
o qual, em interação com barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva 
na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. 
Essa abordagem é coerente com a Convenção sobre os Direitos das 
Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), internalizada no Brasil pelo Decreto nº 
6.949/2009, que adota a perspectiva do modelo social da deficiência. Nesse 
modelo, o foco desloca-se da “limitação” da pessoa para as barreiras sociais, 
atitudinais e ambientais que restringem sua participação. Assim, a terminologia 
deixa de rotular o indivíduo como “deficiente” e passa a descrever a condição de 
forma neutra e desprovida de juízo depreciativo. 
No caso específico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a utilização 
da expressão “pessoa com TEA” é recomendada em documentos oficiais, 
materiais educativos e práticas profissionais. Essa forma coloca a pessoa em 
primeiro lugar, evitando que sua identidade seja reduzida à condição clínica — 
uma diretriz conhecida como “linguagem centrada na pessoa” (person-first 
language). O Ministério da Saúde e a Política Nacional de Proteção dos Direitos 
da Pessoa com TEA (Lei nº 12.764/2012) reforçam a importância dessa 
abordagem. 
 
 
12 
 
 
Autores como Biklen e Burke (2006) alertam que a linguagem pode 
reforçar estereótipos ou promover inclusão. Ao empregar termos atualizados e 
respeitosos, cria-se um espaço simbólico que valoriza a dignidade, favorecendo 
a autoestima e a participação social de pessoas com deficiência ou transtornos 
do neurodesenvolvimento.Assim, substituições terminológicas não são meros 
ajustes semânticos, mas mudanças estruturais na forma de reconhecer e 
respeitar a diversidade humana. 
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005) 
estabelece, no Art. 1º, que o psicólogo deve basear seu trabalho no respeito à 
dignidade e aos direitos humanos, o que inclui o uso de terminologia que não 
perpetue discriminação. De igual modo, o Código de Ética Médica (Resolução 
CFM nº 2.217/2018) prevê que a comunicação com o paciente e a sociedade 
deve ser clara, respeitosa e livre de termos pejorativos. 
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em documentos recentes, 
orienta que profissionais de saúde e educação utilizem terminologia que seja 
culturalmente sensível e atualizada. Essa recomendação também aparece em 
guias da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre comunicação inclusiva, 
nos quais enfatiza-se que a forma de falar sobre uma condição pode reforçar ou 
combater preconceitos (ONU, 2020). 
Na prática clínica e educacional, a adoção de terminologia inclusiva se 
traduz em relatórios, laudos, pareceres e interações cotidianas que respeitam a 
pessoa como sujeito de direitos. Por exemplo, ao invés de “autista agressivo”, 
recomenda-se “pessoa com TEA que apresenta comportamentos agressivos em 
determinados contextos”. Essa formulação evita que o comportamento 
momentâneo se torne atributo fixo da identidade da pessoa. 
Do ponto de vista histórico, a transição de termos estigmatizantes para 
linguagem inclusiva está diretamente ligada às lutas dos movimentos sociais de 
pessoas com deficiência e familiares. No Brasil, a consolidação dessa mudança 
ganhou força com a Lei nº 13.146/2015 e com o fortalecimento das políticas 
públicas de educação inclusiva, como a Política Nacional de Educação Especial 
na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC, 2008), que adota sistematicamente 
a linguagem centrada na pessoa. 
 
 
13 
 
 
Por fim, é importante destacar que a terminologia ética e inclusiva não é 
estática; ela acompanha a evolução cultural, científica e política. O compromisso 
dos profissionais da saúde, educação e assistência social é manter-se 
atualizado, refletir sobre a linguagem que utilizam e escutar ativamente as 
preferências terminológicas das próprias pessoas com deficiência ou TEA. 
Assim, mais do que cumprir uma exigência legal, adotar uma linguagem ética é 
reconhecer o valor intrínseco de cada indivíduo e promover, de fato, uma 
sociedade inclusiva. 
 
1.5 Classificações Comórbidas 
 
O conceito de comorbidade refere-se à ocorrência simultânea de duas ou 
mais condições clínicas ou transtornos no mesmo indivíduo, podendo estes 
interagir e influenciar a evolução e o manejo terapêutico (Feinstein, 1970). No 
contexto dos Transtornos do Espectro Autista (TEA), a presença de 
comorbidades é regra, e não exceção, sendo amplamente documentada na 
literatura científica (Lai et al., 2019). Essas associações podem ocorrer tanto com 
outros transtornos do neurodesenvolvimento quanto com condições médicas 
gerais, exigindo do profissional uma abordagem diagnóstica minuciosa. 
As comorbidades mais frequentes no TEA incluem Transtorno de Déficit 
de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Deficiência Intelectual, Transtornos de 
Ansiedade, Epilepsia e Transtornos do Sono. Segundo o DSM-5-TR (APA, 
2022), aproximadamente 30 a 80% dos indivíduos com TEA apresentam 
sintomas de TDAH, enquanto a deficiência intelectual está presente em cerca de 
31% dos casos, variando conforme o critério diagnóstico e a população 
estudada. 
O CID-11 (OMS, 2022) reconhece explicitamente a possibilidade de 
múltiplos diagnósticos quando critérios para mais de uma condição são 
atendidos. Isso marca um avanço em relação ao CID-10, que por vezes restringia 
a codificação simultânea de determinados diagnósticos. Por exemplo, 
atualmente é possível registrar concomitantemente o código 6A02 (TEA) e o 
código correspondente ao 6A05 (TDAH), quando presentes. 
 
 
14 
 
 
Do ponto de vista clínico, a identificação das comorbidades tem impacto 
direto na intervenção. O manejo do TDAH em um paciente com TEA, por 
exemplo, pode requerer adaptação das estratégias terapêuticas, incluindo 
ajustes farmacológicos e comportamentais. Além disso, a presença de 
transtornos de ansiedade pode demandar terapias específicas, como a terapia 
cognitivo-comportamental adaptada, e, em alguns casos, tratamento 
medicamentoso adjuvante. 
No Brasil, os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do 
Ministério da Saúde (2022) orientam que a avaliação diagnóstica de TEA inclua 
a investigação sistemática de comorbidades, especialmente em crianças em 
idade escolar. Esses protocolos destacam a importância de equipes 
multiprofissionais na detecção e manejo dessas condições, incluindo médicos, 
psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e pedagogos 
especializados. 
É fundamental ressaltar que a presença de comorbidades pode alterar a 
manifestação clínica do TEA. Em indivíduos com deficiência intelectual 
associada, por exemplo, o perfil de habilidades comunicativas e adaptativas 
tende a ser mais limitado, o que pode influenciar o prognóstico. Por outro lado, 
a coexistência de TEA e altas habilidades/superdotação, embora menos 
frequente, exige atenção específica para evitar o mascaramento de 
necessidades educacionais especiais. 
A literatura científica aponta ainda que o diagnóstico diferencial em casos 
de comorbidade é complexo. Matson e Nebel-Schwalm (2007) salientam que 
sintomas de diferentes transtornos podem se sobrepor, levando a diagnósticos 
equivocados se não houver uma avaliação criteriosa. Por exemplo, 
comportamentos de hiperfoco em TEA podem ser confundidos com sintomas 
obsessivo-compulsivos, quando na verdade correspondem a interesses restritos 
característicos do espectro. 
As comorbidades não se limitam à esfera psiquiátrica. Distúrbios 
gastrointestinais, imunológicos e metabólicos são mais prevalentes em 
indivíduos com TEA do que na população geral (Buie et al., 2010). Embora a 
relação causal ainda seja objeto de pesquisa, o reconhecimento desses 
 
 
15 
 
 
problemas é crucial para uma abordagem de saúde integral e para a melhoria da 
qualidade de vida. 
Do ponto de vista legal, o reconhecimento das comorbidades reforça o 
direito à atenção integral à saúde, conforme previsto na Lei nº 12.764/2012 e na 
Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão). Essas leis estabelecem que a 
pessoa com TEA, independentemente da gravidade ou da presença de outras 
condições, deve ter acesso a cuidados especializados e contínuos, sem 
discriminação. 
Por fim, o manejo clínico de TEA com comorbidades demanda não apenas 
diagnóstico preciso, mas também planos de intervenção integrados, revisados 
periodicamente. O trabalho colaborativo entre especialistas e a inclusão ativa da 
família no processo terapêutico são elementos-chave para o sucesso das 
intervenções. Dessa forma, a classificação e o registro adequados das 
comorbidades, de acordo com o CID-11 e o DSM-5-TR, não são apenas uma 
formalidade burocrática, mas um instrumento essencial para o cuidado centrado 
na pessoa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
 
UNIDADE 2 – TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) 
2.1 Definição Atual e Critérios Diagnósticos 
 
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do 
neurodesenvolvimento caracterizada por déficits persistentes na comunicação e 
interação social, combinados com padrões restritos e repetitivos de 
comportamento, interesses ou atividades. De acordo com a Classificação 
Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11, OMS, 2022), o TEA está 
codificado sob o número 6A02, subdividido conforme a presença ou ausência de 
deficiência intelectual e comprometimento da linguagem funcional. Essa nova 
categorização substitui os antigos diagnósticos da CID-10, como “autismoinfantil” e “síndrome de Asperger”, unificando-os em um espectro contínuo. 
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto 
Revisado (DSM-5-TR, APA, 2022), por sua vez, estabelece dois domínios 
principais para o diagnóstico: 
 
1. Déficits persistentes na comunicação social e interação social em 
múltiplos contextos; 
2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou 
atividades. 
 
Esses critérios devem estar presentes desde o início do desenvolvimento, 
ainda que possam se manifestar plenamente apenas quando as demandas 
sociais excedem as capacidades da pessoa. 
Dentro do primeiro domínio, incluem-se dificuldades na reciprocidade 
socioemocional (por exemplo, não responder adequadamente a interações 
sociais), déficits nos comportamentos comunicativos não verbais (como contato 
visual e gestos) e comprometimento na capacidade de desenvolver e manter 
relacionamentos. No segundo domínio, o DSM-5-TR cita exemplos como 
movimentos motores estereotipados, insistência em rotinas, interesses 
altamente restritos e respostas incomuns a estímulos sensoriais. 
A unificação de subcategorias diagnósticas no TEA reflete evidências 
científicas de que as antigas distinções, como entre “síndrome de Asperger” e 
 
 
17 
 
 
“autismo infantil”, apresentavam baixa consistência clínica (Lord et al., 2020). 
Assim, o foco passou a ser descrever a gravidade e as características individuais 
por meio de especificadores, como “com deficiência intelectual associada” ou 
“com linguagem funcional limitada”, e não mais enquadrar o indivíduo em 
subtipos rígidos. 
A definição atual também reconhece a diversidade de apresentações 
clínicas, variando desde indivíduos com necessidades de suporte mínimas até 
aqueles que requerem apoio substancial em atividades de vida diária. Por isso, 
o DSM-5-TR propõe níveis de gravidade (níveis 1, 2 e 3) para cada domínio 
sintomático, baseando-se na intensidade do suporte necessário para o 
funcionamento adaptativo. 
O diagnóstico é eminentemente clínico, baseado em observação direta, 
entrevistas com familiares e uso de instrumentos padronizados como o Autism 
Diagnostic Observation Schedule – ADOS-2 e o Autism Diagnostic Interview – 
Revised (ADI-R). O CID-11 e o DSM-5-TR não estabelecem a obrigatoriedade 
de exames laboratoriais ou de imagem, embora reconheçam que podem ser 
úteis para descartar outras condições associadas. 
No Brasil, a utilização do CID-11 é obrigatória para fins administrativos e 
registros no Sistema Único de Saúde (SUS), conforme Portaria MS nº 
1.876/2022 e Resolução CFM nº 2.324/2022. Já o DSM-5-TR, embora não tenha 
força normativa, é amplamente empregado na prática clínica para detalhar o 
diagnóstico e orientar intervenções, sendo particularmente útil em relatórios 
técnicos e pareceres especializados. 
Do ponto de vista legal, a Lei nº 12.764/2012 (Política Nacional de 
Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA) reconhece o TEA como uma 
deficiência para todos os efeitos legais, garantindo à pessoa diagnosticada o 
acesso a direitos previstos na Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015). 
Assim, a definição e os critérios diagnósticos não têm apenas relevância clínica, 
mas também implicações diretas no acesso a serviços de saúde, educação e 
benefícios sociais. 
A atualização dos critérios diagnósticos também tem impacto na 
epidemiologia. Com o uso dos parâmetros do DSM-5-TR e CID-11, há tendência 
de aumento no número de diagnósticos em relação a versões anteriores, devido 
 
 
18 
 
 
à inclusão de apresentações mais leves no espectro. Segundo dados do Centers 
for Disease Control and Prevention (CDC, 2023), a prevalência de TEA nos 
Estados Unidos é de 1 a cada 36 crianças, número que pode variar conforme 
critérios diagnósticos e métodos de rastreamento utilizados. 
Em síntese, a definição atual do TEA no CID-11 e no DSM-5-TR privilegia 
uma visão dimensional e multifatorial, reconhecendo a heterogeneidade do 
espectro e a importância de identificar as necessidades específicas de cada 
pessoa. Isso representa um avanço não apenas técnico, mas também ético, ao 
promover diagnósticos mais precisos, intervenções mais eficazes e maior 
respeito à individualidade. 
 
2.2 Epidemiologia e Prevalência 
 
A epidemiologia do Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem sido objeto 
de intensa investigação nas últimas décadas, acompanhando o crescimento 
significativo no número de diagnósticos reportados globalmente. Segundo o 
Centers for Disease Control and Prevention (CDC, 2023), a prevalência atual 
estimada nos Estados Unidos é de aproximadamente 1 caso para cada 36 
crianças com idade de 8 anos. Esse valor representa um aumento expressivo 
em relação às estimativas da década de 2000, quando a prevalência girava em 
torno de 1 para cada 150 crianças. 
Diversos fatores explicam esse crescimento, entre eles a ampliação dos 
critérios diagnósticos promovida pelo DSM-5 e mantida no DSM-5-TR, o maior 
acesso a serviços especializados, a conscientização social e o avanço das 
ferramentas de rastreamento precoce. Não há evidências científicas robustas de 
que haja um aumento real na incidência biológica do TEA em nível populacional; 
o fenômeno parece estar mais relacionado a um refinamento da detecção e 
registro (Hansen et al., 2015). 
No Brasil, a ausência de levantamentos epidemiológicos nacionais 
consolidados dificulta a estimativa precisa da prevalência. Pesquisas regionais 
sugerem números que se aproximam dos encontrados internacionalmente. Um 
estudo conduzido por Paula et al. (2011) em escolares de uma cidade de médio 
 
 
19 
 
 
porte identificou prevalência estimada de 1,31%, valor que já indicava tendência 
de crescimento em relação a estimativas anteriores no país. 
A Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA (Lei nº 
12.764/2012) reforça a importância de dados epidemiológicos para subsidiar 
políticas públicas, uma vez que a correta dimensão da população diagnosticada 
impacta diretamente no planejamento de serviços de saúde, educação e 
assistência social. O artigo 3º dessa lei estabelece que o poder público deve 
garantir atenção integral às necessidades da pessoa com TEA, o que pressupõe 
conhecer a magnitude do fenômeno. 
A prevalência varia conforme a metodologia empregada na pesquisa. 
Estudos baseados apenas em registros clínicos tendem a subestimar os casos, 
enquanto investigações que utilizam triagem ativa em escolas ou comunidades, 
com instrumentos validados como o Modified Checklist for Autism in Toddlers 
(M-CHAT) e o Social Communication Questionnaire (SCQ), detectam um 
número maior de casos (Christensen et al., 2019). 
O perfil epidemiológico do TEA também evidencia diferenças de gênero, 
sendo mais diagnosticado em meninos do que em meninas, numa proporção 
aproximada de 4:1 (CDC, 2023). Entretanto, pesquisas recentes indicam que 
essa diferença pode ser parcialmente atribuída ao subdiagnóstico em meninas, 
cuja apresentação clínica, muitas vezes, difere do padrão típico observado nos 
meninos, especialmente nos casos de maior nível funcional (Loomes et al., 
2017). 
Outro aspecto relevante é a associação entre TEA e condições 
socioeconômicas. Estudos internacionais identificam que famílias com maior 
acesso a recursos e serviços de saúde tendem a obter diagnóstico mais cedo, 
enquanto em populações vulneráveis o diagnóstico frequentemente é tardio ou 
inexistente. No Brasil, desigualdades regionais e de acesso ao cuidado 
especializado influenciam diretamente nos índices de detecção. 
A análise temporal da prevalência também revela mudanças no padrão 
etário de diagnóstico. Em países com sistemas de rastreamento estruturados, a 
média de idade para diagnóstico formal caiu para cerca de 3 a 4 anos, o que 
favorece intervenções precoces. No Brasil, ainda é comum que o diagnóstico 
 
 
20 
 
 
ocorra após os 5 anos de idade, especialmentefora dos grandes centros urbanos 
(Paula et al., 2020). 
O impacto da prevalência do TEA ultrapassa a esfera clínica, 
influenciando demandas educacionais e sociais. O aumento do número de 
diagnósticos requer ampliação de salas de recursos multifuncionais, formação 
continuada de professores e adaptação curricular, conforme previsto nas 
diretrizes da Lei nº 12.764/2012 e na Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 
13.146/2015). 
Por fim, compreender a epidemiologia do TEA exige integrar dados de 
diferentes fontes — serviços de saúde, instituições de ensino, pesquisas 
acadêmicas e registros administrativos. Essa integração permite um 
planejamento mais eficaz das políticas públicas e a alocação racional de 
recursos, assegurando que a pessoa com TEA tenha acesso oportuno e de 
qualidade aos serviços que garantem seu desenvolvimento e inclusão social. 
2.3 Etiologia e Fatores de Risco 
 
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é reconhecido atualmente como 
uma condição do neurodesenvolvimento de origem multifatorial, resultante da 
interação entre predisposição genética e fatores ambientais. Essa compreensão 
está consolidada nas Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022), 
que destacam não existir uma única causa identificável para o TEA, mas sim um 
conjunto de influências que afetam o desenvolvimento neurológico durante 
períodos críticos. 
Estudos com gêmeos monozigóticos e famílias apontam forte 
componente genético, com herdabilidade estimada entre 50% e 90% (Tick et al., 
2016). Pesquisas genômicas identificaram múltiplos genes associados ao risco 
de TEA, incluindo alterações em CHD8, SHANK3, NRXN1 e SCN2A. Essas 
variantes afetam processos como a formação de sinapses, plasticidade neural e 
regulação da expressão gênica, impactando diretamente o funcionamento 
cerebral. 
Além de mutações genéticas de grande efeito, há também contribuições 
de variantes genéticas comuns, cada uma exercendo pequeno impacto, mas 
que, somadas, aumentam o risco global. Essa perspectiva é compatível com o 
 
 
21 
 
 
modelo poligênico, no qual múltiplos genes interagem com fatores ambientais 
para influenciar a manifestação clínica do TEA (Sandin et al., 2017). 
No campo dos fatores ambientais, estudos epidemiológicos associam o 
TEA a condições como idade parental avançada (principalmente paterna), 
complicações gestacionais, exposição pré-natal a determinados fármacos (como 
valproato de sódio) e infecções maternas durante a gestação (Modabbernia et 
al., 2017). É importante enfatizar que tais associações não implicam causalidade 
direta, mas indicam aumento estatístico do risco em determinadas condições. 
Outro ponto fundamental é a inexistência de evidências científicas que 
sustentem teorias desatualizadas, como a ideia de que práticas parentais 
(“mães-geladeira”) seriam responsáveis pelo desenvolvimento do autismo. 
Essas concepções, difundidas na primeira metade do século XX, foram 
amplamente refutadas por pesquisas subsequentes, e a própria OMS alerta que 
sua perpetuação contribui para a estigmatização das famílias. 
Pesquisas recentes também exploram o papel de fatores epigenéticos, ou 
seja, alterações na expressão gênica sem modificação da sequência de DNA, 
influenciadas por ambiente, dieta, estresse e exposições químicas. Esses 
mecanismos podem mediar a interação entre genética e ambiente, ajudando a 
explicar a variabilidade de manifestações dentro do espectro (Loke et al., 2015). 
Do ponto de vista clínico, compreender a etiologia multifatorial do TEA tem 
implicações diretas no aconselhamento às famílias. Ao informar que a condição 
não decorre de ação ou omissão parental, mas sim de uma complexa rede de 
fatores biológicos e ambientais, o profissional reduz sentimentos de culpa e 
favorece a adesão às estratégias de intervenção. 
As Diretrizes da OMS sobre Transtornos do Neurodesenvolvimento 
(2022) enfatizam que, embora não seja possível prevenir todos os casos de TEA, 
é viável reduzir alguns riscos, por exemplo, garantindo pré-natal adequado, 
evitando uso de substâncias nocivas durante a gestação, prevenindo infecções 
maternas e tratando doenças metabólicas pré-existentes. Essas ações fazem 
parte de políticas de saúde pública que beneficiam não apenas a prevenção de 
TEA, mas também de outras condições do desenvolvimento. 
É relevante lembrar que o TEA pode ocorrer em todos os grupos étnicos, 
raciais e socioeconômicos, e que fatores ambientais isolados não explicam a 
 
 
22 
 
 
totalidade dos casos. Isso reforça que a abordagem preventiva deve ser ampla 
e que a detecção precoce e o acesso a terapias baseadas em evidências 
continuam sendo as estratégias mais efetivas para melhorar o prognóstico. 
Por fim, o avanço das pesquisas genéticas e epigenéticas promete 
ampliar a compreensão das causas e mecanismos do TEA, possibilitando, no 
futuro, estratégias mais personalizadas de diagnóstico e intervenção. No 
entanto, conforme salientam as diretrizes da OMS, qualquer investigação 
etiológica deve estar integrada ao cuidado centrado na pessoa, evitando 
interpretações deterministas ou práticas que possam limitar o acesso aos direitos 
garantidos em leis como a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e a Lei 
nº 12.764/2012. 
2.4 Avaliação Diagnóstica 
 
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é eminentemente 
clínico, baseado na observação sistemática do comportamento, na análise do 
histórico de desenvolvimento e na aplicação de instrumentos padronizados de 
avaliação. Tanto a Classificação Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-
11, OMS, 2022), regulamentada no Brasil pela Resolução CFM nº 2.324/2022, 
quanto o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR 
(APA, 2022), enfatizam que o diagnóstico deve ser realizado por profissionais 
habilitados e com experiência em transtornos do neurodesenvolvimento. 
A avaliação começa pela entrevista clínica com os responsáveis, 
buscando informações detalhadas sobre o histórico gestacional, marcos do 
desenvolvimento, interações sociais, linguagem e comportamentos repetitivos. 
Segundo Volkmar e Wiesner (2019), essa etapa é crucial para identificar sinais 
precoces, muitas vezes perceptíveis antes dos dois anos de idade, como 
ausência de balbucio, contato visual limitado e falta de resposta ao nome. 
A observação comportamental direta é parte central do processo 
diagnóstico. Nessa etapa, o profissional analisa a comunicação verbal e não 
verbal, a qualidade das interações sociais e a presença de padrões restritos ou 
repetitivos de comportamento. Essa observação deve ocorrer em mais de um 
contexto, quando possível, para diferenciar características estáveis de 
comportamentos situacionais. 
 
 
23 
 
 
Para aumentar a confiabilidade diagnóstica, são recomendados 
instrumentos padronizados como o Autism Diagnostic Observation Schedule – 
Second Edition (ADOS-2) e o Autism Diagnostic Interview – Revised (ADI-R). O 
ADOS-2 é uma avaliação semiestruturada que utiliza atividades e estímulos 
sociais para provocar respostas observáveis relacionadas ao TEA. Já o ADI-R é 
uma entrevista clínica extensa com os cuidadores, investigando detalhadamente 
aspectos do desenvolvimento e comportamento. 
Outros instrumentos complementares, como o Childhood Autism Rating 
Scale – Second Edition (CARS-2) e o Social Responsiveness Scale (SRS-2), 
podem ser empregados para triagem ou monitoramento da gravidade dos 
sintomas, mas não substituem a avaliação clínica completa. É importante 
destacar que a Resolução CFP nº 09/2018 estabelece que qualquer avaliação 
psicológica no Brasil deve utilizar métodos e técnicas cientificamente validados 
e reconhecidos pelo Conselho Federal de Psicologia. 
A avaliação diagnóstica do TEA requer uma abordagem multiprofissional, 
envolvendo médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. 
Cada profissional contribui com sua áreade expertise, compondo um quadro 
mais completo das habilidades e dificuldades da pessoa avaliada. Esse modelo 
está alinhado às Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA do 
Ministério da Saúde, que reforçam a importância da integração de saberes para 
decisões diagnósticas. 
Em alguns casos, exames complementares podem ser indicados para 
investigar etiologias associadas ou condições comórbidas. Por exemplo, testes 
genéticos podem ser solicitados quando há suspeita de síndromes como a de 
Rett ou o X-frágil. Exames de imagem cerebral não fazem parte da rotina 
diagnóstica do TEA, mas podem ser úteis para excluir outras causas de atraso 
no desenvolvimento ou sintomas neurológicos. 
É importante diferenciar diagnóstico de rastreamento. Ferramentas como 
o M-CHAT-R/F (Modified Checklist for Autism in Toddlers) são usadas para 
identificar risco de TEA em consultas de puericultura, mas não têm valor 
confirmatório. O diagnóstico definitivo exige avaliação clínica aprofundada, 
conforme preconizado pelas normativas profissionais. 
 
 
24 
 
 
A legislação brasileira assegura que o diagnóstico de TEA seja aceito para 
todos os efeitos legais, desde que emitido por profissional habilitado. A 
Resolução CFM nº 2.324/2022 determina que médicos utilizem a codificação do 
CID-11 nos laudos, enquanto a Resolução CFP nº 09/2018 orienta psicólogos 
quanto à conduta ética, incluindo a clareza e precisão das informações nos 
documentos emitidos. 
Por fim, a avaliação diagnóstica não deve ser vista como um evento 
isolado, mas como parte de um processo contínuo. Reavaliações periódicas são 
recomendadas, especialmente em crianças, para acompanhar mudanças no 
perfil funcional e adaptar intervenções. Essa perspectiva dinâmica reconhece 
que, embora o TEA seja uma condição permanente, suas manifestações podem 
variar ao longo do desenvolvimento, influenciadas por contextos, apoios e 
intervenções. 
2.5 Intervenções Baseadas em Evidências 
 
As intervenções baseadas em evidências para o Transtorno do Espectro 
Autista (TEA) são aquelas respaldadas por estudos científicos de qualidade, que 
demonstram eficácia na promoção do desenvolvimento de habilidades 
adaptativas, comunicativas, cognitivas e sociais. O objetivo principal dessas 
intervenções é potencializar a autonomia da pessoa com TEA, reduzir barreiras 
à participação social e melhorar sua qualidade de vida. A Portaria GM/MS nº 
793/2012, que institui a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no SUS, 
inclui o TEA nas diretrizes de reabilitação e prevê acesso a terapias 
especializadas de forma integral e contínua. 
Entre as abordagens mais reconhecidas está a Análise do 
Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis – ABA). Fundamentada 
nos princípios da análise do comportamento, a ABA utiliza procedimentos 
sistemáticos para ensinar habilidades e reduzir comportamentos desadaptativos, 
por meio de reforçamento positivo e divisão de tarefas complexas em etapas 
menores. Estudos longitudinais, como o de Lovaas (1987), e revisões 
sistemáticas mais recentes (Makrygianni et al., 2018) apontam que programas 
intensivos de ABA, especialmente iniciados precocemente, podem promover 
 
 
25 
 
 
ganhos significativos na linguagem, no funcionamento adaptativo e no 
desempenho acadêmico. 
Outra intervenção com robusto respaldo científico é o TEACCH 
(Treatment and Education of Autistic and related Communication-handicapped 
Children), desenvolvido na Universidade da Carolina do Norte. Essa abordagem 
combina estruturação do ambiente, apoio visual e rotinas previsíveis para facilitar 
a aprendizagem e reduzir a ansiedade. O TEACCH é particularmente útil para 
desenvolver habilidades de vida diária e promover maior independência, sendo 
frequentemente incorporado em contextos escolares inclusivos. 
O PECS (Picture Exchange Communication System) é um sistema de 
comunicação alternativa e aumentativa que utiliza cartões com figuras para 
ensinar a função comunicativa da linguagem. Desenvolvido por Bondy e Frost 
(1994), o PECS é especialmente eficaz para indivíduos com TEA não verbais ou 
com fala funcional limitada, promovendo a comunicação espontânea e reduzindo 
comportamentos desafiadores associados à frustração por dificuldades de 
expressão. 
Além dessas abordagens, há evidências para o uso de intervenções 
mediadas pelos pais, que treinam familiares para implementar estratégias no 
cotidiano. Essa modalidade aumenta a generalização das habilidades 
aprendidas e fortalece o vínculo entre a criança e seus cuidadores (Oono et al., 
2013). Programas como o Early Start Denver Model (ESDM) também se 
destacam por integrar princípios da ABA com práticas interativas e lúdicas para 
crianças muito pequenas. 
A escolha da intervenção deve ser individualizada, considerando o perfil 
funcional, idade, contexto familiar e objetivos terapêuticos. A Portaria MS nº 
793/2012 e suas atualizações recomendam que o plano terapêutico seja 
elaborado por equipe multiprofissional, revisado periodicamente e centrado na 
pessoa com TEA, com participação ativa da família nas decisões. 
É importante salientar que intervenções com evidência insuficiente ou 
sem respaldo científico não devem substituir métodos comprovados. A 
Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022) alerta para o risco de tratamentos 
sem base empírica, que podem atrasar o acesso a intervenções eficazes e 
desperdiçar recursos familiares e públicos. Práticas como dietas restritivas sem 
 
 
26 
 
 
acompanhamento nutricional, terapias com risco físico ou químico e “curas” não 
validadas devem ser evitadas. 
A literatura também reforça que o início precoce das intervenções é um 
dos fatores mais determinantes para o prognóstico positivo. O estudo de Dawson 
et al. (2010) demonstrou que crianças que receberam intervenção intensiva 
antes dos três anos tiveram melhorias significativas na cognição e linguagem, 
comparadas a crianças que iniciaram mais tardiamente. Isso reforça a 
necessidade de capacitar profissionais de atenção primária para o rastreamento 
e encaminhamento rápido. 
No contexto escolar, a integração das estratégias de ABA, TEACCH e 
comunicação alternativa favorece a inclusão, desde que acompanhada de 
adaptações curriculares, apoio individualizado e capacitação docente. Essas 
práticas estão alinhadas à Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que 
garante o direito a educação inclusiva de qualidade. 
Por fim, é fundamental que a implementação das intervenções baseadas 
em evidências seja acompanhada de monitoramento contínuo e avaliação de 
resultados. Indicadores como ganho em habilidades adaptativas, redução de 
comportamentos desafiadores e satisfação da família devem nortear a tomada 
de decisão terapêutica, garantindo que as práticas sejam não apenas 
cientificamente válidas, mas também efetivas na vida real da pessoa com TEA. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
27 
 
 
UNIDADE 3 – DIREITOS E POLÍTICAS PÚBLICAS 
3.1 Direitos Fundamentais 
 
Os direitos fundamentais das pessoas com Transtorno do Espectro 
Autista (TEA) estão assegurados no ordenamento jurídico brasileiro por um 
conjunto de normas que as equiparam, para todos os efeitos legais, às pessoas 
com deficiência. Essa equiparação está expressa no artigo 1º, § 2º, da Lei nº 
12.764/2012, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa 
com TEA. A norma reconhece que, independentemente do grau de 
funcionalidade, a pessoa com TEA possui direito ao pleno exercício de sua 
cidadania. 
No campo da saúde, o artigo 3º da Lei nº 12.764/2012 garante às pessoas 
com TEA o direito a diagnóstico precoce, atendimento multiprofissional e acesso 
a medicamentos e nutrientes adequados. Esse direito deve ser exercido no 
âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), observando-se o princípio da 
integralidade, que assegura a atenção em todos os níveis de complexidade, 
desdea atenção básica até os serviços especializados de reabilitação. 
Na educação, tanto a Lei nº 12.764/2012 quanto a Lei Brasileira de 
Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) reforçam o direito à 
educação inclusiva, vedando qualquer forma de cobrança adicional em escolas 
particulares pelo atendimento a estudantes com deficiência. O artigo 28 da LBI 
determina que instituições de ensino devem assegurar recursos de 
acessibilidade e apoio pedagógico necessário para a plena participação do aluno 
com TEA no ambiente escolar. 
No direito ao trabalho, a Lei nº 8.213/1991, em seu artigo 93, estabelece 
a reserva de um percentual de vagas para pessoas com deficiência em 
empresas com 100 ou mais empregados, aplicando-se também às pessoas com 
TEA. Essa inclusão no mercado de trabalho deve ser acompanhada de 
adaptações razoáveis e de ambientes inclusivos, conforme prevê a Convenção 
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto nº 6.949/2009). 
O direito à acessibilidade, previsto no artigo 53 da Lei nº 13.146/2015, 
abrange não apenas barreiras arquitetônicas, mas também barreiras 
comunicacionais, atitudinais e tecnológicas. Isso significa, por exemplo, garantir 
 
 
28 
 
 
o uso de comunicação alternativa e aumentativa, bem como a adaptação de 
informações em formatos acessíveis às necessidades cognitivas e sensoriais da 
pessoa com TEA. 
Outro aspecto importante é o direito ao transporte acessível e à 
mobilidade, contemplado no artigo 46 da LBI, que inclui gratuidade ou descontos 
tarifários no transporte coletivo, conforme regulamentações estaduais e 
municipais. Essa garantia é essencial para o deslocamento da pessoa com TEA 
para tratamentos, educação e participação social. 
A proteção contra discriminação está expressamente prevista no artigo 4º 
da Lei nº 13.146/2015, que considera crime recusar, cobrar valores adicionais 
ou impedir o acesso da pessoa com deficiência a qualquer serviço, espaço 
público ou privado de uso coletivo. No caso de pessoas com TEA, essa proteção 
é fundamental para prevenir exclusões veladas no ambiente escolar, no mercado 
de trabalho ou em serviços de saúde. 
A Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA também 
estabelece, no artigo 2º da Lei nº 12.764/2012, que a elaboração de políticas 
públicas voltadas a esse público deve ser intersetorial, envolvendo saúde, 
educação, assistência social, cultura, esporte e lazer. Isso reforça a 
compreensão de que o exercício dos direitos fundamentais não se limita a áreas 
específicas, mas requer uma abordagem ampla e integrada. 
Além das garantias legais, o Brasil é signatário de tratados internacionais 
como a já mencionada Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com 
Deficiência, que tem status constitucional, conforme decisão do Supremo 
Tribunal Federal (STF) na ADI 5.357/DF. Isso significa que nenhuma norma 
infraconstitucional pode retroceder na proteção desses direitos. 
Por fim, a efetivação dos direitos fundamentais das pessoas com TEA 
depende não apenas da existência de leis, mas da implementação de políticas 
públicas eficazes, da fiscalização de seu cumprimento e da conscientização da 
sociedade. A legislação brasileira fornece a base normativa, mas cabe ao poder 
público, às instituições privadas e à comunidade em geral promover ações 
concretas que garantam a inclusão plena e a dignidade da pessoa com TEA. 
 
 
 
29 
 
 
3.2 Educação Inclusiva 
 
A educação inclusiva é um princípio que assegura o acesso, a 
permanência, a participação e a aprendizagem de todos os estudantes, 
independentemente de suas características individuais ou necessidades 
específicas. No Brasil, esse princípio encontra respaldo em documentos 
internacionais, como a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com 
Deficiência (ONU, 2006), internalizada pelo Decreto nº 6.949/2009, e em 
legislações nacionais como a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015). 
Para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a educação 
inclusiva é um direito fundamental, que exige adaptações pedagógicas, 
arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais. 
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017, 
estabelece que o currículo escolar deve contemplar a diversidade, garantindo 
equidade de oportunidades de aprendizagem. O documento orienta que a 
personalização do ensino é essencial para que todos os alunos desenvolvam as 
competências e habilidades previstas, respeitando ritmos e estilos de 
aprendizagem. Assim, para estudantes com TEA, a BNCC serve de referência 
para a elaboração de Planos de Atendimento Educacional Especializado (AEE) 
e adaptações curriculares significativas ou não significativas. 
O Decreto nº 10.502/2020, que institui a Política Nacional de Educação 
Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida, reforça a 
importância da oferta de serviços e recursos de acessibilidade no ambiente 
escolar. Essa política prevê que estudantes com TEA tenham direito ao apoio de 
profissionais especializados, como professores do AEE, intérpretes de Libras 
(quando necessário) e mediadores escolares, além de acesso a materiais 
didáticos adaptados. 
No campo pedagógico, a educação inclusiva para alunos com TEA requer 
metodologias diversificadas que favoreçam a compreensão e expressão. Entre 
as estratégias recomendadas estão o uso de recursos visuais, rotinas 
estruturadas, ensino por meio de interesses específicos e atividades que 
estimulem habilidades socioemocionais. Tais práticas estão alinhadas com 
 
 
30 
 
 
abordagens reconhecidas internacionalmente, como o TEACCH e o PECS, que 
também podem ser integradas ao contexto escolar. 
O direito à educação inclusiva implica, ainda, o acesso ao currículo geral. 
Conforme o artigo 28 da Lei nº 13.146/2015, os sistemas de ensino devem adotar 
medidas individualizadas e coletivas que maximizem o desenvolvimento 
acadêmico e social dos estudantes com deficiência. Isso significa que o currículo 
não deve ser simplificado de forma a reduzir expectativas de aprendizagem, mas 
adaptado para que o aluno possa acessar e construir o conhecimento com os 
apoios necessários. 
A BNCC, ao estabelecer dez competências gerais, orienta que todos os 
alunos devem desenvolver, por exemplo, autonomia, pensamento crítico e 
capacidade de comunicação. Para o estudante com TEA, esses objetivos devem 
ser perseguidos com base em um plano individualizado, elaborado em parceria 
entre escola, família e equipe multidisciplinar. Esse trabalho colaborativo é 
fundamental para garantir que as adaptações pedagógicas estejam alinhadas às 
metas de desenvolvimento global do aluno. 
A presença de mediadores ou acompanhantes especializados é outro 
ponto sensível. Embora não seja obrigatória para todos os casos, essa função 
pode ser determinante para a participação efetiva de alguns estudantes com TEA 
nas atividades escolares. O Decreto nº 10.502/2020 e a Lei nº 12.764/2012 
preveem a oferta desse recurso quando comprovada a necessidade, devendo 
ser garantida pelo sistema de ensino, seja público ou privado. 
A inclusão escolar também está ligada à formação docente. Professores 
devem receber capacitação continuada para compreender as características do 
TEA, identificar sinais de dificuldades e utilizar estratégias pedagógicas 
adequadas. A LBI, em seu artigo 28, inciso XV, estabelece como dever do poder 
público a oferta de programas de formação para todos os profissionais da 
educação, com foco na inclusão. 
Outro aspecto essencial é o combate ao capacitismo e ao bullying. As 
escolas devem implementar políticas e práticas que promovam o respeito à 
diversidade e a valorização das diferenças. Isso envolve a construção de uma 
cultura escolar inclusiva, na qual todos os alunos se sintam pertencentes, e onde 
a singularidade de cada estudante seja reconhecida como um valor. 
 
 
31 
 
 
Por fim, a efetivaçãoda educação inclusiva para pessoas com TEA 
depende de planejamento intersetorial entre as áreas de educação, saúde e 
assistência social. Apenas por meio dessa integração é possível garantir que as 
adaptações curriculares, os apoios especializados e as intervenções 
terapêuticas estejam alinhados, potencializando o desenvolvimento global do 
estudante e assegurando seu direito constitucional à educação de qualidade. 
3.3 Atendimento no SUS 
 
O atendimento às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no 
Sistema Único de Saúde (SUS) é regulamentado por um conjunto de normativas 
que garantem o acesso a serviços especializados, integrados e 
multiprofissionais. A Portaria GM/MS nº 793/2012 instituiu a Rede de Cuidados 
à Pessoa com Deficiência (RCPD) no âmbito do SUS, estabelecendo diretrizes 
para a organização da atenção integral à saúde de pessoas com deficiência 
física, auditiva, visual, intelectual e múltipla, incluindo aquelas com TEA. 
Essa rede tem caráter interfederativo, envolvendo União, estados, Distrito 
Federal e municípios, e é estruturada para funcionar de maneira articulada entre 
os diferentes pontos de atenção: atenção básica, especializada, urgência e 
hospitalar. O objetivo é garantir que o cuidado seja contínuo, humanizado e 
centrado nas necessidades da pessoa, conforme preconiza o princípio da 
integralidade previsto na Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990). 
No caso específico do TEA, a Portaria nº 793/2012 prevê o atendimento 
em Centros Especializados em Reabilitação (CER), que podem ser habilitados 
em até quatro modalidades: física, auditiva, visual e intelectual. O TEA se insere 
na modalidade intelectual, mas frequentemente requer também apoio nas 
dimensões de comunicação e motricidade. Os CER atuam como serviços de 
referência, oferecendo diagnóstico, avaliação e acompanhamento terapêutico 
por equipe multiprofissional. 
A Portaria MS nº 3.502/2017 ampliou as possibilidades de organização da 
rede, definindo novos procedimentos e incentivando a regionalização dos 
serviços, de modo a aproximar o cuidado especializado das comunidades. Essa 
norma também reforça o papel da atenção primária como porta de entrada, 
 
 
32 
 
 
responsável pelo acolhimento inicial, triagem, encaminhamento e 
acompanhamento longitudinal da pessoa com TEA e de sua família. 
O modelo multiprofissional preconizado pelo SUS para o TEA inclui, entre 
outros profissionais, médicos (neuropediatras, psiquiatras), psicólogos, 
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, assistentes sociais e 
pedagogos. Essa composição é fundamental para que o plano terapêutico seja 
abrangente, contemplando tanto o desenvolvimento de habilidades adaptativas 
quanto o suporte às demandas médicas, sociais e educacionais. 
A rede de cuidados também prevê apoio matricial, no qual equipes de 
referência, como as dos CER, oferecem suporte técnico-pedagógico às equipes 
da atenção básica. Isso permite que profissionais generalistas ampliem sua 
capacidade de identificar sinais de TEA, realizar encaminhamentos adequados 
e acompanhar intervenções de forma integrada ao território. 
Outro ponto importante é que o SUS garante fornecimento de órteses, 
próteses e tecnologias assistivas quando indicadas, como sistemas de 
comunicação alternativa e dispositivos para apoio à mobilidade. Esse 
fornecimento é regulamentado por protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas 
que estabelecem critérios técnicos para concessão, sempre com avaliação da 
equipe multiprofissional. 
O atendimento no SUS também deve ser humanizado, conforme as 
diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH), priorizando o acolhimento 
da pessoa com TEA e de sua família. Isso implica adaptação dos fluxos de 
atendimento, adequação do ambiente físico (por exemplo, redução de estímulos 
visuais e sonoros em salas de espera) e respeito às especificidades sensoriais 
do indivíduo. 
Apesar do marco legal robusto, a efetividade do atendimento ainda 
enfrenta desafios, como desigualdade na distribuição dos serviços 
especializados, carência de profissionais capacitados e filas de espera 
prolongadas para diagnósticos e terapias. Pesquisas do Ipea (2022) indicam que 
a concentração de CER nas regiões Sudeste e Sul dificulta o acesso de 
populações das regiões Norte e Nordeste, exigindo políticas de expansão e 
descentralização. 
 
 
33 
 
 
Por fim, a consolidação de um atendimento de qualidade no SUS para 
pessoas com TEA depende de financiamento adequado, formação continuada 
das equipes, integração entre saúde, educação e assistência social e 
participação ativa das famílias nos processos de cuidado. As Portarias nº 
793/2012 e nº 3.502/2017 fornecem a estrutura normativa, mas a efetivação 
desse direito demanda vontade política e gestão eficiente para que o 
atendimento especializado seja, de fato, acessível a todos que dele necessitam. 
3.4 Mercado de Trabalho e Inclusão Profissional 
 
A inclusão profissional das pessoas com Transtorno do Espectro Autista 
(TEA) é um direito legalmente assegurado no Brasil e está inserida no conjunto 
de medidas voltadas à promoção da igualdade de oportunidades no mercado de 
trabalho. Esse direito é respaldado pela Lei nº 8.213/1991, em seu artigo 93, que 
institui a chamada Lei de Cotas, e regulamentado pelo Decreto nº 3.298/1999, 
que estabelece critérios para a inclusão de pessoas com deficiência no serviço 
público e na iniciativa privada. 
O artigo 93 da Lei nº 8.213/1991 obriga empresas com 100 ou mais 
empregados a preencher de 2% a 5% de seus cargos com pessoas com 
deficiência, percentual que varia de acordo com o número de trabalhadores. 
Como a Lei nº 12.764/2012 reconhece a pessoa com TEA como pessoa com 
deficiência para todos os efeitos legais, ela é incluída nesse mecanismo de 
reserva de vagas. Isso garante, no plano jurídico, que o trabalhador com TEA 
tenha oportunidades de ingresso no mercado formal de trabalho. 
O Decreto nº 3.298/1999 detalha que a inserção laboral deve respeitar as 
qualificações e competências da pessoa, e que o empregador deve assegurar 
as adaptações razoáveis necessárias ao desempenho das funções. Tais 
adaptações podem incluir ajustes no ambiente físico, flexibilização de horários, 
simplificação de processos e fornecimento de apoio tecnológico ou humano, 
como tutoria e acompanhamento inicial. 
A inclusão profissional da pessoa com TEA vai além do cumprimento da 
cota legal. Envolve repensar práticas organizacionais, adotar políticas de 
diversidade e inclusão e promover um ambiente de trabalho livre de barreiras 
atitudinais. Nesse sentido, o artigo 8º da Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 
 
 
34 
 
 
13.146/2015) estabelece que é dever do Estado, da sociedade e das empresas 
garantir condições de igualdade de oportunidades, assegurando que as 
diferenças individuais sejam respeitadas e valorizadas. 
Estudos de caso mostram que, quando as empresas investem em 
programas estruturados de inclusão, o impacto é positivo não apenas para os 
trabalhadores com TEA, mas para a equipe como um todo. Programas de 
sensibilização interna e treinamento de gestores e colegas de trabalho reduzem 
preconceitos, aumentam a cooperação e melhoram o clima organizacional. 
Pesquisas como a de Scott et al. (2017) demonstram que a presença de 
funcionários no espectro pode contribuir para maior inovação e atenção aos 
detalhes em atividades específicas. 
O processo de inserção deve considerar as características individuais da 
pessoa com TEA, já que o espectro é heterogêneo. Algumas pessoas podem 
apresentar alta autonomia funcional e habilidades técnicas especializadas, 
enquanto outras necessitarão de maior apoio e supervisão. A avaliação funcional 
e vocacional, realizada por equipes multiprofissionais, é fundamental para 
identificar o melhor encaixe entre perfil do candidato e demandas da função. 
As políticas públicas também oferecem

Mais conteúdos dessa disciplina