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Slide 6 Regime de bens é o conjunto de regras que organiza a vida econômica do casamento. Ele define como os bens são adquiridos, administrados, usados e partilhados pelos cônjuges, desde a celebração até a dissolução (por separação ou morte). Também estabelece a responsabilidade por dívidas e trata tanto dos bens comuns quanto dos bens particulares de cada cônjuge. EFICAĆIA DO REGIME DE BENS A eficácia do regime de bens, seja ele escolhido pelos nubentes ou imposto pela lei, tem início com a celebração do casamento, momento a partir do qual passa a produzir efeitos jurídicos, conforme o art. 1.639, §1º do Código Civil. Esse regime permanece vigente durante toda a constância da união, estendendo seus efeitos até a sua dissolução, que pode ocorrer pela morte de um dos cônjuges ou pelo divórcio. Em determinadas situações, admite-se também a consideração da separação de fato como marco final da eficácia do regime de bens, uma vez que ela representa o término da convivência e da colaboração recíproca entre o casal. Princípios do regime de bens O regime de bens do casamento está submetido a três princípios básicos, que estruturam os efeitos em relação aos cônjuges e aos terceiros: 1. LIBERDADE DE ESTIPULAÇÃO. Com base na autonomia privada, é, em regra, permitido aos cônjuges escolher o regime de bens que regerá o casamento. Essa escolha deve ser realizada antes da celebração, durante a fase de habilitação, sendo necessária a formalização por meio de pacto antenupcial, lavrado por escritura pública em tabelionato de notas. Conforme dispõe o art. 1.639 do Código Civil, é lícito aos nubentes estipular livremente, antes do casamento, as regras que desejarem quanto aos seus bens. Exemplo: João e Maria decidem se casar e, antes da cerimônia, optam por adotar o regime de separação total de bens. Para isso, comparecem a um tabelionato de notas e lavram um pacto antenupcial por escritura pública, estabelecendo que cada um continuará sendo proprietário exclusivo dos bens que já possui e dos que vier a adquirir durante o casamento. Assim, caso o casamento termine, não haverá partilha de bens, pois o patrimônio de cada um permanece individual, conforme a escolha feita com base na autonomia privada. Se os nubentes não celebrarem pacto antenupcial, ou se ele for nulo ou ineficaz, aplica-se automaticamente o regime legal supletivo, que é o da comunhão parcial de bens, adotado no Brasil desde 1977. Nesse regime, comunicam-se os bens adquiridos durante o casamento. Ainda assim, durante o processo de habilitação, os nubentes podem escolher outro regime previsto em lei, devendo essa escolha ser formalizada: a comunhão parcial pode ser apenas registrada, enquanto os demais regimes exigem pacto antenupcial por escritura pública. Exemplo: Ana e Carlos decidem se casar, mas não fazem pacto antenupcial antes da cerimônia. Nesse caso, automaticamente passa a valer o regime da comunhão parcial de bens. Assim, tudo o que eles adquirirem durante o casamento será considerado comum ao casal, enquanto os bens que cada um já possuía antes de se casar permanecem individuais. Em regra, os nubentes podem escolher o regime de bens, mas o Código Civil limita essa liberdade em situações específicas de interesse público, impondo o regime de separação obrigatória de bens, também chamado de regime legal compulsório. Isso ocorre nos casos previstos taxativamente no art. 1.641, como quando há desrespeito a causas suspensivas do casamento, quando um dos cônjuges tem mais de 70 anos ou quando o casamento depende de suprimento judicial. Nesses casos, não há escolha: cada cônjuge mantém seu patrimônio separado. Contudo, se a causa que motivou essa obrigatoriedade deixar de existir, é possível solicitar judicialmente a alteração do regime de bens. Exemplo: Carlos, com 72 anos, decide se casar com Ana, de 60. Mesmo que ambos queiram adotar o regime de comunhão parcial ou outro qualquer, a lei impõe automaticamente o regime de separação obrigatória de bens, em razão da idade de Carlos. Assim, cada um permanecerá com seu patrimônio próprio, tanto o adquirido antes quanto durante o casamento. 2. VARIEDADE DO REGIME DE BENS Os nubentes podem criar um regime de bens próprio, diferente dos previstos no Código Civil, conforme sua vontade, desde que não viole a lei. Essa escolha deve ser feita por meio de pacto antenupcial com regras específicas para o casal. Segundo o Enunciado 331 do CJF, é possível adotar regime diverso dos tipificados, desde que isso seja devidamente registrado e certificado no processo de habilitação do casamento. Exemplo: João e Maria decidem que querem um regime de bens diferente dos previstos em lei. Eles fazem um pacto antenupcial estabelecendo que todos os bens adquiridos durante o casamento serão comuns, mas que os bens recebidos por herança ou doação também serão partilhados entre eles. Esse regime personalizado só é válido porque foi formalizado por escritura pública e não contraria a lei. 3. MUTABILIDADE MOTIVADA DO REGIME DE BENS No direito brasileiro, a regra geral é a imutabilidade do regime de bens após a celebração do casamento. Contudo, o Código Civil de 2002 passou a admitir a alteração desse regime posteriormente, desde que haja pedido judicial e sejam preenchidos os requisitos legais, caracterizando a chamada mutabilidade motivada (art. 1.639, §2º). Há ainda entendimento doutrinário de que essa possibilidade também se aplica aos casamentos realizados sob a vigência do Código Civil de 1916. Exemplo: João e Maria se casam adotando o regime de comunhão parcial de bens. Anos depois, percebem que desejam organizar melhor seu patrimônio e decidem mudar para o regime de separação total. Eles entram com um pedido na Justiça, comprovam os motivos da mudança e, se o juiz autorizar, o regime de bens passa a ser alterado, deixando de valer a comunhão parcial e passando a vigorar a separação de bens. Requisitos: i) Pedido formulado por ambos os cônjuges, por meio de petição inicial elaborada por advogado. ii) Autorização judicial, em procedimento de jurisdição voluntária. iii) Indicação de motivo relevante. iv) Inexistência de prejuízo de terceiros e dos próprios cônjuges. O STJ entende que, para alterar o regime de bens do casamento, não se pode exigir dos cônjuges justificativas excessivas ou provas detalhadas de prejuízo na manutenção do regime anterior, pois isso violaria a intimidade e a vida privada do casal. Assim, embora a mudança de regime dependa de decisão judicial, o controle do juiz deve ser razoável, sem invadir indevidamente a esfera pessoal dos consortes. Exemplo: João e Maria são casados sob o regime de comunhão parcial de bens e decidem pedir a alteração para separação total. No processo judicial, o juiz não pode exigir que eles provem detalhadamente conflitos pessoais, motivos íntimos ou prejuízos específicos na manutenção do regime atual. Basta que o pedido seja conjunto, livre de vícios e não prejudique terceiros, sem necessidade de exposição excessiva da vida privada do casal. A alteração do regime de bens no casamento produz efeitos ex nunc, ou seja, apenas a partir da decisão judicial que a homologa. Assim, tudo o que ocorreu antes da mudança permanece regido pelo regime anterior, enquanto os efeitos futuros passam a seguir o novo regime escolhido pelo casal. Exemplo: João e Maria eram casados sob o regime de comunhão parcial de bens e, após decisão judicial, passaram a adotar a separação total de bens. Nesse caso, todos os bens adquiridos antes da alteração continuam sujeitos às regras da comunhão parcial, sendo partilháveis conforme esse regime. Já os bens adquiridos depois da decisão passam a pertencer exclusivamente a cada um, seguindo as regras da separação total. PACTO ANTENUPCIAL O pacto antenupcial é um negócio jurídico celebrado antes do casamento queserve para definir o regime de bens do casal, especialmente quando diferente do regime legal supletivo. Trata-se de um ato de conteúdo patrimonial, no qual os nubentes podem estabelecer regras sobre a administração dos bens, a circulação de riquezas entre eles e até efeitos perante terceiros, desde que respeitem a lei. Conforme o art. 1.639 do Código Civil, é permitido aos nubentes estipular livremente, antes do casamento, o que desejarem quanto aos seus bens. Exemplo: João e Maria, antes de se casarem, decidem que querem um regime diferente do padrão da lei. Eles fazem um pacto antenupcial em escritura pública, estabelecendo que todos os bens adquiridos durante o casamento serão administrados em conjunto, mas que cada um poderá vender sua parte apenas com autorização do outro. Assim, o pacto organiza a vida econômica do casal, definindo regras sobre administração e circulação dos bens durante o casamento. LIBERDADE DE ESCOLHA DO REGIME DE BENS O pacto antenupcial somente será obrigatório quando o interesse dos nubentes for adotar regime de bens diverso da comunhão parcial ou estabelecer outras avenças, sendo, em regra, um negócio facultativo. Exemplo: João e Maria vão se casar e não querem fazer nenhuma regra especial sobre os bens. Como não fizeram pacto antenupcial, automaticamente se aplica o regime da comunhão parcial de bens. Já se eles quisessem adotar separação total de bens ou criar regras próprias sobre administração do patrimônio, aí sim seria obrigatório fazer o pacto antenupcial. O pacto antenupcial pode ir além da escolha do regime de bens, incluindo outros negócios jurídicos (como doações, compra e venda, permuta e cessão de direitos), desde que não violem normas de ordem pública. Também admite cláusulas de caráter pessoal e existencial, como regras sobre encargos domésticos e aspectos espirituais. Contudo, conforme o art. 1.655 do Código Civil, será nula qualquer cláusula que contrarie disposição legal absoluta. FORMALIDADES O pacto antenupcial deve ser feito por escritura pública, sob pena de nulidade. Exige capacidade das partes, consentimento livre e objeto lícito, sendo inválidas cláusulas contrárias à ordem pública. Se for nulo, aplica-se o regime de comunhão parcial de bens. Além disso, como é acessório, a invalidade do casamento também invalida o pacto. O pacto antenupcial só passa a produzir efeitos após a celebração do casamento, sendo considerado ineficaz até que o matrimônio ocorra, conforme o art. 1.653 do Código Civil. Assim, mesmo que seja válido e feito por escritura pública, não gera efeitos antes do casamento. A escritura do pacto deve ser anexada aos documentos do processo de habilitação matrimonial. Além disso, não há prazo para a realização do casamento após a celebração do pacto, que permanece válido, porém com sua eficácia condicionada à efetiva celebração do matrimônio. Exemplo: João e Maria lavram um pacto antenupcial em cartório, escolhendo o regime de separação total de bens. Embora o pacto seja válido desde a sua elaboração, ele ainda não produz efeitos, pois o casamento não foi celebrado. Mesmo assim, o documento é anexado ao processo de habilitação. Após alguns anos, o casal finalmente se casa, e somente a partir desse momento o pacto passa a ter eficácia. Caso eles nunca venham a se casar, o pacto permanecerá sem efeitos jurídicos, sendo considerado ineficaz. Para que o pacto antenupcial produza efeitos em relação a terceiros, é necessário seu registro no Cartório de Registro de Imóveis do domicílio dos cônjuges, conforme o art. 1.657 do Código Civil. Para isso, os cônjuges devem apresentar a escritura pública do pacto e a certidão de casamento ao cartório competente. Caso não seja feito esse registro, o pacto continuará válido, porém terá eficácia apenas entre as partes, não podendo ser oposto a terceiros. Exemplo: João e Maria fizeram um pacto antenupcial em cartório escolhendo a separação total de bens, mas não registraram esse pacto no Cartório de Registro de Imóveis depois do casamento. Mais tarde, João fez uma dívida, e o credor achou que os bens do casal eram comuns. Como o pacto não foi registrado, ele vale só entre João e Maria e não pode ser usado contra o credor. Se tivesse sido registrado, o credor teria que respeitar a separação de bens. PACTO ANTENUPCIAL POR MENOR DE IDADE A capacidade para celebrar o pacto antenupcial é a mesma exigida para o casamento. No caso de menores entre 16 e 18 anos, é necessário o consentimento dos pais para casar e a assistência deles para que o pacto seja válido. Se o pacto for feito por menor, sua eficácia depende da aprovação do representante legal, salvo nas hipóteses de separação obrigatória de bens. Quando o casamento ocorre com suprimento judicial da autorização dos pais, não é possível fazer pacto antenupcial, pois o regime será obrigatoriamente o da separação de bens; se ainda assim for celebrado, o pacto será nulo por violar a ordem pública. Exemplo: João, com 17 anos, decide se casar com Maria e conta com a autorização dos pais. Antes do casamento, ele faz um pacto antenupcial com a assistência deles, escolhendo o regime de separação total de bens; nesse caso, o pacto é válido. Em outra situação, se João também tiver 17 anos, mas seus pais se recusarem a autorizar o casamento e ele conseguir essa autorização por decisão judicial, o regime de bens será obrigatoriamente o da separação de bens. Assim, não poderá fazer pacto antenupcial e, se fizer, esse pacto será considerado nulo por violar a lei. ADMINISTRAÇÃO DOS BENS O Código Civil estabelece que, em certas situações, um cônjuge precisa do consentimento do outro para praticar determinados atos, como forma de proteger o patrimônio do casal (art. 1.647). Ao mesmo tempo, a lei também prevê hipóteses em que cada cônjuge pode agir de forma independente, sem necessidade de autorização do outro, permitindo maior autonomia na administração de seus próprios interesses (art. 1.642). Exemplo: João e Maria são casados. Em uma situação, João quer vender um imóvel do casal; nesse caso, ele precisa da autorização de Maria, pois a lei exige a outorga conjugal para esse tipo de ato. Já em outra situação, João precisa ingressar com uma ação judicial para cobrar uma dívida de um cliente; aqui, ele pode agir sozinho, sem precisar da autorização de Maria, pois esse é um ato que a lei permite praticar independentemente do consentimento do outro cônjuge. ATOS QUE DEPENDEM DO CONSENTIMENTO DO CÔNJUGE Determinados atos são tão relevantes para o patrimônio do casal que exigem a autorização do outro cônjuge, conforme o art. 1.647 do Código Civil, que traz um rol taxativo dessas situações. Essa exigência não se aplica aos casados sob o regime de separação convencional (absoluta) de bens, em que cada cônjuge administra livremente seu patrimônio. Por outro lado, nos casos de separação obrigatória (legal) de bens, bem como nos regimes de comunhão parcial, comunhão universal e participação final nos aquestos, a outorga conjugal continua sendo necessária. I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis; A exigência de outorga conjugal recai apenas sobre bens imóveis, não se aplicando aos bens móveis. Assim, para vender ou gravar um imóvel, é necessário o consentimento do outro cônjuge, mesmo que esse bem seja particular, pois seus frutos podem integrar a comunhão. No entanto, no regime de participação final nos aquestos, é possível dispensar essa autorização, desde que isso esteja expressamente previsto no pacto antenupcial, conforme o art. 1.656 do Código Civil. Exemplo: João e Maria são casados pelo regime de comunhão parcial de bens. João possui um apartamento que adquiriu antes do casamento, ou seja, é um bem particular. Mesmo assim, se ele quiser vender esse imóvel, precisará da autorização de Maria, pois se trata de bem imóvel e a lei exige a outorgaconjugal, ainda que o bem não seja comum. Por outro lado, se João quiser vender um carro que está apenas em seu nome, ele pode fazer isso sozinho, sem precisar da autorização de Maria, já que se trata de bem móvel. II - pleitear, como autor ou réu, acerca bens imóveis ou direitos reais; Quando se trata de ações judiciais envolvendo pessoas casadas, a lei exige, em alguns casos, a outorga conjugal para que um dos cônjuges possa atuar sozinho no polo ativo (ou seja, como autor da ação). Já no polo passivo (como réu), a depender da situação, é obrigatório que ambos os cônjuges participem do processo, formando um litisconsórcio passivo necessário. Exemplo: João, casado com Maria, quer entrar com uma ação para vender um imóvel do casal; nesse caso, ele precisa da autorização de Maria. Por outro lado, se houver uma ação contra o casal envolvendo esse imóvel, tanto João quanto Maria deverão figurar como réus no processo obrigatoriamente. III - prestar fiança ou aval; Se uma pessoa casada quiser prestar fiança ou aval para garantir a dívida de outra pessoa, ela precisa da autorização do cônjuge. Exemplo: João é casado com Maria e quer ser fiador de um amigo em um contrato de aluguel. Para isso, ele precisa do consentimento de Maria. Se ele fizer a fiança sem essa autorização, o ato pode ser considerado inválido em relação ao cônjuge, protegendo o patrimônio do casal. IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam integrar futura meação. A pessoa casada não pode doar bens comuns, ou que possam integrar a comunhão, sem o consentimento do outro cônjuge, exceto no regime de separação convencional de bens. Como exceção, a lei permite as doações remuneratórias, feitas como forma de retribuição por um serviço prestado. Além disso, também são válidas as doações feitas aos filhos por ocasião do casamento ou quando passam a viver de forma independente, mesmo sem a autorização do outro cônjuge. Exemplo: João e Maria são casados em comunhão parcial de bens. João decide doar um carro do casal ao irmão sem avisar Maria; essa doação é inválida, pois faltou o consentimento dela. Em outra situação, João paga um pedreiro que reformou sua casa doando um bem como forma de retribuição pelo serviço; nesse caso, a doação é válida mesmo sem autorização. Além disso, se João doar um valor ou bem ao filho quando ele se casar ou passar a viver sozinho, essa doação também será válida, ainda que Maria não tenha consentido. A autorização do cônjuge deve ser comprovada pela mesma forma exigida para o ato principal. Ou seja, se o ato precisar ser feito por escritura pública, a autorização também deverá constar em escritura pública, preferencialmente no mesmo documento. Exemplo: se João quiser vender um imóvel, a venda exige escritura pública; assim, a autorização de Maria deve estar na própria escritura. Se essa autorização não estiver na forma correta, o ato pode ser considerado inválido. SUPRIMENTO JUDICIAL DO CONSENTIMENTO O Código Civil permite que, quando um cônjuge se recusa injustificadamente ou não pode dar autorização para determinado ato, o outro peça ao juiz o suprimento dessa outorga. Assim, o juiz analisa se a recusa é razoável e, se não for, pode autorizar a prática do ato, garantindo sua validade. Exemplo: João quer vender um imóvel, mas Maria se recusa sem apresentar motivo justificável. Diante disso, João pode recorrer ao juiz, que, entendendo a recusa como injusta, pode autorizar a venda mesmo sem o consentimento de Maria. ANULABILIDADE DO ATO PRATICADO SEM AUTORIZAÇÃO Quando a lei exige autorização do cônjuge e ela não é dada nem suprida pelo juiz, o ato não é nulo, mas anulável. Isso significa que ele produz efeitos normalmente até que seja anulado judicialmente. O outro cônjuge pode pedir a anulação em até dois anos após o fim da sociedade conjugal. Além disso, somente o cônjuge que deveria ter dado a autorização, ou seus herdeiros, têm legitimidade para pedir essa anulação. Exemplo: João vende um imóvel sem a autorização de Maria. A venda é válida inicialmente e produz efeitos, mas Maria pode entrar na Justiça para anular o ato. Se o casamento terminar, ela ainda terá até dois anos para fazer esse pedido. ATOS QUE INDEPENDEM DO CONSENTIMENTO DO CÔNJUGE Apesar de existir um interesse patrimonial comum no casamento, cada cônjuge mantém sua autonomia individual, podendo praticar certos atos sem precisar da autorização do outro. O Código Civil prevê essas situações no art. 1.642, estabelecendo que, independentemente do regime de bens, há atos que podem ser realizados livremente por cada cônjuge. Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a mulher podem livremente: I - praticar todos os atos de disposição e de administração necessários ao desempenho de sua profissão, com as limitações estabelecida no inciso I do art. 1.647; II - administrar os bens próprios; III - desobrigar ou reivindicar os imóveis que tenham sido gravados ou alienados sem o seu consentimento ou sem suprimento judicial; IV - demandar a rescisão dos contratos de fiança e doação, ou a invalidação do aval, realizados pelo outro cônjuge com infração do disposto nos incisos III e IV do art. 1.647 ; V - reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos pelo outro cônjuge ao concubino, desde que provado que os bens não foram adquiridos pelo esforço comum destes, se o casal estiver separado de fato por mais de cinco anos; VI - praticar todos os atos que não lhes forem vedados expressamente. DÍVIDAS CONTRAÍDAS AO LONGO DO CASAMENTO Nem toda dívida feita por um dos cônjuges será dividida com o outro. Isso depende de alguns fatores: se a dívida trouxe benefício para o casal, qual é o regime de bens adotado e se ela foi contraída antes ou durante o casamento. Exemplo: João, casado com Maria em comunhão parcial, faz um empréstimo para reformar a casa onde ambos moram; essa dívida pode ser compartilhada, pois beneficiou o casal. Já se João faz um empréstimo para fins pessoais, sem relação com a vida em comum, a dívida tende a ser apenas dele, não atingindo Maria. A proteção dos terceiros de boa-fé O Código Civil prevê que, quando um cônjuge pratica sozinho um ato permitido por lei, mas isso acaba prejudicando um terceiro de boa- fé, esse terceiro pode ter direito de regresso contra o cônjuge que realizou o negócio. Nesses casos, a responsabilidade recai apenas sobre os bens particulares do cônjuge que agiu de forma indevida. Exemplo: João, casado com Maria, presta fiança para um amigo sem a autorização dela. Posteriormente, a fiança é questionada e o terceiro é prejudicado. Nessa situação, esse terceiro pode cobrar o prejuízo diretamente de João, mas apenas sobre os bens particulares dele, sem atingir o patrimônio de Maria. Impossibilidade de gestão patrimonial por um dos cônjuges Quando um dos cônjuges não puder administrar seus bens (por ausência, incapacidade, etc.), o outro pode assumir essa administração. Nessa situação, ele pode gerir os bens comuns e também os do outro cônjuge, podendo inclusive vender os bens móveis comuns sem precisar de autorização judicial. Porém, se quiser vender bens imóveis comuns ou bens (móveis ou imóveis) que pertencem exclusivamente ao outro cônjuge, será necessária autorização do juiz. Exemplo: Maria fica hospitalizada por longo período e não consegue administrar seus bens. João passa a cuidar do patrimônio do casal e pode vender um carro comum sem autorização judicial. No entanto, se quiser vender um imóvel do casal ou um bem particular de Maria, precisará de autorização judicial.