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AVALIAÇÃO NEUROPSICOLOGICA DA ATENÇÃO INSTRUMENTOS DE AUXÍLIO DIAGNÓSTICO DOS

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AVALIAÇÃO NEUROPSICOLOGICA DA ATENÇÃO: 
INSTRUMENTOS DE AUXÍLIO DIAGNÓSTICO DOS 
TRANSTORNOS DA ATENÇÃO 
 
 
 
Mônica Carolina Miranda 
Psicóloga, Mestre e Doutora em Ciências pelo Departamento de Psicobiologia – UNIFESP, 
coordenadora do NANI – Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil. 
Email: mirandambr@yahoo.com.br 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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A Avaliação Neuropsicológica 
 
Conforme descreveu Luria (1981), por muitas décadas a atividade humana e a 
estrutura funcional dos processos psicológicos como a percepção e memória, a atividade 
intelectual, a fala, o movimento e a ação foram descritos em termos puramente mentais e 
abstratos, sendo as descrições baseadas fundamentalmente nas relações empíricas entre a 
percepção e cognição. Entretanto, um aspecto importante permanecia sem explicações: 
quais os mecanismos cerebrais subjacentes a esses processos. Neste sentido, a partir do 
conhecimento do cérebro, a neuropsicologia organizou um poderoso instrumental 
conceitual para a revisão dos mecanismos e estrutura dos processos psicológicos, levando à 
criação de uma teoria da base cerebral da atividade mental. Alcançou status de 
especialidade multidisciplinar, por designar o trabalho em conjunto de neurocientistas 
(neurologia, neurofisiologia, neuroquímica) e de cientistas do comportamento (psicólogos, 
linguístas). 
Porém, em decorrência do fato da evolução da neuropsicologia ter como base a rota 
histórica dos estudos do comportamento e do cérebro através das pesquisas neurológicas, 
durante muito tempo a neuropsicologia permanecia distinta e relativamente pouco 
conhecida no meio acadêmico da psicologia. Lezak em sua obra de 1995, descrevia que a 
neuropsicologia não podia ser entendida como uma ciência “à parte” da psicologia clássica, 
tradicional, mas sim como uma ciência que traz importantes contribuições acerca de 
qualquer forma do comportamento e que a avaliação neuropsicológica não seria um 
processo diverso do psicodiagnóstico, mas sim um psicodiagnóstico que tem como foco a 
relação cérebro-comportamento. 
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No entanto, a partir da Resolução 002/2004 do Conselho Federal de Psicologia que 
regulamenta a pratica da neuropsicologia como especialidade do psicólogo, muitos autores 
descrevem a avaliação neuropsicológica como extensão das atividades em avaliação 
psicológica, pois conforme destacam Alchieri & Cruz (2000) “não é possível referir-se a 
uma avaliação, caracterizá-la e querer defini-la por sua finalidade (avaliação seletiva, 
avaliação psicoeducacional, avaliação neuropsicológica, etc.) dado que a atividade de 
avaliar pressupõe a construção de um conhecimento que será, nesse caso, sobre fenômenos 
psicológicos, delimitados pelas condições teóricas, metodológicas e instrumentais do 
trabalho do psicólogo” (p. 22) 
Cunha (2000) explicita que as estratégias de avaliação aplicam-se a uma variedade 
de abordagens e recursos, podendo se referir ao enfoque teórico adotado. Essas estratégias 
têm sido influenciados, principalmente no século XX, por diversas correntes teóricas acerca 
do comportamento, do afeto e da cognição. A incorporação do método das neurociências 
tem sido utilizada em diversas abordagens da avaliação psicológica, e isto tem ocorrido 
principalmente devido ao fato de que “há necessidade de não somente entender os 
processos psicológicos, mas também ajudar àqueles que sofrem de distúrbios neurológicos. 
A necessidade para o estudo continuado do cérebro e do comportamento é em decorrência 
do fato de que centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo são afetadas a cada ano 
por distúrbios cerebrais, como distúrbios degenerativos (tais como Doença de Alzheimer), 
isquemia cerebral hemorrágica (derrame), esquizofrenia, autismo, déficits de atenção, 
distúrbios de aprendizagem, abuso de drogas, epilepsia e outros” (Cardoso, 1997). 
A avaliação se constitui uma questão central em neuropsicologia, e deve ser 
considerada num contexto amplo, devido ao fato de que a avaliação neuropsicológica tem 
inúmeras metas ou objetivos. As grandes mudanças na abrangência da avaliação 
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neuropsicológica se devem ao fato de que a avaliação passou a não se restringir mais ao 
diagnóstico; seu propósito é entender a natureza do problema ou do distúrbio, incluindo-se 
os fatores de prognóstico, onde se esboça o perfil evolutivo do distúrbio, assim como 
contribui para o processo de intervenção, estabelecendo as estratégias que seriam mais 
efetivas para o processo de reabilitação cognitiva (Miranda, 2006). Além disto, tem sido 
cada vez mais acentuada a relevância de uma avaliação neuropsicológica compreensiva, o 
que implica na necessidade de se entender que uma lesão cerebral, por exemplo, pode 
promover um déficit em algum domínio cognitivo, que por sua vez potencialmente afeta 
outros domínios (por exemplo, uma dificuldade de memória pode ser devida a uma 
alteração de atenção), e ainda que um déficit pode, simplesmente, significar outro 
problema, como fadiga, stress, problemas emocionais, processos psicopatólogicos. 
A avaliação neuropsicológica pode ser expressa quantitativamente e 
qualitativamente. Do ponto de vista quantitativo utilizam-se testes psicométricos que 
baseiam seus resultados em escores e índices. Assim, as características psicométricas 
devem ser consideradas na escolha do teste, pois todos os instrumentos psicológicos são 
medidas do comportamento humano e pressupõem os fundamentos da medida em ciências, 
garantindo legitimidade e cientificidade a esses instrumentos, e devem apresentar certas 
características que justifiquem podermos confiar nos dados que produzem (Alchieri, 2004, 
Pasquali, 2001) 
Porém, ainda são poucos os testes neuropsicológicos traduzidos e padronizados no 
Brasil, muitos deles são adaptados de outras culturas e a correta interpretação dos 
resultados obtidos exige o raciocínio clínico do avaliador. Além disto, devido ao fato de 
termos poucas editoras especializadas no Brasil que comercializem instrumentos 
neuropsicológicos, muitas vezes a seleção de testes fica confinada a disponibilidade do 
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teste em nosso meio, particularmente aqueles relativos a algumas funções cognitivas como 
do caso das funções de atenção, objeto de análise do presente trabalho. 
 
 
Conceitos de Atenção 
 
 “Todo mundo sabe o que é atenção. É a tomada de 
posse pela mente, de forma clara e vívida, de um entre 
vários outros objetos ou fluxos de pensamento que se 
apresentam simultaneamente ... Implica um retraimento de 
algumas coisas para lidar de maneira efetiva com outras” 
William James (1890). 
 
Toda atividade humana organizada possui algum grau de direção e seletividade. O 
caráter direcional e a seletividade dos processos mentais, base sobre a qual se organizam, é 
denominada atenção (Luria, 1981). Neste sentido a atenção é o mecanismo pelo qual nos 
preparamos para processar estímulos, enfocar o que vamos processar, determinar quanto 
será processado e decidir se demandam uma ação. Segundo Lezak (1995) atenção refere-se 
a vários processos ou capacidades relativas a como o organismo se torna receptivo a 
estímulos e como ele inicia o processamento de estimulações externas e internas. 
Como visto vários autores tentam definir o conceito de atenção, mas não há ainda 
consenso a respeito da natureza desse processo da cognição humana. Nahas e Xavier (2004) 
discutem que tais controvérsias estão presentes não só na definição, mas também nas 
teorias sobre a atenção, pois muitas vezes o termo atenção é utilizado como capacidade de 
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selecionar parte do estimulo para um processamento mais intenso e outras vezes entendido 
como sinônimo