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Gestão Participativa na Escola

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A Série Cadernos de Gestão se propõe a contribuir para que gestores educacionais, atuantes no âmbito de sistemas de ensino, e profissionais responsáveis pela gestão escolar diretores escolares, supervisores e ori- fessores possam refletir sobre aspectos básicos referentes à sua prática de trabalho, integrando temas básicos da gestão educacional com avan- A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA A GESTÃO entadores educacionais, secretários escolares e, por que não dizer, pro- PARTICIPATIVA NA ço e a profissionalização dessa prática profissional que, muitas vezes, tem sido tratada a partir de um viés unilateral da sua expressão política, em esquecimento de suas múltiplas e importantes dimensões. ESCOLA Este terceiro volume da série trata da gestão participativa e se as- senta no entendimento de que 0 alcance dos objetivos educacionais, em vol. III seu sentido amplo, depende da canalização e do emprego adequado da energia dinâmica ocorrente no contexto de sistemas de ensino e escolas em relação a objetivos educacionais concebidos e assumidos por seus membros, de modo a constituir um empenho coletivo em torno da sua realização. HELOÍSA LÜCK www.vozes.com.br EDITORA ISBN 978-85-326-3295-1 HELOISA LÜCK VOZES CADERNOS DE GESTÃO Uma vida pelo bom livro vendas@vozes.com.br 9788532632951 EDITORA VOZES EdiçãoNeste volume dos Cadernos de Gestão, Heloísa Lück trata de um dos temas de gestão que mais atenção têm recebido quando se despendem esforços e processos de melhoria da gestão escolar. 0 grande interesse sobre 0 tema revela 0 reconhecimento da importância A gestão participativa na escola de se compreender melhor os processos participativos e as condições para que eles sejam mais efetivos, superando-se, de um lado, omissão e, de outro, a participação pela participação, caracterizada pela atuação sem sentido comum e orientação por resultados educacionais. A participação é condição para a construção de instituições, ambientes e práticas educacionais autônomas, cidadãs e responsáveis, uma condição fundamental para a formação humano-social a que a escola se propõe.SÉRIE CADERNOS DE GESTÃO Heloísa Lück NÃO AUTORIZADA CRIME Heloísa Lück Gestão educacional: uma questão ABDR ASSOCIAÇÃO DE DIRETOS paradigmática Vol. I Concepções e processos DIREITO AUTORAL democráticos de gestão educacional Vol. II A gestão participativa na escola Vol. III Liderança em gestão escolar Vol. IV Gestão da cultura e do clima organizacional da escola Vol. V A gestão participativa Perspectivas da avaliação institucional da escola Vol. VI Avaliação e monitoramento do trabalho educacional Vol. VII na escola Gestão do processo de aprendizagem pelo professor Vol. VIII Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lück, Heloísa A gestão participativa na escola / Heloísa Lück. 11. ed. Petrópolis, RJ : Vozes, 2013. Série Cadernos de Gestão Bibliografia ISBN 978-85-326-3295-1 Reimpressão 1. Gestão escolar 2. Gestão democrática e participativa 3. Gestão de equipe 4. Autonomia 5. Poder. I. Título. EDITORA Índices para catálogo sistemático: VOZES 1. Gestão educacional Petrópolis© 2006, Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 25689-900 Petrópolis, RJ www.vozes.com.br Brasil Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da editora. Editoração: Elaine Mayworm Lopes Projeto gráfico: AG.SR Desenv. Gráfico Capa: WM design ISBN 978-85-326-3295-1 Talvez não tenhamos conseguido fazer melhor, mas lutamos para que melhor fosse feito. Editado conforme o novo acordo ortográfico. Não somos que deveríamos ser, Não somos 0 que iremos ser, Mas, graças a Deus, Não somos 0 que éramos. (Martin Luther King) Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.Dedicatória A série Cadernos de Gestão é dedicada a um conjunto bastante grande de pessoas com as quais tenho tido a oportunidade e o privilégio de me re- lacionar e de conviver, e que, por sua dedicação ao trabalho em prol da educação, e a vontade de conti- nuar aprendendo para aprimorar sua atuação pro- fissional, tem me estimulado a continuar escreven- do e divulgando ideias relacionadas ao trabalho edu- cacional, em especial sobre sua gestão. A gestores de estabelecimentos de ensino bra- sileiros que acreditam na importância da escola para a formação de nossas crianças, jovens e adul- tos e na importância de seu papel para promo- ver essa formação com qualidade. A partir dessa crença, vêm exercendo uma competente lideran- ça, voltada para a formação de comunidades esco- lares coesas e comprometidas com a promoção de educação de qualidade. Da mesma forma, a par- tir dessa atuação, ao mesmo tempo, tanto pelo que ensinam como pelo que demonstram, seus alunos aprendem a se tornar cidadãos capazes e atuantes e a viver vidas mais satisfatórias e realizadas. Fa-zem-no mediante esforço pelo desenvolvimen- cargo extra em seu trabalho de gestão, para dis- to de fatores, como por exemplo: a) uma cultura seminar a prática de autoavaliação pelas escolas organizacional escolar caracterizada pela partici- como condição de melhoria de seu desempenho. pação e envolvimento de todos, de forma colabo- Por sua atuação desinteressada e comprometida, rativa, na superação das naturais dificuldades do têm contribuído, dessa forma, para criar a neces- processo educacional; b) competência pedagógi- sária cultura da autoavaliação em nossas escolas, ca orientada para a gestão de processos sociais de fundamental para estabelecimento de ações fo- aprendizagem significativa; c) unidade e direcio- cadas na melhoria contínua. namento proativo no enfrentamento dos desafios Aos gestores escolares que lideraram em suas educacionais. escolas a realização de um movimento de auto- A todos que atuaram e atuam como coordena- avaliação de seus processos de gestão escolar dores estaduais da Renageste Rede Nacional e se inscreveram no Prêmio Nacional de Refe- de Referência em Gestão Educacional do Con- rência em Gestão Escolar, contribuindo, desse sed Conselho Nacional de Secretários de Edu- modo, para 0 reforço e a melhoria dessas prá- cação e tantos quantos participam dessa rede, ticas de gestão e disseminação de boas práti- por sua dedicação voluntária ao estudo e à pro- cas e referências positivas. moção de experiências inovadoras em gestão edu- Em especial, é dedicado aos inúmeros profissio- cacional, sua disseminação e intercâmbio das mes- nais da educação que têm lido meus artigos espar- mas. Dessa forma, deram vitalidade a suas comu- e manifestado, quando nos encontramos nos mais nidades educacionais, acreditando no princípio diversos eventos, seminários e cursos de educação, de que pequenos núcleos mobilizados para a trans- sua satisfação em tê-los lido e deles terem tirado al- formação e melhoria, quando conectados em rede, guma inspiração para orientar seu trabalho. Suas promovem transformações significativas em seus manifestações revelam seu entusiasmo por estudar, contextos educacionais. refletir sobre seu trabalho e buscar construir estra- Também aos coordenadores nas Secretarias tégias e formas para a sua melhor atuação. Estaduais de Educação, do Prêmio Nacional de Heloísa Lück Referência em Gestão Escolar, um projeto do Con- Cedhap Centro de Desenvolvimento Humano Aplicado sed, em parceria com a Undime, Unesco e Fun- cedhap@terra.com.br Fone e fax: 336-4242 dação Roberto Marinho, que assumem esse en-Sumário Apresentação dos Cadernos de Gestão, 15 Apresentação deste volume, 19 Introdução, 21 1. Sentido e formas da participação em processos de gestão, 29 1.1. Variações de significado e alcance da parti- cipação, de acordo com suas expressões, 31 1.2. Formas de participação, 35 1.2.1. Participação como presença, 36 1.2.2. Participação como expressão verbal e discussão de ideias, 38 1.2.3. Participação como representação, 41 1.2.4. Participação como tomada de decisão, 44 1.2.5. Participação como engajamento, 47 2. Valores, objetivos, princípios e dimensões participação, 49 2.1. Valores orientadores da ação participativa, 50 2.2. Objetivos da participação como ação social, 51 2.3. Princípios da participação, 54 2.3.1. A democracia é vivência social com- prometida com o coletivo, 542.3.2. A construção do conhecimento sobre a 3.4.6. Desenvolvimento da prática da assun- realidade escolar é resultado da constru- ção de responsabilidades em conjunto, 96 ção dessa realidade, 58 4. O jogo de poder na construção da cultura esco- 2.3.3. A participação é uma necessidade hu- lar, 99 mana, 61 4.1. O exercício do poder na escola, 103 2.3.4. A participação implica uma visão glo- bal do processo social, 63 4.2. Compreensão das relações de poder na es- cola, 106 2.4. Dimensões da participação, 65 2.4.1, Dimensão política, 65 4.3. Formas de expressão e manifestação do po- der, 107 2.4.2. Dimensão pedagógica, 67 4.3.1. A expressão de poder de referência, 107 2.4.3. Dimensão técnica, 68 4.3.2. A expressão de poder de competên- 3. Promoção da gestão escolar participativa, 73 cia, 111 3.1. O espaço da participação de professores na 4.3.3. A prática do contrapoder na escola, 113 vida da escola, 78 4.4. O caráter dialético das relações de poder, 117 3.2. O espaço da participação dos pais na vida 4.5. Orientação aos gestores sobre as relações da escola, 83 de poder na escola, 119 3.3. Limitações gerais da participação e condi- Referências bibliográficas, 123 ções para sua superação, 86 3.4. Promoção de ambiente participativo, 89 3.4.1. Criação de uma visão de conjunto asso- ciada a uma ação cooperativa, 90 3.4.2. Promoção de um clima de confiança e reciprocidade, 92 3.4.3. Valorização das capacidades e aptidões dos participantes, 93 3.4.4. Quebra de arestas e eliminação de di- visões, 94 3.4.5. Estabelecimento de demanda de traba- lho centrada em ideias e não em indiví- duos, 95Apresentação dos Cadernos de Gestão que é gestão educacional e escolar? Qual a relação entre gestão e administração? Qual a nature- za do processo de gestão? Quais seus desdobramen- tos, dimensões e estratégias na escola? Quais as pe- culiaridades da gestão democrática participativa? Quais as suas demandas sobre O trabalho dos gestores es- colares? Quem são esses gestores? Que ações de li- derança são necessárias no trabalho de gestão? Quais as dimensões da gestão educacional? Como plane- jar, organizar e ativar estrategicamente trabalho da escola? Como avaliar a gestão escolar e a atua- ção da escola? Estas são algumas questões que Cadernos de Gestão abordam com o objetivo de contribuir para 15 que diretores, supervisores, coordenadores e orien- tadores educacionais reflitam sobre as bases da ges- tão, para norteamento do seu trabalho, de forma conjunta e integrada, assim como para que profissio- nais responsáveis pela gestão de sistemas de ensino compreendam processos da escola e do efeito do seu Série Cadernos de Gestão próprio trabalho sobre a dinâmica dos estabelecimen-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Lück tos de ensino. Também constituem uma contribui- tratam sobre a gestão escolar e educacional encon- ção para que professores se familiarizem com con- trarão nos Cadernos referências que procuram in- cepções e processos de gestão, como condição para tegrar questões práticas e teóricas, de modo a ofere- que, como membros da escola, participem de for- cer-lhes bases para a reflexão sobre práticas e concei- ma efetiva do processo de planejamento do projeto tos dessa área. pedagógico. Espera-se, com esta sistematização de material Os Cadernos de Gestão integram, em vários vo- produzido pela autora a partir de sua experiência lumes, questões específicas de gestão, procurando como profissional, consultora de sistemas de ensino contribuir para: a iniciação nessas questões de alu- e docente em cursos de capacitação de gestores edu- nos de cursos de Formação para O Magistério e de cacionais de vários níveis -, contribuir para a refle- Pedagogia; b) a integração entre reflexão e ação por xão sobre as questões propostas mediante a discus- profissionais que atuam em âmbito de gestão edu- são e entendimento de conceitos e processos de cacional e escolar; c) estudo crítico por alunos de gestão educacional, ou a ela relacionados. Espera-se, cursos de pós-graduação com foco em gestão edu- em última instância, com esta reflexão, contribuir cacional a respeito dos vários desdobramentos des- para 0 estabelecimento de ações de gestão mais con- sa área de atuação educacional; d) a identificação en- sistentes e orientadas para a efetivação de resulta- tre pesquisadores de elementos e aspectos de gestão dos educacionais mais positivos, tendo como foco a que serviam como objeto na formulação de questões aprendizagem dos alunos e sua formação. de investigação na área. Ressalta-se que a gestão educacional, em caráter Os Cadernos de Gestão são, portanto, de interes- amplo e abrangente, do sistema de ensino, e a ges- 16 se de profissionais que atuam em gestão escolar (di- tão escolar, referente à escola, constituem-se em área estrutural de ação na determinação da dinâmica da 17 retores, vice-diretores, supervisores, coordenadores e orientadores educacionais), assim como aqueles que qualidade do ensino. Isso porque é pela gestão que Série Cadernos de Gestão são responsáveis, no âmbito macro de gestão de sis- se estabelece unidade, direcionamento, ímpeto, con- temas de ensino, pela orientação desse trabalho, a sistência e coerência à ação educacional, a partir do partir de núcleos, superintendências, departamen- paradigma, ideário e estratégias adotadas para tanto. Porém, é importante ter em mente que é uma área- tos, divisões de gestão educacional. Os acadêmi- meio e não um fim em si mesma. Em vista disso, Série Cadernos de Gestão cos de cursos de Pedagogia e de Pós-graduação que necessário reforço que se dá à gestão visa, em últi-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA ma instância, a melhoria das ações e processos edu- cacionais, voltados para a melhoria da aprendizagem dos alunos e sua formação, sem que aquela ges- tão se desqualifica e perde a razão de ser. Em suma, Apresentação deste volume aperfeiçoa-se e qualifica-se a gestão para maximizar as oportunidades de formação e aprendizagem dos alunos. A boa gestão é, pois, identificada, em última instância, por esses resultados. Este livro foi escrito a partir de artigos inicial- Com essas questões em mente, a proposta dos Ca- mente publicados pela autora na revista Gestão em dernos de Gestão é a de cobrir aspectos fundamen- Rede,¹ assim como de anotações desenvolvidas para tais e básicos da gestão educacional com O objetivo orientar aulas de cursos de especialização sobre ges- de contribuir para que se possa vislumbrar os pro- tão educacional promovidos por instituições de en- cessos de gestão em sua abrangência e também em sino superior, além de palestras e oficinas sobre ges- sua especificidade, e, dessa forma, estimular e nor- tão educacional e participativa promovidas por se- tear a reflexão sobre a gestão educacional como ação cretarias municipais e estaduais de educação em di- objetiva e concreta orientada para resultados edu- versos estados brasileiros. A participação, conside- cacionais. rada como processo inerente à gestão educacional, foi também foco de trabalho de cuja elaboração par- Para momento são destacados 13 assuntos para ticipei, juntamente com três outros colegas, do qual compor a Série Cadernos de Gestão, podendo, no resultou 0 livro A escola participativa: trabalho do entanto, com a evolução dos trabalhos, a lista ser au- gestor escolar, publicado pela Editora Vozes.² mentada. 18 Trata-se de um dos temas de gestão, mas tem si- Heloísa Lück do solicitado para cursos de capacitação de gestores 19 Série Cadernos de Gestão 1. A dimensão participativa da gestão escolar, Gestão em Rede, n. 9, ago. 1998, p. 13-17, e A dimensão participativa da gestão esco- lar, Gestão em Rede, out. 2004, 19-20. 2. Veja-se: LÜCK, Heloísa; FREITAS, Kátia Siqueira de; GIR- Robert & KEITH, Sherry. A escola participativa: 0 traba- lho do gestor escolar. Petrópolis: Vozes, 2005. livro teve ante- Série Cadernos de Gestão riormente publicadas seis edições pela editoraA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA educacionais, tendo em vista constituir-se a partici- pação em estratégia de democratização da escola, tal como proposto pela Constituição e pela Lei de Di- retrizes e Bases. Consequentemente, em demo- Introdução cratização de seus processos sociais, de modo que se construam nas instituições ambientes e práticas A realidade pode ser mudada educacionais caracterizados pela construção da au- só porque e só na medida em que nós mesmos a produzimos, tonomia³ da responsabilidade social e da cidadania, e na medida em que saibamos que é pro- que se constituem, por sua vez, em condição funda- duzida por nós (KOSIK, 1976: 18). mental para a adequada formação humano-social. O interesse sobre tema revela reconhecimen- to da importância de se compreender melhor pro- Uₘₐ forma de conceituar gestão é vê-la como cessos participativos e as condições para que mes- um processo de mobilização da competência e da ener- mos sejam mais efetivos, superando-se, de um lado, gia de pessoas coletivamente organizadas para que, a omissão à participação, manifestada pela desres- por sua participação ativa e competente, promovam ponsabilização pela ação conjunta da escola e, de ou- a realização, mais plenamente possível, dos obje- tro, a participação pela participação, caracterizada tivos de sua unidade de trabalho, no caso, os objeti- pela atuação sem sentido comum e orientação por vos educacionais. O entendimento do conceito de ges- resultados educacionais. tão, portanto, por assentar-se sobre a maximização dos processos sociais como força e ímpeto para a pro- moção de mudanças, já pressupõe, em si, a ideia de 20 participação, isto é, do trabalho associado e coopera- 21 tivo de pessoas na análise de situações, na tomada de decisão sobre seu encaminhamento e na ação sobre Série Cadernos de Gestão elas, em conjunto, a partir de objetivos organizacio- nais entendidos e abraçados por todos. O conceito de gestão, portanto, parte do pressuposto de que êxito de uma organização social depende da mobi- Série Cadernos de Gestão 3. Ver volume II da série Cadernos de Gestão, sob o título Con- lização da ação construtiva conjunta de seus compo- cepções e processos democráticos de gestão educacional.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Lück nentes, pelo trabalho associado, mediante recipro- bros, de modo a constituir um empenho coletivo em cidade que cria um "todo" orientado por uma vonta- torno de sua realização. de coletiva. Esta, aliás, é condição fundamental para Essa participação dá às pessoas a oportunidade que a educação se processe de forma efetiva no inte- de controlarem O próprio trabalho, assumirem auto- rior da escola, tendo em vista a complexidade e a im- ria sobre 0 mesmo e sentirem-se responsáveis por portância de seus objetivos e processos. seus resultados portanto, construindo e conquis- Entende-se que trabalho educacional, por sua tando sua autonomia. Daí por que a participação com- natureza, demanda um esforço compartilhado, rea- petente é 0 caminho para a construção da autono- lizado a partir da participação coletiva e integrada mia. Ao mesmo tempo, sentem-se parte orgânica dos membros de todos os segmentos das unidades de uma realidade e não apenas como um apêndice de trabalho envolvidos. Portanto, a sua gestão pres- da mesma, ou um simples instrumento para realizar supõe a atuação participativa, cuja adjetivação con- objetivos institucionais determinados por outros. Me- siste em pleonasmo de reforço a essa importante di- diante a prática dessa participação, é possível superar mensão da gestão escolar. Tal gestão consiste no en- 0 exercício do poder individual e de referência em- volvimento de todos os que fazem parte direta ou in- pregado nas escolas e promover a construção do po- diretamente do processo educacional no estabeleci- der da competência, centrado na unidade social esco- mento de objetivos, na solução de problemas, na to- lar como um todo, como se verá mais adiante. mada de decisões, na proposição de planos de ação, Dada, porém, a possibilidade de se denominar co- em sua implementação, monitoramento e avaliação, vi- mo gestão conjunto de ideias e práticas pura e sim- sando melhores resultados do processo educacio- plesmente relacionadas a uma administração mo- nal (LÜCK, FREITAS, GIRLING & KEITH, dernizada, atualizada em seus aspectos operacio- 22 A gestão participativa se assenta, portanto, no en- nais, mantendo-se a antiga ótica de controle sobre 23 tendimento de que alcance dos objetivos educa- coisas, pessoas e ações, pela qual a participação é ma- Série Cadernos de Gestão cionais, em seu sentido amplo, depende da canali- nipulada para conformar-se a padrões previamente zação e do emprego adequado da energia dinâmica definidos e/ou esperados, pode-se analisar a questão das relações interpessoais ocorrentes no contexto de da participação em destaque. Mesmo porque já sistemas de ensino e escolas, em torno de objetivos se tem notícias de práticas de "gestão participativa" educacionais, concebidos e assumidos por seus mem- pelas quais os participantes do contexto organiza- Série Cadernos de Gestão cional são convidados a apenas envolver-se numa par-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA ticipação elementar e formal de verbalização e dis- administrativas, e a decisão sobre oferta de discipli- cussão superficial sobre questões já definidas ante- nas no período de férias para alunos que haviam per- riormente e que passam a ser legitimadas por essa dis- dido alguma disciplina no período regular de aulas, cussão. Isto é, realizam-se reuniões, debates, seminá- a fim de que pudessem regularizar seu ano escolar. rios em que são apresentadas para discussão ques- Inicialmente, gastamos duas horas e meia discutin- tões a partir de decisões e ideias já formadas anteci- do sobre se deveríamos fechar com uma parede pro- padamente a respeito, ou então que se tem a opor- visória um espaço no fim do corredor uma questão tunidade de falar à vontade, de exercer 0 "direito de que não estava na agenda -, para ali fazer um am- e opinião", sem esforço pelo aprofundamento da biente de cafezinho e encontro de professores. Quan- compreensão sobre as questões tratadas e pela cons- do, finalmente, foi tomada esta decisão, sobrava ape- trução de compromissos coletivos em torno delas. Ilus- nas meia hora para discutir O assunto principal. Foi trando essa possibilidade, uma professora afirmou so- então rapidamente proposta a questão, e levanta- bre uma reunião em que se discutiu muito, sem na- dos prós e contras a respeito. Rapidamente, ultrapas- da ter sido sistematizado: "não chegamos a conclusão sou-se O tempo para O término da reunião e profes- nenhuma, mas tivemos um bom descanso das aulas. sores foram saindo por causa de seus compromis- Reuniões de nada adiantam, e todo mundo sabe. Há pessoais e, finalmente, foi encerrada a reunião muito faz de conta, e muita manipulação. Por isso as sem nenhuma decisão a respeito da questão propos- reuniões em nossa escola representam perda de tem- ta. Como resultado, os alunos ficaram sem oferta de po de todo mundo, e acabam promovendo descré- disciplinas no período de férias, pois não haveria dito no mecanismo de participação e cultivo do "faz mais tempo para tomar as medidas administrati- de muitas vezes com custos elevados". Par- vas Este é, pois, um exemplo de toma- 24 ticipação, portanto, não é discussão, nem mera ex- da de decisão por falência ou omissão identificada 25 pressão de aval a decisões. em inúmeras situações educacionais, a partir do que Evidencia-se ainda a participação pela partici- se trabalha a reboque das situações, em vez de in- Série Cadernos de Gestão pação, nos casos em que se gasta muito tempo em fluenciá-las positivamente, como seria próprio fazer debates e discussões sobre questões banais e secun- (LÜCK, 2004). Tais situações lembram que foi apon- dárias. Assim se manifestou uma professora a res- tado por Cardoso (1995) ao condenar práticas de peito: "Numa reunião de meu departamento, tínha- pseudodemocracia promovidas mediante falta de Série Cadernos de Gestão mos na pauta duas questões: avisos e informações gestão articuladora competente, orientaçãoA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA comum, resistência à mudança, falta de visão e de atitudes necessários para que possam participar, de orientação por valores educacionais, dentre outros modo efetivo e consciente, da construção do tecido aspectos. da sociedade, com qualidade de vida e desenvolven- É pelo compromisso e em nome da constru- do condições para O exercício da cidadania. ção de uma sociedade democrática e da promoção de Apesar da importância da participação em edu- maior envolvimento das pessoas nas organizações cação, observa-se, no entanto, que esse é um concei- sociais em que atuam, com as quais se relacionam, e to que tem sido mal-entendido e sobretudo banali- das quais dependem, que se favorece a realização de zado nas escolas. Sob a designação de participa- atividades que possibilitem e condicionem a partici- ção, muitas experiências são promovidas sem de- pação. Essas atividades, portanto, são previstas com vido entendimento e cuidado que a orientação da par- um triplo objetivo: a) de promover a construção ticipação demandaria para justificar-se no contexto coletiva das organizações, b) de possibilitar a apren- educacional e promover bons resultados. Em vista dizagem de habilidades de participação efetiva e con- disso, muitas dessas orientações resultam algumas comitantemente, c) de desenvolver O potencial de vezes em expressar-se de formas mais negativas do que autonomia das pessoas e instituições. Daí a sua im- positivas, do ponto de vista da sua efetividade na de- portância não apenas para a gestão educacional de- terminação de ações correspondentes e seus respec- mocrática, tal como proposta em lei, mas como con- tivos resultados. O relato das duas situações ante- dição para a vivência e aprendizagem democráti- riormente descritas ilustra tal quadro. ca de todos os seus participantes e, em especial, de Considera-se que significado de gestão, desta- seus alunos. cado no primeiro parágrafo desta unidade, traz em si É importante destacar que a democratização efe- implícito caráter participativo, assim como traz 26 tiva da educação é promovida não apenas pela de- a democracia. Em vista disso, as expressões "ges- 27 mocratização da gestão da educação, conforme defi- tão participativa" e "democracia participativa" são, Série Cadernos de Gestão nido pela Constituição e pela Lei de Diretrizes e Ba- de certa forma, redundantes, tratando-se, no entan- ses da Educação Nacional (9.394/96). O fundamen- to, de uma redundância útil, no sentido de reforçar tal dessa democratização é processo educacional e uma das dimensões mais importantes da gestão edu- ambiente escolar serem marcados pela mais alta quali- cacional democrática, sem a qual esta não se efetiva. dade, a fim de que todos que buscam a educação A literatura indica que é utilizada ainda a expres- Série Cadernos de Gestão desenvolvam os conhecimentos, as habilidades e são "administração colegiada" para designar esse pro-GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA cesso de gestão (PRAIS, 1990), ou ainda, gestão com- partilhada, destacando-se, no entanto, que com es- tes dois enfoques a gestão participativa reduz a par- 1 ticipação a um colegiado ou a um grupo reduzido de pessoas como representantes da coletividade. Sentido e formas da participação em Alerta-se, portanto, para O fato de que inúmeras processos de gestão experiências de participação são realizadas sem que tenham um verdadeiro sentido político-democráti- co ou sentido pedagógico de transformação, como deveria ser caso. É por esse motivo que conceito A participação, em seu sentido pleno, caracteri- e a prática concretos da participação devem ser par- za-se por uma força de atuação consciente pela qual ticularmente analisados quando se considera a ques- os membros de uma unidade social reconhecem e tão da gestão educacional democrática. Em decor- assumem seu poder de exercer influência na deter- rência, pois, da centralidade do conceito de partici- minação da dinâmica dessa unidade, de sua cultura pação para a gestão educacional, e da complexidade e de seus resultados, poder esse resultante de sua desse conceito associada à diversidade de entendi- competência e vontade de compreender, decidir e mento sobre a questão, são analisados e apresenta- agir sobre questões que lhe são afetas, dando-lhe uni- dos a seguir aspectos julgados essenciais para seu dade, vigor e direcionamento firme. É nesse senti- entendimento, como, por exemplo, as variações exis- do, portanto, que a participação assume uma dimen- tentes de significado, O ambiente participativo, a im- são política de construção de bases de poder pela portância da participação, sentido da participação, autoria que constitui autêntico sentido de auto- 28 dentre outros. ridade, a qual, por sua vez, é qualificada pela parti- 29 cipação, tendo em vista que, pelas intervenções par- ticipativas competentes no trabalho, aumenta a sua Série Cadernos de Gestão competência e capacidade de participação (LIBÂ- NEO, 2004). Conforme indicado por Marques (1987: 69), "a participação de todos, nos diferentes níveis de deci- Série Cadernos de Gestão são e nas sucessivas fases de atividades, é essencialA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Lück para assegurar O eficiente desempenho da organiza- ciais e institucionais que são adequadamente en- No entanto, é importante que a participação tendidos e assumidos por todos. seja entendida como um processo dinâmico e inte- rativo que vai muito além da tomada de decisão, uma 1.1. Variações de significado e alcance da vez que caracterizado pelo interapoio na convivên- participação, de acordo com suas expressões cia do cotidiano da gestão educacional, na busca, por seus agentes, da superação de suas dificuldades e li- Depreendem-se nas expressões de entendimen- mitações do enfrentamento de seus desafios, do bom to sobre participação a ocorrência de diversos signi- cumprimento de sua finalidade social e do desen- ficados, com abrangência e alcance variados, indo volvimento de sua identidade social. desde a simples presença física em um contexto até Cabe lembrar que toda pessoa tem um poder de 0 assumir responsabilidade por eventos, ações, situa- influência sobre contexto de que faz parte, exer- ções e resultados. Em vista disso, é coerente reco- cendo-o, independentemente de sua consciência des- nhecimento de que, mesmo na vigência da adminis- se fato e da direção e intenção de sua atividade. To- tração científica, preconiza-se a prática da participa- davia, a falta de consciência dessa interferência re- ção, isto é, que em toda e qualquer atividade huma- sulta em uma falta de consciência do poder de par- na, por mais limitado que seja seu alcance e es- ticipação que têm, do que decorrem resultados ne- copo, há a participação do ser humano, seja seguin- gativos para a organização social e para as próprias do-a, seja analisando-a, revisando-a ou criticando-a, pessoas que constituem os contextos de atuação em seja sustentando-a ou determinando seus destinos, educação. Faltas, omissões, descuidos e incompetên- mediante 0 exercício de ações específicas. cia são aspectos que exercem esse poder negativo, res- Na escola, a participação tem sido evocada em 30 ponsável por fracassos e involuções. várias circunstâncias, das quais destacamos algumas, 31 Por conseguinte, a participação em sentido ple- apenas para exemplificar certas práticas levadas a Série Cadernos de Gestão no é caracterizada pela mobilização efetiva dos es- efeito sob essa denominação. forços individuais para a superação de atitudes de Uma das circunstâncias escolares mais comuns acomodação, de alienação, de marginalidade, e re- sobre as quais se demanda a participação de pro- versão desses aspectos pela eliminação de compor- fessores diz respeito à realização de atividades ex- tamentos individualistas, pela construção de espíri- tracurriculares, como, por exemplo, festas juninas, pro- Série Cadernos de Gestão to de equipe, visando à efetivação so- moções de campanhas, atividades de campo ou trans-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Lück versalidade do currículo, ou outras atividades desse É importante ressaltar que essas circunstân- gênero: "Na minha escola, todos os anos temos um cias deixam de caracterizar a participação efetiva dos espaço garantido de participação: é a realização de professores, uma vez que os mesmos sentem-se usa- festas juninas, uma tradição. Todo mundo se dedica, dos (e se deixam usar), no primeiro caso como sim- a festa é de todos, a gente se sente unido", afirmou ples mão de obra e, no segundo caso, como avalistas uma professora, ao ser perguntada sobre as oportu- de decisões prévias e exteriores ao grupo. Por outro nidades de participação em sua escola, não se refe- lado, essa prática, embora pareça oferecer, do ponto rindo a qualquer outra atividade regular em seu es- de vista de quem a conduz, alguns resultados posi- tabelecimento de ensino. Outra circunstância cons- tivos, do ponto de vista socioeducacional, a médio titui-se na tomada de decisões a respeito de proble- prazo, produz resultados altamente negativos que de- mas apontados pela direção da escola, cujas soluções terioram a cultura organizacional da escola por vá- alternativas são sugeridas pela própria direção, ser- rias razões: a) por destruir qualquer possibilidade de vindo a assembleia para referendar tais decisões. colaboração benéfica; b) por promover descrédito Assim se pronunciou uma professora a respeito: nas ações de direção e nas pessoas que detêm auto- "em nossa escola, os momentos de participação são ridade; c) por gerar desconfiança, insegurança e, ain- para resolver problemas que a diretora ou a Secreta- da, d) por destruir as sementes e motivações de par- ria de Educação desejam resolver. Em geral sabem ticipação efetiva que existem nas pessoas que, ao se que querem, mas fazem reunião para convencer a sentirem usadas, passam a negar esse processo e até gente ou para identificar resistências. Mais ouvimos mesmo sua legitimidade, conforme exemplificado que falamos e no fim todo mundo tem a impressão no depoimento de uma professora: "eu já não aguen- de que a decisão foi coletiva". Essa forma inadequa- to mais reuniões: são sempre os mesmos que falam; 32 da de participação é, aliás, notória em assembleias é uma pura perda de tempo, pois tudo continua 33 de professores (não é privilégio de dirigentes de sis- mo sempre, nada muda". temas e de escolas), quando são convocados por lí- Série Cadernos de Gestão deres de classe para "tirar" moções de greve que já A participação efetiva na escola pressupõe que foram decididas em um fórum externo à assembleia, os professores, coletivamente organizados, discutam em vista do que qualquer manifestação em contrá- e analisem a problemática pedagógica que viven- rio é repudiada de plano e/ou manipulada pelos di- ciam em interação com a organização escolar e que, rigentes da assembleia. Neste caso, trata-se, portan- a partir dessa análise, determinem caminhos para su- Série Cadernos de Gestão to, de participação passiva. perar as dificuldades que julgarem mais carentes deA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA atenção e assumam compromisso com a promoção Portanto, a observação, a análise e a compreen- de transformação nas práticas escolares. Assim, os são dos processos e das formas de participação cons- problemas e situações desejados são apontados pelo tituem-se em condição para que se possa aprimorar próprio grupo, e não apenas pelo diretor da escola ou esse processo na escola. Como um processo social, sua equipe técnico-pedagógica, gerando, dessa for- apresenta vários desdobramentos e nuances, deman- ma, um sentimento de autoria e de responsabilidade dando de todos os participantes, e sobretudo de seus coletivas pelas ações educacionais, condição funda- líderes, habilidades específicas e atitudes especiais. mental para sua efetividade, segundo 0 espírito de- mocrático e a prática da autonomia. 1.2. Formas de participação Em sala de aula, de acordo com um entendimen- to limitado de participação, professores indicam sua A participação tem sido exercida sob inúmeras importância em relação aos alunos, propondo até mes- formas e nuances no contexto escolar, desde a parti- cipação como manifestação de vontades individualis- mo a "avaliação por notoriamente co- tas, algumas vezes camufladas, até a expressão efeti- nhecida como simples e eventual manifestação ver- va de compromisso social e organizacional, traduzi- bal indicativa de estarem acompanhando e prestan- da em atuações concretas e objetivas, voltadas para a do atenção na aula. Nesse caso, cria-se uma cultura realização conjunta de objetivos. de "teatro de no qual entram em cena Em decorrência dessa variação, sentido efeti- apenas os alunos que imaginam saber que os pro- da participação se expressa pela peculiaridade da fessores desejam ouvir, uma vez que julgam não po- prática exercida e seus resultados. Assim é que se derem dizer mais do que, ou diferente do que fora pode observar, em diferentes contextos, a prática di- perguntado. Em trabalhos em grupo, observa-se até 34 ferenciada da participação por sua abrangência e seu mesmo a distorção do sentido de grupo, uma vez que poder de influência. Dessa maneira, a partir do estu- 35 é comum, em vez de utilizar grupos para promo- do de formas de participação, são identificadas: a) a par- Série Cadernos de Gestão ver a aprendizagem coletiva pela socialização, a par- ticipação como presença, b) a participação como ex- tir da discussão e do debate de ideias, realizar-se pressão verbal e discussão, c) a participação como a divisão de atividades e tarefas, para diminuir en- representação política, d) a participação como toma- cargo e facilitar trabalho de todos (inclusive do da de decisão, e e) a participação como engajamen- professor que tem menos trabalhos para ler). to, conforme a seguir comentadas. Observa-se que Série Cadernos de Gestão essas categorias apresentam diferentes intensidadesA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Lück de envolvimento e compromisso, que vão do com- caso de professores e funcionários que encaram seu promisso apenas formal e distanciado ao envolvi- trabalho meramente como emprego do qual escapa- mento pleno e engajado. riam caso tivessem outra alternativa; de pais em Asso- ciação de Pais e Mestres ou Conselhos Escolares de 1.2.1. Participação como presença existência apenas formal, nos quais atuam limitan- Segundo entendimento da participação como do-se a solicitações da direção da escola, de forma reativa. presença, é participante quem pertence a um grupo ou organização, independente de sua atuação nele, Devido à atuação passiva e de inércia adotada, as como, por exemplo, quem é membro de uma escola, pessoas fazem parte, mas não são participantes ati- de um grupo de professores, de associação de pais e vos, pois não atuam conscientemente para construir mestres etc. Nesse caso, afiliação, associação e es- a realidade de que fazem parte. Vale lembrar, no en- tar em um ambiente constituem situações concebi- tanto, que mesmo sem essa consciência e sem essa das como participação. São, portanto, considerados intenção, produzem seus efeitos no contexto de que como participantes de uma turma de alunos aqueles fazem parte e que resultam comumente como nega- que, sem mesmo terem ou exercerem ativa so- tivos, contribuindo para a inércia, comodismo e a bre que fazem e que acontece com e no grupo passividade do grupo, por meio de ação não orienta- como um todo e no desenvolvimento das aulas, es- da para a superação de limitações e dificuldades ou tão fisicamente presentes em suas atividades. enfrentamento de desafios. Identifica-se que a sim- ples presença de uma pessoa em um ambiente, com Essa participação pode, muitas vezes, ocorrer por obrigatoriedade, por eventualidade ou por necessi- expressões não verbais de apatia e indiferença com a dade e não por intenção e vontade própria. Outras dimensão sociocultural de sua realidade, exerce im- 36 37 vezes, porém, como mera concessão. Essas circuns- pacto negativo no mesmo. tâncias são expressas em casos como, por exemplo, Evidencia-se, pois, a significação inadequada e Série Cadernos de Gestão de alunos que vão para a escola por obrigação, por falsa de participação, nesse entendimento, que con- determinação de seus pais, sem entenderem senti- sidera a presença física, 0 estar presente, como do dessa necessidade em sua vida e que, durante o bastante para que a pessoa seja considerada parti- processo educacional, não têm seus interesses pró- cipante. Deixa-se de considerar que O termo em si Série Cadernos de Gestão e motivação despertados para mesmo; no pressupõe, além de fazer parte de, a ação efetiva deA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA contribuição para desenvolvimento da organização sarem suas opiniões, de falarem, de debaterem, de discutirem sobre ideias e pontos de vista enfim, ou unidade social. uso da liberdade de expressão é considerada como Verifica-se nas escolas, no entanto, um certo res- espaço democrático de participação e, portanto, a sentimento em relação ao comportamento passivo, grande evidência de participação. Porém, a atenta embora ele seja muito disseminado e frequente, con- observação do que acontece no contexto educacio- forme depoimento de uma professora: "nas nossas nal pode demonstrar um espírito totalmente diver- reuniões, que não são muitas, a grande maioria fica so. Isso porque não é incomum perceber, como já calada. São sempre as mesmas pessoas que falam, e a indicado anteriormente, escolas em que as decisões maioria só fica olhando, até mesmo com indiferença. tomadas por sua direção têm no espaço de reuniões Não estão nem aí. No fim a gente toma decisão, mas de professores O objetivo de referendar decisões não acontece nada, porque as pessoas não se envol- veram. Muitas vezes até dizem: quem deu a ideia tomadas, constituindo-se, desse modo, em processo de falsa democracia e participação, conforme indi- que faça"⁴. cado por uma professora: "participar dessas reu- niões é pura perda de tempo. A gente sabe que é só 1.2.2. Participação como expressão verbal e falação, que é pura enganação. A decisão já está to- discussão de ideias mada, é fácil perceber isso pelo jeito que a reunião é É muito frequente interpretar envolvimento de conduzida. No fim a gente está se enganando" Tra- pessoas na discussão de ideias, como um indicador ta-se, no entanto, de uma situação aceita e avalizada de sua participação em relação à questão em por omissões e expressões subliminares e até mes- A oportunidade que é dada às pessoas de expres- mo explícitas de reforço. A respeito de reuniões promovidas na escola, seja 39 38 com professores, com pais ou com alunos, com ob- 4. Embora no depoimento tenha sido possível identificar um res sentimento contra as pessoas que não se manifestam, é possíve jetivo de discutir situações, verifica-se com frequên- Série Cadernos de Gestão sugerir que tais situações acontecem não apenas porque algumas domi cia que a reunião é considerada boa quando 0 nível se acomodam e não participam, mas também porque outras nam a participação, deixando de dar espaço e de incentivar a falta par de "falação" é elevado, e "participantes" ficam até ticipação de mais pessoas. Por outro lado, identifica-se uma satisfeitos pela oportunidade que têm de se fazerem de habilidade da coordenação da reunião em orientar a participa ção da maior parte de seus membros, controlando a ouvir, conforme julgam estar ocorrendo: "Sei que Série Cadernos de Gestão dos que tendem a falar com frequência e criando oportunidades não adianta nada, mas pelo menos a gente tem opor- estímulos aos demais a oferecerem suas ideias e opiniões.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA Lück tunidade de conversar todos juntos, de saber o que interfiram nas ações que devem ser adotadas poste- nossos colegas pensam, e até de saber quem são aque- riormente. les que ficam na deles. Deveria haver mais reu- A efetiva interação participativa, para além do niões e nós deveríamos aprender a usar melhor esse discurso, do conhecimento de como as pessoas pen- sam e da oportunidade de se fazerem ouvir, pressu- A participação com essas características é, por- põe a interação de pontos de vista, de ideias e de tanto, muitas vezes limitada. É fácil observar que ela concepções. Isto é, só se torna efetiva essa discussão não passa, com muita frequência, de simples verba- quando associada a um esforço de diálogo efetivo lização de opiniões, de apresentação de ideias, de que permite a compreensão abrangente da realida- descrição de experiências pessoais e de fatos obser- de e das pessoas em sua construção. vados, sem se promover avanço num processo com- partilhado de entendimento sobre as questões dis- 1.2.3. Participação como representação cutidas e de tomada de decisão para 0 enfrentamen- A representação é considerada como uma forma to de desafios e superação de limitações, que corres- ponda também ao compartilhamento de poder e de significativa de participação: nossas ideias, nossas ex- pectativas, nossos valores, nossos direitos são mani- responsabilidade por sua realização. Nem mesmo festados e levados em consideração por meio de um ocorre um melhor entendimento sobre as opiniões representante acolhido como pessoa capaz de tradu- em torno das questões debatidas quando não acon- zi-los em um contexto organizado para esse fim. Essa tece esforço pela interação das ideias e opiniões, concepção é necessária em grupos sociais grandes de maneira a se compreender de forma mais apro- que não permitem a participação direta de todos, e fundada e alargada as questões em debate. Verifi- se efetiva pela instituição de organizações formais 40 ca-se também que as discussões se encerram nelas 41 em que 0 caráter representativo é garantido pelo mesmas quando não há esforço de sistematização voto. Nas escolas, essas organizações são os conse- dos diferentes aspectos tratados, das conclusões prin- Série Cadernos de Gestão lhos escolares, associações de pais e mestres, grê- cipais alcançadas e das decisões tomadas. mios estudantis ou similares, constituídos por repre- É possível observar, em tais reuniões, que se ma- sentantes escolhidos mediante voto. Essa situação nifestam situações de tensão e conflito sem que, no constitui-se em um princípio de gestão democrática entanto, se dê atenção a elas, o que seria necessário definido no artigo 14, inciso II, da Lei de Diretrizes Série Cadernos de Gestão para compreendê-las e resolvê-las, de modo que não e Bases da Educação Nacional (9.394/96).A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Essa forma de participação é, portanto, tipicamen- eleger a diretora e que, ao fazê-lo, delegaram to- te praticada nas sociedades e organizações democrá- talmente a ela a responsabilidade de realização das ticas. Ela pode, no entanto, ser expressa como um ar- propostas definidas, deixando-a sozinha na realiza- remedo de participação e como uma falsa democra- ção de seu trabalho⁵. cia. Isso porque, considerando sentido clássico de Atitude semelhante tem orientado as formas de es- democracia como governo do povo, pelo povo e colha de dirigentes de escolas em vários sistemas edu- para povo, participar não significa simplesmente cacionais onde OS diretores são eleitos. Por meio dela, delegar a alguém poderes para agir em seu nome, professores e funcionários da escola, alunos e pais de desresponsabilizando-se pelo apoio e acompanha- alunos recebem direito de manifestar sua opinião so- mento ao seu trabalho. Ela implica trabalhar com a bre quem melhor teria condições de promover a ges- pessoa na consecução das propostas definidas e as- tão escolar, elegendo-o(a) pelo voto, porém sem adotar sumir sua parte de responsabilidade pelos resulta- a correspondente responsabilidade do dever de sus- dos desejados. tentação do trabalho desejado e necessário. Uma situação revela os problemas do entendi- portanto, destacar que a eleição de di- mento distorcido da participação limitada ao voto, retores, praticada por vários sistemas de ensino, por conforme relatado por uma professora: "um grupo si só não garante uma vivência democrática partici- de professores reuniu-se para discutir a organização pativa, na escola. Isto é, a democratização da escola, de sua escola, seus problemas e perspectivas para a conforme indicado por Prais (1990), uma vez que dis- sua superação. A partir dessa discussão, decidiram sociada de uma prática de participação plena, restrin- que iriam influenciar na eleição da nova direção da ge-se a simples substituição de pessoas no poder, ou escola. Concluíram que uma delas deveria candida- legitimação de sua permanência, sem entrar no mé- 42 tar-se, que veio a ocorrer. Todo grupo empenhou-se rito da forma de atuação democrática. Trata-se, pór- 43 em realizar a divulgação da proposta de gestão que tanto, de um processo que demanda estudos amplos construíram em conjunto. Finalmente, a diretora foi Série Cadernos de Gestão eleita, com a maioria dos votos. Iniciada sua gestão, pretendeu colocar em prática a proposta definida, 5. Esta situação é, aliás, muito comum em nossa sociedade, na mas passou a sofrer resistências até mesmo de cole- qual identificamos a cultura de reclamar dos governos instituídos e políticos eleitos sem, no entanto, reclamar de todos nós que ne- Série Cadernos de Gestão gas mais Sugere-se, a partir da situação les votamos ou que deixamos de acompanhar seu trabalho e co- relatada, os professores julgado que bastaria brar resultados.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA e sistemáticos, a fim de se identificar seus efeitos so- significado e desdobramentos. Não se discute, mui- bre a escola e que resultados tem promovido, no tas vezes, por exemplo, qual papel de todos e de sentido de melhorar a qualidade do ensino e promo- cada um na vida da escola, qual 0 significado pedagó- ver maior envolvimento e comprometimento da gico e social das soluções apontadas na decisão; que comunidade escolar com essa qualidade. outros encaminhamentos poderiam ser adotados de modo a obter resultados mais significativos. Portanto, 1.2.4. Participação como tomada de decisão sem tais questionamentos, e compromisso com encaminhamento de ações transformadoras, pode-se Participar implica compartilhar poder, vale di- sugerir que a tomada de decisão fica circunscrita e li- zer, implica compartilhar responsabilidades por de- mitada apenas a questões operacionais, ao que fazer, cisões tomadas em conjunto como uma coletividade e não ao significado das questões em si, condição fun- e enfrentamento dos desafios de promoção de avan- damental para que as pessoas envolvidas se apropri- ços, no sentido da melhoria contínua e transforma- em das ideias orientadoras das ações e, ao realiza- ções necessárias. rem-na, façam a partir da compreensão a respeito Observa-se que aumentam, dentro da escola, os do que as ações representariam e quais as implica- momentos em que se tomam, em conjunto, decisões ções quanto ao seu impacto sobre os processos so- a respeito do encaminhamento de questões even- ciais e educacionais da escola. Uma tal situação de- tuais ou do seu dia a dia. Registra-se a ocorrência de mandaria atitudes de transparência, abertura e flexi- reuniões para discutir, por exemplo, como será or- bilidade, fundamentais à gestão democrática. ganizado um determinado evento e quem assumirá Identifica-se que a prática participativa na toma- quais responsabilidades a respeito do mesmo, em da de decisões em vários estabelecimentos de ensi- substituição à antiga prática de alguém definir as 44 no tem gerado uma situação de falsa democracia, 45 questões e atribuir responsabilidades, segundo o seu pela qual tudo se decide em reuniões com corpo julgamento. docente (ou não se decide pela falta de espaço para Série Cadernos de Gestão Essa prática tem sido, no entanto, muito mais as- realizar reuniões) até sem considerar a relevância da sociada à preocupação com a solução de problemas questão para a realização do projeto pedagógico da definidos anteriormente pelo dirigente da escola e escola: se uma parede vai ser mudada ou não, se um sobre os quais os demais membros da comunidade professor vai receber permissão para se ausentar de Série Cadernos de Gestão escolar deixam de ser envolvidos na análise de seu seu trabalho a fim de participar encontro pro-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA fissional, se vão utilizar uma parede do corredor para 1.2.5. Participação como engajamento afixar trabalhos escolares, dentre outras questões. Verifica-se, nessa prática de se envolver todos para O engajamento representa nível mais pleno de discutir e decidir questões de menor significado e participação. Sua prática envolve estar presente, oferecer ideias e opiniões, O expressar O pensamen- muitas vezes sem as informações básicas necessá- rias, uma série de aspectos negativos, interligados: to, 0 analisar de forma interativa as situações, to- mar decisões sobre 0 encaminhamento de questões, a) O gasto do tempo precioso de todos e da ener- com base em análises compartilhadas e envolver-se gia coletiva para discutir questões secundárias e de forma comprometida no encaminhamento e nas operacionais, que poderiam ser decididas a par- ações necessárias e adequadas para a efetivação das tir do bom-senso pela pessoa responsável pela ges- decisões tomadas. Em suma, participação como en- tão da unidade social para que ela recebeu uma gajamento implica envolver-se dinamicamente nos delegação funcional. processos sociais e assumir responsabilidade por b) O enfraquecimento do poder e da responsabi- agir com empenho, competência e dedicação visan- lidade de discernimento na tomada de decisão do promover os resultados propostos e desejados. na gestão escolar. Portanto, é muito mais que adesão, é empreendedo- c) A delonga na tomada de decisão colegiada que, rismo comprometido. por ser morosa, torna-se inoperante e enfraque- Participação, em seu sentido pleno, correspon- cida, quando as questões a ela relacionadas são de, portanto, a uma atuação conjunta superadora das urgentes. expressões de alienação e passividade, de um lado, e d) A delonga e hesitação em assumir decisões mais autoritarismo e centralização, de outro, intermedia- fundamentais da problemática educacional é pos- dos por cobrança e controle. 47 46 sível até mesmo sugerir que objetivo sublimi- Conforme indicado na discussão sobre as expres- nar de tendências a prender-se em questões se- sões de poder na escola, a separação entre toma- Série Cadernos de Gestão cundárias seja justamente 0 de evitar responsa- da de decisão e ação, entre pensar e 0 fazer, pro- bilidades maiores. duz fragmentação e resultados negativos no proces- e) A criação de um clima fictício de participação pedagógico e na cultura escolar, de que resulta vi- e desgaste desse processo. rem todos a pagar preço desse resultado, dentre os Série Cadernos de Gestão quais, além da baixa efetividade, desperdício deA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA oportunidade de desenvolvimento de competência profissional e institucional e autonomia. A qualidade do ensino depende de que as pes- 2 soas afetadas por decisões institucionais exerçam 0 Valores, objetivos, princípios e direito de participar desse processo de decisões, as- sim como tenham dever de agir para implemen- dimensões da participação tá-las. Em vista dessas questões, a ação competente do dirigente escolar de assumir um sentido de res- ponsabilidade política, mediante sensibilidade e bom- senso, que lhe permita discernir a relevância e a am- T endo em vista a interação e a dinâmica social e plitude da repercussão da tomada de decisão para a interpessoal que envolve, a participação se manifes- escola como uma coletividade, para a qualidade de ta como um processo fluido, dinâmico e não linear, seu processo educacional e para sentido de auto- nem sempre lógico, correspondente à democratiza- nomia e desenvolvimento de seus profissionais. ção da tomada de decisões e da respectiva atuação comprometida de profissionais e pessoas em geral na dinamização da organização escolar. Esse pro- cesso de participação social orienta-se por valores, princípios e objetivos, ao mesmo tempo em que os traduzem, e se expressam, em um contexto social, apresentando diferentes dimensões interativas e in- 48 49 terinfluentes. A clareza dos objetivos, a orientação por princípios Série Cadernos de Gestão e a compreensão de suas implicações quanto à ação, tornam a participação mais efetiva e competente. A seguir, são apresentados esses aspectos de modo a caracterizar perspectivas com as quais se pode ana- Série Cadernos de Gestão lisar e avaliar as práticas atuais da escola.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA Lück 2.1. Valores orientadores da ação participativa ção são distribuídos de forma diferente, de modo a possibilitar, aos que apresentam maior dificuldade A ação participativa, como prática social segun- de participação, as condições mais favoráveis para do O espírito de equipe, depende de que seja reali- superar essa dificuldade. zada mediante a orientação por certos valores subs- O compromisso se traduz na ação dos envolvidos tanciais, como ética, solidariedade, equidade e com- no processo pedagógico, focada e identificada com promisso, dentre vários outros correlacionados, sem seus objetivos, valores, princípios e estratégias de de- os quais a participação no contexto da educação per- senvolvimento. Pressupõe O entendimento pleno des- de seu caráter social e pedagógico. sas questões e 0 empenho para sua realização, tradu- A ética é representada mediante a ação orienta- zido em maior e melhor aprendizagem pelos alunos, da pelo respeito ao ser humano, às instituições soci- assim como sua formação sólida e segura. ais e aos elevados valores necessários ao desenvolvi- Portanto, a ação participativa hábil em educação mento da sociedade com qualidade de vida, que se é orientada pela promoção solidária da participação faz traduzir nas ações de cada um. De acordo com por todos da comunidade escolar, na construção da esse respeito, a ação participativa é orientada por escola como organização dinâmica e competente, to- cuidado e atenção aos interesses humanos e sociais mando decisões em conjunto orientadas pelo com- mais elevados. promisso com valores, princípios e objetivos educa- A solidariedade é manifestada mediante reco- cionais elevados, respeitando os demais participan- nhecimento do valor inerente a cada pessoa e sen- tes e aceitando a diversidade de posicionamentos e tido de que como seres humanos nos desenvolvemos características pessoais. em condições de troca e reciprocidade, para cuja efetivação são necessárias redes abertas de apoio re- 51 50 2.2. Objetivos da participação como ação social cíproco. A participação, é importante destacar, não se cons- A equidade é representada pelo reconhecimen- Série Cadernos de Gestão titui em um fim em si mesma. No entanto, tal situa- to de que pessoas e grupos em situações diferencia- ção parece existir nas práticas de muitas escolas que das ou desfavoráveis necessitam de atenção e condi- indicam haver em seu ambiente um elevado espírito ções especiais, a fim de que possam colocar-se em de colaboração, em que as decisões são tomadas de Série Cadernos de Gestão paridade com seus semelhantes no processo de de- forma compartilhada, em que pais e professores au- senvolvimento. Vale dizer que os benefícios da aten-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA xiliam na construção do projeto pedagógico da esco- b) Desenvolver comunitarismo e O espírito de la porém, seus resultados referentes à promoção coletividade na escola, caracterizados pela res- de aprendizagens significativas para seus alunos con- ponsabilidade social conjunta, de modo que esta tinuam os mesmos, sem qualquer sinal de melhoria. se torne ambiente de expressão de cidadania por Concluir-se-ia, a respeito de tais casos, que a partici- parte de seus profissionais e de aprendizagem pação estaria sendo realizada com seus ile- social efetiva e de cidadania, por seus alunos. gitimamente desfocados do aluno para os profissio- Destaca-se que estas são condições fundamentais nais da escola. para que a escola realize 0 objetivo por ela assumido e Portanto, cabe alertar que a promoção da parti- presente na proposição de seu projeto pedagógico, cipação deve ser orientada e se justifica na medida que é a formação de seus alunos para a cidadania. em que seja voltada para a realização de objetivos Como objetivos específicos, destacam-se: educacionais claros e determinados, relacionados à a) Garantir significado social às ações e práticas transformação da própria prática pedagógica da es- pedagógicas, no contexto escolar. cola e de sua estrutura social, de maneira a se tornar b) Elevar os padrões de qualidade da organiza- mais efetiva na formação de seus alunos e na promo- ção escolar e dos resultados de seu trabalho edu- ção de melhoria de seus níveis de aprendizagem. Estes cacional. aspectos constituem-se em objetivos maiores e in- dicadores da qualidade de ensino e efetividade das c) Envolver a família e a comunidade no proces- so político-pedagógico escolar. participações promovidas. d) Promover 0 sentido de corresponsabilidade Ressaltam-se, em especial, os seguintes objeti- e compromisso coletivo dos participantes da es- vos gerais na promoção da participação: 52 cola por suas ações. 53 a) Promover desenvolvimento do ser humano e) Estabelecer maior integração entre currículo como ser social (cidadão) e a transformação da es- escolar/aprendizagem dos alunos e a realidade. Série Cadernos de Gestão cola como unidade social dinâmica e aberta à munidade, de modo que a educação se transforme f) Criar ambiente formador de cidadania e apren- em um valor cultivado pela comunidade e não seja, dizagem de habilidades participativas. como muitas vezes é hoje considerada, uma res- Todos esses objetivos da promoção da participa- Série Cadernos de Gestão ponsabilidade exclusiva de governo e da escola. ção são importantes condições para estabelecimen- to da qualidade de ensino.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA 2.3. Princípios da participação funcionamento organizacional da comunidade esco- A gestão participativa se fundamenta em, e re- lar/educacional que se efetiva a partir das pessoas e força, uma série de princípios interligados, que se do espírito humano da cultura organizacional da co- expressam de forma subjacente nos vários momen- munidade, mobilizando-os e sendo por estes elemen- tos e expressões da participação. Estes princípios a tos seguir comentados são a democracia como uma vi- Do ponto de vista político, a democracia consti- vência social comprometida com coletivo, a cons- tui-se em característica fundamental de sociedades trução do conhecimento da realidade escolar como e grupos centrados na prática dos direitos humanos resultado da construção da realidade em si, e a parti- por reconhecerem não apenas 0 direito de as pes- cipação como uma necessidade humana. soas usufruírem dos bens e dos serviços produzidos em seu contexto, mas também, reciprocamente, de 2.3.1. A democracia é vivência social seu dever de assumirem responsabilidade pela pro- comprometida com coletivo dução desses bens e serviços, exercendo assim sua cidadania. Democracia e participação são dois termos inse- No contexto democrático, direito e dever não paráveis, à medida que um conceito remete ao ou- são conceitos fixos e estabelecidos a serem adotados tro. No entanto, essa reciprocidade nem sempre ocor- re na prática educacional. Isso porque, embora a de- e seguidos, mas, sim, ideias que se desdobram e se transformam continuamente pela própria prática de- mocracia seja irrealizável sem participação, é possí- vel observar a ocorrência de participação sem espí- mocrática que, por si, é criativa e dinâmica. Não se rito democrático. Neste caso, que se teria é um sig- trata, portanto, de um sentido normativo e imperati- vo de direitos e deveres tomados como dados, e sim 54 nificado limitado e incompleto de participação, con- de um sentido interativo pelo qual direitos e deve- 55 forme já apontado. res se transformam contínua e reciprocamente e são Série Cadernos de Gestão A democracia ultrapassa e transcende a partici- superados em estágios sucessivos de complexidade pação, de que depende, sem nunca lhe escapar (pa- que vão tornando as funções sociais do grupo mais rafraseando Morin, 1985). A democracia, como pro- amplas, complexas e significativas, ao mesmo tempo cesso e não como ideário estabelecido a priori, apa- que seus membros vão desenvolvendo a consciência rece e se desenvolve incessantemente (re)construí- Série Cadernos de Gestão do processo como um todo, bem como das nuances da, mediante dinamismo específico da estrutura e de seus múltiplos desdobramentos.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA Lück Desse modo, "à medida que a consciência social de seus atos sociais, sobre os quais presta contas à se desenvolve, dever vai sendo transformado em sociedade continuamente. vontade coletiva" (CARVALHO, 1979: 22), criando O postulado democrático de orientação dos pro- no interior da escola uma cultura própria, e não im- cessos sociais da escola implica, portanto, o cons- posta de fora para dentro, de maneira a impulsionar truir juntos, vivenciado no plano interpessoal, do res- para a ação proativa como força promotora de transfor- mações, em vez de impulsionar para a reação e resis- peito ao outro como sujeito, como ser humano (CAR- tência, cujos efeitos são fortalecimento do grupo co- DOSO, 1995), a consideração das diferenças indivi- mo unidade reacionária e não como força construtiva. duais e exercidas em nome do aprimoramento e en- riquecimento do processo coletivo como um valor. Portanto, a democracia se expressa como condi- ção fundamental para que a organização escolar se A participação constitui uma forma significativa traduza em um coletivo atuante, cujos deveres ema- de, ao promover maior aproximação entre os mem- nam dele mesmo, a partir de sua maturidade social, bros da escola, reduzir desigualdades entre eles. Por- e se configuram em sua expressão e identidade, que tanto, está centrada na busca de formas mais demo- se renova e se supera continuamente. Nessas condi- cráticas de gerir uma unidade social. Define-se, pois, ções, não se elimina inteiramente a necessidade de a gestão democrática como processo em que se controle que a administração exerce, mas se coloca criam condições para que os membros de uma cole- controle como uma condição imanente e justa do tividade não apenas tomem parte, de forma regular processo todo, de cada um de seus segmentos, de e contínua, de suas decisões mais importantes, mas modo que seja praticado como autocontrole dinâmi- assumam responsabilidade por sua implementação. e flexível, passando, portanto, a força motivadora Isso porque democracia pressupõe muito mais que principal a ser caracterizada pela coordenação e li- tomar decisões: envolve a consciência de construção 56 derança, em vez de pelo controle e comando exter- do conjunto da unidade social e de seu processo de 57 nos, ou superiores. Cabe destacar que a orientação melhoria contínua como um todo. sem controle algum não tem efeito e que, por outro Série Cadernos de Gestão lado, O controle sem orientação se torna imobiliza- dor e burocratizante. Identifica-se, pois, como ca- racterística de escolas democráticas, a expressão de Conhecemos mundo e conhecemo-nos, no mundo, trans- iniciativas autônomas por seus membros coletiva- formando-nos reciprocamente, criando novas oportunida- des e condições de desenvolvimento pela participação com- Série Cadernos de Gestão mente organizados, mediante organização e contro- prometida. le internos de seus processos e uma transparênciaA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA 2.3.2. A construção do conhecimento sobre a Porém, cabe ressaltar, é necessário haver além realidade escolar é resultado da construção da intuição e da observação empática e receptiva so- dessa realidade bre fatos e dados da realidade uma organização A construção do conhecimento, do ponto de vis- sistemática desses aspectos, de modo a se poder, a ta epistemológico, consiste em processo fundamen- partir de sua análise e interpretação objetiva, cons- tado na intervenção crítica e refletida sobre a reali- truir conhecimento significativo e inspirador para a dade, de modo a construí-la. Entende-se, pois, que promoção de avanços educacionais. conhecimento significativo não é resultante da con- Considerando-se que na escola, como organiza- templação sobre a realidade e reflexão sobre a mes- ção social, são reproduzidos os movimentos sociais ma. Resulta, sim, do envolvimento das pessoas na cria- e conflitos entre grupos diferenciados de interesse, ção dessa realidade. Conforme Kosik (1976: 18) res- de conflitos de poder e tensões respectivas, pode- salta, é possível compreender imediatamente a se afirmar que nesse contexto há oportunidade de se estrutura da realidade em si, mediante a contempla- desenvolver, de maneira integrada, conhecimentos so- ção ou a mera reflexão, mas, sim, mediante uma de- bre 0 processo humano socialmente organizado. Dei- terminada É a partir dessa atividade, xar de fazê-lo constitui-se em um desperdício de ex- realizada com um olhar orientado pelo pensamento celente oportunidade de construir conhecimentos e reflexivo, que a pedagogia toma consciência de si significados para explicar as práticas escolares e orien- mesma (parafraseando CHANEL, 1977); que cons- tar seus processos de maneira mais bem fundamen- trói explicações para seus processos, em relação a tada. Vale dizer que os processos sociais participati- seus resultados; e que define postulados capazes de vos promovidos na escola constituem-se em campo fér- impulsionar seu desenvolvimento. til e rico de construção de conhecimento social. 58 Portanto, entende-se que a ação é condição fun- Conforme apontado por Morin (1985: 22), "o nos- 59 damental para a construção da realidade e do res- conhecimento está relacionado à nossa relação ati- Série Cadernos de Gestão pectivo conhecimento, e que a educação democráti- va com mundo exterior, constituindo-se a ação no ca é aquela que oferece a todos que fazem parte da primeiro vínculo da ação cerebral". Por outro lado, organização escolar a oportunidade de participação "qualquer conhecimento se forma numa cultura como condição não apenas de construir a realidade dada, a partir de um estoque de noções, de crenças, social pedagógica, mas também de criar seu próprio de ideias, de um vocabulário, dentre outros aspec- Série Cadernos de Gestão conhecimento sobre esse processo. tos, vista do que há uma inserção histórica eA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA ciocultural de todo conhecimento" (MORIN, 1985: 2.3.3. A participação é uma necessidade humana 26). É a partir dessa atividade, realizada mediante Entende-se que a natureza humana básica sua cuidados científicos e de observação crítico-reflexi- vocação primeira consiste na necessidade de a pes- va, que a pedagogia toma consciência de si mesma e soa ser ativa em associação com seus semelhantes, constrói a consciência de sua história, pela formação desenvolvendo seu potencial. Isto é, ser humano de explicações de seus processos em relação a seus se torna uma pessoa e desenvolve sua humanidade resultados, e que define postulados capazes de im- na medida em que, pela atuação social, coletivamen- pulsionar seu desenvolvimento. Construir conhe- te compartilhada, canaliza e desenvolve seu poten- cimentos a partir das práticas escolares coletivas cial, ao mesmo tempo que contribui para desen- constitui-se, portanto, em um processo fundamental volvimento da cultura do grupo em que vive, com a ser promovido na escola, e que sustenta e faz avan- qual interage e do qual depende para construir sua çar a gestão da escola e a qualidade de seu trabalho identidade pessoal. educacional. ser humano é, no meio em que vive", um sis- Na medida em que gestores rejeitem as tensões, tema indivíduo-meio que se constitui em um todo in- conflitos e dificuldades das situações de participação dissociável. Nesse sentido, "nenhum homem vive, pen- sa, sente ou julga independentemente do grupo so- e interação social, deixam de ter a orientação recepti- cial a que pertence" (CARVALHO, 1979: 15). Simul- va a respeito da realidade, condição fundamental para taneamente, nenhum grupo social tem vida inde- permitir-lhe a construção de conhecimentos de seus pendente dos indivíduos que constituem. A partir processos sociais e educacionais, e desperdiçam a dessa dinâmica interativa compreende-se que, me- oportunidade de superação de suas limitações e cons- diante uma atuação participativa em seu contexto, a trução de seu processo de melhoria pessoa, ao mesmo tempo, contribui tanto para a cons- 60 trução desse contexto como para seu próprio desen- 61 volvimento pessoal, como ser humano e cidadão. O conhecimento complexo exige-nos: Série Cadernos de Gestão Com essa perspectiva, supera-se a concepção de que nos situemos na situação; trabalho mecânico, fechado em si mesmo, de traba- que nos compreendamos na compreensão; lho aproveitado pelos outros e sem proveito próprio, que nos conheçamos conhecedores. criando-se uma perspectiva de realização e constru- (MORIN, 1990: 123) ção significativas, ao mesmo tempo social e individual. Série Cadernos de Gestão E nessa perspectiva, aliás, que as atuações profissio-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA Lück nais em educação se destacam⁶. Isto é, emerge reco- Quanto mais nos dedicamos a atuar em nosso meio partici- nhecimento no sentido de que o indivíduo e grupo pativamente, mais nos conduzimos para nossa realização se realizam e se constroem reciprocamente, pois, à como seres humanos plenos. medida que um alcança, por sua dinâmica de ação, estágios mais elevados de desenvolvimento, constrói condições para que outro também alcance. 2.3.4. A participação implica uma visão global do processo social Evidencia-se, portanto, que é pela participação que indivíduo desenvolve a consciência do que é Não se pode pensar em estabelecer processo de como pessoa, mobilizando suas energias e sua aten- participação na escola apenas parcialmente. Ou ele é ção como parte efetiva de sua unidade social e da so- considerado como um processo que atinge a todos os ciedade como um todo. A participação democrática segmentos do estabelecimento de ensino, ou corres- ponderá a simples ativismo utilizado para camuflar promove a superação da simples necessidade de as- um esforço no sentido da manutenção da condição vi- sociação humana, que pode ser orientada por um gente na escola como um todo, em que uns decidem sentido individualista e oportunista, mediante dis- e outros executam, uns se omitem, outros ocupam torção ou incompletude da formação humana para espaço da decisão, ou em que ninguém decide e que uma necessidade de integração do ser humano na todos fazem é continuar atuando como sempre fize- sociedade, de se sentir parte dela e por ela responsá- ram, sem consideração a resultados e possibilidades vel, de harmonizar e coordenar esforços do grupo, de melhoria e desenvolvimento. A participação é um com a finalidade de realizar um trabalho mais efeti- princípio a permear todos os segmentos, espaços e vo, contribuindo para bem de todos. momentos da vida escolar e dos processos do sistema de ensino, de acordo com postulados democráti- cos, orientadores da construção conjunta. 62 63 Participação, portanto, não é privilégio, ou idios- 6. É importante assinalar que em pesquisas realizadas pela Ponti- sincrasia de determinados grupos, e sim condição Série Cadernos de Gestão fícia Universidade Católica do Paraná, durante quatro anos segui- geral, caracterizada pela reciprocidade expressa em dos, de 1993 a 1996, em municípios paranaenses nos quais realiza- todos os segmentos, meandros e momentos das inte- vam Programa Ensino Nota 10, para capacitação profissional em serviço, cerca de três quartos dos professores participantes do rações na unidade social, seja do sistema de ensino, programa indicaram que sentiam muitíssima satisfação em serem seja da escola, seja entre sistema e escola. Constituin- professores e que não gostariam de mudar de profissão caso tives- do-se a reciprocidade em condição inerente ao pro- Série Cadernos de Gestão sem a oportunidade para fazê-lo, uma vez que nela sentiam-se ao mesmo úteis e pessoas em desenvolvimento. cesso de participação, pressupõe-se, portanto, comoA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA um elemento componente da vida social organizada sidades individuais como seres sociais e sua possibili- da unidade social, que, ao mesmo tempo, é processo dade de integrar OS indivíduos em organizações. e chave de enfrentamento de desafios. Isso porque, conforme Kosik (1976) afirma, e já destacado anteri- ormente, a realidade social é socialmente construí- A participação que se fecha em si mesma constitui ativis- da, ela não preexiste, mas é criada cotidianamente mo. A participação que se espraia por todas as dimensões do processo social, na intenção de enriquecê-las, constitui-se pela ação coletiva, a partir das intenções e propósi- em transformação. tos que a orientam. Pela participação, toda individualidade é mobili- zada e representada como uma parte efetiva do grupo 2.4. Dimensões da participação a que pertence e da sociedade como um todo, vindo a A participação, independentemente de sua na- possibilitar poder produtivo⁷ da vida coletiva que tureza, nível de abrangência e contexto em que ocor- permite, ao mesmo tempo, 0 atendimento das neces- ra, manifesta três dimensões convergentes entre si e interinfluentes: política, pedagógica e técnica. Essa separação, portanto, em sua análise, é apenas didáti- 7. Os termos produção e produto são, muitas vezes, condenados ca, já que nenhuma ocorre independentemente da por um certo grupo de profissionais da educação por associá-los ao modo de produção da empresa, orientado pelo lucro. Cabe lem- outra e não representa a realidade como um todo, brar a respeito que são termos da língua portuguesa e não da em- visto que se entrecruzam, formando um todo dinâ- presa em si e eles ganham significados diferentes de acordo com 0 contexto em que são empregados. O empreendimento humano, mico pela força de sua associação. Cada ação partici- em geral, é orientado para a produção de resultados: encontramos pativa constitui um todo indissociável, uma vez que, essa orientação no lazer, no jogo das crianças, no ócio, nas artes e alterando-se qualquer uma das dimensões, altera-se nas atividades propriamente produtivas. No lazer, por exemplo, resultado pretendido é entretenimento, mesmo que com algum as demais e todo que constituem. No entanto, é 64 trabalho; no ócio, é deleite e a contemplação; no descanso é re- fundamental conhecer cada uma delas, dada a pecu- pouso e a recuperação de energias. Todas as atividades humanas 65 liaridade e particularidade de suas nuances, como de intervenção profissional têm compromisso social de promo- ver, em nome da sociedade, a produção de um resultado: na saú- meio para se compreender a ação participativa e me- Série Cadernos de Gestão de, resultado é bem-estar físico e mental das pessoas; na psico- lhorá-la. logia, seu desenvolvimento emocional e, na educação, sua for- mação e desenvolvimento. A gestão, portanto, teria, como resulta- do imediato, e como condição-meio, a criação de um ambiente e 2.4.1. Dimensão política de um conjunto de ações pedagógicas eficazes para a promoção da formação dos alunos e sua aprendizagem. Apenas na medida da A dimensão política refere-se ao sentido do po- Série Cadernos de Gestão realização dessa formação e aprendizagem poderiam contemplar e demonstrar seu produto significativo. der das pessoas de construírem a sua história e a his-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Lück tória das organizações de que fazem parte, para tor- quistam-se direitos correspondentes que, gradati- ná-las mais significativas e mais produtivas. vamente, aumentam direito da participação. Cria-se, A dimensão política implica a vivência da demo- por conseguinte, uma cultura de poder compartilha- cracia e a substituição do poder "sobre" pelo poder do, desenvolvendo-se a prática de cidadania no inte- "com". Portanto, não se trata de repartir ou transferir rior na escola. Como resultado dessa prática, portan- poder, isto é, de tirá-lo de uns e passá-lo para ou- to, constrói-se a autonomia e empoderamento pelo tros, como costuma acontecer em contextos burocrá- alargamento de consciência social e desenvolvimen- ticos e autoritários, mas, sim, de compartilhar O po- to de competências sociais. der, de modo que aumente poder de todos. Como Enfim, pelo envolvimento das escolas nas deci- verdadeiro poder é compartilhado e não imposto, é sões do sistema de ensino que afetam as práticas edu- na coparticipação que o poder coletivo cresce. Vale cacionais nelas realizadas, estas são fortalecidas e se dizer que ninguém realmente sai ganhando, a menos tornam mais efetivas, resultando no fortalecimento e que todos ganhem em conjunto (COVEY, 1997). na maior efetividade do sistema como um todo. No sentido pessoal, a participação dá às pessoas a oportunidade de controlarem seu próprio trabalho, 2.4.2. Dimensão pedagógica e, dessa forma, desenvolverem maior consciência de A dimensão pedagógica da participação refere-se responsabilidade por ele, que não acontece quan- ao fato natural de que a prática é, em si, um processo do aspecto operacional do que profissional faz formativo e, portanto, um fator fundamental de pro- é decidido, por exemplo, pelo supervisor educacio- moção de aprendizagens significativas e constru- nal, pelo diretor da escola ou por alguém muito mais ção do conhecimento. Constituindo-se como um pro- distante, pertencente aos órgãos da gestão do siste- cesso permanente de ação-reflexão, pela discussão 66 ma de ensino. colegiada das questões escolares e pela busca de con- 67 Pela participação, a escola se transforma numa cretização de seus objetivos, propicia aos seus parti- oficina de democracia, organizando-se como institui- cipantes a oportunidade de desenvolver sentido Série Cadernos de Gestão ção cujos membros se tornam conscientes de seu pa- de corresponsabilidade, a par do desenvolvimen- pel social na construção de uma instituição verda- to de conhecimentos, habilidades e atitudes relati- deiramente educacional, e agem de acordo com essa vas a essa prática social. consciência. Pela participação competente e asso- No dizer de Prais (1990: 2), "a busca de estraté- Série Cadernos de Gestão ciada constrói-se a prática dos deveres sociais e gias viáveis à concretização dos objetivos da comu-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA Lück nidade escolar passa a ter um natural efeito pedagó- negaram a técnica. Ao fazê-lo, no entanto, desquali- gico sobre cada um dos integrantes dessa comunida- ficaram a própria dimensão política, uma vez que de", tendo em vista que essa prática "propicia a vi- ambas são dimensões complementares de uma mes- vência democrática necessária para a participação ma realidade e se realizam reciprocamente. Portanto, social e exercício da há que se reconhecer O exagero e até mesmo malefí- Vale dizer que, enquanto professores e demais cio daquele posicionamento, uma vez que a efetivi- profissionais da educação estiverem compartilhan- dade de uma ação política depende sobremodo da do das decisões globais e específicas da escola, assu- competência técnica que realiza a vontade política. mindo responsabilidade por essas decisões e agindo A dimensão técnica não tem significado sem a políti- conjuntamente para implementá-las, estarão apren- ca e esta não tem expressão sem a técnica. dendo a atuar melhor participativamente, estabele- Aquela tendência deveu-se à consideração cor- cendo-se, dessa forma, a formação do cidadão parti- reta, no sentido de que mudanças encerradas na téc- cipativo (PRAIS, 1990). nica são limitadas, mantenedoras da situação social Nessa circunstância, é importante destacar que vigente e das interações sociais conservadoras nela as pessoas que por elas passam transformam-se, já a estabelecidas. Conforme Gandin (2004) indica, a pre- partir desse processo, ao mesmo tempo em que con- ocupação com transformações técnicas na escola é tribuem para a mudança do próprio processo, inde- relativamente simples e necessária, porém é limita- pendentemente de outros resultados objetivos que da, pois deixa de questionar a estrutura social esco- se propõem a alcançar. lar, os aspectos fundamentais do relacionamento hu- mano e as relações de poder nele expressas. 2.4.3. Dimensão técnica Deve-se reconhecer, portanto, que sem compe- 68 A dimensão técnica foi, a partir da década de 80, tência técnica não é possível realizar qualquer pro- 69 não apenas minimizada, mas até mesmo menospre- jeto pedagógico. A dimensão técnica não é um fim Série Cadernos de Gestão zada, embora inadvertidamente, por aqueles que se em si mesma, mas ela é fundamental por se constitu- propunham a desenvolver um projeto político-peda- ir no veículo para alcance de resultados. Muitas gógico transformador. Em nome da concepção his- vezes, dirigentes e professores têm ideias claras do tórico-crítica da educação, muitos profissionais, ao sentido da ação pedagógica e até mesmo da própria participação, mas não agem, pois faltam-lhes com- Série Cadernos de Gestão pretenderem destacar valor da dimensão política, petências técnicas apropriadas para transformá-las emA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA Lück ação, daí por que haver um largo e profundo fosso no, compete aos gestores escolares abrir espaço para entre discurso pedagógico e seu processo. orientar essa conquista, em vez de se cobrar a parti- Por conseguinte, conclui-se que não se deve subs- cipação para a execução das ações que já tenham tituir ideias sem estratégias de ação por estratégias sido previamente decididas. Aos professores, alunos de ação sem ideias. Tais práticas, aliás, infelizmente e pais de alunos cabe perceber que eles constroem a muito comuns, resultam em muita ação e pouco ou realidade escolar desde a elaboração de seu projeto nenhum resultado significativo. Elas criam a sensa- pedagógico até a efetivação de sua vivência e ulteri- ção de que se está fazendo alguma coisa, e promo- or promoção de transformações significativas. Não vem 0 distanciamento da superação de dificuldades, se trata de conceder, doar ou impor participação, que, pelo contrário, intensificam-se. É fundamental mas sim de estimulá-la, de modo que se integre nes- estabelecer uma íntima relação entre ideias e estra- se processo contínuo. tégias. Podemos sugerir que a adoção de um método constitui-se em necessária circunstância mediadora nessa inter-relação, uma vez que método consiste em uma concepção clara da realidade, associada ao modo de agir para realizá-la. Consideramos que um dos problemas básicos da educação brasileira é jus- tamente a falta de método na realização das ações edu- cacionais, isto é, de um conjunto de ideias (uma con- cepção) associado a estratégias e processos capazes de realizá-las por guardarem mesmo espírito, daí 70 por que se torna necessário que se desenvolvam nas 71 escolas a compreensão e entendimento dos signi- ficados da realidade como base para desenvolvi- Série Cadernos de Gestão mento de um método de atuação. Partindo do princípio de que participação é con- quista, tal como proposto por Demo (1988), como também do reconhecimento de que culturalmente Série Cadernos de Gestão não estamos acostumados a participar de modo ple-3 Promoção da gestão escolar participativa Sabemos que, dada a ainda vigente tendência burocrática e centralizadora da cultura organizacio- nal escolar, emanada desde as orientações e ações dos sistemas de ensino brasileiro que a reforçam, a parti- cipação, em seu sentido dinâmico de interapoio e in- tegração, visando construir uma realidade educacio- nal mais significativa, não se constitui em uma prática comum nas escolas. É recorrente a queixa de direto- res escolares⁸, no sentido de que "têm que fazer tudo 8. Em programas de capacitação orientados e conduzidos pela au- tora para diretores escolares e outros profissionais da gestão esco- lar, em vários estados, tendo como foco a gestão democrática e 73 participativa, chamou a atenção a expressão do entendimento de que a ideia de trabalho em equipe e colaborativo para a realização da gestão democrática e participativa é boa, mas impossível de realizar, porque os professores não colaboram: "isso tudo é válido, mas só existe no plano das ideias, na prática é impossível, pois os professores não colaboram". Esse depoimento, muito comum, su- gere que esta condição deve ser dada naturalmente na escola, e que nesses casos não ocorre 0 entendimento claro do papel dos gestores que é, justamente, reverter tal situação, promover o de- Série Cadernos de Gestão senvolvimento do espírito de equipe e do trabalho colaborativo, fundamentais para a qualidade do ensino.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA sozinhos", que não encontram nem apoio nem eco percebem a situação da mesma forma, isto é, como para trabalho da escola como um todo, uma vez que isolados, e passam a agir como tal, fragmentando as- "os professores limitam-se a suas responsabilidades sim as ações de sala de aula" e que estes, muitas vezes, "nem mes- Cabe destacar 0 caráter reativo nos comentários mo assumem responsabilidade por fazer bem seu tra- apresentados e a expectativa de que a participação balho de sala de aula, jogando para a direção as difi- colaborativa deveria ocorrer naturalmente no con- culdades que encontram com seus alunos". texto educacional e não como resultado de um es- Quanto à participação dos pais, ela é muitas ve- forço de gestão. Ressaltamos que tal participação é zes desejada para tratar de questões periféricas da resultado de muito esforço e competência e que é vida escolar, como, por exemplo, aspectos físicos e justamente para promovê-la que se propõe e se jus- materiais da escola ou ainda para acompanhar OS fi- tifica a atuação de gestores. Esta, portanto, é efeti- lhos quando eles apresentam problemas de compor- va na medida em que se fundamenta em uma for- tamento e/ou aprendizagem: "os pais que deveriam mação, tanto inicial como em serviço, a respeito dos vir à escola são os que menos dizem diretores, diversos aspectos a ela relacionados, como, por exem- sugerindo, ao mesmo tempo, que não adianta reali- plo, a dinâmica de grupos, processo de comunica- zar reunião de pais na escola, e que essas reuniões ção e relacionamento interpessoal e seus efeitos são para pais de alunos com problema. A tradicio- sobre essa dinâmica; as condições que favorecem nal reunião para entrega de boletins está associada ou prejudicam a boa dinâmica e relacionamento in- a esta expectativa de que pais sejam associados, terpessoal; efeitos da liderança na sua construção, junto com a escola, em uma ação de controle e co- dentre outros¹⁰. brança do desempenho de seus filhos, em vez de as- 74 sociados em um processo contínuo de orientação 75 da formação dos alunos. 9. É importante destacar, a respeito, que 0 desenvolvimento de uma prática efetivamente participativa está associada a uma mu- Série Cadernos de Gestão Tais diretores sentem-se, por certo, em condi- dança de paradigma, pela qual se adota uma ótica interativa, que ções como estas, sozinhos em seu trabalho vale di- vê a realidade globalmente em vez de mediante olhar fragmenta- dor e dicotomizador. Essa ótica procura vivenciar a realidade como zer, isolados e, portanto, centralizadores. Partindo-se uma experiência mutável e passível de melhoria, a partir de ações do princípio de que toda expectativa negativa gera conscientes de seus múltiplos aspectos e da interação entre os mesmos. uma condição recíproca, é possível indicar que os Série Cadernos de Gestão 10. Os Cadernos de Gestão IV, V e VI desta série abordarão essas professores, sentindo-se "parte de um outro grupo", questões.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Evidencia-se que as situações apontadas não po- condicionam e reforçam, de seus resultados, e as- dem ser mudadas apenas a partir da mera vontade sim por diante. O alargamento dessa consciência, as- de dirigentes ou de exortações dos mesmos para que sociado ao desenvolvimento de competência téc- os professores ou pais de alunos participem da cons- nica para colocá-la em prática, são condições fun- trução de uma escola mais ativa e competente, ou do damentais para que se possa construir uma cultura desenvolvimento de algum projeto específico. Os fa- de participação efetiva na escola. Vale destacar que tos indicam que orientações com tais características uma cultura não é mudada por desejo, mas a partir não promovem resultados desejados. É comum, de ação competente e bem orientada de acordo com por exemplo, dirigentes afirmarem que professo- os propósitos definidos. O alargamento da consciên- res reclamam por não poderem participar da deter- cia está associado à amplitude e ao aprofundamento minação do currículo escolar, mas que, quando lhes é da ação e vice-versa. Assim, na conscientização, a dado espaço para isso, não colaboram e omitem sua consciência e a ação são componentes inerentes e contribuição. O processo de resistência a mudanças, indissociáveis à participação social efetiva. mesmo as desejadas, constitui-se em uma expressão É importante reconhecer que mesmo que as pes- comum em qualquer contexto social. Determinação, soas desejem participar da formulação e constru- competência e perseverança são condições fundamen- ção dos destinos de uma unidade social, não desejam tais para a promoção de mudança, associados a uma aceitar, rapidamente, ônus de fazê-lo, daí por que, grande sensibilidade às expressões comportamen- após manifestarem esse interesse, manifestam tam- tais e seu significado. bém, por meio de comportamentos evasivos, resis- Podemos sugerir que a ocorrência daquelas situa- tência ao envolvimento nas ações necessárias à mu- ções está associada a uma falta de clareza do signifi- dança desejada. Trata-se, portanto, de um nível de 76 cado de participação, tanto por parte dos professo- consciência elementar pelo qual querem os bônus 77 res ou pais, como também dos dirigentes escolares. sem desejar OS ônus para sua realização. Série Cadernos de Gestão Portanto, nos casos em que se registra tal ocorrên- Esse processo de resistência se explica porque cia, é fundamental que entendimento mantido so- mudanças promovem desestabilização da ordem vi- bre a questão seja examinado e que se alargue os ho- gente e de nichos de poder estabelecidos, instauran- rizontes sobre a mesma, a partir de observação, re- do desacomodação geral, despertando reações con- flexão e estudo objetivo dos processos sociais vigen- trárias. É muito comum se observar que os gestores Série Cadernos de Gestão tes, das diferentes manifestações, dos fatores que as que reclamam da incapacidade de professores em mu-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA dar sua percepção sobre seu trabalho resistem tal natureza e nem sempre está orientado para desen- às novas ideias; esses diretores O fazem, porém, ex- volver a devida inteligência emocional e social que pressando forte conotação reativa e de fixação em torna capaz de obter melhores proveitos e melhor atu- ideias preconcebidas a respeito dos professores. Essa, ar nessa expressão. Em vista disso, em cada contexto no entanto, é uma condição que pode ser superada a de trabalho esta dimensão canaliza muita energia e partir de ação perspicaz de gestores, de sua reflexão demanda muito cuidado e atenção. Na escola, a ques- sobre seu próprio modo de pensar e de agir. tão é comumente identificada por diretores e super- Aos responsáveis pela gestão escolar compete, por- visores como sendo ao mesmo tempo crucial e pro- tanto, promover a criação e a sustentação de um am- blemática, conforme se pode depreender, como ilus- biente propício à participação plena no processo so- tração, do seguinte depoimento de uma diretora: "os cial escolar de seus profissionais, bem como de alu- maiores problemas que tenho na escola são os com- nos e de seus pais, uma vez que se entende que é por portamentos e atitudes de algumas professoras que essa participação que os mesmos desenvolvem cons- ficam criando fofocas e de outras que ficam reforçan- ciência social crítica e sentido de cidadania, condi- do, por darem ouvidos e passarem adiante o que ou- ções necessárias para que a gestão escolar democrá- vem. Outras são ciumentas e invejosas e não podemos tica e práticas escolares sejam efetivas na promoção destacar 0 trabalho de ninguém sem que alguém deixe da formação de seus alunos. Ao fazê-lo, no entanto, de comentar que estou promovendo peixinhos". Ou- cabe-lhes estar atentos a resistências e saber traba- tra indicou, ainda: "tudo funcionaria bem se as profes- lhar com elas. Daí por que uma importante dimen- soras não fossem tão 'cheias de dedos' e melindrosas, são da gestão participativa seja trabalho com com- prejudicando bom andamento da portamento de resistência, tensões e conflitos, que Portanto, 0 trabalho de articulação e desenvolvi- demandam do dirigente desenvolvimento de co- mento de habilidades e atitudes de participação cons- nhecimentos, habilidades e atitudes específicos. 78 titui-se em uma condição fundamental do papel do 79 gestor. Analisar a cultura escolar¹¹, seu modo de ser e 3.1. 0 espaço da participação de professores na de fazer, constitui-se em ação constante de gestores Série Cadernos de Gestão vida da escola para orientá-la adequadamente. Para essa análise, de- Em que pese entendimento da importância e ve-se examinar, dentre outros aspectos: Como ocorre a dos princípios da participação coletiva de pessoas na construção da realidade de que fazem parte, essa ideia Série Cadernos de Gestão não se traduz facilmente na prática. Apesar da nature- 11. O livro A cultura e o clima organizacional da escola, a ser fu- za social do ser humano, nem sempre reconhece turamente lançado nesta série, expandirá a questão.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA participação dos professores na determinação do cur- exemplo, como as ações do sistema interferem em rículo, na determinação dos destinos da escola, na pro- sua dinâmica, muitas vezes demandando atenção e posição e desenvolvimento do projeto pedagógico? Qual energia em sentido diferente daquele da proposta a natureza de sua participação? Quem participa desse pedagógica da escola, daí resultando a demanda para processo, como e por quê? Qual a frequência dessa a promoção, nesse nível, de abertura para partici- participação? Qual a estrutura e a dinâmica do proces- pação na tomada de decisões e, logo, alteração de so participativo? Quais seus aspectos mais positivos e seu relacionamento com a escola pela diminuição quais suas limitações? Como ocorrem as relações e da verticalização. Cabe, portanto, reconhecer que a comunicações interpessoais? Que motivações as ori- participação na gestão, como princípio, não se cir- entam? Essas são apenas algumas questões que se cunscreve ao ambiente escolar¹². pode propor e cujas expressões devem ser analisadas em cada escola, como forma de entender sua dinâmi- ca e superar suas limitações. 12. Mediante ação de consultoria e capacitação profissional, a au- tora deste livro foi contratada para coordenar e orientar a integra- O processo participativo na gestão educacional ção de direção, supervisão e orientação educacional em sistema se realiza em vários contextos e ambientes que ma- municipal de ensino de uma capital brasileira. Esse trabalho se desenvolveu durante vários meses, mediante desempenho parti- nifestam sua peculiaridade e seus efeitos específi- cipativo de análise da problemática escolar, a partir do princípio cos, e que se espraiam também para outros espaços da atuação conjunta da equipe de gestão da escola com seus pro- e ambientes, demandando que todos sejam igual- fessores. Tendo em vista que no horário de trabalho das escolas não havia tempo específico livre para realizar reuniões, em cada mente envolvidos nesse processo. Não fazê-lo im- estabelecimento de ensino, de acordo com a disponibilidade de plica inadequações, como a seguir alertado. suas equipes, foi viabilizado um horário diferente como, por exemplo, antes do início das aulas, ao término das aulas, nos inter- a) Promover na escola um ambiente de partici- valos de recreio, a partir da utilização de tempo livre dos profissio- pação pelos professores, em conjunto e espírito de nais. A partir desse grande esforço, estabeleceu-se tal nível de equipe, no sentido de transformar sua prática peda- compreensão conjunta da problemática educacional que se pas- 80 sou a demandar naturalmente, pelo novo estado de consciência, 81 gógica, a elevação de seu nível de consciência e trans- um relacionamento de maior abertura e espaço de participação formação da realidade de trabalho sem alteração junto à Diretoria de Educação do município. Esta, no entanto, es- das práticas de relacionamento do sistema de ensino tava apenas preparada e orientada para promover mudanças na Série Cadernos de Gestão escola, mas não para mudar as próprias práticas. Em vista disso, ao com a escola, cria mudanças apenas temporárias nas final do ano letivo, 0 programa foi suspenso, sem algumas medidas ações escolares. Isso porque essa prática, quando efe- no âmbito do sistema, para sustentar os avanços promovidos pelas tiva, promove a necessidade de participação nas de- escolas. Os manuscritos do livro Ação integrada: administração, supervisão e orientação educacional, da autora, pela Editora Vo- terminações realizadas no âmbito da gestão do siste- zes, foram desenvolvidos como apoio para a realização daquele Série Cadernos de Gestão ma ensino. A partir dela, torna-se evidente, por trabalho, tendo sido testado como um instrumento importante no desenvolvimento da integração pretendida.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA b) Conceder aos professores o espaço à partici- A participação, assim, não é um fim e sim um meio, pação na determinação do desenvolvimento do pro- em vista do que não é importante por si mesma, isto é, cesso escolar e não envolver nesse processo os alu- a participação pela participação, mas, sim, pelos resul- nos e os pais corresponde a conceder àqueles profis- tados que propicia e pelo desenvolvimento da rede de sionais poder de dominação, que em vez de promo- relações em vários âmbitos, que reforça trabalho edu- ver a conscientização dos professores, sobre seu pa- cacional e promove a vivência democrática. Participa- pel social, concede-lheso reforço da prática de auto- ção implica não desenterrar conflitos e desestabilizar ritarismo, embora repartido. Isto é, eles passam a poderes individuais estabelecidos. Implica, sim, criar construir vínculos com níveis hierárquicos superio- uma cultura de troca, reciprocidade e compartilha- res da burocracia, se desvincular de seu contexto mento de responsabilidades. Conforme proposto por mais próximo. É comum nessas condições 0 resgate Demo (1988: 20), "participação supõe compromisso, en- de práticas de Conselhos Escolares como meros le- volvimento, presença em ações por vezes arriscadas e gitimadores das determinações implícitas dos edú- até Estas, mediante esse compromisso, são cadores. A respeito, Cunha (1995) identifica situa- assumidas de maneira natural e com entusiasmo, re- ções de Conselhos Escolares nos quais ocorre ape- sultando em desenvolvimento da cultura organizacio- nas uma participação formal de pais, sucumbindo es- nal da escola, e consequente melhoria de seus proces- tes ao "poder profissional" dos professores, isto é, SOS sociais e educacionais. atuam como meros seguidores daquilo que perce- bem como desejado pelos professores. 3.2. 0 espaço da participação dos pais na vida da c) Estabelecer vínculos de liderança e tomada escola de decisão compartilhada entre os membros da equi- Sabe-se que, em geral, os pais pouca participa- pe de gestão escolar inclui funcionários da secreta- ção exercem na determinação do que acontece na 82 ria da escola e também operacionais sobre questões escola¹³. Algumas vezes teme-se a participação de 83 que afetam sua atuação. Não fazê-lo representa criar bolsões de ineficácia na escola e situações de des- Série Cadernos de Gestão gaste e até mesmo de atrito intergrupais. Sabe-se, a 13. Em pesquisa do IPEA (2003) sobre a realização de programas de respeito, que toda pessoa que de alguma forma par- correção da distorção idade-série realizados pelas unidades federati- ticipa do ambiente escolar exerce poder de influên- vas brasileiras, da qual a autora deste livro participou como consulto- ra e pesquisadora, verificou-se, em relação àquele programa, que cia em seu processo, podendo, portanto, caso devi- embora a sua efetivação nas escolas dependesse em grande parte do damente canalizados suas energias e seus talentos, apoio dos pais, estes não foram envolvidos nas discussões, no plane- Série Cadernos de Gestão muito contribuir para apoiá-lo e construí-lo. jamento ou na execução das programações, e muito menos na discus- são de seu significado para a vida de seus filhos.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA certos pais que, sendo muito eloquentes e de tem- Exemplificando esforços de mudança dessa situ- peramento forte, tentam impor sua vontade sobre ação, em um dos municípios OS dirigentes decidiram procedimentos escolares e que muitas vezes funcio- assumir a realização de trabalho para promover a su- nariam mais para "facilitar" sua própria vida, ou de peração dessa dificuldade, e tomaram a iniciativa de seus filhos, do que para melhorar a qualidade do en- promover encontros, realizar reuniões e palestras com sino, conforme percebido por gestores e professo- res. Em vista disso, muitas vezes, os dirigentes esco- pais de alunos de suas escolas, abrindo-se para apoi- lares não apenas deixam de ouvir OS pais, como até ar as famílias como forma de promover a integração evitam fazê-lo, e de dar espaço para a participação dos mesmos ao seu trabalho. Após cinco meses do familiar. É possível que ajam dessa forma também início desse processo, foi realizada eleição de direto- por terem receio de perder espaço e autoridade. res de escola no município e observou-se que hou- Foi registrado pela autora deste trabalho, em de- ve, em média, 95% de participação dos pais na vota- zenas de municípios paranaenses em que realizou ção escolar, que pode ser considerado como um estudos sobre gestão escolar envolvendo dirigentes índice de participação elevadíssimo, dado ser esta de escolas municipais¹⁴, que estes indicaram a falta voluntária e considerando OS compromissos de tra- de integração entre escola e família como proble- balho dos pais. Em outro município, pais passa- ram a ser participantes ativos das reuniões e encon- ma maior e O mais comum em suas escolas. Esse re- sultado revela não apenas uma carência, mas 0 seu tros realizados. Esses são exemplos que demons- entendimento da importância dessa participação. Po- tram que pais, quando aceitos, compreendidos e estimulados¹⁵, participam da vida escolar e muito rém, ao mesmo tempo, registra um imobilismo ou incapacidade da escola em superar essa limitação: podem contribuir para a melhoria da qualidade do muito difícil trazer os pais para a escola", foi um ensino de fato, registrou-se também maior compro- 84 metimento dos pais com a realização das transforma- 85 depoimento comum, caracterizado pelo desânimo e pela falta de vontade em mudar a situação. ções propostas pelos diretores eleitos. Além disso, de- ve-se considerar como um direito dos mesmos influ- Série Cadernos de Gestão 15. A revista Gestão em Rede tem publicado casos de sucesso de 14. Procad Programa Ensino Nota 10, da Pontifícia Universida- escolas, em tais experiências, a partir de sua autoavaliação, utili- de Católica do Paraná, para capacitação de profissionais da educa- zando como instrumento as orientações do Prêmio Nacional de Série Cadernos de Gestão ção de municípios paranaenses, levado a efeito em mais de cem Referência em Gestão Escolar, coordenado pelo Consed em par- municípios no período de 1992 a 2002. ceria com Unesco, Undime e Fundação Roberto Marinho.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA enciar a determinação do sentido do ensino que seus constitui, segundo Demo (2001), em uma forma de filhos irão receber. desequilíbrio da participação institucional, marcada Essa participação dos pais na vida da escola tem por participações caracterizadas pela falta de orienta- sido observada, em pesquisas internacionais, como um ção para resultados institucionais e sociais, assim co- dos indicadores mais significativos na determinação mo pelo corporativismo e individualismo travestidos da qualidade do ensino, isto é, aprendem mais os alu- de "consciência crítica e social". Conforme indicado nos cujos pais participam mais da vida da escola. por Cunha (1995: 59), nos regimes democráticos pou- maduros decide-se participativamente muitas ques- 3.3. Limitações gerais da participação e tões apenas para diluir responsabilidades, gerando condições para sua superação uma situação "de desresponsabilização generalizada Observa-se que, quanto mais formalizados são os onde a ninguém se pode imputar papéis e funções de pessoas na organização, quanto É claramente evidente que, embora a literatura mais rigidamente os mesmos forem definidos, isto é, educacional e até mesmo a empresarial estejam pre- quanto maior a sua burocratização, menor é nível conizando desenvolvimento de espaço de partici- de participação e envolvimento efetivo de seus mem- pação no interior das organizações, essa participação bros com relação à organização do trabalho como um tem sido extremamente limitada em seu contexto. todo. Essa situação está também relacionada com Justificar-se-ia tal condição também pela natureza tamanho da escola, uma vez que, quanto maior é a autoritária e centralizadora de nossa cultura, associ- instituição, maior é a formalização das relações entre ada a uma fraca consciência de cidadania, conforme seus profissionais, maior a segmentação de seu traba- indicado por Ênio Resende (1992), características 86 lho, maior a impessoalidade e distanciamento entre que exercem uma forte resistência à introdução de 87 eles, e, portanto, menor seu nível de participação na ações participativas democráticas, apesar de as ideias determinação dos destinos da escola como um todo e correspondentes a esse processo serem facilmente Série Cadernos de Gestão maior nível de alienação. aceitas e cultivadas como um valor. que ocorre Por outro lado, no entanto, é possível identificar mais comumente é 0 entendimento de que a vivên- oposto dessa situação, mediante exagero da di- cia democrática se dê mediante 0 voto, ou a emissão mensão participativa que ocorre em detrimento de de opinião a respeito de aspectos relacionados a Série Cadernos de Gestão seus resultados. Trata-se do "democratismo" que se uma decisão a ser tomada que, apesar de importan-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA te, constitui-se em forma incompleta e limitada de nificativos na formação dos alunos. Sem uma orien- expressão democrática. tação participativa compartilhada desde a fase de Essa condição, por si só, revela a importância de elaboração, capaz de construir a clareza do ideário e a escola rever sua atuação como agência de forma- das necessárias ações educacionais, O projeto peda- ção, conforme se propõe na promoção do desenvol- gógico se transforma em um simples documento for- vimento de consciência social de seus alunos, 0 que, mal, deixando de ser O que deveria: um verdadeiro no entanto, somente pode fazer mediante cultivo das mapa de viagem a ser continuamente consultado para características que se propõe formar. se chegar aonde se pretende. Em todas as escolas Aquela prática evidencia-se, todavia, como uma em que 0 projeto pedagógico não está na mesa de distorção do sentido pleno de democracia e como trabalho do diretor, do supervisor pedagógico e dos uma imitação de participação, conforme indicado an- professores, para ser continuamente consultado na teriormente, quando a mesma vem associada a uma orientação efetiva de seu trabalho, aquela condição atitude de omissão, por parte das pessoas, quanto à de formalidade é a vigente. Por outro lado, tem-se responsabilidade de transformar decisão em ação, identificado como escolas eficazes aquelas em que assim como de entender que votar em alguém (para projeto pedagógico é um instrumento vivo de orien- diretor de escola, por exemplo) representa votar não tação do trabalho cotidiano, continuamente refleti- na pessoa em si, mas no conjunto de ideias e propos- do e enriquecido. tas que a pessoa indica possuir e manter para a me- lhoria do projeto comum. Também por entender 3.4. Promoção de ambiente participativo que mediante esse voto, portanto, votados e votan- A criação de um ambiente e de uma cultura parti- tes estabelecem um compromisso, pelo voto rece- cipativos constituem-se, em consequência das ques- 88 bido e dado, de trabalhar pelas ideias articuladas no 89 tões analisadas, em importante foco de atenção e ob- processo de campanha. jeto de liderança pelo gestor escolar, pelo qual, gra- Série Cadernos de Gestão De importante destaque à participação na escola dualmente, tem-se promovido mudanças significati- é a elaboração do projeto pedagógico, que se consti- vas na organização e orientação de nossas escolas. tui em uma abordagem sistêmica de orientação e co- Essa promoção, de forma que a participação seja ordenação do processo educacional, mediante ação efetiva, tem recebido dos dirigentes escolares cui- conjunta, articulada, unitária e consistente da comu- Série Cadernos de Gestão dado, em seu estabelecimento de ensino, no sentido nidade escolar, dirigida à promoção de resultados sig-A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA do desenvolvimento de um ambiente estimulador des- Reconhece-se que a prática da participação efe- sa participação, a partir de certas atenções básicas. tiva gera um sentimento de compartilhamento que, Dentre elas, destacam-se: a criação de uma visão de por si só, estimula enfrentamento de dificuldades, conjunto associada a uma ação cooperativa; a pro- promove revigoramento de energias e cria um sen- moção de um clima de confiança e reciprocidade; a timento de envolvimento com a realidade e seus de- valorização da capacidade e aptidões dos participan- safios e, consequentemente, a descoberta do signi- tes; a associação e integração de esforços, quebra de ficado do caráter social do trabalho (MARQUES, arestas e eliminação de divisões; O estabelecimento 1987). Essa prática se constitui a partir do entendi- de demanda de trabalho centrado nas ideias e não mento, por parte dos membros da comunidade es- em indivíduos; desenvolvimento da prática da as- colar, dos objetivos educacionais da escola, dos de- sunção de responsabilidades em conjunto. Esses safios institucionais para realizá-los e da responsabi- aspectos são a seguir comentados. lidade de cada um em relação a esses aspectos, me- diante uma visão de conjunto que promove associa- 3.4.1. Criação de uma visão de conjunto ção e integração de esforços. associada a uma ação cooperativa Destaca-se que 0 trabalho de qualquer profissio- Como todos que fazem parte da escola influenciam nal da educação só ganha significado e valor na me- sua cultura ou interferem sobre seus resultados, di- dida em que esteja integrado com dos demais pro- reta ou indiretamente, positiva ou negativamente, de fissionais da escola em torno da realização dos obje- acordo com modo como nela agem, é fundamental tivos educacionais, cabendo aos gestores escolares, que desenvolvam consciência sobre como atuam no em seu trabalho de gestão sobre o processo pedagó- conjunto e como suas ações se relacionam, se inte- gico, dar unidade aos esforços pela interação de seg- 90 rinfluenciam e se interdependem. mentos e construção de uma ótica comum, a partir 91 É importante, portanto, promover na escola uma de valores e princípios educacionais sólidos e objeti- cultura de reflexão e de crítica e assimilação de Série Cadernos de Gestão vos bem entendidos. ideias, associadas à ação, pelo conjunto dos que fazem a realidade escolar por seu trabalho. Essa A contínua referência à filosofia e concepção da reflexão tem papel primordial de qualificar a educação, à missão da escola e sua visão de futuro participação e dar-lhe conotações de orientação constituem aspectos importantes na construção de Série Cadernos de Gestão para sua contínua melhoria e alargamento de sig- um ideário comum formador de uma visão de con- nificado social. junto, que se constitui na base da ação cooperativa.A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA 3.4.2. Promoção de um clima de confiança e tal mobilização e espírito, a escola progride e todos reciprocidade se realizam. A confiança e a reciprocidade entre os membros de uma equipe constituem condição essencial para 3.4.3. Valorização das capacidades e aptidões dos bom funcionamento de uma unidade social de tra- participantes balho, caracterizada a partir do desenvolvimento da O trabalho de uma equipe é tão potente quanto a ética entre companheiros de trabalho e do espíri- articulação das capacidades e aptidões de seus parti- to de credibilidade. Sem tais condições, O que se tem cipantes, isto é, da faculdade e poder de intervir com é um grupo de pessoas que atua desarticuladamen- competência sobre uma situação, de maneira inte- te, sem maximizar e integrar seus esforços. Portan- grada, transformando-a. Logo, desenvolvimento de to, sem serem efetivas na ação educacional. capacidades e aptidões para atuações específicas Verifica-se comumente que as pessoas trabalham constitui um foco importante do trabalho do diri- à vontade e se empenham com afinco quando sabem gente escolar. Porém, esse desenvolvimento se tor- que terão apoio nos momentos de dificuldades e na efetivamente útil quando realizado de forma con- que, caso falhem, a falta não será transformada em junta e como patrimônio da escola e não como prer- objeto de comentários negativos e recriminações. rogativa de certos indivíduos. Como esse comportamento reativo é, no entanto, Uma forma de promover tal desenvolvimento é comum em muitos ambientes de trabalho, provo- reconhecê-lo e valorizá-lo quando ocorre, de modo a cando desgastes muito grandes e enfraquecimento transformá-lo em referência positiva para todos, e tam- de resultados, é importante estar alerta a respeito e bém para reforçá-lo. Destaca-se, no entanto, que não 92 atuar de modo competente e proativo. se deve esperar que tais capacidades e aptidões des- 93 Quando os gestores escolares estão atentos a pontem naturalmente, como resultado da boa vonta- tais situações e atuam como formadores e mobiliza- de das pessoas. Aos gestores compete criar condições Série Cadernos de Gestão dores de equipe, no sentido de canalizar as energias estimulantes para O exercício de capacidades e apti- de todos para a expressão de comportamentos de dões necessárias ao bom desempenho profissional e discrição, apoio, respeito e confiabilidade, a escola maior e melhor aprendizagem pelos alunos. Em vista funciona mais efetivamente. Na medida em que se disso, no desenvolvimento dessas capacidades e ap- Série Cadernos de Gestão esteja atento a manifestações que possam perturbar tidões é importante a construção de conhecimentosA GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA HELOÍSA Lück pedagógicos e sua sistematização para constituir 0 conforme já indicado. Muitas vezes, trabalho isola- ideário teórico-metodológico da escola. do é tido como condição de liberdade e autonomia funcional, como é O caso do professor, que não raro 3.4.4. Quebra de arestas e eliminação de divisões julga ser critério de qualidade profissional a autono- Observa-se que a ocorrência de dificuldades de mia plena de sua atuação em sala de aula. No entan- comunicação e relacionamento interpessoal é gera- to, conceito de autonomia necessita ser melhor en- dora de tensões, conflitos e enfraquecedora da ener- tendido e caracterizado, de modo que se compreen- gia coletiva na construção de realizações conjuntas. da seu caráter relativo e a relação de interdependên- Embora essas situações sejam naturais em todo am- cia entre pessoas e suas responsabilidades profissio- biente de trabalho, não devem ser deixadas a si mes- nais, assim como entre diferentes áreas e instâncias mas, sobretudo no ambiente escolar. Estar atento à de atuação, como condição para diminuir idiossin- ocorrência de tais situações e à discordância exage- crasias que conduzem ao estabelecimento de arestas rada de ideias é fundamental para que não se trans- e enfraquecimento organizacional. formem em fatores de imobilização ou desvirtuamen- to de energia. É importante conversar sobre elas, es- 3.4.5. Estabelecimento de demanda de trabalho centrada em ideias e não em indivíduos clarecer seus significados, controlar suas manifesta- ções emocionais, como condição para a associação Ideias constituem concepções que norteiam o com- de esforços conjuntos¹⁶. portamento e as ações de pessoas. São elas que pro- No entanto, é fácil observar que grande parte do movem a mobilização das pessoas para as ações e trabalho escolar é realizado de modo dissociado. A dão unidade e continuidade ao seu trabalho. Portan- 94 fragmentação do trabalho e a dissociação de ações to, estabelecem uma orientação conjunta, integram constituem, todavia, uma realidade reconhecida co- as pessoas e motivam a construção do espírito coleti- 95 vo, de modo a constituir uma equipe empreendedo- mo insatisfatória pelos próprios educadores, porém, ra. É fundamental, porém, que em sua expressão se- Série Cadernos de Gestão e ao mesmo tempo, mantida por eles mesmos como jam valorizadas e evidenciadas como resultado de forma de garantir espaços e direitos conquistados, um processo de grupo e não como prerrogativa ou mérito de indivíduos. É importante observar que quando se eviden- Série Cadernos de Gestão 16. O volume VI desta série Cadernos de Gestão enfocará a ques- tão da comunicação no ambiente escolar. ciam e enaltecem indivíduos, em vez de ideias,A GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA Lück que acontece comumente é 0 enfraquecimento das vel (CARVALHO, 1979). A gestão está centrada na ideias e fortalecimento de expressões de competi- mobilização da energia de equipe para a realização das ção e luta pelo poder. Portanto, caso os indivíduos responsabilidades da escola, que são responsabilida- que as expressam sejam evidenciados, no lugar das des de todos, em conjunto diferentemente da lógi- ideias em si, destrói-se, indiretamente, 0 espírito de ca de administração que se centra na divisão de tare- grupo. Esse resultado é comumente identificado em fas e funções, fragmentadora da ação educacional. reuniões em que se tomam decisões para a adoção A fim de que a gestão escolar seja desenvolvida de uma determinada linha de ação, em que, quando de acordo com os princípios e ações participativos, da definição de responsáveis pela sua implementa- torna-se necessário que os gestores escolares, em sua ção, cria-se um impasse recaindo, de forma inade- atuação, adotem ações voltadas para a difusão contí- quada, em quem deu a ideia, a responsabilidade por nua de informações, para a adequação entre a gera- essa implementação. Aos gestores escolares, ao li- ção e a disseminação de informações, com as linhas derar reuniões com esse fim, cabe, portanto, estar de ação pedagógica da escola e de desenvolvimento cultural e profissional de professores voltadas para a atentos às possibilidades de canalizar para grupo participação na gestão escolar. Tais ações são a se- as ideias e energias individuais. guir destacadas: a) Difusão contínua de informações claras e pre- 3.4.6. Desenvolvimento da prática da assunção cisas a respeito das questões fundamentais da vida de responsabilidades em conjunto escolar. Somente pela realização de atividade coletiva, me- Na falta de informações, que se observa como diante espírito de equipe, emana toda a energia cria- consequência é desenvolvimento de ondas de boa- dora dos elementos componentes de um grupo so- tos, que, ao surgirem e se desenvolverem, parecem 96 cial. A esse respeito, cabe destacar que conjunto é servir para suprir essa falta. Conjecturas e hipóteses 97 muito mais do que a soma das partes, conforme pro- gerados passam a ter 0 sentido de veracidade e criam Série Cadernos de Gestão posto por Kurt Lewin (in GAHAGAN, 1980). Portan- situações muitas vezes problemáticas. É importante to, é mediante desenvolvimento, pelos profissionais reconhecer que, quando não se tem informação, há da escola, da visão de conjunto e respectiva prática da necessidade de criá-las. capacidade de participar no processo de coordenação da unidade social escolar que se justifica e se qualifi- b) Estabelecimento de adequação entre a gera- Série Cadernos de Gestão ca a possibilidade de alcançar autodireção responsá- ção e a disseminação de informações no contexto

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