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<p>BIOÉTICA E FORMAÇÃO EM</p><p>SAÚDE</p><p>AULA 1</p><p>Prof. Vitor Mocelin Zacarkim</p><p>2</p><p>AULA 1 – INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ÉTICA E BIOÉTICA EM SAÚDE</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>O século XX foi um período da idade contemporânea marcado por</p><p>grandes mudanças sociais, políticas e tecnológicas. Na área de ciência e</p><p>tecnologia, obtivemos conquistas notáveis, tais como a inovação em meios de</p><p>transporte, telecomunicações, energia e eletrônica aplicada.</p><p>Neste período, a área de saúde também se destacou pelo aumento na</p><p>disponibilidade e qualidade de seus serviços e por inúmeras descobertas,</p><p>incluindo: a identificação de novas doenças, invenção de antibióticos,</p><p>desenvolvimento do anticoncepcional, transplante de órgãos, adventos na</p><p>genética e biologia molecular.</p><p>Em decorrência dessa rápida expansão científica, houve um aumento</p><p>exponencial na expectativa de vida e no bem-estar humano. No entanto, esses</p><p>progressos também trouxeram impactos negativos à humanidade, uma vez que</p><p>ela não estava estruturada socialmente para reconhecer e refletir frente a esses</p><p>eventos.</p><p>Neste sentido, emergiu a necessidade da criação de uma nova ciência: a</p><p>Bioética. Essa disciplina problematiza as ações do homem em relação aos</p><p>demais seres humanos e outras formas de vida, bem como os impactos sociais</p><p>e morais dos avanços da ciência. Sendo assim, esta aula tem por objetivo</p><p>apresentar o contexto histórico do surgimento da Bioética, seus princípios,</p><p>objetivos e aplicabilidade na prática profissional em saúde.</p><p>TEMA 1 – PRINCÍPIOS HISTÓRICOS DA ÉTICA E BIOÉTICA</p><p>Reflexões sobre ética surgiram desde que o homem passou a conviver</p><p>em sociedade. Na Grécia Antiga, inúmeros filósofos protagonizaram</p><p>ensinamentos a respeito da moral e conduta humana, sobretudo na época do</p><p>auge político, econômico, literário e sociocultural de Atenas. Em meados do</p><p>século IV a.C., visando a prosperidade e harmonia das cidades-estados,</p><p>filósofos gregos já pensavam no conceito da ética, associando o termo à</p><p>cidadania e moral (Camps, 2017; EGG, 2009).</p><p>Sócrates, Platão e Aristóteles estão entre os filósofos gregos mais</p><p>lembrados no campo da ética e associavam o termo à virtude do equilíbrio no</p><p>3</p><p>convívio em sociedade. Neste cenário, a origem da palavra ética vem do grego</p><p>“ethos”, termo associado a diversos significados, incluindo: caráter, maneira de</p><p>ser, hábitos e costumes. A palavra bioética, derivada dos termos Bios (relativo à</p><p>vida) e ethos (relativo à ética), surgiu séculos após as primeiras contribuições no</p><p>campo da ética (Jorge Filho, 2017; Lopes, 2014; EGG, 2009).</p><p>A palavra bioética foi empregada pela primeira vez em um documento em</p><p>1927 pelo teólogo alemão Paul Max Fritz Jarh, que idealizou que todos os seres</p><p>vivos teriam direito ao respeito, estabelecendo ideais sobre o relacionamento do</p><p>homem frente a plantas e animais. Entretanto, o termo foi mais difundido na</p><p>comunidade científica na década de 1970, a partir da publicação de obras de</p><p>Van Rensselaer Potter, bioquímico e oncologista americano que trabalhou na</p><p>Faculdade de Medicina da Universidade de Wisconsin (Franco et al, 2014;</p><p>Lopes, 2014).</p><p>Em suas publicações, Potter expressava grande preocupação com o</p><p>crescimento exponencial da Medicina e da ciência, que não era acompanhado</p><p>de reflexões sobre potenciais consequências à sociedade. Neste cenário, o</p><p>pesquisador aplicou o termo bioética para designar um novo “campo disciplinar</p><p>capaz de aliar o desenvolvimento científico e tecnológico a valores éticos” (Silva;</p><p>Portela, 2017; Lopes, 2014; Santos, 2017).</p><p>A partir do exposto por Potter quanto à expansão da tecnologia e ciência</p><p>que não acompanha sua respectiva reflexão bioética, podemos citar inúmeros</p><p>eventos desastrosos no decorrer da história humana. Um dos principais</p><p>acontecimentos que marcaram a história da bioética foram as controversas</p><p>experiências realizadas na Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra</p><p>Mundial (1939 – 1945). Neste período, os estudos eram realizados de forma</p><p>abusiva e forçada pelos “médicos” nazistas frente aos confinados nos campos</p><p>de concentração (Santos, 2017; Jadoski et al, 2017).</p><p>Nesta época, os experimentos nazistas eram guiados pelo sofrimento e</p><p>dor dos participantes involuntários, levando muitos à morte. Entre as atrocidades</p><p>realizadas no período, podemos citar: indivíduos que tinham suas gônadas</p><p>submetidas a doses de raio-X para estudo da infertilidade secundária; estudos</p><p>militares para determinar a sobrevivência humana em baixa pressão</p><p>atmosférica; exposição em câmaras de gás com baixa pressão de oxigênio;</p><p>exposição à extremos de temperatura, como em tanques com neve ou piscinas</p><p>4</p><p>com água gelada por tempo prolongado, entre outras (Veatch, 2014; Santos,</p><p>2017).</p><p>Com a derrota alemã frente ao término da Segunda Guerra Mundial,</p><p>ocorreu em Nuremberg o julgamento do alto escalão nazista frente aos crimes</p><p>cometidos à humanidade. Dos 23 acusados, 20 eram médicos, evidenciando que</p><p>a consciência moral do pesquisador não é suficiente como um “limite seguro para</p><p>o controle da experimentação”.</p><p>A partir deste tribunal, foi proposto em 1947 o Código de Nuremberg. Esse</p><p>documento histórico consiste em um conjunto de dez princípios éticos regentes</p><p>de pesquisas envolvendo seres humanos, prevendo inclusive o consentimento</p><p>do sujeito de pesquisa como indispensável (Silva; Portela, 2017; Lopes, 2014;</p><p>Santos, 2017).</p><p>Outro exemplo de má conduta bioética foi o estudo de sífilis não tratada</p><p>realizada entre os anos de 1932 a 1972, no Alabama. O estudo que foi</p><p>patrocinado pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos tinha como</p><p>objetivo acompanhar o curso natural da doença e suas sequelas em longo prazo.</p><p>A cidade elegida para o estudo foi Tuskegee, de população predominante da</p><p>raça negra.</p><p>Foram incluídos nesse estudo 400 afro-americanos infectados pela sífilis.</p><p>Na década de 1950, a penicilina foi identificada como tratamento acessível,</p><p>eficaz e barato contra o agente etiológico da sífilis. Apesar da fácil disponibilidade</p><p>do medicamento, a pesquisa prosseguiu sem informar os participantes do estudo</p><p>sobre a descoberta, além de mantê-los sem acesso ao tratamento (Silva; Portela,</p><p>2017; Santos. 2017).</p><p>No ano de 1966 Henry Beecher, um antigo professor de Anestesiologia</p><p>da Universidade de Harvard publicou um artigo na revista New England Journal</p><p>of Medicine descrevendo 22 pesquisas clínicas que infringiam preceitos éticos</p><p>básicos. Entre esses estudos, destaca-se o caso de uma mãe de uma paciente</p><p>terminal com melanoma metastático que foi submetida a injeções contendo</p><p>células do tumor da própria filha, com a finalidade de estudo da imunologia</p><p>tumoral. A mãe criou grande expectativa de ajudar sua filha no tratamento da</p><p>doença. Entretanto ambas faleceram por complicações relacionadas ao</p><p>melanoma metastático, ou seja, a mãe desenvolveu a doença a partir das células</p><p>tumorais nela injetadas em decorrência do estudo (Santos, 2017).</p><p>5</p><p>Frente aos inúmeros eventos desastrosos ocorridos na sociedade</p><p>científica até então, pesquisadores, governantes e associações médicas se</p><p>mobilizaram na criação de estudos e normas para o norteamento da ética médica</p><p>e em pesquisa. Reconhecendo lacunas deixadas pelo Código de Nuremberg, foi</p><p>elaborado em 1964 um documento internacional norteador da pesquisa clínica</p><p>envolvendo seres humanos: a Declaração de Helsinki.</p><p>Esse código de conduta em pesquisa definiu como objetivo principal do</p><p>profissional de saúde a promoção da saúde e bem-estar dos pacientes e foi</p><p>utilizado como base na elaboração de documentos amplamente utilizados até os</p><p>dias de hoje (Santos, 2017; Silva; Portela, 2017).</p><p>A partir da repercussão negativa do Caso de Tuskegee, os Estados</p><p>Unidos criaram uma comissão para proteção de participantes de pesquisas</p><p>clínicas, elaborando um documento chamado Relatório de Belmont que definiu</p><p>os princípios norteadores</p><p>da Bioética Clínica. Esses princípios serão trabalhados</p><p>detalhadamente no decorrer desta aula, uma vez que se aplicam às práticas</p><p>assistenciais em saúde e na pesquisa clínica (Santos, 2017).</p><p>TEMA 2 – CONCEITOS EM ÉTICA E BIOÉTICA</p><p>Diversas palavras e expressões que utilizamos habitualmente em nosso</p><p>cotidiano à primeira vista parecem ter significados tangíveis. Entretanto, temos</p><p>dificuldade quando tentamos defini-los e utilizá-los na prática. Epiteto, filósofo</p><p>grego que viveu entre 55 a 135 D.C. é autor da seguinte frase: “Primeiro aprende</p><p>o significado do que dizes, depois dize”. A partir dessa afirmação, somos</p><p>capazes de refletir a respeito de conceitos vinculados a esta disciplina. A palavra</p><p>ética, por exemplo, por muitas vezes, é utilizada em nossa rotina sem que</p><p>pensemos a respeito de sua definição (Lopes, 2014).</p><p>Desta maneira, ao decorrer deste tema, trabalharemos conceitos básicos</p><p>que lhe auxiliarão na compreensão da disciplina e suas aplicações nas práticas</p><p>profissionais em saúde.</p><p>2.1 Moral e ética</p><p>De acordo com Jorge Filho (2017), a moral e ética têm como foco básico</p><p>os valores humanos. Todavia, apesar de serem consideradas equivalentes por</p><p>6</p><p>alguns autores, na realidade, o significado é desigual. Desta maneira, é</p><p>necessário estabelecer a distinção entre ambos os termos.</p><p>A moral (do latim, mores = costumes) pode ser compreendida como um</p><p>sistema de normas, princípios e valores baseados nas relações do indivíduo</p><p>frente à determinada comunidade, sendo adquirida a partir de experiências</p><p>pessoais. Neste sentido, a moral refere-se a uma conduta que esteja em</p><p>conformidade com os valores, costumes e convenções aceitas por uma</p><p>sociedade (Jorge Filho, 2017; Lopes, 2014).</p><p>Destaca-se que a moral é variável de uma época para outra. Por exemplo,</p><p>antigamente era vedado à mulher o uso de calças, mas no presente é</p><p>moralmente aceito frente à nossa sociedade. Determinadas condutas e ações</p><p>humanas também podem ser moralmente aceitas ou não a depender da</p><p>sociedade analisada. Por exemplo, na Arábia Saudita é imoral frente à sociedade</p><p>que a mulher interaja com outros homens que não sejam de sua família, algo</p><p>que é amplamente aceito e moral no Brasil.</p><p>A ética, por sua vez, é caracterizada pela análise crítica, reflexão e juízo</p><p>e dos valores humanos e princípios que dão fundamento à moralidade. É</p><p>considerada a filosofia da moral, buscando investigar e fundamentar as razões</p><p>do “certo e errado” e do “bem e mal” por meio do estudo da conduta humana,</p><p>analisando seus possíveis conflitos ou dilemas.</p><p>Por exemplo, se uma mulher paquistanesa comete adultério, é</p><p>moralmente aceito naquela sociedade que ela seja condenada à morte por</p><p>apedrejamento. Entretanto, não é eticamente correto. Neste cenário, se um</p><p>determinado indivíduo ao presenciar essa situação opta por salvá-la age de</p><p>maneira correta eticamente, porém, está agindo contra a moral daquele país</p><p>(Jorge Filho, 2017; Lopes, 2014).</p><p>2.2 Bioética</p><p>Conforme já abordamos anteriormente, a bioética é uma disciplina que</p><p>surgiu na modernidade frente aos impactos sociais negativos causados pelo</p><p>rápido desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Consiste em uma área</p><p>derivada da ética prática e aplicada que surge como um elo entre às ciências e</p><p>as humanidades. A bioética tem como finalidade analisar e refletir frente a</p><p>problemáticas e dilemas relacionados ao avanço das biociências, biotecnologia</p><p>e ciências da saúde (Castro; Castro, 2020; Jorge Filho, 2017; Lopes, 2014).</p><p>7</p><p>TEMA 3 – PRINCÍPIOS DA BIOÉTICA EM SAÚDE</p><p>De acordo com o abordado em temas anteriores, após a repercussão</p><p>negativa do Caso de Tuskegee, em 1978, o governo norte-americano criou o</p><p>Relatório de Belmont. Esse documento definiu os princípios da Bioética Clínica,</p><p>aplicáveis para práticas assistenciais e em pesquisas envolvendo seres</p><p>humanos, norteando pesquisadores e profissionais quanto aos valores básicos</p><p>no atendimento de saúde e nas relações profissional-paciente. Essa publicação</p><p>definiu três princípios da bioética: beneficência, justiça e respeito (também</p><p>chamada de autonomia) (Santos, 2017; Jorge Filho, 2017).</p><p>No ano seguinte, Beauchamp e Childress, autores da Universidade de</p><p>Georgetown, publicaram a obra The Principles of Bioethics, na qual descreveram</p><p>a “bioética principalista”, enfatizando que a bioética deveria ser norteada por</p><p>quatro princípios, acrescentando o princípio da “não maleficência” aos três</p><p>princípios já esclarecidos no Relatório de Belmont. Neste sentido, sob a ótica da</p><p>bioética pautada em princípios, espera-se que o profissional de saúde</p><p>desenvolva suas práticas com base na:</p><p>• Justiça: refere-se à qualidade de estar em conformidade com o que é</p><p>direito, ao ato de ser justo ou equitativo. A justiça refere-se a atender</p><p>igualmente os iguais e de forma diferenciada os indivíduos que</p><p>apresentam maior necessidade. Por exemplo, é rotina dos serviços de</p><p>urgência e emergência atender prioritariamente os pacientes de maior</p><p>gravidade, respeitando-se o princípio da justiça por meio da equidade no</p><p>atendimento.</p><p>• Beneficência ou benevolência: trata-se de uma derivação do princípio</p><p>primum non nocere, ou seja, em primeiro lugar não causar dano, atribuído</p><p>a Hipócrates, médico grego considerado o “pai da medicina”. Por meio</p><p>deste princípio espera-se que o atendimento traga benefícios e bem-estar</p><p>ao paciente e o proteja de possíveis malefícios.</p><p>• Não maleficência: para Santos (2017), “aqui, abraça-se, de maneira</p><p>completa o primum non nocere hipocrático”, uma vez que esse princípio</p><p>se refere ao ato de não causar mal ou danos aos pacientes.</p><p>• Respeito: também chamado de princípio da autonomia, refere-se ao</p><p>tratamento do paciente como ser autônomo, livre de suas escolhas,</p><p>respeitando-se sua tomada de decisão frente ao tratamento proposto.</p><p>8</p><p>Neste sentido, indivíduos com a autonomia comprometida também devem</p><p>ser alvo de proteção (Velasquez; Souza, 2020; Santos, 2017; Oguisso;</p><p>Schmidt, 2019).</p><p>Não extinguindo os quatro princípios bioéticos listados acima, alguns</p><p>autores acrescentam outros princípios éticos norteadores do exercício</p><p>profissional em saúde. Na obra de Oguisso & Schmidt (2019), além dos já</p><p>citados, são apresentados outros princípios bioéticos que guiam profissionais de</p><p>saúde na função de suas atividades, sendo estes:</p><p>• Confidencialidade: refere-se ao sigilo profissional, princípio bioético em</p><p>guardar informações de caráter pessoal obtidas no exercício de sua</p><p>função. A partir da confidencialidade, o paciente tem a garantia de que as</p><p>informações fornecidas ao profissional de saúde durante o atendimento</p><p>sejam mantidas em sigilo, independentemente de seu conteúdo ou área</p><p>de atuação profissional.</p><p>• Veracidade: esse princípio se relaciona à qualidade de ser verdadeiro,</p><p>dizer sempre a verdade e em não enganar ou mentir para o paciente.</p><p>• Fidelidade: o princípio da fidelidade está relacionado à confiança na</p><p>relação profissional-paciente, na qual o profissional de saúde deve</p><p>cumprir com o compromisso de ser fiel para manter-se confiável. O</p><p>paciente espera que o profissional cumpra com a palavra, que só poderá</p><p>ser quebrada em situações excepcionais, quando o cumprimento da</p><p>promessa poderá trazer maiores danos do que uebra-la.</p><p>Uma obra de autoria de Jorge Filho (2017) explica que os princípios</p><p>bioéticos são fundamentais nas práticas profissionais de saúde na atualidade.</p><p>Entretanto, frente a novos dilemas bioéticos, surge a necessidade da criação de</p><p>uma teoria que abordasse estas questões de maneira ainda mais ampla. Neste</p><p>sentido, surgiu a teoria dos referenciais, que se refere à abordagem frente a</p><p>conflitos éticos em saúde baseada em referenciais teóricos. Esses referenciais</p><p>não extinguem os princípios bioéticos já citados, ao contrário, estes vêm somar</p><p>e se completam tornando a disciplina mais sustentada. Existem diversos</p><p>referenciais empregados na bioética, sendo</p><p>os de maior destaque:</p><p>• Vulnerabilidade: termo utilizado para se referir aos pacientes ou grupos</p><p>mais vulneráveis, ou seja, que sofrem maior risco de adoecimento ou</p><p>acidentes. Inclui grupos com possibilidade de autonomia comprometida,</p><p>9</p><p>como os idosos ou crianças por exemplo. Também pode incluir grupos</p><p>com risco aumentado de adquirir determinadas doenças ou indivíduos</p><p>socialmente comprometidos, como a população em situação de rua.</p><p>• Alteridade: advém do vocábulo latino alter, que significa ser o outro, logo,</p><p>nomina o exercício de se colocar no lugar do outro e de compreender o</p><p>outro como um ser singular. A alteridade consiste em reconhecer e</p><p>respeitar as diferenças, incluindo divergências culturais, religiosas entre</p><p>outras.</p><p>• Equidade: ligada ao respeito às diferenças, em atender o igual de forma</p><p>igualitária e, quando necessário, trata de forma desigual (porém</p><p>adequada) ao desigual. Esse referencial relaciona-se diretamente com o</p><p>já citado princípio bioético da justiça.</p><p>• Prudência: referencial bioético que abrange os sentidos de agir com</p><p>sensatez, cautela, zelo, sabedoria, prática e bom senso durante o</p><p>exercício profissional.</p><p>• Espiritualidade: refere-se à propensão humana na busca de um</p><p>significado ou sentido para a vida através de conceitos transcendentes ao</p><p>tangível, podendo estar relacionada ou não a práticas religiosas.</p><p>• Solidariedade: ato de bondade e compreensão para com o próximo,</p><p>especialmente aos desfavorecidos economicamente ou enfermos. Um</p><p>exemplo histórico disto foi a criação das Santas Casas de Misericórdia,</p><p>instituições filantrópicas existentes desde a Idade Média. Frente a este</p><p>princípio, cabe ao profissional de saúde frente aos momentos de</p><p>adversidade fornecer suporte, fazendo com que o paciente se sinta</p><p>seguro e acolhido.</p><p>TEMA 4 – A BIOÉTICA NO BRASIL E NO MUNDO</p><p>Posterior à determinação do Código de Nuremberg, movidos pelo recente</p><p>impacto das barbáries cometidas na Segunda Guerra Mundial, dirigentes das</p><p>principais potências mundiais estabeleceram em 1948 a Declaração Universal</p><p>dos Direitos Humanos. A presente declaração foi a primeira manifestação</p><p>internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) e reitera o direito básico</p><p>à liberdade e ao livre arbítrio, estabelecendo valores básicos da dignidade</p><p>humana e respeito da ética universal (Scholz, 2017).</p><p>10</p><p>Outra contribuição da ONU frente ao cenário bioético internacional foi a</p><p>aprovação e homologação da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos</p><p>Humanos (DUBDH) durante a 33ª Conferência Geral da UNESCO (United</p><p>Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) realizada em 19 de</p><p>outubro de 2005 em Paris (Santos, 2017).</p><p>A DUBDH é um marco universal norteador para nações no</p><p>desenvolvimento de legislações e políticas no campo da bioética, visando a</p><p>proteção à dignidade humana. A declaração aborda questões e princípios éticos</p><p>aplicados às ciências da vida, medicina e às tecnologias, orientando a tomada</p><p>de decisão individual, coletiva, de instituições e estabelecimentos públicos ou</p><p>privados, como as instituições de saúde ou ensino (Santos, 2017).</p><p>Conforme abordamos no decorrer desta aula, após a Segunda Guerra</p><p>Mundial ocorreu uma tendência global para elaboração de normativas bioéticas</p><p>referentes às pesquisas envolvendo seres humanas e norteadoras das práticas</p><p>assistenciais em saúde. Entretanto, legislações específicas da bioética</p><p>demoraram a chegar a nosso país. Em 1988, surge no Brasil a primeira</p><p>normativa de critérios para pesquisa clínica: a resolução n. 1 publicada pelo</p><p>Conselho Nacional de Saúde (CNS) (Barbosa; Veras, 2020).</p><p>Seguindo propensões mundiais, o campo de bioética em saúde evoluiu</p><p>consideravelmente no Brasil, adquirindo destaque e credibilidade frente à</p><p>comunidade, fomentando interesse e discussões frente à inserção da disciplina</p><p>em diferentes contextos. Neste cenário, no ano de 1993, foi criada pelo Conselho</p><p>Federal de Medicina (CFM) a Revista Bioética, exercendo atualmente função de</p><p>dissipadora do conhecimento frente à comunidade científica e acadêmica. Outro</p><p>marco bioético em nosso país foi a criação da Sociedade Brasileira de Bioética</p><p>em 1995 (Revista Bioética, 2017).</p><p>Outro importante acontecimento no campo da bioética em 1995 foi a</p><p>revisão da resolução n. 1/88 do CNS, que envolveu uma revisão literária sobre</p><p>a temática e análise de documentações de outras nações, resultando na</p><p>publicação da resolução n. 196/1996.</p><p>Essa atualização foi baseada na multi e interdisciplinaridade e instituiu e</p><p>conceituou os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e a criação da Comissão</p><p>Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), impulsionando a criação e adequação</p><p>de centros de pesquisa em todo território nacional (Barbosa; Veras, 2020).</p><p>11</p><p>Hoje, a diretriz bioética de pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil</p><p>é fundamentada na versão mais recente da resolução do CNS: a 466/12. A</p><p>presente normativa e demais aspectos atuais voltados às pesquisas clínicas</p><p>serão abordados detalhadamente no decorrer desta disciplina.</p><p>TEMA 5 – A BIOÉTICA NAS PRÁTICAS DE SAÚDE</p><p>No decorrer da história, a partir da brusca ascensão científica e de</p><p>mudanças socioculturais, a bioética deixou de ser exclusivamente um objeto de</p><p>estudo de filósofos, tornando-se uma ciência praticada pela coletividade. Desta</p><p>maneira, temas controversos também passaram a ser debatidos socialmente por</p><p>cidadãos comuns, uma vez que muitas convicções até então atribuídas ao</p><p>místico foram refutadas pela ciência. Hoje, discussões relativas ao estudo da</p><p>vida estão presentes em diversas profissões, grupos, sociedades, comunidades</p><p>e áreas do conhecimento (Oguisso; Schmidt, 2019).</p><p>A bioética consiste em um campo de estudo pluralista e interdisciplinar,</p><p>uma vez que abrange as transformações científicas e avanços biotecnológicas</p><p>em diferentes contextos. Neste sentido, a bioética não deve ser confundida com</p><p>ética médica. A primeira, conforme já discutimos no decorrer desta aula, se trata</p><p>de um ramo ou subclasse da ética aplicada às ciências da vida. Por outro lado,</p><p>a ética médica se refere a um campo da medicina que aborda preocupações</p><p>sociais e condutas voltadas à prática médica, assim como temos a ética aplicada</p><p>à enfermagem, fisioterapia, nutrição, entre outras profissões da saúde (Oguisso;</p><p>Schmidt, 2019).</p><p>Uma vez que a bioética é considerada uma área de estudo interdisciplinar,</p><p>seus conceitos e princípios são aplicáveis em inúmeras profissões do ramo da</p><p>saúde e em diferentes contextos. Sendo assim, hoje a bioética é alvo de estudo</p><p>de diversos profissionais, tais como: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas,</p><p>odontólogos, nutricionistas, farmacêuticos, biomédicos, psicólogos, assistentes</p><p>sociais, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, entre outros.</p><p>As questões voltadas à bioética estão presentes em todas as fases da</p><p>vida humana, levantando questionamentos frente ao início da vida até o</p><p>processo de morte. Suas indagações auxiliam profissionais de saúde na tomada</p><p>de decisão frente a dilemas bioéticos, nas relações interpessoais entre</p><p>profissional-paciente e na avaliação e distribuição de tecnologias em saúde</p><p>(Oguisso; Schmidt, 2019).</p><p>12</p><p>Esses fundamentos são aplicáveis em diversos cenários de atendimento</p><p>na área da saúde, destacando-se na:</p><p>• Assistência às populações em vulnerabilidade.</p><p>• Processos de captação, doação e transplante de órgãos e tecidos.</p><p>• Assistência na morte e processo de morrer.</p><p>• Reprodução humana, clonagem e suas respectivas implicações éticas.</p><p>• Atendimentos relacionados à sexualidade, orientação sexual e identidade</p><p>de gênero.</p><p>• Análise ética de situações envolvendo o aborto.</p><p>• Pesquisas clínicas envolvendo seres humanos.</p><p>• Utilização de animais em pesquisas.</p><p>• Engenharia genética.</p><p>• Religiosidade e espiritualidade em saúde.</p><p>• Aspectos bioéticos da alocação de medicamentos, recursos e tecnologias</p><p>em saúde.</p><p>Embora a bioética seja mais comumente conhecida por abordar questões</p><p>relativas à saúde humana, seu espaço atuante é ainda mais amplo, incluindo,</p><p>mas não limitando-se em tratar de aspectos voltados à biotecnologia, ecologia e</p><p>ética animal. Discussões voltadas ao uso de animais em pesquisas científicas,</p><p>por exemplo, é um dos alvos de estudo desta disciplina. As relações do ser</p><p>humano frente ao meio ambiente, bem como seus respectivos impactos também</p><p>são objeto de debate neste âmbito (Sousa Neto et al., 2020; Oguisso; Schmidt,</p><p>2019).</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Desafios que envolvem a bioética são muito mais comuns no cotidiano</p><p>dos profissionais de saúde de inúmeras áreas do que se imagina, acarretando</p><p>situações e dilemas de grande complexidade, que exigem do profissional</p><p>acentuado discernimento e análise. Neste sentido, aplicando os conceitos e</p><p>princípios da bioética abordados nesta aula imagine a seguinte situação: você</p><p>faz parte da equipe multiprofissional de uma clínica privada especializada em</p><p>atendimentos de hebiatria (atenção à saúde do adolescente).</p><p>Nesta situação, suponhamos que uma adolescente de 15 anos</p><p>desacompanhada procura a instituição solicitando pílulas anticoncepcionais,</p><p>13</p><p>assegurando que iniciará atividade sexual com seu namorado de 16 anos. A</p><p>adolescente solicita aos profissionais da clínica que guardem segredo absoluto,</p><p>afirmando que seus pais são evangélicos e “não podem saber sob hipótese</p><p>alguma”.</p><p>Baseado nos princípios da bioética, qual seria a conduta mais adequada</p><p>da equipe para essa situação? Fornecer o medicamento desconsiderando que a</p><p>adolescente pode estar se submetendo a riscos, supondo a prática de sexo sem</p><p>preservativos? Relatar a situação aos pais ou responsáveis, quebrando o sigilo</p><p>profissional e princípios bioético da confidencialidade e fidelidade? Você, ciente</p><p>desses princípios, tomaria qual decisão?</p><p>FINALIZANDO</p><p>Nesta aula, abordamos o processo evolutivo e histórico da ética e da</p><p>bioética, exemplificando eventos que eram aceitos socialmente e que hoje são</p><p>refutados. Por meio das situações abordadas na aula, concluímos que a moral é</p><p>variável de acordo com a época e população estudada.</p><p>A partir das discussões frente à moral e ética, emergiu a bioética, que,</p><p>pautada em seus princípios, pode auxiliar profissionais de saúde de diversas</p><p>áreas na tomada de decisão frente a dilemas enfrentados no cotidiano</p><p>profissional e em sociedade.</p><p>14</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BARBOSA, C. A.; VERAS, R. M. Perspectivas históricas dos comitês de ética</p><p>em pesquisa no Brasil: Uma revisão da literatura. Sau. & Transf. Soc.,</p><p>Florianópolis, v. 11, n. 2, p. 133-142, 2020.</p><p>CAMPS, V. Breve historia de la ética. Barcelona: RBA Libros, 2017.</p><p>CASTRO, J. C.; CASTRO, M. C. Sobre a desfiguração do conceito de humano</p><p>na bioética. Rev. bioét. (Impr.), Brasília, v. 28, n. 4, p. 610-8, 2020.</p><p>EGG, R. F. R. História da ética. Curitiba: IESDE, 2009. (Transcrição da</p><p>Videoaula do Curso “Ética nas Organizações”)</p><p>FRANCO, A. L. et al. Pesquisas em animais: uma reflexão bioética. Acta bioeth.,</p><p>Santiago, v. 20, n. 2, p. 247-253, nov. 2014.</p><p>JADOSKI, R. et al. O consentimento livre e esclarecido: do código de Nuremberg</p><p>às normas brasileiras vigentes. Vittalle: Revista de Ciências da Saúde, Rio</p><p>Grande, v. 29, n. 2, p. 116-126, 2017.</p><p>JORGE FILHO, I. Bioética: fundamentos e reflexões. 1. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Atheneu, 2017.</p><p>LOPES, J. A. Bioética: uma breve história – de Nuremberg (1947) a Belmont</p><p>(1979). Revista Médica de Minas Gerais, Belo Horizonte, v. 24, n. 2, p. 262-</p><p>273, 2014.</p><p>OGUISSO, T.; SCHMIDT, M. J. O exercício da enfermagem: uma abordagem</p><p>ético-legal. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Kogan, 2019.</p><p>REVISTA BIOÉTICA: 25 anos influenciando o pensamento ético e bioético no</p><p>Brasil, Brasília, v. 25, n. 2, p. 215-217, agosto de 2017.</p><p>SANTOS, M. Bioética e Humanização em Oncologia. 1. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Elsevier, 2017.</p><p>SCHOLZ, J. M. As apropriações dos direitos humanos no Brasil: o caso da</p><p>Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Revista Internacional de</p><p>História Política e Cultura Jurídica, Niterói, v. 9, n. 2, p. 214-243, maio-ago.</p><p>2017.</p><p>15</p><p>SILVA, E. Q. S.; PORTELA, S. C. O. Ética em pesquisa: análise das</p><p>(in)adequações do atual sistema de revisão ética concernentes à pesquisa</p><p>social. Revista Mundaú, Maceió, v. 1, n. 2, p. 38-53, 2017.</p><p>SOUSA NETO, B. P. et al. Animais como modelos experimentais nos cursos de</p><p>graduação na área da saúde: revisão sistemática. Revista Eletrônica Acervo</p><p>Saúde, Campinas, v.1, n. 50, p. 1-11, 18 jun. 2020.</p><p>VEATCH, R. M. Bioética. 3. ed. São Paulo: Pearson Education, 2014.</p><p>VELASQUEZ, T. L.; DE SOUZA, P. V. S. Bioética e Direito: uma análise dos</p><p>princípios bioéticos aplicados ao Biodireito. Veritas, Porto Alegre, v. 65, n. 2, p.</p><p>1-10, 3 jun. 2020.</p><p>aula 1 – introdução ao estudo da ética e bioética em saúde</p><p>Conversa inicial</p><p>Na prática</p><p>FINALIZANDO</p>

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