Prévia do material em texto
UNIDADE III – ECONOMIA INTERNACIONAL 2 Organização Mundial do Comércio; Rodadas de Negociações Comerciais; Acordos de Integração Econômica regional A racionalidade econômica evidencia que o livre comércio é benéfico para ampliar o bem-estar da nação, além de proporcionar o uso eficiente dos recursos disponíveis. Mas, na prática, esse argumento não é suficiente, pois ocorre transferência de renda entre pessoas e nações, acarretando geração de emprego e renda no país exportador. O consumidor, ao comprar um produto importado, deixa o produto nacional na “prateleira” e afeta, diretamente, o produtor doméstico. Por outro lado, o consumidor tem acesso a produtos mais baratos e com maior valor agregado. Como equacionar esta questão? É nesse contexto que os organismos multilaterais entram em cena com regras para regular o mercado internacional e estimular o intercâmbio entre as nações. Compatibilizar os benefícios do comércio internacional com a capacidade competitiva das economias é o que iremos discutir nesta unidade. Objetivo Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: · Avaliar questões de ordem internacional, em seus diferentes graus de complexidade, para o processo da tomada de decisão relativa a questões estratégicas nas organizações considerando as variáveis conjunturais. Conteúdo Programático Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas: · Tema 1 - Do GATT a OMC: Breve histórico; OMC: Papel e estrutura legal · Tema 2 - Regras do Comércio Exterior e a avaliação dos principais organismos mundiais; Termos de Troc · Tema 3 - Bloco Econômico Regional: fases de integração A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la. Eduardo Galeano Tema 1Do GATT a OMC: Breve histórico; OMC: Papel e estrutura legal Qual o papel da OMC no âmbito internacional? Anteriormente visualizamos uma linha do tempo com os episódios que marcaram as primeiras décadas do século XX. A partir do esquema apresentado, discutimos a ruptura do paradigma econômico da Escola Clássica e a Revolução Keynesiana em resposta à queda da bolsa de valores de Nova York e a grande Depressão dos anos de 1930. Agora, nossa análise recai sobre os contornos das duas guerras no que tange às medidas adotadas para minimizar os conflitos de interesse entre as nações. Compatibilizar as divergências e eliminar a tensão de novos conflitos passa a ser a meta da diplomacia internacional. 1944 - Conferência de Bretton Woods Em 1944, na cidade americana de Bretton Woods, New Hampshire, representantes de 44 nações se reuniram para debater o rumo das relações comerciais e financeiras no pós-guerra. Na Conferência de Bretton Woods, nome pelo qual ficou conhecido o encontro, foram criados organismos multilaterais com o propósito de incentivar a cooperação e viabilizar o intercâmbio entre os países. Na conferência, houve a tentativa de regulamentar o comércio entre as nações em âmbito internacional com a criação da Organização Internacional do Comércio (OIC), mas, na prática, o acordo não saiu do papel. Na perspectiva financeira, duas importantes instituições foram criadas: Fundo monetário Internacional (FMI) e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), organismos multilaterais que discutiremos na próxima unidade. GATT – Acordo geral de Tarifas e Comércio Em 1947, foi criado o GATT – Acordo geral de Tarifas e Comércio; a sigla segue a denominação em inglês General Agreement on Tariffs and Trade, com o objetivo de viabilizar o intercâmbio entre as nações por meio de comércio justo, que viesse a beneficiar todos os países independente de seu grau de desenvolvimento econômico. O GATT representou um avanço nas relações internacionais por buscar ampliar o poder de barganha dos países menos desenvolvidos, promover um ambiente favorável às negociações e eliminar o protecionismo praticado pelas nações. Com esse propósito, o GATT partir de três princípios fundamentais: · Tratamento igual, não discriminatório, para todas as nações – Cláusula da Nação Mais Favorecida, estabelecendo que os acordos bilaterais fossem estendidos aos demais países signatários e incorporados a um documento multilateral; · Redução de tarifas por meio de negociações – estabilização das tarifas e retirada das restrições sobre as importações; · Eliminação das cotas de importação – conter as medidas protecionistas para favorecer as barganhas internacionais. O GATT passou a ser a instância de negociação sobre questões comerciais e o responsável por aumentar a interdependência entre as nações. Porém, apesar de sua importância, o fato de ser um acordo, limitou o alcance de sua proposta. Partindo dessa constatação, em setembro de 1986 iniciou a última rodada de negociações sobre sua gestão, realizada na cidade de Punta del Este, Uruguai, finalizada em abril de 1994. A rodada Uruguai pode ser considerada a mais ambiciosa negociação sobre a gestão do GATT, culminando na criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995. A OMC incorporou os princípios do GATT, passando a ser a instituição reguladora do protecionismo e, por sua importância, novos temas foram agregados à pauta de discussão. Diferente do GATT, a OMC não era um acordo provisório que dependia do bom senso entre as partes. A OMC tem personalidade jurídica, o que significa que sua constituição lhe concede o poder de intervir em situações de controvérsia entre os países. OMC – Organização Mundial do Comércio A estrutura da Organização Mundial do Comércio obedece ao seguinte organograma: Conferência Ministerial Órgão de Exame de Políticas Comerciais Conselho Geral Órgão de Solução de Controvérsias Órgão Permanente de Apelação Grupos de Solução de Controvérsias Conselho de Comércio de Mercadorias Conselho de Comércio de Serviços Conselho dos Direitos Propriedade Intelectual relacionadas ao comércio Comitês de: Comércio e meio ambiente; Comércio e desenvolvimento; Acordos comerciais regionais; Restrições do balanço de pagamentos; Finanças, orçamento e administração. Fonte: Adaptado de CARVALHO, Maria Auxiliadora de. Economia Internacional. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 103. Suas principais funções podem ser resumidas a: · Gerenciar os acordos multilaterais; · Administrar o entendimento sobre soluções de controvérsias; · Servir de fórum para as negociações; · Supervisionar as políticas comerciais nacionais; · Cooperar com as demais organizações internacionais. A criação da OMC inaugurou uma nova fase no intercâmbio entre as nações, permitindo maior alinhamento entre as economias dos países desenvolvidos e as dos países em desenvolvimento, tornando o comércio mais justo. “A vaca foi para o brejo.” Em linguagem popular, é uma analogia a tempos difíceis, de seca, que obriga o gado a migrar para novas pastagens em direção a brejos ou terrenos pantanosos em busca de água, colocando a vida em risco. No jargão econômico, significa barreira não tarifária referindo-se a exigências de vacinação do gado a fim de cumprir requisitos para a exportação do produto. Lembrete: o objetivo é confrontarmos os conteúdos do estudo avaliando a clareza na abordagem da aula ou se devemos retornar a algum conceito. É importante estarmos em sintonia. Então, dúvidas devem ser esclarecidas para eliminá-las, concorda? Tema 2Regras do Comércio Exterior e a avaliação dos principais organismos mundiais; Termos de Troca As rodadas de negociações internacionais favorecem as economias menos desenvolvidas? O propósito da aula anterior foi apresentar como as nações firmaram acordos que, além de promover maior interdependência entre os mercados, visavam a estabelecer um ambiente favorável de negociação, objetivando evitar novos conflitos. A partir dessa proposta, discutimos a Conferência de Bretton Woods como ponto de partida para a criação de organismos multilaterais. A ênfase do estudo foi direcionada para a criação de uma organização voltada para os interesses comerciais – Organização Internacional do Comércio – OIC, frustrada naquela ocasião. Posteriormente, a abordagem recaiu sobre a criaçãodo GATT, em 1947. Nesse contexto, a última rodada de negociações no âmbito do GATT foi estudada e o desfecho da rodada Uruguai culminou na criação da OMC, em 1995, organismo multilateral que substituiu o GATT. Agora, vamos discutir a primeira rodada sobre o comando da OMC — Rodada Doha , destacando sua importância, avanços e desafios. Inicialmente, precisamos definir o que são rodadas de negociações internacionais e analisar sua relevância. Rodadas de negociações são encontros entre países-membros da OMC com o propósito de estabelecer mudanças nas regras adotadas nas trocas internacionais; os países colocam em pauta suas questões, restrições e concessões com vistas à redução de entraves ao comércio internacional. O nome da Rodada é definido de acordo com o local onde ocorre o primeiro encontro em que os temas serão discutidos. Por exemplo, na aula anterior estudamos a rodada Uruguai iniciada em 1986 na cidade de Punta del Este. O ponto de partida para as negociações “batizou” o nome da rodada seguida por outros encontros: Montreal, Genebra, Bruxelas, Washington e Tóquio. Dessa forma, durante a IV Conferência Ministerial da OMC, no ano de 2001, em Doha, capital do Qatar, foi lançada a pauta de negociações com base nos seguintes assuntos: · Reduzir os picos tarifários, altas tarifas, escalada tarifária e barreiras não tarifárias em bens não agrícolas; · Discutir temas relacionados à agricultura – subsídios, apoio interno, redução de tarifas e crédito à exportação; · Negociar a liberalização progressiva em serviços, conforme estabelecido nas discussões do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços – GATS; · Ampliar o Acordo Trade Related Investment Measures – TRIMs, relacionado aos investimentos em bens: escopo e definição, transparência, não discriminação, exceções e salvaguardas do balanço de pagamentos, mecanismos de consultas e solução de controvérsias; · Discutir a interação entre comércio e política de concorrência com base na transparência, não discriminação, cooperação voluntária e instituições de concorrência para os países em desenvolvimento; · Negociar maior transparência em compras governamentais; · Melhorar o arcabouço institucional ao comércio eletrônico; · Aprimorar os dispositivos do Acordo de Solução de Controvérsias, considerando os interesses e necessidades especiais dos países em desenvolvimento; · Preservar e aprimorar as disciplinas dos acordos sobre antidumping, subsídios e medidas compensatórias. A pauta de negociações coloca em relevo interesses dos países desenvolvidos e dos países menos desenvolvidos visando a harmonizar as disputas. Com esse propósito, a Rodada também é chamada de Agenda do Desenvolvimento, com regras que favoreçam a ampliação dos fluxos de comércio dos países em desenvolvimento e menos desenvolvidos em âmbito mundial. A principal controvérsia da rodada está alicerçada em interesses antagônicos entre os países desenvolvidos (principais exportadores de produtos manufaturados) e os países em desenvolvimento (principais exportadores de produtos agrícolas). Na prática, Brasil e Índia exigem a diminuição/eliminação dos subsídios agrícolas praticados pela União Europeia e Estados Unidos por enfraquecerem a competitividade de suas exportações. Do outro lado, os países desenvolvidos querem a diminuição de tarifas e a abertura para seus produtos industrializados. A previsão de término da rodada estava prevista para 2005, mas a negociação esbarrou na dificuldade do acordo em relação aos mercados agrícola e industriais, tema discutido até hoje. Tema 3Bloco Econômico Regional: fases de integração Blocos econômicos: criação ou desvio de comércio? Blocos econômicos regionais são acordos firmados entre nações com o propósito de ampliar seus mercados ou melhorar o poder de barganha no comércio internacional. A necessidade de unir nações com interesses comuns visando a fortalecer a produção do país e demais parceiros não é recente. Em 1951, Alemanha Ocidental, França e Itália uniram forças com vistas à criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço – CECA. O propósito do acordo era estabelecer a livre circulação de carvão, ferro e aço entre os países-membros. Posteriormente, com o Tratado de Roma, os acordos avançaram e permitiram uma integração regional com vista a unir esforços para enfrentar a concorrência internacional e melhorar o alcance comercial das nações. A composição dos blocos regionais obedece à lógica da integração econômica visando a melhorar a produção e a inovação tecnológica, possibilitando favorecer os países signatários com acordos diferenciados. O esquema a seguir apresenta de forma simplificada a concepção da integração: Áreas de livre comércio Discriminação dos produtos que serão transacionados. União aduaneira Adoção da Tarifa Externa Comum – TEC para os produtos exportados das demais economias. Mercado comum Amplia os acordos para a livre circulação de pessoas e de capitais, passando a adotar políticas comerciais conjuntas. A integração regional não obedece à ordem definida pela fase de integração econômica. Na prática, as negociações convergem para interesses recíprocos, de modo que os acordos possam ser elaborados com base em interesses recíprocos e de acordo com a dinâmica de cada país. ZONA DE LIVRE COMÉRCIO: Eliminação de barreiras de comércio entre os parceiros; políticas comerciais independentes. UNIÃO ADUANEIRA: Acrescenta política comercial uniforme em relação aos demais países. MERCADO COMUM: Amplia o deslocamento de capital e de mão de obra, e a política comercial é uniforme em relação a países não membros. UNIÃO ECONÔMICA: Harmonização das políticas econômicas. INTEGRAÇÃO ECONÔMICA TOTAL: Livre deslocamento de bens, serviços e fatores de produção; políticas econômicas e sociais administradas por autoridades supranacionais. Encerramento Qual o papel da OMC no âmbito internacional? Ser uma instituição reguladora do protecionismo com o objetivo de: gerenciar acordos multilaterais de comércio relacionados a bens, serviços e direitos de propriedade intelectual; administrar o entendimento sobre soluções de controvérsias; servir de fórum para as negociações; supervisionar as políticas comerciais nacionais e cooperar com outras organizações internacionais — papel de alta relevância para favorecer o comércio entre as nações. As rodadas de negociações internacionais favorecem as economias menos desenvolvidas? A importância das rodadas de negociações internacionais reside em estabelecer regras que promovam um comércio mais justo entre as nações, independente do grau de desenvolvimento econômico e social de cada país. Blocos econômicos: criação ou desvio de comércio? Blocos econômicos regionais são acordos firmados entre nações com o propósito de ampliar seus mercados ou melhorar o poder de barganha no comércio internacional. A resposta coloca em relevo a discussão do conceito de criação e desvio de comércio apresentado por Jacob Viner. Criação de comércio está baseada no preço mais competitivo, ou seja, está vinculada à vantagem comparativa desenvolvida por determinada economia onde a produção é mais eficiente; consequentemente, os custos são menores e os preços mais competitivos. Desvio de comércio ocorre quando os preços deixam de ser o fator preponderante das trocas internacionais, ou seja, o que rege a relação do comércio são os acordos firmados entre os países parceiros do bloco econômico. A conclusão é que os blocos econômicos podem ser utilizados com propósito protecionista por manter o livre comércio entre signatários do acordo e proteção aos demais países. Resumo da Unidade Verificamos, dentro de uma perspectiva histórica, o quanto foi complicado criar uma organização multilateral que pudesse contemplar as demandas e as especificidades de cada país. Discutimos o papel do GATT, sua relevância e limitações. A partir dessa abordagem, o estudo recaiu sobre a Rodada Uruguai, última rodada sobre a gestão do GATT, colocando em relevo novos temas e a criação da OMC. Posteriormente, no comando da OMC — organismomultilateral com personalidade jurídica e poder para intervir nas controvérsias internacionais —, é lançada a Rodada Doha. A base da pauta de discussão da rodada estava centrada nos subsídios agrícolas adotados pelos países desenvolvidos e na eliminação de medidas tarifárias adotadas pelos países em desenvolvimento. Parece que o resultado das negociações não teve placar 1 X 1, significando que os interesses antagônicos não convergiam para um acordo que satisfizesse a necessidade de cada país. Como resultado, a rodada prevista para terminar em 2005 estende-se até hoje. Finalizando a unidade, estudamos a composição dos blocos econômicos regionais. Verificamos que, apesar da crescente integração de acordos comerciais de países do mesmo continente, a integração regional sempre foi buscada para ampliar a participação no âmbito mundial, articulando a adoção de políticas comuns entre os signatários e fortalecendo as barganhas internacionais. Dentro dessa perspectiva, discutimos o conceito de criação e desvio de comércio para confrontarmos se os acordos têm propósito protecionista ou se são instrumentos que visam a favorecer o desenvolvimento econômico das nações no âmbito mundial. As questões norteadoras da unidade tiveram por objetivo ampliar as possibilidades da abordagem da aula. Mais do que perguntas, as questões foram propostas para possibilitar uma reflexão ampla e objetiva a respeito do intercâmbio entre as nações. Posso inferir que você agora percebe que a relação de comércio entre as nações vai além da migração de produtos e serviços. São questões que exigem um conjunto de fatores que consolidarão a inserção do país no âmbito internacional, ou simplesmente impor aderência aos novos modelos exigidos. image3.png image4.png image5.png image6.png image1.png image2.png