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Livro Digital - Contabilidade Tributária

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CONTABILIDADE TRIBUTÁRIA
REFORMA TRIBUTÁRIA DO
CONSUMO X REGIMES DE
TRIBUTAÇÃO
Neimar da Silva Rossetto
Patricia de Souza Timoteo - fiscal@suzantur.com.br - IP: 177.188.182.235
Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real x Reforma Tributária
Neimar da Silva Rossetto
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CAPÍTULO 1
O BÁSICO QUE VOCÊ PRECISA ENTENDER
Breve Contextualização Sem Complicação
1.1 INTRODUÇÃO: A REFORMA QUE REDESENHA O SISTEMA
TRIBUTÁRIO BRASILEIRO
A Reforma Tributária sobre o consumo, iniciada com a Emenda Constitucional nº 132/2023 e
regulamentada pela Lei Complementar nº 214/2025, representa a mais profunda transformação
estrutural do sistema tributário brasileiro desde a promulgação da Constituição Federal de 1988.
Após décadas de debates e tentativas frustradas, o Brasil finalmente implementa um modelo de
tributação sobre valor agregado (IVA) que promete simplificar, modernizar e tornar mais
transparente a tributação sobre o consumo.
Esta reforma não se trata apenas de mudanças técnicas ou ajustes pontuais. Estamos diante de
uma reestruturação completa da lógica tributária que afeta todos os agentes econômicos:
empresas de todos os portes, prestadores de serviços, indústrias, comércio e, em última análise, o
consumidor final.
1.2 OS TRÊS PILARES DA REFORMA: IBS, CBS E IMPOSTO SELETIVO
A LC 214/2025 estabelece a criação de três novos tributos que substituirão gradualmente os cinco
impostos atuais sobre consumo. Esta é a espinha dorsal da reforma:
1.2.1 IBS – Imposto sobre Bens e Serviços
Natureza Jurídica e Competência
O IBS é um imposto de competência compartilhada entre Estados, Distrito Federal e Municípios,
conforme previsto no art. 156-A da Constituição Federal. Trata-se de uma inovação institucional
significativa no federalismo fiscal brasileiro, pois unifica duas esferas de tributação
tradicionalmente separadas.
Tributos Substituídos
O IBS substitui integralmente:
ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) – competência estadual
ISS (Imposto sobre Serviços) – competência municipal
Características Fundamentais
O IBS representa a implementação de um modelo IVA (Imposto sobre Valor Agregado) no âmbito
subnacional, com as seguintes características técnicas essenciais:
Não-cumulatividade plena: Direito ao crédito financeiro integral sobre todas as aquisições
de bens e serviços utilizados na atividade econômica (art. 156-A, § 1º, VIII, da CF/88);
Tributação no destino: A receita é destinada ao ente federativo onde ocorre o consumo,
eliminando a "guerra fiscal" baseada em origem;
Alíquota uniforme por ente: Cada estado e município definirá sua alíquota, mas de forma
uniforme em todo seu território;
Gestão centralizada: O Comitê Gestor do IBS será responsável pela arrecadação, fiscalização
e distribuição dos recursos.
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Estimativa de Alíquota
Segundo declarações da Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária, divulgadas em janeiro de
2025, a alíquota do IBS deverá se situar entre 14% e 16%, dependendo das definições finais de cada
ente federativo.
1.2.2 CBS – Contribuição sobre Bens e Serviços
Natureza Jurídica e Competência
A CBS é uma contribuição social de competência exclusiva da União Federal, fundamentada no art.
195, V, da Constituição Federal, com a redação dada pela EC 132/2023.
Tributos Substituídos
A CBS substitui duas contribuições sociais federais:
PIS (Programa de Integração Social)
COFINS (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social)
Características Fundamentais
A CBS adota o mesmo modelo de IVA da CBS, mas no âmbito federal:
Não-cumulatividade por crédito financeiro: Sistema de compensação integral dos valores
pagos nas etapas anteriores;
Base de cálculo ampla: Incide sobre o valor das operações com bens, serviços e direitos;
Eliminação da cumulatividade: Fim dos regimes cumulativo e não-cumulativo que hoje
coexistem no PIS/COFINS;
Unificação de regras: Uma única legislação substitui duas contribuições com regras muitas
vezes conflitantes.
Estimativa de Alíquota
A alíquota da CBS deverá se situar entre 11% e 12,5%, segundo projeções oficiais, considerando a
necessidade de neutralidade arrecadatória na transição.
1.2.3 Imposto Seletivo (IS)
Natureza Jurídica e Competência
O Imposto Seletivo é um tributo federal de caráter extrafiscal, instituído pelo art. 153, VIII, da CF/88,
com redação da EC 132/2023. Sua principal função não é arrecadatória, mas regulatória.
Objetivo Extrafiscal
O IS tem por finalidade desestimular o consumo de bens e serviços considerados prejudiciais à
saúde humana ou ao meio ambiente. Quanto maior o dano potencial, maior a alíquota aplicável –
princípio da essencialidade inversa.
Tributo Substituído
O IS substitui parcialmente:
IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) – exceto para a Zona Franca de Manaus, onde
o IPI permanece até 2073
Características Distintivas
O IS apresenta características que o diferenciam fundamentalmente do IBS e da CBS:
Monofásico: Incide uma única vez na cadeia produtiva, geralmente na saída do
estabelecimento industrial ou na importação (art. 409, LC 214/2025);
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Não gera crédito: Vedado o aproveitamento de créditos nas operações subsequentes (art.
417, LC 214/2025);
Alíquotas variáveis: Cada produto ou serviço terá sua própria alíquota, definida conforme o
grau de nocividade;
Base de cálculo diferenciada: Pode ser ad valorem (percentual sobre o valor) ou específica
(valor fixo por unidade).
Produtos Sujeitos ao IS
Embora a lista definitiva dependa de regulamentação posterior, a LC 214/2025 já indica os
principais setores alcançados:
Bebidas alcoólicas
Cigarros e produtos de tabaco
Veículos automotores (especialmente os mais poluentes)
Embarcações e aeronaves
Produtos de mineração
Apostas (bets e loterias)
Bebidas açucaradas
Questão Técnica Controversa: IS na Base do IBS e CBS
Um ponto de atenção técnica relevante: conforme o art. 153, § 6º, IV, da CF/88, o Imposto Seletivo
integrará a base de cálculo do IBS e da CBS. Esta previsão constitucional tem gerado debate
doutrinário, pois:
Cria uma forma de cumulatividade parcial ("tributo sobre tributo");
Contraria, em certa medida, o espírito da não-cumulatividade plena do IVA;
Resulta em carga tributária efetiva maior sobre produtos seletivos.
Esta é uma característica peculiar do modelo brasileiro de IVA dual que difere dos padrões
internacionais e merece atenção no planejamento tributário.
1.3 A TRANSIÇÃO: O QUE ACONTECE COM OS IMPOSTOS ATUAIS
A transição para o novo sistema não será abrupta. A LC 214/2025 estabelece um período de
convivência gradual entre o sistema antigo e o novo, que se estenderá por 7 anos completos (2026-
2033). Este cronograma foi desenhado para permitir a adaptação dos contribuintes, dos sistemas
de gestão e da própria administração tributária.
1.3.1 Cronograma de Implementação
Fase 1: Teste (2026)
Início da cobrança da CBS com alíquota reduzida de 0,9%
IBS em fase de teste com alíquota de 0,1%
PIS, COFINS, ICMS, ISS e IPI permanecem sendo cobrados integralmente
Objetivo: testar sistemas, processos e identificar problemas operacionais
Fase 2: Transição Inicial (2027-2028)
CBS passa a ser cobrado de forma integral
PIS e COFINS extinguem-se completamente
ICMS, ISS e IPI permanecem integralmente vigentes
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IBS em alíquotas testes, estadual de 0,05% e municipal de 0,05%.
Fase 3: Transição Avançada (2029-2032)
IBS começa a ser cobrado com alíquotas significativas (2029: 10% da alíquota final)
Redução gradual de ICMS e ISS
Convivência proporcional entre ICMS/ISS e IBS
Fase 4: Implementação Completa (2033 em diante)e vale-alimentação fornecidos por exigência de convenção coletiva geram
crédito.
Aqui entra uma zona cinzenta que provavelmente gerará discussões: refeições em reuniões de negócios. Se
você convida um cliente para almoçar e discutir um contrato, essa despesa é empresarial ou pessoal? Há
argumentos para defender o crédito, mas você precisará ter documentação robusta: quem eram os
participantes, qual o propósito da reunião, que negócio estava sendo tratado.
Planos de saúde e benefícios para sócios e seus familiares não geram crédito. São despesas pessoais. Mas
planos de saúde para funcionários, quando exigidos por convenção coletiva ou oferecidos como benefício
regular, geram crédito. Medicina e segurança do trabalho, que são obrigações legais, também geram.
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Cursos e treinamentos profissionais geram crédito quando destinados a capacitar a equipe para as atividades
da empresa. Mas um MBA pessoal do sócio é mais discutível. Novamente, a documentação e a razoabilidade
são importantes.
4.5 A Revolução do Ativo Imobilizado
4.5.1 Do Parcelamento ao Crédito Imediato
Uma das mudanças mais impactantes da Reforma Tributária é o tratamento dado aos investimentos em
bens do ativo imobilizado. No regime anterior, quando você comprava uma máquina, um equipamento, um
veículo para a empresa, o crédito de ICMS ou de PIS e COFINS era apropriado em 48 parcelas mensais. Você
levava quatro anos para recuperar integralmente o crédito.
Isso tinha um impacto brutal no fluxo de caixa e desestimulava investimentos. Você desembolsava cem mil
reais para comprar uma máquina, mas o benefício fiscal vinha aos pouquinhos, ao longo de quatro anos. E
ainda havia o efeito da inflação corroendo o valor real desse crédito ao longo do tempo.
A LC 214/2025 mudou isso radicalmente. Os artigos 108 e 109 estabelecem que o crédito de IBS e CBS sobre
bens incorporados ao ativo imobilizado será apropriado de forma integral e imediata no momento da
liquidação financeira da operação.
Vou repetir porque é importante: integral e imediata. Você compra uma máquina de duzentos mil reais com
CBS de 18.480 reais. Você se apropria dos 18.480 reais de crédito integralmente, no mesmo mês. Pode
compensar com seus débitos de CBS imediatamente. Não há parcelamento, não há espera.
O impacto disso no planejamento de investimentos é enorme. A decisão de investir em novos equipamentos,
em modernização da planta, em veículos para a frota, tudo fica menos pesado do ponto de vista financeiro.
O retorno sobre investimento fica mais atrativo porque o benefício fiscal é imediato.
4.6 Impactos Práticos por Setor
4.6.1 Comércio Atacadista
Vamos começar pelos atacadistas porque eles estão entre os maiores beneficiados pela Reforma. Um
atacado típico trabalha com margens relativamente baixas, alto volume de mercadorias e giro rápido. Vamos
ver um exemplo numérico real.
Imagine uma distribuidora de alimentos com faturamento mensal de quinhentos mil reais. Ela compra
mercadorias por quatrocentos mil reais e tem despesas operacionais de vinte mil reais (aluguel de armazém,
energia, frete, etc.).
No regime atual de PIS e COFINS cumulativo, ela paga 3,65% sobre os quinhentos mil reais de faturamento, o
que dá 18.250 reais por mês. Sem direito a crédito algum.
No novo regime com CBS não cumulativa, ela terá débito de 9,24% sobre os quinhentos mil reais, que dá
46.200 reais. Mas terá crédito de 9,24% sobre os quatrocentos mil reais de mercadorias (36.960 reais) e
sobre os vinte mil reais de despesas operacionais (1.848 reais). Total de créditos: 38.808 reais.
CBS a recolher: 46.200 menos 38.808 = 7.392 reais por mês.
Compare: 18.250 reais no regime antigo versus 7.392 reais no novo regime. É uma redução de quase 60% na
carga tributária sobre o consumo. Para uma empresa que trabalha com margens apertadas, isso pode
significar a diferença entre sobreviver e prosperar.
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E lembre-se: o IRPJ e a CSLL continuam sendo calculados da mesma forma, então essa economia é real e
adicional.
4.6.2 Serviços Profissionais Especializados
Agora vamos para o outro extremo. Imagine um escritório de advocacia com faturamento mensal de cento e
cinquenta mil reais. Os custos desse escritório são: noventa e cinco mil reais em salários e pró-labore, oito
mil reais de aluguel, três mil reais de energia e telecomunicações, mil reais de material de escritório, dois mil
em cursos e atualizações, mil e quinhentos em software jurídico.
No regime atual, esse escritório paga 3,65% sobre cento e cinquenta mil reais, que dá 5.475 reais de PIS e
COFINS.
No novo regime, terá débito de CBS de 9,24% sobre cento e cinquenta mil reais, que dá 13.860 reais. Mas os
créditos são bem limitados. Salários e pró-labore não geram crédito. Só as despesas operacionais geram,
totalizando cerca de 1.432 reais de crédito.
CBS a recolher: 13.860 menos 1.432 = 12.428 reais por mês.
É um aumento de quase 7.000 reais mensais em relação ao regime atual. Isso representa 4,5% a mais de
carga sobre o faturamento. Para um escritório que já trabalha com despesas fixas altas, esse aumento pode
ser significativo.
O que fazer nessa situação? Primeiro, repassar o aumento para os clientes através de reajuste de honorários.
Todos os escritórios estarão na mesma situação, então não há perda de competitividade relativa. Segundo,
avaliar se vale a pena mudar de regime tributário. Para alguns escritórios, o Simples Nacional pode fazer
mais sentido agora. Para outros, especialmente os maiores, talvez seja hora de considerar o Lucro Real para
ter mais controle sobre deduções.
Terceiro, e isso é importante: revisar a estrutura operacional. Será que faz sentido terceirizar mais serviços
(que geram crédito) ao invés de manter tudo com equipe interna? Será que vale investir em tecnologia e
automação, que além de gerar crédito no investimento inicial pode reduzir custos operacionais?
4.6.3 Indústria
Indústrias estão em posição geralmente favorável. Vamos ver o caso de uma pequena fábrica de móveis
planejados com faturamento mensal de um milhão e duzentos mil reais.
Seus custos de produção incluem: quatrocentos mil reais em madeira e MDF, cento e cinquenta mil reais em
ferragens e acessórios, oitenta mil em colas e vernizes, trinta mil em embalagens. Despesas operacionais de
trinta e cinco mil em energia elétrica, vinte e cinco mil de aluguel de galpão, quinze mil em manutenção de
máquinas. Mão de obra de duzentos mil reais.
No regime atual, ela paga 3,65% sobre 1,2 milhão, que dá 43.800 reais mensais.
No novo regime, terá débito de 110.880 reais. Mas os créditos são substanciais: 36.960 em matérias-primas,
13.860 em ferragens, 7.392 em químicos, 2.772 em embalagens, 3.234 em energia, 2.310 em aluguel, 1.386
emmanutenção. Total: 67.914 reais.
CBS a recolher: 110.880 menos 67.914 = 42.966 reais.
Aparentemente o valor é similar ao regime antigo. Mas aqui entra o grande diferencial: quando essa
indústria compra uma nova serra CNC por cento e cinquenta mil reais, ela terá crédito imediato de 13.860
reais. No mês do investimento, sua CBS a recolher cairá para 29.106 reais.
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Além disso, indústrias costumam investir regularmente em manutenção e modernização. Cada investimento
gerará créditos imediatos que reduzirão a carga tributária efetiva. No longo prazo, indústrias que investem
consistentemente terão carga tributária menor que no regime antigo.
4.7 Aspectos Contábeis e Fiscais
4.7.1 Como Registrar IBS e CBS
O IBS e a CBS serão tributos cobrados "por fora", similar ao que acontece hoje com o IPI. Isso significa queeles não integram a base de cálculo deles mesmos. Na nota fiscal, você terá o valor dos produtos ou serviços,
mais o valor de CBS, mais o valor de IBS.
Na contabilidade, esses tributos não devem integrar a receita bruta. Quando você vende algo por dez mil
reais com 924 reais de CBS e 1.700 reais de IBS, sua receita contábil é de dez mil reais. Os 2.624 reais de
tributos vão para contas específicas de tributos a recolher.
Da mesma forma, nas compras, o custo dos ativos ou das despesas deve ser registrado líquido dos créditos
recuperáveis de IBS e CBS. Se você compra mercadorias por dez mil reais mais 2.624 reais de tributos
recuperáveis, seu estoque aumenta em dez mil reais e você tem um ativo de 2.624 reais em créditos
tributários a recuperar.
Esse tratamento contábil é importante porque afeta diversos indicadores financeiros da empresa. Sua
margem bruta, seu EBITDA, seus índices de rentabilidade, tudo isso será calculado sem considerar IBS e CBS
na receita. Isso tornará as demonstrações financeiras mais comparáveis internacionalmente, já que a maioria
dos países não inclui IVA na receita.
4.7.2 IBS e CBS na Base do Lucro Presumido
Aqui chegamos a uma questão técnica importante que pode ter impacto significativo. O IBS e a CBS devem
ou não integrar a base de cálculo do Lucro Presumido?
A base legal para excluí-los existe. O Decreto-Lei 1.598/77 e a Lei 8.541/92 estabelecem que tributos não
cumulativos, cobrados destacadamente e dos quais o vendedor é mero depositário, não integram a base de
cálculo do Lucro Presumido. Essa regra se aplica hoje ao IPI e, com algumas discussões, ao ICMS quando
destacado.
A lógica é simples: se o tributo não é receita sua, se você apenas repassa para o governo, ele não deveria
compor sua base de cálculo para fins de IRPJ e CSLL. Você não está "lucrando" com esse valor.
Aplicando essa lógica ao IBS e à CBS, eles não deveriam integrar a base do Lucro Presumido. Mas como esses
tributos não são expressamente mencionados nos dispositivos legais atuais, há margem para discussão. Seria
prudente que a legislação fosse alterada para incluir explicitamente IBS e CBS nessas regras de exclusão.
O impacto de incluir ou excluir IBS e CBS da base do Lucro Presumido não é desprezível. Estamos falando de
adicionar mais de 25% ao valor da sua receita se você considerar os tributos. Para uma empresa de serviços
com presunção de 32%, isso pode significar vários milhares de reais a mais de IRPJ e CSLL mensalmente.
4.8 Planejamento Tributário: Fazer ou Não Fazer
4.8.1 Lucro Presumido Ainda Faz Sentido?
Com todas essas mudanças, vale a pena permanecer no Lucro Presumido ou é hora de considerar outras
opções? A resposta, como sempre em planejamento tributário, é: depende.
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O Lucro Presumido continua fazendo sentido quando sua margem de lucro real é superior aos percentuais
de presunção. Se você tem uma empresa de serviços com margem efetiva de 45% mas a Receita presume
apenas 32%, você está pagando imposto sobre uma base menor que seu lucro real. Isso é vantajoso.
Continua fazendo sentido quando você valoriza a simplicidade na apuração de IRPJ e CSLL. O Lucro Real
exige escrituração contábil completa, controles rigorosos, ajustes e conciliações complexas. O Presumido é
substancialmente mais simples nesse aspecto, embora agora exija controles mais sofisticados para IBS e CBS.
Mas pode ser hora de reconsiderar se sua margem real é inferior à presumida. Se você opera com margem
de 20% mas a Receita presume 32%, está pagando imposto sobre lucro que não teve. No Lucro Real, você
pagaria apenas sobre os 20% efetivos.
Também vale reconsiderar se você tem prejuízos fiscais acumulados de anos anteriores que poderiam ser
compensados no Lucro Real. No Presumido, prejuízos passados são irrelevantes para o cálculo atual.
E vale pensar duas vezes se você começou a acumular créditos consistentes de IBS e CBS que superam seus
débitos. Empresas exportadoras, empresas que vendem produtos com alíquota reduzida ou zero, empresas
fazendo investimentos pesados, todas podem acumular saldos credores. No Lucro Real há mecanismos de
ressarcimento e compensação mais ágeis.
4.8.2 E o Simples Nacional?
Para empresas com faturamento abaixo de 4,8 milhões anuais, o Simples Nacional continua sendo uma
opção. Vale a pena migrar?
Depende principalmente de dois fatores: sua carga tributária efetiva no Simples versus no Presumido, e o
perfil dos seus clientes.
Para faturamentos mais baixos, até cerca de dois milhões anuais, o Simples costuma ser mais vantajoso em
termos de carga tributária total. Acima disso, as alíquotas do Simples começam a ficar pesadas,
especialmente nos anexos de serviços.
Mas lembre-se do que discutimos no capítulo anterior: se você vende principalmente B2B, a ausência de
créditos no Simples pode ser uma desvantagem competitiva. A não ser que você opte pelo regime regular de
IBS e CBS dentro do Simples, o que adiciona complexidade.
Faça simulações cuidadosas considerando sua realidade específica. Compare não apenas os valores de
tributos, mas também os custos de conformidade, a complexidade operacional e os impactos estratégicos de
cada regime.
4.9 Controles e Obrigações Acessórias
4.9.1 O que Você Precisará Controlar
A não cumulatividade do IBS e CBS exige controles que empresas do Lucro Presumido talvez não estivessem
acostumadas a manter com tanto rigor. Você precisará segregar todas as suas compras entre aquelas que
geram crédito e as que não geram.
Cada nota fiscal de entrada precisará ser analisada: é mercadoria para revenda? É insumo de produção? É
serviço relacionado à atividade? É despesa operacional legítima? Ou é algo de uso pessoal que não gera
crédito?
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Mensalmente, você fará a apuração somando todos os débitos de IBS e CBS sobre suas vendas e subtraindo
todos os créditos sobre suas compras. O saldo será o valor a recolher, ou, em alguns casos, o crédito a ser
carregado para o mês seguinte.
Se você acumular créditos consistentemente, precisará controlar esse saldo mês a mês e decidir quando
pedir ressarcimento ou buscar compensação com outros tributos. Isso exige atenção porque créditos
acumulados representam dinheiro parado que poderia estar sendo usado no negócio.
A conciliação fiscal se torna crucial. Você precisará bater mensalmente seus documentos fiscais de entrada e
saída com os créditos e débitos apurados, com os pagamentos efetuados ou retidos via split payment, com
os saldos credores carregados. Divergências precisam ser identificadas e corrigidas rapidamente.
4.9.2 Notas Fiscais Eletrônicas
A Nota Técnica 2025.002 estabelece novos campos obrigatórios nas NF-e e NFC-e para acomodar o IBS, a
CBS e o Imposto Seletivo. Seu sistema emissor de notas fiscais precisará ser atualizado para incluir esses
campos até janeiro de 2027 para CBS e até 2029 para IBS.
Os novos grupos de informação incluem detalhamento de alíquotas aplicadas, bases de cálculo, valores de
tributos, indicação de benefícios fiscais quando aplicáveis. É mais informação para preencher, mais
possibilidade de erro se não houver parametrização adequada.
A boa notícia é que a maioria dos sistemas comerciais de emissão de NF-e já está sendo atualizada pelos
desenvolvedores. Se você usa um sistema online ou um ERP comercial, as atualizações provavelmente virão
automaticamente. Se usa sistema proprietário, entre em contato com seu desenvolvedor agora para garantir
que as adequações serão feitas a tempo.
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CAPÍTULO 5: LUCRO REAL NA REFORMA
TRIBUTÁRIA
5.1 Introdução: O Regime dos GrandesJogadores
O Lucro Real é o regime tributário mais complexo, mais completo e, sob muitos aspectos, o mais justo do
sistema brasileiro. É obrigatório para empresas com faturamento superior a 78 milhões de reais anuais e
para determinadas atividades como bancos, cooperativas de crédito e empresas que exploram atividades de
compra de direitos creditórios. Mas também pode ser optado por qualquer empresa que considere
vantajoso.
Diferentemente do Simples Nacional e do Lucro Presumido, que são regimes simplificados com cálculos
baseados em fórmulas e presunções, o Lucro Real exige que a empresa apure seu lucro efetivo,
considerando todas as receitas e todas as despesas dedutíveis. É um regime que demanda escrituração
contábil completa, controles rigorosos e, geralmente, uma equipe contábil mais especializada.
Com a Reforma Tributária, o Lucro Real mantém sua estrutura essencial, mas ganha novas dimensões na
gestão do IBS e da CBS. Enquanto para o Simples Nacional e o Lucro Presumido a não cumulatividade é uma
novidade, para o Lucro Real ela já era realidade no PIS e na COFINS desde 2002. Então, de certa forma,
empresas do Lucro Real estão mais preparadas para lidar com créditos e débitos tributários.
Mas isso não significa que não haverá mudanças relevantes. A amplitude da base de créditos se expande
significativamente. O tratamento do ativo imobilizado muda radicalmente. Surgem novos benefícios setoriais.
E a gestão tributária se torna ainda mais estratégica.
Neste capítulo, vamos explorar como a Reforma Tributária impacta especificamente empresas do Lucro Real,
quais oportunidades surgem, quais armadilhas evitar e como se posicionar para aproveitar ao máximo o
novo cenário.
5.2 O que Permanece e o que Muda
5.2.1 A Base do Lucro Real Continua Igual
Vamos começar pelo óbvio, mas que precisa ser dito: a forma de calcular o IRPJ e a CSLL no Lucro Real não
muda. Você continua apurando seu resultado contábil, fazendo as adições e exclusões previstas na legislação
fiscal, chegando ao lucro real sobre o qual incidem as alíquotas de 15% de IRPJ (mais adicional de 10% sobre
o que exceder vinte mil reais mensais) e 9% de CSLL.
A escrituração contábil continua obrigatória. O LALUR (Livro de Apuração do Lucro Real) ou sua versão
eletrônica, a e-LALUR, continua sendo exigido. As regras de dedutibilidade de despesas permanecem as
mesmas. A possibilidade de compensar prejuízos fiscais de exercícios anteriores, limitada a 30% do lucro real
do período, também se mantém.
As empresas do Lucro Real que já tinham regime não cumulativo de PIS e COFINS continuarão tendo regime
não cumulativo, agora de CBS. A lógica de créditos e débitos não é novidade. O que muda é a amplitude e as
regras específicas.
5.2.2 De PIS e COFINS para CBS
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A substituição do PIS e da COFINS pela CBS, a partir de 2027, representa a mudança mais imediata para
empresas do Lucro Real. No regime não cumulativo atual, PIS e COFINS somam 9,25% (1,65% + 7,6%). A CBS
terá alíquota de referência de 9,24%, praticamente equivalente.
Mas há diferenças importantes no detalhamento das regras de crédito. A LC 214/2025 estabelece de forma
mais clara e abrangente o que gera direito a crédito do que a legislação atual de PIS e COFINS. Isso pode
significar, na prática, ampliação da base de créditos para algumas empresas.
5.2.3 A Chegada do IBS
A novidade mais significativa para empresas do Lucro Real é a chegada do IBS como substituto do ICMS e do
ISS. Enquanto a transição do PIS e COFINS para CBS é relativamente suave, a transição do ICMS e ISS para IBS
representa uma mudança de paradigma maior.
O ICMS, apesar de ser teoricamente não cumulativo, sempre foi um tributo de difícil gestão. Cada Estado
tem sua legislação própria, suas peculiaridades, seus benefícios fiscais. O aproveitamento de créditos de
ICMS é cheio de restrições e condições. Há vedações, limites, prazos de apropriação parcelada.
O IBS promete ser mais simples e mais amplo. Será um único tributo, com legislação unificada em nível
nacional, administrado conjuntamente por Estados e Municípios através do Comitê Gestor do IBS. As regras
de crédito serão as mesmas da CBS, uniformes em todo território nacional. Não haverá mais a necessidade
de entender 27 legislações estaduais diferentes de ICMS.
Isso é particularmente relevante para empresas que operam em múltiplos Estados. A gestão tributária se
simplificará consideravelmente, mesmo que a alíquota nominal do IBS seja superior à média das alíquotas de
ICMS que conhecemos hoje.
5.3 Ampliação da Base de Créditos
5.3.1 O Conceito de Não Cumulatividade Ampla
A Emenda Constitucional 132/2023, ao criar o IBS e a CBS, estabeleceu um princípio fundamental: a não
cumulatividade ampla. Isso significa que o direito ao crédito abrange todas as aquisições de bens e serviços
relacionados à atividade empresarial, com exceção apenas dos casos expressamente vedados em lei
complementar.
Isso representa uma mudança significativa em relação ao ICMS atual, onde há diversas restrições ao crédito.
Itens de uso e consumo, por exemplo, geram debates infindáveis na jurisprudência do ICMS. Serviços
tomados de terceiros têm tratamento restritivo. Energia elétrica tem regras complexas de creditamento.
Com o IBS e a CBS, a regra geral é: tudo que é adquirido para uso na atividade empresarial gera crédito,
exceto o que for expressamente vedado. E as vedações são taxativas, estão listadas no artigo 57 da LC
214/2025, não podem ser ampliadas por interpretação.
5.3.2 Créditos que se Ampliam
Para empresas do Lucro Real que já tinham não cumulatividade de PIS e COFINS, algumas categorias de
crédito se ampliam significativamente.
Serviços de limpeza, segurança, consultoria, assessoria, todos geram crédito sem necessidade de demonstrar
vínculo direto com a produção ou prestação de serviços. O critério é mais simples: foi tributado na etapa
anterior? Gera crédito.
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Embalagens, tanto de produtos vendidos quanto de produtos recebidos, geram crédito. Material de
escritório, uniformes, equipamentos de proteção individual, tudo isso passa a ter tratamento claro de
crédito.
5.3.3 O Caso Especial do Ativo Imobilizado
Já falamos sobre isso nos capítulos anteriores, mas vale reforçar pela importância. A mudança no tratamento
do ativo imobilizado é revolucionária.
No regime atual, créditos de PIS e COFINS sobre aquisição de bens do ativo imobilizado são apropriados em
48 meses. Para o ICMS, quando há direito ao crédito, também é parcelado em 48 meses. Isso amarra capital,
afeta o fluxo de caixa, desestimula investimentos.
Com o IBS e a CBS, o crédito será integral e imediato. Você compra uma máquina de um milhão de reais, tem
crédito de cerca de 92.400 reais de CBS e aproximadamente 170.000 reais de IBS na mesma hora. São mais
de duzentos e sessenta mil reais de crédito disponível imediatamente para compensar com débitos ou,
eventualmente, pedir ressarcimento.
Para empresas de capital intensivo, isso muda completamente a matemática dos investimentos. O payback
de qualquer investimento em modernização ou expansão melhora significativamente. Setores como
indústria pesada, energia, infraestrutura, telecomunicações, todos se beneficiam enormemente.
Além disso, há o mecanismo de suspensão convertível em alíquota zero para determinados bens de capital.
Você pode adquirir equipamentos sem pagar o tributo na entrada, incorporá-los ao ativo, e ter essa
suspensão convertida em desoneração definitiva. É um estímulo explícito ao investimento produtivo.
5.3.4 Créditos Sobre Exportações
Empresas exportadoras merecem atenção especial. Exportações terão alíquota zero de IBS e CBS, mas com
manutenção integral dos créditos. Isso significa que os exportadorespoderão se creditar de todos os tributos
pagos nas aquisições internas, mas não debitarão nada nas vendas externas.
O resultado será acúmulo de créditos que deverão ser ressarcidos ou compensados. A LC 214/2025 prevê
procedimentos de ressarcimento que prometem ser mais ágeis que os atuais. Mas isso ainda dependerá de
regulamentação específica.
Para empresas que hoje já exportam e lidam com créditos acumulados de PIS e COFINS, a lógica será similar.
Mas a magnitude dos créditos será maior devido às alíquotas mais altas de IBS e CBS. Isso torna ainda mais
importante ter processos eficientes de gestão e recuperação de créditos.
5.4 Vedações ao Crédito e Áreas Cinzentas
5.4.1 O que Definitivamente Não Gera Crédito
O artigo 57 da LC 214/2025 é taxativo ao listar o que não gera direito a crédito. Para empresas do Lucro Real,
que tendem a ter estruturas mais complexas e diversificadas de despesas, é fundamental conhecer bem essa
lista.
Bens de luxo não geram crédito. Joias, obras de arte adquiridas como investimento, antiguidades, nada disso
gera direito ao crédito. A única exceção seria se esses itens fossem mercadoria de revenda da empresa,
como uma galeria de arte ou uma joalheria.
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Bebidas alcoólicas e derivados de tabaco não geram crédito, exceto quando forem o objeto da atividade. Um
supermercado que revende bebidas pode se creditar. Uma indústria que usa álcool como insumo de
produção pode se creditar. Mas a cerveja servida na festa de fim de ano da empresa não gera crédito.
Bens e serviços fornecidos gratuitamente ou a preço subsidiado para sócios, administradores e pessoas a
eles ligadas não geram crédito. Isso é importante para grandes empresas que às vezes oferecem benefícios
diferenciados para executivos de alto escalão. Esses benefícios, se não forem parte de um programa geral de
remuneração devidamente registrado, podem não gerar crédito.
5.4.2 Veículos Executivos e Frotas
A questão dos veículos em grandes empresas é particularmente delicada. Muitas empresas mantêm frotas
de veículos executivos para diretores e gerentes. Esses veículos geram ou não geram crédito?
A resposta depende da política de uso. Se o veículo é fornecido exclusivamente para uso profissional, com
controles de quilometragem e relatórios de viagens, há argumentos fortes para creditar. Se o veículo é
fornecido como benefício pessoal, podendo ser usado livremente em fins de semana e férias, o crédito é
questionável.
A recomendação para grandes empresas é estabelecer políticas claras de uso de veículos, com
documentação adequada. Veículos de representação comercial, usados por equipes de vendas, técnicos de
campo, supervisores que visitam unidades, todos esses claramente geram crédito. Veículos executivos para
uso misto são área cinzenta que pode gerar discussões com o fisco.
Frotas de veículos operacionais, como vans de entrega, caminhões, ônibus para transporte de funcionários,
veículos de serviço técnico, todos obviamente geram crédito integral.
5.5 Gestão de Créditos Acumulados
5.5.1 Quando os Créditos Superam os Débitos
Empresas do Lucro Real, especialmente aquelas com determinadas características, tenderão a acumular
créditos de IBS e CBS superiores aos débitos. Isso acontece em alguns perfis específicos.
Exportadores acumulam créditos porque suas vendas externas têm alíquota zero. Eles se creditam nas
compras internas mas não debitam nas vendas externas. O saldo credor cresce mês a mês.
Empresas fazendo investimentos pesados em ativo imobilizado terão acúmulos temporários. Quando você
compra uma máquina de um milhão de reais e se credita de duzentos e sessenta mil reais de uma vez, isso
gera um saldo credor significativo que levará alguns meses para ser compensado com débitos normais de
operação.
Empresas que estão em fase de implantação, com muitas compras de ativos mas ainda sem vendas plenas,
também acumulam.
5.5.2 Ressarcimento e Compensação
A LC 214/2025 prevê mecanismos de ressarcimento e compensação de créditos acumulados. O
ressarcimento é quando você pede para receber de volta, em dinheiro, os créditos que não consegue
compensar. A compensação é quando você usa esses créditos para abater outros tributos federais.
Os procedimentos específicos ainda dependem de regulamentação pela Receita Federal e pelo Comitê
Gestor do IBS. Mas a promessa é que sejam mais ágeis e menos burocráticos que os procedimentos atuais
de ressarcimento de PIS e COFINS.
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Para empresas com acúmulos estruturais e permanentes, como exportadores, é fundamental estabelecer
processos eficientes de gestão de créditos. Isso inclui controles rigorosos de todos os créditos apropriados,
documentação perfeita, pedidos tempestivos de ressarcimento ou compensação.
Créditos acumulados representam dinheiro parado que poderia estar sendo usado no negócio. Uma
empresa exportadora com cinco milhões de reais em créditos acumulados tem cinco milhões que poderiam
estar investidos em estoque, em marketing, em expansão. A gestão eficiente desses créditos se torna um
fator competitivo.
5.5.3 Planejamento de Investimentos
O crédito imediato sobre ativo imobilizado abre oportunidades interessantes de planejamento. Empresas
podem coordenar seus investimentos de forma a otimizar a utilização de créditos.
Se você tem um grande projeto de expansão que envolve compra de dezenas de milhões em equipamentos,
pode escalonar essas compras ao longo de vários meses para que os créditos gerados sejam
progressivamente compensados com os débitos operacionais, evitando acúmulos excessivos que exigiriam
pedidos de ressarcimento.
Alternativamente, se você tem um acúmulo crônico de créditos por outra razão, pode aproveitar para fazer
investimentos concentrados sabendo que os créditos adicionais do imobilizado se juntarão aos créditos já
existentes para um pedido de ressarcimento único e mais substancial.
Empresas de capital intensivo precisarão desenvolver estratégias sofisticadas de gestão tributária que
considerem não apenas a carga tributária total, mas também o timing e o fluxo de caixa relacionado aos
créditos.
5.6 Impactos Setoriais Específicos
5.6.1 Indústria de Transformação
A indústria de transformação é uma das grandes beneficiadas pela Reforma. A combinação de alta incidência
de custos tributados (matérias-primas, insumos, energia) com o crédito imediato sobre investimentos em
maquinário cria um cenário muito favorável.
Indústrias que hoje já operam no Lucro Real com PIS e COFINS não cumulativos perceberão redução na carga
efetiva, especialmente se investirem regularmente em modernização. A alíquota nominal de IBS e CBS pode
ser maior que a de PIS e COFINS, mas a base de créditos mais ampla e o benefício do imobilizado
compensam com folga.
Setores de alta tecnologia, automobilístico, químico, metalúrgico, todos verão melhorias significativas. A
possibilidade de adquirir bens de capital com suspensão convertível em alíquota zero torna o Brasil mais
competitivo para atrair investimentos industriais.
5.6.2 Setor de Serviços Tecnológicos
Empresas de tecnologia, especialmente as de software e serviços em nuvem, têm uma situação interessante.
Por um lado, seus custos operacionais incluem muitos itens que geram crédito: servidores e equipamentos
de TI, energia de data centers, serviços de telecomunicações, softwares e licenças.
Por outro lado, uma parte significativa dos custos ainda está em pessoas, que não geram crédito. O
resultado final dependerá muito do modelo de negócio específico. Empresas de SaaS com infraestrutura
própria tendem a se beneficiar. Empresas de desenvolvimento de software sob medida, com custos
concentrados em desenvolvedores, podem ter aumento de carga.
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Mas há uma compensação importante: serviços de tecnologia da informação podem ter redução de 60% na
alíquota dependendo de como sejam enquadrados. Isso está em discussão e dependerá de regulamentação
complementar.
5.6.3 Setor Financeiro e Seguradoras
Bancos, seguradoras e instituições financeiras têm algumas particularidades. Muitas de suas operações são
isentas ou têm tratamento diferenciado. Operações de crédito típicas, por exemplo, não são tributadas por
IBS e CBS.
Mas essas instituições consomem muitos serviços que geram crédito: tecnologia, telecomunicações,
consultorias, auditoria, serviços de processamento. Como suas receitas principais não geram débitos,
tenderão a acumular créditos.
A gestão tributária no setor financeiro sempre foi sofisticada, e continuará sendo. Mas a uniformização das
regras de IBS e CBS traz simplificação em relação ao emaranhado atual de tratamentos do PIS e COFINS no
setor.
5.6.4 Varejo de Grande Porte
Grandes redes de varejo, tanto físico quanto e-commerce, têm estrutura de custos favorável à não
cumulatividade. Compram grandes volumes de mercadorias, têm despesas significativas de logística, energia,
telecomunicações, marketing, tudo gerando créditos.
A concentração do varejo brasileiro em grandes redes tende a se intensificar, pois a escala permite melhor
gestão dos créditos tributários. Pequenos varejistas no Simples Nacional que não geram créditos para a
cadeia podem perder competitividade para grandes redes que geram créditos integrais.
O e-commerce se beneficia especialmente. Seus custos de tecnologia, logística e marketing digital são todos
tributados e geram créditos. Centros de distribuição consomem muita energia e serviços logísticos, todos
geradores de crédito. Investimentos em automação de armazéns geram créditos imediatos e substanciais.
5.7 Planejamento Tributário Avançado
5.7.1 Estruturação de Operações
Com a não cumulatividade plena e ampla de IBS e CBS, algumas estruturações operacionais passam a fazer
mais ou menos sentido do ponto de vista tributário.
A verticalização volta a ser interessante. Se você controla toda a cadeia produtiva dentro de uma mesma
empresa, todos os custos internos geram créditos nas etapas intermediárias. Não há perda de crédito em
nenhum ponto.
Mas a terceirização também tem suas vantagens. Serviços tomados de terceiros geram crédito integral. Se
você terceiriza uma etapa produtiva, paga pelo serviço com IBS e CBS destacados e se credita integralmente.
Pode ser mais eficiente do que manter tudo interno, dependendo da estrutura de custos.
A escolha entre verticalização e terceirização deve considerar fatores operacionais, de qualidade, de
flexibilidade. Mas o aspecto tributário não deve mais ser um fator decisivo, pois ambas as opções preservam
o crédito tributário.
5.7.2 Localização de Atividades
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Com a uniformização das regras de IBS em todo território nacional, acabam os incentivos para localizar
operações em Estados com legislações mais favoráveis de ICMS. O planejamento locacional volta a se basear
em fatores econômicos reais: logística, mercado consumidor, disponibilidade de mão de obra, infraestrutura.
Isso deve reduzir a guerra fiscal entre Estados, que distorce as decisões de investimento. Empresas poderão
escolher onde se instalar baseadas em eficiência econômica real, não em benefícios fiscais temporários.
Mas ainda haverá diferenças de alíquotas de IBS entre Estados e Municípios. Esses entes terão autonomia
para definir suas alíquotas dentro de certos limites. Então, algum componente de planejamento tributário
locacional permanecerá, embora muito mais tênue que hoje.
5.7.3 Momento de Realização de Investimentos
O crédito imediato sobre ativo imobilizado cria oportunidades de timing. Se sua empresa tem sazonalidade
com meses de alta e baixa receita, pode fazer sentido concentrar investimentos em meses de alta receita,
quando os débitos serão maiores e absorverão melhor os créditos do imobilizado.
Alternativamente, se você tem acúmulo crônico de créditos por outras razões, pode não haver vantagem
especial em timing de investimentos. Os créditos adicionais se juntarão aos já existentes para ressarcimento
futuro.
Empresas com ciclos plurianuais de investimento, como utilities e empresas de infraestrutura, precisarão
desenvolver modelos sofisticados de projeção de créditos e débitos para otimizar o fluxo de caixa tributário.
5.7.4 Escolha de Fornecedores
A escolha de fornecedores passa a ter um componente tributário importante. Fornecedores no regime
regular (Lucro Real ou Lucro Presumido com IBS e CBS) geram créditos integrais. Fornecedores no Simples
Nacional que não optaram pelo regime regular não geram créditos.
Se dois fornecedores oferecem produtos similares a preços similares, mas um gera crédito e outro não, o
que gera crédito é efetivamente mais barato. A diferença pode chegar a 25% considerando IBS e CBS
somados.
Isso vai pressionar fornecedores do Simples Nacional que atuam no B2B a optarem pelo regime regular de
IBS e CBS, mesmo que isso adicione complexidade. Quem não fizer isso perderá competitividade.
Para sua empresa compradora, vale avaliar sistematicamente se seus principais fornecedores geram ou não
créditos. Em negociações de longo prazo, isso pode ser um ponto de discussão: você pode aceitar um preço
ligeiramente superior de um fornecedor que gera crédito versus um que não gera.
5.8 Controles e Compliance
5.8.1 Escrituração Fiscal Digital
A Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS ainda definirão o formato exato das obrigações acessórias para
IBS e CBS. Mas a expectativa é que haja uma escrituração fiscal digital mensal, provavelmente uma evolução
da EFD-Contribuições atual.
Essa escrituração incluirá todas as operações de entrada e saída com detalhamento de itens, valores,
alíquotas, bases de cálculo. Haverá cruzamento automático de informações entre comprador e vendedor.
Divergências serão identificadas pelo sistema e gerarão notificações.
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Para empresas do Lucro Real, que já lidam com EFD-Contribuições, EFD-ICMS/IPS, SPED Contábil, SPED Fiscal,
a adaptação será menos traumática. Mas será necessário garantir que os sistemas estejam perfeitamente
integrados e que as informações sejam consistentes em todas as obrigações.
A era do compliance reativo, onde você só se preocupa quando chega uma fiscalização, está definitivamente
acabando. O compliance precisa ser preventivo, com monitoramento contínuo de divergências e correções
imediatas.
5.8.2 Auditoria Interna de Créditos
Com a amplitude da base de créditos de IBS e CBS, torna-se fundamental estabelecer processos de auditoria
interna para garantir que todos os créditos a que você tem direito estejam sendo apropriados.
É comum em grandes empresas que alguns setores não se comuniquem adequadamente com o fiscal. A área
de facilities compra material de limpeza e não informa o fiscal, que deixa de apropriar o crédito. O RH
contrata serviços de treinamento e não comunica adequadamente. A área de TI adquire licenças de software
e o fiscal não toma conhecimento.
Processos estruturados de comunicação entre áreas são essenciais. Todas as áreas da empresa que fazem
aquisições precisam entender que há implicação tributária e precisam comunicar tempestivamente ao fiscal.
Auditorias periódicas, trimestrais ou semestrais, devem revisar todas as despesas da empresa e verificar se
os créditos estão sendo apropriados. É dinheiro na mesa que muitas vezes fica para trás por falha de
processo.
5.8.3 Documentação e Comprovação
A fiscalizaçãodo IBS e da CBS será rigorosa. Você precisará comprovar que os créditos apropriados são
legítimos, que as vedações foram observadas, que a documentação está perfeita.
Mantenha todos os documentos fiscais organizados e acessíveis. Tenha controles que permitam identificar
rapidamente qualquer operação. Se o fisco questionar um crédito específico de três anos atrás, você precisa
conseguir mostrar a nota fiscal, o comprovante de pagamento, a vinculação com a atividade empresarial.
Para itens que são áreas cinzentas, como veículos de uso misto ou despesas de representação, tenha
documentação adicional. Relatórios de uso, registros de quilometragem, atas de reuniões, contratos
discutidos, tudo que comprove o caráter empresarial da despesa.
A máxima "o que não está documentado não existe" nunca foi tão verdadeira. Em caso de divergência com o
fisco, quem temmelhor documentação geralmente leva a melhor.
5.8.4 Governança Tributária
Grandes empresas precisarão estabelecer estruturas de governança tributária mais robustas. Comitês que
revisem periodicamente as práticas de apropriação de créditos. Políticas internas claras sobre o que pode e
não pode ser creditado. Treinamento contínuo das equipes.
A área tributária precisa ter assento nas decisões estratégicas da empresa. Decisões de investimento, de
estruturação operacional, de escolha de fornecedores, todas têm implicações tributárias que precisam ser
consideradas desde o início.
Empresas de capital aberto terão seus créditos tributários auditados por auditores externos. Esses créditos
representam ativos no balanço, e sua existência e realizabilidade precisam ser demonstradas. Controles
adequados são essenciais para evitar ressalvas de auditoria.
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5.9 Oportunidades de Carreira e Consultoria
5.9.1 Para Profissionais
A Reforma Tributária cria oportunidades significativas para profissionais especializados. Empresas precisarão
de gente que entenda profundamente as novas regras, que consiga estruturar processos de apropriação de
créditos, que saiba lidar com as obrigações acessórias.
Contadores, advogados tributaristas, consultores, todos verão demanda crescente por seus serviços. Mas só
quem realmente dominar o tema conseguirá se destacar. Não basta conhecimento superficial. É preciso
entender as nuances, as áreas cinzentas, a jurisprudência que está se formando.
Profissionais que investirem pesadamente em capacitação agora, que acompanharem de perto a evolução
regulamentar, que ganharem experiência prática nos primeiros anos da transição, estarão em posição
privilegiada no mercado.
A demanda por profissionais qualificados provavelmente superará a oferta nos primeiros anos. Empresas
competirão por gente boa, oferecerão salários mais altos, benefícios diferenciados. É um momento de ouro
para quem escolher se especializar nessa área.
5.9.2 Para Empresas de Consultoria
Empresas de consultoria tributária terão um mercado vasto nos próximos anos. Desde pequenos escritórios
especializados até grandes consultorias internacionais, todos terão demanda por serviços relacionados à
Reforma.
Diagnósticos de impacto, simulações de cenários, estruturação de processos, implementação de sistemas,
auditoria de créditos, defesa administrativa em questionamentos fiscais, tudo isso será necessário.
Consultorias que se posicionarem rapidamente, que desenvolverem metodologias proprietárias, que
treinarem suas equipes adequadamente, conquistarão fatias significativas desse mercado.
Mas a competição será intensa. Não bastará ser generalista. Especializações setoriais podem ser diferenciais
importantes. Uma consultoria especializada em indústria automobilística, que entende as particularidades
desse setor, poderá cobrar premium sobre generalistas.
5.10 Aspectos Contábeis Específicos do Lucro Real
5.10.1 Tratamento dos Créditos no Balanço
Os créditos de IBS e CBS acumulados representam ativos realizáveis da empresa. Precisam ser registrados
adequadamente no balanço patrimonial, geralmente no ativo circulante quando se espera sua realização no
curto prazo, ou no ativo não circulante quando a realização for mais longa.
A avaliação desses créditos precisa considerar sua efetiva realizabilidade. Se você tem créditos acumulados
que serão compensados com débitos futuros em alguns meses, não há problema. Mas se você tem créditos
que dependem de pedido de ressarcimento com prazo incerto de deferimento, pode ser necessário
constituir provisão para perda.
Auditores externos examinarão esses créditos com atenção. Eles querem ver documentação que comprove a
existência dos créditos, análise de realizabilidade, histórico de ressarcimentos anteriores. Créditos mal
documentados ou de realizabilidade duvidosa podem gerar ressalvas ou até opinião adversa no parecer de
auditoria.
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5.10.2 Impacto nos Indicadores Financeiros
A exclusão de IBS e CBS da receita bruta, por serem tributos "por fora", afetará diversos indicadores
financeiros da empresa. Sua margem bruta, margem operacional, EBITDA, todos serão calculados sobre uma
receita líquida que não inclui esses tributos.
Isso tornará as demonstrações financeiras brasileiras mais comparáveis com as de empresas internacionais,
que geralmente reportam receitas líquidas de impostos sobre consumo. Analistas de mercado terão que se
adaptar a essa nova realidade, mas a tendência é que a comparabilidade melhore.
Para empresas de capital aberto, será importante comunicar claramente aos investidores o impacto dessa
mudança metodológica. Relatórios de resultados precisarão explicar as diferenças entre períodos
comparativos, especialmente durante a transição.
5.10.3 Planejamento Tributário e Auditoria
A interface entre planejamento tributário e auditoria contábil se torna mais crítica. Estratégias agressivas de
apropriação de créditos podem ser questionadas por auditores externos que precisam atestar a
razoabilidade dos valores registrados no balanço.
É fundamental que o planejamento tributário seja sempre baseado em interpretações razoáveis da lei, com
documentação adequada e pareceres técnicos quando necessário. Planejamentos que se baseiam em
interpretações forçadas ou criativas demais podem não passar pelo crivo da auditoria.
A governança tributária precisa incluir comitês que avaliem não apenas a legalidade e a economia tributária
das estratégias adotadas, mas também sua defensibilidade em auditorias e eventuais fiscalizações.
5.11 Transição Prática para Empresas do Lucro Real
5.11.1 Cronograma de Ações
Para empresas do Lucro Real, a preparação para a Reforma exige um cronograma estruturado de ações ao
longo dos próximos anos.
Em 2025 e início de 2026, o foco deve ser diagnóstico e planejamento. Mapeie completamente sua estrutura
de custos identificando o que gerará crédito de CBS e IBS. Faça simulações detalhadas do impacto financeiro.
Identifique necessidades de adequação de sistemas. Avalie se sua estrutura tributária interna tem
capacidade para lidar com a complexidade adicional ou se será necessário reforçar a equipe.
Durante 2026, com a CBS em teste, foque na implementação. Atualize sistemas de emissão de notas fiscais.
Treine equipes em todas as áreas da empresa que fazem aquisições. Estabeleça processos de comunicação
entre áreas operacionais e fiscal. Faça testes das rotinas de apuração de créditos e débitos.
Em 2027, quando a CBS entrar em vigor pleno, o primeiro trimestre será crítico. Monitore de perto cada
apuração mensal. Compare resultados reais com as projeções feitas. Identifique desvios e suas causas.
Ajuste processos e sistemas conforme necessário. Mantenha canal aberto com seu contador ou consultoria
tributária para esclarecer dúvidas rapidamente.
Ao longo de 2027e 2028, o foco passa a ser otimização. Você já está operando sob o novo regime de CBS.
Agora é hora de refinar processos, identificar oportunidades de crédito não aproveitadas inicialmente,
treinar continuamente as equipes, estabelecer benchmarks de eficiência na gestão tributária.
De 2029 a 2032, durante a transição gradual do ICMS e ISS para IBS, mantenha atenção redobrada. Você
estará gerenciando simultaneamente os tributos antigos e o novo. Os sistemas precisarão calcular
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corretamente as proporções que mudam a cada ano. É uma fase de complexidade temporária que exige
cuidado mas não pânico.
A partir de 2033, com o sistema plenamente implementado, entre em modo de gestão contínua e
aprimoramento. Revise periodicamente suas práticas, acompanhe mudanças regulamentares, participe de
discussões setoriais sobre interpretações tributárias.
5.11.2 Investimento em Pessoas e Sistemas
A Reforma exigirá investimentos significativos em pessoas e sistemas. Para a área tributária, pode ser
necessário contratar profissionais adicionais ou requalificar os existentes. O perfil do profissional tributário
muda: não basta mais conhecer a lei, é preciso ter visão estratégica e capacidade analítica.
Invista em treinamento contínuo. A regulamentação da Reforma ainda está em evolução. Haverá instruções
normativas, portarias, resoluções do Comitê Gestor do IBS, tudo isso alterando e detalhando as regras. Sua
equipe precisa estar constantemente atualizada.
Nos sistemas, a necessidade de investimento varia conforme o estágio atual de tecnologia da empresa.
Empresas que já usam ERPs modernos e integrados terão que fazer upgrades e parametrizações, mas a base
já existe. Empresas que ainda usam sistemas legados ou processos parcialmente manuais precisarão de
investimentos maiores.
A integração entre sistemas contábil, fiscal e financeiro se torna obrigatória. A apuração de IBS e CBS
depende de informações corretas sobre todas as entradas e saídas. O split payment exige integração com
sistemas bancários. Tudo precisa conversar perfeitamente.
Considere também investir em ferramentas de business intelligence para gestão tributária. Dashboards que
mostrem em tempo real a evolução dos créditos e débitos, que alertem para anomalias, que projetem
cenários futuros. A gestão tributária precisa se tornar mais analítica e menos operacional.
5.11.3 Comunicação com Stakeholders
Empresas de capital aberto ou que tenham investidores institucionais precisarão comunicar adequadamente
o impacto da Reforma. Investidores precisam entender como a mudança tributária afeta os resultados da
empresa, o fluxo de caixa e a necessidade de capital de giro.
Prepare materiais explicativos que mostrem o impacto da Reforma de forma clara e transparente. Em calls
de resultados, dedique tempo para explicar as mudanças. Antecipe questionamentos dos analistas e tenha
respostas prontas.
Para empresas familiares ou com sócios não operacionais, a comunicação também é importante. Sócios
precisam entender por que a empresa está investindo em sistemas e pessoas para a área tributária.
Precisam compreender que eventuais aumentos temporários de carga tributária durante a transição são
normais e esperados.
Com fornecedores e clientes, pode haver necessidade de renegociação de contratos de longo prazo. Se você
tem contratos com preços fixos que se estendem para além de 2027, pode precisar de cláusulas de revisão
para ajustar aos novos custos tributários.
5.12 Estudos de Caso: Empresas do Lucro Real
5.12.1 Caso 1: Indústria Automobilística
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Uma montadora de veículos com faturamento anual de 5 bilhões de reais opera no Lucro Real. Sua estrutura
de custos inclui: 2,5 bilhões em autopeças e componentes, 800 milhões em salários e encargos, 200 milhões
em energia elétrica, 150 milhões em serviços de terceiros, 100 milhões em depreciação.
No regime atual de PIS e COFINS não cumulativo, ela paga 9,25% sobre o faturamento (462,5 milhões) mas
se credita de 9,25% sobre autopeças (231,25 milhões), energia (18,5 milhões) e serviços (13,875 milhões).
Total de créditos: 263,625 milhões. PIS e COFINS líquidos: 198,875 milhões anuais.
No novo regime com CBS (9,24%), o débito seria 462 milhões mas os créditos somam: autopeças 231
milhões, energia 18,48 milhões, serviços 13,86 milhões, totalizando 263,34 milhões. CBS líquida: 198,66
milhões. Praticamente equivalente ao regime atual.
Mas aqui está o diferencial: essa montadora investe cerca de 300 milhões por ano em novos equipamentos e
modernização de linhas de produção. No regime atual, esse crédito é apropriado em 48 meses (27,75
milhões por ano de PIS e COFINS). No novo regime, será apropriado integralmente no ano do investimento:
27,72 milhões de CBS mais cerca de 51 milhões de IBS, totalizando quase 79 milhões de crédito imediato.
Resultado: redução significativa de carga tributária efetiva e melhoria substancial do fluxo de caixa
relacionado aos investimentos. O payback de projetos de modernização melhora, estimulando mais
investimentos.
5.12.2 Caso 2: Rede de Supermercados
Uma grande rede de supermercados com faturamento anual de 8 bilhões opera no Lucro Real. Sua estrutura
inclui: 6 bilhões em compras de mercadorias, 800 milhões em salários, 400 milhões em logística e frete, 200
milhões em energia elétrica, 150 milhões em aluguel de lojas, 100 milhões em serviços diversos.
No regime atual de PIS e COFINS cumulativo, paga 3,65% sobre 8 bilhões = 292 milhões, sem direito a crédito.
No novo regime com CBS não cumulativa, terá débito de 9,24% sobre 8 bilhões = 739,2 milhões. Mas terá
créditos de: mercadorias 554,4 milhões, logística 36,96 milhões, energia 18,48 milhões, aluguel 13,86
milhões, serviços 9,24 milhões. Total de créditos: 632,94 milhões. CBS líquida: 106,26 milhões.
Comparação brutal: de 292 milhões de PIS e COFINS cumulativo para 106,26 milhões de CBS não cumulativa.
Redução de mais de 60% na carga tributária sobre consumo.
Esse é um caso claro onde a não cumulatividade beneficia enormemente o setor. Supermercados, que
trabalham com margens apertadíssimas, verão melhoria significativa de rentabilidade ou poderão repassar
parte dessa economia em preços mais baixos para consumidores.
5.12.3 Caso 3: Empresa Exportadora
Uma trading company que exporta commodities agrícolas tem faturamento anual de 2 bilhões, sendo 1,5
bilhão em exportações e 500 milhões em mercado interno. Sua estrutura de custos inclui: 1,8 bilhão em
compras de produtos agrícolas, 50 milhões em logística, 30 milhões em serviços portuários, 20 milhões em
despesas administrativas.
No regime atual, ela paga PIS e COFINS (9,25%) sobre os 500 milhões de mercado interno = 46,25 milhões. Se
credita de 9,25% sobre todas as compras = 166,5 milhões. Tem créditos acumulados de cerca de 120 milhões
por ano, que precisa pedir ressarcimento.
No novo regime, a situação se intensifica. Débito de CBS apenas sobre mercado interno: 500 milhões x 9,24%
= 46,2 milhões. Créditos sobre todas as compras: 166,32 milhões. Acúmulo anual de créditos: 120,12 milhões
de CBS.
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Quando entrar o IBS, o acúmulo será ainda maior, considerando alíquota estimada de 17%. A gestão de
créditos acumulados se torna crítica para essa empresa. Ela precisará de processos muito eficientes de
pedido de ressarcimento e relacionamento próximo com Receita Federal e Comitê Gestor do IBS.
Alternativamente, pode usar esses créditos para compensar com outros tributos federais. Mas isso exige
planejamento tributário sofisticado e aproveitamento de todas as oportunidadeslegais de compensação.
5.12.4 Caso 4: Empresa de Tecnologia (SaaS)
Uma empresa de software como serviço com faturamento anual de 300 milhões opera no Lucro Real. Sua
estrutura inclui: 150 milhões em salários e pró-labore de desenvolvedores, 40 milhões em servidores e
infraestrutura de nuvem, 30 milhões em marketing digital, 20 milhões em serviços de terceiros, 15 milhões
em energia de data centers.
No regime atual de PIS e COFINS não cumulativo, paga 9,25% sobre 300 milhões = 27,75 milhões. Se credita
de infraestrutura (3,7 milhões), marketing (2,775 milhões), serviços (1,85 milhões), energia (1,3875 milhões).
Total de créditos: 9,7125 milhões. PIS e COFINS líquidos: 18,0375 milhões.
No novo regime com CBS (9,24%), débito de 27,72 milhões. Créditos ampliam porque energia passa a gerar
crédito integral: infraestrutura 3,696 milhões, marketing 2,772 milhões, serviços 1,848 milhões, energia
1,386 milhões. Total: 9,702 milhões. CBS líquida: 18,018 milhões.
Resultado praticamente equivalente ao regime atual. Mas com um diferencial: se essa empresa decide
investir 20 milhões em expansão de data center, terá crédito imediato de 1,848 milhões de CBS e 3,4
milhões de IBS, totalizando 5,248 milhões. Isso torna projetos de expansão de infraestrutura mais atrativos
financeiramente.
5.13 Considerações Finais sobre o Lucro Real
O Lucro Real emerge da Reforma Tributária como um regime ainda mais sofisticado e estratégico. A
amplitude da não cumulatividade, o benefício dos investimentos em imobilizado, a uniformização das regras,
tudo isso cria oportunidades para empresas que souberem se posicionar adequadamente.
Mas também aumenta a complexidade e a necessidade de controles rigorosos. Empresas no Lucro Real
precisarão investir em sistemas, em pessoas, em processos. A área tributária deixa de ser apenas um centro
de custo para se tornar um centro de inteligência estratégica.
A transição será longa e nem sempre tranquila. Haverá dúvidas, ajustes, discussões com o fisco, formação de
jurisprudência. Empresas que encararem isso como oportunidade de aprendizado e aprimoramento sairão
fortalecidas. Empresas que tentarem seguir no piloto automático enfrentarão dificuldades.
O recado final é: invista em conhecimento, em estrutura, em pessoas. A Reforma Tributária é complexa, mas
é também uma oportunidade de construir vantagens competitivas sustentáveis através de excelência na
gestão tributária.
Para profissionais que atuam na área tributária, este é o momento de ouro. A demanda por conhecimento
especializado será enorme. Quem se dedicar a dominar profundamente as novas regras, quem conseguir
traduzir complexidade legal em estratégias práticas de negócio, terá um mercado vasto pela frente.
Para empresários e executivos, a mensagem é clara: a gestão tributária não pode mais ser vista como um
mal necessário ou uma função meramente operacional. Ela precisa estar integrada à estratégia de negócios,
participar das decisões de investimento e influenciar escolhas operacionais. Empresas que fizerem essa
transição de mentalidade sairão na frente.
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A Reforma Tributária representa uma das maiores transformações do ambiente de negócios brasileiro em
décadas. É desafiadora, sim. É complexa, sem dúvida. Mas também é uma oportunidade única de repensar
processos, modernizar estruturas, construir vantagens competitivas através da excelência tributária. Que
possamos, todos, estar à altura desse momento histórico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E LEGISLATIVAS
Legislação Principal:
Emenda Constitucional nº 132/2023 – Institui a Reforma Tributária do Consumo
Lei Complementar nº 214/2025 – Regulamenta o IBS e a CBS
Decreto-Lei nº 1.598/1977 – Legislação do Imposto de Renda
Lei nº 9.430/1996 – Legislação Tributária Federal
Regulamento do Imposto de Renda (RIR/2018)
Normas Complementares:
Nota Técnica 2025.002 – Alterações na NF-e e NFC-e para IBS, CBS e IS
Instruções Normativas da Receita Federal (em elaboração)
Regulamentos do Comitê Gestor do IBS (em elaboração)
Atos COTEPE/ICMS (período de transição)
Material de Apoio:
Guia Prático da Reforma Tributária – Receita Federal do Brasil
Cartilhas do Comitê Gestor do IBS
Perguntas e Respostas sobre IBS e CBS
Manuais de Escrituração Fiscal Digital
Para Aprofundamento:
Este material foi desenvolvido com base na legislação vigente até novembro de 2025. A implementação da
Reforma Tributária é processo contínuo que se estenderá até 2033. Recomenda-se:
Acompanhamento constante das atualizações através dos sites oficiais da Receita Federal
(www.gov.br/receitafederal) e do Comitê Gestor do IBS
Participação em eventos, cursos e seminários sobre a Reforma
Consulta regular a profissionais especializados
Monitoramento da jurisprudência administrativa e judicial que está se formando
Participação em grupos de discussão setoriais
O conhecimento sobre a Reforma Tributária não é estático. Está em constante evolução à medida que
surgem regulamentações complementares e casos práticos. Mantenha-se atualizado, questione, busque
esclarecimentos. A excelência na gestão tributária será cada vez mais um diferencial competitivo no
mercado brasileiro.
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50Patricia de Souza Timoteo - fiscal@suzantur.com.br - IP: 177.188.182.235Apenas IBS, CBS e IS em vigor
ICMS, ISS, PIS, COFINS e IPI (exceto ZFM) extintos
Sistema plenamente operacional
1.3.2 Implicações Práticas da Transição
Para as Empresas:
Durante o período de transição (2026-2032), as empresas enfrentarão complexidades significativas:
Dupla apuração tributária: Necessidade de calcular tanto os tributos antigos quanto os
novos simultaneamente;
Adaptação de sistemas: Obrigatoriedade de adequação dos ERPs e sistemas de gestão fiscal
para suportar ambos os regimes;
Gestão de créditos: Controle separado de créditos de PIS/COFINS (até 2026) e créditos de
CBS/IBS (após 2027);
Compliance ampliado: Aumento temporário das obrigações acessórias durante a
convivência dos dois sistemas;
Planejamento tributário complexo: Necessidade de analisar cenários em cada ano da
transição.
Para a Administração Tributária:
Investimento em tecnologia: Desenvolvimento de novos sistemas de arrecadação e
fiscalização;
Capacitação de auditores: Treinamento sobre os novos tributos e o sistema de créditos;
Criação do Comitê Gestor: Estruturação de novo órgão de gestão do IBS até 31/12/2025;
Integração de bases de dados: Unificação de informações fiscais dos três níveis federativos.
1.3.3 Regras de Crédito na Transição
Um dos aspectos mais complexos da transição diz respeito ao aproveitamento de créditos
acumulados:
Créditos de PIS/COFINS:
Créditos existentes até 2026 poderão ser aproveitados até seu esgotamento
Possibilidade de compensação com CBS após 2027, respeitadas regras específicas
Prazo de 5 anos para utilização de créditos não aproveitados
Créditos de ICMS:
Saldo credor de ICMS existente em 2032 poderá ser transferido para IBS
Regras específicas de conversão definidas por cada estado
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Possibilidade de ressarcimento para exportadores
1.4 O CONCEITO DE NÃO-CUMULATIVIDADE: O CENTRO DE TUDO
A não-cumulatividade é o princípio estruturante da Reforma Tributária e o elemento que diferencia
fundamentalmente o novo sistema do atual. Compreender este conceito é essencial para qualquer
análise dos impactos nos diferentes regimes tributários.
1.4.1 O Problema da Cumulatividade no Sistema Atual
No sistema tributário brasileiro vigente até 2026, convivem diferentes modelos de tributação:
Tributação Cumulativa (ou "em cascata"):
Tributo incide sobre tributo em cada etapa da cadeia
Não há direito a crédito sobre aquisições anteriores
Cada operação paga imposto sobre o valor total, incluindo impostos anteriores
Exemplos: PIS/COFINS no regime cumulativo, ISS em muitos municípios
Efeito Cascata - Exemplo Numérico:
Suponha um produto que passa por três etapas (PIS/COFINS cumulativo a 3,65%):
Carga efetiva: R$ 15,62 sobre valor agregado total de R$ 184,82 = 8,45% (mais que o dobro da
alíquota nominal!)
Tributação Não-Cumulativa Parcial (sistema atual):
Direito a crédito limitado a determinadas operações
Múltiplas restrições ao creditamento (ex: ICMS)
Complexidade na apuração dos créditos
Exemplos: PIS/COFINS não-cumulativo, ICMS
1.4.2 A Não-Cumulatividade Plena no Novo Sistema
A LC 214/2025 institui um modelo de não-cumulatividade plena por crédito financeiro, seguindo os
padrões internacionais de IVA. Este sistema tem as seguintes características:
Princípio Fundamental:
"O tributo incide apenas sobre o valor agregado em cada etapa da cadeia econômica"
Mecanismo de Funcionamento:
Débito da operação própria: Ao vender ou prestar serviços, o contribuinte calcula o IBS/CBS
sobre o valor da operação
Crédito das aquisições: O contribuinte tem direito a se creditar de todo IBS/CBS pago nas
aquisições de bens e serviços
Compensação: Créditos compensam débitos no mesmo período de apuração
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Saldo: Se débito > crédito → paga diferença; Se crédito > débito → acumula para próximo
período ou pede ressarcimento
Não-Cumulatividade Plena - Exemplo Numérico:
Mesmo produto, IBS+CBS a 28%:
Carga efetiva: R$ 51,75 sobre valor agregado total de R$ 184,82 = exatos 28% (alíquota nominal)
1.4.3 Regras de Creditamento: O Que Gera e o Que Não Gera Crédito
Aquisições que GERAM direito a crédito (art. 156-A, § 1º, VIII, CF/88):
Todas as aquisições de bens e serviços utilizados na atividade econômica
Matérias-primas e insumos
Mercadorias para revenda
Bens do ativo imobilizado e de capital (creditamento imediato)
Serviços tomados de terceiros
Energia elétrica
Comunicações
Combustíveis e lubrificantes
Bens de uso e consumo relacionados à atividade
Aquisições que NÃO GERAM direito a crédito:
Bens e serviços de uso ou consumo pessoal do empresário/sócios
Operações imunes ou isentas (não há débito, logo não há crédito)
Operações sujeitas a alíquota zero (mantém direito ao crédito mesmo que não tenha débito)
Regra Importante - Operações com Isenção/Imunidade:
Uma das mudanças mais impactantes: na venda de produto isento ou imune, o vendedor:
Não cobra IBS/CBS do comprador
Deve estornar (anular) os créditos tomados nas aquisições relacionadas àquela operação
Efeito: A isenção/imunidade gera custo tributário na cadeia anterior
1.4.4 Por Que a Não-Cumulatividade é o Centro de Tudo
A não-cumulatividade plena é o elemento que:
Determina a carga tributária efetiva: Diferentemente do sistema atual, a alíquota nominal
será igual à carga efetiva
Impacta a competitividade: Empresas com cadeias longas não terão desvantagem em
relação a cadeias curtas
Define estratégias empresariais: A possibilidade de crédito influencia decisões de “produzir”
ou “terceirizar”
Afeta precificação: Produtos terão carga tributária previsível e transparente
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Altera regimes tributários: A escolha entre Simples, Presumido e Real passa a considerar o
acesso ou não a créditos
Exemplo Prático do Impacto:
Situação Atual (PIS/COFINS não-cumulativo):
Empresa industrial: aproveita créditos = carga efetiva menor
Empresa de serviços: poucos créditos = carga efetiva maior
Diferentes competitividades setoriais
Situação Futura (CBS + IBS):
Ambas aproveitam créditos integrais
Mesma carga proporcional ao valor agregado
Competição mais equilibrada
1.5 SÍNTESE DO CAPÍTULO: CONCEITOS-CHAVE PARA AVANÇAR
Antes de analisar os impactos específicos em cada regime tributário (Capítulos 3, 4 e 5), é
fundamental consolidar os conceitos apresentados:
Os Três Pilares:
IBS (estados + municípios) substitui ICMS + ISS
CBS (federal) substitui PIS + COFINS
IS (federal, extrafiscal) substitui parcialmente o IPI
A Transição:
2026-2027: Fase de testes e início da CBS
2027-2032: Convivência gradual dos dois sistemas
2033: Sistema novo em vigor pleno
A Não-Cumulatividade:
Princípio central: tributo apenas sobre valor agregado
Crédito financeiro integral sobre todas as aquisições
Segregação de créditos: IBS ≠ CBS
Vedação de crédito em operações isentas/imunes na saída
Questões em Aberto para os Próximos Capítulos:
Compreendidos estes fundamentos, surgem as perguntas que motivam o restante deste ebook:
Como o Simples Nacional se adapta a um modelo de não-cumulatividade? (Capítulo 3)
Empresas no Lucro Presumido terão acesso a créditos de IBS/CBS? (Capítulo 4)
O Lucro Real se torna mais vantajoso com o crédito pleno? (Capítulo 5)
Setores específicos ganham ou perdem com a reforma? (Análises setoriais)
Nos próximos capítulos, aprofundaremos cada um desses questionamentos, analisando os impactos
concretos da reforma nos três principais regimes de tributação das empresas brasileiras.
Referências Normativas Principais do Capítulo:
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Constituição Federal, art. 153, VIII; art. 156-A; art. 195, V (redação EC 132/2023)
Emenda Constitucional nº 132/2023
Lei Complementar nº 214/2025 (integral)
Art. 409 e seguintes (Imposto Seletivo)
Art. 12 e seguintes (CBS)
Disposições sobre o IBS
Este capítulo estabeleceu os fundamentos essenciais da Reforma Tributária. A compreensão
adequada destes conceitos é pré-requisito indispensável para a análise crítica dos impactos nos
diferentes regimes tributários que será realizada nos capítulos subsequentes.
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CAPÍTULO 2
O FIM DA GUERRA FISCAL E O QUE ISSO SIGNIFICA PARA TODOS
Um Capítulo Transversal, Essencial para Entender o Impacto Geral
2.1 INTRODUÇÃO: O CONTEXTO HISTÓRICO DA GUERRA FISCAL NO
BRASIL
Antes de analisarmos os impactos específicos da Reforma Tributária nos diferentes regimes de
tributação, é fundamental compreender um dos fenômenos mais nocivos do sistema tributário
brasileiro pré-reforma: a chamada "guerra fiscal" do ICMS. Este capítulo é transversal porque seus
efeitos impactam todos os regimes tributários – Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real – e
afetam diretamente decisões estratégicas de localização, precificação e competitividade
empresarial.
A guerra fiscal pode ser definida como a disputa competitiva entre Estados da Federação pela
atração de investimentos privados mediante a concessão unilateral de benefícios e incentivos
fiscais relacionados ao ICMS, em violação ao art. 155, §2º, XII, "g" da Constituição Federal, que
exige deliberação unânime no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (CONFAZ).
2.1.1 Origens do Fenômeno: Pós-Constituição de 1988
A guerra fiscal intensificou-se após a promulgação da Constituição Federal de 1988, que:
Atribuiu competência tributária aos Estados para instituir e cobrar o ICMS (art. 155, II,
CF/88);
Descentralizou receitas, ampliando a autonomia financeira dos entes subnacionais;
Criou assimetrias regionais, com estados mais desenvolvidos tendo maior capacidade fiscal.
A Lei Complementar nº 24/1975, recepcionada pela CF/88, estabeleceu que a concessão de
benefícios fiscais de ICMS deveria ser aprovada por unanimidade no CONFAZ. Este requisito, na
prática, tornou-se um obstáculo intransponível, levando os Estados a concederem incentivos de
forma unilateral e, portanto, inconstitucional.
2.1.2 Instrumentos da Guerra Fiscal
Os Estados utilizaram diversos mecanismos para reduzir a carga efetiva de ICMS e atrair empresas:
Instrumentos Fiscais Comuns:
Crédito presumido: Permissão para apropriação de créditos fictícios, sem correspondência
com tributos efetivamente pagos;
Redução de base de cálculo: Diminuição artificial do valor sobre o qual incide o ICMS;
Isenções e alíquotas reduzidas: Concessão de benefícios setoriais ou por empresa;
Diferimento: Postergação do recolhimento do ICMS para etapas posteriores da cadeia;
Dilação de prazo de pagamento: Financiamento do ICMS devido com juros subsidiados ou
inexistentes.
Exemplo Prático - Indústria Automobilística:
Um dos casos mais emblemáticos de guerra fiscal envolveu montadoras de veículos nos anos 1990
e 2000. Estados como Bahia, Goiás, Rio de Janeiro e Paraná ofereceram pacotes que incluíam:
Financiamento de até 70% do ICMS devido por 10 anos;
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Carência de até 5 anos para início do pagamento;
Doação de terrenos e infraestrutura;
Isenção de IPVA para funcionários.
O resultado: empresas migravam para estados com maiores incentivos, gerando perda de
arrecadação nos estados de origem e questionamentos judiciais sobre a constitucionalidade dos
benefícios.
2.2 A LÓGICA DO ICMS: ORIGEM VS. DESTINO
Para compreender por que a guerra fiscal foi possível e por que o IBS a elimina, é essencial
entender o princípio de tributação do ICMS.
2.2.1 O Sistema Atual: Tributação Mista (Origem + Destino)
No modelo vigente até 2033, o ICMS é cobrado de forma híbrida:
Operações Internas (dentro do mesmo Estado):
100% do ICMS pertence ao Estado de origem
Alíquota definida pelo Estado (geralmente 17-18%)
Operações Interestaduais (entre Estados):
Alíquota interestadual (7%, 12% ou 4% para importados) → Estado de origem
Diferença entre alíquota interna e interestadual → Estado de destino (diferencial de
alíquota - DIFAL)
Exemplo Numérico - Sistema Atual:
Uma indústria de eletrônicos localizada em Goiás vende um produto de R$ 1.000 para um varejista
em São Paulo:
O Problema: Goiás tem incentivo para conceder benefícios fiscais, pois recebe a maior parte do
ICMS (R$ 120), mesmo que o consumo final ocorra em São Paulo.
2.2.2 Distorções Criadas pela Tributação na Origem
1. Incentivo à Guerra Fiscal
Estados competem para sediar operações comerciais e industriais, pois ficam com parte
significativa da arrecadação, mesmo que o consumo ocorra em outro estado. Resultado: "corrida
para o fundo do poço" com renúncia fiscal crescente.
2. Decisões Empresariais Distorcidas
Empresas escolhem localização não por eficiência logística, mão de obra qualificada ou proximidade
de mercados, mas sim por incentivos fiscais. Exemplo: centro de distribuição no Nordeste para
atender mercado do Sudeste apenas por benefícios fiscais.
3. Complexidade Tributária Extrema
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Empresas que operam nacionalmente precisam:
Lidar com 27 legislações estaduais diferentes;
Calcular DIFAL em cada operação interestadual;
Gerenciar acordos de incentivos específicos com cada Estado;
Contabilizar créditos de ICMS que podem ser glosados por "guerra fiscal".
4. Judicialização Massiva
Estados de destino questionam benefícios concedidos por estados de origem, gerando:
Glosa de créditos de ICMS (não reconhecimento);
ADINs no Supremo Tribunal Federal;
Insegurança jurídica para contribuintes;
Passivos tributários bilionários.
Dados Quantitativos da Guerra Fiscal:
Segundo estudos do IPEA e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID):
Renúncia fiscal total: estimada em R$ 100 bilhões anuais (dados de 2019);
Número de ADINs no STF: mais de 30 ações diretas contra leis estaduais de incentivo fiscal;
Estados mais agressivos: GO, BA, SC, ES, PR (setores variados);
Setores mais beneficiados: automotivo, eletroeletrônicos, farmacêutico, bebidas.
2.3 A SOLUÇÃO DA REFORMA: IBS NO DESTINO
A mudança mais estrutural da Reforma Tributária em relação ao fim da guerra fiscal é a adoção
plena do princípio do destino para o IBS.
2.3.1 Como Funciona a Tributação no Destino
No modelo do IBS, conforme art. 15 da LC 214/2025:
"A alíquota do IBS incidente sobre cada operação corresponderá à soma da alíquota do
Estado de destino da operação e da alíquota do Município de destino da operação."
Princípio Fundamental: 100% da receita do IBS é destinada ao Estado e ao Município onde ocorre
o consumo (local de entrega do bem ou prestação do serviço ao destinatário final).
Exemplo Numérico - Novo Sistema (IBS):
A mesma indústria de eletrônicos de Goiás vende para varejista em São Paulo (produto de
R$ 1.000):
Resultado: Goiás não tem mais incentivo para conceder benefícios fiscais, pois não fica com
nenhuma receita dessa operação. Todo o tributo pertence ao destino (São Paulo).
2.3.2 Por Que a Guerra Fiscal Se Torna Inviável
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1. Ausência de Receita para Renunciar
Se o Estado de origem não recebe tributo, não há o que renunciar. Conceder "isenção" de IBS em
Goiás seria irrelevante, pois o IBS pertence a São Paulo.
2. Uniformidade Nacional de LegislaçãoA LC 214/2025 estabelece legislação nacional única para o IBS (arts. 1º a 331). Estados e Municípios:
Podem: fixar suas alíquotas (art. 14);
Não podem: criar benefícios, isenções ou regimes especiais próprios (competência exclusiva
da legislação nacional).
3. Gestão Centralizada - Comitê Gestor do IBS
O Comitê Gestor do IBS (art. 154 e seguintes) será responsável por:
Arrecadação centralizada;
Fiscalização unificada;
Distribuição de receitas aos entes federativos;
Vedação a acordos bilaterais entre Estados e contribuintes.
4. Vedação Constitucional
O art. 156-A, §1º, VI da CF/88 (redação EC 132/2023) veda expressamente:
"VI - a concessão de isenção, incentivo ou benefício fiscal ou financeiro-fiscal, incluindo
regime especial de tributação, parcelamento e remissão, que resulte, direta ou
indiretamente, em carga tributária menor que a decorrente das regras gerais de
incidência, salvo previsão expressa nesta Constituição e em lei complementar
específica".
Ou seja: benefícios fiscais de IBS somente podem ser concedidos por lei complementar nacional,
nunca por legislação estadual.
2.4 IMPACTOS PRÁTICOS DO FIM DA GUERRA FISCAL
2.4.1 Para as Empresas: Mudança nas Decisões Estratégicas
Localização Industrial e Logística
Antes (com guerra fiscal):
Decisão baseada primariamente em incentivos fiscais;
Exemplo: centro de distribuição em Estado distante do mercado consumidor apenas por
ICMS reduzido;
Ineficiência logística compensada por economia tributária.
Depois (sem guerra fiscal):
Decisão baseada em eficiência econômica real:
Proximidade de mercados consumidores;
Qualidade de infraestrutura (portos, rodovias, ferrovias);
Disponibilidade de mão de obra qualificada;
Custo de logística e transporte;
Segurança jurídica e ambiente de negócios.
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Implicação: Estados precisarão competir por investimentos através de eficiência real
(infraestrutura, educação, desburocratização), não por renúncia fiscal artificial.
Estrutura Operacional
Muitas empresas criaram estruturas complexas para aproveitar benefícios fiscais:
Múltiplas filiais em Estados diferentes para operações triangulares;
Centros de distribuição em locais não-ótimos;
Operações de importação em portos distantes para aproveitar benefícios.
Tendência pós-reforma: Simplificação de estruturas, com consolidação de operações em locais
estratégicos do ponto de vista comercial e logístico.
2.4.2 Para os Estados: Perda de Instrumento de Política Econômica
Estados Perdedores (Curto Prazo)
Estados que dependiam fortemente de guerra fiscal para atrair investimentos enfrentarão desafios:
Exemplos:
Goiás: Setor farmacêutico e de cosméticos (benefícios agressivos de ICMS);
Espírito Santo: Comércio atacadista (importação com benefícios);
Santa Catarina: Setores diversos com crédito presumido elevado;
Bahia: Indústria automotiva (Ford até recentemente).
Riscos:
Possível êxodo de empresas que estavam no Estado apenas por incentivos;
Queda de arrecadação (embora compensada parcialmente pelo Fundo de Compensação);
Necessidade de reestruturação econômica.
Compensação Prevista na Reforma:
A LC 214/2025 criou o Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais do ICMS (arts. 384 a 405):
R$ 160 bilhões ao longo de 8 anos (2025-2032);
Pagamento direto aos contribuintes beneficiários (não aos Estados);
Apenas para benefícios onerosos (que exigiram contrapartidas como investimento,
empregos);
Redução gradual: 2029 (100%) → 2032 (10%).
Estados Ganhadores (Longo Prazo)
Estados que eram "vítimas" da guerra fiscal (geralmente os mais desenvolvidos e consumidores):
Exemplos:
São Paulo: maior mercado consumidor, perdia receita para Estados de origem;
Rio de Janeiro: consumo elevado, mas indústrias migrando para outros Estados;
Minas Gerais: consumo forte, competia com ES e GO em guerra fiscal.
Benefícios:
Aumento de arrecadação do IBS (tributação no destino favorece grandes consumidores);
Redução de contencioso administrativo e judicial;
Previsibilidade de receitas.
Dados Estimados de Redistribuição:
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Projeções da Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária indicam que:
Estados do Sul e Sudeste (exceto ES e SC) terão ganho de arrecadação de 5-15%;
Estados produtores/exportadores (GO, ES, SC, BA) terão perda inicial de 10-20%,
compensada parcialmente pelos fundos;
Estados do Norte e Nordeste: impacto neutro a levemente positivo, dependendo do perfil
econômico.
2.4.3 Impacto nos Preços de Produtos
Uma das promessas da Reforma Tributária é a redução de preços ao consumidor final, decorrente
de dois fatores principais:
1. Eliminação do Efeito Cascata em Cadeias Longas
Com o crédito pleno do IBS/CBS, cadeias produtivas longas não têm mais desvantagem:
Exemplo - Indústria de
Alimentos:
Resultado: produtos com cadeias complexas tendem a ter preço mais competitivo.
2. Fim das Distorções Logísticas
Empresas poderão otimizar sua logística sem precisar passar por Estados com benefícios fiscais:
Exemplo Concreto:
Antes: Produto fabricado em SP → enviado para CD em GO (benefício fiscal) → redistribuído
para SP e RJ = 2.000 km extras de frete;
Depois: Produto fabricado em SP → distribuído diretamente para SP e RJ = economia de
frete de até 30%.
Estimativa de Impacto: Estudos indicam potencial redução de custos logísticos de 5-8% para
setores que hoje operam estruturas ineficientes por razões fiscais.
Ressalva Importante - Alíquota Elevada:
A eliminação da guerra fiscal e a simplificação podem reduzir custos operacionais, mas a alíquota
nominal elevada do IBS+CBS (estimada entre 26-28%) pode pressionar preços. O efeito líquido
sobre preços dependerá do setor e da cadeia produtiva específica.
2.4.4 Impacto na Competitividade Setorial
Setores Beneficiados:
Varejo e comércio em grandes centros consumidores (SP, RJ, BH, Brasília);
Serviços em geral (hoje com pouco crédito, passarão a ter crédito pleno);
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Indústrias com cadeias longas (alimentos, construção civil, automotivo);
Exportadores (manutenção de créditos; exportação continua imune).
Setores Desafiados:
Distribuidores atacadistas localizados em Estados com benefícios (GO, ES, SC);
Importadores que utilizavam portos específicos por benefícios (ES - Vitória);
Indústrias que se instalaram recentemente por incentivos em Estados periféricos;
Setores que se beneficiavam de crédito presumido elevado (farmacêutico, perfumaria).
2.5 O COMITÊ GESTOR DO IBS: NOVA GOVERNANÇA FEDERATIVA
Um dos pilares do fim da guerra fiscal é a criação do Comitê Gestor do IBS, previsto nos arts. 154 a
163 da LC 214/2025.
2.5.1 Natureza Jurídica e Composição
Natureza: Autarquia de regime especial, vinculada ao Ministério da Fazenda, mas com autonomia
técnica, administrativa e financeira.
Composição (art. 155, LC 214/2025):
27 representantes dos Estados e DF (um por ente);
Representação proporcional dos Municípios (conforme critérios populacionais);
Mandatos fixos;
Decisões por maioria qualificada (evitando paralisação).
Diferença Fundamental em Relação ao CONFAZ:
CONFAZ (ICMS atual) Comitê Gestor (IBS)
Decisões por unanimidade Decisões pormaioria qualificada
Poder de veto individual Sem poder de veto
Apenas convênios (não vinculantes) Poder normativo e executivo
Sem estrutura própria Estrutura administrativa robusta
2.5.2 Competências do Comitê Gestor
Arrecadação centralizada de todo o IBS nacional;
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Fiscalização unificada, evitando duplicidade;
Distribuiçãoautomática das receitas aos Estados e Municípios conforme o destino;
Edição de normas complementares à LC 214/2025;
Julgamento administrativo de primeira e segunda instâncias (contencioso do IBS);
Gestão do cadastro único de contribuintes do IBS;
Operação do sistema de split payment (segregação automática na liquidação financeira).
2.5.3 Implicações para o Federalismo Fiscal
A criação do Comitê Gestor representa uma recentralização parcial da gestão tributária, gerando
debates constitucionais:
Argumentos Favoráveis:
Eficiência arrecadatória;
Fim da guerra fiscal;
Redução de custos de conformidade para contribuintes;
Uniformização de interpretação normativa.
Argumentos Críticos:
Perda de autonomia federativa dos Estados e Municípios;
Centralização excessiva de poder em órgão federal;
Risco de captura por interesses específicos;
Complexidade de coordenação entre 5.570 Municípios e 27 Estados.
Avaliação Técnica:
A solução do Comitê Gestor é um trade-off entre autonomia federativa e eficiência tributária. A
experiência internacional (Canadá - GST/HST; Austrália - GST; Índia - GST) sugere que modelos de
IVA dual ou federativo requerem algum grau de coordenação centralizada para funcionamento
adequado.
2.6 SÍNTESE DO CAPÍTULO: IMPACTOS TRANSVERSAIS
O fim da guerra fiscal é uma mudança estrutural que afeta todos os agentes econômicos e todos os
regimes de tributação. Antes de analisarmos os impactos específicos no Simples Nacional (Capítulo
3), Lucro Presumido (Capítulo 4) e Lucro Real (Capítulo 5), é crucial consolidar os principais pontos:
O QueMuda:
Tributação 100% no destino: Estado e Município onde ocorre consumo ficam com toda
receita;
Fim dos incentivos estaduais: Legislação nacional única impede benefícios locais;
Gestão centralizada: Comitê Gestor do IBS arrecada e distribui receitas;
Localização por eficiência: Empresas escolhem locais por razões econômicas reais.
Ganhadores:
Estados e Municípios consumidores (SP, RJ, grandes capitais);
Empresas em cadeias longas (mais créditos);
Prestadores de serviços (antes com pouco crédito);
Exportadores (mantêm créditos plenos);
Consumidores finais (potencial redução de preços por eficiência logística).
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Perdedores (ou Desafiados):
Estados que dependiam de guerra fiscal (GO, ES, SC, BA);
Distribuidores em locais não-estratégicos;
Empresas que investiram por incentivos (risco de migração);
Setores com crédito presumido atual elevado.
Questões em Aberto:
A compensação do Fundo (R$ 160 bi) será suficiente para evitar crises estaduais?
Empresas migrarão de Estados periféricos, agravando desigualdades regionais?
Os custos de transição (reestruturação logística, relocação) serão suportáveis?
Estados encontrarão formas alternativas de "competir" por investimentos?
Conexão com Próximos Capítulos:
Compreendido o fim da guerra fiscal, surgem perguntas específicas sobre os regimes tributários:
Como o Simples Nacional se adapta ao IBS no destino? Empresas perderão competitividade?
(Capítulo 3)
Empresas no Lucro Presumido continuarão sem créditos mesmo com IBS/CBS não-
cumulativo? (Capítulo 4)
O Lucro Real se torna mais vantajoso com crédito pleno e fim das distorções? (Capítulo 5)
Nos próximos capítulos, aprofundaremos cada um desses questionamentos.
Referências Normativas e Bibliográficas do Capítulo:
Constituição Federal, art. 155, §2º, XII, "g"; art. 156-A (redação EC 132/2023)
Lei Complementar nº 24/1975 (CONFAZ)
Lei Complementar nº 214/2025, arts. 14-19 (alíquotas), arts. 154-163 (Comitê Gestor), arts.
384-405 (Fundo de Compensação)
VARSANO, Ricardo. "A Guerra Fiscal do ICMS: quem ganha e quem perde". IPEA, Texto para
Discussão nº 500, 1997
BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento. "A Renúncia Tributária do ICMS no Brasil",
2014
REZENDE, R. Oliveira. "Benefícios e Competição Fiscal entre Estados Brasileiros:
Judicialização da 'Guerra Fiscal' do ICMS no STF". Cadernos de Finanças Públicas, 2020
Este capítulo estabeleceu as bases para compreensão de como a mudança do princípio de origem
para destino na tributação sobre consumo transforma radicalmente a lógica de competitividade
empresarial e federalismo fiscal no Brasil. Os impactos específicos em cada regime tributário serão
analisados nos capítulos subsequentes.
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CAPÍTULO 3: SIMPLES NACIONAL NA REFORMA
TRIBUTÁRIA
3.1 Introdução: O Simples Nacional Sobrevive (e se Transforma)
Quando começaram as discussões sobre a Reforma Tributária, a primeira pergunta que ouvi de dezenas de
empresários foi sempre a mesma: "O Simples Nacional vai acabar?" A angústia era compreensível. Afinal,
estamos falando de um regime que atende mais de 20 milhões de empresas brasileiras e que, desde 2006,
representa a principal porta de entrada para a formalização de pequenos negócios.
A resposta, felizmente, trouxe alívio: o Simples Nacional não apenas foi preservado, como ganhou novas
possibilidades que podem, surpreendentemente, ampliar as estratégias tributárias disponíveis para micro e
pequenas empresas. Mas isso não significa que está tudo igual. Longe disso.
A Lei Complementar 214/2025, que regulamentou a Emenda Constitucional 132/2023, manteve a estrutura
básica do regime simplificado, mas introduziu mudanças importantes que todo empresário e contador
precisa entender. Neste capítulo, vamos conversar sobre essas mudanças de forma prática, mostrando o que
realmente importa para o dia a dia das empresas.
3.1.1 Por que Este Regime é Tão Importante
Antes de entrarmos nas mudanças, vale entender por que o Simples Nacional representa muito mais do que
apenas uma forma alternativa de pagar impostos. Quando foi criado, em 2006, o regime trouxe uma
proposta revolucionária: unificar oito tributos diferentes em uma única guia de pagamento, com alíquotas
progressivas baseadas no faturamento.
Para o pequeno empresário, isso significou deixar de lidar com múltiplas obrigações, diferentes datas de
vencimento, complexas regras de cada tributo. Significou poder planejar seus custos com previsibilidade.
Significou ter tempo para cuidar do negócio ao invés de passar horas tentando entender legislação tributária.
Mais de 98% dos estabelecimentos formais do Brasil optam pelo Simples Nacional. Esse número
impressionante mostra que não estamos falando de um regime marginal ou alternativo. Estamos falando do
regime tributário padrão da economia brasileira real, aquela das padarias de bairro, das pequenas
consultorias, das lojas de rua, das microindústrias familiares.
Quando a Reforma Tributária chegou com suas promessas de simplificação e transparência, muitos temeram
que o Simples Nacional fosse considerado incompatível com o novo sistema. Afinal, como manter um regime
simplificado quando todo o resto do país está migrando para IBS e CBS? A solução encontrada foi criativa,
embora traga seus desafios.
3.2 As Mudanças Estruturais no Regime Simplificado
3.2.1 A Base do Sistema Permanece
Vamos começar pelo que não muda, porque isso traz segurança. O DAS, aquela guia única que você paga
todo mês, continua existindo. Os cinco anexos do Simples Nacional permanecem: Anexo I para o comércio,
Anexos II e III para a indústria, Anexos IV e V para serviços. As faixas progressivas de tributação baseadas no
faturamento seguem funcionando da mesma forma.
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Você continuará calculando seus tributos com base na receita bruta acumulada dos últimos doze meses,
enquadrando-se em uma das faixas de cada anexo. A simplicidade operacional que sempre caracterizou o
regime se mantém. Até aqui, nada de novo sob o sol.
3.2.2 A Ampliaçãodo Conceito de Receita Bruta
Agora chegamos à primeira mudança que pode pegar muita gente desprevenida. O artigo 516 da LC
214/2025 ampliou significativamente o conceito de receita bruta para fins do Simples Nacional. Não se trata
de uma mudança espalhafatosa, mas de um ajuste técnico com consequências práticas importantes.
Tradicionalmente, a receita bruta para o Simples Nacional compreendia basicamente as receitas de venda de
mercadorias e prestação de serviços. Era relativamente simples identificar o que entrava na conta. A partir
de 2025, esse conceito se expande para incluir também receitas com bens materiais, imateriais e direitos.
Vou dar um exemplo concreto para ficar mais claro. Imagine que você tem uma pequena empresa de
tecnologia. Além de desenvolver sistemas sob encomenda para seus clientes, você criou um aplicativo
próprio que licencia para outras empresas. No modelo antigo, havia discussões intermináveis sobre como
classificar essa receita de licenciamento. Agora, não há mais dúvida: ela integra integralmente a base de
cálculo do Simples Nacional.
Outro caso: você é dono de uma loja e decide se aposentar, vendendo o ponto comercial com toda a
clientela formada ao longo dos anos. Esse valor recebido pela venda do fundo de comércio também passa a
compor sua receita bruta para fins de enquadramento no Simples.
Por que isso importa? Primeiro, porque pode fazer você ultrapassar o limite de faturamento permitido no
regime, que hoje está em 4,8 milhões de reais anuais. Segundo, porque pode fazê-lo mudar de faixa dentro
do seu anexo, aumentando a alíquota efetiva que você paga. Terceiro, porque exige maior atenção no
momento de apurar sua receita bruta mensal e acumulada.
A mudança se tornará especialmente relevante a partir de 2027, quando o IBS e a CBS já estiverem
plenamente em vigor e integrados ao sistema do Simples Nacional. Por enquanto, é importante começar a
incluir essas receitas atípicas no seu planejamento tributário, mesmo que o impacto imediato seja pequeno.
3.2.3 IBS e CBS Dentro do DAS
A mudança mais estrutural que o Simples Nacional experimenta é a integração do IBS (Imposto sobre Bens e
Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) à sua sistemática de arrecadação. Isso acontecerá
gradualmente. A CBS começa a substituir o PIS e a COFINS em 2027. O IBS inicia sua entrada em 2029,
substituindo progressivamente o ICMS e o ISS até 2033.
Durante todo esse processo de transição, você continuará pagando tudo junto, no DAS. Não haverá guias
separadas, não haverá múltiplas datas de vencimento. A lógica da simplicidade se mantém. Mas
internamente, a composição dessa guia única mudará significativamente.
Aqui preciso esclarecer um ponto que tem gerado muita confusão nos debates sobre a Reforma. Muita
gente acredita que os Estados e Municípios poderão definir livremente quanto de IBS será cobrado dentro
do Simples Nacional, criando uma babel de alíquotas diferentes. Isso não é verdade.
A LC 214/2025 já definiu, em seus dispositivos, as proporções de IBS e CBS que compõem cada anexo do
Simples Nacional. Esses percentuais foram calculados de forma a manter, na média, a carga tributária atual e
garantir que cada ente federativo receba sua parcela adequada de arrecadação. Não há espaço para que um
Estado decida cobrar mais ou menos IBS dentro do Simples. Está tudo padronizado nacionalmente.
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Isso é diferente do que acontece no regime regular de tributação, onde Estados e Municípios terão
autonomia para definir suas alíquotas de IBS dentro de certos limites. No Simples Nacional, a uniformidade
nacional é preservada justamente para manter a simplicidade do regime.
3.2.4 A Questão dos Créditos Tributários
Agora entramos em um território que vai exigir atenção especial de quem vende para outras empresas. O
IBS e a CBS são impostos não cumulativos, ou seja, funcionam com um sistema de créditos e débitos em
cada etapa da cadeia produtiva. Cada empresa pode descontar o imposto que pagou nas compras quando
calcular o imposto devido nas vendas.
Esse mecanismo é a essência da não cumulatividade e evita o efeito cascata que caracterizava os tributos
antigos. Mas há um detalhe crucial: empresas do Simples Nacional, em regra geral, só geram créditos de IBS
e CBS no montante equivalente ao devido por meio desse regime, conforme o artigo 47, parágrafo 9º, da LC
214/2025.
Vou explicar com uma situação real. Você tem uma pequena gráfica enquadrada no Simples Nacional. Presta
serviços de impressão para uma grande empresa de publicidade que está no regime do Lucro Real. Você
emite uma nota fiscal de dez mil reais pelos serviços prestados. Seu cliente paga esse valor, mas só poderá
se creditar do IBS e da CBS devido pela empresa do Simples Nacional.
O impacto prático é que seu cliente, se for uma empresa do regime regular, acabará pagando efetivamente
menos impostos quando compra de um fornecedor que também está no regime regular. Isso cria uma
desvantagem competitiva potencial para empresas do Simples Nacional que atuam no mercado B2B, ou seja,
que vendem para outras empresas.
Para operações B2C, quando você vende para o consumidor final, essa questão é irrelevante. O consumidor
não se credita de imposto nenhum de qualquer forma. Mas para quem atende empresas, especialmente
grandes empresas que são rigorosas na gestão tributária, a ausência de créditos pode se tornar um fator
decisivo na hora de escolher fornecedores.
3.2.5 A Opção pelo Regime Regular: O Simples Híbrido
Reconhecendo que a vedação aos créditos poderia prejudicar significativamente empresas do Simples
Nacional que operam no B2B, os legisladores criaram uma alternativa interessante. O artigo 41, parágrafo 3º,
da LC 214/2025 permite que empresas optantes do Simples Nacional escolham recolher o IBS e a CBS pelo
regime regular, fora do DAS, mantendo todos os demais tributos dentro do regime simplificado.
Essa possibilidade, que ficou conhecida informalmente como Simples Híbrido, representa uma flexibilização
significativa. Na prática, funciona assim: você continua no Simples Nacional para IRPJ, CSLL, Contribuição
Previdenciária Patronal e os demais tributos. Mas opta por apurar IBS e CBS de forma não cumulativa, como
se fosse uma empresa do Lucro Presumido ou Lucro Real.
As vantagens são evidentes. Primeiro, você passa a gerar créditos para seus clientes, recuperando
competitividade nas operações B2B. Segundo, você pode se creditar do IBS e CBS que pagou em suas
próprias aquisições de mercadorias, insumos e serviços, reduzindo potencialmente sua carga tributária
efetiva. Terceiro, você mantém toda a simplicidade do Simples Nacional para os demais tributos.
Mas há custos. O principal é a complexidade adicional. Você precisará fazer apuração mensal separada de
IBS e CBS, com controle rigoroso de todos os créditos e débitos. Isso exige um sistema de gestão mais
robusto e, provavelmente, um serviço contábil mais especializado e mais caro.
Além disso, há uma trava importante. Se você optar pelo regime regular de IBS e CBS e, em algum momento,
pedir ressarcimento de créditos acumulados, não poderá voltar para o regime simplificado desses tributos
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no mesmo ano nem no ano seguinte. Essa regra, prevista no artigo 41, parágrafo 5º, da LC 214/2025, serve
para evitar planejamentos oportunistas.
A opção é semestral, o que dá certa flexibilidade. Você pode avaliar os resultados a cada seis meses e decidir
se mantém ou não a escolha. Mas é fundamental fazer essa avaliação com critério, considerando não apenas
a economia tributária potencial, mas também os custos operacionais adicionais.
Quem mais tende a se beneficiar dessa opção? Indústrias e atacadistas que vendem para o varejo oupara
outras empresas. Prestadores de serviços B2B que precisam competir com fornecedores do Lucro Real.
Empresas com custos elevados de insumos e despesas operacionais que gerarão muito crédito. Empresas
que estão próximas ao limite do Simples Nacional e querem se manter competitivas mesmo depois de
eventualmente saírem do regime.
Por outro lado, essa opção provavelmente não fará sentido para o comércio varejista que vende
principalmente para consumidor final. Não fará sentido para prestadores de serviços B2C como salões de
beleza, restaurantes e academias. Não fará sentido para microempresas que não têm estrutura
administrativa para lidar com controles tributários mais complexos.
3.2.6 A Nova Forma de Calcular a Receita Bruta Acumulada
Uma mudança que parece meramente técnica, mas tem consequências práticas interessantes, é a alteração
na forma de calcular a receita bruta acumulada dos últimos doze meses. A partir de 2027, conforme o artigo
516 da LC 214/2025, o período de apuração mudará.
Hoje, quando você vai calcular o imposto de janeiro de 2026, considera a receita bruta acumulada de janeiro
a dezembro de 2025. É um período que coincide com o ano-calendário. A partir de 2027, para calcular o
imposto de janeiro, você considerará a receita de dezembro de 2025 até novembro de 2026.
A diferença parece sutil, mas traz uma vantagem importante: previsibilidade. Quando chegar dezembro de
2026, você já saberá exatamente qual será sua receita bruta acumulada para janeiro de 2027, porque os
doze meses já estarão fechados. Isso facilita enormemente o planejamento financeiro e a precificação de
produtos e serviços.
No sistema atual, existe sempre um componente de incerteza, porque o fechamento definitivo da RBT-12 só
ocorre no último dia de dezembro. Essa pequena mudança metodológica pode parecer irrelevante, mas para
quem trabalha commargens apertadas e precisa planejar cada centavo, faz diferença.
3.2.7 Sublimites Estaduais
A questão dos sublimites continua sendo uma dor de cabeça para empresas que operam em diversos
Estados. Alguns Estados estabelecem limites de faturamento menores que os 4,8 milhões nacionais, e
quando você ultrapassa esse sublimite, perde os benefícios do Simples para ICMS e ISS naquele Estado
específico, embora continue no regime para os tributos federais.
Com a Reforma, os sublimites continuarão existindo para o IBS, seguindo a mesma lógica que hoje se aplica
ao ICMS e ISS. Mas há uma novidade importante: a CBS, por ser um tributo federal, não estará sujeita a
sublimites estaduais. Isso está explícito no artigo 517 da LC 214/2025.
Na prática, se você ultrapassar o sublimite do seu Estado, perderá os benefícios do IBS naquele Estado, mas
manterá integralmente os benefícios da CBS. É um alívio parcial, mas significativo, especialmente
considerando que a CBS tem uma alíquota estimada de mais de 9%.
3.3 Preparando sua Empresa para a Transição
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3.3.1 O que Fazer Agora
Estamos em 2025 e a CBS entrará em vigor em janeiro de 2027. Pode parecer que há tempo de sobra, mas a
experiência mostra que empresas que se antecipam saem na frente. Então, o que você deveria estar fazendo
agora para se preparar?
Comece mapeando todas as suas fontes de receita. Lembra da ampliação do conceito de receita bruta?
Identifique não apenas suas vendas e serviços regulares, mas também receitas atípicas que podem surgir.
Licenciamentos, royalties, vendas eventuais de ativos, receitas financeiras relevantes. Faça uma lista
completa e estime quanto cada item representa no seu faturamento anual.
Depois, analise cuidadosamente o perfil dos seus clientes. Quanto você vende para consumidor final e
quanto vende para outras empresas? Dos clientes empresariais, quantos estão no Simples Nacional e
quantos estão no Lucro Presumido ou Real? Essa análise é fundamental para decidir se vale a pena optar
pelo regime regular de IBS e CBS.
Se você vende majoritariamente B2B para empresas do regime regular, comece a preparar o terreno para a
opção pelo regime regular. Isso significa avaliar sistemas de gestão que permitam controlar créditos e
débitos de forma adequada. Significa conversar com seu contador sobre os custos adicionais desse serviço
mais complexo. Significa fazer simulações realistas de quanto você economizaria com créditos versus quanto
gastaria a mais em estrutura.
Para fazer essas simulações, pegue suas notas fiscais dos últimos doze meses e separe entre aquisições que
gerariam crédito de IBS e CBS e as que não gerariam. Mercadorias para revenda geram crédito. Insumos de
produção geram crédito. Serviços de terceiros geram crédito. Despesas operacionais como energia e
telefonia geram crédito. Mas salários, pró-labore e benefícios trabalhistas não geram.
Faça a conta: quanto você teria de crédito mensal? Quanto isso reduziria sua carga efetiva de IBS e CBS? O
ganho compensa o investimento em sistemas e contabilidade mais complexa? Não há resposta pronta, cada
empresa terá um resultado diferente.
Paralelamente, comece a se familiarizar com as novas obrigações acessórias. A Nota Técnica 2025.002
estabelece novos campos nas notas fiscais eletrônicas para comportar informações de IBS, CBS e Imposto
Seletivo. Seu sistema emissor de NF-e precisará ser atualizado até janeiro de 2027. Se você usa um sistema
online, provavelmente as atualizações serão automáticas. Mas se usa sistema próprio, entre em contato com
seu desenvolvedor desde já.
Invista em capacitação. A Reforma Tributária é complexa e está em constante evolução regulamentar.
Participe de cursos, webinars, workshops. Leia materiais especializados, mesmo que pareçam técnicos
demais. Converse com seu contador regularmente sobre as novidades. O conhecimento é seu melhor
investimento neste momento.
3.3.2 Split Payment e Gestão Financeira
Uma das inovações mais disruptivas da Reforma é o split payment, ou pagamento fracionado. A ideia é que,
quando seu cliente pagar uma nota fiscal, o banco automaticamente separará o valor do imposto e o
repassará diretamente para o governo, e você receberá apenas o valor líquido.
Imagine que você emitiu uma nota de dez mil reais com 924 reais de CBS e 1.700 reais de IBS. Seu cliente faz
um PIX ou transferência de 12.624 reais. O banco retém automaticamente os 2.624 reais de impostos e você
recebe dez mil reais direto na sua conta. Os tributos vão simultaneamente para União, Estado e Município.
Isso vai exigir uma mudança profunda na gestão do fluxo de caixa. Hoje, muitas pequenas empresas usam o
dinheiro dos impostos temporariamente como capital de giro, recolhendo apenas no vencimento. Com o
split payment, isso não será mais possível. O imposto sai no mesmo momento em que você recebe do cliente.
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Por um lado, isso elimina a tentação (e o risco) de usar dinheiro que não é seu para cobrir emergências. Por
outro, exige disciplina financeira maior e planejamento de caixa mais apurado. Você precisará ter capital de
giro próprio suficiente para bancar suas operações sem depender do "empréstimo" temporário do valor dos
impostos.
Para empresas do Simples que optarem pelo regime regular de IBS e CBS, o split payment será aplicável. Isso
significa que você precisará conciliar mensalmente os valores retidos pelo split com sua apuração fiscal. Se
você tiver créditos a compensar, o processo de ressarcimento precisará ser ágil para não travar seu caixa.
Prepare seus sistemas de gestão financeira para essa nova realidade. Bancos estão desenvolvendo
funcionalidades para identificar e reportar valores retidos via split payment. Certifique-se de que seu sistema
contábil consegue integrar essas informações e conciliar automaticamente com sua apuração fiscal.
3.4 O Cronograma da Transição3.4.1 O Caminho até 2033
A transição da Reforma Tributária será gradual, estendendo-se por quase uma década. Para empresas do
Simples Nacional, é importante entender cada fase desse processo.
Em 2026, a CBS entra em modo teste com uma alíquota simbólica de 0,9%. Você continuará pagando PIS e
COFINS normalmente. O objetivo desse ano é testar sistemas, processos e obrigações acessórias sem
impacto significativo na carga tributária. Use 2026 para aprender, experimentar, identificar problemas e
ajustar seus processos internos.
Janeiro de 2027 marca a primeira grande virada. PIS e COFINS são extintos definitivamente e a CBS entra em
vigor pleno com alíquota estimada em 9,24%. Para empresas do Simples Nacional, isso significa que a
composição do DAS mudará, substituindo os percentuais de PIS e COFINS pelos percentuais de CBS.
A partir de 2027, você também poderá optar pelo regime regular de CBS se isso fizer sentido para seu
negócio. Os primeiros meses serão de aprendizado e adaptação. É natural que surjam dúvidas operacionais,
ajustes de sistema e questões interpretativas. Mantenha contato próximo com seu contador e com suas
entidades de classe durante esse período.
Em 2029, o IBS faz sua entrada com alíquota inicial de 0,1%, enquanto ICMS e ISS começam a ser reduzidos.
Durante quatro anos, de 2029 a 2032, você pagará simultaneamente os tributos antigos e o novo imposto,
em proporções que mudam anualmente. Em 2029, será 90% de ICMS/ISS e 10% de IBS. A cada ano, o IBS
ganha mais peso até que, em 2033, ICMS e ISS são completamente extintos e o IBS assume integralmente.
Durante todo esse período de convivência, o cálculo do DAS será automaticamente ajustado para refletir
essas proporções. Você não precisará fazer contas complicadas, o sistema fará isso por você. Mas é
importante acompanhar e entender como sua carga tributária está evoluindo ao longo do tempo.
A partir de 2033, o novo sistema estará completamente implementado. Seu DAS incluirá IRPJ, CSLL, CBS, IBS
e Contribuição Previdenciária Patronal. Não haverá mais ICMS, ISS, PIS ou COFINS. Será um momento de
consolidação, onde todas as empresas já terão se adaptado e os processos estarão rodando normalmente.
3.5 Reflexões Finais sobre o Simples Nacional
O Simples Nacional emerge da Reforma Tributária transformado, mas não destruído. A essência do regime
foi preservada, a simplicidade operacional continua sendo sua marca registradora. Mas as opções se
ampliaram, e com elas a necessidade de análise estratégica.
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Para a grande maioria das microempresas que vendem para consumidor final, as mudanças serão
praticamente imperceptíveis no dia a dia. O DAS continuará sendo uma guia única, simples de calcular e
pagar. Para empresas que atuam no B2B, surgem decisões importantes a tomar, especialmente sobre optar
ou não pelo regime regular de IBS e CBS.
O mais importante é não ter medo, mas estar informado. A Reforma Tributária parece complexa quando
vista de longe, mas quando você entende cada peça, percebe que é possível não apenas se adaptar, mas
prosperar. As empresas que se anteciparem, que investirem em conhecimento e estrutura, que planejarem
com cuidado, sairão na frente.
E lembre-se: você não está sozinho nessa jornada. Seu contador, as entidades empresariais, os órgãos de
classe, todos estão passando pelo mesmo processo de aprendizado. Busque apoio, faça perguntas, participe
de discussões. A transição será mais fácil para quem caminhar junto.
CAPÍTULO 4: LUCRO PRESUMIDO NA REFORMA
TRIBUTÁRIA
4.1 Introdução: Entendendo as Mudanças Reais
Preciso começar este capítulo esclarecendo o que pode ser a maior confusão em torno da Reforma
Tributária: o regime de Lucro Presumido, em si, não muda. A forma de calcular o IRPJ e a CSLL permanece
exatamente a mesma. Os percentuais de presunção continuam idênticos. As regras de apuração trimestral
não se alteram.
O que muda, e muda profundamente, é a tributação sobre o consumo. O PIS e a COFINS serão substituídos
pela CBS a partir de 2027. O ICMS e o ISS serão gradualmente substituídos pelo IBS entre 2029 e 2033. E aqui
está o ponto crucial: essa substituição não é apenas uma troca de nomes, é uma mudança estrutural no
modelo de tributação.
Estamos saindo de um sistema cumulativo, em cascata, onde o imposto incide sobre o imposto em cada
etapa da cadeia produtiva, para um sistema não cumulativo, onde cada empresa paga apenas sobre o valor
que agregou. Essa mudança tem o potencial de transformar completamente a dinâmica competitiva de
empresas no Lucro Presumido, para melhor em muitos casos, para pior em alguns.
Cerca de 1,5 milhão de empresas brasileiras operam no regime de Lucro Presumido. Para muitas delas,
especialmente as que atuam no comércio e na indústria, a não cumulatividade representará redução
significativa de carga tributária e novas oportunidades de planejamento. Para outras, especialmente
prestadores de serviços com custos concentrados em mão de obra, o impacto poderá ser desafiador.
Neste capítulo, vamos destrinchar todas essas mudanças, entender quem ganha e quem precisa se adaptar,
e mostrar caminhos práticos para navegar nesse novo cenário tributário.
4.2 O Lucro Presumido que Conhecemos
Antes de falarmos sobre o que muda, vale relembrar rapidamente como funciona o Lucro Presumido,
porque esse entendimento é fundamental para avaliar os impactos da Reforma.
O Lucro Presumido é uma forma simplificada de calcular o IRPJ e a CSLL. Ao invés de apurar seu lucro real
(receitas menos despesas), a Receita Federal "presume" que você teve um determinado percentual de lucro
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sobre sua receita bruta. Esse percentual varia conforme sua atividade. Comércio e indústria trabalham com
presunção de 8%. Transporte de cargas, 16%. Serviços em geral, 32%.
Sobre esse lucro presumido, aplicam-se as alíquotas de IRPJ (15% mais adicional de 10% sobre o que exceder
sessenta mil reais no trimestre) e CSLL (9%). O cálculo é feito trimestralmente e tem a vantagem da
previsibilidade. Você sabe antecipadamente quanto vai pagar de IRPJ e CSLL baseado apenas na sua receita.
Podem optar pelo Lucro Presumido empresas com faturamento anual de até 78 milhões de reais que não
estejam obrigadas ao Lucro Real. É um regime intermediário, mais simples que o Lucro Real mas com menos
restrições que o Simples Nacional.
Até 2026, empresas do Lucro Presumido também pagam PIS e COFINS no regime cumulativo, com alíquotas
de 0,65% e 3% respectivamente, totalizando 3,65% sobre a receita bruta. Não há direito a créditos. É uma
tributação em cascata, simples de calcular mas ineficiente do ponto de vista econômico.
4.3 A Revolução da Não Cumulatividade
4.3.1 Do Cumulativo ao Não Cumulativo
A mudança fundamental que o Lucro Presumido experimenta na Reforma Tributária é a transição de um
modelo cumulativo para um modelo não cumulativo na tributação sobre o consumo. Vou explicar o que isso
significa na prática com um exemplo bem concreto.
Imagine que você tem um atacado de materiais de construção. Você compra cimento da indústria por cem
mil reais. Nesse preço já está embutido 3,65% de PIS e COFINS que a indústria pagou, mas você não pode
descontar nada. Você revende esse cimento para lojas de materiais por cento e vinte mil reais. Sobre esses
cento e vinte mil reais, você paga mais 3,65%, o que dá 4.380 reais.
Repare no efeito cascata: a indústria pagou 3,65% sobre cem mil reais, você pagou 3,65% sobre cento e vinte
mil reais. O PIS e COFINS incidem múltiplas vezes sobre o mesmo produto, em cada etapa da cadeia. É
ineficiente economicamente e distorce preços.
Agora vamos ver como ficará com a CBS, que é não cumulativa. Você compra o mesmo cimento por cem mil
reais, mas agora vem com CBSdestacada de 9.240 reais (alíquota estimada de 9,24%). Você revende por
cento e vinte mil reais. A CBS sobre sua venda seria 11.088 reais. Mas aqui está a diferença: você pode
deduzir os 9.240 reais que já foram pagos na etapa anterior.
Resultado: você paga efetivamente apenas 1.848 reais de CBS, que correspondem aos 9,24% sobre os vinte
mil reais de margem que você agregou. O imposto incide apenas sobre o valor que você efetivamente
adicionou, não sobre o valor total da operação.
Essa é a essência da não cumulatividade. E aqui vem o esclarecimento fundamental que muita gente ainda
não entendeu: todas as empresas do Lucro Presumido estarão automaticamente sujeitas à não
cumulatividade plena do IBS e da CBS. Não existe escolha, não existem dois cenários diferentes. É não
cumulatividade plena para todos, da mesma forma que funciona para empresas do Lucro Real.
Alguns materiais preliminares sobre a Reforma chegaram a sugerir que haveria diferentes níveis de não
cumulatividade ou opções para empresas do Lucro Presumido. Isso gerou confusão, mas a LC 214/2025 é
clara: empresas do Lucro Presumido terão direito ao aproveitamento integral de créditos de IBS e CBS sobre
todas as suas aquisições relacionadas à atividade empresarial.
4.3.2 O Impacto nos Diferentes Setores
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Essa mudança estrutural terá impactos muito diferentes dependendo do seu setor de atuação e da sua
estrutura de custos. Vou ser bem direto aqui, porque acho importante você saber onde sua empresa se
encaixa.
Empresas que trabalham com comércio, especialmente atacado, são claras ganhadoras. O volume alto de
mercadorias compradas para revenda gera créditos substanciais. As margens costumam ser relativamente
baixas. O resultado é que a carga efetiva de CBS cairá drasticamente em relação aos 3,65% de PIS e COFINS
que pagam hoje.
Indústrias também se beneficiam significativamente. Compra de matérias-primas, insumos, embalagens,
energia elétrica industrial, tudo isso gera crédito. E tem um bônus importante: os investimentos em
máquinas e equipamentos passarão a gerar crédito integral e imediato, ao invés do parcelamento em 48
meses que existe hoje para alguns tributos.
Transportadoras entram em um cenário particularmente interessante. Combustível, que hoje não gera
crédito algum, passará a gerar. Manutenção de veículos, seguros, rastreamento, tudo gerará crédito. E a
compra de caminhões e veículos dará crédito integral no momento da aquisição.
Agora o outro lado da moeda. Prestadores de serviços especializados, como escritórios de advocacia,
contabilidade, consultoria, engenharia, enfrentarão desafios. Por quê? Porque seus custos estão
concentrados em salários e honorários, que não geram crédito de IBS e CBS. Suas despesas operacionais
tributadas são relativamente pequenas. O resultado é que pagarão CBS sobre quase toda a receita, o que
pode significar uma carga efetiva de 8% a 9%, bem acima dos 3,65% atuais.
Serviços de saúde e educação têm uma atenuante importante. A LC 214/2025 prevê redução de 60% nas
alíquotas de IBS e CBS para essas atividades. Isso mitiga consideravelmente o impacto negativo. Mesmo
assim, clínicas e escolas precisarão revisar sua estrutura de custos e precificação.
O comércio varejista fica em uma zona intermediária. Tem créditos significativos de mercadorias, mas
margens maiores que o atacado. O impacto final dependerá muito do tipo específico de varejo e da margem
praticada.
4.4 Direito ao Crédito: O que Entra e o que Não Entra
4.4.1 A Regra Geral
O artigo 47 da LC 214/2025 estabelece que empresas do Lucro Presumido podem se apropriar de créditos de
IBS e CBS sobre todas as aquisições de bens e serviços, com exceção apenas daqueles considerados de uso
ou consumo pessoal. Essa é uma base muito ampla de créditos.
Você pode se creditar de mercadorias destinadas à revenda. Pode se creditar de matérias-primas e insumos
utilizados na produção ou na prestação de serviços. Pode se creditar de serviços tomados de terceiros
quando relacionados à sua atividade. Pode se creditar de bens incorporados ao ativo imobilizado. Pode se
creditar de despesas operacionais como energia elétrica, telecomunicações, aluguéis comerciais.
E mais: pode se creditar de bens de uso e consumo empresarial. Material de escritório, material de limpeza
do estabelecimento, uniformes, equipamentos de proteção individual, ferramentas, tudo isso gera crédito
desde que seja efetivamente utilizado na atividade empresarial.
A amplitude dessa base de créditos é um dos aspectos mais positivos da Reforma. Ela se aproxima do
conceito de IVA (Imposto sobre Valor Agregado) praticado na União Europeia e em outros países
desenvolvidos, onde praticamente tudo relacionado à atividade empresarial gera direito a crédito.
4.4.2 As Vedações Específicas
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Agora vamos ao que não gera crédito. O artigo 57 da LC 214/2025 lista de forma taxativa, ou seja, em rol
fechado, o que se considera uso ou consumo pessoal. Essa lista não pode ser ampliada por interpretação ou
regulamentação. Se não está na lista, em princípio gera crédito.
Não geram crédito bens claramente pessoais ou de luxo: joias, obras de arte e antiguidades, bebidas
alcoólicas e derivados de tabaco quando não forem objeto da sua atividade, armas e munições salvo para
segurança ou quando forem seu objeto de comércio.
Não geram crédito bens e serviços fornecidos gratuitamente ou a preço subsidiado para sócios,
administradores, seus cônjuges e parentes até terceiro grau. A lógica é simples: se você está usando recursos
da empresa para benefício pessoal de pessoas ligadas, isso não é despesa empresarial legítima.
E aqui chegamos às categorias que geram mais dúvidas: imóveis residenciais e veículos. Vou dedicar um
tempo a explicar essas situações porque são fonte comum de erros.
4.4.3 A Questão dos Veículos
Veículos merecem atenção especial porque a regra não é sobre o tipo de veículo, mas sobre seu uso efetivo.
Um carro de passeio pode gerar crédito ou não, dependendo de como é utilizado.
Se o veículo é usado pelo sócio para ir de casa ao trabalho e aos finais de semana para passeios familiares,
não gera crédito. É uso pessoal predominante. Se o veículo é usado por representantes comerciais em
viagens de trabalho, visitando clientes pelo país, gera crédito. É instrumento de trabalho.
Se sua empresa tem uma frota de veículos para transporte de passageiros ou cargas, obviamente gera
crédito. Se você tem uma locadora ou concessionária, os veículos destinados à locação ou revenda geram
crédito. Se você é taxista, motorista de aplicativo ou tem empresa de transporte executivo, gera crédito.
A chave está na destinação efetiva, não na natureza do bem. E aqui vai uma recomendação prática
importante: mantenha documentação que comprove o uso empresarial. Relatórios de viagem, planilhas de
quilometragem, registros de visitas a clientes. Numa eventual fiscalização, você precisará demonstrar que
aquele veículo é efetivamente usado na atividade da empresa.
Para veículos de uso misto, onde há tanto uso empresarial quanto pessoal, a situação é mais delicada.
Tecnicamente, quando há uso misto, o crédito não deveria ser apropriado, ou deveria ser apropriado apenas
proporcionalmente ao uso empresarial. Na prática, isso é extremamente difícil de controlar e comprova. A
recomendação mais segura é: se o veículo tem uso significativo pessoal, não se credite. Evite criar um
problema fiscal por uma economia marginal.
4.4.4 Alimentação, Saúde e Outros Benefícios
Despesas com alimentação seguem uma lógica similar. Refeições pessoais dos sócios em restaurantes não
geram crédito. Mas alimentação fornecida aos funcionários no estabelecimento durante a jornada de
trabalho gera. Vale-refeição

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