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FRANCISCO IMBERNÓN FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES artmed®PAGUAY & PERRENOUD A artmed® profissionalização dos formadores de professores ANTUNES, modernas: do cotidiano escolar Editora S.A. ANTUNES, # Novas maneiras de ensinar, Av. Jerônimo de Ornelas, 670 Formação continuada novas formas de aprender 90040-340 Porto Alegre, RS, Brasil CHARLOT, Relação com saber, Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070 de professores formação dos professores @ globalização Como ser um professor universitário inovador & OLLAGNIER enigma da em educação PERNANDEZ, A mulher escondida na professora Os professores como & STILBORNE do professor para internet SOETARD, HAMELINE & FABRE - Manifesto a favor dos pedagogos IMBERNON, Formação continuada de professores KLEIMAN & SIGNORINI ensino e a formação do professor BOTERF, G. - Desenvolvendo a dos profissionais OCAAÑA & ZAFRA JIMÉNEZ A atenção à diversidade na educação de jovens MARCHESI, bem-estar dos professores: competências, emoções e valores Carta a um jovem professor PACHECO, J. - Caminhos para a inclusão: um gula para aprimoramento da equipe docente PACHECO, J.A. Políticas curriculares: referenciais para análise PERRENOUD, P. A prática reflexiva no de professor PERRENOUD, P. - As competências para ensinar no século XXI PERRENOUD, Os ciclos da aprendizagem: um caminho para combater fracasso escolar PERRENOUD, P. Construir as desde a escola PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar PERRENOUD, Ensinar: agir na urgência, decidir na incerteza PERRENOUD, P. & COLS. A escola de A a Z: 26 maneiras de repensar a educação PERRENOUD; PAQUAY; ALTET & CHARLIER Formando professores profissionais: quais estratégias? quais competências?Obra originalmente publicada sob título 10 ideas clave: La formación permanente del professorado nuevas ideas para Sumário formar en la innovación y el cambio ISBN 978-84-7827-502-1 ©Francisco Imbernón ©Editorial GRAÓ, de IRIF, S.L. All rights reserved. This translation published under license. APRESENTAÇÃO 7 Capa: Gustavo Macri 1. É NECESSÁRIO CONHECER DE ONDE VIEMOS PARA Preparação de originais: Maria Rita Quintella SABER AONDE VAMOS 13 Leitura final: Cristine Henderson Severo 2. APRENDEMOS MUITO, MAS AINDA HÁ Editora sênior/Ciências humanas: Mônica Ballejo Canto MUITO PARA AVANÇAR 27 Editora responsável pela obra: Carla Rosa Araújo 3. É PRECISO NOS ADEQUARMOS ÀS NOVAS IDEIAS, POLÍTICAS E PRÁTICAS PARA REALIZAR UMA MELHOR Editoração eletrônica: FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES 39 Projeto gráfico DG&D Artmed 4. A FORMAÇÃO CONTINUADA DEVE AGIR SOBRE AS SITUAÇÕES PROBLEMÁTICAS DOS PROFESSORES 53 NA FORMAÇÃO É NECESSÁRIO ABANDONAR o INDIVIDUALISMO DOCENTE A FIM DE CHEGAR AO TRABALHO COLABORATIVO 63 PROFESSORES SUJEITOS DE SUA FORMAÇÃO E COM IDENTIDADE DOCENTE 77 Reservados todos OS direitos de publicação, em língua 7. A FORMAÇÃO DEVE CONSIDERAR A COMUNIDADE 85 portuguesa, à ARTMED® EDITORA S.A. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 Santana SERÁ PRECISO PASSAR DA ATUALIZAÇÃO À CRIAÇÃO 90040-340 Porto Alegre RS DE ESPAÇOS DE FORMAÇÃO 93 Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070 COMO A SOCIEDADE E A EDUCAÇÃO, A FORMAÇÃO É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, DEVE SE BASEAR NA COMPLEXIDADE 99 sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora. 10. A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES DEVE SÃO PAULO ASSUMIR o DESENVOLVIMENTO DAS ATITUDES E DAS EMOÇÕES 107 Av. Angélica, 1091 Higienópolis EPÍLOGO 112 01227-100 São Paulo SP Fone (11) 3665-1100 Fax (11) 3667-1333 114 SAC 0800 703-3444 REFERÊNCIAS 117 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZILApresentação professor, estou pregando uma arte difícil, que é controlar sem preceitos fazer tudo sem fazer absolutamente nada. (Jean Jacques Rousseau em Emílio ou a educação) QUE ATUALMENTE É NECESSÁRIO DESENVOLVER UMA NOVA PERSPECTIVA NA FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES? Pode ser ou parecer que título desta seção seja excessivamente Pode refletir mais que estado do campo de conheci- mento da formação continuada: pode refletir meu estado de ânimo. Ainda assim, não posso evitar dar uma resposta positiva à pergunta que intitula esta apresentação, pensando e refletindo que uma mudança nas políticas e nas práticas¹ da formação continuada de professores² é necessária. Existem muitas coisas que funcio- nam, e não nego que se avançou bastante, mas, sob meu ponto de vista, os últimos anos da formação continuada de professores, e, sendo mais específico, desde princípios do século XXI, significaram um retrocesso ou, para ser mais benevolente ou exato, um estancamento, certa nostalgia para alguns, preocupação para ou- tros e certo desconforto sobre tema para a maioria. Muitas das teorias, práticas e estruturas da etapa anterior mantiveram-se (refi- ro-me, sobretudo, às contribuições teóricas e práticas sobre pen- samento docente, professor reflexivo, a criação de centros de pro- fessores* ou similares, planos territoriais, modalidades de forma- ção, formação em centros, processos de pesquisa-ação**, etc.), mas de T. Na Espanha, são as instituições de formação continuada de professores do ensino público não superior, assim como dos funcionários que realizam tarefas educacionais em serviços técnicos de apoio aos docentes. N. de T. Segundo a definição de Michel Thiollent (Metodologia de pesquisa- ação. São Paulo: Cortez, 1985), é a pesquisa concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou resolução de um problema coletivo. Os pesquisado- res e participantes que representam a situação ou 0 problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Disponível em:a sua atividade foi se reduzindo, e poucas coisas novas foram apare- trados por especialistas nos quais professor é um ignorante que cendo. assiste a sessões que "culturalizam e iluminam" profissionalmente Os últimos 30 anos do século XX nos deixaram como herança que diria Macedo (1994), e eu acrescentaria: "estupi- significativos avanços na formação continuada: a crítica rigorosa à Deixa-se de lado que se vem defendendo há racionalidade técnico-formadora; uma análise dos modelos de for- tempo: processos de pesquisa-ação, atitudes, projetos relacio- mação; a crítica à organização dos responsáveis pela formação; a nados contexto, participação ativa dos professores, autonomia, potencialização da formação de assessores do processo; a análise das didática, diversas identidades docentes, planos inte- modalidades que implicam uma maior ou menor mudança; a forma- didática, etc. ção próxima às instituições educacionais; processos de pesquisa- No entanto, quero fazer uma prévia antes da aventura que será a -ação como procedimento de desafio e crítica e de ação-reflexão para deste livro, para não passar por ingênuo. Tenho consciência a mudança educacional e social, com um professor-pesquisador teó- de que, atualmente, não podemos falar nem propor alternativas à rico; um maior conhecimento da prática reflexiva, dos planos de for- formação continuada sem antes analisar contexto político-social mação institucionais, além de uma maior teorização sobre a questão. como elemento imprescindível na formação, já que desenvolvi- Trata-se de conceitos que ainda aparecem principalmente em papéis mento dos indivíduos sempre é produzido em um contexto social e (e, com certeza, alguns deixo de mencionar), e, embora passem lon- histórico determinado, que influi em sua natureza. Isso implica ana- ge de muitos pontos da prática formadora, permanecem na letra im- lisar conceito da profissão docente, a situação de trabalho e a pressa. carreira docente, a situação atual das instituições educacionais Ninguém pode negar que contextos sociais e educacionais que (normativa, política e estrutural, entre outras), a situação atual da condicionam todo ato social e, portanto, a formação, mudaram mui- educação básica, nas etapas da educação infantil, dos ensinos fun- to. Embora se fale mais disso agora, sempre ocorreram mudanças. damental e médio, uma análise do corpo discente atual e da situa- Todas as gerações tiveram a sensação de que as mudanças foram ção da infância e da adolescência nas diversas etapas da escolarida- vertiginosas, mas, com certeza, nas últimas décadas elas foram brus- de total da população em alguns países. cas e deixaram muitas pessoas na ignorância, no desconserto e, por Não podemos separar a formação do contexto de trabalho, por- que não, em uma nova pobreza material e intelectual. Muitas delas que nos enganaríamos em nosso discurso. Ou seja, tudo que se eram incipientes, quando no século passado institucionalizou-se, na explica não serve para todos nem se aplica a todos os lugares. O maioria dos países, a formação continuada. Mudanças como a nova contexto condicionará as práticas formadoras, bem como sua reper- economia; a globalização, apesar de preferir conceito de "mundiali- nos professores, e, sem dúvida, na inovação e na mudança. zação" pela perversão do outro termo, aplicado quase sempre à eco- Além disso, declaro que não desenvolvi, especificamente, ideias nomia e ao mercado; a tecnologia que apontou com grande força em sobre a importância das tecnologias da informação e sobre a ação todos OS âmbitos da cultura e na comunicação; a mistura de outras comunicativa na atividade de formação docente. Eu fiz adequa- culturas ou conhecimento delas; a constante discriminação femini- damente, pensando que aqui inundariam todas as ideias que cada na; todos esses fatores invadiram contexto social, etc. Se focarmos mais estão introduzidas em nossa vida pessoal e profissional, as no campo do professor, poderemos perceber uma falta de delimita- quais já fazem parte da estrutura social e profissional e que são ins- ção clara de suas funções, que implica a demanda de soluções dos trumentos necessários para a sociedade atual e elementos importan- problemas derivados do contexto social e o aumento de exigências e tes na formação (mais adiante vamos tratar delas, em uma parte competências no campo da educação, com a consequente intensifica- dedicada à comunidade ao abordar as redes). Talvez seja um pensa- ção do trabalho educacional que coloca a educação no ponto de mento errado, mas, se assim é, deixo-o a outros analistas. vista das críticas sociais e educativas. Acabo esta apresentação com a ideia de que, apesar de nem tudo Tudo isso não se soluciona com um tipo de formação continuada ter funcionado, muitas coisas deram certo, sim, e talvez esta época que, apesar de tudo e de todos, persiste em um processo composto seja um começo de novos tempos para professor e sua formação, e de lições-modelo, de noções oferecidas em cursos, de uma ortodo- tenhamos a oportunidade de gerar novos processos para futuro. Eis xia do ver e do realizar a formação, de cursos padronizados minis- um objetivo deste livro: produzir uma reflexão sobre essa mudança.10 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 11 Escolhi 10 temas, poderiam ser muitos mais. Escolher 10 temas 4. É possível passar do problema à situação problemática? tem suas vantagens e desvantagens. Uma das vantagens é que obri- A formação standard aplicada à formação docente tenta ga o leitor a sintetizar e a escolher que julga essencial. A desvan- dar respostas de forma igual a todos, a partir da solução de tagem é a repetição, sobretudo quando se tenta resumir com pro- problemas genéricos. A formação clássica é a constituição postas em uma seção que denominei que fazer na prática da de problemas, mas na formação continuada não há pro- formação?". Como se pode verificar, algumas propostas são inter- blemas genéricos, apenas situações problemáticas. Passar cambiáveis na abordagem de diversos temas deste livro. Situá-las de uma a outra oferecerá uma nova perspectiva de forma- em um lugar ou em outro foi resultado de uma tomada de decisão. ção. A estrutura da obra também foi um fator condicionante, mas peço 5. Como superar individualismo para chegar ao trabalho ao leitor que seja compreensivo e veja texto como um conjunto cooperativo? de ideias e propostas globais que pretendem melhorar a formação A profissão de docente tem sua parte individual, mas tam- continuada de professores. bém necessita de uma parte cooperativa. Educar na infân- cia e na adolescência requer um grupo de pessoas (para não mencionar a famosa frase indígena "necessita de todo um PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A povo para ser educado"). Portanto, a formação continuada, FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES para desenvolver processos conjuntos e romper com isola- 1. De onde viemos e para onde vamos? mento e a não comunicação entre professores, deve consi- É necessário conhecer elementos da herança formadora derar a formação cooperativa. que nos permitam continuar construindo e oferecer alter- 6. Sou objeto da formação ou sujeito da formação com uma nativas de inovação e mudança às políticas e práticas de identidade docente? formação. Ninguém pode negar que a realidade social, A formação continuada de professores passa pela condi- ensino, a instituição educacional e as finalidades do siste- ção de que estes vão assumindo uma identidade docente, ma educacional foram evoluindo e que, como consequência, que supõe a assunção do fato de serem sujeitos da for- professor deve sofrer uma mudança radical em sua for- mação, e não objetos dela, como meros instrumentos ma de exercer a profissão e em seu processo de incorpora- maleáveis e manipuláveis nas mãos de outros. ção e formação. 7. Como se passa da formação isolada à comunitária? 2. O que aprendemos? É preciso superar a antinomia Atualmente, existem evidências quase inquestionáveis para sor. O que existe fora da instituição educacional deve ser todos aqueles que, de uma forma ou de outra, dedicam-se à um aliado, não um inimigo. A formação conjunta com a formação continuada de professores. Conhecê-las implica comunidade perfila-se, nos diversos contextos educativos e analisar OS acertos e OS erros e ter consciência de tudo sociais, como uma das alternativas às difíceis situações pro- que nos resta conhecer e avançar. blemáticas da educação atual e, principalmente, à exclusão 3. Quais são as novas ideias e práticas para uma formação de social de uma parte da humanidade. professores em uma nova época? 8. Atualizar ou criar espaços de formação? Considerando nossa aprendizagem, devemos olhar para a A tradição de preparação dos formadores ou dos planos de frente. A teoria e a prática da formação, seus planos, suas formação consiste em atualizar e culturalizar professo- modalidades e estratégias, seu processo, etc. devem ser res em conhecimentos de qualquer denominação ou introduzidos em novas perspectivas. Por exemplo, as rela- tipologia. A formação continuada dos professores, mais do ções entre professores, as emoções e as atitudes, a com- que atualizá-los, deve ser capaz de criar espaços de forma- plexidade docente, a mudança de relações de poder nos ção, de pesquisa, de inovação, de imaginação, etc., e for- cursos de formação, a autoformação, a comunicação, a for- madores de professores devem saber criar tais espaços para mação com a comunidade, a influência da sociedade da passarem do ensinar aprender. informação.12 Francisco Imbernón 9. Trabalha-se na simplicidade ou na complexidade da formação? É necessário conhecer de onde A tarefa docente sempre foi complexa, mas nas últimas 1 décadas tal complexidade aumentou muito. A forma- viemos para saber aonde vamos ção deve deixar de trabalhar a partir de uma perspectiva linear, uniforme e simplista para se introduzir na análise educativa a partir de um pensamento complexo, a fim de revelar as questões ocultas que nos afetam e, assim, tomar decisões adequadas. 10. Ser frio e distante ou agir e demonstrar emoções? É necessário conhecer os elementos da herança formadora que nos A cultura profissional dos professores, caracterizada pelo permitam continuar construindo e oferecer alternativas de inovação e distanciamento, pela frieza e pelo ocultamento das emo- mudança às políticas e práticas de formação. Ninguém pode negar ções e da naturalidade do ser humano, se refletiu no tra- que a realidade social, o ensino, a instituição educacional e as finali- balho conjunto dos mesmos com alunos. A formação dades do sistema educacional evoluíram e que, como consequência, deve ser mais dinâmica no seu processo e na sua meto- os professores devem sofrer uma mudança radical em sua forma de dologia, permitindo mostrar as diferentes emoções, para exercer a profissão e em seu processo de incorporação e formação. que docentes possam melhorar a comunicação, convi- ver nas instituições educacionais e transmitir essa educa- ção aos alunos. A história é um processo sem sujeito nem fins. (Louis Althusser) NOTAS Caracteriza, em minha opinião, a nossa época a perfeição de meios e a confusão de fins. 1. Entende-se, ao longo de todo este livro, que conceito de (Albert Einstein) "prática formadora" é a atividade de produção e reprodução de formas de entender a formação, na qual professor esta- Houve um avanço no conhecimento teórico e na prática da for- belece relações mútuas e formas de interpretar a educação. mação continuada do professor, não podemos negar, e levamos 2. Todos OS termos que aparecem em negrito podem ser en- poucos anos (comparado com outras disciplinas ou temáticas contrados no glossário deste livro. educativas) analisando, pesquisando e escrevendo sobre isso.¹ Re- firo-me tanto às análises teóricas quanto às práticas de formação. Seria possível argumentar que a preocupação de formar professo- res, a formação inicial, é muito mais antiga. Assim, a formação de professores foi exercida, de uma forma ou de outra, des- de a Antiguidade, desde o momento em que alguém decidiu que outros educariam seus filhos e esses outros tiveram que se preo- cupar em fazê-lo. Mas a inquietação de saber como (na formação e principalmente na continuada), de que maneira, com quais conhecimentos, com quais modelos, quais modalidades de forma- ção são mais inovadoras e, sobretudo, a inquietação de ter a cons- ciência de que a teoria e a prática da formação devem ser revisa- das atualizadas nos tempos atuais é muito mais recente. Se nos inserirmos na formação continuada, podemos constatar que conhecimento que tem se criado sobre ela, nos últimos 10 anos, nasce em uma época de vertiginosas mudanças, na qual tudo14 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 15 que nasce é criado, projetado, etc., começando a ser obsoleto e relatórios técnicos os que atualmente administram a educação do país ultrapassado no momento em que surge. Isso nos impõe uma cons- correspondente que implica desde políticas conservadoras até tante reconceitualização, isto é, uma reflexão de zonas intermediá- liberais. Poucos persistem em sua função; outros a fazem de forma rias da prática, como a singularidade, a incerteza e conflito de tão profunda que não se desprendem dela, ancorando-se no exercício valores (Schön, 1992), além de uma indagação constante sobre a da crítica feroz; e outros poucos ainda acreditam que coisas boas formação do professor, seja inicial ou continuada. É nesse âmbito podem ser feitas e que tempos melhores virão. Também em numero- que surgem os problemas, uma vez que é mais fácil se basear em sas partes deste planeta pode-se fazer pouco, já que muitos educado- aspectos antigos, mesmo funcionando bem ou mal, a se arriscar res encontram-se ainda em situação de pobreza. Como dizia um poe- na apresentação de temas novos, embora necessários. nível cultural de um país é medido pelo salário de seus profes- Se analisarmos a maioria dos estudos sobre a formação continua- sores, e muitos países têm um nível cultural excessivamente baixo em da, constataremos que esses foram se movendo de uma fase descri- que seus docentes são mal pagos. tiva, com muitos textos sobre a temática, para uma mais experi- Não obstante, cabe constatar que tantas coisas necessárias e mental, sobretudo devido ao auge e à difusão dos cursos de forma- tanta análise desorientam, e tal desorientação (ao menos sofrida ção ou similares e ao interesse político (ou intervencionista) sobre o por mim) tem sua causa no fato de que, buscando alternativas, tema, que foi aumentando e que se reflete nas políticas institucionais, avançamos pouco no terreno das ideias e nas práticas políticas, nas pesquisas e nas publicações. Durante anos de 1980, 1990 e com objetivo de compreender que significa uma formação ba- 2000, realizaram-se centenas de programas de formação continua- seada na liberdade, na cidadania e na democracia. da de professor, cuja análise rigorosa desqualifica alguns, mas mos- É difícil, com um pensamento educacional único predominan- tra que outros apresentam novas propostas e reflexões que podem (currículo igual, gestão idêntica, normas iguais, formação igual ajudar a construir o futuro dessa formação. para todos, etc.), desmascarar currículo oculto que se transmite No entanto, já não estamos nos últimos 30 anos do século XX, na formação do professor e descobrir outras maneiras de ver a período em que muito se avançou, mas, sim, no século XXI. São tem- educação e interpretar a realidade. A educação e a formação do- pos diferentes para a educação e para a formação. Com a chegada do cente devem romper essa forma de pensar que leva a analisar século XXI, é como se faltasse algo que fizesse voltar a tomar impulso, progresso e a educação de uma maneira linear, sem permitir inte- mas isso também pode ser a minha perspectiva. Quando olho em grar outras formas de ensinar, de aprender, de se organizar, de ver volta dos pátios das escolas, dos institutos ou dos cafés das universi- outras identidades sociais e manifestações culturais, de se escutar dades, vejo pouca mudança, uma maior desmobilização do setor edu- de escutar outras vozes, sejam marginalizadas ou não. Mais adian- cacional: as revistas educativas vendem menos e reduzem tiragens, to exercitaremos isso. assim como outras publicações de caráter pedagógico. Esses fatos levam a pensar que muitos dos que se dedicam ao nobre ofício do Para onde nos levam os tempos passados? ensino não leem, pelo menos não 0 suficiente. Além disso, muitos educadores que formam professores e formadores de opinião desa- Aqui, interessa-me fazer uma reflexão que ajude a compreen- der o discurso atual da formação do professor e que permita não pareceram do mapa profissionalizante e divulgador: atos, jornadas, congressos, debates, entre outros. Alguns, já em idade avançada, acre- pensar, mas também gerar alternativas de futuro. Não é ditaram na última reforma, a da década de 1990, e cansados de mos- objeto desta reflexão questionar as partes ocultas da formação, trar sua desconformidade já não falam, ou se isolam com a pré-apo- mas sim visualizar que considero importante nas etapas em que sentadoria, nos escritórios de qualquer administração ou nas cômo- divido esta pequena genealogia da formação. Tais etapas são: das aulas de universidades. Outros, que dizem que já advertiam, con- os anos de 1970: início. centram-se em suas coisas (a maioria era e é docente universitário) Anos de 1980: paradoxo da formação. O auge da técnica na ou fazem críticas destrutivas contra tudo (agora podem fazer sem formação e a resistência prática e crítica. serem tachados de conservadores, sendo possível até acontecer con- Anos de 1990: introdução da mudança, apesar de tímida. trário). Alguns se vendem ao poder midiático ou político do ensino, Anos 2000 até a atualidade: busca de novas alternativas. apoiando com sua presença, com seu silêncio suspeito ou com seus16 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 17 Até os anos de 1970: início por ser um processo no qual OS mesmos professores "se planejavam" Este modelo caracterizava-se Nos anos de 1970, Embora consciente da superficialidade e da falta de rigor que e seguiam as atividades de formação que acreditavam que lhes pode- por ser um processo numerosos estudos riam facilitar algum aprendizado. no qual mesmos foram realizados para supõe situar qualquer temática em tão longo período, porque em professores "se determinar as atitudes qualquer época sempre se produzem muitas idas e vindas históri- Foi uma época na qual inquietos estudantes e professores liam planejavam" e dos professores em velhos e novos autores, alguns proibidos e publicados no exterior, seguiam as atividades relação aos programas cas e educacionais, o que pretendo propor é que, na maioria dos de formação que de formação países latinos, a análise da formação do professor como campo de de movimentos espontâneos de professores, de escolas de verão acreditavam que continuada. conhecimento não começa a se desenvolver até por volta da déca- meio clandestinas e do nascimento de instituições, a maioria delas poderiam facilitar algum aprendizado. da de 1970, quando se realizou toda uma série de estudos para universitárias, dedicadas à formação. determinar as atitudes dos professores em relação aos programas Apesar das pequenas épocas gloriosas (diríamos que mais glorio- de formação continuada. Na maioria dos estudos, analisava-se a sas do que realmente foram, devido à tendência de mitificar 0 pas- importância da participação docente nos processos de planejamen- sado), formavam-se poucos professores, possuíam monopólio de to das atividades de formação. Começava que Sparks e Loucks um pequeno saber que durava toda a sua vida profissional. No en- Horsley (1990) chamavam início da era da formação continua- tanto, temos de valorizar esforço desses grupos renovadores que da", que culminaria nos anos de 1980. se comprometeram em cursos, em jornadas e com revistas, dando A necessidade de Os esforços anteriores, protagonizados por algum grupo ou ins- um vigor às práticas educacionais. Algumas dessas iniciativas ainda formação em aspectos tituição, são fatos esporádicos, renovadores ou conservadores, que sobrevivem ou foram a semente de frutos posteriores. diferentes das que eram propostas pelas administrações ou não tiveram uma repercussão institucional na profissão, embora ti- universidades foi muito vessem, sim, um impacto importante, qual será tratado adiante. Anos de 1980: paradoxo da formação. auge da importante e ajudou no técnica na formação e a resistência prática e crítica questionamento de No entanto, nem por isso podemos dizer que qualquer época passa- muitos aspectos da foi pior. As experiências e as contribuições de Dewey, Freinet, No início dos anos de 1980, a sociedade espanhola, com muito educacionais. Montessori e dos professores seguidores de sua pedagogia eram pra- atraso em relação a outros países, consegue a escolarização total No início dos anos de 1980, a sociedade ticadas em muitas escolas. Os cursos, seminários, as oficinas que de da população, fato que sucede em um contexto de desenvolvimento espanhola consegue forma quase clandestina se organizavam sobre sua filosofia educativa industrial e de emigração para as grandes cidades. Este e outros a escolarização total da população. Este ou sobre suas técnicas, os movimentos sindicais, políticos e de reno- aspectos sociológicos sugerem uma mudança na escola, já que as e outros aspectos vação pedagógica, alguns pedagogos locais, a influência de algu- salas de aula se enchem e professores assumem um novo papel. sociológicos sugerem uma mudança na mas revistas pedagógicas, a função assumida por determinadas ins- trabalho docente nas escolas de graduação obriga educadores escola, já que as salas tituições educacionais, etc., ressaltaram a importância e a considerarem uma forma diferente de trabalhar. São introduzidos de aula se enchem e OS professores transcendência da formação do professor para uma verdadeira mu- elementos técnicos, como planejamento, programação, objetivos assumem um dança da instituição educacional, que ainda estava presa a posições bem redatados, avaliação, etc., que terão sua difusão na etapa se- novo papel. autoritárias, classistas, uniformizadoras e seletivas. A necessidade guinte. Além disso, luta-se contra analfabetismo, próprio de mui- de formação em aspectos diferentes daquelas que eram propos- tas camadas da população. tas pelas administrações ou universidades era premente, que aju- À época, a formação inicial adquire nível universitário, a partir dou no questionamento de muitos aspectos educacionais. de uma reforma neocapitalista. Embora tudo isso tenha ocorrido Foram tempos em que se institucionalizou a formação inicial de na década de 1970, muitos anos tiveram que passar para haver professores, formação essa que nasceu pobre e desvalida mais de um uma verdadeira integração na cultura da universidade. O país in- século antes e que se desenvolveu separadamente (professores e pro- tegra-se em um processo social e econômico que apresenta dife- fessoras), exceto em breves épocas. A década de 1970 foi um tempo renças significativas em relação a épocas anteriores. em que a formação continuada viveu predomínio de um modelo Para se adequar a essa reforma, as universidades começam a individual de formação: cada um buscava para si a vida formativa, ou criar programas de formação continuada de professores, que são seja, primava-se pela formação inicial, que era melhor ou pior segun- situados, em sua maioria, em modalidades de treinamento e de prá- do a época e território, e se aplicava à formação continuada a ideia ticas dirigentes próprias do modelo de observação/avaliação (como "forme-se onde puder e como puder". Esse modelo caracterizava-se microensino mediante circuitos fechados de televisão, os progra-Formação continuada de professores 19 18 Francisco Imbernón As universidades mas de minicursos, a análise de competências técnicas, entre ou- Considerar essa época a partir da perspectiva atual aventura- Uma época que marcou toda começam a criar programas de tros), e não na perspectiva em que a reflexão e a análise são meios -me a dizer que foi um período em que 0 modelo hegemônico de uma geração formação continuada fundamentais para a formação. Isso acontecerá muito tempo de- educação e formação foi tão difundido e incrível, que marcou toda de professores e professoras até do professor, que são pois, e alguns que defendiam com entusiasmo autoritarismo des- uma geração de professores que ainda padecem das contradições OS nossos dias. situados, em sua maloria, em modalida- ta época se convencerão, de forma vergonhosa, da nova linguagem. evidentes entre que fizeram e que atualmente pensam que se des de treinamento e A observação do ensino pelo próprio professor e por outros passa a deveria fazer. Esses docentes foram formados no autoritarismo, com de práticas dirigentes próprias do modelo de facilitar a obtenção de dados pelo docente, quais geram reflexão fundo positivista e com uma visão técnica de um ofício no qual observação/avaliação. e análise a fim de favorecer a aprendizagem dos alunos. Mesmo havia soluções teóricas para tudo e para todos. Acreditaram nisso assim, a racionalidade que vai existir por trás é a dirigente. ou se forçaram a crer, para depois colocar tudo em quarentena. Trata-se de uma época predominantemente técnica e de rápido Alguns ainda não superaram isso. avanço do autoritarismo sem alternativa e com aval de gurus racionalistas. Época na qual o paradigma da racionalidade técnica Anos de 1990: introdução da mudança, apesar de tímida nos invade e contamina, na qual a busca das competências do bom Em alguns países, a formação continuada chegou a instituciona- professor para serem incorporadas a uma formação eficaz é princi- lizar-se durante a reforma anterior, a qual apareceu por volta dos pal tópico de pesquisa na formação continuada docente. Mas tam- anos de 1970, e no resto dos países a partir da reforma da década bém é um período paradoxal, de crise de valores (também se fala de de 1980. Segundo discurso daquela época, a institucionalização Segundo discurso crise ecológica e política), que anuncia uma nova época que vai che- daquela época, a da formação continuada nasce com a intenção de adequar OS pro- institucionalização gando pouco a pouco, mediante vozes e leituras alternativas: fessores aos tempos atuais, facilitando um constante aperfeiçoa- da formação continuada nasce com mento de sua prática educativa e social, para assim adaptá-la às a intenção de adequar Na sociedade e nas escolas, vão se introduzindo elementos necessidades presentes e futuras. A própria expressão, "aperfeiçoan- professores aos da pós-modernidade, como é caso da discussão dos gran- tempos atuais, do-se", já indicava uma forma espiritual de tratar a formação, do facilitando um constante Trata-se de uma época des metarrelatos, que até esse momento haviam permaneci- mesmo modo que a formação personalizada, tão na moda naquela aperfeiçoamento de predominantemente do inalterados (liberdade, fraternidade, solidariedade, igual- sua prática segundo técnica, na qual nos época. A institucionalização da formação teve sua parte negativa, as necessidades invadem paradigma dade, etc.). A pós-modernidade³ ia avançando com seus com- já que a formação do professor, historicamente envolvida por uma presentes e futuras. da racionalidade técnica e a busca das ponentes negativos e positivos. racionalidade técnica, com uma visão determinista e uniforme da competências do bom Aumenta compromisso de educar a todos em uma escola- tarefa dos professores e reforçada pelos processos de pesquisa professor para serem incorporadas a uma rização total da população. positivistas e quantitativos que eram realizados, potencializou um formação eficaz. É um As administrações educacionais começam a considerar a edu- modelo de treinamento mediante cursos padronizados que ainda período de crise de valores que anuncia cação em termos de custo-benefício, examinando a rentabili- perdura. Tal modelo de treinamento é considerado sinônimo de início de uma nova dade do gasto público em educação sob um modelo tecnocrata. formação continuada e se configura como um modelo que leva OS época. Existe muitas diferenças sociais, desigualdades crescentes e professores a adquirirem conhecimentos ou habilidades, por meio um maior abandono na educação por parte da população da instrução individual ou grupal que nasce a partir da formação escolarizada. decidida por outros. Em um curso ou em uma sessão de "treina- Começa-se a questionar a "autoridade" do professor e seu "mo- mento", os objetivos e resultados almejados são claramente es- nopólio do saber", mas não pelas novas tecnologias, que são pecificados por alguém e costumam ser propostos em termos de ainda incipientes na educação, mas, sim, pelo acesso massivo conhecimentos ou do desenvolvimento de habilidades. Um dos re- da população à cultura. sultados esperados, hipoteticamente e sem comprovação posterior, A teoria do capital humano está em crise, e ensino já não que se produzam mudanças nas atitudes e que estas passem para resolve problemas de desemprego. sala de aula. Neste modelo, formador ou administrador na Aparecem leituras e movimentos críticos que abrem uma por- é quem seleciona as atividades formadoras, supostas como ta a outra forma de ver a educação e a formação. que deverão ajudar os professores a alcançar resultados espera-20 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 21 A institucionalização dos. No entanto, há muitos anos sabe-se que isso é algo que não fun- jetos, a triangulação e a reflexão na formação, sendo que esta apa- Nesta época, da formação teve rapidamente se sua parte negativa, já ciona completamente ou, ao menos, não na maioria dos países. Se rece um pouco mais tarde com as obras de Schön ninguém recor- difunde a pesquisa- que potencializou um processo de cursos implica algum retorno da prática docente, uma dava OS clássicos nem Dewey, que já era citado fazia tempo. Schön -ação, um novo modelo de treinamento conceito de currículo, mediante cursos vez que se volta à sala de aula e, posteriormente, se realiza um acompa- tem suas ideias difundidas tão rapidamente, que elas alcançam a triangulação, padronizados que nhamento dos professores, é possível que tal modelo funcione me- mesmo patamar dos conceitos mais conhecidos anteriormente. As- ainda perdura. modelo de treinamento lhor. Mas, se uma vez realizado curso, confia-se e deixa-se o sim, cria-se uma ilusão de mudança: a ilusão de que se abandonam era considerado professor fazer esforço de contextualizar que recebeu, embora certas políticas técnicas e de que se avança por caminhos mais pro- sinônimo de formação continuada. seja de forma magistral por parte de um bom especialista, a trans- gressistas.⁴ As mudanças políticas e sociais ajudam. Também é certo ferência para a prática é mais que discutível. Essa é uma tarefa que muitas das novas ideias são assumidas como modismos, e há demasiado grande e muitas vezes impossível na realidade da prá- momentos em que não se pode distinguir quem as pratica de quem tica do ensino. unicamente fala sobre elas, nem que antes defendiam tenazmen- Entretanto, também nessa época começaram a se desenvolver te dirigismo e suas derivações dos que agora se convertem a essa aspectos positivos: a preocupação do âmbito universitário com nova religião e saem em sua defesa, centrados em suas ideias, mas estudos teóricos, uma consciência maior dos professores compro- não em suas práticas. Também é certo que a colegialidade arti- metidos, que demandava uma formação na qual professores es- ficial, na elaboração de projetos educativos e curriculares, faz com tivessem mais implicados, desenvolvimento de modelos de for- que professores desencantem-se e vejam isso mais como um arti- mação alternativos, como questionamento da prática mediante fício pedagógico que como uma inovação. projetos de pesquisa-ação, a aproximação da formação dos cursos Essa foi uma época fértil na formação continuada dos professo- de formação de professores, o aparecimento de grande quantidade res, já que cursos de formação de professores consolidaram-se de textos, traduzidos e locais, com análises teóricas, experiências, na maioria da Espanha, e com denominações semelhantes em mui- comunicações, assim como a celebração de encontros, jornadas, tos países latino-americanos, apareceram novas modalidades, como congressos e similares. O campo de conhecimento da formação dos formação em escolas ou em seminários permanentes e a figura professores, embora no princípio apresentasse uma certa confusão do assessor. Em relação a este fenômeno, é importante ressaltar conceitual e uma grande atividade de cópia de literatura distante que naqueles momentos essas tarefas foram assumidas pelos pro- de nosso contexto, por uma parte, permitiu que se começassem a fessores que provinham da renovação pedagógica e do combate questionar aspectos que durante muito tempo tinham permaneci- educativo que a ditadura originou, 0 que deu um aspecto diferen- Começaram a se desenvolver aspectos do inalterados. Por exemplo, modelo de treinamento que anterior- to à forma de enfocar os temas de formação. positivos, como a mente comentávamos, a dependência dos professores de pessoas Apesar de ser um período produtivo, também foi uma época de preocupação do âmbito universitário com ou de algo que lhes era alheio (universidade, especialistas, consul- grandes confusões, de discursos simbólicos, de um modelo de estudos teóricos, uma torias ou administração) e que lhes ensinasse a ensinar que em formação baseado no "treinamento" dos professores mediante maior consciência dos professores parte ainda perdura -, a não participação dos professores no plane- planos de formação institucional. Uma época de ascensão dos mo- que demandava uma jamento da formação, as palavras de um especialista que ilumina vimentos de renovação pedagógica, que quase são aniquilados não formação na qual OS docentes estivessem as mentes, embora não espíritos, ou a interrupção de uma inér- por disputas internas, mas porque muitos de seus membros assu- mais implicados, cia institucional. Por outro lado, tal campo de conhecimento da mem tarefas de governo e se dedicam a outras coisas. Foi um perío- desenvolvimento de modelos de formação potencializou aparecimento de elementos novos que de adesão massiva, sobretudo universitária, às novas ideias, formação alternativos, atuariam como forças ocultas e propulsoras de um novo pensa- por uma simples questão de modismo. Essas ideias se fazem a aproximação da formação dos centros mento e processo formativo. em textos, discursos e declarações públicas. O novo de professores, Nesta época, anos de 1990, algo se move na formação. Como discurso se torna comum, excessivamente comum, entre aqueles aparecimento de textos, com análises dizia anteriormente, já fazia tempo que se iam introduzindo com que, apenas há alguns anos antes, haviam aderido com mesmo teóricas, experiências, mais ou menos força novos conceitos e novas ideias. A literatura à racionalidade mais técnica da formação. As palavras comunicações, a celebração pedagógica anglo-saxônica era lida e traduzida e assim se difunde se confundem, mesmo que as pessoas e suas origens sejam as mes- encontros, com rapidez a pesquisa-ação, um novo conceito de currículo, pro- mas, que envenena as propostas. congressos22 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 23 Definitivamente, esta foi uma época frutífera, mas também de Nesse contexto surge a crise institucional da formação. Como se A crise institucional da formação aparece grande confusão. Época de grandes mudanças, na qual começamos considera sistema educacional do século passado obsoleto, sente- porque se considera a ser conscientes da evolução acelerada da sociedade em suas -se a necessidade de uma nova forma de ver a educação, a formação que o sistema educacional do século estruturas materiais, institucionais e formas de organização da con- e papel dos professores e do alunos. Uma longa pausa é aberta, na passado é obsoleto, Cria-se uma ilusão de mudança apoiada vivência, bem como em seus modelos de produção e distribuição. qual estamos instalados, onde alguns se sentem incômodos. Esse porque uma nova forma de ver a pelas transformações Enfim, uma época criativa e muito importante na formação continua- desconforto conduz à busca de novos horizontes, de novas alterna- educação, a formação políticas e sociais, mas da, cujas contribuições e reflexões ainda vivemos assimilando. A mis- tivas. Assim, antigas e novas vozes começam a superar sua afonia e papel dos também é uma época professores de grandes confusões. tura do modelo de treinamento com planos de formação, mode- para narrar que sabem sobre ensino e a formação. e dos alunos é lo de desenvolvimento e melhoria, surgido a partir da reforma Ganha espaço a opção de não se querer analisar a formação necessária. introduzida pelas leis, ao se estabelecerem projetos educativos e somente como domínio das disciplinas científicas ou acadêmi- curriculares, o modelo questionador, com a forte incorporação do cas, mas, sim, de propor a necessidade de estabelecer novos mo- conceito "paraguas de professor a pesquisa-ação, tão delos relacionais e participativos na prática da formação. Isso nos divulgada e conhecida, porém pouco praticada por suas necessárias leva a analisar o que aprendemos e que nos falta aprender. condições de desenvolvimento, e a maioria dos textos sobre campo No entanto, é certo que nos últimos anos, principalmente na- de conhecimento fazem com que agora seja a época em que se inicia queles países governados por uma direita conservadora, que aplica uma nova maneira de enfocar, de analisar e de praticar a formação um neoconservadorismo profundo na educação, apareceu um "de- dos professores. Mesmo que ainda haja o predomínio de um discur- ou talvez um desconserto não apenas entre grupo de so excessivamente simbólico e de uma continuação da perpétua se- professores, mas também entre todos que, de uma forma ou de ou- paração entre a teoria e a prática. tra, se preocupam com a formação. Desânimo, desconserto ou cons- ternação difícil de expressar, fruto de um acúmulo de variáveis que Anos 2000 até a atualidade: busca de novas alternativas convergem, entre as quais podemos citar: 0 aumento de exigências Embora fizesse tempo que os contextos iam mudando vertigi- com a consequente intensificação do trabalho educacional; a ma- nosamente, é nesta época, quando contextos sociais que condi- nutenção de velhas verdades que não funcionam, a desprofis- cionam a formação refletem uma série de forças em conflito, que sionalização originada por uma falta de delimitação clara das fun- aparece a nova economia, que a tecnologia desembarca com gran- ções dos professores, a rápida mudança social e, possivelmente, um Os contextos sociais que condicionam a de força na cultura, que a mundialização se faz visível, que muitos tipo de formação continuada que parece inclinar-se de novo para formação refletem uma daqueles professores e professoras combativos já têm certa idade, um modelo aplicativo-transmissivo (de volta ao passado ou de "vol- série de forças em etc. Começa, então, a surgir uma crise da profissão de ensinar. no de lições-modelo, de noções, de ortodoxia, de profes- conflito, e começa a surgir uma crise da Tem-se a percepção de que sistemas anteriores não funcionam sor eficaz e bom, de competências que devem ser assumidas para profissão de ensinar. para educar a população deste novo século, de que as instalações ser um bom professor, etc.). Ou seja, a ação do formador se dá em escolares não são adequadas a uma nova forma de ver a educação. direção da solução dos problemas dos professores, em vez de se Cada vez mais tem importância a formação emocional das pessoas, sprofundar em um modelo mais regulador e reflexivo, como, por a relação entre elas, as redes de intercâmbio, a comunidade como exemplo, com pesquisa-ação, heterodoxia, modelos variados, res- elemento importante para a educação. Tudo isso faz professo- peito à capacidade do docente, didática criativa. Nesse caso, for- res reduzirem a sua assistência na formação "de toda a vida", ar- mador ou assessor é mais um diagnosticador de obstáculos à forma- riscarem-se pouco, sua motivação para fazer coisas diferentes di- ção, em que a vertente contextual, diversa e pessoal dos professo- minui e, principalmente, a inovação aparece como um risco que tem muito a dizer e a contribuir. poucos querem correr (para que correr riscos, se ninguém valoriza Para finalizar esta parte, no Quadro 1.1 é exposta uma pequena ou reprime). Além disso, as administrações educacionais não se certamente imprecisa genealogia do conceito de "conhecimento" atrevem a possibilitar novas alternativas de mudança, já que estas sua relação com a formação, sobre que se pensa e deseja. Embo- partirão de verbas diferentes e deixarão tudo para depois. Sentem todas as etapas sejam solapadas e perduram ao longo da forma- medo e não ousam. ção, exponho aquelas em que discurso foi ou é predominante.24 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 25 complexo, necessitamos olhar para trás sem revolta, para ver que QUADRO 1.1 Relação entre o conceito de conhecimento e de formação nos serve, descartar aquilo que não funcionou, por mais que alguns Formas de ver o se empenhem em continuar propondo-o e desenvolvendo-o, e cons- conhecimento Formas de ver a truir novas alternativas que beneficiem a formação dos professo- formador nos formação dos Anos professores professores Metáforas res e, portanto, a educação promovida por eles. A diferença predomina na importante mudança que rodeia a ins- 1980 Uma informação Um produto Metáfora do produto tituição escolar, tanto do seu contexto interno quanto do externo. científica, cultural assimilável de forma que se deve aplicar ou psicopedagógica nas salas de aula. Digo "rodeia" já que, às vezes, certos professores são resistentes em individual, mediante para transmitir. conferências ou Época de busca de aceitar que a mudança foi vertiginosa e que isso comporta outra cursos ditados. receitas. A formação forma de ensinar (o que se verifica desde uma análise da sociedade "salva tudo". do conhecimento, pós-industrial ou também pós-moderna), ou que, 1990. O desenvolvimento Um processo de Metáfora do enquanto representantes de uma determinada geração de educado- de conhecimentos, assimilar estratégias, processo. Época res, custa-lhes aceitar tal mudança do mundo social, como por exem- habilidades, para mudar OS curricular que destrezas e atitudes esquemas pessoais e inunda tudo. plo, a tecnofobia de alguns professores. profissionais para práticos da interpreta- Sempre é bom e necessário refletir e buscar novos caminhos que mudar as salas de ção dos professores, nos conduzam a novos destinos, mas, atualmente, quando a maio- aula. mediante seminários anuncia uma nova sociedade baseada no conhecimento ou na e oficinas. é possível que seja ainda mais um bom momento. E ..2000... Compartilhar Criação de espaços Metáfora da quando me ponho a pensar nos anos dedicados à teoria e à prática significados no e recursos para construção. Época de novas redes de da formação, tenho a sensação de que a formação dos professores contexto educacio- construir aprendiza- nal para mudar as gem, mediante formação como campo de conhecimento está estancada há muito tempo. instituições projetos de inovação presenciais e Faz anos que se vem dizendo mesmo, ou sou eu que leio e educacionais. e intercâmbio nas virtuais. escolas. Processos escuto quase o mesmo. Diante desse fato que leva ao tédio, talvez de prática reflexiva. seja necessário ver o que aprendemos e começar a buscar novas alternativas neste mundo tão diferente e baseado na incerteza de ..Rumo ao Construção coletiva Elaboração de Metáfora da futuro (ou subjetividade, da não saber que amanhã acontecerá. Talvez devamos nos introdu- com todos OS projetos de ao dese- agentes sociais, para transformação, com intersubjetividade, do na teoria e na prática da formação em novas perspectivas: as jado) mudar a realidade a intervenção da dialogismo. Época relações entre os professores, as emoções e atitudes, a complexi- educativa e social. comunidade, e de novas alternativas dade docente, a mudança de relações de poder nos centros de pesquisas sobre a e participação da prática. comunidade. professores, a autoformação, a comunicação, as emoções, a for- mação na comunidade, e se separar da formação disciplinar tão comum nos planos e nas práticas de formação. NOTAS RESUMO 1. Poderíamos dizer que a situação atual é similar à dos anos Nem todo passado foi melhor, embora muitas das coisas que de 1980 com a questão do ensino e do currículo, mas exis- sabemos na atualidade foram se consolidando nos últimos 30 anos. tem matizes, já que as origens e a situação atual são dife- Avançamos muito, talvez não tanto como desejaríamos, mas fo- rentes. mos assentando pequenos conhecimentos teóricos e práticos que, Quero lembrar aqui poeta Bertold Brecht, ao qual se atri- graças a muitas pessoas, foram sendo postos em prática. Agora, no bui o início do século XXI, quando tudo é mutável, modificado e mais26 Francisco Imbernón 3. Hargreaves (1998) dirá que a pós-modernidade pode pro- Aprendemos muito, mas ainda vocar crises nas relações interpessoais, quando estas care- 2 cem de sujeições externas, de tradição ou de obrigação. há muito para avançar 4. Entendemos aqui por progressista contrário de conserva- dor. Progressista seria aquele indivíduo que considera va- lores morais como uma criação cultural que deve ser esti- mulada ativamente, no sentido de liberar OS seres humanos de seus condicionamentos naturais, a fim de melhorar a capacidade de convivência e modificar o estado atual das Atualmente, existem evidências quase inquestionáveis para todos coisas, para também melhorar a situação das pessoas. aqueles que, de uma forma ou de outra, dedicam-se à formação con- 5. A palavra paraguas, ou "guarda-chuva", pode referir-se à tinuada de professores. Conhecê-las implica analisar os acertos e os pessoa ou coisa que serve de proteção. O sentido aqui é erros e atentar para tudo aquilo que nos resta conhecer e avançar. mesmo empregado por Stenhouse (1987), quando descre- via professor-pesquisador como aquele que questiona sua prática, compromete-se com trabalho e a reflexão e usa Ter defeitos e não corrigi-los é o verdadeiro erro. estratégias de melhoria, junto com seus colegas, no traba- (Confúcio, Livro XV) lho educativo. AS MUDANÇAS SOCIAIS NOS INDICAM CAMINHO o QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? Se no capítulo anterior eu fazia uma análise introdutória do passado e previa que neste novo século a formação deve assumir parcelas de mudança e inovação, é neste contexto que quero Analisar o passado para não cair nos mesmos erros, levando em conta que o mundo nunca gira ao contrário. Temos que olhar adiante e criar aprofundar minha avaliação e verificar a possibilidade de reali- alternativas de transformação. propostas para o futuro. O desafio, segundo meu ponto de é examinar que funciona, que deve ser abandonado, Ter presente que, sem a participação dos professores, qualquer processo de inovação pode se converter em uma ficção ou em um jogo de espelhos desaprendido, construído de novo ou reconstruído a partir da- que pode, inclusive, chegar a refletir processos imaginários, quando não quilo que é velho. É possível modificar as políticas e as práticas simplesmente uma mera alteração técnica ou terminológica promovida a da formação continuada de professores? Como repercutem as mu- partir do topo. Isso é exatamente o que acontece em muitos países. No danças atuais na formação docente? topo, desde as superestruturas, são geradas mudanças prescritivas que Sem mais preâmbulos, acredito que as mudanças repercutem muito não originam inovações nas instituições dos "práticos" da educação. Na formação deve-se trabalhar com os professores e não sobre eles. que podem nos ajudar a criar alternativas. Se analisamos esse con- texto, podemos encontrar importantes elementos que influenciam na Recuperar leituras e práticas formadoras e analisar se elas não foram sen- educação e na formação dos professores. Entre eles destacamos: do modificadas com o tempo em sua aplicação, ou se ainda são úteis para a mudança da formação. Um aumento acelerado e uma transformação rápida nas for- mas adotadas pela comunidade social, no conhecimento cientí- fico, com uma aceleração exponencial, e nos resultados do pen- samento, da cultura, assim como da arte. Se nos dedicamos à cultura, esse aumento e essa transformação nos obrigarão a mudar nossa perspectiva sobre que se deve ensinar e aprender. Uma evolução acelerada da sociedade em suas estruturas materiais, institucionais e formas de organização da convi-28 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 29 vência, em seus modelos de família, de produção e distribui- Como as mudanças sociais ção, que se reflete em uma transformação das formas de influenciam na formação docente viver, pensar, sentir e agir das novas e velhas gerações. As vertiginosas mudanças dos meios de comunicação de mas- Vejamos alguns aspectos: sa e da tecnologia subjacente, que foram acompanhados de profundas transformações na vida pessoal e institucional e questionamento da pura transmissão de noções e conceitos que colocaram em crise a transmissão do conhecimento de do conhecimento formador, mediante modelos nos quais OS forma tradicional, como textos, leituras, etc., e, portanto, professores são um objeto subsidiário, demandando outros também as instituições que se dedicam a isso. conteúdos de formação baseados em habilidades e atitudes. As mudanças Uma análise da educação que já não é patrimônio exclusivo dos A importância do trabalho em equipe e da colegialidade influenciaram na formação dos professores, mas de toda a comunidade e dos meios de comuni- verdadeira. professores de forma O desconforto de práticas formadoras baseadas em proces- diferente: demandando cação que esta dispõe, estabelecendo diferentes e novos modelos outros conteúdos relacionais e participativos na prática da educação, nos quais SOS de especialistas infalíveis ou acadêmicos. Em casos as- formadores baseados contexto pode ser mais influente que a educação regrada. sim, professores são uns ignorantes que assistem às ses- mais em habilidades e atitudes, dando maior Uma sociedade multicultural e multilíngue, em que diálo- sões que pretendem "culturalizá-los" profissionalmente, que importância ao go entre culturas supõe um enriquecimento global e na qual tentam solucionar seus problemas, muitas vezes sendo trabalho em equipe e à colegialidade é fundamental viver em igualdade e conviver na diversida- conduzidas por um formador sem experiência prática. Incô- verdadeira, assim de, mas na qual estar preparado para tanto acarreta muita modo que demanda metodologias diferentes na formação. como levando em conta OS fatores da angústia social e educativa. A lenta introdução da capacidade dos professores de gera- diversidade e da Professores que compartilham poder de transmissão do rem conhecimento pedagógico, mediante seus trabalhos prá- contextualização como elementos imprescindi- conhecimento com outras instâncias socializadoras, como a ticos nas instituições educacionais, que dotará de uma veis na formação. televisão, meios de comunicação de todo tipo, as redes maior dignidade e autonomia profissional, já que lhes per- informáticas e telemáticas; uma maior cultura social; uma mitirá produzir inovações com seus colegas. educação não formal, entre outros. Os fatores da diversidade e da contextualização como elemen- A relevância que adquire na educação a bagagem sociocultural, tos imprescindíveis na formação (a preocupação com a cidada- além das matérias científicas, como, por exemplo, a comuni- nia, meio ambiente, a diversidade, a tolerância, etc.), já que o cação, trabalho em grupo, OS processos, a elaboração con- desenvolvimento e a diferença entre OS indivíduos sempre têm junta de projetos, a tomada democrática de decisões, etc. lugar em um contexto social e histórico determinado, que in- Uma forma diferente de acessar conhecimento (selecionar, flui em suas origens. Isso desencadeará um questionamento valorizar e tomar decisões) que requer novas habilidades e das práticas uniformizadoras e potencializará a formação a destrezas, as quais devem ser praticadas pelos professores a partir de dentro, na própria instituição ou em um contexto fim de trabalhá-las nas salas de aula e nas instituições. próximo a ela, onde se produzem as situações problemáticas Uma crescente desregulação do Estado com uma lógica de que afetam professores. Considero que estes dois elemen- mercado e um neoliberalismo¹ ideológico, complementado tos, a diversidade e a contextualização, permitem-nos ver a for- por um que vai impregnando pensa- mação docente de outra maneira e provocam reflexões dife- mento educacional e muitas políticas governamentais. rentes sobre que fazer nas políticas e práticas de formação. A educação pode resultar fundamental para superar a exclusão Ninguém deveria duvidar de qualquer reforma na estrutura e no social; no entanto, muitas vezes a potencializa em zonas de uma do sistema educacional e de sua inovação quantitativa e grande neomiséria ou pobreza endêmica³ e com uma cama- qualitativa, sobretudo desta última, pois ela deve contar com apoio da da população imbuída no analfabetismo cívico em uma cultura dos professores e com sua imediata atitude positiva em relação à urbana de marginalidade (segundo as Nações Unidas, em 2000, necessária para as mudanças. Embora baste verificar havia 100 milhões de crianças vivendo ou trabalhando nas salários de muitos docentes latino-americanos para perceber queFormação continuada de professores 31 30 Francisco Imbernón Os professores poderão Assim, será possível transmitir aos futuros cidadãos valores e modos É preciso desenvolver muitos políticos duvidam, sim, dessa inovação. Em qualquer trans- e reivindicar dos constatar em qualquer transformação formação educacional, OS professores poderão constatar, não so- de comportamento democráticos, igualitários, respeitosos com as di- professores e com eles versidades cultural e social, com meio ambiente, etc. Assumir essas novas competências educacional, não mente um aperfeiçoamento da formação de seus alunos e do sistema profissionais, na base somente um aperfeiçoa- educacional em geral, mas ainda benefícios em sua própria forma- novas competências implica uma nova forma de exercer a profissão e de um conhecimento mento da formação de ção e desenvolvimento profissional. Esta percepção/implica- de formar OS professores nessa complexa sociedade do futuro; com- pedagógico, científico seus alunos e do e cultural revisado, sistema educacional em plexidade que aumentará por conta da mudança radical e vertiginosa bem como na geral, mas também ção será um estímulo para pôr em prática que as novas situações benefícios em sua demandam. Este é um aspecto fundamental, ao menos para aqueles das estruturas científicas, sociais e educacionais, que são as funções base de uma nova escolarização própria formação e que consideram professores como a peça principal de qualquer pro- institucionais do sistema educacional. Finalmente, futuro requererá democrática da desenvolvimento profissional. cesso que pretenda uma inovação verdadeira do sistema educacional. professores e uma formação inicial e continuada muito diferentes, sociedade, para, assim, poder transmitir pois ensino, a educação e a sociedade que envolvem serão tam- aos futuros cidadãos Afinal, são eles, do início ao fim, executores das propostas educa- tivas, que exercem sua profissão em escolas concretas, situadas em bém muito distintos. Paradoxalmente, por um lado, a formação tem valores e modos de comportamento territórios com necessidades e problemas específicos. que se submeter aos desígnios desse novo ensino e, por outro, deve democráticos, A reforma educacional e as estruturas de formação foram sendo ser ao mesmo tempo a arma crítica frente às contradições dos siste- igualitários e respeitosos. copiadas de outras, começando pela "inspiração" reformista espanho- mas educacional e social. la, para depois ajustarem-se a algumas realidades, em função da Talvez, se começarmos a refletir sobre o que nos mostra a evidên- proveniência do financiamento e dos consultores na ocasião, mas a cia da teoria e da prática formadora dos últimos anos, se deixarmos perspectiva era, sem dúvida, a mesma. O desprezo de muitos pro- de seguir que a tradição formadora nos diz e propõe e se colocar- fessores à reforma ou aos programas de formação deve-se a essa mos em xeque nossas "pré-concepções" sobre a formação, possamos falta de sensibilidade para determinar os responsáveis pelas mu- começar a ver as coisas de outra maneira e a tentar mudar e construir danças e à corrupção daqueles que OS promovem. A partir de outro uma nova forma de ver o ensino e a formação docente, a fim de ponto de vista, o desprezo seria motivado pela vontade de realizar transformar a educação e contribuir para uma sociedade mais justa. as transformações sem afrontar desenvolvimento profissional. Qualquer inovação que se pretenda realizar mediante a formação que aprendemos? É necessário começar não pode "negligenciar" as relações laborais dos professores com a a refletir sobre que Atualmente existe um conjunto de características relaciona- nos mostra a evidência administração educativa correspondente, nem a adequação dos mes- das à formação continuada de professores que deveria ser consi- da teoria e da prática mos dentro do sistema educacional em função da idade, das expecta- formadora dos últimos derado: anos e não nos tivas de progresso no trabalho, da especialidade ou da formação do- deixarmos levar pela cente. Não obstante, não é aspecto salarial único que deve ser tradição formadora, formação continuada requer um clima de colaboração en- para assim tentar revisado, mas, em geral, as relações trabalhistas. Em muitos países tre professores, sem grandes reticências ou resistências (não mudar e construir uma latino-americanos ainda existem numerosos professores contratados, nova forma de ver muda quem não quer mudar ou não se questiona aquilo que ensino e a formação empíricos ou de semelhante categoria que são docentes sem forma- se pensa que já vai bem), uma organização minimamente es- docente, a fim ção ou titulação, ou professores de um dia, devido à distância da de transformar a tável nos cursos de formação de professores (respeito, lide- educação e contribuir desprezo de muitos escola até suas casas e sua falta de meios para chegar ou ficar. Falar rança democrática, participação de todos os membros, entre para uma sociedade docentes às reformas de formação continuada e de desenvolvimento profissional dos pro- mais justa. ou aos programas de outros), que dê apoio à formação, e a aceitação de uma contex- formação deve-se a fessores nessas circunstâncias parece mais uma tentativa de fingir essa falta de sensibili- tualização e de uma diversidade entre os professores que im- dade para determinar uma adequação a certas modas reformistas do que considerar a reali- plicam maneiras de pensar e agir diferentes. Tais exigências OS responsáveis dade de uma mudança da educação e dos docentes. pelas mudanças, à contribuem para que se consiga uma melhor aceitação das corrupção daqueles Tudo que foi exposto anteriormente, ao lado do que não explicitei mudanças e uma maior inovação nas práticas. que OS promovem e à para não me prolongar muito, demanda desenvolver e reivindicar vontade de realizar Também é certo que tudo isso não é suficiente, é necessário as transformações dos professores e com eles novas competências profissionais, na base sem enfrentar de um conhecimento pedagógico, científico e cultural revisado, bem apoio externo. A maior parte das inovações, os programas desenvolvimento para a melhoria da qualidade do ensino e as propostas de como na base de uma nova escolarização democrática da sociedade.32 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 33 formação continuada estão sendo promovidos pelas admi- qual professores não se beneficiam com observações alheias so- nistrações estatais, autônomas e locais, e a conclusão apon- bre seu trabalho. Ter o ponto de vista de outra pessoa dá ao profes- tada pelas pesquisas, que por ser óbvia não resulta menos sor uma perspectiva diferente de como ele ou ela atua com os alu- relevante, é a de que o apoio real e efetivo dado aos cursos nos. Além disso, a observação e a valorização beneficiam tanto de formação de professores é mais importante que as boas professor, que recebe um retorno de um colega, quanto o próprio intenções ou palavras em documentos, sobretudo quando observador, pela observação que realizou, pela discussão e experiên- assumem riscos vinculados à experimentação. Em outras cia comum. Se o professor aceita que pode aprender com a observa- palavras, é mais importante o ganho real de recursos. ção, irá vendo que a mudança é possível e que esta vai se tornando Considera-se fundamental que, no momento de planejar a efetiva a partir de sucessivas observações, pois essa é uma forma de formação, executá-la e avaliar seus resultados, professo- favorecer a mudança tanto em suas estratégias de ensino quanto na res participem de todo processo e que suas opiniões sejam aprendizagem de seus alunos. Antes da observação é necessário rea- consideradas. lizar uma reunião para estabelecer a situação problemática a ser Somente quando OS professores constatam que o novo progra- revisada e o sistema de observação a ser usado, bem como para ma formativo ou as possíveis mudanças que a prática oferece fazer uma previsão dos problemas que possam surgir. Depois da repercutirão na aprendizagem de seus alunos, mudarão suas observação, reflete-se sobre o processo acompanhado, sobre OS as- crenças e atitudes de maneira significativa, supondo um bene- pectos relevantes encontrados durante a sessão, e igualmente sobre fício para OS estudantes e para a atividade docente. É quando a aqueles não esperados nem previstos nos objetivos, se estes são com- formação será vista como um benefício individual e coletivo, e binados antes, e sobre as mudanças necessárias. Mas, segundo Day não como uma "agressão" externa ou uma atividade supérflua. (2005), também é preciso considerar as desvantagens da observa- Para introduzir certas formas de trabalho na sala de aula é ção ou, como eu diria, as inconveniências: fundamental que professores sejam apoiados por seus colegas ou por um assessor externo durante as aulas. As crianças e adolescentes podem reagir de forma atípica ante a presença de um adulto. A maior parte dos professores recebe pouco retorno sobre sua A observação pode levar tempo e ser contraproducente, OS atuação em sala de aula, e, em alguns momentos, manifesta a ne- críticos amistosos devem passar um tempo juntos antes e cessidade de saber como está enfrentando a prática diária para apren- depois do trabalho observado. der sobre a mesma. No entanto, estamos falando de formação, e Os críticos amistosos têm que ser ou se converter em investiga- não de avaliação, já que, se considerarmos como avaliação, isso não dores comprometidos, com um elevado nível de habilidades será considerado uma ajuda, mas uma reprovação. comunicativas. Atualmente, a observação e a ajuda entre colegas estão muito A formação dos professores está influenciada tanto pelo contexto marcadas pelo individualismo; OS professores consideram suas tur- interno, a escola, quanto pelo contexto externo, a comunidade. mas como um espaço privado, às quais somente se tem acesso a A formação dos partir de uma posição autoritária, como inspetor ou supervisor Há um certo consenso entre OS especialistas de que a melhoria professores influi e recebe a influência para avaliá-los, como o pesquisador para obter dados, e não como da escola requer um processo sistêmico (Fullan, 2002), o que supõe do contexto em que um espaço para gerar um conhecimento que contribua à formação que as mudanças em uma parte do sistema afetem a outra. Portan- se produz e, por sua vez, condiciona da própria classe docente. to, a formação dos professores influi e recebe a influência do con- OS A observação e A observação e a valorização do ensino facilitam aos professores texto em que se insere, e tal influência condiciona OS resultados que a valorização do a obtenção de dados sobre OS quais possam refletir e analisar, a fim ensino facilitam podem ser obtidos. Todos estudos confirmam a ideia de que uma aos professores a de favorecer a aprendizagem dos alunos. A reflexão individual so- série de requisitos organizativos são necessários para que a forma- obtenção de dados bre a própria prática pode melhorar com a observação de outros, que favorecem a ção continuada possa resultar muito mais frutífera: aprendizagem sobretudo porque a docência ainda é uma profissão isolada. Nor- dos malmente, ela ocorre sem a presença de outros adultos, razão pela As escolas devem ter um conjunto de normas assumidas de maneira colegiada e na prática.34 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 35 Os gestores da educação, que trabalham com os professores, discurso teórico-questionador e de discurso prático de cará- devem aclarar objetivos pretendidos com a formação e ter técnico, individual ou de treinamento docente. devem apoiar esforços dos docentes de mudarem suas A falta de verbas para atividades de formação coletiva e, prin- práticas. cipalmente, para a formação autônoma nas instituições edu- Os esforços de mudanças curriculares, no ensino e na gestão cacionais. das aulas, devem contribuir com o objetivo último de me- Os horários inadequados, que sobrecarregam e intensificam lhorar a aprendizagem dos alunos. o trabalho docente. Uma formação continuada mais adequada, acompanhada dos A falta de formadores ou assessores e, entre muitos dos que apoios necessários durante o tempo que for preciso, deve existem, uma formação centrada em um tipo de transmissão contribuir para que novas formas de atuação educativa se- normativa, aplicativa ou, em princípio, "gerenciadora", que jam incorporadas à prática. leva a assumir um papel de especialista, e não de acompa- nhante. Ainda restam obstáculos para vencer A formação em contextos individualistas, personalistas. Isso Na formação também existem obstáculos. É contraditório atestar não significa que, quando se transmite uma mesma informa- que muitas das dificuldades que a formação dos professores encontra ção ou se apresenta uma experiência a um grupo de professo- podem se transformar facilmente em desculpas para a resistência, res, cada um a incorpore depois, de forma diferente, à sua por parte de algum setor, e ser também motivo de uma cultura profis- prática e seja capaz de assumir necessidades diferentes. sional culpabilizadora dos professores que não apresenta resistências contexto individual é a prova de que processo de formação e lutas, para conseguir uma melhor formação e um maior desenvolvi- se produz descontextualizado, sem considerar a realidade de mento profissional. Entre tais obstáculos, destacamos: cada professor ou do grupo, voltando-se para a melhoria da cultura docente, mas não para a mudança e para a inovação. A falta de uma coordenação real e eficaz na formação inicial A formação vista unicamente como incentivo salarial ou dos professores dos diversos níveis educativos com a formação promocional, e não como melhoria da profissão, fato que pode continuada. provocar uma burocratização mercantilista da formação. A falta de coordenação, acompanhamento e avaliação por parte das instituições e dos serviços implicados nos projetos RESUMO de formação continuada. Valoriza-se mais a quantidade de coisas que se faz do que a qualidade das mesmas. A situação educacional mudou nos últimos anos, basta dar um Em muitos países existe uma falta de descentralização das rápido olhar no ambiente social e pessoal dos alunos, para perceber a atividades programadas, que impede que muitos educado- magnitude de uma transformação. Já não são as novas tecnologias, res tenham a oportunidade de participar de uma formação. mas Messenger; já não é a nova economia, mas a precariedade laboral O predomínio da improvisação nas modalidades de formação. das famílias; são as novas relações familiares; são alunos imigrantes Embora as modalidades formadoras costumem ter um cará- recém-chegados com suas expectativas; é a multiculturalização cres- ter grupal, na realidade, elas se dirigem ao indivíduo, que cente e incontrolável; é a influência de outros modelos de organização pode aprender questões concretas normalmente distantes de social, desde as ONGs até as bandas, etc. Tal transformação coloca em suas preocupações práticas. Por essa razão, a formação não o fracasso ou a falta de previsão da aplicação real das refor- costuma causar um grande impacto na prática da sala de mas, a idoneidade de professores por sua formação e a inadequação aula nem potencializar desenvolvimento profissional. de um sistema educacional e de um modelo vigente há vários séculos. A ambígua definição dos objetivos ou princípios de procedi- É difícil, como tudo nestes tempos, anunciar futuro da formação mentos formativos, ou seja, da orientação da formação, a continuada de professores. Ninguém pode negar que houve muitos consciência do que se pretende. Devido à confusão entre avanços, mas é possível que ainda perdure pensamento sobre a coisas novas e velhas, são estabelecidos uns princípios de formação desenvolvido nas décadas de 1980 e Mas a tarefa dos36 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 37 professores do início do século XXI não está relacionada com a dos o QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? professores do início do século passado, uma diferença que deveria ser notada de forma drástica na formação inicial e continuada. Este pode ser um bom momento para traçar novos planos e pro- Deixo para aprofundar o tema das alternativas no próximo capítulo. A seguir, cessos de formação adequados às diversas realidades das etapas exponho apenas três ideias gerais. educativas; para gerar novas alternativas de futuro, não cabendo Olhar para trás e ver o que é que funcionou e o que aprendemos. Não aqui uma reforma educacional pontual, mas, sim, uma reforma per- começar sempre do zero. manente da educação, ao menos para imaginar um futuro possível e uma desejável e nova formação continuada dos professores. Evitar os "curto-circuitos" na formação, isto é, os processos inacabados. Formar-se é um processo que começa a partir da experiência prática dos Além disso, existem vários fatores e circunstâncias que provoca- professores. Seria mais adequado dizer que começa da práxis, já que a ram mudanças em princípios do século XXI: as transformações políti- experiência prática possui uma teoria, implícita ou explícita, que a funda- cas e sociais (novas tecnologias, nova economia, pós-modernidade, menta. Algo ou alguém oferece instrumentos que permitem analisar essa crise da família ou, melhor dito, constituição de outras famílias, diver- prática. o professor pondera as diferentes opções de mudança nessa aná- sidade, multiculturalismo, etc.); certos fracassos na aplicação das refor- lise e opta por não mudar ou por escolher uma determinada solução que planeja na ação, e é essa solução que leva a cabo e que a interioriza em mas baseadas excessivamente no currículo; a idade dos professores; seu processo de desenvolvimento profissional. as mudanças sociais na infância e adolescência; problemas deriva- Às vezes, esse processo vivencial ou experiencial da formação sofre um dos do contexto social; avanço de certas ideologias neoconservadoras "curto-circuito", se a partir da prática "obriga-se" o professor a planejar e neoliberais; as "situações de conflito e reivindicação" que podem mudanças mediante a formação. Veja-se, como exemplo, o que aconte- ocasionar a formação, de forma que uma boa formação provoca ino- ceu em muitos países com a obrigação temporal de elaborar projetos edu- cacionais e curriculares. Outras vezes, quando se programam cursos pa- vação e em situação de escassez provoca uma justa reivindicação. Há dronizados, nos quais se explica tudo a todos sem levar em conta con- uma tentativa de voltar aos enfoques tecnológicos, funcionalistas e texto, pretende-se que professores transfiram diretamente o que escu- burocráticos na formação dos professores, com um discurso que ca- taram ao seu planejamento real de sala de aula. E isso muitas vezes não racteriza uma visão de adequação aos velhos tempos. Talvez os pro- pode acontecer, já que não houve tempo para analisar diversas propostas fessores estejam pagando pela crise educacional e social, ou pelas em contextos diferentes, selecionar aquela que é mais adequada, planejá- -la para a ação, experimentá-la, para assim incorporá-la à prática educacio- mudanças. No entanto, isso não impede que esses momentos sejam nal. Note que o tempo sempre será importante na formação. Na formação propícios para originarem novas alternativas de futuro e uma desejá- existem muitos curto-circuitos que fazem com que esta seja ineficaz, arbi- vel nova formação dos professores. Outra formação é possível. trária e absurda. Se são realizados cursos de formação, estes não deveriam ficar apenas na teoria explicativa sobre a questão ou na superficialidade do estado da NOTAS mesma, senão realizar demonstrações e simulações, para depois levar as questões para a prática real e desenvolver sessões de retorno dos profes- 1. Entendemos por "neoliberalismo" a ideologia conservadora sores e discussão, em que se analise a concretização da prática nas diver- que fundamenta suas políticas em uma racionalidade eco- sas situações problemáticas e possam observar-se as diversas complexi- nômica, primando pelo privado ante público, que é consi- dades que forem surgindo. Posteriormente, pode-se propor uma assesso- derado como mau, e com uma concepção do indivíduo como ria, uma observação detalhada ou um acompanhamento, a fim de ver como capital humano (para saber mais, ver Apple, 2002). a inovação será introduzida na prática. Os cursos padronizados, de acor- do com o propósito e as maneiras como se realizam, podem servir para 2. O "neoconservadorismo" sente saudade do passado e ten- gerar processos de reflexão e mudança na prática, mas se permanecem ta voltar a políticas e práticas educativas anteriores, com a em uma fase de explicação, é possível que sejam inúteis. desculpa de uma maior exigência e nível acadêmico (ver Apple, 2002). 3. A "neomiséria" ou pobreza endêmica faz com que um indi- víduo, por ter nascido e vivido em um determinado lugar, esteja condenado à exclusão social.38 Francisco Imbernón Uma proposta possível poderia ser: É preciso nos adequarmos às 3 Diagnóstico das formas de atuação dos professores em suas salas de novas ideias, políticas e práticas aula mediante uma série de observações. para realizar uma melhor formação Exploração da teoria, realização de demonstrações, discussões e práticas em situações de simulação. continuada de professores Discussão reflexiva. Os momentos de discussão em grupos pequenos e as tarefas de resolução de problemas ao longo das sessões ajudam a aprendizagem e a transferência para as aulas. Em que pesa o que aprendemos, é preciso olhar para a frente. A teoria e a prática da formação, seus planos, suas modalidades e Sessões de retorno dos professores e assessoria. o acompanhamento mediante a observação por parte de colegas ou de assessores garante a estratégias, seu processo, etc., devem ser inseridos em novas pers- transferência de estratégias de ensino de maior complexidade. pectivas. Por exemplo, as relações entre os professores, as emoções e as atitudes, a complexidade docente, a mudança de relações de poder nos cursos de formação de professores, a autoformação, a comunicação, a formação com a comunidade, a influência da socie- dade da informação. conhecimento como ato é trazer à consciência algumas de nossas dis- posições, com intuito de resolver uma perplexidade, concebendo a co- nexão existente entre nós mesmos e mundo em que vivemos. (John Dewey) MUITA FORMAÇÃO E POUCA MUDANÇA Em todos países, em todos textos oficiais, em todos discursos, a formação continuada ou capacitação começa a ser as- sumida como fundamental, a fim de se alcançar sucesso nas re- formas educacionais. No entanto, já não é tão habitual que se es- tabeleçam estruturas e propostas coerentes que possibilitem uma maior inovação dos processos educativos das instituições de ensi- no, sobretudo nestes tempos, quando predominam governos de atitudes conservadoras e políticas neoliberais (com alguma exce- ção e contraditoriamente). Muitos países literalmente jogam escassos recursos dedicados à capacitação dos professores no gran- de lixo da inutilidade. De forma paradoxal, há muita formação e pouca mudança. Talvez seja porque ainda predominam políticas e formadores que praticam com afinco e entusiasmo uma formação transmissora e uniforme, com predomínio de uma teoria descontextualizada, válida para todos sem diferenciação, distante dos problemas práticos e reais e fundamentada em um educador ideal que não existe. E isso acontece, inclusive, tendo-se O conhe-40 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 41 cimento do discurso já antigo, pois esse é de meados dos anos de repercute sobre a qualidade dos projetos educativos aos quais se vin- 1980, que preconiza que a formação deve se aproximar da escola cula nas instituições educacionais". e partir de situações problemáticas dos educadores. Mas não, a Isso nos leva a pensar que é necessário uma "rearmada" moral e formação e projetos nos cursos de formação de professores con- intelectual, como compromisso de melhoria dos alunos e da socie- tinuam sendo uma eterna reivindicação. Nesse sentido, se a forma- dade, e uma reestruturação que se inicie por posturas críticas, mas ção não é acompanhada de mudanças contextuais, trabalhistas, de novas, para recuperar o que uma vez se sonhou e nunca se teve, e promoção de carreira, de salário, etc., pode-se "culturalizar pro- para sonhar de novo. Como diria um treinador de futebol ao se fessor", até criar-lhe uma identidade enganadora, não se conseguin- referir aos jogadores: recuperar a vontade de jogar e protagonismo do, porém, transformá-lo em um profissional mais inovador. merecido. A solução está Atualmente, são programados e ministrados muitos cursos de for- A"rearmada" moral, intelectual e profissional dos professores passa em potencializar uma nova cultura mação, mas também é evidente que há pouca inovação ou, ao menos, pela recuperação por parte do mesmo controle sobre seu processo de formadora, que gere essa não é proporcional à formação que existe. Talvez um dos moti- trabalho, incluída a formação. Trabalho que é desvalorizado como novos processos na teoria e na vos seja predomínio ainda da formação de caráter transmissor, com consequência da grande fragmentação curricular, produto da prática da formação, a supremacia de uma teoria que é passada de forma descontextua- neotecnocracia das últimas reformas do século XX, das políticas re- introduzindo-nos em A "rearmada" moral, lizada, distante dos problemas práticos dos professores e de seu con- formistas precipitadas, do poder que se introduz nos estabelecimen- novas perspectivas intelectual e profissional e metodologias. texto, baseada em um professor ideal que tem uma problemática tos escolares como mecanismo de decisão e não de relação, do afasta- dos professores passa pela recuperação por sempre comum, embora se saiba que tudo isso não existe. mento obrigatório dos professores, da rotina entediante, da parte do mesmo homogeneidade prática e da mecanização laboral, etc. O objetivo dessa controle sobre seu processo de trabalho. "rearmada" deveria ser de ressituar OS professores, para serem objetivo da BUSCA DE NOVAS PERSPECTIVAS protagonistas ativos de sua formação em seu contexto de trabalho, "rearmada" deveria ser de ressituar os Pode-se pensar que a solução é fácil: ignorar processos de for- no qual as decisões entre prescrito e real devem combinar, seu professores para autoconceito deve aumentar, assim como seu status laboral e social. serem protagonistas mação que não provocam inovação e pronto! Mas não é tão simples ativos de sua formação assim. A solução não está apenas em aproximar a formação dos pro- Isso tudo será conseguido mediante uma mudança das políticas em seu contexto educativas, aliada à reivindicação dos professores por uma maior laboral. fessores e do contexto, mas, sim, em potencializar uma nova cultura formadora, que gere novos processos na teoria e na prática da forma- autonomia profissional, por sua capacidade de formação e geração ção, introduzindo-nos em novas perspectivas e metodologias. Como, de mudanças, pela possibilidade de lhes deixarem realizar uma ver- por exemplo, as relações entre OS professores, seus processos emocio- dadeira colegialidade entre colegas de trabalho, por lhes consenti- rem ser criativos nas vicissitudes profissionais sem ser censurados e nais e atitudinais, a formação realizada em uma complexidade do- cente e dirigida para ela, a crença ou autocrença da capacidade de por lhes permitirem uma maior participação nas decisões educacio- É necessário uma gerar conhecimento pedagógico nos próprios cursos de formação de nais, a fim de poderem desenvolver uma verdadeira participação com "rearmada" moral professores com colegas de trabalho, a mudança de relações de po- todos que intervêm na educação da infância e da adolescência. e intelectual, uma reestruturação que se der nas instituições educacionais, a possibilidade da autoformação, Além disso, uma "rearmada profissional" dos docentes e de sua inicie por posturas mas novas, trabalho em equipe e a comunicação entre colegas, a formação com formação necessita de uma oposição frontal a qualquer manifesta- para recuperar que a comunidade, entre outros. Tudo isso implica, por que não, deixar de ção, explícita ou oculta, da racionalidade técnica que nos encami- uma vez se sonhou e nunca se teve, e para lado ou complementar a formação estritamente disciplinar e que está nhe, com outros nomes e procedimentos, ao passado (competên- sonhar de centrada em questões genéricas sociopsicopedagógicas, as quais, quan- planos estratégicos, qualidade, eficiência, eficácia, entre ou- do abordadas apenas na formação, podem conduzir à ausência, ao tros), seja nos conteúdos curriculares, seja nas formas de gestão e abandono, à desmoralização, ao cansaço da formação continuada, à controle técnico burocrático da educação e da formação. crença comum de considerá-la algo distante. Torres (2006, p.44) re- Uma perspectiva crítica na educação e na formação deverá ser fere à pobreza das políticas de atualização dos professores como sen- assumida, mas, atualmente, abrigado sob essa mesma denominação, do uma das causas da desmotivação docente, já que "existe um tipo refugia-se todo aquele que, a partir de uma análise sobre as diversas de política de atualização e incentivo dos professores que raramente formas de desigualdade e opressão na escola e na sociedade, propõe-42 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 43 -se a uma militância pedagógica ativa em prol da renovação e a uma Algumas alternativas possíveis ação solidária para desenvolver uma nova cultura profissional alter- nativa dos professores e uma nova prática educacional, formadora, O exposto até presente momento deve propiciar alternativas social e libertária dos indivíduos. Em relação a isso, Foucault (1992) baseadas em: diria: "desmascarar regime de Volta-se a tomar como referência, depois de tanta influência teórica anglo-saxônica, traba- Uma mudança no tipo de formação individual e coletiva dos professores. A entrada com força no campo da teoria da lho de Paulo Freire¹, que serve para analisar a tão denunciada falácia laboração como processo imprescindível na formação dos da neutralidade escolar e da formação técnica dos professores; para professores, em sua profissionalização e relação entre eles. construir uma noção de educação mais politizada, com um compro- Uma formação não apenas em noções ou disciplinas, que misso na liberdade dos indivíduos e não na dominação; para falar podemos chamar de "conhecimento objetivo", embora esse também de formação colaborativa e dialógica como processo de diá- Convém promover um termo não seja completamente certo, mas, sim, uma forma- amplo questionamento logo entre professores e todos aqueles componentes que intervêm ção em um maior "conhecimento subjetivo": autoconceito, sobre a atual situação na formação, e para desenvolver uma pedagogia da resistência, da e atuar em novas conflito, conhecimento de si, comunicação, dinâmica de gru- propostas de formação esperança, da raiva ou da possibilidade. Para realizar a denúncia e pos, processos de tomadas de decisão coletivas, etc. A for- continuada de propor a anunciação, dois processos inseparáveis segundo Freire. professores, nas quais mação e a reflexão sobre os aspectos éticos, relacionais, co- novos elementos compromisso de mudança passa a analisar as contradições e a legiais, atitudinais e emocionais dos professores, os quais vão adquiram importância. denunciá-las, buscando alternativas. além dos aspectos puramente técnicos e "objetivos". Convém promover um amplo questionamento sobre a atual situa- Criação de estruturas organizativas, redes, que permitam um ção e atuar em novas propostas de formação continuada de profes- processo de comunicação entre indivíduos iguais e troca de sores, nas quais novos elementos adquiram importância que, mesmo experiências, para possibilitar a atualização em todos os cam- disseminados em livros e no vocabulário pedagógico, ainda estão longe pos de intervenção educativa e aumentar a comunicação entre de serem inseridos nas políticas e nas práticas de formação: os professores. Objetivo: refletir sobre a prática educacio- nal, mediante a análise da realidade do ensino, da leitura A central deve A reflexão sobre a prática em um contexto determinado. ser potencializar uma pausada, da troca de experiências, dos sentimentos sobre formação que seja A criação de redes de inovação, de comunidades de prática que está acontecendo, da observação mútua, dos relatos da capaz de estabelecer formadora e de formas de comunicação entre OS professores. espaços de reflexão e vida profissional, dos acertos e erros, etc. Estruturas que tor- participação, para A possibilidade de uma maior autonomia na formação com nem possível a compreensão, a interpretação e a interven- que OS professores a intervenção direta dos professores. aprendam com a ção sobre a prática. reflexão e a análise das Partir dos projetos das escolas, com o objetivo de OS profes- Uma perspectiva que considera as situações problemáticas situações problemáticas sores decidirem a formação de que necessitam para avançar dos cursos de educacionais surgidas da análise de um grupo como ponto formação de na elaboração, no desenvolvimento e na avaliação do projeto. de partida. Lembre-se de que a formação sempre tentou "dar professores e para Como ideia principal, mais que a intenção de atualizar, po- que partam das solução a problemas genéricos", e não a situações problemá- necessidades tencializar uma formação que seja capaz de estabelecer es- ticas específicas, vividas pelos professores. É importante unir democráticas do paços de reflexão e participação, para que OS professores coletivo, a fim de a formação a um projeto de inovação e de mudança. Se for estabelecer um novo "aprendam" com a reflexão e a análise das situações proble- possível, tentar potencializar a união da formação com uma processo formador que máticas dos cursos de formação de professores (mais apren- experiência de inovação na instituição educacional com apoio possibilite estudo da vida na sala de aula e dizagem que ensino na formação) e para que partam das externo. Possibilitar a inovação institucional, que ajuda mais nas instituições necessidades democráticas, sentidas, do coletivo. Tudo isso na mudança de todos, que a experiência da inovação (isola- educacionais, projetos de mudança e com a finalidade de estabelecer um novo processo formador da e celular), que pode provocar a mudança circunstancial trabalho colaborativo. que possibilite estudo da vida na sala de aula e nas institui- de alguém. Isso faz com que a formação esteja a serviço do ções, projetos de mudança e trabalho colaborativo projeto elaborado por um grupo. Quando se elabora um pro- todos representando desenvolvimento fundamental da ins- jeto, os professores podem escolher a teoria que lhes ajuda- tituição educacional e dos professores. rá a colocá-lo em prática. Mas parece que a relação inova-44 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 45 ção-formação não corresponde tanto ao binômio teoria-prá- ras, mesmo que essas constem em seus papéis oficiais e em seus tica como da prática-teórica. projetos de formação. A experiência de algumas administra- Combinação da atualização científica e técnica com a ver- ções é uma boa amostra disso. tente psicopedagógica. No entanto, como na cultura profis- sional de uma quantidade de professores, imbuídos pelo No entanto, não podemos evitar o pensamento de que a forma- modelo existente de formação, pode haver uma tendência ção continuada dos professores não pode se separar das políticas de demanda de uma formação mais baseada nos conheci- que incidem nos docentes. Se queremos que tal formação seja viva e mentos que na transmissão destes, deveria se propor uma dinâmica, além de útil, é claro, devemos uni-la a uma carreira pro- Se queremos que a formação na qual a vertente sociopsicopedagógica estivesse fissional ou a um estatuto da função docente que inclua incentivos formação continuada seja viva e dinâmica, incluída na atualização científica e técnica, mas com uma profissionais e promoções, verticais em diversas etapas e horizon- devemos uni-la a uma metodologia menos transmissora e mais fundamentada em tais em uma mesma etapa, e que recompense ou, ao menos, não carreira profissional que inclua incentivos casos, incidentes críticos, projetos de inovação, etc. castigue aqueles que se dedicam mais para um melhor funciona- profissionais e Desenvolvimento e incentivo de uma cultura colaborativa nos mento das instituições de ensino e de sua prática docente, não ape- promoções e que tente recompensar cursos de formação de professores, com análise, experiência e nas de forma individual, mas, também, coletivamente. Enfim, aque- OS que se interessam avaliação de forma coletiva, assim como uma maior profis- les que realizam práticas alternativas de formação e inovação. por ela. sionalização docente por meio de projetos conjuntos. Na reali- Além disso, para criar uma nova alternativa educacional, devemos dade, mais que "desenvolver" seria "se desenvolvem", como analisar e contrapor uma nova visão da educação, que resulte em explica Day (2005, p.159): "Não é possível desenvolver os pro- uma determinada formação, aos teóricos e práticos do perenialismo, fessores (de forma passiva). Eles se desenvolvem (ativamen- os quais voltaram a aparecer em alguns estados e que dão visibilidade te)". Unir a formação a um projeto de trabalho provoca mais a a uma ideologia conservadora e a um elitismo academicista, que inovação educativa do que realizar a formação e, posteriormen- faz considerar certas coisas melhores do que outras. Tal perenialismo te, a elaboração de um projeto. A mudança nos professores, pode ser traduzido com algumas proposições: voltar ao básico; ter por ser uma mudança na cultura profissional, é complexa e que ensinar assim; a democracia é culpada; professores são culpa- muito lenta. Essa complexidade e lentidão traz uma necessida- dos; perderam-se valores; devemos separar e classificar alunos, de de interiorizar, adaptar e viver pessoalmente a experiência etc. Alguns exemplos desse conservadorismo na educação são: a uni- de mudança. As mudanças de outros não necessariamente aju- versidade como instância superior do conhecimento formativo, a des- dam na mudança de alguém. confiança no professor e mais na professora, 0 discurso teórico como Mudanças de contexto, de organização, de gestão e de rela- acumulação de saberes e sinônimo do intelectual, a tradição cultural ções de poder entre educadores, já que a formação por si ocidental como superior e única, depreciando outras identidades e Tudo que já foi mesma resulta pouco, se não está unida a tais mudanças. contribuições culturais. proposto até agora tão mencionado desenvolvimento profissional não recai na Entretanto, para assumir essa outra perspectiva crítica e alter- deve fornecer novas alternativas. É preciso formação, mas em diversos componentes que ocorrem con- nativa na educação e formação é necessário distanciar-se de cer- analisar e contrapor tos personagens e vigiar as teses de certa pedagogia e sociologia uma nova visão da juntamente na prática laboral do ensino. educação, que resulte Uma nova formação que estabelece mecanismos de desapren- educacional, muito na moda atualmente. Pedagogia que se deno- em uma determinada dizagem para se voltar a aprender, de forma que aprender a mina progressista, mas cujas considerações sobre a escola, a socie- formação, dos teóricos e praticantes do desaprender seja complementar ao aprender a aprender. Mas dade democrática, 0 compromisso, conteúdo de mudança do perenialismo que essa formação implica inovação, e se essa inovação dá-se em ensino e professores são muito etéreas e vacilantes. voltaram a aparecer em alguns países e contextos de escassez, provoca nos educadores reivindicação formação continuada deveria fomentar desenvolvimento que pregam uma ("necessito de ferramentas intelectuais que não possuo e que pessoal, profissional e institucional dos professores, potencializando ideologia conservado- ra e um elitismo antes desconhecia"). Isso causa um maior controle dos gover- um trabalho colaborativo para transformar a prática. É fácil dizer, academicista que OS mas é muito difícil mudar as políticas e as práticas de formação. leva a considerar nos que não desejam a reivindicação e, como consequência, certas coisas maiores estabelecem mecanismos de eliminação de práticas formado- Essa mudança implica fugir de políticas de subsídio, de políticas em que outras.46 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 47 É indispensável fugir que se pensa que, investindo na formação, em grandes quantidades cidades. Iniciativa que necessita de políticas e instituições de formação A formação também de políticas de pode ser uma arma subsídio nas quais se de cursos, seminários ou jornadas, a educação mudará, deixando próximas aos professores. No entanto, a experiência nos tem demons- crítica contra práticas pensa que somente contexto laboral igualmente empobrecido. Contexto em que a trado que essas instituições, chamadas comumente de "cursos de for- laborais, como a transformando tudo em hierarquia, abuso formação, cursos, metodologia de trabalho da prática formadora está mais orientada mação de professores" ou similares, deveriam reunir todos serviços de poder, a miséria seminários ou educativos para estabelecerem uma coerência nas políticas e na práti- econômica de muitos para uma formação individual do que para modelos de formação jornadas, se mudará a educadores, educação. continuada de aspecto coletivo, de desenvolvimento e melhoria do com os professores e, assim, estarem aptos a oferecer ajuda e acom- sexismo, a xenofobia, currículo, e para processos questionadores, cuja base não é a "igno- panhamento da formação, mediante assessores formados especifica- a individualismo, etc. rância do professor", mas a desconfiança na capacidade dele de ge- mente como assessores de procedimento, colegas acompanhantes ou rar inovações mediante a prática educacional. amigos críticos. Várias vezes já surgiu a ideia de vincular a formação a um proje- Já sabemos que a capacidade profissional dos professores não to de trabalho dos cursos de formação, em que houvesse uma revi- termina na formação técnica, disciplinar e conceitual, mas que alcan- são dos processos de formação no local de trabalho, local em que se ça terreno prático e as concepções pelas quais se estabelece a sua dão as situações problemáticas. Uma "formação a partir de dentro e ação pedagógica. A formação continuada deveria apoiar, criar e Ultimamente tem-se para dentro e fora", baseada na revisão conjunta mediante proces- potencializar uma reflexão real dos sujeitos sobre sua prática docente escrito e falado muito sobre a ideia de reais de pesquisa-ação, não no sentido de ortodoxia metodológica, nas instituições educacionais e em outras instituições, de modo que vincular a formação senão no da reflexão sobre que se faz e sobre a finalidade da permitisse examinar suas teorias implícitas, seus esquemas de a um projeto de trabalho dos mudança coletiva. E tudo isso não impede que se possa necessitar funcionamento, suas atitudes, etc., estabelecendo de forma firme um A formação continuada cursos de formação de professores, mas do apoio externo de assessores que acompanhem OS professores processo constante de autoavaliação do que se faz e por que se faz. deveria promover isso aconteceu nesse repensar sobre a prática. Trata-se de um processo sobre qual Uma orientação formadora voltada para esse processo de reflexão, e a reflexão dos professores, pouco na prática. se tem escrito e falado muito ultimamente, mas que foi levado mui- pressupostos políticos subjacentes a ela, exige uma definição críti- potencializando to pouco para a prática das instituições educacionais. ca² da organização e da metodologia da formação continuada dos um processo constante de autoavaliação sobre Além disso, potencializar a troca de experiências entre indivíduos professores, já que deve ajudar OS sujeitos a revisarem pressupos- que se faz tratados iguais e a comunidade, dentro de um projeto educativo tos ideológicos e comportamentais que estão na base de sua prática. e por que se faz. Potencializar a troca de experiências entre comunitário, pode possibilitar a formação em todos OS campos de Isso supõe que a formação continuada deva se estender ao terreno indivíduos tratados intervenção educacional e pode aumentar a comunicação entre a das capacidades, habilidades, emoções e atitudes e deva questionar iguais e a comunidade pode possibilitar a realidade social e OS professores, algo tão necessário em uma nova continuamente valores e as concepções de cada professor e da formação em todos OS forma de educar. Assim, rompe-se com conhecido isolamento, equipe de forma coletiva. campos de intervenção educacional e "celularismo" escolar, que não impede a inovação nas instituições A formação distante da prática docente deveria ser reduzida. aumentar a comunica- educacionais e em outras instituições, mas, ao contrário, que a pro- Nessa formação, OS aspectos quantitativos são mais valorizados ção entre a realidade social e OS professores. duz individualmente isolada, pessoal e intransferível. Um indivi- que os qualitativos, existe um marcado caráter individualista, cuja dualismo que todos censuram e que, no entanto, não se tenta com- origem está nos modelos transmissores de estilo tecnocrático, A formação continuada deve se estender bater nos contextos políticos educativos. Será por que professor mercantilista e meritocrático. Assim, poderá ser potencializada uma ao terreno das isolado é mais vulnerável às políticas econômicas e sociais? formação mais ligada à prática e que fomente a autonomia dos capacidades, habilidades, A formação não significa apenas aprender mais, inovar mais, mudar professores na gestão de sua própria formação. emoções e atitudes mais ou aquilo que se queira acrescentar aqui, mas pode ser uma arma Trata-se de abandonar 0 conceito tradicional de que a formação e deve questionar continuamente crítica contra práticas laborais, como por exemplo a hierarquia, abu- continuada de professores é a atualização científica, didática e psicope- OS valores e as so de poder, a miséria econômica de muitos educadores, sexismo, a dagógica, que pode ser recebida mediante certificados de estudo ou concepções de de participação em cursos de instituições superiores, de sujeitos igno- cada professor e da xenofobia, a proletarização, individualismo, etc., e pode promover equipe de forma uma formação centrada no combate a práticas sociais como a exclu- rantes, em benefício da forte crença de que esta formação continuada coletiva. são, a segregação, racismo, a intolerância, entre outros. Mais além deva gerar modalidades que ajudem professores a descobrir sua da formação em tímidos cursos sobre didática e temas transversais, teoria, a organizá-la, a fundamentá-la, a revisá-la e a destruí-la ou trata-se de gerar verdadeiros projetos de intervenção comunitária nas construí-la de novo. abandono aqui proposto acarreta uma mudan-48 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 49 A formação continuada deve gerar modalida- ça radical da forma de pensar a formação, já que não supõe tanto buir com a pessoa que aprende. Uma formação continuada centrada des que ajudem desenvolver modalidades centradas nas atividades de sala de aula, em cinco grandes linhas ou ideias de atuação: OS professores a descobrir sua teoria, muito menos ver o professor como um aplicador de técnicas pedagó- a organizá-la, a gicas, mas, sim, comprometer-se com uma formação dirigida a um A reflexão prático-teórica do docente sobre a sua própria práti- fundamentá-la, a revisá-la e a destruí-la sujeito que tem capacidades de processamento da informação, de ca, mediante uma análise da realidade educacional e social de ou construí-la de novo, análise e reflexão crítica, de decisão racional, de avaliação de proces- seu país, sua compreensão, interpretação e intervenção sobre a abandonando conceito tradicional de e reformulação de projetos, tanto laborais quanto sociais e edu- mesma. A capacidade dos professores de gerar conhecimento formação continuada e cacionais, em seu contexto e com seus colegas. pedagógico por meio da análise da prática educativa. professores como sendo a atualização A troca de experiências, escolares, de vida, etc., e a reflexão didática e entre indivíduos iguais para possibilitar a atualização em psicopedagógica de RESUMO sujeitos ignorantes. todos os campos de intervenção educacional e aumentar a Uma nova forma de ver a educação e a formação dos professores comunicação entre os professores. passa necessariamente por uma compreensão sobre o que está ocor- A união da formação a um projeto de trabalho, e não ao con- rendo diante das especificidades das áreas do currículo, das mudan- trário (primeiro realizar a formação e depois um projeto). ças vertiginosas do contexto, da veloz implantação das novas A formação como arma crítica contra práticas laborais, como a tecnologias da informação, da forma de organização nas instituições hierarquia, sexismo, a proletarização, individualismo, etc., escolares, da integração escolar entre crianças diferentes, do respeito e contra práticas sociais, como a exclusão e a intolerância. ao próximo, de tudo que nos rodeia e do fenômeno intercultural. O desenvolvimento profissional da instituição educacional me- As novas experiências para uma nova escola deveriam buscar diante trabalho colaborativo, reconhecendo que a escola está novas alternativas, um ensino mais participativo, no qual fiel constituída por todos e que coincidimos na intenção de trans- protagonista histórico do monopólio do saber, o professor, com- formar essa prática. Possibilitar a passagem da experiência de partilhe seu conhecimento com outras instâncias socializadoras inovação isolada e celular para a inovação institucional. que estejam fora do estabelecimento escolar. Buscar, sem entra- ves, novas alternativas para a aprendizagem, tornando-a mais NOTAS operativa, mais dialógica e menos individualista e funcionalista, mais baseada no diálogo entre indivíduos iguais e entre todos aque- 1. Uma leitura recomendável de seu pensamento é encontra- les que têm algo a escutar e algo a dizer a quem aprende. Tudo da em Freire (2004). isso implica uma nova maneira de ver a formação docente. 2. Questionar as experiências, tradições, pautas; relacionar-se com Em minha opinião, esta nova formação deveria partir não ape- contexto; buscar alternativas; aplicar e recuperar a ima- nas do ponto de vista dos especialistas, mas também da grande ginação, e passar as "verdades certas" pelo filtro da dúvida. contribuição da reflexão prático-teórica que OS professores reali- zam sobre seu próprio fazer. Quem melhor pode realizar uma aná- lise da realidade uma compreensão, interpretação e intervenção sobre esta do que próprio professor? As instituições educacio- nais e a comunidade devem ser foco da formação continuada e professores, OS sujeitos ativos e protagonistas da mesma. Enfim, as novas alternativas à formação continuada dos pro- fessores passam pela sua transformação: uma formação mais dialógica, participativa e ligada às cidades ou às instituições edu- cacionais e a projetos de inovação, menos individualista, standard e funcionalista, mais baseada no diálogo entre indivíduos iguais e também entre todos aqueles que têm algo a dizer e algo a contri-50 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 51 o QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? As culturas colaborativas provocam e contêm ansiedade. o reconhecimento de que todos os implicados devem aceitar a diversida- de para que a colaboração seja eficaz. o reconhecimento da individuali- A observação entre colegas sem que seja uma avaliação nem uma dade na colaboração é uma expressão de confiança, empatia e conexão. autoavaliação, mas, sim, uma disposição para se compartilhar e refletir sobre a experiência. Mostrar-se aberto e desejar a mudança. Combater a incoerência: a conexão e a criação de conhecimentos são críticas. Deve-se entrar em acordo sobre os fins morais da organização, compreendê- Descentralizar a formação continuada institucional. Levar em conta a im- -los, articulá-los e comunicá-los, para que o conhecimento seja sustentado. portância do contexto e a diversidade no trabalho docente. Não existe apenas uma solução, como críticos devemos configurar teorias Estabelecer redes de troca. e ações pessoais. Desenvolver mais formação em atitudes. Quem faz a mudança são professores. Se queremos mudar, devemos criar uma comunidade criticamente e comprometida com a edu- Criar cursos de formação integrais de professores, que ofereçam todos os cação. serviços educativos. A formação continuada não deve ser uma sobrecarga para o trabalho do- cente, senão um processo complementar que faz parte de sua profissão. Potencializar a autonomia desses cursos de formação de professores na elaboração de planos de formação (e também, a médio e a longo prazos, a autonomia da instituição educacional). Unir a formação aos projetos de mudança no contexto de trabalho educativo. E outros aspectos específicos que irão aparecendo nos próximos capítulos deste livro. As sete lições que Fullan nos expõe para a mudança também podem ajudar (Day, 2006, p.169): A finalidade moral é complexa e problemática É pouco provável que as iniciativas de cima para baixo, que não se conectam com os fins morais dos professores e apenas exigem docilidade, consigam o compromisso deles. E necessário que a mudança seja impul- sionada tanto por ordens de baixo para cima quanto de cima para baixo. As teorias da mudança e as da educação necessitam-se mutuamente As escolas são diferentes, logo a teoria apenas pode servir de guia. Não há um plano adequado para todas as situações e, portanto, deve-se estar preparado para adaptá-lo. conflito e a diversidade são nossos amigos Um processo de mudança implicará trabalhar, inevitavelmente, em meio a incômodos, tensões e incertezas. Desde o princípio convém abordar a dimensão emocional da mudança. Compreender significado de atuar à beira do caso Deve-se estar disposto a correr riscos e a aprender com a experiência. A inteligência emocional contém e provoca a ansiedade A emoção é importante para enfrentar desconhecido; controlar as emo- ções próprias e as dos outros é vital.A formação continuada 4 deve agir sobre as situações problemáticas dos professores A formação standard aplicada à formação docente tenta dar res- postas a todos de forma igual mediante a solução de problemas genéricos. A formação clássica é formação de problemas, mas, na formação continuada, não há problemas genéricos, mas, sim, situa- ções problemáticas. Passar de uma para outra nos dará uma nova perspectiva de formação. É evidente que 0 comum a todos deve ser aprendido em comum. Por outra parte, não se deve acreditar que cada cidadão pertence a si mes- senão que todos pertencem à cidade; e se cada indivíduo é parte da cidade, que se faça por cada parte deve estar naturalmente em harmo- nia com que se faça pelo todo. (Aristóteles, A política, Livro V, capítulo 1, 2) os PROBLEMAS NÃO SÃO GENÉRICOS I listoricamente, OS processos de formação foram realizados para dar solução a problemas genéricos, uniformes, padronizados. Ten- responder a problemas que se supunham comuns aos pro- fessores, quais deveriam ser resolvidos mediante a solução gené- rica dada pelos especialistas no processo de formação. Isso acarre- tou para os processos de formação algumas modalidades em que predomina uma grande descontextualização do ensino, dos contex- tos reais dos educadores, já que para diferentes problemas educativos era sugerida a mesma solução, permanecendo-se à margem da situa- ção geográfica, social e educativa concreta do professor e de quais fossem as circunstâncias de tal problema educacional.¹ Formação não é treinamento tratamento da formação como um problema genérico ocasio- nou um sistema de formação standard, baseado em um modelo de treinamento.² Muitos professores estão acostumados a assistir cursos e seminários em que palestrante é especialista que estabelece54 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 55 tratamento da conteúdo e 0 desenvolvimento das atividades. Em um curso ou em Em segundo lugar, encontramos um desempenho profissional formação como um problema genérico uma "sessão de treinamento", objetivos e os resultados esperados diversificado com desenvolvimentos profissionais específicos. ocasionou um sistema estão claramente especificados e costumam ser definidos em termos Em terceiro lugar, há variação na zona de trabalho: rural, semir- de formação standard, baseado em um de conhecimentos. Por exemplo, explicar princípios da aprendiza- rural, urbana, suburbana, e o clima de trabalho dentro da ins- modelo de treinamento. gem significativa ou do desenvolvimento de habilidades. Neste últi- tituição educacional. mo caso, participantes deverão demonstrar que sabem utilizar na discussão das aulas questões sem um esquema preestabelecido. Essas características pessoais e OS diversos interesses implica- Neste modelo, formador é quem seleciona as atividades que dos configuram uma série de elementos que tanto podem favore- As características Historicamente, a base cer a formação quanto se tornar um obstáculo para ela mediante pessoais e diversos científica dessa forma se supõem ajudar os professores a conseguirem resultados es- interesses configuram de tratar a formação perados, como por exemplo, explicação, leituras, demonstração, certas resistências. Por exemplo, a diversidade pode fazer com que, uma série de elementos continuada de jogo de papéis, simulação, explicações, etc. por um lado, pensemos que a formação apenas alcança aqueles que podem favorecer professores foi ou se tornar um positivismo, uma A concepção básica que apoia treinamento" é a de que existe que já estão predispostos a ela e, por outro, com que nos centremos obstáculo à formação: racionalidade técnica uma série de comportamentos e técnicas que merecem ser reproduzi- em temas que são de nosso interesse prévio e não nos que são diversas tipologias que buscava com de professores, afinco, nas dos pelos professores nas aulas, de forma que, para aprendê-los, são necessários, mas isso ocorre como na própria vida. um desempenho em educação, ações utilizadas modalidades como cursos, seminários dirigidos, oficinas Se a diversidade das práticas educativas é evidente, se o contex- profissional generalizadoras para diversificado com levá-las aos diversos com especialistas ou como se queira denominá-los. Neles a ideia que to influi na forma de ensinar e pensar a educação, se é difícil falar desenvolvimentos contextos educacionais. predomina é a de que os significados e as relações das práticas educa- de professores, sendo melhor falar "profissionais e professores", a profissionais específicos, variação cionais devem ser transmitidos verticalmente por um especialista que alternativa a essa formação padronizadora e solucionadora de pro- na zona de trabalho soluciona problemas sofridos por outras pessoas: OS professores. blemas genéricos (ao "treinamento") é a sua progressiva substitui- e no clima de trabalho dentro da Historicamente, a base científica dessa forma de tratar a formação ção, dirigida por especialistas acadêmicos que dão soluções a tudo, educacional. continuada de professores foi 0 positivismo, uma racionalidade técni- por uma formação que se aproxime das situações problemáticas em ca que buscava com afinco, nas pesquisas em educação, ações seu próprio contexto, isto é, da prática das instituições educacio- Acreditava-se de forma ilusória que muclando generalizadoras para levá-las aos diversos contextos educacionais. A nais. Uma formação que, partindo das complexas situações proble- OS professores, formação por intermédio de exemplos bem-sucedidos de outros, sem máticas educacionais, ajude a criar alternativas de mudança no con- mudaria a educação e suas práticas, sem passar pela contextualização, pelo debate e pela reflexão, tentava dar texto em que se produz a educação; que ajude mais do que desmo- se levar em conta resposta, sem muito eco, a esse ilusório problema comum. ralize quem não pode pôr em prática a solução do especialista, por- a idiossincrasia do indivíduo e Com esta poção mágica, que formador-treinador colocava à que seu contexto não lhe dá apoio ou porque as diferenças são tan- do contexto. disposição de todos professores assistentes desses cursos, acre- tas, que é impossível reproduzir a solução, ao menos que esta seja ditava-se de forma ilusória que mudando professores, mudaria rotineira e mecânica. A alternativa à formação padronizadora a educação e suas práticas, sem se levar em conta a idiossincrasia Na atualidade, temos certeza de que a educação só mudará se e solucionadora de do indivíduo e do contexto. os professores mudarem, mas contextos em que esses interagem problemas genéricos é a sua progressiva também deverão fazê-lo. Se contexto não muda, podemos ter substituição por professores mais cultos e com mais conhecimento pedagógico, mas uma formação que A importância da diversidade se aproxime da não necessariamente mais inovadores, já que contexto pode im- prática das Na realidade dos É evidente, desde há muito tempo, que, na realidade dos pro- possibilitar-lhes desenvolvimento da inovação ou pode levá-los educacionais e professores há muitas fessores, não há tantos problemas genéricos, senão muitas situa- que ajude a criar se recolherem em seus microcontextos, sem repercutirem com alternativas de situações problemáticas que ocorrem em ções problemáticas que ocorrem em contextos sociais e educacio- sua prática uma inovação mais institucional. mudança no contexto contextos nais determinados, os quais se tornaram mais complexos ultima- em que se dá e educacionais A formação continuada de professores, na análise da complexi- a educação. determinados. mente. Na formação, contexto em que se dão as práticas dade dessas situações problemáticas, necessariamente requer dar a Assim, contexto educativas, ou seja, a própria instituição educacional e a comuni- em que dão as palavra aos protagonistas da ação, responsabilizá-los por sua pró- práticas educativas dade que a envolve, assume uma importância decisiva. pria formação e desenvolvimento dentro da instituição educacional assume uma importância na realização de projetos de mudança. A prática teórica, mais que a Em primeiro lugar, encontramos diversas tipologias de professores. "teoria-prática" usual nas modalidades standard, se não é unicamente56 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 57 Se contexto não "teoria-teoria", destaca-se conjuntamente com a reflexão sobre A vantagem que significa para 0 profissional em exercício traba- muda, podemos ter professores mais que acontece em minha/nossa ação educativa como elemento impor- neste contexto está no fato de sua experiência permitir-lhe de- cultos e com mais tante nesta forma de pensar a formação continuada de professores. senvolver um papel construtivo e criativo no processo de planeja- conhecimento pedagógico, mas não mento e decisão, e não um papel somente técnico, em que se dá uma A não participação e a mais inovadores. Algumas mudanças necessárias subordinação à produção de conhecimento, uma separação entre a não implicação são obstáculos dificilmente teoria e a prática, um isolamento profissional, uma marginalização superáveis, quando se A formação baseada em situações problemáticas centradas nos dos problemas morais, éticos e políticos, uma tendência à formação tenta levar a cabo uma formação em um problemas práticos responde às necessidades definidas da escola. A de grupos fechados e uma descontextualização que constituem ver- contexto determinado. A escola passa a ser instituição educacional converte-se em um lugar de formação priori- dadeiros obstáculos para a formação. A não participação e a não im- Isso supõe um foco do processo mais ativo dos "ação-reflexão-ação" tário mediante projetos ou pesquisas-ações frente a outras modalida- plicação são, sem dúvida, obstáculos dificilmente superáveis, quando professores no projeto, como unidade básica des formadoras de treinamento. A escola passa a ser foco do processo se tenta levar a cabo uma formação em um contexto determinado. no desenvolvimento, de mudança, desenvolvimento "ação-reflexão-ação" como unidade básica de mudança, desenvolvi- Tudo isso supõe um papel mais ativo dos professores no proje- na avaliação e na reformulação de e melhoria. mento e melhoria. Não são iguais a escola em que se produz uma to, no desenvolvimento, na avaliação e na reformulação das estra- estratégias e de inovação esporádica e a escola que é sujeito e objeto da mudança. tégias e dos programas de pesquisa de intervenção educacional. programas de pesquisa de Portanto, para que se dê essa formação, é preciso promover a intervenção educacional. autonomia das instituições escolares e as condições necessárias para Será que esta se produza: capacidade de mudança e de automudança. RESUMO uma reconstrução da cultura escolar como Será imprescindível uma reconstrução da cultura escolar como ob- Realizar uma formação genérica em problemas que têm solu- objetivo final e de jetivo final e de processo, pois a instituição deve aprender a modifi- processo, pois a ção para todos OS contextos não repercute na melhoria dos profes- escola deve aprender car a própria realidade cultural das escolas. sores. Na formação, os professores têm situações problemáticas. a modificar sua própria No entanto, para realizar uma formação das situações problemá- realidade cultural. Para ativar a análise dessas situações problemáticas, deve-se ticas, deve-se partir das necessidades reais, e a estrutura escolar deve conectar conhecimentos prévios a novas informações em um pro- contemplar a participação dos indivíduos. Participar da formação sig- cesso cíclico de É preciso partir do fa- nifica participar de uma maneira consciente, 0 que implica suas éti- zer dos professores para melhorar a teoria e a prática. cas, seus valores, suas ideologias, fato que nos permite compreender A análise das situações problemáticas leva à promoção da inova- outros, analisar suas posições e suas visões. Também é fundamen- ção institucional como objetivo prioritário da formação continuada; à tal que a formação suponha uma melhoria profissional inteligível e crença na capacidade dos professores de formularem questões váli- suficientemente explicitada e resulte compreensível. A formação, en- das sobre sua própria prática e de definirem objetivos que tratem de quanto processo de mudança, sempre gerará resistências, mas estas responder a tais questões, partindo-se do pressuposto de que do- terão um caráter mais radical, se a formação for vivida como uma centes podem se propôr a uma pesquisa competente, baseada em sua imposição arbitrária, aleatória, não verossímil e pouco útil. experiência; à tendência dos professores de buscarem dados para res- Esta participação implica na criação de um sistema de comunicação ponderem a questões relevantes e de refletirem sobre eles para obte- mediante qual se possa chegar às pessoas envolvidas, para que as rem respostas a situações problemáticas do ensino; ao desenvolvi- Esta participação mesmas se responsabilizem realmente no processo organizativo, na mento dos professores de novas formas de compreensão, quando eles implica na criação de um sistema de direção, na coordenação e nas tomadas de decisão da área. A fim de mesmos contribuem na formulação de suas próprias perguntas e re- comunicação mediante conseguir esse nível de participação, será fundamental oferecer aos colhem seus próprios dados a fim de obter respostas. Assim, é possí- qual se possa chegar às pessoas envolvidas envolvidos OS meios para adaptarem continuamente a formação às vel que se gere um conhecimento válido mediante a formação. para que estas se suas necessidades e aspirações. A participação não será somente neces- A formação sobre situações problemáticas no contexto em que se responsabilizem realmente no processo sária na etapa de organização, mas também no momento de levar a produzem permite compartilhar evidências e informação e buscar organizativo e formação para a prática, de modo que se estabeleça um processo contí- soluções. A partir daqui e mediante colaboração, problemas im- também na direção, na coordenação nuo de modificação e introdução das estratégias, baseado na expe- portantes são abordados, aumentando-se com isso as expectativas e nas tomadas de riência acumulada e ao mesmo tempo nas novas necessidades detec- que favorecem os estudantes e permitindo que professores refli- decisões da tadas. tam sozinhos ou em grupo sobre os problemas que lhes concernem.Francisco Imbernón Formação continuada de professores 59 NOTAS A amizade dos colegas da equipe me dá segurança. São fundamentais o 1. Com termo modalidades de formação estamos refe- ambiente informal e a comodidade das relações. rindo-nos à análise das práticas e dos conteúdos que são A autoestima se potencializa, o indivíduo sente-se aceito, seguro, compartilha dados e compartilhados no processo de formação (o modo). seus problemas sem dificuldade. Enfim, melhora a opinião sobre si mesmo. Sendo mais específicos, podemos agregar à definição ofere- indivíduo sente-se abrigado (sentimento de pertença). Pode consultar cida pelo MEC (1994), na qual de se define a "modalidade sobre dúvidas, experiências, atividades, etc., com outras pessoas de sua formativa" como "as formas que as atividades de formação própria instituição e com a ideia de que elas estão fazendo o mesmo. dos professores adotam no desenvolvimento dos processos Suas conquistas estão voltadas para a promoção da mudança na totalida- formativos, em virtude de alguns traços que se combinam de da instituição ou em boa parte dos educadores, se não for possível de distinta maneira em cada caso: modo de participação alcançar todos. (individual ou coletiva), nível de planejamento da ativi- dade (existência de um projeto ou não, planejamento fe- 2. Análise crítica de casos (ou de casos-situações problemáticas) chado ou não, etc.), papéis e interações dos sujeitos que As sessões de análise crítica de casos podem ser uma fonte de desenvolvi- intervêm (organizadores e organizadoras, 'especialistas', as- mento pessoal e profissional. Para isso será necessário: sessores, participantes, entre outros), nível de implicação exigido dos participantes e seu maior ou menor grau de Descrever e analisar situações específicas. autonomia, a dinâmica e a estrutura internas das sessões e Gerar ideias conjuntamente. as estratégias preferidas com as quais se desenvolvem, etc.". Buscar conhecimentos que nos ajudem a analisar o caso. 2. Na mente de muitos formadores e educadores, "treinamen- to" é sinônimo de formação continuada e se configura como primeiro passo no processo de análise de casos é fazer um resumo e uma modelo que leva professores a adquirir conhecimen- avaliação da situação atual. Isto facilitará a identificação das situações pro- tos ou habilidades por meio da instrução individual ou blemáticas e será útil para propor alternativas e tomar decisões específicas grupal, conduzida por um especialista. sobre o rumo possível das ações. A análise da situação interpreta e mostra a relevância de ter ou buscar informação importante e de diagnosticar, em vez de divagar em descrições sobre antecedentes do caso. Cada caso requer uma análise da situação que é diferente de qualquer outro o QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? caso, pois a informação disponível e as alternativas potenciais que devem ser exploradas são únicas. 1. Formação a partir de dentro para analisar as situações problemáticas 3. Diagnosticar as situações problemáticas coletivas A formação a partir de dentro é fruto da decisão ou aceitação de um grupo de professores e pode ter as seguintes características: Será fundamental no processo de formação diagnosticar as situações pro- blemáticas do grupo. Isso se pode fazer mediante a reflexão e a análise de A finalidade é atender às necessidades ou situações problemáticas coleti- situações problemáticas da prática. Como: vas. A organização é um todo. Não se deve partir de carências ou deficiências, mas, sim, da melhoria e Seus resultados afetam o grupo. Pretende a inovação institucional. o com- do desenvolvimento das situações problemáticas. promisso será fundamental. Mediante um acordo inicial sobre o acompanhamento do processo de Reforça o sentido de pertença. Todos temos problemas parecidos no mes- formação por parte da instituição educacional ou de um grupo de professo- mo contexto ou, ao menos, os compartilhamos. res, que implica reconhecer a experiência e facilitar recursos ao grupo de Reforça o autoconceito. Começo a me ver refletido (eu e meus problemas) docentes, a fim de que realizem seus propósitos. Predisposição ao diálogo, nos demais, começo a conhecer a mim mesmo por meio do confronto de à decisão e à ação. opiniões com pessoas em que confio. São meus próprios colegas.60 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 61 Os professores participantes devem receber uma formação que lhes per- QUADRO 4.1 (Continuação) mita adquirir conhecimentos e as estratégias necessários, para leva- rem a cabo seus propósitos (projeto-formação). Planos de Formação Processo Os professores devem ter tempo para se reunirem, refletirem e desenvol- verem o projeto. C. Desenvolvimento 8. Execução do plano de ação para solucionar a situação A equipe de professores deve dispor de recursos financeiros para adquirir do plano, acompa- problemática. Reuniões de acompanhamento. Instru- materiais, visitar outras instituições, recorrer a assessores para consultar nhamento coletivo mentos de coleta de informação sobre o desenvolvimen- sobre as decisões que tomam e sobre processo que seguem. e avaliação. to do plano. Solicitação de ajuda externa si necessário. 9. Reuniões para troca de experiências entre professores. projeto precisa ter uma direção que oriente e guie o processo, a fim de que Explicitação das vivências sobre a execução do plano. as decisões significativas sejam tomadas por todos os professores participantes. Estabelecimento de melhorias constantes. 10. Avaliação final. Será imprescindível considerar, por um lado, a experiência pessoal e profissio- nal dos professores, suas motivações e seu meio de trabalho e, por outro, a participação dos interessados na formação e na tomada de decisões que lhes concirnam diretamente. No Quadro 4.1 exponho um processo que pode ajudar a elaborar um projeto de inovação, baseado em situações problemáticas. A partir dos princípios anteriores, tenta-se explicar processo para chegar a vislumbrar essa possível solução coletiva. QUADRO 4.1 Planos de Formação Processo A. Análise de situa- 1. Análise da instituição educacional, do contexto e da ções problemáti- munidade. Onde estamos? cas. Sensibilização/ 2. Análise coletiva informação coletiva Qual vai ser papel de cada um. Prévias. Tempo das reuniões. Compromissos. 3. Análise, discussão e proposta coletiva sobre a situação problemática a ser tratada. Podem-se aplicar técnicas de análise colaborativa para identificar a situação pro- blemática. O que queremos? B. Elaboração do pla- 4. Promover ao máximo possível a participação de todo o grupo. no de ação para a 5. Elaborar alternativas de mudança. Reivindicar, se é impres- solução da situação cindível, um apoio da formação (externa ou interna) para a problemática e para elaboração do projeto. Se preciso, buscar documentação. a formação neces- 6. Discutir condições laborais (flexibilidade de horário) e sária que o execute responsabilidades nos diferentes âmbitos em que o pla- no de ação se desenvolva. 7. Promover propostas de ação de avaliação do projeto que permitam uma permanente retroalimentação. (Continua)Na formação é necessário 5 abandonar individualismo docente a fim de chegar ao trabalho A profissão docente tem sua parte de individualidade, mas tam- bém necessita de uma parte colaborativa. Educar na infância e na adolescência requer um grupo de pessoas (para não mencionar a famosa frase indígena "necessita de todo um povo para ser educa- do"). Portanto, a formação continuada, para desenvolver proces- sos conjuntos e romper com isolamento e a não comunicação dos professores, deve levar em conta a formação colaborativa. O poder de um professor isolado é limitado. Sem seus esforços jamais se poderá conseguir a melhoria das escolas; mas os trabalhos individuais são ineficazes se não estão coordenados e apoiados. (Stenhouse, 1987) DO TRABALHO INDIVIDUAL AO TRABALHO COLABORATIVO Um dos processos mais importantes que houve na escolarização nos últimos 10 anos foi o trabalho conjunto de um grupo de profes- sores com um grupo de crianças de diversas idades em um centro escolar agrupado*. Por exemplo, a escola cartón de huevos**, des- crita por Lortie em 1975, um dos pioneiros em diagnosticar peri- gos do individualismo docente. O certo é que as escolas unitárias tinham um traço mais de romantismo, sobretudo na lembrança das pessoas que as frequentaram, mas também é certo que as crianças continuavam seus estudos depois das chamadas primeiras letras. O acesso de toda a população à escolarização, a aglomeração urbana, as novas tecnologias da comunicação, a mudança familiar, de T. Na Espanha, um "centro escolar agrupado" é uma escola que tem salas de aula espalhadas por vários povoados e que representa um modelo de organi- zação escolar que busca uma maior qualidade da educação. Os colégios rurais agrupados são um exemplo. de T. A metáfora "cartón de huevos", ou "caixa de ovos", refere-se às escolas com uma arquitetura que pode induzir individualismo, por exemplo, com pré- dios afastados e salas separadas com64 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 65 entre outros fatores, originaram uma instituição escolar que foi cativo compartilhado, para aumentar conhecimento profissio- O trabalho colaborativo entre professores mais além da antiga escola unitária, na qual um ou dois professo- nal pedagógico e a autonomia (autonomia participativa e não é fácil, busca res trabalhavam isolados. Isso não implica preservar aquelas esco- nãoconsentida). Trata-se de fazer com que se veja a formação propiciar espaços onde se produza o las unitárias, em que esse isolamento era inevitável pelo difícil como parte intrínseca da profissão, assumindo uma interiori- desenvolvimento de acesso dos meios de transporte ou por outros elementos contextuais. zação cotidiana dos processos formadores e com um maior con- habilidades individuais e grupais de Mesmo assim, neste capítulo não me refiro a esse individualismo trole autônomo da formação. Mas essa formação coletiva tam- troca e de diálogo, forçado, mas, sim, ao individualismo escolhido pelo professor ou bém supõe uma atitude constante de diálogo, de debate, de a fim de se conhecerem, desenvolvido pela cultura profissional. consenso não imposto, de enfrentamento do conflito, de inda- compartilharem O que pretendo analisar é que atualmente o ensino se converteu gação de forma colaborativa para desenvolvimento da orga- e ampliarem as metas de ensino. em um trabalho coletivo necessário e imprescindível para melhorar nização, dos indivíduos e da comunidade que OS envolve. processo de trabalho dos professores, a organização das institui- Desenvolvendo uma formação continuada em que a meto- ções educacionais e a aprendizagem dos alunos. Mas essa escola dologia de trabalho e clima afetivo sejam pilares do traba- cartón de huevos propicia uma cultura individualista e de afasta- lho colaborativo. Um clima e uma metodologia de formação mento, com suas vantagens e inconvenientes. É importante exami- que coloquem professores em situações de identificação, de nar se essa cultura acarreta mais inconvenientes que vantagens. participação, de aceitação de críticas e de discrepância, susci- Apesar disso, não devemos confundir "isolamento" do "indivi- tando a criatividade e a capacidade de regulação. Trata-se da dualismo" com a "individualidade" ou "individualização" (Beck e capacidade de respeitar a diferença e de elaborar itinerários Beck-Gernsheim, 2003), já que a individualidade é a "capacidade diferenciados, com distintas ferramentas e com um caráter aber- para exercitar juízo livre de restrições e independente" (Hargreaves, to e gerador de dinamismo e de situações diversas. 1998, p.206) e a individualização pressupõe indivíduo como dife- rente, como ator, criador e autor de sua própria biografia, de sua Se analisamos este segundo item, já que primeiro foi analisado identidade, de suas redes sociais, compromissos e A in- no capítulo anterior, sob meu ponto de vista, seria preciso na dividualidade e a individualização podem ser boas, porque pro- metodologia formadora partir de modalidades e estratégias de fessor necessita de momentos para repensar seu "projeto de vida". formação organizadas sobre a base do trabalho em grupo e seria Pode ser positivo realizar práticas individuais,² mas isso pode resul- preciso centrar-se em um trabalho colaborativo, para assim se chegar tar em um certo isolamento. Toda prática profissional e pessoal ne- solução de situações problemáticas. A colaboração é um processo Uma metodologia de formação cessita, em algum momento, de uma situação de análise e de refle- que pode ajudar a entender a complexidade do trabalho educativo e estar fundamentada xão sobre que se deve e que se pode realizar sozinho. a dar respostas melhores às situações problemáticas da prática. nos seguintes princípios: propiciar Além disso, também não devemos confundir a colaboração com No entanto, também é certo que trabalho colaborativo entre uma aprendizagem processos forçados, formalistas ou de adesão a modas, as quais professores não é fácil, já que é uma forma de entender a educação da colegialidade participativa; costumam ser mais nominais e atrativas do que processos reais que busca propiciar espaços onde se dê desenvolvimento de habili- estabelecer uma de colaboração. dades individuais e grupais de troca e de diálogo, a partir da análise correta sequência formadora que parta e da discussão entre todos no momento de explorar novos conceitos. dos interesses e das Tudo para que cada um conheça, compartilhe e amplie as metas de necessidades dos Formação continuada versus individualismo assistentes da A formação continuada de professores pode ensino e a informação que possui sobre um tema. Cada um dos mem- formação; partir da ajudar a romper com a Um dos procedimentos que podem ajudar a romper com esse bros do grupo é responsável tanto por sua aprendizagem quanto pela prática dos cultura individualista, professores; criar um individualismo é a formação continuada de professores. Existem dos outros. Os professores compartilham a interação e a troca de clima de escuta ativa que a formação coletiva supõe uma duas formas: e conhecimentos entre os membros do grupo. e de comunicação; atitude constante de elaborar projetos de Isso supõe uma formação voltada para um processo que provoca trabalho em diálogo, debate, de consenso a Realizando uma formação colaborativa do grupo docente com uma reflexão baseada na participação, com contribuição pessoal, conjunto; superar as resistências ao metodologia de compromisso e a responsabilidade coletiva, com interdepen- não rigidez, motivação, metas comuns, normas claras, coordena- trabalho colaborativo trabalho clima afetivo são pilares do dência de metas para transformar a instituição educacional em ção, autoavaliação, e mediante uma metodologia de formação e conhecer as diversas culturas da trabalho um lugar de formação continuada, como um processo comuni- centrada em casos, trocas, debates, leituras, trabalho em grupo, in-66 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 67 cidentes críticos, situações problemáticas, etc. Supõe a exigência de do de que necessita de uma solução, ou seja, de uma modificação da A formação assume um conhecimento que uma abordagem crítica e não domesticada da formação, uma análi- realidade. deve ser submetido se da prática profissional a partir da perspectiva dos supostos ideo- A formação assume, assim, um conhecimento que lhe permite à em função de seu valor prático lógicos e atitudinais que estão em sua base. Portanto, a formação criar processos próprios de intervenção, em vez de dar uma e do seu grau de continuada deverá se estender ao terreno das capacidades, habili- instrumentação já elaborada. Para tanto, será necessário que co- conformidade com a realidade, analisan- dades e atitudes com uma nova metodologia de formação, que deve nhecimento seja submetido à crítica em função de seu valor práti- do-se OS pressupostos e do seu grau de conformidade com a realidade, analisando-se ideológicos em estar fundamentada em diversos pilares ou princípios: que se baseia. os pressupostos ideológicos em que se baseia. Aprender de forma colaborativa, dialógica, participativa, isto é, analisar, comprovar, avaliar, modificar em grupo. Propiciar A formação individualista leva a uma formação uma aprendizagem da colegialidade participativa e não arti- personalista³ versus colaborativa ficial, pois quando artificial ela é frequentemente provocada pela obrigação externa de se realizarem certos trabalhos que Referimo-nos aqui à formação dirigida a uma pessoa individual- demandam um projeto coletivo, mas que acabam não tendo mente, sem levar em consideração grupo, a comunidade e contex- necessário processo real de colaboração. to em que se insere. Podemos afirmar que a formação personalista e A inovação institucional é objetivo prioritário Estabelecer uma correta sequência formadora, que parta dos isolada pode originar experiências de inovação, mas dificilmente ori- da formação ginará uma inovação institucional e de pratica coletiva dos professo- continuada. Pretende interesses e das necessidades dos assistentes da formação. que a inovação Aprender sobre a prática mediante a reflexão e a resolução res. Essa experiência de inovação nasce, reproduz-se e morre com se estabeleça no professor. uma experiência de sala de aula que não repercute na coletivo, que faça de situações problemáticas. Partir da prática dos professo- parte da cultura res. Como disse Perrenoud (2004, p.76): coletividade, exceto honrosas e conhecidas exceções. A inovação profissional e que institucional pretende que a inovação se estabeleça no coletivo, que se incorpore aos [...] partir das práticas e das representações dos educadores for- processos educacionais faça parte da cultura profissional e que se incorpore aos processos como um processo mados debilita qualquer planejamento e inclusive qualquer prepa- educacionais como um processo normal de funcionamento. Essa ino- normal de ração profunda; se se parte das perguntas e das práticas dos edu- funcionamento. cadores em formação, é inútil criar um currículo, tem-se que im- vação institucional é o objetivo prioritário da formação continuada. provisar, trabalhar intensamente durante as pausas e entre as ses- Nessa formação institucional de forma colaborativa deve-se evitar sões, para construir uma formação "sob medida". um dos grandes males da docência: isolamento, funcionamento celular ou "celularismo escolar", no qual membros da comunida- isolamento Aprender em um ambiente de colaboração, de diálogo profissio- de educativa assumem condutas e hábitos de trabalho em que preva- (funcionamento celular ou "celularismo nal e de interação social: compartilhar problemas, fracassos e lece individualismo, a falta de solidariedade, a autonomia exagera- escolar") deve ser sucessos. Criar um clima de escuta ativa e de comunicação. evitado como um da ou mal-entendida e a privacidade. A cultura do isolamento na dos grandes males Elaborar projetos de trabalho em conjunto. profissão de educador fez com que se separasse compromisso do da docência. Nele Superar as resistências ao trabalho colaborativo, causadas OS membros da trabalho, beneficiando aqueles que se comprometem pouco e facili- comunidade educativa por concepções de formas de aprender diferentes ou por tando, nas instituições educacionais, a falta de solidariedade, as lutas assumem condutas modelos de ensino-aprendizagem distintos. e hábitos de trabalho internas, aparecimento daqueles padrões de trabalho, às vezes egoís- em que prevalece Conhecer as diversas culturas da instituição para vislumbrar tas e competitivos, que favorecem uma atomização educativa, um individualismo, a falta possíveis conflitos entre colegas. de solidariedade, a contínuo pensar e trabalhar solitário, uma compartimentação e reali- autonomia exagerada zação das coisas "à minha maneira". O isolamento gera incomu- ou mal-entendida Na formação continuada, a metodologia deveria ser decantada nicabilidade, indivíduo guarda para si mesmo que sabe sobre a e a privacidade. por um processo de participação inerente a situações problemáticas, experiência educativa. Uma prática social como a educativa precisa qual não pode acontecer simplesmente por uma análise teórica da de processos de comunicação entre colegas, por exemplo, explicar situação em si, mas sim por uma reinterpretação da situação no senti- que sucede, que se faz, que não funciona, que obteve sucesso,Formação continuada de professores 69 68 Francisco Imbernón Uma forma de combater etc., sobretudo, compartilhar as alegrias e as penas que surgem no as comunidades de formação ou de intelectuais em uma ou várias São modalidades e estratégias formadoras individualismo é a formação colaborativa, difícil processo de ensinar e aprender. escolas, grupos de projetos interdisciplinares, as redes telemáticas importantes que podem ou não telemáticas, a afiliação a organizações de educadores, os servir como base tanto na instituição A cultura do isolamento, ou melhor, da não participação institu- de uma formação educacional quanto cional, acaba se introduzindo na rotina, provocando o desencanto e a grupos de intercâmbio de ideias ou experiências, as equipes autôno- continuada: a nos processos metodológicos da mas de pesquisa sobre a prática educativa, etc. A formação perma- potencialização de desilusão em vez da paixão pelo que se faz, que favorece um tipo de grupos colaborativos, formação standard. sociedade egoísta, não solidária e competitiva que OS professores aca- nente deve incidir nesses aspectos e potencializá-los. OS movimentos de bam transmitindo. Na atualidade, é difícil encontrar uma profissão Para introduzir essa cultura colaborativa e romper com 0 perso- renovação pedagógica, agrupamento de aberta ao ambiente social que trabalhe isolada e, ainda mais, que se nalismo e individualismo pedagógico entre professores, seria escolas rurais, as necessário reforçar seguintes fatores na cultura dos professo- comunidades de forme isoladamente. A troca de dúvidas com outros, contradições, formação ou de problemas, sucessos, fracassos é importante na formação dos indiví- res, mediante a formação continuada: intelectuais em uma ou várias escolas, OS duos e em seu desenvolvimento pessoal e profissional. grupos de projetos Uma forma de combater esse isolamento e esse individualismo é a O desenvolvimento coletivo de processos autônomos no tra- interdisciplinares.. formação colaborativa, tanto na instituição educacional quanto nos balho docente, de forma que os processos sejam entendidos processos metodológicos da formação standard. Os professores po- como uma autonomia compartilhada, e não como uma mera dem explicar o que lhes acontece, que necessitam, quais seus pro- soma de individualidades. blemas, entre outros, assumindo a posição de que não é um técnico O compartilhamento de processos metodológicos e de ges- que desenvolve ou implementa inovações prescritas por outros da tão nas instituições educacionais, embora não necessariamen- forma como acostumaram, mas de que são eles próprios, pro- te a colaboração comporte consenso de todos. fessores, que podem participar ativa e criticamente, a partir de seus A aceitação da indeterminação técnica, ou seja, aceitar a ideia contextos educativos, de um processo de formação mais dinâmico e, de que ao se trabalhar com seres humanos, a racionalidade obviamente, mais flexível em que OS seus colegas têm princípios técnica não tem resposta para tudo ou para quase nada e iguais ou semelhantes, embora não coincidam em todos. Nesse mo- tampouco para outros fatores intervenientes nos fatos sociais e mento aparece algo mais que palavras, surgem muitas dificuldades. educacionais. Relativizar a técnica pode evitar a angústia en- Uma das dificuldades mais importantes é que as estruturas tre os professores e facilitar diálogo sobre situações proble- As estruturas organizativas escolares não estão criadas para favorecer esse tra- máticas, já que assim se questiona um determinado conceito de organizativas escolares balho colaborativo, já que foram instituídas em outra época e com professor eficaz que impede a comunicação entre os docentes não estão criadas para favorecer trabalho outra maneira de pensar a educação. As salas de aula, que foram sobre suas falhas e seus erros que, às vezes, são comuns. colaborativo. A manutenção de projetadas como celas; OS agrupamentos homogêneos, sob critérios Uma maior importância ao desenvolvimento pessoal median- situações e estruturas não coerentes; a hierarquização profissional dentro das institui- te a possibilidade de engrandecer as atitudes e as emoções no e facilita a coletivo e não ocultá-las, como tem sido comum nesta cultura A formação continuada continuação de um ções, que mais que estruturas de participação são estruturas de deve possibilitar: trabalho isolado. decisão; a crescente especialização entre professores e a divisão profissional. desenvolvimento do ensino (ciclos, etapas, níveis, cursos, etc.) limitam e impedem A potencialização da autoestima coletiva diante dos problemas coletivo de processos autônomos no um modo de trabalhar em conjunto. Ao contrário, a manutenção que aparecem na realidade social e no ensino. A instituição edu- trabalho docente, cacional é reflexo fiel do que acontece na sociedade, e não é compartilhamento dessas situações e estruturas legitimam e facilitam a continuação de processos de um trabalho isolado, no qual os professores não necessitam aceitável culpar OS professores pelos muitos problemas que apare- metodológicos e cem e que são produto das novas estruturas familiares e sociais. de gestão, a aceitação tratar com OS demais, exceto nos processos burocráticos. Não exis- da indeterminação te diálogo sobre que acontece, e a troca é fictícia. A criação e desenvolvimento de novas estruturas organizati- técnica, uma maior A fim de evitar essa cultura personalista, há uma série de modali- vas nas instituições escolares que possibilitem um melhor ensi- importância ao desenvolvimento dades e estratégias formadoras importantes e destacáveis que podem no e uma maior colaboração nos processos de gestão. pessoal, a potencialização da servir como base de uma formação continuada nos diversos contextos autoestima coletiva educacionais: a potencialização de grupos colaborativos, movi- Tudo isso pode ser obtido com estratégias, tais como: e a criação e desenvolvimento de mentos de renovação pedagógica, agrupamento de escolas rurais, novas70 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 71 Modificar elementos estruturais e didáticos por meio do partir do debate e da construção de bases reais coletivas, para di- Os educadores necessitam participar compromisso de tomar decisões em grupo e de resolver con- rigir-se em direção a uma maior cultura colaborativa. conjuntamente de juntamente as situações problemáticas. Nesse sentido, as instituições educacionais necessitam gerar uma processos de inovação e formação ligados a Mudar as relações de acordo com processos em que não há grande mudança, uma verdadeira reconversão profissional e um projetos globais da perdedores, mas, sim, oportunidades de se conhecer de ma- "rearmamento" moral, que as conduza à superação do espírito ce- instituição educacional, para assumir um maior neira formal e informal. lular e individual (para não dizer também corporativista), qual protagonismo em seu Aumentar a participação da comunidade para unir as várias ainda possuem pela cultura profissional herdada e assumida de trabalho. consciências que compartilham preocupações. modo acrítico. Se, ao seguirem essa tradição profissional, os pro- fessores de uma escola se moverem por interesses pessoais e assu- Uma das estratégias é Interpretando de forma muito ampla as ideias de Fullan e mirem atitudes de confronto com os colegas de trabalho, não ape- a modificação de de acordo Hargreaves (1997), acrescentando-as e as adaptando à formação, nas trabalho educativo individual será prejudicado, mas tam- com processos em podemos promover a cultura colaborativa nas instituições educa- bém o processo educativo da instituição. que não há perdedores, mas, sim, cionais, dentro das estratégias mencionadas anteriormente, com a No entanto, não devemos nos confundir: a formação colaborativa oportunidades de se introdução dos seguintes fatores ou ideias: é um processo de desenvolvimento que leva tempo e requer um consi- conhecer de maneira formal e informal. derável esforço, e ensino obrigatório implica uma estrutura cada vez Explicar que nos acontece e escutar a todos da mesma forma. mais complexa, que necessita de uma organização coletiva e demo- Praticar e compartilhar a reflexão individual e coletiva. Con- crática, compartilhando conhecimento com outras instâncias de so- versar de forma reflexiva, descrever, discutir e debater os cialização. Mas isso não quer dizer que seja uma empresa, como al- trabalhos dos alunos e papel docente, problematizar co- guns quiseram acreditar, senão um território flutuante, no qual se de- nhecimento ensinado, etc. senvolve um confronto entre diferentes formas de entender a educa- Assumir risco da inovação. ção e a sociedade. É na tolerância e na compreensão dessas diferenças Comprometer-se com trabalho na instituição e com demais. que se encontra desafio do trabalho em grupo dos professores. Não batalhar por coisas insignificantes. Aceitar a diversida- E aqui está a importância daqueles que trabalham com educa- de de opiniões sobre ensino e a aprendizagem. ção, do saber se respeitar e se confrontar para construir alternati- Pedir ajuda aos colegas. vas em conjunto. Os professores, como todo grupo integrado por Equilibrar trabalho docente e vida. Não falar sempre mesmo. seres humanos, constituem um grupo definido, sujeito a múltiplas Para promover a Reivindicar tempo e espaço para uma formação na institui- influências. É um coletivo que trabalha com pessoas e que, portan- cultura colaborativa, as instituições ção, com um projeto de mudança a partir das necessidades to, pode criar e potencializar transformações sociais por intermé- educacionais deveriam da instituição. Pedir ajuda, se necessário. dio da educação de seus alunos. Não obstante, para criar neles assumir risco da inovação, reivindicar Tornar projeto compreensível a todos. esse espírito transformador, é preciso gerá-lo no seio do grupo de tempo espaço para Considerar que o mais importante são alunos e que seu trabalho, na instituição escolar. uma formação na desenvolvimento é paralelo ao dos professores. As equipes de professores devem romper com a cultura profissio- Os indivíduos que nal tradicional, que foi sendo transmitida ao longo do exercício da trabalham com Se as atuações individualistas ou personalistas dos professores educação devem profissão docente e que comentávamos anteriormente. Uma cultu- saber se respeitar de uma instituição escolar desenvolvem-se tentando compartilhar ra profissional viciada por muitos elementos, que gerou algumas e se confrontar, determinados critérios, é possível levar a cabo uma ação coorde- para construírem barreiras de comunicação entre um coletivo formado por indivíduos alternativas em nada ou, ao menos, podem ser estabelecidos espaços e processos que trabalham lado a lado, mas que ainda estão separados por pa- conjunto. Constituem de reflexão de como realizá-la. Os educadores necessitam partici- um coletivo que redes estruturais e mentais. Uma cultura profissional que outorgou trabalha com pessoas par conjuntamente de processos de inovação e formação ligados a um valor excessivo à categoria profissional, ao conteúdo acadêmi- e, para criarem nos projetos globais da instituição educacional, para assumir um maior alunos um espírito à improvisação pessoal e ao empirismo elementar que ocasio- transformador, devem protagonismo em seu trabalho. Protagonismo que deve surgir a na, em certos âmbitos, um fracasso profissional que repercute no buscar gerá-lo no seio da instituição aspecto relacional. Assim, será necessário estabelecer um "rearma-Formação continuada de professores 73 72 Francisco Imbernón É necessário mento" moral e profissional contra aqueles que, normalmente a partir gência de "especialistas infalíveis" na formação, sem se dar estabelecer de fora, provocam um "curto-circuito" no processo de inovação e um salto à indagação colaborativa. um "rearmamento" formação, nos processos de reflexão coletiva e contra aqueles que A falta de união da formação com um projeto global escolar moral e profissional contra aqueles que se opõem aos avanços oriundos de compromissos coletivos e não somente com um projeto isolado, do qual se participa dificultam processo de inovação e institucionais, defendendo um trabalho inclinado para mérito in- mais pelo interesse de analisar questões concretas do que de formação, defendendo um trabalho inclinado dividual, para a promoção ou para a competição. solucionar situações problemáticas. para mérito individual, Se OS professores não impulsionam nas instituições educacionais Se as instituições escolares, como espaços de troca entre grupos de para a promoção ou uma nova cultura colaborativa e tampouco a demandam e reivindi- para a competição. cam-na na formação, será impossível desenvolver processos de for- profissionais, de alunos, de pais e mães, não são capazes de trabalharem em comum e de gerar novas atividades, momentos de obscurantismo, mação continuada colaborativos e uma inovação institucional. de rotina, de dependência e de alienação profissional ou de assunção de uma maior proletarização profissional serão perpetuados. Assim, é de grande importância o desenvolvimento do aspecto humano e grupal RESUMO dos professores, no sentido de se desenvolverem processos atitudinais Se OS professores Quando falamos de desenvolver uma cultura colaborativa na colaborativos e relacionais como parte do processo profissional. não impulsionam formação como princípio e como metodologia, referimo-nos às nas instituições educacionais seguintes ideias: NOTAS uma nova cultura colaborativa Romper com o individualismo da formação. e tampouco 1. Utilizamos termo "colaboração", incorporando concei- demandam e Considerar a colaboração como colegialidade e também mais to de "cooperação" e "colegialidade", embora sejamos cons- reivindicam na como ideologia do que como estratégia de gestão. formação tal cientes dos matizes diversos dos termos. impulso, será Não entender colaboração como uma tecnologia que se en- 2. Existe na ciência política e social toda uma tradição de impossível sina, mas, sim, como um processo de participação, implica- desenvolver debate sobre individualismo, não existindo unanimida- processos de ção, apropriação e pertencimento. de em relação a um significado, mas sim a diversos concei- formação Na colaboração partir do respeito e do reconhecimento do po- continuada tos. Neste capítulo, analisamos e criticamos individualis- colaborativos e der e da capacidade de todos professores. mo como um conceito moral ancorado na teoria liberal, uma inovação Redefinir e ampliar a liderança escolar, que representa uma institucional. na qual o indivíduo é a medida de todas as coisas, e não necessidade. como um conflito entre o individual e coletivo. Poderão ajudar na formação colaborativa: a pesquisa-ação, 3. Gostaria que neste capítulo não se confundisse "formação a elaboração de projetos de mudança e a narração. personalista" com movimento do personalismo ou com sua derivação em uma pedagogia personalista, em que se E será necessário superar três barreiras: reivindica indivíduo como um ser concreto, relacional e comunicativo. A carência de um clima de comunicação entre OS professores nos claustros* e, poderíamos acrescentar, a falta de processos de tomada de decisão, de negociação ou de consenso. É o aspecto "humano" da profissão que frequentemente ficou afastado dos processos de formação e de desenvolvimento profissional. O isolamento e a condição secundária dos projetos no apoio institucional, que acarreta uma desmotivação ou uma exi- de No Brasil e na Espanha, a palavra refere-se à de professores universitários.74 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 75 o QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? No entanto, existem muitos obstáculos para serem considerados, como tem- po, recursos, atitude, conhecimentos, etc., a fim de que não se impeça a aplicação da pesquisa-ação à formação, já que seu processo: Procedimentos de formação mediante a indagação coletiva e a pesquisa-ação, para os docentes refletirem com seus colegas Ajuda a definir, analisar, interpretar, orientar, corrigir, mudar e avaliar pró- sobre as situações problemáticas que os afetam prios problemas profissionais, para um autodesenvolvimento crítico e uma A pesquisa-ação é um forte procedimento para a formação dos professores, autonomia profissional. Isso comporta o desenvolvimento de instrumentos devido à ação cooperativa implicada e ao trabalho em equipe, pelo qual os intelectuais que facilitem as capacidades reflexivas sobre a prática docente. professores orientam, corrigem, avaliam seus problemas e tomam decisões Desenvolve a necessidade de um conhecimento mais profundo da própria para melhorar, analisar ou questionar a prática social e educativa. Os profes- prática, para se construírem e formularem alternativas de ação. sores se formam e se desenvolvem, quando adquirem um maior conheci- mento da complexa situação em que sua atividade de ensino se insere. Tanto É um compromisso ético de serviço e de relação com a comunidade, pos- para seu desenvolvimento pessoal quanto profissional, devem unir teoria e sibilitando analisar as condições sociais da escolarização. prática, experiência e reflexão, ação e pensamento. Tudo isso implica que a Diagnostica, por meio da reflexão e da ação, as situações problemáticas pesquisa-ação na formação dos docentes seja assumida como um compro- que surgem na prática profissional e desenvolve um novo conceito de misso político e não técnico ou apenas de melhoria profissional. profissionalização docente. Um possível processo poderia ser: Consegue a ação cooperadora dos professores, que decidem atuar e apren- der de forma inovadora, e propõe vias de solução, como a escolha de 1. Em grupo, os professores identificam uma situação problemática ou um planos de ação e de avaliação de seus resultados. tema que seja de seu interesse, a partir de uma observação ou de uma reunião reflexiva. Tenta provocar uma transformação no ensino e não somente uma mudan- ça de metodologia ou de recursos, evitando voltar a práticas rotineiras e 2. Propõem formas diferentes de coleta da informação sobre a situação proble- familiares (pautas preestabelecidas, sem que se saiba por que são trata- mática inicial, o que pode implicar um estudo bibliográfico a partir dos dados obtidos na sala de aula ou na escola. das), que são mais seguras e não possuem risco profissional, mas que derivam em direção à desprofissionalização. 3. Esses dados são analisados em grupo. Possibilita a consciência de que o conhecimento que possuímos sobre os 4. São realizadas as mudanças pertinentes. processos de formação são imperfeitos e inacabados, mas sempre deve- 5. Volta-se a obter novos dados e ideias, para analisar os efeitos da interven- rá partir da prática para voltar à prática. ção que se realizou e continuar com o processo de formação por meio da Tenta construir uma estrutura coletiva ou um "espírito" de indagação cons- prática. tante, que reúne e organiza conforme as possibilidades e necessidades, promovendo uma dinâmica de cooperação interna e de abertura ao exterior. A pesquisa-ação pode comprometer o conhecimento dos professores e transformá-los em pesquisadores sobre si mesmos, incitando-os diretamen- Introduz uma metodologia de comunicação e de participação. te a reconstruir e a transformar sua prática diária e, além disso, a teorizar e revisar continuamente seus processos educacionais. Durante este processo, pode-se necessitar de ajuda externa, a qual se con- cretiza em uma formação específica sobre tema ou sobre a situação pro- Trata-se de uma forma democrática de pesquisa desenvolvida pelos "práti- blemática, a metodologia de pesquisa ou sobre qualquer outro processo que cos" a partir da prática. Todos os atores participam por igual e comprome- ajude os professores a darem sentido a suas próprias experiências. Tal pro- tem-se em cada uma das fases da pesquisa, já que se comunicam mediante cesso de formação pode contribuir para mudar o conhecimento dos profes- uma relação simétrica e aceitam a diversidade de pontos de vista e as dife- sores, as suas formas de pensar, melhorando a sua comunicação e as suas rentes decisões. A pesquisa-ação possibilita, dentro de um marco de política decisões tomadas em grupo. de colaboração, o desenvolvimento pessoal e profissional e a formação em novas habilidades, métodos e potencialidades analíticas, além da motivação Os professores tomam decisões sobre quando e como aplicar a proposta de da consciência profissional e de um aprofundamento dela que traz alter- mudança. Sua experiência serve-lhes de apoio para uma maior colaboração nativas adicionais de inovação e comunicação. mútua. Aprendem a ver ou compreender a perspectiva do outro, a ser capa- zes de observar mais além do imediato, do individual e do concreto.76 Francisco Imbernón Utilizar a narração como meio de formação colaborativa Professores 6 Narrar é compartilhar com outros o ensino, é viver a história a partir de den- sujeitos de sua formação tro. Alguém conta à outra pessoa sua experiência e assim compartilha frag- mentos da vida cotidiana. e com identidade A experiência relatada pelas vozes que viveram as diversas situações narra- das acaba impregnando as ideias e as condutas de outras pessoas que par- ticipam de uma mesma atividade ou profissão. A narração é uma técnica que pode permitir conhecer segredos do que acontece por meio da interação com os símbolos compartilhados, com a experiência dos outros e aqui a A formação continuada do professor passa pela condição de que sociabilidade é demonstrada com a capacidade de escutar os outros. Nesse este vá assumindo uma identidade docente, o que supõe ser sujei- sentido, relatos dos professores podem ajudar muito a sua própria forma- to da formação e não objeto dela, mero instrumento maleável e ção. Significa dar voz própria às práticas dos professores, às suas narrações manipulável nas mãos de outros. e histórias de vida profissionais, favorecendo a escuta e o compartilhamento de vivências pessoais que ajudam um indivíduo a avançar e que podem aju- dar a outros. A educação necessita tanto de formação técnica, científica e profissional quanto de sonhos e utopia. (Freire, 1997) Pois quantos são os modos em que se diz, tantos são os significados do ser. (Aristóteles) PROFESSORES: DE OBJETOS A SUJEITOS DE FORMAÇÃO A história dos professores e de sua formação é uma história de dependência e subsídio, que é objeto de tudo (ou de uma subjetivi- dade racional) e, predominantemente, da formação. Isso pode ser comprovado observando-se seu currículo fechado, sua pouca auto- nomia, sua dependência orgânica, sua desconfiança endêmica, pre- domínio de cursos, necessidade de apoio para seu desenvolvimen- to, sua submissão a uma hierarquia, o conceito de semiprofissional, os especialistas que ditam normas, os saberes ou conhecimentos profissionais dados, a profissão sem um reconhecimento de "identi- dade", etc. Durante as últimas décadas foram abertas importantes brechas nessa pedagogia do "subsídio e da dando-se importância à subjetividade² dos docentes. Quer dizer que a com- preensão de que a experiência não é neutra, mas eminentemente subjetiva, comprometida com valores éticos e morais, e a crença na capacidade dos professores, por outro lado normal, de serem sujei- tos de conhecimento, de dar valor e identidade, de gerarem um conhecimento pedagógico que estrutura e orienta sua teoria e práti- ca. E tudo isso ocorreu apesar da tendência normativa das adminis- trações educacionais e acadêmica, em sua histórica relação entre teoria e prática. Tendência que se acentua mais pela desconfiança eFrancisco Imbernón Formação continuada de professores 79 pelo controle diante do que se faz na educação do que por querer Formação para a identidade assegurar uma qualidade educacional. É imprescindível uma alternativa de formação que aceite a reivin- dicação desse eu, da subjetividade dos professores, da identidade A formação pode ajudar desenvolvimento da identidade docente como um dinamismo da forma de ver e de transformar a Na formação continuada, esse tipo de atuação fez com que realidade social e educacional, e seus valores, e da capacidade de professores fossem condenados a serem objetos de formação, mui- produção de conhecimento educativo e de troca de experiências. Faz- mudança no futuro tas vezes de uma formação que dificilmente poderia ser aplicada se importante incorporar a narrativa dos professores à ética da for- formação continua- da deve estar na com outros grupos profissionais (por não serem também educativos). mação continuada, com processos baseados em uma relação não tan- condição de que Em outras palavras, uma formação que se dirige aos professores to objetiva, que valoriza fatos sociais como coisas, e nem tanto assumam sem identidade profissional, embora essa identidade sempre exista, subjetiva e espontânea, que valoriza 0 indivíduo, senão intersubjetiva, ser sujeitos da formação, comparti- apesar de não ser reconhecida,³ com características, valores e pecu- de relação com outros, de alteridade, de aumento de "uma baga- hando seus significa- dos, com liaridades práticas, sociais e educacionais determinadas. Cria-se um gem rica de conhecimentos profissionais autogerados" (Elliott, 1984) a consciência de habitus (Bourdieu, 1991) externo, ou seja, uma certa forma de ver a entre os colegas, que permita complementar a identidade do sujeito que todos somos sujeitos quando teoria e a prática educacional. Assim, é normal que uma pessoa, que docente com a identidade grupal (uma identidade colaborativa, não nos diferenciamos se supunha ter mais conhecimento e saber (às vezes maior experiên- de processos competitivos). Enfim, é imprescindível uma formação juntos, e cia ou hierarquia) doutrinasse professores sobre a base de sua igno- que permita uma visão crítica do ensino, para se analisar a postura e desenvolvendo uma profissional, rância e submissão. No entanto, tal situação não deve predominar imaginários de cada um frente ao ensino e à aprendizagem, que som ser um mero no futuro da formação continuada, mas, sim, os professores devem estimule confronto de preferências e valores e na qual prevaleça o instrumento nas mãos de outros. assumir a condição de serem sujeitos da formação, compartilhando encontro, a reflexão entre pares sobre o que se faz como elemento seus significados, com a consciência de que todos somos sujeitos fundamental na relação educacional. quando nos diferenciamos trabalhando juntos, e desenvolvendo uma O (re)conhecimento da identidade permite melhor interpretar (re)conhecimento da identidade permite identidade profissional (o eu pessoal e coletivo que nos permite ser, trabalho docente e melhor interagir com outros e com a situa- interpretar melhor agir e analisar que fazemos), sem ser um mero instrumento nas ção que se vive diariamente nas instituições escolares. As experiên- trabalho docente e interagir melhor com mãos de outros. Como diz Melucci (1996, p.36): cias de vida dos professores relacionam-se às tarefas profissionais, os outros e com a já que o ensino requer uma implicação pessoal. A formação basea- situação que se vive diariamente nas A identidade pode ser negociada, porque existem sujeitos de ação da na reflexão será um elemento importante para se analisar instituições escolares. que já não se definem objetiva ou externamente, mas que são eles que são ou acreditam ser professores e que fazem e como mesmos os que possuem a capacidade de produzir e definir signifi- fazem. Cabe perguntar: cado daquilo que fazem. Qual é a identidade profissional dos professores quando par- A formação pode ajudar a definir esse significado daquilo que ticipam de um processo de formação? se faz na prática em situações concretas e, para se alcançar novos Existem concepções diferentes da identidade docente, indi- saberes, também permite mudar a identidade e eu de forma in- vidual ou coletiva? dividual e coletiva. As diferentes concepções criarão tensões ou alianças? Conforme bem diz Day (2006, p.68): Como reconstruir as identidades docentes? Que processo utilizará a formação para debatê-las e colocá- [...] na bibliografia sobre a formação dos professores, os conceitos de eu -las em comum? e de identidade são frequentemente utilizados de forma intercambiável. A formação ajudará as novas identidades docentes? Como conceito, a identidade está intimamente relacionada com con- ceito de eu. Ambos são construtos complexos e isso se deve em grande parte ao fato de estarem baseados em importantes áreas teóricas e de A resposta a essas e a outras perguntas ajudaria a reduzir a pesquisa da filosofia, da psicologia, da sociologia e da psicoterapia. incerteza pessoal e coletiva, a reivindicar, a dizer que se pensa sobre a formação, a ter um maior reconhecimento social, a reali-Francisco Imbernón Formação continuada de professores 81 zar um projeto docente profissional e a aumentar a compreensão mação e encontrar-nos com o paradoxo de um desenvolvimento da realidade educacional social, já que a identidade profissional é próximo da proletarização dos professores, porque talvez outros dinâmica e não é uniforme para todos. Na profissão docente, tal fatores não estejam suficientemente garantidos nessa melhoria. E identidade depende da relação entre contexto em que se realiza isso repercute, obviamente, não apenas no desenvolvimento profis- trabalho e trabalho em si mesmo. sional, mas também no desenvolvimento pessoal e identitário. O conceito de O conceito de identidade docente atual permite questionar mui- No entanto, devemos comentar que inter-relacionada com a identi- desenvolvimento de identidade docente tas coisas, como, por exemplo, fato de já não existir uma etapa dade pessoal encontra-se a identidade coletiva ou desenvolvimento todos educadores atual permite e colaboradores de muitas determinada em que os professores se formem e outra em que eles profissional coletivo ou institucional, isto é, desenvolvimento de uma instituição de coisas como, por fato de já estejam na prática educacional conforme a tradição das etapas de todos indivíduos que trabalham em uma instituição educacional, ensino pode ser definido como existir uma etapa formação (embora se saiba que existam, sim, diferenças de identi- já que compartilham categorias sociais e educacionais e têm conheci- aqueles processos em que dade, pois esta é modificável, sendo a união de representações, mento da diferença entre todos. As instituições de ensino têm uma que melhoram a os professores se situação laboral, formem e outra em sentimentos, experiências, biografias, influências, valores, etc., identidade educacional e cultural, pois real e o simbólico entram na conhecimento que estejam na prática educacional. que vai mudando). A consciência da subjetividade, que está anco- subjetividade de cada pessoa que nela trabalha, com uma vinculação profissional, as habilidades e atitudes rada na identidade coletiva, permitirá melhores necessidades edu- entre elas e que vai variando segundo o contexto. desenvolvimento dos trabalhadores cacionais e do contexto, e favorecerá que a situação da formação de todos os educadores e colaboradores de uma instituição de ensino, envolvidos com a educação. seja constante em toda a vida profissional, desde início da car- as vivências coletivas, pode ser definido como aqueles processos que reira do professor. domínio da formação passará a fazer parte melhoram a situação laboral, conhecimento profissional, as habili- da profissão, se os professores quiserem ser protagonistas de dades e as atitudes dos trabalhadores envolvidos com a educação. sua formação e de seu desenvolvimento profissional. Portanto, nesse conceito estariam incluídos todos aqueles que traba- Este protagonismo é necessário e, inclusive, imprescindível para lham nas escolas: equipes de gestão, profissionais docentes ou não, se poder realizar inovações e mudanças na prática educativa e para dando-se um sentido identitário ao que se faz a longo tempo. A for- professores se desenvolverem pessoal e profissionalmente. Se mação coletiva tem aqui um importante papel. A formação deve pas- os educadores forem capazes de narrar suas concepções sobre o sar da ideia de "outros" ou "eles" para "nós". ensino, a formação pode ajudá-los a legitimar, modificar ou des- truir tal concepção. Podemos relacionar a identidade docente com que se vem cha- RESUMO mando de "trajetória ou desenvolvimento profissional", já que se A história dos professores e de sua formação é uma história de tem feito uma leitura de desenvolvimento profissional com conota- dependência e subsídio. Devemos reivindicar uma identidade do- ções funcionalistas, quando definem apenas como uma atividade cente como aquilo em que me reconheço, em que me sinto aceito ou um processo para a melhoria das habilidades, atitudes, significa- e reconhecido pelos outros. dos ou do desenvolvimento de competências genéricas. Assim, utili- Na formação continuada, a consequência desse tipo de atuação za-se a formação predominantemente como uma arma e considera- fez com que professores fossem condenados a ser objetos da -se desenvolvimento profissional dos docentes como um aspecto formação. A mudança, no futuro da formação continuada, passa restritivo, visto que a formação passa a ser tratada como a única via pela atitude dos professores de assumirem a condição de serem de desenvolvimento profissional dos professores. sujeitos da formação, intersujeitos com seus colegas, em razão de O desenvolvimento profissional é um conjunto de fatores que aceitarem uma identidade pessoal e profissional e não serem um possibilita ou impede que os professores avancem na questão da mero instrumento nas mãos de outros. identidade. A melhoria da formação e a autonomia para decidir A formação deve levar em conta essa identidade individual e ajudarão esse desenvolvimento, mas a melhoria de outros fatores coletiva, para ajudar desenvolvimento pessoal e profissional dos também favorecerão de forma muito decisiva (salários, estrutu- professores no âmbito laboral e de melhoria das aprendizagens pro- ras, níveis de decisão, níveis de participação, carreira, clima de tra- fissionais e para ajudar a analisar os sentimentos e as representa- balho, legislação laboral, etc.). Podemos realizar uma excelente for- ções pelos quais os sujeitos se singularizam.2 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 83 Considerar desenvolvimento profissional, pessoal e institucional o QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? mais além das práticas da formação e uni-lo a fatores não formado- res, mas, sim, laborais, supõe uma reconceituação importante, já que não se analisa a formação apenas como 0 domínio das discipli- Elementos para a reflexão pessoal. Refletir sobre si mesmo. nas e nem se centra nas características pessoais dos professores. Geert Kelchtermans (Day, 2006, p.38) oferece-nos cinco componentes para refletir: Essa posição pressupõe também analisar a formação como elemen- to revitalizante, de recuperação ou de desenvolvimento da consciên- 1. Autoimagem cia ética e de luta por melhorias sociais e laborais, a fim de que Quem sou como professor? sejam estabelecidos novos modelos relacionais na prática da forma- Que conexões com quem sou como pessoa? ção e nas relações de trabalho. Os modelos relacionais, tanto laborais 2. Autoestima como formadores, estabelecem um determinado conceito de desen- volvimento profissional e pessoal e, portanto, de identidade docente. Até que ponto estou agindo bem em meu trabalho? Estou satisfeito comigo mesmo como professor? Quais são as fontes de minha alegria e satisfação? NOTAS que me faz duvidar de minhas qualidades pessoais e profissionais? 1. Quando falamos de "identidade docente" não queremos ape- 3. Motivação para o trabalho nas vê-la como traços ou informações que individualizam que me motivou para me tornar professor? ou distinguem algo, mas como resultado da capacidade que me motiva para continuar sendo? reflexiva. É a capacidade do indivíduo (ou do grupo) de ser o que poderia contribuir para aumentar (ou manter) minha motivação como objeto de si mesmo que dá sentido à experiência, integra professor? novas experiências e harmoniza processos, às vezes con- Como outras pessoas podem me ajudar? traditórios e conflituosos, que ocorrem na integração do que 4. Percepção da tarefa acreditamos que somos com que queríamos ser; entre o que fomos no passado e que hoje somos. que devo fazer para ser um bom professor? Como? 2. Conhecendo-se as diversas interpretações dadas à noção Sinto que problemas emocionais ou relacionais de meus alunos me de "subjetividade", aqui a tratamos como a relação entre a preocupam? Até que ponto? experiência do sujeito e o compromisso com mundo É suficiente que todos os meus alunos consigam atingir os mínimos obje- tivos em minhas aulas? educativo e social. 3. Seguindo pensamento de Ball (1992), podemos dizer que Qual é meu programa de desenvolvimento profissional? há uma identidade dentro das escolas: a identidade situa- Daquilo que faço habitualmente, que faz e o que não faz parte de meu trabalho como professor? da, que é maleável no contexto, e a identidade substanti- va, que é mais estável e é a forma de pensar do indivíduo. o que posso fazer para melhorar minha situação? 5. Perspectivas futuras Quais são as minhas expectativas para o futuro e o que sinto em relação a elas? Como vejo o resto de meus anos no ensino? Como posso melhorar meu futuro? Diários de aprendizagem de professores Os diários sobre trabalho docente podem ser um bom elemento de desenvol- vimento pessoal e profissional, conforme muito bem explica Zabalza (2004, p.19):34 Francisco Imbernón [...] os diários permitem que professores revisem elementos de seu mundo pessoal A formação deve 7 que frequentemente permanecem ocultos de sua percepção, enquanto estão considerar a comunidade nas ações cotidianas do trabalho. Seguindo as ideias do mesmo autor, podemos dizer que, embora um diário deva ter um estrutura narrativa flexível, pequenas orientações na forma de perguntas podem ser dadas: Que estilo queremos dar a ele? É preciso superar a antinomia que Que conteúdo terá? existe fora da instituição educacional deve ser um aliado, não um Que regularidade deve apresentar? inimigo. A formação conjunta com a comunidade perfila-se, nos diversos contextos educativos e sociais, como uma das alternati- Como representarei os fatos narrados? vas às difíceis situações problemáticas da educação atual e, prin- Que continuidade terá? cipalmente, à exclusão social de uma parte da humanidade. Quanto deverei escrever cada dia? Qual será sua duração? Diferentemente dos estreitos olhares da democracia escolar, que exigem Como vou analisá-lo? direitos de determinados grupos de elaborar a política escolar, deve- ríamos ter como objetivo a realização da escola como uma comunidade Melhorar o ambiente de trabalho nas instituições de ensino democrática, que reconheça os direitos legítimos de todas as partes de ter um acesso substancial na hora de tomar decisões sobre questões es- Um melhor ambiente de trabalho, como, por exemplo, com colaboração, colares importantes. apreço, participação, influi na melhoria da identidade docente. (Zeichner, 1999) Sachs (2003, p.131) oferece-nos pistas disso: Um dos elementos importantes que foi surgindo no campo da Fluxo aberto de ideias, independente de popularidade, que permita que educação, nos últimos anos do século XX e em certos contextos as pessoas estejam informadas o máximo possível. sociais, é a impossibilidade de partir do princípio de que o ensino Confiança na capacidade individual e coletiva das pessoas para criar pos- pode ou deve fazer o esforço de tirar da condição de exclusão sibilidades de resolver problemas. social a totalidade ou a maioria da população. Os atuais contextos Uso da reflexão e da análise crítica para avaliar ideias, problemas e normas. sociais, familiares e econômicos mostram-nos claramente que, sem Preocupação pelo bem-estar de outros e pelo "bem a ajuda da comunidade¹ que envolve a instituição educacional, é difícil ensinar as diversas cidadanias necessárias no futuro: demo- Preocupação com a dignidade e os direitos das pessoas e com as minorias. cráticas, sociais, interculturais e ambientais, que permitem uma Compreensão de que a democracia não é tanto um "ideal", como um con- vida e um mundo melhor. É difícil que a educação atual seja capaz junto "idealizado" de valores, os quais devemos viver e os quais devem de oferecer essa velha ideia de "viver felizes". Por isso, conceito guiar nossa vida como pessoas. de "comunidade" aparece de forma diferente.² OS ATUAIS CONCEITOS DE COMUNIDADE Na educação e na formação dos professores existem atualmen- te diversos entendimentos de comunidade³: como de prática ou de conhecimento, de aprendizagem, formadora, etc.86 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 87 Comunidade de prática concepções e criam suas práticas de ensino e aprendizagem a partir de tarefas realizadas, de experiências e interações vividas. Nesse sen- Sua finalidade é As comunidades de prática são grupos constituídos com informar e comunicar tido, a aprendizagem assume um papel de muita importância. Como experiências, fim de desenvolver um conhecimento especializado. Mas elas não são contexto interativo, as instituições educacionais podem ser uma co- olocando em comum comunidades científicas, pois sua finalidade é informar e comunicar aprendizagens munidade formadora, pois geram múltiplas situações de comunica- baseadas na reflexão experiências, colocando em comum aprendizagens baseadas na re- ção e de uso tanto da linguagem oral e escrita quanto dos diversos compartilhada sobre flexão compartilhada sobre experiências práticas. Atualmente, unem- exporiências práticas. códigos de relação interpessoal, a partir dos níveis, registros e códi- -se ao conceito de gestão do conhecimento ou de prática reflexiva gos dos próprios integrantes da comunidade. como processo de prática compartilhada. O processo de aprendiza- Todas as pessoas da comunidade formadora desenvolvem pa- gem se dá por meio da forte participação de um grupo de indivíduos péis de agente ativo na construção de normas, na reelaboração dos que experimentam, de diversas maneiras e com objeto de conheci- valores e das normas sociais e educacionais e na construção de re- mento em questão (embora as experiências educativas também in- gras de relacionamento social e educativo. O respeito é estimulado corporem outros agentes sociais). É grupo mesmo que estabelece de várias formas. Nestes contextos formadores, ocorrem processos os objetivos de aprendizagem, quais, por sua vez, são selecionados relevantes na elaboração prática e na interiori- no contexto da pratica. Podem ser comunidades presenciais ou virtuais zação de conceitos fundamentais para a organização da aprendiza- (cibercultura). gem: valor de uso do tempo e sua organização, 0 uso dos espaços Segundo Wenger (2001), OS requisitos de uma comunidade de práti- ou das noções de trabalho ou de trabalhar, daquilo que significa ca são compromisso mútuo, uma ação conjunta e uma bibliografia ensinar e aprender (Torres, 2006, p.142). compartilhada (criação de recursos para compartilhar significados). Uma finalidade importante da comunidade formadora seria cons- Na comunidade de prática existe um processo coletivo de ne- truir um projeto educativo comunitário, primando-se pela coopera- gociação e a capacidade, definida pelos participantes, de explicar ção e solidariedade e partindo-se das bases da escola e de uma valo- que se faz e com que finalidade prática se estabelecem 1 relações rização e articulação de seus recursos. Assim, seria possível criar de responsabilidade mútua. um projeto educativo comunitário que ultrapassasse as necessida- Dessa forma, a comunidade de prática seria um grupo de profes- des e possibilidades específicas do coletivo. Podemos interpretar, sores que estabelecem relações de participação e ajuda mútua, tro- portanto, que, em uma comunidade formadora de professores, cando, refletindo e aprendendo sobre sua prática. Não entrariam aqui protagonismo é assumido por eles, mesmo que a comunidade que as relações com a comunidade fora da escola, mesmo que existam envolve a instituição de ensino participe dela. experiências de agentes externos que colaborem. Uma comunidade Quanto à comunidade formadora em associações, redes ou espaços de prática poderia ser um movimento de professores ou a formação emocionais relacionados mediante processos comunicativos, devemos que estes movimentos produzem com a intenção de uma aprendiza- analisar, em primeiro lugar, a importância das associações de profes- gem entre docentes e de troca de informação. sores e dos movimentos docentes para a formação continuada. Em segundo lugar, é preciso considerar a possibilidade de cibercomuni- Comunidade formadora dades ou comunidades virtuais, nas quais as relações comunicativas Uma comunidade formadora, às vezes de educação comuni- (comunicação global) de compartilhar informação e formação entre Uma comunidade tária ou formadora de aprendizagem, diferencia-se muito pouco de os professores podem ser mais fluidas e também mais temporais. às vezes de educação comunitária uma comunidade de aprendizagem, exceto nos papéis dos di- ou formadora de versos agentes. A comunidade formadora dá-se em contextos que Comunidade de aprendizagem aprendizagem, diferencia-se muito permitem a elaboração, por parte dos professores, de uma cultura A experiência de transformar as escolas em comunidades de apren- pouco de uma própria no seio do grupo e não somente a reprodução sistemática da comunidade de dizagem há algum tempo vem sendo introduzida na educação. Todas aprendizagem, exceto cultura social ou acadêmica dominante. Trata-se de um contexto re- as tentativas têm em comum a vontade de converter a escola em um nos papéis dos levante em que próprios membros da comunidade produzem suas diversos verdadeiro agente de transformação social (a escola é uma das prin-Formação continuada de professores 89 88 Francisco Imbernón As comunidades de cipais instituições culturais de um país), de conseguir uma maior apren- lentos, que eles precisam descobrir para reverter à comunida- aprendizagem têm em comum dizagem dos alunos, potencializando sua autoestima, além, é claro, de. Objetivos máximos são estabelecidos em vez de objetivos da dos professores, e a vontade de alcançar conhecimentos e habili- mínimos, e todos os meios são usados para alcançá-los. desejo de converter a escola em um dades, durante a escolarização, que ofereçam aos alunos as mesmas Desenvolve-se a autoestima: Todos OS alunos têm maior capaci- verdadeiro agente de transformação social, oportunidades que as dos alunos em condições mais favoráveis. A dade da que normalmente aplicam. É importante ressaltar as to conseguir uma maior aprendizagem dos partir daqui, propõe-se uma escola em que se interage com contex- expectativas de sucesso, a relação e 0 controle individual do alunos, potencializando to, em que se prima pelo diálogo, pela participação, pela cooperação próprio processo e controle social em relação ao desenvolvi- sua autoestima, e de e pela solidariedade entre todos que formam a comunidade de mento da cooperação. São necessárias atividades em grupo. poder adquirir OS conhecimentos e as aprendizagem, com objetivo de melhorar a educação das crianças. Avalia-se contínua e sistematicamente: O processo é constan- durante a escolarização, que Todas estas experiências compartilham alguns princípios peda- temente revisado por toda comunidade. São estabelecidos momentos de contraste e de triangulação entre todos. igualdade gógicos: de oportunidades. A participação dos alunos, das famílias e da comunidade é alta: A Todos os membros compartilham metas: A aprendizagem es- instituição escolar passa a ser uma instituição da qual participam colar não recai exclusivamente nas mãos dos professores, por igual todos OS estratos que intervêm no processo educacio- senão que, para conseguir uma educação de qualidade, par- nal. Existe um grau de compromisso e negociação. Nas salas de ticipam conjuntamente as famílias, as associações de bairro, aulas, OS professores são tutores. O voluntariado ajuda a reali- OS voluntários, as instituições sociais, etc. Todos trabalham zar as atividades previamente combinadas. juntos para conseguir um mesmo objetivo, realizando uma A liderança escolar é compartilhada: Comissões de trabalho são história de aprendizagem compartilhada. criadas para coordenarem todo processo, sendo bastante de- Uma organização e um ambiente de aprendizagem são criados: legadas as responsabilidades. Estas comissões são mistas: pro- Buscam-se fórmulas alternativas para a organização escolar tra- fessores, mães, pais, alunos, administração, voluntariado, etc. dicional. Isso significa, por exemplo, quebrar com a estrutura Um diálogo reflexivo e um ensino entre iguais são gerados: de salas de aulas fechadas, onde cada professor tem seus alu- Potencializa-se a relação de ensino recíproco e cooperativo en- nos. É importante que OS alunos estejam em atividade máxi- tre alunos, que estabelecem uma tutoria entre iguais. Ou mo de tempo possível. Por isso, e para evitar que exista a possi- seja, as crianças aprendem umas com as outras, desde grupos bilidade de que alguns não acompanhem o ritmo da aula, é da mesma idade até grupos de idades diferentes. Os agrupa- necessário viabilizar a possibilidade de que nas salas possa mentos flexíveis favorecem estes processos. Para ampliar esta haver mais de uma pessoa adulta. Nesse sentido, é preciso que exposição, visite site professores trabalhem muito bem coordenados com outros conteúdo em espanhol. profissionais e voluntários. Os processos de ensino-aprendizagem são centro da institui- Comunidade e formação ção escolar: É fundamental que os alunos desenvolvam ao Poderíamos entrar nos diferentes conceitos de comunidade, máximo suas capacidades. A instituição de ensino converte- desde posturas filosóficas, pedagógicas, psicológicas e sociológi- -se no centro de aprendizagem de toda a comunidade, es- cas até as noções de comunidades de pesquisa, de discurso, de tando mais além das tarefas escolares. Os ensinos têm propósitos: O ensino é planejado pelo coleti- interpretação, profissionais, sociais ou democráticas desenvolvi- das por diversos autores (Garza, 1995; Wenger, 2001). vo, estabelecem-se finalidades claras, que são expressas e No entanto, a meu ver, isso é desnecessário para a temática abor- compartilhadas pela comunidade. dada neste livro, embora tal diversidade de enfoques indique a impor- Criam-se grandes expectativas munidade): Todo mundo é capaz de desenvolver mais possibi- tância que termo e conceito de comunidade estejam assumindo. lidades e, portanto, cria-se um clima de grandes expectativas. Os professores, os pais e as mães têm muitas habilidades, ta-90 Francisco Imbernón Formação continuada de professores 91 As comunidades de Para a formação, talvez seja interessante explorar a comunida- a comunidade: alunos, escola, equipes de docentes, famílias, comu- A comunidade não é aprondizagem estão de como compromisso mútuo da prática, isto é, comunidades for- tanto uma estrutura, organizadas sobre nidade local. Cada um desses agentes acrescenta elementos valio- senão um conjunto a base de um madoras para desenvolver um projeto educacional comunitário e SOS para a educação, contribuindo para a melhoria de todos. de práticas; qualquer interesse comum comunidades de aprendizagem enquanto aprendizagem coletiva âmbito em que se criar e recriar A partir de uma perspectiva acadêmica, trabalhar em conjunto estabeleça uma conhecimento, e, entre todos os agentes que intervêm na educação ou em um proje- com a comunidade significa, principalmente, buscar desenvolver relação educativa e no compartilhá-lo, possibilita se sua to educativo comunitário, compartilhado de forma coletiva. comunicativa entre habilidades sociais, efetivas, cognitivas e psicolinguísticas nos alu- alunos e entre diversificação e Trata-se de comunidades que estejam organizadas sobre a base de nos, por meio de sua participação ativa em comunidades educativas, professores e alunos. enriquecimento, obtendo-se um novo um interesse comum de criar e recriar o conhecimento, e ao com- cujos membros realizam atividades caracterizadas por um ambiente conhecimento. partilhá-lo, possibilita-se sua diversificação e enriquecimento, obten- de aprendizagem. Existe um maior número de oportunidades coti- do-se um novo conhecimento, embora isso não implique necessaria- dianas para a inserção social, a comunicação oral e escrita e a mente uma grande harmonia entre todos sujeitos. prática na solução de problemas diversos. Na formação dos professores, podemos dizer que uma forma- ção que considera a comunidade parte de certos pressupostos: RESUMO Todos agentes da comunidade que se relacionam com a es- cola possuem conhecimento, ninguém tem na sua totalidade. Neste capítulo, que teve a intenção de unir a formação à comu- nidade, quis me referir a dois elementos: É necessário compartilhar conhecimento de cada um. Essa troca de conhecimento entre os agentes da comunida- 1. Associações, redes ou espaços emocionais de professores, de traz um enriquecimento profissional. relacionados por processos comunicativos e mais próximos A formação com a comunidade permite uma forma melhor da comunidade prática e formadora. de organização, que repercute na melhoria da escola. 2. O trabalho interativo com a comunidade que envolve a institui- Em relação ao trabalho interativo com a comunidade da instituição ção de ensino, mais próximo da comunidade de aprendizagem. escolar como esfera pública, ampliam-se as noções de escola e de sala de aula, assim como as possibilidades e funções educativas des- Os professores devem assumir seu papel na estrutura organizativa e educacional, mas a comunidade e seus diversos componentes também ses espaços. A comunidade não é tanto uma estrutura, senão um terão que assumir o seu. Os professores recebem uma influência da conjunto de práticas (Bourdieu, 1991b). Já não são apenas lugares comunidade que rodeia a escola. Será necessário estabelecer um novo entre muros, mas, sim, qualquer âmbito em que se estabeleça uma modo de relação e compartilhar processos educativos e de formação; relação educativa e, portanto, comunicativa entre alunos e entre pro- realizar uma reflexão em conjunto sobre que é necessário mudar nas fessores e alunos. A comunidade nutre-se da comunicação e do diá- instituições e o que fazer para diminuir e acabar com a exclusão social. logo. Habermas (1987) fala da comunidade comunicativa que se A formação conjunta com a comunidade apresenta-se, nos diversos organiza pela comunicação e não pela autoridade, pelo status ou contextos educacionais e sociais, como uma das alternativas à difícil pelo rito. Tal reconceituação amplia grau de responsabilidade e de problemática da exclusão social de uma parte da humanidade. autonomia dos profissionais em sua gestão e destaca papel ativo Um formação comunitária dos professores deveria: dos próprios alunos na regulação das trocas, bem como dos parâmetros de referência sob quais se atua: o tempo, os espaços, Aceitar a participação igualitária dos agentes comunitários. as normas, seus referentes e os estilos comunicativos. Tudo isso pos- Adotar posturas de abertura e flexibilidade diante de modi- sui um enorme potencial explicativo e possibilidades formadoras e ficações e inovações. autoformadoras para OS professores. Considerar OS espaços mais além da utilização puramente escolar. Sob ponto de vista formador, trabalhar em conjunto com a Desenvolver um projeto educativo comunitário que envolva comunidade consiste em uma proposta orientada para a construção a maioria dos professores e a comunidade. de cenários educativos mais inovadores dentro da instituição esco- Estabelecer tempos e espaços de formação para os diferen- lar, mediante a participação de vários agentes sociais que integram tes agentes da92 Francisco Imbernón NOTAS Será preciso passar da 8 1. Entende-se aqui por comunidade uma rede dinâmica, na qual atualização à criação de espaços coexistem todos OS agentes sociais que intervêm ou podem intervir na educação da infância no contexto em que se en- de formação contram. Esses agentes se ajudam mutuamente, para con- cretizarem a ação educativa a partir de uma perspectiva po- lítico-educacional conjunta. Embora reconheço que, hoje em dia, estejam utilizando de forma confusa e polissêmica con- ceito de "comunidade". 2. Isso implica uma aproximação sociocultural, em que as pes- A tradição de formação dos formadores ou dos planos de forma- soas e OS ambientes socioculturais não têm uma existência ção consiste em atualizar e culturalizar os docentes em conheci- independente. Assim, não se pode existir abstratamente, mas, mentos de qualquer denominação ou tipologia. A formação conti- sim, dentro de um tipo de configuração social para a solução nuada de professores, mais do que atualizar os assistentes, deve de problemas práticos. ser capaz de criar espaços de formação, de pesquisa, de inovação, 3. O termo foi difundido, possibilitando surgimento de diver- de imaginação, etc., e os formadores de professores devem saber sas experiências com políticas e desenvolvimentos diferen- criar tais espaços, a fim de passarem do ensinar ao aprender. tes. (Para ampliar seu conhecimento, ver Torres, 2004, ou Kellog, 1999.) O verdadeiro sábio apenas é rigoroso consigo mesmo; com os demais é amável. QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? (Plutarco) Criar comunidades de prática e redes presenciais e virtuais ou associa- A estrutura organizativa da formação e o papel dos formado- ções de aprendizagem que potencializem a colaboração e a cooperação res, ou assessores, também deveriam mudar na formação continua- entre os professores, a fim de se assumir uma maior autonomia, analisar a da de professores. Os formadores teriam que se converter, por um diversidade dos contextos educativos e estabelecer um intercâmbio de lado, em dinamizadores diferentes e, por outro, em ajudantes e conhecimento prático profissional. potenciadores da criação de uma estrutura flexível da formação. Criar seminários de troca e reflexão sobre temáticas que ajudem a desaprender conhecimentos, colocar 0 que se sabe em quarentena e apren- der novos conhecimentos, que permitam sensibilizar e reconceituar uma o PAPEL DOS FORMADORES nova forma de ver a educação no século XXI. Desenvolver uma formação junto à comunidade, para analisar problemáticas Durante décadas criticou-se muito papel assumido pelos forma- educativas, elaborar compromissos e sensibilizar para a participação. dores, ou assessores, considerados especialistas infalíveis ou acadê- Abrir a instituição escolar para atividades de formação da comunidade. micos que desenvolviam um modelo histórico reprodutor de ideias dos outros. Seu papel preponderante consistia na "atualização" dos Elaborar novas estruturas organizativas e didáticas, assim como realizar professores, em colocá-los em dia, como se diz informalmente. Isso se projetos de mudança. fazia, e ainda se faz, explicando e aplicando soluções de outros às Elaborar junto à comunidade um projeto educativo comunitário. práticas educacionais. Este tipo de formação destruidora gerou mais Criar comissões mistas, professores-comunidade para analisar situações prejuízo que benefício. O conceito de "professor bom, eficaz e eficien- problemáticas da instituição de ensino e buscar possíveis soluções. te" que existe por detrás desses discursos produz muitas frustrações, Narrar a história do passado e analisar que se sabe e como a prática abandonos e falta de comunicação, entre outros. vem sendo construída.Formação continuada de professores 95 Francisco Imbernón Condições para a mudança Isso significa abandonar conceito obsoleto de que a formação A formação move-se sempre entre a é a atualização científica, didática e psicopedagógica dos professo- dialética de aprender prática educacional A prática educacional muda apenas quando os professores que- res e substituí-lo pela crença de que a formação deve ajudar a des- e desaprender. apenas quando rem modificá-la, e não quando formador diz ou anuncia. Por professores querem cobrir a teoria, organizá-la, fundamentá-la, revisá-la e construí-la. modificá-la, e não sorte, toda a experiência acumulada na formação continuada de Se necessário, deve-se ajudar a alterar sentido pedagógico co- quando formador ou anuncia. professores, como fomos vendo neste livro, mostra-nos que a crise mum e a recompor equilíbrio entre esquemas práticos predo- do formador-solucionador, que demanda uma aplicação daquilo minantes e OS esquemas teóricos. O formador auxilia a refletir sobre que ele diz na formação, já está aberta, apesar da longa tradição situações práticas e a pensar sobre que se faz durante tais situa- dessa prática formadora. ções, incluindo-se, nesse processo, a deliberação sobre o valor ético Pouco a pouco, foi surgindo a consciência de que formador das atuações, sobre seu sentido e sobre a construção deste, anali- deve assumir cada vez mais um papel de colaborador prático em sando-se, para isso, sentido da educação e submetendo-o à revi- um modelo mais reflexivo, no qual será fundamental criar espaços são crítica. O formador pode de formação, inovação e pesquisa, a fim de ajudar a analisar OS Além disso, as políticas educacionais da formação deveriam pro- ajudar a transformar obstáculos, individuais e coletivos, que professores encontram a necessária reflexão piciar uma nova estrutura organizativa. Se, no final do século pas- docente acadêmica para realizar um projeto de formação que ajude a melhorar. O sado, as organizações de referência foram cursos de formação em uma reflexão formador, nas práticas de formação continuada, deve auxiliar a re- social e sobre de professores ou as instituições de apoio à formação, que os desenvolvimento solver esses obstáculos, para que OS professores encontrem a solu- professores necessitarão no futuro serão estruturas mais flexíveis dos alunos e, assim, ção de sua situação problemática. Somente quando professor con- fomentar relações e descentralizadas, ainda mais próximas das instituições de ensi- verdadeiramente segue resolver sua situação problemática, produz-se uma mudança no, e redes estabelecidas entre tais instituições, para favorecer as democráticas em na prática educacional. No futuro, será mais necessário dispor de sala de aula. trocas de experiências nas escolas. formadores em formação continuada que colaborem nos diagnósti- modelo de "treinamento" deverá mudar mediante planos cos em conjunto, do que ter solucionadores de problemas alheios. institucionais, para dar espaço de forma mais intensiva a um mo- Essa mudança será profunda quando a formação deixar de ser delo questionador e de desenvolvimento de projetos, no qual OS um espaço de "atualização" para ser um espaço de reflexão, for- professores de um contexto determinado assumam protagonismo mação e inovação, com objetivo de os professores aprenderem. merecido e sejam aqueles que planejem, executem e avaliem sua Assim, enfatiza-se mais a aprendizagem dos professores do que própria formação. modelo de ensino dos mesmos. Isso implica, por parte dos formadores e das "treinamento" deverá Isso implica uma mudança nas modalidades e estratégias for- mudar mediante políticas de formação, uma visão diferente do que seja a forma- madoras, que significa mais além dos cursos e seminários de espe- planos institucionais, ção, do papel dos professores nesta, e, portanto, uma nova meto- para dar espaço a um cialistas acadêmicos: trocas entre indivíduos tratados iguais, aten- modelo questionador dologia de trabalho com docentes. Compartilhar não é mes- ção e escuta às boas práticas dos outros, elaboração de projetos, e de desenvolvimento mo que transmitir-ensinar-normatizar nem atualizar mesmo que de projetos, no aproveitamento das tecnologias da informação e comunicação, pro- qual professores ajudar-analisar, nem aceitar mesmo que refletir. Não é mesmo cessos de pesquisa-ação, elaboração de diários, portfólios de apren- de um contexto explicar minha teoria e minha prática como formador que ajudar determinado assumam dizagem, etc. Em suma, a mudança comporta uma nova maneira protagonismo a descobrir a teoria implícita nas práticas docentes. A formação de organizar a formação. merecido e sejam move-se sempre entre a dialética de aprender e desaprender. aqueles que planejem, executem e avaliem Somente quando O formador pode ajudar a transformar essa necessária reflexão sua própria formação. docente docente acadêmica (refletir sobre as matérias), a conseguir um RESUMO consegue resolver sua situação ensino melhor mediante a aplicação de técnicas didáticas, dedu- problemática, zidas de princípios gerais alcançados na pesquisa pedagógica, a Tradicionalmente, a formação continuada constituía um momento uma refletir sobre desenvolvimento dos alunos, dos professores en- de culturalização dos professores. Supunha-se que, atualizando seus mudança na prática educacional quanto profissionais e indivíduos, assim como fomentar relações conhecimentos científicos e didáticos, professor transformaria sua verdadeiramente democráticas nas salas de aula, igualitárias e prática e, como por milagre, passaria a ser um inovador, promotor de novos projetos educacionais. padronização, predomínio da socialmente justas.Formação continuada de professores 97 Francisco Imbernón teoria, a descontextualização, a realidade social atual e outros fato- o QUE FAZER NA PRÁTICA DA FORMAÇÃO? res que poderíamos acrescentar impediam e impedem esse proces- Agora começamos a vislumbrar que a formação continuada au- menta seu impacto inovador, se a relação se efetiva ao contrário, ou Formadores ou assessores colaborativos ou de processo seja, não formando para depois desenvolver um projeto de mudan- A assessoria como um tipo de facilitador, acompanhante ou amigo ça, mas, sim, elaborando um projeto inovador e recebendo ou crítico na apropriação do conhecimento. compartilhando a formação necessária para realizá-lo. Esta simples formador de processo caracteriza-se por colocar os professores em situa- inversão tem consequências importantes no modelo de formação e ções de participação, por estimular sua criatividade e capacidade de regulá- em seu processo de execução nas instituições de ensino. Parte-se da -la segundo os efeitos e por confiar na capacidade docente de elaborar premissa de que, para mudar a educação, é necessário mudar OS itinerários educativos diferenciados, projetos de inovação e práticas alter- professores e de que a formação é uma boa ferramenta, mas não a nativas. única, ela deve estar acompanhada da mudança do contexto. As Este tipo de formador compromete-se com a prática dos outros, envolve-se consequências de tudo isso são: a descentralização, as mudanças em empreendimentos inovadores, respeitando as práticas educacionais em organizativas nas escolas, um clima de trabalho, os processos de que ele próprio pode experimentar e aprender com os demais. É um forma- tomadas de decisão, as relações de poder nas instituições de ensino, dor prático, que dispõe de diversas ferramentas de formação de caráter aber- to, como por exemplo, planos de projetos, bibliografias, experiências, etc. É uma ênfase nas necessidades reais dos professores, partindo-se de- um gerador de dinamismo grupal, adaptando-se a diversas situações. las, projetos de formação coletiva nas escolas, etc. -, todos apre- sentando-se como elementos fundamentais de um modelo de for- o Quadro 8.1 apresenta uma comparação entre este tipo de formador/asses- sor e o assessor acadêmico ou especialista. mação centrado nos professores e em suas situações problemáticas contextuais. Sendo assim, a formação deve levar em conta que, mais do que atualizar um professor e ensiná-lo, cria as condições, elabo- Criação de centros de formação de professores integrais ra e propicia ambientes para que docentes aprendam. A partir de meados do século XX, uma das ações políticas majoritárias em Toda a experiência acumulada na formação de professores mos- todos os países foi a criação de cursos de formação de professores, de de- tra-nos que a crise do assessor-formador-solucionador educativo senvolvimento profissional. Isso implicava uma descentralização da forma- ção e a existência de indivíduos especializados nas instituições educacio- na formação continuada de professores já está aberta, apesar de nais, para auxiliar nas políticas de formação continuada. Atualmente, em mi- sua longa tradição na prática formadora. nha opinião, esse modelo continua sendo válido, apesar das críticas que As consequências dessa profunda mudança só terão lugar quan- vem recebendo, embora seja certo que necessita de uma profunda revisão, do a formação deixar de ser um espaço de "atualização" e passar a para alterar o que não tem funcionado e reestruturar, de acordo com os no- ser um espaço de reflexão, formação e inovação, permitindo a vos tempos, o que, sim, funcionou. aprendizagem docente. Isso implica, por parte dos formadores e Acredito que uma das mudanças que beneficiaria as políticas e as práticas das políticas de formação, uma visão diferente do que seja a for- da formação continuada seria transformar e continuar criando instituições de formação próximas dos professores. Porém, a experiência nos tem demons- mação, do papel dos professores nesta, e, portanto, uma nova trado que tais instituições deveriam reunir todos os serviços educacionais de metodologia de trabalho com eles. uma região, para, assim, estabelecer uma coerência nas políticas dos profes- Além disso, formadores ou assessores deveriam se constituir sores e poder oferecer ajuda e acompanhamento à formação, mediante as- como uma equipe pedagógica em uma escola de formação de pro- sessores formados especificamente como assessores de processo, colegas fessores integral, que desse assessoria aos serviços educacionais acompanhantes ou amigos críticos. de um país, apoiando professores e as instituições de ensino.Francisco Imbernón Como a sociedade e a educação, 9 QUADRO 8.1 a formação deve se basear Formador/Assessor Acadêmico Formador/Assessor Colaborativo ou Especialista ou de Processo na complexidade Espera que OS professores confiem em Colabora com os professores na identi- seus conhecimentos e sabedoria supe- ficação das necessidades formadoras, riores para identificar, esclarecer e re- no esclarecimento e na resolução de solver seus problemas. seus problemas. A tarefa docente sempre foi complexa, mas nas últimas décadas tal Realiza uma comunicação unidirecional. A empatia, o trabalho em grupo e a complexidade aumentou muito. A formação deve deixar de trabalhar Os professores não sabem; asses- municação com professores são a partir de uma perspectiva linear, uniforme e simplista, para intro- sor, sim. Enquanto este fala, OS profes- bidirecionais e extremamente importan- duzir-se na análise educativa a partir de um pensamento complexo, a sores escutam e obedecem, podem tes para se compreender as situações fim de revelar as questões ocultas que nos afetam e, assim, tomar perguntar, mas dificilmente questionar. a partir de seu ponto de vista. decisões adequadas. Entende e coordena as situações em que A prática profissional baseia-se em uma se encontra, exclusivamente em termos compreensão holística das situações de categorias de conhecimento espe- educacionais. Vejamos um exemplo muito simples. Vamos supor que eu sonho com um ho- cializado. simplesmente a imagem de um homem... e logo, imediatamente, sonho com a imagem de uma árvore. Ao despertar-me, posso dar a esse sonho tão juízo profissional do assessor baseia- O juízo profissional é um produto da simples uma complexidade que não pertence: posso pensar que sonhei com -se mais em um estereótipo intuitivo do autorreflexão de todos. Este é meio de um homem que se converte em árvore, que era uma árvore. que na reflexão das situações reais. Sua superar OS juízos e as respostas estere- (Jorge Luis Borges. pesadelo" Sete noites, p.222) perspectiva é a única realmente válida. otipadas. As mudanças aparecem de vez em quan- A mudança social e educacional sempre A mudança em qualquer pessoa nunca é simples, consequentemente, do e podem ser planejadas. Tem senti- é possível, embora, às vezes, seu plane- a mudança que se pede aos professores na formação não é simples, do em uma sociedade concebida como jamento seja bastante complicado. Tem mas, sim, um processo complexo (embora, às vezes, uma certa simpli- estável e invariável. sentido em uma sociedade dinâmica, ficação pode ser necessária de forma relativa¹). É complexo, porque se imprevisível e baseada na mudança. trata de uma mudança nos processos que estão incorporados, como Atua como fonte especialista de conhe- Participa de um processo colaborativo de conhecimento da matéria, da didática, dos estudantes, dos contextos, cimento pertinente. resolução de situações problemáticas. dos valores, etc., que estão ancorados na cultura profissional que atua como filtro para interpretar a realidade. Para mudar uma cultura tão A aquisição do conhecimento proposi- A aquisição do conhecimento pertinen- arraigada na profissionalização docente, aprendemos que isso requer: cional ("saber que") e desenvolvimen- te e útil não pode ser separada do de- to da competência profissional são dois senvolvimento da competência profis- tempo (para as mudanças culturais não vale curto prazo nem pressa); processos diferentes. O primeiro pode sional, concebida esta como um con- uma base sólida (a incerteza, embora seja melhor que a certeza, pode ser adquirido fora do trabalho, enquan- junto de capacidades de atuação prá- ser uma má conselheira às vezes); uma adaptação à realidade dos pro- to segundo apenas pode ser desen- tica em situações sociais e educativas fessores (à forma de ser, mas também aos contextos, às etapas, aos volvido a partir da experiência direta. complexas e imprevisíveis. níveis, às disciplinas, etc.); um período de experimentação e integração para a mudança, ou seja, experimentá-la na prática diária e deixar que se integre, interiorize, nas próprias vivências profissionais. Enfim, esse é um processo com altos e baixos, sinuoso, complexo.