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09-10 LÜCK - Concepções e processos democráticos de gestão educacional

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A Série Cadernos de Gestão se propõe a contribuir para que gestores educacionais, atuantes no âmbito de sistemas de ensino, e profissionais responsáveis pela gestão escolar diretores escolares, supervisores e professores possam refletir sobre aspectos básicos referentes à sua prática de trabalho, integrando temas básicos da gestão educacional CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS CONCEPÇÕES E PROCESSOS orientadores educacionais, secretários escolares e, por que não dizer, DEMOCRÁTICOS DE com o avanço e a profissionalização dessa prática profissional que, muitas vezes, tem sido tratada a partir de um viés unilateral da sua GESTÃO EDUCACIONAL expressão política, em esquecimento de suas múltiplas e importantes dimensões. Este segundo volume da série aborda questões básicas sobre a des- centralização, a gestão democrática e a autonomia em educação, ofe- vol. II recendo referências para a reflexão sobre as práticas nas organizações de ensino e nas escolas, de modo a encaminhar ações para a melhoria des- sas práticas e dar-lhes significado amplo, abrangente e unitário. www.vozes.com.br EDITORA ISBN 978-85-326-3294-4 HELOÍSA LÜCK SÉRIE CADERNOS DE GESTAO VOZES Uma vida pelo bom livro EDITORA vendas@vozes.com.br VOZES EdiçãoCONCEPÇÕES E PROCESSOS DE GESTÃO EDUCACIONAL cidade de agir do sistema. A ex- pressão desse entendimento foi observada pela auto- ra em ocasiões diversas em que diretores escolares 2 negavam a autoridade de seu Secretário de Educação sobre várias questões, como, por exemplo, a de con- Mecanismos de construção da vocá-los para reunião na Secretaria de Educação autonomia da gestão escolar não compareceriam, sem antes consultar as bases para decidir se deveriam comparecer a essa reunião. Há diretores escolares que até mesmo boicotam orien- tações centrais e ações de monitoramento e avaliação, Barroso (1996) identifica como mecanismos de mesmo aquelas em que são demonstradas como estra- construção da autonomia da gestão escolar, no con- tégias importantes para a própria gestão da escola e texto da reforma portuguesa pela autonomia e ges- melhoria de seus processos educacionais. tão das escolas, a eleição de diretores, a formação Em decorrência de tais situações, pode-se depre- de órgãos colegiados e a descentralização de recur- ender a atribuição de conotações nem sempre ade- financeiros. A seguir apresentamos comentá- quadas à autonomia no âmbito do ensino, em vista rios sobre esses aspectos, no contexto brasileiro. do que se torna conveniente analisá-la mais deta- lhadamente. 2.1. Órgãos colegiados Conforme identificado em pesquisa realizada A aproximação entre tomada de decisão e ação não apenas pelo Ipea, das escolas brasileiras estaduais, 37,28% garante a maior adequação das decisões e efetividade das 64 ações correspondentes, como também é condição de for- delas à época da pesquisa possuíam Conselho Esco- 65 mação de sujeitos de seu destino e maturidade social. lar, 32,69% possuíam Associação de Pais e Mestres, 24,59% possuíam Colegiado Escolar, 18,22% pos- Série Cadernos de Gestão suíam Caixa Escolar. Além dessas estruturas de ges- tão, foram registradas mais nove outras, dentre as quais Conselho Deliberativo Escolar, Associação Escola- Comunidade, Congregação, que mantêm entre si pa- Série Cadernos de Gestão péis muito próximos. Foi identificado que muitasCONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL Lück escolas possuíam mais de uma estrutura de gestão Esta participação pode ser promovida mediante colegiada, separando funções entre elas, como por atividades as mais diversas, conforme sugerido pe- exemplo as administrativas e as do processo pedagó- los membros dos órgãos, como por exemplo: a) par- gico propriamente dito (PARENTE & LÜCK, 1999). ticipar da elaboração e acompanhamento do projeto O Conselho Escolar, por exemplo, focalizaria respon- pedagógico da escola; b) envolver-se na realização sabilidades de influência sobre cotidiano da escola de atividades pedagógicas da escola; c) participar de e todas as suas dimensões e a Caixa Escolar focali- círculos de pais, para trocar experiências sobre a edu- zaria a gestão financeira. cação dos filhos; d) apoiar iniciativas de enriqueci- Um órgão colegiado escolar constitui-se em um mento pedagógico da escola; e) colaborar com ações mecanismo de gestão da escola que tem por objetivo de parcerias e trabalho voluntário na escola; f) auxi- auxiliar na tomada de decisão em todas as suas áreas liar na promoção da aproximação entre escola e de atuação, procurando diferentes meios para se al- munidade; g) participar da gestão de recursos fi- cançar objetivo de ajudar 0 estabelecimento de en- nanceiros da escola. sino, em todos os seus aspectos, pela participação de Os cinco quadros a seguir apresentados regis- modo interativo de pais, professores e funcionários. tram objetivos propostos por pais e professores de Em sua atuação, cabe-lhe resgatar valores e cultura, escolas municipais de Pinhais-PR, para orientar considerando aspectos socioeconômicos, de modo a seu trabalho como membros do Conselho Escolar de contribuir para que alunos sejam atendidos em suas escolas. Quatro áreas de atuação foram privi- suas necessidades educacionais, de forma global. legiadas por eles: ações para envolvimento da co- Entende-se que os membros do órgão colegiado munidade e dos pais na escola (Quadro 01), ações pa- sejam apenas ponto de partida, para que todos ra O atendimento aos alunos (Quadro 02), ações para 66 pais se envolvam com os trabalhos da escola, caben- a organização da escola (Quadro 03), ações de cón- 67 do aos primeiros buscar os meios para promover tribuição para as experiências educacionais e cultu- rais (Quadro 04) e ações para a operacionalização do Série Cadernos de Gestão esse envolvimento. Seu significado está centrado na maior participação dos pais na vida escolar, como Conselho Escolar (Quadro 05). Estes quadros siste- condição fundamental para que a escola esteja in- matizam a contribuição dos membros dos conselhos tegrada na comunidade, assim como a comunidade escolares das escolas daquele município em uma di- nela, que se constitui na base para a maior qualida- nâmica de grupo realizada no contexto de uma ofi- Série Cadernos de Gestão de do ensino. cina de integração promovida pela Secretaria Mu-CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL Lück nicipal de Educação, mediante a orientação da au- Quanto à participação das mães tora deste livro. Pode-se observar, pela variedade de 1) Criar clube de mães para que participem de projetos áreas focalizadas e diversidade de ações propostas, como: trabalhos manuais, pintura, confecção de cestos de geradas de forma espontânea e em curto período de jornais, bordados, etc. tempo e sem nenhuma influência externa, a ma- 2) Integrar as mães à escola através de atividades diversas. turidade dos membros dos conselhos escolares en- 3) Promover atividades em que mães atuem junto com alu- volvidos. nos em sala de aula, para esclarecer questões sobre drogas, sexualidade, saúde, etc. Quadro 01 Ações para envolvimento dos pais e da Quanto à conscientização dos pais a respeito do seu comunidade na escola papel e da importância da educação 1) Ampliar a visão dos pais em geral quanto à importância da sua participação junto a escola. Quanto à relação escola-comunidade 2) Mostrar aos pais a importância do órgão colegiado esco- 1) Garantir livre acesso da comunidade à escola, a partir de lar como representante geral de toda a comunidade. criação de espaços de atuação e participação. 3) Apresentar Conselho para todos os outros pais em reu- 2) Promover melhor convívio entre escola e comunidade. niões específicas. 3) Mobilizar a comunidade para participar de um movimen- 4) Conscientizar os pais da importância de estarem pre- to pela melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem dos sentes na vida escolar de seu filho. seus alunos, conscientizando-a da importância efetiva de 5) Parabenizar pais pelas realizações de seus filhos. sua participação na escola. 4) Promover a quebra de gelo na relação entre funcionários 6) Analisar com os pais 0 uso do uniforme, a sua importân- cia e as condições que 0 seu uso oferece na educação de e comunidade. seus filhos. 68 5) Promover a integração entre escolas, realizando atividades 69 de intercâmbio como campeonatos e atividades diversas. Fonte: Cedhap, Oficina de capacitação, trabalho em grupo 6) Unir grupo da idade com as crianças para resgate de Semec. Pinhais, PR, 2001. Série Cadernos de Gestão artesanato, histórias locais e experiências de vida, dentre ou- tras atividades. 7) Abrir a escola para a comunidade, tornando-a um centro Destacando aspectos gerais do envolvimento dos de integração comunitária. pais e da comunidade, os membros dos conselhos escolares destacaram ações quanto à relação esco- Série Cadernos de Gestão la-comunidade, a participação das mães e a conscien-Lück CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL tização dos pais a respeito de seu papel na educa- 3) Resgatar os alunos que se evadiram da escola, buscando ção dos filhos e da importância da educação, confor- soluções através do histórico da família, para que isto não mais aconteça. me especificado no Quadro 01. Já Quadro 02 des- taca ações sobre atendimento aos alunos, desta- Quanto à promoção da segurança dos alunos ca ações de apoio direto aos alunos em geral, atua- 1) Buscar meios que ampliem a segurança dos alunos que ção com alunos com dificuldades especiais, promoção se deslocam sozinhos da e para a escola. da segurança dos alunos. 2) Estabelecer interação do Conselho Escolar com a Ação Social para o atendimento de casos especiais. Quadro 02 Ações para o atendimento aos alunos Fonte: Cedhap, Oficina de capacitação, trabalho em grupo Quanto ao apoio direto aos alunos em geral Semec. Pinhais, PR, 2001. 1) Envolver os alunos em trabalho voluntário que tenha re- lação com caridade, solidariedade, virtude (relação entre pes- soas), atuação ecológica. O Quadro 03, a seguir, que integra ações volta- 2) Atuar na sala de aula debatendo junto com alunos temas das para a organização da escola, destaca ações vol- diversos. tadas para a manutenção da escola e realização de 3) Colocar caixas de sugestão dentro de cada sala, para que atividades diversas, a gestão da escola e seu pro- os alunos escrevam e depositem suas dúvidas, sugestões, cesso de comunicação. perguntas e preferências para serem conhecidas e respon- didas pelo órgão colegiado escolar. Quadro 03 Ações para a organização da escola 4) Realizar palestras sobre como educar os filhos e sobre significado, a importância e OS desdobramentos da educação. Quanto à manutenção da escola e realização 71 70 de atividades diversas Quanto à atuação com os alunos com dificuldades especiais 1) Zelar pela escola e seus materiais, contribuindo para a sua manutenção em bom estado de funcionamento e sua re- Série Cadernos de Gestão 1) Estar em contato direto com as famílias das crianças con- sideradas "problemáticas" para descobrir as causas da sua cuperação quando necessário. situação, para poder auxiliá-las dentro do ambiente escolar. 2) Arrecadar verbas e fazer campanhas de arrecadação de alimentos, livros, materiais pedagógicos, etc. 2) Visitar as famílias carentes e de alunos faltosos com 0 objetivo de ajudar, para que eles não faltem à escola e te- 3) Envolver a participação dos pais na confecção de mate- Série Cadernos de Gestão nham melhor atendimento. riais para 0 apoio das atividades da escola.CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL HELOÍSA 4) Participar da orientação do recreio escolar, de modo que O Quadro 04 a seguir integra proposições dos par- seja mais educativo. ticipantes dos conselhos escolares a respeito da con- 5) Colaborar na confecção de merenda escolar e na sua tribuição para as experiências educacionais, incluin- distribuição. do ações para enriquecimento do currículo escolar e 6) Colaborar na entrada e saída dos alunos da escola. para a realização de atividades sociais e culturais. Quanto à gestão da escola Quadro 04 Ações para enriquecimento das 1) Abrir a gestão da escola à participação de todos. experiências educacionais 2) Promover a participação e a integração maior de todos nos processos de tomada de decisão da escola. Quanto ao enriquecimento do currículo escolar 3) Confeccionar agenda escolar, com recursos da comuni- 1) Promover eventos, trabalhos extraclasse e passeios edu- dade, para organizar o trabalho dos alunos e manter as fa- cativos, participando deles, como forma de enriquecimen- mílias informadas sobre as atividades principais da escola. to das experiências educacionais dos alunos. 4) Estabelecer metas de resultado para cada semestre e acom- 2) Contar histórias para os alunos, para desenvolver gos- panhar a sua realização. to pela leitura. 5) Realizar levantamentos periódicos das dificuldades que 3) Realizar atividades desportivas para os alunos, como vô- devem ser superadas. lei e basquete. 4) Promover a realização de palestra pelos pais, para os alu- Quanto ao processo de comunicação nos, para discutir valores, conhecer a história local e alar- 1) Manter pais informados sobre que acontece na escola. gar seus horizontes. 2) Divulgar para a comunidade, por meios diversos, as ati- 5) Convidar profissionais para realizarem palestras para vidades da escola e do Conselho. alunos e pais sobre temas diversos. 72 3) Manter um informativo semestral a ser fornecido para 73 os pais, informando e esclarecendo assuntos de interes- Quanto à realização de atividades sociais e culturais ses comuns com relação à escola e rendimento escolar dos 1) Promover a realização de palestras sobre assuntos im- alunos. portantes para a comunidade. Série Cadernos de Gestão 4) Divulgar na comunidade e para pais, a qualidade do 2) Promover e participar de festas e pequenos eventos, en- trabalho realizado na escola e seus resultados. tre outros. 3) Realizar gincanas, torneios, festa junina, da primavera, Fonte: Cedhap, Oficina de capacitação, trabalho em grupo promover almoço com bingo e gincana em comemoração Série Cadernos de Gestão Semec. Pinhais, PR, 2001. dos dias das mães e dos pais.CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL 4) Colaborar com pratos típicos na Feira das Nações, apro- 5) Promover a campanha da arrecadação de jornais, pa- ximando ainda mais a comunidade com a escola. péis, bolas, etc., que serão vendidos a fim de reverter em benfeitorias para a escola. 5) Promover concursos de histórias, contos e poesia para 6) Fazer pesquisa com os pais através de um questionário pais. com a finalidade de encontrar sugestões para a melhoria 6) Promover a formação de um grupo de teatro. da escola. 7) Promover a realização de tardes de lazer. 7) Realizar trocas de informativos entre os vários conse- 8) Resgatar brincadeirinhas antigas e folclóricas, como es- lhos escolares para conhecer diferentes experiências. tratégias de integração. 8) Realizar reuniões mais frequentes do conselho e em ca- ráter sistemático. Fonte: Cedhap, Oficina de capacitação, trabalho em grupo 9) Realizar campanhas de conservação do meio ambiente Semec. Pinhais, PR, 2001. com arrecadação de materiais recicláveis. Fonte: Cedhap, Oficina de capacitação, trabalho em grupo As proposições dos participantes dos conselhos Semec. Pinhais, PR, 2002. escolares de Pinhais apresentaram ainda proposições de ação voltadas para a operacionalização dos con- selhos. Apesar do grande movimento que ocorre no Bra- sil para a constituição e promoção de órgãos colegia- dos atuantes, destaca-se ainda a força de sua origem, Quadro 05 Ações para a operacionalização do segundo a qual grande parte dos órgãos colegiados Conselho Escolar passou a existir muito mais orientados para a ges- tão das questões financeiras, conforme se pode de- 1) Realizar reuniões em horários mais adequados para a preender a seguir, do que como órgãos para reali- 75 74 participação de todos. zar a autêntica gestão colegiada da escola, em todas 2) Entregar o estatuto escolar para cada membro do Con- as suas dimensões. Pode-se afirmar que essa prática selho, para que tomem conhecimento de como funciona Série Cadernos de Gestão expressa a tendência de nossas escolas de se orienta- uma escola. rem pela letra das determinações legais e a reboque 3) Planejar as atividades de cada semestre, traçando obje- delas, deixando de lado as possibilidades abertas de tivos e metas, visando melhores resultados. construção e expansão de suas experiências, no sen- Série Cadernos de Gestão 4) Realizar encontro com a comunidade escolar para bus- car soluções para problemas encontrados. tido da autonomia.CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL HELOÍSA 2.2. Eleição de diretores ritarismo por diretores eleitos; 0 esgarçamento da unidade de orientação pedagógica, em face da for- O movimento de descentralização e construção mação de grupos de disputa; ou enfraquecimento da autonomia da gestão escolar passou, no Brasil, pe- do trabalho pedagógico, tendo em vista enfra- la adoção de mecanismos diferenciados de provimen- quecimento da organização, coordenação e contro- to do cargo de diretor da escola, como alternativa aos le, além, é claro, da intensificação de experiências de mecanismos tradicionais de indicação de diretores maior participação da comunidade no debate das por políticos, filtrada e definida pelos órgãos cen- questões de gestão da escola. trais, no Gabinete do Secretário de Educação. As- Cabe lembrar que não é a eleição em si, como sim é que "a escolha do diretor escolar pela via da elei- evento, que democratiza, mas sim O que ela repre- ção direta e com a participação da comunidade vem sentaria, como parte de um processo participativo glo- se constituindo e se ampliando como mecanismo bal, no qual ela corresponderia apenas a um momen- de seleção diretamente ligado à democratização da to de culminância num processo construtivo e sig- educação e da escola pública, visando assegurar, tam- nificativo para a escola. Ao se promover a eleição de bém, a participação das famílias no processo de ges- tão da educação de seus filhos" (PARENTE & LÜCK, dirigentes estar-se-ia delineando uma proposta de es- cola, um estilo de gestão e se firmando compromis- 1999: 37). coletivos para levá-los a efeito de forma efeti- A realização de eleição de diretores teve início va. Lamentavelmente, no entanto, esse entendimen- na década de 80, por iniciativa dos primeiros gover- to não se tem manifestado no geral das escolas, como nos estaduais eleitos, após fim do governo pelo re- em geral não se manifesta em nossa prática de esco- gime militar, como parte de redemocratização do país. lha de nossos dirigentes e legisladores, em relação 76 Em 1998, a eleição direta de diretores escolares por aos quais assumimos uma atitude passiva e destituí- 77 sua comunidade era praticada em 17 estados bra- da de esforços de acompanhamento de seu trabalho. sileiros (PARENTE & LÜCK, 1999). Não há, no en- Falamos "deles", "os políticos", como se fossem se- Série Cadernos de Gestão tanto, resultados gerais e consistentes que demons- res com vida própria, esquecendo-nos de nossa con- trem a efetividade desses mecanismos na prática de tribuição ou omissão em elegê-los e de nossa moti- gestão democrática e construção da autonomia da ges- vação em fazê-lo. tão escolar. Há registros de situações as mais varia- Série Cadernos de Gestão Observou-se que, tendo sido decidido pelo Judi- das, como por exemplo: a intensificação do auto- ciário sobre a da realização deCONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL HELOÍSA eleição para O provimento do cargo de diretores, as- competências tivessem de promover a realização des- sim como pela falta de demonstração por este meca- se ideário e de manter os membros da comunidade nismo, de que contribua para a melhoria do ensino, escolar mobilizados para a sua realização. por um período, veio a ocorrer uma retração na ex- Paro (1996: 130), ao estudar a eleição de diretores pansão dessa prática. Paralelamente ocorreu, em as- como um importante mecanismo de democratização sociação, fortalecimento de uma tendência a, sem da escola, aponta a ocorrência de interpretações que perder de vista os esforços pela democratização da limitam papel do diretor eleito à dimensão represen- escola e sua gestão, promover critérios de seleção de tativa e de reivindicação: "Seu papel é apenas de con- diretores que passassem pela demonstração de com- tribuir para que a população possa contar com um re- petências para exercício desse trabalho (critérios curso que lhe possibilite exercer alguma pressão so- técnicos) este é caso de sete (7) estados brasilei- bre 0 Estado para que ele atue na direção desejada. Em ros, conforme identificado em pesquisa de mapea- síntese, a razão determinante de optar pela eleição mento (PARENTE & LÜCK, 1999). A adoção des- como mecanismo de seleção de diretores é a crença de ses critérios estaria em acordo com a necessidade que, por um lado, pode-se escolher alguém que se ar- de a escola, para se tornar efetivamente autônoma, ticula com os interesses da escola e, por outro, pró- ser dirigida com competência e demonstrar sua efe- prio método de escolha condiciona, em certa medida, tividade. Aliás, tem-se evidenciado na literatura 0 seu compromisso, não com Estado, como fazem as reconhecimento da importância da competência pro- opções de concurso e da nomeação, mas com os ser- fissional específica em gestão como um critério fun- vidores e usuários da escola". damental para O bom desempenho das funções de ges- tão escolar. Ora, tais expectativas e orientações demonstram um desvirtuamento do sentido da educação e do seu 78 Cabe indicar que, em seu sentido pleno, a elei- trabalho, assim como uma noção de Estado como um 79 ção em si não deveria representar única e exclusi- ente acima de todos e da sociedade contra qual se Série Cadernos de Gestão vamente entendimento da eleição de pessoas, mas deve estabelecer um regime de luta e não de colabo- sim de definição de um ideário social-democrático ração para construir mais efetivamente a sociedade, para a construção de instituições e prestação de ser- cujos ideais representaria. Vale lembrar que tanto viços sociais em atendimento a planos de desenvol- 0 Estado como a escola existem como instituições a vimento organizacional e social amplos. Seriam, nes- serviço da sociedade, visando a promoção de seu de- Série Cadernos de Gestão se caso, eleitas as pessoas que melhores condições e senvolvimento. Em vista disso, governantes eCONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL HELOÍSA gentes de escolas se dispõem, ao aceitarem as fun- objetivo a gestão dos recursos finan- ções de liderança à frente dessas instituições, traba- ceiros, transferidos para a manutenção lhar pelo bem comum da sociedade no caso da es- e desenvolvimento do ensino. Não impor- ta qual a denominação que a unidade es- cola, pela qualidade do ensino, motivando e orien- colar Comunidade escolha para a Unida- tando servidores e usuários para tais realizações su- de Executora, seja ela Associação, Caixa perando interesses corporativistas e individualistas. Escolar, Círculo de Pais e outras (In: PA- RENTE & LÜCK, 1999: 13). 2.3. Descentralização de recursos financeiros Mediante a existência dessa unidade, a escola A autonomia da gestão da escola tem sido faci- estaria apta a receber, diretamente do MEC (Di- litada por ações dos sistemas de ensino no sentido nheiro Direto na Escola) ou de outras fontes, recur- de repassar para a escola recursos que lhes permitam financeiros para suas necessidades cotidianas. atender às necessidades de seu cotidiano. Trata-se de Tendo em vista que Estados também deram início à recursos para cobertura de despesas de pronto paga- realização de programas de transferência de recur- mento e manutenção. Para garantir à escola recebi- para as escolas, com O mesmo fim, essas unida- mento e a gestão desses recursos financeiros, 0 Minis- des gestoras foram por eles incentivadas e passa- tério de Educação orientou a organização de estrutu- ram a ter existência em quase todas as escolas. Po- ras de gestão colegiada, pelos estabelecimentos de en- rém, verificou-se que essas passaram a desconside- sino, de modo que pudessem sistematizar e ordenar a rar outras dimensões mais fundamentais da gestão es- formação de mecanismos de gestão financeira, denomi- colar, em vista do que este espaço aberto para a cons- nando-os genericamente como Unidade Executora. trução da autonomia da gestão escolar não foi devi- A responsabilidade precípua dessa Unidade se- damente ocupado, com sérios prejuízos para a qua- 81 80 ria a de receber, executar e gerir recursos financei- lidade do ensino¹³. Conforme Parente e Lück (1999) ros da unidade escolar: Série Cadernos de Gestão A Unidade Executora é uma denomi- nação genérica, adotada para referir-se às 13. É bom lembrar que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação diversas nomenclaturas, encontradas em Nacional, LDB 5.692/71, estabeleceu uma abertura para as esco- las definirem seu currículo, levando em conta seu contexto só- todo território nacional, para designar en- cio-econômico-cultural e as necessidades dos seus alunos. Verifi- Série Cadernos de Gestão tidade de direito privado, sem fins lu- cou-se, na ocasião, no entanto, a adoção de práticas, por parte das crativos, vinculados à escola, tendo como escolas, de copiar currículo de outras, assim como da compra deCONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL Lück apontam, é fundamental lembrar que os órgãos cole- nal de Contas, de acordo com a legislação. Um exem- giados existem na escola como mecanismo de demo- plo de determinações gerais a respeito de como gastar cratização pela gestão colegiada de todas as dimen- e como prestar contas do dinheiro recebido é apresen- sões do processo pedagógico, em que princípio tado a seguir no Quadro 06, que apresenta as determi- básico é a busca da promoção da autonomia da esco- nações do Estado da Bahia (Secretaria da Educação e la e participação da comunidade, em todas as suas Cultura da Bahia, 2000). Essas determinações são apre- dimensões: pedagógica, administrativa e financei- sentadas no termo de compromisso do diretor e vice- ra" (In: PARENTE & LÜCK, 1999: 13). diretor das escolas estaduais. Por meio dessas deter- De modo geral, OS recursos financeiros de que a minações, são estabelecidas as possibilidades e limi- escola dispõe para sua manutenção e custeio são tações das ações de gestores educacionais na gestão a) repassados para a escola oriundos do governo fe- de seus recursos financeiros. deral (Dinheiro Direto na Escola PDDE); b) con- Quadro 06 Gestão financeira nas escolas estaduais da forme a mantenedora, os oriundos do governo es- Bahia tadual ou do municipal; c) os recursos arrecadados pela própria escola (recursos próprios), mediante ação de sua Unidade Executora, como resultado de con- 4.1. O Secretário de Educação estabelecerá normas perti- nentes à gestão de recursos financeiros dos estabelecimen- tribuição comunitária, convênios ou outras formas tos de ensino, cabendo ao dirigente escolar velar pelo cum- de arrecadação. primento destas. Os recursos repassados pelo governo, seja qual for 4.2. Independentemente de autorização prévia, dirigen- seu nível, são sujeitos a prestação de contas ao Tribu- te poderá realizar todas as despesas relacionadas à manu- tenção e desenvolvimento do ensino, inclusive a aquisi- 82 ção de móveis e equipamentos, bem como realizar obras de 83 pequeno e médio portes, excetuando-se despesas relati- serviços de profissionais externos à escola, para elaborar esse cur- vas a grandes reformas e contratação de pessoal para o qua- rículo. Essa situação se assemelha ao fenômeno mais recente, re- Série Cadernos de Gestão lacionado à elaboração do projeto pedagógico da escola, consi- dro permanente, respeitando orçamento do estabelecimen- derado muitas vezes muito mais como uma exigência legal a ser to de ensino e a previsão da mesma despesa no PDE. cumprida, do que como uma inspiração ao exercício de sua pró- 4.3. A Unidade Escolar não poderá contrair dívidas de qual- pria identidade educacional. Em tais circunstâncias, cabe lembrar indicado por Ubaldi (1986), no sentido de que bem poucos de- quer natureza que ultrapassem os recursos financeiros alo- monstram ter autonomia de pensamento ou ter vontade de exer- cados pela Secretaria da Educação ou por ela gerados ou Série Cadernos de Gestão cê-la, pois desse exercício resulta uma responsabilidade. que não tenham sido previstos no PDE.CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL Lück 4.4. O dirigente escolar será responsável pelo pagamen- lítica das bases de assumir, de forma efetiva, as res- to de quaisquer despesas por ele autorizadas ou pelas quais ponsabilidades correspondentes ao seu trabalho; e seja responsável, em virtude de delegação da Secretaria aos órgãos superiores é necessária a disposição para da Educação. apoiar e sustentar essas ações, orientando-se, em suas 4.5. Constitui motivo para perda do cargo em comissão a ações, pelos mesmos princípios. não-prestação de contas no prazo devido e a aplicação irre- gular dos recursos recebidos. Muitas escolas se queixam de não terem espaço 4.6. O dirigente escolar, ouvido o Colegiado Escolar, po- ou não se considerarem à vontade para tomar deci- derá gerar recursos no âmbito do estabelecimento de en- sões e agir autonomamente para resolver seus pro- sino, através de contribuições voluntárias, sendo vedada blemas e promover 0 seu desenvolvimento. Por ou- a colaboração de taxas a qualquer título. tro lado, em muitos sistemas de ensino, os esforços no sentido de descentralização e construção da auto- Fonte: Secretaria da Educação e Cultura da Bahia, 2000. nomia de gestão escolar encontram fortes expressões de resistência e desconfiança. Entre as duas faces da Verifica-se, a respeito dos três mecanismos apre- moeda reside uma excelente e rica oportunidade de sentados, que escolas criaram unidades colegiadas, desenvolvimento democrático. elegeram seus diretores, receberam dinheiro para É importante ressaltar que autonomia não se cons- cobrir seus gastos cotidianos e nem por isso conver- trói com normas e regulamentos limitados a aspec- teram-se em autônomas, no sentido de se tornarem tos operacionais e sim com princípios e estratégias mais competentes na gestão de seu cotidiano volta- democráticos e participativos. Quando tudo, em seus do para desenvolvimento institucional, para de- mínimos detalhes, é regulado e normatizado, cerceia-se senvolvimento de seu projeto pedagógico e, em úl- 0 espaço da iniciativa, da criatividade e do discerni- 84 85 tima instância, para a formação e aprendizagem de mento necessários para atendimento da dinâmica so- seus alunos. Tal fato evidencia que esses mecanis- cial que processo educacional envolve, criando-se, Série Cadernos de Gestão mos são apenas aspectos que facilitam e oportuni- dessa forma, colapso da sua qualidade e efetividade. zam a prática autônoma, mas não a garantem, uma vez Por outro lado, quando nada é regulado e normati- que esta depende de condições e disposições psicos- zado, cria-se um espaço de ativação desorientada, cor- sociais e de competência dos participantes. Para pro- porativista e individualista, a partir do que a escola pas- Série Cadernos de Gestão movê-la, por conseguinte, é necessário vontade po- sa a viçar presa a seus vícios.CONCEPÇÕES E PROCESSOS DEMOCRÁTICOS DE GESTÃO EDUCACIONAL Lück Portanto, apesar da aceitação e até mesmo do A partir dos casos premiados pelo Prêmio Nacio- grande pleito pela abertura para a construção da au- nal de Referência em Gestão Escolar, instituído em tonomia da gestão escolar, surge no seu contexto uma 1998 pelo Consed, tem-se identificado, desde pri- contradição natural em todo processo social: de um meiro ano de sua atuação, a existência de esforços rea- lado, manifesta-se na escola desejo de ser autôno- lizados nas escolas públicas brasileiras, no sentido de, ma e, de outro, receio de assumir responsabili- pela gestão compartilhada, pela busca criativa de re- dades; a necessidade de assumir seus próprios des- solução de problemas e realização dos propósitos edu- tinos e responsabilidade sobre seus atos, paralela- cacionais da escola, assim como pelo desenvolvimen- mente ao medo de que governo a deixe sozinha para to do seu projeto pedagógico, que a construção da fazê-lo; reconhecimento da importância de abrir autonomia da gestão escolar é um processo em de- a escola para a comunidade, em associação ao temor senvolvimento nas escolas brasileiras e que a quali- de perder controle sobre seus processos, de ser co- dade do ensino está em íntima relação com esse pro- locada de lado. cesso. Muitos desses esforços ocorrem por iniciativa Por conseguinte, a prática da autonomia deman- da escola que, muitas vezes, supera-se no esforço de da, por parte dos gestores da escola e de sua comuni- fazer frente às condições deficitárias que enfrentam, dade, um amadurecimento caracterizado pela con- por descuido ou falta de competência da gestão dos fiança recíproca, pela abertura, pela transparência e sistemas de ensino a que pertencem. Há casos, po- pela transcendência de vontades e interesses setori- rém, que correspondem à capacidade da escola de zados ou pessoais, em nome de um valor maior que é assumir espaços e as orientações, criados pelas se- a educação de qualidade para os alunos. Destaca-se, cretarias de Educação, mediante programa de des- portanto, que a autonomia só é legítima quando exer- centralização da autonomia da gestão escolar. Esses 86 cida em favor da melhoria da qualidade do ensino, avanços estão em acordo com que pesquisas inter- 87 voltada para atendimento às necessidades educa- nacionais têm revelado a respeito de escolas efica- cionais de seus alunos, numa autêntica atuação de ca- zes: que elas "apresentam como indicadores cons- Série Cadernos de Gestão ráter social. Tal prática vence os medos e receios tantes O alargamento da responsabilidade por parte e cria gradualmente um espírito de equipe e refor- da escola, a participação da comunidade escolar no ço ao trabalho colaborativo. As escolas que se ini- funcionamento da escola e a existência inequívoca de ciam nesse processo tomam iniciativas e constroem uma liderança pedagógica exercida no grupo" (OCDE, Série Cadernos de Gestão gradualmente sua autonomia. 1994. In: ALVAREZ, 1995).

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