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930.23 R426 m República em Migalhas História Regional e Local VAC SIP 7-15 43-49 Janaína Amado, Rosa Maria G. Silveira, Vera Alice C. Silva, Paulo Henrique Martins, Sandra Jatahy Pesavento, Maria de Lourdes M. Janotti, Maria Clara T. Machado, José Batista Neto, Ana Maria Burmester, Francisco Moraes Paz, Marionilde Dias B. Magalhães, Denise Monteiro Takeya, Maria de Fátima Gomes Costa. Coordenação de Marcos A. da Silva 930.23 R426m DIRBI - UFU MON 03825/92 Editores: Maria José Silveira, Felipe José Lindoso, Márcio Souza Capa de MZ Produções 1000168162 Copyright 1990 by © ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História). Direitos para publicação adquiridos pela Editora Marco Zero, Rua Rodrigo Cláudio, 180, Aclimação, São Paulo, SP CEP 01532 Telefone: (011) 287-1935. ISBN 85-279-0101-3 Editora Marco Zero A primeira edição deste livro foi publicada em abril de 1990. co-edição com o Programa Nacional do Centenário da República e bi-Centenário da Inconfidência Mincira MCT/CNPqComo se pode perceber, a apreensão deformada da produção do espaço História Regional e Transformação Social* social capitalista como sendo a de um movimento unidirecional apontando para a "homogencização" do espaço global, encaixou-se como uma luva Sandra Jatahy Pesavento** nessa análise teórica predominante da história regional monopolista, gravada pela insuficiência empírica; explicando de maneira cômoda, por exemplo, como se criou a SUDENE e como se implantou a nova indústria dinâmica do "Nordeste". Mas sem esclarecer porque antigas regiões como a açucareira, A partir da década de 70, estudos e pesquisas realizados no âmbito algodoeira-pecuária e outras mais se transformaram sem desaparecer. Elas universitário e fora dele têm trazido à luz toda uma produção de nível adequaram-se à dominação monopolista, mas também obrigaram os acadêmico e/ou didático, que trata da história regional. monopólios a respeitar a realidade histórica de cada região e os seus ritmos Por um lado, esta proliferação de estudos respondeu às próprias particulares de transformação. exigências da carreira universitária, impondo a realização de cursos de pós- Ainda é cedo, porém, para se rever posições. O debate está apenas graduação para seus docentes e alunos egressos de ensino de grau. iniciado... Comumente, as teses e dissertações realizadas no âmbito da história apoiaram-se nas fontes primárias locais e produziram análises de cunho regional. Por outro lado, no plano do ensino de grau, as diretrizes da política educacional no país enfatizaram a necessidade de regionalizar os currículos, tendo como a proliferação de livros de caráter didático que versavam sobre "história regional". Isto posto, caberia colocar, como tema para discussão, a tarefa de repensar o que tem sido produzido nesse âmbito e o que tem sido entendido por história regional. A questão em si remete ao estudo das relações entre região e história, tema tratado com muita propriedade por Rosa M. S. Silveira¹ em estudos recentes, onde a autora analisa as várias abordagens que o assunto tem merecido. Caberia apenas retomar, para efeitos deste ensaio, o fato de caber ao materialismo histórico tarefa de ter resgatado, para o entendimento do conceito de região, uma abordagem que superou as demais até então realizadas. Comentário do texto "Região e de Rosa Maria G. Silveirà, apresentado na mesa- redonda Região" (XIII Simpósio da Mestra pela PUC/RS e Doutora em História Social pela FFLCH/USP. Leciona no Depto. de História da UFRS. Coordenou a pesquisa "Processo de industrialização do RS: 1889/1945". Publicou República Velha gaúcha, RS: economia e poder nos anos '30, A Revolução Federalista e A Revolução Farroupilha. Rosa Maria Godoy. Região e História. Questão de método. Curitiba, Julho 1985 (xerografado). XIII Simpósio Nacional de História, e 0 Nordeste e a questão regional. Encontro paraibano de História. João Pessoa, Paraíba, Junho 1985. 66Como indica Rosa Silveira², é na obra clássica de Lênin sobre a forma- determinada. A região seria ainda o espaço onde concretamente se definem e ção do capitalismo na Rússia que a noção de região assume um contorno enfrentam as classes sociais. É também no recorte espacial da realidade histórico, inserido no movimento de realização do capital e seus agentes: histórica que melhor se pode apreciar a forma pela qual uma fração regional "(...) uma região só será plenamente configurada se for analisada no seu da classe dominante estabelece alianças e constrói seu aparato de hegemonia, complexo de imbricações e relações: na relação com a formação social, de bem como se impõe sobre as classes subalternas. que é um corte espacial delimitado histórica, portanto dinamicamente, o Todo esse processo, determinado historicamente pelo capital, pressupõe aspecto básico a ser vislumbrado é o nível de articulação das atividades a ação do Estado, "locus" privilegiado da ação política dos grupos sociais, e produtivas da região ao modelo de acumulação dominante que se incumbe da tarefa de organizar territorialmente a sociedade de acordo com determinados interesses. Neste caso, a região configura-se como o A visão de Lênin sobre o tema remete, portanto, à análise de uma espaço localizado de realização e controle do poder por um grupo. singularidade espacial dentro do sistema mais amplo e ao próprio processo Ideologicamente, a partir das instituições da sociedade civil e também de reprodução do valor, que pressupõe a diferenciação de classes e sua da sociedade política, este mesmo grupo privilegiado se incumbe de dinâmica social. reproduzir a noção de região para o conjunto do campo social, valendo-se de Um passo além no entendimento deste conceito foi dado, sem dúvida critérios de identidade cultural, fronteiras geográficas e um auto- alguma, a partir da contribuição de Antônio Gramsci com seus estudos sobre reconhecimento da singularidade daquele espaço delimitado. a "Questão Logo, o conceito de região surge nesta concepção como uma síntese de Com Gramsci, o conceito de região ultrapassou a noção de um espaço múltiplas determinações: existe uma especificidade localizada que é geográfico delimitado na formação social já sugerido por Lênin. econômico-social, porque explicitada numa forma de reprodução do valor e Na abordagem gramsciana, se possibilita a análise da especificidade da relação entre os homens e ao mesmo tempo é político-ideológica, como espacial a partir da dinâmica das classes num contexto historicamente espaço de exercício do poder de construção da auto-imagem de um grupo. delimitado e constituído pela integração articulada da infra com a Ora, visto desta forma, o estudo histórico de uma região implica a superestrutura. análise de uma singularidade na Ou seja, a história regional, a Ou seja, Gramsci entende a questão regional como ligada ao espaço de partir deste enfoque, seria aquela que buscaria resgatar a dinâmica da prática construção da hegemonia e dominação de uma classe sobre as demais e de social dos homens, a partir da análise das condições históricas objetivas num elaboração de uma visão sobre este espaço. Desta forma, a visão gramsciana espaço delimitado. Ou ainda, a história regional implicaria a realização de permite pensar a região numa abordagem ao mesmo tempo econômico- um recorte espacial numa determinada temporalidade. social e político-ideológica. Portanto, segundo este viés de interpretação, o entendimento da história Se Lênin integra o conceito de região ao da formação social, formulado regional deveria se situar no meio caminho entre a totalidade mais ampla na por Marx, Gramsci vincula a noção ao entendimento de "bloco qual se insere (o sistema capitalista) as variáveis regionais específicas, Em última análise, ambos os conceitos se aproximam, e remetem a definidas pelas condições objetivas locais. uma identidade articulada entre infra-estrutura e superestrutura, ou entre Não é este, contudo, o entendimento que tem prevalecido nas formas produtivas e organização político-ideológica, concreta e abordagens de história regional. historicamente definidas. De um lado, numa análise "macro", tem-se a generalização de um saldo é, contudo, o mesmo: a historicidade do conceito de região. processo ocorrido numa determinada região por todo o país. Mais especifi- entendimento da região passa a ser o de "espaço para capital", ou camente, as formas de realização do capital no centro econômico do país de espaço onde se reproduz o capital de uma forma historicamente eixo Rio-São Paulo são estendidas na sua análise, para as diferentes regiões, ou apresentadas como sendo "nacionais". Por exemplo, a industria- R.M. Godoy. Região e História. Op. cit. p. 24. lização do Brasil é associada indissoluvelmente ao café e entendida como a LÊNIN, V.V. El desarollo del capitalismo en Rusia. Barcelona, Ariel, 1974. Apud industrialização brasileira. É claro que se pode contra-argumentar que o SILVEIRA, Rosa M. G. Região e História, op. cit. p. 24-5. Antônio. Alguns temas da Questão Meridional. In: Temas de ciências humanas. capitalismo é um agente unificador de história, ou que o capital universaliza, V.1, São Paulo, Grijalbo, 1977. 68 69mas tais análises não dão conta das especificidades regionais, também elas conhecimentos, a compreensão do lugar que ocupamos no espaço, dão-nos variações da reprodução do capital no contexto latino-americano. elementos para nos conscientizarmos sobre nossas relações sociais, o papel Por outro lado, numa análise dita "micro", a história regional tem sido que nela desempenhamos, auxiliando-nos a refletir a nossa dimensão social e apresentada como encerrada em si mesma. Nesta perspectiva, a região temporal. Sendo o mesmo espaço ocupado, organizado e transformado pelo homem nas suas relações com outros homens e com a natureza, este é, aparece como um microcosmos que se basta e se auto-explica. A ênfase é portanto, um espaço histórico que ocorre sempre em um tempo e um local dada no particularismo, desvinculando-se o seu estudo de um contexto mais dado. Quando o ser humano tem consciência do lugar que ocupa no espaço, amplo. De uma certa forma, as diretrizes oficiais impostas ao ensino de melhor é o seu relacionamento com o grupo social a que pertence; tem a grau, propondo a regionalização dos currículos, reforçaram esta maior clareza de suas relações com as demais pessoas e condições de se Os livros didáticos, tal como as diretrizes oficiais, basciam-se nos situar historicamente. Sabendo-se, portanto, da importância do conhecimento princípios metodológicos indutivos, segundo os quais a ocorre das relações espaço-temporais, cabe à escola desenvolvê-las, propiciando ao aluno condições para se situar partindo do particular para o geral, ou do mais próximo para o mais distante, do conhecido para o desconhecido, do simples para o composto. Desta Para começar a estudar a história, a criança deveria ter dominado a mancira, os conteúdos de Estudos Sociais, no Rio Grande do Sul, são noção de espaço e tempo, realizando uma abstração das representações introduzidos na seguinte seqüência: a comunidade local ("o lugar onde subjetivas que possa ter destes conceitos. Do que é próximo geograficamente moro"), a comunidade maior que representa a região (a terra do Rio Grande no caso, a comunidade salta-se para um recuo no tempo e uma dilatação do Sul a sua história) para concluir com a sua inserção no contexto maior, daquele espaço inicial que extrapola de muito o nível das operações mentais nacional (o Rio Grande do Sul e o Brasil). concretas em que a criança se encontra nesta fase de desenvolvimento. Ora, esta solução de sua aplicação nas salas de aula se dá A este dado, se acrescenta um outro, que é o da introdução da história sem uma correlação mais rigorosa com as fases de desenvolvimento do regional sem que a criança possua um conhecimento do contexto mais aluno, suas reais possibilidades e interesses. No estágio da vida que vai dos amplo. Por exemplo, na série do 1° grau no Rio Grande do Sul, a criança 7 aos 12 anos, a criança está na fase das operações concretas. estuda a história do Estado sem que conheça a história do Brasil, o que só será desenvolvido na série do grau. "Isto significa que, a partir de experiências diretamente ligadas à sua vivência ao meio a criança abastece a mente com dados que, organizados posteriormente, serão utilizados por para a solução de "Nestas condições, o recurso de que se vale professor é o relato descritivo problemas que ocorrem na sua vivência e no meio em que está A e linear, onde o episódio 'interessante' e até mesmo anedótico substitui a criança desenvolve uma estrutura interiorizada com que operar mas ainda explicação onde a data organiza os processos e o herói, personagem sempre não está inteiramente apta para lidar com problemas que não apresentam presente na fantasia das crianças, move os diretamente diante dela ou que não tenham ainda sido experimentados. Isto é, ela não tem desenvolvida a capacidade de No âmbito propriamente acadêmico, o que se nota é a persistência, mesmo em estudos mais recentes, de uma visão estreita e tradicional das Ora, para que a história seja ensinada, mesmo na sua forma tradicional "histórias regionais", embora muitas vezes os trabalhos se apresentem reves- como cronológico da evolução da humanidade" ou sob uma ótica tidos de uma linguagem sofisticada e utilizem o recurso de técnicas c/ou mais moderna analítica, pressupõe-se a formação e o desenvolvimento da métodos científicos de análise. Tome-se o exemplo da chamada "história noção de espaço e tempo. quantitativa", que nos últimos anos passou a ter um papel importante na Como refere Zamboni: pesquisa histórica no Brasil, especialmente através da via da demografia histórica, e produziu uma série de dissertação e tescs. Embora tentando obter lugar que ocupamos não é só nosso e nem mesmo o é ele é uma explicação da realidade econômico-social em moldes diferentes do dividido com outras pessoas. Pela própria dinâmica da vida, o lugar que hoje ocupamos se modifica e pode vir a ser ocupado por outros. Portanto, os Nilse Winck & PESAVENTO, Sandra Jatahy. A história do Rio Grande. A Emesto. Desenvolvimento das noções de espaço tempo na criança. In: versão, mito e a proposta de um ensino crítico. Porto Alegre, Assembléia Legislativa do Cadernos Cedes, 10. Estado do Rio Grande do Sul. 1985. Nilse W. & PESAVENTO, Sandra Jatahy, op. cit. 70 71positivismo, o que se encontra hoje na abundante produção historiográfica que se rotula: "Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um "...Demografia histórica consiste quase unicamente no levantamento de modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais, que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo dados estatísticos, o que é importante e de interesse, mas não significa uma econômico, mas também no social e no político: o empresário capitalista cria pesquisa original para a renovação historiográfica, com uma consistente consigo técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador teorização em que se apoiasse essa renovação. Finalmente, fica a de uma nova cultura, de um novo direito etc, interrogação até que ponto não se estaria reproduzindo, com outra aparência, a visão positivista da No caso, o pensador italiano refere-se à categoria específica dos Em tais trabalhos, em geral, são estudados aspectos particularizados e "intelectuais orgânicos", ou o grupo funcional que tem por tarefa teorizar, setoriais de regiões ou micro-regiões, implicando a individualização de tornar e difundir os valores e as idéias da classe dominante por todo fatores, na maior parte das vezes sem um maior questionamento de seu o corpo social. alcance e limites para a explicação da realidade. Neste sentido, pode-se dizer que a história foi sempre um dos campos Sem dúvida, é uma "história" que estuda a "região", mas numa preferidos de recrutamento desta categoria de intelectuais defensores do concepção bem distante daquela apresentada anteriormente. sistema, uma vez que se desincumbe da tarefa de resgatar para a classe Caberia explicitar mais, como exemplo, a persistência de uma história dominante um passado que a enobreça, pleno de atos de bravura e honradez, regional, que aparece com muita insistência em textos acadêmicos e aos quais no presente ela dá continuidade. Como herdeiro deste passado, no didáticos, numa "região" do país: o Rio Grande do Sul. qual pontificam como heróis personagens das camadas privilegiadas, a classe De antemão, deve ser precisado que não se limitam a este gênero que dominante apresenta, através da construção de uma história regional, a visão será explicitado os estudos realizados no âmbito da história regional no Rio que possui de si mesma: digna, justa, merecedora da posição que ocupa. Grande do Sul. Entretanto, o viés da história regional que se irá analisar nas Neste intento, elabora-se uma visão da realidade regional na qual se suas características mais gerais é significativo para que se possa apreciar o a noção de processo: o contexto histórico configura-se como espaço de atuação de um grupo na sociedade, instrumentalizando ideologica- imutável, o Rio Grande do Sul apresenta ao longo do tempo características mente uma noção de história para legitimar sua posição de predomínio e que não se alteram e a região e seus habitantes possuem contornos definidos hegemonia na e perenes. Constantemente reatualizada e mesmo patrocinada pelos mcios oficiais, Seguindo tal postura, o Rio Grande do Sul foi sempre o "paladino da esta história apresenta uma visão tradicional e conservadora. Pretende a liberdade", lutou sempre por "causas justas" e seu povo possui "virtudes preservação de uma estrutura econômica determinada, ligada aos interesses inatas", representadas na figura do gaúcho: altanciro, destemido, livre etc. das classes dominantes, que não exercitam a hegemonia a nível nacional, Tal visão idealizada se complementa na idéia de que na sociedade sulina não mas sim localmente. A rigor, cada grupo que ocupa o poder procura havia hierarquias ou distinção sociais. Teria vigorado uma verdadeira constituir, para si, um quadro de intelectuais que se encarrega de e "democracia dos pampas", na qual peão e estancieiro trabalhavam lado a difundir a ideologia, legitimando e solidificando a posição hegemônica lado, irmanados ambos pela identificação na mesma figura mítica do gaúcho, daquele grupo e dando coesão ao corpo social. Criadores da ideologia da "centauro dos pampas", "monarca das coxilhas" classe dominante, responsáveis pela produção científica, os intelectuais Ora, dentro de um contexto histórico forjado no confronto permanente atuam no seio da sociedade civil (partidos, igreja, sindicatos, sistema entre grupos armados, onde o autoritarismo, a arbitrariedade e a violência educacional, atividades culturais), bem como no da sociedade política, como imperaram, onde verificou-se um processo paralelo de extrema concentração administradores, funcionários, militares, políticos. da propriedade da terra, é difícil não deixar de pensar também no gaúcho Segundo Gramsci: como um elemento subalterno, dominado e despossuído. Expulso da terra mediante o cercamento dos campos, este "pária do pampa" foi, progressiva- sobre as modas e os modos de produção do conhecimento histórico. KLIEMANN, Luiza H. S.; PESAVENTO, Sandra Jatahy & PETERSEN, Silvia R. Ferraz. Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Porto Alegre, 1984. Encontro Regional de História. Núcleo-RS SNPVGH. p. 7. Brasileira, 1979, p. 3. 72 73mente, engrossar as camadas proletarizadas da periferia das grandes cidades do suposta identidade de interesses, oferece-se uma visão do passado no qual não Estado, num processo de êxodo rural que ainda nos dias de hoje se faz sentir só a classe dominante apareça como representante de todos os interesses da de maneira tão pronunciada no Rio Grande. sociedade como inclusive a sociedade como um todo se enxergue a si mesma Será este o tão decantado gaúcho livre e soberano, celebrado pela pelos valores de classe dominante. historiografia oficial, protagonista de tantos feitos heróicos? É este o Indo mais além, a história regional personifica a região: o Rio Grande personagem central da história gaúcha, da qual todos são herdeiros e todos é o gaúcho e as virtudes e características daquele símbolo são as do povo rio- devem se identificar? grandense em geral. Este é, aliás, um dos temas que melhor se prestam para revelar o Tece-se, assim, uma visão não-crítica da realidade, na qual se extirpa o da demonstração/ocultação da ideologia na construção do conflito do contexto histórico regional como as diferenças sociais. conhecimento histórico. Sociedade homogencizada, os fatores de atrito são projetados para o exterior, A história regional, no caso, apresentada de forma oculta a ou seja, para fora do Rio Grande. É o caso, por exemplo, da situação dominação, nega o conflito e restaura do passado uma figura idealizada que conflitiva entre interesses regionais e os nacionais, que se repetem através não corresponde ao processo histórico real. Na historiografia oficial, do tempo (Revolução Farroupilha, Revolução de 30 etc). senhores de terra e de gado e peões se mesclam num só personagem: o Esta claboração ideologizada da história regional rio-grandense teve o gaúcho heróico, altivo e honrado que generaliza estas virtudes para o scu surgimento no período da chamada República Velha, quando a pecuária homem rio-grandense em geral. era ainda relativamente forte no Rio Grande do Sul. Entretanto, para que Neste sentido, a história regional realiza uma homogencização: todos pudesse se manter no poder ao longo dos 40 anos da República, a os habitantes do Rio Grande do Sul são iguais, todos são herdeiros de política republicana dos pecuaristas gaúchos estabeleceu sólida aliança tradições gloriosas (como a da Revolução Farroupilha, tema predileto da com as frações não-agrárias da burguesia local (comerciantes, industriais e historiografia oficial) correspondem à figura idealizada do gaúcho. banqueiros). Tal aliança possibilitou que a outra fração dos pecuaristas, Ao proporcionar esta identificação, a história regional, ideologicamen- arregimentados na oposição se mantivesse à tc, instrumentaliza a auto-imagem da classe dominante, "universalizando-a" margem do controle político do Estado ao longo de toda a República Velha. para todo o corpo social. A idéia que a classe dominante constrói de si Para o grupo republicano no poder, cra preciso resgatar para si um passado mesma e que se projeta na figura do gaúcho mítico passa a ser accita por que o enobrecesse e que fosse capaz de se apresentar como que comum a todas as demais camadas sociais. todos, sem distinção de classes, etnia ou atividade. Os intelectuais orgânicos No momento em que uma visão, construída a partir de determinados do republicanismo, reunidos no Instituto Histórico e Geográfico do Rio interesses, passa a ser aceita inclusive pelos dominados, a ideologia teria se Grande do Sul, se encarregaram de, pouco a pouco, irem construindo uma realizado como senso comum. determinada imagem da história regional na qual a classe dominante fosse a Como refere Chauí: protagonista principal: o gaúcho, "monarca das coxilhas", era o símbolo das "virtudes da raça": bravura, anseios libertários, Rio Grande, "(...) prossegue tomando-se aquele que Gramsci denomina de 'senso região mais "democrática" e "branca" do país, bastava-se a si mesma com a comum', isto é, ela se populariza, toma-se um conjunto de idéias e valores sua disciplina partidária republicana e a sua diversificada economia. concatenados e coerentes, aceitos por todos os que são contrários à Esta visão de autonomia e isolacionismo, correspondeu, no plano dominação existente e que imaginam uma nova sociedade que realize estas idéias e estes valores. (...) ou seja, o momento essencial da consolidação concreto, a uma fase em que o Rio Grande se posicionou à margem do social de ideologia ocorre quando as idéias e valores da classe emergente controle nacional do poder, não disputando a presidência do país e que sua são interiorizados pela consciência de todos os membros não dominantes da Seria assim no caso da historiografia oficial rio-grandense ao claborar a Os "maragatos" eram os integrantes do Partido Federalista Brasileiro, formado em 1892 com ex-liberais e que se articularam no Rio Grande do Sul como oposição ao Partido sua versão da história regional: o conflito, bascando-se numa Republicano Rio-grandense. Maragatos dissidentes republicanos formaram no Estado em 1923 a chamada Aliança Libertadora, que em 1928 se organizou como Partido Libertador. A Marilena. que é ideologia. 7 São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 108. oposição maragato-libertadora era integrada majoritariamente por estanciciros. 75 74economia agropecuária, baseada na produção de gêneros de subsistência, "in país haveriam de acentuar a defasagem já existente entre a economia gaúcha natura" ou industrializados, dava à região o cognome de "celeiro do país". e a do eixo Rio-São Paulo; a ascensão de Getúlio ao poder (e a sua No final da década de 20 e nos anos 30 que se seguiram, acentuaram-se consolidação) não permitiria aos gaúchos fazer reverter em seu proveito os as atribulações que a pecuária gaúcha vinha experimentando ao longo da rumos da política nacional; internamente, os pecuaristas acentuariam sua República Velha. Desde há muito que os pecuaristas, enquanto fração da crise específica, sem que contudo o setor primário do Estado caísse tanto ao classe dominante estadual, não detinham com exclusividade o poder, cedendo ponto de ser substituído, tal como no centro do país, pelo setor secundário gradativamente terreno aos novos grupos emergentes detentores de outras como o principal responsável pela formação da renda interna do Estado. formas de capital não-agrário. Assim, não houve no estado o recrutamento de um novo quadro de A esta reorientação do arranjo social interno de forças correspondeu intelectuais que difundisse e legitimasse uma ordem urbano-industrial em uma maior integração do estado com a política nacional. substituição à ordem agrária em crise. Em 1930, a derrubada de São Paulo e dos cafeicultores do poder central A esta situação assim configurada correspondeu um reforço dos não foi substituída pela ascensão do Rio Grande e dos pecuaristas. Um mecanismos ideológicos de sustentação do grupo de poder regional. gaúcho na presidência Getúlio Vargas não significou a hegemonia do Manteve-se o apego a uma visão saudosista do passado, de uma época estado sulino sobre os destinos da nação. em que os pecuaristas dominavam incontestes o poder regional e na qual o Havia uma gama de problemas e interesses sociais, regionais e mesmo descompasso do Rio Grande com o centro do país não apresentava diferenças setoriais da economia a satisfazer, que extravasavam em muito as tão acentuadas. expectativas regionais de uma ala dos gaúchos na sua pretensão de controlar Este foi o momento em que se consolidou a historiografia oficial no o poder central. 0 grupo que acompanhou Vargas Oswaldo Aranha, Estado, glorificadora do seu passado, exaltadora das virtudes do povo rio- Lindolfo Collor e outros tinha uma visão mais "nacional" das questões a grandense, dignificadora dos seus heróis. enfrentar: ligou-se aos novos grupos econômicos emergentes no centro do Difundida nas escolas, esta visão da história representou uma forma país (empresários, industriais), procurou atender os interesses das diversas não-crítica de estudar o passado, mesclando a influência positivista do relato economias regionais, deu início ao controle pelo Estado da questão social, linear, cronológico e seqüencial com a postura idealista de resgatar os com a claboração de uma legislação trabalhista, estendeu a esfera de atuação grandes feitos dos heróis. do Estado para os diferentes setores de economia e aumentou a interferência É digno ainda de consideração que, justamente no momento em que a do poder executivo central. classe dominante enfrentava uma crise, fossem reforçados os aparatos Neste contexto, o Rio Grande do Sul viu-se cada mais vinculado às ideológicos de sua sustentação no poder. decisões do poder central, particularmente no que toca à reorientação dos Esta visão da história regional tem atravessado as épocas, de forma rumos do desenvolvimento capitalista brasileiro e às decisões da política ideologizada e se encontra presente, como senso comum, na maior parte das federal. camadas sociais. Brasil, como um todo, transitou progressivamente, nas décadas de 30 Nunca se produziu tanto, em termos de história regional, como hoje, e 40, de um modelo de desenvolvimento capitalista baseado na agrocxpor- com publicações de obras e artigos que vão desde o plano didático, com as tação para um baseado na indústria. Enquanto que a grande indústria se comemorações oficiais do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha até o nucleava no eixo Rio-São Paulo, o Rio Grande do Sul teve reafirmada a sua âmbito universitário, onde trabalhos com linguagem mais sofisticada tradicional posição de "celeiro do país", vinculando-se cada vez mais ao reproduzem velhos clichês de 50 anos atrás... fornecimento do mercado interno brasileiro. O saldo, contudo, é o mesmo: uma história regional comprometida Findava o isolacionismo e o Rio Grande especializava-se exportar com a permanência, com o imobilismo, com a restauração de velhos ideais gêneros alimentícios, beneficiados ou não, para o mercado nacional, que elaborados em função de outras realidades. fossem vendidos a baixo preço para os consumidores urbanos do centro do que, no caso, poderia ser feito para resgatar a história regional desta país. sua tendência? Na verdade, todo este processo iria revelar uma grande frustração As soluções, no caso, passariam pela própria compreensão do sentido histórica para o Estado: as alterações do padrão de acumulação capitalista do da história, encarando o conhecimento científico nesta área como um de 76 77escrevem a história não desvirtue a legitimidade da ciência. Nem instrumento possibilitador da transformação da realidade, um conhecimento objetividade absoluta nem pura eis a questão. que, apostando na mudança, esteja engajado com uma perspectiva de ação. Como refere Pereyra: Conhecer para agir, entendendo que a ação política não pode estar dissociada do conhecimento científico, assim como a ciência não pode estar "Da función teórica de la história (explicar el movimiento anterior de la dissociada da sociedad) y su función social (organizar el pasado función de los Na verdade, é preciso contrabalançar a legitimidade com a utilidade do requerimientos del presente) son complementarias: el saber intelectual recibe conhecimento histórico¹³. sus estímulos más profundos de la matriz social en permanente abullición y, a Enquanto produção do conhecimento científico, a história é dotada de la vez, los conocimientos produzidos en la investigación histórica están en la base de las soluciones que se procuran en cada uma necessária objetividade. Como ciência, pressupõe uma teoria (um conjunto articulado de conceitos que dão uma visão explicativa da realidade) Não se pode desvincular a história que se escreve e se investiga da e um método (forma de aplicação de teoria na análise da realidade). Tais inserção do historiador na realidade, como homem do seu tempo. Como atributos ou requisitos compatíveis com o seu caráter de ciência não podem refere Chesneaux¹⁵, é preciso pensar historicamente o presente, para mudá- ser desvirtuados mas também não podem, por si, eliminar a subjetividade ou carga ideológica também inerente ao conhecimento científico. Não há lo, e para tanto, deve-se retornar ao passado com os olhos no presente. ciência neutra e, como tal, aprender história tem uma utilidade para o agir Não apenas o conhecimento do passado é fundamental para a dos homens. A história operária, em última análise, como um guia para a compreensão e ação no presente, como inclusive se pode melhor eleger o que investigar no passado se se possui um ponto de vista mais definido ação e para a compreensão do próprio presente. sobre a situação no presente¹⁶. Não se trata, em absoluto, de que se tenha a idéia de que o conheci- Neste caso, a tarefa do historiador seria: mento do passado dê plena manipulação da situação concreta do presente. Nem a história é a "mestra da vida" nem ela se repete. A rigor, cada momen- "Recuperar el movimiento global de la sociedad, produzir conocimientos que to histórico é, em si, único, porque corresponde a uma forma determinada de pongan en crises las versiones ritualizadas del pasado y enriquecer el campo interligação íntima entre as diferentes instâncias da realidade. temático incorporando las questiones suscitadas desde la perspectiva E preciso perceber que, em cada situação história concreta, os homens ideológica del bloqueo social foram capazes de lutar por valores que se relacionavam com a sua forma de organização em termos de poder e com as formas engendradas de reprodução O resultado deste processo seria a elaboração de um conhecimento das suas necessidades de existência contendo entre si relação de composição crítico, engajado com um processo de transformação da sociedade, essencial ou oposição. Deve ser afastada a visão pedagógica da histórica, de que o para recuperar o sentido dinâmico de entendimento da história regional. exame da situação passada mostra o exato caminho a seguir no presente ou de que os exemplos dos homens do passado devem pautar a conduta dos homens contemporâneos. Por outro lado, não se pode pensar que o discurso histórico, ou o conhecimento histórico possa ter apenas uma função cognitiva: estudar história por erudição, realizar o conhecimento pelo próprio conhecimento. problema, na verdade, consiste em fazer com que a utilização portanto, dos homens que fazem e a ideologia da neutralidade ideológica da ciencia, consultar, VÁSQUEZ, Adolfo op. cit. p. 28. Sánchez. "La ideologia de la 'neutralidade ideológica' en las ciencias sociales. In: História y Jean. ¿llacemos tabla rasa del pasado? México, Siglo XXI, ed. 1981. Sociedad. N. 7, Marzo 1975, México, p. 9-25. op. cit. p. 26. PEREYRA, Carlos. História, ¿para quê? In: PEREYRA, Carlos et alii. História, ¿para op. cit. 24. quê? México, Siglo XXI, 1982. 79 78