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Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril SUMÁRIO DEFINIÇÃO INICIAL.................................................................................................................................................. 3 CAPÍTULO 1 — ANATOMIA, HISTOLOGIA E FISIOLOGIA DA EXCITABILIDADE NEURONAL............................5 CAPÍTULO 2 — EPIDEMIOLOGIA.......................................................................................................................... 13 CAPÍTULO 3 — ETIOLOGIA.................................................................................................................................... 16 CAPÍTULO 4 — FATORES DE RISCO.................................................................................................................... 20 CAPÍTULO 5 — CLASSIFICAÇÃO..........................................................................................................................22 CAPÍTULO 6 — FISIOPATOLOGIA.........................................................................................................................29 CAPÍTULO 7 — MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E SÍNDROMES EPILÉPTICAS....................................................38 CAPÍTULO 8 — RED FLAGS................................................................................................................................... 43 CAPÍTULO 9 — DIAGNÓSTICO..............................................................................................................................47 CAPÍTULO 10 — EXAMES COMPLEMENTARES..................................................................................................53 CAPÍTULO 11 — DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL...................................................................................................58 CAPÍTULO 12 — TRATAMENTO............................................................................................................................ 66 CAPÍTULO 13 — POSOLOGIA — DIRECIONAMENTO RÁPIDO..........................................................................75 CAPÍTULO 14 — COMPLICAÇÕES E PROGNÓSTICO.........................................................................................84 FICHA-RESUMO — EPILEPSIA E CONVULSÃO FEBRIL.....................................................................................89 ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEMA...............................................................................................................95 GLOSSÁRIO DE TERMOS ESSENCIAIS............................................................................................................. 101 MAPA DE REVISÃO..............................................................................................................................................102 ANEXO — QUESTÕES.........................................................................................................................................104 ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARES............................................................................................................ 107 REFERÊNCIAS......................................................................................................................................................108 Epilepsia e Convulsão Febril · Página 2 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril DEFINIÇÃO INICIAL Crise epiléptica é a ocorrência transitória de sinais e/ou sintomas decorrentes de atividade neuronal anormal, excessiva e/ou síncrona no cérebro. Os dois qualificadores não se confundem: a transitoriedade descreve a manifestação clínica, enquanto a atividade anormal, excessiva e/ou síncrona descreve o fenômeno neurofisiológico que a produz. As redes envolvidas não são exclusivamente corticais — redes subcorticais e talamocorticais participam de vários tipos de crise. Quando essas redes se limitam a um hemisfério, a crise é focal; quando envolvem rapidamente redes bilaterais, é generalizada. [1–3] Epilepsia é conceito distinto: distúrbio encefálico caracterizado por predisposição permanente a gerar crises epilépticas, com consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais. Seu diagnóstico é operacional e exige uma de três condições — pelo menos duas crises não provocadas ou reflexas separadas por mais de 24 horas; uma crise não provocada ou reflexa com probabilidade de recorrência de pelo menos 60% nos próximos 10 anos, equivalente ao risco observado após duas crises não provocadas; ou o diagnóstico de uma síndrome epiléptica. [1,2] Crise reflexa não deve ser confundida com crise sintomática aguda: nas epilepsias reflexas, estímulos específicos — luzes intermitentes, leitura, música — desencadeiam crises em indivíduo com predisposição epiléptica já estabelecida, razão pela qual contam para o critério diagnóstico. Convulsão, neste volume, é usada em sentido semiológico: manifestação motora paroxística e autolimitada, que pode corresponder à expressão motora de uma crise epiléptica ou a evento não epiléptico. É convenção editorial adotada aqui para separar o que se vê do que se diagnostica — as referências em língua portuguesa usam “convulsão” também como tradução de crise epiléptica. Que nem toda convulsão é epiléptica é demonstrável na síncope: um período breve de atividade motora convulsiva é frequentemente observado logo após o início de um episódio sincopal, sobretudo se o paciente permanecer em postura ereta. [3] Os três termos se interseccionam apenas parcialmente: todo paciente com epilepsia teve ao menos uma crise; nem toda crise epiléptica é convulsiva — as crises de ausência típicas caracterizam-se por lapsos breves e súbitos da consciência sem perda do controle postural e em geral se acompanham de sinais motores bilaterais sutis, como rápido piscar de olhos, movimentos mastigatórios ou movimentos clônicos de pequena amplitude das mãos [3], o que não equivale a ausência de manifestação clínica; e nem toda convulsão é epiléptica. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Epilepsia: o que acontece no cérebro durante as crises (em português) Assista em: https://youtu.be/ksuqcajpG0Y Onde se situa a crise febril Uma crise epiléptica também pode ocorrer em estreita relação temporal com uma agressão aguda ao encéfalo ou com uma alteração sistêmica capaz de desencadeá-la, sem que isso, isoladamente, caracterize epilepsia: é a crise provocada, ou sintomática aguda, que ocorre em vigência de infecção, trauma, intoxicação ou distúrbio metabólico e, em geral, cessa com o tratamento do fator responsável. Não se trata de uma terceira categoria taxonômica ao lado de crise e epilepsia — crise provocada é um evento qualificado pelo contexto, ao passo que epilepsia é a doença definida pela predisposição a gerá- lo. [2] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 3 https://youtu.be/ksuqcajpG0Y https://youtu.be/ksuqcajpG0Y Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril A crise febril também não caracteriza, por si só, epilepsia. Este volume adota a definição do PCDT: evento que ocorre durante doença febril não resultante de doença aguda do sistema nervoso, em criança entre 6 meses e 5 anos, sem déficits neurológicos e sem crises epilépticas afebris anteriores. [30] Guarda proximidade conceitual com as crises provocadas, por ocorrer em relação temporal com um evento agudo, mas não se reduz a elas: o diagnóstico depende do preenchimento desses critérios, e não da simples presença de febre. O Harrison descreve ocorrência a partir dos 3 meses, com pico entre 18 e 24 meses [3]; o limite superior de 5 anos é constante entre as fontes. Os critérios de crise febril simples e complexa estão na Seção 5.6. ARMADILHA CONCEITUAL — “CONVULSIONOU COM FEBRE” NÃO É DIAGNÓSTICO Convulsionar em vigência de febre é uma observação; crise febril é um diagnóstico com critérios. A febre pode acompanhar uma neuroinfecção, precipitar a primeira crise de uma epilepsia geneticamente determinada↓ ABERTURA DOS CANAIS DE Na DEPENDENTES DE VOLTAGEM →⁺ INFLUXO DE Na ↓ SURTOS DE POTENCIAIS DE AÇÃO REPETITIVOS DE ALTA FREQUÊNCIA ↓ PÓS-⁺ POTENCIAL HIPERPOLARIZANTE | Encadeamento descrito por Goldman-Cecil e Harrison para a geração da crise focal. Não representa a sequência iônica obrigatória de toda crise epiléptica: outros mecanismos podem participar, e a contribuição de cada corrente varia com o tipo celular e com a rede. [2,3] O disparo sincronizado de um número suficiente desses neurônios soma correntes transmembranares e produz potenciais de campo registráveis no escalpo: são necessários muitos milhares ou mesmo milhões de neurônios disparando de maneira sincronizada para que seus potenciais se somem o suficiente, e sinais não síncronos tendem a anular-se por polaridades opostas [31] — de modo que a “ponta” do EEG traduz hipersincronização dos disparos em região cortical relativamente extensa [2,3], e não o disparo de uma célula isolada. O pós-potencial hiperpolarizante que se segue à despolarização, mediado por receptores GABA ou canais de K conforme o tipo celular ⁺ [3], é frequentemente apontado como um dos contribuintes para a onda lenta que sucede a espícula; a geração dessa onda, porém, não se reduz a um único mecanismo inibitório, e as fontes deste volume não a descrevem em detalhe. Duas substâncias ilustram experimentalmente o modelo, uma por excesso de excitação e outra por falta de inibição: o ácido domoico, análogo do glutamato, provoca crises intensas por ativação direta de receptores de aminoácidos excitatórios em todo o sistema nervoso central; a penicilina reduz o limiar convulsivo em humanos e é potente convulsivante experimental porque antagoniza os efeitos do GABA em seu receptor. [3] Já os mecanismos pelos quais privação de sono, febre, abstinência alcoólica, hipóxia e infecção desencadeiam crises são menos bem compreendidos, presumindo-se que envolvam perturbações análogas da excitabilidade — e o mesmo vale para os fatores endógenos que definem o limiar individual. [3] ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Fisiopatologia das crises epilépticas (em inglês) Assista em: https://youtu.be/mHcusWbdnso Epilepsia e Convulsão Febril · Página 30 https://youtu.be/mHcusWbdnso https://youtu.be/mHcusWbdnso Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Figura 6.1 — O começo: por que a descarga começa Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3] e no Guyton & Hall [31]. 6.2 O meio: por que a crise não para e se espalha A disseminação da atividade explosiva é normalmente impedida por dois freios: a hiperpolarização íntegra e a inibição circundante, criada pela ativação progressiva dos interneurônios inibitórios que cercam o foco. A onda de disseminação é, assim, alentecida e por fim interrompida. [2,3] A crise clínica ocorre quando esse cerco é vencido. Com ativação suficiente, os neurônios vizinhos passam a ser recrutados por mecanismos sinápticos e não sinápticos que se retroalimentam: [3] • aumento do K extracelular⁺ , que amortece a hiperpolarização e despolariza os neurônios vizinhos — o próprio disparo desativa o freio; • acúmulo de Ca² nos terminais pré-sinápticos⁺ , com maior liberação de neurotransmissores excitatórios; • ativação de receptores NMDA induzida pela despolarização, causando influxo adicional de Ca² e⁺ mais ativação neuronal; • interações efáticas, ligadas a alterações da osmolaridade tecidual e ao edema celular. O Goldman resume o processo em uma frase que serve de eixo para todo o capítulo: à medida que a excitação aumenta e a inibição diminui, neurônios adicionais são recrutados na região e em sítios distantes — e isso é a propagação da crise. [2] Anatomicamente, o recrutamento suficiente leva as correntes excitatórias a áreas contíguas por conexões corticais locais e a áreas distantes por vias comissurais longas, como o corpo caloso. [3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 31 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril PRINCÍPIO DECISIVO — A CRISE É UM PROBLEMA DE REDE, NÃO DE CÉLULA A descarga de um único neurônio não é registrável na superfície da cabeça: é preciso que muitos milhares ou milhões de neurônios disparem de modo sincronizado para que seus potenciais se somem. [31] O que transforma descarga em crise é o recrutamento sincronizado de uma população suficiente de neurônios e a falência do cerco inibitório que a mantinha confinada. [2,3] Por isso o tratamento (Capítulo 12) atua sobre canais e sinapses — os elementos que determinam se o recrutamento ocorre —, e não sobre um “foco” isolado. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Epilepsia — animação de mecanismo de ação: canais de potássio Kv7 e excitabilidade neuronal (em inglês) Assista em: https://youtu.be/JUQXaVrNewE Figura 6.2 — O meio: por que a crise não para e se espalha Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3] e no Guyton & Hall [31]. 6.3 Diálogo com a classificação: onde os mecanismos descritos para focal e generalizada se separam A distinção que o Capítulo 5 pede não é apenas convenção descritiva: o Goldman abre a biopatologia por ela, porque os substratos e mecanismos que fundamentam início e propagação diferem entre crises focais e generalizadas. [2] Convém, porém, não transformar essa diferença em oposição absoluta — pelas razões expostas na Seção 5.1 [24], a separação a seguir organiza dois modelos predominantes, e não duas categorias impermeáveis. Na crise focal, o Goldman descreve um agregado de neurônios corticais e subcorticais que desenvolve surtos de alta frequência de potenciais de ação sódio-dependentes, atribuídos a desvio na condutância do cálcio — produzindo a descarga de ponta no EEG. [2] Esse é o mecanismo descrito para Epilepsia e Convulsão Febril · Página 32 https://youtu.be/JUQXaVrNewE https://youtu.be/JUQXaVrNewE https://youtu.be/JUQXaVrNewE Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril o modelo, e não uma exigência de que toda crise focal decorra de alteração do cálcio. A partir daí, três destinos: a descarga permanece confinada, e o que se vê é apenas o sintoma daquela área — a aura, que já é a crise; progride pelo córtex adjacente, na marcha jacksoniana; ou propaga-se a estruturas límbicas e bilaterais, comprometendo a consciência e configurando uma crise focal evoluindo para tônico-clônica bilateral. [2,3,24] A evolução clínica acompanha a eletrográfica: o Goldman descreve uma descarga rítmica localizada, com frequência caracteristicamente na faixa de 4 a 7 Hz, que ganha amplitude e perde frequência à medida que a crise avança — padrão característico, e não critério obrigatório nem presente em todas as crises focais, já que o foco pode ser inacessível ao EEG de escalpo. [2,3] Nas crises generalizadas, o conhecimento é declaradamente menor: sabe-se pouquíssimo sobre seus mecanismos básicos, e a compreensão do início e da propagação das formas tônico-clônica, mioclônica e atônica permanece rudimentar. [2,3] O Goldman registra que essas crises dependem, proeminentemente, de circuitos talamocorticais [2] — formulação que descreve o que o modelo enfatiza, sobretudo nas ausências, e não o mecanismo único de toda a classe, cuja definição de rede está na Seção 5.2. [24] Nas ausências, as descargas de ponta-onda relacionam-se a alterações dos ritmos oscilatórios normalmente gerados durante o sono por circuitos que conectam tálamo e córtex, envolvendo receptores GABA-B, canais de Ca² do tipo T — no núcleo reticular do tálamo — e canais de K ; modular⁺ ⁺ esses receptores e canais pode induzir crises de ausência, e há boas evidências de que as formas genéticas se associem a mutações de componentes desse sistema. [2,3] Nas tônico-clônicas, os neurônios corticais exibem despolarização prolongada na fase tônica, seguida de despolarização e repolarização rítmicas na clônica, com a ativação de receptoresNMDA aumentando o influxo de Ca² ; o⁺ início e a modulação envolvem os aferentes do tronco encefálico e prosencefálicos basais já descritos na Seção 1.5. [2] Tabela 6.1 — Onde as duas histórias se separam Eixo Crise focal Crise generalizada Rede de origem Agregado de neurônios corticais e subcorticais em rede limitada a um hemisfério [2,24] Redes distribuídas bilateralmente, engajadas rapidamente, podendo incluir estruturas corticais e subcorticais, mas não todo o córtex [24]; os circuitos talamocorticais são o componente mais enfatizado, sobretudo nas ausências [2] Evento inicial Surtos de alta frequência de potenciais de ação Na -dependentes, atribuídos a⁺ desvio na condutância do Ca² no modelo⁺ descrito [2] Modulação anormal dos ritmos oscilatórios talamocorticais nas ausências; despolarização cortical prolongada na fase tônica e despolarização/repolarização rítmicas na clônica, nas tônico-clônicas [2,3]. Nas mioclônicas e atônicas, os mecanismos permanecem pouco caracterizados nas fontes [2,3] Estruturas-chave Córtex focal, conexões corticais locais e vias comissurais longas, como o corpo caloso, na evolução para tônico-clônica bilateral [3] Núcleo reticular do tálamo, canais de Ca²⁺ tipo T, receptores GABA-B e canais de K⁺ [2,3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 33 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Eixo Crise focal Crise generalizada Correlato de EEG Ponta focal; descarga rítmica caracteristicamente de 4 a 7 Hz que ganha amplitude e perde frequência [2] — padrão característico, não obrigatório Ponta-onda generalizada, classicamente em torno de 3 Hz na ausência típica; nas ausências atípicas, o EEG demonstra descargas mais lentas que a ponta-onda de 3 Hz [2] — na síndrome de Lennox- Gastaut, espícula-onda lenta abaixo de 2,5 Hz [33]; polipontas na fase tônica [3]. São padrões característicos, não critérios isolados Consequência prática Aura ou sinal focal favorece rede focal e orienta a investigação, sem determinar isoladamente a etiologia [2,24] O padrão eletroclínico contribui para a hipótese sindrômica e para a escolha do fármaco, em conjunto com idade, semiologia e evolução — não a define isoladamente [1,3] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base em Goldman-Cecil [2], Harrison [3] e Tratado de Neurologia [1]. 6.4 O fim: como a crise termina A crise termina porque mecanismos ativos a encerram, e não porque a descarga simplesmente se esgota. As fontes deste volume não descrevem em detalhe os mecanismos de término; o que se segue reúne os elementos que elas mencionam, cuja participação relativa varia conforme o tipo de crise e a rede envolvida, sem que nenhum deles seja isoladamente suficiente. HIPERPOLARIZAÇÃO PÓS-DESCARGA · INIBIÇÃO GABAÉRGICA RECRUTADA · INATIVAÇÃO DOS CANAIS DE Na⁺ · ALTERAÇÃO DO MEIO IÔNICO EXTRACELULAR A hiperpolarização pós-descarga segue cada salva de potenciais de ação e eleva o limiar da própria célula que disparou — os canais de K permanecem abertos por breve período após a repolarização,⁺ tornando o potencial transitoriamente mais negativo que o de repouso. [31] Somam-se a ela o recrutamento de mecanismos inibitórios, com os interneurônios inibitórios que cercam o foco respondendo à atividade excessiva [2,3], e a inativação dependente de voltagem dos canais de sódio, cuja comporta de inativação impede a manutenção de descargas repetitivas até que a membrana se repolarize. [31] A esses soma-se a alteração do meio iônico extracelular: o acúmulo de potássio extracelular, que durante a propagação amortece a hiperpolarização [3], é o mesmo fenômeno que, com a atividade sustentada, reduz a capacidade da membrana de se repolarizar rapidamente. A restauração dos gradientes iônicos pela bomba de sódio e potássio é processo metabólico ativo que ocorre ao longo de muitos impulsos [31] e pertence sobretudo à recuperação pós-ictal: não deve ser apresentada como mecanismo de término da crise, nem como mecanismo único ou suficiente. A dessincronização progressiva da rede é frequentemente invocada como elemento do término, mas não está descrita nas fontes deste volume e permanece como pendência documental. O período que se segue à crise não é apenas recuperação. O exame imediato pode revelar amnésia anterógrada e déficits transitórios — afasia, heminegligência, perda visual —, que correspondem a alteração transitória da função das redes corticais recrutadas durante a crise; quando o córtex motor foi o mais recrutado, essa alteração se expressa como paresia localizada, a paralisia de Todd, que pode durar de minutos a muitas horas [3] e chegar a 1 ou 2 dias, com resolução gradual. [2] Daí uma consequência diagnóstica retomada no Capítulo 11: déficit focal após a crise não significa necessariamente lesão estrutural nova — pode traduzir alteração transitória da função das redes Epilepsia e Convulsão Febril · Página 34 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril recrutadas. É o que faz da paresia de Todd um indicador de componente focal e, pelos critérios do PCDT, um dos elementos que caracterizam a crise febril complexa (Tabela 5.2). [30] Prolongamento da atividade ictal, falha dos mecanismos de término e estado de mal epiléptico não são sinônimos. O estado de mal é definido pela ILAE como a condição resultante da falha dos mecanismos responsáveis pelo término das crises ou do desencadeamento de mecanismos que levam a crises anormalmente prolongadas, a partir do ponto de tempo t1; é condição que pode ter consequências a longo prazo a partir do ponto t2, incluindo morte neuronal, lesão neuronal e alteração das redes. [30] Os tempos operacionais e as consequências celulares estão na Seção 8.1. Figura 6.3 — O fim: como a crise termina Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3], no Guyton & Hall [31] e no PCDT de Epilepsia [30]. 6.5 O que a crise deixa: epileptogênese Epileptogênese é a transformação da rede neuronal normal em uma rede cronicamente hiperexcitável. [3] Em várias etiologias adquiridas — traumatismo, acidente vascular encefálico, infecção — descreve-se com frequência um intervalo de meses a anos entre a lesão inicial e a primeira crise clinicamente evidente, durante o qual o limiar convulsivo diminui gradualmente na região afetada [3]; esse período de latência é característico dessas etiologias, e não etapa obrigatória de toda epileptogênese. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 35 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Figura 6.4 — Epileptogênese: da lesão inicial à rede cronicamente hiperexcitável Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [3] e no Goldman-Cecil [2]. O substrato mais estudado é o hipocampo na epilepsia do lobo temporal mesial, onde a esclerose temporal mesial se caracteriza por perda neuronal e gliose, principalmente — mas não exclusivamente — nos setores CA1 e CA3, com reorganização de fibras musgosas. [2] Trata-se de um modelo particularmente investigado, e não do mecanismo único de toda epileptogênese: em outras etiologias predominam alteração da excitabilidade de membrana, perda de inibição, remodelamento sináptico, gliose, neuroinflamação, mudanças de canais e receptores e reorganização da conectividade — isolados ou combinados. [2] Permanece indefinido nas fontes se a esclerose é causa ou consequência das crises — ou ambas. [2] Nas formas genéticas, presume-se que a epileptogênese seja determinada por eventos regulados ao longo do desenvolvimento [3] — o que fecha o círculo com a Seção 1.9. 6.6 Tópico à parte — por que a febre precipita crise em algumas crianças A crise febril não tem, nas fontes deste volume, mecanismo molecular próprio: o Harrison afirma que os mecanismos básicos da febre como desencadeante são menos bemcompreendidos, presumindo-se perturbações da excitabilidade neuronal análogas às descritas acima. [3] O que existe é um conjunto convergente de determinantes. O encéfalo em maturação. O cérebro apresenta limiares convulsivos diferentes em diferentes estágios de maturação [3], o que explica a janela etária de suscetibilidade. A predisposição genética. O Harrison registra que os pacientes com frequência têm história familiar de convulsões febris ou de epilepsia, e que a história familiar de epilepsia tem clara influência na probabilidade de ocorrência de crises em pessoas normais sob os demais aspectos. [3] A febre e a resposta inflamatória associada à infecção. A participação de mediadores inflamatórios específicos, como a interleucina-1β, não está documentada nas fontes desta base e permanece pendência documental — não deve ser apresentada como explicação causal. O estímulo febril. A crise é mais propensa a ocorrer durante a fase de elevação da temperatura, no primeiro dia da doença febril, do que nos estágios subsequentes, e pode ser a primeira manifestação Epilepsia e Convulsão Febril · Página 36 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril percebida da infecção — o quadro típico ocorre durante infecção comum da infância, como otite média, infecção respiratória ou gastroenterite. [3] Não é necessário que a febre seja muito alta, e as fontes não sustentam que a velocidade de elevação da temperatura seja o mecanismo determinante. Figura 6.5 — Por que a febre precipita crise em algumas crianças Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [3] e no Goldman-Cecil [2]. Quando esse desfecho não se cumpre. A duração importa fisiopatologicamente, e não apenas para a classificação: no estado de mal epiléptico febril, séries de crianças avaliadas prospectivamente com ressonância relatam sinal de lesão hipocampal aguda em uma minoria dos casos — proporção que depende do desenho do estudo, do tempo até o exame e da definição adotada. [2] É preciso separar quatro coisas distintas: a alteração hipocampal aguda documentada por imagem; a associação entre estado de mal febril e essa alteração; o desenvolvimento posterior de esclerose temporal mesial; e a hipótese de que uma coisa cause a outra. As evidências citadas sustentam associação, e não causalidade demonstrada — a relação com a esclerose temporal mesial permanece hipótese. O contrapeso deve ser dito com a mesma clareza: o estado de mal febril responde pela minoria das crises febris, e não há base nas referências para afirmar que a crise febril simples produza lesão encefálica. Ponto-chave. Não é necessário que a criança apresente febre muito alta, nem que se documente subida rápida da temperatura, para caracterizar uma crise febril. A suscetibilidade resulta da interação entre o estágio de maturação encefálica, a predisposição individual e o contexto de doença febril aguda — sem que as fontes deste volume identifiquem um mediador molecular específico. [3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 37 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 7 — MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E SÍNDROMES EPILÉPTICAS O fenótipo da crise corresponde à expressão clínica das redes recrutadas (Capítulo 6): inclui o que o paciente sente, o que o observador identifica, a sequência em que os fenômenos aparecem e sua duração. [3] A decisão diagnóstica que decorre daí pertence ao Capítulo 9. 7.1 O fenótipo em quatro tempos — e o exame em três momentos Toda crise deve ser descrita em quatro tempos, porque cada um informa um aspecto diferente do mecanismo: como começa — incluindo, quando presente, aura ou outro sinal que sugira início focal, lembrando que a aura é manifestação subjetiva da própria crise focal, não diretamente observável por outra pessoa, e não um aviso de que a crise começará depois [3] —, como evolui (quais sinais, em que sequência, por quanto tempo), como termina (gradual ou abruptamente) e o que resta depois. Como os pacientes têm recordação limitada do evento, o relato de terceiros é indispensável. [2] Figura 7.1 — Manifestações clínicas: crises epilépticas e crises febris Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3] e no Tratado de Neurologia — Epilepsia na Infância [33]. O exame produz achados distintos conforme o momento. Durante a crise: postura, simetria, desvio ocular e cefálico, automatismos, responsividade, taquicardia, hipertensão, midríase; podem ocorrer mordedura de língua e incontinência urinária ou fecal. [2,3] Imediatamente após: amnésia anterógrada e déficits focais transitórios — afasia, heminegligência, perda visual, paresia —, que traduzem alteração transitória da função das redes recrutadas (Seção 6.4) e podem auxiliar na lateralização e na localização. [3] Fora da crise: exame neurológico dirigido a sinais hemisféricos e a achados de valor Epilepsia e Convulsão Febril · Página 38 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril etiológico — pele (esclerose tuberosa, neurofibromatose), organomegalia, assimetria de membros e, na criança, os marcos do desenvolvimento. [3] O exame neurológico pode ser normal no período interictal, e isso não afasta epilepsia; déficit focal novo que persiste após a crise, ou achado focal interictal inesperado, deve motivar investigação dirigida conforme o contexto clínico (Capítulo 8). [3] ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Epilepsia: aula completa (em português) Assista em: https://youtu.be/ty_AghJhMTQ 7.2 Crises focais A aura é manifestação ictal, e não um aviso que antecede a crise: corresponde aos fenômenos subjetivos, não diretamente observáveis por outra pessoa, de uma crise focal — parestesias, alterações visuais, vertigem, fenômenos autonômicos, odores e sons incomuns, sensação epigástrica ascendente e fenômenos psíquicos como medo, dissociação, despersonalização, déjà vu, micropsia e macropsia. [3] Nem toda crise focal com consciência preservada se apresenta como aura, mas investigá-la importa porque favorece fortemente início focal e sugere a área de origem. [2] Nas focais motoras, três características se destacam: os movimentos podem começar em região restrita e avançar em segundos a minutos, na marcha jacksoniana, compatível com disseminação pelo córtex motor; pode restar paresia localizada (paralisia de Todd) por minutos a muitas horas; e, raramente, a crise persiste por horas ou dias, na epilepsia parcial contínua, frequentemente refratária. [3] Nas focais com consciência prejudicada, o paciente não responde adequadamente e tem memória do episódio comprometida. O quadro pode ser precedido por aura estereotipada e costuma cursar com olhar fixo imóvel — que assinala o início do comprometimento da consciência — e automatismos, de mastigar e estalar os lábios até condutas elaboradas. A confusão pós-ictal é frequente e a recuperação pode ser gradual, levando de segundos a mais de uma hora. [3] A variedade de comportamentos possíveis é tão ampla que se recomenda extrema cautela antes de concluir que episódios estereotipados de comportamento bizarro não são crises. [3] Crises focais de qualquer região podem propagar-se e produzir crise tônico-clônica bilateral. A manifestação bilateral não implica, portanto, início generalizado: ela pode ser o desfecho de uma crise que começou focal e se propagou. A distinção depende de haver ou não aviso focal precedente — motivo pelo qual a aura precisa ser ativamente perguntada. [2,3] 7.3 Crises generalizadas A crise tônico-clônica inicia-se bruscamente, sem aviso — alguns pacientes descrevem pródromo vago, distinto da aura estereotipada. A contração tônica produz o grito ictal, prejudica a respiração e gera cianose, com mordedura de língua, taquicardia, hipertensão e midríase. Após 10 a 20 segundos, vem a fase clônica, em que os períodos de relaxamento se alargam até o fim da fase ictal, que raramente ultrapassa 1 minuto. Seguem-se flacidez,salivação, respiração ruidosa e incontinência, com recuperação gradual e, depois, cefaleia, fadiga e mialgia. [2,3] O EEG acompanha essa sequência: atividade rápida generalizada que cresce e se converte em polipontas na fase tônica, interrompidas por ondas lentas na clônica, seguidas de supressão difusa no pós-ictal. [3] Esse tipo é o principal em cerca de 10% das pessoas com epilepsia, mas é o mais comum nos distúrbios metabólicos — ou seja, é também a apresentação típica da crise provocada. [3] A ausência típica caracteriza-se por lapso breve e súbito da consciência sem perda do controle postural; a crise dura em geral apenas alguns segundos, e a consciência retorna tão rapidamente quanto Epilepsia e Convulsão Febril · Página 39 https://youtu.be/ty_AghJhMTQ https://youtu.be/ty_AghJhMTQ Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril foi perdida, sem confusão pós-ictal. Acompanha-se de sinais motores bilaterais sutis — piscar rápido, movimentos mastigatórios, movimentos clônicos de pequena amplitude das mãos [3] —, e os automatismos tornam-se mais prováveis quando o episódio se estende por mais de 10 segundos. [2] Pode ocorrer dezenas a centenas de vezes ao dia e costuma ser percebida primeiro como “devaneios” e queda do rendimento escolar. Sua marca é a ponta-onda generalizada de 3 Hz sobre EEG de base normal, que aparece em surtos curtos entre as crises e de forma contínua durante elas, deflagrada por hiperventilação. [2,3] A atípica difere por início e término menos abruptos, sinais motores mais evidentes e descargas mais lentas que a ponta-onda de 3 Hz da ausência típica, com associação a anormalidades estruturais difusas e pior resposta ao tratamento. [2,3] Completam o grupo as crises mioclônicas — contração súbita e breve, considerada evento epiléptico verdadeiro por decorrer de disfunção cortical —, as atônicas, descritas pelo Goldman-Cecil como perda súbita ou diminuição do tônus muscular persistindo 1 a 2 segundos e envolvendo cabeça, tronco, mandíbula ou músculos dos membros, com risco de queda e traumatismo [2], as tônicas breves e os espasmos epilépticos, de flexão ou extensão dos músculos proximais e do tronco, que ocorrem em salvas e predominam em lactentes. [2,3] NÃO CONFUNDIR — AUSÊNCIA × CRISE FOCAL COM COMPROMETIMENTO DA CONSCIÊNCIA As duas se apresentam como “desligamento”, mas separam-se por atributos típicos: a ausência não é precedida por aura, dura segundos, termina abruptamente e em geral não deixa confusão pós-ictal, com ponta-onda de 3 Hz sobre base normal; a focal com consciência prejudicada pode ser precedida por aura estereotipada, dura mais, cursa com automatismos elaborados e é frequentemente seguida de confusão que pode chegar a uma hora. São padrões típicos, não regras universais — pequenos automatismos podem ocorrer nas ausências. Confundi-las leva a erro de classificação, de exame e de escolha do fármaco. [2,3] 7.4 O fenótipo da crise febril O quadro típico é o de uma criança com crise tônico-clônica generalizada durante doença febril por infecção comum da infância — otite média, infecção respiratória ou gastroenterite —, mais propensa a ocorrer na fase de elevação da temperatura, no primeiro dia da doença. [3] Pelos critérios do PCDT, adotados neste volume, a crise febril simples é generalizada, breve — menos de 15 minutos —, não recorrente em 24 horas, em criança de 6 meses a 5 anos sem déficits neurológicos e sem crises afebris anteriores; a crise febril complexa é focal ou generalizada, prolongada, com duração maior do que 15 minutos, recorrendo mais de uma vez em 24 horas, ou associada a anormalidades neurológicas pós- ictais — mais frequentemente uma paralisia de Todd — ou a déficits neurológicos anteriores. [30] O déficit focal pós-ictal, portanto, integra os critérios de complexidade (Seção 5.6). Epilepsia e Convulsão Febril · Página 40 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 7.5 Síndromes epilépticas da infância Tabela 7.1 — Síndromes epilépticas de início na infância e na adolescência Síndrome e idade de início Fenótipo e EEG Evolução Epilepsia ausência da infância — começa antes dos 12 anos, com pico entre 5 e 7 anos [2] Crises de ausência diárias e frequentes, até 100 por dia, raramente com outros tipos de crise generalizada, em estrutura e função cerebral normais; ponta-onda de 3 Hz em surtos curtos entre as crises e contínua durante elas, deflagrada por hiperventilação [2,3] Autolimitada em cerca de 40% dos casos; a remissão ocorre em geral antes dos 12 anos, mas crises tônico-clônicas generalizadas podem ocasionalmente surgir na adolescência [2] Epilepsia da infância com ondas centrotemporais (rolândica benigna) — 3 a 13 anos [2] Crises focais motoras ou sensoriais quase exclusivamente noturnas, com início facial ou oral, evoluindo com frequência para tônico-clônica generalizada; pontas na região centrotemporal; quase 50% com história familiar de epilepsia [2] Déficits cognitivos e comportamentais presentes durante a epilepsia ativa desaparecem quando a doença cessa; nem sempre exige tratamento e em geral cessa espontaneamente [2] Síndrome de West — espasmos com início entre 3 e 12 meses, pico ao redor dos 5 meses [33] Encefalopatia epiléptica idade- dependente [33]. Tríade: espasmos epilépticos, atraso ou involução do desenvolvimento neuropsicomotor e hipsarritmia [2,33]. Os espasmos duram 0,2 a 2 segundos, ocorrem em clusters e são mais comuns ao despertar [33] Os espasmos aparecem antes dos 12 meses e desaparecem até os 5 anos, com frequência sendo substituídos por outras síndromes, como a de Lennox-Gastaut [2] — o desaparecimento dos espasmos não equivale a resolução da epilepsia nem a normalização do desenvolvimento Síndrome de Lennox- Gastaut — início entre 1 e 7 anos, com pico entre 3 e 5 anos [33] Tríade: crises polimórficas e farmacorresistentes — tipicamente tônicas, atônicas e ausências atípicas —, anormalidades cognitivas e comportamentais, e espícula-onda lenta generalizada (— início em geral na segunda década de vida [2] Crises mioclônicas e tônico-clônicas generalizadas, em homens e mulheres sem problemas cognitivos; a sequência de abalos mioclônicos seguida de crise tônico-clônica é observada em geral nessa síndrome [2] Uma das epilepsias genéticas generalizadas mais comuns; descritas mutações em GABRG1 e em genes de sinalização neuronal [2] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir do Goldman-Cecil [2], do Harrison [3] e do Tratado de Neurologia — Epilepsia na Infância [33]. 7.6 O que a clínica isolada não resolve A semiologia pode sugerir o tipo de crise, auxiliar na lateralização e na localização da rede e levantar a hipótese de uma síndrome epiléptica, mas não define isoladamente se o evento foi epiléptico, se foi provocado nem qual é sua etiologia. Uma crise tônico-clônica generalizada é a expressão comum de agravos metabólicos, tóxicos, traumáticos e isquêmicos — e essas crises provocadas não qualificam para o diagnóstico de epilepsia. [2] O Capítulo 9 organiza essa decisão; o Capítulo 11 separa a crise de seus imitadores. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 42 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 8 — RED FLAGS Red flags são os achados que mudam a urgência, a sequência da investigação ou o local do atendimento. Este capítulo os reúne; os fatores que predizem recorrência após a primeira crise e a resposta ao tratamento aparecem também nos Capítulos 4 e 12, com o recorte próprio de cada um. Figura 8.1 — Sinais de alerta (red flags) em crises epilépticas e febris agudas Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3] e no PCDT de Epilepsia [30]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 43 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 8.1 Red flags da crise aguda Tabela 8.1 — Red flags da crise aguda Red flag Preocupação Por que muda a conduta Crise além de 5 minutos, ou crises subentrantes sem recuperação entre elas Estado de mal epiléptico O estado de mal epiléptico é emergência clínica em que as crises ocorrem contínua ou repetidamente sem recuperação da consciência entre elas; o diagnóstico é estabelecido após 5 minutos nas crises tônico-clônicas generalizadas e após 10 minutos nas focais. [2] Exige tratamento imediato. Rebaixamento que não se recupera após o fim da atividade motora Estado de mal não convulsivo; neuroinfecção; lesão aguda O estado de mal não convulsivo consiste em estado confusional ou de comprometimento mental em pacientes com diagnósticos neurológicos variados, podendo ocorrer de novo em idosos; seu reconhecimento depende de alta suspeição e de EEG. [2] Febre com sinais meníngeos ou quadro de meningoencefalite Infecção do sistema nervoso central A punção lombar é indicada sempre que houver suspeita de infecção do sistema nervoso central, e é obrigatória em pacientes infectados pelo HIV mesmo sem achados sugestivos [2,3]; o PCDT acrescenta a indicação na presença de sinais meníngeos, em uso recente de antibióticos e em crianças com menos de 18 meses com sinais de deterioração clínica. [30] Déficit focal novo, persistente, progressivo ou inexplicado — distinto do déficit pós-ictal transitório compatível com paresia de Todd, que regride em horas Lesão estrutural Prioridade de investigação, com imagem de urgência. [1] Primeira crise com febre, cefaleia persistente, alteração cognitiva ou trauma recente Causa aguda sintomática São as situações em que tomografia ou ressonância de urgência devem ser realizadas. [1] Crise focal tônica, mioclônica ou espasmo focal Lesão estrutural localizada A origem focal desses tipos pode ser manifestação de lesão estrutural e amplia a investigação; exames de imagem são solicitados na suspeita de causa estrutural, e o diagnóstico de uma lesão subjacente pode definir mais precocemente a refratariedade ao tratamento medicamentoso. [30] Espasmos no lactente com estagnação ou regressão do desenvolvimento Síndrome de West A tríade de espasmos epilépticos, atraso ou involução do desenvolvimento neuropsicomotor e hipsarritmia caracteriza uma encefalopatia epiléptica idade-dependente [33]; o impacto sobre o Epilepsia e Convulsão Febril · Página 44 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Red flag Preocupação Por que muda a conduta desenvolvimento torna o pronto reconhecimento imperativo (Tabela 7.1). Estado de mal como apresentação, exame anormal, paralisia de Todd, história familiar significativa ou EEG anormal Alto risco de recorrência após primeira crise Os fatores em geral aceitos como associados à recorrência das crises incluem exame neurológico anormal, crise que se manifesta como estado de mal epiléptico, paralisia de Todd pós-ictal, história familiar significativa de crises e EEG anormal. [3] O Tratado de Neurologia enumera conjunto próximo, mas não idêntico — etiologia estrutural, alterações do exame neurológico, predomínio das crises durante o sono e atividade epileptiforme ao EEG (Tabela 4.1) [1] —, e a presença de um ou mais deles sustenta a discussão de tratamento após a primeira crise (Capítulo 12). Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3], no PCDT de Epilepsia [30] e no Tratado de Neurologia [33]. ALERTA CRÍTICO — A DURAÇÃO DA CRISE É VARIÁVEL BIOLÓGICA, NÃO ADMINISTRATIVA O estado de mal epiléptico é definido pela falha dos mecanismos de término das crises ou pelo desencadeamento de mecanismos que levam a crises anormalmente prolongadas, a partir do ponto de tempo t1; a partir do ponto t2 há risco de consequências a longo prazo, incluindo morte neuronal, lesão neuronal e alteração das redes. [30] O Goldman-Cecil fixa esses limiares: o diagnóstico é estabelecido após 5 minutos nas crises tônico-clônicas generalizadas e após 10 minutos nas focais, e consequências neurológicas duradouras não são prováveis a menos que o quadro persista por 30 minutos nas tônico-clônicas ou 60 minutos nas focais sem preservação da consciência. [2] Cronometrar não é formalidade: é decisão terapêutica. 8.2 Na criança com crise em vigência de febre É o cenário em que a lista exige mais rigor, porque o diagnóstico mais provável — crise febril simples — é também o mais fácil de assumir sem prova. Note-se que o volume evita o termo “benigno”, substituído nas classificações atuais por autolimitada e farmacorresponsiva (Seção 5.4). • Idade fora da faixa de 6 meses a 5 anos, crises afebris prévias ou déficits neurológicos anteriores: a criança não se enquadra no conceito de crise febril simples, por definição, e o evento exige outra explicação (Capítulo 11). [30] • Idade inferior a 18 meses com sinais de deterioração clínica: o PCDT indica a punção lombar nessa situação, ao lado dos sinais meníngeos e do uso recente de antibióticos. [30] A indicação continua sendo a suspeita clínica de infecção do sistema nervoso central — a idade isolada, em criança com exame normal, recuperação completa e sem sinais de neuroinfecção, não a determina. • Qualquer critério de complexidade: crise focal, duração maior do que 15 minutos, recorrência mais de uma vez em 24 horas, anormalidade neurológica pós-ictal — mais frequentemente paralisia de Todd — ou déficit neurológico anterior. A criança com crise febril complexa deve ser internada. [30] • Suspeita de doença cerebral aguda: na crise febril complexa, o PCDT recomenda exames laboratoriais, de imagem, EEG e punção lombar na busca de uma causa; na crise febril simples, esses exames não são recomendados de rotina. [30] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 45 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril • Duração prolongada: séries de crianças com estado de mal epiléptico febril relatam sinal delesão hipocampal aguda à ressonância em uma minoria dos casos (Seção 6.6). [2] O limiar de 30 minutos para caracterizar o estado de mal epiléptico febril não foi localizado nas fontes desta base e permanece pendência documental (Seção 5.6). 8.3 Sinais de complexidade — quando encaminhar ao especialista Não são emergências, mas definem o encaminhamento a centro terciário: epilepsia não controlada apesar de dois fármacos anticrise adequadamente escolhidos e utilizados em esquemas adequados de doses, em monoterapia ou em combinação, o que caracteriza refratariedade ao tratamento medicamentoso [30]; efeitos adversos intoleráveis; lesão focal unilateral compatível com a clínica, situação em que a presença de lesão cerebral é forte preditor de refratariedade à monoterapia [30]; encefalopatia epiléptica com atraso, regressão ou platô do desenvolvimento; deterioração do comportamento, da linguagem ou da aprendizagem; e incerteza quanto ao diagnóstico, à causa, ao tipo de crise ou à síndrome. O encaminhamento tem, ele próprio, valor diagnóstico: o PCDT registra que 20% a 30% dos pacientes encaminhados a centros especializados em epilepsia não têm crises epilépticas — a chamada pseudorrefratariedade —, de modo que a reavaliação diagnóstica precede a escalada terapêutica. [30] 8.4 O que não é red flag Recuperação completa e rápida não é sinal de alarme — define apenas que o evento foi breve, e tampouco autoriza encerrar a investigação. História familiar de epilepsia, isoladamente, é fator endógeno predisponente (Tabela 4.1), não conduta de emergência. [3] Convém lembrar que os exames de sangue solicitados na crise aguda — eletrólitos, glicose, cálcio e magnésio, provas de função hepática e renal, hemograma e rastreamento toxicológico — revelam anormalidades em até 15% dos pacientes, mas são inespecíficos [2]: um resultado normal não encerra a investigação, assim como um resultado alterado não estabelece, isoladamente, a causa. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 46 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 9 — DIAGNÓSTICO O diagnóstico em epilepsia é clínico. Em muitos casos ele se baseia unicamente em critérios clínicos, porque o exame físico e os exames laboratoriais costumam ser normais. [3] Este capítulo organiza o raciocínio; os métodos complementares e o que cada um responde estão no Capítulo 10, e a separação em relação aos imitadores, no Capítulo 11. Figura 9.1 — Raciocínio diagnóstico em epilepsia e crise febril Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Tratado de Neurologia [1], no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3] e no PCDT de Epilepsia [30]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 47 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 9.1 A sequência do raciocínio EVENTO PAROXÍSTICO RELATADO ↓ 1. FOI REALMENTE UMA CRISE EPILÉPTICA? — o primeiro objetivo de toda a avaliação [3] ↓ 2. FOI PROVOCADA (sintomática aguda) OU NÃO PROVOCADA? ↓ 3. QUAL O TIPO DE CRISE? — focal · generalizada · desconhecida quanto a focal ou generalizada (Capítulo 5) ↓ 4. HÁ CRITÉRIO OPERACIONAL DE EPILEPSIA? — se sim, qual o tipo de epilepsia e a síndrome? ↓ 5. QUAL A ETIOLOGIA? — e o que dela decorre para o tratamento e o prognóstico ↓ 6. QUAL O RISCO DE RECORRÊNCIA? — decide se há indicação de tratar ↓ 7. HÁ NECESSIDADE DE TRATAMENTO? — e com que objetivo (Capítulo 12) A ordem importa. Inverter os passos — classificar antes de confirmar que houve crise, ou tratar antes de excluir causa provocadora — está na origem dos dois erros mais custosos da área: rotular como epiléptico quem não é e deixar de tratar a causa aguda de quem é. 9.2 A testemunha faz parte do exame As crises ocorrem, com frequência, fora do ambiente hospitalar, e o paciente pode não ter consciência das fases ictal e pós-ictal imediata; por isso as testemunhas do evento devem ser questionadas cuidadosamente. [3] Como os pacientes têm recordação limitada ou nenhuma, o relato de terceiros é indispensável. [2] Três elementos essenciais determinam se o episódio foi uma crise epiléptica: [2] • O contexto clínico — anamnese, história familiar e circunstâncias em que o episódio ocorreu. História familiar forte de crises epilépticas e evento após privação de sono apoiam crise epiléptica; história familiar de síncope e evento ocorrido com a pessoa em pé ou sob estímulo doloroso favorecem síncope. • Os gatilhos específicos ou fatores deflagradores — eventos ocorridos com exposição a luzes brilhantes ou piscantes, por exemplo, apoiam o diagnóstico de crise epiléptica. • A descrição clínica detalhada, nos quatro tempos estabelecidos na Seção 7.1. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 48 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Tabela 9.1 — Anamnese do evento em quatro momentos e o que cada resposta decide Momento do evento O que perguntar O que a resposta decide Antes Houve sintoma de alerta? Qual? Era estereotipado? O que a criança fazia? Havia febre, doença aguda, privação de sono, jejum, medicação nova? Aura indica início focal e, portanto, anormalidade focal a investigar [2]; contexto agudo levanta crise provocada (Seção 3.1). Durante Qual o primeiro sinal? Um lado do corpo iniciou antes? Houve desvio ocular ou cefálico? Havia responsividade? Quanto tempo durou — cronometrado, não estimado? Define tipo de crise e lateralidade (Capítulo 5); duração define estado de mal (Seção 8.1). [1,5] Como terminou O término foi gradual ou abrupto? Houve recuperação imediata ou progressiva? Recuperação imediata sem confusão sugere ausência ou evento não epiléptico; recuperação progressiva sugere crise com comprometimento cortical extenso. [2,3] Depois Houve confusão? Por quanto tempo? Restou algum déficit — fala, força, campo visual? Houve cefaleia, mialgia, sonolência? Déficit pós-ictal indica a rede mais recrutada e, se focal, torna a crise focal — na criança febril, torna-a complexa (Seções 6.4 e 5.5). [3] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base nas referências [1–3,5]. 9.3 Anamnese dirigida: predisposição, epileptogenicidade e gatilho A anamnese deve concentrar-se nos fatores de risco e eventos predisponentes, e as fontes organizam essa busca em três blocos: [3] • Indícios de predisposição — história de convulsões febris, história familiar de convulsões e, de importância particular, auras ou crises breves anteriores não reconhecidas como tais. Esse último item é o que mais frequentemente converte uma “primeira crise” em uma epilepsia já em curso, e só aparece quando ativamente perguntado. • Fatores epileptogênicos — traumatismo craniano prévio, acidente vascular encefálico, tumor ou infecção do sistema nervoso central. Na criança, a avaliação cuidadosa dos marcos do desenvolvimento pode fornecer evidência de doença subjacente do SNC. [3] • Fatores desencadeantes — privação de sono, doenças sistêmicas, desequilíbrios eletrolíticos ou metabólicos, infecção aguda, fármacos que reduzem o limiar convulsivo e uso de álcool ou substâncias ilícitas. [3] Nos pacientes com epilepsia já conhecida, o objetivo da avaliação muda: passa a ser identificar a causa subjacente e os fatores precipitantes e determinar a adequação da terapia atual. [3] 9.4 O que o exame físico decide A técnica do exame e os achados que ele produz estão na Seção 7.1. Aqui interessa apenas o que cada resultado decide. Déficit focal novo, persistente ou inexplicado ao exame deixa de ser achado e passa a ser red flag: aumenta a probabilidade de anormalidade focal, estrutural ou funcional, e torna a investigação prioritária. Distingue-se do déficit pós-ictal transitório (Seção 8.1). [1,2] Déficit pós-ictal que regride indica a rede recrutada e favorece origem focal, com repercussão na classificação da crise (Capítulo 5) e, na criança febril, na caracterização doevento como complexo (Seção 5.6). [3,30] Achados sistêmicos — lesões cutâneas neurocutâneas, organomegalia, assimetria de membros — deslocam a hipótese Epilepsia e Convulsão Febril · Página 49 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril etiológica e direcionam a investigação do Capítulo 10, em vez de ampliá-la indiscriminadamente. [3] Atraso ou regressão dos marcos do desenvolvimento modifica simultaneamente a suspeita sindrômica, a indicação de neuroimagem e a de encaminhamento ao especialista (Seção 8.3). [3,5] E exame inteiramente normal não afasta o diagnóstico: em muitos casos ele se baseia unicamente em critérios clínicos, porque exame físico e exames laboratoriais costumam ser normais. [3] 9.5 Aplicar o critério: quando o diagnóstico é de epilepsia Confirmada a crise e afastado o caráter provocado, aplica-se a definição operacional já estabelecida na Definição Inicial: pelo menos duas crises não provocadas ou reflexas separadas por mais de 24 horas; uma crise não provocada ou reflexa com risco de recorrência de pelo menos 60% nos próximos 10 anos; ou diagnóstico de uma síndrome epiléptica. [1,2,30] Dois esclarecimentos práticos que as fontes fazem questão de registrar: • Crises que recorrem dentro das primeiras 24 horas — subentrantes ou em estado de mal — não satisfazem o critério de duas crises, que exige intervalo maior que 24 horas. [30,5] • O risco de recorrência não é conhecido na maioria dos casos; o valor de 60% foi escolhido porque esse é o risco de nova crise em quem já teve duas crises não provocadas (60% a 90%), enquanto o risco após uma única crise, em 5 anos, é de cerca de 50%. [4] O Harrison registra estimativas que variam de 31% a 71% nos primeiros 12 meses após a crise inicial, incerteza que decorre das diferenças de tipo de crise e etiologia entre os estudos. [3] Também aqui se define o oposto: a epilepsia resolvida — indivíduos que tiveram síndrome epiléptica idade-dependente e já ultrapassaram a idade vulnerável, ou que permaneceram livres de crises por pelo menos 10 anos, sem medicação nos últimos 5 anos. [1,5] 9.6 A primeira crise não provocada A primeira crise não provocada é a situação em que a sequência inteira precisa ser percorrida em uma única consulta, e por isso merece roteiro próprio. Ela não estabelece, por si, diagnóstico de epilepsia: este depende do risco de recorrência, que é o que a avaliação busca estimar. EVENTO → CONFIRMAÇÃO DE QUE FOI CRISE → EXCLUSÃO DE MIMETIZADORES ↓ AVALIAÇÃO CLÍNICA → EEG → NEUROIMAGEM QUANDO INDICADA ↓ LABORATÓRIO CONFORME O CONTEXTO ↓ ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO → DECISÃO TERAPÊUTICA A confirmação de que houve crise e a exclusão dos mimetizadores vêm primeiro, e são clínicas — o percurso está no Capítulo 11. A avaliação clínica busca sinais de causa aguda e de lesão prévia. O eletroencefalograma e a neuroimagem entram para estratificar risco, não para confirmar que houve crise: seus limites estão no Capítulo 10. O laboratório é dirigido pelo contexto — glicemia, eletrólitos, função renal e hepática, exame toxicológico conforme a suspeita. A avaliação cardiológica do evento paroxístico — incluindo eletrocardiograma na suspeita de origem cardíaca — não está descrita nas fontes desta base e permanece como pendência documental; o percurso de separação entre crise e síncope, tal como as fontes o apresentam, está no Capítulo 11. Ao final, a estratificação de risco reúne os fatores que as fontes descrevem: o Harrison lista exame neurológico anormal, crise que se manifesta como estado de mal epiléptico, paralisia de Todd pós-ictal, história familiar significativa de crises e EEG anormal [3]; o Tratado de Neurologia acrescenta a etiologia Epilepsia e Convulsão Febril · Página 50 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril estrutural e o predomínio das crises durante o sono [1]. São os mesmos fatores reunidos na Tabela 4.1, e a presença de um ou mais deles eleva a probabilidade de recorrência e sustenta a decisão de tratar após crise única, discutida no Capítulo 12. 9.7 Diagnóstico da crise febril O diagnóstico é essencialmente clínico e as fontes são explícitas: uma boa história e um bom exame físico são capazes de realizar o diagnóstico de crise febril, e os esforços devem se dirigir a encontrar e tratar a causa da febre, sempre guiados pela clínica. [5] Disso decorrem três decisões de contenção, tão importantes quanto os critérios: • A coleta de liquor não é recomendada de rotina: ela é indicada quando há suspeita clínica de meningite ou encefalite. Abaixo de 18 meses, o limiar para essa suspeita é mais baixo, porque os sinais meníngeos podem estar ausentes ou mascarados — mas a decisão permanece clínica, e não etária. [5] • Tomografia e ressonância não são recomendadas de rotina, exceto quando há suspeita de doença cerebral aguda. [5] • O eletroencefalograma não é indicado nos casos de crise febril. [5] Na criança, também não é necessário investigar com imagem uma crise convulsiva febril. [4] O que sustenta essa contenção não é a raridade das causas graves, mas o fato de que o diagnóstico exige preencher critérios positivos — faixa etária, ausência de infecção intracraniana e de distúrbio metabólico, ausência de diagnóstico prévio de epilepsia (Seção 5.6) — e não apenas a coincidência entre febre e convulsão. Quando um desses critérios não se cumpre, a investigação deixa de ser opcional (Capítulo 8). Há ainda um componente do cuidado que as fontes tratam como parte do diagnóstico: acalmar os pais. As perguntas mais frequentes são invariáveis — "É epilepsia?", "Vai acontecer de novo?", "Causa algum dano cerebral?", "O que posso fazer para parar da próxima vez?" — e é importante deixar claro que, na forma simples, trata-se de um evento benigno e sem risco de sequelas. [5] ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Convulsão febril em pediatria: aula-resumo (em português) Assista em: https://www.youtube.com/live/DDKZsRSDz8g 9.8 O que o EEG acrescenta — e o que ele não resolve Quando, após a avaliação clínica, houver suspeita de crise epiléptica ou de epilepsia, considerar o eletroencefalograma para apoiar a classificação e a estratificação de risco. Não é exame universal para todo evento convulsivo, e não serve para excluir epilepsia. [3] Mas o exame precisa ser interpretado dentro de limites bem definidos: • Um EEG normal não afasta o diagnóstico de epilepsia. [1] Mesmo em paciente com epilepsia confirmada, o EEG interictal inicial de rotina pode ser normal em até 60% dos casos — razão pela qual, em muitos casos, o EEG não estabelece o diagnóstico. [2,3] O rendimento aumenta com a repetição: anormalidades epileptiformes ocorrem em mais de 80% dos indivíduos com epilepsia focal se três ou mais EEG forem realizados. [2] A ausência de atividade eletrográfica não exclui crise, porque crises focais podem originar-se de região cortical profunda ou das superfícies mesial e inferior do cérebro, inacessíveis aos eletrodos de escalpo. [2,3] • Um EEG alterado não fecha o diagnóstico. A atividade epileptiforme não é específica de epilepsia, embora seja muito mais prevalente em pacientes com epilepsia do que em indivíduos normais [3]; e, Epilepsia e Convulsão Febril · Página 51 https://www.youtube.com/live/DDKZsRSDz8g https://www.youtube.com/live/DDKZsRSDz8g Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril mesmo diante de atividade epileptiforme inequívoca, o achado não é suficiente para estabelecer o diagnóstico sem correlação com o quadro clínico. [1] • O que o EEG auxilia a decidir é a classificação, que é clínico-eletrográfica e integra semiologia, traçado e contexto: ponta-onda generalizada episódica aponta epilepsia de ausência típica e outras síndromes generalizadas; descargas epileptiformes focais interictais sustentam distúrbio focal conforme sua localização — e essa distinção orienta diretamente a escolha do fármaco. [3] • Quando o registroé ictal, o diagnóstico se estabelece com clareza: atividade rítmica repetitiva anormal, com início e fim distintos, durante o evento clínico. [3] Durante a crise tônico-clônica generalizada o traçado está tipicamente alterado, embora artefatos musculares possam prejudicar a leitura. [3] PRINCÍPIO CENTRAL — O EEG CLASSIFICA; QUEM DIAGNOSTICA É A HISTÓRIA A pergunta “é epilepsia?” é respondida pela anamnese com testemunha; a pergunta “que epilepsia é esta?” é respondida pelo EEG; e a pergunta “por quê?” é respondida pela investigação etiológica (Capítulo 10). Solicitar EEG para decidir se houve crise inverte a lógica e produz os dois erros simétricos: tratar um traçado alterado em quem nunca convulsionou e descartar epilepsia em quem convulsionou com traçado normal. [1,3] 9.9 Quando a investigação precisa ser imediata A investigação urgente não depende do diagnóstico sindrômico, e sim dos achados reunidos no Capítulo 8. Em síntese operacional: primeira crise com déficit neurológico focal, febre, cefaleia persistente, alterações cognitivas ou trauma craniano recente exige exame de imagem de urgência [1]; suspeita de meningite ou encefalite torna a punção lombar indicada [3]; e exames de sangue de rotina estão indicados para identificar as causas metabólicas mais comuns — anormalidades de eletrólitos, glicose, cálcio, magnésio e doenças hepática ou renal —, com rastreamento toxicológico nos grupos de risco, principalmente quando não se identifica fator precipitante claro. [3] O detalhamento de cada método está no Capítulo 10. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 52 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 10 — EXAMES COMPLEMENTARES Nenhum exame deste capítulo diagnostica epilepsia sozinho. A regra que organiza todos eles é a formulada pela referência brasileira: o primeiro ponto antes de solicitar um exame é perguntar o que se espera dele. [5] 10.1 Cada método responde a uma pergunta diferente Tabela 10.1 — Método complementar, pergunta clínica correspondente e limitação central Método Pergunta que responde Limitação central EEG de rotina Que tipo de crise é esta? Há atividade epileptiforme que sustente a classificação e oriente o fármaco? Sensibilidade baixa após primeira crise (25% a 56%); não exclui nem confirma epilepsia isoladamente. [3,5] EEG de urgência Há estado de mal não convulsivo em quem não retornou ao estado basal? Exige disponibilidade imediata e interpretação especializada. [5] Vídeo-EEG prolongado Este evento, quando ocorre, é epiléptico? Requer captura do evento; exame de centro especializado. [3] Tomografia de crânio Há lesão estrutural aguda que exija conduta imediata? Menor sensibilidade para lesões sutis; usa radiação. [1,5] Ressonância magnética (protocolo HARNESS) Há lesão potencialmente epileptogênica? Menor disponibilidade e maior custo; lesões sutis passam despercebidas fora do protocolo adequado. [5] Exames laboratoriais Esta crise foi provocada por causa metabólica ou tóxica? Normalidade não afasta crise; não substitui a história. [3] Punção lombar Há infecção do sistema nervoso central? Indicada por suspeita clínica, não por rotina. [3,5] Testes genéticos Qual é a etiologia, quando ela permanece indefinida? Custo e disponibilidade limitados; rendimento muito variável conforme o cenário. [5] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Tratado de Neurologia [1], no Harrison [3] e na referência brasileira de epilepsia prática [5]. 10.2 Eletroencefalograma Quando solicitar O EEG faz parte da investigação de qualquer evento suspeito de crise epiléptica e está rotineiramente indicado após uma primeira crise não provocada, porque auxilia no diagnóstico, na classificação do tipo de crise, na caracterização das alterações interictais e na escolha do tratamento. [5] Quando, após a avaliação clínica, houver suspeita de crise epiléptica ou de epilepsia, considerar o eletroencefalograma para apoiar a classificação e a estratificação de risco — não é exame universal para todo evento convulsivo, e não serve para excluir epilepsia. [3] O inverso também é regra: o EEG de rotina deve ser evitado em quadros sem suspeita de epilepsia, como síncopes, pela possibilidade de interpretação exagerada [5] — e não é indicado nos casos de crise febril. [5] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 53 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril O que aumenta o rendimento Como as crises são infrequentes e imprevisíveis, empregam-se procedimentos ativadores durante o registro: hiperventilação por 3 a 4 minutos, estimulação fótica, sono e privação de sono na noite anterior. [3] O rendimento aumenta com registro em sono, privação de sono e prolongamento da duração. [5] Os padrões mínimos de qualidade incluem duração superior a 20 minutos, ao menos 19 eletrodos pelo sistema 10-20, canal de eletrocardiograma, fotoestimulação, hiperpneia — salvo contraindicação — e laudo por profissional com formação específica em neurofisiologia; exames sem qualidade técnica adequada não devem ser considerados, sendo uma das principais causas de diagnóstico incorreto de epilepsia. [5] A repetição também aumenta o ganho, mas não constitui regra fixa de número de exames: quando a suspeita clínica persiste apesar de um traçado normal, repetir o EEG — de preferência com registro em sono ou monitorização prolongada — aumenta o rendimento diagnóstico. Se a suspeita clínica é baixa, repetir apenas amplia a chance de achado incidental e de diagnóstico incorreto. Os ganhos progressivos descritos abaixo vêm de séries de pacientes com suspeita mantida, e não se aplicam a quem foi investigado e teve o diagnóstico afastado. [5] Após uma primeira crise, a proporção de exames com anormalidade epileptiforme cresce de 39% no primeiro para 49% no segundo e 68% no terceiro; em pacientes já com diagnóstico de epilepsia, de 53% para 88% até o quarto exame; e nas epilepsias generalizadas, de 67% a 96%. [5] Em registros prolongados, o tempo médio até a primeira anormalidade foi de 316 minutos — 44% detectados em 4 horas, 58% em 8 horas, 85% em 24 horas e 95% em 48 horas. [5] Por que o EEG falha A explicação é anatômica e quantitativa: para que uma descarga seja captada no escalpo, é preciso que uma área significativa de córtex — estimada em 6 a 10 cm² — seja ativada e esteja próxima o suficiente dos eletrodos. Regiões profundas, como a base do lobo frontal e a fissura inter-hemisférica, dificilmente são registradas, e por isso algumas crises focais não têm correlato no EEG de superfície. [5] CUIDADO COM O EEG — OS CINCO NÚMEROS QUE EVITAM UM DIAGNÓSTICO ERRADO Não exclui epilepsia: sensibilidade de 25% a 56% após primeira crise; mais de 40% das pessoas com epilepsia têm ao menos um EEG normal e mais de 10% nunca apresentam atividade epileptiforme. Não confirma epilepsia: em populações sem epilepsia, mais de 10% apresentam alterações inespecíficas, e até 1% dos adultos normais e até 4% das crianças normais têm atividade epileptiforme. A interpretação incorreta de variantes benignas e artefatos é causa frequente de diagnóstico incorreto de epilepsia, em geral por falta de treinamento específico. [5] EEG de urgência Há indicação de EEG de urgência quando o paciente apresenta crise e não retorna ao estado basal, ou apresenta sinais focais — hemiparesia, afasia, déficit de campo visual — ou alteração do estado mental, para descartar estado de mal não convulsivo e padrões rítmicos e periódicos do continuum ictal- interictal, ambos exigindo tratamento adicional. [5] Já o paciente que teve crise e retornou ao estado basal não tem indicação de exame na urgência: pode realizar EEG ambulatorial para estratificar risco de recorrência. [5] O que o EEG acrescenta ao prognóstico Em geral, EEG normal significa melhor prognóstico, enquanto ritmo de base anormal ou atividade epileptiforme profusa sugere prognósticoreservado. [3] Após uma primeira crise não provocada, a Epilepsia e Convulsão Febril · Página 54 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril presença de alterações epileptiformes aumenta o risco de recorrência — e é um dos elementos que permitem diagnosticar epilepsia já no primeiro evento (Seção 9.5). [5] Alterações localizadas da atividade de base chamam atenção para disfunção ou lesão focal e associam-se a maior risco de crises; alterações difusas da base associam-se a menor risco. [5] Estabelecido o diagnóstico, repetir o EEG é desnecessário, salvo se houver mudança de tratamento em questão: a eficácia da terapia é guiada clinicamente. [5] 10.3 Neuroimagem Tomografia: o exame da urgência A tomografia é o exame de imagem ideal para urgências por estar disponível na maioria dos serviços e ter custo relativamente baixo, detectando grande parte dos tumores e das lesões estruturais graves. [1] Exames de urgência devem ser realizados em pacientes com primeira crise acompanhada de déficits neurológicos focais, febre, cefaleia persistente, alterações cognitivas ou trauma craniano recente. [1] Ressonância: o exame da etiologia De forma geral, recomenda-se ressonância magnética na investigação da epilepsia, com as exceções detalhadas adiante. [5] O momento e a urgência variam conforme o cenário: • Após uma primeira crise, com tomografia normal: a ressonância deve ser feita de forma urgente se houver achados focais no exame neurológico, alteração de consciência ou cognitiva, ou sinais de alarme na história. A chance de encontrar uma lesão potencialmente epileptogênica após uma primeira crise é de aproximadamente 23% [5] — e esse achado é um dos fatores de risco que permitem diagnosticar epilepsia já no primeiro evento, por elevarem a probabilidade de recorrência a 60% ou mais em dez anos (Seção 9.5). [5] • Crises com achados muito focais — clonias focais, crise típica do lobo temporal — apontam para lesão estrutural, que deve ser descartada pelas implicações terapêuticas, especialmente neoplasias. [5] • Epilepsia recém-diagnosticada: ressonância não urgente, para compreensão etiológica e implicações prognósticas; em crises focais, a indicação é formal. [5] • Quando se pode prescindir: quadros típicos de epilepsia generalizada genética — mioclônica juvenil, ausência da infância e ausência juvenil — e epilepsias focais autolimitadas da infância com características clínicas e eletrográficas específicas, sobretudo a epilepsia autolimitada com pontas centrotemporais, desde que respondam ao tratamento. [5] • Na criança menor de 2 anos, recomenda-se investigação pelo maior risco de lesões estruturais — excluídas as crises febris simples. [5] O protocolo importa tanto quanto a indicação. Os protocolos tradicionais de crânio não contemplam sequências dedicadas aos hipocampos nem a alterações corticais sutis; a ILAE recomenda o protocolo HARNESS, com cortes 3D em T1 e FLAIR volumétrico de alta resolução (1 × 1 × 1 mm) e corte coronal T2 de alta resolução perpendicular ao eixo dos hipocampos, complementado por T1 com gadolínio e sequência sensível a sangue e calcificações quando há suspeita de tumor, malformação vascular ou processo infeccioso. [5] O contraste não é obrigatório na investigação de rotina. [5] Duas consequências práticas fecham o tema. Primeira: nem toda alteração encontrada é a causa da epilepsia — é indispensável correlacionar com dados clínicos e neurofisiológicos. [5] Segunda: repetir o exame com protocolo otimizado, sobretudo na epilepsia farmacorresistente, evidencia lesão em 30% a 65% dos casos previamente laudados como normais, chegando a 70% com pós-processamento em Epilepsia e Convulsão Febril · Página 55 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril centros especializados. [5] Em crianças cuja epilepsia começa no primeiro ano de vida, a mielinização incompleta pode mascarar displasia cortical focal, e repetir o exame mais tarde é útil. [5] 10.4 Exames laboratoriais e punção lombar Exames de sangue de rotina estão indicados para identificar as causas metabólicas mais comuns de crises: anormalidades de eletrólitos, glicose, cálcio ou magnésio e doenças hepática ou renal. O rastreamento de toxinas no sangue e na urina deve ser solicitado nos grupos de risco, principalmente se não for identificado um fator precipitante claro. [3] A punção lombar é indicada diante de qualquer suspeita de meningite ou encefalite [3], e a coleta de liquor torna-se obrigatória quando há suspeita de infecção ou sinais que sugiram causa autoimune. [5] O Harrison acrescenta que ela é obrigatória em todos os pacientes infectados pelo HIV, mesmo sem sinais ou sintomas sugestivos de infecção, e que a pesquisa de autoanticorpos no soro e no liquor deve ser considerada em epilepsias de curso muito agressivo associadas a sintomas psiquiátricos e distúrbios cognitivos. [3] Na criança com crise febril, essas indicações têm recorte próprio, já apresentado nas Seções 8.2 e 9.6: liquor indicado diante de suspeita clínica de meningite ou encefalite, e não de rotina; abaixo de 18 meses o limiar dessa suspeita é mais baixo, porque os sinais meníngeos podem estar mascarados. [5] Eletrocardiograma O eletrocardiograma aparece nas fontes desta base em dois contextos delimitados: como canal dedicado entre os padrões mínimos de qualidade do EEG [5] e como exame a solicitar quando há histórico de doença cardíaca. [5] A recomendação de eletrocardiograma na avaliação de todo evento transitório com perda de consciência, bem como a discussão de bradiarritmias, bloqueios atrioventriculares, síndromes de QT longo e de Brugada e de assistolia ictal, não está descrita nas fontes autorizadas e permanece como pendência documental — não deve ser apresentada como recomendação do volume. A separação clínica entre crise e síncope, tal como as fontes a apresentam, está na Seção 11.1: o relato de mal-estar ou pressão baixa seguido de escurecimento visual, a ausência habitual de manifestações motoras — raramente a síncope se manifesta como síncope convulsiva —, a duração de vários minutos e o período pós-ictal curto ou ausente. [5] 10.5 Testes genéticos A recomendação mais ampla é que toda epilepsia sem etiologia definida pode ser potencialmente genética, independentemente da idade, e mereceria consideração para testagem. [5] Como o custo e a disponibilidade impõem racionalização, as fontes concentram a indicação em quatro grupos: encefalopatias epilépticas; epilepsia plus — com deficiência intelectual, autismo, regressão cognitiva, características dismórficas ou outras anomalias congênitas; epilepsias com história familiar sugestiva; e epilepsia farmacorresistente sem lesão ou etiologia definida. [5] O rendimento diagnóstico varia enormemente conforme o cenário: séries relatam cerca de 17% nas encefalopatias epilépticas, 5% nas epilepsias generalizadas genéticas (denominadas idiopáticas na fonte) e 2% nas epilepsias focais não lesionais — valores que dependem do painel utilizado, da idade e do fenótipo. [5] Dois conceitos precisam acompanhar a solicitação, ambos já antecipados no Capítulo 3: muitos fenótipos se associam à mesma alteração genética, e uma mesma variante pode produzir apresentações clínicas muito diferentes; e muitas epilepsias decorrem de mutação de novo, não Epilepsia e Convulsão Febril · Página 56 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril presente nos pais — o que quebra o conceito arraigado de que seria necessária história familiar ou consanguinidade para justificar suspeita de causa genética. [5] 10.6 A sequência que evita exames inúteis HOUVE CRISE? — decidido pela história com testemunha (Capítulo 9)↓FOI PROVOCADA? — glicemia, eletrólitos, cálcio, magnésio, função hepática e renal, toxicológico se indicado↓HÁ SUSPEITA DE INFECÇÃO OU CAUSA AUTOIMUNE? — liquor↓HÁRED FLAG? — tomografia de urgência (Capítulo 8)↓QUAL O TIPO DE CRISE? — EEG com procedimentos ativadores, repetido se normal↓QUAL A ETIOLOGIA? — ressonância com protocolo HARNESS; teste genético nos quatro cenários de maior rendimento↓O EXAME MUDA A CONDUTA? — se não muda, não deve ser pedido Epilepsia e Convulsão Febril · Página 57 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 11 — DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico diferencial em epilepsia é feito em três perguntas encadeadas, e não em uma lista de doenças. Primeiro: o evento foi realmente uma crise epiléptica, ou um de seus imitadores? Segundo: se foi crise, foi provocada ou não? Terceiro — e este é o eixo do problema deste volume: quando há febre, a febre explica a crise, apenas a acompanha, ou apenas a deflagrou em quem já tinha epilepsia? 11.1 Primeira pergunta: foi crise epiléptica? A primeira pergunta que os médicos recebem é se os episódios são realmente crises epilépticas [2], e a primeira tarefa do clínico é determinar se o evento tem as características de uma crise e não de um dos seus muitos imitadores. [1] As condições que mais frequentemente lembram crises são síncope, ataque isquêmico transitório, enxaqueca, transtornos do movimento e crises não epilépticas psicogênicas [2], além de transtornos do sono, distúrbios metabólicos e transtornos psiquiátricos. [2] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 58 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Tabela 11.1 — Crise epiléptica × síncope × crise funcional: achados que deslocam a probabilidade Característica Crise epiléptica Síncope Crise funcional (não epiléptica psicogênica) Gatilhos Raramente [5] Frequentes — ortostatismo prolongado, venopunção, dor, estresse emocional, micção, Valsalva [2,5] Frequentes — situações de conflito [5] Pródromo Medo, indisposição; aura estereotipada quando focal [3,5] Sudorese, náuseas, turvação visual, tunelamento da visão [2,5] Sonolência não específica [5] Queda Mais comumente tônica [5] Mais comumente flácida, com palidez [2,5] “Desaba”, frequentemente com movimentos de apoio e instinto de proteção [5] Olhos Frequentemente abertos durante o evento, podendo haver desvio para cima ou para o lado [5] Frequentemente abertos, com desvio ocular para cima [5] Fechamento ocular é mais frequente, por vezes com flutter palpebral [5] Fenômeno motor Quando presente, assume padrões variados conforme a rede recrutada — pode ser rítmico e com propagação anatômica, mas a presença, a ausência ou a distribuição do fenômeno motor não determinam isoladamente a natureza epiléptica nem a classe da crise (Capítulo 5) [5,24] Abalos mioclônicos multifocais, arrítmicos, por menos de 30 segundos [2,5] Curso flutuante, movimentos fora de fase, laterolaterais de cabeça, pélvicos, opistótono, propagação não anatômica [5] Duração Um a dois minutos [5] Menos de 30 segundos [5] Mais de três a cinco minutos, podendo durar horas [5] Laceração de língua Frequente — lateral [5] Rara [5] Rara — quando ocorre, na ponta da língua [5] Incontinência Frequente [5] Ocasional [2,5] Rara [5] Pós-ictal Confusão e sonolência [5] Orientação rápida, sem confusão [2,5] Sem confusão; sonolência “como se estivesse despertando” [5] Estereotipia Eventos estereotipados entre si [5] Estereotipados quanto ao contexto [2] Mudanças frequentes na semiologia entre os eventos [1] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir de Epilepsia Prática/LBE [5], Goldman-Cecil [2] e Tratado de Neurologia [1]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 59 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril NENHUM DISCRIMINADOR DECIDE SOZINHO Cada linha da tabela desloca a probabilidade; nenhuma a fecha. Olhos fechados durante o evento são mais frequentes na crise funcional e mais raros na epiléptica, mas ocorrem em ambas. Mordedura lateral de língua favorece fortemente crise epiléptica, e sua ausência não a exclui — a maioria dos pacientes com crise não morde a língua. Duração, tipo de movimento e confusão pós-ictal comportam-se do mesmo modo. A leitura correta é somar achados, não hierarquizá-los: é a combinação de gatilho, pródromo, semiologia, duração e recuperação que muda a probabilidade de forma útil. Um único discriminador, isolado, raramente basta para decidir. O elemento de maior sensibilidade para separar síncope de crise é o modo de recuperação: rápida e instantânea na síncope, lentamente progressiva e acompanhada de confusão na crise epiléptica. Já para as crises funcionais, nenhuma característica isolada é patognomônica [5]: o diagnóstico se constrói pela soma de achados e, quando necessário, pelo vídeo-EEG, que permite correlacionar a manifestação clínica com o registro eletrográfico e é particularmente útil na investigação de eventos paroxísticos de diagnóstico incerto e na suspeita de crises não epilépticas funcionais, embora pouco disponível. [5] 11.2 Imitadores próprios da faixa etária pediátrica Em menores de 18 anos, a lista muda conforme a idade. [5] • Neonatos — mioclonias benignas do sono, jitteriness, hiperecplexia. • Infância — episódios de perda de fôlego, autogratificação infantil, shuddering attacks, torcicolo benigno paroxístico, desvio tônico do olhar, estereotipias, spasmus nutans, síndrome de Sandifer, tiques, vertigem paroxística benigna e transtornos do sono. • Adolescentes — síncopes, transtornos do sono, crises funcionais, tiques e migrânea. Alguns merecem descrição, porque são confundidos com crise febril ou com epilepsia: • Episódios de perda de fôlego. Ocorrem em 0,1% a 4,6% das crianças, entre 6 meses e 5 anos — janela que se sobrepõe amplamente à da crise febril —, com história familiar positiva em 20% a 30%. A etiologia é multifatorial: imaturidade do sistema nervoso autônomo, inibição cardíaca mediada pelo vago, atraso de mielinização e deficiência de ferro. Os gatilhos são medo, frustração, contrariedade e choro; os episódios cursam com apneia e perda de consciência, mas são de curta duração. Há dois tipos, cianótico — o mais comum — e pálido. [5; 13 — artigo primário complementar] O discriminador é o gatilho emocional imediatamente anterior, ausente na crise febril. • Síndrome de Sandifer. Distonia espasmódica torcional do dorso com postura em opistótono, causada por dor e desconforto do refluxo gastroesofágico. [5] • Tiques e estereotipias. Os tiques apresentam supressibilidade temporária e costumam vir acompanhados do desejo de realizar o movimento e da satisfação ao executá-lo; as estereotipias tendem a padrões repetitivos e reconhecíveis, ligados ao contexto e ao desenvolvimento. [5; 14 — artigo primário complementar] • Vertigem paroxística benigna. Início súbito com medo de queda, nistagmo e sintomas autonômicos, com consciência preservada, durando menos de cinco minutos. [5] • Migrânea com aura. As auras da migrânea são mais prolongadas, em torno de 30 minutos, com escotomas e parestesias [5] — enquanto a manifestação subjetiva inicial de uma crise focal, tradicionalmente denominada aura, dura segundos a poucos minutos e é estereotipada (Seção 7.2). [3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 60 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 11.3 Segunda pergunta: crise febril ou crise epiléptica em vigência de febre? Esta seção é o núcleo do volume. As duas expressões descrevem a mesma cena clínica — uma criança que convulsiona estando febril — mas designam entidades diferentes, com mecanismos, investigação, tratamento e prognóstico distintos. O que cada expressão significa Crise febril é um diagnóstico, definido por critérios positivos e negativos simultâneos: evento epiléptico que ocorre na vigência de febre, em criança dentro da faixa etária de risco, sem evidência de infecção intracraniana, sem distúrbio metabólico e sem diagnóstico prévioou apenas coincidir com um distúrbio metabólico. Assumir “crise febril” diante de qualquer criança febril que convulsiona é aceitar como conclusão aquilo que ainda precisa ser demonstrado. A distinção é desenvolvida no Capítulo 11. [3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 4 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 1 — ANATOMIA, HISTOLOGIA E FISIOLOGIA DA EXCITABILIDADE NEURONAL O objetivo deste capítulo não é revisar o sistema nervoso, mas apenas as estruturas e os mecanismos sem os quais não se compreende por que uma crise começa, por que ela para e por que a mesma febre gera crise em uma criança e não em outra. A cascata patológica propriamente dita é desenvolvida no Capítulo 6. 1.1 Substância cinzenta, substância branca e as redes da crise A maioria das crises focais clinicamente reconhecidas envolve redes corticais e córtico-subcorticais: nas crises focais, um agregado de neurônios corticais e subcorticais desenvolve surtos de alta frequência de potenciais de ação sódio-dependentes. [2] A amplitude etiológica do tema decorre de um fato geral: como muitas propriedades controlam a estabilidade neuronal, há muitas formas diferentes de perturbar o equilíbrio entre excitação e inibição e, portanto, muitas causas diferentes para as crises e para a epilepsia. [3] A substância branca participa de outro modo: ela não é o sítio primário de geração da descarga, mas participa do seu transporte. As conexões corticais locais permitem a propagação para áreas contíguas, e as vias comissurais longas, como o corpo caloso, permitem que a descarga alcance o hemisfério oposto. [3] A divisão de papéis entre substância cinzenta e branca é uma simplificação didática, útil para fixar a ideia de geração e propagação, mas não literal: lesões da substância branca — desmielinizantes, displasias com componente subcortical, leucomalácia — também causam epilepsia, ao desorganizar a conectividade das redes corticais; e há origem em estruturas subcorticais, como o hamartoma hipotalâmico. Guardá-la nesses termos evita confusão quando, no Capítulo 7, se discutir por que uma crise focal pode terminar como crise tônico-clônica bilateral. Figura 1.1 — Substância cinzenta e substância branca nas redes epilépticas Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2] e no Harrison [3]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 5 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 1.2 O neurônio e o potencial de membrana Em repouso, o interior do neurônio é negativo em relação ao meio extracelular, o que decorre da distribuição desigual de íons, da permeabilidade seletiva da membrana — com contribuição predominante da condutância ao K — e da Na /K -ATPase, que sustenta os gradientes ao longo do⁺ ⁺ ⁺ tempo sem gerar isoladamente cada potencial de ação. A despolarização decorre principalmente do influxo de Na : a abertura rápida dos canais de Na dependentes de voltagem desloca o potencial para⁺ ⁺ valores menos negativos e, durante o potencial de ação, positivos. O potencial de ação não é iniciado junto às sinapses excitatórias: começa no segmento inicial do axônio, onde este emerge do corpo celular, porque ali a densidade de canais de Na dependentes de voltagem é cerca de sete vezes maior⁺ que no soma. Uma vez iniciado, percorre o axônio e em geral se propaga também de forma retrógrada ao corpo celular. [31] Três famílias de canais dependentes de voltagem participam desse ciclo e da transmissão que dele decorre, e reaparecerão em todos os capítulos seguintes: CANAIS DE Na DEPENDENTES DE VOLTAGEM → geram e sustentam potenciais de ação repetitivos⁺ [2,3] ↓ CANAIS DE K → repolarizam a membrana e, pela persistência da sua condutância, contribuem para a⁺ hiperpolarização pós-potencial, limitando o disparo; mutações que reduzem essas correntes dificultam a repolarização [3] ↓ CANAIS DE Ca² → acoplam a despolarização à entrada de Ca² nos terminais pré-sinápticos e à⁺ ⁺ liberação de neurotransmissor; os do tipo T, no núcleo reticular do tálamo, sustentam ritmos oscilatórios [2,3] Não é coincidência que esses mesmos canais sejam os alvos moleculares da maior parte dos fármacos antiepilépticos (Capítulo 12): o tratamento age exatamente sobre a fisiologia descrita aqui. [3] 1.3 Sinapse excitatória e sinapse inibitória O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do encéfalo. [3] Entre seus receptores, o subtipo N-metil-D-aspartato (NMDA) tem importância especial porque sua ativação, dependente de despolarização prévia, promove influxo adicional de Ca² e amplifica a ativação neuronal — isto é, é um⁺ receptor que responde à excitação com mais excitação. [2,3] O ácido γ-aminobutírico (GABA) é o correspondente inibitório, e atua por dois receptores distintos. Em neurônios maduros, a ativação dos receptores GABA-A geralmente aumenta a condutância ao Cl e⁻ produz efeito inibitório, reduzindo a probabilidade de geração de potenciais de ação — efeito que depende do gradiente eletroquímico e do potencial de reversão do Cl , e por isso não é absoluto. Os⁻ receptores GABA-B agem por proteína G, aumentando a condutância ao K e reduzindo a entrada de⁺ Ca² nos terminais pré-sinápticos, e participam, junto com canais de Ca² do tipo T e canais de K , do⁺ ⁺ ⁺ comportamento oscilatório talamocortical. O pós-potencial hiperpolarizante que se segue à despolarização é mediado por receptores GABA ou por canais de K , conforme o tipo celular. ⁺ [3] A dependência clínica desse sistema é demonstrável em sentido inverso: a penicilina, ao antagonizar os efeitos do GABA em seu receptor, reduz o limiar convulsivo em humanos e é potente convulsivante experimental. [3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 6 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Além dos neurônios, astrócitos e oligodendrócitos participam de vários desses mecanismos de controle da excitabilidade — o que significa que a estabilidade elétrica cortical não é propriedade exclusiva do neurônio. [3] 1.4 Inibição circundante: os freios que contêm a descarga A propriedade fisiológica mais importante deste capítulo é a de que o encéfalo normal dispõe de freios ativos. A disseminação de uma descarga é normalmente impedida por dois mecanismos: a hiperpolarização que se segue a cada despolarização e a inibição circundante exercida pelos interneurônios inibitórios que cercam o foco de atividade. [2,3] Figura 1.2 — Equilíbrio entre excitação e inibição neuronal Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [3] e no Goldman-Cecil [2]. Daí decorre o conceito de limiar convulsivo: não existe cérebro imune. O cérebro normal é capaz de produzir uma convulsão nas circunstâncias apropriadas, e as pessoas diferem entre si na suscetibilidade a fazê-lo. [3] Fatores endógenos — genéticos e ligados ao estágio de maturação — determinam onde esse limiar se situa em cada indivíduo. [3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 7 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Figura 1.3 — Inibição circundante: o cerco que contém a descarga Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Goldman-Cecil [2] e no Harrison [3]. 1.5 O eixo talamocortical e os ritmos do sono Circuitos que conectam tálamo e córtex geram normalmente os ritmos oscilatórios do sono, por meio da interação entre receptores GABA-B, canais de Ca² do tipo T e canais de K localizados no⁺ ⁺ tálamo. [3] O núcleo reticular do tálamo é o marca-passo desse sistema. [2] Trata-se, portanto, de um mecanismo fisiológico, e não patológico — mas é a partir de sua modulação anormal que se originam as descargas generalizadas de ponta-onda das crises de ausência (Capítulo 6). Registrar isso agora explica por que ausências e crises focais não compartilham a mesma fisiopatologia nem o mesmo tratamento. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 8 Livro Integrado Digital dede epilepsia; crianças com crises afebris prévias não se enquadram no conceito. [5] Crise em vigência de febre é uma observação, e comporta pelo menos cinco situações distintas: CRIANÇA CONVULSIONA ESTANDO FEBRIL ↓ 1. CRISE FEBRIL — critérios preenchidos: janela etária, sem neuroinfecção, sem distúrbio metabólico, sem epilepsia prévia [5] 2. CRISE SINTOMÁTICA AGUDA POR NEUROINFECÇÃO — meningite, encefalite, abscesso: a febre e a crise têm a MESMA causa [2,3,5] 3. CRISE SINTOMÁTICA AGUDA METABÓLICA — desidratação, distúrbio hidroeletrolítico, hipoglicemia associados à doença febril [2,5] 4. EPILEPSIA JÁ ESTABELECIDA, DEFLAGRADA PELA FEBRE — a febre é apenas gatilho sobre limiar já baixo [3,5] 5. PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO DE EPILEPSIA GENÉTICA COM FENÓTIPO FEBRIL — espectro SCN1A: GEFS+, Dravet [1–3] O eixo morfofisiológico: por que os mecanismos não são os mesmos O Capítulo 6 já estabeleceu a cascata comum a toda crise. O que separa as cinco situações acima é onde, nessa cascata, está o problema. • Na crise febril, o substrato é funcional e transitório. Não há evidência clínica de infecção intracraniana, de distúrbio metabólico agudo que explique o evento nem de epilepsia previamente estabelecida [30]; o limiar convulsivo está fisiologicamente baixo pela imaturidade (Seção 1.9) e geneticamente modulado (Seção 3.3). A febre ocorre em um período de maior suscetibilidade do encéfalo infantil a crises e pode favorecer o evento em indivíduos predispostos — frequentemente nas primeiras horas da doença febril, embora a velocidade de elevação da temperatura não esteja estabelecida como causa. [3] Como os mecanismos inibitórios estão íntegros, a crise é habitualmente breve, sem características focais e autolimitada. [3] O prognóstico benigno da forma simples, sem danos permanentes, e a remissão espontânea com a idade estão registrados no Protocolo. [30] • Na crise sintomática aguda por neuroinfecção, há agressão encefálica em curso. As infecções do sistema nervoso central estão entre as principais causas de crises sintomáticas agudas na faixa de 1 a 14 anos [5], e alterações inflamatórias e infecciosas podem causar disfunção da barreira hematoencefálica e reduzir o limiar convulsivo [5]. Aqui a febre não é gatilho de um cérebro normal: é sintoma da mesma doença que está irritando o córtex. O correlato clínico é a persistência do comprometimento — rebaixamento que não se recupera, sinais meníngeos, déficit focal. • Na crise sintomática aguda metabólica, o mecanismo é sistêmico: distúrbios hidroeletrolíticos, hipoglicemia e desidratação, comuns em doenças febris da infância, alteram diretamente a Epilepsia e Convulsão Febril · Página 61 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril excitabilidade de membrana [2,5] — mecanismo intrínseco descrito na Seção 6.1. A crise cessa quando o distúrbio é corrigido, e não requer tratamento antiepiléptico de longo prazo. [2] • Na epilepsia deflagrada pela febre, o substrato é permanente: houve epileptogênese (Seção 6.5) ou existe predisposição genética estabelecida. A febre apenas ocupa o papel de qualquer outro gatilho — privação de sono, esquecimento de dose, estresse. [5] O discriminador é temporal e não morfológico: este cérebro também produz crises sem febre. • No espectro SCN1A, as duas categorias se sobrepõem propositalmente. Variantes do gene associam- se a fenótipos clínicos distintos, que vão de apresentações relacionadas a crises febris até a síndrome de Dravet [1]; na epilepsia genética com crises febris plus, podem ocorrer crises febris que persistem além da faixa etária habitual e, em parte dos indivíduos, crises não associadas à febre — com heterogeneidade fenotípica dentro de uma mesma família, incluindo membros que apresentam apenas crises febris (Tabela 7.1). [3] Não se trata de sequência obrigatória. É por isso que a distinção entre crise febril e epilepsia nem sempre é uma dicotomia estanque: em parte dos casos, ela é uma questão de tempo de observação. Figura 11.1 — Criança que convulsiona com febre: não pule etapas Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no PCDT de Epilepsia [30], no Tratado de Neurologia [1], no Goldman-Cecil [2], no Harrison [3] e em Epilepsia Prática/LBE [5]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 62 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril O eixo da anamnese: os discriminadores que decidem Tabela 11.2 — Crise febril × crise epiléptica em vigência de febre: discriminadores de anamnese Elemento Favorece crise febril Favorece crise epiléptica em vigência de febre Idade Entre 6 meses e 5 anos [30] Fora dessa faixa — abaixo ou, sobretudo, acima de 5 anos [3] Antecedente de crises Nenhuma crise afebril prévia; sem diagnóstico de epilepsia [5] Crises afebris prévias, ainda que breves ou não reconhecidas como tais [3,5] Relação com a febre Crise na doença febril aguda, frequentemente nas primeiras horas do episódio, sem infecção do sistema nervoso central e sem outra causa aguda identificada [3] Crise em qualquer momento, inclusive com febre baixa ou já em declínio Tipo de crise Generalizada, simétrica, sem sinais focais [3,5] Início focal, desvio ocular ou cefálico sustentado, assimetria [1,5] Duração Menos de 15 minutos — em geral poucos minutos [5] mais de 15 minutos, ou crises subentrantes [5] Recorrência em 24 h Ausente [5] Presente (define complexidade e amplia o diferencial) [5] Pós-ictal Recuperação completa, sem déficit focal [30] Paresia de Todd ou outra anormalidade neurológica pós-ictal — critério de complexidade no PCDT [30]; confusão prolongada e rebaixamento que não se recupera [3] Exame neurológico entre crises Normal [5] Alterado — sinais focais, sinais meníngeos, alteração do nível de consciência [1,3] Desenvolvimento neuropsicomotor Normal [5] Atraso, estagnação ou regressão de marcos [3,5] História familiar De crises febris ou de epilepsia — o Harrison registra que os pacientes com frequência a apresentam [3] De epilepsia ou de crises não febris — fator associado ao risco de epilepsia posterior, e não apenas à recorrência [3] Foco infeccioso Infecção comum da infância — otite média, infecção respiratória ou gastroenterite [3] Ausência de foco claro, ou quadro compatível com meningoencefalite [3] O que a investigação encontra Nada — liquor, imagem e EEG não indicados de rotina [4,5] Alteração liquórica, lesão estrutural, ou EEG com atividade epileptiforme que sustente síndrome [1,5] Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Tratado de Neurologia [1], no Harrison [3], em Epilepsia Prática/LBE [5] e no PCDT de Epilepsia [30]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 63 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril A FEBRE NÃO É DIAGNÓSTICO — É APENAS O CONTEXTO EM QUE A CRISE OCORREU Três erros derivam de tratar "febre + convulsão" como sinônimo de crise febril. Primeiro, deixar de puncionar a criança em que há suspeita de neuroinfecção — risco maior abaixo de 18 meses, cujos sinais meníngeos podem estar mascarados — a neuroinfecção é a causa que mais custa perder. Segundo, aceitar como crise febril um evento que não preenche a faixa etária, quando a definição a exclui por construção. Terceiro, rotular como crise febril a criança que já teve crises afebris — nesse caso, o diagnóstico já era outro antes da febre. A febre estreita o diferencial apenas depois que os critérios são verificados; nunca antes. [5] Sequência decisória CRIANÇA COM CRISE E FEBRE↓ESTABILIZAR · CRONOMETRAR A CRISE · GLICEMIA (Capítulo 8)↓A IDADE ESTÁ NA FAIXA HABITUAL DE 6 MESES A 5 ANOS? — se NÃO, não classificar automaticamente como crise febril: investigar outras causas↓HÁ CRISES AFEBRIS PRÉVIAS OU EPILEPSIA CONHECIDA? — se SIM, é epilepsia deflagrada por febre↓HÁ SINAIS DE NEUROINFECÇÃO, IDADEOU RED FLAG? — se SIM: liquor ± neuroimagem↓A CRISE FOI GENERALIZADA, BREVE, ÚNICA E COM RECUPERAÇÃO COMPLETA?↓SIM → CRISE FEBRIL SIMPLES: tratar a causa da febre, orientar a família, não investigar de rotinaNÃO → CRISE FEBRIL COMPLEXA OU OUTRA ENTIDADE: investigar conforme o achado que quebrou o padrão 11.4 Terceira pergunta: se não é nenhuma das duas Fora da crise epiléptica, da síncope e da crise funcional, um conjunto de condições produz eventos paroxísticos que podem ser confundidos com crise. Entre as metabólicas, a hipoglicemia e os distúrbios eletrolíticos — hiponatremia, hipocalcemia — são as mais relevantes, porque são reversíveis e podem elas próprias provocar crises sintomáticas agudas. Entre as do sono, as parassonias, sobretudo os despertares confusionais e o terror noturno, ocorrem em horário previsível da noite e sem estereotipia estrita. Os ataques de pânico cursam com sintomas autonômicos intensos e consciência preservada. E os distúrbios do movimento paroxísticos — discinesias, tiques e mioclonias não epilépticas — podem apresentar movimentos paroxísticos sem alteração da consciência e sem período pós-ictal típico, mas a interpretação deve considerar semiologia, duração, estereotipia e contexto, e não apenas a preservação da consciência. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 64 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Quando a criança não preenche crise febril nem tem epilepsia conhecida, e a febre não explica o evento, retornam ao primeiro plano as causas de crise sintomática aguda da faixa etária — infecção do sistema nervoso central e traumatismo craniano entre 1 e 14 anos [5] — e as demais listadas no Capítulo 3, além dos imitadores das Seções 11.1 e 11.2. Duas advertências finais, ambas explícitas nas fontes. O diagnóstico de imitador exige demonstrar uma explicação alternativa convincente, e não apenas a ausência de alteração em um exame inicial — um EEG normal não transforma crise em síncope (Seção 10.2). E a recuperação completa não encerra a investigação: crises breves com recuperação total podem ser a primeira manifestação de uma epilepsia, e a decisão de investigar depende dos critérios e das red flags, não da rapidez da melhora. [3,5] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 65 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 12 — TRATAMENTO O tratamento tem três tempos distintos, que não devem ser confundidos: interromper a crise em curso, tratar a causa que a provocou e prevenir a recorrência. Nem todo paciente que convulsiona precisa dos três. 12.1 Princípios gerais A decisão de tratar precisa considerar que os fármacos anticrise também oferecem risco potencial e podem impactar negativamente a qualidade de vida, e que a duração do tratamento costuma ser longa — por isso o início deve ser cuidadosamente ponderado, sobretudo diante de crise única. [1] O tratamento moderno é individualizado: particularidades do paciente e da doença devem ser consideradas em todas as etapas. [1] Um dado que reorganiza expectativas: o uso de fármaco após uma primeira crise reduz o risco de crises subsequentes, mas não afeta o prognóstico de controle a longo prazo nem modifica a história natural da epilepsia. [1] Tratar precocemente, portanto, antecipa proteção — não cura. 12.2 A crise em curso e o estado de mal epiléptico A maioria das crises dura três minutos e cessa espontaneamente; acima de cinco minutos, raramente cessam sem fármaco (Seção 8.1). [5] O tratamento segue uma escada temporal: A referência terapêutica nacional é o PCDT de Epilepsia vigente no SUS. O Protocolo estabelece que o tratamento do estado de mal deve seguir uma sequência pré-estabelecida, que compreende primeiro benzodiazepínico (primeira linha), depois um agente antiepiléptico endovenoso (segunda linha) e, quando necessário, anestesia geral (terceira linha). [30] Para condutas aplicáveis ao SUS, essa sequência prevalece sobre recomendações internacionais. Tabela 12.1 — Estado de mal epiléptico convulsivo: sequência de tratamento do PCDT de Epilepsia (SUS) Fase e tempo de crise Etapa Conduta conforme o PCDT Cuidados e monitorização 0 a 5 minutos Estabilização Nenhum fármaco anticrise nesta fase. Vias aéreas, ventilação e circulação; oxigenação; acesso venoso; glicemia. Cronometrar. Identificar e corrigir causas reversíveis. A partir de 5 minutos — primeira linha Benzodiazepínico Diazepam EV, na dose usual de 5 a 10 mg conforme a necessidade, até a dose máxima de 20 mg. Velocidade de infusão de 5 mg/min, para evitar depressão respiratória. Mesmo que a crise cesse, o índice de recorrência é alto e a maioria dos pacientes necessitará de fármaco de segunda linha. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 66 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Fase e tempo de crise Etapa Conduta conforme o PCDT Cuidados e monitorização Persistência — segunda linha Fármaco antiepiléptico endovenoso (escolher um) Fenitoína 18 mg/kg (faixa de 15 a 20 mg/kg), em velocidade de infusão máxima de 50 mg/min, por veia calibrosa ou central · fenobarbital 15 mg/kg, infundido a 100 mg/min. São os dois fármacos endovenosos previstos pelo Protocolo como disponíveis no Brasil. Monitorização de ECG e de pressão arterial com a fenitoína. Se as crises recorrerem em paciente hemodinamicamente estável, otimizar a dose do primeiro fármaco de segunda linha e, depois, considerar um segundo fármaco de segunda linha. Sem resposta após 30 minutos da admissão — terceira linha Anestesia geral em terapia intensiva Propofol 1,5 a 3 mg/kg em bolo e 1 a 5 mg/kg/h na manutenção · midazolam 1 mg EV em bolo e depois 0,05 a 0,20 mg/kg/h · tiopental 3 a 5 mg/kg/h. Intubação e ventilação mecânica; administração em UTI; monitorização contínua por EEG para avaliar o nível de sedação e a abolição das descargas epileptiformes. Atenção à hipotensão e à bradicardia com o propofol. Fonte: PCDT de Epilepsia vigente no SUS — Portaria Conjunta nº 17, de 21 de junho de 2018 [30]. Tabela 12.2 — Estado de mal epiléptico convulsivo: referência internacional complementar — diretriz da American Epilepsy Society (AES 2016) e ensaio clínico ESETT. Não representa recomendação do PCDT/SUS Fase e tempo de crise Etapa Adulto Pediatria T0 a 5 min — estabilização Estabilização Cronometrar. Via aérea, ventilação, circulação; oxigênio; monitorização cardíaca, oximetria e pressão arterial; glicemia capilar imediata; acesso venoso; coleta laboratorial. Tiamina antes da glicose no etilista [5] Cronometrar. Via aérea, ventilação, circulação; oxigênio; monitorização; glicemia capilar imediata; acesso venoso; peso estimado para o cálculo das doses [5] 5 a 20 min — primeira linha Benzodiazepínico em dose plena única Midazolam 10 mg IM (dose única, não repetir) · lorazepam 0,1 mg/kg IV, máx. 4 mg/dose, repetível uma vez · diazepam 0,2 mg/kg IV, máx. 10 mg/dose, repetível uma vez. Sem acesso venoso, o midazolam IM é superior ao lorazepam IV. Alternativas: diazepam retal, midazolam intranasal ou bucal. Dar dose plena única — não fracionar. Vigiar depressão respiratória [26, diretriz AES] Lorazepam 0,1 mg/kg IV (máx. 4 mg/dose), repetível uma vez · diazepam 0,2 mg/kg IV (máx. 10 mg/dose), repetível uma vez. Sem acesso venoso: midazolam 0,2 mg/kg IM, 0,2 mg/kg intranasal ou 0,5 mg/kg bucal (máx. 10 mg); diazepam retal 0,2–0,5 mg/kg (máx. 20 mg). Vigiar depressão respiratória [26, diretriz AES] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 67 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Fase e tempo de crise Etapa Adulto Pediatria 20 a 40 min — segunda linha, se a crise persistir Fármaco anticrise IV (escolher um)Levetiracetam 60 mg/kg IV (máx. 4.500 mg) · fosfenitoína 20 mg EF/kg IV (máx. 1.500 mg EF; até 150 mg EF/min) · valproato 40 mg/kg IV (máx. 3.000 mg). Eficácia equivalente entre os três no ESETT. Fenitoína 20 mg/kg IV substitui a fosfenitoína quando esta não estiver disponível, em velocidade não superior a 50 mg/min, com monitorização de ECG e pressão arterial. Fenobarbital 15–20 mg/kg IV é alternativa se nenhum dos três estiver disponível [26, diretriz AES; 27, ensaio ESETT] Mesmas opções e mesmas doses por peso; a fenitoína exige velocidade não superior a 1 mg/kg/min, com monitorização de ECG [26, diretriz AES; 27, ensaio ESETT] Estado de mal refratário — persistência apesar do benzodiazepínico e de um fármaco de segunda linha Terapia intensiva com EEG contínuo Repetir a segunda linha ou iniciar anestésico IV em infusão contínua — midazolam, propofol, cetamina, tiopental ou pentobarbital —, com via aérea protegida, ventilação mecânica, suporte hemodinâmico e EEG contínuo para titular até supressão de surtos ou cessação eletrográfica. Não há evidência que estabeleça um agente preferencial. Manter a busca ativa da etiologia e a correção de causas reversíveis [26, diretriz AES] Idem, em terapia intensiva pediátrica [5] Fonte complementar: diretriz da American Epilepsy Society, AES 2016 [26]; ensaio clínico ESETT [27]; e Epilepsia Prática/LBE [5]. Diretriz internacional e ensaio clínico: esta informação não representa recomendação do PCDT/SUS e não substitui o Protocolo para conduta no Brasil. Divergência registrada: para a segunda linha do estado de mal, o PCDT prevê fenitoína e fenobarbital endovenosos, ao passo que a referência internacional inclui levetiracetam, fosfenitoína e valproato endovenosos. Para o SUS, seguir o PCDT vigente; as opções internacionais são informação complementar e não substituem o Protocolo. Três observações completam o esquema. A demora na administração do benzodiazepínico associa-se à refratariedade ao tratamento, e por isso ele deve ser dado prontamente, apesar do risco de depressão respiratória. [5] No ESETT, os três fármacos de segunda linha cessaram a crise e melhoraram o nível de consciência em 60 minutos em cerca de metade dos pacientes, com incidência semelhante de eventos adversos — daí a ausência de agente preferencial. [5] E, em pacientes com epilepsia prévia, a principal causa de estado de mal é a interrupção do fármaco anticrise — quadro que costuma responder bem ao restabelecimento do nível sérico. [5] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 68 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Estado de mal refratário é definido pela persistência das crises apesar da administração de dois fármacos anticrise, sendo um deles um benzodiazepínico [5] — e não por um número fixo de minutos. Os pontos t1 (5 minutos) e t2 (30 minutos na crise tônico-clônica), definidos pelo PCDT com base em experiências com animais e pesquisas clínicas, permanecem válidos como marco de início do tratamento de urgência e como marco de risco de consequências a longo prazo, respectivamente [30], mas t2 não é sinônimo isolado de refratariedade. Considera-se super-refratário o estado de mal que perdura por mais de 24 horas apesar dos anestésicos endovenosos de terceira linha, ou que recorre durante a suspensão destes. [5] O manejo do refratário não é apenas farmacológico: exige terapia intensiva, via aérea protegida e ventilação mecânica quando o anestésico é iniciado, suporte hemodinâmico, monitorização eletroencefalográfica contínua para titular a infusão e confirmar a cessação eletrográfica [30], e investigação etiológica em curso. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Crise convulsiva na emergência: protocolo 2026 (em português) Assista em: https://youtu.be/9vHl5j-YEew 12.3 Tratamento e orientação na crise febril Aqui o tratamento é, em grande parte, o que não se faz. • Tratar a causa da febre. Os esforços devem se dirigir a encontrar e tratar a origem da febre, sempre guiados pela clínica. [5] • Antitérmico precoce é controverso e parece não influenciar a prevenção de novos eventos; ao se perceber a febre, recomendam-se medidas de conforto à criança. [5] • Tratamento profilático contínuo não é recomendado. Fenobarbital e ácido valproico contínuos são eficazes na prevenção da recorrência de crises febris simples, mas há contraindicações e efeitos adversos potenciais que podem superar os benefícios; dado o prognóstico benigno das crises febris simples, que não causam danos permanentes e tendem a entrar em remissão espontaneamente com a idade, a profilaxia para recorrências não é recomendada. [30] Na maioria dos casos, as crises febris simples cessam espontaneamente, em 2 a 3 minutos, e não requerem tratamento. [30] • Profilaxia intermitente com benzodiazepínico é a única profilaxia contemplada pelo PCDT, e apenas em dois cenários: criança com um ou mais episódios de crise febril simples e pais confiáveis, ou criança com crises febris simples frequentes em curto espaço de tempo — três ou mais em 6 meses, ou quatro ou mais em um ano. Nesses casos, o Protocolo indica diazepam, preferencialmente por via retal ou, alternativamente, por via oral, no início da febre, na dose de 0,4 a 0,5 mg/kg, repetida uma segunda vez se a febre persistir após 8 horas — em geral limitada a duas doses. Como alternativa, clobazam por via oral: 5 mg/dia em crianças com até 5 kg; 10 mg/dia de 5 a 10 kg; 15 mg/dia de 11 a 15 kg; e 20 mg/dia acima de 15 kg. [30] A indicação pode ser feita após o primeiro episódio, desde que um ou mais fatores preditivos estejam presentes. [30] • Orientar a família faz parte do tratamento. Deve ficar claro que, na forma simples, trata-se de evento benigno e sem risco de sequelas (Seção 9.6). [5] A crise febril prolongada, entretanto, é crise: ultrapassados os cinco minutos, aplica-se a escada da Seção 12.2. O diazepam por via retal é a primeira escolha do PCDT quando a via venosa não está disponível, na dose de 0,4 a 0,5 mg/kg. [30] 12.4 Quando iniciar fármaco anticrise Crises sintomáticas agudas. Correspondem a 25% a 30% das crises epilépticas e não necessariamente requerem fármaco anticrise, mas sim o controle do fator desencadeante. [1] Sua Epilepsia e Convulsão Febril · Página 69 https://youtu.be/9vHl5j-YEew https://youtu.be/9vHl5j-YEew Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril identificação é decisiva: comparadas às não provocadas, associam-se a mortalidade em 30 dias substancialmente maior — reflexo da gravidade da causa aguda — e a risco de recorrência em 10 anos muito menor, porque o fator desencadeante é removível. [1] Quando se opta por introduzir fármaco, a duração não é fixa: depende da etiologia, da resolução ou persistência do insulto agudo, da presença de lesão estrutural residual, do EEG, da neuroimagem, do risco estimado de recorrência e da evolução clínica. Uma reavaliação em torno de três meses é razoável na maioria dos casos, e a retirada é apropriada quando o paciente permanece sem crises, as alterações agudas da neuroimagem se resolveram e o EEG não mostra atividade epileptiforme — mas insultos que deixam lesão estrutural persistente podem exigir tratamento prolongado, e a decisão é individualizada, não protocolar. [5] Primeira crise não provocada. As chances de recorrência variam de 31% a 56% em 2 a 5 anos; após a segunda crise sobem para 73%, e após a terceira, para 76% — razão pela qual, em geral, o tratamento é instituído após a segunda crise não provocada. [1] A maioria das recorrências ocorre no primeiro ano, e os fatores associados a maior risco são etiologia estrutural, alterações no exame neurológico e predomínio das crises durante o sono [1], aos quais o Harrison acrescenta crises que se apresentam como estado de mal, paralisia de Todd, história familiar significativae EEG anormal — a maioria dos pacientes com um ou mais desses fatores deve ser tratada. [3] Também deve ser tratado o paciente cuja crise única decorre de lesão identificada, como tumor, infecção ou traumatismo, quando há forte evidência de que a lesão seja epileptogênica. [3] O EEG é usado para estimar esse risco, com limites conhecidos: sensibilidade de 48% a 61% e especificidade de 71% a 91% para predizer recorrência após a primeira crise. [1] 12.5 Escolha do fármaco A sequência de escolha é explícita nas fontes: primeiro, selecionar a medicação mais eficaz para o tipo de crise ou síndrome; segundo, considerar o perfil de efeitos adversos frente às características do paciente — idoso, criança, mulher em idade fértil, comorbidades como depressão, migrânea, dor crônica e obesidade; terceiro, considerar conveniência e custo, lembrando que uma ou duas tomadas diárias facilitam a adesão. [1] Quanto ao espectro, os fármacos dividem-se em dois grupos. Amplo espectro — eficazes em crises focais e generalizadas: brivaracetam, clobazam, lamotrigina, levetiracetam, perampanel, topiramato, valproato, zonisamida e rufinamida. Primariamente eficazes em crises focais: carbamazepina, lacosamida, oxcarbazepina, fenitoína, tiagabina, vigabatrina, pregabalina e gabapentina. Quatro fármacos não cabem bem nessa dicotomia e merecem descrição própria: a etossuximida é de espectro estreito e essencialmente restrito às ausências, não sendo fármaco de amplo espectro; o fenobarbital e a primidona são eficazes em crises focais e em tônico-clônicas generalizadas, e não exclusivamente focais; o estiripentol é adjuvante de indicação sindrômica, na síndrome de Dravet em associação a clobazam e valproato, e não um fármaco de crises focais; e a lacosamida tem eficácia estabelecida nas crises focais, com dados ainda limitados nas generalizadas. A dicotomia amplo × restrito é, portanto, atalho didático de primeira escolha — não substitui a indicação por tipo de crise e por síndrome. A presença de um fármaco nesta lista descreve o espectro farmacológico e não significa incorporação ao PCDT/SUS: os fármacos previstos no Protocolo são ácido valproico, carbamazepina, clobazam, clonazepam, etossuximida, fenitoína, fenobarbital, gabapentina, lamotrigina, levetiracetam, primidona, topiramato e vigabatrina. [30] [5] Duas consequências práticas decorrem dessa divisão: • Nas epilepsias generalizadas, bloqueadores de canais de sódio podem agravar as crises. Fenitoína, carbamazepina e oxcarbazepina — e ainda gabapentina, pregabalina e vigabatrina — podem aumentar a frequência de mioclonias e de ausências, podendo inclusive desencadear status de Epilepsia e Convulsão Febril · Página 70 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril ausência; seu uso não é recomendado nesses casos. [5] Nas síndromes com mioclonias utilizam-se preferencialmente valproato, levetiracetam, topiramato e benzodiazepínicos como adjuvantes. [5] É por isso que classificar corretamente a crise (Capítulo 5) é decisão terapêutica, e não exercício acadêmico. • As interações importam tanto quanto o mecanismo. Fenitoína, carbamazepina e fenobarbital são indutores enzimáticos do citocromo P450 e reduzem o nível sérico de outros fármacos — incluindo quimioterápicos, anticoagulantes e contraceptivos hormonais; o valproato, ao contrário, é inibidor enzimático, eleva o nível de lamotrigina e aumenta o risco de farmacodermia, razão pela qual a lamotrigina exige titulação lenta, especialmente em uso concomitante. [5] Na ausência típica, o PCDT registra eficácia semelhante entre ácido valproico e etossuximida, e inferior para a lamotrigina [30]; para as crises generalizadas, o ácido valproico permanece como fármaco antiepiléptico de primeira escolha. [30] Nas epilepsias focais, praticamente todos os fármacos disponíveis podem ser usados, e as diretrizes internacionais escalonam a monoterapia em lamotrigina ou levetiracetam em primeira linha, carbamazepina, oxcarbazepina ou zonisamida diante de insucesso, e lacosamida em linha posterior. [5] Essa hierarquia é internacional e não corresponde à do PCDT: no Protocolo, a carbamazepina é o fármaco de primeira escolha para crises focais, o levetiracetam figura como terapia adjuvante, e oxcarbazepina, zonisamida e lacosamida não estão incorporadas ao SUS. Em caso de falha do primeiro fármaco, o Protocolo determina a substituição gradual por outro de primeira escolha, mantendo a monoterapia; em caso de falha na segunda tentativa de monoterapia, pode-se tentar a combinação de dois fármacos. [30] Para o SUS, prevalece o PCDT. REGRA PRÁTICA — TRÊS PERGUNTAS ANTES DE PRESCREVER 1. Que tipo de crise é esta? Um erro de classificação pode transformar o tratamento em agravante — bloqueador de canal de sódio em epilepsia generalizada com mioclonias é o exemplo clássico. 2. Quem é este paciente? Idade, sexo, comorbidades e planos reprodutivos mudam a escolha antes que a eficácia entre em cena. 3. O que mais ele usa? Indutores e inibidores enzimáticos alteram silenciosamente a eficácia de outros medicamentos — e de contraceptivos. [1,5] ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Epilepsia e convulsão de forma completa: fisiopatologia, diagnóstico e tratamento (em português) Assista em: https://youtu.be/8YFvzH2b2Ko 12.6 Farmacodinâmica dos fármacos anticrise Os fármacos anticrise atuam sobre exatamente os mesmos elementos descritos nos Capítulos 1 e 6: reduzem a excitação, aumentam a inibição ou dificultam o disparo repetitivo. Organizá-los por mecanismo é mais útil do que memorizar listas, porque explica indicações, associações racionais e agravamentos paradoxais. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 71 https://youtu.be/8YFvzH2b2Ko https://youtu.be/8YFvzH2b2Ko https://youtu.be/8YFvzH2b2Ko Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Tabela 12.3 — Farmacodinâmica dos fármacos anticrise organizada por mecanismo de ação Mecanismo de ação Fármacos Efeito e indicação principal Bloqueio de canais de Na⁺ voltagem-dependentes Hidantoínas — fenitoína, etotoína, mefenitoína, fosfenitoína; carbamazepina e oxcarbazepina; lacosamida (canais lentos) [5] Inibem a geração de potenciais de ação repetitivos de alta frequência (Seção 6.2). A fenitoína é eficaz em crises focais e tônico-clônicas, mas não nas ausências; a carbamazepina tem mecanismo análogo e ainda reduz a transmissão sináptica pré-sináptica, sendo fármaco de escolha nas crises focais. Vantagem clínica: não são sedativos nas faixas terapêuticas comuns Potencialização do GABA — barbitúricos Fenobarbital, mefobarbital, primidona [5] Facilitam e prolongam os efeitos inibitórios do GABA: aumentam a duração da abertura do canal de cloreto mediado pelo GABA. Seguros e de baixo custo, mas substituídos por fármacos menos sedativos na maioria das crises do adulto Potencialização do GABA — benzodiazepínicos Diazepam, lorazepam, midazolam, clobazam, clonazepam, clorazepato [5] Ligam-se ao receptor GABA e aumentam a eficiência da inibição sináptica, elevando a frequência de abertura dos canais de cloreto. Reservados a emergências e crises agudas, pela tolerância: diazepam e lorazepam no estado de mal; clonazepam nas ausências e como alternativa nas mioclônicas; diazepam retal quando a via oral é impossível Bloqueio de canais de Ca² tipo T⁺ Succinimidas — etossuximida, fensuximida, metossuximida Atuam nos neurônios talâmicos (Seção 6.5), sendo os principais agentes no tratamento das crises de ausência [5] Ligação à subunidade α2δ dos canais de Ca²⁺ Gabapentina, pregabalina [5] Diminuem o influxo de cálcio e a liberação de neurotransmissores (glutamato, noradrenalina, substância P). A gabapentina, apesar da estrutura semelhante ao GABA, não age sobre receptores GABA, embora aumente a concentraçãocerebral de GABA [5] Ligação à proteína vesicular SV2A Levetiracetam, brivaracetam [5] Impedem a fusão das vesículas à membrana e a liberação de neurotransmissores excitatórios; amplo espectro [5] Antagonismo de receptores AMPA Perampanel; topiramato (parcialmente) [5] Reduzem diretamente a neurotransmissão glutamatérgica excitatória [5] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 72 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Mecanismo de ação Fármacos Efeito e indicação principal Mecanismo múltiplo Ácido valproico [5]; topiramato [5]; lamotrigina [5] Valproato: bloqueio de canais de Na ,⁺ bloqueio da GABA-transaminase, ação em canais de Ca² tipo T no tálamo e⁺ atenuação da atividade glutamatérgica — o espectro amplo decorre justamente dessa multiplicidade [5]. Topiramato: antagonismo AMPA, aumento da atividade GABAérgica, bloqueio de canais de Na e inibição fraca da anidrase⁺ carbônica [5]. Lamotrigina: bloqueio de canais de Na e de canais de Ca² de alta⁺ ⁺ voltagem, com ação sobre a liberação de aminoácidos excitatórios — útil em crises focais, ausências e mioclônicas da criança, e na síndrome de Lennox- Gastaut [5] Inibição irreversível da GABA-transaminase Vigabatrina [5] Eleva o GABA disponível; limitada pela constrição concêntrica e irreversível do campo visual [5] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir de Epilepsia Prática/LBE [5]. Três leituras derivam da tabela: • Por que bloqueadores de canal de sódio agravam ausências e mioclonias. O alvo dessas crises não é o disparo repetitivo cortical, e sim a oscilação talamocortical dependente de canais de Ca² tipo T⁺ (Seção 6.5) — daí a eficácia das succinimidas e do valproato, e o agravamento com fenitoína, carbamazepina e oxcarbazepina. [5] • Por que benzodiazepínicos servem para a crise e não para a manutenção. A ação é potente e imediata sobre a inibição GABAérgica, mas a tolerância limita o uso crônico — por isso são reservados a emergências e ao tratamento agudo. • Por que associar fármacos exige conhecer mecanismos. As fontes recomendam explicitamente evitar redundância ao combinar fármacos anticrise [5]: associar dois bloqueadores de canal de sódio soma efeitos adversos sem somar mecanismos. As referências ainda listam, entre os demais fármacos anticrise disponíveis, tiagabina, felbamato, zonisamida, rufinamida, estiripentol, cenobamato, canabidiol e fenfluramina. [5] 12.7 Tratamento não farmacológico Quando as crises não são controladas, abrem-se alternativas terapêuticas: abordagem cirúrgica, dieta cetogênica e dispositivos como o estimulador do nervo vago (VNS). [5] • Cirurgia. É a opção com melhor chance de sucesso no controle das crises em pacientes selecionados, reduz a mortalidade e é custo-efetiva; a identificação de lesão compatível com os dados da avaliação associa-se a chance 2,5 vezes maior de ficar livre de crises. [5] A indicação e a avaliação pré-cirúrgica pertencem a centros especializados (Seção 8.3). • Dieta cetogênica. Mecanismo apenas parcialmente compreendido, envolvendo o efeito dos corpos cetônicos e a redução de citocinas pró-inflamatórias; é o tratamento específico em etiologias como a deficiência de GLUT1 (SLC2A1). [5] • Tratamento dirigido pela etiologia. Algumas causas genéticas têm terapia específica: piridoxina na deficiência de ALDH7A1, piridoxal fosfato na PNPO, vigabatrina e everolimo na esclerose tuberosa Epilepsia e Convulsão Febril · Página 73 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril (TSC1/TSC2), quinidina em variantes de KCNT1 com ganho de função. [5] É o exemplo mais concreto de por que a etiologia (Capítulo 3) muda o tratamento. • VNS. Estimulação do nervo vago esquerdo por gerador subcutâneo, indicada originalmente em epilepsias focais e multifocais refratárias não passíveis de ressecção, com indicação posteriormente ampliada; o mecanismo não é completamente conhecido, envolvendo modulação talamocortical ascendente. [1] 12.8 Quando parar o tratamento A remissão é a regra na maioria dos pacientes, com proporções que variam conforme a síndrome, a etiologia e a população — séries relatam remissão em torno de dois terços a quatro quintos dos pacientes em três a cinco anos. [1] A retirada costuma ser considerada quando o paciente permanece 2 anos sem crises. [1,5] A probabilidade de retorno das crises após a interrupção varia amplamente entre os estudos — de pouco mais de 10% a mais de 60%, com a maioria abaixo de 40% —, dispersão que reflete diferenças de síndrome, de tempo livre de crises e de seleção. Não existe risco universal aplicável a todo paciente. [1] O risco depende sobretudo da síndrome: epilepsia ausência da infância e epilepsia autolimitada com espículas centrotemporais têm baixa recorrência; epilepsia mioclônica juvenil e epilepsia do lobo temporal têm taxas elevadas — na primeira, o tratamento em geral é para toda a vida. [1,5] Crises com início após os 10–12 anos têm perfil desfavorável para a retirada, e quanto maior o tempo sem crises, maior a chance de permanecer assim. [1] Aspectos operacionais: os fármacos devem ser retirados gradualmente e um de cada vez em politerapia, sendo barbitúricos e benzodiazepínicos retirados ainda mais lentamente. [1] A persistência de anormalidades no EEG é fator prognóstico negativo, e o reaparecimento de alterações epileptiformes durante a retirada implica alto risco de recorrência; como a recorrência pode demorar semanas a três meses após a descontinuação do valproato, repetir o EEG três meses após a retirada ajuda a estimar esse risco. [5] Uma informação que tranquiliza a decisão: em caso de recorrência após a descontinuação, complicações como estado de mal, traumatismos e morte são bastante raras, e após reintrodução da medicação 95% dos pacientes apresentaram 1 ano de remissão em 3 anos de seguimento. [1] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 74 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 13 — POSOLOGIA — DIRECIONAMENTO RÁPIDO Este capítulo reúne, em formato de consulta rápida, os esquemas de prescrição ambulatorial da epilepsia. Não substitui o raciocínio terapêutico do Capítulo 12: quando tratar, por que tratar e como a escolha se articula com o tipo de crise pertencem àquele capítulo, e nada aqui deve ser lido fora dele. A referência posológica mandatória deste capítulo é o PCDT de Epilepsia vigente no SUS [30]. O material didático de origem — o White Book da Faculdade Afya [22], produzido por instituição de ensino — é utilizado apenas como fonte complementar, sempre identificada como tal, e as informações regulatórias provêm da ANVISA, agência reguladora brasileira [28,29]. Nenhuma recomendação internacional, guideline, revisão ou bula substitui, contradiz ou altera silenciosamente uma recomendação do PCDT. A autoria principal do material é de Daniel Bueno Escobar Peixoto (Neurologia), com revisão de Felipe Nobrega (Neurologia) e Lucas Leroux (Neurologia). A identificação da procedência não constitui endosso institucional do conteúdo, que permanece como material didático complementar. [22,23] 13.1 Antes de prescrever Preencher os critérios diagnósticos da ILAE torna o paciente candidato a tratamento de longo prazo com fármaco anticrise, o que não equivale a indicação automática. A decisão de iniciar, porém, precede a escolha do fármaco e está desenvolvida no Capítulo 12: crises sintomáticas agudas exigem correção do fator desencadeante, e a primeira crise não provocada é decisão individualizada. Ao prescrever, pesar quatro elementos, conforme o material didático da Faculdade Afya. [22] • Eficácia — para o tipo de crise e para a síndrome, não para a epilepsia em geral. • Adesão — quanto mais simples a posologia, maior a chance de o esquema ser cumprido. • Efeitos colaterais — o perfil precisa caber nas características do paciente.• Custo — a medicação que o paciente não consegue manter não trata. Nenhum valor deste capítulo é dose universal. As faixas apresentadas são de referência para o adulto e precisam ser ajustadas conforme idade, peso, indicação, tipo de crise, função renal e hepática, comorbidades, gestação, interações medicamentosas e protocolo institucional. Doses pediátricas de manutenção não são objeto deste capítulo e devem ser calculadas por peso, com fonte pediátrica dedicada; as doses pediátricas de emergência estão na Tabela 12.2. Quando não for possível confirmar uma dose na fonte, consultar o PCDT ou a bula específica: nenhum valor deste capítulo foi preenchido por memória. Antes de prescrever, confirmar a dose na referência de origem — este capítulo é direcionamento rápido, não bula. 13.2 Espectro dos fármacos anticrise A divisão por espectro orienta a primeira escolha e é a mesma apresentada no Capítulo 12. Nas epilepsias focais, as diretrizes internacionais escalonam a escolha: lamotrigina ou levetiracetam como primeira linha; carbamazepina, oxcarbazepina ou zonisamida diante de insucesso; e lacosamida em linha posterior. Apresentá-las no mesmo nível ignora essa hierarquia. Esse escalonamento é internacional: no PCDT, a carbamazepina é o fármaco de primeira escolha nas crises focais, e oxcarbazepina, zonisamida e lacosamida não estão incorporadas ao SUS. Para o SUS, seguir o PCDT vigente. [30] [22] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 75 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Tabela 13.1 — Espectro dos fármacos anticrise e implicação prática. Espectro Fármacos Implicação prática Restrito Fenitoína, carbamazepina, oxcarbazepina. Eficácia limitada às epilepsias focais, incluindo as crises focais com evolução bilateral. Podem agravar ausências e mioclonias. Amplo Lamotrigina, levetiracetam, topiramato, ácido valproico, clobazam. Eficazes em crises focais e generalizadas. Fora da dicotomia Etossuximida; fenobarbital e primidona; estiripentol; lacosamida. Etossuximida: espectro estreito, restrito às ausências. Fenobarbital e primidona: focais e tônico-clônicas generalizadas. Estiripentol: adjuvante sindrômico na síndrome de Dravet, com clobazam e valproato. Lacosamida: eficácia estabelecida nas focais, dados limitados nas generalizadas. Fonte: White Book — material didático da Faculdade Afya [22]; fonte complementar, não normativa para o SUS. 13.3 Doses de referência do PCDT para as opções prioritárias por via oral As doses abaixo são as do PCDT de Epilepsia vigente no SUS. A presença de um medicamento nesta tabela não significa que todos sejam intercambiáveis ou equivalentes como primeira escolha para qualquer tipo de epilepsia: a indicação depende do tipo de crise, da síndrome, da faixa etária e do contexto — monoterapia ou terapia adjuvante — previsto no Protocolo. [30] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 76 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Tabela 13.2 — Apresentações e doses de referência do PCDT para opções prioritárias por via oral Fármaco Dose inicial Escalonamento Dose máxima, intervalo e contexto no PCDT Ácido valproico (valproato de sódio) — comprimidos ou cápsulas de 250 mg, comprimidos de 500 mg, solução e xarope de 50 mg/mL 250 mg/dia 250 mg/dia a cada 3 dias Máximo de 3.000 mg/dia; 2 administrações/dia. Tomar após alimentação, pela intolerância gástrica. Advertências reprodutivas e de segurança na Seção 13.10. Carbamazepina — comprimidos de 200 e 400 mg, suspensão oral de 20 mg/mL Adultos: 200 mg/dia. Crianças de 6 a 12 anos: 100 mg/dia. Crianças abaixo de 6 anos: 5 a 10 mg/kg/dia Adultos: 200 mg/dia por semana. Crianças de 6 a 12 anos: 100 mg/dia por semana. Abaixo de 6 anos: 5 a 10 mg/kg/dia por semana Máximo: adultos 1.800 mg/dia; 6 a 12 anos 600 a 1.000 mg/dia; abaixo de 6 anos 35 mg/kg/dia. Se não for formulação de liberação lenta, 3 a 4 tomadas ao dia, após alimentação. Primeira escolha do Protocolo nas crises focais. Clobazam — comprimidos de 10 e 20 mg 5 a 10 mg/dia 5 mg/dia por semana Máximo de 40 mg/dia; 1 a 2 administrações/dia. O Protocolo não o apresenta como alternativa genérica de monoterapia de primeira linha: seu uso segue indicações específicas, sobretudo terapia adjuvante e epilepsia refratária, além da profilaxia intermitente da crise febril por via oral em situações selecionadas. Clonazepam — solução oral de 2,5 mg/mL. Atenção à conversão: a dose inicial de 0,25 mg/dia corresponde a 0,1 mL 0,25 mg/dia (crianças de 2 a 12 anos: 0,01 mg/kg/dia) 0,25 mg/dia por semana (crianças: 0,1 a 0,2 mg/kg/dia por semana) Máximo de 10 mg/dia; 1 a 2 administrações/dia. Etossuximida — xarope de 50 mg/mL 250 mg/dia 250 mg/dia por semana Máximo de 1.500 mg/dia; 2 a 3 administrações/dia. Espectro estreito, restrito às ausências. Fenitoína — oral, manutenção; comprimidos de 100 mg, suspensão oral de 20 mg/mL 100 mg/dia 100 mg/dia por semana Máximo de 500 mg/dia; 1 a 2 administrações/dia. Cinética não linear e interações relevantes; monitorização do nível sérico quando indicada. A dose endovenosa do estado de mal é outra e está na Tabela 12.1. Fenobarbital — oral, manutenção; comprimidos de 100 mg, solução oral de 40 mg/mL 50 mg/dia 50 mg/dia por semana Máximo de 300 mg/dia; dose única diária. A dose endovenosa do estado de mal é outra e está na Tabela 12.1. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 77 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Fármaco Dose inicial Escalonamento Dose máxima, intervalo e contexto no PCDT Gabapentina — cápsulas de 300 e 400 mg 15 mg/kg/dia ou máximo inicial de 300 mg/dia 300 mg/dia ou 15 mg/kg/dia Máximo de 3.600 mg/dia ou 50 a 100 mg/kg/dia; 3 administrações/dia. Considerar a função renal. Lamotrigina — comprimidos de 25, 50 e 100 mg; ver Quadro 13.1 Depende do fármaco associado Três esquemas distintos; ver Quadro 13.1 Ver Quadro 13.1. Levetiracetam — comprimidos de 250, 500, 750 e 1.000 mg; solução oral de 100 mg/mL Adolescentes de 12 a 17 anos com 50 kg ou mais e adultos: 1.000 mg/dia. Bebês de 6 a 23 meses, crianças de 2 a 11 anos e adolescentes de 12 a 17 anos com menos de 50 kg: 20 mg/kg/dia. Bebês com mais de 1 mês e menos de 6 meses: 14 mg/kg/dia 1.000 mg/dia a cada 2 a 4 semanas no adulto; 20 mg/kg/dia a cada 2 semanas na criança; 14 mg/kg/dia a cada 2 semanas abaixo de 6 meses Máximo de 3.000 mg/dia no adulto, 60 mg/kg/dia na criança e 42 mg/kg/dia abaixo de 6 meses; 2 administrações/dia. No Protocolo, figura como terapia adjuvante: crises focais a partir de 1 mês de idade; crises tônico-clônicas primárias generalizadas acima de 6 anos na epilepsia generalizada de causa genética (denominada idiopática generalizada no Protocolo); crises mioclônicas acima de 12 anos na epilepsia mioclônica juvenil. Primidona — comprimidos de 100 e 250 mg 100 mg/dia 100 mg/dia por semana Máximo de 750 mg/dia; 3 administrações/dia. Topiramato — comprimidos de 25, 50 e 100 mg Monoterapia, adultos: 25 mg/dia. Terapia adjuvante, adultos: 25 a 50 mg/dia. Crianças: por peso 25 a 50 mg por semana ou a cada 14 dias no adulto; 1 a 3 mg/kg por semana na criança acima de 2 anos (adjuvante) e 0,5 a 1 mg/kg por semana a partir de 10 anos (monoterapia) Máximo de 400 mg/dia no adulto; na criança, 5 a 9 mg/kg/dia (adjuvante) ou 9 mg/kg/dia (monoterapia), até 400 mg/dia; 2 administrações/dia. Na insuficiência renal, metade da dose. Vigabatrina — comprimidos de 500 mg 500 mg/dia 500 mg por semana Máximo de 3.000 mg/dia (150 a 200 mg/kg/dia); 1 a 2 administrações/dia. Constrição concêntrica e irreversíveldo campo visual. Fonte: PCDT de Epilepsia vigente no SUS — Portaria Conjunta nº 17, de 21 de junho de 2018, item 7.3 (Fármacos e Esquemas de Administração) [30]. As doses máximas podem variar conforme as características individuais do paciente e as interações medicamentosas. LAMOTRIGINA COM VALPROATO — TITULAÇÃO DIFERENTE O ácido valproico inibe o metabolismo da lamotrigina. Pacientes em uso das duas medicações exigem doses menores e aumentos mais lentos do que os indicados acima — orientação do material didático da Faculdade Afya. [22] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 78 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Quadro 13.1 — Lamotrigina: três esquemas distintos de escalonamento, conforme o fármaco associado (PCDT) Cenário Semanas 1–2 Semanas 3–4 Escalonamento e manutenção Monoterapia 25 mg/dia 50 mg/dia Aumentar 50 a 100 mg a cada 1 a 2 semanas. Dose máxima de 500 mg/dia (1 a 5 mg/kg/dia); 2 a 3 tomadas reduzem os efeitos adversos de pico de dose. Terapia adjuvante com ácido valproico 25 mg a cada 2 dias (0,15 mg/kg/dia) 25 mg/dia (0,3 mg/kg/dia) Aumentar 25 a 50 mg a cada 1 a 2 semanas (0,3 mg/kg). Dose máxima de 500 mg/dia (1 a 5 mg/kg/dia); 2 a 3 tomadas reduzem os efeitos adversos de pico de dose. Terapia adjuvante com fármacos antiepilépticos indutores enzimáticos, sem valproato — fenitoína, carbamazepina, fenobarbital, primidona 50 mg/dia (0,6 mg/kg/dia) 100 mg/dia (1,2 mg/kg/dia) Aumentar 100 mg a cada 1 a 2 semanas (1,2 mg/kg). Dose máxima de 700 mg/dia; 2 a 3 tomadas reduzem os efeitos adversos de pico de dose. Fonte: PCDT de Epilepsia vigente no SUS — Portaria Conjunta nº 17, de 21 de junho de 2018, item 7.3 [30]. Fonte regulatória complementar: bula da lamotrigina aprovada pela ANVISA — Agência Nacional de Vigilância Sanitária [28], para as faixas de manutenção usual. O valproato reduz a depuração da lamotrigina, aumentando a sua exposição e exigindo titulação mais lenta. Três advertências acompanham o quadro. Primeira: a dose inicial e a velocidade de escalonamento não devem ser excedidas, porque o risco de exantema — incluindo síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica — é dose e velocidade dependente. Segunda: o valproato inibe a glicuronidação da lamotrigina e eleva o seu nível sérico, o que exige metade da dose inicial e escalonamento mais lento; a inversa também vale, e retirar o valproato de um paciente estabilizado obriga a reavaliar a dose. Terceira: quando a interação farmacocinética com o fármaco associado é desconhecida, adota-se por precaução o esquema do valproato, que é o mais lento. Iniciar contraceptivo hormonal em paciente já estabilizada, sem indutor associado, pode exigir aumento da dose de manutenção; suspendê-lo pode exigir redução — informação da bula aprovada pela ANVISA. [28] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 79 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 13.4 Opções citadas na literatura e não incorporadas ao PCDT/SUS Tabela 13.3 — Oxcarbazepina e lacosamida: doses de fonte complementar e situação regulatória no SUS Fármaco Dose inicial Titulação Dose máxima e situação no SUS Oxcarbazepina 300 a 600 mg/dia, em 1 a 2 tomadas Aumentar 300 mg/dia a cada semana Máximo de 2.400 mg/dia, em 3 tomadas. Não incorporada ao PCDT/SUS: na consulta pública da CONITEC sobre o Protocolo registrou-se que não há evidência de superioridade sobre a carbamazepina, primeira escolha para crises focais. Esta informação não representa recomendação do PCDT/SUS; as faixas posológicas provêm do material didático da Faculdade Afya. [22,30] Lacosamida 50 a 100 mg, 2 vezes ao dia Aumentar 50 mg, 2 vezes ao dia, a cada semana Máximo de 600 mg/dia. Não incorporada ao SUS: a Portaria nº 20/SCTIE/MS, de 27 de abril de 2018, aprovou a não incorporação da lacosamida, conforme deliberação da CONITEC. Esta informação não representa recomendação do PCDT/SUS; as faixas posológicas provêm do material didático da Faculdade Afya. [22,30] Fonte complementar: White Book — Faculdade Afya [22], material didático de instituição de ensino, para as faixas posológicas; PCDT de Epilepsia e Portaria nº 20/SCTIE/MS, de 27 de abril de 2018, para a situação de incorporação [30]. A discussão científica destes fármacos é mantida por utilidade didática e não deve ser confundida com recomendação do SUS. 13.5 Politerapia — critérios de associação A associação de fármacos pode ser aplicada quando duas monoterapias sequenciais não controlam as crises. Na politerapia, a associação deve ser individualizada conforme o tipo de crise, as evidências de eficácia, as interações, o mecanismo de ação, a tolerabilidade e o perfil de efeitos adversos. Quando apropriado, podem ser preferidos fármacos com mecanismos complementares, mas não se trata de regra absoluta. O PCDT orienta, de forma geral, associar um fármaco de espectro amplo — ácido valproico, lamotrigina, topiramato, levetiracetam — a um de espectro restrito — carbamazepina, fenitoína, fenobarbital —, evitando dois fármacos com o mesmo mecanismo de ação; registra ainda evidência de sinergismo entre ácido valproico e lamotrigina e adverte que carbamazepina com lamotrigina pode favorecer efeitos adversos neurotóxicos. [30] Na literatura complementar, a combinação parte de um bloqueador de canal de sódio — carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, lamotrigina ou lacosamida — somado a um fármaco de mecanismo distinto: ácido valproico, levetiracetam, topiramato, fenobarbital ou clobazam — combinação descrita pelo material didático da Faculdade Afya, que não representa recomendação do PCDT/SUS. [22] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 80 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 13.6 Contraindicações e monitorização As faixas posológicas das seções anteriores só são utilizáveis quando acompanhadas de duas informações que não cabem na tabela de doses: em quem o fármaco não deve ser usado e o que precisa ser acompanhado depois de iniciado. Tabela 13.4 — Contraindicações relevantes e monitorização Fármaco Não usar ou usar com cautela em Monitorização Valproato Mulheres em idade fértil sem contracepção eficaz, pelo risco teratogênico e de comprometimento do neurodesenvolvimento; hepatopatia; suspeita de doença mitocondrial Transaminases e hemograma antes e durante o tratamento; peso; sinais de hiperamonemia. As advertências específicas estão na Seção 13.9. Carbamazepina Crises de ausência e mioclônicas, que pode agravar [5]; ascendência asiática sem tipagem de HLA-B*1502 — o alelo associa-se a risco particularmente alto de reações cutâneas graves a carbamazepina, fenitoína, oxcarbazepina e lamotrigina [3] Hemograma e sódio sérico, pela hiponatremia [5]; nível sérico quando houver dúvida de adesão ou toxicidade. Fenitoína Crises de ausência e mioclônicas; instabilidade hemodinâmica na administração venosa rápida Nível sérico, pela cinética não linear — pequenos aumentos de dose podem elevar muito a concentração; sinais de toxicidade cerebelar. Lamotrigina Escalonamento rápido, sobretudo em associação ao valproato, pelo risco de farmacodermia — incluindo necrólise epidérmica tóxica e síndrome de Stevens- Johnson, cuja frequência é maior com titulação rápida [5] Vigilância clínica de exantema nas primeiras semanas; titulação lenta obrigatória. [5] Levetiracetam História de transtorno psiquiátrico não controlado, pelo risco de irritabilidade e alteração de comportamento Avaliação de humor e comportamento nas primeiras semanas; ajuste na insuficiência renal. Fenobarbital Preferência limitada em crianças pelo efeito sobre cognição e comportamento; depressão respiratóriaem uso venoso Sedação, cognição e comportamento; nível sérico quando pertinente. Fonte: elaboração SYNAPSE, com base no PCDT [30], no Harrison [3] e em Epilepsia Prática/LBE [5]. Lista orientativa e não exaustiva: confirmar contraindicações e interações na referência de origem antes de prescrever. 13.7 Interações a vigiar A atenção maior recai sobre os indutores do metabolismo enzimático — fenitoína, carbamazepina, oxcarbazepina e fenobarbital —, que reduzem a concentração de outros fármacos anticrise e de medicações concomitantes. A inibição do metabolismo da lamotrigina pelo ácido valproico opera no sentido oposto e exige titulação mais lenta — material didático da Faculdade Afya. [22] 13.8 Falha terapêutica e farmacorresistência A definição da ILAE não exige associação: epilepsia farmacorresistente é a falha de dois esquemas de fármacos anticrise — em monoterapia ou em associação — adequadamente escolhidos para o tipo de crise, tolerados e utilizados em dose e por tempo apropriados, sem que se alcance liberdade sustentada de crises. Antes de aplicar o rótulo, é obrigatório excluir a pseudo-resistência: baixa adesão, dose subterapêutica, escolha inadequada do fármaco para o tipo de crise, erro de classificação, interação que reduz o nível sérico, gatilho não controlado e evento não epiléptico tomado por crise. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 81 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Confirmada a farmacorresistência, o encaminhamento a centro especializado deve ser precoce — formulação do material didático da Faculdade Afya, convergente com o PCDT (Seção 8.3). [22] O tratamento cirúrgico é opção para parte desses pacientes; o rendimento é maior nas epilepsias focais com lesão bem delimitada, sobretudo na epilepsia temporal mesial, e menor nas demais situações. Dieta cetogênica e neuroestimulação figuram entre as alternativas nos casos resistentes ou não candidatos à ressecção — material didático da Faculdade Afya. [22] DOSE ADEQUADA É PARTE DA DEFINIÇÃO Antes de rotular a epilepsia como farmacorresistente, confirmar que os dois esquemas foram usados em dose adequada e por tempo suficiente, e que o tipo de crise foi corretamente classificado — bloqueadores de canal de sódio podem agravar crises generalizadas, como desenvolve o Capítulo 12. [22, material didático da Faculdade Afya] 13.9 Comorbidade psiquiátrica e crises não epilépticas psicogênicas Nas crises não epilépticas psicogênicas, a maioria dos pacientes mantém os episódios após o diagnóstico e necessita de intervenção psiquiátrica de longo prazo, individualizada conforme o diagnóstico subjacente. Baixa adesão e limitação financeira são os principais obstáculos à continuidade do tratamento — material didático da Faculdade Afya. [23] Antidepressivos e ansiolíticos podem ser prescritos de modo individualizado; controlam melhor as comorbidades de depressão e ansiedade do que um transtorno psiquiátrico causador subjacente. A psicoterapia acompanha o diagnóstico psiquiátrico identificado — material didático da Faculdade Afya. [23] Tabela 13.5 — Inibidores seletivos da recaptação de serotonina citados pelo material de origem, quando há quadro depressivo associado Fármaco Apresentação Dose, via e ajuste Sertralina 50 mg por comprimido 50 mg VO, 1 vez ao dia, pela manhã; ajustar conforme resposta clínica; uso contínuo Citalopram 20 mg por comprimido 20 mg VO, 1 vez ao dia, pela manhã; ajustar conforme resposta clínica; uso contínuo Fluoxetina 20 mg por comprimido 20 mg VO, 1 vez ao dia, pela manhã; ajustar conforme resposta clínica; uso contínuo Fonte: White Book — material didático da Faculdade Afya [23]; fonte complementar, não normativa. Estas doses não são contempladas pelo PCDT de Epilepsia nem pelas demais fontes deste volume: a prescrição de antidepressivo pertence ao manejo psiquiátrico e deve seguir a referência específica. Vale a advertência de interação já registrada na Seção 13.7: fenobarbital e fenitoína reduzem de forma marcada o nível sérico de sertralina, citalopram e outros antidepressivos, por indução enzimática. [5] NOTA SOBRE POSOLOGIA As doses acima são faixas usuais, com finalidade educacional e orientadora — não são doses obrigatórias. A escolha do fármaco, da dose, da via, do intervalo e da duração deve ser individualizada conforme idade, peso, indicação, formulação, função renal e hepática, interações medicamentosas, gestação e demais características clínicas do paciente. As doses de urgência do estado de mal epiléptico são outras e estão no Capítulo 12 — Tabela 12.1 para o PCDT e Tabela 12.2 para a referência internacional complementar. Doses pediátricas de manutenção não constam deste capítulo. Quando a dose não puder ser confirmada na fonte, consultar o PCDT ou a bula específica. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 82 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 13.10 Valproato — advertências que precedem a prescrição O valproato é dos fármacos mais eficazes das epilepsias generalizadas e o de escolha em várias síndromes, mas carrega um perfil de risco que precisa ser conhecido antes de prescrever, e não apenas monitorado depois. Teratogenicidade e neurodesenvolvimento. É o antiepiléptico de maior potencial teratogênico. A exposição intrauterina associa-se a malformações congênitas em cerca de 10% dos casos — defeitos do tubo neural, dismorfia facial, fenda labiopalatina, cardiopatias e anomalias renais — e a distúrbios do neurodesenvolvimento em 30% a 40%, incluindo atraso de fala e marcha, déficit cognitivo, transtorno de déficit de atenção e transtorno do espectro autista. [29] A Agência Nacional de Vigilância Sanitária — ANVISA, agência reguladora brasileira, determina que o valproato não seja usado por mulheres com potencial reprodutivo, a menos que as alternativas sejam ineficazes ou não toleradas, e sob as condições de um programa de prevenção da gravidez: contracepção eficaz, informação documentada sobre os riscos, reavaliação anual da necessidade por especialista e consulta imediata diante da possibilidade de gravidez. A regra alcança meninas antes da menarca, e o esforço para migrar para alternativa deve anteceder a adolescência. [29] A interrupção abrupta, porém, é perigosa — a mudança de esquema é decisão de especialista, não de urgência. Demais riscos relevantes. Hepatotoxicidade grave, especialmente abaixo de dois anos, em politerapia e em doenças metabólicas — contraindicado na suspeita de distúrbio relacionado à POLG, como a síndrome de Alpers-Huttenlocher. Pancreatite, que pode ser fulminante. Trombocitopenia e disfunção plaquetária dose-dependentes. Hiperamonemia, com ou sem elevação de transaminases, capaz de produzir encefalopatia — contraindicado em distúrbios do ciclo da ureia. Acrescentam-se tremor, ganho ponderal, alopecia e efeitos endócrinos — advertências da ANVISA. [29] A monitorização hepática e hematológica é orientada pelo contexto clínico e pelo perfil de risco, e não por calendário fixo. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 83 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 14 — COMPLICAÇÕES E PROGNÓSTICO Este capítulo separa quatro coisas que costumam ser tratadas como uma só: as complicações do evento agudo, as complicações crônicas da doença, os efeitos do tratamento e o prognóstico propriamente dito — que, por sua vez, difere radicalmente entre crise febril, crise sintomática aguda e epilepsia. 14.1 Complicações da crise aguda e do estado de mal A crise em si pode causar dano direto: mordedura de língua e bochechas, obstrução parcial de vias aéreas por acúmulo de secreções e flacidez pós-ictal, incontinência, e traumatismo craniano nas crises atônicas, em que o risco de queda é substancial. [2,3] O estado de mal acrescenta um mecanismo próprio, já descrito na Seção 8.1. O ponto de tempo t2 — 30 minutos nacrise tônico-clônica — é definido como a duração a partir da qual existe risco aumentado de consequências a longo prazo, entre elas morte neuronal, lesão neuronal e alteração das redes neuronais, dependendo do tipo e da duração das crises. [30] É marco prognóstico, e não instante em que o dano se instala. A ele somam-se complicações sistêmicas que devem ser ativamente procuradas e tratadas: acidose metabólica, distúrbios hidroeletrolíticos, tromboembolias e sepse. [5] E, após crise tônico-clônica com rebaixamento persistente, a probabilidade de estado de mal não convulsivo é alta — diagnóstico que só o EEG estabelece. [5] 14.2 Complicações crônicas: as comorbidades pesam tanto quanto as crises As fontes são explícitas ao afirmar que as comorbidades podem influenciar a qualidade de vida mais do que a ocorrência das próprias crises. [5] Além disso, sua presença reduz a chance de resposta aos fármacos: há risco quatro vezes maior de resistência aos fármacos anticrise em pacientes com comorbidade psiquiátrica. [5] Tabela 14.1 — Comorbidades psiquiátricas na epilepsia Comorbidade psiquiátrica Prevalência ou risco descrito Depressão 23,1% (ativa, últimos 12 meses); risco 2,7 vezes maior que na população geral [5] Transtornos ansiosos 20,2% a 27,3%, conforme o método de avaliação [5] Psicoses primárias 7% [5] Psicoses da epilepsia 5,6% [5] Transtorno bipolar 4,5% [5] TDAH 2,7 a 4 vezes mais frequente que na população geral [5] Crise não epiléptica psicogênica associada 5% a 10% em ambulatório; 20% a 40% em internados [5] Suicídio Risco 5 vezes maior [5] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir de Epilepsia Prática/LBE [5]. As psicoses da epilepsia guardam relação temporal com as crises e se dividem em ictal, pós-ictal (início até 120 horas após a crise) e interictal; há ainda a psicose alternativa, ou normalização forçada, que surge quando um paciente antes refratário deixa de ter crises e normaliza o EEG. [5] Reconhecer essa relação temporal é o que evita tratá-las como transtorno psiquiátrico primário. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 84 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Na infância, o espectro é outro: dificuldades de aprendizagem, deficiência intelectual e transtorno do espectro autista [5] — e, nas encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento, a própria atividade epileptiforme contribui para o comprometimento cognitivo e comportamental além do esperado pela patologia subjacente (Seção 5.5). [1] Completam o quadro os desfechos não clínicos: vulnerabilidade a acidentes, preconceito, estigma e mortalidade prematura [5], incluindo a morte súbita e inesperada na epilepsia (SUDEP), cujo risco é reduzido pelo controle das crises e pelo tratamento cirúrgico quando indicado. [5] 14.3 Complicações do tratamento Os fármacos anticrise oferecem risco potencial e podem impactar negativamente a qualidade de vida (Seção 12.1). [1] Alguns efeitos merecem registro por serem determinantes de escolha, e não apenas de vigilância: constrição concêntrica e irreversível do campo visual com vigabatrina; farmacodermia, incluindo síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica, com lamotrigina e carbamazepina; hepatotoxicidade grave, encefalopatia, tremor e ganho ponderal com valproato; irritabilidade e alteração de comportamento com levetiracetam, sobretudo em pacientes com antecedente psiquiátrico; perda mineral óssea com barbitúricos e indutores enzimáticos; e tolerância e abstinência com benzodiazepínicos em uso crônico. [5] Durante o uso de carbamazepina, hemograma e sódio sérico devem ser monitorados, pelo risco de hiponatremia (Seção 13.6). [5] Há ainda uma complicação silenciosa, de natureza farmacocinética: indutores enzimáticos reduzem a eficácia de contraceptivos hormonais, anticoagulantes e quimioterápicos (Seção 12.5). [5] 14.4 Prognóstico da epilepsia A resposta ao primeiro fármaco é um dos principais preditores prognósticos: cerca de 60% dos pacientes ficam livres de crises após um ou dois esquemas, e menos de 10% respondem a tentativas subsequentes. [5] Considerando todas as formas de epilepsia, as fontes descrevem quatro cenários: [5] • 20% a 30% — condição autolimitada, que remite em tempo relativamente curto, sobretudo algumas formas da infância; • 20% a 30% — crises facilmente controláveis, com longos anos em remissão sob tratamento adequado; • cerca de 20% — controle razoável, exigindo doses elevadas de um ou mais fármacos, com crises recorrentes de tempos em tempos; • 20% a 30% — crises refratárias, candidatas a cirurgia, dieta cetogênica ou neuroestimulação. A falha do tratamento medicamentoso é definida quando não se alcança liberdade sustentada de crises após dois esquemas adequadamente escolhidos, tolerados e usados em dose e tempo apropriados, em monoterapia ou em associação, excluída a pseudo-resistência (Seção 13.8) — um processo que deve levar meses, e não anos. [5] Nas epilepsias focais a refratariedade é mais frequente: até 36% dos adultos e crianças com epilepsia focal mantêm crises incapacitantes apesar de tratamento adequado. [5] O PCDT registra, na mesma direção, que 20% a 30% dos pacientes encaminhados a centros especializados não têm crises epilépticas — a pseudorrefratariedade —, de modo que a reavaliação diagnóstica precede a escalada terapêutica. [30] A etiologia modula fortemente a chance de controle. Nas séries reproduzidas na referência brasileira, a probabilidade de ficar livre de crises com fármacos foi mais alta nas etiologias vasculares e traumáticas — em torno de metade a dois terços dos pacientes — e progressivamente menor no tumor cerebral, na esclerose do hipocampo e, sobretudo, nas malformações do desenvolvimento cortical, onde não chega a um quinto. Os valores vêm de séries com seleção e seguimento distintos, e a hierarquia entre as etiologias é mais informativa que o número isolado. [5] Na mesma direção, a presença de lesão na neuroimagem dobra o risco de não resposta ao tratamento. [5] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 85 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Em termos de remissão global, séries relatam remissão em torno de dois terços a quatro quintos dos pacientes em três a cinco anos, com variação conforme a síndrome e a população. [1] A referência brasileira acrescenta que aproximadamente 70% das pessoas com epilepsia poderiam viver livres de crises com diagnóstico correto e acesso ao tratamento adequado. [5] O contraponto é a lacuna assistencial documentada pelo PCDT no Brasil — mais de um terço em tratamento inadequado, lacuna diagnóstica de 87% e não adesão de 66,2% em série ambulatorial (Seção 2.4) [30] —, que transforma um prognóstico biológico favorável em desfecho assistencial ruim. Quanto à retirada da medicação, os números e os determinantes sindrômicos estão na Seção 12.8. Cabe aqui apenas o desfecho: em caso de recorrência após a descontinuação, complicações graves são bastante raras, e 95% dos pacientes voltam a apresentar 1 ano de remissão em 3 anos de seguimento após reintrodução. [1] 14.5 Prognóstico da crise febril O prognóstico da crise febril é essencialmente favorável, e deve ser comunicado como tal — mas com três números que precisam ser ditos com precisão. • Recorrência. Este volume adota os valores do PCDT, que estratifica o risco pelos fatores presentes: a frequência de recorrência é de 10% em pacientes sem fatores de risco, 25% a 50% na presença de um a dois fatores e 50% a 100% na presença de três ou mais. Os fatores são a primeira crise febril antes de 1 ano de idade, a história familiar de epilepsia ou de crise febril e a curta duração do episódio febril. [30] As demais fontes deste volume trazem estimativas globais, não estratificadas — a referência brasileira descreve segunda crise em cerca de um terço das crianças, com metade destas chegando a um terceiro episódio[5], e o Harrison registra que menos de 10% têm três ou mais episódios, sendo a recorrência mais provável quando a primeira crise ocorreu no primeiro ano de vida. [3] Por medirem coisas diferentes — risco estratificado por fator de risco, de um lado, e proporção global, de outro —, esses valores não se contradizem, e o Protocolo prevalece para a conduta no SUS. • Risco de epilepsia. O PCDT estima 1% a 1,5% após crise febril simples — apenas um pouco maior que a incidência na população geral, de cerca de 0,5% — e 4% a 15% após crise febril complexa. [30] O Harrison converge, reservando o aumento às formas complexas, com risco de 2% a 5%. [3] • Dano encefálico. Na forma simples, trata-se de evento benigno, sem danos permanentes, com tendência à remissão espontânea com a idade. [30] A ressalva única, já discutida na Seção 6.6, é o estado de mal epiléptico febril: o Goldman-Cecil registra que até 12% das crianças com estado de mal epiléptico febril têm evidência de lesão do hipocampo à ressonância, o que sugere associação — e não causalidade demonstrada — com a esclerose do hipocampo. [2] Trata-se, ainda assim, da minoria das crises febris, e o quadro cursa em geral com baixa morbimortalidade. [5] COMO COMUNICAR O PROGNÓSTICO À FAMÍLIA APÓS UMA CRISE FEBRIL SIMPLES Três mensagens, nesta ordem: não é epilepsia — é uma resposta idade-dependente de um cérebro em maturação (Seção 6.6); pode acontecer de novo, e o risco depende dos fatores presentes — 10% sem nenhum, 25% a 50% com um a dois e 50% a 100% com três ou mais [30] —, sendo que a recorrência não significa agravamento; não causa dano cerebral na forma simples, e o risco de epilepsia futura permanece baixo. Acrescente o que fazer diante de nova crise: medidas de conforto, cronometrar a duração e procurar atendimento se ultrapassar cinco minutos, se houver sinais focais ou se a criança não recuperar a consciência (Capítulo 8). [3,5,30] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 86 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 14.6 Prognóstico da crise sintomática aguda É o cenário de maior contraste entre risco imediato e risco tardio. A crise sintomática aguda tem risco de mortalidade em 30 dias nove vezes maior — porque a gravidade pertence à doença que a provocou —, mas risco de recorrência em 10 anos 80% menor do que o das crises não provocadas. [1] Traduzindo para a conduta: o perigo está na causa, não na crise; e, resolvida a causa, a maioria desses pacientes não precisa de tratamento antiepiléptico prolongado (Seção 12.4). [1,2,5] 14.7 SUDEP — morte súbita e inesperada na epilepsia SUDEP designa a morte súbita, inesperada, não traumática e não por afogamento de uma pessoa com epilepsia, com ou sem crise testemunhada, e sem causa tóxica ou anatômica identificada na necropsia — definição da diretriz conjunta da American Academy of Neurology e da American Epilepsy Society. [25] Está entre as causas de mortalidade prematura relacionadas à epilepsia [5] e é um desfecho que precisa ser nomeado — e não apenas mencionado — em um capítulo de prognóstico. A incidência estimada é de 1,2 por 1.000 pacientes-ano em adultos e 0,22 por 1.000 pacientes-ano em crianças e adolescentes até 17 anos, conforme a diretriz conjunta da American Academy of Neurology e da American Epilepsy Society — fonte internacional, que não representa recomendação do PCDT/SUS. [25] O fator de risco de maior peso, e o único identificado com alto grau de confiança nessa diretriz, é a ocorrência de crises tônico-clônicas e a sua frequência: três ou mais crises tônico-clônicas por ano associam-se a risco cerca de quinze vezes maior. [25] Ausência de supervisão noturna e ausência de dispositivo de escuta figuram como fatores de confiança moderada. [25] A frequência de crises tônico-clônicas é, portanto, o fator de risco melhor estabelecido e o principal alvo modificável — o que não equivale a causalidade demonstrada. O mecanismo proposto é a repercussão da crise tônico-clônica sobre centros troncoencefálicos de controle respiratório e autonômico, com hipoventilação, desregulação autonômica e comprometimento dos mecanismos de despertar — hipótese que ajuda a explicar a predominância dos eventos durante o sono. As fontes deste volume não descrevem esse mecanismo em detalhe, e ele permanece como formulação hipotética, não como mecanismo demonstrado. Da fisiopatologia decorre a prevenção, que é a mesma coisa que o tratamento bem feito: o objetivo primário é reduzir ou abolir as crises tônico-clônicas, com adesão ao fármaco anticrise, revisão precoce da farmacorresistência e encaminhamento cirúrgico quando indicado (Seção 12.7). Em pacientes selecionados com crises tônico-clônicas frequentes e noturnas, supervisão noturna ou dispositivos de detecção podem ser discutidos, conforme as circunstâncias individuais — recomendação da diretriz AAN/AES, não contemplada pelo PCDT. [25] Sobre comunicar o risco: os números devem ser ditos na forma que preserva a proporção — em um ano, o SUDEP afeta tipicamente 1 em cada 1.000 adultos e 1 em cada 4.500 crianças com epilepsia, ou seja, 4.499 de 4.500 crianças não serão afetadas. [25] Omitir a informação priva o paciente de um motivo concreto de adesão; apresentá-la sem o denominador produz medo desproporcional. 14.8 Impacto cognitivo, psicossocial e funcional O desfecho de uma epilepsia não se mede apenas pela contagem de crises. Na criança, o impacto cognitivo tem três origens que precisam ser separadas, porque têm condutas distintas: a etiologia subjacente, a própria atividade epileptiforme — mecanismo que define as encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento (Seção 5.5) — e o efeito adverso dos fármacos, sobretudo em politerapia e com topiramato ou barbitúricos (Seção 14.3). Deterioração cognitiva ou comportamental é, ela própria, motivo de reavaliação diagnóstica e terapêutica, e não apenas de acompanhamento. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 87 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril No adulto, o peso concentra-se em outros domínios: restrição à direção veicular, limitações ocupacionais, dificuldade de inserção no mercado de trabalho, impacto sobre autonomia e sobre planejamento reprodutivo. O PCDT registra, entre os problemas psicossociais associados à epilepsia, a perda da carteira de habilitação, o desemprego, o isolamento social, os efeitos adversos dos fármacos, a disfunção sexual e o estigma social. [30] As comorbidades psiquiátricas descritas na Seção 14.2 fecham o circuito: reduzem a qualidade de vida, reduzem a adesão e quadruplicam o risco de farmacorresistência. [5] A consequência prática é que o seguimento precisa rastrear ativamente humor, ansiedade, sono, cognição, adesão e situação funcional — e não apenas perguntar quantas crises houve desde a última consulta. Nas epilepsias de início na infância, acrescenta-se a transição para o cuidado adulto, período de risco elevado de perda de seguimento e de descontinuação não supervisionada. 14.9 Síntese prognóstica O DESFECHO É PRODUTO DE CINCO EIXOS ↓ 1. NATUREZA DO EVENTO — crise febril · crise sintomática aguda · epilepsia ↓ 2. ETIOLOGIA — define a chance de controle: mais alta nas causas vasculares, mais baixa nas malformações do desenvolvimento cortical ↓ 3. RESPOSTA AO PRIMEIRO FÁRMACO — 60% livres de crises com um ou dois esquemas; menos de 10% depois disso ↓ 4. DURAÇÃO DAS CRISES E TEMPO ATÉ O TRATAMENTO — T1 e T2 no estado de mal; encaminhamento precoce na refratariedade ↓ 5. COMORBIDADES E ACESSO AO CUIDADO — comorbidade psiquiátrica quadruplica o risco de resistência; a lacuna de tratamento anula o prognóstico favorável Epilepsia e Convulsão Febril · Página 88 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril FICHA-RESUMO — EPILEPSIA E CONVULSÃO FEBRIL Condensa o volume na ordem dos capítulos. Não acrescenta informação nova: serve para revisãoEstudo — Epilepsia e Convulsão Febril Figura 1.4 — Circuito talamocortical e geração do ritmo Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Harrison [3] e no Goldman-Cecil [2]. O sistema de modulação é ainda mais amplo: aferentes colinérgicos, noradrenérgicos, serotoninérgicos e histaminérgicos do tronco encefálico e de estruturas prosencefálicas basais modulam a excitabilidade dos mecanismos motores hemisféricos. [2] 1.6 A rede límbica temporal mesial O hipocampo, o córtex entorrinal, a amígdala e estruturas límbicas adjacentes formam uma rede densamente interconectada, com arquitetura celular própria: setores CA1 e CA3, giro denteado com suas células granulares e as fibras musgosas, e uma população de interneurônios que exercem inibição sobre os principais neurônios excitatórios do giro denteado. [2,3] Essa rede interessa por sua fisiologia normal — memória, componente emocional e integração autonômica —, que é o que dá conteúdo à semiologia das crises originadas nessa topografia (Capítulo 7). A arquitetura celular descrita, com interneurônios inibitórios atuando sobre os principais neurônios excitatórios do giro denteado, é a referência anatômica a partir da qual o Capítulo 6 discute as alterações patológicas. 1.7 Base fisiológica do eletroencefalograma O EEG de escalpo não registra potenciais de ação isolados: registra a soma de potenciais pós- sinápticos excitatórios e inibitórios de um grande grupo de neurônios. [1] A tradução entre membrana e traçado segue esta ordem: Epilepsia e Convulsão Febril · Página 9 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Figura 1.5 — Da atividade neuronal ao traçado do EEG Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Tratado de Neurologia [1] e no Harrison [3]. Por isso a onda lenta que sucede a espícula não é um achado acessório: o pós-potencial hiperpolarizante é apontado como um dos contribuintes para ela, embora a sua geração não se reduza a um único mecanismo inibitório (Seção 6.1). [3] O rendimento e os limites do exame são discutidos no Capítulo 10. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 10 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 1.8 Correlação estrutura → função → expressão clínica Tabela 1.1 — Correlação entre estrutura cortical, função e expressão clínica na epilepsia Estrutura Função de maior valor localizatório Por que importa na epilepsia Córtex rolândico pré- central Comando motor voluntário contralateral. Abalo clônico regional contralateral, rítmico e sustentado, podendo disseminar-se em marcha jacksoniana; após o término, pode restar paralisia pós- ictal (paralisia de Todd). [2] Córtex rolândico pós- central / parietal Sensibilidade somática e integração espacial. Formigamento contralateral, dormência, sensação de movimento, calor, frio ou choque elétrico; na topografia parietal, agnosia contralateral de um membro, membro fantasma e distorção de tamanho ou posição de parte do corpo. [2] Área sensorimotora suplementar Programação de postura e movimento axial. Contração tônica uni ou bilateral dos membros com mudança de postura, podendo exibir a postura clássica de esgrimista, com parada da fala ou vocalização. [2] Córtex temporal mesial Memória, emoção, olfato e integração autonômica. Aura olfatória, com frequência desagradável e associada a sintomas gustatórios; fenômenos cognitivos como déjà vu, jamais vu, despersonalização e estado sonhador; automatismos oroalimentares. [2] Córtex temporal lateral Audição e linguagem receptiva no hemisfério dominante. Alucinações auditivas, que sugerem envolvimento do giro temporal superior; disfasia pós-ictal implica envolvimento do hemisfério dominante. [32] Córtex occipital Processamento visual. Luzes, manchas ou perda visual contralateral. [2] Ínsula, cíngulo, orbitofrontal, hipotálamo Controle autonômico e visceral. Manifestações autonômicas — palidez, rubor, sudorese, piloereção, alterações da frequência cardíaca, sensação cefálica e desfalecimento [2]; as crises do giro do cíngulo promovem atividade motora complexa e sinais autonômicos, e as da área motora suplementar podem cursar com incontinência urinária. [32] Circuito talamocortical Geração dos ritmos oscilatórios do sono. Substrato das descargas generalizadas de ponta-onda. [2,3] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir da Tabela 375.2 do Goldman-Cecil [2] e do Nitrini [32]. A regra prática que decorre da tabela: a semiologia da crise é um mapa funcional do córtex recrutado, e não uma lista arbitrária de sintomas. As oito seções anteriores descreveram peças isoladas. Elas só ganham sentido quando encadeadas: a epilepsia não é doença de um ponto elétrico, e sim de redes neuronais. A cadeia que liga a membrana ao sintoma percorre cinco etapas. NEURÔNIO → REDE → RECRUTAMENTO → PROPAGAÇÃO → MANIFESTAÇÃO CLÍNICA Epilepsia e Convulsão Febril · Página 11 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril No neurônio, o desequilíbrio entre correntes despolarizantes e a inibição GABAérgica permite descargas repetitivas que, isoladamente, não produzem crise. Na rede, a falha da inibição circundante deixa que essa descarga alcance neurônios vizinhos conectados. O recrutamento é o momento em que um número crítico deles passa a disparar em conjunto — e é aqui que a atividade deixa de ser local. A propagação percorre as conexões corticais locais e, pelas vias comissurais, pode alcançar o hemisfério oposto. A manifestação clínica corresponde à função das áreas efetivamente recrutadas, e não ao ponto onde a descarga começou — razão pela qual duas crises com a mesma origem podem se expressar de formas diferentes conforme o caminho que percorrem. Essa leitura em rede explica três observações que o modelo do foco isolado não explica: por que lesões da substância branca causam epilepsia sem lesar o córtex; por que a semiologia da crise reflete a propagação e não apenas a origem; e por que a mesma lesão pode produzir crises distintas em momentos diferentes. 1.9 O encéfalo em maturação: limiar convulsivo é idade-dependente O encéfalo não é funcionalmente idêntico em todas as idades. O desenvolvimento normal influencia diretamente o limiar convulsivo: o cérebro apresenta limiares diferentes em diferentes estágios de maturação. [3] Além disso, a função neuronal e a conectividade do sistema nervoso central imaturo diferem das do sistema maduro [3], e essas diferenças, somadas a fatores endógenos de natureza genética, determinam onde o limiar de cada indivíduo se situa em um dado momento da vida. [3] Trata-se, portanto, de uma propriedade fisiológica — e não de doença: o limiar é uma variável do desenvolvimento normal, e é essa variável que os capítulos seguintes utilizarão para explicar por que determinados fenômenos ocorrem em janelas etárias específicas. PONTE PARA O CAPÍTULO 6 Membrana com canais de Na , K e Ca² + sinapse glutamatérgica excitatória + sinapse GABAérgica inibitória⁺ ⁺ ⁺ + interneurônios de inibição circundante + conectividade cortical e talamocortical + limiar modulado pela maturação e pela genética = rede eletricamente estável. A compreensão dessas estruturas e funções permitirá reconhecer, posteriormente, quais alterações sustentam os mecanismos fisiopatológicos discutidos no Capítulo 6. [1–3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 12 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 2 — EPIDEMIOLOGIA 2.1 Magnitude e distribuição da epilepsia Quatro indicadores aparecem neste capítulo e não medem a mesma coisa. Incidência corresponde ao número de casos novos identificados em determinado período. Prevalência corresponde à frequência de indivíduos com a condição em uma população definida. “Epilepsia ativa” é uma definição epidemiológica baseada em critérios de atividade da doença, e seus valores devem serrápida e para localizar onde cada assunto está desenvolvido. 1. Definição (Definição inicial) Crise epiléptica = evento transitório por atividade neuronal anormal, excessiva e/ou síncrona no cérebro. [2,3] Convulsão = manifestação motora — descrição semiológica, pode ser epiléptica ou não. Epilepsia = predisposição permanente a gerar crises epilépticas; critérios operacionais: pelo menos duas crises não provocadas ou reflexas com intervalo > 24 h; ou uma crise não provocada ou reflexa com risco de recorrência ≥ 60% em 10 anos; ou síndrome epiléptica. [30,1] Crise reflexa ≠ crise sintomática aguda. Crise febril = evento na vigência de febre, dentro da faixa etária, sem neuroinfecção, sem distúrbio metabólico e sem epilepsia prévia — não é epilepsia. 2. Anatomia e fisiologia (Capítulo 1) Redes de substância cinzenta têm papel central na geração da descarga; conexões de substância branca participam da propagação (conexões locais e corpo caloso). Ciclo de membrana: Na⁺ despolariza → K /Cl hiperpolarizam. Glutamato/NMDA excitam; GABA-A e GABA-B inibem. ⁺ ⁻ Freios fisiológicos: hiperpolarização + inibição circundante dos interneurônios. Eixo talamocortical (GABA-B + Ca² tipo T + K ) gera os ritmos do sono — e as ausências. EEG = soma de potenciais pós-sinápticos:⁺ ⁺ espícula = despolarização; onda lenta = a inibição que a encerrou . Limiar convulsivo é idade- dependente (Seção 1.9) — a chave da pediatria. 3. Epidemiologia (Capítulo 2) ~1 em 10 pessoas terá uma crise epiléptica ao longo da vida; a maioria é provocada. [2] Epilepsia ativa: prevalência mundial de aproximadamente 0,5% a 1,0%. [30] Em países desenvolvidos, prevalência de 5–7/1.000 e incidência anual média de 45/100.000 (faixa 30–67/100.000); em países em desenvolvimento, prevalência mediana de 12,5/1.000 e incidência de 78–190/100.000. [2] Risco ao longo da vida: cerca de 3% no PCDT [30] e 1 em 26 no Goldman [2] — estimativas de fontes distintas, que não se somam. Curvas bimodais nos países desenvolvidos, com pico no 1º ano e no idoso; na criança distúrbios genéticos > infecção do SNC > distúrbios do desenvolvimento > traumatismo. 5. Fatores de risco (Capítulo 4) Não modificáveis: idade (forte influência no risco populacional, maior nos extremos da vida), sexo (1 em 21 homens × 1 em 28 mulheres), história familiar, condições do neurodesenvolvimento — deficiência intelectual, paralisia cerebral e TDAH, como associações epidemiológicas na infância; agravo perinatal só aumenta o risco quando acompanhado de deficiência intelectual ou paralisia cerebral. [2] Crises sintomáticas agudas — cinco principais: TCE (16%), AVE (16%), infecciosos (15%), tóxico-metabólicos (15%), abstinência (14%). [2] Condições adquiridas no adulto, identificáveis em 1/3: > 500× lesão craniana militar, 30× TCE grave civil, 20× AVE e infecções cerebrais, 10× Alzheimer, enxaqueca e hipertensão; na América Latina, a infecção cerebral é o fator mais frequentemente identificado. [2] Após crise febril: as simples não aumentam o risco de epilepsia (PCDT: 1–1,5%); as complexas, 2–5% no Harrison e 4–15% no PCDT, com déficits neurológicos prévios e história familiar de crises não febris. [3,30] Recorrência da crise febril ≠ epilepsia futura: primeira CF antes de 1 ano, história familiar e curta duração do episódio febril predizem recorrência. [30] Persistência de crises apesar de dois fármacos adequados caracteriza refratariedade — não é fator de risco para desenvolvê-la. [30] Gatilhos: adesão, privação de sono, estresse, fotoestimulação, álcool, infecção, febre. Tabela F.1 — Os dois conjuntos de fatores de risco na crise febril Recorrência de crise febril Epilepsia após crise febril Primeira crise febril antes de 1 ano de idade; história familiar de epilepsia ou de crise febril; curta duração do episódio febril [30] Crise febril complexa; déficits neurológicos prévios; história familiar de crises não febris [3] Fonte: Ver Seções 4.3 e 14.5. 6. Classificação (Capítulo 5) Níveis: 1 tipo de crise → 2 tipo de epilepsia (focal, generalizada, ambas, desconhecida) → 3 síndrome → 4 etiologia; comorbidades em todos. Crises: focais (consciência preservada × prejudicada; com × sem manifestações observáveis; podem evoluir para tônico-clônica bilateral), generalizadas (ausências, tônico-clônicas e outras generalizadas), desconhecidas quanto a focal ou generalizada, não classificadas. Desconhecida quanto a focal ou generalizada ≠ não classificada: na primeira não é possível determinar se a crise é focal ou generalizada; na segunda sabe-se que houve crise epiléptica, mas as informações são insuficientes para classificá-la. Regras: awareness ou responsividade comprometidas em qualquer momento = consciência prejudicada; descreve-se a sequência cronológica da semiologia. Espasmo, mioclonia, mioclonia negativa, crise clônica, tônica, tônico-clônica, atônica e mioclônico-atônica são tipos próprios quando generalizados; em crises focais contam como semiologia, e a assimetria favorece origem focal, podendo justificar investigação estrutural conforme o contexto. Terminologia: genético ≠ hereditário; epilepsias generalizadas genéticas = 25% de todas; “benigna” → autolimitada; encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 90 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Crise febril simples × complexa (Seção 5.6): simples = generalizada, única, 15 min, pós-ictal patológico (Todd). > 30 min = estado de mal epiléptico febril. 7. Fisiopatologia (Capítulo 6) LIMIAR (genética + maturação + lesão prévia) + GATILHO ↓ DESVIO PAROXÍSTICO DE DESPOLARIZAÇÃO — ↑ Ca² → canais de Na → disparos repetitivos →⁺ ⁺ pós-potencial hiperpolarizante ↓ FALÊNCIA DA INIBIÇÃO CIRCUNDANTE — ↑ K extracelular · Ca² pré-sináptico · NMDA · efeitos⁺ ⁺ efáticos ↓ RECRUTAMENTO E PROPAGAÇÃO — conexões locais · corpo caloso · eixo talamocortical ↓ CLÍNICA CONFORME A REDE RECRUTADA → ALTERAÇÃO TRANSITÓRIA DAS REDES RECRUTADAS (confusão · paralisia de Todd) ↓ SE PERSISTE OU SE REPETE → EPILEPTOGÊNESE → CRISES ESPONTÂNEAS Focal: descarga confinada (aura) → marcha jacksoniana → propagação límbica/bilateral. Generalizada: ausências pela modulação anormal do ritmo talamocortical; tônico-clônicacom despolarização prolongada (tônica) interrompida progressivamente pela inibição (clônica). Epileptogênese: intervalo de meses a anos; mecanismos gerais — perda de inibição, remodelamento sináptico, gliose, neuroinflamação, alteração de canais e receptores, reorganização da conectividade. Modelo mais estudado (temporal mesial, não universal): perda de interneurônios do giro denteado, reorganização de fibras musgosas, esclerose CA1/CA3. Crise febril: não há mecanismo molecular único nas fontes. Três determinantes — encéfalo imaturo + predisposição genética + doença febril aguda. Inibição íntegra → evento breve e autolimitado. Exceção: estado de mal febril, em que parte das crianças apresenta sinal de lesão hipocampal aguda à RM. 8. Manifestações clínicas (Capítulo 7) Descrever em quatro tempos: início · evolução · término · o que resta. Tabela F.2 — Achado clínico e território sugerido Achado Sugere Aura estereotipada Início focal — investigar anormalidade focal Marcha jacksoniana, paralisia de Todd Crise focal motora, córtex rolândico Olhar fixo + automatismos + confusão pós-ictal Focal com consciência prejudicada “Desligamento” de segundos, sem aura e sem confusão, ponta-onda 3 Hz Ausência típica Epilepsia e Convulsão Febril · Página 91 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Achado Sugere Crise abrupta sem aviso, grito ictal, fase tônica → clônica, confusão prolongada Tônico-clônica generalizada Espasmos em salvas ao despertar no lactente + regressão do DNPM Síndrome de West (hipsarritmia) Contrações orofaciais e sialorreia noturnas em escolar Epilepsia autolimitada com descargas centrotemporais Fonte: Ver Capítulo 7. Crise febril típica: tônico-clônica generalizada, no contexto de doença febril aguda, frequentemente nas primeiras horas. Simples = única, breve, simétrica. 9. Red flags (Capítulo 8) Crise > 5 min ou subentrantes (T1 = 5 min; T2 = 30 min) · rebaixamento que não se recupera · febre com sinais meníngeos · déficit focal ou pós-ictal persistente · primeira crise com febre, cefaleia, alteração cognitiva ou trauma recente · crise focal tônica/mioclônica ou espasmo focal · espasmos com regressão do DNPM. Na criança febril: idade fora de 6 meses–5 anos, crises afebris prévias, suspeita clínica de neuroinfecção (liquor — limiar mais baixo abaixo de 18 meses), qualquer critério de complexidade, > 30 min. 10. Diagnóstico (Capítulo 9) É clínico. Sequência: foi crise? → foi provocada? → que tipo? → preenche critério de epilepsia? → qual etiologia? A testemunha faz parte do exame. Perguntar sempre: crises breves ou auras anteriores não reconhecidas; marcos do desenvolvimento; gatilhos. EEG: normal em até 60% dos interictais iniciais; atividade epileptiforme não é específica nem suficiente. O EEG classifica; quem diagnostica é a história. Crise febril: história e exame bastam; liquor, imagem e EEG não são de rotina; tratar a causa da febre; orientar a família. 11. Exames complementares (Capítulo 10) Tabela F.3 — Exame complementar e pergunta que responde Método Pergunta EEG Que tipo de crise? (sensibilidade 25–56%; repetição com sono ou registro prolongado aumenta o rendimento quando a suspeita persiste; 85% das anormalidades em 24 h de registro) EEG de urgência Há estado de mal não convulsivo em quem não voltou ao basal? TC Há lesão estrutural aguda? (exame da urgência) RM protocolo HARNESS Há lesão epileptogênica? (cerca de um quarto das séries após 1ª crise; reprotocolar revela lesão em parte dos exames antes tidos como normais) Laboratório A crise foi provocada? Liquor Há neuroinfecção ou causa autoimune? Teste genético Etiologia indefinida — rendimento variável conforme o cenário — maior nas encefalopatias, menor nas focais não lesionais Epilepsia e Convulsão Febril · Página 92 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Fonte: Ver Capítulo 10. Regra final: se o exame não muda a conduta, não deve ser pedido. 12. Diagnóstico diferencial (Capítulo 11) Crise × síncope × crise funcional: olhos abertos na crise, fechados na funcional; laceração lateral da língua × ponta; duração 1–2 min × 3 min; pós-ictal com confusão × recuperação imediata × sonolência sem confusão. Imitadores pediátricos: perda de fôlego (mesma faixa etária, gatilho emocional), Sandifer, tiques e estereotipias (interrompíveis), vertigem paroxística benigna, migrânea (aura ~30 min). Crise febril × crise em vigência de febre (Seção 11.3) — cinco possibilidades: crise febril; neuroinfecção; distúrbio metabólico; epilepsia deflagrada pela febre; primeira manifestação de epilepsia genética (GEFS+/Dravet). Discriminadores decisivos: idade dentro da janela, ausência de crises afebris prévias, crise em doença febril aguda, generalizada e breve, recuperação completa, exame e DNPM normais, foco infeccioso banal. 13. Tratamento (Capítulo 12 · doses no Capítulo 13) Crise aguda: PCDT (referência para o SUS): 0–5 min estabilizar + glicemia → a partir de 5 min diazepam EV 5–10 mg (máx. 20 mg, a 5 mg/min) → persistência, segunda linha EV: fenitoína 18 mg/kg (15–20) a até 50 mg/min com monitorização de ECG e PA, ou fenobarbital 15 mg/kg a 100 mg/min → sem resposta após 30 min da admissão, terceira linha: UTI, intubação e ventilação, anestesia geral (propofol, midazolam ou tiopental) e EEG contínuo. Referência internacional complementar (AES/ESETT), que não substitui o PCDT: 5–20 min benzodiazepínico em dose plena única; 20–40 min segunda linha com levetiracetam 60 mg/kg, fosfenitoína 20 mg EF/kg ou valproato 40 mg/kg, de eficácia equivalente. Refratário = persistência apesar de benzodiazepínico e de um fármaco de segunda linha; T1 = 5 min e T2 = 30 min são marcos temporais, não definição de refratariedade. Atraso no benzodiazepínico associa-se a refratariedade. Crise febril: tratar a causa da febre; antitérmico precoce controverso; profilaxia contínua não indicada; orientar a família. Quando iniciar: crise sintomática aguda → tratar o fator (± 3 meses de fármaco); primeira crise não provocada → em geral após a segunda (31–56% → 73% → 76%), antecipando se houver etiologia estrutural, exame alterado, crises no sono, Todd, estado de mal, EEG anormal ou história familiar significativa. Escolha: eficácia para o tipo/síndrome → efeitos adversos → conveniência. Amplo espectro × focais; ausência = etossuximida/valproato; bloqueadores de canal de sódio agravam mioclonias e ausências; indutores (PHT, CBZ, PB) × inibidor (VPA, que exige titulação lenta da lamotrigina). Farmacodinâmica (Seção 12.6): Na → hidantoínas, carbamazepina, oxcarbazepina, lacosamida ·⁺ GABA–barbitúricos = duração da abertura do canal de cloreto · GABA–benzodiazepínicos = eficiência/frequência da inibição · Ca² ⁺ tipo T talâmico → succinimidas (ausência) · α2δ → gabapentina, pregabalina · SV2A → levetiracetam · AMPA → perampanel · múltiplos → valproato, topiramato, lamotrigina · GABA-transaminase → vigabatrina. Retirada: considerar após 2 anos sem crises; recorrência muito variável entre os estudos, dependente da síndrome, do tempo livre de crises e do EEG; retirar gradualmente, um fármaco por vez, mais lentamente barbitúricos e benzodiazepínicos. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 93 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 14. Complicações e prognóstico (Capítulo 14) Comorbidades pesam tanto quanto as crises: depressão 23,1%, ansiedade 20,2–27,3%, suicídio 5×, e comorbidade psiquiátrica quadruplica o risco de farmacorresistência. Prognóstico da epilepsia: 60% livres de crises com um ou dois esquemas,pelo PCDT — 10% sem fatores de risco, 25–50% com um a dois, 50–100% com três ou mais (primeira crise antes de 1 ano, história familiar, curta duração do episódio febril) [30]; risco absoluto de epilepsia baixo após a forma simples (1–1,5%), com o aumento concentrado nas formas complexas (4–15%) [30]; forma simples de prognóstico benigno, sem danos permanentes e com remissão espontânea com a idade. [30] Crise sintomática aguda: mortalidade em 30 dias nove vezes maior; recorrência em 10 anos 80% menor. [1] SUDEP: 1,2/1.000 pacientes-ano em adultos e 0,22/1.000 em crianças; três ou mais crises tônico-clônicas por ano, risco cerca de 15 vezes maior. [25] PARA MEMORIZAR — QUINZE LINHAS 1. Crise é evento; epilepsia é doença; convulsão é descrição motora. 2. Crise febril é diagnóstico com critérios; “convulsionou com febre” é observação. 3. O limite superior de 5 anos é o critério etário mais constante entre as fontes. 4. O limiar convulsivo varia com a maturação — por isso a crise febril tem janela etária e desaparece depois. 5. Genético não é sinônimo de hereditário; muitas mutações são de novo. 6. Risco para os filhos: 3–5% (focais) e 6–12% (generalizadas). 7. Espícula é a descarga; onda lenta é a inibição que a encerrou. 8. Manifestação motora unilateral ou assimétrica favorece origem focal e pode justificar investigação estrutural conforme o contexto. 9. Aura é crise — e indica início focal. 10. Ausência não tem aura nem confusão pós-ictal; crise focal com consciência prejudicada tem as duas. 11. Cronometrar a crise é decisão terapêutica: T1 = 5 min, T2 = 30 min. 12. EEG normal não exclui; EEG alterado não confirma. 13. Liquor na criança febril guiado pela suspeita de neuroinfecção; abaixo de 18 meses o limiar é mais baixo, porque os sinais meníngeos podem estar mascarados. 14. Bloqueador de canal de sódio em epilepsia generalizada com mioclonias piora o quadro. 15. Na crise sintomática aguda, trata-se a causa; na epilepsia, previne-se a recorrência. RESUMO EM UMA LINHA Evento paroxístico → foi crise? → foi provocada? → que tipo de crise? → preenche critério de epilepsia? → qual a etiologia? → tratar o mecanismo e prevenir a recorrência. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 94 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEMA Este anexo aplica o conteúdo do volume a um problema clínico. Os nomes foram modificados; os achados são reproduzidos sem acréscimo. Onde o enunciado não informa, isso é registrado como dado ausente — e não preenchido por suposição. O problema Pedro, 8 anos, amanheceu muito desanimado e sem apetite, com tosse e coriza. Sua mãe Maria ficou observando o filho que ao final da tarde estava cada vez mais desanimado e iniciou quadro febril. De repente Pedro caiu e começou a se debater no chão, isso nunca havia acontecido. Maria tomou Pedro em seus braços e correu para o hospital. Maria só pensava: “Será que ele tem o mesmo mal do tio?” 1. Dados relevantes do caso Tabela A.1 — Separação entre dado do caso e dado ausente Categoria Dado do caso Dado ausente Identificação Sexo masculino; 8 anos — Pródromo Desânimo e inapetência desde a manhã; tosse e coriza Duração exata dos sintomas respiratórios Febre Início ao final da tarde, após piora progressiva do desânimo Temperatura aferida; intervalo exato entre febre e crise Evento Queda súbita seguida de debater-se no chão Duração; lateralidade ou início focal; desvio ocular/cefálico; responsividade durante o evento Antecedente “Isso nunca havia acontecido” — primeiro evento Crises febris ou afebris prévias não reconhecidas como tais; auras História familiar Referência materna a um “mal do tio” Diagnóstico do tio; grau de parentesco preciso Pós-ictal — Confusão, sonolência, déficit focal, paresia de Todd Exame — Sinais vitais, nível de consciência, sinais meníngeos, exame neurológico Desenvolvimento — Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor, desempenho escolar Exames — Glicemia, laboratório, liquor, neuroimagem, EEG Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no enunciado do problema. 2. Representação do problema Escolar de 8 anos, previamente sem eventos semelhantes, apresenta episódio motor paroxístico com queda, no primeiro dia de uma doença febril aguda com sintomas de vias aéreas superiores, em contexto de possível história familiar neurológica não caracterizada. Note-se o que essa representação não afirma: não afirma que houve crise epiléptica — embora seja a hipótese mais provável —, não afirma que a febre causou o evento, e não afirma que existe história familiar de epilepsia. Cada um desses passos exige confirmação (Seção 9.1). Epilepsia e Convulsão Febril · Página 95 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 3. Síndrome principal A descrição — queda súbita seguida de movimentos vigorosos generalizados (“debater-se”) — corresponde, na terminologia deste volume, a uma convulsão: manifestação motora paroxística e autolimitada (Definição Inicial). Convulsão é descrição semiológica, não diagnóstico. [4] A hipótese sindrômica é de crise epiléptica aparentemente generalizada, do tipo tônico-clônico, que é o fenótipo compatível com queda abrupta seguida de atividade motora bilateral (Seção 7.3). [2,3] Duas ressalvas se impõem: o enunciado não informa se houve aviso, desvio ocular ou assimetria inicial, elementos que separariam crise focal de generalizada (na ausência deles, registra-se como desconhecida quanto a focal ou generalizada, conhecido, Seção 5.2) [1]; e a crise tônico-clônica generalizada é justamente o tipo mais comum nos distúrbios metabólicos e nas crises provocadas [3], de modo que o fenótipo, isolado, não indica a natureza do evento. 4. Correlação anatomofuncional A queda com perda súbita do controle postural e a atividade motora bilateral implicam recrutamento simultâneo de redes bilaterais — seja por início generalizado, seja por propagação rápida a partir de um foco através de conexões corticais locais e das vias comissurais, como o corpo caloso (Seções 1.1 e 6.4). [3] Nada no enunciado permite localizar um território cortical: não há sinais corticais descritos — afasia, negligência, automatismos, aura, desvio do olhar — nem déficit residual relatado. Como estabelecido na Seção 1.8, a semiologia é o mapa funcional do córtex recrutado; sem semiologia detalhada, não há localização possível. Este é, portanto, um caso em que a anamnese com testemunha (Maria presenciou o evento) é o exame que falta, e não um exame complementar (Seção 9.2). [2,3] 5. Correlação fisiopatológica O que se pode afirmar com base no volume: • Um encéfalo de 8 anos ainda tem limiar convulsivo modulado pela maturação — o cérebro apresenta limiares diferentes em cada estágio de desenvolvimento (Seção 1.9). [3] • A febre é um gatilho reconhecido, capaz de precipitar crises em crianças normais sob os demais aspectos; os mecanismos pelos quais atua são, contudo, menos bem compreendidos, presumindo-se perturbações da excitabilidade neuronal análogas às da cascata geral (Seção 6.6). [3] • Infecções e processos inflamatórios podem causar disfunção da barreira hematoencefálica e reduzir o limiar convulsivo (Seção 11.3). [5] • A predisposição genética se expressa como limiar, determinando a propensão de um indivíduo a apresentar crises quando exposto a fatores como febre e infecções (Seção 3.3). Independentemente de qual dessas condições predominou, a via final é a mesma descrita na Seção 6.2: falência da inibição circundante, recrutamento sincrônico e propagação bilateral. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 96 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril PONTO CRÍTICO DO CASO — A IDADE RETIRA ESTE EVENTO DA DEFINIÇÃO DE CRISE FEBRILA crise febril é definida entre 6 meses e 5 anos pelo PCDT, adotado neste volume [30] —, e o limite superior de 5 anos é constante em todas as fontes deste volume (DefiniçãoInicial). Pedro tem 8 anos. Portanto, ainda que o evento tenha ocorrido em vigência de febre, ele não preenche a definição de crise febril, e o rótulo não pode ser aplicado. O que se tem é uma crise em vigência de febre — uma observação que, conforme a Seção 11.3, comporta ao menos cinco entidades distintas. Aceitar “crise febril” aqui seria concluir aquilo que precisa ser demonstrado, e com um critério explicitamente violado. [5] 6. Diagnóstico e critérios O que é possível concluir com os dados do enunciado: trata-se de um primeiro evento paroxístico compatível com crise epiléptica, ocorrido em vigência de febre, em criança fora da faixa etária da crise febril. O que não é possível concluir: • Não se pode diagnosticar epilepsia. Nenhum dos três critérios operacionais está preenchido: não há duas crises não provocadas separadas por mais de 24 horas; não há, com os dados disponíveis, estimativa de risco de recorrência ≥ 60% em 10 anos; e não há síndrome epiléptica caracterizada (Seção 9.5). [1,2] • Não se pode diagnosticar crise febril, pelo critério etário (Seção 6 acima). [5] • Não se pode afirmar história familiar de epilepsia. Maria refere um “mal do tio”, sem que o enunciado informe qual. Como estabelecido na Seção 3.3, história familiar é fator predisponente que, quando presente, aumenta a indicação de acompanhamento mais atento e de avaliação diagnóstica mais criteriosa [3] — mas “mal do tio” é hipótese da mãe, não dado clínico. Caracterizá-la é tarefa da anamnese. A pergunta diagnóstica correta, portanto, é a da Seção 11.3: entre as cinco possibilidades da criança que convulsiona febril, qual se aplica a Pedro? Excluída a crise febril pela idade, permanecem: crise sintomática aguda por neuroinfecção; crise sintomática aguda metabólica; epilepsia previamente não reconhecida, deflagrada pela febre; e primeira manifestação de epilepsia genética com fenótipo febril — cenário em que a GEFS+ merece menção explícita, por apresentar convulsões febris que persistem além dos 6 anos e depois evoluem para crises não associadas à febre (Seção 3.3). [3] 7. Red flags — presentes, ausentes e não informadas Tabela A.2 — Red flags do Capítulo 8 aplicadas ao caso Red flag (Capítulo 8) Situação no caso Idade fora da faixa da crise febril PRESENTE — 8 anos, acima do limite de 5 anos [3,30] Febre com sinais meníngeos NÃO INFORMADO — exige exame físico Crise > 5 minutos ou subentrantes NÃO INFORMADO — duração não relatada Rebaixamento que não se recupera NÃO INFORMADO — estado pós-ictal não descrito Déficit focal novo ou paresia de Todd — critério de complexidade no PCDT [30] NÃO INFORMADO Epilepsia e Convulsão Febril · Página 97 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Red flag (Capítulo 8) Situação no caso Crises afebris prévias AUSENTE conforme o relato materno (“nunca havia acontecido”) — a ser confirmado com perguntas dirigidas sobre auras e episódios breves não reconhecidos (Seção 9.3) [3] Regressão do desenvolvimento NÃO INFORMADO Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base nas referências [1,3,5]. O padrão desta tabela é, ele próprio, um achado: a única red flag demonstrável com os dados do enunciado é a idade — e as demais dependem de informações que só a avaliação presencial fornece. 8. Exames e interpretação Como Pedro não preenche critérios de crise febril, a contenção diagnóstica que se aplicaria àquele cenário (Seção 9.6) não vale aqui. A investigação segue a lógica da primeira crise (Seções 9.8 e 10.6): ESTABILIZAÇÃO · SINAIS VITAIS · CRONOMETRAR SE HOUVER NOVA CRISE ↓ GLICEMIA CAPILAR — imediata, para excluir causa metabólica corrigível [3] ↓ EXAME FÍSICO E NEUROLÓGICO COMPLETOS — sinais meníngeos, nível de consciência, déficit focal, pele [3] ↓ LABORATÓRIO — eletrólitos, cálcio, magnésio, função hepática e renal; foco infeccioso [3] ↓ HÁ SUSPEITA DE NEUROINFECÇÃO? → LIQUOR (indicado por suspeita clínica, não por rotina) [3,5] ↓ HÁ RED FLAG? → NEUROIMAGEM DE URGÊNCIA — primeira crise com febre é indicação explícita [1] ↓ EEG — rotineiramente indicado após uma primeira crise não provocada; classifica e estratifica risco de recorrência [5] Duas interpretações devem acompanhar os resultados. Um EEG normal não exclui — a sensibilidade após primeira crise é de 25% a 56%, e a repetição, com sono ou registro prolongado, aumenta o rendimento quando a suspeita clínica persiste (Seção 10.2). [5] E uma tomografia normal não encerra a investigação: a ressonância com protocolo adequado está indicada se houver achados focais no exame, alteração de consciência ou cognitiva, ou sinais de alarme na história (Seção 10.3). [5] 9. Diagnósticos diferenciais Além das quatro entidades listadas no item 6, o enunciado obriga a considerar os imitadores (Capítulo 11), porque ninguém confirmou que houve crise epiléptica — houve uma descrição materna de queda e de debater-se: • Síncope com abalos mioclônicos. Em criança febril, desidratada e inapetente desde a manhã, é diferencial legítimo. Discriminadores: queda flácida com palidez, abalos multifocais e arrítmicos por menos de 30 segundos e recuperação imediata sem confusão (Seção 11.1). [2,5] • Crise funcional. Menos provável nesta apresentação, mas caracterizada por olhos fechados, curso flutuante, movimentos fora de fase e duração superior a cinco minutos. [5] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 98 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril • Calafrio ou tremor intenso da fase de ascensão febril. Distingue-se pela preservação da consciência, ausente na descrição do caso — mas a consciência durante o evento não foi informada. • Neuroinfecção, que é simultaneamente diagnóstico diferencial e causa a ser ativamente excluída, por ser a que mais custa perder (Seção 11.3). [5] 10. Tratamento e conduta Com os dados disponíveis, a conduta é a de primeira crise em vigência de febre, fora da faixa da crise febril: • Na crise, se ainda em curso: estabilização, glicemia e, ultrapassados cinco minutos, benzodiazepínico conforme a escada da Seção 12.2 — em pediatria, midazolam 0,15 mg/kg IV, 0,2 mg/kg IM ou 0,5 mg/kg intranasal/bucal, ou diazepam 0,5 mg/kg IV ou retal, com máximo de 10 mg. [5] • Tratar a causa da febre, identificada pela clínica. [5] O quadro descrito — tosse e coriza — é compatível com infecção de vias aéreas superiores, que é o cenário mais comum de febre associada a eventos epilépticos na infância [5]; isso, porém, não dispensa a exclusão de neuroinfecção, que é decisão clínica e não estatística. • Fármaco anticrise de manutenção: não indicado com os dados atuais. Trata-se de primeira crise; o tratamento é em geral instituído após a segunda crise não provocada, antecipando-se apenas diante dos fatores de risco de recorrência (etiologia estrutural, exame neurológico alterado, crises no sono, paralisia de Todd, estado de mal como apresentação, EEG anormal ou história familiar significativa) — nenhum dos quais está demonstrado neste caso (Seção 12.4). [1,3] Se a investigação identificar causa aguda corrigível, trata-se o fator desencadeante. [1] • Orientar Maria, o que inclui responder à sua pergunta com precisão: o evento ainda não é diagnóstico de epilepsia, e a caracterização do “mal do tio” faz parte da investigação, não do prognóstico. 11. Prognóstico e seguimento O prognóstico depende do que a investigação demonstrar, e as três trajetórias possíveis divergem radicalmente (Capítulo 14): • Crise sintomática aguda (neuroinfecção ou distúrbio metabólico): risco de mortalidade em 30 dias nove vezes maior — pertencente à doença de base —, porém risco de recorrência em 10 anos 80% menor que o das crises não provocadas. [1] • Primeira crise não provocada isolada: recorrência de 31% a 56% em 2 a 5 anos, concentrada no primeiro ano. [1] • Epilepsia: prognóstico determinado pela síndrome e pela resposta ao primeiro fármaco — cerca de 60% ficam livres de crises com um ou dois esquemas. [5] O seguimentomínimo, portanto, inclui: reavaliação clínica programada, EEG conforme a Seção 10.2, orientação familiar sobre o que fazer diante de nova crise (medidas de conforto, cronometrar, procurar atendimento se ultrapassar cinco minutos, se houver sinais focais ou se a criança não recuperar a consciência) e caracterização formal da história familiar. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 99 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 12. Raciocínio integrado final CRIANÇA DE 8 ANOS COM EVENTO MOTOR PAROXÍSTICO NO 1º DIA DE DOENÇA FEBRIL ↓ O EVENTO FOI CRISE EPILÉPTICA? — anamnese com a testemunha; excluir síncope e imitadores ↓ A IDADE PERMITE FALAR EM CRISE FEBRIL? — NÃO: 8 anos ultrapassa o limite de 5 anos ↓ LOGO: CRISE EM VIGÊNCIA DE FEBRE — investigar as demais possibilidades ↓ EXCLUIR CAUSA AGUDA: glicemia · laboratório · exame neurológico · liquor se houver suspeita · imagem se houver red flag ↓ SE CAUSA AGUDA CONFIRMADA → CRISE SINTOMÁTICA AGUDA: tratar a causa, não a epilepsia SE NÃO → PRIMEIRA CRISE NÃO PROVOCADA: EEG, estratificar recorrência, caracterizar história familiar ↓ NÃO TRATAR COM FÁRMACO DE MANUTENÇÃO SEM CRITÉRIO — orientar a família e reavaliar A lição central do problema é conceitual, e não terapêutica: febre e convulsão, juntas, não formam um diagnóstico. Quando os critérios são verificados — e neste caso o critério etário já não se cumpre —, a expressão “crise febril” deixa de ser uma resposta e passa a ser exatamente aquilo que precisa ser investigado. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 100 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril GLOSSÁRIO DE TERMOS ESSENCIAIS Referência rápida de siglas e termos usados no volume. • AMPA — Ácido α-amino-3-hidroxi-5-metil-4-isoxazolprop · ATP — Adenosina trifosfato • Aura — Manifestação subjetiva de uma crise focal · Automatismos — Movimentos repetitivos involuntários • Awareness — Componente da consciência inferido pela · CBZ — Carbamazepina • Classificador × descritor — Distinção taxonômica da ILAE 2025 · CNEP — Crise não epiléptica psicogênica • Consciência (classificador da crise) — Estado definido operacionalmente pela · Convulsão — Termo semiológico • Crise provocada — Crise sintomática aguda · DC — Dieta cetogênica • Desconhecida quanto a focal ou generalizada — Classe principal da ILAE 2025 aplicada quando · Desvio paroxístico da despolarização — Evento elementar do neurônio na crise • DNPM — Desenvolvimento neuropsicomotor · ECG — Eletrocardiograma • EEG — Eletroencefalograma · EGI — Epilepsias generalizadas idiopáticas (denominação do PCDT; hoje epilepsias generalizadas de causa genética) • EME — Estado de mal epiléptico · EMJ — Epilepsia mioclônica juvenil • Epileptogênese — Transformação da rede neuronal normal em rede · Esclerose temporal mesial — Perda neuronal e gliose no hipocampo • Espícula-onda — Complexo do EEG em que a ponta traduz a · Estado de mal epiléptico — Condição resultante da falha dos mecanismos • FAC — Fármaco anticrise · FAE — Fármaco antiepiléptico • FLAIR — Recuperação da inversão atenuada por fluido · GABA — Ácido γ-aminobutírico • GEFS+ — Epilepsia genética com crises febris plus · GLUT1 — Transportador de glicose tipo 1 • HARNESS — Harmonized Neuroimaging of Epilepsy · HHV-6B — Herpesvírus humano tipo 6B • Hipersincronização — Disparo simultâneo de população neuronal · IB — Via intrabucal • ILAE — Liga Internacional Contra a Epilepsia · IM — Via intramuscular • IN — Via intranasal · Inibição circundante — Freio exercido pelos interneurônios • IR — Via intrarretal · IV — Via intravenosa • LBE — Liga Brasileira de Epilepsia · LCS (fármaco) — Lacosamida • LCS/liquor — Líquido cefalorraquidiano · LEV — Levetiracetam • Limiar convulsivo — Suscetibilidade individual a produzir crise · LTG — Lamotrigina • Manifestações observáveis — Fenômenos da crise perceptíveis por um · MEG — Magnetoencefalografia • NMDA — N-metil-D-aspartato · Não classificada — Classe principal da ILAE 2025 aplicada quando • Paresia de Todd — Déficit motor focal pós-ictal; critério de crise febril complexa no PCDT · PB — Fenobarbital • PCDT — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas · PCE — Pessoa com epilepsia · Período pós-ictal — Fase que sucede a crise · PHT — Fenitoína • Ponta-onda — Descarga generalizada das ausências · Responsividade — Capacidade de responder adequadamente • RM / RMC — Ressonância magnética / de crânio · SNC — Sistema nervoso central · SUDEP — Morte súbita inesperada na epilepsia · SV2A — Proteína 2A da vesícula sináptica • TC — Tomografia computadorizada · TCE — Traumatismo cranioencefálico · TCG — Crise tônico- clônica generalizada · TDAH — Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade · TPM — Topiramato · VNS — Estimulação do nervo vago · VPA — Ácido valproico / valproato · Vídeo-EEG — Registro simultâneo de EEG e vídeo Epilepsia e Convulsão Febril · Página 101 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril MAPA DE REVISÃO Revisão de 2 a 3 minutos, organizada na ordem do raciocínio. Doze perguntas, uma resposta curta cada. O desenvolvimento está nos capítulos e na Ficha-Resumo. 1. O que é? · Definição Inicial Crise = evento transitório por atividade neuronal anormal, excessiva e/ou síncrona no cérebro. Epilepsia = predisposição permanente a gerar crises epilépticas — pelo menos duas crises não provocadas ou reflexas em mais de 24 h, ou uma delas com risco de recorrência ≥ 60% em 10 anos, ou síndrome epiléptica. Convulsão = manifestação motora. Crise febril = febre + faixa etária + sem neuroinfecção, distúrbio metabólico ou epilepsia prévia; não é epilepsia. 2. Por que acontece? · Capítulo 3 Limiar rebaixado por genética, maturação ou lesão prévia, mais um gatilho. Seis grupos etiológicos: genética, estrutural, infecciosa, metabólica, imune e desconhecida. Genético não é sinônimo de hereditário. 3. Como a crise começa? · Capítulo 6 Desvio paroxístico de despolarização em um grupo neuronal e falência da inibição circundante que o continha. Na despolariza; K e Cl hiperpolarizam; glutamato excita; GABA inibe.⁺ ⁺ ⁻ 4. Como se propaga? · Capítulo 6 Recrutamento de neurônios vizinhos por conexões locais e, pelas vias comissurais, para o hemisfério oposto. A propagação explica por que a mesma origem pode gerar quadros diferentes. 5. Como se manifesta? · Capítulo 7 Conforme a rede recrutada, não conforme o ponto de origem. Aura = crise focal. Marcha jacksoniana e Todd = córtex motor. Olhar fixo com automatismos e confusão = consciência prejudicada. Desligamento sem aura nem confusão = ausência. Manifestação bilateral não equivale a início generalizado. 6. Como termina? · Capítulo 6 Hiperpolarização pós-descarga, inibição GABAérgica recrutada, inativação dos canais de sódio, alteração do meio iônico extracelular e dessincronização progressiva da rede contribuem para o término; a restauração dos gradientes iônicos pela bomba de Na /K pertence à recuperação pós-ictal. O período pós-ictal corresponde a⁺ ⁺ alteração transitória da função das redes recrutadas, e não a simples recuperação. 7. Quando é red flag? · Capítulo 8 Crise acima de 5 minutos ou subentrante; não retorno ao basal; sinais meníngeos; déficit focal novo; primeira crise com febre, cefaleia ou trauma; crise focal tônica ou espasmo focal; criança febril fora da faixa de 6 meses a 5 anos. 8. Como diagnosticar? · Capítulo 9 É clínico. A testemunha faz parte do exame. Perguntar ativamente por auras e crises breves prévias. Ordem: foi crise? foi provocada? que tipo? preenche critério de epilepsia? qual etiologia? qual risco de recorrência? há indicação de tratar? 9. Quais exames? · Capítulo 10 EEG classifica e estratifica risco — não diagnostica nem exclui. Ressonância com protocolo dedicado busca etiologia; tomografia na urgência. Liquor por suspeita clínica, não por idade. ECG quando a história não separa crise de síncope. Se não muda a conduta, nãopeça. 10. Quais diferenciais? · Capítulo 11 Síncope — olhos abertos, queda flácida, breve, sem confusão. Crise funcional — olhos fechados, curso flutuante, prolongada. Perda de fôlego, migrânea com aura, parassonias, hipoglicemia e distúrbios eletrolíticos. Nenhum discriminador decide sozinho. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 102 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 11. Como tratar? · Capítulo 12 Crise em curso, conforme o PCDT: 0–5 min estabilizar e glicemia; a partir de 5 min diazepam EV; persistindo, segunda linha EV com fenitoína ou fenobarbital; sem resposta após 30 min da admissão, terceira linha com anestesia geral em UTI e EEG contínuo. Refratário é o que persiste apesar do benzodiazepínico e de um fármaco de segunda linha, não um número de minutos. Crise febril: tratar a causa da febre, sem profilaxia contínua, orientar a família. Fármaco de manutenção em geral após a segunda crise não provocada, antecipado diante de fatores de recorrência. 12. Qual prognóstico? · Capítulo 14 Epilepsia: cerca de 60% ficam livres de crises com um ou dois esquemas, e 20% a 30% são refratários; a etiologia modula. Crise febril: recorrência de 10% sem fatores de risco, 25–50% com um a dois e 50–100% com três ou mais; a evolução para epilepsia é de 1% a 1,5% após a forma simples e de 4% a 15% após a complexa. [30] Crise sintomática aguda: o perigo está na causa. EVENTO → FOI CRISE? → FOI PROVOCADA? → QUE TIPO? ↓ PREENCHE CRITÉRIO DE EPILEPSIA? → QUAL ETIOLOGIA? ↓ TRATAR O MECANISMO · PREVENIR A RECORRÊNCIA · ORIENTAR A FAMÍLIA Epilepsia e Convulsão Febril · Página 103 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril ANEXO — QUESTÕES Assinale a alternativa correta em cada questão. As cinco questões foram construídas em formato clínico- contextual, em padrão ENAMED, com uma única melhor resposta. O gabarito encontra-se ao final desta seção. Questão 1 Menina de 7 anos apresenta crises associadas à febre desde os 14 meses. Inicialmente eram bilaterais, breves e restritas a episódios febris. Os episódios persistiram após os 6 anos e, nos últimos meses, surgiram duas crises tônico-clônicas sem febre. O desenvolvimento neuropsicomotor permanece adequado e o exame neurológico interictal é normal. O pai relata quadro semelhante na infância, com resolução espontânea, e um primo em primeiro grau ainda apresenta crises. A equipe discute se a persistência das crises febris e o surgimento de crises afebris modificam o diagnóstico. Qual interpretação integra melhor a evolução temporal, o padrão das crises e a história familiar? (A) A persistência das crises febris além da idade habitual caracteriza crise febril complexa recorrente; as crises afebris apenas elevam o risco de epilepsia futura, sem modificar o diagnóstico atual. (B) O padrão corresponde à síndrome de Dravet, pois crises febris repetidas no primeiro ano seguidas de crises afebris definem essa síndrome mesmo sem regressão do desenvolvimento e com exame neurológico normal. (C) A persistência das crises relacionadas à febre além da janela etária habitual, o surgimento de crises afebris e a agregação familiar favorecem epilepsia genética com crises febris plus (GEFS+). (D) A história familiar indica herança multifatorial de crise febril simples, e as crises afebris devem ser classificadas à parte, por não compartilharem substrato com os episódios febris iniciais. Questão 2 Menino de 2 anos, com desenvolvimento previamente normal, apresenta febre durante infecção respiratória viral. A crise começa com abalos clônicos do membro superior direito e, em seguida, evolui para atividade tônico-clônica bilateral, cessando após 7 minutos. Nas duas horas seguintes, mantém redução transitória da força no braço direito, com recuperação progressiva e completa. Não há sinais meníngeos, e não ocorreu outra crise nas 24 horas. Qual interpretação semiológica e classificatória é a mais adequada? (A) O início focal e o déficit motor pós-ictal transitório indicam recrutamento focal e tornam o episódio uma crise febril complexa, ainda que tenha durado menos de 15 minutos e se generalizado. (B) A duração inferior a 15 minutos favorece crise febril simples; a assimetria inicial perde relevância depois que a atividade motora se torna bilateral e a força retorna ao normal no período pós-ictal. (C) O déficit motor pós-ictal indica lesão estrutural fixa e afasta crise febril; a recuperação em poucas horas apenas sinaliza que a lesão é pequena e não altera a classificação do evento. (D) O componente focal permite classificar a crise como focal evoluindo para tônico-clônica bilateral, mas essa nomenclatura semiológica substituiria o eixo simples/complexa, reservado à classificação das crises febris. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 104 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Questão 3 Menino de 4 anos, previamente hígido, apresenta febre de 38,6 °C durante infecção viral e inicia crise tônico- clônica bilateral. A crise permanece em atividade após 6 minutos e só cessa depois da administração de benzodiazepínico. Durante a discussão do caso, um estudante afirma que, antes de 30 minutos, a duração modifica apenas a classificação do evento e não a fisiologia da crise. Qual alternativa corrige melhor essa afirmação? (A) Antes de 30 minutos os mecanismos excitatórios permanecem relativamente estáveis; a dificuldade terapêutica precoce decorre sobretudo da acidose, da hipóxia e das repercussões sistêmicas da contração muscular mantida. (B) A persistência da atividade amplia a hiperpolarização pós-sináptica e encerra a crise espontaneamente, de modo que a intervenção farmacológica antes de 30 minutos não altera o desfecho. (C) O principal efeito da duração é aumentar a chance de nova crise nas 24 horas seguintes; o equilíbrio entre inibição e excitação permanece o mesmo ao longo de todo o episódio. (D) Por volta de 5 minutos, a falha dos mecanismos endógenos de término já favorece a perpetuação da crise: é o ponto de tempo t1, a partir do qual a crise deve ser considerada atividade contínua e o tratamento de urgência deve ser iniciado. Questão 4 Menina de 8 anos apresenta febre de início recente associada a tosse e coriza. Durante a tarde, sofre queda súbita seguida de movimentos tônico-clônicos bilaterais, com recuperação após alguns minutos e sem déficit focal residual. Ao ampliar a anamnese, a mãe relata que, nos últimos seis meses, ocorreram três episódios afebris de sensação epigástrica ascendente, medo súbito e dificuldade momentânea de responder — todos estereotipados, breves e autolimitados. Qual interpretação integra melhor a idade, os antecedentes e o papel da febre nesse episódio? (A) A bilateralidade da fase motora torna mais provável crise generalizada provocada pela febre; os episódios epigástricos prévios representariam pródromos autonômicos, sem valor para classificar a crise atual. (B) A idade acima da janela típica e os episódios afebris estereotipados favorecem epilepsia focal previamente não reconhecida; a febre pode ter atuado como gatilho, e a fase bilateral não exclui início focal. (C) O evento deve ser considerado crise febril complexa, porque ocorreu durante febre e houve recuperação pós-ictal; a idade mais avançada aumenta a complexidade, sem alterar a natureza provocada do episódio. (D) Os episódios afebris sugerem predisposição convulsiva, mas o evento atual deve ser separado deles, porque a presença de febre define, por si só, uma crise sintomática aguda independente de epilepsia prévia. Questão 5 Menina de 7 anos apresenta dezenas de episódios diários de desconexão súbita, com duração de poucos segundos, retomada imediata da atividade e ausência de confusão pós-ictal. O EEG mostra descargas generalizadas de ponta-onda a 3 Hz, reproduzidas pela hiperventilação. A equipe discute a escolha do fármaco anticrisee revisa por que alguns agentes úteis nas crises focais podem agravar esse fenótipo. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 105 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Qual associação entre mecanismo farmacológico e fisiopatologia é a mais adequada? (A) A carbamazepina bloqueia canais de Na e reduz disparos repetitivos; por esse mecanismo seria⁺ adequada nas ausências típicas, sobretudo quando as crises são diárias e o EEG mostra ponta-onda generalizada. (B) A fenitoína potencializa a inibição GABAérgica ao prolongar a abertura dos canais de Cl , constituindo⁻ alternativa fisiologicamente equivalente às succinimidas para suprimir o ritmo talamocortical. (C) A etossuximida reduz correntes de Ca² tipo T em neurônios talâmicos e interfere na oscilação⁺ talamocortical que sustenta as ausências; bloqueadores de Na como a carbamazepina podem agravar⁺ esse padrão. (D) O levetiracetam aumenta a abertura dos canais GABA-A por ligação ao sítio benzodiazepínico, mecanismo que explicaria sua ação específica sobre a ponta-onda de 3 Hz das crises de ausência. Gabarito Tabela G.1 — Gabarito e onde revisar cada questão Questão 1 Questão 2 Questão 3 Questão 4 Questão 5 C A D B C Seção 3.2 · Seção 7.5 Seção 5.6 · Seção 6.4 Seção 8.1 Seção 11.3 Seção 6.3 · Seção 12.6 Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no conteúdo desenvolvido nos capítulos deste volume. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 106 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARES Vídeos indicados ao longo do volume, com o ponto que cada um complementa. Títulos e endereços são clicáveis, e o idioma está indicado; os vídeos em inglês admitem legendas e tradução automática no YouTube. 1. Definição Inicial — Profa. Vanessa Novaes Barros (eduCAPES, ~12 min). Visão geral do funcionamento cerebral durante as crises. Usar dentro do tema crises epilépticas, não como vídeo de “convulsão”. Epilepsia: o que acontece no cérebro durante as crises (em português) — https://youtu.be/ksuqcajpG0Y 2. Capítulo 3 — Etiologia, Seção 3.1 — Animated Biology With Arpan (2024, ~15 min). Percorre as causas — metabólicas, hidroeletrolíticas, glicêmicas, hepáticas, renais e tóxicas — até a manifestação clínica, mostrando que uma crise provocada não significa epilepsia. Crises epilépticas: etiologia, fisiopatologia, quadro clínico, tratamento e estado de mal (em inglês) — https://youtu.be/deVWBb8Lgmc 3. Capítulo 5 — Classificação, Seção 5.1 — Osmosis from Elsevier. Separa a crise isolada da doença epilepsia e organiza as crises pelo padrão de início; útil para visualizar fase tônica × fase clônica. Crises epilépticas e epilepsia (em inglês) — https://youtu.be/98ctrjf_320 4. Capítulo 6 — Fisiopatologia, Seções 6.1 e 6.2 — ACLS Certification Association (~29 min). Traçados de EEG mostrando como a atividade elétrica normal se altera na crise, com comparação entre tônico-clônica e ausência. Usa termos antigos (partial, secondary seizure); este volume adota a nomenclatura da ILAE 2025. Fisiopatologia das crises epilépticas (em inglês) — https://youtu.be/mHcusWbdnso 5. Capítulo 6 — Fisiopatologia, Seção 6.2 — XVIVO Scientific Animation com a Biohaven. Animação 3D dos canais Kv7.2/Kv7.3: efluxo de K → hiperpolarização → elevação do limiar. O opakalim (BHV-⁺ 7000) apresentado não é tratamento estabelecido — segue em desenvolvimento. Epilepsia — canais de potássio Kv7 e excitabilidade neuronal (em inglês) — https://youtu.be/JUQXaVrNewE 6. Capítulo 7 — Manifestações clínicas, Seção 7.1 — Dra. Juliana Passos, neurologista (canal Neurofuncional). Relaciona local de origem, rede recrutada e propagação com a expressão clínica, incluindo manifestações não observáveis, EEG e neuroimagem. Epilepsia: aula completa (em português) — https://youtu.be/ty_AghJhMTQ 7. Capítulo 9 — Diagnóstico, Seção 9.6 — Estratégia MED (2022). Definição, exclusão de neuroinfecção, padrões clínicos e conduta na emergência, com EEG, imagem e punção lombar fora da rotina. Nota: a profilaxia contínua que menciona não é recomendada rotineiramente (Seção 12.3). Convulsão febril em pediatria: aula-resumo (em português) — https://www.youtube.com/live/DDKZsRSDz8g 8. Capítulo 12 — Tratamento, Seção 12.2 — Médico na Prática (2026). Estabilização, causas reversíveis e tratamento escalonado; consolida que cerca de 5 minutos de crise contínua já se tratam como possível estado de mal. Crise convulsiva na emergência: protocolo 2026 (em português) — https://youtu.be/9vHl5j-YEew 9. Capítulo 12 — Tratamento, Seção 12.6 — MED CLUBE (2025). Integra fisiopatologia e farmacologia com esquemas de sinapses, percorrendo canais de sódio e cálcio, transmissão GABAérgica, receptores glutamatérgicos e SV2A. Epilepsia e convulsão de forma completa: fisiopatologia, diagnóstico e tratamento (em português) — https://youtu.be/8YFvzH2b2Ko Epilepsia e Convulsão Febril · Página 107 https://youtu.be/8YFvzH2b2Ko https://youtu.be/9vHl5j-YEew https://www.youtube.com/live/DDKZsRSDz8g https://youtu.be/ty_AghJhMTQ https://youtu.be/JUQXaVrNewE https://youtu.be/mHcusWbdnso https://youtu.be/98ctrjf_320 https://youtu.be/deVWBb8Lgmc https://youtu.be/ksuqcajpG0Y Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril REFERÊNCIAS [1] Tratado de Neurologia — Seção 5: Epilepsias. Capítulos utilizados: Yacubian EMT, Manreza MLG. Definição e Classificação das Crises Epilépticas e das Epilepsias; Cendes F. Etiologia e Investigação de Pacientes com Epilepsias; Betting LE, Guerreiro CAM. Tratamento Medicamentoso das Epilepsias; Jorge CL, Costa JC. Cirurgia de Epilepsia e Outras Modalidades Terapêuticas; De Paola L. Crises não Epilépticas Psicogênicas. Citada em: ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARE, ▸ Seção 1.7, Seção 1.9, Seção 3.1, Seção 3.2, Seção 4.1, Seção 5.5, Seção 5.6, Seção 6.3 e outras. [2] Goldman L, Schafer AI. Goldman Cecil Medicina. Tradução de Denise Costa Rodrigues et al. 26. ed. Rio de Janeiro: GEN — Grupo Editorial Nacional S.A., publicado pelo selo Editora Guanabara Koogan; 2022. ISBN 978-85-9515-893-1. Capítulo 375 — Epilepsias. Citada em: ANEXO — VÍDEOS▸ COMPLEMENTARE, Seção 1.1, Seção 1.2, Seção 1.3, Seção 1.4, Seção 1.5, Seção 1.6, Seção 1.8, Seção 2.1 e outras. [3] Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL. Medicina interna de Harrison [recurso eletrônico]. Tradução de André Garcia Islabão et al.; revisão técnica de Antônio de Barros Lopes et al. 21. ed. Porto Alegre: AMGH; 2024. ISBN 978-65-5804-023-1. Capítulos utilizados: Convulsões e epilepsia — mecanismos básicos, classificação das convulsões e abordagem do paciente. Citada▸ em: ANEXO — VÍDEOS COMPLEMENTARE, Seção 1.1, Seção 1.2, Seção 1.3, Seção 1.4, Seção 1.5, Seção 1.7, Seção 1.9, Seção 2.3 e outras. [4] Epilepsia — Capítulo 5. In: Neurologia 1 — AVE, Cefaleias, Epilepsias, Polineuropatias, Demência e Parkinson. Citada em: ▸ Seção 9.5, Seção 9.7, Seção 11.3, ANEXO — DISCUSSÃO DO PROBLEM. [5] Yasuda CL. Epilepsia prática: condutas para não especialistas. Liga Brasileira de Epilepsia; 2024. ▸ Citada em: Seção 5.6, Seção 9.7, CAPÍTULO 10, Seção 10.1, Seção 10.2, Seção 10.3, Seção 10.4, Seção 10.5, Seção 11.1 e outras. [6] Symonds JD, Elliott KS, Shetty J, et al. Early childhood epilepsies: epidemiology, classification, aetiology, and socio-economic determinants. Brain. 2021;144(9):2879-91. [7] Aaberg KM, Gunnes N, Bakken IJ, et al. Incidence and prevalence of childhood epilepsy: a nationwide cohort study. Pediatrics. 2017;139(5):e20163908. [8] Beghi E. The epidemiology of epilepsy. Neuroepidemiology. 2020;54(2):185-91. [9] Falco-Walter J. Epilepsy — definition, classification, pathophysiology, and epidemiology. Semin Neurol. 2020;40(6):617-23. [10] Wilmshurst JM, Guekht A, Secco M, et al. Advocacy for children with epilepsy: leveraging theWHA resolution. Advocacy Task Force, Commission of Pediatrics, International League Against Epilepsy. Epilepsia Open. 2018;3(2):167-74. [11] Gupta A. Febrile seizures. Continuum (Minneap Minn). 2016;22(1 Epilepsy):51-9. [12] Sawires R, Buttery J, Fahey M. A review of febrile seizures: recent advances in understanding of febrile seizure pathophysiology and commonly implicated viral triggers. Front Pediatr. 2021;9:801321. [13] Leung AKC, Leung AAM, Wong AHC, et al. Breath-holding spells in pediatrics: a narrative review of the current evidence. Curr Pediatr Rev. 2019;15(1):22-9. [Artigo primário citado como fonte complementar.] [14] Martino D, Hedderly T. Tics and stereotypies: a comparative clinical review. Parkinsonism Relat Disord. 2019;59:117-24. [Artigo primário citado como fonte complementar.] [15] Dalbem JS, Siqueira HH, Espinosa MM, Alvarenga RP. Febrile seizures: a population-based study. J Pediatr (Rio J). 2015;91(6):529-34. doi:10.1016/j.jped.2015.01.005. [16] Sampaio LP, Caboclo LO, Kuramoto K, Reche A, Yacubian EM, Manreza ML. Prevalence of epilepsy in children from a Brazilian area of high deprivation. Pediatr Neurol. 2010;42(2):111-7. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 108 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril [17] Nunes ML, Geib LT; Grupo Apego. Incidence of epilepsy and seizure disorders in childhood and association with social determinants: a birth cohort study. J Pediatr (Rio J). 2011;87(1):50-6. [18] Subcommittee on Febrile Seizures, American Academy of Pediatrics. Clinical practice guideline — febrile seizures: guideline for the neurodiagnostic evaluation of the child with a simple febrile seizure. Pediatrics. 2011;127(2):389-94. doi:10.1542/peds.2010-3318. [19] Smith DK, Sadler KP, Benedum M. Febrile seizures: risks, evaluation, and prognosis. Am Fam Physician. 2019;99(7):445-50. [20] Fisher RS, Cross JH, French JA, Higurashi N, Hirsch E, Jansen FE, et al. Operational classification of seizure types by the International League Against Epilepsy: position paper of the ILAE Commission for Classification and Terminology. Epilepsia. 2017;58(4):522-30. doi:10.1111/epi.13670. [21] Scheffer IE, Berkovic S, Capovilla G, Connolly MB, French J, Guilhoto L, et al. Classificação da ILAE das epilepsias: artigo da posição da Comissão de Classificação e Terminologia da International League Against Epilepsy. Epilepsia. 2017;58(4):512-21. Tradução da Comissão de Consenso da Liga Brasileira de Epilepsia. [22] Peixoto DBE. Epilepsia — prescrição ambulatorial: orientações ao prescritor. Revisão: Nobrega F, Leroux L. In: White Book. Faculdade Afya. [Material didático da Faculdade Afya. Fonte complementar; não representa recomendação do PCDT/SUS.] Citada em: ▸ CAPÍTULO 13, Seção 13.1, Seção 13.2, Seção 13.3, Seção 13.4, Seção 13.5, Seção 13.7, Seção 13.8. [23] Peixoto DBE. Crises não epilépticas psicogênicas — prescrição ambulatorial: orientações ao prescritor. Revisão: Nobrega F. In: White Book. Faculdade Afya. [Material didático da Faculdade Afya. Fonte complementar; não representa recomendação do PCDT/SUS.] Citada em: ▸ Seção 13.9. [24] Beniczky S, Trinka E, Wirrell E, Abdulla F, Al Baradie R, Alonso Vanegas M, et al. Updated classification of epileptic seizures: position paper of the International League Against Epilepsy. Epilepsia. 2025;66(6):1804-23. doi:10.1111/epi.18338. [FONTE NORMATIVA — classificação e nomenclatura das crises epilépticas.] Citada em: ▸ CAPÍTULO 5, Seção 5.1, Seção 5.2, Seção 5.3, Seção 5.4, Seção 5.5, Seção 5.6, Seção 6.3. [25] Harden C, Tomson T, Gloss D, Buchhalter J, Cross JH, Donner E, et al. Practice guideline summary: sudden unexpected death in epilepsy incidence rates and risk factors: report of the Guideline Development, Dissemination, and Implementation Subcommittee of the American Academy of Neurology and the American Epilepsy Society. Neurology. 2017;88(17):1674-80. doi:10.1212/WNL.0000000000003685. [Diretriz da American Academy of Neurology e da American Epilepsy Society. Não representa recomendação do PCDT/SUS.] Citada em: ▸ Seção 14.7, FICHA- RESUMO — EPILEPSIA E C. [26] Glauser T, Shinnar S, Gloss D, Alldredge B, Arya R, Bainbridge J, et al. Evidence-based guideline: treatment of convulsive status epilepticus in children and adults: report of the Guideline Committee of the American Epilepsy Society. Epilepsy Curr. 2016;16(1):48-61. doi:10.5698/1535-7597-16.1.48. [Diretriz da American Epilepsy Society. Não representa recomendação do PCDT/SUS.] Citada em:▸ Seção 12.2. [27] Kapur J, Elm J, Chamberlain JM, Barsan W, Cloyd J, Lowenstein D, et al. Randomized trial of three anticonvulsant medications for status epilepticus. N Engl J Med. 2019;381(22):2103-13. doi:10.1056/NEJMoa1905795. [Ensaio clínico randomizado (ESETT). Não representa recomendação do PCDT/SUS.] Citada em: ▸ Seção 12.2. [28] Lamotrigina — bula para o profissional de saúde. Registro ANVISA. Seção 8: Posologia e modo de usar — escalonamento em monoterapia, em associação a valproato e em associação a indutores da glicuronidação. [Documento regulatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária — ANVISA.] ▸ Citada em: CAPÍTULO 13, Seção 13.3. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 109 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril [29] Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Valproato de sódio e substâncias relacionadas: risco de malformações fetais e de distúrbios do neurodesenvolvimento. Carta aos profissionais de saúde e informe técnico ANVISA; condições do programa de prevenção da gravidez. [Documento regulatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária — ANVISA.] Citada em: ▸ Seção 13.10. [30] Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Portaria Conjunta nº 17, de 21 de junho de 2018. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia. Brasília: Ministério da Saúde; 2018. [FONTE NORMATIVA — mandatória para tratamento, conduta e posologia aplicáveis ao SUS.] Citada em: ANEXO — VÍDEOS▸ COMPLEMENTARE, Seção 2.1, Seção 2.1.1, Seção 2.3, Seção 2.4, CAPÍTULO 3, Seção 3.1, Seção 4.1, Seção 4.3 e outras. [31] Hall JE, Hall ME. Guyton & Hall — Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021. Capítulos sobre potencial de membrana e potencial de ação e sobre transmissão sináptica no sistema nervoso central. Citada em: ▸ Seção 1.2, Seção 6.1, Seção 6.2, Seção 6.4. [32] Nitrini R, Bacheschi LA. A Neurologia que Todo Médico Deve Saber. Capítulo 11 — Epilepsias. Citada▸ em: Seção 1.8, Seção 3.1. [33] Epilepsia na Infância. Capítulo 127. In: Tratado de Neurologia. Citada em: ▸ Seção 2.1, Seção 3.2, Seção 6.3, Seção 7.1, Seção 7.5, Seção 8.1, FICHA-RESUMO — EPILEPSIA E C. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 110lidos conforme o critério adotado por cada estudo. Risco ao longo da vida expressa a probabilidade de um indivíduo ser afetado em algum momento, e não se compara aos anteriores. A prevalência da epilepsia difere conforme idade, gênero, grupo étnico e fatores socioeconômicos [30], e a incidência varia por idade e situação socioeconômica [2]; por isso, indicadores construídos com definições ou populações diferentes não devem ser combinados por média. Depois da cefaleia, as epilepsias são os quadros neurológicos crônicos mais frequentemente observados na prática geral no mundo. [2] Estima-se que a prevalência mundial de epilepsia ativa esteja em torno de 0,5% a 1,0% da população. [30] Nos países desenvolvidos, a prevalência da epilepsia ativa varia de 5 a 7 por 1.000 habitantes e a incidência anual média é de 45 por 100.000, com faixa de 30 a 67 por 100.000. Nos países em desenvolvimento os valores são mais altos: prevalência mediana de epilepsia ativa de 12,5 por 1.000 (faixa de 5 a 57 por 1.000) e incidência anual de 78 a 190 por 100.000. [2] O risco ao longo da vida também varia conforme a fonte e a população: o PCDT descreve probabilidade geral de cerca de 3% [30], enquanto o Goldman-Cecil estima que uma em 26 pessoas desenvolverá epilepsia durante a vida. [2] São estimativas de populações e metodologias distintas, que não devem ser reduzidas a um número único. As diferenças entre as estimativas devem ser interpretadas considerando a população estudada, a faixa etária, o contexto socioeconômico e a definição epidemiológica de epilepsia ativa; números de populações ou critérios diferentes não devem ser combinados por simples média. [2,30] A distribuição etária varia conforme a população. Nos países desenvolvidos, a incidência é maior nos extremos da vida: o pico em crianças com menos de 5 anos chega a 60 a 70 por 100.000, diminui ao longo da adolescência até cerca de 30 por 100.000 no início da vida adulta e volta a subir após a sexta década, atingindo 150 a 200 por 100.000 acima dos 75 anos. [2] Nos países em desenvolvimento o padrão etário é diferente, com picos de incidência em adultos jovens, e não na população idosa [2]; o PCDT registra que, nesses países, a prevalência geralmente atinge picos na adolescência e na idade adulta, enquanto nos países desenvolvidos ela aumenta proporcionalmente com a idade. [30] A maior frequência nos países em desenvolvimento é atribuída à ocorrência mais alta de lesões perinatais, traumatismo e distúrbios infecciosos do cérebro, além do tratamento não satisfatório. [2] Na infância, a incidência descrita varia de aproximadamente 33,3 a 82 casos por 100.000 crianças por ano, sendo maior no primeiro ano de vida, quando varia entre 81 e 130 por 100.000; em países desenvolvidos, a prevalência pediátrica situa-se em torno de 3,2 a 6,3 por 1.000 crianças. [33] 2.1.1 Cenário brasileiro Os estudos brasileiros citados pelo PCDT demonstram variação importante conforme população e metodologia. Na Grande São Paulo foi descrita prevalência de epilepsia de 11,9 por 1.000 habitantes; em Porto Alegre, prevalência de epilepsia ativa de 16,5 por 1.000; e, em levantamento porta-a-porta realizado em três áreas de duas cidades do Sul do Brasil, prevalência de epilepsia ativa de 5,4 por 1.000, maior nas classes sociais menos favorecidas (7,5 por 1.000) e em idosos (8,5 por 1.000). [30] Esses valores não devem ser interpretados como uma prevalência nacional única: representam estudos conduzidos em populações e contextos diferentes. [30] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 13 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 2.2 Crise epiléptica é mais comum do que epilepsia O dado de maior valor conceitual é a distância entre os dois fenômenos: cerca de 1 em cada 10 pessoas sofrerá uma crise epiléptica ao longo da vida, e a maioria dessas crises é provocada por eventos agudos e não está relacionada à epilepsia. A incidência anual geral de crises sintomáticas agudas, excluídas as febris, é de aproximadamente 39 por 100.000 pessoas nos países desenvolvidos, com distribuição etária bimodal — até 300 por 100.000 no primeiro ano de vida, nadir de 15 por 100.000 na terceira ou quarta décadas e segundo pico de 123 por 100.000 após os 75 anos. [2] PONTO ESSENCIAL — A IDADE MUDA A PROBABILIDADE, NÃO O RACIOCÍNIO A criança está no ramo ascendente de duas curvas simultâneas: a das crises sintomáticas agudas e a da epilepsia. Diante de uma criança que convulsiona, ambas as hipóteses são epidemiologicamente plausíveis — e é por isso que a separação entre elas se faz por anamnese e critérios, não por prevalência (Capítulos 9 e 11). [2] 2.3 Crise febril A crise febril é o transtorno convulsivo mais comum na infância, afetando 2% a 5% das crianças. [30] Esse valor é risco acumulado na infância, e não prevalência em um momento, motivo pelo qual não se compara diretamente às estimativas apresentadas acima. O Harrison registra prevalência global de 3% a 5%, ainda mais alta em algumas regiões do mundo [3] — faixa contida na do PCDT, que este volume adota. A faixa etária é de 6 meses a 5 anos [30], com pico de incidência descrito entre 18 e 24 meses. [3] Figura 2.1 — Epidemiologia da epilepsia: três medidas que não são equivalentes — risco ao longo da vida (crise epiléptica), prevalência de epilepsia ativa (epilepsia) e risco acumulado na infância (crise febril) Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base em Goldman-Cecil [2] e no PCDT de Epilepsia [30]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 14 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril 2.4 Impacto e carga assistencial A lacuna assistencial é documentada no Brasil pelo próprio PCDT: em levantamento porta-a-porta no Sul do país, mais de um terço dos indivíduos com epilepsia estava em tratamento inadequado; um levantamento nacional estimou lacuna diagnóstica de 87%, variando de 84% no Nordeste a 90% no Norte e no Sudeste; e, em série ambulatorial brasileira com 385 pacientes, o índice de não adesão ao tratamento foi de 66,2%, maior em homens, em pacientes mais jovens e naqueles com crises não controladas. [30] As comorbidades cognitivas, psiquiátricas e psicossociais podem contribuir significativamente para a carga da epilepsia e para a redução da qualidade de vida: o PCDT registra risco aumentado de comorbidades psiquiátricas, sobretudo depressão e ansiedade, e inúmeros problemas psicossociais — perda da carteira de habilitação, desemprego, isolamento social, efeitos adversos dos fármacos, disfunção sexual e estigma social. Separadamente, a epilepsia está associada a maior mortalidade, incluindo riscos relacionados a acidentes e traumas, crises prolongadas e morte súbita. [30] Esses desfechos são retomados no Capítulo 14. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 15 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 3 — ETIOLOGIA Etiologia, neste capítulo, é a condição responsável por estabelecer a predisposição persistente a crises epilépticas que caracteriza a epilepsia [30] — conceito distinto das causas de crises sintomáticas agudas, que produzem crises em estreita relação temporal com uma agressão aguda sem, necessariamente, configurar epilepsia. [2] Os mecanismos celulares e de rede pelos quais essa condição gera hiperexcitabilidade pertencem ao Capítulo 6; o que apenas aumenta a probabilidade populacional do evento, ao Capítulo 4. Fatores que somente precipitam uma crise em quem já é suscetível são gatilhos, e não a etiologia da epilepsia. O Harrison organiza a questão em três observações que convém não misturar. Primeira: o encéfalo normal é capaz de produzir uma crise nas circunstâncias apropriadas, e as pessoas diferem no limiar, que sofre influência genética e do estágio de maturação. Segunda: algumas condições têm altíssima probabilidade de gerar epilepsia — o traumatismo craniano grave penetrante associa-se a risco de quase45% de epilepsia subsequente —, por meio de alterações persistentes do sistema nervoso central que constituem os fatores epileptogênicos. Terceira: fatores precipitantes podem deflagrar a crise em quem já é suscetível, sem constituir, por si sós, a etiologia. [3] 3.1 Os seis grupos etiológicos Para fins didáticos, as etiologias da epilepsia podem ser organizadas em seis grandes grupos: genética, estrutural, infecciosa, metabólica, imune e desconhecida. As categorias não são mutuamente exclusivas: o PCDT registra que as epilepsias podem ser causadas por lesões estruturais, alterações genéticas, erros inatos do metabolismo, doenças neurocutâneas — como a esclerose tuberosa e a síndrome de Sturge-Weber —, doenças cromossômicas, doenças mitocondriais, causas infecciosas, metabólicas ou autoimunes, além de condições adquiridas ao longo da vida, como trauma e acidente vascular encefálico [30]; uma mesma condição pode, portanto, reunir mais de um componente etiológico. Em parcela dos pacientes a etiologia não poderá ser estabelecida apesar de toda a investigação. [1] Figura 3.1 — Convergência das origens da epilepsia Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no PCDT de Epilepsia [30], no Tratado de Neurologia [1] e no Harrison [3]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 16 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Tabela 3.1 — Grupos etiológicos das epilepsias Grupo Principais exemplos Relevância Genética Epilepsias generalizadas genéticas; canalopatias (SCN1A, KCNQ2); síndrome de Dravet; GEFS+ Orienta prognóstico, aconselhamento familiar e escolha do fármaco [1–3] Estrutural Sequela de traumatismo e de acidente vascular encefálico, malformações do desenvolvimento cortical, displasia cortical focal, esclerose do hipocampo, tumores A identificação de um substrato estrutural focal tem importância especial na avaliação de possibilidade de tratamento cirúrgico, o que torna a neuroimagem particularmente relevante nesses casos [1,30] Infecciosa Neurocisticercose; sequela de meningoencefalite Na América Latina, a infecção cerebral é o fator de risco mais frequentemente identificado, e em áreas endêmicas a neurocisticercose responde por cerca de 10% de todos os casos novos de epilepsia diagnosticados [2] Metabólica Erros inatos do metabolismo; doenças mitocondriais [30] Distúrbios metabólicos agudos capazes de produzir crises sintomáticas agudas não devem ser automaticamente classificados como etiologia de epilepsia: o que distingue as duas situações é a persistência da predisposição [2] Imune Causas autoimunes reconhecidas entre as etiologias das epilepsias [30]; encefalite autoimune [2] A identificação de uma etiologia imune pode modificar de maneira importante a investigação e a abordagem terapêutica Desconhecida Investigação disponível sem causa identificada Não significa ausência de mecanismo biológico, mas limitação da identificação etiológica com os métodos disponíveis [1] Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir do PCDT de Epilepsia [30], do Goldman-Cecil [2] e do Tratado de Neurologia [1]. Referências mais antigas utilizam termos como “idiopática”, “sintomática”, “criptogênica” ou “provavelmente sintomática”. O Nitrini, por exemplo, registra que as síndromes epilépticas podem ser idiopáticas, sintomáticas ou provavelmente sintomáticas, sendo as idiopáticas transmitidas geneticamente. [32] Esses termos pertencem a sistemas classificatórios anteriores e não têm correspondência individual perfeita com as categorias etiológicas adotadas neste volume; ao consultar literatura mais antiga, a terminologia deve ser interpretada dentro do sistema utilizado pela própria fonte. [1,32] ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Crises epilépticas: etiologia, fisiopatologia, quadro clínico, tratamento e estado de mal epiléptico (em inglês) Assista em: https://youtu.be/deVWBb8Lgmc 3.2 Etiologia genética e hereditariedade Etiologia genética não é sinônimo de transmissão hereditária: uma alteração genética pode surgir de novo no indivíduo, sem ter sido herdada dos pais — é o que ocorre na maior parte das mutações do gene SCN1A. [33] A participação genética, ainda assim, é ampla: um ou mais fatores genéticos Epilepsia e Convulsão Febril · Página 17 https://youtu.be/deVWBb8Lgmc https://youtu.be/deVWBb8Lgmc https://youtu.be/deVWBb8Lgmc Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril desempenham papel em 70% das pessoas com epilepsia, cerca de 15% dos pacientes têm ao menos um parente de primeiro grau também afetado, e a incidência acumulada de epilepsia aos 20 anos é 2,5 vezes maior em irmãos e 3,4 vezes maior em filhos de pacientes. As epilepsias diretamente explicadas por mutações monogênicas são raras e respondem por cerca de 1% de todos os casos. [2] A predisposição genética modifica a suscetibilidade individual, mas não determina obrigatoriamente um único fenótipo nem implica manifestação clínica inevitável. O exemplo de maior rendimento é o gene SCN1A: o Tratado de Neurologia descreve um espectro de manifestações clínicas de gravidade crescente, das crises febris simples até a síndrome de Dravet, no extremo mais grave [1], e o Harrison registra, na epilepsia genética com crises febris plus (GEFS+), heterogeneidade fenotípica significativa dentro de uma mesma família, com crises febris que podem persistir além dos 6 anos e, depois, tipos variáveis de crises não associadas à febre — havendo membros que apresentam apenas crises febris. [3] Trata-se de fenótipos distintos ligados ao mesmo gene, e não de etapas obrigatórias de uma progressão clínica. Quanto à síndrome de Dravet, as fontes disponibilizadas divergem na frequência: o Harrison descreve quase 80% dos pacientes [3] e o Tratado de Neurologia, cerca de 70% a 80%. [33] Não há, portanto, uma sequência clínica que leve necessariamente da crise febril à síndrome de Dravet: o que existe é um mesmo gene associado a fenótipos de gravidade diferente. Figura 3.2 — SCN1A: um gene, fenótipos distintos (GEFS+ e síndrome de Dravet) — não uma sequência de progressão Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base no Tratado de Neurologia [1], no Harrison [3] e no Tratado de Neurologia — Epilepsia na Infância [33]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 18 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril NÃO CONFUNDIR — FATOR ENDÓGENO, FATOR EPILEPTOGÊNICO E FATOR DESENCADEANTE O Harrison organiza a questão em três fatores que interagem dinamicamente. Fator endógeno (predisponente) influencia o limiar — a história familiar de epilepsia é o exemplo típico. Fator epileptogênico é a modificação persistente do sistema nervoso central que torna a rede hiperexcitável: é o que este capítulo chama de etiologia. Fator desencadeante precipita a crise em quem já é suscetível, sem constituir a etiologia. [3] O Goldman-Cecil acrescenta o recorte epidemiológico do fator de risco, tratado no Capítulo 4. [2] A febre não deve ser classificada universalmente como desencadeante: em uma pessoa com epilepsia, pode precipitar uma crise; em uma neuroinfecção, a doença infecciosa do sistema nervoso central integra a causa de uma crise sintomática aguda. [2] 3.3 Causas de crises epilépticas conforme a idade A idade é um dos fatores mais importantes para determinar a causa provável. O Harrison organiza as causas de crises em cinco faixas etárias. Em recém-nascidos, com menos de 1 mês: hipóxia e isquemia perinatais, hemorragia e traumatismo intracranianos, infecção do sistema nervoso central, distúrbios metabólicos — hipoglicemia, hipocalcemia, hipomagnesemia e deficiência de piridoxina —, abstinência de substâncias, distúrbios do desenvolvimento e distúrbios genéticos. Na infância, acima de 1 mês e abaixo de 12 anos: crises febris, distúrbios genéticos, infecção do sistema nervoso central, distúrbios do desenvolvimentoe traumatismo. Em adolescentes, de 12 a 18 anos: traumatismo, distúrbios genéticos, infecção, uso de substâncias ilícitas e tumor cerebral. Em adultos jovens, de 18 a 35 anos: traumatismo, abstinência de álcool, uso de substâncias ilícitas, tumor cerebral e autoanticorpos. Em adultos mais velhos, acima de 35 anos: doença cerebrovascular, tumor cerebral, abstinência de álcool, distúrbios metabólicos — uremia, insuficiência hepática, anormalidades eletrolíticas, hipoglicemia e hiperglicemia — e doença de Alzheimer e outras doenças degenerativas. [3] Note-se que essa é uma lista de causas de crises, e não de etiologias da epilepsia: a crise febril aparece nela como causa de crise, não como etiologia de epilepsia. As diferenças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento estão na Seção 2.1. Na criança com uma primeira crise, eventos febris e causas sintomáticas agudas precisam ser diferenciados de epilepsia; a idade modifica o conjunto de hipóteses diagnósticas e etiológicas, e é essa tensão que os Capítulos 9 e 11 se propõem a resolver. 3.4 Crise febril: contexto febril e suscetibilidade individual A crise febril não é epilepsia. O Harrison registra que crises podem ser induzidas por febre alta em crianças normais sob os demais aspectos, que nunca desenvolvem outros problemas neurológicos, incluindo epilepsia — e que apenas uma pequena proporção de crianças apresenta crises febris, o que implica fatores endógenos que influenciam o limiar, alguns deles genéticos, ao lado do estágio de maturação encefálica. [3] A febre, isoladamente, não é causa suficiente: é o contexto em que a crise ocorre num encéfalo suscetível. Nos capítulos seguintes, a febre aparece como fator precipitante e a história familiar como fator predisponente — e nenhuma das duas, isoladamente, basta para o diagnóstico. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 19 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 4 — FATORES DE RISCO Este capítulo responde a “quais características aumentam a probabilidade de desenvolver epilepsia?”. As causas estão no Capítulo 3; os gatilhos, no Capítulo 7; os fatores de recorrência, no Capítulo 12; e a resposta ao tratamento, no Capítulo 14. 4.1 Fatores não modificáveis A organização a seguir toma como eixo a formulação do Harrison, para o qual muitas causas de crises e de epilepsia resultam de uma interação dinâmica entre fatores endógenos, fatores epileptogênicos e fatores desencadeantes, cujo papel potencial precisa ser analisado ao se definir a conduta em cada paciente. [3] Às três categorias do Harrison somam-se três recortes que as demais referências deste volume nomeiam explicitamente: os fatores de risco, do Goldman-Cecil [2]; os fatores de risco para recorrência das crises, do Tratado de Neurologia [1]; e o preditor de refratariedade, do PCDT. [30] Confundi-los produz três erros com consequência prática: tratar comorbidade como etiologia, tratar fator desencadeante como causa da epilepsia e ler associação estatística como causalidade. Tabela 4.1 — Categorias de fatores relacionados à epilepsia Categoria Exemplo O que significa Fator endógeno (predisponente) [3] História familiar de epilepsia; estágio de maturação encefálica Influencia o limiar para a crise: o cérebro normal é capaz de produzir uma crise nas circunstâncias apropriadas, e há diferenças entre as pessoas na suscetibilidade. Alguns desses fatores são genéticos; o desenvolvimento normal também participa, pois o limiar difere conforme o estágio de maturação. Identificar fatores predisponentes aumenta a indicação de acompanhamento mais atento e de avaliação diagnóstica mais criteriosa. [3] Fator epileptogênico (etiologia) [3] Traumatismo craniano grave penetrante; acidente vascular encefálico; infecções; anormalidades do desenvolvimento do SNC Modificação patológica persistente do sistema nervoso central que transforma uma rede presumivelmente normal em anormalmente hiperexcitável — processo conhecido como epileptogênese. A descoberta de uma lesão epileptogênica ajuda a estimar a recorrência das crises e a duração da terapia. [3] A caracterização etiológica está no Capítulo 3. [30] Fator desencadeante (precipitante) [3] Estresse psicológico ou físico, privação de sono, alterações hormonais; exposição a substâncias tóxicas e a certos fármacos Induz a crise no paciente com epilepsia e responde pela crise isolada em indivíduos sem epilepsia. A remoção ou a modificação de um fator desencadeante pode ser método mais eficaz e mais seguro de prevenir novas crises do que o uso profilático de anticonvulsivantes. [3] Fator de risco epidemiológico [2] Traumatismo cranioencefálico grave Característica ou exposição associada, em estudos populacionais, a maior probabilidade de desenvolver epilepsia, sem implicar obrigatoriamente relação causal direta no paciente individual. [2] Fator de risco para recorrência das crises [1] Etiologia estrutural; alterações no exame neurológico; predomínio das crises durante o sono; atividade epileptiforme ao eletroencefalograma Participam da estimativa do risco de nova crise e podem influenciar a decisão de tratar após a primeira, sobretudo quando vários coexistem. [1] Capítulo 12. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 20 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Categoria Exemplo O que significa Preditor de refratariedade [30] Presença de lesão cerebral nas epilepsias focais O PCDT aponta a lesão cerebral como forte preditor de refratariedade à monoterapia nas epilepsias focais. [30] A persistência de crises apesar de dois fármacos de primeira linha em doses adequadas não é fator de risco — é a caracterização clínica da refratariedade. Fonte: eixo dos fatores endógenos, epileptogênicos e desencadeantes conforme o Harrison [3]; fatores de risco conforme o Goldman-Cecil [2]; fatores de risco para recorrência conforme o Tratado de Neurologia [1]; preditor de refratariedade conforme o PCDT de Epilepsia [30]. A idade exerce forte influência sobre o risco populacional, com maior incidência nos extremos da vida nas populações descritas nas referências (Capítulo 2) [2]; na criança, atua também sobre a suscetibilidade, pois o limiar convulsivo varia com a maturação encefálica (Seção 1.9). [3] Quanto ao sexo, o Goldman-Cecil descreve que uma em 26 pessoas desenvolverá epilepsia ao longo da vida — 1 em 21 homens e 1 em 28 mulheres —, diferença pequena e de pouca utilidade para a decisão individual. [2] Entre as condições do neurodesenvolvimento, descreve, na infância, associação com deficiência intelectual, paralisia cerebral e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade — associações epidemiológicas, e não causalidade. Os agravos perinatais só carregam risco aumentado quando acompanhados de deficiência intelectual ou paralisia cerebral. [2] 4.2 Fatores clínicos e condições adquiridas Convém distinguir os fatores de risco para crises sintomáticas agudas dos fatores de risco para epilepsia. Para as primeiras, o Goldman-Cecil aponta cinco principais em todos os grupos etários: traumatismo craniano (16%), acidente vascular encefálico (16%), distúrbios infecciosos (15%), distúrbios tóxico-metabólicos (15%) e abstinência de álcool e substâncias psicoativas (14%). Para o desenvolvimento de epilepsia na infância, excluída a epilepsia hereditária, somam-se às condições já citadas as crises febris, o traumatismo craniano e as infecções cerebrais. [2] Em adultos, os fatores de risco são identificáveis em apenas um terço dos pacientes, sendo os mais comuns traumatismo craniano, infecções cerebrais, acidente vascular encefálico e demência. A magnitude difere muito: o Goldman-Cecil descreve aumento de mais de 500 vezes por lesão craniana militar, 30vezes por lesão craniana grave civil, 20 vezes cada por acidente vascular encefálico e infecções cerebrais, e 10 vezes cada por doença de Alzheimer, enxaqueca e hipertensão; na América Latina, o fator mais frequente é a infecção cerebral. [2] Esses dados demonstram forte associação entre epilepsia e condições adquiridas. Traumatismo, neuroinfecção e doença cerebrovascular são exposições associadas a risco e, quando deixam lesão permanente, passam a constituir possível etiologia adquirida (Capítulo 3). 4.3 Risco de epilepsia após uma crise febril A história de crise febril figura entre os fatores associados à epilepsia infantil [2], mas o risco não é uniforme. O PCDT estima 1% a 1,5% após crise febril simples — pouco acima da incidência na população geral, de cerca de 0,5% — e 4% a 15% após crise febril complexa. [30] O Harrison converge: as simples não aumentam o risco de epilepsia, e as complexas têm risco de 2% a 5%, somando-se déficits neurológicos prévios e história familiar de crises não febris. [3] O aumento relevante concentra- se, portanto, nas formas complexas. Os fatores de recorrência de nova crise febril não são os mesmos do desenvolvimento posterior de epilepsia. O PCDT lista, para a recorrência, primeira crise febril antes de 1 ano, história familiar de epilepsia ou de crise febril e curta duração do episódio febril, com frequência de 10% sem fatores de risco, 25% a 50% com um a dois e 50% a 100% com três ou mais. [30] Recorrência e prognóstico no Capítulo 14. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 21 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 5 — CLASSIFICAÇÃO Classificar uma crise é nomeá-la a partir da descrição do evento. Não há escore, pontuação nem exame que devolva o resultado: a classificação da International League Against Epilepsy (ILAE), atualizada em 2025, recomenda considerar toda a informação disponível — a semiologia e os dados de apoio, como EEG, neuroimagem, laboratório e genética. [24] Quem classifica, portanto, é quem colhe a história — e os exames confirmam, refinam ou obrigam a rever o nome. 5.1 Como se classifica, na prática Classificar uma crise exige percorrer, nesta ordem, os classificadores e depois os descritores. Confundi- los é a origem dos erros mais comuns: eles não são sinônimos e não se deduzem uns dos outros. CLASSIFICADORES: CLASSE PRINCIPAL → TIPO DE CRISE → CONSCIÊNCIA | DESCRITORES: MANIFESTAÇÕES OBSERVÁVEIS (versão básica) → SEMIOLOGIA EM SEQUÊNCIA CRONOLÓGICA (versão expandida) A classificação utiliza quatro classes principais — focal, generalizada, desconhecida quanto a focal ou generalizada e não classificada. A classe é inferida a partir da história clínica, da semiologia e, quando disponíveis, de dados de EEG e de outros exames. O conceito de início continua relevante para o raciocínio clínico, mas não deve ser apresentado como se “início focal” ou “início generalizado” fossem os nomes das classes da ILAE 2025: o termo “início” foi retirado do nome das classes porque há evidência de começo focal também em crises generalizadas. [24] A ILAE 2025 distingue ainda classificadores — as classes principais, os tipos de crise e o nível de consciência, que refletem classes biológicas e influenciam diretamente o manejo — de descritores, que são as características semiológicas. [24] Daí a regra que atravessa este capítulo: manifestação bilateral não equivale a crise generalizada. Um segundo cuidado: nenhum padrão motor implica automaticamente uma etiologia. Uma crise tônica pode ocorrer como semiologia de uma crise focal e, conforme o contexto clínico, pode justificar investigação de etiologia estrutural — o que é diferente de afirmar que a indique. O procedimento é uma sequência de perguntas, respondidas com o relato de quem viu a crise e com o exame do paciente. Antes de tudo, pergunta-se se houve mesmo uma crise epiléptica, e não um de seus imitadores — síncope, parassonia, transtorno do movimento, evento funcional. Só depois se classifica. [3] Primeira pergunta: a crise é focal ou generalizada? Procura-se qualquer indício de origem em rede limitada a um hemisfério: aviso subjetivo (aura), desvio da cabeça ou dos olhos para um lado, abalos que começaram em um segmento e se estenderam, postura assimétrica, déficit focal ao final. Havendo evidências consistentes de rede focal, classifica-se como focal; quando o conjunto de características é compatível com crise generalizada, classifica-se como generalizada. A ausência de sinais focais observados, isoladamente, não comprova origem generalizada — a própria ILAE registra que o início de uma crise generalizada pode parecer localizado e que essas crises podem ser assimétricas. [24] Quando há informação para caracterizar alguns aspectos da crise, mas ela é insuficiente para decidir entre focal e generalizada, usa-se a classe desconhecida quanto a focal ou generalizada; quando não há informação alguma para caracterizar o evento, embora o clínico esteja seguro de que houve crise epiléptica, usa-se não classificada. [24] Segunda pergunta: a consciência esteve preservada? O nível de consciência é classificador das crises focais e também das crises desconhecidas quanto a focal ou generalizada; nas generalizadas não é aplicado como classificador da classe, embora responsividade e outras características possam ser Epilepsia e Convulsão Febril · Página 22 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril descritas quando pertinentes. [24] A consciência é definida operacionalmente pela combinação de dois componentes: awareness, avaliada pela recordação do evento, e responsividade, testada por tarefas verbais e motoras — uma resposta inadequada ou uma latência significativamente maior que a do estado interictal qualifica responsividade prejudicada. Na prática, pode haver informação sobre apenas um dos dois; se qualquer um estiver comprometido de algum modo, a crise é de consciência prejudicada, e íntegros ambos, é de consciência preservada. Se o estado de consciência for indeterminado, a crise é classificada sob o termo-pai, isto é, apenas a classe principal. [24] Duas cautelas se impõem: a amnésia epiléptica isolada pode explicar a falta de recordação sem que a awareness estivesse comprometida, e a paresia ictal ou a afasia receptiva ictal podem simular irresponsividade — ambas devem ser afastadas sempre que possível. [24] Crises com consciência prejudicada são inerentemente consideradas como tendo manifestações observáveis. [24] Terceira pergunta: houve manifestações observáveis? Na versão básica, a crise é descrita como tendo ou não manifestações observáveis — facilmente identificadas por testemunhas, não volitivas, e que podem incluir fenômenos motores, afásicos, autonômicos ou outros. Manifestações observáveis não são, portanto, sinônimo de manifestações motoras. [24] Na versão expandida, a semiologia é descrita na sequência cronológica em que os fenômenos ocorrem, e não pelo primeiro sinal isolado: é essa sequência que orienta lateralização e localização, o que importa sobretudo na avaliação pré- cirúrgica. [24] A dicotomia motor × não motor foi substituída porque manifestações observáveis não são necessariamente motoras — crises não motoras podem cursar com afasia ou rubor — e porque fenômenos antes agrupados como “não motores” apresentam sinais observáveis: a ausência típica cursa com automatismos discretos, retropulsão da cabeça e piscamento. [24] Por fim, registra-se a evolução. Na crise focal evoluindo para tônico-clônica bilateral, a atividade ictal propaga-se para os dois hemisférios enquanto a semiologia evolui para comprometimento e, por fim, perda completa da consciência, com ativação tônica muscular bilateral seguida de fase clônica, em que os períodos de silêncio que interrompem a atividade tônica se alongam progressivamente. [24] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 23 Livro IntegradoDigital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Quadro 5.1 — Como nomear uma crise: o que perguntar, o que observar e como registrar Pergunta O que procurar no relato e no exame Como fica o nome A crise é focal ou generalizada? Aura; desvio da cabeça ou do olhar; abalos que começaram em um segmento; assimetria; déficit focal pós-ictal. A ausência desses achados, isoladamente, não comprova origem generalizada Focal · generalizada · desconhecida quanto a focal ou generalizada (há informação, mas insuficiente para decidir) · não classificada (houve crise, mas não há informação para caracterizá-la) A consciência esteve preservada? (nas focais e nas desconhecidas quanto a focal ou generalizada) Recorda o episódio (awareness)? Respondia a tarefas verbais e motoras (responsividade)? Consciência preservada · consciência prejudicada; se indeterminada, registra-se apenas a classe principal Houve manifestações observáveis? Observáveis: fenômenos motores elementares e complexos — automatismos, versão, espasmo, piscamento, postura tônica. Possivelmente observáveis: fenômenos autonômicos (rubor, piloereção), cognitivos e de linguagem (afasia) e afetivos. Não observáveis: fenômenos sensoriais e aura indescritível Com · sem manifestações observáveis (versão básica); na versão expandida, a sequência cronológica da semiologia Como evoluiu? Terminou em convulsão bilateral? Em que ordem os sinais apareceram? Acrescenta-se “evoluindo para tônico- clônica bilateral”; na versão expandida, registra-se a sequência cronológica da semiologia Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base em Beniczky et al. [24] e no Harrison [3]. Dois exemplos tornam o procedimento concreto. Formigamento na mão esquerda que progride para o braço, com consciência preservada e paresia residual da mão por uma hora, é crise focal com consciência preservada, com manifestações observáveis. Criança que cai subitamente, sem aviso, com contração de todo o corpo seguida de abalos e confusão prolongada, sem que ninguém tenha observado assimetria, é crise desconhecida quanto a focal ou generalizada, tônico-clônica bilateral — e permanecerá nessa classe enquanto não houver informações suficientes para determinar se é focal ou generalizada. Novos dados clínicos, de EEG, de neuroimagem ou de outros exames podem permitir sua reclassificação. [24] Tabela 5.1 — As quatro classes principais e os 21 tipos de crise da ILAE 2025 Classe principal Tipos de crise Focal (F) — 3 tipos Focal com consciência preservada; focal com consciência prejudicada; focal evoluindo para tônico-clônica bilateral Generalizada (G) — 14 tipos Ausências (4): típica, atípica, mioclônica e mioclonia palpebral com ou sem ausência. Tônico-clônicas (3): tônico-clônica generalizada, mioclônica- tônico-clônica e ausência evoluindo para tônico-clônica. Outras generalizadas (7): mioclônica, clônica, mioclonia negativa, espasmos epilépticos, tônica, atônica e mioclônico-atônica Desconhecida quanto a focal ou generalizada (U) — 3 tipos Com consciência preservada; com consciência prejudicada; tônico-clônica bilateral Não classificada — 1 tipo Houve crise, mas não há elementos para prosseguir na classificação Fonte: Adaptado por SYNAPSE a partir da Tabela 1 de Beniczky et al. [24]. Epilepsia e Convulsão Febril · Página 24 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Note-se uma regra taxonômica da versão de 2025: os números representam os tipos de crise definidos na taxonomia, e os descritores semiológicos não devem ser confundidos com tipos adicionais de crise. [24] Assim, espasmo epiléptico, mioclonia, mioclonia negativa, crise clônica, tônica, atônica e mioclônico-atônica constituem tipos de crise próprios quando generalizados; nas crises focais e nas desconhecidas quanto a focal ou generalizada, esses mesmos fenômenos são descritores da semiologia — fala-se, por exemplo, em espasmo epiléptico focal —, e não tipos à parte. Manifestações assimétricas ou unilaterais favorecem origem focal e, conforme o contexto clínico, podem justificar investigação de etiologia estrutural. [24] Figura 5.1 — Como classificar uma crise epiléptica Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base na classificação da ILAE 2025 — Beniczky et al. [24] — e no Harrison [3]. ▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — Crises epilépticas e epilepsia (em inglês) Assista em: https://youtu.be/98ctrjf_320 5.2 Para que serve o nome que se deu O nome não é rótulo administrativo: ele direciona a investigação e o tratamento. Crises focais originam-se em redes limitadas a um hemisfério, podendo ser discretamente localizadas ou mais amplamente distribuídas, com origem cortical ou subcortical; crises generalizadas originam-se em algum ponto de redes distribuídas bilateralmente e as engajam rapidamente, redes que podem incluir estruturas corticais e subcorticais, mas não todo o córtex. [24] Ambas podem decorrer de diferentes etiologias — estrutural, genética, infecciosa, metabólica, imune ou desconhecida (Capítulo 3): a classe da crise orienta a investigação etiológica, mas não determina isoladamente sua causa. A classe também influencia a escolha terapêutica: alguns bloqueadores de canais de sódio podem agravar determinados Epilepsia e Convulsão Febril · Página 25 https://youtu.be/98ctrjf_320 https://youtu.be/98ctrjf_320 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril tipos de crise, especialmente ausências e mioclonias em algumas epilepsias generalizadas genéticas, de modo que a escolha do fármaco deve considerar o tipo de crise e, quando estabelecidos, o tipo de epilepsia e a síndrome (Capítulo 12). É por isso que separar uma crise focal evoluindo para tônico-clônica bilateral de uma crise tônico- clônica generalizada é de suma importância, ainda que difícil: as testemunhas enfatizam a fase convulsiva e omitem os sintomas focais sutis do começo, e às vezes o elemento focal só aparece quando a anamnese identifica a aura. [3] 5.3 O que o EEG acrescenta — e o que ele não decide O EEG refina a classificação, mas não a substitui. O traçado interictal de rotina em pacientes com crises focais está frequentemente normal, e como o foco pode estar no lobo temporal medial ou frontal inferior — distantes do escalpo —, mesmo o registro obtido durante a crise pode não localizá-lo. [3] A ILAE recomenda classificar considerando toda a informação disponível — semiologia e dados de apoio como EEG, neuroimagem, laboratório e genética —, e a classificação pode parar em qualquer nível da árvore hierárquica: crises inicialmente rotuladas como desconhecidas ou não classificadas podem ser reclassificadas quando novas informações surgirem. [24] 5.4 Por que os nomes mudaram A nomenclatura mudou em duas ondas. Em 1981 e 2017, termos hoje históricos foram substituídos: “parcial” virou focal, porque sugeria uma parte da crise e não a origem anatômica; “simples/complexa” deu lugar a um classificador de estado mental; e “secundariamente generalizada” virou focal evoluindo para tônico-clônica bilateral. Em 2025, seis ajustes: o termo “início” saiu do nome das classes, porque manifestações aparentemente focais podem ocorrer no começo de crises da classe generalizada; passou a haver distinção formal entre classificadores e descritores; consciência substituiu awareness como classificador; a dicotomia motor × não motor deu lugar a manifestações observáveis × não observáveis; a descrição passou a seguir a sequência cronológica dos sinais; e a mioclonia negativa foi reconhecida como tipo de crise. Os 63 tipos de 2017 foram reagrupados em 21. [24] A ILAE registra que a atualização mantém continuidade com 2017, de modo que crises já classificadas podem ser convertidas: consciência prejudicada corresponde a awareness prejudicada, e crise motora corresponde a manifestação observável. [24] 5.5 Do tipo de criseao diagnóstico completo Três sistemas distintos, três datas distintas. Um erro frequente é tratá-los como um só. A classificação das crises segue a atualização da ILAE de 2025, adotada em todo este volume (Seção 5.1); ela trata apenas das crises clínicas e não abrange as crises neonatais, objeto de documento próprio, nem a definição de crise sintomática aguda, nem a nosologia do estado de mal epiléptico, alocadas a outros grupos de trabalho. [24] A classificação das epilepsias — focal, generalizada, combinada ou desconhecida — e a classificação etiológica em seis grupos permanecem as de 2017, que a revisão de 2025 não substituiu. A classificação das síndromes é a de 2022. [24] Onde este volume usa os seis grupos etiológicos (Seção 3.1), portanto, ele está usando o framework etiológico de 2017 — o que é correto e atual —, e não uma nomenclatura de crises desatualizada. Nomeada a crise, o raciocínio prossegue em três degraus: tipo de epilepsia — focal, generalizada, focal e generalizada combinadas, ou desconhecida; síndrome epiléptica, quando o conjunto de crises, EEG, imagem e idade configura uma das entidades com critérios definidos pela ILAE; e etiologia, que deve ser buscada em cada um desses degraus, e não apenas ao final, porque frequentemente muda o tratamento (Capítulo 3). [1,30] Diante de uma primeira crise, é comum não haver informação para ir além do primeiro degrau — e parar ali é correto. [1] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 26 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Três termos acompanham essa hierarquia: as epilepsias generalizadas genéticas substituíram a antiga denominação “idiopáticas” [1]; “benigno” foi substituído por autolimitada e farmacorresponsiva, porque subestimava as comorbidades [1]; e encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento designa os casos em que a própria atividade epileptiforme agrava o comprometimento cognitivo além do esperado pela doença de base. [1] Figura 5.2 — Do tipo de crise ao diagnóstico completo Fonte: Elaboração SYNAPSE, com base na classificação da ILAE 2025 [24], no Tratado de Neurologia [1] e no PCDT de Epilepsia [30]. 5.6 Ressalva — a crise febril está fora deste sistema A crise febril não figura entre os 21 tipos da taxonomia de crises epilépticas da ILAE 2025 [24] e não é, por si só, epilepsia: é crise provocada, definida pelo contexto de febre na infância (Definição Inicial). [30] Clinicamente, entretanto, o evento pode apresentar manifestações focais ou generalizadas, e sua caracterização como simples ou complexa segue critérios próprios, relevantes principalmente para a avaliação de risco. [30] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 27 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril Tabela 5.2 — Classificação da crise febril: simples × complexa Característica Crise febril simples Crise febril complexa Tipo de crise Manifestação convulsiva sem características focais, breve e sem recorrência no mesmo episódio [30] Manifestação focal, desvio ocular ou cefálico sustentado, assimetria [1,5] Número de eventos em 24 h Não recorrente dentro de 24 horas [30] Recorrendo mais de uma vez em 24 horas [30] Duração Habitualmente um a dois minutos [5] Habitualmente menos de 30 segundos [5] Período pós-ictal e exame neurológico Sem déficits neurológicos e sem crises afebris anteriores [30] Associada a anormalidades neurológicas pós-ictais, mais frequentemente uma paralisia de Todd, ou com déficits neurológicos anteriores [30] Conduta que decorre Não estão recomendados exames laboratoriais de rotina, EEG ou exames de imagem [30] Estão recomendados exames laboratoriais, de imagem, EEG e punção lombar, na busca de uma causa; a criança deve ser internada pela variabilidade das condições subjacentes [30] Fonte: PCDT de Epilepsia [30]. O Harrison descreve as formas complexas por três características — atividade convulsiva repetida, duração acima de 15 minutos e características focais [3] —, conjunto contido no do PCDT, que este volume adota. Crianças com crises afebris prévias, com diagnóstico de epilepsia ou com déficits neurológicos anteriores não se enquadram no conceito de crise febril simples, por definição. [30] Note-se que o PCDT emprega desigualdade estrita: a forma simples é breve, com menos de 15 minutos, e a complexa é prolongada, com duração maior do que 15 minutos [30] — de modo que este volume não adota “15 minutos ou mais” como critério. A criança com crise febril complexa deve ser internada, pela ampla variabilidade das condições subjacentes. [30] A duração acima de 30 minutos como limiar de estado de mal epiléptico febril não foi localizada nas fontes desta base; aplica-se o critério geral de estado de mal (Seção 8.1). Epilepsia e Convulsão Febril · Página 28 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril CAPÍTULO 6 — FISIOPATOLOGIA Este é o capítulo central do volume. Ele conta uma única história, com começo, meio e fim, e a percorre integrando duas descrições complementares: a do Goldman-Cecil, que parte da biopatologia e distingue desde o início os substratos da crise focal e da generalizada [2], e a do Harrison, que parte dos mecanismos de início e propagação no nível da membrana e da rede [3]. A fisiologia normal já está no Capítulo 1 e não será repetida. COMEÇO — POR QUE A DESCARGA COMEÇA limiar individual (genética · maturação · lesão prévia) associado a um gatilho · desvio paroxístico da despolarização, no modelo da crise focal (6.1) ↓ MEIO — POR QUE ELA NÃO PARA E SE ESPALHA falência da inibição circundante · recrutamento e propagação (6.2) ↓ DIÁLOGO COM A CLASSIFICAÇÃO — ONDE OS MECANISMOS DESCRITOS PARA FOCAL E GENERALIZADA SE SEPARAM (6.3) ↓ FIM — COMO A CRISE TERMINA (6.4) E O QUE ELA DEIXA: EPILEPTOGÊNESE (6.5) ↓ TÓPICO À PARTE — POR QUE A FEBRE PRECIPITA CRISE EM ALGUMAS CRIANÇAS (6.6) Três perguntas guiam a leitura: o que inicia a descarga, o que permite que ela se propague e o que a interrompe. Falhas nesses três momentos ajudam a organizar, respectivamente, a crise que permanece confinada, a crise que recruta redes mais amplas e a crise que não se encerra — mas trata-se de um recurso de organização didática, e não de uma correspondência mecanicista obrigatória. 6.1 O começo: por que uma descarga se inicia As crises resultam de um desvio no equilíbrio normal entre excitação e inibição no sistema nervoso central. [3] Como muitas propriedades controlam a estabilidade neuronal, há muitas formas de perturbar esse equilíbrio e, portanto, muitos mecanismos capazes de alterar a propensão do neurônio à atividade paroxística: os intrínsecos incluem alterações na condutância dos canais iônicos, nos receptores de membrana, no tamponamento citoplasmático, nos segundos mensageiros e na expressão de proteínas; os extrínsecos, modificações na quantidade e no tipo de neurotransmissores na sinapse, na modulação de receptores por íons e outras moléculas e nas propriedades dos impulsos aferentes. Astrócitos e oligodendrócitos participam de muitos desses mecanismos. [3] É por isso que causas tão distintas quanto uma mutação de canal iônico, uma displasia cortical e um distúrbio metabólico podem produzir crises epilépticas — ainda que as manifestações clínicas variem amplamente conforme o tipo de crise e as áreas do cérebro envolvidas. [2] No neurônio individual, o evento elementar descrito para a crise focal é o desvio paroxístico da despolarização, cujo encadeamento as duas fontes descrevem de modo convergente — trata-se de um fenômeno celular, e não de uma crise, e o modelo se refere à geração da crise focal, não a um mecanismo iônico obrigatório de toda crise epiléptica: [2,3] Epilepsia e Convulsão Febril · Página 29 Livro Integrado Digital de Estudo — Epilepsia e Convulsão Febril INFLUXO DE Ca² EXTRACELULAR — desvio na condutância do cálcio ↓ DESPOLARIZAÇÃO⁺ PROLONGADA DA MEMBRANA