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22 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade II Unidade II 4 ADOÇÃO: AVALIAÇÃO DE PRETENDENTES EM ÂMBITO NACIONAL E PREPARO DE CRIANÇAS PARA ADOÇÃO Desde as primeiras civilizações, costumava‑se adotar uma criança como forma de manutenção da família ou para perpetuar o culto ancestral doméstico. O objetivo principal desta medida não era necessariamente proteger a criança, pois a filosofia do melhor interesse para a criança tem origens recentes em todo o mundo. No passado, a adoção tinha somente o objetivo de ser um instrumento para suprir as necessidades de casais inférteis e não um meio que pudesse dar uma família para crianças abandonadas (WEBER, 2010). Entre as formas de adoção que observamos na prática cotidiana devemos destacar duas que são bastante difundidas na sociedade brasileira. São elas: adoção clássica e a adoção moderna. A adoção clássica tem como objetivo primário “satisfazer as necessidades de casais inférteis” (como dito anteriormente) ou que por algum outro motivo não podem ter filhos naturais e os querem a todo custo. Já a adoção moderna tem como principal objetivo garantir o direito a toda criança de crescer e ser educada em uma família. Segundo o artigo 19 do Estatuto da Criança e do Adolescente: “Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes” (BRASIL, 1990). Com a instituição do ECA em 1990 e da nova Lei da Adoção (lei 12.012/2009), a proposta de se pensar exclusivamente no bem‑estar da criança e na sua história futura de vida tomou força e os processos de adoção têm sido cada vez mais cuidados pelos setores técnicos responsáveis pelo cadastramento e avaliação dos postulantes à adoção. Quando pensamos no processo de adoção temos que ter claro qual é sua definição. Segundo o dicionário formal, adoção significa tomar alguém como filho; ação de adotar, tomar para si com cuidados. Robert (1989 apud WEBER, 2010) afirma que adoção é a criação jurídica de um laço de filiação entre duas pessoas. Desta forma, devemos compreender que o ato de adotar diz respeito à oportunidade que um núcleo familiar em formação ou já formado dá a outrem de ser inserido a ele na qualidade de filho, sendo que este passará a ter todas as responsabilidades, direitos e deveres dos filhos naturais. Seria ainda a oportunidade de transformar um laço jurídico de filiação em um laço perene de filiação. A adoção começou realmente a adquirir um sentido mais social, voltando‑se ao interesse da criança, após a Primeira Guerra Mundial, por causa do grande número de crianças órfãs e abandonadas. A 23 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a PSICOLOGIA JURÍDICA adoção começou a ser entendida como uma solução para a ausência de pais e para o bem‑estar das crianças. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial, este renovado interesse público pela adoção foi incentivado somente com relação a recém‑nascidos. Atualmente, os norte‑americanos são, em todo o mundo, os mais numerosos a recorrer à adoção e estima‑se que o numero de crianças adotadas nos EUA esteja em torno de 5 a 9 milhões. Este aspecto mostra como é importante, para a sociedade americana, entender e enfrentar as dificuldades neste tipo de filiação (WEBER, 2010). No Brasil, o abandono de crianças não é uma situação recente. O ato de expor os filhos ocorre desde os tempos do Brasil Colônia e neste período crianças legítimas e ilegítimas eram abandonadas em diversos locais urbanos, na tentativa dos pais de livrarem‑se do filho indesejado, não amado ou até concebido fora de um casamento. Para estas crianças denominadas de “enjeitadas, desvalidas ou expostas” foi copiado o modelo europeu: a Roda dos Expostos, que permitia o abandono anônimo dos bebês. As Rodas dos Expostos existiram em nosso país até a década de 1950 e fomos o último país do mundo a acabar com elas. As possibilidades de adoção constantes no Código Civil brasileiro de 1916 eram excessivamente rígidas e consequentemente isto dificultava o seu uso social: somente podiam adotar os maiores de 50 anos, sem filhos legítimos ou legitimados. Nesta época, o processo de adoção, por ter estas características, desmotivava os postulantes à adoção em pensar nesta possibilidade. Além disto, a sociedade da época era extremamente conservadora e as adoções clássicas e até a colocação de “agregados” ao núcleo familiar eram mais incentivadas do que outros modelos de adoção. Deve‑se considerar aqui a possibilidade de adoção denominada “Adoção à Brasileira”, que ocorre quando um dos adotantes (seja o homem, a mulher ou o casal) declara, no momento do registro civil, que a criança é seu filho legítimo e biológico, sendo que este não o é. Esta é uma prática que não respeita as exigências legais, juridicamente não pode ser considerada e inclusive está considerada no Código Penal Brasileiro (Art.242 – CP). Em 1927 foi criado o primeiro Código de Menores brasileiro, porém, este não trouxe nenhuma contribuição à questão da adoção e nem contribuiu para diminuir o número de crianças abandonadas no país, apenas enfatizou a institucionalização de crianças como uma forma de proteção à infância. A lei 3.133/57 trouxe algumas modificações importantes para a adoção, mas ainda estava longe de ser um recurso simples: a idade mínima do adotante foi reduzida para 30 anos e a diferença de idade entre adotante e adotado também foi diminuída para 16 anos, permitindo‑se a adoção mesmo se o adotante tivesse filhos legítimos, legitimados ou reconhecidos (WEBER, 2010). A questão da adoção, no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), derivou do art. 227 da Constituição Federal, que diz: “Os filhos havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação”. Ocorreu, então, maior facilitação para realizar uma adoção com a promulgação do ECA: a idade mínima exigida para o adotante, que antes era de 30 anos, passou a ser de 20 anos, respeitada a diferença de 16 anos entre a pessoa que adota e a que é adotada; autorizou a adoção por pessoas 24 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade II solteiras, viúvas, conviventes e divorciadas; possibilitou a adoção unilateral, que é aquela em que o marido ou companheiro pode adotar o filho de sua esposa, sem que haja o rompimento dos laços de família da criança com sua mãe biológica; admitiu a adoção póstuma, na hipótese de o candidato à adoção falecer no curso do processo e garantiu o pleno direito à sucessão do filho adotado. Ainda, segundo o ECA, a adoção é plena e irrevogável e será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar‑se em motivos legítimos, aqui fica claro que a proposta de adoção para o Estatuto é a da “Adoção Moderna” e o conceito de “Adoção Clássica” foi totalmente abandonado. O ECA (BRASIL, 1990) também prevê a possibilidade da adoção internacional. Esta modalidade de adoção tem algumas características ímpares: o casal residente fora do país deverá cumprir o estágio de convivência dentro do território nacional e este terá que ser de no mínimo 30 dias. O estágio de convivência deverá ser acompanhado pela equipe técnica responsável pelo processo de adoção. A adoção internacional somente será deferida se, após consulta ao cadastro de pessoas ou casais habilitados à adoção, mantido pela Justiça da Infância e da Juventude na comarca, bem como aos cadastros estadual e nacional, não for encontrado interessado com residência permanente no Brasil. O ECA destina ao Judiciário todas as providências e procedimentos referentes à adoção edesse modo prevê e torna obrigatória a existência de equipe interprofissional (psicólogos e assistentes sociais) para atuar nas diversas etapas do processo. Essa legislação também descreve os requisitos necessários aos adotantes e adotados. Todo pretendente à adoção participa de um processo avaliativo e este estudo, realizado com os pretendentes, pauta‑se, em certo sentido, numa proposta de atuação profilática, na medida em que interroga seu desejo e considera suas singularidades antes de assumirem a guarda de uma criança e/ou na fase inicial no novo contato. Esse trabalho caracteriza uma forma de prevenção, pois tem como objetivo abordar possíveis conflitos dos pretendentes e as interrogações que formulam, tentando evitar que dúvidas e ansiedades interfiram no vínculo a ser formalizado com a criança. O discurso dos pretendentes pode revelar o funcionamento psíquico, encenando o pedido manifesto e os desejos inconscientes a ele subjacentes. Critérios de avaliação dos pretendentes acabam servindo apenas como referencial do que se deve pesquisar e aprofundar no decorrer da avaliação dos mesmos. É necessário que se escute o pretendente, pois a escuta está à frente de qualquer outro critério. A prioridade está na escuta singular dos aspectos subjetivos e não na fixação de critérios que possam se constituir em referências mais objetivas. O fato de alguns pretendentes sentirem‑se inseridos num processo avaliativo pode propiciar, no início, ausência de espontaneidade e tendência a um discurso pautado nas convenções sociais ou em elementos que, segundo suas crenças, poderão ser valorizados no parecer judicial. 25 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a PSICOLOGIA JURÍDICA No decorrer dos contatos, dependendo do vínculo que se estabelece entre o profissional e os pretendentes, essa situação pode se alterar, cedendo lugar a um contato mais franco, autêntico e revelador de significados. O modo como cada profissional entende seu trabalho e a conotação que lhe atribui parece também promover ressonâncias importantes que influenciam, em certo sentido, os resultados que dele se obtém. Os testes psicológicos podem ser utilizados em alguns casos, pois, eventualmente, facilitam a expressão dos pretendentes. O teste é utilizado como um instrumento facilitador, um meio e não um fim. As entrevistas, comumente de 4 a 6, são realizadas com pretendentes, mas caso estes tenham filhos, ainda que de uniões anteriores, eles podem e devem ser incluídos nos contatos, para que se verifique como lidam com a ideia da ampliação da família e se existe a possibilidade de assumirem os cuidados com a criança na falta eventual dos pais. Para casais com filhos, revela‑se útil a realização de pelo menos uma entrevista familiar, para observar a dinâmica das interações entre os membros. Em geral, o casal é entrevistado conjuntamente. Algumas vezes torna‑se necessário permitir que as particularidades de cada um possam emergir por meio de contatos individuais. É importante conhecer a opinião dos membros da família extensa. Quando uma criança é adotada, esta o é por uma família e não por uma pessoa. Assim, ela deve ser inserida no seio familiar como um todo. A história pessoal e familiar dos candidatos e a história do romance do casal podem revelar elementos sobre a dinâmica familiar e conjugal, possíveis alianças ou incompatibilidades, aspectos da vida afetiva e sexual, peculiaridades dos vínculos e o lugar reservado para a criança no imaginário do casal. Interessa indagar tudo o que diz respeito à criança, para além das características físicas preferidas. Mesmo as escolhas racionalmente justificadas podem revelar o que está atuante no desejo dos pretendentes, além desses dados serem úteis no momento em que alguma criança lhes for apresentada. A escolha do nome do filho é um dos elementos repletos de significados. O nome não designa um corpo, mas a existência de um sujeito. O sobrenome inscreve a criança numa linhagem, enuncia um laço e ao mesmo tempo produz também interdições de laços – laços incestuosos. Nomear é, portanto, dar a uma criança a possibilidade de se humanizar. Alguns adotantes revelam rigidez quanto à escolha do nome e insistem na mudança do prenome, mesmo quando a criança o tem como referência fundamental. A própria legislação permite, nos casos de adoção, a modificação do prenome da criança sem necessidade de justificativa. Alguns pretendentes mantêm sentimentos ambivalentes e hostis com relação aos pais biológicos que doam seus filhos. Por conta disto, tendem a negá‑la, ressaltando a qualidade dos vínculos formulados com a criança. 26 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade II Outro motivo forte para a negação é que a adoção traz fim à dor intensa causada pela esterilidade ou as perdas que a motivaram. Há ainda os que objetivam salvar o casamento, ter companhia na velhice ou ter alguém para receber a herança. Também não são incomuns os pedidos pautados em questões religiosas ou vocações. A decisão pode estar associada ao desejo dos postulantes de se tornarem pais e de constituírem ou ampliarem a família, estes não têm problemas quanto a contar a verdade sobre a adoção. A postura dos pretendentes quanto à revelação, para a criança, das origens biológicas e da adoção, é elemento importante e, no trabalho de acompanhamento com os futuros pais, constitui fator preponderante. A revelação constitui um dos pontos mais críticos e difíceis de serem vividos pelos pais adotivos: decorridos alguns anos, muitos pais não conseguem desempenhar a tarefa do modo como supunham. Sob o pretexto de evitar um trauma à criança ou sob a alegação de que temem perder o amor do filho, certos pais optam pelo silêncio ou pela omissão de elementos da história. E sem que de início percebam, esse silêncio, além de ineficaz, torna‑se patogênico. A verdade sempre deve ser dita à criança. Dizer à criança que ela foi escolhida dentre tantas para ser amada e respeitada por essa família – que a acolheu do abandono que sofreu. Ambos, adotantes e adotados, se amparam na dor de perdas e por isso estão juntos agora. É preciso observar a forma como se fala com a criança sobre a adoção. Dizer que não são os pais verdadeiros dá um sinal de falsidade na relação. Deve‑se dar a oportunidade da criança questionar e entender a situação da forma como ela bem entender. O fato deve ser revelado aos poucos e todos os fatos devem ser nomeados e significados. Não basta que os pais contem o que ocorreu ao filho, é importante que esta verdade faça parte do discurso da família, que possa ser veiculada sempre que houver interesse ou necessidade. Quando não se sabe detalhes da história pregressa da criança, é preciso que ela saiba disto. Não se devem inventar pedaços da história. Estas lacunas devem ser de conhecimento da criança. Não há consenso sobre em que momento da vida da criança a verdade deva ser revelada. Este momento deve ser avaliado pelos pais e decidido em conjunto por eles. A respeito do estágio de convivência, o acompanhamento realizado aqui busca saber como está se dando a adaptação entre a criança e seus novos pais, que dificuldades ou dúvidas emergem, como a situação vivida se coaduna com as expectativas anteriormente formuladas, como os adotantes conseguem integrar aquela criança desconhecida à condição de filho e até mesmo pesquisar a ocorrência de algum fato grave que implique sérios riscos ao bom prognóstico da adoção. 27 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a PSICOLOGIA JURÍDICA Os novos pais podem não estar preparados para compreender e lidar com as angústias, fantasias, medos e hesitações manifestadas por seus filhos, assim como acontece com qualquer pai e mãe. A diferença é que terão ainda de enfrentar suas imperfeições e o sentimentode incompletude e, na medida do possível, elaborar perdas, lutos, dúvidas quanto às suas capacidades, temores relacionados ao passado desconhecido da criança e empreender um longo percurso para serem, também, adotados pelos novos filhos. 5 O TRABALHO DOS PSICÓLOGOS NAS VARAS ESPECIAIS COM OS ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI E AS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS Sempre que um adolescente comete um delito, ele não será considerado um criminoso e sim um infrator, seu ato não será compreendido como um crime e sim como um ato infracional e deverá, por determinação judicial, cumprir o que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina como medida socioeducativa. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), considera‑se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal. Desta forma, a considerar que o ECA entende que o ato infracional só pode ser cometido pelos adolescentes, os menores de 18 anos, mesmo que praticando um suposto ato delituoso, não são criminalizados e nem penalizados com medidas socioeducativas e sim os pais, que serão orientados e encaminhados (núcleo familiar) a programas de apoio e acompanhamento psicológico e social. Segundo o ECA (BRASIL,1990), todos os adolescentes terão o direito de permanecer em liberdade e esta só poderá ser retirada mediante expressa decisão do Poder Judiciário. Todo e qualquer ato do adolescente deverá ser comunicado aos pais ou responsáveis e se for determinada a internação imediata, esta só poderá ser determinada por no máximo 45 dias. Além disto, está assegurado ao adolescente ampla defesa e um advogado constituído, seja defensor público ou similar. As medidas socioeducativas estão previstas no artigo 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e se aplicam aos adolescentes que cometem algum tipo de ato infracional. São sete as medidas e estas podem ser cumpridas em meio aberto ou fechado; para o ECA, são adolescentes aquelas pessoas que têm entre 12 e 18 anos de idade. São consideradas medidas socioeducativas em meio aberto aquelas em que os adolescentes autores de ato infracional, por meio de encaminhamentos da vara da Infância e da Adolescência podem cumprir, com responsabilidade, sem perder o direito de ir e vir, como ocorre na Liberdade Assistida (LA) e na Prestação de Serviço à Comunidade (PSC). A imposição das medidas socioeducativas e não das penas criminais relaciona‑se justamente com a finalidade pedagógica que o sistema deve alcançar. Para obter seus objetivos, as medidas devem ser disponibilizadas em programas capazes de atuar em duas dimensões: sancionatória, reprovando o ato cometido e pedagógica, oferecendo condições efetivas para a superação daquela vivência ou vulnerabilidade. Daí a importância do psicólogo no cumprimento destas medidas. Os psicólogos são os profissionais que serão responsáveis pelo acompanhamento deste adolescente durante seu trabalho junto à instituição que o observará na medida socioeducativa. 28 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade II Medidas socioeducativas: • Advertência: é uma repreensão verbal feita pelo juiz e poderá ser aplicada sempre que houver prova da materialidade e de indícios suficientes da autoria do ato. Precisa ser assinada pelo adolescente (art. 115, ECA). • Obrigação de reparar o dano: se o ato infracional tratar de danos ao patrimônio, o juiz pode determinar que o adolescente devolva a coisa, indenize ou compense, por outra forma, o prejuízo da vítima (art. 116, ECA). • Prestação de Serviço à Comunidade (PSC): consiste na realização de tarefas gratuitas, em instituições assistenciais, hospitais, escolas ou outros, bem como em programas comunitários ou governamentais (art. 117, ECA). As tarefas devem ser atribuídas de acordo com a aptidão do adolescente, compreendendo, no máximo, oito horas semanais, não podendo prejudicar a frequência à escola ou a jornada de trabalho. O cumprimento dessa medida não pode exceder a seis meses. • Liberdade Assistida (LA): deve ser aplicada sempre que for a medida mais adequada para acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente (art.118, ECA). É uma forma do adolescente ser responsabilizado pelo delito que cometeu sem necessitar do afastamento do lar, da escola e do trabalho. Durante o cumprimento da medida, o adolescente fica sob a supervisão de um orientador, uma pessoa capacitada para acompanhar o caso, que poderá ser recomendada por entidade ou programa de atendimento. • Semiliberdade: possibilita ao adolescente a realização de atividades externas, independentemente da autorização judicial. É aplicada como transição ao meio aberto, uma forma de progressão de regime que beneficia aqueles que já se encontram privados de liberdade e que ganham direito a uma medida mais favorável e à profissionalização (art. 120, ECA). • Internação: constitui medida privativa de liberdade e deve ser cumprida em entidade exclusiva para adolescentes. Está sujeita ao princípio da brevidade e excepcionalidade, levando‑se em consideração a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Em nenhuma hipótese o prazo máximo para internação excederá 3 anos. Quando atingido este limite, o adolescente pode ser liberado ou colocado em regime de semiliberdade ou liberdade assistida. Quando o adolescente é encaminhado para o cumprimento da medida de internação – até mesmo para as medidas de Liberdade Assistida e/ou Semiliberdade, a ele será indicada a elaboração do Plano Individual de Atendimento (PIA). Este documento deve valorizar o respeito à individualidade e à singularidade do adolescente autor de ato infracional. O PIA deve contemplar informações sobre os seguintes aspectos: avaliação inicial nas áreas jurídica, psicológica, social, pedagógica e de saúde; acesso a programas de escolarização, esporte, saúde, cultura, lazer, profissionalização, entre outros (CFP, 2010). O PIA tem por propósito orientar o profissional que acompanhará o adolescente e o próprio a traçar um caminho a ser seguido no cumprimento da medida socioeducativa determinada. O adolescente 29 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a PSICOLOGIA JURÍDICA precisa ter um referencial, um objetivo final que sirva de “norte” para o desenvolvimento de sua história futura. É preciso que ele estabeleça metas e objetivos a serem alcançados e, se estes não forem pré‑determinados, pouco o adolescente conseguirá e provavelmente sentirá desmotivação em relação ao cumprimento da medida. Até porque esta não pode ser compreendida por ele como uma “punição” e sim como um momento de ressocialização e de “socioeducação”, de mudanças de paradigmas e perspectivas em sua vida. Mas quem é o adolescente que comete um ato infracional? Tentar entender e justificar atos violentos praticados por adolescentes e até em alguns casos por crianças tem sido o maior desafio dos operadores do Direito e também dos psicólogos jurídicos, que são os profissionais que, junto com a Assistência Social são responsáveis pelo efetivo cumprimento das medidas socioeducativas determinadas pelos juízes e realizadas pelos adolescentes. Todo e qualquer projeto de intervenção e até mesmo de prevenção junto a esta população depende de uma compreensão clara de quais são as motivações destes jovens e quais são suas vulnerabilidades e fatores de proteção, além da rede de apoio social e familiar. Esta observação cuidadosa se faz importante para o sucesso do projeto e também para a disponibilidade e participação de adolescente para tal. De forma contrária, este adolescente não terá perspectivas e nem mesmo referencial que o incentive a mudar de vida e com isso deixar de cometer atos infracionais. A socialização de tais adolescentes e, principalmente, a prevenção do ato infracional são questões que urgem respostas e esforços de todos os profissionais envolvidos com este adolescente. (GALLO; WILLIANS,2005). Quando observamos adolescentes em conflito com lei, vemos em seu rol de comportamentos aqueles que são denominados como antissociais. Na maioria das situações, quando realizamos uma avaliação da história pregressa deste adolescente, podemos verificar que este tem um histórico de brigas e mau comportamento na escola, em casa, com familiares próximos, além de destruição de propriedade, uma postura desafiadora e muitas vezes opositiva em relação às regras. Em somatória a isto nota‑se também que uma boa parte destes adolescentes vive em ambientes sociais que propiciam e até incentivam este tipo de comportamento – além de famílias disfuncionais que pouco fazem para refrear o comportamento inadequado do adolescente. Segundo Gallo e Willians (2005) seria equivocado pensarmos que um ou outro fator isolado pode ser responsável pelo ato infracional do adolescente em conflito com a lei. Uma vez que este adolescente viola regras sociais repetidas e insistentes vezes, notas‑se que seu comportamento antissocial provavelmente é resultado de diversos fatores de risco e estes podem ser pessoais, familiares, sociais escolares e até biológicos. Vale ressaltar que não são todos os adolescentes que, mesmo vulneráveis e expostos, praticam atos infracionais. Muitos deles se sobressaem e adaptam‑se a estes eventos estressores de forma muito positiva, apresentando estratégias de enfrentamento adequadas e não desenvolvendo comportamentos equivocados. Vários estudos nacionais e internacionais têm observado que crianças e adolescentes que vivenciam violência doméstica de qualquer qualidade têm maior probabilidade de apresentarem comportamentos agressivos fora deste ambiente, acarretando, assim, atos infracionais. Isto parece dever‑se ao fato de que estes adolescentes vão utilizar a violência como forma predominante de resolução de problemas, além de devolver à sociedade a própria violência sofrida dentro do núcleo familiar. 30 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade II 6 A ATUAÇÃO DOS PSICÓLOGOS NO SISTEMA PENAL Em 1997, a Administração Penitenciária do Estado de São Paulo promoveu um concurso para provimento de cargos, entre os quais, o de Psicólogo Penitenciário. A inserção do psicólogo neste sistema deu‑se de forma lenta e gradual, além de experimental, por contar com pouco material teórico discutindo e fundamentando esta atuação. Na coleta de dados realizada em 2005 pelo CFP em parceria com o Depen, junto aos psicólogos que trabalham no sistema prisional dos diferentes estados, foram identificados profissionais que atuam nessa área desde 1970; todavia, sabemos que o trabalho começou muito antes (CFP, 2007). No sistema penitenciário observa‑se a presença de sujeitos que não internalizaram regras de convivência mínima na sociedade e nem mesmo autorregras que determinam o que é certo ou errado. O comportamento criminoso está em ascensão em nossa sociedade e os criminosos estão cada vez mais audaciosos, utilizando‑se de requintes de crueldade mais assustadores. Isto desperta nos estudiosos e também na sociedade em geral a curiosidade e a necessidade de conhecer mais sobre o comportamento antissocial. Esta não é uma dúvida recente, Lombroso, desde o início do século passado, já esboçava uma teoria explicativa e dizia que o indivíduo já nascia criminoso, posto que o crime era um fenômeno hereditário, como também possuía características físicas e psicológicas que serviam para identificá‑lo, além da reincidência ser uma regra entre eles. As penas, como são conhecidas hoje, deveriam ter como ideal um caráter retributivo e punitivo, funcionando como uma prevenção geral do delito através do princípio do exemplo e ressocializadora e terapêutica, funcionando como uma prevenção especial do delito, buscando a ressocialização do apenado (Bitencourt, 2001 apud, CFP, 2013). Atualmente, considera‑se a criminalização como algo não natural nem mesmo regida por causas biológicas e/ou individuais mas como um processo social e histórico, delimitado por uma definição de crime como determinado socialmente e de acordo com o momento histórico. A massa carcerária, procedente das camadas mais pobres da sociedade, é mal escolarizada, despreparada para o mercado de trabalho, excluída do processo de produção e, para agravar, é, na grande maioria, usuária de drogas ilícitas, o que a torna mais vulnerável ao tráfico de drogas e aos ataques da polícia (CFP, 2007). Infelizmente, vários estudos têm demonstrado que as prisões, como são hoje, não produzem uma reforma interna nos apenados e sim os criminalizam mais, portanto, não são eficazes em sua proposta inicial. A partir deste panorama, surge o trabalho do psicólogo no sistema prisional, que pode ter várias vertentes, ajudar o apenado em relação ao sofrimento produzido pelo cárcere (distância da família, ambiente insalubre e a privação da própria liberdade), bem como a possibilidade de ressocialização, buscando melhores estratégias de enfrentamento para um possível retorno à comunidade. 31 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a PSICOLOGIA JURÍDICA Em 1984 foi publicada a lei 7.210/84, lei de Execução Penal, que estabeleceu, em seu artigo 1º, o objetivo de “efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado” (BRASIL, 1984). Aqui, o psicólogo faz parte de uma equipe chamada de Comissão Técnica de Classificação (CTC), que avalia o apenado e pode ou não lhe dar a oportunidade da progressão da pena através da previsibilidade de sua presumida adaptabilidade social. As CTCs tinham a incumbência de classificar os apenados e isto determinaria sua história na execução da pena. O psicólogo, então, passou a ter um lugar de perito para subsidiar o juiz nas suas decisões de concessão ou não da progressão de regime. Em 2003, a lei de Execução Penal foi alterada e retirada à importância da CTC e sua responsabilidade da execução penal e a exigência do exame criminológico – tirando do psicólogo a sua função de perito – atuando este profissional, a partir de então, na atenção à saúde do detento. 7 AS TÉCNICAS E INTERVENÇÕES DA CONCILIAÇÃO, DA ARBITRAGEM E DA MEDIAÇÃO Quando as pessoas não se comunicam de forma adequada, surgem os conflitos e os participantes desta situação sentem‑se ameaçados e temerosos em relação ao futuro. A comunicação pode nos colocar algumas armadilhas, logo, para evitá‑las é preciso que se criem condições para o diálogo e para que este ocorra de forma saudável. É preciso que haja coincidência de tema, que os interlocutores deem ao assunto a mesma importância e que cheguem a uma definição comum dos termos utilizados na conversação. É comum que os litigantes precisem de um interlocutor para que a conversa flua de forma natural e eficaz e para isso podem lançar mão de um mediador, conciliador ou negociador. Esses facilitadores da comunicação passam a fazer parte do problema a ser discutido, do diálogo e da solução. E quando a comunicação falha? Inevitavelmente, surgem os conflitos, que podem ser definidos como o conjunto de propósitos, métodos ou condutas divergentes, o oposto de congruência. O conflito é inerente à vida e por meio dele a evolução se processa. Porém em algumas situações, o diálogo deve permanecer em todas as etapas do convívio, por exemplo, entre casais, mesmo que estes estejam em processo de separação litigioso. Os psicólogos jurídicos muitas vezes se deparam com casais que não conseguem conversar, cujo diálogo está comprometido ou em falta, ou que possuem dificuldade de comunicação saudável, o que pode estar prejudicando a evolução e a possível solução da disputa judicial. Outras situações muito comuns em que se nota uma intensa dificuldade de comunicação ocorrem entre as pessoas que mantém uma convivência e que, por algum motivo alheioàs suas vontades, têm este convívio prejudicado. Aqui cabe exemplificar pessoas que moram no mesmo condomínio, que moram na mesma comunidade, até as que fizeram um acordo comercial que não foi honrado por uma das partes. 32 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade II Provavelmente, se as partes não estiverem disponíveis emocionalmente para um diálogo, a solução destes conflitos será prejudicada. Daí a necessidade de se propor um método alternativo de resolução de conflito, seja a conciliação, para pessoas que não necessariamente precisam preservar o vínculo, ou a mediação, para aquelas pessoas que vão manter contato no futuro e precisam preservar este vínculo mesmo na vigência de um conflito. Desta forma, o conceito de conciliação determina que este é um método cooperativo de resolução de conflitos e seu objetivo é colocar fim à problemática. Não há interesse em buscar ou identificar razões ocultas que levaram ao conflito e outras questões pessoais dos envolvidos, assim como não há interesse na preservação do vínculo de convivência entre ambas as partes. Já na mediação, o mediador atua para promover a solução do conflito por meio do diálogo e do reajustamento das opiniões das partes envolvidas. O mediador ajuda as pessoas a aceitarem o diferente e a observarem o outro de igual para igual. A mediação busca o resgate da comunicação e a solução do conflito vem naturalmente em consequência do próprio diálogo, este diálogo precisa ser resgatado e preservado exatamente pelo fato de que as pessoas precisam manter a convivência e a vinculação afetiva. Estas práticas alternativas de resolução de conflitos estão sendo cada vez mais utilizadas pelo judiciário – na intenção de “desafogar” o próprio sistema e sempre de uma forma mais célere e apropriada. Estas estratégias visam diminuir substancialmente o tempo de duração das lides (dos litígios), viabilizando a solução delas e de conflitos por intermédio de procedimentos simplificados e informais, reduzindo assim no número de processos que avolumam no Judiciário Brasileiro. É importante salientar que a mediação e a conciliação não têm o propósito de substituir o Poder Judiciário e seus trâmites, mas sim propor procedimentos extrajudiciais que auxiliem a resolução de conflitos de forma mais célere e menos prejudicial às partes. 33 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a REFERÊNCIAS SIQUEIRA, A.C; JAEGER, F. P. & KRUEL, C. S. Família e violência: conceitos, práticas e reflexões críticas. Juruá Editora. 2013. p. 67‑77. 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