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SLIDE 3 TEORIA GERAL DO CASAMENTO O casamento é uma entidade familiar entre duas pessoas, formal e solenemente constituída, que cria uma comunhão de afetos e gera efeitos pessoais, sociais e patrimoniais. Sua finalidade principal é a comunhão de vida, não dependendo necessariamente de procriação, educação de filhos ou adoção de sobrenome, e há muito deixou de ter caráter indissolúvel ou exclusivamente religioso. NATUREZA JURÍDICA O casamento é majoritariamente classificado pela doutrina como um contrato especial de Direito de Família, um negócio jurídico bilateral que busca efeitos jurídicos por meio do consentimento dos cônjuges. Apesar de ter natureza contratual, trata-se de um negócio jurídico especial de índole familiar, não se submetendo integralmente às regras gerais do direito contratual devido à sua estrutura existencial. Por exemplo, normas como o equilíbrio econômico e financeiro do contrato (arts. 317 e 478 do Código Civil) não se aplicam ao casamento. Além disso, embora os cônjuges possam livremente decidir casar-se ou escolher o regime de bens, não podem excluir os deveres legais de fidelidade, respeito e assistência mútua, que são imperativos legais. Segundo Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona, o casamento é “um contrato especial de Direito de Família, por meio do qual os cônjuges formam uma comunidade de afeto e existência, mediante a instituição de direitos e deveres recíprocos e em face dos filhos.” Exemplo: Ana e Bruno decidem se casar e optam pelo regime de comunhão parcial de bens, mas mesmo escolhendo livremente o regime, não podem renunciar aos deveres de fidelidade, respeito e assistência mútua, pois esses são impostos por lei. O casamento, nesse caso, funciona como um contrato especial de Direito de Família, baseado no consentimento, mas com regras próprias que não se confundem totalmente com o direito contratual comum. CARACTERÍSTICAS i) Caráter personalíssimo e livre da escolha dos nubentes A vontade de casar depende exclusivamente da manifestação do interessado, sendo necessária autorização dos pais apenas para menores de 16 a 18 anos. O consentimento é requisito essencial para a existência do casamento, exigido tanto na habilitação quanto na celebração, e, se for viciado, pode gerar a nulidade do ato matrimonial. Além disso, é possível realizar a habilitação e a celebração do casamento por meio de procuração com poderes específicos. ii) Solenidade da celebração O casamento ocorre por meio de solenidades legais, que incluem a habilitação dos nubentes, a publicação dos editais, a cerimônia matrimonial e o registro no cartório de pessoas naturais. O descumprimento dessas solenidades torna o casamento inexistente, sendo esta a característica mais marcante do ato matrimonial. iii) Inexigência de diversidade de sexos De acordo com os Tribunais Superiores, o casamento pode ser celebrado tanto entre pessoas de sexos diferentes quanto entre pessoas do mesmo sexo. A jurisprudência consolidada sobre o tema foi marcada pelo STF na ADIN 4277/DF, julgada em 14/10/2011, e pelo STJ no RESP 1.183.378/RS, julgado em 25/10/2011, que estabeleceram a inexigência de distinção quanto ao sexo dos cônjuges para a celebração do casamento. iv) Inadmissibilidade de submissão a termo ou condição O casamento é um negócio jurídico puro e simples, não podendo estar sujeito a condição, termo ou encargo. Uma vez existente e válido, ele produz automaticamente seus efeitos legais. v) estabelecimento de uma comunhão de vida A principal finalidade do casamento é estabelecer uma vida em comum, configurando uma parceria existencial, afetiva e social, conforme o art. 1.511 do Código Civil. Isso envolve a vida afetiva e íntima compartilhada, decisões conjuntas sobre o dia a dia e o futuro, apoio emocional, financeiro e social mútuo, planejamento de vida em conjunto (como filhos, patrimônio e estilo de vida) e a prática de respeito e solidariedade recíprocos. O casamento, portanto, cria uma comunhão plena de vida, baseada na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges. vi) natureza cogente das normas que o regulamentam A natureza das normas sobre o casamento é de ordem pública, não podendo ser afastada pelo interesse das partes. As pessoas têm liberdade para agir dentro das regras do ordenamento jurídico, como escolher o regime de bens, optar pelo casamento civil, religioso com efeitos civis ou até decidir não casar, desde que não violem as normas estabelecidas. vii) Monogamia Não é permitido que uma pessoa casada contraia outro casamento simultaneamente, havendo assim a limitação de uma união por vez. A monogamia decorre do art. 1.521, VI, do Código Civil e constitui causa impeditiva de casamento, embora não esteja prevista na Constituição. A bigamia é crime, previsto no art. 235 do Código Penal, com pena de reclusão de dois a seis anos, enquanto o adultério deixou de ser crime desde 2005. O entendimento jurisprudencial afasta o reconhecimento de uniões estáveis simultâneas ou paralelas. Segundo o STF, para fins de repercussão geral (tema 529), “a preexistência de casamento ou de união estável de um dos conviventes, ressalvada a exceção do artigo 1.723, §1º, do Código Civil, impede o reconhecimento de novo vínculo referente ao mesmo período, inclusive para fins previdenciários, em virtude da consagração do dever de fidelidade e da monogamia pelo ordenamento jurídico- constitucional brasileiro” (RE 1045273, Relator: Alexandre de Moraes, julgado em 21/12/2020). viii) Dissolubilidade De acordo com a vontade das partes, o casamento pode ser dissolvido a qualquer momento, seja por consenso mútuo ou de forma unilateral. O STF, no julgamento do Recurso Extraordinário 1.167.478 com repercussão geral em 08/11/2023, decidiu que a separação judicial não é mais requisito para o divórcio e deixou de existir como figura autônoma no ordenamento jurídico, sem afetar o estado civil das pessoas que já estavam separadas (Tema 1.053 STF). PROVA DO CASAMENTO O casamento deve ser comprovado, em regra, por meio da certidão de registro civil emitida pelo cartório de pessoas naturais (art. 1.543). Trata-se de uma prova pré-constituída, resultante do caráter formal e solene do casamento, que exige registro público. A certidão gera presunção de prova do casamento, embora seja admitida contraprova. Caso a certidão seja extraviada, qualquer pessoa pode solicitar a emissão de uma segunda via no registro civil. Quando não for possível apresentar a certidão de casamento, seja por não ter sido lavrada ou por ter se perdido no cartório, é admissível a prova indireta ou supletória por todos os meios legais, como testemunhas, documentos, fotografias ou filmagens (art. 1.543, parágrafo único). Essa prova é feita por meio da justificação judicial do casamento, que permite a lavratura de um novo registro, produzindo efeitos a partir da data em que se comprovar que o casamento ocorreu (art. 1.546). Exemplo: João e Maria casaram-se há anos, mas o cartório perdeu a certidão de casamento. Para comprovar a união, eles apresentam testemunhas, fotos e vídeos da cerimônia. O juiz realiza a justificação judicial, reconhecendo o casamento e determinando a emissão de uma nova certidão, com efeitos retroativos à data original da união. Admite-se como prova do casamento a posse do estado de casado, que se manifesta pelo uso social do nome de casado, pelo tratamento público e notório e pelo reconhecimento social da pessoa como casada. Essa prova deve ser utilizada apenas em último caso, pois pode ocultar a existência de uma união estável sem casamento formal. O Código Civil adota o princípio in dubio pro casamento, aplicável em processos judiciais quando houver dúvida entre provas favoráveis e desfavoráveis à existência do casamento (art. 1.547). Exemplo: Carlos e Helena nunca registraram formalmente o casamento,mas vivem juntos há anos, usam socialmente os nomes de casados e são reconhecidos pela comunidade como marido e mulher. Diante de um processo judicial que questiona a existência do casamento, a posse do estado de casado pode ser usada como prova, aplicando-se o princípio in dubio pro casamento, para favorecer o reconhecimento da união como casamento. Para que o casamento de um brasileiro realizado no exterior tenha publicidade no Brasil, é necessário registrar a certidão de casamento no cartório de pessoas naturais no prazo de 180 dias a partir do retorno de pelo menos um dos cônjuges ao território nacional (art. 1.544 do Código Civil). Segundo o STJ, mesmo sem esse registro, o casamento continua existente e válido, carecendo apenas de publicidade. A ausência do registro, no entanto, impede que a pessoa se case novamente no Brasil sem antes dissolver legalmente o casamento estrangeiro, que é considerado válido e eficaz. Exemplo: João, brasileiro, casou-se com Ana nos Estados Unidos. Ao voltar ao Brasil, ele deve registrar a certidão de casamento em até 180 dias no cartório de seu domicílio. Mesmo que não registre imediatamente, o casamento é válido, mas João não poderá casar-se novamente no Brasil sem antes dissolver legalmente a união com Ana. ESPONSAIS (PROMESSA DO CASAMENTO) Os esponsais, também chamados de promessa esponsalícia ou noivado, consistem no ato pelo qual as partes prometem recíproca e livremente casar-se. Nesse compromisso, os noivos assumem obrigações mútuas, como o pagamento de despesas com a habilitação para o casamento, o enxoval, a compra ou aluguel de imóvel e a aquisição de móveis para a formação do lar. O noivado não exige forma pública ou solenidade, sendo geralmente verbal, e não possui prazo mínimo ou máximo para a realização do casamento. Exemplo: João e Maria firmaram um noivado, prometendo casar-se no futuro. Durante o período do noivado, eles compram móveis para o apartamento que irão morar juntos e organizam o enxoval. Esse compromisso não precisa ser registrado ou ter cerimônia pública e pode ser cumprido em qualquer prazo, desde que ambos mantenham a intenção de se casar. A promessa de casamento não pode ser usada para obrigar os noivos a se casar. Os esponsais não possuem alcance contratual, não se configurando como um contrato ou contrato preliminar, de modo que, se uma das partes se arrepender, não há como exigir judicialmente o cumprimento da promessa. Dos esponsais não decorrem efeitos jurídicos no direito de família, sejam pessoais ou patrimoniais. Os noivos não podem exigir judicialmente deveres como fidelidade ou coabitação, nem há presunção legal de colaboração para eventual partilha de bens adquiridos durante o noivado. Se os bens forem adquiridos com contribuição de ambos para a formação do lar, e houver prova dessa colaboração, deverão ser partilhados. Não se aplicam regras de parentesco entre os noivos, não existindo juridicamente sogros, genros ou cunhados. Exemplo: João e Maria estiveram noivos por dois anos e compraram juntos alguns móveis e eletrodomésticos para o apartamento que planejavam morar. Ao terminar o noivado, Maria devolve apenas parte dos bens, mas, comprovada a contribuição de ambos para a aquisição, João pode exigir a partilha proporcional dos bens. No entanto, durante o noivado, eles não têm deveres legais de fidelidade ou coabitação, nem surgem vínculos de parentesco entre suas famílias. A doutrina e a jurisprudência reconhecem que o rompimento indevido do noivado pode gerar efeitos no campo da responsabilidade civil. Em alguns casos, o noivo prejudicado pode ter direito a indenização por danos materiais ou morais causados pelo rompimento. Para que haja responsabilidade civil, é necessário que ocorra ato ilícito por violação de direito alheio (art. 186 do Código Civil) ou por abuso de direito (art. 187). Um exemplo é o noivo que abandona o outro no altar, causando danos materiais com os gastos da cerimônia e danos morais pela exposição da honra do noivo abandonado. MODALIDADES DE CASAMENTO No Brasil adota-se o casamento civil (art. 1.512), devendo ser atendidos os requisitos legais para que ele tenha validade e eficácia. É comum utilizar-se a expressão “casamento civil” para se referir ao ato celebrado perante a autoridade oficial do Estado, como juiz de direito ou juiz de paz, e “casamento religioso com efeitos civis” para identificar o matrimônio realizado por autoridade de qualquer religião brasileira, desde que siga os procedimentos exigidos por lei. Ambos são considerados casamentos civis para o direito, diferenciando-se apenas pela forma da cerimônia: uma realizada pelo juiz e a outra por autoridade religiosa, sendo mais adequado chamar esta última de “casamento civil com cerimônia religiosa”. Exemplo: Marcos e Ana realizam seu casamento perante o juiz de paz no cartório, caracterizando um casamento civil tradicional. Já Carla e Lucas realizam a cerimônia em uma igreja, com um sacerdote da religião deles, mas registram o casamento no cartório seguindo os procedimentos legais, configurando um casamento religioso com efeitos civis. Para o direito, ambos os casamentos têm validade e eficácia civis. O casamento religioso com efeitos civis ocorre quando a cerimônia religiosa atende às exigências legais para a validade do casamento civil e é devidamente registrado no cartório, produzindo efeitos a partir da data da celebração (arts. 1.515 e 1.516). Respeitando o direito constitucional à liberdade de consciência e crença (art. 5º, VI), os noivos podem formalizar a união perante a religião escolhida, e, após o registro, todos os efeitos civis passam a vigorar. Pessoas que se casam apenas no religioso, sem registro, não são consideradas legalmente casadas, podendo, entretanto, configurar união estável. IMPEDIMENTOS MATRIMONIAIS Impedimentos matrimoniais são obstáculos previstos pela legislação para limitar a possibilidade de casar, sendo circunstanciais, ligadas a situações específicas de fato ou de direito. Eles estão taxativamente previstos no Código Civil (art. 1.521) e a violação de qualquer impedimento resulta na nulidade absoluta do casamento (art. 1.548, II), sem que dele decorram efeitos jurídicos, não sendo possível sua convalidação. Os impedimentos matrimoniais também se aplicam à união estável, de modo que, enquanto houver impedimento, a união não é reconhecida pelo direito, podendo configurar concubinato. A exceção ocorre no caso de casamento de pessoa separada judicialmente ou de fato, que não impede a existência de união estável. A oposição de impedimentos matrimoniais pode ocorrer durante a habilitação para o casamento ou até o momento da celebração, podendo ser feita por qualquer interessado ou conhecida de ofício pelo juiz ou pelo oficial do cartório de registro civil de acordo com o art. 1.522 do Código Civil Exemplo: João e Maria estão em processo de habilitação para casamento. Pedro, irmão de João, descobre que eles são primos de primeiro grau, o que configura impedimento matrimonial. Ele pode opor o impedimento ao cartório antes da celebração. Se o oficial de registro tiver conhecimento do impedimento por qualquer meio, deve declará-lo, impedindo a realização do casamento. Quando há oposição a um impedimento matrimonial, a consequência é a sustação imediata do casamento, que só poderá ser realizado após o julgamento da oposição. Se o casamento ocorrer enquanto a oposição estiver pendente, ele será nulo, devendo ser reconhecido por meio de ação declaratória de nulidade, que não prescreve. Caso o impedimento seja constatado ou alegado após a celebração, também é cabível a ação declaratória de nulidade. IMPEDIMENTOS RESULTANTES DE PARENTESCO Art. 1.521. Não podem casar: I - os ascendentes com os descendentes, seja o parentesco natural(biológico) ou civil (adoção, socioafetivo); Por razões de natureza sanitária e moral, é proibido o casamento entre parentes em linha reta, sejam ascendentes ou descendentes. Isso inclui, por exemplo, o casamento entre pai e filha ou avó e neto, independentemente da origem do parentesco. Exemplo: Um homem deseja casar-se com sua filha ou sua neta. Esse casamento é proibido pela lei, pois envolve parentes em linha reta, sendo vedado independentemente de ser biológico, adotivo ou por qualquer outra forma de parentesco. II - os afins em linha reta e III - o adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem o foi do adotante; É proibido o casamento entre sogra e genro ou entre padrasto e enteado. A afinidade é o vínculo estabelecido entre um cônjuge ou companheiro e os parentes do outro, incluindo pais (sogro e sogra), avós, bisavós, filhos (enteado e enteada) e netos ou bisnetos. A relação de parentesco por afinidade em linha reta não se extingue nunca (art. 1.595, §2), enquanto os parentes por afinidade em linha transversal, como os cunhados, podem se casar. Exemplo: João casou-se com Maria, tornando- se genro de Dona Clara, mãe de Maria. João não pode casar-se com Dona Clara, pois há impedimento por afinidade em linha reta. Já os irmãs de Maria, que seriam cunhadas de João, podem casar-se normalmente, pois a afinidade em linha transversal não impede o casamento. IV - os irmãos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterais, até o terceiro grau inclusive; É proibido o casamento entre irmãos e entre parentes colaterais até o terceiro grau, como tios e sobrinhos. Há entendimento doutrinário de que, nos casos de colaterais em terceiro grau, pode ser realizado exame pré-nupcial de compatibilidade sanguínea para atestar a ausência de risco genético ou sanitário para a prole, possibilitando, assim, a celebração do casamento (Enunciado 98 CJF). Exemplo: João e Maria são primos de primeiro grau. Por estarem em linha colateral de terceiro grau, não há impedimento absoluto, mas pode ser exigido um exame pré-nupcial de compatibilidade sanguínea para verificar a inexistência de risco genético ou sanitário para os filhos que possam ter. Caso o exame comprove segurança, o casamento poderá ser realizado. V - o adotado com o filho do adotante; Em razão da igualdade entre os filhos, são irmãos para todos os fins, inclusive para fins de impedimento matrimonial. VI - Pessoas casadas Não podem casar as pessoas que já são casadas, devido à proibição da bigamia. Essa vedação não se aplica à união estável quando a pessoa casada já estiver separada de fato. VII - o cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou tentativa de homicídio contra o seu consorte O viúvo não pode casar-se com o assassino ou com quem tentou matar seu cônjuge. Para que a proibição tenha efeito, é necessário que a sentença penal condenatória tenha transitado em julgado. Não importa se houve cumplicidade ou não no crime. CAUSAS SUSPENSIVAS MATRIMONIAIS As causas suspensivas são recomendações para que as pessoas não se casem diante de certas circunstâncias, mas não impedem o casamento, tendo como objetivo a proteção patrimonial de determinadas pessoas ou da prole. O casamento realizado sob causa suspensiva não é considerado inválido. Essas causas não suspendem o casamento nem impedem a produção de seus efeitos, mas tornam obrigatório o regime de separação obrigatória de bens. Exemplo: Um jovem de 17 anos deseja se casar. Embora não haja impedimento absoluto, a lei recomenda cautela devido à sua idade. O casamento pode ser realizado, mas será obrigatório o regime de separação de bens para proteger o patrimônio do jovem até que atinja a maioridade. As causas suspensivas não impedem a existência das uniões estáveis (art. 1.723, §2). Há divergência doutrinária sobre a obrigatoriedade do regime de separação de bens em uniões estáveis que ocorrem sob causa suspensiva ao casamento, e alguns tribunais apresentam entendimentos diferentes, inclusive internamente. O STJ possui decisões isoladas reconhecendo a aplicação, mas não há um entendimento pacificado sobre o tema. OPOSIÇÃO DAS CAUSAS SUSPENSIVAS As causas suspensivas da celebração do casamento podem ser alegadas pelos parentes em linha reta de um dos nubentes (pais, sogros, filhos e avós), sejam consanguíneos ou por afinidade, e pelos colaterais em segundo grau (irmãos e cunhados). Elas não podem ser alegadas de ofício pelo oficial do cartório, pelo juiz ou pelo Ministério Público. As causas suspensivas devem ser opostas durante a habilitação para o casamento, momento em que a habilitação será suspensa e as partes intimadas a se manifestar. Caso não sejam opostas nesse período, podem ser alegadas posteriormente por meio de ação judicial. CAUSAS SUSPENSIVAS FUNDADAS NA CONFUSÃO PATRIMONIAL Art. 1.523. Não devem casar: I - o viúvo ou a viúva que tiver filho do cônjuge falecido, enquanto não fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros; [...] III - o divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal; [...] • Tratam-se de hipóteses que visam evitar confusão patrimonial decorrente da celebração de novo casamento por determinadas pessoas. CAUSAS SUSPENSIVAS FUNDADAS EM CONFUSÃO DE SANGUE [...] II - a viúva, ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter sido anulado, até dez meses depois do começo da viuvez, ou da dissolução da sociedade conjugal; • Trata-se de uma tentativa de resguardar a prole em razão da presunção legal de paternidade decorrente do casamento. • • Com a popularização do exame de DNA, tornou- se uma norma obsoleta. CAUSA SUSPENSIVA FUNDADA EM TUTELA OU CURATELA IV - o tutor ou o curador e os seus descendentes, ascendentes, irmãos, cunhados ou sobrinhos, com a pessoa tutelada ou curatelada, enquanto não cessar a tutela ou curatela, e não estiverem saldadas as respectivas contas. • É uma tentativa de afastar eventual prejuízo patrimonial aos tutelados e curatelados. • • Cessa a causa suspensiva com a extinção da tutela ou curatela, bem como pela regular prestação de contas em juízo. POSSIBILIDADE DE AFASTAMENTO DE CAUSAS SUSPENSIVAS O juiz pode relevar a aplicação de uma causa suspensiva quando for comprovada a inexistência de prejuízo, conforme o parágrafo único do art. 1.523 do Código Civil. O pedido de dispensa das causas suspensivas pode ser feito durante a habilitação para o casamento ou posteriormente, por meio de ação própria. Quando o casamento é celebrado em regime de separação obrigatória de bens devido a causa suspensiva, nada impede que os nubentes solicitem futuramente a mudança do regime de bens, de acordo com o §2º do art. 1.639 do Código Civil, mediante autorização judicial e desde que sejam respeitados os direitos de terceiros. CAPACIDADE PARA O CASAMENTO Capacidade para o casamento é a legitimação de uma pessoa para casar com qualquer outra. Ela decorre da combinação de idade mínima (16 anos) e capacidade psíquica de compreensão. A idade núbil não coincide com a idade da plena capacidade civil, que é de 18 anos, e não se confunde com esta. Não é exigida aptidão física sexual ou reprodutiva para a capacidade matrimonial. A capacidade para casar também não se confunde com o impedimento matrimonial, que se refere à impossibilidade de casamento entre certas pessoas. ANULABILIDADE DO CASAMENTO DE PESSOA SEM IDADE NÚBIL Se o casamento for celebrado com um nubente que ainda não tenha atingido a idade núbil (16 anos) , ele será anulável. A anulabilidade pode ser requerida pelo próprio nubente ao completar 18 anos ou imediatamente pelos seus pais. O FIM DO SUPRIMENTO JUDICIAL DE IDADE O suprimento judicial de idade não existe mais, sendo proibido pelo art. 1.520 do Código Civil, alterado pela lei 13.811/2019. Menores de 16 anos não podemse casar no Brasil, e se isso acontecer, o casamento pode ser anulado (art. 1.550, I). Antes, a lei permitia o casamento do menor em casos de gravidez ou para evitar pena criminal, mas essas situações não são mais legais. CONSENTIMENTO DOS PAIS E SUPRIMENTO JUDICIAL DE CONSENTIMENTO. O art. 1.517 do Código Civil exige que os pais autorizem o casamento do menor entre 16 e 18 anos. Mesmo sendo relativamente incapazes, os menores estão sob o poder familiar dos pais. A autorização de apenas um dos pais só vale se o outro estiver morto, ausente judicialmente ou destituído do poder familiar. O consentimento dado pelos pais, tutores ou curadores pode ser retirado até o dia da celebração do casamento (art. 1.518). Exemplo: Um jovem de 17 anos quer se casar. Para que o casamento seja válido, ele precisa da autorização dos dois pais. Se o pai estiver morto, apenas a mãe pode autorizar. Se um dos pais autorizar e depois mudar de ideia antes do casamento, ele pode revogar a permissão, e o casamento não poderá acontecer até que a situação seja resolvida. Quando o jovem tem entre 16 e 18 anos e os pais não autorizam o casamento, o juiz pode, em alguns casos, substituir o consentimento deles. Isso é chamado de suprimento judicial do consentimento. O juiz decide se a recusa dos pais é justa ou injusta e pode autorizar o casamento por meio de uma sentença. O pedido pode ser feito pelo Ministério Público, pelo próprio jovem ou pelo outro nubente, seguindo um procedimento de jurisdição voluntária. Exemplo: Maria, de 17 anos, deseja se casar com João, de 18 anos. Os pais de Maria não autorizam o casamento, alegando que ela ainda é muito jovem. Maria e João procuram o juiz e pedem o suprimento judicial do consentimento. O juiz analisa a situação, verifica que Maria tem maturidade suficiente e que não há risco para ela, e decide conceder a autorização judicial. Com isso, Maria e João podem realizar o casamento legalmente, mesmo sem a anuência dos pais. Todos os casamentos realizados com suprimento judicial seguem o regime de separação obrigatória de bens, para proteger o patrimônio do menor. Quando o cônjuge atingir 18 anos, ele pode, junto com o outro cônjuge, pedir judicialmente a mudança do regime de bens. EMANCIPAÇÃO ATRAVÉS DO CASAMENTO Quando uma pessoa de 16 a 18 anos se casa, com autorização dos pais ou suprimento judicial, ela se torna emancipada, adquirindo capacidade plena antes do tempo. Se o casamento acabar por divórcio ou morte do cônjuge, isso não faz com que a pessoa volte a ser incapaz.