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Agentes Antimicrobianos em Pequenos Animais Parte 1: Fundamentos dos Antimicrobianos Definições, parâmetros farmacodinâmicos, resistência e uso racional. Considerações Gerais: O Que São Antimicrobianos? Definição Substâncias naturais, semissintéticas ou sintéticas que inibem ou destroem microrganismos. Espectro: estreito (gram+) vs. amplo (gram+ e gram−) Bactericidas Matam a bactéria Ex.: betalactâmicos, aminoglicosídeos Bacteriostáticos Inibem o crescimento Ex.: tetraciclinas, macrolídeos Critérios para Escolha do Antimicrobiano 1 Identificação do agente etiológico Cultura e antibiograma são o padrão-ouro para guiar a terapia. 2 Terapia empírica Baseada em epidemiologia local quando cultura não é viável no momento. 3 Farmacocinética Distribuição no tecido-alvo, metabolismo e via de excreção do fármaco. 4 Condição do paciente Função renal/hepática, espécie, idade e estado gestacional devem ser considerados. Parâmetros Farmacodinâmicos Essenciais Por que isso importa clinicamente? Compreender se um fármaco é tempo-dependente ou concentração-dependente define o intervalo entre doses ideal: Betalactâmicos: administrar em intervalos frequentes para manter T > CIM (Tempo acima da Concentração Inibitória Mínima) Aminoglicosídeos: dose única diária maximiza o pico e reduz toxicidade EPA: fluoroquinolonas apresentam efeito pós-antibiótico prolongado Resistência Bacteriana aos Antimicrobianos Intrínseca Característica natural da espécie bacteriana, independente de exposição prévia ao fármaco. Adquirida Por mutação cromossômica ou transferência horizontal de genes via plasmídeos entre bactérias. Mecanismos Produção de enzimas inativadoras (β-lactamases), alteração do alvo, efluxo ativo e redução da permeabilidade da membrana. Principais agentes em cães e gatos E. coli (44,9% das cistites), Staphylococcus spp. e Pseudomonas aeruginosa lideram os perfis de multirresistência. Uso Racional: Como Evitar a Resistência Princípios fundamentais Não tratar infecções virais ou fúngicas com antibióticos Respeitar dose, intervalo e duração do tratamento — subdosagem e tratamento incompleto são causas diretas de resistência Solicitar antibiograma sempre que possível Evitar uso profilático indiscriminado Uma Só Saúde (One Health): a resistência gerada em animais de companhia impacta diretamente a saúde humana e o ambiente. Antissépticos e Desinfetantes: Diferenças Fundamentais Antissépticos Uso em tecidos vivos (pele, mucosas). Exemplos: clorexidina e iodopovidona. Amplo espectro e ação residual — muito usada em dermatologia de cães e gatos. Desinfetantes Uso em superfícies inanimadas. Exemplos: hipoclorito de sódio e glutaraldeído. Concentrações incompatíveis com tecidos vivos. Resistência Cruzada Preocupação crescente: exposição repetida a antissépticos pode selecionar bactérias com resistência cruzada a antibióticos de uso clínico. Parte 2: Inibidores da Síntese de Ácidos Nucleicos e da Parede Celular Sulfonamidas, fluoroquinolonas, betalactâmicos, glicopeptídios e polimixinas. Sulfonamidas e Trimetoprim Sem folato Trimetoprim Sulfonamidas A associação TMP-SMZ (Trimetoprima-Sulfametoxazol) produz sinergismo por ação sequencial na mesma via metabólica. Espectro e uso clínico Gram+, gram−, Toxoplasma gondii, Pneumocystis. Efeitos adversos Cães: ceratoconjuntivite seca (KCS), hepatotoxicidade, discrasias sanguíneas Gatos: maior sensibilidade — risco de anemia hemolítica; usar com cautela e monitorar hemograma Fluoroquinolonas: Inibidores da Síntese de DNA Mecanismo Inibem DNA girase (topoisomerase II) e topoisomerase IV → impede replicação e transcrição → morte bacteriana Fármacos veterinários Enrofloxacino, marbofloxacino, orbifloxacino — aprovados para uso em cães e gatos Espectro Amplo: gram−, gram+, Mycoplasma, Brucella — concentração-dependentes ⚠ Efeitos adversos Artropatia em filhotes (evitar em animais jovens); retinotoxicidade em gatos com enrofloxacino em doses altas Betalactâmicos: Mecanismo de Ação Como funcionam? Ligam-se às PBPs (Proteínas Ligadoras de Penicilina) → inibem a transpeptidação → impedem a síntese do peptidoglicano da parede celular → lise osmótica bacteriana. Grupos principais Penicilinas Cefalosporinas (1ª a 4ª geração) Carbapenêmicos Monobactâmicos O anel β-lactâmico é o sítio de clivagem das β-lactamases bacterianas — principal mecanismo de resistência a este grupo. Penicilinas em Cães e Gatos Amoxicilina Amplo espectro, boa absorção oral. Dose: 11–22 mg/kg VO a cada 8–12h. Amoxicilina + Clavulanato Inibidor de β-lactamase amplia espectro. Indicado em piodermites, ITU, infecções respiratórias e periodontais. Dose: 12,5–25 mg/kg VO a cada 12h. Ampicilina Uso parenteral preferencial; menor biodisponibilidade oral. Indicada para uso hospitalar IV/IM. Efeitos Adversos Reações de hipersensibilidade (urticária, anafilaxia) e distúrbios gastrointestinais (vômito, diarreia). Cefalosporinas: Gerações e Usos Clínicos 1 1ª Geração Cefalexina, cefadroxila — gram+, piodermites, ITU. 22 mg/kg VO a cada 8–12h 2 2ª Geração Cefoxitina — gram+ e gram−, anaeróbios. Uso parenteral 3 3ª Geração Cefovecina (14 dias injeção única — ideal para gatos), cefpodoxima — gram− ampliado 4 4ª Geração Cefepima — reserva para infecções graves hospitalares com gram− multirresistentes Glicopeptídios, Fosfomicina e Polimixinas Antimicrobianos de Reserva Estes fármacos devem ser reservados para situações de resistência comprovada e ausência de alternativas terapêuticas. Vancomicina: uso criterioso em veterinária — risco de selecionar VRE (Enterococo Resistente à Vancomicina) Fosfomicina: opção interessante para ITU por E. coli ESBL Polimixinas: nefrotóxicas — monitorar função renal diariamente durante o tratamento Parte 3: Inibidores da Síntese Proteica Aminoglicosídeos, macrolídeos, lincosamidas, tetraciclinas, cloranfenicol e agentes emergentes. Aminoglicosídeos: Mecanismo e Espectro Mecanismo de ação Ligam-se irreversivelmente à subunidade 30S do ribossomo → leitura errônea do mRNA → síntese de proteínas aberrantes → morte celular. Fármacos Gentamicina Amicacina Tobramicina Neomicina (uso tópico) Espectro Gram− aeróbios; sinergismo com betalactâmicos contra gram+. Concentração-dependentes: dose única diária maximiza eficácia (pico alto) e reduz toxicidade cumulativa. Aminoglicosídeos: Toxicidade e Uso Clínico Nefrotoxicidade Acúmulo nas células tubulares proximais. Monitorar creatinina e ureia. Hidratação adequada é essencial. Ototoxicidade Dano coclear e vestibular — irreversível. Gatos são mais sensíveis. Evitar uso prolongado. Contraindicações Insuficiência renal, desidratação, uso concomitante de AINEs nefrotóxicos. Doses em Cães Gentamicina: 6–9 mg/kg IV/IM/SC a cada 24h Amicacina: 15–30 mg/kg a cada 24h Macrolídeos e Lincosamidas Mecanismo comum Ligam-se à subunidade 50S do ribossomo → bloqueiam a translocação do peptídeo → efeito bacteriostático. Azitromicina (macrolídeo) Boa penetração tecidual, meia-vida longa Indicada em infecções respiratórias e Toxoplasma em gatos Dose: 5–10 mg/kg VO a cada 24h Clindamicina (lincosamida) Excelente para gram+ e anaeróbios Indicada em piodermites profundas, osteomielite, toxoplasmose Dose: 5,5–11 mg/kg VO a cada 12h Tetraciclinas: Mecanismo e Classificação Mecanismo de ação Ligam-se à subunidade 30S → bloqueiam ligação do aminoacil-tRNA ao sítio A do ribossomo → efeito bacteriostático. Espectro amplo Gram+, gram− Rickettsia, Ehrlichia, Anaplasma Mycoplasma, Chlamydia Quelação com íons divalentes (Ca²⁺, Mg²⁺, Fe²⁺) reduz absorção oral — não administrar com leite ou antiácidos. Doxiciclina: O Principal Representante em Pequenos Animais Vantagens Alta biodisponibilidade oral, boa penetração tecidual, excreção fecal — segura em nefropatas Indicações em Cães Erliquiose, anaplasmose, leptospirose, brucelose, infecções respiratóriaspor Mycoplasma Indicações em Gatos Hemoplasmose (M. haemofelis), clamidiose, Bartonella spp. ⚠ Esofagite em Gatos Dose: 5–10 mg/kg VO a cada 12–24h. Sempre administrar com alimento ou seringa d'água — esofagite é complicação séria Cloranfenicol e Tianfenicol Mecanismo e Espectro Ligam-se à subunidade 50S → inibem peptidiltransferase → bacteriostáticos. Espectro amplo: anaeróbios, bactérias intracelulares. Excelente penetração na barreira hematoencefálica — indicado em meningite bacteriana. Indicações Meningite bacteriana Infecções por Rickettsia Salmonella Alternativa em filhotes para erliquiose (evitar tetraciclinas) ⚠ Efeitos Adversos — Uso Restrito Mielossupressão dose-dependente Reversível — monitorar hemograma Aplasia medular idiossincrática Irreversível e potencialmente fatal — rara mas grave Em gatos Anorexia, vômito e depressão são frequentes Reservar para casos sem alternativa terapêutica viável. Parte 4: Antifúngicos e Antivirais Mecanismos de ação, indicações clínicas e toxicidade dos antifúngicos e antivirais em cães e gatos. Antifúngicos: Mecanismos de Ação Polienos (Anfotericina B) Ligam-se ao ergosterol da membrana fúngica → formação de poros → morte celular por lise osmótica Azóis Fluconazol, itraconazol, cetoconazol → inibem lanosterol 14α-demetilase → reduzem síntese de ergosterol Alilaminas (Terbinafina) Inibem esqualeno epoxidase → acúmulo de esqualeno tóxico → morte fúngica Antifúngicos: Indicações Clínicas em Cães e Gatos Dermatofitoses (Microsporum canis) Itraconazol 5–10 mg/kg/dia VO Terbinafina 30–40 mg/kg/dia Candidíase Fluconazol 5–10 mg/kg VO a cada 12–24h Criptococose (gatos) Fluconazol + anfotericina B em casos graves com envolvimento do SNC Histoplasmose / Blastomicose Itraconazol por 6–12 meses Anfotericina B: nefrotóxica — hidratação IV prévia obrigatória. Formulação lipossomal reduz toxicidade renal significativamente. Parte 5: Protocolos Clínicos Práticos Indicações terapêuticas, doses, interações e particularidades por sistema e espécie. Interações Medicamentosas Relevantes Combinações a evitar Combinação Risco Aminoglicosídeos + AINEs Potencialização da nefrotoxicidade Fluoroquinolonas + antiácidos Redução da absorção oral (quelação) Cloranfenicol + fenobarbital Inibição hepática → toxicidade do fenobarbital Metronidazol + propileno glicol Reação tipo dissulfiram Associações mais utilizadas Em cães hospitalizados, a associação amoxicilina com clavulanato de potássio + metronidazol é a mais frequentemente observada — cobertura de gram+, gram− e anaeróbios. Administrar fluoroquinolonas com 2 horas de intervalo em relação a antiácidos, quelantes de ferro ou produtos lácteos para garantir absorção adequada. Particularidades Farmacológicas dos Gatos Deficiência de Glucuronidação Metabolismo hepático lento → maior risco de toxicidade com paracetamol, AAS e outros fármacos Enrofloxacino Doses > 5 mg/kg/dia associadas à degeneração retiniana irreversível — usar marbofloxacino Particularidades Farmacológicas dos Gatos Doxiciclina: Esofagite Sempre administrar com alimento ou seringa de água (5–10 mL) imediatamente após a comprimido Aminoglicosídeos Maior sensibilidade à ototoxicidade — preferir amicacina com monitoramento rigoroso da função renal Antimicrobianos na Gestação e Lactação Fármacos seguros (Categoria B) Amoxicilina Segura em todas as fases da gestação Cefalosporinas 1ª e 2ª geração consideradas seguras ⚠ Fármacos a evitar Tetraciclinas: quelação de cálcio → alterações ósseas e dentárias nos fetos Fluoroquinolonas: artropatia em filhotes em desenvolvimento Aminoglicosídeos: ototoxicidade fetal — evitar Metronidazol: evitar no 1º trimestre (potencial teratogênico) Sulfonamidas no final da gestação: competição com bilirrubina → risco de kernicterus neonatal Antibiograma: Interpretação e Aplicação Clínica S — Sensível Tratamento com dose padrão tem alta probabilidade de sucesso clínico. Primeira escolha. I — Intermediário Pode funcionar com doses maiores ou em tecidos onde o fármaco se concentra (ex.: urina para ITU). R — Resistente Tratamento provavelmente falhará com doses habituais. Escolher alternativa baseada no antibiograma. Breakpoints clínicos são definidos pelo CLSI (Clinical and Laboratory Standards Institute). Atenção: resultado in vitro ≠ resultado clínico — considerar sempre a farmacocinética e o local da infecção para decisão final. Resistência Múltipla: O Desafio Atual 10M mortes/ano previstas por superbactérias até 2050 — número superior ao do câncer. Agentes problemáticos em pequenos animais MRSP (Staphylococcus pseudintermedius resistente à meticilina) MRSA — transmissão zoonótica bidirecional E. coli produtora de ESBL Classificação OMS — Uso criterioso em veterinária Animais de companhia atuam como reservatórios de genes de resistência transferíveis ao homem. Fluoroquinolonas Importância crítica — restringir uso Cefalosporinas 3ª/4ª geração Uso criterioso baseado em antibiograma Carbapenêmicos Último recurso — não usar empiricamente Boas Práticas na Prescrição de Antimicrobianos 1 Diagnosticar antes de prescrever Cultura, citologia e imagem orientam a escolha racional 2 Menor espectro eficaz Escolha o fármaco adequado ao agente suspeito — não o mais amplo disponível 3 Definir e comunicar a duração Instrua o tutor sobre a importância de completar o tratamento Boas Práticas na Prescrição de Antimicrobianos Reavaliar em 48–72h A resposta clínica orienta continuidade, ajuste ou mudança de protocolo Registrar em prontuário Fármaco, dose, duração e justificativa — transparência e rastreabilidade Resumo: Mecanismos de Ação por Grupo Tabela-resumo Grupo Alvo Efeito Betalactâmicos Parede celular (PBPs) Bactericida Aminoglicosídeos 30S ribossomo Bactericida Tetraciclinas 30S ribossomo Bacteriostático Macrolídeos/Lincosamidas 50S ribossomo Bacteriostático Fluoroquinolonas DNA girase Bactericida Sulfonamidas + TMP Síntese de folato Bacteriostático Polimixinas Membrana celular Bactericida Próximos Passos: Você Como Prescritor Responsável Cada prescrição importa Ela afeta não só o paciente, mas o ambiente e a saúde pública. Você faz parte da solução. Solicite cultura sempre que possível O antibiograma é seu melhor aliado — não prescreva no escuro quando há como iluminar o caminho. Mantenha-se atualizado Perfis de resistência mudam — acompanhe dados locais, regionais e diretrizes atualizadas. Eduque o tutor Adesão ao tratamento completo é fundamental. Sem o tutor engajado, o protocolo ideal falha. O antimicrobiano certo, na dose certa, pelo tempo certo — salva vidas e preserva o futuro da terapia antimicrobiana. Referências Estudo retrospectivo da multirresistência microbiana em cistites e otites de cães e gatos | Brazilian Journal of Animal and Environmental Research Resistência bacteriana: a importância da escolha dos antimicrobianos — Royal Canin Portal Vet Avaliação do uso de antimicrobianos e suas interações medicamentosas em cães e gatos hospitalizados | Ars Veterinaria Diretrizes para o uso racional de antimicrobianos em medicina veterinária — Scientific Electronic Archives https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJAER/article/view/79542 https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJAER/article/view/79542 https://portalvet.royalcanin.com.br/saude-e-nutricao/outros-assuntos/resistencia-bacteriana/ https://www.arsveterinaria.org.br/index.php/ars/article/view/1473 https://www.arsveterinaria.org.br/index.php/ars/article/view/1473 https://scientificelectronicarchives.org/index.php/SEA/article/download/1080/pdf/3692