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DESENHO Prezado(a) aluno(a), O Grupo Educacional FAVENI reafirma o compromisso de oferecer uma formação de excelência, reconhecendo que a modalidade de estudo confere ao aluno autonomia e flexibilidade para organizar seus estudos de acordo com suas necessidades e rotina. Nesse contexto, é fundamental que o estudante estabeleça uma rotina de estudos disciplinada e consistente, reservando horários para leitura, reflexão e realização das avaliações propostas. Reiteramos ainda que o ambiente virtual é equiparável ao presencial no que concerne à troca de conhecimentos e esclarecimento de dúvidas. Assim como em sala de aula, onde a interação acontece espontaneamente, no semipresencial o diálogo deve acontecer por meio dos canais disponíveis no Portal do Aluno e nos encontros ao polo. Incentivamos você a utilizar esses recursos para questionar, esclarecer dúvidas e aprofundar seu entendimento sobre os conteúdos abordados, pois suas perguntas serão respondidas de forma ágil e eficiente pelo nosso suporte. Lembre-se de que a autonomia no processo de aprendizagem implica também responsabilidade. A gestão do seu tempo, o cumprimento dos prazos e a organização das tarefas são essenciais para o seu crescimento acadêmico. Aproveite a flexibilidade que o curso oferece, estabelecendo uma rotina compatível com seus compromissos pessoais e profissionais. Desejamos sucesso em sua jornada de estudos e reforçamos nossa disposição em apoiá-lo(a) na construção de um aprendizado sólido e significativo. Bons estudos! 1 RECURSOS DA LINGUAGEM VISUAL Segundo Dondis (1991), durante o processo de alfabetização, aprendemos as letras como elementos básicos de um código e adquirimos a habilidade de formar palavras, associando-as a um significado. À medida que progredimos, combinamos essas palavras em textos coerentes e com propósitos definidos. Também compreendemos que os textos podem variar em tipos e apresentar uma linguagem mais formal ou informal, permitindo-nos dominar a linguagem verbal. Do mesmo modo, é possível analisar a linguagem visual como um conjunto de elementos distintos. Esses elementos visuais diversos podem ser empregados na criação e compreensão de mensagens com várias finalidades, desde a funcionalidade mais simples até a expressão artística mais sofisticada. Com base nessa ideia, surgiu o conceito de alfabetismo visual, que é um processo de aprendizado para capacitar a criação e a compreensão eficazes de mensagens visuais. A capacidade de ver é inata, e o entendimento do que vemos também ocorre em certa medida. Assim, podemos identificar uma sintaxe visual que estabelece diretrizes e elementos fundamentais para criar mensagens visuais claras. Conforme Dondis (1991) afirma, toda criação é composta por unidades individuais que se unem. Ao pensarmos em uma parede, podemos identificar os tijolos; da mesma forma, ao considerarmos um texto, podemos identificar as diferentes letras que formam palavras, que por sua vez formam frases, e assim por diante. O mesmo princípio se aplica às criações visuais. Os elementos visuais constituem a essência fundamental do que percebemos, e sua quantidade é restrita: ponto, linha, forma, direção, tom, cor, textura, dimensão, escala e movimento. Esses elementos constituem a essência das manifestações visuais, como fotografias, pinturas, capas de livros e identidades visuais. Devido à psicologia da gestalt, temos a tendência de reconhecer o todo em vez das partes interativas, no entanto, é fácil perceber que qualquer alteração em uma unidade do sistema resultará em uma alteração no todo. Um exemplo simples, ilustrado na Figura 1, ajuda a entender esse conceito. Uma simples mudança na cor de um dos tijolos faz com que ele se destaque na parede e modifica nossa percepção do todo. Podemos compreender esse processo se considerarmos as teorias desenvolvidas pela Psicologia da Gestalt. Trata-se, de uma abordagem, de origem alemã, desenvolvida no final do século XIX e início do século XX, mas ainda muito contemporânea e fortemente estudada, que enfatiza a experiência perceptual e a forma como os seres humanos organizam e interpretam as informações sensoriais ao seu redor. Na obra "Criatividade e Processos de Criação" de Fayga Ostrower (1977/2014) e no artigo "Gestalt-Terapia: Refazendo um Caminho" de José Pinto Ribeiro (1985), encontramos referências que destacam a relevância da psicologia da Gestalt para a compreensão dos processos criativos e da percepção estética. A percepção gestáltica permite compreender como os elementos se relacionam e interagem no espaço visual, proporcionando uma base sólida para a criação de composições harmônicas e expressivas. Um dos princípios fundamentais da Gestalt é a tendência de perceber o todo em vez das partes. Isso significa que nossa mente tem uma predisposição natural para organizar os estímulos em padrões significativos e coerentes, buscando a totalidade da percepção antes de analisar as partes individuais. Um exemplo simples ilustrado na Figura 1, ajuda a entender esse princípio. Uma simples mudança na cor de um dos tijolos faz com que ele se destaque na parede e modifica nossa percepção do todo. Figura 1 - Alteração em uma unidade do sistema Fonte: Adaptado de Dondis (1991). A visão é um dos cinco sentidos primordiais, sendo os olhos os instrumentos responsáveis por esse precioso sentido em animais vertebrados. Ela representa um dos órgãos sensoriais fundamentais, permitindo-nos contemplar o mundo ao nosso redor com nitidez e clareza. Baseado nesse sentido e sob a ótica da teoria da Gestalt abordaremos a experiência visual. Com base nos princípios da Psicologia da Gestalt, abordaremos agora os aspectos básicos e formadores da experiência visual. A teoria gestáltica destaca que nossa mente organiza a informação visual de maneira a percebermos a totalidade antes de identificarmos as partes individuais de uma cena. Essa abordagem oferece uma compreensão fundamental sobre como percebemos e interpretamos o mundo ao nosso redor, influenciando a forma como apreciamos a arte e o design. 1.1 Ponto, linha, plano: alicerces do design Conforme mencionado por Dondis (1991), o ponto representa a unidade mais elementar e indivisível da comunicação visual, apesar de possuir um forte poder de atração visual. Quando combinados e sobrepostos, os pontos têm a capacidade de criar a ilusão de tons ou cores. É com base nesse princípio que os processos de impressão se fundamentam, como ilustrado na Figura 2. O tom verde-azulado, que pode ser observado no detalhe à esquerda, é formado no processo de impressão em quadricromia por pontos justapostos ou sobrepostos nas cores ciano, magenta, amarelo e preto. Figura 2 - Pontos sobrepostos Fonte: Adaptado de Dondis (1991). A observação desse fenômeno serviu de inspiração para os pintores pontilhistas, como Georges Seurat, um influente artista francês do final do século XIX. Seurat foi um dos principais expoentes do movimento pontilhista, que se destacou por utilizar pequenos pontos coloridos em suas pinturas para criar a ilusão de cores e formas. Essa técnica permitiu aos artistas explorarem novas possibilidades na representação visual e produzir obras com uma sensação de luminosidade e vivacidade singulares. No estilo de pintura pontilhista, o ponto é considerado o traço mínimo realizado com pincel; já nas imagens bitmap, o pixel desempenha o papel de ponto básico para formar as imagens. Essa ideia pode ser visualizada na Figura 3: Figura 3 - Obra pontilhista “Le chahut”, de Georges Seurat, 1889 Fonte: https://abre.ai/gmfx Nesse contexto, ou seja, da consideração do ponto como elemento estruturante da experiência visual, Wassily Kandinsky (2008, p. 186) expressou a relação entre o ponto e a linha ao afirmar:os contornos principais antes de se dedicar aos detalhes. É essencial seguir uma abordagem do geral para o específico, garantindo a estrutura sólida do desenho desde o início. • Busque criar interesse visual e movimento em seu desenho, evitando centralizá-lo no meio da folha e procurando dividir o espaço de forma dinâmica e equilibrada. • Tenha em mente a direção natural da leitura, que ocorre da esquerda para a direita e de cima para baixo. Ao posicionar o desenho no canto inferior esquerdo da folha, você pode criar uma sensação de estabilidade e ancoragem durante a visualização e leitura da obra. • Para direcionar a atenção para áreas específicas do desenho, utilize contrastes para criar destaques visuais. Isso ajudará a guiar os olhos do observador e enfatizar elementos importantes da composição. • Inicie o desenho traçando os contornos principais e, em seguida, dedique-se aos detalhes. Sempre siga uma abordagem do geral para o específico. • Busque gerar interesse visual e movimento em seu desenho, evitando centralizá-lo no meio da folha e dividindo o espaço de forma igualitária. • Tenha em mente que a leitura ocorre da esquerda para a direita e de cima para baixo, e que ao concentrar os desenhos no canto inferior esquerdo da folha, cria-se uma sensação de estabilidade e ancoragem durante a leitura. • Com o objetivo de direcionar a atenção para uma determinada área do seu desenho, utilize contrastes para criar destaques visuais. Figura 47 - Exemplos de composição Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). 6.3 Método Visuais Dominantes Esse método é uma técnica de representação visual que busca retratar as formas de maneira realista, seguindo nossa percepção visual. Conhecido também como método dos arquitetos, utiliza projeções ortogonais como base, em que a vista superior é posicionada com suas arestas paralelas ao plano de referência e inclinadas em relação ao quadro. Figura 47 - Perspectiva dos arquitetos Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). Para entender melhor este método, analise a técnica de desenho apresentada a seguir: Figura 47 - Posicionamento do objeto e do plano Q Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). É importante ter em mente que quanto mais inclinada a face estiver em relação ao plano Q, menor será a sua visibilidade. Por outro lado, quanto menor for o ângulo entre o objeto e o plano Q, maior será a porção dessa face que poderá ser observada. Figura 48 - Exemplos de posicionamento do observador em relação à inclinação do objeto Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). É necessário que você esteja familiarizado com as vistas ortogonais do objeto e, em seguida, desenhe a vista superior, o plano Q e o observador. Figura 49 - Vistas ortogonais do objeto e altura do observador Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). A fim de determinar a localização do observador, é essencial ter conhecimento da DP (distância principal). Essa distância entre o observador e o plano Q desempenha um papel crucial ao garantir que todo o objeto esteja dentro do campo de visão e possa ser desenhado. Para isso, afaste o observador a uma distância de uma a duas vezes e meia em relação à MDO (maior dimensão do objeto). A inclinação das faces do objeto será proporcional ao nível de detalhamento desejado. Figura 50 - Ponto de distância Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). Em seguida, trace uma linha paralela à aresta direita do objeto, que passa pelo ponto de vista do observador (PV) e encontra o plano Q. Assim, você identificará o ponto de fuga da direita (FD). Repita o mesmo procedimento para o lado esquerdo e encontrará o ponto de fuga da esquerda (FE). Figura 51 - Pontos de fuga Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). Conecte o ponto de vista (PV) aos vértices da vista superior. Observe que ao traçar essas linhas, elas cortarão o plano Q. Essas interseções representam as medidas de profundidade e largura, que são então transferidas para o plano Q com a redução visual necessária para o desenho da perspectiva. Figura 52 - Reduções de profundidades e larguras Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). Agora é o momento de avançar com o desenho de perspectiva em si. Estenda a linha da distância principal (DP) para que tenha um comprimento maior que a altura do objeto. Na extremidade dessa linha, trace uma linha perpendicular que abrange toda a área do seu desenho; isso será a linha de terra (LT). Em seguida, desenhe uma linha paralela à LT, com uma distância igual à altura do observador; essa será a linha do horizonte (LH). O ponto de interseção entre a linha da DP e a LH será onde o olho do observador repousa sobre o horizonte (PP). A interseção na LT é conhecida como o "pé do observador". Transfira o ponto de fuga da direita (FD) e o ponto de fuga da esquerda (FE) para a LH e, em seguida, trace uma linha do "pé do observador" para o FD e outra para o FE. Transfira todas as medidas reduzidas de largura e profundidade, interceptando essas duas linhas fugitivas. Figura 53 - Transferência dos pontos e medidas para a área de desenho da perspectiva Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). Transfira as marcações do lado direito para o ponto de fuga da esquerda (FE) e as marcações do lado esquerdo para o ponto de fuga da direita (FD). Dessa forma, você encontrará os vértices da vista superior e poderá desenhar essa vista em perspectiva. Figura 54 - Vista superior em perspectiva Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). A verdadeira magnitude (VM) das alturas em perspectiva só pode ser determinada em um local específico: o plano Q. Assim, a aresta do cubo que está em contato com o plano Q representa a VM. Defina a altura do cubo nessa linha e transfira essa medida para as outras arestas, seguindo a direção das arestas no plano horizontal. Figura 55 - Traçado das alturas Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). 07 ORIGENS DA ARTE E DO GRAFFITE De acordo com Barbosa (2012), ao longo da trajetória da humanidade, as pessoas sempre reconheceram a importância da comunicação como um meio essencial para sua sobrevivência, expressão e forma de experimentar a existência. Desde tempos remotos, uma das maneiras utilizadas para esse fim era através do uso de imagens e pinturas. Nas épocas pré-históricas, os indivíduos que habitavam cavernas já se dedicavam ao que hoje chamamos de arte rupestre, retratando em suas paredes cenas do dia a dia, aspirações sociais, representações de sua cultura e memórias de tempos passados. Essas representações visuais foram as primeiras formas de comunicação e expressão pictórica utilizadas pelos seres humanos, utilizando as paredes das cavernas como suporte para suas pinturas e fundando uma relação simbólica com a natureza. A Figura 56, apresentada abaixo, exemplifica um caso de pintura rupestre. Figura 56 – Pintura rupestre Fonte: https://abre.ai/gprA Com as pinturas rupestres, tem-se o início da história da arte como uma experiência que expressa as várias facetas da existência humana. Essa expressão é moldada por distintas fases e manifestações culturais ao longo do tempo, refletindo a diversidade das relações da humanidade com o mundo. Cada período histórico e cultural trouxe consigo novos estilos, técnicas e significado. Da arte renascentista com suas obras clássicas e temas religiosos à arte abstrata do século XX, a história da arte é uma tapeçaria complexa, tecida pelas influências das sociedades e dos momentos históricos em que as obras foram criadas. A arte contemporânea é um exemplo vivo da diversidade artística e sua relação com a problemática humana. Com uma ampla gama de estilos e formas, os artistas contemporâneos exploram várias abordagens,incluindo desde a arte conceitual até a arte digital e multimídia. Essa variedade de expressão reflete a globalização e a interconexão cultural, permitindo que artistas de diversas origens e perspectivas compartilhem suas visões do mundo e das condições sociais e culturais em que estão inseridos. Isso torna a arte um ato político, que busca refletir sobre nossa existência no mundo e as circunstâncias que nos cercam. Portanto, a arte contemporânea frequentemente desafia as convenções estabelecidas, estimulando reflexões e questionamentos sobre a sociedade e o indivíduo. Entre as manifestações da arte contemporânea encontramos o grafite. Embora seja difícil determinar precisamente suas origens, é possível destacar o momento em que o grafite ganhou força e popularidade ao longo da história. Originado nas áreas periféricas dos Estados Unidos, o grafite teve sua origem no Bronx, Nova York, durante os anos 70. Inicialmente, era usado por gangues para marcar território e protestar, aproveitando muros e até trens para transmitir mensagens. No contexto da história da arte, também podemos mencionar sua emergência durante as manifestações estudantis contraculturais ocorridas em maio de 1968, em Paris, quando os muros foram pintados como uma forma de protesto político. Além disso, encontramos exemplos antigos desse tipo de expressão nas inscrições preservadas nas paredes de Pompéia, na Itália, após a erupção do Vesúvio em 79 d.C. Embora seja difícil determinar precisamente suas origens, é possível destacar o momento em que o grafite ganhou força e popularidade ao longo da história. Nos dias atuais, o grafite é reconhecido como um dos componentes fundamentais da cultura Hip Hop, ao lado da dança (Break Boy), música (DJ) e letra (Rap). Como parte integrante dessa cultura, o grafite traduz a realidade das ruas e se disseminou por todo o mundo, para além dos Estados Unidos. Conforme mencionado por Umberto (1984), existem diversas técnicas e estilos para a composição de um grafite. O estilo 3D, por exemplo, consiste em pinturas que criam um efeito tridimensional, utilizando formas e cores estilizadas, luz, sombra e profundidade para gerar movimento e realismo. Já o estilo Throw-up ou Bombs é caracterizado por pinturas rápidas, muitas vezes realizadas sem autorização, com letras arredondadas e volumosas, por vezes engraçadas ou distorcidas. Alguns o chamam de "pixação evoluída" ou "vômito". O estilo Wild Style, por sua vez, envolve letras entrelaçadas e uma profusão de cores, tornando a leitura mais desafiadora. Em contrapartida, o estilo Free Style proporciona total liberdade ao grafiteiro, combinando letras e desenhos, materiais, estilos e efeitos. Cada artista possui sua assinatura, conhecida como Tag, que pode ser aplicada em suas criações utilizando um dos estilos técnicos. Ao longo do tempo, diversos artistas ganharam destaque na história do grafite. Um dos pioneiros e considerado um precursor nesse movimento é Jean-Michel Basquiat, um artista nova-iorquino que conquistou reconhecimento no campo da arte contemporânea. Ele começou fazendo inscrições em prédios abandonados de Manhattan e, posteriormente, obteve reconhecimento por suas pinturas, chamando a atenção mundial para o grafite. Outros artistas notáveis incluem Taki 183, Lady Pink e Stay High. A cena do grafite atual abrange artistas que se dividem em dois grupos distintos. O Grafite Acadêmico é formado por artistas visuais que não necessariamente estão ligados ao movimento cultural-político do Hip Hop, mas têm conexões com escolas de arte e frequentemente são autodidatas. Por outro lado, o Grafite Hip Hop é caracterizado por letras e caricaturas, com personagens ou desenhos específicos. Um artista pode se identificar com um estilo ou personagem em particular e incorporá-los em suas obras. Esse cenário é marcado pela forte influência dos quatro elementos do Hip Hop, e os grafiteiros são participantes ativos desse movimento. A arte urbana, incluindo o grafite, desempenha um papel significativo no cenário artístico contemporâneo. Embora tenha inicialmente gerado polêmica e preconceito em relação à sua legitimidade, questionando se é arte ou apenas um meio de revolta e vandalismo, atualmente ela é amplamente reconhecida como uma forma legítima de expressão cultural. 7.1 Arte e Vandalismo Conforme mencionado por Barbosa (2012), o Grafite frequentemente suscita uma questão polêmica: pode ser considerado arte ou vandalismo? Na verdade, há argumentos que sustentam ambas as posições. No passado, a arte era vista como uma forma erudita de expressão, limitada a galerias elitizadas e seguindo padrões acadêmicos estabelecidos. No entanto, o cenário mudou e a arte urbana tem ganhado cada vez mais relevância no âmbito da arte contemporânea, representando uma valorização das formas populares de expressão artística, diretamente relacionadas às comunidades e suas culturas. Infelizmente, muitos aproveitam a oportunidade para agir de maneira ilegal. O grafite realizado sem autorização é considerado crime em diversos países. No Brasil, por exemplo, pode resultar em pena de três meses a um ano de prisão, além de multa. Contudo, a fiscalização e o cumprimento dessas leis nem sempre são eficazes. Muitos grafiteiros se envolvem em atos de pichação como forma de competição e provocação, o que acaba desvalorizando a arte do grafite e gerando ainda mais controvérsias e polêmicas em torno dela, alimentando o preconceito contra a arte urbana. Alguns ainda argumentam que fazer grafite sem autorização é uma forma legítima de expressão artística, o que intensifica as divergências de opiniões. É importante ressaltar que existe uma grande diferença entre o grafite e a pichação (ou pixo). Atualmente, muitos artistas têm utilizado sua influência para valorizar essa nova forma de expressão artística. Na comunidade do grafite, há uma ampla variedade de materiais disponíveis, incluindo latas de spray especialmente desenvolvidas para essa finalidade, canetas, tintas e acessórios como máscaras de proteção, cintos para transporte das latas, luvas, mochilas, entre outros. Grafite vs. Pixação Conforme mencionado por Ramos (1994), ao observar um grafite e uma pichação, fica evidente que são manifestações distintas. A percepção comum permite essa distinção devido aos elementos gráficos e expressões específicas presentes em cada uma delas. Em termos de execução, o grafite se diferencia da pichação ao buscar um resultado mais elaborado, levando em consideração questões técnicas e composição. Por outro lado, a pichação é uma ação mais rápida, gestual e desprovida de intenção artística elaborada. No entanto, o que caracteriza ambas as práticas é sua manifestação no espaço público, independentemente de ser autorizada ou não. É comum encontrar pessoas que praticam grafite também se envolvendo em pichações em outros momentos. É raro encontrar indivíduos que se dediquem exclusivamente à pichação, e quando isso ocorre, geralmente é de forma provocativa como uma interferência ou em convívio com grupos de grafiteiros, o que resulta nessa forma de manifestação. Segundo Célia Maria Antoniacci Ramos (1994), a pichação pode ser considerada um precursor do grafite, originado de um processo de criação mais anárquico, no qual o foco está em transgredir e até mesmo agredir, marcar presença, provocar e chamar a atenção para si e para o suporte utilizado. Essa abordagem cria uma diferenciação entre as duas formas de intervenção. Por sua vez, o grafite é caracterizado por um trabalho que apresenta um menor grau de agressividade, uma vez que é resultado de um ato mais planejado e menos centrado na força do gesto. Pintura Mural Conforme indicado por Flávia (2015), a arte mural se distingue das demais formas de arte visual por estar intrinsecamente ligada à arquitetura. Essa prática engloba o uso de tonalidades,traços e temas tratados, podendo modificar consideravelmente a percepção das dimensões espaciais da estrutura. O muralismo é a expressão artística que se refere à pintura mural, englobando um conjunto de obras visuais realizadas em paredes. A técnica mais frequentemente empregada é o fresco, que envolve a aplicação de pigmentos de diferentes tonalidades, diluídos em água, sobre um revestimento de argamassa ainda úmida. A arte mural encontra suas raízes no impulso primordial das pessoas em embelezar seus ambientes e utilizar as superfícies das paredes como forma de expressar ideias, emoções e convicções. Civilizações como os sumérios, antigos egípcios e minoicos empregavam murais para adornar palácios e monumentos funerários. Também foi cultivada nas sociedades greco-romanas, embora poucos exemplares tenham resistido até os tempos atuais, sendo notáveis os achados nas ruínas de Pompeia e Herculano. A técnica de pintura em paredes também ganhou destaque na Índia, com magníficos exemplos como as grutas de Ajanta, e na China durante a era Ming. Durante a Idade Média, a pintura mural se caracterizava pela intensidade das tonalidades e precisão dos contornos dos perfis, especialmente nas edificações românicas, onde as absides e painéis laterais das igrejas eram frequentemente ornamentados com murais retratando figuras religiosas em poses solenes. Alguns exemplos significativos da arte mural românica são encontrados em igrejas como Berzé-en-Ville (França), Oberzell e Reichenau (Alemanha) e Tarrasa e Tahull (Espanha). No século XIII, as criações de Giotto impulsionaram de maneira significativa a arte mural e, a partir desse período, surgiram notáveis mestres nessa técnica. Durante o Renascimento, foram produzidas obras-primas do muralismo, como os afrescos da Capela Sistina por Michelangelo e "A Última Ceia" por Leonardo da Vinci. No entanto, com o crescente interesse por tapetes e vitrais na decoração de ambientes internos, a pintura mural entrou em declínio no Ocidente. Exceto pelos murais pintados por artistas como Rubens, Tiepolo, Delacroix e Puvis de Chavannes, houve poucas obras de destaque após o Renascimento. No século XX, a arte mural ressurgiu em três fases principais: uma corrente mais expressionista e abstrata, originada de grupos cubistas e fauvistas em Paris, que se manifestou nas criações de Picasso, Matisse, Léger, Miró e Chagall; outra fase teve início no movimento revolucionário mexicano; e também ocorreu um breve movimento muralista na década de 1930 nos Estados Unidos. A disputa pelo espaço visual Conforme mencionado por Flávia (2015), o ambiente óptico nas metrópoles abrange tanto os espaços físicos como os digitais nos quais informações, marcas, valores, mercadorias e outros elementos podem ser comunicados. Esse ambiente já não se restringe apenas a muros, fachadas, telas, revistas e jornais, mas se estende também ao domínio virtual. É saliente ressaltar que as estratégias publicitárias, frequentemente acompanhadas de recursos auditivos, têm o intuito de transportar os ouvintes a espaços visuais concebidos, como locais dos "devaneios" ou locais que atendem às necessidades, instigando uma competição pela prosperidade. O êxito está associado à presença no mundo, ser notado e ter o desenvolvimento ou produto reconhecidos, ainda que de forma temporária. No livro "Jornada na fantasia cotidiana", Umberto Eco explora o emprego do ambiente citadino como uma prática de imitação, não de originalidade. Nesse retrato da sociedade apresentado na obra, a sociedade estadunidense, que enaltece a reprodução precisa e investe nela, acaba por gerar também exclusões. Essas exclusões surgem quando indivíduos percebem perspectivas distintas além daquelas apresentadas pelas "representações tridimensionais". Essas exclusões se manifestam em concepções, convicções e na maneira como retratam o universo. Essa forma de ocupação do espaço visual está ligada ao desenvolvimento do grafite nessas comunidades, sendo uma forma de criação contemporânea. Conforme declarado por Wassily Kandinsky, "toda criação artística é influenciada por sua época e frequentemente influencia nossas emoções". Isso se reflete na busca por novos padrões de estética e autenticidade, que vão além da expressão fundamentada no poder econômico e na posse de marcas desejadas. É uma nova compreensão de poder, a habilidade de interagir no espaço de maneira comprometida com outras esferas e normas, muitas vezes tão inflexíveis quanto aquelas que são questionadas. A apreensão da imagem é uma prática ancestral adotada pela maioria dos seres vivos para compreender o universo, independentemente do sentido empregado, seja a visão, o tato ou outros meios. A "entidade" necessita ser revelada ou capturada para que sua existência seja confirmada. Assim, é no ambiente que ocorre esse processo de "observar" e "exibir", e por essa razão o espaço adquire uma conotação quase sagrada e se torna motivo de competição. Nós dependemos do espaço para afirmar nossa presença como seres. Nossas construções atestam nosso lugar no mundo, e a maneira como organizamos as cidades reflete nossa concepção do espaço. A dimensão está diretamente conectada à nossa identidade social e pessoal. Quando intervimos nessa dimensão, seja ao acrescentar ou remover elementos, isso terá um impacto direto nos indivíduos que a ocupam. Desrespeitar a dimensão equivale a desrespeitar ideologias. Assim, a intervenção na dimensão coletiva busca induzir perturbação no pensamento humano. O Grafite na Multiculturalidade do ensino de Arte De acordo com Ramos (1994), o Grafite desempenha um papel significativo no ensino de arte, com sua influência cultural e foco na comunicação visual para as massas. Ele se enquadra no conceito de multiculturalidade ou pluralidade cultural, reconhecendo as diversas culturas presentes em nossa sociedade. No contexto do ensino de arte no Brasil, o Grafite apresenta características estéticas e culturais que favorecem o trabalho com a Arte Contemporânea. A arte educação intercultural é valorizada, e a maioria dos artistas e obras relacionados ao Grafite demonstra uma preocupação significativa com questões relacionadas a diferenças e perspectivas sociais, políticas e até mesmo artísticas. Conforme indicado por Azevedo Barbosa (2012), a multiculturalidade envolve o respeito e a valorização das singularidades, reconhecendo a importância das histórias individuais de cada pessoa. Por outro lado, os processos educacionais conservadores podem limitar ideologicamente o progresso da sociedade e a capacidade de adquirir conhecimento. Em contraste, as artes urbanas, incluindo o Grafite, funcionam como ferramentas para a aplicação desses conceitos no ensino de arte. Como destacado por Richter Barbosa (2012, p. 98): A educação Multicultural como processo pelo qual uma pessoa desenvolve competências em múltiplos sistemas de perceber, avaliar, acreditar e fazer. Essa visão tem a ver com dois conceitos antropológicos fundamentais: educação e cultura. Para os antropólogos, a educação refere-se aos processos formais e informais por meio dos quais a cultura é transmitida aos indivíduos. A escola é somente um desses processos. A educação, no entanto, é universal, pois é a experiência básica do ser humano para aprender a ser competente na sua cultura. A identidade cultural desempenha um papel crucial na arte-educação, promovendo mudanças de mentalidade e abrindo caminhos para uma sociedade organizada e inclusiva. Ao analisarmos toda a história do grafite ao redor do mundo, e especialmente em nosso país, percebemos o quanto essa forma de arte é incompreendida. A notável diferença entre o grafite e o picho, que ainda predomina no Brasil, gera polêmica e preconceitos, resultando na desvalorização dessa forma de arte em certos círculos sociais. O grafite encontra espaço nas culturas maismarginalizadas em termos de educação, ou então entre aqueles mais talentosos nessa área. Surgindo posteriormente ao picho, o grafite traz cores para as inscrições, desenhos e mensagens visuais, conferindo-lhes um caráter artístico mais claro e significativo, o que o torna mais socialmente aceito. Por outro lado, o picho, que muitas vezes é politicamente incorreto, deixa de ser visto como arte e passa a ser percebido como vandalismo visual e destruição. 8 PERCEPÇÃO HISTÓRICA DA FIGURA HUMANA Nesta aula, serão abordadas distintas formas de representação visual do ser humano, que foram desenvolvidas ao longo de séculos de presença da humanidade na Terra, desde os tempos primordiais até a arte contemporânea. É importante enfatizar que cada uma das representações apresentadas possui particularidades específicas, relacionadas a valores históricos, sociais, religiosos, culturais e estéticos. A representação da imagem do ser humano por meio da expressão artística possibilita a ampliação do conhecimento, influenciando a perspectiva de mundo. As representações da figura humana, que tiveram seus primeiros registros na antiguidade, variam em aspecto, abrangendo desde formas abstratas até representações realistas. Conforme Derdyk (1990) aponta, as transformações estilísticas na representação da figura humana são apenas uma pequena mostra das explorações do pensamento e da sensibilidade humana em paisagens ainda desconhecidas. A necessidade de conhecimento científico e artístico do corpo humano impulsiona tanto a arte quanto a ciência a buscar estudos e pesquisas que possam aprofundar conhecimentos objetivos e subjetivos sobre a vida humana, estabelecer uma relação histórica com a arte. 8.1 Representação gráfica humana da pré-história até a idade média Desde os primeiros registros artísticos documentados ao longo da história da arte, a representação do corpo humano tem despertado interesse em diversas comunidades ao redor do mundo, em diferentes épocas e localidades. De acordo com a argumentação de Derdyk (1990), o homem sempre desenhou a si mesmo. Essas diversas notações gráficas que o homem fez de si ao longo dos tempos, como páginas de um diário, nos proporcionam um breve contato com os diferentes aspectos internos projetados no palco do mundo. Essa situação pode ter surgido devido à consciência humana da transitoriedade de sua presença neste planeta e como expressão do mundo simbólico que diferencia (ou supostamente diferencia) o ser humnano da natureza. Entende-se, assim, que desde tempos imemoriais, o ser humano experimentou o desejo de representar a si mesmo, buscando imortalizar sua figura e, possivelmente, capturar o fluxo inexorável do tempo. De acordo com a observação de Derdyk (1990), embora o corpo humano tenha sido sempre o mesmo, as notações gráficas feitas dele acompanham o flutuar entre a percepção, que avança e transforma, e o conceito que aprisiona e estabiliza. Esses registros representam a consciência de si mesmo e contribuem para o autoconhecimento, já que a consciência é a base de todo conhecimento. Durante o período pré-histórico, nossos ancestrais retrataram o corpo humano por meio de representações gráficas, de caráter estilizado e abstrato. Na era paleolítica, uma das técnicas empregadas consistia na estilização da forma, ou seja, os desenhos do corpo humano eram simplificados ou representados de forma mais abstrata, frequentemente utilizando linhas básicas. A seguir, podemos observar um exemplo de representação do corpo humano nesse período: Figura 56 - Incisão em pedra. Registro da pré-história brasileira, originário de Santa Catarina Fonte: Addaptado de Derdyk (1990). Por outro lado, a estilização da forma também está ligada à concepção de que era o máximo que o ser humano pré-histórico poderia alcançar, levando em consideração as circunstâncias em que viviam. Durante o período paleolítico, os indivíduos desenharam figuras de criaturas animais com muito mais ênfase do que as representações humanas, possivelmente porque a figura do animal estava diretamente ligada à sua sobrevivência. As representações humanas eram diminutas e desproporcionais, enquanto as representações animais eram mais fiéis à realidade. Conforme indicado por Derdyk (1990), é essencial destacar que cada cultura estabelece seus próprios padrões para a ilustração gráfica do ser humano, presente em todas as fases da civilização. A maneira singular de comunicação por meio do desenho reflete a identidade visual que cada comunidade possui. A representação, como forma de linguagem, pode ser considerada um objetivo comum entre todos os povos. Cada desenho apresenta características distintas em sua linguagem comunicativa, influenciadas pelo contexto histórico em que se desenvolve, ao mesmo tempo em que é considerada universal devido à constância da representação do corpo humano ao longo da história. O escritor defende que essa representação viabiliza uma apreensão acerca de como o ser humano habitava e habita, assim como a maneira pela qual ele se percebe e se manifesta neste planeta terrestre. Houve diversas modificações na estruturação, ordenação e ideias da linguagem e do ser humano ao longo da história, evidenciando um trajeto mental, espiritual, perceptivo e cognitivo dentro de uma perspectiva histórica. Os registros pictóricos efetuados pelas comunidades ancestrais são considerados as primeiras manifestações visuais da ilustração do corpo humano, almejando retratar o tangível, o que está animado. Na época neolítica, contrariando o período paleolítico, a representação do ser humano assumia um sentido simbólico, ligado a capacidades sobrenaturais e poderes naturais. Para esses grupos, a representação da imagem humana se encontrava vinculada a propósitos cerimoniais e rituais. Figura 57 - Figura ibegi (gêmeo) Fonte: Adaptado de Hogarth (1998) De acordo com Hogarth (1998), nas representações da era neolítica, as formas retratadas pelos seres humanos eram simplificadas, indiferenciadas e impessoais, frequentemente simétricas, estáticas e sóbrias. À medida que a existência humana evoluía, ocorreram várias transformações, especialmente no contexto de questões espirituais e ancestrais ligadas à religião. Dessa forma, civilizações posteriores buscaram representar imagens relacionadas a deidades imortais que simbolizavam a eternidade. Por exemplo, na sociedade egípcia, o corpo humano era retratado com formas estáticas, formais e contornos rígidos. Seus desenhos apresentavam características simétricas e planas, com uma percepção bidimensional. Figura 58 - Esquema de proporção sobre o homem egípcio Fonte: Adaptado de Derdyk (1990) Para os habitantes do Egito, a representação do ser humano simbolizava uma existência eterna e invariável, obedecendo à norma da frontalidade. Conforme citado por Derdyk (1990), a sociedade egípcia elaborou um sistema para determinar as dimensões e proporções do corpo humano: Construíram uma rede mecânica, em que acomodaram a figura, sem se preocupar com a relação dessa rede com as junções orgânicas significativas do corpo humano, seguindo um princípio de identidade mecânica com um módulo abstrato. Os movimentos das figuras não são orgânicos, mas mecânicos, em função desse sistema, que reflete um dado constante, não variável, concretizando uma visão cosmológica de realização da eternidade (DERDYK, 1990, p. 145). Durante a Idade Antiga, com os povos gregos e romanos, considerados culturalmente avançados, a representação da figura humana estava relacionada à busca pela verdade universal, visando alcançar a perfeição na representação de deuses, que eram derivados do mundo real, tanto masculinos quanto femininos. 8.2 Figura humana na idade moderna Através dos estudos e pesquisas realizados pelos artistas durante o Renascimento, houve uma renovação na representação da figura humana.As figuras passaram a ser retratadas de maneira mais volumétrica, com uma notável ênfase na percepção de luz e sombra, contrastando com a estilização presente na arte primitiva. Figura 59 - Raffaello Sanzio (1483-1520) Fonte: Adaptado de Michelangelo. Grandes Mestres (2011). Diversas técnicas de desenho surgiram como resposta à necessidade de ilustrar o organismo humano, evoluindo por meio de investigações que exploraram conceitos geométricos e matemáticos. De acordo com Derdyk (1990), a figura humana ocupa um papel central na História da Arte. Ela pode ser representada de forma estilizada, posando como modelos reais, retratando cenas mitológicas ou alegóricas, incorporando a imagem de divindades e referindo-se ao sagrado. Em outros momentos, aparece em formas demoníacas e grotescas, revelando dimensões sombrias da natureza humana, ou em cenas cotidianas que destacam o caráter profano das ações humanas. Há também representações mais espiritualizadas, quase desmaterializadas, assim como demonstrações do vigor muscular e anatômico, refletindo a passagem do tempo. No decorrer dos tempos, a sociedade adquiriu um conhecimento mais aprofundado, possibilitando uma expansão das percepções em relação à configuração, organização, dimensão e movimento do organismo humano, bem como suas múltiplas atribuições. Esse progresso conduziu à valorização estética de cada período, colaborando para a formulação de padrões simbólicos de beleza, harmonia, equilíbrio e demais conceitos socioculturais significativos. Leonardo da Vinci (1452-1519), célebre artista renascentista, empreendeu, a partir de 1480, dedicação a estudos e explorações acerca das proporções do organismo humano, anatomia e fisiologia. Ainda que tenha iniciado a redação de um livro intitulado "Do Corpo Humano", jamais o concluiu. Em suas indagações, ele começou por observar a estrutura corporal de jovens em diferentes posturas, sobretudo sentados e ajoelhados. Ademais, comparou suas pesquisas antropométricas com a teoria da Antiguidade, representada pelo célebre "Homem Vitruviano". Conforme Zollner (2006), Vitrúvio, um arquiteto e engenheiro razoavelmente bem-sucedido do Império Romano, escreveu um tratado de arquitetura que incluiu, no terceiro livro, a descrição completa das medidas do corpo humano. A partir disso, ele chegou à conclusão de que um homem com as pernas e os braços abertos se encaixaria perfeitamente dentro de um quadrado e de um círculo, formas geométricas perfeitas. Além disso, segundo Vitrúvio, se a figura do homem fosse representada dentro de um círculo e de um quadrado, o centro do corpo coincidiria com o umbigo (ZOLLNER, 2006). Figura 60 - O Homem de Vitrúvio, a partir do comentário de Cesare cesariano sobre vitrúvio em 1521 Fonte: Adaptado de Zollner (2006). Cesare do Lorenzo Cesariano (1475-1543) foi o responsável pela primeira versão em italiano do trabalho de Vitrúvio e introduziu uma modificação na figura, na qual o quadrado é inserido no círculo, resultando em um alongamento das mãos e pés. Por outro lado, Leonardo da Vinci não se preocupou tanto com a precisão geométrica do encaixe da figura, mas sim com a correção e adequação das proporções do corpo humano. Através da precisão das medidas criadas pelo artista, Leonardo conseguiu ir além das representações canônicas conhecidas da Antiguidade. Figura 61 - O Homem de vitrúvio, de leonardo da vinci Fonte: Zollner (2006). O desenho criado por Leonardo para representar a proporção da figura humana é amplamente reconhecido como um clássico e também simboliza a crença renascentista de que o homem é a medida de todas as coisas. Leonardo da Vinci é amplamente considerado o artista do Renascimento que mais se dedicou ao estudo das proporções do corpo humano. Conforme observado por Derdyk (1990, p. 45), durante o Renascimento, a clássica figura do homem ad quadratum ou ad circulum, na qual o homem aparece inscrito nas duas principais formas geométricas - o quadrado e o círculo -, expressa a relação do indivíduo humano com o universo. Essa ideia aceita como evidente que existe uma relação fixa entre as proporções de nosso corpo e a ordem universal. Essa identidade sempre foi presente em diversos campos do conhecimento, às vezes abordada de maneira mais esotérica, hermética e misteriosa, outras vezes de maneira mais objetiva. Segundo Hogarth (1998), o estudo da simetria, que é um elemento estrutural presente na natureza, também serviu de inspiração para as investigações sobre o corpo humano, através da observação da dualidade representada pelos dois olhos, dois ouvidos, dois braços e duas pernas. Por outro lado, a Arte Barroca, que surgiu na Itália nos séculos XVI e XVII, foi uma forma de arte que valorizava o indivíduo e sua personalidade, bem como buscava retratar a visualização realista, principalmente através da arte do retrato. Pela primeira vez na história, a figura feminina era representada de forma não idealizada, com emoção, vitalidade e igualdade em relação à figura masculina contemporânea na arte. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA BARBOSA, A. M. Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte 7.ed. – São Paulo: Cortez, 2012. BONI, F. 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Tomemos como exemplo, o quadrado que está ligado ao tédio, à honestidade e à dedicação; o triângulo, à ação, ao conflito e à tensão; e o círculo, à ideia de infinitude e proteção. Na Figura 4, podemos observar como Wassily Kandinsky explorou o potencial expressivo das formas geométricas. Figura 4 - “Un centro”, de Wassily Kandinsky, 1924 Fonte: https://abre.ai/gl1e De acordo com Dondis (1991), também é importante considerar as formas orgânicas, que são irregulares, complexas e altamente distintas, geralmente associadas pelo nosso cérebro ao que encontramos na natureza. Embora a geometria esteja presente na natureza, sua presença é sutil e, por isso, nem sempre a identificamos facilmente na percepção de uma totalidade irregular. Transmitir uma mensagem "orgânica" implica, portanto, em reforçar esses aspectos irregulares de uma forma, mesmo que haja uma geometria subjacente que possa de fato existir. Além disso, devemos considerar as formas das letras, uma vez que a tipografia faz parte da maioria das peças de design gráfico. As palavras comunicam para além do seu significado verbal. Em sua forma visual, cada letra, palavra ou frase pode transmitir simultaneamente uma mensagem verbal e mensagens simbólicas através de sua forma, estrutura e associações culturais e psicológicas que podem evocar em cada indivíduo receptor da mensagem. O conteúdo expressivo das formas básicas está relacionado com as direções visuais que cada uma delas manifesta: o quadrado, com suas linhas horizontais e verticais; o triângulo, com sua diagonal; o círculo, com suas curvas. A referência horizontal-vertical é fundamental para o ser humano em termos de equilíbrio e estabilidade. Já a diagonal desestabiliza, transmitindo uma sensação de energia e instabilidade. Por sua vez, as forças direcionais curvas estão associadas a significados de abrangência, repetição e calorosidade. 1.3 Atividade de superfície: luz, tom, cor e textura Em sua análise da experiência visual, Dondis (1991) propõem o seguinte: Imagine as formas que acabamos de mencionar. Provavelmente você irá visualizar mentalmente seus contornos. No entanto, podemos distinguir a maior parte do que vemos pela intensidade de obscuridade ou claridade. Somos capazes de ver graças à ação da luz no ambiente. Conseguimos perceber o quanto uma informação visual é complexa por meio das variações de luz ou de tom. Desconsiderando a cor, por enquanto, as gradações tonais (diversos tons de cinza) expressam graficamente essas variações de luz. Essas gradações possibilitam que, em uma representação bidimensional, sejamos capazes de indicar outra dimensão, criando a ilusão de profundidade e volume, como você pode perceber na Figura 5. Figura 5 - Formas bidimensionais Fonte: Fonte: Adaptado de Dondis (2007). Segundo Lupton e Phillips (2008), quando a cor entra em cena, passamos a ter contato com o estímulo visual talvez mais poderoso de todos. Sem materialidade, a cor é uma sensação provocada pela ação da luz sobre nossos olhos. Para que haja cor, deve haver, portanto, a luz, que funciona como estímulo, e o olho, que decifra o fluxo luminoso. Além desses dois fatores variáveis, nossa percepção de uma cor também é afetada em função de outras cores próximas a ela. Por exemplo, um objeto claro parece ainda mais claro sobre um fundo escuro. Como elemento de comunicação, a cor está impregnada de significados. Além das sensações e associações psicológicas que podem despertar, também devem ser consideradas as convenções culturais de cada sociedade. Por exemplo, para as culturas ocidentais, o branco está associado à pureza, mas, para as culturas orientais, está associado à morte. Figura 6 - Textura e padrão Fonte: Adaptado de Dondis (1991). 1.4 Dentro do espaço: escala, dimensão e movimento Segundo Dondis (1991), a escala, ou seja, a noção de tamanho de uma forma em uma representação visual, só é percebida em comparação a outras formas no mesmo espaço de representação: “o grande não pode existir sem o pequeno”. Considerando a estruturação de uma mensagem visual, é essencial aprender a indicar o tamanho de acordo com o objetivo e o significado pretendido. Além das pistas visuais possíveis para determinar o que é grande e o que é pequeno na comparação entre objetos, a escala também pode ser determinada pelas relações entre um objeto e o espaço que ele ocupa na representação. Essa estratégia simples, mas poderosa, foi utilizada na elaboração do famoso anúncio publicitário do lançamento do Fusca nos Estados Unidos, em 1959 (Figura 7). Figura 7 - Anúncio publicitário de lançamento do Fusca Fonte: Adaptado de Dondis (1991). O veículo era menor do que os carros com que os americanos estavam acostumados, mas justamente esse fator, que seria um aspecto negativo do produto, foi o diferencial que a agência DDB encontrou para explorar com criatividade. O mote é Think small (pense pequeno), e a ênfase visual para a mensagem foi deixar quase todo o espaço vazio, com a imagem do carro ocupando uma pequena porção do anúncio. Nesse caso, a escala foi utilizada para destacar as dimensões pequenas do carro. A representação visual acontece em um plano bidimensional, mas alguns recursos estão à disposição do designer para organizar as formas em um espaço dimensional ilusório, onde se transmita a sensação de profundidade. O principal artifício criado para simular a profundidade é a convenção técnica da perspectiva. Com esse princípio, se estabelece a linha do horizonte e um ou mais pontos de fuga, referências no horizonte para as quais convergem linhas traçadas a partir do objeto no primeiro plano. Veja um exemplo na Figura 8. Figura 8 - Perspectiva Fonte: Adaptado de Dondis (1991). 1.5 Composição visual De acordo com Dondis (1991), para arranjar os elementos visuais em uma superfície, papel ou tela, o designer dispõe de alguns princípios. Embora não existam regras rígidas, a linguagem visual supõe uma sintaxe, alguns fundamentos que decorrem essencialmente da compreensão da percepção humana. O universo da comunicação visual é complexo, repleto de elementos que são unidades de informação. Para lidar com essa complexidade, nossa mente tem a tendência de agrupar esses elementos. Nesse princípio se fundamenta a psicologia da percepção visual, chamada gestalt. Ela explica que nosso cérebro se orienta por algumas leis de organização perceptual, como unidade, segregação, unificação, fechamento, continuidade, proximidade, semelhança e pregnância da forma (GOMES FILHO, 2008). Esses princípios coincidem com as preocupações e práticas do design em relação à configuração de produtos gráficos que contemplem ordenação, equilíbrio, clareza e harmonia visual, fatores desejáveis para a comunicação visual efetiva. Muitas marcas famosas utilizam os princípios da gestalt de maneira evidente e se beneficiam com elepara transmitirem seu conceito. Observe o exemplo na Figura 10. Figura 10 - Gestalt em símbolos de marcas Fonte: Adaptado de Dondis (2007). 2 DESENHO DE OBSERVAÇÃO DO NATURAL Para Bordes (2011), as capacidades essenciais de reflexão, projeto e representação do desenho moderno não foram alteradas desde seu primitivo nascimento. Também é verdade que durante o transcurso dos séculos XIX e XX foram produzidos os mais variados e numerosos métodos para a aprendizagem do desenho que o converteram na atual ferramenta livre das convenções renascentistas e barrocas. Em seu utópico projeto educativo, Rousseau concebe o desenho como uma linguagem necessária para o desenvolvimento integral da pessoa. Trata-se da obra intitulada Émile ou De l'éducation, publicada inicialmente em 1762. Um marco na história da educação e também para a docência do desenho, já que Rousseau a descreve como fundamental na construção integral do cidadão. Rousseau vê no desenho seu papel educativo para a visão e para o tato e sua relação entre ambos. Sem necessariamente um interesse pela formação artística, o pensador diz que: Todas as crianças, grandes imitadores, gostam de desenhar: gostaria que a minha cultivasse essa arte não exatamente pela arte em si, mas para ajustar a vista e flexibilizar a mão; que geralmente pouquíssimo importa que saiba este ou o outro exercício, contanto que adquira a perspicácia do sentido e o bom hábito do corpo que se consegue com esse exercício (ROUSSEAU, 2011, p. 507). O espírito da obra de Rousseau teve consequências práticas imediatas com a inclusão do desenho como modelo de formação integral nos projetos pedagógicos de Pestalozzi e Froebel. Esses dois homens foram notáveis educadores que deixaram um legado significativo na história da pedagogia. Johann Heinrich Pestalozzi (1746- 1827), com sua abordagem humanista e centrada no aluno, revolucionou o ensino no século XVIII. Por outro lado, Friedrich Froebel (1782-1852), no século XIX, destacou- se por sua contribuição no desenvolvimento da educação infantil e a criação dos jardins de infância. Ambos influenciaram profundamente as práticas educacionais modernas, deixando marcas indeléveis na forma como concebemos a educação hoje. 2.1 Modelos Nos tratados recentes sobre desenho entende-se por “modelo” o tema ou referência visual escolhido para “ser copiado” com algum tipo de técnica. O principal desafio dessa experiência gráfica é “a necessidade de possuir a habilidade técnica para conseguir um resultado de qualidade quanto à semelhança evocando a experiência visual” (CABEZAS, p. 381). Figura 11 – Modelo posando Fonte: https://abre.ai/gmgR Os modelos para desenhar podem ser diversos: o próprio corpo humano, um objeto qualquer ou um conjunto ordenado deles, a natureza-morta, como é conhecido. No caso específico do corpo humano, a palavra “modelo” também é utilizada para designar a profissão daquelas pessoas que trabalham posando, muitas vezes nuas, para os artistas. Nas escolas de arte o corpo humano nu, em geral, oferece o que se habituou a se chamar “modelo vivo” (Figura11). 2.2 Medir à distância Uma antiga prática de recolher diretamente as relações de grandeza entre as partes daquilo que se quer representar (quase sempre, de modo reduzido) passou a fazer parte da rotina nas academias de belas artes, atravessou as fronteiras e o tempo. O procedimento é simples. Basta pegar o lápis para medir e comprovar as relações entre os pontos, as longitudes, os ângulos e alinhamentos daquilo que vemos e desenhamos (Figura 12 ). Figura 12 – Primeiras medições Fonte: https://abre.ai/gmgV Segurando o lápis por um extremo, estende-se o braço (nunca flexioná-lo) e compara-se os tamanhos relativos (nunca absolutos, salvo para a escala natural) de cada unidade ou parte do modelo, do extremo do lápis até a unha do dedo polegar, que se desliza sobre aquele para tomar as medidas Loomis (2011) diz que, o desenho esquemático de uma mulher, utiliza diferentes elementos de medida e comprovação de relações para desenhar uma figura humana do natural. Este procedimento é pormenorizado, resumidamente, a seguir: • Estabeleça dois pontos em seu papel como a altura desejada de pose (superior e inferior). Desenhe uma perpendicular através destes pontos como a linha média do modelo. • Localize o ponto médio da linha (1/2). Agora, segurando o lápis em seu comprimento, encontre o ponto médio sobre o modelo diante de você. A partir do ponto médio, obtenha pontos de quarto (para cima e para baixo 1/4). • Pegue a maior largura da pose. Compare-a com a altura. Coloque a largura igualmente em cada lado de suas formas de cruzamento de ponto médio em seu modelo. • Suas duas linhas cruzarão neste ponto. É o ponto médio do seu modelo. Lembre-se deste ponto no modelo. A partir dele, você trabalha em todas as direções. • Agora, com a linha do prumo, ou como olho, localize todos os pontos importantes que caem abaixo um do outro. • Para os ângulos, olhe diretamente para o modelo e estabeleça um ponto na linha onde cai sob um ponto conhecido. • Se você verifica constantemente os pontos opostos - os pontos abaixo e onde os ângulos emergem, depois de ter estabelecido altura, largura e pontos de divisão Figura 13 - Procedimento proposto por Loomi Fonte: Adaptado de Bordes (2011). Nesse caso, tratando-se do desenho de um modelo humano, a unidade de medida é a altura da cabeça. Ela será sempre a referência para todo o desenho da figura representada. Isso significa dizer que toda e qualquer “medida” deverá ser tomada a partir da altura da cabeça, e uma pergunta estará presente: quantas cabeças...? Quantas (alturas de) cabeças possui esse modelo do ponto mais alto até o chão? Não apenas para as alturas (vertical) como também para as larguras (horizontal): quantas (alturas de) cabeças possuem esses ombros, de um extremo ao outro? Neste caso, a medida de referência é vertical, mas o lápis deve ser colocado na horizontal para medir a largura dos ombros. 2.3 Linhas de representação Todo trabalho ou estudo traz concepções sobre a aquisição de conhecimentos, que correspondem a linhas teóricas distintas. Nos estudos sobre o desenho da criança, podemos distinguir, então, quatro modos principais de conceber a relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Em primeiro lugar, pode-se considerar que o sujeito é modelado pelo meio, de fora para dentro, ou seja, que o conhecimento se imprime nele através de hábitos adquiridos, sem nenhuma atividade organizadora por parte desse sujeito. Nessa concepção, o meio desempenha um papel fundamental na aquisição de conhecimentos. Conforme Piaget, essa linha teórica considera "a experiência como algo que se impõe por si mesma, sem que o sujeito tenha de organizá-la, isto é, como se ela fosse impressa diretamente no organismo sem que uma atividade do sujeito seja necessária à sua constituição" (PIAGET, 1982, p. 339). Dessa maneira, o indivíduo aprende por meio da experiência, ou seja, ao ser exposto a certas situações, a inteligência tem a função de registrar elementos dispersos que se associam para formar conhecimento. Nessa perspectiva, o meio exerce um predomínio sobre o sujeito, sobre a inteligência. No contexto da linguagem gráfico-plástica, essa teoria considera o desenho, a partir do estágio da rabiscação, como um código a ser internalizado pelo sujeito. A aprendizagem do desenho é vista, portanto, como um mero exercício de cópia mecânica, no qual o sujeito registra graficamente o que observa sem interpretar. Nesse sentido,os modelos forneceriam o propósito para a criança desenhar, com o objetivo de realizar uma cópia fiel. Em contrapartida, em segundo lugar, pode-se explicar a aquisição de conhecimentos como algo inerente à criança: ela nasce com potencialidades e é responsável por desenvolvê-las. Essa concepção acredita que a construção de conhecimentos independe do ambiente. De acordo com Piaget, essa abordagem teórica explica "a inteligência pela própria inteligência, ou seja, supõe a existência de uma atividade estruturada desde o começo, que se aplica diretamente a conteúdos cada vez mais ricos e complexos" (PIAGET, 1982, p. 336). Nessa visão, o conhecimento surge a partir da atividade inata da inteligência, que é considerada como um mecanismo inerente e completo desde o início da vida orgânica. Portanto, nessa perspectiva, há uma supremacia da inteligência sobre o ambiente. Essa abordagem gráfico-plástica compartilha desses pressupostos ao conceber o desenho como algo que depende exclusivamente do sujeito: ele desenha de acordo com seus sentimentos, pensamentos e conhecimentos sobre o objeto, e não apenas com base no que vê. Nesse contexto, podemos mencionar a teoria da livre expressão, que postula que a criança tem tudo o que precisa dentro de si para se expressar. Alguns autores representativos dessa abordagem são Lowenfeld (1977), Read (2001) e Arno Stern (2016). Lowenfeld (1977) menciona que, se fosse possível que as crianças se desenvolvessem sem interferência do mundo exterior, não seria necessário nenhum estímulo para seu trabalho artístico. Isso se deve ao fato de que, segundo o autor, quando a criança desenha, ela expressa ativamente o que está em sua mente naquele momento. Além disso, ele ressalta a importância de a criança utilizar a arte como um verdadeiro meio de autoexpressão. Já Read (2001) afirma que a criança desenha não o que pensa ou o que deveria ver, mas sim símbolos ou sinais que surgem em sua mente como resíduo de suas respostas sensoriais ao objeto. Dessa forma, o desenho da criança expressa seus sentimentos em relação a determinado objeto. Para ele, o sujeito desenha para seus próprios fins, e é a natureza dessa atividade independente que deve ser compreendida em primeiro lugar. Assim, Read (2001) sugere que a atividade gráfica da criança deve ser preservada não apenas de qualquer intenção representacional ou imitativa, mas de qualquer demanda que queira reduzir seu movimento criativo a ordem das significações instituídas. Arno Stern (2016) afirma que a arte não é algo que entra na criança, mas sim algo que sai dela. Nessa perspectiva, o papel do educador é se restringir a não influenciar nem sugerir nada à criança. Segundo o autor, o educador deve ser um protetor contra os perigos para a criança. Em relação ao desenho, Arno Stern considera-o como um meio de fixar rapidamente as ideias que surgem e se sucedem na mente. Ao desenhar, a criança não reproduz lembranças visuais, mas sim traduz plasticamente sensações e pensamentos. Portanto, o desenho é a expressão do que a criança sente e pensa, sendo um espelho, uma imagem representativa dela mesma. É importante observar que os autores apresentam pontos de convergência com várias abordagens teóricas, ao compartilharem certos aspectos das demais concepções, como será explanado adiante neste estudo. Em terceiro lugar, o desenvolvimento do conhecimento pode ser explicado como originário da percepção de totalidades estruturadas desde o início do ato perceptivo, sob uma "forma". Portanto, tudo o que a criança aprende tem sua origem na percepção e nos sentidos. Segundo Piaget (1983), a ideia central da Teoria da Forma é que os sistemas mentais não surgem a partir da síntese ou associação de elementos isolados, antes de sua junção, mas consistem sempre em totalidades organizadas desde o início, sob uma "forma" ou estrutura conjunta. Assim, uma percepção não é a mera combinação de sensações prévias: ela é governada, em todos os níveis, por um "campo" cujos elementos são interdependentes pelo próprio fato de serem percebidos em conjunto. Nessa perspectiva, é possível perceber o todo e não as partes isoladamente, sendo essa totalidade mais do que a soma de suas partes. A teoria admite, também, que o progresso da inteligência não é inato, mas decorre da manifestação de uma série de estruturas que emergem de dentro para fora, à medida que surgem as necessidades provocadas pelo contato com o meio (PIAGET, 1982). De acordo com essa linha de pensamento, as estruturas mentais já estão preformadas no sujeito e não são elaboradas por ele em função de suas experiências (PIAGET, 1982). A experiência, portanto, se desdobra como uma ocasião para o sujeito manifestar suas estruturas mentais por meio da percepção e da inteligência. Dentro dessa abordagem, a linguagem gráfico-plástica é resultado da percepção da criança. Ao desenhar, ela representa o que vê nos objetos, utilizando configurações para representar o objeto com base em suas características estruturais globais. Segundo essa linha de pensamento, a representação decorre de conceitos perceptivos. Arnheim (1980) defende que as crianças desenham generalidades e formas não projetivas, justamente porque desenham o que veem. Ele rejeita a ideia de que os desenhos das crianças derivam de conceitos abstratos, não perceptivos. Porém, ele enfatiza que a percepção não consiste em um registro "fotograficamente" fiel, mas na apreensão das características estruturais globais dos objetos. As representações que aparecem nos desenhos são criadas não por meio da projeção ótica dos objetos físicos, mas pela invenção de configurações que representem as características significativas do modelo. Dentro dessa perspectiva, as formas se desenvolvem organicamente, seguindo regras definidas, desde padrões mais simples até os progressivamente mais complexos, em um processo de diferenciação gradual. 3 COMPOSIÇÃO De acordo com o Dicionário Priberam (2013), a definição de composição é a união de diferentes partes ou o processo de reunir elementos para formar um todo. A ilustração mostrada na Figura 1 retrata uma cena de inverno, com uma cabana e vegetação, sendo considerada uma construção, representando o todo. Essa totalidade é composta pelo solo coberto de neve, o céu, as árvores e a cabana. Esses elementos, que compõem a paisagem como um todo, são o solo, o céu, as árvores e a cabana. Figura 14 - Paisagem nevada Fonte: https://abre.ai/gmS5 Ao descrever os elementos que compõem uma paisagem como se fossem partes de uma criação artística, cada um desses elementos é chamado de componente compositivo, forma ou elemento visual. Na Ilustração 15, podemos observar a representação visual das diferentes partes que moldam a paisagem, transformando-as em componentes compositivos. Figura 15 - Elementos compositivos da paisagem Fonte: Adaptado de Fayga Ostrower (2003). As árvores possuem uma estrutura que atua como limites, enquanto a cabana é uma entidade sólida e suas paredes e teto são camadas distintas. Na verdade, podemos afirmar que os componentes de composição estão presentes em todas as coisas e, se observarmos com atenção, podemos identificá-los em tudo que nos rodeia. 3.1 Linha, superfície e volume Conforme a escritora e artista plástica Fayga Ostrower (2003), os componentes de composição da linguagem visual (observe a Ilustração 16) são cinco: • linha; • superfície; • volume; • luz; • cor. Figura 16 - Elementos compositivos Fonte: Adaptado de Fayga Ostrower (2003). Você vai conhecer, a seguir, três desses elementos: a linha, a superfície e o volume. Linha Segundo Ostrower (2003), a linha é um elemento com apenas uma direção, ou seja, possui uma única dimensão: o comprimento. Podemos observar um exemplo disso na Figura 17.Figura 17 - Linha Fonte: Adaptado de Fayga Ostrower (2003). Segundo o autor Wucius Wong (2010), as formas, quando consideradas como linhas, podem ser categorizadas em diferentes tipos, tais como: geométricas, orgânicas, retas, irregulares e outras: • Geométricas: construídas matematicamente. • Orgânicas: com curvas livres e fluidas. • Retilíneas: linhas retas que não se relacionam matematicamente. • Irregulares: associação de linhas retas e curvas que não se relacionam matematicamente. Figura 18 -Tipos de linhas Fonte: Adaptado de Wucius Wong (2010). Superfície Conforme o autor Wucius Wong (2010), é possível classificar as formas quando consideradas como linhas em diferentes categorias. Por outro lado, de acordo com Ostrower (2003), a camada é um elemento composto pela junção de várias linhas ou pela modificação do percurso de uma linha reta ou curva, como exemplificado na Ilustração 6. A camada apresenta duas dimensões distintas, a altura e a extensão. Figura 19- Superfície Fonte: Adaptado de Adaptado de Fayga Ostrower (2003). Segundo Wong (2010), as configurações, quando vistas como camadas, podem ser classificadas em diferentes categorias, incluindo as geométricas, orgânicas, lineares e não uniformes, entre outras. Essas categorias podem ser observadas na Ilustração 20. Figura 20 - Tipos de superfície Fonte: Adaptado de Fayga Ostrower (2003). Por outro lado, de acordo com Ostrower (2003), as camadas são categorizadas com base na aparência de suas bordas, sendo classificadas como delimitadas ou expostas. Essa distinção pode ser visualizada na Figura 21. Figura 21 - Classificação das superfícies de acordo com as margens Fonte: Adaptado de Fayga Ostrower (2003). Volume Segundo o autor Christian Leborg (2015), a massa é um elemento formado pela união das camadas e é caracterizada por três dimensões: largura, altura e profundidade. Podemos observar um exemplo disso na Ilustração 22. Figura 22 - Volume Fonte: Adaptado de Fayga Ostrower (2003). Conforme mencionado por Wong (2010), as formas quando consideradas como volumes também podem ser categorizadas em diferentes tipos, como geométricas, orgânicas, retas, irregulares e outras. Essa classificação é exemplificada na Figura 23. Figura 23 - Classificação do volume Fonte: Adaptado de Fayga Ostrower (2003). 3.2 Proporção A escala, que é a relação de tamanho relativo utilizada para comparar as dimensões de largura e altura, desempenha um papel fundamental na observação de objetos do cotidiano. Observar as escalas de objetos comuns é uma maneira eficaz de desenvolver sensibilidade em relação a ela. Como mencionado por Giesecke et al. (2002), a regra mais crucial no desenho observacional é manter as proporções. Existem técnicas proporcionais apresentadas na Ilustração 24 que permitem desenhar círculos de forma livre. O desenho de arcos e elipses segue princípios semelhantes aos do desenho de círculos, e utilizar modelos pode facilitar o traçado de círculos, arcos e elipses de tamanhos diferentes. De acordo com Curtis (2015), no desenho observacional, é recomendado utilizar um objeto com bordas retas e paralelas, como uma régua ou um lápis, conhecido como instrumento Mondriano. Esse objeto serve para estabelecer uma unidade de medida básica e uma grade de referência. É importante aproximar-se do objeto para verificar as proporções, quando necessário. Após definir essa unidade, é possível girar o instrumento em 90°, mantendo-o perpendicular à linha de visão e à mesma distância dos olhos. Figura 24 - Três técnicas para desenhar circunferências Fonte: Adaptado de GIesecke et al. (2002). 3.3 Conceito de luz e sombra Para transformar um desenho linear bidimensional em uma representação tridimensional, é fundamental utilizar técnicas de luminosidade e sombreamento. Assim como na observação de elementos da vida real, nossos olhos só conseguem perceber as dimensões de profundidade. Quando um objeto é exposto a uma luz intensa em todas as direções, ele será totalmente iluminado e sem contrastes. Por outro lado, se estiver em completa ausência de luz, ficará completamente escuro e sua tridimensionalidade não será perceptível. Ao olhar para os objetos, o que realmente enxergamos é a reflexão da luz em suas superfícies. Essa reflexão pode variar dependendo da fonte de iluminação, do material das superfícies e das influências de outros objetos no fluxo de luz. As sombras visíveis, na verdade, indicam a falta de luz, adicionando informações importantes para a percepção tridimensional. Luz O primeiro passo para iniciar o processo de iluminação em um desenho é determinar a fonte de luz. Em geral, podemos considerar a luz solar (natural) ou a luz artificial (luminárias) como fontes possíveis. Também é viável utilizar uma combinação dos dois tipos de fontes, vindo de diferentes direções. Com base no tipo e na posição da fonte de luz, as áreas que serão iluminadas e as sombras que serão criadas podem ser ajustadas para se adequarem a cada situação específica. No caso da escolha pela iluminação natural, é importante considerar a criação de uma luz mais difusa no ambiente, já que isso resultará em um índice de reflexão maior. No entanto, essa situação é uma exceção quando a luz natural entra no ambiente através de uma abertura muito pequena, o que resulta em uma luz concentrada internamente. Na Ilustração 25, é possível observar exemplos de luz intensa e luz difusa. Figura 25 - Demonstração dos efeitos com luz forte e luz difusa sobre os objetos Fonte: Adaptado de GIesecke et al. (2002). Sombras As sombras são resultado dos efeitos da iluminação nos objetos, desempenhando um papel crucial na definição das formas e na representação da profundidade. Basicamente, existem dois principais tipos de sombras: as sombras intrínsecas e as sombras projetadas. As sombras intrínsecas surgem nas próprias superfícies do objeto, seja devido à falta de luz ou à interferência de outros objetos. Já as sombras projetadas referem-se às que o objeto produz em outras superfícies, como superfícies de apoio ou objetos adjacentes. Além desses dois tipos de sombra, também temos outros elementos a considerar, como reflexos, iluminação direta e penumbra suave. Os reflexos ocorrem quando a luz incide em objetos ou superfícies vizinhas, tornando a sombra na face iluminada mais clara, portanto, devem ser levados em conta durante o desenho. As áreas de transição entre as regiões sombreadas e as áreas iluminadas são conhecidas como sombra suave ou meio-tom. No desenho, a sombra suave deve ser representada com menor intensidade, criando um degradê entre a área clara e a sombra intrínseca do objeto. A presença ou ausência desses elementos varia consideravelmente de acordo com o tipo de cena, os objetos presentes e o tipo de iluminação. Por essa razão, as sombras devem ser avaliadas e desenvolvidas de acordo com cada situação específica. Na Ilustração 26, são apresentados exemplos de luz e sombra. Figura 26 - Ilustração que demonstra os efeitos de luz e sombra Fonte: Adaptado de GIesecke et al. (2002). Para iniciar o processo de sombreamento, recomenda-se desenhar formas geométricas simples em um papel de maior espessura e porosidade. Utilize um lápis macio, como o grafite 4B, para facilitar a criação das sombras. Após desenhar as formas básicas e determinar a posição e a direção da fonte de luz, é importante estudar como as sombras se formam nos objetos e as sombras projetadas. A melhor maneira de compreender o efeito das sombras é através de desenhos de observação, nos quais você reproduz a realidade. Pratique esse exercício utilizando os mesmos objetos e movendo a fonte de luz para diferentes posições, assim vocêpoderá analisar o impacto da luz no conjunto de objetos. As sombras podem ser criadas utilizando técnicas como hachuras paralelas e cruzadas, nas quais você escurece áreas utilizando linhas. Também é possível criar sombras com movimentos circulares contínuos. Outra técnica comum é o sombreamento misto, no qual você aplica traços de grafite no papel e, em seguida, esfuma com os dedos, um papel macio ou um esfuminho. A ideia de esfumar ajuda a criar uma transição suave entre as tonalidades. Se você utilizar linhas tracejadas, lembre-se de espaçá-las ao longo da sombra para suavizar até alcançar a área totalmente clara. É importante ter cuidado para não deixar as sombras muito escuras, desequilibrando o desenho. O ideal é trabalhar de forma gradual, sobrepondo as áreas sombreadas aos poucos e evitando exageros. Geralmente, as sombras próprias tendem a ser mais claras do que as sombras projetadas, mas isso pode variar dependendo do caso e deve ser avaliado individualmente. Observe o exemplo apresentado na Figura 27. Figura 27 - Desenho de figuras geométricas Fonte: Adaptado de GIesecke et al. (2002). 4. ESCALAS Segundo Boni (2017), antes de começar qualquer desenho, é importante decidir o tamanho que ele deve ter. As diferentes vistas do objeto a ser desenhado não devem estar muito próximas ou muito distantes. Se for possível, desenhe o objeto em seu tamanho natural; caso contrário, será necessário desenhá-lo em escala. A escala dependerá do tamanho do objeto; por exemplo, um componente eletrônico miniaturizado deve ser desenhado 100 vezes maior do que sua dimensão real, enquanto alguns mapas têm suas dimensões naturais divididas por milhões. Existem assistentes de desenho chamados "escalas" que auxiliam o desenhista a lidar com essas dimensões em escala. Essas escalas não são representadas pelos costumeiros centímetros ou milímetros, mas podem representá-los. Embora sejam muito úteis, haverá ocasiões em que você desejará desenhar com um tamanho que não corresponda a nenhuma dessas escalas. Nesse caso, você pode trabalhar fora do tamanho em escala para todas as dimensões do desenho, mas isso pode se tornar um longo e tedioso trabalho - a menos que você construa sua própria escala. Este capítulo lhe mostrará como construir qualquer escala que deseja. A Fração Representativa (FR) A FR mostra imediatamente a relação entre o tamanho da linha no seu desenho e o tamanho natural. A relação, entre o numerador e o denominador da fração, é a relação do tamanho desenhado com o tamanho natural. Assim, uma FR de 1 objeto é cinco vezes o tamanho do desenho do objeto. Se a escala dada for de 1mm = 1m, então a FR é: 1 mm 1mm 1 _____ = _____= ______ 1m 1000 mm 1000 Um cartógrafo (desenhista de mapas) tem de trabalhar com algumas escalas muito grandes. Eles precisam encontrar, por exemplo, a FR para a escala de 1 mm = 5 km. Neste caso a RF será: 1 mm 1 _____ = _____________ = __1____ 5 km 5 x 1000x 1000 5000 000 Escalas Simples De acordo com Boni (2017), há dois tipos de escala: simples e diagonal. A escala simples é utilizada para escalas simples, ou seja, escalas que não precisam ter muitas subdivisões. Ao construir qualquer escala, a primeira ação a decidir é o seu comprimento. O comprimento óbvio é um pouco mais longo que a mais longa dimensão do desenho. A Figura 28 mostra uma escala muito simples em que 20 mm = 100 mm. A maior dimensão natural é de 500 mm, de forma que o comprimento total da escala é 500 5 mm ou 100 mm. Figura 28 - Escala simples 20 mm = 100 mm ou 1 mm = 5 mm Fonte: Adaptado de Boni (2017). Estes 100 mm estão divididos em cinco porções iguais, sendo cada uma representando 100 mm. Os primeiros 100 mm são, então, divididos em 10 porções iguais, em que cada uma delas representa 10 mm. Essas divisões estão claramente identificadas para mostrar o que cada uma delas representa. O acabamento é muito importante quando se constrói escalas. Você não deve utilizar uma régua mal ou pouco graduada, e deve aplicar os mesmos padrões às suas escalas. Assegure-se que elas estão graduadas com todas as medidas importantes. A Figura 29 mostra outra escala simples. Esta poderia ser utilizada onde o tamanho dos desenhos chegaria a ser três vezes maior do que o tamanho natural. Para construir escala simples, 30 mm = 10 mm, 50 mm de comprimento para leitura de 1 mm (Figura 2) Comprimento da escala = 30 × 5 = 150 mm Primeira divisão 5 comprimentos de 10 mm Segunda divisão 10 comprimentos de 1 mm Figura 29 - Escala simples 30 mm = 10 mm (FR = 3/1) Fonte: Adaptado de Boni (2017). Escalas Diagonais Para Boni (2017), existe um limite para o número de divisões que podem ser aplicadas a uma escala simples. Tente dividir 10 mm em 5 partes; você verá que é quase impossível. O arquiteto, cartógrafo e agrimensor, todos terão problema ao ter de subdividir em unidades menores que uma escala simples permite. Uma escala diagonal te permite dividir em unidades menores. Antes de ver qualquer escala diagonal em particular, veremos um princípio fundamental. A Figura 30 mostra um triângulo ABC. Suponha que AB meça 10 mm e BC esteja dividido em 10 partes iguais. Linhas partindo dessas divisões foram desenhadas paralelamente a AB e numeradas de 1 a 10. Figura 30 - Mostrando como dividir uma linha AB em 10 partes iguais Fonte: Adaptado de Boni (2017). Deve ser óbvio que a linha 5-5 tenha a metade do comprimento de AB. Similarmente, a linha 1-1 é 1/10 do comprimento de AB e a linha 7-7 é 7/10 do comprimento AB. (Se você o desejar provar matematicamente, use triângulos similares). Você pode ver que os comprimentos das linhas 1−1 a 10−10 aumentam 1 mm cada vez que se aumenta o número de ordem das linhas. Se o comprimento de AB foi inicialmente de 1 mm, os acréscimos precisam ter sido de 1/10 mm a cada vez. Dessa maneira, pequenos comprimentos podem ser divididos em outros muito menores e serem facilmente selecionados. Seguem três exemplos de escala diagonal. Esta escala poderia ser usada onde o desenho é duas vezes o tamanho do objeto natural e o desenhista precisa ser capaz de medi-lo com uma escala com a precisão de 0,1 mm. A maior dimensão natural é de 60 mm. Este comprimento é dividido primeiramente em seis intervalos de 10 mm. Então, os primeiros 10 mm são divididos em 10 partes e cada uma com 1 mm de largura. Cada um desses intervalos de 1 mm é dividido com a diagonal em mais 10 partes iguais (Figura 31). Figura 31 - Escala diagonal 20 mm = 10 mm para ler até 0,1 mm (FR = 2/10) Fonte: Adaptado de Boni (2017). 4.1 Perspectiva Isométrico Segundo Boni (2017), desenhos técnicos são frequentemente realizados em perspectiva ortogonal. Para representações detalhadas de desenhos, esse sistema foi amplamente considerado superior aos demais. No entanto, ele tem a desvantagem de ser de difícil compreensão para pessoas sem preparo nessa área. É fundamental que um engenheiro consiga comunicar suas ideias de forma clara para qualquer pessoa, especialmente aquelas que não têm conhecimento em engenharia. Por essa razão, é vantajoso ser capaz de desenhar utilizando um sistema de perspectiva mais facilmente compreensível. Existem diversos sistemas de perspectiva e este livro aborda três deles: isométrica, oblíqua e ortogonal. A perspectiva isométrica e a oblíqua oferecem vistas mais ricas de um objeto. A perspectiva isométrica, uma aplicação da perspectiva ortogonal, é detalhada mais adiante neste capítulo. A forma mais comum de perspectiva isométrica é conhecida como "isométrica convencional". Desenho Isométrico Para Boni (2017), se fosse para você desenhar, à mão livre, uma fileira de casas, a casamais distante de você seria a menor de todas no desenho. Isso se chama “perspectiva” do desenho e, em um desenho em perspectiva, nenhuma das linhas são paralelas. Desenho isométrico ignora completamente a perspectiva. Linhas são traçadas paralelas entre si e podem ser feitas usando uma régua “T” e um jogo de esquadros. Isso é muito mais simples que um desenho em perspectiva. A Figura 32 mostra um bloco moldado desenhado em perspectiva isométrica convencional. Você notará que existem três eixos isométricos. Eles estão inclinados, entre eles, a 120º.Um eixo é vertical e os outros dois estão, por essa razão, a 30o em relação ao horizontal. Dimensões medidas sobre os eixos, ou paralelas a eles, são comprimentos reais. Segundo Boni (2017), as faces do bloco moldado mostradas na Figura 32 estão todas a 90º entre si. O resultado disso é que todas as linhas no desenho isométrico são paralelas aos eixos isométricos. Se as linhas não fossem paralelas a nenhum dos eixos isométricos, elas não teriam mais os comprimentos reais. Um exemplo disso é apresentado pela Figura 32, a qual mostra um desenho isométrico de um prisma hexagonal regular. Primeiramente, o hexágono é desenhado como uma figura plana e uma forma simples; neste caso um retângulo é desenhado em torno do hexágono. O retângulo é facilmente desenhado em isométrica e as posições dos cantos do hexágono podem ser transferidos da figura plana ao desenho isométrico com um par de divisores. Figura 32 - Bloco moldado desenhado em perspectiva isométrica convencional Fonte: Adaptado de Boni (2017). Círculos e Curvas Desenhados em Perspectiva Isométrica Todas as faces de um cubo são quadradas. Se um cubo é desenhado em perspectiva isométrica, cada face quadrada se torna um losango. Se um círculo é desenhado sobre a face do cubo, o círculo mudará de forma quando o cubo é desenhado em perspectiva isométrica. A Figura 33 mostra como plotar a nova forma do círculo. Figura 33 – Exemplo de como plotar a nova forma do círculo Fonte: Adaptado de Boni (2017). De acordo com Boni (2017), o círculo é primeiramente desenhado como uma figura plana e então é dividido em um número par de faixas iguais. A face do cubo é então dividida no mesmo número de faixas. Linhas centrais são adicionadas, e a medida da linha central do círculo ao ponto onde a faixa 1 cruza o círculo é transferida do desenho plano ao desenho isométrico com um par de divisores. Esta medida é aplicada acima e abaixo da linha central. Esse processo se repete para as faixas 2, 3 etc. Os pontos que foram plotados devem, então, ser todos unidos cuidadosamente com uma nítida curva à mão livre. A Figura 34 ilustra como esse sistema é utilizado na prática. Figura 34 - Como círculos e partes circulares podem ser desenhados de forma isométrica 5. Fonte: Adaptado de Boni (2017). 4.1 Tangência Uma tangente a um círculo é uma linha reta que o toca em um ponto. Toda curva já desenhada poderia ter tangentes a ela traçadas, mas este capítulo se ocupará somente das tangentes a círculos. Isso tem amplas aplicações em desenho técnico, visto que esboços da maioria dos detalhes de engenharia são construídos de linhas retas e arcos. Onde quer que seja, uma linha reta encontra um arco, uma tangente encontra um círculo. Figura 35- Para desenhar uma tangente a um círculo a partir de qualquer ponto sobre a circunferência Fonte: Adaptado de Boni (2017). 1. Trace o raio do círculo. 2. Em qualquer ponto sobre a circunferência do círculo, a tangente e o raio são perpendiculares entre si. Assim, a tangente é encontrada pela construção de um ângulo de 90o, a partir do ponto onde o raio cruza a circunferência. 5 FIGURAS De acordo com Ocvirk, Otto, G. et al. (2014), as figuras são frequentemente referidas como os "elementos fundamentais" da estrutura da arte. Da mesma forma que tijolos, pedras e argamassa são usados na construção de edifícios, as figuras fornecem solidez à composição artística e a estruturam. Com o posicionamento adequado e o tratamento correto, elas também criam várias ilusões de profundidade e tridimensionalidade, envolvendo o observador por meio de sua expressividade. Quando os artistas iniciam uma obra, muitas vezes têm uma ideia preliminar da figura ou formato que desejam alcançar, seja ao planejar a composição inteira ou ao pensar em temas individuais. Às vezes, o artista tem uma visão clara de uma imagem abstrata e sabe instintivamente que figuras darão substância e estrutura àquela ideia. Em outros casos, o processo criativo pode ser mais evolutivo, onde as figuras se revelam gradualmente por meio da experimentação. Croquis iniciais com rabiscos ou hachuras podem sugerir ideias que se desenvolverão em figuras mais definidas. À medida que as linhas se entrelaçam e conectam, os espaços vão tomando forma e se transformando em figuras, enquanto áreas contrastantes emergem no fundo e se materializam em outras figuras. Ao longo desse processo, o ato de rabiscar transforma figuras incipientes em imagens refinadas que estimulam a imaginação do observador. Independentemente do resultado final, uma figura pode ser definida como uma área que se destaca do seu entorno através de uma borda ou limite externo. Esse limite preciso ou sugerido existe como uma linha de contorno que delimita a área ou como um contraste de valor tonal, textura ou cor entre a figura e o seu entorno (Figura 36). Figura 36 – Henri Matisse, O Enterro do Pierrô, Gravura VIII de Jazz, 1947 Fonte: Adaptado de Ocvirk, Otto, G. et al. (2014). 5.1 Tipos de Figura Segundo Ocvirk, Otto, G. et al. (2014), o contorno externo de uma figura confere a ela um caráter distintivo, tornando-a diferente das demais figuras presentes. Quando um artista utiliza desenhos que imitam fenômenos observáveis, tais desenhos podem ser classificados como figurativos, naturalistas, representativos ou realistas, dependendo do contexto. Por outro lado, quando os desenhos são mais imaginativos ou aparentam ter sido criados pelo artista, são frequentemente denominados como subjetivos, abstratos, não figurativos ou não realistas. As figuras também podem pertencer a diversas outras categorias ou famílias, com base no desenho de seus contornos. O ser humano, buscando impor ordem ao caos do mundo natural, desenvolveu figuras estruturadas, precisas e frequentemente bem definidas. Essas figuras são conhecidas como figuras geométricas e englobam círculos, elipses, quadrados, retângulos, triângulos, hexágonos, pentágonos e outros formatos construídos pela matemática. Embora as figuras geométricas possam assumir diversas configurações, elas geralmente apresentam caráter curvilíneo (composto de curvas), retilíneo (formado por linhas retas) ou uma combinação de ambos. Na arquitetura, nas máquinas e em outros artefatos criados pelo homem, é comum encontrar uma abundância de figuras geométricas padronizadas. No entanto, vale destacar que tais figuras também ocorrem naturalmente na natureza, como em conchas espirais, favos de mel, flocos de neve, flores e pedras, como o quartzo e o diamante. Independentemente de suas origens, os artistas visuais frequentemente encontram inspiração nas figuras geométricas e as utilizam para expressar suas ideias de forma organizada (Figura 37). Figura 37 – uan Gris (José Victoriano González), Café da Manhã, 1914 Fonte: Adaptado de Ocvirk, Otto, G. et al. (2014). Em oposição à regularidade e muitas vezes rigidez das figuras geométricas, encontramos a fluidez das figuras biomórficas. As figuras biomórficas são caracterizadas por suas bordas arredondadas, curvas e, em algumas ocasiões, formas onduladas, evocando organismos vivos ou as forças da natureza (Figura 38). Figura 38 - Dorothea Tanning, Anjos da Guarda, 1946 Fonte: Adaptado de Ocvirk, Otto, G. et al. (2014). Para Ocvirk,Otto, G. et al. (2014), podemos ver essas figuras irregulares tanto nas formas do corpo humano quanto em pedras, folhas, poças d’água, vegetais e nuvens. Tais desenhos também são chamados de orgânicos ou naturais, pois o termo biomórfico foi cunhado apenas no início do século XX. Os escultores e artistas pictóricos muitas vezes usam figuras biomórficas ou orgânicas em suas obras para representar as formas humanas, vegetais e animais e a natureza em geral. Os arquitetos e designers também as usam para agregar um elemento natural ou humano a figuras que de resto seriam figuras geométricas (Figura 39). Figura 39 – Joan Miró, A Pintura, 1933 Fonte: Adaptado de Ocvirk, Otto, G. et al. (2014). Embora as figuras mais evidentes sejam formadas por limites distintos e contínuos, é importante notar que tais linhas de contorno inequívocas não são necessárias para que uma figura seja percebida - suas bordas podem ser apenas sugeridas. Conforme estudamos a ilusão de fechamento em aulas anteriores, sabemos que nossa mente tem a tendência de buscar entidades completas e estabelecer relações em grupos, em vez de focar apenas em partes isoladas. A mente humana tem a capacidade de preencher informações faltantes e impor uma forma ou formato em lugares onde eles não são explicitamente apresentados. 5.1 Dimensões das Figuras Segundo Ocvirk, Otto, G. et al. (2014), as figuras também podem apresentar características bidimensionais ou tridimensionais. Nas obras de arte pictóricas, as figuras são criadas dentro do plano do quadro ou desenho; entretanto, os artistas têm a habilidade de dar a ilusão de massa, volume e espaço em suas superfícies planas através de uma cuidadosa justaposição e tratamento das figuras bidimensionais. Quando usamos o termo "massa" para descrever figuras no plano do quadro, estamos nos referindo à aparência de corpos tridimensionais. Por outro lado, o termo "volume" é utilizado para descrever a sensação de vazio tridimensional ou a quantidade de espaço mensurável. Assim, rochas e montanhas seriam consideradas massas, enquanto buracos e vales seriam volumes; e, por exemplo, as xícaras seriam massas, mas a quantidade de espaço que elas contêm seria considerada um volume (Figuras 40). Figura 5 – Massas e volumes: Arcos e Parques Nacionais Canyonlands, Utah, Estados Unidos. Fonte: Adaptado de Ocvirk, Otto, G. et al. (2014). As figuras que possuem largura e altura, mas não apresentam indicação de espessura, são denominadas planos ou figuras planares. Dependendo de como são configurados e justapostos, esses planos podem variar amplamente, podendo ter desde uma aparência plana e decorativa até a sensação de ocuparem um espaço mais profundo. Quando uma figura plana parece estar no mesmo nível da superfície do quadro ou desenho, dizemos que ela tem um aspecto decorativo ou raso (Figura 41, coluna A). Entretanto, com a simples sobreposição de duas ou mais figuras planas, a superfície rasa de trabalho pode ser transformada em uma "janela" através da qual outras figuras podem ser vistas em diferentes distâncias além do plano do quadro ou desenho. Figura 41 – As ilusões espaciais criadas pelas figuras planas Fonte: Adaptado de Ocvirk, Otto, G. et al. (2014). 5.2 Figura e composição Conforme destacado por Ocvirk, Otto, G. et al. (2014), as figuras desempenham frequentemente um papel crucial na estrutura de uma composição unificada, atuando como as peças fundamentais de uma construção. Seu posicionamento e características físicas contribuem para estabelecer um senso de harmonia, variação e equilíbrio na composição. Para uma obra artística, os formatos são tão importantes que as linhas de contorno do quadro ou desenho são uma das primeiras decisões que um artista deve tomar, pois essa escolha afeta as relações entre todas as imagens e elementos presentes na composição. Por exemplo, uma composição com formato horizontal harmoniza bem com imagens, figuras e movimentos lineares horizontais, destacando as figuras verticais retratadas na obra. Assim, a repetição de direcionamentos genéricos se torna um fator para a harmonização do interior com o exterior da obra. Consequentemente, paisagens, figuras reclinadas ou imagens abstratas que se deslocam através da imagem são mais facilmente trabalhadas em uma composição horizontal. Da mesma forma, composições com formato vertical encorajam a harmonia com elementos verticais, e o uso de marcas ou figuras horizontais dentro dessas composições cria destaques. Retratos, naturezas-mortas altas e janelas com vitrais são exemplos de obras que funcionam bem em uma composição vertical. Quando o artista deseja criar ordem ou unidade ao trabalhar com figuras ou formatos, ele deve aplicar os princípios da organização em seu processo de criação. Ao buscar ordem e expressão significativa, o artista ajusta as figuras, os formatos e elementos em que está trabalhando até alcançar o resultado desejado. • Obter um equilíbrio apropriado entre harmonia e variação; • Conseguir controlar a atenção do observador tanto em termos de direção (movimento) quanto de duração (dominância); • Alcançar o grau e tipo de equilíbrio desejados; • Obter uma consistência geral no conceito do espaço; • Estabelecer um senso de proporção e economia apropriados. Os princípios que regem a organização das figuras são os mesmos aplicados aos outros elementos da forma. No entanto, a figura é um elemento tão essencial que os conceitos de harmonia, variação, dominância e outros merecem uma análise mais detalhada e específica. Harmonia e variação Conforme apontado por Ocvirk, Otto, G. et al. (2014), uma maneira simples de criar um senso de harmonia na maioria das composições é por meio da repetição de figuras ou formatos semelhantes. Quando as figuras compartilham características de contornos similares, elas parecem pertencer a uma "família de formatos". Essa semelhança pode ser visível mesmo que não seja absoluta, mas apenas suficiente para estabelecer a relação. Ao utilizar o mesmo número de lados em cada figura ou empregar características similares nos contornos (como bordas retas, curvas ou amorfas), os formatos se unem em um conjunto. A ênfase na harmonia das figuras pode resultar em uma interação relativamente pacífica entre elas. No entanto, uma harmonia excessiva pode levar ao desinteresse, à monotonia e ao tédio. Portanto, é importante encontrar um equilíbrio entre a harmonização dos elementos e a preservação de uma variedade suficiente para manter o interesse do observador. Para explorar esse conceito, o artista pode transformar um retângulo em um círculo através de uma série de formas metamórficas. Inicialmente, desenha-se o retângulo em uma folha de papel e, em seguida, desenha-se gradualmente sobre essa imagem, modificando os contornos externos da figura geométrica – alterando o número de lados, o comprimento ou ângulo deles, expandindo ou serrilhando as linhas de contorno, entre outros ajustes. Ao desenhar 20 ou 30 novas figuras, ao final, chegar-se-á a um círculo. As figuras nessa progressão estarão relacionadas entre si até o ponto em que as linhas de contorno mudam o suficiente para iniciar uma nova família de formatos. Será possível identificar duas ou três famílias distintas na sequência - é importante observar o ponto de transição entre uma família e outra. Essa mesma experiência pode ser realizada com figuras biomórficas ou totalmente inventadas. Para examinar individualmente cada figura da progressão, basta desenhá-las em folhas de papel manteiga, sobrepondo uma folha nova sobre cada figura que for desenhada. 6 A HISTÓRIA De acordo com Carvalho (1960), a capacidade visual humana desempenha um papel fundamental na concepção da perspectiva. Embora possamos perceber a tridimensionalidade do mundo ao nosso redor, transformar essa percepção em representações perspectivasnão é uma tarefa tão simples quanto parece. Nas eras antigas, não havia uma valorização da tridimensionalidade em si, mas sim da importância do objeto retratado. Tanto objetos quanto pessoas eram desenhados de acordo com seu status social. A arte daquela época apresentava um estilo frontal e traços simplificados, carecendo de senso de distribuição e equilíbrio, resultando em pinturas com aparência plana. Embora o naturalismo grego e romano tenha suavizado as formas, ainda não se alcançava uma representação tridimensional precisa. Segundo Dominguez (2011), o período do Renascimento trouxe mudanças significativas no pensamento humano. As descobertas de Nicolau Copérnico provocaram uma ruptura com as visões anteriores de Deus, do homem e do mundo. As grandes viagens marítimas e a expansão do conhecimento geraram um fervor intelectual e abertura para novas possibilidades. Essas mudanças sociais e culturais também tiveram impacto no campo das artes visuais e da arte em geral, surgindo uma forma de arte que buscava se separar das concepções artísticas do mundo medieval, retomando aspectos da cultura greco-romana. O pintor florentino Giotto foi o primeiro a romper com o simbolismo e o estilo altamente estilizado do gótico. Ele começou a utilizar empiricamente a perspectiva em seus desenhos, com base nos estudos do arquiteto Filippo Brunelleschi (1377-1446). O desejo de conhecimento enriqueceu esse período, e os artistas da época se tornaram astrônomos, médicos, inventores, arquitetos e matemáticos. Como resultado, em 1511, o arquiteto Leon Baptista Alberti publicou o primeiro tratado sobre desenho em perspectiva, intitulado "Della Pictura"; diversos outros tratados surgiram, incluindo aqueles de Leonardo da Vinci, que são os precursores do estudo da perspectiva como a conhecemos hoje. Figura 42 - Diagrama do experimento de Brunelleschi com perspectiva linear. Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). 6.1 A Perspectiva A perspectiva é uma técnica visual que tem como objetivo representar a realidade tridimensional de forma que possamos perceber os objetos como os enxergamos, criando a sensação de profundidade. O uso do desenho em perspectiva desempenha um papel significativo como uma ferramenta eficaz para estudar e avaliar produtos. Na área da arquitetura, essa técnica permite simular formas, trajetos, espaços e visualizar detalhes que ilustram a concepção de uma construção. Para facilitar a compreensão do processo de desenho em perspectiva, vamos apresentar algumas definições. Sistemas de Projeção O ato de realizar um desenho envolve uma atividade gráfica na qual utilizamos linhas para representar objetos situados em nosso mundo. Essas linhas desempenham diversas funções, algumas auxiliando na representação do objeto em questão, enquanto outras compõem o próprio objeto. Quando desenhamos, estamos retratando essa realidade tridimensional em um plano bidimensional. Essa operação gráfica é conhecida como sistema de projeção, que é composto por três elementos fundamentais: o ponto de projeção, as linhas projetantes e o plano de projeção. O ponto de projeção é o local no espaço a partir do qual as linhas projetantes partem e se intersectam com o objeto a ser desenhado. O plano de projeção, por sua vez, é uma superfície ilimitada na qual o objeto é projetado. Na Figura 43, podemos visualizar o desenho resultante da projeção de um ponto, ou seja, a representação desse objeto específico. Figura 43 - Sistema de projeção Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). Existem dois tipos de sistemas de projeção: o cônico e o cilíndrico. No sistema de projeção cônico, o cone imaginário é colocado sobre o objeto que será projetado. Os raios de luz partem do vértice do cone e atravessam o objeto, projetando suas características em um plano imaginário que está posicionado perpendicularmente ao eixo do cone. Esse plano é chamado de plano de projeção. Quando o objeto é mais próximo do vértice do cone, sua imagem projetada no plano de projeção é maior e, à medida que o objeto se afasta do vértice, a imagem projetada se torna menor. Isso significa que as projeções de objetos mais próximos do vértice do cone são mais distorcidas, enquanto os objetos mais distantes têm menos distorção. Esse sistema de projeção é comumente utilizado em mapas topográficos e de pequenas áreas, pois é mais adequado para representar regiões limitadas e relativamente próximas ao ponto central da projeção. Por outro lado, no sistema de projeção cilíndrico, um cilindro imaginário é colocado ao redor do objeto que será projetado. Os raios de luz partem do objeto e projetam suas características na superfície interna do cilindro. Em seguida, o cilindro é desenrolado em um plano, criando uma representação plana do objeto. Existem diferentes tipos de projeção cilíndrica, sendo as duas mais comuns a projeção cilíndrica equidistante e a projeção cilíndrica conforme. Na projeção cilíndrica equidistante, as distâncias entre os pontos são mantidas fielmente, enquanto na projeção cilíndrica conforme, as formas são preservadas, mas as distâncias são distorcidas. Esse sistema de projeção é amplamente utilizado em mapas de grandes áreas, como mapas mundiais e mapas de continentes, pois é mais adequado para representar áreas extensas sem grandes distorções nas formas dos continentes. Ambos os sistemas de projeção têm suas vantagens e limitações, e a escolha entre eles dependerá da área a ser representada, bem como dos objetivos específicos do mapa ou projeto em questão. Cada sistema de projeção oferece diferentes compromissos entre distorção de formas, distorção de áreas e preservação de distâncias, e é importante selecionar o mais adequado para garantir uma representação precisa e útil do objeto ou região em questão. Para compreender a projeção cônica, observe a Figura 44. Figura 44 - Sistema de projeção cônica Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). Podemos observar que as linhas projetantes convergem em direção ao ponto de projeção, criando uma superfície que se assemelha a um cone. Esse efeito ocorre devido à localização finita do ponto de projeção em relação ao plano de projeção. Esse tipo de sistema de projeção é conhecido como projeções cônicas. Um exemplo prático de projeção cônica é a luz de uma vela que incide sobre um objeto e forma sua sombra na parede, como pode ser visualizado na Figura 45. Figura 45 - Projeção cônica – Exemplo Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014) Projeções cilíndricas Visualize o objeto da Figura 46, porém com o centro de projeção localizado a uma distância infinita em relação ao plano de projeção, conforme ilustrado na Figura 6. Figura 46- Projeção cilíndrica - Exemplo Fonte: Adaptado de Gianpietro Sanzi e Eliane Soares (2014). 6.2 Composição do desenho Conforme indicado por Ching (2007), é inegável que o tamanho do desenho deve ser previsto em relação ao formato da folha. Além do próprio desenho, é importante lembrar que haverá a presença de um título, textos, escala e outros símbolos associados. Esses elementos são essenciais na comunicação visual e compõem a estrutura do desenho, transmitindo a mensagem desejada. Paul Klee (1990) também destaca que todas as formas pictóricas têm início com um ponto que é colocado em movimento, resultando na formação de uma reta, que representa a primeira dimensão. A continuação do movimento da reta forma um plano, acrescentando uma dimensão ao desenho, e o choque de planos leva à criação de formas tridimensionais. Essas diretrizes de composição, combinadas com os elementos vitais como ponto, linha e forma, são fundamentais para guiar o processo de criação de desenhos expressivos e comunicativos (CHING, 2007). Seguem algumas orientações importantes para o processo de desenho: • Comece traçando