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Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias SUMÁRIO DEFINIÇÃO INICIAL.........................................................................................................................................3 CAPÍTULO 1 — BASES ANATOMOFUNCIONAIS DA DOR CRANIANA.......................................................6 CAPÍTULO 2 — EPIDEMIOLOGIA...................................................................................................................8 CAPÍTULO 3 — ETIOLOGIA............................................................................................................................9 CAPÍTULO 4 — FATORES DE RISCO, PREDISPOSIÇÃO E DESENCADEANTES...................................13 CAPÍTULO 5 — CLASSIFICAÇÃO.................................................................................................................18 CAPÍTULO 6 — FISIOPATOLOGIA............................................................................................................... 22 CAPÍTULO 7 — MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E SÍNDROMES CEFALÁLGICAS......................................31 CAPÍTULO 8 — RED FLAGS.........................................................................................................................35 CAPÍTULO 9 — DIAGNÓSTICO.................................................................................................................... 40 CAPÍTULO 10 — EXAMES COMPLEMENTARES........................................................................................ 48 CAPÍTULO 11 — DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL.........................................................................................55 CAPÍTULO 12 — TRATAMENTO...................................................................................................................58 CAPÍTULO 13 — COMPLICAÇÕES E PROGNÓSTICO...............................................................................68 FICHA-RESUMO — CEFALEIAS...................................................................................................................73 ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEMA..................................................................................................... 78 GLOSSÁRIO DE TERMOS ESSENCIAIS......................................................................................................80 MAPA DE REVISÃO.......................................................................................................................................82 ANEXO — QUESTÕES..................................................................................................................................84 GABARITO......................................................................................................................................................85 ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARES....................................................................................................86 REFERÊNCIAS...............................................................................................................................................87 Cefaleias · Página 2 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias DEFINIÇÃO INICIAL Cefaleia é dor localizada na cabeça e uma das queixas mais frequentes da prática médica. A divisão central separa cefaleias primárias, em que a própria dor é o transtorno, de secundárias, em que ela é manifestação de outra condição e o prognóstico depende da doença de base — como hemorragia subaracnóidea, trombose venosa cerebral e arterite de células gigantes. [1,2,3] Os termos usados ao longo do LIDE — Livro Integrado Digital de Estudo — designam o seguinte: Migrânea (enxaqueca) é um distúrbio cerebral recorrente do processamento sensorial e nociceptivo, em que o cérebro suscetível responde a estímulos habituais com uma crise de dor acompanhada de hipersensibilidade a luz, som e movimento. [1,6,10] Cefaleia do tipo tensional (CTT) é a cefaleia primária mais prevalente e define-se pela ausência das características que marcam a migrânea: dor bilateral, em pressão, sem agravamento pelo esforço e sem os sintomas associados típicos. O nome deriva de uma hipótese histórica sobre tensão muscular que as fontes atuais não confirmam. [9,21] Cefaleia em salvas é a mais relevante do grupo das cefaleias trigeminoautonômicas, em que a dor trigeminal vem acompanhada de sinais autonômicos cranianos do mesmo lado. O nome descreve o comportamento no tempo — as crises se concentram em períodos ativos separados por remissões —, e não um mecanismo. A dor é orbitária ou temporal, de intensidade extrema, e leva o paciente à inquietação em vez do repouso. [5,20] Cefaleia primária × cefaleia secundária Figura 1 — Cefaleia primária × cefaleia secundária: diferença conceitual e exemplos de maior valor didático. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 3 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Classificação das cefaleias: visão integrada Figura 2 — Classificação das cefaleias: grupos, subtipos e eixos que refinam o diagnóstico. Desenvolvida no Capítulo 5. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 4 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Cefaleias Primárias × Secundárias: Enxaqueca, Tensional, Salvas e Red Flags Assista em: https://youtu.be/jHok_WFyijM?si=cstpbLGxjejwiSzV Mapa mental inicial Figura 3 — Algoritmo diagnóstico da cefaleia. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. PRINCÍPIO CENTRAL A anamnese define o fenótipo; o exame procura sinais de causa secundária; a anatomia e a fisiologia explicam a dor; exames complementares são dirigidos pelo risco. Em um paciente com quadro típico de cefaleia primária e exame neurológico normal, a investigação subsidiária costuma ser desnecessária. [1,3] Cefaleias · Página 5 https://youtu.be/jHok_WFyijM?si=cstpbLGxjejwiSzV https://youtu.be/jHok_WFyijM?si=cstpbLGxjejwiSzV https://youtu.be/jHok_WFyijM?si=cstpbLGxjejwiSzV Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 1 — BASES ANATOMOFUNCIONAIS DA DOR CRANIANA Este capítulo reúne as bases anatomofuncionais da nocicepção craniana: quais estruturas são capazes de gerar dor, como essa informação alcança o trigêmeo e por que caminho ela chega ao córtex. Esse substrato é comum a todas as síndromes tratadas no LIDE. 1.1 Estruturas cranianas sensíveis à dor A dor craniana não se origina do parênquima cerebral em si, que é em grande parte insensível à dor. Entre as estruturas capazes de gerar dor estão o couro cabeludo, as artérias meníngeas, os seios durais, a foice do cérebro, a dura-máter e segmentos proximais das grandes artérias da pia-máter. A cefaleia pode resultar tanto da estimulação fisiológica de nociceptores periféricos quanto de lesão ou ativação inadequada das vias de dor do sistema nervoso periférico ou central. [1,2] Figura 4 — Estruturas cranianas sensíveis à dor. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 6 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 1.2 Inervação trigeminal e complexo trigeminocervical Os aferentes trigeminais primários que inervam vasos, meninges, mucosa, músculos e outros tecidos convergem no gânglio trigeminal. A informação nociceptiva alcança o núcleo sensorial do trigêmeo e, sobretudo, o subnúcleo caudal do núcleo espinal do trigêmeo, integrado funcionalmente às raízes cervicais superiores no complexo trigeminocervical. A partir daí, os impulsos projetam-se para o tálamo, córtex e regiões do tronco encefálico e diencéfalo envolvidas na modulação da dor e das respostas autonômicas. [1,2] 1.3 Via nociceptiva: trigêmeo → tálamo → córtex Figura 5 — Via nociceptiva da cefaleia: trigêmeo → tálamo → córtex. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 1.4 Sistema trigeminovascular e modulação autonômica craniana A inervação daconjuntival, congestão/rinorreia, edema palpebral, miose/ptose. Comportamento Inquietação/agitação, caminhar durante a crise. Temporalidade Períodos de salvas com ritmicidade circadiana/sazonal; ataques noturnos são comuns. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]; Greenberg et al., Neurologia Clínica [11]. 7.5 Outras cefaleias trigeminoautonômicas Hemicrania paroxística, SUNCT/SUNA e hemicrania contínua compartilham unilateralidade e fenômenos autonômicos cranianos com a cefaleia em salvas. As fontes destacam que a diferenciação se apoia principalmente na duração e frequência das crises, no caráter contínuo ou episódico e, em algumas entidades, na resposta terapêutica característica. Este capítulo mantém o foco no fenótipo; os critérios formais foram detalhados no Capítulo 5. [5] Entidade Padrão clínico que orienta Hemicrania paroxística Crises unilaterais autonômicas muito mais curtas e mais frequentes que salvas. SUNCT/SUNA Ataques neuralgiformes muito breves, unilaterais, com sintomas autonômicos oculares/nasais. Hemicrania contínua Dor unilateral contínua com exacerbações e manifestações autonômicas possíveis. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]. Cefaleias · Página 34 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 8 — RED FLAGS Red flags são elementos da história, do contexto clínico ou do exame que aumentam a probabilidade de cefaleia secundária potencialmente grave. Nenhum sinal isolado possui acurácia absoluta, mas a presença de alertas deve mudar a prioridade: antes de confirmar uma cefaleia primária, é necessário excluir causas que exigem diagnóstico e tratamento rápidos. [1,3,8,12] Um termo aparece já nesta abertura e será usado ao longo do capítulo: cefaleia em trovoada (thunderclap headache) é a dor de início abrupto que atinge intensidade máxima em segundos a poucos minutos. O que a define não é a intensidade em si, mas a velocidade com que o pico é alcançado — motivo pelo qual o paciente costuma descrevê-la como a pior dor de cabeça da vida e situá-la com precisão no tempo. Esse padrão é tratado como alerta maior para hemorragia subaracnóidea e outras causas vasculares agudas, e a melhora espontânea ou após analgésico não demonstra benignidade. [3,8,12,25] ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Aprenda os sinais de alarme na Cefaleia! [MNEMÔNICO FÁCIL DE LEMBRAR] Assista em: https://youtu.be/5ks6mzHDTg0?si=GPWv1pWiKFj5W6aU RED FLAG PRIORITÁRIO Cefaleia em trovoada, déficit neurológico, alteração de consciência, meningismo, papiledema ou uma primeira/pior cefaleia muito diferente do padrão habitual não devem ser manejados apenas como “crise de cefaleia”. O objetivo inicial é excluir causas secundárias potencialmente graves. [3,8,12] Cefaleias · Página 35 https://youtu.be/5ks6mzHDTg0?si=GPWv1pWiKFj5W6aU https://youtu.be/5ks6mzHDTg0?si=GPWv1pWiKFj5W6aU https://youtu.be/5ks6mzHDTg0?si=GPWv1pWiKFj5W6aU Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 8.1 Tabela-mestra de sinais de alarme Red flag Principal preocupação Por que muda a conduta Primeira cefaleia ou pior cefaleia da vida Hemorragia intracraniana, infecção do SNC ou outra causa aguda grave. Eleva a prioridade de avaliação urgente e neuroimagem conforme o contexto. Início súbito / cefaleia em trovoada HSA e outras doenças vasculares/hemorrágicas agudas. Exige investigação imediata; não presumir cefaleia primária. Cefaleia de início recente ou mudança clara do padrão habitual Nova condição secundária. Obriga a reavaliar o diagnóstico prévio e a necessidade de exames. Progressão de frequência ou intensidade Lesão expansiva, hematoma subdural, uso excessivo de medicação ou outras causas. Padrão progressivo exige explicação antes de ser atribuído a cefaleia primária estável. Início após 50 anos Arterite de células gigantes, neoplasia e outras secundárias. Baixo limiar para investigação dirigida. Febre, doença sistêmica, rash ou sinais meníngeos Infecção, inflamação ou vasculite. Requer investigação sistêmica/neurológica urgente conforme o quadro. Déficit focal, alteração de consciência ou convulsão Doença vascular, expansiva, infecciosa ou outra lesão neurológica. Neuroimagem e investigação dirigida. Papiledema Hipertensão intracraniana. Neuroimagem antes de procedimentos invasivos e investigação da causa. Câncer ou imunodeficiência Neoplasia, metástase ou infecção oportunista. Aumenta a probabilidade pré-teste de causa secundária. Trauma craniano/cervical ou coagulopatia/anticoagulação Hemorragia, hematoma subdural, dissecção e outras lesões. Muda o risco de sangramento e a estratégia de imagem. Gestação/puerpério com cefaleia nova/intensa Trombose venosa e outras doenças vasculares/endócrinas descritas nos materiais. Exige baixo limiar para investigação apropriada. Nova cefaleia desencadeada por tosse, esforço, Valsalva ou atividade sexual Processo estrutural ou vascular secundário deve ser excluído. Só classificar como primária após avaliação adequada quando o padrão é novo. Cefaleia posicional / postural Distúrbios da pressão liquórica: hipotensão intracraniana, fístula liquórica, hipertensão intracraniana. Dor que piora em ortostase e alivia em decúbito (ou o inverso) muda a investigação para pressão do LCR e pesquisa de fístula. Consta do SNNOOP10 [30]. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em DynaMed [30]. 8.2 Papiledema: por que ele muda a ordem da investigação Papiledema merece um raciocínio próprio, porque inverte a ordem habitual da investigação. O primeiro passo é definir se existe hipertensão intracraniana: o edema bilateral da papila indica pressão intracraniana elevada transmitida ao nervo óptico. Definido isso, a pergunta seguinte é se há lesão com efeito de massa ou obstrução ao fluxo liquórico. É essa segunda resposta que altera a sequência: na presença de hipertensão intracraniana, a punção lombar realizada antes da neuroimagem pode precipitar herniação. Por isso a neuroimagem passa a preceder qualquer procedimento invasivo, e a punção — quando indicada, como na suspeita de hipertensão intracraniana idiopática — só é feita depois de a imagem afastar lesão expansiva e permitir a medida segura da pressão de abertura. [3,8,12] 8.3 Red flags de cronologia e mudança de padrão O tempo é um dos instrumentos mais sensíveis da anamnese. Uma cefaleia que começa de forma completamente diferente do padrão habitual, atinge grande intensidade rapidamente ou passa a Cefaleias · Página 36 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias aumentar de frequência e intensidade deve ser tratada como uma nova síndrome até que uma causa seja esclarecida. O fato de o paciente “ter enxaqueca” previamente não protege contra uma nova cefaleia secundária. [3,8] NÃO CONFUNDIR História prévia de migrânea não autoriza atribuir automaticamente toda nova dor à migrânea. Mudança importante de localização, velocidade de início, duração, sintomas associados ou frequência deve reabrir o diagnóstico. [3,8] 8.4 Cefaleia em trovoada Cefaleia em trovoada é uma apresentação de início súbito, com intensidade máxima atingida muito rapidamente. Nas fontes, esse padrão é tratado como alerta maior para hemorragia subaracnóidea e outras causas vasculares agudas. A prioridade é investigação imediata; a melhora espontânea ou após analgésico não demonstra benignidade. A conduta operacional — incluindo a janela de 6 horas para a tomografia — está detalhada na Seção 10.4. [3,8,12] 8.5 Idade, doença sistêmica e contexto do paciente Cefaleia nova após os 50 anos exige avaliação dirigida porque o espectro de causas muda — as fontes destacam arterite de células gigantes e neoplasias.Câncer, imunodeficiência, coagulopatia, anticoagulação e doença sistêmica aumentam a chance de processo infeccioso, expansivo, hemorrágico ou inflamatório. [3,8] Contexto Hipóteses que ganham importância Pistas associadas >50 anos com cefaleia nova Arterite de células gigantes, neoplasia e outras secundárias. Dor temporal, sintomas sistêmicos ou visuais, exame anormal, progressão. Câncer Metástase, lesão expansiva ou sangramento ligado à doença/tratamento. Cefaleia progressiva, déficit focal, convulsão, papiledema. Imunodeficiência Infecções oportunistas e lesões intracranianas. Febre, alteração de consciência, sinais focais, meningismo. Coagulopatia / anticoagulação Hemorragia intracraniana ou subdural. Trauma mesmo discreto, cefaleia nova, déficit ou alteração de consciência. Trauma cervical Dissecção e lesões musculoesqueléticas ou vasculares. Dor cervical, Horner, sinais focais ou cefaleia nova. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Martins et al., Clínica Médica [8]. 8.6 Red flags neurológicas e do exame físico Cefaleias primárias típicas cursam com exame neurológico normal entre crises. Por isso, déficit focal persistente, alteração de consciência, convulsão, sinais meníngeos, motricidade ocular anormal ou papiledema têm grande valor para suspeitar de causa secundária. O exame deve cobrir sinais vitais, temperatura, rigidez nucal, motricidade ocular, força, sensibilidade, coordenação e fundoscopia. [3,8] Cefaleias · Página 37 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Achado O que deve ser considerado Déficit motor/sensitivo, afasia ou outro sinal focal Evento vascular, lesão expansiva, infecção ou outro processo estrutural. Alteração de consciência Hemorragia, infecção, hipertensão intracraniana, crise epiléptica ou causa sistêmica. Convulsão Lesão cortical estrutural, vascular, infecciosa ou estado pós-ictal; não é típico de cefaleia primária. Rigidez de nuca / sinais meníngeos Meningite, HSA e outros processos meníngeos. Papiledema Hipertensão intracraniana até prova em contrário. Alterações oculares importantes Glaucoma agudo, lesão de nervo craniano, doença vascular ou alteração pressórica intracraniana. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Martins et al., Clínica Médica [8]. PAPILEDEMA Papiledema muda a sequência: suspeita de hipertensão intracraniana exige neuroimagem antes da punção lombar quando houver risco de lesão expansiva ou obstrução. [3] 8.7 Febre, meningismo e doença sistêmica Febre com cefaleia, sobretudo com rigidez de nuca, alteração de consciência, convulsão ou rash, levanta suspeita de infecção do sistema nervoso central ou doença inflamatória sistêmica. Fenótipo aparentemente migranoso não neutraliza esses sinais; o manejo segue a hipótese clínica e a segurança dos exames. [3,8] 8.8 Gestação, puerpério e situações vasculares especiais Os materiais do LIDE tratam gestação e puerpério como contextos em que uma cefaleia nova, intensa ou atípica merece investigação com limiar mais baixo, sobretudo pela possibilidade de doença vascular, trombose venosa e outras causas secundárias. O dado de contexto modifica a probabilidade diagnóstica; não é, por si só, um diagnóstico. [3] 8.9 Gatilhos que são red flag quando a cefaleia é nova Tosse, esforço físico, Valsalva e atividade sexual podem aparecer na classificação de cefaleias primárias. Entretanto, quando uma cefaleia surge pela primeira vez especificamente nesses contextos, as fontes enfatizam que causas secundárias estruturais ou vasculares devem ser excluídas antes de se assumir uma síndrome primária. [3] ARMADILHA CONCEITUAL “Existe uma cefaleia primária da tosse/esforço/atividade sexual” não significa que toda cefaleia desencadeada por essas situações seja primária. Primeiro é necessário verificar se há causa secundária que explique melhor o quadro. [3] 8.10 Sintomas autonômicos não são red flags isolados Congestão nasal, rinorreia, lacrimejamento e hiperemia conjuntival podem ocorrer em cefaleias trigeminoautonômicas e também na migrânea. Esses sinais devem ser interpretados em conjunto com lateralidade, duração, intensidade, comportamento e periodicidade. Isoladamente, não significam Cefaleias · Página 38 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias sinusite, nem constituem red flag; tornam-se preocupantes quando associados a outro padrão atípico ou a achados neurológicos/sistêmicos. [1,2,5] 8.11 Red flags e aura: quando reconsiderar migrânea Aura típica tende a ser totalmente reversível e a desenvolver-se gradualmente, frequentemente com fenômenos positivos e negativos em sucessão. Sintomas neurológicos abruptos, puramente negativos, prolongados, novos após longa estabilidade, acompanhados de alteração persistente do exame ou de grande mudança do padrão devem ser investigados antes de serem atribuídos a aura. [3,8,10] 8.12 Síntese operacional na emergência Na emergência, a sequência que organiza a decisão não começa pelo nome da síndrome, mas pelo risco. A primeira pergunta é se existe causa secundária que ameace a vida ou a função neurológica; a segunda, se o quadro é compatível com uma cefaleia primária já conhecida do paciente; a terceira, qual tratamento é apropriado ao fenótipo identificado. Inverter essa ordem é o erro mais frequente, porque analgesia eficaz pode mascarar temporariamente uma condição grave sem modificar seu curso. [3,12,13] Três elementos concentram o valor diagnóstico: o modo de instalação, o contraste com o padrão habitual e o exame neurológico. Início abrupto com pico em segundos a minutos, primeira ou pior cefaleia da vida, mudança substancial de um padrão previamente estável, febre com sinais meníngeos, alteração do nível de consciência, déficit focal persistente, papiledema, início após os 50 anos e contexto de imunossupressão, neoplasia, anticoagulação, gestação ou puerpério deslocam a conduta para investigação imediata. [3,8,12,13] Quando nenhum sinal de alarme está presente e o fenótipo reproduz uma cefaleia primária já caracterizada, o tratamento da crise pode ser iniciado sem neuroimagem. A alta exige mais do que alívio da dor: requer registro do diagnóstico presumido, orientação sobre sinais de retorno imediato, revisão do consumo de analgésicos e encaminhamento para seguimento quando a frequência das crises ou a resposta ao tratamento indicarem necessidade de prevenção. [12,13,15] Cefaleias · Página 39 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 9 — DIAGNÓSTICO O diagnóstico das cefaleias é predominantemente clínico. A anamnese identifica o fenótipo, o padrão temporal e os fatores de risco; o exame físico e neurológico procura elementos que sustentem uma síndrome primária ou indiquem causa secundária. Quando o quadro preenche critérios de cefaleia primária, o exame neurológico é normal e não existem sinais de alarme, a investigação subsidiária costuma ser desnecessária. O objetivo não é “pedir exames para confirmar migrânea”, mas reconhecer com segurança quando o fenótipo é típico e quando é necessário excluir uma doença subjacente. [1–3] PRINCÍPIO DIAGNÓSTICO A sequência segura é: CARACTERIZAR A DOR → DEFINIR O PADRÃO TEMPORAL → IDENTIFICAR SINTOMAS ASSOCIADOS → PROCURAR RED FLAGS → EXAMINAR → APLICAR CRITÉRIOS SINDRÔMICOS → decidir se a hipótese é primária ou se precisa de investigação de causa secundária. [3,12,13] ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Cefaleias: abordagem prática para médicos internistas Assista em: https://youtu.be/Kd7e0_oIseY?si=6dPPWj-3Uxlm_lje 9.1 A pergunta inicial: primária ou secundária? Cefaleia primária é aquela em que a cefaleia e suas manifestações associadas constituem o próprio transtorno; cefaleia secundária é manifestação de outra doença.Na prática, essa distinção não é feita por um exame isolado. Ela decorre da combinação entre história, exame, evolução e, quando indicado, investigação complementar. As fontes enfatizam que há sobreposição entre manifestações benignas e graves; por isso, sinais de alerta aumentam o índice de suspeição, mas não possuem acurácia absoluta isoladamente. [3,12,13] Situação Interpretação diagnóstica Próximo passo Fenótipo típico de cefaleia primária + exame neurológico normal + ausência de red flags Alta probabilidade de síndrome primária. Aplicar critérios clínicos; não solicitar exames de rotina apenas para “confirmar”. Primeira/pior cefaleia, trovoada, padrão progressivo ou mudança importante Probabilidade de causa secundária aumenta. Investigar de forma dirigida conforme a hipótese e a urgência. Exame neurológico anormal, papiledema, meningismo, alteração de consciência ou convulsão Achado incompatível com uma cefaleia primária simples até esclarecimento. Neuroimagem e/ou investigação adicional conforme o risco. História típica, porém diagnóstico ainda incerto A investigação pode ajudar a excluir causas preocupantes e aumentar a segurança diagnóstica. Escolher exame que responda à hipótese; evitar “bateria” inespecífica. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]; Speciali et al., Protocolo ABN/SBCe 2018 [13]. Cefaleias · Página 40 https://youtu.be/Kd7e0_oIseY?si=6dPPWj-3Uxlm_lje https://youtu.be/Kd7e0_oIseY?si=6dPPWj-3Uxlm_lje Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 9.2 Anamnese estruturada: o núcleo do diagnóstico A anamnese deve reconstruir a cefaleia como um evento temporal. O capítulo de emergência do Tratado destaca tipo, localização, intensidade, irradiação, duração, periodicidade, ritmo, fatores desencadeantes, fatores de melhora e piora, fenômenos acompanhantes, relação com sono, ciclo menstrual e estressores, história familiar e resposta a tratamentos prévios. A história medicamentosa também é indispensável, pois medicamentos, drogas ilícitas e uso excessivo de analgésicos podem causar ou modificar cefaleias. [2,3,12] Pergunta O que ela esclarece Exemplos de valor diagnóstico Quando começou? Foi a primeira crise ou existe história semelhante há anos? Cronologia e estabilidade do padrão. Cefaleia nova aumenta suspeita de secundária; padrão estável recorrente favorece primária. Quanto tempo levou para atingir máxima intensidade? Velocidade de instalação. Pico em segundos/minuto = trovoada e exige investigação. Quanto dura cada crise? Fenótipo temporal da síndrome. Migrânea 4–72 h; salvas 15–180 min; CTT pode durar de 30 min a dias nas formas episódicas. Quantos dias de cefaleia por mês? Episódica × crônica e carga da doença. ≥15 dias/mês por >3 meses caracteriza cronicidade; na migrânea crônica exige-se ainda ≥8 dias/mês com características migranosas (ICHD-3 1.3). Onde dói e como é a dor? Topografia e qualidade. Orbitária unilateral excruciante + autonômicos sugere TAC; pressão bilateral favorece CTT. A atividade física piora? O paciente quer repousar ou fica agitado? Comportamento durante a crise. Piora/evitação de atividade favorece migrânea; inquietação favorece salvas. Há náusea, vômitos, foto/fonofobia ou aura? Sintomas associados. Fortalece fenótipo migranoso e ajuda a separar de CTT. Há lacrimejamento, rinorreia, congestão nasal, ptose/miose? Ativação autonômica craniana. Quando ipsilateral e associada à dor típica, sugere TAC. Quais medicamentos são usados e em quantos dias do mês? Uso excessivo e modificação do fenótipo. Ajuda a reconhecer cefaleia crônica agravada por medicação. Há câncer, imunodeficiência, gestação/puerpério, trauma, anticoagulação ou doença sistêmica? Probabilidade pré-teste de secundária. Muda a necessidade e a modalidade de investigação. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]. REGRA PRÁTICA O diagnóstico melhora quando o paciente descreve CRISES e não apenas “dor de cabeça”. Duração, frequência, comportamento e sintomas associados são mais úteis do que um adjetivo isolado. [3,12] Cefaleias · Página 41 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 9.3 Padrão temporal e evolução As referências deste LIDE organizam a evolução em padrões clínicos que ajudam a estimar risco. A forma aguda emergente e a forma crônica progressiva merecem maior preocupação com causas secundárias; a forma aguda recorrente e a forma crônica estável são mais compatíveis com síndromes primárias quando o restante da história e o exame são típicos. Essa leitura temporal complementa, mas não substitui, os critérios diagnósticos. [3,8] Padrão Descrição Significado prático Aguda emergente Primeiro episódio ou dor nova de instalação recente. Buscar causa secundária, sobretudo se intensa, abrupta ou com exame anormal. Aguda recorrente Crises estereotipadas com períodos assintomáticos. Compatível com migrânea, salvas e outras cefaleias episódicas. Crônica progressiva Frequência e/ou intensidade aumentam ao longo de semanas ou meses. Investigar neoplasia, hematoma subdural, uso excessivo de medicação e outras causas conforme contexto. Crônica não progressiva Padrão relativamente estável. Favorece primária quando não há alertas e o exame permanece normal. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Martins et al., Clínica Médica [8]. 9.4 Exame físico e neurológico: o que precisa ser procurado O exame físico e neurológico deve ser realizado sempre. Nas cefaleias primárias, costuma ser normal entre crises; nas TACs, sinais autonômicos podem estar presentes durante a dor e, às vezes, entre ataques. Na emergência, a avaliação deve incluir pressão arterial, temperatura, palpação do crânio e face, musculatura cervical, articulação temporomandibular, região temporal e seios da face; exame oral e otoscopia podem identificar fontes locais. O exame neurológico deve incluir nível de consciência, nervos cranianos, força, sensibilidade, coordenação, sinais meníngeos e fundoscopia. [1,3,12] Cefaleias · Página 42 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Achado no exame Hipóteses que ganha relevância Por que importa Rigidez de nuca / meningismo Meningite, HSA e outros processos meníngeos. Muda a prioridade para investigação urgente e, em cenários selecionados, LCR. Papiledema Hipertensão intracraniana. Requer neuroimagem antes de punção lombar quando houver risco de lesão expansiva/obstrução. Déficit neurológico focal Doença vascular, massa, infecção ou outra lesão estrutural. Não é esperado em uma cefaleia primária simples fora de aura típica e reversível. Alteração de consciência / delirium Hemorragia, infecção, hipertensão intracraniana, distúrbio sistêmico. Sinal de alarme de alta prioridade. Dor à palpação da artéria temporal Arterite de células gigantes. Indica exames inflamatórios e investigação específica. Olho vermelho doloroso / pressão intraocular elevada Glaucoma agudo e causas oftalmológicas. Pode exigir avaliação oftalmológica urgente. Sinais de trauma craniofacial Hematoma intracraniano ou lesão traumática. Muda a estratégia de imagem. Pressão arterial muito elevada com quadro compatível Emergência hipertensiva e causas secundárias. Deve ser integrada ao contexto; não explicar automaticamente toda cefaleia pela PA. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]. 9.5 Diagnóstico da migrânea O diagnósticode migrânea baseia-se na anamnese e no exame neurológico normal quando não existem sinais de alerta. A presença de fotofobia, náusea e caráter incapacitante tem alto valor clínico nas fontes. A classificação formal distingue migrânea sem aura e com aura; o diagnóstico exige recorrência e características estereotipadas, e não apenas uma única cefaleia pulsátil. [2,10] 9.5.1 Migrânea sem aura O Tratado reproduz critérios da Classificação Internacional das Cefaleias para migrânea sem aura. O diagnóstico resulta da combinação entre recorrência, duração, características da dor e sintomas associados. [10] Quadro — Critérios diagnósticos de migrânea sem aura da Classificação Internacional das Cefaleias, reproduzidos no Tratado de Neurologia. Critério Descrição A Pelo menos cinco crises preenchendo os critérios seguintes. B Duração de 4 a 72 horas sem tratamento ou com tratamento ineficaz. Em crianças e adolescentes com menos de 18 anos, as crises podem durar de 2 a 72 horas (ICHD-3 1.1, nota do critério B) [25,30]. C Pelo menos duas: unilateral; pulsátil; moderada/forte; agravada por atividade física rotineira ou levando a evitá-la. D Durante a cefaleia, pelo menos um: náusea e/ou vômitos; fotofobia e fonofobia. E Não atribuída a outro transtorno. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em ICHD-3 [25]; DynaMed [30]. Cefaleias · Página 43 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias NÃO CONFUNDIR Nenhuma característica isolada é obrigatória em todas as crises. Uma migrânea pode ser bilateral ou não pulsátil em determinado ataque; o diagnóstico é sindrômico e depende do conjunto e da recorrência. [2,10] 9.5.2 Migrânea com aura A aura típica apresenta sintomas neurológicos focais reversíveis, em geral visuais, sensitivos ou de fala/linguagem. Os materiais enfatizam desenvolvimento gradual, “marcha” do fenômeno, possível sucessão de sintomas, coexistência de fenômenos positivos e negativos e duração típica de 5 a 60 minutos. Sintomas abruptos, exclusivamente negativos, monoculares atípicos, motores novos, muito breves ou prolongados exigem cautela e investigação de outros diagnósticos. [3,10,13] Quadro — Estrutura dos critérios de migrânea com aura e tipos de aura reconhecidos na classificação reproduzida no Tratado de Neurologia. Elemento Descrição na fonte Número de episódios Pelo menos dois episódios. Tipos de aura Visual, sensitiva, fala/linguagem, motora, de tronco encefálico ou retiniana. Sintomas motores codificam migrânea hemiplégica (ICHD-3 1.2.3) e não integram a aura típica (1.2.1); sintomas de tronco encefálico codificam 1.2.2 [25]. Progressão Pelo menos um sintoma se alastra gradualmente por ≥5 minutos e/ou sintomas aparecem sucessivamente. Duração Cada sintoma de aura dura 5–60 minutos; quando, por exemplo, três sintomas ocorrem em sucessão, a duração máxima aceitável é de 3 × 60 minutos, isto é, 180 minutos. Sintomas motores podem durar até 72 horas (ICHD-3 1.2, nota 1 do critério C) [25]. Relação com a cefaleia O critério C da ICHD-3 exige pelo menos três das seis características: alastramento gradual de ≥5 min; dois ou mais sintomas em sucessão; cada sintoma durando 5–60 min; pelo menos um sintoma unilateral; pelo menos um sintoma positivo; aura acompanhada ou seguida de cefaleia em até 60 min. A cefaleia em 60 minutos é uma das seis, e não requisito obrigatório — existe aura típica sem cefaleia [25]. Exclusão Não atribuída a outro transtorno; evento isquêmico transitório deve ser excluído quando pertinente. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em ICHD-3 [25]. Quadro — Sinais que favorecem aura típica e situações que exigem reconsideração diagnóstica, segundo as referências deste LIDE. Favorece aura típica Exige reconsideração / investigação Instalação gradual em minutos. Início abrupto com déficit máximo imediato. Fenômenos positivos e negativos em sucessão. Déficit puramente negativo ou persistente. Sintomas totalmente reversíveis. Déficit residual ou alteração persistente ao exame. Duração típica de 5–60 min para cada manifestação descrita. Duração 60 min, especialmente em primeira apresentação. Padrão semelhante em crises anteriores. Primeiro episódio após longa estabilidade ou grande mudança do padrão. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 44 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias ATENÇÃO À INTERPRETAÇÃO — A faixa temporal apresentada resume o padrão típico descrito para as manifestações usuais da aura. Subtipos especiais, especialmente aqueles com sintomas motores, de tronco encefálico ou retinianos, devem ser enquadrados pelos critérios específicos reproduzidos na fonte e não por esta linha isoladamente. 9.6 Diagnóstico da cefaleia do tipo tensional A cefaleia do tipo tensional (CTT) é diagnosticada pelo fenótipo: dor geralmente bilateral, em pressão/aperto, leve a moderada e não agravada por atividade física rotineira. Vômitos não são típicos; foto ou fonofobia podem ocorrer de forma limitada. O dolorimento pericraniano à palpação é frequente, especialmente nas formas mais frequentes e crônicas, mas não é obrigatório para o diagnóstico. [2,8,9] Quadro — Elementos diagnósticos da cefaleia do tipo tensional episódica resumidos a partir das referências deste LIDE. Elemento CTT episódica — síntese das fontes Duração 30 minutos a 7 dias. Características da dor Pelo menos duas entre bilateral, pressão/aperto, intensidade leve/moderada e não agravada por atividade física rotineira. Sintomas associados Sem náusea ou vômito; pode haver fotofobia OU fonofobia, mas não o conjunto migranoso típico. Frequência A classificação separa episódica infrequente, episódica frequente e crônica. Exame Pode haver dolorimento pericraniano; exame neurológico deve permanecer sem sinais de causa secundária. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Martins et al., Clínica Médica [8]; Maciel Jr & Jurno, Tratado de Neurologia [9]. 9.7 Diagnóstico da cefaleia em salvas e de outras TACs A cefaleia em salvas é reconhecida por dor unilateral orbitária, supraorbitária ou temporal, forte ou excruciante, com duração de 15 a 180 minutos, acompanhada por sinais autonômicos ipsilaterais e/ou inquietação. A recorrência em períodos de salvas e a periodicidade circadiana reforçam o diagnóstico. Diferentemente da migrânea, o paciente frequentemente fica agitado e não consegue permanecer deitado durante a crise. [2,5,11] Quadro — Elementos diagnósticos da cefaleia em salvas resumidos a partir das referências deste LIDE. Elemento Cefaleia em salvas Dor Unilateral, orbitária/supraorbitária/temporal, forte ou excruciante. Duração 15–180 minutos. Frequência Critério formal da ICHD-3: frequência entre um ataque a cada dois dias e 8 ataques por dia. Autonômicos Hiperemia conjuntival/lacrimejamento, congestão/rinorreia, edema palpebral, sudorese, miose/ptose. Comportamento Inquietação ou agitação. Periodicidade Períodos de salvas de semanas a meses, com possível ritmicidade diária e sazonal. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]; Greenberg et al., Neurologia Clínica [11]. Cefaleias · Página 45 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Hemicrania paroxística, SUNCT/SUNA e hemicrania contínua compartilham unilateralidade e manifestações autonômicas cranianas. A diferenciação depende principalmente da duração e frequência dos ataques, continuidade da dor e resposta terapêutica característica descrita nas fontes. Em apresentações iniciais de cefaleia em salvas ou outras TACs, os materiais recomendam investigação por imagem para excluir formas secundárias, inclusive lesões estruturais e hipofisárias. [2,5] PONTO DE ATENÇÃO — TACs Um fenótipo “autonômico” típico não dispensa avaliaçãode causas secundárias na primeira apresentação. As referências deste LIDE destacam a RM como método de investigação para excluir lesões estruturais em cefaleia em salvas/cefaleias trigeminoautonômicas (TACs) de início recente. [2,5] 9.8 Cefaleia crônica, diário e uso excessivo de medicação Em pacientes com cefaleia frequente, o diagnóstico exige quantificar dias de cefaleia, dias com características migranosas e dias de uso de medicação aguda. O diário ajuda a evitar erros de memória e permite distinguir migrânea crônica, CTT crônica, cefaleia diária persistente e cefaleia relacionada ao uso excessivo de medicamentos. O diagnóstico de cronicidade não é definido pela intensidade, mas pela frequência ao longo de meses. [2,3,13] Registro no diário Valor diagnóstico Dias de cefaleia/mês Define frequência e possibilidade de cronicidade. Duração de cada episódio Ajuda a diferenciar migrânea, CTT, TACs e outras síndromes. Sintomas associados Identifica dias migranosos mesmo quando a dor muda de intensidade/qualidade. Dias de uso de medicação aguda Pesquisa uso excessivo e risco de cronificação. Menstruação, sono, refeições, álcool e outros gatilhos Identifica padrões individuais sem convertê-los automaticamente em etiologia. Incapacidade funcional Ajuda a definir carga da doença e necessidade de prevenção. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Speciali et al., Protocolo ABN/SBCe 2018 [13]. 9.9 Quando a cefaleia pode ser considerada de baixo risco O Tratado apresenta, de forma didática, critérios de baixo risco em pacientes com menos de 30 anos: quadro típico de cefaleia primária, história prévia semelhante, exame neurológico normal, ausência de mudança do padrão habitual, ausência de comorbidades de risco e ausência de novos dados preocupantes da história ou exame. Esse quadro deve ser entendido como apoio ao raciocínio da fonte, e não como autorização para ignorar red flags em qualquer idade. [3] BAIXO RISCO ≠ RISCO ZERO A ausência de sinais de alarme reduz a necessidade de exames, mas não substitui acompanhamento. Cefaleias preocupantes podem evoluir e tornar-se mais fáceis de reconhecer com o tempo; mudança clínica posterior exige reavaliação. [1] Cefaleias · Página 46 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 9.10 Síntese diagnóstica operacional Recapitulando o percurso do capítulo: o diagnóstico da cefaleia é clínico e se constrói em quatro movimentos, resumidos na figura a seguir. Figura 17 — Síntese diagnóstica operacional da cefaleia. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. O primeiro é a anamnese com atenção ao padrão temporal — quando começou, como se instalou, com que frequência recorre e se mudou em relação ao habitual. O segundo é o exame físico e neurológico, com fundoscopia sempre que possível, porque papiledema altera imediatamente a ordem da investigação. [1,3] O terceiro movimento é a pergunta que separa os caminhos: há red flags, exame anormal ou padrão atípico? Se não há, aplicam-se os critérios diagnósticos da síndrome primária suspeitada. Se há, a investigação passa a ser dirigida à hipótese levantada — não uma bateria indiscriminada de exames. [3,12,13] O quarto movimento fecha o ciclo: consolidar o diagnóstico e definir o plano de seguimento. Diagnóstico firmado não encerra o cuidado, porque frequência das crises, resposta ao tratamento e eventual mudança de padrão continuam a ser reavaliados ao longo do tempo. [1,13] Cefaleias · Página 47 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 10 — EXAMES COMPLEMENTARES Os exames complementares não são uma etapa obrigatória para todo paciente com cefaleia. Eles devem responder a uma hipótese diagnóstica. A investigação é indicada quando a história ou o exame sugerem causa potencialmente grave — vascular, neoplásica, infecciosa, traumática, inflamatória ou relacionada à pressão intracraniana — e pode continuar mesmo após um exame inicial negativo quando a suspeita clínica permanece relevante. [1–3] REGRA GERAL FENÓTIPO PRIMÁRIO TÍPICO + EXAME NORMAL + SEM RED FLAGS → não solicitar exames por rotina. RED FLAG / EXAME ANORMAL / PADRÃO ATÍPICO → definir a hipótese secundária e escolher o exame que melhor responde a ela. [2,3,13] 10.1 Como escolher o exame: pergunta antes do método Pergunta clínica Método que ganha prioridade nas fontes Objetivo Há hemorragia intracraniana aguda? TC de crânio sem contraste. Detectar sangue rapidamente, sobretudo em cefaleia abrupta/trovoada. Há lesão expansiva, malformação de Chiari, alteração de pressão liquórica ou outra causa estrutural não aguda? RM de encéfalo, com protocolo/contraste conforme a hipótese. Maior sensibilidade para muitas causas estruturais e parenquimatosas. Há dissecção, aneurisma ou outra doença arterial? Angio-TC, angio-RM ou angiografia conforme o cenário. Estudar vasos cervicais e intracranianos. Há trombose de seio venoso/veias cerebrais? Venografia por RM/TC ou estudo venoso apropriado. Demonstrar falha de enchimento/oclusão venosa. Há infecção, sangue no LCR, células neoplásicas ou distúrbio de pressão liquórica? Punção lombar/LCR quando segura e indicada. Analisar pressão de abertura e conteúdo liquórico conforme hipótese. Há suspeita de arterite de células gigantes? VHS/PCR e investigação específica da artéria temporal conforme a fonte. Avaliar inflamação e confirmar etiologia. Há suspeita de epilepsia/aura atípica? EEG apenas em situações selecionadas. Responder a hipótese epiléptica; não é exame de rotina para cefaleia. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 10.2 Neuroimagem: quando está indicada O Tratado recomenda neuroimagem sempre que houver suspeita de causa potencialmente grave. Entre os gatilhos estão primeira ou pior cefaleia da vida, déficit focal que não corresponda a aura típica, cefaleia desencadeada por tosse/esforço/atividade sexual, gestação ou puerpério com cefaleia nova e intensa, início após 50 anos, trovoada, manifestações sistêmicas/neurológicas, câncer ou imunodeficiência, cefaleia progressiva, papiledema e exame neurológico anormal. [3,12] Cefaleias · Página 48 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Indicação clínica Problemas a excluir Imagem conceitualmente indicada Cefaleia em trovoada HSA, hemorragia intraparenquimatosa, sangramento tumoral, doença vascular aguda. TC sem contraste como exame inicial; a janela de até 6 h condiciona o valor de uma TC negativa. Estudo vascular conforme suspeita e resultados. Cefaleia nova + déficit focal/papiledema Massa, trombose venosa, doença vascular, hipertensão intracraniana. RM é preferida em muitos cenários; TC pode ser usada conforme urgência/disponibilidade. Cefaleia progressiva ou mudança do padrão Neoplasia, hematoma subdural, outras causas estruturais. RM geralmente tem maior rendimento; TC quando RM não disponível/contraindicada. TAC/cefaleia em salvas de início recente Forma secundária por lesão estrutural. RM de encéfalo; atenção à região selar/hipofisária conforme contexto. Cefaleia pós-traumática com sinais de gravidade Hemorragia, fratura, lesão intracraniana. TC sem contraste no trauma agudo; RM em situações selecionadas. Gestação/puerpério com cefaleia nova/intensa Trombose venosa, dissecção, hemorragia, apoplexia hipofisária. RM sem contraste é favorecida pela fonte; TC sem contraste é útil se suspeita de hemorragia aguda. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]. 10.3 Tomografia computadorizada × ressonância magnética A TC de crânio tem como vantagens rapidez, ampla disponibilidade,menor necessidade de colaboração e boa eficácia para hemorragia aguda, especialmente nas primeiras horas. A RM é superior à TC na maioria das demais indicações de cefaleia secundária, incluindo muitas lesões expansivas, alterações congênitas, sinais de hipertensão/hipotensão intracraniana e lesões de fossa posterior. A escolha depende da pergunta clínica, urgência e disponibilidade. [1–3] Aspecto TC RM Maior utilidade Hemorragia aguda, trauma agudo, avaliação rápida na emergência. Lesões estruturais/parênquima, fossa posterior, alterações de pressão liquórica, malformação de Chiari e investigação não emergencial mais detalhada. Velocidade Muito rápida. Mais demorada e dependente de logística/cooperação. Radiação Utiliza radiação ionizante. Não utiliza radiação ionizante. Contraste Iodado quando indicado. Gadolínio quando indicado; nem toda investigação exige contraste. Limitação prática Menor sensibilidade para diversas causas não hemorrágicas e algumas lesões de fossa posterior. Disponibilidade, tempo, contraindicações e tolerância do paciente. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. Cefaleias · Página 49 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias NÃO CONFUNDIR TC normal não encerra automaticamente a investigação. O próprio Tratado destaca que um resultado negativo pode ser útil para indicar a continuidade com outro método quando a suspeita clínica permanece. [3] 10.4 Cefaleia em trovoada e suspeita de hemorragia subaracnóidea Cefaleia em trovoada é uma das indicações mais importantes de investigação urgente. A TC sem contraste é o exame inicial de escolha para detectar hemorragia subaracnóidea (HSA) aguda. Se a TC for negativa e a suspeita clínica permanecer, as referências deste LIDE recomendam exame do LCR em busca de hemácias e/ou xantocromia. Uma vez identificada HSA, a investigação vascular com angio-TC, angio-RM e/ou angiografia busca a fonte do sangramento. [1,3,13] Figura 18 — Investigação da cefaleia em trovoada e suspeita de hemorragia subaracnóidea. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 50 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 10.5 Estudo vascular: artérias e veias 10.5.1 Dissecção carotídea ou vertebral Cefaleia ou cervicalgia de instalação súbita associada a síndrome de Horner, déficit focal ou trauma cervical aumenta a suspeita de dissecção. As fontes citam angio-TC do crânio/pescoço e angio-RM como métodos adequados para avaliação vascular, com escolha conforme disponibilidade, localização suspeita e necessidade de estudar também o parênquima. [3] 10.5.2 Trombose venosa cerebral A possibilidade de trombose venosa cerebral deve ser lembrada diante de gestação/puerpério, cefaleia progressiva, papiledema, convulsões ou déficit focal. TC convencional pode ser normal. Quando a hipótese persiste, o estudo venoso por venografia de RM, venografia por TC ou angiografia venosa apropriada é necessário para demonstrar alteração dos seios e veias cerebrais. [3,8] Suspeita Estudo vascular útil Achado/pergunta Dissecção arterial Angio-TC ou angio-RM de crânio/pescoço. Há estreitamento, irregularidade, hematoma de parede ou oclusão arterial? Aneurisma/HSA Angio-TC, angio-RM e/ou angiografia. Qual a fonte vascular do sangramento? Trombose venosa cerebral Venografia por RM/TC ou angiografia venosa. Há falha de enchimento/oclusão de seio ou veia? Malformação vascular Angioimagem; angiografia em cenários selecionados. Há MAV, fístula ou outra anomalia vascular? Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Martins et al., Clínica Médica [8]. 10.6 TACs e cefaleia em salvas: por que a RM tem papel especial As fontes de Goldman-Cecil e os materiais anexos recomendam investigação por imagem, particularmente RM, na primeira apresentação de cefaleia em salvas ou outras TACs. A razão é excluir formas secundárias que podem imitar o fenótipo trigeminoautonômico, incluindo infecção, malformações vasculares, dissecção carotídea e neoplasia, com atenção especial à região hipofisária quando o contexto for sugestivo. [2,5] ARMADILHA Sintomas autonômicos típicos tornam o diagnóstico sindrômico provável, mas não excluem causas estruturais na primeira apresentação. O exame de imagem não “confirma salvas”; ele ajuda a excluir mimetizadores secundários. [2,5] 10.7 Papiledema e suspeita de hipertensão intracraniana Papiledema é um achado de alto valor para hipertensão intracraniana e muda a ordem da investigação. Primeiro deve-se obter neuroimagem para excluir lesão expansiva, hidrocefalia ou outra situação em que a punção lombar possa ser perigosa. Em cenários em que a imagem não demonstra uma causa estrutural e a hipótese de hipertensão intracraniana permanece, o estudo do LCR com manometria da pressão de abertura pode ser necessário; se houver suspeita de trombose venosa, deve-se complementar com imagem venosa. [2,3,8] Cefaleias · Página 51 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CEFALEIA + PAPILEDEMA NEUROIMAGEM ↓ EXCLUIR MASSA / OBSTRUÇÃO / HIDROCEFALIA ↓ SE NECESSÁRIO → ESTUDO VENOSO PARA TROMBOSE VENOSA ↓ SE SEGURO E INDICADO → PUNÇÃO LOMBAR + PRESSÃO DE ABERTURA + ANÁLISE DO LCR ↓ INTEGRAR COM EXAME OFTALMOLÓGICO / CAMPOS VISUAIS CONFORME O CASO [1,3,8] Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Martins et al., Clínica Médica [8]. 10.8 Exame do líquido cefalorraquidiano O LCR é indicado quando há suspeita de infecção, presença de sangue, células neoplásicas ou distúrbios de pressão liquórica. Na suspeita de HSA com TC negativa e clínica persistente, busca-se hemácias e xantocromia. Em suspeita de meningite, a análise inclui os parâmetros pertinentes à infecção; Goldman-Cecil também cita pressão de abertura, proteína, glicose, células, cultura e citologia conforme a hipótese. A punção deve ser precedida por neuroimagem quando houver possibilidade de lesão com efeito de massa ou risco de herniação. [2,3] Hipótese O que o LCR pode fornecer Cuidado prévio HSA com TC não diagnóstica e suspeita persistente Hemácias/xantocromia nas fontes. Integrar com neuroimagem e contexto temporal. Meningite/encefalite Células, proteína, glicose, cultura e outros testes dirigidos. Neuroimagem antes da PL quando houver risco de massa/hipertensão intracraniana estrutural. Hipertensão intracraniana idiopática / distúrbio de pressão Pressão de abertura e composição do LCR. Excluir lesão estrutural e considerar estudo venoso. Doença neoplásica meníngea Citologia em contexto apropriado. Investigar a causa estrutural e o risco do procedimento. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. 10.9 Exames laboratoriais dirigidos Não existe painel laboratorial de rotina para cefaleia primária. Hemograma, marcadores inflamatórios, testes de doenças do colágeno, sorologias e outros exames são escolhidos quando a história sugere uma causa secundária específica. O Tratado cita VHS e biópsia da artéria temporal diante de suspeita de arterite de células gigantes; Goldman-Cecil acrescenta PCR como marcador útil nessa avaliação. Uma VHS normal, porém, não exclui arterite de células gigantes no Harrison. [1–3] Cefaleias · Página 52 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Situação clínica Exames dirigidos nas fontes Objetivo Cefaleia nova em idoso com dor temporal/sintomas visuais VHS e/ou PCR; avaliação/biópsia da artéria temporal conforme o contexto. Investigar arterite de células gigantes. Febre, meningismo, doença sistêmica Hemograma, testes infecciosos/sorológicose LCR conforme a hipótese. Pesquisar infecção ou inflamação. Suspeita de doença do colágeno/vasculite Testes dirigidos de autoimunidade/colágeno. Documentar doença sistêmica potencialmente causal. Anticoagulação ou suspeita de sangramento Coagulograma e exames relacionados ao fármaco/contexto. Avaliar risco hemorrágico e orientar manejo. Suspeita metabólica ou sistêmica Eletrólitos, função renal/hepática e outros conforme história. Identificar distúrbios capazes de causar ou agravar cefaleia. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. ATENÇÃO — ARTERITE DE CÉLULAS GIGANTES As fontes concordam que marcadores inflamatórios apoiam a investigação, mas não devem ser usados isoladamente para excluir a doença. A confirmação etiológica depende da avaliação específica da artéria temporal e do contexto clínico. [1–3] 10.10 Eletroencefalograma: quando não pedir O EEG não tem utilidade na investigação rotineira das cefaleias. O Tratado o reserva para situações selecionadas, especialmente auras atípicas ou quando há suspeita clínica de evento epiléptico. Solicitar EEG apenas porque o paciente tem cefaleia não ajuda a distinguir migrânea, CTT ou cefaleia em salvas. [3] NÃO É EXAME DE ROTINA EEG não “confirma migrânea” e não deve fazer parte de uma bateria padronizada para cefaleia. Sua indicação depende de uma pergunta neurológica específica, como a possibilidade de crise epiléptica ou aura atípica. [3] 10.11 Outros exames conforme a hipótese O exame complementar pode estar fora da neurologia. Fundoscopia, pressão intraocular e avaliação oftalmológica são essenciais diante de dor ocular ou suspeita de glaucoma; imagem dos seios da face, avaliação otológica ou odontológica e estudo da articulação temporomandibular podem ser úteis quando o exame local aponta para essas estruturas. A coluna cervical pode exigir avaliação própria em cefaleias cervicogênicas ou após trauma. A regra é a mesma: o exame deve responder a uma hipótese clínica concreta. [1,3] Cefaleias · Página 53 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Hipótese Avaliação complementar possível Glaucoma / doença ocular Fundoscopia, pressão intraocular, exame oftalmológico. Sinusite/mastoidite complicada Imagem dos seios/mastoide conforme contexto. Dor odontogênica/ATM Exame oral, odontológico e/ou imagem dirigida. Cefaleia cervicogênica/trauma cervical Exame cervical e imagem quando indicada. Fístula liquórica/hipotensão intracraniana RM de crânio e, quando necessário, estudo da coluna/mielografia conforme as fontes. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. 10.12 O que não deve ser solicitado por rotina • Neuroimagem apenas para “confirmar” migrânea, cefaleia do tipo tensional (CTT) ou outra cefaleia primária típica com exame neurológico normal e sem red flags. • EEG como exame geral de cefaleia. • Painel laboratorial amplo sem hipótese clínica. • Punção lombar antes de excluir contraindicações quando houver suspeita de efeito de massa/hipertensão intracraniana por lesão estrutural. • Angioimagem sem pergunta vascular definida em um fenótipo primário típico e estável. [1–3] 10.13 Matriz prática: sintoma → hipótese → exame Apresentação Hipótese prioritária Exame que responde melhor à pergunta Trovoada hemorragia subaracnóidea (HSA) / hemorragia / doença vascular aguda TC sem contraste; se realizada até 6 h do início, em paciente neurologicamente intacto e com técnica adequada, uma TC negativa pode ser suficiente. Acima de 6 h ou com suspeita persistente: LCR e/ou estratégia vascular. Nova após 50 anos + dor temporal Arterite de células gigantes VHS/PCR + avaliação específica da artéria temporal; neuroimagem conforme o restante do quadro. Papiledema Hipertensão intracraniana / TVC / massa Neuroimagem primeiro → estudo venoso conforme suspeita → LCR com pressão de abertura se seguro. Horner doloroso + cervicalgia Dissecção carotídea/vertebral Angio-TC/angio-RM de crânio e pescoço. Gestação/puerpério + cefaleia nova intensa TVC / dissecção / hemorragia / apoplexia hipofisária RM/venografia ou TC/angioimagem conforme a hipótese e urgência. Salvas/cefaleia trigeminoautonômica (TAC) nova Forma secundária estrutural RM de encéfalo, incluindo avaliação dirigida da região selar quando pertinente. Febre + meningismo Meningite/encefalite Neuroimagem quando necessária por segurança + LCR e estudos infecciosos. Cefaleia progressiva + câncer Metástase / massa / infecção oportunista RM de encéfalo; exames adicionais conforme achados. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. Cefaleias · Página 54 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 11 — DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico diferencial da cefaleia deve responder a duas perguntas em sequência: primeiro, qual fenótipo primário melhor explica a apresentação; segundo, existe algum elemento que obrigue a considerar uma cefaleia secundária potencialmente grave? A segurança do raciocínio depende mais da cronologia, dos sinais associados e do exame do que de um único atributo da dor. [1,3] 11.1 Migrânea × cefaleia do tipo tensional Característica Migrânea CTT Qualidade/intensidade Frequentemente pulsátil; moderada a forte. Pressão/aperto; leve a moderada. Atividade Tende a piorar ou levar o paciente a evitá-la. Não é agravada por atividade rotineira. Associados Náusea/vômitos e/ou foto + fonofobia. Sem vômitos; no máximo foto ou fonofobia na forma típica. Impacto Frequentemente incapacitante durante a crise. Em geral menor na forma episódica, embora a crônica possa causar grande carga. Dolorimento pericraniano Pode ocorrer, mas não define a síndrome. É achado frequente e aumenta com a frequência da CTT. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. NÃO CONFUNDIR Dor occipital, bilateralidade ou dor cervical associada não excluem migrânea. Da mesma forma, o termo “tensional” não significa que contração muscular ou estresse sejam a etiologia comprovada da CTT. [2,9,11] 11.2 Aura migranosa × evento vascular focal Aura típica costuma desenvolver sintomas gradualmente ao longo de minutos, frequentemente em “marcha”, com fenômenos positivos e negativos que podem se suceder e são totalmente reversíveis. Eventos vasculares focais costumam exigir atenção quando o início é abrupto, o déficit é predominantemente negativo, há perda motora nova, duração atípica, primeira apresentação tardia ou outros sinais de alarme. [1,3,10,11] Elemento Aura migranosa típica Padrão que aumenta preocupação vascular Início Progressivo em minutos. Súbito, máximo desde o início. Sintomas Frequentemente positivos + negativos; visual/sensitivo/fala. Déficit negativo puro pode predominar. Evolução Marcha/propagação e sucessão de fenômenos. Déficit fixo, simultâneo ou sem padrão típico. Reversibilidade Completa no padrão usual. Persistência ou déficit residual exige investigação. Contexto História prévia semelhante favorece aura. Primeira aura após idade atípica, fatores vasculares ou exame anormal reduzem segurança diagnóstica. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]. Cefaleias · Página 55 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias ARMADILHA DIAGNÓSTICA “Tem aura, então é migrânea” não é regra segura. Aura atípica, déficit motor novo, sintomas abruptos ou primeiro episódio diferente do habitual devem ser avaliados como possíveis causas secundárias até esclarecimento. [3,10] 11.3 Cefaleiaem salvas e outras TACs: o que pode simular A cefaleia em salvas pode ser confundida com migrânea, neuralgia do trigêmeo, cefaleia hípnica e causas secundárias que ativam vias trigeminoautonômicas. As referências deste LIDE destacam que a primeira apresentação de salvas/cefaleias trigeminoautonômicas (TACs) deve motivar investigação por imagem, pois infecção, malformações vasculares, dissecção carotídea e neoplasias, incluindo lesões hipofisárias, podem produzir fenótipos semelhantes. [2,5] Condição Por que pode confundir Pista discriminatória Migrânea Unilateralidade, foto/fonofobia e sintomas autonômicos podem coexistir. Crise geralmente mais longa; paciente tende a preferir repouso, enquanto salvas cursa com inquietação. Neuralgia do trigêmeo Dor unilateral intensa em território trigeminal. Paroxismos muito breves, tipo choque, gatilhos táteis e ausência do padrão típico de salvas. Cefaleia hípnica Ataques noturnos, sobretudo em idosos. Ocorre durante o sono e não apresenta o conjunto autonômico típico da salvas. Lesão estrutural/hipofisária Pode gerar dor unilateral e sinais autonômicos. Primeiro episódio, padrão atípico ou exame alterado → RM dirigida. Dissecção carotídea Cefaleia unilateral + síndrome de Horner pode lembrar salvas. Dor cervical, Horner doloroso, sinais focais e contexto vascular/traumático exigem angioimagem. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]. 11.4 Cefaleia crônica diária: diferenciar frequência de etiologia Cefaleia em muitos dias do mês não constitui uma única doença. O diferencial inclui migrânea crônica, CTT crônica, cefaleia diária persistente desde o início e cefaleia associada a uso excessivo de medicação. A chave é reconstruir como o quadro começou, quantos dias mantêm características migranosas e quantos dias por mês há uso de medicação aguda. [1,3,9,10,14] Pergunta Por que importa A cefaleia era episódica e aumentou progressivamente? Favorece cronificação de migrânea ou cefaleia do tipo tensional (CTT). A dor tornou-se diária desde o início, em curto intervalo? Sugere outro padrão de cefaleia diária persistente e exige revisão do diagnóstico. Quantos dias/mês têm características migranosas? Ajuda a reconhecer migrânea crônica mesmo quando a dor varia de fenótipo. Quantos dias/mês há uso de medicação aguda? Pesquisa uso excessivo e perpetuação da cefaleia. Há red flags ou progressão não explicada? Mantém causas secundárias no diferencial. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Maciel Jr & Jurno, Tratado de Neurologia [9]. Cefaleias · Página 56 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 11.5 “Cefaleia sinusal” e causas craniofaciais Sintomas autonômicos como congestão nasal e rinorreia podem ocorrer em migrânea e TACs e frequentemente levam a diagnóstico inadequado de “sinusite”. O raciocínio deve integrar dor facial/craniana com evidência clínica real de doença dos seios, olhos, dentes, ouvido, articulação temporomandibular ou pescoço, em vez de atribuir causalidade apenas pela localização da dor. [1,3] 11.6 Causas secundárias que não podem ser perdidas Condição Padrão de alerta Próximo raciocínio Hemorragia subaracnóidea Trovoada, pior cefaleia da vida, vômitos, meningismo, alteração de consciência. Neuroimagem urgente e investigação adicional se a suspeita persistir. Meningite/encefalite Febre, rigidez de nuca, alteração de consciência, convulsões. Neuroimagem/LCR e investigação infecciosa conforme segurança. Arterite de células gigantes Cefaleia nova >50 anos, dor temporal, sintomas sistêmicos, alteração visual. Marcadores inflamatórios e avaliação dirigida; tratamento não deve ser atrasado se suspeita alta. Glaucoma agudo Dor ocular intensa, olho vermelho, alterações pupilares/visuais, náuseas/vômitos. Avaliação oftalmológica urgente. Neoplasia/lesão expansiva Progressão, déficit focal, convulsão, papiledema, câncer prévio. Neuroimagem, preferencialmente orientada pela hipótese. Dissecção arterial Cefaleia/cervicalgia nova, Horner, déficit focal, trauma cervical. Angioimagem de vasos cervicais/intracranianos. Trombose venosa cerebral Gestação/puerpério, cefaleia progressiva, papiledema, crise ou déficit. Estudo venoso por TC/RM. Hipertensão intracraniana Papiledema, cefaleia progressiva, piora com Valsalva, sintomas visuais. Neuroimagem antes de punção e investigação de pressão liquórica. Hipotensão liquórica Cefaleia ortostática/postural. Investigar contexto, imagem e pressão/LCR conforme hipótese. Hematoma subdural/pós-trauma Trauma, anticoagulação, cefaleia nova/progressiva, alteração cognitiva/focal. Neuroimagem urgente ou dirigida conforme quadro. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. Cefaleias · Página 57 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 12 — TRATAMENTO O tratamento das cefaleias deve separar três objetivos: controlar a crise atual, reduzir a frequência e a incapacidade futuras e tratar a causa quando a cefaleia é secundária. A escolha terapêutica depende do fenótipo, intensidade, rapidez necessária, sintomas associados, contraindicações, frequência de crises e risco de uso excessivo de medicação. [1,2,10,12,13] PRINCÍPIO CENTRAL Antes de escolher o fármaco, confirme o fenótipo e exclua causas secundárias graves. Depois, trate a crise precocemente, avalie necessidade de prevenção e monitore dias de cefaleia e dias de uso de medicação aguda. [12,13,15] 12.1 Objetivos e plano terapêutico Objetivo Conduta prática Alívio rápido e consistente da crise Selecionar fármaco e via conforme intensidade, náusea/vômitos, velocidade de início e contraindicações. Reduzir frequência e incapacidade Considerar profilaxia quando a carga da doença justificar. Prevenir cronificação Evitar uso excessivo de medicação aguda; tratar sono, comorbidades e fatores modificadores. Reduzir efeitos adversos Individualizar classe, dose e titulação; revisar resposta e tolerabilidade. Tratar cefaleia secundária Analgesia é adjuvante; o alvo definitivo é a doença causal. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 12.2 Medidas não farmacológicas e estilo de vida As referências deste LIDE recomendam regularidade do sono, alimentação em horários regulares, atividade física adequada, moderação de cafeína e álcool e redução de oscilações agudas de estresse. Biofeedback, meditação e ioga são citados como estratégias possíveis. A identificação de desencadeantes deve ser individual: evitar listas universais de alimentos proibidos sem relação reprodutível com as crises. [1,8,10] 12.3 Migrânea — tratamento da crise aguda O tratamento agudo é mais eficaz quando iniciado precocemente. Crises leves podem responder a analgésicos simples ou AINEs; crises moderadas a fortes ou refratárias podem exigir terapia específica, principalmente triptanos quando não há contraindicação. Náuseas/vômitos podem exigir antiemético e, em algumas situações, via não oral. [1,2,8,10,15] NOTA DE SEGURANÇA POSOLÓGICA — Os valores a seguir reproduzem doses ou faixas descritas nas referências deste volume e não constituem prescrição individual. Sempre distinguir dose única, dose diária, dose máxima, formulação e via quando essas informações estiverem explicitadas. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Migraine: Physiology, Pathology, Clinical Manifestations, Diagnosis and Treatment Assista em: https://youtu.be/DMhKBUgizO8?si=rZJukozLDZX4eu9L Cefaleias · Página 58 https://youtu.be/DMhKBUgizO8?si=rZJukozLDZX4eu9L https://youtu.be/DMhKBUgizO8?si=rZJukozLDZX4eu9L https://youtu.be/DMhKBUgizO8?si=rZJukozLDZX4eu9LLivro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Fármaco/classe Mecanismo de ação Faixa/dose descrita nas referências deste LIDE Papel / cautela Paracetamol Analgésico/antipirético de ação predominantemente central; efeito anti-inflamatório periférico desprezível. 650–1.000 mg Opção para crise leve; evitar uso repetitivo excessivo. Ácido acetilsalicílico Inibição irreversível da ciclo- oxigenase, com redução da síntese de prostaglandinas e da sensibilização nociceptiva periférica. 250–1.000 mg AINE/analgésico; considerar risco gastrointestinal, renal, cardiovascular e hemorrágico conforme contexto. Ibuprofeno Inibição reversível da ciclo- oxigenase, reduzindo prostaglandinas e inflamação perivascular. As fontes descrevem valores diferentes conforme o contexto; o intervalo reproduzido não corresponde a uma dose única padronizada. AINE; usar a menor dose eficaz compatível com o protocolo/local. Naproxeno Inibição reversível da ciclo- oxigenase, com meia-vida mais longa que a dos demais AINEs citados. As fontes divergem quanto ao intervalo; verificar na referência se o valor citado é dose única ou total diária. AINE com duração de ação mais longa; pode ser associado a sumatriptana em algumas estratégias. Diclofenaco Inibição da ciclo-oxigenase, com redução da produção de prostaglandinas. 50 mg em exemplo do material. AINE; atenção a riscos de classe. Cetoprofeno Inibição da ciclo-oxigenase, com redução da produção de prostaglandinas. 12,5–75 mg conforme fonte. AINE; atenção a riscos de classe. Triptanos Agonismo dos receptores 5-HT1B/1D: vasoconstrição de vasos cranianos, inibição da liberação de neuropeptídeos (CGRP) nas terminações trigeminais e redução da transmissão nociceptiva central. Formulação e dose dependem do agente. Terapia específica para migrânea moderada/forte; contraindicações vasculares relevantes. Metoclopramida Antagonismo de receptores dopaminérgicos D2, com efeito antiemético central e procinético gástrico; contribui também para o alívio da dor. 10 mg em exemplo do material. Antagonista dopaminérgico; útil para náusea/vômitos e pode melhorar absorção de fármacos orais. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Goldman-Cecil Medicina [2]; Martins et al., Clínica Médica [8]. NOTA DE DOSE As faixas acima reproduzem valores presentes nas referências deste LIDE e não constituem uma prescrição universal. A escolha deve seguir formulação disponível, idade, comorbidades, contraindicações e protocolo institucional. [2,8] 12.3.1 AINEs e analgésicos simples Os AINEs oferecem analgesia e modulação inflamatória, mas seus principais limites são efeitos gastrointestinais, renais e cardiovasculares, especialmente com uso frequente. O tratamento agudo deve evitar repetição excessiva para não favorecer cefaleia por uso excessivo de medicação. [1,2,8] Cefaleias · Página 59 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 12.3.2 Triptanos: mecanismo e segurança Triptanos são agonistas serotoninérgicos 5-HT1B/1D. As fontes descrevem ação em terminações trigeminais, com inibição da liberação de peptídeos relacionados à crise, além de efeitos vasculares associados. São opções específicas para migrânea aguda, mas devem ser evitados em situações vasculares ou cardiocirculatórias relevantes e em outras contraindicações descritas nas referências. [1,10,16] PONTO DE ATENÇÃO — TRIPTANOS O fato de o fármaco ser eficaz na migrânea não o transforma em “teste diagnóstico”. A resposta terapêutica deve ser interpretada dentro do fenótipo e não substitui a exclusão de causas secundárias quando há red flags. [1,3] 12.3.3 Antagonistas dopaminérgicos e via de administração A redução da motilidade gastrointestinal durante a crise pode limitar a absorção oral. Metoclopramida e outros antagonistas dopaminérgicos podem ser usados como adjuvantes, especialmente diante de náuseas/vômitos; fenotiazínicos parenterais também são citados nos materiais. Quando vômitos são importantes, vias não orais podem ser necessárias. [1,8] 12.4 Migrânea — quando considerar tratamento preventivo A prevenção deve ser considerada quando crises são frequentes, prolongadas, intensas, incapacitantes, quando o tratamento agudo é ineficaz ou mal tolerado, quando há risco de uso excessivo de medicação ou em subtipos/complicações que justifiquem profilaxia. As fontes ressaltam individualização e revisão periódica da resposta. [2,10,14,17,18] Cefaleias · Página 60 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Classe/opção Mecanismo de ação Exemplos presentes nas fontes Racional / ponto de atenção Betabloqueadores Antagonismo de receptores beta- adrenérgicos; a via exata na prevenção não está estabelecida, atribuindo-se redução da hiperexcitabilidade central e modulação noradrenérgica. Propranolol, metoprolol, atenolol e outros. Úteis na prevenção; considerar pressão, frequência cardíaca e comorbidades. Anticonvulsivantes Redução da excitabilidade neuronal por bloqueio de canais de sódio/cálcio e potencialização gabaérgica; associada à menor suscetibilidade à depressão alastrante cortical. Topiramato; valproato/divalproato em contextos apropriados. Topiramato não deve ser usado para prevenção de migrânea na gestação e exige atenção em pessoas com potencial gestacional; valproato/divalproato é contraindicado na gestação para essa indicação. Reduzem excitabilidade neuronal; perfis de segurança e contraindicações distintos. Antidepressivos tricíclicos Inibição da recaptação de serotonina e noradrenalina, com reforço das vias inibitórias descendentes da dor; ação anti-histamínica e anticolinérgica explica parte dos efeitos adversos. Amitriptilina e outros. Podem ser úteis quando coexistem dor crônica, alterações do sono ou comorbidades selecionadas. Antagonismo da via CGRP Bloqueio do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina ou do seu receptor, impedindo a vasodilatação e a inflamação neurogênica da ativação trigeminovascular. Anticorpos monoclonais e outras terapias específicas conforme disponibilidade. Atuam em via diretamente relacionada à fisiopatologia da migrânea. Outras opções Candesartana age por bloqueio do receptor AT1 da angiotensina II; o mecanismo antimigranoso permanece incompletamente esclarecido. Candesartana e outras classes descritas nos consensos. Escolha guiada pela evidência e perfil clínico. Migrânea crônica Topiramato reduz a excitabilidade neuronal; a onabotulinumtoxina A bloqueia a liberação pré-sináptica de acetilcolina e de neuropeptídeos nas terminações sensitivas pericranianas. Topiramato e onabotulinumtoxina A ocupam posição de destaque em consensos anexos. Pesquisar uso excessivo de medicação e planejar retirada quando presente. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]; Kowacs et al., Consenso SBCe — migrânea crônica [14]. Os materiais de revisão anexos descrevem, como exemplos de faixas de dose, propranolol 40– 120 mg/dia, metoprolol 50–200 mg/dia, amitriptilina 12,5–100 mg/dia, topiramato 25–200 mg/dia e valproato/divalproato 500–1.500 mg/dia. Esses valores devem ser lidos como faixas descritas nas fontes, e não como esquema obrigatório para todos os pacientes. [8] ESCOLHA DO PREVENTIVO Não existe “melhor preventivo” universal. A escolha deve equilibrar evidência, comorbidades, risco reprodutivo quando pertinente, peso, sono, humor, pressão/frequência cardíaca, efeitos adversos e preferência do paciente. [14,17,18] Cefaleias · Página 61 Livro Integrado Digitalde Estudo — Cefaleias 12.4.1 Terapias dirigidas à via CGRP e ao receptor 5-HT1F A descoberta do papel do CGRP na ativação trigeminovascular gerou classes terapêuticas que atuam diretamente sobre o mecanismo da crise, e não apenas sobre a dor já instalada. Os anticorpos monoclonais dirigidos ao CGRP ou ao seu receptor — galcanezumabe, fremanezumabe e eptinezumabe ligam-se ao peptídeo; erenumabe bloqueia o receptor CLR/RAMP1 — são empregados na profilaxia. Por serem moléculas grandes, apresentam penetração limitada no sistema nervoso central e exercem parte importante de sua ação em componentes periféricos da via trigeminovascular. O perfil de tolerabilidade observado não deve, entretanto, ser atribuído a um único mecanismo. [22,24] Os gepantes são antagonistas de pequeno porte do receptor CGRP. Rimegepante e ubrogepante são descritos para tratamento agudo; atogepante, para profilaxia; zavegepante existe em formulação intranasal. Diferentemente dos triptanos, não produzem vasoconstrição, o que os torna opção relevante quando há contraindicação vascular. Nas referências utilizadas, os gepantes não apresentam o mesmo padrão estabelecido de associação com cefaleia por uso excessivo descrito para algumas terapias agudas tradicionais, o que não deve ser convertido em afirmação de risco absolutamente nulo. [22] Os ditanos formam uma terceira via. O lasmiditana é agonista seletivo do receptor 5-HT1F e, segundo a literatura de referência, não possui a atividade vasoconstritora dos triptanos — característica que sustenta seu uso quando doença coronariana, cerebrovascular ou vasculopatia periférica impedem o agonismo 5-HT1B. Em contrapartida, atua no sistema nervoso central e pode causar tontura e sonolência, com restrição para dirigir após a dose. [22] Terapias preventivas dirigidas ao CGRP constituem atualmente uma opção de primeira linha para prevenção da migrânea, ao lado de outras terapias de primeira linha, não sendo obrigatória falha prévia de classes preventivas inespecíficas segundo o posicionamento da American Headache Society de 2024. A leitura prática dessas classes é mecanística: quando o obstáculo ao triptano é vascular, a alternativa deve evitar vasoconstrição; quando o problema é frequência elevada de crises, a intervenção deve ser preventiva. Disponibilidade, custo e regulação variam entre países e serviços, e a prescrição deve seguir o protocolo local. [22,24] 12.4.2 O que significa sucesso no tratamento preventivo Por muito tempo a resposta preventiva foi medida por redução percentual dos dias de cefaleia. O posicionamento da International Headache Society publicado em 2025 argumenta que a redução de pelo menos 50% dos dias mensais, embora habitualmente considerada resposta bem-sucedida, pode não restaurar plenamente a qualidade de vida, e que medidas puramente percentuais obscurecem a carga residual que persiste durante o tratamento. [24] A proposta é deslocar o alvo de percentual para número absoluto de dias com migrânea ou cefaleia moderada a forte, em quatro níveis: liberdade de migrânea (nenhum dia), controle ótimo (menos de quatro dias por mês), controle modesto (quatro a seis dias) e controle insuficiente (mais de seis dias). Para o estudante, a consequência prática é direta: o diário de cefaleia deixa de servir apenas para contar melhora relativa e passa a definir se a meta terapêutica foi de fato alcançada. [24] 12.5 Uso excessivo de medicação e opioides Uso frequente de medicação sintomática pode perpetuar cefaleia diária ou quase diária, dificultar resposta à prevenção e contribuir para cronificação. Opioides são particularmente desencorajados como rotina na migrânea por risco de dependência, recorrência e cefaleia por uso excessivo. O plano terapêutico deve quantificar dias de uso por mês e prever redução/retirada quando indicado. [1,2,10,14] Cefaleias · Página 62 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 12.6 Cefaleia do tipo tensional — tratamento agudo Na CTT episódica, paracetamol e AINEs são as opções mais descritas. A literatura de referência apresenta, como exemplos, paracetamol 650–1.000 mg; AAS 250–1.000 mg; naproxeno 250–500 mg; ibuprofeno 200–800 mg; e cetoprofeno 12,5–75 mg. O uso de analgésicos em frequência elevada pode piorar a cefaleia e favorecer abuso de medicação. [2,8,9] PONTO DE ATENÇÃO CTT não deve ser tratada por repetição indefinida de analgésicos. Quando a frequência aumenta, o problema deixa de ser apenas “qual remédio tomar na crise” e passa a exigir prevenção e revisão diagnóstica. [8,9] 12.7 Cefaleia do tipo tensional crônica — prevenção e medidas não farmacológicas A amitriptilina é uma das opções preventivas mais destacadas nas fontes. O material de revisão descreve início em 10 mg ao deitar, com aumento gradual até resposta ou limitação por efeitos adversos, podendo alcançar até 100 mg. Nortriptilina, doxepina, maprotilina e fluoxetina também aparecem em descrições das fontes, com melhor evidência histórica para tricíclicos do que para inibidores seletivos da recaptação de serotonina. [2,8,9] Fisioterapia, biofeedback, acupuntura e outras estratégias não farmacológicas são descritas como possíveis componentes do manejo. A lógica é combinar redução da frequência e da sensibilização com menor dependência de analgésicos agudos. [8,9] 12.8 Cefaleia em salvas — tratamento agudo Como as crises alcançam o pico muito rapidamente, o tratamento precisa ter início rápido. Oxigênio a 100% e sumatriptana subcutânea são as estratégias abortivas de maior destaque nas fontes. A via oral é inadequada para uma crise tão breve e intensa. [2,5,8,13,20] Cefaleias · Página 63 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Estratégia Mecanismo de ação Dose/forma descrita Comentário Oxigênio O mecanismo da oxigenoterapia na cefaleia em salvas não está completamente esclarecido. Os mecanismos propostos incluem modulação da atividade trigeminovascular e autonômica craniana, sem vasoconstrição sistêmica. EAN 2023: oxigênio a 100%, máscara sem recirculação, fluxo de pelo menos 12 L/min por cerca de 15 minutos, iniciado precocemente na crise. Administrado por máscara apropriada; ação rápida e sem vasoconstrição sistêmica. Sumatriptana SC Agonismo 5-HT1B/1D; a via subcutânea produz pico plasmático rápido, compatível com a velocidade de instalação da crise. 6 mg. Início rápido; frequentemente reduz duração da crise para cerca de 10–15 min nas fontes. Sumatriptana nasal Mesmo agonismo 5-HT1B/1D, com absorção pela mucosa nasal e início intermediário entre a via subcutânea e a oral. 20 mg. Alternativa quando injeção não é possível; início menos rápido que SC. Zolmitriptana nasal Agonismo 5-HT1B/1D por via nasal, com racional idêntico ao da sumatriptana intranasal. 5 mg. Alternativa nasal descrita. Sumatriptana oral Mesmo agonismo 5-HT1B/1D, porém a absorção entérica é lenta demais para a duração típica da crise em salvas. Não indicada no material para abortamento de salvas. A absorção é lenta para a duração típica da crise. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goadsby & Raskin, Neurologia clínica de Harrison, 3ª ed. [20] (fluxo, dose e tempo); Speciali et al., Protocolo ABN/SBCe 2018 [13]; Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]; Digre, Goldman-Cecil Medicina [2]. Quadro — Oxigenoterapia na crise de cefaleia em salvas: redação literária de cada fonte consultada. As diferenças de fluxo e de tempo entre as obras são reais e estão reproduzidas sem harmonização. Fonte O que a fonte diz literalmente Fluxo / tempo Protocolo ABN/SBCe 2018 [13] “Administrar oxigênio a 100%, em máscara sem recirculação, com fluxo de 10-12 l/min durante 20 minutos, ou sumatriptano 6mg por via subcutânea se disponível.” 10–12 L/min por 20 min Tratado de Neurologia — Nobre & Peresdura-máter e dos grandes vasos intracranianos pelo trigêmeo constitui o sistema trigeminovascular. A ativação de vias parassimpáticas cranianas explica lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal e rinorreia. Miose e ptose têm origem distinta: refletem comprometimento da via simpática ocular e configuram síndrome de Horner parcial. Ambos os conjuntos podem coexistir, ipsilaterais à dor, nas cefaleias trigeminoautonômicas. Harrison enfatiza que alterações vasculares observadas na migrânea e na cefaleia em salvas são eventos secundários da cascata e não demonstram que essas doenças sejam primariamente 'vasculares'. [1] Cefaleias · Página 7 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 2 — EPIDEMIOLOGIA 2.1 Magnitude do problema Cefaleias estão entre as queixas mais frequentes na prática médica. O capítulo epidemiológico do Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia (doravante, Tratado de Neurologia) aponta a cefaleia do tipo tensional e a migrânea como as mais prevalentes; a migrânea concentra a maior carga de incapacidade. [4] 2.2 Prevalência global Indicador Estimativa descrita Leitura correta Cefaleia em geral ≈46% ao ano (revisão de 107 estudos, 2007). [4] Grande variabilidade entre regiões e métodos. Migrânea ≈11% ao ano (mesma revisão). [4] Impacto funcional desproporcional à frequência. Cefaleia do tipo tensional ≈42% ao ano. [4] É a cefaleia primária mais prevalente. Cefaleia crônica diária ≈3% na revisão citada. [4] Grupo heterogêneo; associado a cronificação e uso excessivo de medicação. Cefaleia em salvas ≈0,124% ao longo da vida (metanálise, 2008). [4,5] Rara, porém extremamente incapacitante. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Queiroz et al., Tratado de Neurologia [4]; Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]. COMO LER ESTES NÚMEROS — As estimativas refletem o período e o método de cada estudo. Servem para dimensionar a magnitude do problema e comparar as síndromes entre si, não para produzir uma taxa nacional atual. [4] 2.3 Dados brasileiros (seis estudos populacionais, 2002 em diante) O Tratado de Neurologia descreve seis estudos populacionais brasileiros em adultos, de 2002 em diante: Porto Alegre (2002), estudo latino-americano (2005), Florianópolis e Pelotas (2006), Capela Nova (MG) e o inquérito nacional por entrevista telefônica. Neste último, a prevalência anual foi de 72,2% para cefaleia em geral, 15,2% para migrânea, 13,0% para cefaleia do tipo tensional e 6,9% para cefaleia crônica diária; a média dos seis estudos foi de 70,6%, 15,8%, 29,5% e 6,1%. Os cinco primeiros usaram coleta porta a porta e o último, entrevista telefônica — diferença metodológica que explica boa parte da variação, sobretudo na cefaleia do tipo tensional. [4] 2.4 Sexo, idade e agregação familiar Migrânea é mais prevalente em mulheres na maior parte dos estudos e apresenta forte agregação familiar. A cefaleia em salvas é mais comum em homens, embora a diferença entre os sexos descrita historicamente venha diminuindo. Estudos populacionais e com gêmeos também sustentam componente hereditário em migrânea, cefaleia do tipo tensional e cefaleia em salvas. [2,4,5] 2.5 Impacto funcional A relevância clínica não decorre apenas da prevalência. Crises recorrentes reduzem qualidade de vida, produtividade e participação social. Escalas de incapacidade, como o MIDAS, quantificam esse impacto e acompanham a resposta ao tratamento. [4] Cefaleias · Página 8 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 3 — ETIOLOGIA Etiologia responde à pergunta “por que a cefaleia ocorre?”. Para esse raciocínio, é indispensável separar a causa do transtorno, o mecanismo fisiopatológico que produz a dor e o fator que apenas precipita uma crise. Nas cefaleias primárias, a cefaleia constitui o próprio transtorno e não existe uma doença exógena que explique melhor o quadro; nas cefaleias secundárias, uma condição subjacente faz parte do diagnóstico e deve ser identificada. Essa distinção evita dois erros comuns: chamar um gatilho de “causa” e considerar uma cefaleia primária como se fosse uma dor sem base biológica. [1– 3,6] Figura 6 — Etiologia × fisiopatologia × gatilho: três perguntas diferentes. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 3.1 Princípio etiológico: cefaleia primária × cefaleia secundária Conforme definido na abertura do LIDE, as cefaleias dividem-se em primárias e secundárias. Neste capítulo, o foco é distinguir a etiologia do transtorno primário da doença causal subjacente. PRINCÍPIO CENTRAL “Primária” não significa “sem mecanismo” e “secundária” não significa apenas “mais grave”. A diferença etiológica é se a cefaleia constitui o próprio transtorno ou se é atribuída a outra condição. A gravidade clínica depende do diagnóstico específico. [1,3] 3.2 Migrânea: suscetibilidade neurobiológica complexa A migrânea é uma cefaleia primária. A literatura de referência não sustenta uma causa vascular simples; ao contrário, descreve uma suscetibilidade anormal do sistema nervoso para desenvolver a Cefaleias · Página 9 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias sequência de eventos da crise. Essa suscetibilidade é fortemente influenciada pela genética e se combina com fatores ambientais e fisiológicos capazes de modular o limiar para um ataque. [1,6] 3.2.1 Agregação familiar e herança poligênica No capítulo de fisiopatologia do Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia, a maioria dos pacientes com migrânea apresenta algum familiar de primeiro grau acometido. A obra descreve aumento aproximado de duas vezes no risco relativo de migrânea sem aura e de quatro vezes no risco de migrânea com aura — aura sendo o conjunto de sintomas neurológicos focais transitórios e inteiramente reversíveis que ocorre em parte dos pacientes, detalhado no Capítulo 6 — quando existe pelo menos um parente de primeiro grau afetado. Risco relativo é a razão entre a chance de adoecer de quem tem o fator e a de quem não tem: risco relativo de dois significa o dobro da chance, não que metade dos familiares adoecerá. Nas formas comuns, o padrão de transmissão é poligênico e não mendeliano — ou seja, resulta da soma de muitas variantes genéticas de pequeno efeito, e não de um único gene com padrão previsível de herança, como ocorre nas doenças mendelianas clássicas. Por isso, história familiar aumenta a suscetibilidade, mas não determina isoladamente que a doença ocorrerá. [6] 3.2.2 Formas monogênicas raras: o que elas ensinam — e o que não explicam A migrânea hemiplégica familiar constitui exceção importante. O Tratado descreve formas autossômicas dominantes associadas a mutações em CACNA1A, ATP1A2 e SCN1A, genes relacionados a canais iônicos ou transporte iônico e capazes de favorecer hiperexcitabilidade neuronal. Essas formas demonstram que alterações da excitabilidade podem produzir fenótipos migranosos, mas não autorizam explicar a migrânea comum por um único gene ou por uma única “canalopatia”. [6] 3.2.3 Suscetibilidade não é o mesmo que gatilho Privação do sono, estresse, jejum, estímulos sensoriais ou variações hormonais podem facilitar uma crise em indivíduos suscetíveis, mas não constituem, isoladamente, a etiologia da migrânea. O papel desses elementos é melhor entendido como redução do limiar para expressão de uma doença previamente predisposta. Por isso, a avaliação etiológica deve primeiro reconhecer a síndrome migranosa e somente depois mapear os deflagradores individuais. [2,6–8] 3.3 Cefaleia do tipo tensional: etiologia incompletamente definida A etiologia da cefaleia do tipo tensional (CTT) permanece menos definida que a da migrânea. Os livros e o Tratado rejeitam uma explicação única baseada em “tensão nervosa” ou contração muscular persistente. A musculatura pericraniana pode ser mais[5] “É preconizado o uso de oxigênio úmido a 100% sob máscara facial sem recirculação, 12 L/min por 20 minutos.” A obra acrescenta que deve ser inalado na posição sentada, com o tronco levemente fletido para a frente. 12 L/min por 20 min Neurologia clínica de Harrison, 3ª ed. — Goadsby & Raskin [20] “Este pode ser administrado como oxigênio a 100% em 10-12 L/min por 15-20 minutos. Parece que o fluxo alto e o alto conteúdo de oxigênio são importantes.” 10–12 L/min por 15–20 min Goldman-Cecil — Digre [2] “O uso de oxigênio a 100%, a 7 a 10 ℓ/min durante 15 a 30 minutos, beneficia alguns pacientes.” É a redacção mais conservadora entre as fontes do LIDE. 7–10 L/min por 15–30 min Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica; transcrição literal de Speciali et al., Protocolo ABN/SBCe 2018 [13]; Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]; Goadsby & Raskin, Neurologia clínica de Harrison, 3ª ed. [20]; Digre, Goldman-Cecil Medicina [2]. MECANISMO → VIA → EFEITO Na salvas, a intensidade máxima chega rapidamente; por isso, um tratamento eficaz precisa alcançar o alvo rapidamente. Essa é a razão fisiológica para preferir oxigênio e vias subcutânea/nasal em vez da via oral. [5,8] Cefaleias · Página 64 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 12.9 Cefaleia em salvas — prevenção e tratamento de transição Verapamil ocupa posição central na prevenção de episódios prolongados e da forma crônica. É necessário distinguir a dose inicial de titulação da dose terapêutica: o fármaco deve ser iniciado em dose apropriada e titulado, e as doses terapêuticas frequentemente alcançam ≥240 mg/dia segundo a EAN 2023, podendo ser superiores conforme resposta e tolerabilidade. Por envolver doses acima das habituais em cardiologia, exige eletrocardiograma seriado e monitorização durante a titulação. Bradicardia, prolongamento do intervalo PR e bloqueio atrioventricular, constipação e edema de membros inferiores são pontos de segurança importantes. [5,8,20] Corticosteroides em dose inicial elevada podem ser utilizados como tratamento transicional; a EAN 2023 descreve esquemas com ≥100 mg/dia de prednisona ou equivalente, seguidos de redução, devendo o regime ser individualizado. O esquema histórico de 60 mg/dia por sete dias aparece em fontes mais antigas e não representa a recomendação contemporânea preferencial. Lítio 400–800 mg/dia aparece como opção na forma crônica. Todas essas estratégias exigem individualização, monitoramento e avaliação do risco específico de cada fármaco. [5,8,20] Objetivo Mecanismo de ação Estratégia Ponto de segurança Prevenção de longo prazo Bloqueia canais de cálcio tipo L. O mecanismo específico pelo qual exerce efeito preventivo na cefaleia em salvas não está plenamente estabelecido nas fontes. Verapamil. ECG seriado durante titulação; risco de bloqueio AV, bradicardia, edema e constipação. Transição/ponte O mecanismo responsável pelo efeito transicional dos corticosteroides na cefaleia em salvas não está plenamente definido nas fontes; o bloqueio anestésico atua sobre a aferência do nervo occipital maior. Corticosteroide por curto período; bloqueio occipital em fontes específicas. Não confundir com prevenção de longo prazo. Forma crônica selecionada O lítio possui múltiplos efeitos sobre sinalização intracelular e ritmos biológicos; a relação com a ritmicidade é apresentada nas fontes como hipótese mecanística, e não como mecanismo único demonstrado. Lítio. Exige monitoramento clínico/laboratorial apropriado. Alternativas Topiramato reduz a excitabilidade neuronal por múltiplos mecanismos. Topiramato e outras opções conforme fonte e caso. Evidência e tolerabilidade variam. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goadsby & Raskin, Neurologia clínica de Harrison, 3ª ed. [20] (faixas de verapamil, lítio e prednisona); Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]. 12.10 Salvas refratária e neuroestimulação Em cefaleia em salvas crônica refratária, as fontes descrevem estratégias de neuroestimulação. A estimulação cerebral profunda da região hipotalâmica posterior foi estudada, mas sua morbidade impede uso antes de abordagens menos invasivas. É necessário distinguir o bloqueio anestésico do nervo occipital maior — estratégia reconhecida — da estimulação elétrica do nervo occipital, que a diretriz da Academia Europeia de Neurologia (EAN, 2023) não recomenda pelo perfil de efeitos adversos. A estimulação do gânglio pterigopalatino também é citada. Quanto à estimulação vagal não invasiva, a evidência descrita pela EAN 2023 concentra-se na forma episódica, não devendo ser generalizada para a forma crônica. Essas opções pertencem a centros especializados e não substituem o tratamento farmacológico inicial. [5,8,27] [5,8] Cefaleias · Página 65 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 12.11 Cefaleia na unidade de emergência ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — A Melhor Conduta para Cefaleia na Emergência Assista em: https://www.youtube.com/live/EanP4Tlf-KA?si=hmTsbp7a1dzI0yi2 Na emergência, a prioridade não é apenas reduzir a dor: é reconhecer rapidamente condições de alta morbimortalidade. O tratamento sintomático deve ocorrer em paralelo à investigação dirigida quando há trovoada, meningismo, déficit focal, alteração de consciência, papiledema, gestação/puerpério de risco, anticoagulação ou outro alerta. [12,13] ABORDAGEM NA EMERGÊNCIA AVALIAR ABC / SINAIS VITAIS + HISTÓRIA DIRIGIDA ↓ PROCURAR RED FLAGS + EXAME NEUROLÓGICO ↓ SE SECUNDÁRIA GRAVE POSSÍVEL → INVESTIGAR E TRATAR A CAUSA ↓ SE FENÓTIPO PRIMÁRIO ESTÁVEL → TRATAR CRISE ↓ REAVALIAR RESPOSTA + PLANO DE ALTA / PREVENÇÃO [12,13] Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]; Protocolo ABN/SBCe 2018 [13]. 12.12 Cefaleias secundárias: tratar a doença causal Analgesia isolada não é tratamento definitivo de cefaleia secundária. Hemorragia subaracnóidea, meningite, glaucoma agudo, arterite de células gigantes, dissecção arterial, trombose venosa cerebral, hipertensão intracraniana e outras causas exigem intervenção específica para o processo de base. A prioridade clínica depende da ameaça imediata ao paciente. [1,3,12] Causa secundária Princípio terapêutico HSA / hemorragia intracraniana Estabilização e manejo neurovascular/neurocirúrgico conforme diagnóstico; analgesia é apenas adjuvante. Meningite/encefalite Tratamento infeccioso e suporte conforme etiologia e gravidade. Arterite de células gigantes Tratamento anti-inflamatório urgente quando a suspeita é alta, especialmente para proteger visão; investigação não deve atrasar terapia. Glaucoma agudo Redução urgente da pressão intraocular e avaliação oftalmológica. Dissecção / trombose venosa Tratamento vascular específico conforme mecanismo e contraindicações. Hipertensão intracraniana Tratar a causa e reduzir risco visual/neurológico; estratégia depende do mecanismo. Uso excessivo de medicação Retirada/redução do agente responsável + estratégia preventiva apropriada. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]. 12.13 Monitoramento e definição de resposta A resposta terapêutica deve ser medida ao longo do tempo. Frequência de dias de cefaleia, intensidade, duração, incapacidade, dias de uso de medicação aguda, efeitos adversos e satisfação Cefaleias · Página 66 https://www.youtube.com/live/EanP4Tlf-KA?si=hmTsbp7a1dzI0yi2 https://www.youtube.com/live/EanP4Tlf-KA?si=hmTsbp7a1dzI0yi2 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias com o tratamento são marcadores mais úteis do que a impressão isolada de “melhorou ou não”. O diário de cefaleia é especialmente útil para migrânea frequente/crônica e CTT crônica. [10,14,17,18] Indicador O que informa Dias de cefaleia/mêsCarga da doença e resposta preventiva. Dias de medicação aguda/mês Risco de uso excessivo e necessidade de mudança do plano. Crises incapacitantes Impacto funcional real, mesmo quando a frequência total é menor. Duração/intensidade Efetividade do tratamento agudo e preventivo. Efeitos adversos Tolerabilidade e necessidade de ajuste/substituição. Sono, humor, função e atividade Comorbidades e impacto global do tratamento. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]; Kowacs et al., Consenso SBCe — migrânea crônica [14]; Melhado et al., Consenso SBCe — profilaxia I [17]. Cefaleias · Página 67 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 13 — COMPLICAÇÕES E PROGNÓSTICO Nas cefaleias primárias, prognóstico não significa apenas “a dor passa ou não”. O desfecho deve ser avaliado pela frequência das crises, número de dias de cefaleia, incapacidade funcional, cronificação, uso de medicação aguda, efeitos adversos e resposta ao tratamento. Na migrânea, existem ainda complicações específicas reconhecidas pela classificação; na cefaleia do tipo tensional, a principal evolução desfavorável é a cronificação; na cefaleia em salvas, o padrão episódico ou crônico modifica fortemente a carga da doença. Nas cefaleias secundárias, o prognóstico é determinado sobretudo pela doença causal. [1,2,4,5,9,10] 13.1 Complicação, cronificação e incapacidade: conceitos que não são sinônimos Conceito O que significa Por que importa Complicação Evento específico reconhecido além do curso habitual da síndrome. Na migrânea inclui estado migranoso, aura persistente sem infarto, infarto migranoso e crise epiléptica associada. Cronificação Aumento sustentado da frequência da cefaleia ao longo de meses. Transforma uma doença episódica em alta carga de dias com dor e aumenta necessidade de prevenção. Incapacidade Limitação funcional produzida pela cefaleia e sintomas associados. Pode ser alta mesmo sem complicação neurológica estrutural. Uso excessivo de medicação Exposição frequente a fármacos sintomáticos capaz de perpetuar cefaleia em suscetíveis. Pode coexistir com migrânea ou CTT e dificultar controle. Prognóstico Evolução esperada da frequência, incapacidade, resposta e recorrência. É multidimensional e deve ser reavaliado ao longo do seguimento. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Goldman-Cecil Medicina [2]; Queiroz et al., Tratado de Neurologia [4]. Essa distinção evita um erro comum: uma cefaleia primária pode gerar grande incapacidade sem causar lesão estrutural, enquanto uma complicação rara, como infarto migranoso, tem natureza diferente da simples cronificação. Da mesma forma, “cefaleia crônica diária” descreve frequência elevada e pode representar diagnósticos distintos. [4,10,14] 13.2 Migrânea: complicações específicas reconhecidas A classificação reproduzida nas fontes reconhece complicações próprias da migrânea. Elas não devem ser confundidas com uma crise habitual mais intensa. Quando há duração, aura ou manifestações neurológicas fora do padrão esperado, é necessário reconfirmar o diagnóstico e excluir causas secundárias apropriadas. [1,10,19] Cefaleias · Página 68 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Complicação / condição Definição resumida nas fontes Implicação clínica Estado migranoso Crise típica e debilitante com duração superior a 72 horas. A duração prolongada ultrapassa o padrão habitual e pode exigir abordagem de resgate e revisão de fatores perpetuadores. Aura persistente sem infarto Sintomas de aura persistem por período prolongado sem evidência de infarto correspondente. Exige diferenciação de evento vascular e confirmação por investigação apropriada. Infarto migranoso Infarto cerebral demonstrado em contexto definido de migrânea com aura. É raro; não se deve atribuir déficit persistente à migrânea sem neuroimagem. Crise epiléptica desencadeada por aura migranosa Crise epiléptica ocorrendo durante ou em até 1 hora após um ataque de migrânea com aura (ICHD-3 1.4.4). Entidade rara; deve ser diferenciada de aura motora e de epilepsia não relacionada. Migrânea crônica Cefaleia em alta frequência por período prolongado, em paciente com história de migrânea. Representa importante mudança de carga da doença e exige prevenção estruturada. Cefaleia por uso excessivo de medicação Cefaleia frequente associada ao uso repetido de medicações agudas em paciente suscetível. Pode perpetuar e agravar a cronificação, além de reduzir a eficácia do plano terapêutico. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]; Merritt, Tratado de Neurologia [19]. 13.2.1 Estado migranoso O estado migranoso é definido nas fontes como uma crise migranosa típica, porém debilitante, que se prolonga por mais de 72 horas. O problema central é a persistência da crise além do padrão esperado, com maior carga de náusea, hipersensibilidade sensorial, desidratação ou uso repetido de medicamentos em alguns pacientes. Antes de atribuir a duração apenas à migrânea, devem ser revistos red flags, mudança de padrão, exame neurológico e possibilidade de uso excessivo de medicação. [1,8,10] ATENÇÃO “Crise muito longa” não autoriza automaticamente o rótulo de estado migranoso. Déficit focal persistente, alteração de consciência, febre, papiledema ou cefaleia de padrão novo exigem investigação de causa secundária. [1,8] 13.2.2 Aura persistente e infarto migranoso A aura típica é totalmente reversível e apresenta padrão temporal característico. Quando um sintoma focal persiste muito além do habitual, as fontes distinguem aura persistente sem infarto de infarto migranoso. A diferença depende da presença ou ausência de lesão isquêmica correspondente. Portanto, a persistência do déficit não é um detalhe classificatório: muda a necessidade de investigação e a interpretação prognóstica. [1,10,19] Cefaleias · Página 69 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias AURA FOCAL ↓ SINTOMA PERSISTE ALÉM DO PADRÃO HABITUAL ↓ NEUROIMAGEM / INVESTIGAÇÃO APROPRIADA ↓ SEM INFARTO → AURA PERSISTENTE SEM INFARTO ↓ COM INFARTO COMPATÍVEL → INFARTO MIGRANOSO [1,10] Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Harrison (Goadsby) [1]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]. Os fatores associados à cronificação e ao uso excessivo de medicação estão no Capítulo 4; aqui interessa apenas sua consequência prognóstica. 13.3 Impacto funcional e qualidade de vida na migrânea A migrânea pode persistir por anos e produzir impacto importante sobre trabalho, estudo, atividades familiares e participação social, mesmo quando não há complicação neurológica estrutural. O capítulo epidemiológico do Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia (doravante, Tratado de Neurologia) destaca que frequência e incapacidade são dimensões distintas; instrumentos como MIDAS e escalas de qualidade de vida podem quantificar a carga e acompanhar resposta ao tratamento. [4] Um paciente pode ter poucas crises, porém altamente incapacitantes, enquanto outro apresenta muitos dias de dor de menor intensidade. Por isso, prognóstico funcional não deve ser inferido apenas pelo número de dias com cefaleia. Intensidade, duração, sintomas associados, necessidade de repouso, ausência ao trabalho e resposta terapêutica devem ser analisados em conjunto. [2,4] 13.4 Cefaleia do tipo tensional: prognóstico e cronificação A cefaleia do tipo tensional é muito prevalente e, nas formas episódicas, costuma produzir menor incapacidade individual do que a migrânea. O prognóstico desfavorável surge principalmente quando a frequência aumenta e o quadro se tornacrônico. Na cefaleia do tipo tensional (CTT) crônica, as fontes descrevem sensibilização central, limiar de dor reduzido, hiperalgesia e maior dolorimento pericraniano, achados coerentes com manutenção persistente da dor. [2,8,9] Uso excessivo de medicação pode coexistir com CTT e perpetuar cefaleia de alta frequência. Em contraste com complicações estruturais raras da migrânea, as fontes não atribuem à CTT primária dano neurológico estrutural progressivo. O desfecho é melhor avaliado pela frequência, limitação funcional, sensibilização e resposta a estratégias preventivas. [2,9] 13.5 Cefaleia em salvas e outras TACs: carga da doença e forma crônica A cefaleia em salvas é rara, mas as crises são descritas como excruciantes e produzem incapacidade intensa durante os períodos ativos. O prognóstico de carga depende principalmente do padrão episódico ou crônico, da duração dos períodos de salvas, da frequência diária de ataques e da resposta às terapias abortivas e preventivas. [1,2,5] Cefaleias · Página 70 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Aspecto Forma episódica Forma crônica / curso desfavorável Curso temporal Períodos de salvas separados por remissões de três meses ou mais. Ausência de remissões prolongadas ou remissões muito curtas conforme classificação da fonte. Carga durante período ativo Ataques repetidos, intensos e previsíveis em alguns pacientes. Carga persistente ou recorrente com necessidade de prevenção por períodos prolongados. Tratamento Abortivo rápido + prevenção durante o período ativo. Pode exigir prevenção contínua e monitoramento de segurança. Impacto Incapacidade intensa durante ataques, apesar de intervalos sem dor. Maior exposição cumulativa à dor e aos tratamentos preventivos. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Goldman-Cecil Medicina [2]; Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]. Quando são necessárias doses elevadas de verapamil, as fontes destacam risco de alterações de condução cardíaca e necessidade de monitoramento eletrocardiográfico. Em formas crônicas refratárias, estratégias de neuroestimulação são descritas, mas abordagens invasivas possuem morbidade própria e não são consideradas antes de alternativas menos invasivas. [5,19] PONTO DE ATENÇÃO Na cefaleia em salvas, prognóstico não é apenas “ter ou não dor”: importa se o paciente entra em remissão, quantos ataques ocorrem por dia, quanto tempo dura o período ativo e quanto tratamento preventivo é necessário para manter controle. [1,5] 13.6 Complicações relacionadas ao tratamento que modificam o desfecho Embora efeitos adversos não sejam complicações da cefaleia em si, eles modificam prognóstico terapêutico porque podem limitar adesão, exigir troca de estratégia ou produzir dano com uso inadequado. As fontes destacam riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular com uso frequente de AINEs; contraindicações vasculares relevantes para triptanos; cefaleia por uso excessivo de medicação; e alterações de condução com verapamil em altas doses. [1,2,19] Situação Problema descrito nas fontes Consequência prática Uso frequente de AINEs Dispepsia/irritação gastrointestinal e potenciais efeitos renais e cardiovasculares. Evitar escalada crônica sem reavaliação; balancear eficácia e segurança. Triptanos em paciente inadequado Ação serotoninérgica/vasoconstritora torna contraindicações vasculares clinicamente relevantes. Selecionar o paciente e não usar a classe como terapia universal. Uso excessivo de medicação aguda Pode favorecer cefaleia diária/quase diária em indivíduos suscetíveis. É fator de piora prognóstica e deve ser monitorado desde o início. Verapamil em salvas Pode causar lentificação da condução e bloqueio cardíaco, sobretudo em doses elevadas. Monitorar ECG e intervalo PR conforme as fontes. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Goldman-Cecil Medicina [2]; Merritt, Tratado de Neurologia [19]. Cefaleias · Página 71 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 13.7 Cefaleias secundárias: prognóstico depende da causa Nas cefaleias secundárias, não existe um prognóstico único. A dor pode acompanhar condições potencialmente reversíveis, mas também doenças vasculares, infecciosas, inflamatórias, neoplásicas ou alterações de pressão intracraniana. Por isso, o principal determinante de desfecho é reconhecer a causa no momento adequado e tratar o processo causal. [1,2,8] Red flags têm, portanto, valor prognóstico direto. Cefaleia em trovoada, papiledema, febre/meningismo, déficit focal, alteração de consciência, câncer, imunodeficiência, coagulopatia, trauma ou novo padrão após os 50 anos aumentam a probabilidade de uma causa que pode exigir investigação e intervenção urgentes. A analgesia não substitui o diagnóstico etiológico. [1,8] ALERTA CRÍTICO Em cefaleia secundária, melhora da dor após analgésico não comprova benignidade. O prognóstico depende da doença causal e do tempo até seu reconhecimento e tratamento. [1,8] Os indicadores de seguimento e de resposta terapêutica estão no Capítulo 12. 13.8 Síntese comparativa do prognóstico Síndrome Principal evolução desfavorável O que mais determina o prognóstico Migrânea Cronificação, uso excessivo de medicação e complicações específicas raras. Frequência, incapacidade, controle de crises, prevenção e presença de complicações. CTT Transição para forma crônica e sensibilização central. Frequência, fatores perpetuadores, uso de medicação e resposta preventiva. Cefaleia em salvas / TACs Forma crônica ou períodos ativos prolongados/refratários. Curso temporal, número de ataques, resposta abortiva/preventiva e tolerabilidade. Cefaleias secundárias Deterioração ou complicações da doença causal. Etiologia, gravidade, tempo para diagnóstico e tratamento específico. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 72 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias FICHA-RESUMO — CEFALEIAS Esta ficha condensa o conteúdo do LIDE na mesma sequência dos capítulos. Não acrescenta informação nova: reúne os pontos de maior valor para revisão rápida e preserva as distinções conceituais desenvolvidas ao longo do LIDE. PRINCÍPIO CENTRAL Em cefaleias, o raciocínio seguro começa por duas perguntas: o fenótipo é compatível com uma cefaleia primária reconhecível? Há algum sinal de alarme que obrigue a investigar uma causa secundária? A história clínica e o exame neurológico organizam essa decisão. [2,3,12,13] 1. Conceito e organização geral Cefaleia é dor localizada na cabeça. Nas cefaleias primárias, a própria síndrome dolorosa constitui o transtorno; nas secundárias, a cefaleia é manifestação de outra condição. Entre as primárias de maior relevância no LIDE estão migrânea, cefaleia do tipo tensional (CTT) e cefaleias trigeminoautonômicas (TACs), especialmente a cefaleia em salvas. [1–3] 2. Epidemiologia A cefaleia do tipo tensional é a primária mais prevalente; a migrânea concentra a maior carga de incapacidade e predomina em mulheres; a cefaleia em salvas é rara e mais comum em homens. As estimativas variam conforme metodologia e região. [4] 3. Etiologia Nas primárias, o substrato é uma predisposição neurobiológica da própria rede de processamento da dor. A migrânea apresenta influência genética e multifatorial; na CTT e nas TACs, os mecanismos etiológicos completos permanecem incompletamente definidos. Nas secundárias, a etiologia é a doença ou condição causal, e não apenas o mecanismo final de dor. [1,3,6] Síndrome Base etiológica resumida Não confundir Migrânea Predisposição neurobiológica com forte influência genética e interação com fatores desencadeantes. Gatilho não é a causa da doença. cefaleia do tipo tensional(CTT) Etiologia incompletamente definida; fatores periféricos e centrais participam do fenótipo. “Tensão emocional” ou contração muscular isolada não explica toda a síndrome. cefaleias trigeminoautonômicas (TACs) / salvas Mecanismo etiológico incompleto, com forte componente biológico e temporal. Álcool durante período ativo pode precipitar crise, mas não é a etiologia. Secundárias Doença causal específica. A melhora com analgésico não elimina a causa subjacente. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Carvalho & Vincent, Tratado de Neurologia [6]. 4. Fatores de risco, predisposição e desencadeantes Predisposição não é gatilho. História familiar, sexo e idade modificam a suscetibilidade; sono irregular, estresse, jejum, álcool e variação hormonal precipitam crises em quem já é suscetível. Uso excessivo de medicação cronifica e, preenchidos os critérios da ICHD-3, constitui diagnóstico próprio (MOH). [4,6,10] Cefaleias · Página 73 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 5. Classificação O eixo principal separa cefaleias primárias de secundárias. Entre as primárias: migrânea (com e sem aura; episódica e crônica), cefaleia do tipo tensional (infrequente, frequente e crônica) e cefaleias trigeminoautonômicas. Duração e frequência das crises são os principais discriminadores da classificação formal. [3,10] 6. Fisiopatologia ESTRUTURAS CRANIANAS SENSÍVEIS À DOR ↓ AFERENTES TRIGEMINAIS ↓ GÂNGLIO TRIGEMINAL ↓ COMPLEXO TRIGEMINOCERVICAL ↓ TÁLAMO + CÓRTEX ↓ PERCEPÇÃO DA CEFALEIA [2,6] Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Goldman-Cecil (Digre) [2]; Carvalho & Vincent, Tratado de Neurologia [6]. Migrânea: suscetibilidade cerebral → ativação trigeminovascular → liberação de CGRP e outros mediadores → sensibilização → dor e hipersensibilidade sensorial; na aura, a depressão alastrante cortical é o principal substrato fisiopatológico descrito. CTT: maior participação de mecanismos periféricos na forma episódica e sensibilização central/falha da inibição descendente na forma crônica. TACs: participação hipotalâmica + sistema trigeminovascular + reflexo trigeminoautonômico. [1,2,6] MECANISMO CENTRAL A migrânea não é explicada por vasodilatação isolada. O modelo das fontes é neurovascular e de processamento sensorial: trigêmeo, tronco, hipotálamo, tálamo, córtex e neuropeptídeos participam da crise. [1,2,6] Cefaleias · Página 74 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 7. Manifestações clínicas Síndrome Dor / duração típica nas fontes Achados associados de maior valor Migrânea Crises recorrentes, geralmente 4–72 h quando não tratadas ou tratadas sem eficácia; frequentemente pulsátil, moderada/intensa e agravada por atividade. Náusea/vômito, fotofobia e fonofobia; aura reversível em parte dos pacientes. CTT Pressão/aperto, frequentemente bilateral, intensidade leve a moderada; duração variável conforme subtipo. Não piora de modo típico com atividade rotineira; náusea importante e combinação foto+fonofobia favorecem migrânea. Cefaleia em salvas Dor unilateral orbitária/supraorbitária/temporal, muito intensa, em ataques relativamente curtos e repetidos. Lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão/rinorreia, ptose/miose e inquietação/agitação ipsilaterais. Cefaleia secundária Fenótipo variável. O valor está na mudança de padrão, sinais sistêmicos, neurológicos, papiledema, contexto de risco e demais red flags. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 8. Red flags • Primeira ou pior cefaleia da vida; cefaleia em trovoada ou de intensidade máxima em menos de um minuto. • Início recente ou mudança importante do padrão habitual; progressão de intensidade ou frequência. • Início após os 50 anos, especialmente quando associado a sintomas sistêmicos. • Febre, meningismo, alteração de consciência, convulsão ou exame neurológico focal/anormal. • Papiledema ou suspeita de alteração relevante da pressão intracraniana. • Câncer, imunodeficiência, coagulopatia/anticoagulação, trauma, gestação/puerpério ou contexto vascular de risco. • Dor precipitada por Valsalva, esforço ou atividade sexual quando o padrão é novo/atípico. [3,12,13] RED FLAG PRIORITÁRIO História prévia de migrânea não autoriza classificar automaticamente uma cefaleia nova como “mais uma crise”. Mudança de padrão ou trovoada deve ser investigada como possível cefaleia secundária até que a avaliação seja suficiente. [3,12,13] 9. Diagnóstico O diagnóstico das cefaleias primárias é predominantemente clínico. A anamnese deve reconstruir início, velocidade de instalação, localização, caráter, intensidade, duração, frequência, sintomas associados, desencadeantes, relação com sono, tratamentos prévios, uso de medicação aguda, história familiar e impacto funcional. O exame geral e neurológico procura sinais que afastem uma síndrome primária típica. [3,12,13] 10. Exames complementares Neuroimagem, estudo do líquido cefalorraquidiano (LCR), exames laboratoriais e avaliações específicas são solicitados conforme a hipótese de cefaleia secundária. Em cefaleia primária típica, exame Cefaleias · Página 75 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias neurológico normal e ausência de sinais de alarme, as fontes não recomendam investigação indiscriminada. [3,12,13] Pergunta clínica Método que pode responder Princípio Há hemorragia, massa ou outra alteração estrutural aguda? TC de crânio conforme contexto. Útil sobretudo em apresentações agudas/emergenciais. Há lesão estrutural não demonstrada na TC ou necessidade de maior detalhamento? RM conforme hipótese. Maior sensibilidade para diversas condições; não é exame “obrigatório” em toda cefaleia. Há suspeita de HSA com investigação inicial não diagnóstica? LCR e/ou angioimagem conforme protocolo e contexto. A sequência depende da apresentação e do exame inicial. Há papiledema / distúrbio de pressão liquórica? Neuroimagem antes da PL quando indicado + pressão de abertura/LCR. Evitar PL sem avaliar contraindicações e risco de lesão expansiva. Há suspeita de arterite de células gigantes? Marcadores inflamatórios e investigação específica. Principalmente em novo padrão após 50 anos com contexto clínico compatível. Há suspeita vascular específica? Angio-TC / angio-RM / venografia conforme hipótese. Dissecção, trombose venosa, aneurisma e outras causas exigem exame direcionado. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]; Speciali et al., Protocolo ABN/SBCe 2018 [13]. 11. Diagnóstico diferencial Migrânea e CTT separam-se por intensidade, sintomas associados e piora com esforço. Aura típica distingue-se do evento vascular pela instalação gradual e reversibilidade completa. A “cefaleia sinusal” costuma ser migrânea com sintomas autonômicos. Cefaleia em muitos dias do mês não é diagnóstico único. [1,3,11] 12. Tratamento Síndrome Tratamento da crise / fase aguda Prevenção / manejo longitudinal Migrânea Tratamento precoce com analgésico/AINE ou terapia específica conforme intensidade e contraindicações; antieméticos podem ajudar. Considerar prevenção quando frequência, incapacidade, duração ou resposta insuficiente justificarem; a escolha depende do perfil clínico. CTT Analgésico simples ou AINE nas formas episódicas, com atenção à frequência de uso. Na forma crônica, prevenção farmacológica e não farmacológica; controlar uso excessivo de abortivos. Cefaleia em salvas Oxigênio em alto fluxo e sumatriptana subcutânea são terapias de destaque nas fontes. Verapamil é preventivo de primeira linha em muitas referências;pode exigir monitoramento eletrocardiográfico e estratégias de transição. Secundárias Analgesia pode ser necessária, mas não substitui a investigação e o tratamento causal. Prognóstico e prevenção dependem da doença de base. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]; Speciali et al., Protocolo ABN/SBCe 2018 [13]. Cefaleias · Página 76 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias No tratamento da migrânea, as recomendações brasileiras anexadas reforçam a escolha por intensidade da crise, resposta prévia e contraindicações. Para prevenção, consensos da Sociedade Brasileira de Cefaleia descrevem diferentes classes farmacológicas e a necessidade de individualização. O tratamento excessivo e repetido das crises pode contribuir para cefaleia por uso excessivo de medicação. [14,15,17,18] 13. Complicações e prognóstico Migrânea pode complicar com estado migranoso, aura persistente sem infarto, infarto migranoso, crise epiléptica desencadeada por aura, cronificação e cefaleia por uso excessivo de medicação. CTT pode evoluir para padrão crônico; cefaleia em salvas pode apresentar forma crônica. Nas cefaleias secundárias, o prognóstico depende da doença causal e do tempo até o reconhecimento e tratamento adequados. [5,9,10,14] Dimensão de seguimento O que registrar Por que importa Frequência Dias de cefaleia/mês. Detecta cronificação e resposta ao tratamento. Uso de medicação aguda Dias de uso/mês e fármacos utilizados. Identifica risco de uso excessivo e falha do plano preventivo. Incapacidade Perda de trabalho/estudo, necessidade de repouso e impacto social. Frequência isolada não mede toda a carga. Fenótipo Mudança de características ou novos sintomas. Pode sinalizar causa secundária ou mudança da síndrome. Segurança Efeitos adversos e contraindicações. Pode limitar o tratamento e modificar prognóstico terapêutico. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]; Maciel Jr & Jurno, Tratado de Neurologia [9]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]. PONTO-CHAVE — RESUMO EM UMA LINHA CEFALEIA → caracterizar o padrão → procurar red flags → reconhecer a síndrome primária ou investigar causa secundária → tratar → prevenir recorrência → acompanhar função e uso de medicação. [3,12,13] Cefaleias · Página 77 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEMA Este anexo mostra como os capítulos do LIDE se encadeiam diante de um caso real. Cada etapa do raciocínio remete ao capítulo em que o assunto está desenvolvido. O PROBLEMA Beatriz, 42 anos, procura a Unidade Básica de Saúde por cefaleia recorrente há cerca de um ano, quase diária, em pressão frontal, com piora ao final do dia. Nas últimas semanas percebeu aumento da intensidade das crises, sensação de peso ocular, leve tontura e um episódio de visão turva transitória. Relata que uma das crises surgiu de forma súbita, com forte intensidade, despertando-a durante a noite. Nega febre, vômitos persistentes, perda de força ou alteração da fala. O exame físico inicial não revela déficits neurológicos evidentes. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Revisar sinais e sintomas de alarme nas cefaleias. • Discutir as principais cefaleias primárias. • Conhecer as bases do tratamento das principais cefaleias primárias. • Discutir quando e como investigar as cefaleias. 1. Reconhecer o fenótipo — Capítulo 7 Dor bilateral, em pressão, frontal, de intensidade leve a moderada e com piora ao final do dia corresponde ao fenótipo da cefaleia do tipo tensional. A frequência quase diária por cerca de um ano coloca o quadro no território da cefaleia crônica. O fenótipo, porém, é apenas o primeiro filtro: aqui ele descreve o padrão de base, não o que mudou nas últimas semanas. [1,9] 2. Completar a caracterização — Capítulo 5 Cefaleia em 15 ou mais dias por mês por mais de três meses caracteriza cronicidade. Para separar cefaleia do tipo tensional crônica de migrânea crônica é preciso saber se houve pelo menos cinco crises migranosas prévias e se há 8 ou mais dias por mês com características migranosas. Falta ainda um dado decisivo: quantos dias por mês Beatriz usa analgésico. Uso regular por mais de três meses — 15 ou mais dias com analgésico simples, ou 10 ou mais com triptano, opioide, ergotamínico ou combinação — configura cefaleia por uso excessivo de medicação, diagnóstico próprio que pode coexistir com o primário. [9,25] 3. Entender por que a dor tem esse padrão — Capítulo 6 Na cefaleia do tipo tensional crônica, a aferência nociceptiva repetida dos tecidos miofasciais pericranianos favorece sensibilização de neurônios de segunda ordem e redução da inibição descendente. Esse mecanismo explica por que a dor se torna quase diária e passa a depender menos de gatilhos identificáveis. Ele não explica, entretanto, sintoma visual transitório nem crise de instalação súbita. [6,9,21] 4. Procurar sinais de alarme antes de chamar o quadro de primário — Capítulo 8 Este é o ponto de virada do caso. Três elementos são red flags: mudança substancial de um padrão previamente estável, com aumento de intensidade; sintoma visual transitório associado a peso ocular; e uma crise de instalação súbita e forte que despertou a paciente. Exame neurológico sem déficits não afasta causa secundária. A fundoscopia é obrigatória: papiledema muda a conduta imediatamente. [3,12,30] 5. Decidir se e como investigar — Capítulo 10 Com red flags presentes, a investigação deixa de ser opcional. A crise súbita exige considerar hemorragia subaracnóidea: tomografia sem contraste, cujo valor negativo depende da janela de até 6 horas em paciente neurologicamente intacto; fora dessa janela, prossegue-se com líquor e estratégia vascular. O conjunto peso ocular, visão turva e cefaleia progressiva em mulher em idade fértil obriga a Cefaleias · Página 78 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias avaliar pressão intracraniana e drenagem venosa — ressonância com venografia e, conforme o achado, punção lombar com pressão de abertura. [3,12,26] 6. Separar dos diferenciais que competem — Capítulo 11 Competem aqui: hipertensão intracraniana idiopática, que combina cefaleia progressiva, obscurecimentos visuais e papiledema; trombose venosa cerebral, que pode se apresentar com cefaleia progressiva e sintomas visuais; cefaleia por uso excessivo de medicação, sugerida pela frequência quase diária; processo expansivo intracraniano; e hemorragia subaracnóidea sentinela, levantada pela crise súbita isolada. A cefaleia do tipo tensional crônica permanece hipótese apenas para o padrão de base. [3,11,12] 7. Tratar pelo diagnóstico, não pelo sintoma — Capítulo 12 Neste caso, prescrever analgésico antes de investigar seria o erro central: pode aliviar a dor sem alterar o curso de uma causa secundária e ainda agravar um possível uso excessivo de medicação. Se a investigação afastar causa estrutural e confirmar cefaleia do tipo tensional crônica, o eixo do tratamento é preventivo — amitriptilina é a opção mais descrita — associado à retirada orientada dos sintomáticos quando houver uso excessivo. [9,15,25] Alívio com analgésico comum não confirma natureza primária. Assim como a resposta ao oxigênio não fecha o diagnóstico de cefaleia em salvas, a melhora com sintomático não exclui causa secundária: resposta terapêutica é compatibilidade, não prova. 8. Pensar em carga da doença e seguimento — Capítulo 13 Definido o diagnóstico, o cuidado continua. Número de dias de dor por mês, número de dias com uso de medicação, impacto funcional e resposta ao preventivo definem o prognóstico. O diário de cefaleia é o instrumento que sustenta essa avaliação e permite reconhecer precocemente nova mudança de padrão. [9,24] NÃO CONFUNDIRCefaleia quase diária não é, por si só, um diagnóstico: descreve frequência, não etiologia. E exame neurológico sem déficits focais não afasta causa secundária — papiledema, sintoma visual transitório e mudança de padrão podem ocorrer com força e fala preservadas. PONTO-CHAVE — RACIOCÍNIO EM UMA LINHA O padrão de base de Beatriz é compatível com cefaleia do tipo tensional crônica, mas a mudança recente — aumento de intensidade, peso ocular, visão turva transitória e uma crise súbita noturna — desloca o caso para investigação de causa secundária antes de qualquer rótulo primário, com fundoscopia obrigatória e neuroimagem dirigida à hipótese. [3,12,25,26] Cefaleias · Página 79 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias GLOSSÁRIO DE TERMOS ESSENCIAIS Lista alfabética única dos termos e das siglas recorrentes no LIDE. As definições são sintéticas; o desenvolvimento permanece no capítulo correspondente. • Abortivo / tratamento agudo — Intervenção usada para interromper ou reduzir a intensidade de uma crise em curso. • AINE — Anti-inflamatório não esteroidal. • Alodinia — Dor produzida por estímulo normalmente não doloroso; pode refletir sensibilização do sistema nociceptivo. • Antinocicepção — Conjunto de mecanismos neurais que inibem ou modulam a transmissão dolorosa. • Aura — Sintoma neurológico focal transitório e geralmente reversível, que pode preceder ou acompanhar a migrânea; visual, sensitivo, de linguagem ou, em formas específicas, motor. • Aura típica — Aura com evolução gradual, reversibilidade e duração limitada, compatível com o padrão reconhecido para migrânea. • Cefaleia — Dor localizada na cabeça; o significado diagnóstico depende do padrão clínico e do contexto. • Cefaleia crônica — Cefaleia presente em alta frequência por período prolongado; o diagnóstico específico depende da síndrome de base. • Cefaleia em salvas — TAC com crises muito intensas, estritamente unilaterais, orbitárias/supraorbitárias/temporais, com sinais autonômicos ipsilaterais e/ou inquietação. • Cefaleia em trovoada — Cefaleia que atinge intensidade máxima muito rapidamente, tipicamente em menos de um minuto; é red flag. • Cefaleia por uso excessivo de medicação — Cefaleia relacionada ao uso frequente de fármacos agudos em paciente predisposto; central no contexto de cronificação. • Cefaleia primária — Síndrome em que a própria cefaleia constitui o transtorno, sem doença exógena que explique a dor. • Cefaleia secundária — Cefaleia causada por outra condição; mecanismo e prognóstico dependem da doença subjacente. • CGRP — Peptídeo relacionado ao gene da calcitonina; neuropeptídeo central na via trigeminovascular. • Complexo trigeminocervical — Integração funcional entre o núcleo espinal do trigêmeo e aferências cervicais superiores no processamento da nocicepção craniana. • Congestão nasal — Sensação de obstrução nasal ipsilateral que pode acompanhar crises de TACs. • CTT — Cefaleia do tipo tensional. • Depressão alastrante cortical — Onda de despolarização neuronal e glial seguida de redução da atividade cortical; substrato fisiopatológico da aura migranosa. • Excitabilidade neuronal — Propensão das redes neurais a responder a estímulos; integra os modelos de suscetibilidade à migrânea. • Fenótipo da cefaleia — Conjunto de características da dor e sintomas associados: localização, qualidade, intensidade, duração, frequência, gatilhos e manifestações acompanhantes. • Hiperemia conjuntival — Vermelhidão ocular ipsilateral decorrente de ativação autonômica craniana. • HSA — Hemorragia subaracnóidea. • Inflamação neurogênica — Resposta associada à liberação de neuropeptídeos pelas terminações sensitivas; componente da ativação trigeminovascular. • Inquietação / agitação — Comportamento característico na cefaleia em salvas: o paciente frequentemente não consegue permanecer deitado durante a dor. • Lacrimejamento — Lágrimas ipsilaterais à dor; achado típico de ativação parassimpática craniana. • LCR — Líquido cefalorraquidiano. • Miose — Redução do diâmetro pupilar; pode acompanhar crises de cefaleias trigeminoautonômicas. • Nocicepção — Detecção, transmissão e processamento neural de estímulos capazes de produzir dor. • Oxigênio a 100% — Terapia abortiva de destaque na cefaleia em salvas, em alto fluxo e com sistema apropriado. • PACAP-38 — Peptídeo ativador da adenilato ciclase hipofisária-38. Cefaleias · Página 80 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias • Papiledema — Edema de disco óptico associado a aumento da pressão intracraniana; sua presença modifica a investigação. • Período de salvas — Intervalo de semanas ou meses em que as crises se repetem regularmente, separado por remissões na forma episódica. • Preventivo — Tratamento destinado a reduzir frequência, intensidade ou impacto das crises ao longo do tempo. • Ptose — Queda parcial da pálpebra superior; pode integrar o conjunto autonômico ipsilateral. • Red flag — Achado da história ou do exame que aumenta a suspeita de cefaleia secundária e muda a rota diagnóstica. • Reflexo trigeminoautonômico — Integração entre aferência trigeminal e eferência parassimpática craniana; origem dos sinais autonômicos das TACs. • Rinorreia — Secreção nasal ipsilateral que pode ocorrer durante crises de TACs. • RM — Ressonância magnética. • Sensibilização central — Aumento persistente da responsividade das vias centrais de dor; relevante na migrânea e especialmente na CTT crônica. • Sistema trigeminovascular — Rede de aferentes trigeminais que inervam meninges e vasos intracranianos; central na dor da migrânea e das cefaleias trigeminoautonômicas (TACs). • SNC — Sistema nervoso central. • Sumatriptana — Triptano cuja via subcutânea tem ação rápida; opção abortiva na cefaleia em salvas. • TACs — Cefaleias trigeminoautonômicas. • TC — Tomografia computadorizada. • Tratamento transicional — Estratégia temporária usada no início de um período de salvas, enquanto o preventivo de manutenção atinge efeito. • Triptanos — Agonistas serotoninérgicos usados no tratamento agudo da migrânea e, em formulações de ação rápida, na cefaleia em salvas. • Verapamil — Bloqueador de canal de cálcio usado como preventivo de referência na cefaleia em salvas; pode exigir monitoramento eletrocardiográfico. Cefaleias · Página 81 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias MAPA DE REVISÃO Revisão de 2 a 3 minutos. Formato ultracondensado; o desenvolvimento está nos capítulos e na Ficha-Resumo. → Definição: primária = a cefaleia constitui o transtorno; secundária = a dor é consequência de outra condição. → Epidemiologia: migrânea e CTT são frequentes e de grande impacto funcional; salvas é menos prevalente, porém extremamente incapacitante. → Etiologia: nas primárias não há causa estrutural única, e sim suscetibilidade biológica; nas secundárias, a etiologia é a doença subjacente. → Fatores e gatilhos: sono, estresse, jejum, álcool e fatores hormonais precipitam crises em predispostos; gatilho não é etiologia. → Classificação: primeiro primária × secundária; dentro das primárias, migrânea, CTT, TACs e outras cefaleias primárias. → Fisiopatologia: migrânea = trigeminovascular + CGRP + sensibilização, aura por depressão alastrante cortical; CTT crônica = sensibilização central; TACs = trigêmeo + reflexo autonômico + hipotálamo. → Clínica: caracterizar localização, qualidade, intensidade, duração, frequência, sintomas associados, comportamento na crise e padrão temporal. → Red flags: trovoada, déficit neurológico ou alteração de consciência, febre/meningismo, papiledema, doença sistêmica/imunossupressão, trauma e mudança importante do padrão. → Diagnóstico: predominantemente clínico nas primárias típicas; a anamnese é o instrumento de maior rendimento. → Exames: nada de bateria indiscriminada: o exame deve responder à hipótese clínicae às red flags. → Diferenciais: comparar fenótipo e tempo — migrânea × CTT × salvas/TACs — e excluir causas secundárias quando o contexto muda. → Tratamento: crise = terapia adequada ao fenótipo e à rapidez necessária; prevenção = individualizar por frequência, incapacidade e segurança; secundária = tratar a causa. → Complicações e prognóstico: cronificação, uso excessivo de medicação e incapacidade alteram o desfecho; nas secundárias, pesa o tempo até reconhecer e tratar a doença causal. DOR DE CABEÇA ↓ FENÓTIPO + CRONOLOGIA ↓ RED FLAGS? ↓ NÃO → CLASSIFICAR A CEFALEIA PRIMÁRIA ↓ SIM → INVESTIGAR CAUSA SECUNDÁRIA ↓ TRATAR A CRISE / A CAUSA ↓ PREVENIR CRONIFICAÇÃO E USO EXCESSIVO ↓ REAVALIAR PADRÃO, FUNÇÃO E SEGURANÇA [1,3,12,13] Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Fortini & Londero, Tratado de Neurologia [12]. Cefaleias · Página 82 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias ANEXO — QUESTÕES Assinale a alternativa correta em cada questão. As questões foram construídas em formato clínico- contextual, com uma única melhor resposta. O gabarito encontra-se na seção seguinte. Questão 1 Mulher de 43 anos relata cefaleia bilateral em pressão em 24 dias por mês há mais de um ano. A intensidade costuma ser leve a moderada, sem vômitos. Ao exame, há dolorimento pericraniano e limiar reduzido para estímulos mecânicos também em regiões extracefálicas. Não há aumento consistente de atividade eletromiográfica da musculatura pericraniana. Qual interpretação melhor relaciona os achados periféricos e centrais dessa paciente? (A) A aferência nociceptiva repetida contribui para sensibilização central e redução da inibição descendente, o que explica hiperalgesia extracefálica. (B) O dolorimento muscular à palpação indica que contração sustentada e isquemia da musculatura pericraniana constituem a causa primária e suficiente do quadro. (C) A hipersensibilidade extracefálica sinaliza transformação da cefaleia do tipo tensional em migrânea crônica, com mudança de categoria diagnóstica. (D) O quadro decorre de inflamação miofascial persistente; com exame neurológico normal, mecanismos centrais têm pouca relevância clínica. Questão 2 Mulher de 36 anos, com história de migrânea episódica desde a adolescência, passou a apresentar cefaleia em 18 dias por mês durante os últimos cinco meses. Em pelo menos 8 desses dias, apresenta náusea, fotofobia e piora com atividade física; nos demais, a dor é menos típica. Usa medicação sintomática em muitos dias do mês. Qual princípio de classificação deve orientar a interpretação desse quadro? (A) A mudança de qualidade da dor em parte dos dias afasta o diagnóstico de migrânea e leva à reclassificação como cefaleia do tipo tensional crônica. (B) O uso frequente de sintomáticos converte o quadro em etiologia secundária única, substituindo o diagnóstico primário previamente estabelecido. (C) Com pelo menos 8 dias de características migranosas, caracteriza-se migrânea crônica; o uso excessivo de medicação pode coexistir como diagnóstico. (D) Cefaleia crônica constitui categoria etiológica independente; migrânea e cefaleia do tipo tensional deixam de ser aplicáveis após três meses. Questão 3 Homem de 34 anos apresenta múltiplas crises diárias de dor orbitária unilateral muito intensa, de curta duração, acompanhadas de lacrimejamento e congestão nasal ipsilateral. Os ataques são mais breves e mais frequentes do que o padrão típico de cefaleia em salvas e desaparecem de forma completa com indometacina. Considerando a classificação das cefaleias trigeminoautonômicas, qual é o diagnóstico mais compatível? (A) Cefaleia em salvas crônica, pois a apresentação autonômica unilateral diária corresponde ao padrão dessa síndrome. (B) Hemicrania paroxística: crises mais curtas e frequentes, com resposta absoluta a doses terapêuticas de indometacina. (C) SUNCT, cujos ataques neuralgiformes breves respondem à indometacina como critério definidor da síndrome. (D) Hemicrania contínua, uma vez que a dor basal persiste entre as exacerbações autonômicas nessa entidade. Cefaleias · Página 84 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Questão 4 Homem de 27 anos apresenta pela primeira vez um período de crises de dor orbitária estritamente unilateral, com 60 a 90 minutos de duração, lacrimejamento, hiperemia conjuntival e inquietação. O exame neurológico entre as crises é normal e o fenótipo é fortemente compatível com cefaleia em salvas. Após controlar a dor aguda, qual estratégia de investigação é mais adequada? (A) Não solicitar exames de imagem, pois o fenótipo autonômico típico confirma cefaleia primária e afasta doença estrutural subjacente. (B) Solicitar eletroencefalograma de rotina para documentar a atividade hipotalâmica característica da cefaleia em salvas. (C) Realizar radiografia de seios da face, já que os sintomas autonômicos apontam sinusopatia como principal causa secundária. (D) Realizar ressonância magnética de encéfalo para excluir mimetizadores estruturais, com atenção à região selar. Questão 5 Menino de 13 anos passa a apresentar cefaleia occipital explosiva desencadeada exclusivamente por tosse e outras manobras de Valsalva, com duração inferior a um minuto. O exame neurológico é normal e não há história prévia de cefaleia semelhante. Qual é a conduta conceitualmente mais adequada diante desse padrão? (A) Classificar de imediato como cefaleia primária da tosse e tratar de forma empírica, pois o exame neurológico normal afasta causas estruturais. (B) Considerar migrânea sem aura, pois a manobra de Valsalva funciona como gatilho inespecífico e não altera a necessidade de investigação. (C) Tratar como potencialmente sintomático até excluir causa estrutural, com neuroimagem dirigida à fossa posterior e à junção craniocervical. (D) Solicitar eletroencefalograma, uma vez que episódios precipitados por Valsalva correspondem com maior frequência a manifestações epilépticas. GABARITO Respostas conferidas quanto à correspondência entre a alternativa correta e o conteúdo de referência. Questão — Resposta Questão — Resposta Questão — Resposta Questão — Resposta Questão — Resposta 1 — A 2 — C 3 — B 4 — D 5 — C Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 85 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARES Reúne os vídeos indicados ao longo do LIDE, com o ponto do texto que cada um complementa. Os títulos e os endereços são clicáveis. 1. Cefaleias Primárias × Secundárias: Enxaqueca, Tensional, Salvas e Red Flags Complementa Definição inicial, Capítulos 5 e 8. Compara cefaleias primárias e secundárias e revisa cefaleia do tipo tensional, enxaqueca e cefaleia em salvas; aborda ainda os sinais de alarme e a cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Funciona como visão panorâmica antes do estudo detalhado. Assista em: https://youtu.be/jHok_WFyijM?si=cstpbLGxjejwiSzV 2. Cefaleias: abordagem prática para médicos internistas Complementa Capítulos 8, 9 e 10. Avaliação prática do paciente com cefaleia e identificação das situações que exigem investigação de causa secundária; utiliza o SNNOOP10 para organizar os sinais de alarme. Assista em: https://youtu.be/Kd7e0_oIseY?si=6dPPWj-3Uxlm_lje 3. Migraine: Physiology, Pathology, Clinical Manifestations, Diagnosis and Treatment Complementa Capítulos 6, 7 e 12. Integra fisiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico e tratamento da migrânea em uma única sequência visual. Constrói a visão global antes do aprofundamento em sistema trigeminovascular, sensibilização e aura. Assista em: https://youtu.be/DMhKBUgizO8?si=rZJukozLDZX4eu9L 4. Aprenda os sinais dealarme na Cefaleia! [MNEMÔNICO FÁCIL DE LEMBRAR] Complementa Capítulos 8 e 9. Organiza por mnemônico os achados que aumentam a suspeita de cefaleia secundária, como mudança de padrão, cefaleia nova e progressão dos sintomas. Assista em: https://youtu.be/5ks6mzHDTg0?si=GPWv1pWiKFj5W6aU 5. A Melhor Conduta para Cefaleia na Emergência Complementa Capítulos 9 e 10. Caso clínico de cefaleia intensa com náuseas e vômitos; integra caracterização da dor, sinais de alarme, exame clínico, decisão sobre exames complementares e conduta inicial. Assista em: https://www.youtube.com/live/EanP4Tlf-KA?si=hmTsbp7a1dzI0yi2 6. Sistema Trigeminovascular e Fisiopatologia da Enxaqueca Complementa Capítulo 6, Seção 6.2. Mostra vasos meníngeos, fibras trigeminais, gânglio trigeminal, tronco encefálico, tálamo e córtex no processamento da nocicepção. A animação parte da vasodilatação meníngea; a compreensão contemporânea não reduz a migrânea a esse fenômeno. Assista em: https://youtu.be/_QM0ZzIvBDE?si=m_kj0md9N8hPLT60 7. Animated Video Illustrating the Pathophysiology of Migraine Complementa Capítulo 6, Seção 6.2.4. Apresenta de maneira integrada a ativação trigeminovascular, as estruturas meníngeas sensíveis à dor, a transmissão nociceptiva ao sistema nervoso central e a liberação de mediadores. Assista em: https://youtu.be/YVzxLbtkBvs?si=Jxya1mpxdckXzahj Cefaleias · Página 86 https://youtu.be/jHok_WFyijM?si=cstpbLGxjejwiSzV https://youtu.be/YVzxLbtkBvs?si=Jxya1mpxdckXzahj https://youtu.be/_QM0ZzIvBDE?si=m_kj0md9N8hPLT60 https://www.youtube.com/live/EanP4Tlf-KA?si=hmTsbp7a1dzI0yi2 https://youtu.be/5ks6mzHDTg0?si=GPWv1pWiKFj5W6aU https://youtu.be/DMhKBUgizO8?si=rZJukozLDZX4eu9L https://youtu.be/Kd7e0_oIseY?si=6dPPWj-3Uxlm_lje https://youtu.be/YVzxLbtkBvs?si=Jxya1mpxdckXzahj https://youtu.be/_QM0ZzIvBDE?si=m_kj0md9N8hPLT60 https://www.youtube.com/live/EanP4Tlf-KA?si=hmTsbp7a1dzI0yi2 https://youtu.be/5ks6mzHDTg0?si=GPWv1pWiKFj5W6aU https://youtu.be/DMhKBUgizO8?si=rZJukozLDZX4eu9L https://youtu.be/Kd7e0_oIseY?si=6dPPWj-3Uxlm_lje https://youtu.be/jHok_WFyijM?si=cstpbLGxjejwiSzV Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias REFERÊNCIAS [1] Goadsby PJ. Cefaleia. In: Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editores. Medicina Interna de Harrison. 21ª ed. Porto Alegre: Grupo A; 2024. Cap. 16. [2] Digre KB. Cefaleias e outras dores da cabeça. In: Goldman L, Schafer AI, editores. Goldman-Cecil Medicina. 26ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2022. 2 v. Cap. 370. [3] Barea LM, Souza JA. Semiologia e investigação complementar das cefaleias. In: Gagliardi RJ, Takayanagui OM, organizadores. Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2019. Cap. 7. [4] Queiroz LP, Campos HC, Fragoso YD. Epidemiologia e impacto das cefaleias primárias. In: Gagliardi RJ, Takayanagui OM, organizadores. Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2019. Cap. 6. [5] Nobre ME, Peres MFP. Cefaleias trigeminoautonômicas. In: Gagliardi RJ, Takayanagui OM, organizadores. Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2019. [6] Carvalho JJF, Vincent MB. Fisiopatologia das cefaleias primárias. 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[20] Goadsby PJ, Raskin NH. Cefaleia. In: Hauser SL, Josephson SA, organizadores. Neurologia clínica de Harrison. 3ª ed. Porto Alegre: AMGH; 2015. Cap. 16. (Conteúdo derivado do Medicina Interna de Harrison, 18ª ed.; obra distinta da citada em [1].) [21] Bendtsen L. Central sensitization in tension-type headache — possible pathophysiological mechanisms. Cephalalgia. 2000;20(5):486-508. [22] Frimpong-Manson K, Ortiz YT, McMahon LR, Wilkerson JL. Advances in understanding migraine pathophysiology: a bench to bedside review of research insights and therapeutics. Front Mol Neurosci. 2024;17:1355281. doi:10.3389/fnmol.2024.1355281 [23] Biscetti L, Cresta E, Cupini LM, Calabresi P, Sarchielli P. The putative role of neuroinflammation in the complex pathophysiology of migraine: from bench to bedside. Neurobiol Dis. 2023;180:106072. doi:10.1016/j.nbd.2023.106072 [24] Sacco S, Ashina M, Diener HC, et al. 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Cefaleias · Página 88 https://doi.org/10.3389/fnmol.2024.1355281 https://www.dynamed.com/ https://doi.org/10.1111/head.14692 https://doi.org/10.1111/ene.15956 https://doi.org/10.1161/STR.0000000000000436 https://doi.org/10.1177/0333102417738202 https://doi.org/10.1177/03331024251320608 https://doi.org/10.1016/j.nbd.2023.106072sensível e mecanismos miofasciais podem participar do desencadeamento, sobretudo nas formas episódicas, porém estudos citados não sustentam que contração muscular, isquemia ou inflamação periférica expliquem isoladamente o transtorno. [2,6,9] Alguns estudos citados nos materiais de apoio descrevem agregação familiar na CTT crônica, com risco maior entre parentes próximos, reforçando a possibilidade de predisposição genética. Ainda assim, a literatura apresentada não define um gene ou padrão de herança simples para a CTT comum. [8] ARMADILHA CONCEITUAL Estresse pode precipitar CTT, e dolorimento pericraniano pode acompanhá-la, mas nenhum dos dois deve ser apresentado como “a causa” da doença. O papel exato de fatores emocionais, postura, disfunções oromandibulares e alterações miofasciais permanece variável e incompletamente estabelecido. [8,9] Cefaleias · Página 10 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 3.4 Cefaleia em salvas e outras cefaleias trigeminoautonômicas A etiologia da cefaleia em salvas também não está completamente definida. As fontes descrevem possível predisposição genética, participação hipotalâmica e ativação dos sistemas trigeminovascular e autonômico craniano. Estudos de imagem mostram ativação hipotalâmica durante as crises, e a marcada periodicidade circadiana e sazonal sustenta a participação de mecanismos centrais relacionados ao relógio biológico. Entretanto, esses achados não definem uma causa única nem explicam todos os aspectos da síndrome. [2,5,6] 3.5 Outras cefaleias primárias: o estímulo pode definir o fenótipo sem ser uma causa secundária A classificação inclui outras cefaleias primárias relacionadas a situações como tosse, exercício, atividade sexual, estímulo frio ou compressão externa. Nessas síndromes, o evento desencadeante pode fazer parte da definição clínica, mas o rótulo de “primária” pressupõe ausência de causa subjacente que explique melhor o quadro. Por isso, uma cefaleia nova precipitada por tosse, esforço ou atividade sexual não deve ser automaticamente classificada como primária antes da avaliação de causas secundárias potencialmente relevantes. [3] Figura 7 — Etiologias das cefaleias primárias: visão etiológica comparativa. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 3.6 Cefaleias secundárias: grandes grupos etiológicos Nas cefaleias secundárias, a doença causal é parte do diagnóstico. A Classificação Internacional das Cefaleias organiza esses quadros por grandes grupos etiológicos. A tabela abaixo preserva essa lógica e acrescenta apenas o mecanismo geral de geração da dor, sem substituir a investigação específica de cada doença. [1,3] Cefaleias · Página 11 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Quadro — Grandes grupos etiológicos das cefaleias secundárias, na organização da Classificação Internacional das Cefaleias reproduzida no Tratado de Neurologia. Categoria etiológica Exemplos dentro das fontes Como a causa pode gerar dor Trauma craniano e/ou cervical Cefaleia pós-traumática; lesões cervicais ou cranianas. Lesão tecidual, inflamação, alteração musculoesquelética ou ativação de aferências nociceptivas após o trauma. Doença vascular craniana/cervical Hemorragia subaracnóidea, hemorragia intracraniana, dissecção arterial, trombose venosa e outras vasculopatias. Sangramento, distensão vascular, inflamação, isquemia ou tração de estruturas sensíveis à dor. Doença intracraniana não vascular Neoplasias, alterações de pressão intracraniana ou liquórica, malformações selecionadas. Compressão, tração, distorção de estruturas, mudança pressórica ou inflamação associada. Substância ou retirada de substância Uso excessivo de medicação sintomática; drogas vasoativas; abstinência de substâncias. Modificação farmacológica das vias de dor, alterações vasculares/metabólicas e, no uso excessivo, manutenção da cefaleia. Infecção Meningite, encefalite e infecções sistêmicas selecionadas. Inflamação meníngea ou sistêmica e ativação de estruturas cranianas sensíveis. Distúrbio da homeostase Alterações sistêmicas/metabólicas reconhecidas na classificação. Mudança do meio interno capaz de ativar vias nociceptivas; o mecanismo específico depende da condição. Crânio, pescoço, olhos, ouvidos, nariz, seios, dentes, boca ou outras estruturas faciais/cervicais Glaucoma, doenças odontológicas, sinusais, articulação temporomandibular e condições cervicais, conforme o contexto. Nocicepção somática ou dor referida proveniente da estrutura acometida. Distúrbio psiquiátrico Categoria reconhecida pela classificação; exige relação diagnóstica específica. Não deve ser presumida apenas diante de ansiedade ou humor alterado; requer critérios próprios e exclusão adequada de outras causas. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Harrison (Goadsby) [1]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]. PONTO-CHAVE Nas cefaleias secundárias não existe uma única etiologia nem uma única cascata molecular. O elo comum é que uma condição subjacente fornece o estímulo capaz de ativar as vias nociceptivas cranianas. O diagnóstico correto depende de reconhecer a relação entre a dor e o processo causal. [1,3] Cefaleias · Página 12 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 4 — FATORES DE RISCO, PREDISPOSIÇÃO E DESENCADEANTES Este capítulo separa quatro conceitos que frequentemente são misturados: predisposição para desenvolver uma síndrome, fatores que precipitam uma crise, fatores associados à cronificação e contextos que aumentam a probabilidade de uma cefaleia secundária. Essa separação é essencial porque um gatilho pode iniciar uma crise sem ser a causa da doença, e uma associação epidemiológica não deve ser tratada como causalidade comprovada. [2–4] 4.1 Como interpretar os fatores associados à cefaleia Conceito O que significa Exemplo clínico Predisposição Característica associada à maior probabilidade de apresentar a síndrome ao longo da vida. História familiar de migrânea; suscetibilidade genética. Desencadeante / precipitante Exposição que pode facilitar uma crise em um indivíduo já suscetível. Privação do sono ou jejum em migrânea; álcool durante o período de salvas. Fator de cronificação Característica associada à transformação para cefaleia muito frequente ou crônica. Cefaleia frequente e uso excessivo de medicação sintomática. Contexto de risco para secundária Condição que aumenta a necessidade de procurar uma causa subjacente. Cefaleia nova após os 50 anos, câncer/imunodeficiência, gestação/puerpério ou anticoagulação; desenvolvidos no capítulo de Red Flags. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Queiroz et al., Tratado de Neurologia [4]. REGRA PRÁTICA Pergunte separadamente: “Quem tem maior suscetibilidade?”, “O que costuma precipitar a crise deste paciente?” e “O que pode estar favorecendo cronificação?”. Misturar essas perguntas produz listas de fatores pouco úteis e pode levar a restrições desnecessárias. [2,3] 4.2 Predisposição não modificável 4.2.1 História familiar e genética A história familiar é o marcador de predisposição mais consistente para migrânea nas referências deste LIDE. Como descrito no capítulo etiológico, ter parente de primeiro grau afetado aumenta o risco relativo, especialmente na migrânea com aura. Estudos populacionais e com gêmeos reunidos no Tratado também sustentam contribuição hereditária na CTT e na cefaleia em salvas, embora com força e mecanismos menos definidos. [4–6,9] 4.2.2 Sexo e idade modificam a expressão das síndromes A migrânea torna-se mais frequente em mulheres após a puberdade e mantém maior prevalência durante grande parte da vida adulta. O Goldman-Cecil descreve pico entreaproximadamente 25 e 55 anos. A cefaleia do tipo tensional (CTT) é mais equilibrada entre os sexos nas formas episódicas, mas a forma crônica é mais frequente em mulheres nas séries reunidas pelo Tratado. A cefaleia em salvas permanece mais frequente em homens, embora a diferença entre os sexos relatada historicamente tenha diminuído em estudos mais recentes. [2,4,5,9] Cefaleias · Página 13 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias PONTO DE ATENÇÃO Sexo e idade são moduladores epidemiológicos da probabilidade e da expressão clínica; não são “causas” isoladas da cefaleia. Uma cefaleia nova em faixa etária atípica deve ser interpretada dentro do diagnóstico diferencial e dos sinais de alarme. [3,4] 4.3 Migrânea: desencadeantes e moduladores do limiar de crise Os desencadeantes da migrânea são heterogêneos e variam muito entre pacientes. As referências deste LIDE citam estresse emocional, alterações do sono, privação de sono, fadiga, jejum ou irregularidade alimentar, estímulos luminosos e outros estímulos sensoriais, alguns alimentos, medicamentos ou substâncias, além de variações hormonais. O valor clínico não está em impor uma lista universal de proibições, mas em reconhecer associações reprodutíveis no mesmo indivíduo. [6–8] Desencadeante/modulador descrito Como interpretar Cautela Sono irregular / privação do sono Pode reduzir o limiar para a crise e é um exemplo de gatilho nitidamente central. Regularidade do sono é mais útil que tentar controlar cada possível exposição. Jejum / horários irregulares de alimentação Pode precipitar crises em pessoas suscetíveis. Evitar atribuir toda cefaleia a “hipoglicemia” sem documentação clínica. Estresse e mudanças agudas no nível de estresse Frequentemente relatados como precipitantes. Associação não significa que a migrânea seja um transtorno puramente emocional. Luz intensa e outros estímulos sensoriais Podem precipitar ou agravar crises em alguns pacientes. Fotofobia durante a crise também pode fazer o paciente interpretar luz como causa quando ela é apenas agravante. Alimentos, cafeína, álcool e outras substâncias Alguns pacientes reconhecem padrões específicos; as fontes recomendam limitar excessos e individualizar restrições. Listas extensas de alimentos “proibidos” têm baixo valor quando não há relação reprodutível. Variações hormonais Menstruação/ovulação podem aumentar a frequência; o Tratado relaciona crises perimenstruais à queda de estrogênio em sistema neurovascular suscetível. É modulador de crises em parte das pacientes, não explicação universal da migrânea. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Carvalho & Vincent, Tratado de Neurologia [6]; Martins et al., Clínica Médica [8]. 4.3.1 Modulação hormonal na mulher O capítulo “Cefaleia na Mulher” do Tratado descreve aumento da prevalência de migrânea a partir da menarca/puberdade, piora perimenstrual em parte das pacientes, melhora frequente durante a gestação após o primeiro trimestre e redução após a menopausa. Para as crises perimenstruais, a obra relaciona o desencadeamento à queda dos níveis de estrogênio atuando sobre um sistema neurovascular já suscetível. Esses dados reforçam a diferença entre predisposição de base e oscilação hormonal como modulador temporal da crise. [7] 4.4 Cefaleia do tipo tensional: precipitantes e fatores associados Na CTT, estresse e alterações do sono são os precipitantes mais frequentemente reconhecidos nos capítulos de referência. Ansiedade, depressão, estresse e distúrbios do sono aparecem com Cefaleias · Página 14 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias maior frequência na CTT crônica e devem ser entendidos como comorbidades e moduladores importantes. O papel exato desses fatores na geração, exacerbação e manutenção da dor permanece, entretanto, incompletamente esclarecido. [2,8,9] Dolorimento pericraniano, pontos-gatilho miofasciais, disfunções oromandibulares e manutenção prolongada de posturas não fisiológicas podem coexistir e influenciar a aferência nociceptiva. A literatura do LIDE, porém, não demonstra que contração muscular persistente ou anormalidade periférica isolada seja a causa universal da CTT. Na forma crônica, a sensibilização central torna-se componente mais importante. [6,8,9] PREDISPOSIÇÃO INDIVIDUAL ↓ ESTRESSE / ALTERAÇÃO DO SONO / ESTÍMULOS PERIFÉRICOS EM PARTE DOS PACIENTES ↓ AUMENTO DA AFERÊNCIA NOCICEPTIVA ↓ CRISES RECORRENTES ↓ SE FREQUENTES: MAIOR PARTICIPAÇÃO DE SENSIBILIZAÇÃO CENTRAL [6,8,9] 4.5 Cefaleia em salvas: deflagradores durante o período suscetível A cefaleia em salvas possui um comportamento diferente. Os deflagradores tendem a atuar principalmente durante o período ativo de salvas. O Tratado e o Goldman-Cecil citam álcool, fármacos vasodilatadores — incluindo nitroglicerina em descrições experimentais/clínicas — e histamina. O Tratado também menciona sono, alterações comportamentais, aumento de atividade física, mental ou emocional e apneia do sono como elementos associados ao desencadeamento em parte dos pacientes. [2,5] A periodicidade diária e sazonal é uma característica intrínseca da síndrome e provavelmente reflete mecanismos hipotalâmicos; não deve ser tratada como “gatilho externo”. Da mesma forma, álcool pode precipitar uma crise durante um surto, mas não explica por que o paciente possui a doença. [2,5] 4.6 Cronificação: fatores associados à cefaleia crônica A transição de cefaleias episódicas para um padrão crônico é multifatorial. O Goldman-Cecil lista como fatores associados à cefaleia crônica: sexo feminino, migrânea, cefaleias frequentes, obesidade, menor escolaridade/nível socioeconômico, uso excessivo de medicamentos, depressão, ansiedade, episódios estressantes da vida e apneia do sono. Esses fatores têm naturezas diferentes e não devem ser interpretados como causas equivalentes; alguns refletem predisposição, outros comorbidades e outros exposições modificáveis. [2] Cefaleias · Página 15 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Fator associado à cronificação Natureza predominante Implicação clínica Cefaleia já frequente Marcador de carga da doença. Quanto maior a frequência basal, maior a necessidade de prevenção e acompanhamento de dias de cefaleia. Uso excessivo de medicação sintomática Exposição modificável e causa reconhecida de cefaleia por uso excessivo. Investigar número de dias de uso por mês e evitar escalada progressiva de abortivos. Depressão / ansiedade / eventos estressantes Comorbidades e moduladores. Tratar comorbidades e reduzir fatores perpetuadores, sem atribuir a cefaleia apenas ao componente emocional. Sono ruim, roncos / apneia do sono Distúrbio de sono associado. Pesquisar quando houver sintomas; regularidade do sono faz parte do manejo global. Obesidade Associação epidemiológica descrita. Integra avaliação de saúde global e risco de cronificação, sem equivaler a causa direta da crise. Sexo feminino / fatores socioeconômicos Marcadores não ou pouco modificáveis/contextuais. Servem para compreensão epidemiológica; não constituem alvo isolado de tratamento. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]. 4.6.1 Uso excessivo de medicação: fator perpetuador de alto valor prático O uso excessivo de medicamentos sintomáticos é destacado repetidamente nas fontes como causa comum de cefaleia diária ou quase diária e como fator de piora de migrânea e CTT. O Goldman-Cecil descreve que opioides, barbitúricos e triptanos usados em frequência elevada podem favorecer cronificação em indivíduos suscetíveis. Mais importante do que memorizar limiares isolados neste capítulo é reconhecer o princípio: todo paciente com cefaleia frequente deve informarquantos dias por mês utiliza medicação aguda. [2] CEFALEIA POR USO EXCESSIVO DE MEDICAÇÃO (MOH) — ICHD-3 8.2 · Cefaleia em ≥15 dias/mês em paciente com cefaleia prévia, com uso excessivo regular por >3 meses: analgésicos não opioides/AINEs em ≥15 dias/mês; ergotamínicos, triptanos, opioides e analgésicos combinados em ≥10 dias/mês. Não é apenas fator de cronificação: preenchidos os critérios, é diagnóstico classificatório próprio. Migrânea crônica e MOH podem coexistir e, quando ambos os critérios são preenchidos, ambos os diagnósticos devem ser registrados. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Goldman-Cecil (Digre) [2]. 4.7 Contextos que aumentam a probabilidade de cefaleia secundária Alguns fatores não aumentam a “predisposição à cefaleia primária”; aumentam a probabilidade de que uma nova cefaleia seja secundária. O capítulo de semiologia do Tratado destaca, entre outros, início recente — especialmente após os 50 anos —, câncer ou imunodeficiência, gestação/puerpério com cefaleia nova e intensa, uso de anticoagulantes/antiagregantes ou substâncias ilícitas, trauma e sintomas sistêmicos ou neurológicos associados. Esses elementos serão desenvolvidos no Capítulo 8 — Red Flags e não devem ser confundidos com gatilhos benignos de uma síndrome primária conhecida. [3] Cefaleias · Página 16 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias ATENÇÃO Um “gatilho” novo não deve tranquilizar automaticamente. Cefaleia nova desencadeada por tosse, exercício ou atividade sexual pode corresponder a uma cefaleia primária, mas as fontes recomendam investigação quando o padrão é novo, justamente porque causas secundárias podem apresentar o mesmo precipitante. [3] 4.8 Checklist clínico: como investigar predisposição, gatilhos e cronificação A anamnese ganha valor quando transforma fatores genéricos em dados mensuráveis. Em vez de perguntar apenas se o paciente “tem gatilhos”, registre os elementos abaixo de forma sistemática. Esse método permite diferenciar predisposição de precipitantes e identificar cedo os fatores associados à cronificação. [2,3,5,8] Pergunta prática O que ela esclarece Há história familiar de migrânea ou outra cefaleia primária? Predisposição hereditária e agregação familiar. Em que idade começou e como a síndrome se comporta ao longo do tempo? Adequação ao perfil epidemiológico e eventual necessidade de investigar causa secundária quando o padrão é novo ou atípico. Há relação consistente com sono, refeições/jejum, estresse, luz, álcool, cafeína ou outras exposições? Possíveis precipitantes individualmente reprodutíveis, sem transformá-los automaticamente em etiologia. Há relação temporal com menstruação ou outras variações hormonais, quando pertinente? Modulação hormonal da migrânea em parte das pacientes. Quantos dias de cefaleia e quantos dias de medicação aguda ocorrem por mês? Carga da doença, risco de cronificação e possibilidade de uso excessivo de medicação. Na cefaleia em salvas, o fator só precipita crises durante o período ativo? Ajuda a reconhecer deflagradores próprios do surto e a separar precipitante de causa. Existem câncer, imunodeficiência, gestação/puerpério, anticoagulação, trauma ou sintomas sistêmicos/neurológicos? Aumenta a necessidade de investigar cefaleia secundária e remete ao capítulo de Red Flags. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Goldman-Cecil Medicina [2]; Barea & Souza, Tratado de Neurologia [3]; Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]. Cefaleias · Página 17 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 5 — CLASSIFICAÇÃO A classificação das cefaleias organiza o diagnóstico por níveis. O eixo inicial separa cefaleias primárias, nas quais a cefaleia e suas manifestações associadas constituem o próprio transtorno, de cefaleias secundárias, nas quais a dor decorre de outra condição. Dentro das primárias, migrânea, cefaleia do tipo tensional e cefaleias trigeminoautonômicas são síndromes próprias, posteriormente subdivididas por frequência, aura, sinais autonômicos e curso clínico. [5,8–10] PRINCÍPIO CENTRAL CLASSIFICAÇÃO responde “qual síndrome e subtipo?”. ETIOLOGIA responde “qual condição a originou?”. FISIOPATOLOGIA responde “como a rede de dor é ativada e mantida?”. Misturar esses eixos gera redundância e erros conceituais. [5,9,10] 5.1 Eixo principal: cefaleia primária × secundária A divisão primária × secundária foi apresentada na Definição inicial. Aqui ela funciona apenas como primeiro nível da árvore classificatória. CLASSIFICAÇÃO EM UMA LINHA CEFALEIA → PRIMÁRIA × SECUNDÁRIA → se PRIMÁRIA: MIGRÂNEA | cefaleia do tipo tensional (CTT) | TACs | OUTRAS → aplicar modificadores de AURA, FREQUÊNCIA, SINAIS AUTONÔMICOS e CURSO. A fisiopatologia de cada grupo é desenvolvida no Capítulo 6. [5,9,10] Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]; Maciel Jr & Jurno, Tratado de Neurologia [9]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]. A divisão tem valor prático: nas cefaleias primárias, a anamnese procura um fenótipo recorrente e estável; nas secundárias, a prioridade é reconhecer a causa. Padrão temporal, mudança de comportamento da dor, exame neurológico e red flags determinam quando a hipótese secundária precisa ser investigada. [8] 5.2 Eixos complementares de classificação Quadro — Eixos complementares de classificação descritos nas referências deste LIDE. Eixo Pergunta Exemplos Etiológico principal A dor é a doença ou consequência de outra condição? Primária × secundária. Sindrômico Qual fenótipo primário predomina? Migrânea; CTT; TACs; outras primárias. Frequência Quantos dias de cefaleia/crises ocorrem? Episódica infrequente/frequente; crônica; períodos de salvas. Fenótipo neurológico Há aura ou outro fenômeno focal? Migrânea sem aura; com aura e subtipos. Fenótipo autonômico Há sintomas autonômicos cranianos ipsilaterais? Salvas, hemicrania paroxística, SUNCT/SUNA, hemicrania contínua. Padrão temporal Como começou e evolui? Aguda emergente, aguda recorrente, crônica progressiva, crônica não progressiva. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Martins et al., Clínica Médica [8]. Cefaleias · Página 18 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias NÃO CONFUNDIR “Crônica” é uma categoria de frequência/curso. Não cria uma nova etiologia: migrânea crônica continua sendo migrânea; CTT crônica continua sendo CTT; uso excessivo de medicação pode coexistir e modificar o quadro. [9,10] 5.3 Organização das cefaleias primárias CEFALEIAS PRIMÁRIAS │ ├── MIGRÂNEA │ ├── CEFALEIA DO TIPO TENSIONAL │ ├── CEFALEIAS TRIGEMINOAUTONÔMICAS │ └── OUTRAS CEFALEIAS PRIMÁRIAS [5,9,10] As “outras cefaleias primárias” incluem síndromes como cefaleia em facadas/pontadas, da tosse, do esforço físico, associada à atividade sexual, hípnica e outras. Quando uma dessas apresentações surge pela primeira vez, o rótulo “primária” só deve ser aplicado depois de excluir causas secundárias pertinentes. [8] 5.4 Migrânea: classificação geral O capítulo de migrânea do Tratado organiza a doença em migrânea sem aura, migrânea com aura, migrânea crônica, complicações da migrânea, migrânea provável e síndromes episódicas associadas. A migrânea com aura, por sua vez, é subdividida conforme o tipo de fenômeno neurológico. [10] Quadro — Classificação geral da migrânea, conforme o capítulo de migrânea do Tratado de Neurologia. Categoria Subtipos descritos Ponto-chave Migrânea sem aura Sem subgrupo obrigatório nesta tabela. Crises típicas sem aura focal. Migrânea com aura Aura típica com cefaleia; aura típica sem cefaleia; aura do tronco encefálico; migrânea hemiplégica familiar; hemiplégica esporádica; retiniana. O tipo de aura define subformas. Migrânea crônica Alta frequência de cefaleia por período prolongado.É estágio/frequência da doença, não etiologia nova. Complicações Estado migranoso; aura persistente sem infarto; infarto migranoso; crise epiléptica desencadeada por aura migranosa. Condições específicas além da crise habitual. Migrânea provável Com ou sem aura. Fenótipo próximo, mas sem todos os critérios. Síndromes episódicas associadas Vômitos cíclicos; migrânea abdominal; vertigem paroxística benigna; torcicolo paroxístico benigno. Entidades associadas no capítulo do Tratado. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]. Os critérios diagnósticos formais de migrânea sem aura e de migrânea com aura estão reunidos no Capítulo 9. Cefaleias · Página 19 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 5.5 Migrânea crônica e complicações Migrânea crônica (ICHD-3 1.3): cefaleia em 15 ou mais dias por mês por mais de três meses, em paciente que já apresentou pelo menos cinco crises de migrânea, sendo que em 8 ou mais dias por mês, por mais de três meses, a cefaleia preenche critérios de migrânea ou é aliviada por triptano/derivado do ergot. Quadro — Migrânea crônica e complicações da migrânea, conforme o Tratado de Neurologia. Entidade Definição resumida Distinção Estado migranoso Crise típica debilitante por >72 h. Complicação pela duração prolongada. Aura persistente sem infarto Aura >1 semana sem lesão isquêmica correspondente. Diferenciar de infarto migranoso. Infarto migranoso Aura prolongada + infarto demonstrado em território compatível. Exige neuroimagem positiva. Crise epiléptica desencadeada por aura migranosa Crise epiléptica ocorrendo durante ou em até 1 hora após um ataque de migrânea com aura (ICHD-3 1.4.4). Evento raro; não é simples “aura motora”. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas neste capítulo. 5.6 Cefaleia do tipo tensional: frequência + dolorimento pericraniano Na classificação reproduzida pelo Tratado, a CTT é subdividida conforme frequência em episódica infrequente, episódica frequente e crônica; cada forma pode ser descrita com ou sem dolorimento pericraniano. [9] Quadro — Subtipos da cefaleia do tipo tensional por frequência e dolorimento pericraniano, na classificação reproduzida no Tratado de Neurologia. Forma Frequência descrita Fenótipo associado Episódica infrequente ≥10 episódios, em média 3 meses (≥180 dias/ano). Pode durar horas a dias ou ser contínua; mantém caráter não pulsátil e intensidade geralmente leve/moderada. Modificador Com ou sem dolorimento pericraniano. Achado clínico adicional, não etiologia separada. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Maciel Jr & Jurno, Tratado de Neurologia [9]. 5.7 Cefaleias trigeminoautonômicas: classificação As TACs compartilham dor unilateral em território trigeminal e manifestações autonômicas cranianas. A chave de classificação entre as entidades é principalmente a duração e frequência das crises e, em algumas síndromes, uma resposta terapêutica característica. [5] Cefaleias · Página 20 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Quadro — Cefaleias trigeminoautonômicas e seus subtipos, conforme o Tratado de Neurologia. Entidade Subtipos Elemento que ajuda a separar Cefaleia em salvas Episódica; crônica. 15–180 min; dor orbitária/supraorbitária/temporal forte ou muito forte; sinais autonômicos ipsilaterais e/ou inquietação; frequência entre um ataque a cada dois dias e 8 por dia. Hemicrania paroxística Episódica; crônica. Crises de 2–30 min, mais de 5 por dia na maior parte do tempo; a resposta absoluta a doses terapêuticas de indometacina integra os critérios diagnósticos da ICHD-3. SUNCT Episódica; crônica. Ataques neuralgiformes de 1–600 s, com hiperemia conjuntival E lacrimejamento (ICHD-3 3.3.1). SUNA Episódica; crônica. Ataques neuralgiformes de 1–600 s com sintomas autonômicos cranianos, sem exigir a combinação hiperemia + lacrimejamento (ICHD-3 3.3.2). Hemicrania contínua Remitente; irremitente. Dor unilateral contínua por >3 meses com exacerbações; a resposta absoluta a doses terapêuticas de indometacina integra os critérios diagnósticos da ICHD-3. Provável TAC Provável salvas, hemicrania paroxística, SUNCT/SUNA ou hemicrania contínua. Fenótipo próximo sem todos os critérios. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Nobre & Peres, Tratado de Neurologia [5]. 5.8 Cefaleia em salvas: episódica × crônica A cefaleia em salvas é caracterizada por crises de dor unilateral orbitária, supraorbitária e/ou temporal, forte ou muito forte, durando de 15 a 180 minutos, associadas a sinais autonômicos cranianos ipsilaterais e/ou inquietação. A sazonalidade e a ritmicidade são marcantes. [5] Segundo a ICHD-3, a forma crônica é definida por crises que ocorrem por pelo menos um ano sem período de remissão ou com remissões inferiores a três meses; a forma episódica apresenta períodos de salvas separados por remissões de três meses ou mais. [5] Os padrões temporais de apresentação são desenvolvidos no Capítulo 9, junto ao raciocínio diagnóstico. Cefaleias · Página 21 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 6 — FISIOPATOLOGIA A fisiopatologia da cefaleia deve ser compreendida a partir das estruturas sensíveis à dor, das vias trigeminais que conduzem a nocicepção craniana e dos mecanismos que modulam essas vias nas diferentes síndromes. A literatura neurológica consagrada distingue cefaleias primárias, nas quais a cefaleia e suas manifestações associadas constituem o próprio distúrbio, e cefaleias secundárias, nas quais a dor decorre de uma condição subjacente. Entre as cefaleias primárias, a fisiopatologia é descrita de forma própria para migrânea, cefaleia do tipo tensional e cefaleias trigeminoautonômicas. [1,2,6] As bases anatomofuncionais da nocicepção craniana foram apresentadas no Capítulo 1. A partir delas, este capítulo explica como cada síndrome recruta ou modifica essas vias. 6.1 Como este capítulo será percorrido A fisiopatologia será apresentada segundo a organização clínica estabelecida no Capítulo 5, sem criar uma classificação fisiopatológica paralela. As bases anatomofuncionais necessárias já foram apresentadas no Capítulo 1. A partir delas, serão percorridos separadamente os mecanismos da migrânea, da cefaleia do tipo tensional e das cefaleias trigeminoautonômicas, sempre do evento inicial às alterações de processamento nociceptivo e às manifestações resultantes. Nas cefaleias secundárias, não existe uma cascata fisiopatológica única: diferentes doenças fornecem estímulos distintos que convergem para a ativação das estruturas cranianas sensíveis à dor e das vias trigeminais e centrais. 6.2 Migrânea: cérebro suscetível → ativação trigeminovascular → sensibilização 6.2.1 Fase premonitória: modulação central antes da dor Horas antes da fase dolorosa podem surgir irritabilidade, cansaço, alterações de concentração, diurese e outros sintomas. O Tratado relaciona essa fase a disfunções hipotalâmicas e descreve variações cíclicas da resposta do núcleo espinal do trigêmeo à estimulação nociceptiva, sugerindo que o cérebro se torna progressivamente mais suscetível à instalação do ataque. [6] 6.2.2 Aura: depressão alastrante cortical Aura é o conjunto de sintomas neurológicos focais, plenamente reversíveis, que precede ou acompanha a cefaleia em parte dos pacientes. Cada sintoma instala-se de forma gradual, duraentre 5 e 60 minutos e pode ser visual — o tipo mais comum, com escotomas cintilantes ou espectro de fortificação —, sensitivo, de fala ou linguagem, motor, de tronco encefálico ou retiniano. A instalação progressiva e a reversibilidade completa são justamente o que a distingue de um evento vascular focal, que é súbito. Entender esse conceito é pré-requisito para o mecanismo descrito a seguir: a aura é a tradução clínica de um fenômeno elétrico que percorre o córtex. [2,6,25] A depressão alastrante cortical é considerada o principal substrato fisiopatológico da aura. Trata- se de um fenômeno de despolarização com excitação neuronal, seguido de redução da atividade, que se propaga pelo córtex a aproximadamente 2–3 mm/min. A passagem por áreas corticais específicas pode corresponder aos sintomas da aura visual, sensitiva, motora ou afásica. [2,6] Cefaleias · Página 22 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias hiperexcitabilidade cortical ↓ depressão alastrante cortical ↓ despolarização seguida de redução da atividade ↓ propagação pelo córtex ↓ manifestação focal da aura conforme a região envolvida [2,6] 6.2.3 Fase dolorosa: ativação do sistema trigeminovascular Como o tecido cerebral é indolor, a percepção da dor craniana implica ativação do trigêmeo e de suas conexões com meninges e vasos, particularmente a dura-máter. Essa ativação pode ocorrer perifericamente, por estímulos nociceptivos em fibras de primeira ordem, ou por mecanismos centrais. Em alguns pacientes, a depressão alastrante cortical pode contribuir para ativar o núcleo espinal do trigêmeo. [2,6] Uma vez ativado o sistema trigeminal, ocorre recrutamento e sensibilização sequencial de neurônios de segunda e terceira ordem da via trigeminotalamocortical. Participam dessa rede a substância cinzenta periaquedutal, a região dorsal rostral da ponte, o hipotálamo, o locus ceruleus, o núcleo da rafe e o núcleo salivatório superior. O resultado é amplificação do processamento nociceptivo, modulação descendente alterada e, em alguns pacientes, alodinia. [1,2,6] 6.2.4 Neuropeptídeos e inflamação neurogênica A ativação trigeminal também produz impulsos antidrômicos e liberação de neurotransmissores nas meninges, grandes vasos e seios venosos. Entre os mediadores descritos estão o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), substância P, PACAP-38 e neuroquinina A. O processo resultante é denominado inflamação neurogênica e contribui para manter a ativação das fibras sensitivas trigeminais. A capacidade do bloqueio de CGRP de reduzir a migrânea reforça o papel desse mediador na via trigeminovascular. [1,2,6] suscetibilidade cerebral / gatilhos centrais ou periféricos ↓ ativação trigeminovascular ↓ liberação de CGRP e outros neuropeptídeos ↓ inflamação neurogênica + aumento da excitabilidade nociceptiva ↓ sensibilização de neurônios trigeminais de 2ª e 3ª ordem ↓ projeção talamocortical ↓ dor migranosa [1,2,6] 6.2.5 Sintomas associados: processamento sensorial ampliado Os sintomas da migrânea não se limitam à dor. O Tratado descreve ativação de regiões relacionadas a náuseas e vômitos, incluindo núcleo do trato solitário, núcleo dorsal motor do vago e núcleo ambíguo, além de possível participação hipotalâmica. A fotofobia relaciona-se à interação entre aferências luminosas e núcleos talâmicos que também recebem informação nociceptiva; a fonofobia é associada à hiperexcitabilidade do córtex auditivo, e regiões como ínsula, claustrum e cíngulo anterior participam da integração entre olfação e dor. [6] Cefaleias · Página 23 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Figura 8 — Cascata fisiopatológica da migrânea (1/6): cérebro suscetível. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Figura 9 — Cascata fisiopatológica da migrânea (2/6): fase premonitória. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Figura 10 — Cascata fisiopatológica da migrânea (3/6): aura e depressão alastrante cortical. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 24 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Figura 11 — Cascata fisiopatológica da migrânea (4/6): fase dolorosa e ativação trigeminovascular. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Figura 12 — Cascata fisiopatológica da migrânea (5/6): neuropeptídeos, sensibilização e mecanismos neurogênico-inflamatórios propostos. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Figura 13 — Cascata fisiopatológica da migrânea (6/6): sistemas associados e amplificação da resposta dolorosa. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. Cefaleias · Página 25 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias PONTO-CHAVE A migrânea não é explicada por vasodilatação isolada. O modelo sustentado pelos livros é o de um distúrbio cerebral de processamento sensorial e nociceptivo, com participação do sistema trigeminovascular, sensibilização central, modulação troncoencefálica/hipotalâmica e liberação de neuropeptídeos como CGRP. [1,2,6,22,23] 6.3 Cefaleia do tipo tensional: mecanismos periféricos + sensibilização central O nome desta síndrome também não descreve seu mecanismo. O rótulo "tensional" nasceu da suposição histórica de que a dor resultaria de tensão nervosa ou de contração muscular sustentada — hipótese que as fontes atuais não confirmam como causa. A classificação manteve o termo por convenção, e é por isso que a expressão "cefaleia do tipo tensional" deve ser lida como nome próprio de uma síndrome, e não como afirmação sobre sua origem. [9,21,25] A fisiopatologia da cefaleia do tipo tensional (CTT) permanece incompletamente compreendida. As fontes rejeitam uma explicação simples baseada apenas em 'tensão nervosa' ou contração muscular. O modelo mais sustentado combina mecanismos periféricos e centrais, cuja importância relativa varia principalmente entre as formas episódica e crônica. [1,2,6] 6.3.1 Componente periférico: hipersensibilidade pericraniana Pacientes com CTT apresentam maior sensibilidade à palpação da musculatura pericraniana e podem apresentar mais pontos-gatilho. Entretanto, estudos citados no Tratado não demonstraram aumento consistente da atividade eletromiográfica, isquemia muscular ou processo inflamatório que expliquem isoladamente a dor. Assim, a hipersensibilidade pericraniana é relevante, mas não deve ser confundida com prova de contração muscular persistente como causa única. [6] 6.3.2 Componente central: redução do limiar de dor e falha da antinocicepção Na CTT crônica, tornam-se mais evidentes mecanismos centrais. Alguns pacientes apresentam redução do limiar de dor não apenas na região pericraniana, mas também em áreas extracefálicas, além de alodinia e hiperalgesia. Esses achados sustentam um processo de sensibilização central e integração sensitiva anormal. [6] Outra alteração descrita é a disfunção dos mecanismos antinociceptivos. Em condições normais, circuitos descendentes contribuem para elevar o limiar de dor; na CTT crônica, a redução dessa inibição favoreceria hiperalgesia secundária e manutenção do quadro. O Tratado também cita possível participação de circuitos glutamatérgicos, betaendorfínicos e serotoninérgicos, além do óxido nítrico, sem apresentar um único mecanismo isolado como causa suficiente. [6] Cefaleias · Página 26 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 6.3.3 Da forma episódica à forma crônica Figura 14 — Da forma episódica à forma crônica: progressão fisiopatológica da cefaleia do tipo tensional. Modelo proposto de cronificação — não representa sequência obrigatória em todos os pacientes. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 6.4 Cefaleias trigeminoautonômicas: dor trigeminal + reflexo autonômico + hipotálamo O nome da síndromedescreve seu curso temporal, não seu mecanismo. A designação inglesa cluster headache foi introduzida por Kunkle e colaboradores em 1952 para destacar o agrupamento característico das crises; antes disso, a condição já havia recebido os nomes de eritromelalgia cefálica (Horton, 1939) e cefaleia histamínica ou de Horton. O termo em português, "cefaleia em salvas", deve- se a Edgard Raffaelli, em 1979, e tornou-se a designação recomendada pela Sociedade Brasileira de Cefaleias · Página 27 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias Cefaleia. Saber disso evita um erro comum: procurar na palavra "salvas" uma pista fisiopatológica que ela não carrega — o que a define é a periodicidade. [5] As cefaleias trigeminoautonômicas (TACs) incluem a cefaleia em salvas e outras síndromes caracterizadas por dor em distribuição trigeminal acompanhada de manifestações autonômicas cranianas ipsilaterais. A fisiopatologia permanece incompleta, mas qualquer modelo precisa explicar simultaneamente a dor trigeminal, a disfunção autonômica e, na cefaleia em salvas, a marcante ritmicidade circadiana e sazonal. [2,6] 6.4.1 Reflexo trigeminoautonômico A hiperemia conjuntival, o lacrimejamento, a congestão nasal e outros sintomas autonômicos são mediados pela ativação do reflexo trigeminoautonômico, no qual a aferência trigeminal se associa à saída parassimpática craniana. Harrison também descreve esses sintomas como expressão da ativação das vias parassimpáticas cranianas. [1,6] 6.4.2 Hipotálamo e ritmicidade A regularidade temporal das crises sugere participação do relógio biológico. Estudos de imagem resumidos no Tratado e no Goldman-Cecil mostram ativação hipotalâmica posterior durante crises de cefaleia em salvas e outras TACs. Essa observação é coerente com o padrão circadiano e sazonal característico, mas não elimina a participação das vias trigeminovasculares. [2,6] 6.4.3 Modelo integrado Figura 15 — Modelo integrado das cefaleias trigeminoautonômicas. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. 6.5 Cefaleias secundárias: ativação nociceptiva por doença subjacente Nas cefaleias secundárias, não existe uma única fisiopatologia comum a todas as causas. A característica definidora é que um processo subjacente fornece o estímulo capaz de ativar as vias de dor craniana. Goldman-Cecil cita mecanismos como inflamação e compressão, enquanto Harrison descreve situações como meningite, hemorragia intracraniana, tumor, alterações de pressão intracraniana e glaucoma. A via final de percepção da dor, entretanto, continua dependendo da ativação das estruturas cranianas sensíveis e das conexões trigeminais e centrais. [1,2] Cefaleias · Página 28 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias A figura a seguir demonstra esse fluxo: como doenças de naturezas muito diferentes terminam produzindo a mesma experiência de dor. Figura 16 — Cefaleias secundárias: ativação nociceptiva por doença subjacente. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. A leitura da figura segue cinco etapas. Na primeira, está a doença causal — meningite, hemorragia, tumor ou uma alteração de pressão. São condições sem nenhum parentesco entre si, e é justamente esse o ponto: o processo pode começar de muitos lugares. [1,2] Na segunda etapa, cada doença age por um mecanismo próprio. A meningite inflama, a hemorragia extravasa sangue no espaço subaracnóideo, o tumor comprime e desloca estruturas, e as alterações de pressão distendem ou tracionam. São caminhos distintos que levam ao mesmo destino. [1,2] A terceira etapa é o destino comum: as estruturas cranianas sensíveis à dor. Seios durais, meninges e vasos cranianos são inervados e capazes de gerar dor; a superfície cerebral, não. Por isso um tumor só dói quando distorce ou comprime algo inervado — nunca pelo tecido tumoral em si. [1,2] A quarta etapa é a convergência. As aferências trigeminais e as das raízes cervicais superiores chegam ao mesmo território — núcleo espinal do trigêmeo e corno dorsal cervical superior — e formam o complexo trigeminocervical. É essa convergência anatômica que explica por que uma doença na fossa posterior pode doer na região frontal, e por que problemas cervicais altos produzem dor craniana. [1,2,6] Na quinta etapa, o sinal ascende às projeções talâmicas e corticais descritas no Capítulo 1 e vira percepção consciente de cefaleia. O ponto de partida varia conforme a etiologia; a sequência representa, portanto, convergência nociceptiva — e não uma cascata molecular única compartilhada por todas as causas. [1,2] Cefaleias · Página 29 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 6.6 Correlação fisiopatologia–manifestação clínica Mecanismo Manifestação que pode resultar Depressão alastrante cortical Aura visual, sensitiva, motora ou afásica, conforme a região cortical envolvida. Ativação trigeminovascular Dor craniana, particularmente no fenótipo migranoso e nas cefaleias trigeminoautonômicas (TACs). Sensibilização trigeminotalamocortical Aumento da responsividade à dor e alodinia durante crises. Participação hipotalâmica Sintomas premonitórios na migrânea e ritmicidade circadiana/sazonal na cefaleia em salvas. Ativação parassimpática craniana Lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal, rinorreia e outros sinais autonômicos. Sensibilização central na CTT crônica Hiperalgesia, alodinia e redução do limiar doloroso inclusive fora da região cefálica. Processo secundário inflamatório/compressivo ou estrutural Ativação das mesmas vias nociceptivas cranianas a partir de uma doença causal. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Harrison (Goadsby) [1]; Goldman-Cecil Medicina [2]. Cefaleias · Página 30 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias CAPÍTULO 7 — MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E SÍNDROMES CEFALÁLGICAS As manifestações clínicas das cefaleias devem ser reconhecidas como fenótipos, isto é, combinações de duração, localização, qualidade, intensidade, comportamento durante a crise e sintomas associados. A mesma característica isolada raramente define um diagnóstico: unilateralidade, dor pulsátil, sintomas autonômicos ou fotofobia precisam ser interpretados em conjunto com a cronologia e o exame. O objetivo deste capítulo é transformar essas combinações em padrões clínicos reconhecíveis. [3,5,8–10] PRINCÍPIO CENTRAL O fenótipo é construído por cinco perguntas: ONDE dói? COMO dói? QUANTO tempo dura? O QUE acompanha? COMO o paciente se comporta durante a crise? A resposta conjunta diferencia melhor migrânea, cefaleia do tipo tensional (CTT) e cefaleia em salvas do que qualquer achado isolado. [3,8] 7.1 Comparação dos fenótipos primários principais Característica Migrânea CTT Cefaleia em salvas Localização Frequentemente unilateral, mas bilateralidade não exclui o diagnóstico. Tipicamente bilateral ou holocraniana. Estritamente unilateral, sobretudo orbitária, supraorbitária e/ou temporal. Qualidade Pulsátil/latejante com frequência; a intensidade pode modificar a descrição. Pressão ou aperto, não pulsátil. Perfurante, penetrante ou excruciante. Intensidade Moderada a forte, frequentemente incapacitante. Leve a moderada. Forte a excruciante. Atividade/ comportamento Atividade física tende a agravar; muitos preferem repouso e menor estímulo sensorial. Não é agravada pela atividade física rotineira. Inquietação/agitação são marcantes; o paciente pode caminhar e ter dificuldade para permanecer deitado. Duração típica 4–72 h quando não tratada ou tratada sem sucesso. 30 min–7 dias na forma episódica descrita nas fontes. 15–180 min. Associados Náusea/vômitos, fotofobia, fonofobia, osmofobia; aura em parte dos pacientes. Sem vômitos;foto ou fonofobia podem ocorrer de forma limitada. Lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão/rinorreia, edema palpebral, miose/ptose e outros sinais autonômicos ipsilaterais. Periodicidade Crises episódicas; pode cronificar. Episódica infrequente/frequente ou crônica. Ataques repetidos em períodos de “salvas”, frequentemente com ritmicidade circadiana e sazonal. Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base nas referências citadas. O padrão temporal também é uma manifestação clínica; ele é desenvolvido no Capítulo 9, onde orienta a decisão diagnóstica. Cefaleias · Página 31 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 7.2 Migrânea: fases clínicas e expressão global da crise A migrânea é uma síndrome que pode começar antes da dor. Sintomas premonitórios descritos nas fontes incluem alterações de humor, apetite e cognição, irritabilidade, sonolência, bocejos e hipersensibilidade sensorial. Esses fenômenos podem preceder a fase dolorosa por horas e reforçam que a crise é um evento neurológico mais amplo do que a cefaleia isolada. [8,10,11] SEQUÊNCIA CLÍNICA POSSÍVEL DA MIGRÂNEA SINTOMAS PREMONITÓRIOS ↓ ± AURA NEUROLÓGICA REVERSÍVEL ↓ FASE DE CEFALEIA 4–72 h ↓ NÁUSEA / VÔMITOS + FOTO/FONOFOBIA ± OSMOFOBIA ↓ RESOLUÇÃO DA CRISE [8,10,11] Elaboração: SYNAPSE — Educação Médica, com base em Martins et al., Clínica Médica [8]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]; Greenberg et al., Neurologia Clínica [11]. 7.2.1 Migrânea sem aura É a forma mais comum. A crise típica combina localização frequentemente unilateral, caráter pulsátil, intensidade moderada a forte e agravamento com atividade física rotineira ou necessidade de evitá-la. Náusea e/ou vômitos e fotofobia com fonofobia são manifestações centrais do fenótipo. Bilateralidade, localização occipital ou ausência de pulsatilidade em uma crise específica não excluem migrânea quando o conjunto clínico permanece coerente. [2,10,11] Durante ataques podem ocorrer irritabilidade, mal-estar, osmofobia, sintomas vasomotores/autonômicos e hipersensibilidade do couro cabeludo. A presença de sintomas autonômicos cranianos não deve ser confundida automaticamente com sinusite, porque esses sintomas também podem acompanhar migrânea. [2,8,11] 7.2.2 Migrânea com aura A aura consiste em sintomas neurológicos focais totalmente reversíveis que geralmente se desenvolvem gradualmente. As manifestações mais comuns são visuais, mas também podem ocorrer fenômenos sensitivos e de fala/linguagem; formas específicas incluem sintomas motores, de tronco encefálico e retinianos na classificação reproduzida pelas fontes. [8,10] Tipo de manifestação Exemplos clínicos descritos Pista temporal Visual Fotopsias, cintilações, escotomas e defeitos de campo visual; pode haver fenômenos positivos e negativos. Progressão gradual ou expansão ao longo de minutos favorece aura típica. Sensitiva Parestesias, formigamento, perda sensitiva transitória. Pode “marchar” de uma região para outra. Fala/linguagem Disfasia/afasia transitória. Totalmente reversível no padrão típico. Motora / tronco / retiniana Descritas como subformas específicas na classificação. Exigem enquadramento criterioso e exclusão de outras causas quando novas ou atípicas. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Martins et al., Clínica Médica [8]; Ciciarelli et al., Tratado de Neurologia [10]. Cefaleias · Página 32 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias AURA TÍPICA × ALERTA A progressão gradual em minutos, a sucessão de sintomas e a reversibilidade favorecem aura. Déficit focal abrupto, puramente negativo, muito prolongado ou primeiro episódio atípico não deve ser presumido como migrânea sem avaliação de causas vasculares e outras secundárias. [3,8,10] 7.2.3 Sintomas associados e comportamento durante a crise Náusea, vômito, fotofobia e fonofobia são os sintomas associados mais característicos. Osmofobia, vertigem, atordoamento, hipersensibilidade sensorial e manifestações autonômicas podem aparecer em parte dos pacientes. A piora com atividade física diferencia a migrânea típica da CTT e ajuda a explicar por que o paciente frequentemente procura repouso e redução de estímulos. [2,8,11] 7.2.4 Migrânea crônica e aumento da carga clínica Na migrânea crônica, a manifestação principal deixa de ser apenas a crise isolada e passa a incluir alta frequência de dias de cefaleia. As fontes utilizadas no LIDE a definem por cefaleia em 15 ou mais dias por mês por pelo menos três meses, com características migranosas em parte relevante desses dias. Uso excessivo de medicação aguda pode coexistir e deve ser investigado, porque modifica o padrão clínico e favorece cronificação. [10] 7.3 Cefaleia do tipo tensional: expressão clínica A CTT apresenta fenótipo menos exuberante que a migrânea. O padrão clássico é dor bilateral ou holocraniana, não pulsátil, descrita como pressão ou aperto, de intensidade leve a moderada e sem piora com atividade física rotineira. Náuseas importantes e vômitos não são típicos; pode haver fotofobia ou fonofobia, mas a combinação migranosa intensa de sintomas associados deve levar à reavaliação do fenótipo. [2,8,9] O achado físico de maior destaque nas fontes é o dolorimento à palpação dos tecidos miofasciais pericranianos, que tende a aumentar com a frequência da cefaleia. Esse achado pode estar presente, mas sua ausência não exclui CTT e sua presença não prova que a dor seja causada simplesmente por contração muscular. [8,9] Forma Manifestação temporal Características clínicas Episódica infrequente Crises esparsas. Fenótipo tensional típico; baixo impacto global em muitos pacientes. Episódica frequente Crises mais recorrentes, ainda abaixo do limiar de cronicidade. Pode relacionar-se a períodos de maior estresse, sem que estresse seja causa única. Crônica ≥15 dias/mês por >3 meses nas fontes utilizadas. Pode surgir ao despertar ou tornar-se quase contínua; maior peso de sensibilização central e dolorimento pericraniano. Fonte: elaboração SYNAPSE — Educação Médica, adaptada de Martins et al., Clínica Médica [8]; Maciel Jr & Jurno, Tratado de Neurologia [9]. NÃO CONFUNDIR cefaleia do tipo tensional (CTT) não é sinônimo de “dor por tensão emocional”. O termo descreve um fenótipo clínico; a literatura de referência não demonstra contração muscular persistente ou tensão psíquica como causa única. [8,9] Cefaleias · Página 33 Livro Integrado Digital de Estudo — Cefaleias 7.4 Cefaleia em salvas: dor, sinais autonômicos e comportamento A cefaleia em salvas apresenta um dos fenótipos mais reconhecíveis entre as cefaleias primárias. A dor é estritamente unilateral, geralmente orbitária, supraorbitária ou temporal, muito forte ou excruciante e de início rápido. As crises duram de 15 a 180 minutos e podem ocorrer de uma a oito vezes ao dia nas descrições clínicas das fontes. [2,5,11] O ataque costuma vir acompanhado de sinais autonômicos ipsilaterais: lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal, rinorreia, edema palpebral, sudorese facial e miose/ptose ou síndrome de Horner parcial. O comportamento é distintivo: em vez de buscar repouso, muitos pacientes ficam inquietos, caminham e não conseguem permanecer sentados ou deitados. [2,5,11] A periodicidade também é manifestação clínica. Ataques podem despertar o paciente à noite, recorrer em horários semelhantes e agrupar-se em períodos de semanas a meses, separados por remissões nas formas episódicas. Essa ritmicidade ajuda a distinguir salvas de migrânea e CTT. [5,11] Eixo Fenótipo típico de salvas Dor Unilateral, orbitária/supraorbitária/temporal, muito intensa. Duração 15–180 min. Frequência Pode ocorrer repetidamente no mesmo dia; as fontes clínicas descrevem até 8 ataques/dia. Autonômicos Lacrimejamento, hiperemia