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SERVIÇO SOCIAL INTEGRADO Dra. Giselle Soares GUIA DA DISCIPLINA 1 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. SERVIÇO SOCIAL E SOCIEDADE Objetivo Relacionar o serviço social enquanto profissão com o conjunto das relações sociais e com a produção material do serviço social. Introdução O serviço social como profissão se insere na divisão sociotécnica do trabalho, ao mesmo tempo, tem como propósito realizar diferentes formas de intervenção que responda ao conjunto das expressões da questão social constitutivas da nossa sociedade. 1.1. Serviço Social como Profissão O serviço social é uma profissão que se insere no conjunto das relações sociais construídas a partir da produção e reprodução material da vida social. Sabemos que sua formação se vincula à tentativa de responder minimamente às contradições sociais, ao conjunto de fatos que retratam em nossa sociedade a realidade multifacetada da questão social. Nesse sentido, a profissão se consolida com a construção dos direitos sociais, intervindo em diferentes espaços sócio-ocupacionais e respondendo às diversas situações de violação de direitos presentes na vida social. Tal intervenção é a própria prática profissional e caracteriza a existência da profissão e todo o debate que circunda a relação entre teoria e prática. O enfrentamento da questão social e a intervenção em situações de violação de direitos configuram desafios ao exercício da profissão, mas não são os únicos. Além deles, podemos considerar a questão em torno da afirmação da identidade da profissão, podemos considerar a questão da profissão como parte do conjunto das profissões de nossa sociedade. A prática profissional do serviço social se realiza pelo trabalho técnico, pela ação profissional interventiva que demanda formação e que se configurou como tal a partir de um processo de afirmação e luta não só social, mas também da existência da profissão. 2 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Afinal, o serviço social se insere no movimento da sociedade, sendo também produto da história e do tempo, ao qual ela se insere. https://www.cresspr.org.br/site/ser-assistente-social-e-atuar-em-defesa-dos-direitos-humanos Nesse quadro, é necessário destacar o fato de o profissional de serviço social enfrentar os mesmos dilemas que enfrentam os demais trabalhadores formais ou informais que se inserem no mercado de trabalho, pois com as novas configurações do trabalho passamos a lidar com situações diferenciadas. 1.2. Serviço Social e Trabalho No curso da vida social a questão social e o trabalho assumiram formas diferenciadas, demandando ações e intervenções estatais, bem como das estratégias governamentais. Durantes as fases iniciais do capitalismo, até o fordismo o trabalho foi atividade social de destaca, pois, a sociedade girava em torno de sua realização e de sua capacidade de produção, porém a crise do capital instituída desde as décadas finais do século XX gerou um processo de flexibilização das relações de trabalho. “No contexto da reestruturação produtiva e das políticas neoliberais, a partir do suposto receituário para enfrentamento da crise do capital diante dos seus processos de mundialização e financeirização” (Raichelis, 2011, p.420). https://www.cresspr.org.br/site/ser-assistente-social-e-atuar-em-defesa-dos-direitos-humanos 3 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância http://www.assufba.org.br/novo/desemprego-subocupacao-e-precarizacao Raichelis destaca as consequências da flexibilização para o trabalho, bem como a maximização dos lucros e o aumento da competitividade, inclusive na realidade social brasileira. No caso do Brasil, onde a precarização do trabalho, a rigor, não pode ser tratada como um fenômeno novo, considerando sua existência desde os primórdios da sociedade capitalista urbano-industrial, as diferentes formas de precarização do trabalho e do emprego assumem na atualidade novas configurações e manifestações, especialmente a partir dos anos 1990, quando se presenciam mais claramente os influxos da crise de acumulação, da contrarreforma do Estado e da efetivação das políticas neoliberais (Raichellis, 2011, p.421). Desse modo, a prática profissional e a própria profissão passaram a enfrentar os desafios constitutivos da nova dinâmica da vida social, situação que indica o quanto o movimento processual da realidade social, bem como a intensidade, a qual a profissão vincula-se à realidade social. Raichellis (2011, p.422) destaca que a “dinâmica flexibilização/ precarização atinge também o trabalho do assistente social nos diferentes espaços institucionais”, entre as consequências desse processo podemos considerar a “insegurança do emprego, precárias formas de contratação” e, ainda “ausência de políticas de capacitação profissional”. Há outras características que demonstram a realização da precarização do trabalho. Cabe ressaltar que a reflexão sobre a inserção do trabalho do assistente social no quadro de flexibilização das relações de trabalho faz parte do exercício de entre teoria e prática que define a profissão, ou seja, só podemos alterar a dinâmica das relações sociais quando tomamos consciência do processo, ao qual nos inserimos. http://www.assufba.org.br/novo/desemprego-subocupacao-e-precarizacao%20Acesso%20em%2020/10/21 4 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1.3. Serviço Social na Divisão Sociotécnica do Trabalho O serviço social se institui como profissão no contexto do capitalismo monopolista e seu processo de institucionalização profissional se dá a partir do processo de intervenção demandada ao Estado para promover ações e políticas sociais capazes de responder aos efeitos causados pela questão social. Nesse processo, o serviço social tem sua trajetória marcada pela construção da autorrepresentação de sua profissão e de “discurso centrados na autonomia dos seus valores e de sua vontade” (Netto, 2005, p.71-72). O autor considera que o fazer profissional se insere em atividades interventivas, [...] cuja dinâmica, organização, recursos e objetivos são determinados para além do seu controle. [...], o que [esse] deslocamento altera visceralmente, concretizando a ruptura, é, objetivamente, a condição do agente e o significado social de sua ação; o agente passa a inscrever-se numa relação de assalariamento e a significação social de seu fazer passa a ter um sentido novo na malha da reprodução das relações sociais. Em síntese: é com esse giro que o Serviço Social se constitui como profissão, inserindo-se no mercado de trabalho, com todas as consequências daí derivadas (principalmente com o seu agente tornando-se vendedor da sua força de trabalho) (Netto, 2005, p. 71-72). Desse modo, a profissão de assistente social se soma às demais profissões e passa a contribuir à mercantilização das relações e à produção de valor que se volta ao processo de ampliação do capital, mas ao mesmo tempo o exercício da profissão requer formação específica e demanda a realização de trabalho social e técnico. Além disso, demanda desenvolvimento de uma prática que se utiliza de “recursos materiais, humanos e financeiros para o para o desenvolvimento de programas, projetos serviços, benefícios e de um conjunto de outras atribuições e competências, de atendimento direto ou em nível de gestão e gerenciamento institucional” (Raichellis, 2011, p.425). 5 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.123/3519 O desenvolvimento de ações institucionais seja no setor público, seja no setor privado pode levar ao comprometimento da autonomia da profissão, embora e o retorno a elas. O conhecimento adquirido através deste movimento possibilita sistematizações e construções teórico-metodológicas que orientam a direção e as estratégias de ação e da formação profissional (dimensão formativa), bem como permite aprofundar os fundamentos teóricos que sustentam as intervenções profissionais (Guerra, 2017, p.63). Nesse sentido, o caráter interventivo da profissão reflete todo o conjunto teórico, ao qual o profissional deve ter apropriado em sua formação, considerando que esse processo deve se constituir de forma perene. https://ecoa.puc-rio.br/ No entanto, essa intervenção revela a necessidade também da apropriação de um conjunto de técnicas, legislações, princípios éticos, ou seja, a intervenção profissional se realiza por meio de uma ação racional, projetada, planejada e avaliada, exigindo que essa intervenção expresse um “conjunto de valores e princípios que permitem ao assistente social escolhas teóricas, técnicas, éticas e políticas” (Guerra, 2017, p.65). Ao fazer escolhas, no que se refere às finalidades estabelecidas aos meios (condições, instrumentos e técnicas) para alcançá-las, que resposta dar e em que direção, o assistente social exerce sua dimensão ético-política, a qual se preocupa com os valores (de que valem as respostas dadas) e com direção social delas (que https://ecoa.puc-rio.br/ 33 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância conjunto de forças está sendo contemplado nas respostas). Mas não o faz sem conflitos éticos que são próprios dos homens e mulheres que partilham desta experiência contraditória de viver no mundo burguês (Guerra, 2017, p.65). Tais aspectos remetem à contradição constitutiva da vida em sociedade orientada pelo modo capitalista de produção, ao mesmo tempo, nos propicia apontamentos que explicam sobre a dimensão técnico-operativa do serviço social desenvolvida em compasso com a dimensão ético-política da profissão e, respaldada pela dimensão teórico- metodológica da profissão. 5.3. Apontamentos sobre a Dimensão Técnico-operativa A realização da dimensão técnico-instrumental se articula com a dimensão ético- política e teórico-metodológica, a articulação entre tais dimensões propicia o acesso ao conhecimento, seja da realidade social, seja das condições materiais para a reprodução humana, seja para o desenvolvimento da técnica e de instrumentais para a realização da intervenção. [...] a relação teoria e prática como unidade do diverso, a escolha dos meios (o método, as técnicas e os instrumentos) a serem utilizados pelo profissional e das mediações que ele deverá acionar na sua intervenção se darão em função das condições objetivas e de suas finalidades e os instrumentos, técnicas e estratégias que serão estabelecidas no interior do projeto profissional, o que exige uma formação profissional qualificada (Guerra, 2017, p.66). Assim, na realização das competências necessárias para a realização da prática profissional a dimensão técnico-operativa se revela associada às demais, caracterizando que a prática profissional não se realiza de forma desarticulada da teoria ou do conjunto de conhecimentos necessários para realizar a intervenção profissional. https://d.facebook.com/editoracortez/photos/ https://d.facebook.com/editoracortez/photos/ 34 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Portanto, a razão enquanto totalidade e, não apenas instrumental, deve prevalecer no exercício da profissão, pois as “racionalidades enquanto formas de ser, pensar e agir dos processos sociais e das práticas profissionais” permitem que se realize a relação entre conhecimento, capacidade de interpretação da realidade social e, efetivamente, trabalho técnico-profissional (Guerra, 2017, p.71). Ao problematizar a dimensão técnico-operativa, o assistente social pode refletir sobre o tipo de racionalidade acionada, tendo em vista sua instrumentalidade [...] desvendar a estrutura do cotidiano é um procedimento intelectivo necessário para problematizar a concepção instrumental da intervenção profissional – compreendida como um conjunto de técnicas e procedimentos metodológicos – e a de cotidiano, como o lugar onde se “aplica” a teoria, de modo a questionar a premissa de que o Serviço Social se realiza mediante uma prática “tecnificada” ou “teorizada” (Guerra, 2017p.72/ 73). Cabe ressaltar que a reflexão e o debate sobre as dimensões orientam sobre o papel profissional, bem como sobre a necessidade de a profissão realizar respostas qualificadas às questões presentes na nossa sociedade que se configuram como violação de direitos. Portanto, a ação profissional assume dimensão política, contribuindo para a luta e construção dos direitos sociais. Nesse sentido, o exercício da profissão se realiza através do exercício da razão. 35 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. REFLEXÕES SOBRE O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO Objetivo: Compreender como se caracteriza a dimensão técnico-operativa do serviço social. Introdução: O serviço social é uma profissão de caráter interventivo, demandando reflexão e debate sobre suas diferentes possibilidades de intervenção profissional, o que demanda pensar sobre a sua instrumentalidade e a racionalidade presente no seu fazer profissional. 6.1. Planejamento Social O fazer profissional e a realização da prática profissional demanda planejamento, um mecanismo que permite a realização do exercício da racionalidade com vistas a alcançar os objetivos profissionais, bem como a efetivação dos valores e princípios preconizados no seu projeto ético-político. Segundo Baptista (2007, p.13), o planejamento é uma ferramenta utilizada para racionalizar meios e recursos. Atividade humana ligada ao plano teleológico, capacidade humana de projetar e realizar, o que permite uma sistemática para a realização de estratégias necessárias para alcançar um objetivo definido previamente. Nesse sentido, a realização do planejamento envolve um processo dinâmico e contínuo que envolve reflexão, decisão, ação e retomada de reflexão. Sua dimensão política envolve a correlação de forças e na área social abarca a dimensão ético-política, pois agrega uma intencionalidade na ação, ou seja, qual o fim e o objetivo último que se pretende realizar em um planejamento que ultrapassa o equacionamento e a sua operacionalização (Baptista, 2007, p.14). Nesta perspectiva é importante pensar que há diferentes tipos de planejamento, por exemplo, o planejamento estratégico situacional trabalha com a responsabilização dos sujeitos envolvidos no processo, ou seja, se realiza considerando os diferentes profissionais envolvidos na ação e dependendo da ação planejada, envolve também usuários. 36 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância https://docero.com.br/doc/n81es1 Tal ferramenta compreende as seguintes etapas: a explicativa indaga sobre realidade da intervenção e compreende a pergunta: ‘o que é?’; o normativo envolve o levantamento de propostas sobre o que se deve realizar ou realizar, envolve a questão: ‘o que deve ser?’; o estratégico se propõe a refletir coletivamente sobre o questionamento da viabilidade da realização de determinado projeto, perguntando sobre: ‘o que pode ser?’; o tático-operacional compreende a fase de identificação do que é necessário ser feito para a implementação de um projeto ou do que deve ser feito. A realização de tal estratégia permite a articulação entre gestão e a política da intervenção, bem como o meio de pressão pública para o cumprimento dos objetivos. Exemplo: planejamento participativo compreende um processo educativo e participativo, se pauta na distribuição do poder para a construção de algo comum. A participação se realiza pela promoção da justiça social. Envolve os questionamentos: como? Com que? O que? Para que? Fazer. É importante que o profissional de serviço social faça uso constante do planejamento de seu trabalho ou dos projetos de intervenção, os quais participa, considerando que tal realização corresponde ao uso da racionalidade, tal exercício sempre deve se realizar de forma intencional, vislumbrando a realização da prática profissional, bem como a afirmação de valores e princípios que reflitam a dimensão ética e política da profissão. https://docero.com.br/doc/n81es1 37 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6.2. Prática Profissional: perfil da ajuda A prática profissional do serviço social resulta foi construída a partir de um processo marcado por determinações sócio-históricas e diferentes situações que marcaram e marcam a vida social. https://institutoreacao.org.br A formação da profissão foi marcada por valor conservador que acabou por influenciar a mediação profissional realizada e seu conjunto de práticas e intervenções. Nesse contexto, à prática profissional associou o perfil pedagógico da ajuda. A função pedagógica dos assistentes sociais no processo de institucionalização do Serviço Social na Europa e nos Estados Unidos, na primeira metade deste século, vinculada ao processo de organização da cultura dominante, funda-se numa visão psicologista de questão social, reduzida às suas manifestações individuais. Este entendimento consubstancia a “ajuda” psicossocial individualizada, modalidade interventiva que traduziu a expressão mais elaborada da prática dos assistentes sociais na referida fase do desenvolvimento profissional (Abreu, 2016, p.100). É importante considerar que o perfil da ajuda respondeu aos interesses capitalistas, gerando respostas individualizadas aos efeitos da questão social presente na sociedade. Assim, a ação profissional baseada no perfil ‘da ajuda’ foi respaldada por bases técnicas e científicas que buscassem a conformação de valores morais e de um processo de integração social dos indivíduos nessa lógica e dinâmica societal. A pedagogia da “ajuda” em Serviço Social aprofunda-se, complexifica-se e transforma-se como parte do redimensionamento profissional face às demandas contraditórias das classes sociais, bem como à correlação de forças estabelecida entre elas e ainda aos compromissos e avanços profissionais na direção de determinado projeto de sociedade, expressando-se de formas diferenciadas integradas à composição de outros perfis pedagógicos da prática profissional (Abreu, 2016, p.124). https://institutoreacao.org.br/ 38 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Nesse quadro, a prática profissional assentada em conceitos, valores e visão que buscasse preservar a conformação da sociedade e individualização das demandas sociais, propiciou o debate e condições para a construção de um outro perfil e prática profissionais capaz de considerar a racionalidade e a autonomia daqueles que se encontram em situação vulnerável. 6.3. Prática Profissional: perfil da participação A pedagogia da “participação” vinculada à prática profissional do serviço social se desenvolve na realidade latino-americana a partir dos trabalhos de desenvolvimento de comunidade, orientando-se por uma perspectiva mecanicista e vinculada ao processo de modernização conservadora vivenciado no continente e que correspondeu à expansão do capitalismo monopolista, fato que representou a consolidação dos Estados Unidos como principal país capitalista. https://www.livrariaflorence.com.br O trabalho desenvolvido em comunidades visava alcançar os trabalhadores, buscando integrá-los à sociedade, por meio de participação em programas e projetos sociais, configurando em formalização de ‘ajuda’ aos trabalhadores pauperizados. Assim, a política participacionista, nesses marcos definida, reatualiza a “assistência educativa” como uma nova modalidade de manipulação das necessidades e recursos institucionais, superdimensionando os mecanismos de controle e de responsabilização dos sujeitos individuais quanto ao alcance do “bem-estar social”, mediante a introdução de novos mecanismos de persuasão e coerção dos sujeitos envolvidos, bem como revitalizando processos já consolidados, sob pretexto de superação do assistencialismo (Abreu, 2016, p.129). https://www.livrariaflorence.com.br/ 39 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Desse modo, o processo de participação corresponde à possibilidade da população participar da sociedade através de ações, programas, estratégias governamentais. Trata- se de realização da mediação do Estado para assegurar as condições de desenvolvimento e expansão do capital. Todavia, são as experiências desencadeadas nos marcos das estratégias participacionistas, do processo de desenvolvimento em seus diferentes momentos na sociedade brasileira que, contraditoriamente, vão constituindo espaços possíveis de confronto entre projetos sociopolíticos diferenciados, na medida em que, determinados pelo movimento contraditório, viabilizam processos participativos críticos e de busca de articulação entre forças sociais, na luta por melhorias de condições de vida e ampliação dos espaços políticos de expressão dos interesses das classes subalternas (Abreu, 2016, p.151) A dimensão pedagógica da profissão está presente nas práticas sociais e se realiza pelas mediações. Temos o perfil da ajuda e o da participação. O perfil da ajuda remete para a prática conservadora, tradicional que opera na realização da ordem social, afirmando a condição de subalternidade dos indivíduos. O da participação se realiza na perspectiva o empoderamento dos sujeitos, para que se constitua como transformador da sua realidade e do seu próprio projeto de vida, vinculando-se a uma pedagogia emancipatória. 40 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância ABREU, Marina Maciel. Serviço Social e a Organização da Cultura: perfis pedagógicos da prática profissional. São Paulo: Cortez, 5ª ed., 2016. ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. BAPTISTA, Myrian Veras. Planejamento Social: intencionalidade e instrumentação. São Paulo / Lisboa: Veras Editora, 2007. GENTILLI, Raquel. Representações e Práticas: identidade e processo de trabalho no serviço social. São Paulo: Veras Editora, 1988. GUERRA, Yolanda. A Dimensão Técnico-Operativa do Exercício Profissional. In: SANTOS, C.M. & BACKX, s. & GUERRA, Y. (Orgs.) A Dimensão Técnico-operativa no Serviço Social: desafios contemporâneos. São Paulo: Cortez, 3ªed., 2017. NETTO, J.P. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. 4ª edição, São Paulo: Cortez, 2005. Oliveira, D. Entrevista com Zygmunt Bauman. https://revistacult.uol.com.br/home/entrevis-zygmunt-bauman Acesso em 11/10/2021 RAICHELIS, Raquel. O Assistente Social como Trabalhador Assalariado: desafios frente a violações de seus direitos. Serviço Social e Sociedade. São Paulo: Cortez, 107, 440-432, jul-set, 2011. SANTOS, C.M. & BACKX, s. & GUERRA, Y. (Orgs.) A Dimensão Técnico-operativa no Serviço Social: desafios contemporâneos. São Paulo: Cortez, 3ªed., 2017. VIEIRA, Evaldo. Sociologia da Educação: Reproduzir e Transformar. São Paulo: FTD, 1996. https://revistacult.uol.com.br/home/entrevis-zygmunt-bauman%20%20Acesso%20em%2011/10/2021 https://revistacult.uol.com.br/home/entrevis-zygmunt-bauman%20%20Acesso%20em%2011/10/2021 1. SERVIÇO SOCIAL E SOCIEDADE 1.1. Serviço Social como Profissão 1.2. Serviço Social e Trabalho 1.3. Serviço Social na Divisão Sociotécnica do Trabalho 2. TEORIA SOCIAL MODERNA 2.1. O Funcionalismo 2.2. A Teoria Social Crítica 2.3. A Sociologia Compreensiva 3. TEMPOS DE CONTEMPORANEIDADE 3.1. Sociedade Contemporânea 3.2. Neoliberalismo 3.3. Trabalho na sociedade contemporânea 4. SERVIÇO SOCIAL: IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO 4.1. Questões Associadas à Identidade da Profissão 4.2. O Serviço Social e suas representações 4.3. Serviço Social e Identidade 5. SERVIÇO SOCIAL INTEGRADO 5.1. Cotidiano e Fazer Profissional 5.2. As Dimensões da Profissão 5.3. Apontamentos sobre a Dimensão Técnico-operativa 6. REFLEXÕES SOBRE O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO 6.1. Planejamento Social 6.2. Prática Profissional: perfil da ajuda 6.3. Prática Profissional: perfil da participação se some à realização do trabalho coletivo no encontro do exercício de outras profissões. Tal situação se revela nos diferentes espaços sócio-ocupacionais onde o trabalho se realiza por ação especializada (Raichellis, 2011, p.425). Tal situação demanda reflexão e compreensão de aspectos teóricos da teoria social moderna, bem como da sociedade contemporânea que contribuem para que possamos interpretar a realidade social, bem como os aspectos que remetem às especificidades da profissão. Segue abaixo informação que explica sobre o CFESS e seu histórico, importante conhecer sobre o órgão que regula a profissão e refletir sobre o debate e as questões de representatividade da profissão. O CFESS corresponde ao Conselho que regulamenta e representa a profissão e sempre publicam materiais de referência, desenvolvem campanhas afirmativas do projeto ético-político da profissão, além de promover debates sobre as expressões da questão social, bem como questões vinculadas aos direitos. O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) é uma autarquia pública federal que tem a atribuição de orientar, disciplinar, normatizar, fiscalizar e defender o exercício profissional do/a assistente social no Brasil, em conjunto com os Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS). Para além de suas atribuições, https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.123/3519%20Acesso%20em%2020/10/21 6 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância contidas na Lei 8.662/1993, a entidade vem promovendo, nos últimos 30 anos ações, políticas para a construção de um projeto de sociedade radicalmente democrático, anticapitalista e em defesa dos interesses da classe trabalhadora. A criação e funcionamento dos Conselhos de fiscalização das profissões no Brasil têm origem nos anos 1950, quando o Estado regulamenta profissões e ofícios considerados liberais. Nesse patamar legal, os Conselhos têm caráter basicamente corporativo, com função controladora e burocrática. São entidades sem autonomia, criadas para exercerem o controle político do Estado sobre os profissionais, num contexto de forte regulação estatal sobre o exercício do trabalho. O Serviço Social foi uma das primeiras profissões da área social a ter aprovada sua lei de regulamentação profissional, a Lei 3252 de 27 de agosto de 1957, posteriormente regulamentada pelo Decreto 994 de 15 de maio de 1962. Foi esse decreto que determinou, em seu artigo 6º, que a disciplina e fiscalização do exercício profissional caberiam ao Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS) e aos Conselhos Regionais de Assistentes Sociais (CRAS). Esse instrumento legal marca, assim, a criação do então CFAS e dos CRAS, hoje denominados CFESS e CRESS2. Para efeito da constituição e da jurisdição dos CRESS, o território nacional foi dividido inicialmente em 10 Regiões, agregando em cada uma delas mais de um estado e/ ou território (exceto São Paulo), que progressivamente se desmembraram e chegam em 2008 a 25 CRESS e 2 Seccionais de base estadual. Os Conselhos profissionais nos seus primórdios se constituíram como entidades autoritárias, que não primavam pela aproximação com os profissionais da categoria respectiva, nem tampouco se constituíam num espaço coletivo de interlocução. A fiscalização se restringia à exigência da inscrição do profissional e pagamento do tributo devido. Tais características também marcaram a origem dos Conselhos no âmbito do Serviço Social O Processo de renovação do CFESS e de seus instrumentos normativos: O Código de Ética, a Lei de Regulamentação Profissional e a Política Nacional de Fiscalização. A concepção conservadora que caracterizou a entidade nas primeiras décadas de sua existência era também o reflexo da perspectiva vigente na profissão, que se orientava por pressupostos a-críticos e despolitizados face às relações econômico-sociais. A concepção conservadora da profissão também estava presente nos Códigos de Ética de 1965 e 1975: "Os pressupostos neotomistas e positivistas fundamentam os Códigos de Ética Profissional, no Brasil, de 1948 a 1975" (Barroco, 2001, p.95)3 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8662.htm 7 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O Serviço Social, contudo, já vivia o movimento de reconceituação e um novo posicionamento da categoria e das entidades do Serviço Social é assumido a partir do III CBAS (Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais), realizado em São Paulo em 1979, conhecido no meio profissional como o Congresso da Virada, "pelo seu caráter contestador e de expressão do desejo de transformação da práxis político-profissional do Serviço Social na sociedade brasileira" (CFESS, 1996). Embora o tema central do Congresso ressaltasse uma temática da grande relevância – Serviço Social e Política Social – o seu conteúdo e forma não expressavam nenhum posicionamento crítico quanto aos desafios da conjuntura do país. Sintonizada com as lutas pela redemocratização da sociedade, parcela da categoria profissional, vinculada ao movimento sindical e às forças mais progressistas, se organiza e disputa a direção dos Conselhos Federal e Regionais, com a perspectiva de adensar e fortalecer esse novo projeto profissional. Desde então, as gestões que assumiram o Conselho Federal de Serviço Social imprimiram nova direção política às entidades, por meio de ações comprometidas com a democratização das relações entre o Conselho Federal e os Regionais, bem como articulação política com os movimentos sociais e com as demais entidades da categoria, e destas com os profissionais. A partir de 1983, na esteira desse novo posicionamento da categoria profissional, teve início um amplo processo de debates conduzido pelo CFESS visando a alteração do Código de Ética vigente desde 1975. Desse processo resultou a aprovação do Código de Ética Profissional de 1986, que superou a "perspectiva a-histórica e a-crítica onde os valores são tidos como universais e acima dos interesses de classe" (CFESS, 1986). Essa formulação nega a base filosófica tradicional conservadora, que norteava a "ética da neutralidade" e reconhece um novo papel profissional competente teórica, técnica e politicamente. Em que pese esse significativo avanço, já em 1991, o Conjunto CFESS-CRESS apontava para a necessidade de revisão desse instrumento para dotá-lo de "maior eficácia na operacionalização dos princípios defendidos pela profissão hoje" (CFESS, 1996). Essa revisão considerou e incorporou os pressupostos históricos, teóricos e políticos da formulação de 1986, e avançou na reformulação do Código de Ética Profissional, concluída em 1993. Mais uma vez, sob coordenação do CFESS, o debate foi aberto com os CRESS e demais entidades da categoria em vários eventos ocorridos entre 1991/1993: Seminários Nacionais de Ética, ENESS, VII CBAS e Encontros Nacionais CFESS- CRESS. A necessidade de revisão da Lei de Regulamentação vigente desde 1957 já se fazia notar, ainda que de forma incipiente, desde 1966, quando da realização do I Encontro Nacional CFESS-CRESS, que colocara em pauta a discussão acerca 8 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância da normatização do exercício profissional, constatando-se, na ocasião, a fragilidade da legislação em vigor em relação às atribuições profissionais. Porém, somente em 1971 se discute o primeiro anteprojeto de uma nova lei no IV Encontro Nacional CFESS-CRESS e apenas em 1986 o deputado Airton Soares encaminha o PL 7669, arquivado sem aprovação, devido à instalação da Assembléia Nacional Constituinte. O tema volta ao debata nos Encontros Nacionais, onde se elabora a versão final do PL, apresentado desta feita, pelas deputadas Benedita da Silva e Maria de Lourdes Abadia. O processo legislativo foi longo em face da apresentação de um substitutivo o que retardou a aprovação final. O Conjunto CFESS-CRESS, no entanto, não se deixou abater tendo acompanhado e discutido o substitutivo nos seus fóruns até a aprovação da Lei 8662 em 7 de junho de 1993. A nova legislação assegurou à fiscalização profissional possibilidades mais concretas de intervenção, pois define com maior precisão as competências e atribuições privativas do assistente social. Inova também ao reconhecer formalmente os Encontros Nacionais CFESS-CRESS como o fórum máximo de deliberação da profissão. Além desses importantes instrumentos normativos há que se ressaltar a existência de outros que dão suporte às ações do Conjunto para a efetivação da fiscalização do exercício profissional. Portanto, podemos afirmar que todos os instrumentos normativos se articulam e mantêm coerência entre si: a Lei de Regulamentação, o Código de Ética, o Estatuto do Conjunto, os Regimentos Internos, o Código Processual de Ética, o Código Eleitoral, dentre outros, além das resoluções do CFESS que disciplinam variados aspectos. Dentre as resoluções destacam-se: a) Resolução 489/2006 que veda condutas discriminatórias ou preconceituosas, por orientação e expressão sexual por pessoas do mesmo sexo, reafirmando importante princípio ético contido na formulação de 1993; b) Resolução 493/2006 que dispõe sobre as condições éticas e técnicas do exercício profissional, que possibilita aos profissionais e aos serviços de fiscalização a exigência do cumprimento das condições institucionais que possibilite o desempenho da profissão junto aos usuários de forma ética e tecnicamente qualificada. Esse conjunto de instrumentos legais constitui a base estruturante da fiscalização do exercício profissional. Daí a importância de sua atualização para sustentar a Política Nacional de Fiscalização conectada com o novo projeto profissional, sintonizado com os anseios democráticos dos profissionais e seus usuários. A partir dessa ótica, o Conjunto redimensiona a concepção de fiscalização, compreendendo a sua centralidade como eixo articulador das dimensões política, formativa e normativa. A fiscalização passa a ter o caráter de instrumento de luta capaz de politizar, organizar e mobilizar a categoria na defesa do seu espaço de atuação profissional e defesa dos direitos sociais. 9 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância As primeiras experiências de fiscalização, embora com diferenciações entre os diversos CRESS, remontam a meados dos anos 1980. Inicialmente, os CRESS se preocuparam com sua organização administrativo-financeira, entendida como suporte fundamental às ações da fiscalização; avançaram para a identificação das demandas da categoria, conhecimento da realidade institucional, discutindo-se condições de trabalho, autonomia, defesa de espaço profissional, atribuições e capacitação, assim como a necessária articulação política do Conjunto com outros sujeitos coletivos. Nesse momento, metade dos CRESS então existentes, criou suas Comissões de Fiscalização, inicialmente formadas por conselheiros, sendo posteriormente ampliadas com a contratação de agentes fiscais. Mas, dificuldades se evidenciavam nos limites dos instrumentos legais (as primeiras ações de fiscalização tiveram lugar sob a vigência da Lei 3252/57) e também financeiros. Como forma de superação desses limites, o Conjunto apostava na construção coletiva fazendo emergir novos espaços para discussão e aprimoramento das experiências entre os CRESS, a exemplo dos Encontros Nacionais de Fiscalização, que se sucederam a partir do primeiro deles realizado em Aracaju (1988). Encontros Regionais também se organizaram visando a preparação para o Encontro Nacional. No 1o. Encontro Regional do Nordeste, em Fortaleza (1991) já se destacava a necessidade da construção de uma Política Nacional de Fiscalização (PNF). Com base nessa experiência, houve, a partir da gestão 1996-1999, a instituição dos Encontros Regionais Descentralizados, que ampliando sua pauta, incluíram a discussão de outras temáticas para além da fiscalização: ética, seguridade social, administrativo-financeira, comunicação, formação e relações internacionais. A Comissão Nacional de Fiscalização e Ética do CFESS (COFISET) assume então a responsabilidade de elaborar as diretrizes e estratégias para uma Política Nacional de Fiscalização do Exercício Profissional do Assistente Social, incorporando as principais demandas e discussões dos Encontros Regionais, que foram aprovadas no 25o. CFESS/CRESS, em Fortaleza, em 1996. Nos Encontros Nacionais dos anos seguintes (1997/1998) a discussão da PNF foi aprofundada, bem como outras normativas do Conjunto que se relacionavam com a fiscalização do exercício profissional. Esse processo culminou com a aprovação da Resolução CFESS 382 de 21/02/1999, que dispôs sobre as normas gerais para o exercício profissional e instituiu a Política Nacional de Fiscalização, sistematizada a partir dos seguintes eixos: potencialização da ação fiscalizadora para valorizar e publicizar a profissão; capacitação técnica e política dos agentes fiscais e COFIs para o exercício da fiscalização; articulação com as unidades de ensino e representações locais da ABEPSS e ENESSO; inserção do Conjunto CFESS-CRESS nas lutas referentes às políticas públicas. Tais eixos se articulam em torno de três dimensões, a saber: afirmativa de princípios e compromissos conquistados; político-pedagógica; normativa- disciplinadora.5 10 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A partir de então a PNF vem sendo um instrumento fundamental para impulsionar e organizar estratégias políticas e jurídicas conjuntas e unificadas para a efetivação da fiscalização profissional em todo o território nacional, levando-se em consideração, no entanto, as particularidades e necessidades regionais. Os espaços de discussões do Conjunto relativos à Política de Fiscalização têm sido ampliados, a exemplo dos Seminários Nacionais de Capacitação das COFIs que acontecem a cada 2 anos (realizados a partir de 2002), além da continuidade dos Seminários Regionais de Fiscalização que ocorrem juntamente com os Encontros Descentralizados, preparatórios para o Encontro Nacional. Outro espaço previsto é a Plenária Ampliada, para aprofundamento de alguma temática, e ainda o Projeto Ética em Movimento, espaço privilegiado para a ampliação do debate e reflexão ética. A atualização da PNF ocorrida em 2007 visou incorporar os aperfeiçoamentos necessários decorridos 10 anos da sua aprovação. O processo envolveu as Comissões de Fiscalização e culminou com a aprovação da Resolução CFESS 512 de 29/09/2007 que reformulou as normas gerais para o exercício da fiscalização profissional e atualizou a Política Nacional de Fiscalização, após intensas e profícuas discussões nos espaços deliberativos do Conjunto. Essa revisão manteve os pressupostos anteriormente definidos, conservando os eixos e dimensões estruturantes e avançou, por exemplo, na elaboração de um Plano Nacional de Fiscalização que se apresenta como um instrumento político e de gestão. http://www.cfess.org.br/visualizar/menu/local/o-cfess Acesso em 08/11/2021 http://www.cfess.org.br/visualizar/menu/local/o-cfess 11 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. TEORIA SOCIAL MODERNA Objetivo: Compreender as principais interpretações sociológicas sobre a sociedade moderna, considerando que tal percurso teórico respaldou a formação da dimensão teórico- metodológica do serviço social. Introdução: A teoria social moderna correspondeu às primeiras interpretações das ciências sociais sobre a vida em sociedade e seu processo de transformação. Até hoje, respaldam a produção de conhecimento das ciências sociais aplicadas e das humanidades de modo geral. 2.1. O Funcionalismo A teoria funcionalista corresponde a primeira interpretação teórica da sociedade moderna, foi elaborada sob influência do método positivista. Tal perspectiva teórica se propôs a entender o funcionamento da sociedade, considerando que a sociedade se compõe de fatos sociais que revelam sistemas sociais ligados a uma estrutura social. Portanto, os indivíduos, as instituições e os acontecimentos da vida social têm uma função social. Nessa perspectiva, a sociedade deve ser funcionar de forma integrada e para isso, seria necessário manter a ordem social com a integração dos sistemas sociais e com os indivíduos realizando suas funções sociais. Os sistemas sociais são os aspectos e as instituições da sociedade; por exemplo, a educação, a escola e os profissionais de educação, a saúde, os serviços de saúde e seus profissionais. O funcionalismo como teoria social foi inicialmente elaborado por Emile Durkheim que propôs estudar os fatos sociais como ‘coisa’, ou seja, como acontecimentos objetivos que deveriam ser analisados com imparcialidade, neutralidade e considerando o quanto esses fatos seriam recorrentes na sociedade, estando presentes nos comportamentos dos indivíduos ao longo do tempo. A proposta metodológica de tratar o fato social como ‘coisa’ revela a influência do positivismo no pensamento de Durkheim. 12 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância https://mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/emile-durkheim.htm Desta forma, o sociólogo entendeu que o trabalho seria o principal fato social da sociedade moderna, pois a realização dele permitiria que cada indivíduo cumprisse sua função social, exercitando uma solidariedade na medida em que cada tarefa ou cada profissão contribuía para a realização de outras atividades e exercícios profissionais. Tal contribuição foi entendida como necessária para a formação da consciência e da moral coletiva entre os indivíduos. Durkheim defendia que a sociedade era mais do que a soma de indivíduos, porque a sociedade se realiza em cada indivíduo pela força da moral. Assim, ela se mantém integrada e coesa quanto maior a coesão social e o grau de integração social maior a ordem social, condição necessária para caminhar na direção no progresso. Nesse sentido, o funcionalismo se liga aos princípios positivistas de ordem e progresso e entende que a sociedade funciona, sobretudo, pela presença da força moral ou da consciência coletiva que age nos indivíduos, mantendo-os ligados uns aos outros. 2.2. A Teoria Social Crítica A teoria social crítica foi incialmente elaborada por Marx e, depois o autor firmou parceria com F. Engels. Tal teoria propôs realizar uma interpretação crítica da realidade social, dimensionando a produção material da vida social e as contradições da sociedade. https://mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/emile-durkheim.htm 13 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O caráter crítico da teoria se dá pelo propósito de buscar alcançar o entendimento da realidade social como resultado de um processo histórico e com uma essência capaz de revelar os elementos constituintes dessa realidade, ou seja, seus pilares. Desta forma, se a sociedade é produto da história, é importante pensar que essa se faz pelo movimento das relações sociais e do protagonismo humano nesse processo, sendo a humanidade também produto da história e do seu tempo. Nesta perspectiva, a centralidade da sociedade revela o trabalho como fonte de valor e a força do capital que busca se perpetuar e se ampliar apropriando-se do valor que o trabalho produz. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/ha-172-anos-karl-marx-e-friedrich-engels- publicavam-o-controverso-manifesto-comunista.phtml A superação dessa sociedade, segundo seus teóricos, depende do processo de conscientização dos trabalhadores e da capacidade de se mobilizarem e se conscientizarem. Portanto, a mudança decorre a partir da realização da luta social que se realizaria com a tentativa de eliminar a contradição e, consequentemente, a desigualdade social. Tal perspectiva teórica respaldou o movimento de reconceituação do serviço social latino-americano e permitiu que a profissão produzisse conhecimento da realidade social com o objetivo de realizar a sua crítica, bem como direcionando a elaboração do projeto ético-político e os princípios da profissão. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/ha-172-anos-karl-marx-e-friedrich-engels-publicavam-o-controverso-manifesto-comunista.phtml https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/ha-172-anos-karl-marx-e-friedrich-engels-publicavam-o-controverso-manifesto-comunista.phtml 14 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2.3. A Sociologia Compreensiva Max Weber foi o principal representante da sociologia compreensiva que se propôs a compreender os sentidos e os significados das relações sociais e da vida social para os indivíduos. Nesta perspectiva teórica deve o pesquisador elaborar hipóteses sobre a realidade social para verificar com o desenvolvimento de estudo, pesquisa ou observação se essas hipóteses se confirmam. Com isso, elabora-se também o tipo ideal que são também hipóteses de comportamentos, ações prováveis dos indivíduos, o que permite ao pesquisador verificar o quanto a ideia sobre o comportamento ou os sentidos e significados aos indivíduos se aproximam ou se distanciam dos modelos e das explicações teóricas elaboradas pelos pesquisadores. Os principais conceitos trabalhados por Weber foram a ação social e a relação social que indica as diferentes formas que motivam ou fazem com que os indivíduos orientam seus comportamentos e, essas ações revelam sentidos e significados que influenciam a existência dos indivíduos na vida em sociedade. https://www.mundociencia.com.br/sociologia/max-weber/ Entre os estudos de Weber se desta os Três Tipo Puros de Dominação Legítima que indica os ‘tipos ideais’ de realizar dominação na sociedade. O autor identifica a dominação tradicional, a dominação carismática e a dominação legal. Não é possível encontrar na sociedade um exemplo de ‘tipo puro de dominação’, mas é possível a partir do conceito identificar os comportamentos de diferentes lideranças e as diferentes formas de exercer a dominação nas relações sociais. https://www.mundociencia.com.br/sociologia/max-weber/ 15 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. TEMPOS DE CONTEMPORANEIDADE Objetivo: Problematizar sobre os dilemas da sociedade contemporânea, considerando que seu entendimento é necessário para compreender o debate e as diferentes formas de inserção da profissão do assistente social. Introdução: A sociedade contemporânea se apresenta como um dilema, influenciando a vida dos indivíduos, a forma de ser do trabalho, reorganizando a produção material da vida social. Tal reflexão e compreensão é necessária para o entendimento das diferentes formas de inserção da profissão. 3.1. Sociedade Contemporânea A sociedade contemporânea é parte do processo social que tem como principal característica a globalização, responsável por respaldar um novo paradigma de sociedade, assentada em nova configuração das relações sociais de troca, do processo produtivo, bem como do processo de acumulação. Nesse quadro, destaca-se o profundo desenvolvimento tecnológico e a informação como fonte de riqueza, ou seja, a processualidade dela com a rapidez de ampla veiculação passou a respaldar a comunicação e as relações econômicas, facilitando a especulação para acumulação de capital. As consequências diretas desse processo são a ampliação do capital financeiro e a mudança na forma de ser do trabalho, tais aspectos se desenvolveram apoiados sob a ideologia neoliberal presente na esfera política e na esfera econômica da vida social. Contudo, a dinâmica da vida social foi reorganizada para abarcar a nova ideologia e as mudanças no processo produtivo e de acumulação. Assim, as relações sociais se alteraram e passaram a existir em duas dimensões a real e a virtual. Bauman define esse momento em que vivemos como modernidade líquida, a sociabilidade humana experimenta uma transformação que, sobretudo, se configura pela 16 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância transformação do cidadão e sujeito de direitos em indivíduo que precisa se afirmar no espaço social. A sociedade que se assentava nos princípios de solidariedade passa a se orientar pela competição, entre os fatores que justificam tal mudança estão o desmonte dos sistemas de proteção social, pela individualização do fracasso, pelo imediatismo das relações e pela separação entre poder e política na vida social (Oliveira, D. Entrevista - Zygmunt Bauman. https://revistacult.uol.com.br/home/entrevis-zygmunt-bauman ). Assim, o autor argumenta que no novo cenário sociopolítico prevalece a metáfora do caçador, todos os indivíduos buscam um alvo, buscam alcançar e eliminar sua presa, ainda que essa seja seu semelhante, seu próximo. Os objetivos de caça aos definidos e se alcançados, o caçador – cada indivíduo dessa sociedade – parte para a definição de um novo alvo, em busca de nova presa. Tal dinâmica dificulta a possibilidade da reflexão e do exercício de consciência, dificulta ainda a construção de projeto de vida e ainda de sociedade. https://jornalistaslivres.org/bauman-e-utopia-iconoclasta/ Nesse cenário, a realidade é absorvida pela dimensão virtual da vida social, as redes sociais reforçam essa dinâmica e a superficialidade das relações sociais, aos poucos a dimensão virtual se sobrepõe à realidade social, e como consequência a individualização da vida social se realiza. Cabe ressaltar que essa perspectiva teórica explora as figuras, as metáforas para realizar a interpretação da realidade social, trabalhando com o que prevalece nessa realidade. No entanto, há experiências e indivíduos com consciência e capacidade de pensar a vida social de forma diferente, aspecto que indica a possibilidade de que a individualização da vida social não é uniforme. Portanto, há experiências construídas, https://revistacult.uol.com.br/home/entrevis-zygmunt-bauman https://jornalistaslivres.org/bauman-e-utopia-iconoclasta/ 17 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância vivenciadas na vida social que indica a possibilidade de alternativas coletivas ou coletivizadas para a realização da vida social. 3.2. Neoliberalismo As medidas que caracterizam o ideário neoliberal passaram a influenciar o cenário sociopolítico brasileiro tardiamente, seja em comparação ao cenário mundial, seja em comparação aos demais países da América Latina. A implementação de políticas de ajuste estruturais para a realização do ajuste neoliberal demandaram elaboração de medidas econômicas com consequências para a preservação dos direitos e para a área social, ocorrendo de um lado a “deterioração das políticas sociais” e, por outro lado, o “agravamento das condições sociais”. As chamadas Políticas de Ajuste Estrutural, como propostas e medidas econômicas bem como estratégias político-institucionais, partem do entendimento do NEOLIBERALISMO como um projeto global para a sociedade com políticas articuladas, que não se limitam a medidas econômicas de efeitos conjunturais e/ou transitórios, trazendo consequências sociais graves e permanentes, muitas vezes de difícil volta atrás (Soares, 2001, p.171). Assim, o ajuste neoliberal demanda uma reforma do Estado para que a vida econômica local da sociedade se adeque ao ideário neoliberal. Segundo Soares (2001), entre tais medidas se destacam a sobrevalorização cambial, juros internos altos, medidas de liberalização financeira, entrada de capitais especulativos de curto prazo, desestabilização evidente na balança de pagamentos do país, emissão de títulos da dívida pública, “aliada à política de juros, um aumento incontrolável da dívida interna” (Soares, 2001, p.172). No âmbito social, o neoliberalismo se pauta no princípio de que o bem-estar deve se realizar na esfera privada da vida em sociedade, isso corresponde a fragilização dos direitos sociais e um retrocesso histórico, considerando tais direitos e a implementação de políticas e programas sociais desenvolvidos a partir do princípio de universalidade. Mesmo em nosso país, onde jamais fomos capazes de construir um efetivo Estado de Bem-Estar Social, ao invés de evoluirmos para um conceito de Política Social como constitutiva do direito de cidadania, retrocedemos à uma concepção focalista, emergencial e parcial, onde a população pobre tem que dar conta dos seus próprios problemas. Esta concepção vem devidamente encoberta por nomes supostamente 18 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância “modernos” como “participação comunitária”, “auto-gestão”,“solidariedade”, onde a solução dos problemas dos pobres se resume ao“mutirão” (Soares, 2001, p.181). Nesse cenário se ampliaram as privatizações de bens coletivos, diminuindo a oferta de serviços públicos e gerando o desfinanciamento das políticas sociais e, com isso, o aumento do mecanismo de exclusão social e da pobreza. Além disso, destaca-se nesse quadro o aumento do desemprego. 3.3. Trabalho na sociedade contemporânea O trabalho enquanto atividade social fundante da humanidade passou por várias transformações, acompanhando o movimento da sociedade, durante a consolidação da sociedade moderna prevaleceu o trabalho operário. No contexto da sociedade contemporânea vivenciamos o processo de reestruturação do capital realizado em escala global, prevalecendo a forma de ser do trabalho caracterizada pela informalidade. O mundo produtivo contemporâneo, particularmente a partir do amplo processo de reestruturação do capital desencadeado em escala global no início da década de 1970, vem apresentando um claro sentido multiforme. Por um lado, acentuando as tendências de informalização da força de trabalho em todo o mundo e de aumento dos níveis de precarização da classe trabalhadora. No outro lado do pêndulo, as tendências em curso nas últimas décadas estariam sinalizando traços que seriam vistos como mais “positivos”, em direção a uma maior intelectualização do trabalho, sobretudo nos ramos dotados de grande impacto tecnológico-informal-digital (Antunes, 2018, p.65). Desse modo, as mudanças correspondem a presença intensa da informalidade e precarização do trabalho que se somam à novas formas de valorização do valor. O trabalho informalizado e diversificado é marcado pelo desenvolvimento tecnológico, o que demanda qualificação e certo grau de capacidade cognitiva para sua realização. https://blogdaboitempo.com.br/2018/06/18/michael-lowy-o-privilegio-da-servidao/ https://blogdaboitempo.com.br/2018/06/18/michael-lowy-o-privilegio-da-servidao/ 19 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A questão é que o trabalho digital ou informatizado é profundamente influenciado pelo processo de valorização presente em nossa sociedade e revela a própria contradição constitutiva desse processo. Portanto, ao contrário do que foi propugnado pelas teses da “sociedade pós- industrial” e do “trabalho criativo informacional”, o labor no setor de telemarketing tem sido pautado por uma processualidade contraditória, uma vez que: 1) articula tecnologias do século XXI (TICs) a condições de trabalho herdeiras do século XX; 2) combina estratégias de intensa emulação de teleoperadores/as, ao modo da flexibilidade toyotizada, com técnicas gerenciais tayloristas de controle sobre o trabalho predominantemente prescrito; 3) associa o trabalho em grupo com a individualização das relações de trabalho, estimulando tanto a cooperação como concorrência entre trabalhadores, entre tantos outros elementos que conformam sua atividade (Antunes, 2018, p.80). Pode-se considerar que a precarização e a imaterialidade do trabalho, bem como toda mudança em torno de sua forma de ser em decorrência da centralidade da valorização do valor, não rompem com a dimensão social do trabalho, embora ocorra uma diminuição dos postos de trabalho e sua redefinição, ele continua a ter relevância na sociedade, fato que confirma sua complexidade e potencialidade. Abaixo segue a entrevista de Z. Bauman concedida à Revista Cult, onde o sociólogo comenta características sobre a sociedade contemporânea, a relação entre o imediatismo das relações sociais e o fim das utopias. CULT – Na obra Tempos líquidos, o senhor afirma que o poder está fora da esfera da política e há uma decadência da atividade do planejamento a longo prazo. Entendo isso como produto da crise das grandes narrativas, particularmente após a queda dos regimes do Leste Europeu. Diante disso, é possível pensar ainda em um resgate da utopia? Zygmunt Bauman – Para que a utopia nasça, é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação (ainda que difusa e inarticulada) de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que “nós, seres humanos, podemos fazê-lo”, crença esta articulada com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los. Em suma, potencializar a força do mundo para o atendimento das necessidades humanas existentes ou que possam vir a existir. 20 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância CULT – Por que se fala tanto hoje de “fim das utopias”? Bauman – Na era pré-moderna, a metáfora que simboliza a presença humana é a do caçador. A principal tarefa do caçador é defender os terrenos de sua ação de toda e qualquer interferência humana, a fim de defender e preservar, por assim dizer, o “equilíbrio natural”. A ação do caçador repousa sobre a crença de que as coisas estão no seu melhor estágio quando não estão com reparos; de que o mundo é um sistema divino em que cada criatura tem seu lugar legítimo e funcional; e de que mesmo os seres humanos têm habilidades mentais demasiado limitadas para compreender a sabedoria e harmonia da concepção de Deus. Já no mundo moderno, a metáfora da humanidade é a do jardineiro. O jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas que ela depende da constante atenção e esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que tipos de plantas devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados. Ele trabalha primeiramente com um arranjo feito em sua cabeça e depois o realiza. Ele força a sua concepção prévia, o seu enredo, incentivando o crescimento de certos tipos de plantas e destruindo aquelas que não são desejáveis, as ervas “daninhas”. É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias. Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está sendo trocado, novamente, pela ideia do caçador. CULT – O que isso significa para a humanidade de hoje? Bauman – Ao contrário do momento em que um dos tipos passou a prevalecer, o caçador não podia cuidar do global equilíbrio das coisas, natural ou artificial. A única tarefa do caçador é perseguir outros caçadores, matar o suficiente para encher seu reservatório. A maioria dos caçadores não considera que seja sua responsabilidade garantir a oferta na floresta para outros, que haja reposição do que foi tirado. Se as madeiras de uma floresta forem relativamente esvaziadas pela sua ação, ele acha que pode se deslocar para outra floresta e reiniciar sua atividade. Pode ocorrer aos caçadores que um dia, em um futuro distante e indefinido, o planeta poderia esgotar suas reservas, mas isso não é a sua preocupação imediata, isso não é uma perspectiva sobre a qual um único caçador, ou uma “associação de caçadores”, se sentiria obrigado a refletir, muito menos a fazer qualquer coisa. Estamos agora, todos os caçadores, ou ditos caçadores, obrigados a agir como caçadores, sob pena de despejo da caça, se não de sermos relegados das fileiras do jogo. Não é de admirar, portanto, que, sempre que estamos a olhar a nosso redor, vemos a maioria dos outros caçadores quase sempre tão solitária quanto nós. Isso é o que chamamos de “individualização”. E precisamos sempre tentar a difícil tarefa de detectar um jardineiro que contempla a harmonia preconcebida para além da barreira do seu jardim privado. Nós certamente não encontraremos muitos encarregados da caça com interesse nisso, e sim entretidos com suas ambições. Esse é o principal 21 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância motivo para as pessoas com “consciência ecológica” servirem como alerta para todos nós. Esta cada vez mais notória ausência do jardineiro é o que se chama de “desregulamentação”. CULT – Diante disso, a esquerda não tem possibilidades de ter força social? Bauman – É óbvio que, em um mundo povoado principalmente por caçadores, não há espaço para a esquerda utópica. Muitas pessoas não tratam seriamente propostas utópicas. Mesmo que saibamos como fazer o mundo melhor, o grande enigma é se há recursos e força suficientes para poder fazê-lo. Essas forças poderiam ser exercidas pelas autoridades do engenhoso sistema do Estado-nação, mas, como observou Jacques Attali em La voie humaine, “as nações perderam influência sobre o curso das coisas e delegaram às forças da globalização todos os meios de orientação do mundo, do destino e da defesa contra todas as variedades do medo”. E as forças da globalização são tudo, menos instintos ou estratégias de “jardineiros”, favorecem a caça e os caçadores da vez. O Thesaurus [dicionário da língua inglesa, de 1892] de Roget, obra aclamada por seu fiel registro das sucessivas mudanças nos usos verbais, tem todo o direito de listar o conceito de utópico como “fantasia”, “fantástico”, “fictício”, “impraticável”, “irrealista”, “pouco razoável” ou “irracional”. Testemunhando assim, talvez, o fim da utopia. Se digitarmos a palavra utopia no portal de buscas Google, encontraremos cerca de 4 milhões e 400 mil sites, um número impressionante para algo que estaria “morto”. Vamos, porém, a uma análise mais atenta desses sites. O primeiro da lista e, indiscutivelmente, o mais impressionante é o que informa aos navegantes que “Utopia é um dos maiores jogos livres interativos online do mundo, com mais de 80 mil jogadores”. Eu não fiz uma pesquisa em todos os 4 milhões de sites listados, mas a impressão que tive após uma leitura de uma amostra aleatória é que o termo utopia aparece em marcas de empresas de cosméticos, de design de interiores, de lazer para feriados, bem como de decoração de casas. Todas as empresas fornecem serviços para pessoas que procuram satisfações individuais e escapes individuais para desconfortos sofridos individualmente. CULT – Nesta sociedade líquido-moderna, como fica a ideia de progresso e de fluxos de tempo? Bauman – A ideia de progresso foi transferida da ideia de melhoria partilhada para a de sobrevivência do indivíduo. O progresso é pensado não mais a partir do contexto de um desejo de corrida para a frente, mas em conexão com o esforço desesperado para se manter na corrida. Você ouve atentamente as informações de que, neste ano, “o Brasil é o único local com sol no inverno”, neste inverno, principalmente se você quiser evitar ser comparado às pessoas que tiveram a mesma ideia que você e foram para lá no inverno passado. Ou você lê que deve jogar fora os ponchos que estiveram muito em voga no ano passado e que agora, se você os vestir, parecerá um camelo. Ou você aprende 22 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância que usar coletes e camisetas deve “causar” na temporada, pois simplesmente ninguém os usa agora. O truque é manter o ritmo com as ondas. Se não quiser afundar, mantenha-se surfando – e isso significa mudar o guarda-roupa, o mobiliário, o papel de parede, o olhar, os hábitos, em suma, você mesmo, quantas vezes puder. Eu não precisaria acrescentar, uma vez que isso deva ser óbvio, que essa ênfase em eliminar as coisas – abandonando-as, livrando-se delas –, mais que sua apropriação, ajusta-se bem à lógica de uma economia orientada para o consumidor. Ter pessoas que se fixem em roupas, computadores, móveis ou cosméticos de ontem seria desastroso para a economia, cuja principal preocupação, e cuja condição sine qua non de sobrevivência, é uma rápida aceleração de produtos comprados e vendidos, em que a rápida eliminação dos resíduos se tornou a vanguarda da indústria. CULT – Neste mundo de “caçadores”, e não de jardineiros, não há então uma utopia possível? O “aqui e agora” se impõe como a única referência da existência humana? Bauman – O problema é que, uma vez tentada, a caça se transforma em compulsão, dependência e obsessão. Atingir uma lebre é um anticlímax que só se torna atraente com a perspectiva de uma nova caça, com a esperança de que essa caça será a mais deliciosa (ou a única deliciosa?). Apanhar a lebre prenuncia o fim de todas as expectativas, salvo se outra caçada for planejada e imediatamente empreendida. Será que isso é o fim da utopia? Em um aspecto, é – na medida em que as primeiras utopias modernas previam um ponto em que o tempo chegaria a uma paragem, na verdade, o fim do tempo como história. Não existe tal ponto na vida de um caçador, um momento em que se poderia dizer que o trabalho foi feito, a missão, cumprida, e, assim, poder-se-ia olhar para a frente, para o descanso e gozo do saque, a partir de agora até a eternidade. Em uma sociedade de caçadores, uma perspectiva de fim da caça não é tentadora, mas assustadora – uma vez que significa uma derrota pessoal. Os chifres anunciam o início de uma nova aventura, a doce memória e a ressurreição das aventuras do passado; não haverá fim à emoção universal… Só eu que fiquei de lado, excluído, impedido de usufruir as alegrias dos outros, apenas um espectador passivo do outro lado do muro, apenas vendo a outra parte, mas proibido de participar. Se, em uma vida contínua e continuada, a caça é uma utopia, ela é – ao contrário das outras – uma utopia sem nenhum efeito. A utopia torna-se um fato bizarro se for medida por normas ortodoxas; as utopias clássicas prometiam o fim da labuta, mas a utopia dos caçadores encapsula o sonho de uma labuta que nunca termina. Ao contrário das utopias de outrora, a utopia dos caçadores não oferece sentido nenhum à vida, verdadeira ou fraudulenta. Ela apenas ajuda a perseguir o significado da vida longe do espírito da vida. 23 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Tendo redesenhado o curso da vida em uma interminável série de perseguições autocentradas, cada episódio vivido como uma abertura para o próximo, ela (a utopia) não oferece oportunidade de reflexão sobre a direção e o sentido da sua totalidade. Quando vem finalmente uma ocasião, um momento de queda ou de proibição da vida de caça, geralmente é tarde demais para a reflexão sobre a maneira de suportar a vida, da própria vida como a vida dos outros: é demasiado tarde para se opor à forma atual da vida. CULT – Mas os sonhos persistem, não? O ser humano não pode viver sem acreditar em alguma coisa, ainda que seja algo fora do seu domínio imediato. E o desejo por um outro mundo possível persiste e mobiliza vários setores da sociedade, particularmente com a percepção cada vez mais forte das dificuldades de resolver os problemas da humanidade. Bauman – Em um notável artigo sobre a persistência da utopia intitulado “Persistent utopia” (2008), Miguel Abensour cita William Morris (A dream of John Ball, Elec Book, 2001), que escreve em 1886 que os homens lutam e perdem a batalha, e as coisas que eles lutaram para acontecer, apesar da derrota, transformam-se para não ter o mesmo significado que antes, e outros homens têm de lutar por aquilo que agora se entende por outro nome. Morris escreveu sobre os seres humanos como tais e sugere que lutam por uma “coisa que não é”; é a forma como as pessoas são, é o caráter do ser humano. O “não” (nicht) como Ernst Bloch salientou “é a falta de algo e também o fugir do que falta”; assim, é o que falta para conduzir. Se estivermos de acordo com Morris, iríamos sempre ter utopias a ser elaboradas, já que expressões sistematizadas como essa fazem parte do aspecto crucial da natureza humana. Utopias foram todas as tentativas de enunciar e descrever em detalhes a coisa para a qual a próxima luta seria dirigida. Notamos, contudo, que todas as utopias escritas por Morris, antecessores e contemporâneos foram esquemas de um mundo em que as batalhas de coisas que não são não estão longe dos cartões. Essas batalhas não eram exigidas. Então, se estivermos de acordo com Morris, a natureza das coisas para as quais as pessoas lutavam era o fim da guerra, o fim das necessidades e dos deveres, e o desejo e a conveniência de ir à luta. E a grande coisa que manteve proveniente a ideia de lutar não pensando na batalha perdida, mas em seu significado e em incitar outras pessoas a lutar novamente pela mesma coisa com outro nome, foi o Estado, que não usa as mãos para lutar. Temos as hostilidades que reaparecem após o armistício, que ficam muito aquém do êxtase de quem lutou e esperava pela paz. A inquietação do compulsivo, obsessivo, viciado caçador de utopias foi impelida e sustentada por um desejo de descanso. As pessoas corriam para a batalha que sempre persegue o sonho. Outra característica das utopias de William Morris, e por quase um século depois, foi o seu radicalismo. 24 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância CULT – O que vem a ser “radical”? Bauman – Atos, empresas, meios e medidas podem ser chamados de “radicais” quando eles chegam até suas “raízes”, às de um problema, um desafio, uma tarefa. Note, contudo, que o substantivo latino radix, do qual se origina o adjetivo “radical”, diz respeito não só às raízes, mas também a fundações e origens. O que essas três noções – raiz, fundações e origens – têm em comum? Dois atributos. Primeiro: em circunstâncias normais, o material de todos os três são referentes escondidos da vista e impossíveis de ser analisados, muito menos tocados diretamente. Qualquer coisa que tenha crescido em um deles, como troncos ou caules, no caso das raízes, a edificação, no caso das fundações, ou as consequências, no caso das origens, foi sobreposta sobre sua parte inferior, cobriu-a e depois emergiu escondida da visão. Por isso, tem que ser, primeiro, perfurada, as partes lançadas fora do caminho ou tomadas à parte, se se deseja um dos objetos segmentados quando pensar ou agir radicalmente. Segundo: no decurso do trilhar para esses objetivos, o crescimento desse material deve ser desconstruído, ou materialmente empurrado para fora do caminho, ou desmantelado. A probabilidade de que, a partir do trabalho de desconstrução/desmontagem das metas, emerjam todas as deficiências é alta. Tomar uma atitude radical sinaliza para a intenção da destruição – ou melhor, de assumir o risco da destruição, mais frequentemente o significado de uma destruição criativa –, destruição no sentido de um lugar para limpeza, ou para lavrar o solo, preparando-o para acomodar outros tipos de raízes. A política é radical se ela aceita todas as condições e se orienta por todas essas intenções e objetivos. CULT – Uma das características dos tempos líquido-modernos é a decadência do planejamento a longo prazo. É possível um pensamento crítico e uma utopia neste contexto de queda da perspectiva do planejamento? Bauman – Russel Jacoby propõe distinguir duas tradições, aparentemente coincidentes, mas não necessariamente ligadas, tradições do moderno pensamento utópico: o modelo (o projeto utopista de traçar o futuro em polegadas e minutos) e a tradição iconoclasta (os utopistas iconoclastas sonharam com uma sociedade superior, mas recusaram-lhe dar medidas precisas). Proponho que se mantenha o nome, como sugere Jacoby para o segundo, como tradição da utopia do “não projeto”. A característica definidora dessa tradição do segundo é a intenção de desconstruir, de desmistificar e, em última instância, de desacreditar os valores da vida dominante e suas estratégias de tempo, através da demonstração de que, contrariamente às crenças atuais, em vez de assegurarem uma sociedade ou vida superior, constituem um obstáculo no caminho para ambas. Em outras palavras, o que eu proponho para descompactar o conceito de utopia iconoclasta, em primeiro lugar, é sobretudo a afirmação de uma possibilidade de uma outra realidade social – possibilidade ainda aterrada na 25 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância revisão crítica dos meios e formas de apresentar a vida. Sendo este o principal interesse e a preocupação do utopista iconoclasta, não é de admirar que a alternativa ao atual permaneça incompleta; a principal causa do utopismo iconoclasta é a possibilidade de uma alternativa à realidade social, apesar de o seu desenho estar pouco desenvolvido. As utopias iconoclastas, presumo, são aberta ou tacitamente o caminho para uma sociedade superior, não se conduzem por meio de desenhos ou conselhos, mas sim por meio da reflexão crítica sobre práticas e crenças existentes de forma a – para recordar uma ideia de Bloch – explicitar que “uma coisa está faltando” e assim “inspirar a unidade para a sua criação e recuperação”. https://revistacult.uol.com.br/home/entrevis-zygmunt-bauman/ - Acesso em 08/11/2021 Importante refletirmos sobre as características da sociedade contemporânea, buscando identificar as questões que dizem respeito às relações sociais e, sobretudo, ao entendimento de como se processam e se perpetuam as desigualdades sociais. Tal entrevista permite que façamos a pergunta: o quanto as redes sociais influenciam nossas vidas e determinam padrões de comportamentos? https://revistacult.uol.com.br/home/entrevis-zygmunt-bauman/ 26 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. SERVIÇO SOCIAL: IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO Objetivo: Problematizar a formação da identidade profissional do serviço social e suas diferentes formas de representação. Introdução: O serviço social como profissão demanda um debate sobre a afirmação de sua identidade na sociedade, bem como envolve diferentes formas de representação da profissão em diferentes esferas institucionais. 4.1. Questões Associadas à Identidade da Profissão A caracterização da identidade da profissão do serviço social decorre de seu processo de trabalho e da maneira como se organiza estruturalmente seus objetos de atuação. Segundo Gentilli (1998, p.22), a identidade da profissão do serviço social resulta de fatores compostos por seu “núcleo identitário, organizado a partir de representações sobre o processo de trabalho profissional”, as “referências representacionais” que expressam as representações e a consciência profissional e, por fim, os “elementos subjetivos” que “sustentam a identidade, que são os sentimentos de identidade profissional”. https://www.amazon.com.br/Representa%C3%A7%C3%B5es-Pr%C3%A1ticas-Identidade-Processo- Trabalho/dp/8587064428 https://www.amazon.com.br/Representa%C3%A7%C3%B5es-Pr%C3%A1ticas-Identidade-Processo-Trabalho/dp/8587064428 https://www.amazon.com.br/Representa%C3%A7%C3%B5es-Pr%C3%A1ticas-Identidade-Processo-Trabalho/dp/8587064428 27 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Cabe ressaltar que os assistentes sociais estabelecem uma relação de trabalho contratual que se “insere nas relações sociais da sociedade capitalista, como mercadoria, força de trabalho”, o cotidiano da profissão revela um conjunto de singularidades, o processo de trabalho da profissão se coloca na contradição da sociedade capitalista e se concretiza por intermediações e situações normalizadoras (Gentilli, 1998, p.23). [...] o objeto profissional, no seu sentido genérico, como todo o âmbito de processamento e operacionalização das políticas sociais organizadas como bens e serviços coletivos e transferências sociais destinadas ao consumo daquelas populações precariamente inseridas ou efetivamente excluídas dos mercados de bens, serviços e de trabalho. O processo de trabalho é configurado por todo fazer profissional (Gentilli, 1998, p.25). A profissão é representada por instituições normatizadoras que expressam uma “pluralidade de representações decorre do fato dos objetos, dos objetivos, dos meios, dos produtos, enfim, da racionalidade do processo de trabalho” do serviço social. Para tal é necessário que o profissional se sinta em liberdade para a realização das normas que representam e regulamentam a profissão sejam postas em prática no cotidiano do exercício da profissão (Gentilli, 1998, p.31). 4.2. O Serviço Social e suas representações As reflexões entre as representações da profissão perpassam os campos da teoria e da prática, muitos profissionais destacam o fato da teoria se apresentar distante da prática. A teoria articula planejamento, assessoria, pesquisa e coordenação, enquanto a prática se associa à execução e atendimentos que se realizam o exercício da profissão em espaços sócio-ocupacionais que permitem a atuação profissional. Nesse contexto, é possível considerar que há certa dificuldade em realizar a efetiva aproximação entre a produção de conhecimento sobre a identidade da profissão e sobre a interpretação da realidade social, pois as mediações diferenciadas são diferenciadas e cada estrutura organizacional tem uma dinâmica própria. No caso da prática profissional em questão, os problemas teóricos são considerados mais difíceis de serem enfrentados pela própria dinâmica do mercado de trabalho. Para os profissionais que se dedicam esporadicamente à prática teórica, os temas se apresentam de forma mais complexa e de demorada assimilação. Para contornar tais dificuldades naturais, os profissionais recorrem geralmente à assimilação dos conteúdos teóricos produzidos por outros (Gentilli, 1998, p.65). 28 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância No entanto, o debate entre os profissionais muitas vezes ocorre sobre questões acerca do campo profissional, ao qual estejam inseridos, permitindo a “definição das funções e papéis profissionais peculiares à área”. Tal prioridade permite a correção de “deficiências de uma formação profissional generalista, muito crítica e pouco instrumentalizadora” (Gentilli, 1998, p.69). https://www.google.com/search?q=serviço+social+e+representatividade&tbm Nesse sentido, a diversidade do exercício da profissão do assistente social é, muitas vezes, orientada e representada pelos princípios preconizados no projeto ético-político da profissão, onde é possível encontrar o norteamento de questões metodológicas para a intervenção e reflexões mais intelectualizadas sobre a profissão. 4.3. Serviço Social e Identidade As questões vinculadas à identidade da profissão perpassam os espaços de representação profissional, os aspectos políticos que se articulam com as características da conjuntura. Nesse quadro, entre os aspectos presentes na realidade social brasileira que dificultam a afirmação da identidade da profissão destacam-se as alterações, bem como as fragilidades das políticas sociais desenvolvidas a partir dos anos 1990. Além disto, os efeitos do ajuste neoliberal alcançam a condição de trabalhadores dos assistentes sociais, influenciando na oferta de postos de trabalho e com a coexistência de contratos de trabalho diversos, em função do desenvolvimento do terceiro setor e da desvalorização do funcionalismo público no país. https://www.google.com/search?q=serviço+social+e+representatividade&tbm 29 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2021/04/27/ Segundo Gentilli (1998, p.73), esses aspectos que caracterizam questões da sociedade contemporânea, emergem também situações vinculadas à defesa da democracia e da cidadania no país, somam-se ainda a defesa da implementação de políticas sociais e questões éticas vinculadas ao exercício da profissão. Tal situação suscita problemas postos à identidade profissional e à conjuntura para a capacitação dos profissionais. [...] a complexidade das mediações realizadas na prática, os problemas de reconhecimento profissional, os desafios práticos decorrentes de uma falta de reflexão maior sobre a instrumentalização profissional, o despreparo técnico, as questões institucionais e a eficácia social da profissão (Gentilli, 1998, p.74). As questões do papel profissional vinculam-se à conjuntura do momento histórico e, ao mesmo tempo às condições operativas e instrumentais para a realização da profissão. Tais dilemas vinculam-se à relação entre conjuntura e capacitação profissional. Há, inclusive, uma referência ao ativismo como decorrente de uma visão política inadequada sobre a profissão. Referem-se, portanto, a diversas lacunas teóricas requeridas para uma intervenção profissional fundada na realidade humano-social como um todo e não só política ou social, aos objetos profissionais e ao âmbito institucional da profissão (Gentilli, 1998, p.74). A formação constante da profissão faz parte de seu processo de trabalho que deve articular a dimensão técnica da profissão e a diversidade de inserção em espaços sócio- ocupacionais. Outro aspecto relevante que caracteriza a profissão é o traço humano-social que deve prevalecer as respostas que a profissão oferece às questões e dilemas que se apresentam na vida em sociedade. Cabe ressaltar que a profissão e sua identidade também se realizam na realização de um trabalho de mediação que se realiza entre as demandas sociais, os cidadãos e a realidade social. https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2021/04/27/ 30 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. SERVIÇO SOCIAL INTEGRADO Objetivo: Refletir sobre o fazer profissional e sua realização no cotidiano da vida em sociedade. Introdução: O serviço social como profissão se faz a partir do cotidiano das relações, demanda reflexão e entendimento constante de realidade social. Portanto, pensar sobre a profissão e como ela se integra à realidade social significa também compreender a própria profissão. 5.1. Cotidiano e Fazer Profissional A profissão de assistente social se realiza a partir do cotidiano da vida social e da reprodução dos indivíduos, ou seja, a partir da realização das condições de vida dos indivíduos na vida em sociedade. O cotidiano pode ser considerado como uma “mediação elementar entre o particular e o universal”, acontecendo entre as características e a estrutura da sociedade. O cotidiano “limita as possibilidades de os homens se concentrarem inteiramente nas atividades que realizam”, a heterogeneidade ou a diversidade em que se apresenta o cotidiano tende a limitar os indivíduos na vida em sociedade (Guerra, 2017, p.53/ 54). https://www.artmajeur.com/pt/jercimaccari/artworks/3830032/cotidiano https://www.artmajeur.com/pt/jercimaccari/artworks/3830032/cotidiano 31 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância No cotidiano, os indivíduos se apropriam de costumes e comportamentos que fazem parte da vida em sociedade, sendo esses reproduzidos pelos indivíduos. Há uma tendência de os indivíduos buscarem alternativas imediatas às suas demandas. A dinâmica instituída no cotidiano leve os indivíduos a buscarem respostas superficiais para as questões que envolve a vida em sociedade (Guerra, 2017, p.54). De certa forma, essas manifestações do cotidiano também alcançam a divisão sociotécnica do trabalho, alcançando também o exercício da profissão do serviço social o que pode levar os profissionais a realização de uma prática profissional configurada como tarefa, distanciando-se da necessidade de reflexão que caracteriza o serviço social. Nesse sentido, o cotidiano não facilita que o profissional a perceba a presença das dimensões que caracterizam a profissão, constituindo-se em prática profissional como sendo desvinculada da teoria, da racionalidade, da relevância de interpretar os aspectos presentes na vida em sociedade, bem como a aproximação de valores éticos e implementação de políticas sociais (Guerra, 2017, p.55). [...] o cotidiano profissional é pleno de requisições de cumprimento de normas, regulamentos, orientações ou decisões de superiores, os quais impõem ao profissional a necessidade de respostas a elas. Neste contexto, a prioridade é responder aos fenômenos, não importa como, disto resultando um conjunto de respostas profissionais rápidas, ligeiras, irrefletidas, instrumentais, baseadas em analogias, experiências, senso comum, desespecializadas, formais, modelares, em obediência a leis e superiores, sem a qualificação necessária para distingui-las de respostas atribuídas por leigos (Guerra, 2017, p.56). Assim, se afirmam as dimensões que orientam o exercício da profissão no cotidiano, considerando que essa se realiza através da articulação entre teoria e prática, considerando o caráter instrumental que tem a profissão, em função de realizar diferentes formas de intervenção na realidade social. Tal exercício profissional tem implicações éticas e políticas. 5.2. As Dimensões da Profissão O serviço social é uma profissão de caráter interventivo que se realiza por meio da relação entre teoria e prática, sendo que a intervenção só pode se constituir a partir de um processo de formação inicial e contínuo que permite o profissional realizar a interpretação da realidade social. 32 Serviço Social Integrado Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Além disto, o exercício da profissão tem implicação sociopolítica devendo o profissional se apropriar de valores e princípios que permitem a defesa de um projeto de sociedade que orienta a prática e o posicionamento profissional. Assim, a dimensão teórico-metodológica orienta a diretriz da profissão e respalda o posicionamento ético-político dela, além de oferecer subsídios para a dimensão técnico- instrumental. A dimensão teórico-metodológica nos capacita para operar a passagem das características singulares de uma situação que se manifesta no cotidiano profissional do assistente social para uma interpretação à luz da universalidade da teoria