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FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 1 MÓDULO 1 APONTAMENTOS EXEGÉTICOS EM LUCAS 4.38-39 Leonardo Silveira1 Introdução O Evangelho de Lucas dá uma ênfase maior no papel profético de Jesus como porta-voz de Deus que é rejeitado pelo seu próprio povo. Essa ênfase pode ser vista não apenas no relato inaugural do ministério de Jesus, o sermão em Nazaré (Lc 4.16-30), mas também em várias outras histórias que ocorrem em Lucas, e em nenhum dos outros Evangelhos. Quando Jesus começa seu ministério público, ele explicitamente afirma ser ungido como um profeta que vai proclamar a mensagem de Deus para o seu povo. Como consequência, Jesus não só prega como profeta, ele também faz milagres como profeta. A cura da sogra de Simão (Pedro) é um dos relatos mais conhecidos dos Evangelhos Sinóticos, e está presente no Evangelho de Mateus (Mt 8.14-15), no de Marcos (Mc 1.29-31) e no de Lucas (Lc 4.38-39). Este último será objeto de investigação deste módulo, onde vamos nos dedicar ao estudo exegético de Lc 4.38-39 destacando os principais passos para sua interpretação. Esses passos são: a tradução do texto; a delimitação da perícope; principais palavras, verbos e expressões (neste ponto também ressaltamos o gênero e estrutura) e; aplicação do texto. 1. Tradução e segmentação de Lc 4.38-39 Na tradução realizamos antes a segmentação do texto, que consiste em dividir os versículos em linhas, onde cada nova linha só se inicia depois de cada frase completa, mas também depois de cada frase secundária. A regra aqui é que cada frase, principal ou secundária que seja, tenha um só verbo conjugado (explícito ou implícito). 1 Doutor e Mestre em Teologia (Teologia Bíblica) pela PUC-Rio. Currículo Lattes: . FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 2 Texto Grego Seg. Tradução Literal Ἀναστὰς δὲ ἀπὸ τῆς συναγωγῆς 38a E levantando-se da sinagoga, εἰσῆλθεν εἰς τὴν οἰκίαν Σίμωνος. 38b entrou na casa de Simão. πενθερὰ δὲ τοῦ Σίμωνος ἦν συνεχομένη πυρετῷ μεγάλῳ 38c E a sogra de Simão estava atormentada com febre grande καὶ ἠρώτησαν αὐτὸν περὶ αὐτῆς. 38d e pediram a ele acerca dela. καὶ ἐπιστὰς ἐπάνω αὐτῆς 39a E inclinando-se sobre ela ἐπετίμησεν τῷ πυρετῷ 39b repreendeu a febre καὶ ἀφῆκεν αὐτήν· 39c e deixou a ela; παραχρῆμα δὲ ἀναστᾶσα 39d e imediatamente levantando-se διηκόνει αὐτοῖς. 39e servia a eles. Tabela 1 – Tradução e segmentação de Lc 4.38-39. 2. Delimitação O texto de Lc 4.38 e 39 está dentro do segundo grande bloco do Evangelho de Lucas, denominado comumente de “Jesus na Galileia” (Lc 4.14–9.50). Depois de Jesus iniciar seu ministério, quando lê e aplica a si mesmo o texto de Isaías a sua atividade (Lc 4.16-30), começam os relatos de pregações e curas em Cafarnaum (Lc 4.31-44). Tendo apresentado a obra de Jesus em Nazaré em termos de libertação de poderes opressores, Lucas agora aborda algumas curas e exorcismos. Eles demonstram a presença do reino de Deus em Jesus. Sendo assim, Lc 4.33-37 é a perícope anterior ao texto que escolhemos, que traz a cura de um endemoninhado. Na sinagoga de Cafarnaum, suas ordens são com autoridade e isso é comprovado por seu poder sobre um espírito imundo. No confronto, o demônio (ou demônios, pois o v.34 tem o plural) usa o nome de Jesus e menciona sua condição em um esforço real para desmascará-lo e, assim, restringir seu poder. Mas a autoridade de Jesus – a do “Santo de Deus” – o subjuga. Somente Lucas acrescenta que o homem é liberto “sem lhe fazer mal algum”, pois o poder libertador de Deus é realmente redentor. As testemunhas reconhecem a maravilha e perguntam: “Que palavra é esta?”. A expressão ὁ λόγος (a palavra) é um termo favorito que Lucas usa (como nos vs. 32 e 36) para apontar para o poder eficaz do evangelho. FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 3 Já em Lc 4.38-39 temos uma nova perícope que começa com a indicação de uma mudança de lugar com a expressão “E levantando-se da sinagoga”, pois agora Jesus está na “casa de Simão”. A interação de Jesus não é mais com um homem possuído com o espírito imundo, que já saiu de cena, mas agora com novos personagens, a sogra de Simão, o próprio Simão e as pessoas que estavam na casa. Com isso, o assunto agora é a cura dela. O trecho final do v. 39 “e imediatamente levantando-se servia a eles” indica o término do relato, com o mesmo chegando ao seu repouso natural. Ao amanhecer, Jesus deixa aquele lugar para seguir seu caminho. Temos uma mudança temporal com a expressão “ao pôr-do-sol” em Lc 4.40. Na verdade, Lc 4.40-41 é uma espécie de sumário, que resume e conclui a descrição de um dia típico de Jesus em Cafarnaum. Multidões tentam impedi-lo, mas Jesus resiste. Seus exorcismos devem ser inseridos em um contexto mais amplo, o de proclamar e, portanto, possibilitar o Reino de Deus (Lc 4.43). A atividade libertadora de Jesus, revelada por esta obra preliminar, deve ser vista à luz de seu ensinamento sobre a natureza do Deus que realiza isso e de seu relacionamento com a humanidade. Só então revela a vida do Reino. Jesus deve prosseguir e proclamar o Reino, mesmo que, por vivê-lo ele mesmo, isso o leve à cruz. Foi por essa razão que ele foi enviado. Assim, diz Lucas, “ele continuou a proclamar a mensagem nas sinagogas da Judeia” (Lc 4.44). Assim, a cura da sogra de Simão em Lc 4.38-39 está dentro do ministério geral de cura e expulsão de demônios e pode ser lida como uma unidade autônoma. Lucas enfatiza, no bloco onde o texto está inserido, mais uma vez que os demônios reconhecem sua filiação divina e reconhecem seu poder. Jesus, no entanto, não os permitiu falar “porque sabiam que ele era o Cristo” (Lc 4.41). Isso representa mais do que um exercício de poder; proíbe-os de dar uma falsa impressão dele. O que o torna “Cristo” para as pessoas será a aceitação de seu caminho da cruz. Sem essa aceitação, qualquer atribuição de messianismo seria inútil. 3. Principais palavras, verbos e expressões. O texto é claramente um relato de milagre, pois apresenta as características formais desse tipo de gênero menor, são elas: Na introdução é narrada a chegada do taumaturgo (Lc 4.38ab). FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 4 Na exposição temos a caracterização da necessidade (Lc 4.38c), bem como a menção de representantes da adoecida (Lc 4.38d). No centro temos a apresentação da ação milagrosa que, neste caso, efetua-se através da palavra (Lc 4.39ab) e a constatação do milagre (Lc 4.39cde)2. Nas tabelas abaixo temos as classes gramaticas de Lc 4.38-39, que possui um total de 38 palavras. v. Conjunção Verbos Substantivos Adjetivos Pronome 38 δέ (2x, e), καί (e). Ἀναστάς (levantando-se), εἰσῆλθεν (entrou), ἦν (estava), συνεχομένη (atormentada), ἠρώτησαν (pediram). συναγωγῆς (sinagoga), οἰκίαν (casa), Σίμωνος (2x, de Simão), πενθερά (sogra), πυρετῷ (com febre). μεγάλῳ (grande) αὐτόν (a ele), αὐτῆς (dela). 39 καί (2x, e), δέ (e). ἐπιστάς (inclinando-se), ἐπετίμησεν (repreendeu), ἀφῆκεν (deixou), ἀναστᾶσα (levantando-se), διηκόνει (servia). πυρετῷ (a febre). ------------------- αὐτῆς (ela), αὐτήν (a ela), αὐτοῖς (a eles). 6 conjunções 10 verbos 7 substantivos 1 adjetivo 5 pronomes Tabela 2 – Conjunção, verbos, substantivos, adjetivos e pronomes de Lucas 4.38-39. v. Preposições Interjeições Advérbios Artigos 38 ἀπό (de), εἰς (em), περί (acerca de). ----------------------- ---------------------- τῆς (a), τήν (a), τοῦ (-). 39 ἐπάνω (sobre). ----------------------- παραχρῆμα (imediatamente)τῷ (a). 4 preposições 0 interjeição. 1 advérbio 4 artigos 2 WEGNER, U. Exegese do Novo Testamento. p. 234. FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 5 Tabela 3 – Preposições, partículas, advérbios e artigos de Lucas 4.38-39. Observando as tabelas acima, há algumas expressões que se destacam no texto e termos característicos de Lucas. Temos duas vezes o verbo ἀνίστημι (levantou). Duas vezes o nome de Σίμωνος (Simão). Duas vezes a palavra πυρετός (febre). Há pelo menos dois termos característicos de Lucas, o uso do verbo ἐπιτιμάω (repreendeu) e do o advérbio παραχρῆμα (imediatamente). A tradução – “E levantando-se da sinagoga” (Lc 4.38a) – revela uma das construções características de Lucas: o uso do particípio ἀναστάς com a preposição ἀπό, que também pode ser vista em Lc 22.45. Mas, neste caso, a construção é elíptica, visto que um verbo indicativo subsequente seria esperado, por exemplo, ἐξελθόντες (saindo). A formulação sincopada pode ser devida à presença do verbo imediato εἰσῆλθεν (entrou). O verbo ἀνίστημι (Lc 4.38a,39d) pode ter vários sentidos, dentre eles, está o de, na voz ativa: levantar, fazer levantar; fazer subir, apresentar; despertar, reavivar, levantar para a ação; restabelecer; ressuscitar; erigir, colocar de pé; fazer sair, fazer emigrar, afastar; pôr-se em pé, levantar-se; retirar-se e recobrar-se de. Já na voz média o de fazer aparecer e erguer3. Já em Lc 4.38b temos pela primeira vez que o nome Σίμωνος (Simão) no Evangelho. O texto nos traz a informação de que ele possui uma casa em Cafarnaum. A formulação da frase: “na casa de Simão” sugere naturalmente que Simão é o proprietário. O nome grego Simão era geralmente usado como abreviação de Simeão, que traduz a forma hebraica Simeão. Em At 15.14, a forma grega Συμεών é usada para se referir a Simão Pedro. No decorrer da narrativa de Lucas, especificamente em Lc 6.14, há referência explícita à mudança de nome: Σίμωνα ὃν καὶ ὠνόμασεν Πέτρον (Simão, o qual também chamou de Pedro)4. Na obra de Lucas, o nome Pedro assume uma ampla variedade de variantes. Por exemplo, o apóstolo principal aparece como Σίμωνος (Simão) em Lc 5.3,4,5,10; 22.31; 24.34; simplesmente como Πέτρος (Pedro) em Lc 8.45,51; 9.20,28,32,33; 12.41; 18.28; 22.34,54,58,60,61, e é a forma mais frequente no Livro de Atos (At 1–15), um total de 56 vezes; o nome composto Σίμων Πέτρος (Simão Pedro) aparece apenas em Lc 5.8, mas a forma “Simão, chamado Pedro”, como vimos acima, além de Lc 6.14, aparece também em At 10.5,18,32; 11.13. Lucas nunca usa o nome aramaico Cefas5. 3 MALHADAS, D; DEZZOTI; M. C. C.; NEVES, M. H. M. Dicionário Grego-Português. p. 79. 4 FITZMYER, J. A. El Evangelio según Lucas II. p. 464. 5 FITZMYER, J. A. El Evangelio según Lucas II. p. 464. FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 6 Tem-se então a menção da situação da πενθερὰ τοῦ Σίμωνος (sogra de Simão) em Lc 4.38c. O verbo συνέχομαι é usado por Lucas em outras ocasiões (6x em Atos, 3x em Mt., 4:24; nenhuma em Mc.) e é o termo correto a ser usado para “ser afligido” por doença (Mt. 4.24; Atos 28.8) e enfatiza a gravidade do caso6. Com relação ao uso da palavra πυρετῷ (febre), enquanto o relato de Marcos (Mc 1.30) se limita a descrever a condição da sogra de Simão como κατέκειτο πυρέσσουσα (estava deitada febril), Lucas intensifica a descrição: ἦν συνεχομένη πυρετῷ μεγάλῳ (estava atormentada com febre grande). A expressão também reflete o estilo elegante de Lucas, mas também destaca a gravidade do caso. Poderia também traduzir como “tomada [ou possuída] pela febre”. Lucas provavelmente descreve essa febre como μέγας (grande) para fazer seus leitores compreenderem que curá-la requer uma ação poderosa por parte de Jesus7. Em Lc 4.38d temos o uso de ἐρωτάω revela o pedido implícito de cura e sugere que os que estavam na casa já tinham fé no que Jesus poderia fazer como resultado do incidente anterior8. Importante mencionar que até o momento no Evangelho de Lucas, Jesus está desenvolvendo seu ministério sozinho, no poder do Espírito, o que aponta que os que pediram ou intercederam estavam dentro da casa. Em Lc 4.39, o autor sente a necessidade de indicar a atitude de Jesus quando ele empreende o exorcismo: καὶ ἐπιστὰς ἐπάνω αὐτῆς (e inclinando-se sobre ela). Isso aponta que Jesus está de pé sobre ela, visto que, provavelmente, ela está deitada em um leito no chão. Temos o uso do verbo ἐφίστημι que, dentre os sentidos temos os de: (i) ficar em ou perto de um lugar específico, ficar em/perto de, de entidades vivas e frequentemente com conotação de rapidez; (ii) estar presente em prontidão para executar uma tarefa, fixar a mente em, estar atento a, ficar de prontidão e; (iii) estar diante de alguém como um evento prestes a ocorrer, ser iminente9. Portanto, não há um toque de Jesus, pois a ênfase está na palavra. É possível entender essa expressão de duas maneiras que não excluem uma a outra. Em primeiro lugar, Jesus está na posição dominadora e, portanto, de força: está por cima da sogra de Simão possuída pela febre. Em segundo lugar e, sobretudo, estar por cima dela se traduz em uma 6 MARSHALL, I. H. The Gospel in the Luke. p. 327. 7 MARSHALL, I. H. The Gospel in the Luke. p. 327. 8 MARSHALL, I. H. The Gospel in the Luke. p. 327. 9 BAUER, W. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. p. 369. FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 7 característica de Jesus que Lucas destaca de maneira insistente em toda a sua obra para mostrar a benevolência e como Jesus encarna a bondade e a misericórdia de Deus (como Lc 15)10. A outra vez que a palavra febre aparece se encontra em Lc 4.39b ἐπετίμησεν τῷ πυρετῷ (repreendeu a febre). O verbo ἐπιτιμάω (repreendo) tem pelo menos dois significados inler- relacionados: (i) repreender, exprimindo forte desaprovação pelo agir de alguém e; (ii) ordenar, com implicação de ameaça. O verbo ἐπιτιμάω (repreendo, ameaço) é utilizado em 16 ocasiões nos Evangelhos Sinóticos em que Jesus é o sujeito. Ele se dirige aos demônios (Mt 17.18; Mc 1.25), à febre (Lc 4.39), ao vento (Mc 4.39), aos seus discípulos (Mc 8.33; Lc 9.21) e a quem acaba de receber um milagre (Mt 12.16; Mc 3.12). Com essas referências constatamos que é um verbo muito importante, em geral usado para descrever exorcismos, aplicado aos demônios e às forças adversas. Logo, com a mesma indignação com que Jesus repreende/ameaça o demônio (Mt 17.18; Mc 1.25; 9.25; Lc 4.35,41; Lc 9.42), repreende/ameaça também o vento (Mc 4.35) e Pedro (Mc 8.30,33) – e por este é repreendido (Mt 16.22; Mc 8.32)11. Temos então, no caso específico de Lucas, Jesus repreende: (i) os demônios (Lc 4.35,41; 9.42); (ii) a febre (Lc 4.39); (iii) o vento e as ondas (Lc 8.24); (iv) os discípulos (Lc 9.21,55). Isso demonstra sua autoridade e poder. Se Jesus repreende à febre é porque está empreendendo um exorcismo contra ela. Por isso, não é necessário nenhum gesto. Basta sua palavra, que tem um efeito imediato: καὶ ἀφῆκεν αὐτήν (e deixou a ela) (Lc 4.39c). Jesus não ataca a mulher, mas sim a força demoníaca que a possui. Disso tudo, concluímos que o verbo ἐπιτιμάω (repreendo, ameaço) exprime uma tomada de posição: esse repreender/ameaçar não é uma atitude neutra, mas a consequência de uma opção. Em outras palavras, a autoridade e o poder de Deus vêm em socorro do fiel, a onipotente Palavra de Deus, capaz de criar ou destruir, está à disposição de seus frágeis e limitados amigos12. Com uma curta frase um Lc 4.39c καὶ ἀφῆκεν αὐτήν (e deixou a ela) o evangelista nos informação sobre a ação milagrosade Jesus, que é completada pela frase seguinte, em Lc 4.39d: παραχρῆμα δὲ ἀναστᾶσα (e imediatamente levantando-se). O efeito da ordem é instantâneo e completo, pois Lucas inseriu παραχρῆμα (imediatamente), que ele frequentemente usa para 10 BAUDOZ, J.-P. Lectura Sinóptica de los Evangelios. p. 13. 11 SILVA, C. M. D. Metodologia de Exegese Bíblica. p. 130. 12 SILVA, C. M. D. Metodologia de Exegese Bíblica. p. 132. FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 8 substituir εὐθύς de Marcos (como em Mc 5.25 e 8.44, 55)13. Mais uma vez temos o uso do verbo ἀνίστημι que se refere agora a mulher e pode enfatizar a completude da cura. Por fim, temos a última frase do relato, em Lc 4.39e. O termo insiste na prontidão da sogra de Simão em servir. Logo, essa atitude tem um caráter exemplar. Lucas emprega o verbo servir (διακονέω, sirvo) no imperfeito (διηκόνει, servia). O significado do verbo é difícil de precisar; no sentido absoluto pode significar “servir a mesa” ou simplesmente “servir” de um modo genérico. No primeiro caso, a mulher agora pode ajudar nos preparativos da refeição. Sua ajuda também pode ser considerada um sinal de gratidão por sua cura. Já no segundo caso, διακονέω (sirvo) pretende indicar que esta é a forma apropriada de serviço cristão para mulheres, já que o mesmo verbo é empregado em Lucas para falar do serviço de homens, que se tornaram discípulos. De qualquer forma, o verbo servir sublinha o caráter prodigioso do acontecimento por causa da ligação com o advérbio da frase anterior14. 4. Aplicação. A perícope de Lc 4.38 e 39 é um texto extremamente curto, mas repleto de lições que dialogam com outras partes do Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos. Temos o cuidado de Jesus com uma única pessoa, o tema da libertação e, por conseguinte, da autoridade de Jesus e, ainda, o tema do serviço. Conforme a sequência de relatos do início do ministério de Jesus na Galileia, em um dia típico, Jesus entra na casa de um desconhecido chamado Simão (em Lucas vimos que é a primeira vez que Simão aparece em cena) que depois em Lc 5 se tornará um dos discípulos. O texto enfatiza que Jesus não só anda no meio da multidão curando e praticando exorcismos, mas também faz isso com apenas uma pessoa, que no caso do texto é a sogra de Simão. Muitas vezes na caminhada cristã nos preocupamos em alcançar muitos com gestos de misericórdia e nos esquecemos que em uma casa alguém precisa de uma palavra de autoridade. O Jesus dos Evangelhos dosava bem o contato com a multidão e o contato com pessoas que realmente necessitavam de auxílio. A perícope também ressalta a autoridade e a libertação que Jesus produz. Para Lucas, Jesus é aquele “a quem Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder. Ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo [poder do] diabo, porque Deus estava com ele” (At 10.38). Nesse 13 MARSHALL, I. H. The Gospel in the Luke. p. 327. 14 EDWARDS, J. R. The Gospel according to Luke. p. 306. FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 9 versículo, devemos destacar o contraste entre o poder (δύναμις) de Jesus voltado para o bem, e o do diabo, que escraviza. Desde o começo do Evangelho, Jesus veio com o “poder do Espírito” (Lc 4.14). Podemos considerar a cura da sogra de Simão como uma ilustração dessa passagem de Atos. O texto nos conclama a fazermos o mesmo, por onde que que venhamos a andar, façamos o bem, debaixo da direção do Espírito Santo. Por sim, o trecho final, quando diz que a mulher διηκόνει αὐτοῖς (servia a eles) em Lc 4.39e, destaca uma consequência da cura: o serviço. Como agradecimento pela reabilitação adquirida, a pessoa curada se colocava à disposição de quem a havia curado. O serviço caminha junto com o compromisso de propagar o nome daquele que agiu poderosamente em nosso favor. Considerações Finais Para Lucas, o fato de o sujeito da cura ser uma mulher era certamente significativo; temos aqui um excelente exemplo de como suas fontes lhe forneceram o material necessário para alcançar sua própria ênfase teológica deliberada, sem qualquer manipulação ou mesmo criação de material novo. Assim, a preocupação de Jesus tanto por homens quanto por mulheres, por endemoninhados e doentes, é evidenciada nestas narrativas (Lc 4.33-37, Lc 4.38-39 e Lc 4.40,41). No máximo, Lucas sublinhou o paralelismo entre as narrativas pelo uso comum de ἐπιτιμάω (repreendo). Assim, no primeiro módulo de nossa disciplina, estudamos a perícope de Lc 4.38-39 que pode ser denominada de “a cura da sogra de Simão”. Nela aplicamos os principais passos para a exegese do texto. É importante salientar que esses passos devem caminhar diretamente com o conhecimento da história e da teologia do Evangelho de Lucas, pois quanto mais conhecermos essas informações mais enxergaremos elementos na perícope que conversam com o restante do escrito. Referências BAUDOZ, J.-P. Lectura Sinóptica de los Evangelios. Estella, Navarra: Editorial Verbo Divino, 2000. BAUER, W. et. al. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. Chicago and London: The University of Chicago Press, 2021. EDWARDS, J. R. The Gospel according to Luke. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 2015. FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM EXEGESE DO AT E DO NT DISCIPLINA: EXEGESE DOS EVANGELHOS PÁGINA 10 FITZMYER, J. A. El Evangelio según Lucas II. Traduccion y Comentarios, Capitulos 1-8,21. Madrid: Edicionoes Cristandad, 1987. MARSHALL, I. H. The Gospel in the Luke. A Commentary on the Greek Text. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978. SILVA, C. M. D. Metodologia de Exegese Bíblica. São Paulo: Paulinas, 2000. WEGNER, U. Exegese do Novo Testamento. Manual de Metodologia. 8. ed. Revista e Ampliada. São Paulo: Sinodal, 2015.