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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI ... PRÁTICAS EM TERAPIA OCUPACIONAL ICENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI AULA 8 - ÉTICA E OBSERVAÇÃO Abertura Olá! A ética está intimamente ligada aos aspectos que estruturam a atividade científica, portanto, precisa ser debatida para gerar reflexões permanentes por meio de mecanismos de regulação. Qualquer setor acadêmico ou profissional possui um código de ética próprio para conduzir as ações do indivíduo, entre esses setores, incluem-se da pesquisa observacional e da terapia ocupacional. Nesta aula, será abordada a ética no contexto da observação, com foco no ramo da terapia ocupacional. Bons estudos!8 ÉTICA E A OBSERVAÇÃO Pearlman (2000) afirma que, no contexto de uma pesquisa observacional, alguns pesquisadores podem se perguntar se esse tipo de pesquisa precisa de aprovação do comitê de ética e pesquisa ou quando será preciso ter o consentimento do paciente ou do indivíduo estudado para conduzir a pesquisa. Para responder a essas perguntas, o primeiro passo é conceituar os termos "estudo observacional" e "pesquisa". Como visto nas aulas anteriores, a observação é a base para qualquer procedimento clínico ou pesquisa na área da saúde, mas, ainda assim, predomina-se o entendimento de que estudos de cunho quantitativo, como os ECR (Ensaios Clínicos Randomizados) ou até os estudos clínicos randomizados controlados, são mais confiáveis, chegam a ser erroneamente considerados como a forma correta de realizar experimentos. Estudos observacionais são aqueles onde o pesquisador não interfere nas práticas ou no ambiente dos participantes, sua função é apenas observar e coletar os dados, eles também podem estar baseados em documentos sobre a história clínica ou dados do paciente. Esse tipo de estudo pode ser realizado na forma de estudos de caso, como as pesquisas de caso-controle ou de estudos de coorte, mas sempre vai envolver a observação do pesquisador, que vai anotar os dados e apresentá-los de forma individual ou organizada conforme os grupos categorizados. Por sua vez, a pesquisa diz respeito a um tipo de prática cujo objetivo é criar um novo conhecimento ou contribuir com um conhecimento já criado antes por meio de novas evidências. Nessa prática, pesquisadores devem coletar dados que vão além daqueles necessários para um estudo observacional e podem interferir no objeto de pesquisa, desde que obedeça os princípios éticos estabelecidos. No Brasil, os estudos são avaliados pelo CEP (Comitê de Ética e Pesquisa), cuja função é avaliar e monitorar aspectos éticos de qualquer pesquisa que envolva os seres humanos, inclusive os estudos observacionais. A resolução CNS 466/2012 prevê que toda pesquisa que envolva seres humanos deve ser submetida à apreciação do CEP, a fim de garantir a salvaguarda dos direitos, da segurança, da dignidade e do bem-estar dos sujeitos envolvidos, portanto, mesmo nos estudos observacionais, que envolvem coleta de dados pessoaisou sensíveis, é obrigatório o consentimento informado, salvo em situações específicas previstas na resolução, como: Estudos retrospectivos com dados ou amostras já coletadas, desde que garantam a confidencialidade e o anonimato dos pacientes; Pesquisas em que risco para os pacientes seja mínimo e não envolva procedimentos invasivos ou capazes de gerar problemas psicológicos, físicos ou sociais; Estudos que usem dados públicos ou informações disponíveis em fontes acessíveis ao público, sem identificação dos sujeitos; Situações previstas em legislação específica que autorizem a dispensa de consentimento, como estudos epidemiológicos de vigilância em saúde pública, quando o contato direto com os participantes não for necessário ou possível. Vale ressaltar que comitê também tem um papel educativo, consultivo e deliberativo, que busca garantir que protocolos dos estudos observacionais cumpram requisitos éticos e protejam os direitos dos participantes, ainda que os estudos não envolvam intervenções diretas. 8.1 Ética na terapia ocupacional No cotidiano, alguns profissionais podem ter contato com pacientes que enfrentam problemas emocionais, essa situação envolve algumas particularidades que não estão previstas em nenhuma lei, o que pode levar ao questionamento sobre que pode ser definido como ético na terapia ocupacional. Nesse contexto, se fosse possível explicar a essência do que é ético somente por meio da teoria, então não teria valor algum saber sobre a ética. Se ela existe, a ética é sobrenatural, ao passo que nossas palavras possam expressar somente os fatos. Não se trata de elaborar uma descrição de boa conduta, nem de afirmar que seria bom, mas sim de encarar a ética de forma diferente e de impregnar ela na própria vida. Isso possibilita começar a enquadrar a ética na clínica da terapia ocupacional. Ao pensar no paciente, marginal ou marginalizado, que tenha um problema social, mesmo sem ser doente ou deficiente, pode-se presumir que a natureza doproblema é ambígua, difícil de ser diagnosticada ou isolada. A princípio, o intuito é fazer a ética se impregnar na relação terapeuta-paciente- atividades. Para isso, será preciso deixar aberta a possibilidade de qualificar as diversas formas e/ou fenômenos ocorridos com o paciente, bem como seus déficits para a tomada de decisão. Há a necessidade de realizar uma crítica fundamentada ao processo, de forma a questionar a "normatização" do indivíduo, sem excluir os Desse modo, tem-se uma técnica para ser demonstrada como útil em cada caso, que não é possível é sistematizar sem experiência ou prática a sua finalidade, portanto, fica a cargo do terapeuta ocupacional definir as condições e a natureza de cada caso. A responsabilidade do profissional reside na particularidade de uma assistência, tanto no meio material quanto no imaterial, isto é, na prática e no campo das ideias. Com isso, que é ético deve ser definido a todo momento e em cada situação. É nisso que permite aproximar a vida da ética, de impregná-la na prática clínica como um problema de resolução prática. Na forma, esses pressupostos buscam a estética, um fator fundamental para uma profissão que combina a arte do tratar com a arte do fazer. Quanto ao conteúdo, é com base na ética que se desenvolve a clínica da terapia ocupacional, ao procurar soluções de como converter a teoria em prática, de modo que faça o indivíduo se afastar de si como indivíduo e caminhe em direção ao social. A integração do paciente sem dúvida é uma questão deontológica. A preocupação com a pluralidade se manifesta quando se questiona quais "costumes" serão considerados para constituir a ética de cada profissional ou como terapeuta ocupacional usará seus aspectos culturais para recomendar princípios morais. 8.2 Código de Ética da Terapia Ocupacional O estudo dos princípios fundamentais e do sistema moral que regem a área da terapia ocupacional apresenta uma anomalia: o código em si é plural. Ele é formado pelo COFFITO (Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional), que foi aprovado, pela primeira vez, em 3 de julho de 1978 e, desde então, orienta as ações tanto dos fisioterapeutas quanto dos terapeutas ocupacionais.No entanto, vale questionar se os "costumes" são os mesmos para ambas as profissões e, evidentemente, não são, basta observar que essas profissões são bem distintas em suas práticas. No caso da terapia ocupacional, ela examina fatores psicológicos, sociais e físicos que permitem promover a independência da pessoa, conforme seu desempenho na escola, em casa ou no ambiente de trabalho. Por sua vez, a fisioterapia envolve o tratamento focado na ajuda ao indivíduo portador de uma disfunção física (para ganho de novos movimentos), além de tratar afecções em membros ou articulações. Sendo assim, cabe aqui primeiro questionamento: Como é possível ter apenas uma orientação de natureza ética ou de princípios para duas áreas definidas em campos distintos, com procedimentos e objetivos diferentes? A próxima questão se refere à identidade nacional da profissão de terapia ocupacional. Bastariam as duas definições supracitadas para deixar em aberto a posição controversa de um código de ética para duas entidades profissionais, mas como identificá-las ou construir identidades? Apenas em 2013, COFFITO estabeleceu um código de ética para o fisioterapeuta e outro para o terapeuta ocupacional mediante a resolução 425/2013, ele apresenta dobro de unidades textuais em comparação com sua versão anterior, mais precisamente, 120 unidades a mais, o que totaliza 239 unidades textuais. No código anterior, foram identificadas 54 unidades pertencentes à categoria do principalismo bioético, elas foram superadas pelas unidades textuais classificadas como pertencentes às categorias deontológicas, que somaram 64 unidadades. Já o novo código apresentou uma inversão, com 128 unidades pertencentes à categoria do principalismo bioético, enquanto 111 foram identificadas como deontológicas, como mostra Quadro 1. Logo após, cada item será descrito brevemente.Quadro 1 - Classificação das unidades textuais Novo Antigo Justiça 54 21 Beneficência 15 04 Principalismo bioético Não maleficência 17 10 Profissional 28 13 Autonomia Cliente 14 06 Virtude 67 38 Deontologia Técnica 44 26 Total 239 118 Fonte: Adaptado de Figueiredo et al., 2017. Justiça: se trata da obrigação de tratar todos com igualdade e imparcialidade, com o intuito de assegurar a equidade no acesso e no atendimento à saúde. Beneficência: manifesta o dever de agir em benefício do paciente, isto é, de promover o bem-estar e a saúde. Não maleficência: consiste no compromisso em não causa dano ou prejuízo ao paciente. Autonomia: ressalta respeito à capacidade do paciente (cliente) de tomar decisões sobre seus cuidados, além de respeitar a liberdade do profissional em exercer sua prática com base em sua consciência técnica e ética. Virtude: diz respeito às qualidades morais e éticas que todo profissional deve ter, como integridade, honestidade e responsabilidade. Técnica: consiste no uso competente e adequado dos conhecimentos científicos atuais e das habilidades profissionais em prol do cuidado à saúde. Mesmo sem muito progresso em relação ao conteúdo, código atual mostrou avanços nas questões bioéticas, além de ser possível observar todas as unidades textuais dessa categoria (justiça, beneficência, autonomia e não maleficência) distribuídas de forma clara no texto, enquanto antigo código contava apenas com a categoria autonomia bem clara, seguida pelo predomínio da palavra do profissional. Em contrapartida ao antigo código, onde a virtude e a técnica eram os itensmais citados (ambos da categoria deontologia), o novo colocou a justiça logo atrás do item virtude. item justiça representa a distribuição adequada e coerente de deveres e benefícios sociais, além de ser o princípio formal da equidade, um dos princípios doutrinários definidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo com a redução na proporção, o item autonomia ainda conta com a prevalência do profissional sobre cliente, isso mostra uma dimensão autoritária, comumente chamada de paternalismo, que define o terapeuta como lado mais forte da relação. Almeida e Trevisan (2011) discordam desse autoritarismo, pois os autores definem o papel do terapeuta ocupacional como facilitador da ação, com o foco voltado para o cliente, a fim de respeitar suas necessidades individuais. Além disso, essa conduta é contrária às perspectivas internacionais, que entendem como competência principal do terapeuta a habilitação do cliente para participar ativamente durante a negociação de objetivos, com prioridade em suas necessidades e metas consideradas. Segundo a WFOT (World Federation of Occupational Therapists, ou "Federação Mundial dos Terapeutas Ocupacionais"), os profissionais devem se dirigir a seus clientes de forma a respeitar e considerar sua situação pessoal, sem discriminação com base em cor, etnia, enfermidade, deficiência, sexo, nacionalidade, orientação sexual, classe social ou política. Desse modo, as preferências pessoais e as capacidades do cliente devem ser consideradas na elaboração da terapia. Além disso, as informações relacionadas ao paciente são totalmente confidenciais e alguns detalhes pessoais podem ser comunicados somente com consentimento expresso dele. No que tange à beneficência, ela deixou de ser a unidade textual menos citada, apesar de ainda ter poucas citações, o que é pouco, visto que é princípio que melhor representa papel do profissional e das instituições diante do cliente. Com base nas mudanças educacionais em relação à formação paternalista desses profissionais, pode-se propor que a beneficência deixe de ser discutida como caráter ético de dever que sobrepõe a autonomia do cliente para que ele seja respeitado como detentor do direito de escolha junto ao profissional, de forma que tenha consenso entre as partes. Por sua vez, princípio da não maleficência, que é reconhecido como deverdo profissional em não causar danos ou em diminuir os riscos ao cliente, continua com poucas citações e ainda é sustentado pela ideia de que não se espera conduta contrária a essa do profissional de saúde. Outra observação importante sobre código atual é sua visão sobre a atuação do profissional também voltada para a saúde pública. A presença de capítulos como "Do Relacionamento concretiza a interdisciplinaridade e destaca os aspectos sobre a humanização do cuidado, proposta pelo SUS. Sobre a interdisciplinaridade, terapeutas ocupacionais devem cooperar e assumir responsabilidade em uma equipe, de modo a aceitar os objetivos médicos e psicossociais fixados. Eles devem elaborar relatórios sobre o progresso alcançado com sua intervenção e proporcionar informações necessárias aos demais membros da equipe. Os terapeutas ocupacionais devem ser protagonistas na evolução da profissão mediante uma aprendizagem contínua para, em seguida, aplicar em seu trabalho as competências e os conhecimentos adquiridos. Esses profissionais também devem incentivar o desenvolvimento e a melhoria da profissão em geral, ou seja, compete a eles a promoção da terapia ocupacional para público geral, para outras organizações profissionais e para os vários comitês e organismos em nível nacional, regional e internacional. Para finalizar a discussão, Foucault (2014) afirma que em teoria ou até antes, em sonho, a dupla taxonomia dos crimes e dos castigos pode resolver o seguinte problema: como aplicar leis fixas a indivíduos singulares? Com base no questionamento do filósofo francês, pode-se caminhar em diversas direções. direito à escolha possibilita aproximar a lei, a responsabilidade e a individualidade. No que tange à lei, mínimo que se espera, no sentido deontológico, é que um código de ética coloque limites, nesse caso, para uma profissão. A identidade profissional perpassa toda essa construção, portanto, é esperado que a linguagem seja condizente com costumes dessa profissão. Ao observar código europeu ou até mesmo código da WFOT, é possível notar uma grande diferença com código brasileiro em questão de linguagem que, mesmo atualizada, continua bastante ambígua e, por vezes, bem semelhante ao código dos médicos. Em relação ao conteúdo, a tradição aparece mais pelo uso de termos jurídicosdo que pelo caráter da profissão. O código vigente trouxe um pouco mais de identidade à profissão de terapia ocupacional, mas a identidade ainda não está tão ressaltada quanto deveria. Esses erros do plural são, inegavelmente, a consequência de uma escolha que considera somente a singularidade da prática clínica, fortemente embasada no empírico, onde técnicas são aplicadas conforme uma demanda ou necessidade, mas também com responsabilidade. Por isso, ainda que não apenas na clínica, mas também na pesquisa e no ensino, os limites devem ser apontados e reconhecidos, além de serem bem construídos e respeitados.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, D. T. D.; TREVISAN, E. R. Estratégias de intervenção da Terapia Ocupacional em consonância com as transformações da assistência em saúde mental no Brasil. Interface - Comunicação, Saúde, Educação. V. 15, n. 36, p. 299-308, 2011. BRASIL. Ministério da Saúde. Resolução CNS n° 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos; revoga as (RES. 196/96); (RES. 303/00); (RES. 404/08). Brasília: Ministério da Saúde, 2012. CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL (COFFITO). Resolução COFFITO n° 425, de 8 de julho de 2013. Estabelece Código de Ética e Deontologia da Terapia Ocupacional. Brasília: COFFITO, 2013. FIGUEIREDO, L.C. et al. Abordagens bioéticas e deontológicas do novo código de ética profissional para terapeutas ocupacionais no Brasil. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional. V. 25, n. 1, p. 171-178, 2017. FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. PEARLMAN, M. Ethical issues in 'observational research'. Paediatrics Child Health. v.5, n. 2, 89-90, 2000.CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI Anotações CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI 00000000