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MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Suzie Signori 1ª Edição, 2021 EAD Editora Universitária Adventista Presidente da Divisão Sul-Americana: Stanley Arco Diretor do Departamento de Educação para a Divisão Sul-Americana: Antônio Marcos da Silva Alves Presidente do Instituto Adventista de Ensino (IAE), mantenedora do Unasp: Maurício Lima Secretário do Instituto Adventista de Ensino (IAE), mantenedora do Unasp: Emmanuel Oliveira Guimaraes Tesoureiro/CFO do Instituto Adventista de Ensino (IAE), mantenedora do Unasp: Gilnei Abreu Reitor: Martin Kuhn Vice-reitor administrativo: Claudio Knoener Vice-reitor para educação superior e diretor do campus São Paulo: Afonso Ligório Cardoso Vice-reitor e diretor do campus Engenheiro Coelho: Carlos Alberto Ferri Vice-reitor para a educação básica e diretor do campus Hortolândia: Henrique Karru Romaneli Pró-Reitor Financeiro: Paulo Ricardo Monarin Pró-reitor de graduação: Edilei Rodrigues de Lames Pró-reitor de pesquisa e desenvolvimento institucional: Allan Macedo de Novaes Pró-reitor de gestão integrada: Mauricio Guimarães Lima Pró-reitor de pós-graduação lato sensu: Luis Henrique dos Santos Pró-reitor de desenvolvimento espiritual: Wendel Thomaz Lima Pró-reitor de educação a distância: Jonas Rafael Nikolay Conselho editorial e artístico: Dr. Martin Kuhn; Me. Henrique Romanelli; Dr. Afonso Cardoso; Dr. Carlos Ferri; Me. Telson Vargas; Dr. Allan Novaes; Dr. Edilei Lames; Me. Wendel Lima; Dr. Evandro Fávero; Dr. Vanderlei Dorneles; Dr. Adriani Mili; Dr. Fabio Alfieri; Dra. Silvia Quadros; Esp. Regiane Cardoso de Oliveira; Me. Lucas Alves; Dr. Adolfo Suárez; Me. Edilson Valiante; Me. Diogo Cavalcanti Editor-chefe: Allan Macedo de Novaes Engenheira de Produção: Rhayane Storch Responsável editorial pelo EAD: Regiane Cardoso de Oliveira 1ª Edição, 2021 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Editora Universitária Adventista Engenheiro Coelho, SP Suzie Signori Mestrado em artes pela Unicamp Caetano, Suzie Adriana Signori Movimentos artísticos e culturais [livro eletrônico] / Suzie Adriana Signori Caetano. -- 1. ed. -- Engenheiro Coelho, SP : Unaspress, 2021. PDF ISBN 978-65-89942-11-5 1. Arte 2. Cultura 3. História 4. Movimentos artísticos I. Título. 22-97885 CDD-700.7 Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do livro, SP, Brasil) Índices para catálogo sistemático: 1. Movimentos artísticos e culturais : Artes 700.7 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964 Movimentos artísticos e culturais 1ª edição – 2021 e-book (pdf) Coordenação editorial: Luiza Simões Revisão: Ana Lessa e Eduan Rodrigues Projeto gráfico: Ana Paula Pirani Capa: Jonathas Sant’Ana Diagramação: Ana Paula Pirani Caixa Postal 88 – Reitoria Unasp Engenheiro Coelho, SP – CEP 13448-900 Tel.: (19) 3858-5171 / 3858-5172 www.unaspress.com.br Editora Universitária Adventista Validação editorial científica ad hoc: Ana Paula Pirani Follis Especialista em fotografia pela Uniara Conselho editorial e artístico: Martin Kuhn, Telson Vargas, Rodrigo Follis, Adolfo Suárez, Afonso Cardoso, Allan Novaes, Antônio Marcos Alves, Diogo Cavalcanti, Douglas Menslin, Eber Liesse, Edilson Valiante, Fabiano Leichsenring, Fabio Alfieri, Gilberto Damasceno, Gildene Silva, Henrique Gonçalves, José Prudêncio Júnior, Luis Strumiello, Reinaldo Siqueira Editora associada: Todos os direitos reservados à Unaspress - Editora Universitária Adventista. Proibida a reprodução por quaisquer meios, sem prévia autorização escrita da editora, salvo em breves citações, com indicação da fonte. SUMÁRIO ARTE MODERNA .................................................... 11 Introdução ........................................................................................12 Impressionismo: germinar da arte moderna, 1870-90 ..................14 Pós-impressionismo: ramificações, 1880-1906 ....................22 Expressionismo ................................................................................32 Die Brücke (a Ponte): a expressividade da cor, 1905-1913 ..................................................................33 Der blaue reiter (O cavaleiro azul): o som da cor, 1910-1914 .......................................................36 Fauvismo: a intensificação da cor, 1905-1910 .......................38 Cubismo: multiplicidade do olhar, 1907-1914 ...............................42 Fase inicial: a simplificação das formas, 1907-1909 .............45 Fase analítica: a imagem multifacetada, 1909-1912 ............47 Fase sintética: a exploração visual tátil, 1911-1914 ..............49 VO CÊ ES TÁ A QU I Futurismo/ dadaísmo/surrealismo .................................................51 Futurismo: o sonho da velocidade, 1909-1919 .....................52 Dadaísmo: a anarquia em pauta, 1916-1923 ........................55 Surrealismo: o distanciamento da lógica, 1924-1945 ...........59 Construtivismo e bauhaus ...............................................................63 Suprematismo e construtivismo: as vanguardas russas, 1915-1925 ..........................................63 Neoplasticismo: a linha e a cor na moda, 1917-1931 ...........68 Bauhaus: reunião de vanguardas, 1919-1933 .......................70 Considerações finais.........................................................................73 Referências .......................................................................................75 ARTE CONTEMPORÂNEA E PÓS-MODERNIDADE .......................................... 83 Introdução ........................................................................................84 Expressionismo Abstrato: modus operandi, 1943-1970 ................86 Modus operandi: action painting ...........................................89 Modus operandi: color field ....................................................92 Pop art: consumo das massas, 1956-1970 .....................................95 VO CÊ ES TÁ A QU I Novo realismo, frança.............................................................100 Arte povera, itália ...................................................................104 Op Art / Arte Cinética: movimento da forma, 1950-1970 ............107 Arte cinética: movimento da forma ......................................113 Minimalismo: 1960-1975 .....................................................118 Arte conceitual: jogos mentais, 1967 – dias atuais ..............125 Concretismo e modos de interação: alinhamento internacional .............................................................130 Modos de interação: performance, imersão participativa ......................................135 Modos de interação: performance, ação interativa ...............138 Modos de interação: happening ............................................140 Modos de interação: instalação .............................................143 Considerações finais........................................................................147 Referências ......................................................................................148 Conceitos da estética e da arte. Principais escolas e movimentos artísticos, literários e culturais da modernidade e contemporaneidade. A arte, a cultura e o contexto social, político e ideológico de sua produção. A arte afro-brasileira e questão étnico-racial e indígena na arte nacional. A arte como mercadoria e as formas de reprodução. EMENTA UNIDADE 1 ARTE MODERNA 12 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS INTRODUÇÃO Bem-vindo(a) à arte moderna! Você já deve ter escutado a pergunta: “nossa, isso é arte? até eu faço!” Ou em rodas de conversa, já ouviu afirmações como: “nossa, que moderno!”. São questionamentos e afirmações que transitam nos corredores de uma galeria, de um museu de arte moderna ou contemporâneabr/wp-content/uploads/2019/04/nesting-tables-albers-sq-1- 1024x1024.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. BOCCIONI, U. Carga dos lanceiros. 1915. 1 pintura à óleo. 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A fonte. 1917. 1 fotografia documental de réplica do original destruído. Disponível em: https://upload.wikimedia. org/wikipedia/commons/thumb/f/f6/Duchamp_Fountaine. jpg/569px-Duchamp_Fountaine.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. FRIEDEL, H. The Blue Rider. Munich: Prestel Verlag, 2007. GAUGUIN, P. Visão após sermão, ou Jacó em luta com o anjo. 1888. Pintura à óleo. Disponível em: https://upload.wikimedia. org/wikipedia/commons/thumb/5/5e/Paul_Gauguin_137. jpg/760px-Paul_Gauguin_137.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 2000. GOMPERTZ, W. Isso é arte? 150 anos de arte moderna do impressionismo até hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. HIROSHIGE, U. Parque das ameixas em kameido da série 100 vista famosas de Edo. 1857. Xilogravura em cores. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/archive/d/db/20160227182451%21Hiroshige_ Pruneraie_%C3%A0_Kameido.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. IMPRESSIONISMO. 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Quadrado negro. 1915. Pintura à óleo. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Kazimir_Malevich,_1915,_Black_Suprematic_Square,_ oil_on_linen_canvas,_79.5_x_79.5_cm,_Tretyakov_Gallery,_ Moscow.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. MATISSE, H. Harmonia em vermelho (A sala vermelha). 1908. Pintura à óleo. Disponível em: https://www. hermitagemuseum.org/wps/wcm/connect/ecaaeb7d- abc3-42b8-be41-b2415c7eec16/WOA_IMAGE_1. jpg?MOD=AJPERES&bcd71ee9-76b5-4bd3-b3f9-67753346139f. Acesso em: 02 maio 2024. MONDRIAN, P. Composição II com vermelho, azul e amarelo. 1930. Pintura à óleo. Disponível em: https://commons. wikimedia.org/wiki/File:Piet_Mondriaan,_1930_-_Mondrian_ Composition_II_in_Red,_Blue,_and_Yellow.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. MONET, C. Impressão, nascer do sol. 1872-73. Pintura à óleo. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Soleil_levant_Claude_Monet.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. MUNCH, E. O grito.1893. Pintura. 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Disponível em: https://www.tate.org.uk/art/ art-terms/r/readymade. Acesso em: 02 maio 2024. RENOIR, A. O Almoço dos barqueiros. 1880-81. Pintura à óleo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_ Almo%C3%A7o_dos_Barqueiros. Acesso em: 02 maio 2024. RODCHENKO Aleksander. Rechevik. Stikhi. 1929. Capa de livro. Disponível em: https://www.moma.org/collection/ works/16455. Acesso em: 02 maio 2024. VAN GOGH LETTERS. 1888. Disponível em: http://www. vangoghletters.org/vg/letters/let688/letter.html. Acesso em: 02 maio 2024. VAN GOGH, V. Ameixa em flor (após Hiroshige). 1887. Pintura à óleo. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/thumb/8/84/Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_ pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project. jpg/504px-Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_ naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. VAN GOGH, V. Troncos de árvores na grama. 1890. Pintura à óleo. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/ https://www.tate.org.uk/art/art-terms/r/readymade https://www.tate.org.uk/art/art-terms/r/readymadehttps://pt.wikipedia.org/wiki/O_Almo%C3%A7o_dos_Barqueiros https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Almo%C3%A7o_dos_Barqueiros https://www.moma.org/collection/works/16455 https://www.moma.org/collection/works/16455 http://www.vangoghletters.org/vg/letters/let688/letter.html http://www.vangoghletters.org/vg/letters/let688/letter.html https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg/504px-Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg/504px-Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg/504px-Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg/504px-Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg/504px-Vincent_van_Gogh_-_Bloeiende_pruimenboomgaard-_naar_Hiroshige_-_Google_Art_Project.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/2/23/Tree_trunks_in_the_grass.jpg/765px-Tree_trunks_in_the_grass.jpg 82 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS commons/thumb/2/23/Tree_trunks_in_the_grass.jpg/765px- Tree_trunks_in_the_grass.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. VLAMINCK, M. d. Restaurant de la machine à bougival. 1905. Pintura à óleo. Disponível em: https://uploads0.wikiart.org/ images/maurice-de-vlaminck/restaurant-de-la-machine-at- bougival.jpg!Large.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. WAGENFELD,W. e JUCKER, C. J. Lâmpada MT8. 1924. Luminária. Disponível em: http://italianleather.com.br/wp- content/uploads/2019/04/mt8-lamp-sq-1-1024x1024.jpg. Acesso em: 02 maio 2024. https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/2/23/Tree_trunks_in_the_grass.jpg/765px-Tree_trunks_in_the_grass.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/2/23/Tree_trunks_in_the_grass.jpg/765px-Tree_trunks_in_the_grass.jpg https://uploads0.wikiart.org/images/maurice-de-vlaminck/restaurant-de-la-machine-at-bougival.jpg!Large.jpg https://uploads0.wikiart.org/images/maurice-de-vlaminck/restaurant-de-la-machine-at-bougival.jpg!Large.jpg https://uploads0.wikiart.org/images/maurice-de-vlaminck/restaurant-de-la-machine-at-bougival.jpg!Large.jpg http://italianleather.com.br/wp-content/uploads/2019/04/mt8-lamp-sq-1-1024x1024.jpg http://italianleather.com.br/wp-content/uploads/2019/04/mt8-lamp-sq-1-1024x1024.jpg _GoBack Arte moderna Introdução Impressionismo: germinar da arte moderna, 1870-90 Pós-impressionismo: ramificações, 1880-1906 Expressionismo Die Brücke (a Ponte): a expressividade da cor, 1905-1913 Der blaue reiter (O cavaleiro azul): o som da cor, 1910-1914 Fauvismo: a intensificação da cor, 1905-1910 Cubismo: multiplicidade do olhar, 1907-1914 Fase inicial: a simplificação das formas, 1907-1909 Fase analítica: a imagem multifacetada, 1909-1912 Fase sintética: a exploração visual tátil, 1911-1914 Futurismo/ dadaísmo/surrealismo Futurismo: o sonho da velocidade, 1909-1919 Dadaísmo: a anarquia em pauta, 1916-1923 Surrealismo: o distanciamento da lógica, 1924-1945 Construtivismo e bauhaus Suprematismo e construtivismo: as vanguardas russas, 1915-1925 Neoplasticismo: a linha e a cor na moda, 1917-1931 Bauhaus: reunião de vanguardas, 1919-1933 Considerações finais Referências Arte contemporânea e Pós-modernidade Introdução Expressionismo Abstrato: modus operandi, 1943-1970 Modus operandi: action painting Modus operandi: color field Pop art: consumo das massas, 1956-1970 Novo realismo, frança Arte povera, itália Op Art / Arte Cinética: movimento da forma, 1950-1970 Arte cinética: movimento da forma Minimalismo: 1960-1975 Arte conceitual: jogos mentais, 1967 – dias atuais Concretismo e modos de interação: alinhamento internacional Modos de interação: performance, imersão participativa Modos de interação: performance, ação interativa Modos de interação: happening Modos de interação: instalação Considerações finais Referênciasou em um diálogo informal, depois de visitar uma exposição que tenha causado estranhamento. Revelam um pouco de nós, da nossa história e de nossas aproximações ou afastamentos com essa coisa chamada arte moderna e arte contemporânea. Um mergulho na história da arte moderna pode nos dar pistas para compreendermos o que é arte. Para isso, convido você a mergulhar e navegar comigo no rico período em experimentações, que lançaram os fundamentos às possibilidades visuais que vivenciamos hoje: a arte moderna. Neste material, exercitaremos nosso olhar sobre alguns dos famosos “ismos”. Nos lançaremos em um mergulho, rompendo as águas com o impressionismo e seguiremos 13 ARTE MODERNA alguns dos principais movimentos da vanguarda europeia que marcaram o período do fim do século 19 à metade do século 20. O conteúdo vem recheado de imagens, a fim de facilitar a compreensão dos assuntos que estaremos analisando. Para um melhor aproveitamento de sua capacidade perceptiva, sugiro que, a cada imagem, dedique um momento para apreciar, perceber detalhes da obra e para seguir a leitura, estabelecendo associações e conexões internas com aquilo que você percebeu na obra. Ao final do conteúdo, esperamos que nossa trajetória propicie a aprendizagem de algumas nuances da arte moderna e que você tenha autonomia para diferenciar seus principais movimentos. Navegaremos em especial no: • impressionismo; • expressionismo; • cubismo; • futurismo, surrealismo e dadaísmo; • construtivismo e bauhaus. Vamos dar um salto no tempo e na história? Bons estudos! 14 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS IMPRESSIONISMO: GERMINAR DA ARTE MODERNA, 1870-90 Segundo o verbete do dicionário Michaelis on-line (2021), impressionismo é um termo raramente utilizado como fenômeno sensório, e intimamente ligado ao movimento artístico que envolveu a música, literatura e artes visuais com origem em Paris, no século 19. Para de iniciarmos essa jornada, como um mergulhador, antes do salto, convêm observarmos o terreno, apreciarmos os horizontes e, então, em um respiro concentrado e profundo, nos lançarmos neste mergulho através da imagem e sua transformação no decorrer dos últimos 150 anos. Convido você a voltar no tempo e atravessar o portal que nos leva à Belle Epóche. Em 15 abril de 1874, no Café Gerbouis ― local de calorosas discussões BELLE EPÓCHE Fase de euforia e despreocu- pação vivida especificamente na Europa, entre 1871 (fim da guerra franco-prussiana) e 1914 (início da primeira guerra mun- dial). Se caracterizou pela gran- de produção artística, literária e desenvolvimento tecnológico para as artes visuais. 15 ARTE MODERNA e planejamentos artísticos, ponto de encontro tradicional entre artistas, escritores e críticos de arte parisienses no século 19 ― à véspera da inauguração, um grupo de jovens artistas entusiasmados se reunia, para os últimos detalhes da mostra. Suas obras, rejeitadas pelo júri do salão oficial de Paris, encontraram no ateliê do fotógrafo Nadar, espaço para realização da mostra expositiva, um evento que se tornou o estopim de uma nova era no campo das artes visuais. A exposição contou com cerca de 30 artistas, e na comissão de organização estavam: Pissaro, Monet, Sisley, Degas, Renoir, Cézanne, Guillaumin e Berthe Morisot. Esses artistas apresentaram ao público uma pintura mais solta, livre das regras de representação fiel, consagradas pela academia. O resultado dessa liberdade? Uma crítica acirrada de Louis Leroy em jornal menciona a exposição como de impressionistas. A acidez do termo proposto por Leroy é explicado pelo historiador E.H. Gombrich: impressionistas quis significar […] que esses pintores não trabalhavam com base num sólido conhecimento e pensavam que a impressão de um fugaz momento era suficiente para chamarem a seus quadros uma pintura. O rótulo pegou. A intenção zombeteira depressa foi ignorada […] algum tempo depois, o próprio grupo de amigos aceitou o nome de impressionistas, e como tal passaram a ser conhecidos até hoje (GOMBRICH, 2000, p. 498). 16 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS De crítica sarcástica à denominação do grupo, o termo impressionismo tomou corpo de movimento e seus integrantes, cada vez mais cientes de seu papel como artistas, mergulharam em pesquisas voltadas não à reprodução fiel da realidade e sim na luminosidade e composição. Para compreender essa interrupção com a representação, convém recordar que em meados do século 19, houve o desenvolvimento de uma série de aparatos e inovações tecnológicas, entre eles, dois foram fundamentais para os impressionistas. O primeiro, de ordem prática, se refere ao desenvolvimento e comercialização de bisnagas de tinta à óleo, deram liberdade ao artista para pintar ao ar livre. E o segundo, de ordem técnica e visual, a fotografia, recurso tecnológico de libertação das artes visuais da pura e imediata representação da realidade. Os jovens artistas, amparados pelos frutos da revolução industrial, saem com telas e tintas para os campos. A fim de explorar a luminosidade e atmosfera dos ambientes, recorreram, muitas vezes, à fotografia como embasamento e inseriram um novo modo de representação. São característicos deste novo modo de pintar: a suspensão dos contornos e dos claros-escuros, em favor de pinceladas 17 ARTE MODERNA curtas e justapostas, com a exploração da luminosidade e o uso de cores complementares e, em especial, a pintura ao ar livre. Vamos nos debruçar sobre três obras ícones do movimento impressionista para entendermos um pouco mais desta relação entre luminosidade e representação. NA PRÁTICA Até meados do século 19, os artistas produziam suas próprias tintas, em ateliês muito parecidos com laboratórios de alquimia, repletos de poções, pigmentos, óleos e essências. Os elementos químicos necessitavam ser pacientemente separados, pesados, misturados. Foi somente em 1841 que criaram o primeiro tubo de tinta em estanho e selado uma rosca de fácil abertura e fechamento (bisnagas de tinta à óleo). E em 1850, já estava sendo produzido comercialmente. Essa disponibilidade ofereceu aos artistas duplo benefício: a experimentação de novos tons e a saída dos ateliês para a pintura ao ar livre. Iniciamos com a pintura que dá nome ao movimento impressão, nascer do sol, de Monet (figura 1). Essa pintura de Monet, de um porto ao norte da França, com ausência de detalhes, se comparada às pinturas clássicas da época, parecem camadas mal acabadas, mais próximas de um esboço. Por isso, o desconforto causado ao crítico Leroy e público acostumado às pinturas acadêmicas. 18 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Figura 1 - Claude Monet. Impressão, nascer do sol Fonte: Wikimedia Commons (MONET, c. 1872-73) Os impressionistas, como grupo, tinham por interesse as impressões sensoriais da realidade. Para isso, realizavam as misturas cromáticas na própria tela, em pequenas manchas de cor; realizavam suas pinturas ao ar livre; substituíam temáticas históricas, mitológicas e religiosas, comuns na academia, para perpetuação dos momentos cotidianos e fugazes. Um excelente exemplar dessa nova temática associada a momentos fugazes é O Almoço dos barqueiros, de Renoir (figura 2). Note as pinceladas soltas, a suavidade e despretensão do tema. Tal qual um fotógrafo, o pintor captura um instante corriqueiro, e nosso olhar é convidado a percorrer a cena, passeando entre os personagens ali representados com contornos difusos, característicos dos impressionistas. 19 ARTE MODERNA Figura 2 – August Renoir. O Almoço dos barqueiros Fonte: Wikipedia (RENOIR, 1880-81) Edgar Degas, outro artista integrante do movimento impressionista, se diferencia dos demais. Devido ao problema ocular, Degas evita os espaços externos, revelando os cotidianos internos, sobretudo dos palcos, das coxias dos espetáculos e das aulas de dança. A exploração da luz e do movimento vem por ele,dos espaços internos, como em A aula de dança (figura 3). Essa pintura apresenta um grupo de bailarinas e suas mães aguardando enquanto uma bailarina ao centro executa uma cena de dança, sob o olhar implacável do mestre. Nosso olhar percorre do canto inferior direito, próximo a um contrabaixo e pedestal, vagueando a seguir pelas bailarinas. Essa composição em diagonal, incomum na academia, revela um estudo prévio da cena, talvez pela fotografia, na captura dos 20 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS gestos espontâneos, naturais e corriqueiros ou pela influência da nova representação do mundo vinda do Oriente, o Ukiyo-ê. Figura 3 – Edgar Degas. A aula de dança Fonte: MetMuseum (DEGAS, 1874) Ukiyo-ê significa retratos do mundo flutuante, referem- se a reproduções de xilogravuras (gravuras em madeira) japonesas, em cor. O Ukiyo-ê começou a ser difundido na Europa a partir de 1850, com a abertura do Japão ao comércio e intercâmbio cultural internacional. Essas gravuras, exibidas nas feiras mundiais de Paris (exposição universal 1855, 1867, 1878), ganharam atenção dos impressionistas, em especial a dos mestres do Ukiyo-ê: Hiroshige e Hokusai. 21 ARTE MODERNA Perspectivas diferenciadas, pontos de vista aéreo acentuados, estrutura diagonal, composições assimétricas e simplicidade estilizada, quase de uma história em quadrinhos, conferem a estas gravuras o efeito voyeurístico que encantava e encanta multidões. O Ukiyo-ê influenciou vários impressionistas entre eles Monet, Degas e o impetuoso Van Gogh. SAIBA MAIS Vale a pena uma visita virtual as coleções de Ukiyo-ê acessando Google Arts&Culture. Disponível em: https://artsandculture.google.com/sear- ch?q=ukiyo-e. Acesso em: 02 maio 2024. Estes três artistas aqui visitados evocam, como os demais impressionistas, o sentido da Belle Epóque, caracterizado pelo otimismo diante da vida, uma busca por retratar a efemeridade e a fugacidade, com pinceladas leves, cores suaves e contornos indefinidos. Toda essa aparente despretensão e efemeridade do impressionismo produziu um efeito catalizador: agregou artistas e pesquisas fundamentais que desabrocham em vários movimentos vanguardistas, no início do século 20. https://artsandculture.google.com/search?q=ukiyo-e https://artsandculture.google.com/search?q=ukiyo-e 22 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS PÓS-IMPRESSIONISMO: RAMIFICAÇÕES, 1880-1906 O termo pós-impressionista foi cunhado pelo crítico de arte britânico Roger Eliot Fry, para designar as obras expostas em 1910 na Grafton Galleries, em Londres. Na exposição, estavam pinturas de Cézanne, Van Gogh, Gauguin e Seraut. Nenhum dos quatro artistas que hoje conhecemos como pós-impressionistas teria se autodenominado assim. Não porque Vincent Van Gogh, Paul Gauguin, Georges Seurat e Paul Cézanne desdenhassem ou reprovassem a expressão. Ocorre simplesmente que ela foi cunhada muito depois de eles terem morrido (GOMPERTZ, 2013, p. 70). Três artistas, atualmente caracterizados como pós- impressionistas, tiveram suas primeiras incursões, nas investigações visuais, dentro do impressionismo. Essas pesquisas impeliram a diferentes direções e acabaram por fundamentar três importantes vertentes da arte moderna. Van Gogh, Cézanne e Gauguin, tornam-se agora nosso foco de atenção, para deles seguirmos para as vertentes que impulsionaram. VICENT VAN GOGH Van Gogh foi um artista ímpar. Quase nada que produziu conseguiu vender, com pinturas arrebatadoras aos olhos contemporâneos. Porém, em seu período, era tido por estranho, 23 ARTE MODERNA triste e exagerado pintor. Dolorosamente, sua trajetória de vida incluiu loucura, orelha cortada, depressão e suicídio. Integrado inicialmente com os impressionistas, sua produção ia além do estudo da incidência da luz sobre os objetos. Van Gogh buscava a expressividade da cor, tomando uma vertente mais subjetiva, humana, emocional e sentimental. Parte de sua produção é hoje conhecida pelo grande público como: Autorretrato com orelha cortada (1888), O quarto em arles (1888) e Noite estrelada (1889), em que a dança emocionada da cor tem sido vista e explorada como na mostra imersiva de Van Gogh ― que tem percorrido o mundo desde 2019 - ou pela publicidade de produtos promocionais - canecas, roupas, acessórios - e tantas outras possibilidades que optamos por não discuti-las aqui. Iremos nos ater a um estudo estético sobre o qual Van Gogh se debruçou com afinco, o Ukiyo-ê. Em uma de suas cartas a seu irmão Theo, Van Gogh escreve: Se estudarmos a arte japonesa, veremos um homem que é indubitavelmente sábio, filósofo e inteligente, que passa o tempo fazendo o que? (...) Estudando uma única folha de grama. Mas essa folha de grama leva-o a desenhar todas as plantas, depois as estações, os amplos aspecto das paisagens... (...) invejo aos japoneses a extrema clareza que tudo tem em seu trabalho, ela não é nunca tediosa, nunca parece feita às pressas. 24 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Seu trabalho é tão simples quanto a respiração, e eles fazem um rosto com poucos traços seguros, com a mesma facilidade como se estivessem abotoando uma roupa (CHIPP, 1996, p. 35). Observemos um de seus estudos da gravura japonesa Ameixa em flor (após Hiroshige) (figura 4). Van Gogh, como um aluno empenhado, procura extrair o máximo da essência compositiva da gravura. Porém, no quesito cor, não se restringe às cores do original. Ele deixou-as mais quentes e acrescentou molduras laterais, em amarelo com a finalidade de intensificar o vermelho da composição. Aprecie a ameixeira da gravura original Parque das ameixas em Kameido (figura 5) de Hiroshige. A inserção de um elemento no primeiro plano - apresentado apenas partes dele e não o todo - era um tipo de composição incomum aos olhos ocidentais e foi a grande aula compositiva para Van Gogh, lição aplicada em várias obras posteriores. Para fecharmos nossa leitura a respeito do aprendizado de Van Gogh, observemos Troncos de árvores na grama (figura 6). Uma pintura no qual o olhar percorre uma diagonal ascendente da esquerda para a direita com ênfase no primeiro plano ― troncos e grama ― e uso da diagonal, confere um poderoso efeito espacial, certamente resultado de seus estudos compositivos do Ukiyo-ê. 25 ARTE MODERNA Figura 4 – Vincent Van Gogh. Ameixa em flor (após Hiroshige) Fonte: Wikimedia Commons (VAN GOGH, 1887) Figura 5 – Utagawa Hiroshige. Parque das ameixas em Kameido da série 100 vista famosas de Edo Fonte: (HIROSHIGE, 1857) A pincelada emplastada, carregada de matéria, tão característica das pinturas de Van Gogh, aqui se anunciam preenchendo todo o 26 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS espaço da tela. Essa é a essência de Van Gogh, um pintor marcado pelo anseio intenso de exalar, em sua produção visual, aquilo que sentia profundamente, expressos em volumes de tinta e cor, em um movimento ziguezagueante do olhar. Figura 6 – Vincent Van Gogh. Troncos de árvores na grama Fonte: Wikimedia Commons (VAN GOGH, 1890) SAIBA MAIS Curioso(a) para conhecer mais obras de Van Gogh? Faça uma visita virtual ao museu Van Gogh em Amsterdã/ Ho- landa. Observe e procure, entre as obras, aquelas com tra- ços compositivos do Ukyio-ê, tão apreciado pelo artista! Disponível em: https://www.vangoghmuseum.nl/en/ collection?q=&artist=Vincent%20van%20Gogh. Acesso em: 02 maio 2024. https://www.vangoghmuseum.nl/en/collection?q=&artist=Vincent%20van%20Gogh https://www.vangoghmuseum.nl/en/collection?q=&artist=Vincent%20van%20Gogh 27 ARTE MODERNA PAUL CÉZANNE Cézanne, outro pós-impressionista importante para os movimentos posteriores, diferente de Van Gogh, apresentava interesse na visão, no modo de ver as coisas e não no modo de expressar os dilemas. Para Cézanne ver não é acreditar, é questionar! Essa intuição filosófica o levou a pesquisar, na pintura, o que vemos e como vemos. Nós, seres humanos, raciocinou Cézanne, temos visão binocular:temos dois olhos. Mais ainda, nossos olhos esquerdo e direito não registram informações visuais idênticas (embora nosso cérebro reúna as duas em uma só imagem). Cada olho vê as coisas de maneira ligeiramente diferente. Além disso, tendemos a ser irrequietos. Quando examinamos um objeto, ficamos nos movendo – esticamos o pescoço, inclinamo-nos para o lado, curvamo-nos para a frente e nos levantamos. No entanto, a arte era (e é) produzida quase exclusivamente como se vista através de uma lente única, estática. Esse, Cézanne deduziu, era o problema com a arte de seu tempo e do passado: ela não representava o modo como realmente vemos, que não é de uma única perspectiva, mas de pelo menos duas. A porta para o modernismo havia sido aberta (GOMPERTZ, 2013, p. 99). Cézanne, ao encarar o problema de frente, começou a inserir em suas pinturas o mesmo tema visto em dois ângulos diferentes. Entra em cena a simplificação, o enxugamento e 28 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS abandono da perspectiva tradicional em prol de uma visão binocular que se ampliaram no cubismo, mas isso já é uma outra história. Para tentar entender um pouco deste artista observemos A Montanha de Sainte-Victoire (figura 7). Na pintura, a montanha parece ser emoldurada pelo grande pinheiro no primeiro plano, cujos ramos se estendem e seguem o contorno da montanha, recurso visual muito semelhante às gravuras japonesas (Ukiyo-ê). O olhar segue do pinheiro à montanha fazendo um breve retorno às casas próximas ao tronco do pinheiro, este circuito elipsado, parece deter o observador a tela. Figura 7 – Paul Cézanne. A Montanha Sainte-Victoire com grande pinheiro Fonte: Wikimedia Commons (CÉZANNE, c. 1887) As breves insinuações de edifícios e casas parecem reduzir-se numa simplificação tal, que o artista escreve ao seu 29 ARTE MODERNA amigo Émile Bernard: “Permita-me repetir o que lhe disse … trate a natureza por meio do cilindro, da esfera, do cone.” (CHIPP, 1996, p. 15). Aqui, na Montanha de Saint-Victorie, sua ideia de simplificar a natureza através de elementos geométricos torna-se visível. A abordagem de Cézanne era de difícil compreensão ao olhar, sobretudo de um público acostumado com representações fiéis da natureza, oriundas ainda da velha academia. Porém, aos jovens artistas, do início do século 20, as observações de Cézanne lançaram raízes profundas e transformadoras nas futuras gerações. PAUL GAUGUIN Gauguin completa a tríade dos pós-impressionistas que abriram caminho para diferentes vertentes artísticas, no início do século. Gauguin criou sua própria lenda, a do artista que se põe contra a sociedade de sua época e dela foge para reencontrar numa natureza e entre pessoas não corrompidas pelo progresso a condição de autenticidade ingenuidade primitivas, quase mitológicas, na qual ainda pode desabrochar a flor da poesia, agora exótica, que é destruída pelo clima da Europa Industrial (ARGAN, 1992, p. 130). 30 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Apreciador de Cézanne e admirado por seu amigo Van Gogh, Gauguin seguiu o impressionismo com reservada distância. Sua exploração visual não se dá no campo das sensações físicas, mas na busca pelas origens e motivos remotos de tais sensações. Gauguin busca expor a dimensão da imaginação. Suas obras são parcialmente ambientadas no mundo real e servem como artifícios narrativos para a dimensão simbólica dos elementos ali colocados. Para compreendermos melhor, vamos nos debruçar sobre a Visão após sermão, ou Jacó em luta com o anjo (figura 8). Figura 8 – Paul Gauguin. Visão após sermão, ou Jacó em luta com o anjo Fonte: Wikimedia Commons (GAUGUIN, 1888) Pintura realizada no período em que residiu com Van Gogh, na Bretanha. A narrativa visual é mergulhada 31 ARTE MODERNA em intertextualidade, do cotidiano dominical bretão com passagem bíblica de Gênesis 32: 22-32. Acerca dessa pintura Gauguin escreve a Van Gogh: Para mim, a paisagem e a luta existem apenas na imaginação das pessoas em oração após o sermão; é por isso que há um contraste entre as pessoas reais e a luta livre em sua paisagem, não real e desproporcional (VAN GOGH, 1888, on-line). O editor de artes da BBC narra sobre a leitura desta obra: As mulheres estão de pé no primeiro plano, de costas para o espectador, vendo Jacó lutar corpo a corpo com o mensageiro de Deus. Elas são mostradas realisticamente vestidas com as toucas brancas cerimoniais e túnicas pretas tradicionais das camponesas bretãs; nada de controverso com relação a isso. Mas é aí que nos damos conta de que Gauguin usou uma paleta tão sóbria para se divertir um pouco com o resto da pintura… O artista escolheu uma única cor, chocante, para descrever o campo em que o anjo alado (dourado) e Jacó lutam. Numa tentativa de refletir o devaneio religioso que está sendo experimentado pelas mulheres, ele pintou a relva de um vívido vermelho-alaranjado; uma cor que domina a composição como uma criança se esgoelando numa biblioteca. Ora, Gauguin estava na Bretanha, no norte da França, quando pintou Visão após o sermão, um lugar onde não existe 32 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS nenhum campo de um vermelho-alaranjado vivo. Sua seleção de cores obedeceu a critérios simbólicos e decorativos; Gauguin escolheu abrir mão da autenticidade em favor da alegoria teatral e da composição (GOMPERTZ, 2013, p. 83). Essa combinação simbólica, supersticiosa e narrativa confere um caráter onírico que se faz presente em toda sua obra. E, anunciatória das vertentes simbólicas do século 20, entre elas: a pintura metafísica, o fauvismo e o surrealismo. Para concluir, lembremos a lição deixada por estes três pós-impressionistas: a atitude emocional com Van Gogh; a estrutura formal da obra com Cézanne e o reino da imaginação com Gauguin, que sucessivamente indicarão os caminhos das tendências expressionistas, abstracionistas e surrealistas. EXPRESSIONISMO Foram nos anos entre 1901 e 1906 que aconteceram várias mostras de Van Gogh, Cézanne e Gauguin acessíveis ao grande público. O otimismo da Belle Epóche do fim de século 19 deu lugar a uma atmosfera mórbida e negativa, na qual desenvolveu o movimento que conhecemos por expressionismo. O expressionismo foi um fenômeno europeu com movimentos distintos surgidos em 1905: na França, os 33 ARTE MODERNA Fauves (Feras) e na Alemanha com o die brücke (a ponte) e o der blaue reiter (o cavaleiro azul). DIE BRÜCKE (A PONTE): A EXPRESSIVIDADE DA COR, 1905-1913 Na Alemanha, do início do século, os grupos constituídos pelo Die brücke e o Der blaue reiter tinham por mestres: o holandês Van Gogh e o norueguês Munch. As lições absorvidas de Van Gogh da expressividade da cor e deformação dos objetos conduziram Munch a executar O grito (figura 9), pintura que, por sua vez, anuncia as deformações exploradas em intensidade dentro do movimento expressionista. Na pintura, a figura andrógina, retratada em momento de profunda angústia e desespero, faz “alusão à continuidade do tempo, ao transcurso da vida, à inevitabilidade do destino” (ARGAN, 1992, p. 258). Observemos a fluidez das linhas, as cores fortes, contrastantes, uma aparente mistura de terror e súplica se fazem expressos na figura distorcida. A imagem, longe de tentar impressionar o olhar, tem interesse em penetrar profundamente na mente daqueles que a apreciam. Essa 34 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS força quase bruta e irracional, parece anunciar os horrores futuros da guerra. Figura 9 – Edvard Munch. O grito’ Fonte: Wikipedia (MUNCH, 1893) Na Alemanha de 1905, fortes contrastes e tensões sociais refletiam os desajustamentos e problemas sociais. Neste clima, um grupo de jovens integram e formam Die brücke, ancorados nas lições visuais absorvidas de Van Gogh e Munch. A intenção do grupo era estabelecer uma passagem -uma ponte- entre a arte de seu tempo e a arte que havia de vir, deixando de lado arepresentação fiel da natureza. Na prática, colocaram a figura humana em 35 ARTE MODERNA destaque, reduzindo-a ao essencial, com formas simples e deformadas, realçaram a intensidade das cores na pintura – contrastadas, saturadas e complementares - e finalizaram com linhas de contorno. Um exemplo dessa prática é a pintura Moças nuas conversando (figura 10) de Kirchner. Com aplicação rápida de cores puras e brilhantes em amplas áreas e o preto acentuado dos contornos, Kirchner expõe a temática de uma juventude tímida e desajeitada, revelada nos corpos retraídos das jovens isoladas em sua condição frágil ao desnudar, tudo se expressa numa composição deformada e angulosa. Figura 10 – Ernest Ludwig Kirchner. Moças nuas conversando Fonte: Wikimedia Commons (KIRCHNER, 1909) 36 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS O expressionismo da Die brücke vai ao encontro de uma expressão dos sentimentos e das emoções, compondo uma visão trágica e frágil do ser humano. Seus representantes exageram e distorcem o mundo real em um processo reativo do lado pessimista da vida, associado ao contexto histórico da primeira guerra mundial. DER BLAUE REITER (O CAVALEIRO AZUL): O SOM DA COR, 1910-1914 Der blaue reiter constitui-se outro grupo alemão, formado por volta de 1911, e tem entre seus integrantes Kandinsky, um artista fundamental das linhas abstracionistas que tomaram variados rumos nos anos posteriores. Enquanto o grupo Die brücke desejava revelar a verdade interior, desnudar a alma humana, mesmo que de modo chocante e desconfortável; o grupo Der blaue reiter buscava, de modo lírico e suave, conferir sentido mágico e místico às cores e aos ritmos visuais. As influências expressivas de Van Gogh e simbólicas de Gauguin conduziram esse grupo a buscar experiências, sensações e sentimentos individuais, voltados a construção de um sentido universal. Parece complicado, mas 37 ARTE MODERNA é simples: em termos visuais, ao invés do drama humano, optaram por temas da paisagem campestre e urbana, cenas sociais associadas à vida animal, em que a cor é expressiva e simbólica ao mesmo tempo. Essa relação alegórica e pictórica é observável na pintura Improvisação VI (africano) de Kandinsky (figura 11). O historiador de arte Helmut Friedel sugere que o tema africano talvez remonte das impressões de Kandinsky de viagem à Tunísia em 1905. Observe na pintura, o uso de Kandinsky das cores básicas - o vermelho brilhante, amarelo, azul e verde – em equilíbrio com o branco fosco. Parece haver uma sugestão à atmosfera simbólica de linhas estilizadas em formas quase indistintas. Alguns anos mais tarde, Kandinsky escreveria sobre esta pintura: dissolvi mais ou menos os objetos na mesma imagem, de modo que não possam ser todos reconhecidos ao mesmo tempo e para que esses sons simpáticos possam gradualmente, um após o outro, ser experimentados pelo observador. (FRIEDEL, 2007, on-line). Essa fala do artista nos oferece indícios de sua proposta que anos mais tarde associará a cor a processos internos, tão abstratos quanto a música. 38 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Figura 11 - Wassily Kandinsky. Improvisação VI (africano) Fonte: Wikimedia Commons (KANDINSKY, 1909) A cor no der blaue reiter não se atém à relação expressiva, mas amplia-se numa proposta que integra musicalidade, espiritualidade e expressividade. FAUVISMO: A INTENSIFICAÇÃO DA COR, 1905-1910 Enquanto isso, na França, em 1905, uma mostra de outono causa rebuliço no meio artístico; Will Gompertz nos narra o surgimento dos Fauvistas: 39 ARTE MODERNA Alguns se divertiram com as cores flamejantemente saturadas, mas a maioria não se impressionou. O influente crítico de arte Louis Vauxcelles, homem de gostos conservadores, disse de modo depreciativo que as pinturas eram o trabalho de Les Fauves (as feras). Foi um comentário desdenhoso feito por um crítico que iria, mais uma vez, fornecer nome e ímpeto a um novo movimento na arte moderna (…) Para um mundo artístico que ainda estava chegando a um acordo com os impressionistas e pós-impressionistas, as cores intensificadas usadas pelos fauvistas deviam parecer vulgares e berrantes ao extremo (GOMPERTZ, 2013, p. 114). E foi justamente este modo de realizar, com as pinceladas curtas e rápidas – semelhante aos impressionistas – que os fauvistas davam agora lugar a utilização da cor pura, sem misturas, de modo a delimitar, dar volume, relevo e perspectiva às obras. Como exemplo, Restaurant de la machine à bougival (figura 12) de Vlaminck. A cena remete uma paisagem que poderia lembrar uma cena impressionista. Porém, a sensação é que o artista girou o botão cor, na intensidade máxima, transformando o ambiente tranquilo numa alucinação vibrante em cor. Essa efetivamente é a tônica do fauvismo: a cor expressa por si mesma, numa efusão de vibração entre seus contrastes. 40 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Figura 12 – Maurice de Vlaminck. Restaurant de la machine à bougival Fonte: Wikiart (VLAMINCK, c. 1905) Sem medo de questionar os cânones tradicionais, os fauvistas evitavam temas deprimentes, comuns aos expressionistas alemães, seus assuntos eram leves e alegres, sem conotação política ou crítica. Visualmente entre os fauvistas, é possível observarmos o uso de cores diretas, fortes e vibrantes, sem correspondência com o real; simplificação das formas; pinceladas largas e espontâneas, delimitando planos e profundidade. Um exemplo desta delimitação de planos é a obra de Matisse Harmonia em vermelho (ou Sala vermelha) (figura 13). O painel decorativo em grande dimensão foi encomenda do colecionador russo Shchukin, importador de tecidos orientais em Moscou. O tom do vermelho e carmesim do tecido cobre 41 ARTE MODERNA parede e mesa, as curvas energéticas conferidas pelos padrões em azul, descem da parede e tomam o plano da mesa. As delimitações de planos, traçados por uma fina linha preta, dão à composição uma alternância fluida com cores simplificadas - vermelhos, amarelos, azuis e verdes – que parecem integrar a paisagem, vista da janela e os adereços internos do cômodo, onde paradoxalmente, apesar das cores tão impactantes, a cena exala em calma e silêncio. O que se destaca na tela e fica impressa na mente do observador é a predominância do vermelho, como uma sinfonia cujas frases musicais ou acordes se repetem, fixando a frase musical na memória do ouvinte. Figura 13 – Henri Matisse. Harmonia em vermelho (A sala vermelha)’ Fonte: Museu Hermitage (MATISSE, 1908) 42 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Matisse estabelecia analogias da cor com a música. Para ele, um único tom não seria nada em termos de cor, enquanto dois tons de cor confeririam um acorde. Em sincronia às observações sobre a cor deste artista fauvista, estavam as observações de Kandinsky, que no mesmo período realizava reflexões sobre a espiritualidade na arte e o levaria a alçar outros voos dentro do expressionismo dirigindo-se à completa abstração pela cor. Essas proximidades de ideias entre Matisse (representante do fauvismo) e Kandinsky (representante do Der blaue reiter revelam não apenas as diferenças, mas, em especial, das intersecções de pesquisa e resultados visuais entre fauvismo e o Der blaue reiter. Com esta obra de Matisse, encerramos as vertentes do expressionismo na Europa. Relembrando que, diferentemente do impressionismo - cujo foco estava nas sensações visuais – o expressionismo assumia uma atitude mais subjetiva, ancorada na experiência emocional e na cor como meio expressivo da emoção em detrimento de uma representação literal. CUBISMO: MULTIPLICIDADE DO OLHAR, 1907-1914 Não há como falar sobre cubismo sem citar Pablo Picasso, artista intenso, talentoso no desenho, na técnica e na inventividade. 43 ARTE MODERNA Picasso desponta historicamente numa centena de citações sobre o artista e sua enigmática obra Les demoiselles d’Avignon (As damas d’Avignon) (figura14) – inaugural do Cubismo – porém,não há como falar de Picasso sem citar Cézanne. Picasso é abordado, muitas vezes, como artista-esponja, por sua capacidade de absorver o máximo e o melhor das possibilidades visuais de diferentes artistas, e não foi diferente com Cézanne. Enquanto os expressionistas absorveram a lição de Van Gogh na emotividade da cor; Picasso absorvia as lições de Cézanne, na desconstrução estrutural, na multiplicidade de ângulos, na geometrização e simplificação das formas. Les demoiselles d’Avignon (As damas d’Avignon) é um aglomerado de pesquisas que se passavam no interior da mente deste jovem artista espanhol residindo em Paris: a visão multiangular, de Cézanne; o primitivismo e a força energética oriundas das máscaras africanas (resultantes de suas visitas ao museu etnográfico de Paris) e a essência da forma da pintura egípcia. Esses são alguns dos itens que se misturam, fundem e penetram nas figuras apresentadas em Les demoiselles d’Avignon, obra totalmente incompreendida pelos artistas de seu circuito. 44 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Figura 14 – Pablo Picasso. Les demoiselles d’Avignon (As damas d’Avignon) Fonte: Wikipedia (PICASSO, 1907) Segundo a apresentação da obra, no museu de arte moderna de Nova York (MOMA): Les Demoiselles d’Avignon marca uma ruptura radical com a composição e perspectiva tradicionais na pintura. Retrata cinco mulheres nuas compostas por planos achatados e lascados, cujos rostos foram inspirados em esculturas ibéricas e máscaras africanas. O espaço comprimido que habitam parece projetar-se para a frente em fragmentos irregulares, enquanto uma fatia de melão na natureza-morta na parte inferior da composição balança em uma mesa virada para cima. Picasso revelou a pintura monumental em seu estúdio em Paris após meses de 45 ARTE MODERNA revisão. O título da obra Avignon é uma referência a uma rua de Barcelona famosa por seus bordéis (MOMA, 2019, on-line). A incompreensão da obra pelo grupo que circundava Picasso, levou este a quase abandonar a obra, quando Kahnweiler ― empresário visionário alemão ― adquire a obra e financia a pesquisa artística de Picasso e seu parceiro de ateliê, Georges Braque. Picasso e Braque, juntos em 1908, iniciam uma jornada sem volta. Mergulham no aprendizado da visão binocular de Cézanne, na simplificação e na redução dos objetos a uma multiplicidade de ângulos. Iniciam a jornada na desconstrução da ilusão tridimensional em direção à abstração. O fim da primeira guerra mundial também anunciou o fim do financiamento do alemão aos jovens artistas. Porém, os sete anos de patrocínio possibilitaram a trajetória da pesquisa do cubismo identificada por três fases distintas: fase inicial, fase analítica e fase sintética. FASE INICIAL: A SIMPLIFICAÇÃO DAS FORMAS, 1907-1909 A fase inicial do cubismo é caracterizada pelas experiências voltadas a simplificação das formas, observável nas Casas de 46 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS L´estaque (figura 15) de Georges Braque e Casa no jardim (figura 16) de Pablo Picasso. Estas obras executadas simultaneamente pelos artistas, seguem a lição de Cézanne, quando metamorfoseiam imóveis de luxo, numa série de cubos em tons ocre, que se sobrepõem. Como nos movimentos anteriores, cujo nome saíra de um desdém sarcástico, desta vez foi Matisse, artista renomado na época e júri de salão de arte, a ridicularizar a pesquisa dos jovens dizendo: “Braque acaba de mandar uma pintura feita de cubinhos. (GOMPERTZ, 2013, p. 142). O conceito não é adequado, mas o termo pegou, mais uma vez fruto de uma ironia. Figura 15 – Georges Braque. Casas de L´estaque Fonte: Wikiart (BRAQUE, 1908) 47 ARTE MODERNA Figura 16 – Pablo Picasso. Casa no jardim Fonte: Wikiart (PICASSO, 1908) FASE ANALÍTICA: A IMAGEM MULTIFACETADA, 1909-1912 A fase do cubismo analítico ou hermético é perceptível pela apresentação de uma cor moderada, com tons em ocres, pretos e cinzas. A opção pela cor mais neutra, ameniza a apresentação do tema. Agora fragmentado, desmembrado, reconstruído em todos os ângulos possíveis num plano achatado. A sensação é de um objeto multifacetado, uma imagem estilhaçada como vista por um espelho quebrado. 48 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Exemplares desta fase são as pinturas: O português (1911) de Braque (figura 17) e Natureza morta no piano (CORT) (1911) de Picasso (figura 18). Os artistas, apresentam uma sucessão de múltiplos pontos de vista da mesma cena ou objeto, quando usam uma paleta de cores brandas e neutras. Não são representações diretas de um objeto ou personagem, mas a indicação de algo tornando-se pura abstração, restando-lhe às vezes um indício, uma ideia. A esses conjuntos, na tentativa de reintegrar um sentido à abstração criada, Picasso e Braque introduzem letras e números ou palavras soltas. Figura 17 - Georges Braque. O português Fonte: Wikiart (BRAQUE, 1911) 49 ARTE MODERNA Figura 18 – Pablo Picasso. Natureza morta no piano (CORT) Fonte: Wikiart (PICASSO, 1911) FASE SINTÉTICA: A EXPLORAÇÃO VISUAL TÁTIL, 1911-1914 Com a figuração totalmente dissolvida chegando quase à abstração no cubismo analítico, se nota, na fase do cubismo sintético, uma intenção de retorno à figuração. Isto é, com imagens reconhecíveis, mas não necessariamente voltadas à realidade, apresentam cores mais fortes e introduzem a colagem fixando objetos reais na tela ― jornais, pedaços de madeira, palha, vidro ― conferindo uma visualidade tátil. Essa percepção de elementos táteis e concretos na obra podem ser percebidos em A guitarra (figura 19) de Picasso. Essa é uma pintura-colagem que insinua o desenho de violão 50 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS formado por recorte de papéis de parede, cartões, jornais encontrados e colados conferem o aspecto visual-tátil da obra. Figura 19 – Pablo Picasso. A guitarra Fonte: Wikiart (PICASSO, 1913) Sinteticamente, no cubismo notamos: a geometrização da forma - sua redução ao cone, esfera e prisma - lição apreendida de Cézanne; os objetos representados num mesmo plano em diferentes ângulos; interesse na estrutura e na forma. A abstração da fase analítica será um legado de grande valor aos movimentos artísticos posteriores – suprematismo, construtivismo e neoplasticismo. 51 ARTE MODERNA As colagens da fase sintética, dimensionaram possibilidades exploradas posteriormente pelo dadaísmo. E, no plano conceitual, provocaram o exercício mental como modo de expressão das ideias, na qual a arte conceitual, deve a esses dois jovens, parcela de seu apreço. AGORA É COM VOCÊ O museu Peggy Guggenheim, em Veneza/Itália, reserva em sua coleção importantes obras do cubismo. Acesse o museu on-line e visite as obras cubistas pertencentes ao acervo do museu. Selecione algumas obras e tente identificar visualmente a qual fase a obra se aproxima (analítica e sintética). Depois, se achar necessário, leia mais a respeito da obra. Perceba que, além de Picasso e Braque, outros artistas integram esta coleção, inclusive o professor da brasileira Tarsila do Amaral, o cubista Fernand Léger. Disponível em: https://www.guggenheim.org/artwork/movement/ cubism. Acesso em: 02 maio 2024. FUTURISMO/ DADAÍSMO/SURREALISMO Estamos na Europa dos anos que antecedem a primeira guerra mundial. Por um lado, um fervilhar de descobertas nos campos da filosofia, psicologia, física, química e um inúmero https://www.guggenheim.org/artwork/movement/cubism https://www.guggenheim.org/artwork/movement/cubism 52 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS arsenal de invenções mecânicas impulsionam a indústria. As cidades se renovam neste torpor do novo e do movimento. Por outro lado, a desigualdade social arruína as bases da sociedade, prenunciando o que estava por vir. FUTURISMO: O SONHO DA VELOCIDADE, 1909-1919 Na Itália, um jovem escritor toma a frente e autopromove o que ele nomeou de futurismo. Para narrar o surgimentodeste movimento, o editor de artes da BBC, Will Gompertz diz que em contraste com movimentos anteriores, o futurismo foi abertamente político desde o começo. O turbulento Marinetti queria mudar o mundo. E em certa medida conseguiu – para o bem e para o mal […] Ali estava ele, um poeta e escritor, não muito conhecido fora da vanguarda italiana, que decidiu publicar seu manifesto num jornal – na primeira página. E não se tratou de um jornalzinho local sem importância, ou mesmo de um jornal publicado em sua Itália natal (que já cobrira suas proclamações futuristas). Não; no sábado, 20 de fevereiro de 1909, Marinetti apresentou seu Manifesto Futurista ao mundo por meio do jornal mais famoso da França, Le Figaro. Foi um lance precoce, calculado e brilhante. Marinetti sabia que a única chance de fazer suas ideias serem notadas pela elite artística e intelectual internacional seria ir para o quintal deles – Paris 53 ARTE MODERNA – e anunciá-las aos gritos. Oh, e comprar uma briga. Foi o que fez, com os maiores, os mais malvados rapazes da cidade: Georges Braque, Pablo Picasso, o cubismo em geral e seu maior defensor, Guillaume Apollinaire (GOMPERTZ, 2013, p. 156). Marinetti foi notado. O manifesto futurista consistia em onze pontos provocativos, que prenunciavam o fascismo, exaltavam a violência e a guerra, desprezavam a mulher, rompiam com o passado e exaltavam a máquina. Provocou intensas discussões e rejeições, foi uma estratégia astuta e sofisticada de Marinetti na manipulação da mídia e público. Cumpriu seus objetivos, promoveu os artistas italianos que se aliaram ao movimento com o uso contínuo da imprensa, de exposições, manifestos organizados e conferências provocativas. Entre os artistas visuais recrutados por Marinetti estão os italianos: Umberto Boccioni, Carlo Carrà e Giacomo Balla. Suas obras, em especial, exaltam o movimento e o dinamismo da vida moderna. Enquanto o cubismo oferecia visualmente o objeto a partir da multiplicidade de ângulos, o futurismo estava empenhado em fundir o tempo e espaço numa única imagem. De maneira brincalhona Giacomo Balla explicita o movimento em dinamismo de um cão na coleira (1912), mas é com Umberto Boccioni que a força visual do futurismo estabelece diálogos com o cubismo e movimentos posteriores. 54 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Em Carga dos lanceiros (figura 20) Boccioni insere a temática futurista da violência e guerra e apresenta o movimento físico e visual do animal. A fragmentação do corpo do animal revela sua lição advinda do cubismo bem como a paleta neutra de cores, e a inserção de jornal, no canto superior direito traz referências à essência do futurismo, com seus manifestos bombásticos. Ao mesmo tempo, este fragmento provocativo é evocativo da lição do cubismo sintético e da apropriação de fragmentos do cotidiano. Ironicamente, se a intenção de Marinetti era combater o cubismo, Boccioni, um dos maiores representantes do futurismo, em sua obra, dialoga e expande a proposta cubista agregando visibilidade ao tempo e o movimento físico das coisas. Figura 20 – Umberto Boccioni. Carga dos lanceiros Fonte: Wikiart (BOCCIONI, 1915) 55 ARTE MODERNA DADAÍSMO: A ANARQUIA EM PAUTA, 1916-1923 Enquanto o futurismo exaltava a guerra, o dadaísmo a rejeitava com ódio. A primeira guerra mundial provocara o descontentamento e cinismo de um grupo de jovens intelectuais reunidos, no cabaré voltaire, em Zurique, Suíça. Em 1916, esses jovens anunciam a chegada de um novo movimento: o dadaísmo. Os dadaístas, liderados pelo poeta romeno Tristan Tzara, absorveram a lição aprendida com os futuristas sobre a eficácia de discursos incendiários, a atenção e cobertura da imprensa. Lançam, em 1916, seu manifesto que tinha por proposta artística ser irreverente e espontânea, pautado na irracionalidade, na ironia, na liberdade, no absurdo e no pessimismo. O intuito principal: chocar a burguesia da época e criticar a arte tradicionalista, a guerra e o sistema. Seu termo dadaísmo é escolhido aleatoriamente, indício do caráter ilógico do movimento. Como seus colegas futuristas, o dadaísmo promoveu discussão no meio intelectual, investiu em exposições e publicações que causaram espanto e estranhamento aos ideais burgueses familiarizados com o impressionismo. Em Zurique, na Suiça, os integrantes exploravam o caráter ilógico, 56 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS a aleatoriedade e a apropriação dos destroços da guerra - madeiras, caibros, pregos - para efetivação de seus trabalhos. Do outro lado do Atlântico, em Nova York, o pintor e escultor francês Marcel Duchamp tem acesso à leitura das publicações dadaístas. Esse artista, desde 1913, vinha realizando algumas experiências denominadas de ready-mades. Roda de bicicleta, banquinho de madeira, pá, secador de garrafas, vassoura entre outros objetos encontrados, isto é, produtos industriais - extraídos de seu contexto e função originais- ganhavam novo sentido, elevados a condição de objeto artístico. Em 1917, em Nova York, que Duchamp se consagra como artista dadaísta, com o ready-made A fonte. Algumas narrativas envolvem esse polêmico objeto. Uma das narrativas aponta que: Duchamp compra um mictório de porcelana branca, assina com o pseudônimo de R. Mutt e submete o ready-made à mostra da sociedade de artistas independentes. A proposta foi rejeitada. Porém na inscrição havia um item ― o inscrito tinha o direito a expor, caso houvesse pago a inscrição. A inscrição paga, gerou polêmica entre a comissão de organização. Detalhe: Duchamp fazia parte desse júri. Ironicamente, a obra não foi exposta e sim destruída pela ala mais conservadora da comissão. Porém, restara uma fotografia 57 ARTE MODERNA de época de A fonte (figura 21) com autoria de Alfred Stieglitz, fotógrafo e dono de galeria de arte em Manhatan. Este breve registro endossava o objeto, legitimando-o como obra de arte. Se não bastasse essas anedotas envolvendo a apresentação da obra ao público, atualmente ainda se acrescenta uma discussão sobre autoria da obra. Pesquisas atuais indicam a autoria de A fonte à artista dadaísta, baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven, porém, a atribuição ratificada pela história ficou reservada a Duchamp. Figura 21 – Marcel Duchamp. A fonte Fonte: Wikipedia (DUCHAMP, 1917) O museu Tate de Londres nos auxilia a entender um pouco mais dessa incomum produção, reveladora do caráter dadaísta de negação ao mercado de arte: 58 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS A teoria por trás do readymade foi explicada em um editorial anônimo publicado na edição de maio de 1917 da revista de vanguarda The Blind Man dirigida por Duchamp e dois amigos: “se o Sr. Mutt com suas próprias mãos fez a fonte ou não, não tem importância. Ele ESCOLHEU. Ele pegou um artigo de vida comum e o colocou de forma que seu significado útil desaparecesse sob o novo título e ponto de vista - criou um novo pensamento para aquele objeto”. Existem três pontos importantes aqui: primeiro, que a escolha do objeto é em si um ato criativo. Em segundo lugar, que ao cancelar a função “útil” de um objeto, ele se torna arte. Em terceiro lugar, que a apresentação e adição de um título ao objeto deu a ele “um novo pensamento”, um novo significado (READYMADE, 2021, on-line). A fonte mudou a perspectiva do artista criador para artista o selecionador. Neste sentido, fundamentalmente conceitual, não é estético ou técnico, mas o conceito, a ideia, que está em jogo. Esses elementos provocativos e irônicos tornam a obra A fonte o exemplar fundador da visibilidade do dadaísmo, ao mesmo tempo, anunciadora das bases conceituais do objeto na arte contemporânea. Sucintamente, fazendo uso dessa obra, o movimento dadaísta assumiu o caráter questionador aos valores estabelecidos, inclusive do status na arte, fundamentais ao pensamento artístico das décadas posteriores, em especial da 59 ARTE MODERNA arte conceitual.Já seu caráter de espontaneidade, pautada na liberdade de expressão, no absurdo e irracionalidade, amplamente explorado por artistas no continente europeu, tornou-se propulsor dos ideais do próximo movimento a ser estudado, o surrealismo. SURREALISMO: O DISTANCIAMENTO DA LÓGICA, 1924-1945 Na Europa, no período entre as duas guerras (1918- 1939) predominava insatisfação, desequilíbrio e contradições, resultantes da incerteza de paz; impelem a atitude de viver apenas o presente. Vanguardas artísticas se voltam para essa nova interpretação e expressão da realidade, como o dadaísmo que brincava com a lógica e questionava as convenções; e nesse ambiente de incertezas e insatisfações surge o surrealismo, corrente que teve como precedentes o simbolismo de Gauguim, a pintura metafísica de Giorgio de Chirico e a apreciação da ilógica do próprio dadaísmo. André Breton, escritor francês e ex-participante do dadaísmo, rompeu com o líder do movimento dadaísta Tristan Tzara e lançou em Paris (1924), o manifesto surrealista. Influenciado por correntes psicanalíticas - envolvia o 60 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS automatismo psíquico em estado puro - propunha exprimir, verbalmente ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento, alheio a qualquer preocupação estética ou moral. Na pintura, a técnica de escrita automática, no intuito de liberar a mente do controle consciente e produzir um fluxo de ideias do subconsciente, é explorada e possibilitou dois direcionamentos a pintura surrealista: a figurativa e a abstrata. Na pintura figurativa surrealista, observamos reconstruções elaboradas e meticulosas, como de um sonho, em que objetos são inseridos numa justaposição inesperada. Lembremos das obras do conhecido Salvador Dali em A persistência da memória (1931) e Metamorfoses de Narciso (1937). Já no encaminhamento da figura à abstração vale a pena rever outro pintor espanhol, Joan Miró, com a obra Carnaval do arlequim(1924-25), a qual cruzou a fronteira da observação para a oferta de símbolos que parecem fluir do subconsciente, semelhantes a desenhos feitos em estado de alucinação. Outro artista enigmático e fundamental ao Surrealismo foi o pintor belga René Magritte. Sua principal contribuição foi inverter algumas propostas dentro do próprio surrealismo, passando a trabalhar com imagens que, à primeira vista convencionais, adquirem um caráter bizarro por sobreposições. 61 ARTE MODERNA Magritte cria imagens, ao mesmo tempo, realistas e ilusórias, que pela composição das figuras que adquirem disposições estranhas, incoerentes e completamente inesperadas, criam a atmosfera surrealista pelo disparatado contraste do conjunto imagético. A exemplo, observemos a obra Traição das imagens (figura 22); nela temos uma pintura meticulosa de um cachimbo com o texto abaixo. Isto não é um cachimbo, reforçando a inviabilidade de usufruir do objeto e sua função. Este jogo paradoxal vincula título da obra, apresentação do objeto e texto na pintura, cujo conjunto estabelece um caráter estranho, quase ilógico. Figura 22 – René Magritte. Traição das imagens Fonte: Wikipedia (MAGRITTE, 1929) Esse caráter meticulosamente estruturado de projeção reflexiva sobre o próprio objeto - uma metalinguagem - será 62 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS respaldo, juntamente com a proposta dadaísta de Duchamp, da produção conceitual décadas posteriores. Um legado incrível estruturado nos intensos e instáveis anos entre guerras. Atrelados aos ideais de liberdade e novos valores, começam a despertar uma valorização da mulher artista, até então nunca visto. Sob a curadoria de Marcel Duchamp e financiamento da colecionadora Peggy Guggenheim, em 1943, é realizada a exposição 31 mulheres (1943) que reuniu apenas mulheres para compor a mostra que, curiosamente, somam obras ícones do surrealismo como Objeto (figura 23) de Méret Oppenheim - onde a artista parece jogar com o expectador que entra em paradoxo entre o objeto que se apresenta e sua suposta funcionalidade, um jogo de ilusões- e as obras da simbólica Frida Kahlo. Figura 23 – Méret Oppenheim. Objeto Fonte: MOMA (OPPENHEIM, 1936) 63 ARTE MODERNA CONSTRUTIVISMO E BAUHAUS Neste último tópico, ainda no período entre guerras, por todo continente europeu desponta um conjunto de movimentos vanguardistas que se interseccionam na pesquisa da simplificação da forma e redução das cores. Aqui destacaremos três, os quais se integraram a proposta educativa da Bauhaus: suprematismo, construtivismo e neoplasticismo SUPREMATISMO E CONSTRUTIVISMO: AS VANGUARDAS RUSSAS, 1915-1925 A primeira guerra mundial (1914-1918) e a revolução russa (1917) estão entre os acontecimentos históricos que ambientam o nascimento de movimentos artísticos de vanguarda na Rússia. Jovens artistas frequentavam a residência moscovita de Sergei Shchukin, rico comerciante e colecionador de arte moderna – aquele que encomendou Harmonia em vermelho de Matisse – e, tiveram acesso a produção de Monet, Cézanne, Van Gogh, Gauguin, Matisse, Picasso e Boccioni. Esses assíduos jovens tornam-se praticantes de experiências cubistas e futuristas. Em 1915, um desses jovens, Kazimir Malevich realizou o Quadrado negro, obra inaugural da trajetória da libertação completa da 64 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS representação do objeto. Nasce o suprematismo, nomeado e teorizado por Malevich. Na pintura Quadrado negro (figura 24) não há intenção de representar nada. Nem emoção, nem desejo, nem objeto. Tudo se dissolve diante da tela. É uma simplificação, um enxugamento à essência. Uma liberação do mundo sensorial e emotivo. Nessa obra, a pintura se liberta de tudo, para ser como a matemática, pura abstração. Abstração geométrica, simplificada em forma, reduzida em cor, concentrada apenas na pureza da forma. Figura 24 – Kazimir Malevich. Quadrado negro Fonte: Wikimedia Commons (MALEVICH, 1915) 65 ARTE MODERNA Na sistematização teórica do Manifesto Suprematista (1925), escrito por Kazimir Malevich, em colaboração com o poeta Vladimir Maiakóvski, os autores propunham abandono completo das referências físicas em prol de uma elevação espiritual, defendendo um mundo não objetivo, de ordem superior em relação aos fenômenos físicos, uma espécie de energia espiritual abstrata e invisível, mas real. As propostas visuais do suprematismo, difíceis de serem absorvidas pelo público, assumiam através do manifesto seu caráter educativo, na tentativa de integrar arte e vida. O suprematismo permaneceu ligado ao seu criador, Malevich. Porém, as ideias de pureza da visualidade plástica se expandiram em especial no leste europeu, com o construtivismo. O construtivismo, historicamente, está ligado à configuração da sociedade socialista, pós revolução industrial - a substituição da mão de obra humana pelas máquinas, a alternância da produção artesanal para a produção industrial em massa. Apoiados pelas conquistas da revolução operária bolchevique, os construtivistas intencionavam ser instrumentos de transformação social. Em termos visuais, amparados pelos estudos suprematistas e alinhados ao compromisso de transformação social, o grande arsenal de produção artística construtivista fez uso do cartaz como meio funcional de difusão e educação cultural. 66 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Incorporam a pureza da forma e da cor, apreendidos do suprematismo, agregando soluções visuais enxutas e funcionais ao cotidiano. Nos trabalhos construtivistas se observam: o uso de colagens e recortes; o uso da tipografia; repetição de padrões; a inserção da fotografia com colagens e a redução das cores essencialmente ao vermelho, preto e branco. No construtivismo havia a exploração dos elementos em simplificação e funcionalidade. A exemplo, observemos a capa do livro Rechevik. Stikhi (figura 25) com design assinado de Aleksander Rodchenko. As figuras dão lugar a linhas paralelas e diagonais que remetem a umaestrutura visual arquitetônica, racionalizada e composicional, características da estética construtivista. Figura 25 – Aleksander Rodchenko. Rechevik. Stikhi (1929) Fonte: MOMA (RODCHENKO, 1929) 67 ARTE MODERNA Rodchenko, como artista, fez uso de diferentes meios, incluindo design gráfico, ilustrações de livros e fotografia. Foi professor no ensino superior, e encorajava a aplicação de designs abstratos padronizados a objetos utilitários, difundidos com afinco na produção em massa. O ideal construtivista - de incorporar arte no cotidiano - impeliu e expandiu a proposta não figurativa para diferentes meios como fotografias, têxteis, cerâmicas, pôsteres, móveis, arquitetura e design de livros e exposições. SAIBA MAIS Conheça um pouco mais da obra de Aleksander Ro- chencko em visita ao acervo do MOMA, são 236 obras disponíveis para apreciação on-line do artista. Você en- contrará pinturas, desenhos, maquetes para pôster, car- taz de campanha, de filme, de anúncio, capa de revistas e fotografias produzidos de 1918 à 1941. Um incrível ar- senal visual pra quem aprecia publicidade, design gráfi- co, fotografia documental e criativa. Disponível em: https://www.moma.org/artists/4975#works. Acesso em: 02 maio 2024. Os ideais suprematistas, de supremacia da forma, e construtivistas, de funcionalidade à forma, tiveram grande https://www.moma.org/artists/4975#works 68 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS aceitação na Alemanha em especial numa escola que exala sua presença até nossos dias, a Bauhaus. Sobre essa peculiar escola falaremos mais adiante. NEOPLASTICISMO: A LINHA E A COR NA MODA, 1917-1931 Não tem como falar em neoplasticismo, sem falar no pintor neerlandês Piet Mondrian. Esse artista, pensador, professor e criador do neoplasticismo, absorveu lições do cubismo e incorporou aspectos espirituais da teosofia em sua proposta visual. Mondrian publicou, entre 1918 e 1928, cinco manifestos do neoplasticismo na revista De stijl (O Estilo), junto com Theo Van Doesburg. Tal qual no suprematismo, a publicação dos manifestos assumia a função de difusão e educação do público à nova expressão artística. O neoplasticismo entendia a abstração geométrica e a redução da expressão plástica como modo de revelar clareza, objetividade e ordem. Essa organização visual é perceptível na redução das cores ao vermelho, azul, amarelo, branco e negro, a qual Mondrian chega no ápice do enxugamento neoplástico como em 69 ARTE MODERNA Composição II com vermelho, azul e amarelo (figura 26). Na pintura observamos blocos de cores puras compactados, linhas negras que definem os blocos e conferem, ao conjunto, uma sensação paradoxal entre equilíbrio e tensão. Figura 26 – Piet Mondrian. Composição II com vermelho, azul e amarelo’ Fonte: Wikimedia Commons (MONDRIAN, 1930) Esse jogo visual foi amplamente difundido e absorvido pela arquitetura, design e moda. A exemplo tomamos a citação do editor de artes da BBC: Em 1965 o estilista francês Yves Saint Laurent produziu um vestido tubinho de lã sem mangas decorado com os blocos de cor primária e as linhas retas pretas da Composição com vermelho, azul e amarelo (1930) de 70 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Mondrian. Retratado na capa da Vogue francesa no número de setembro de 1965, ele levou a uma explosão de objetos decorados à maneira de Mondrian que continua até hoje, numa interminável série de aplicações que vão de ímãs de geladeira a capas de iPhone (GOMPERTZ, 2013, p. 213). BAUHAUS: REUNIÃO DE VANGUARDAS, 1919-1933 Você deve ter percebido que nesse último conjunto de movimentos que estudamos, a ênfase ao enxugamento da forma, em que ocorre a redução da cores, foi notório, e para fecharmos esse conjunto de estudos, abordaremos essa escola de arte muito especial que nasce na Alemanha em 1919, a Bauhaus que significa casa da construção. Considerada a primeira escola de design, a Bauhaus agregou a seu corpo de professores, um grupo eclético composto por artistas industriais, engenheiros, arquitetos, pintores, artesãos e designers que influenciaram a arte e estética moderna e contemporânea. Entre os professores de vanguarda estavam Kandinsky (do expressionismo alemão), Van Doesburg e Mondrian (do neoplasticismo) e Moholy-Nagy (do construtivismo russo) e muitos outros aqui não mencionados. 71 ARTE MODERNA Os conceitos abordados na Bauhaus visavam a aproximação entre o mundo da arte ao mundo da produção industrial. Para tanto, centravam na funcionalidade racional dos objetos cuja função tinha mais importância que os ornamentos. Simplificando volumes e formas (geometrização), faziam uso de linhas retas e cores sólidas. Os resultados são visíveis ainda hoje, no design gráfico de revistas e campanhas publicitárias, ou até mesmo nos ambientes comerciais e em nossas casas, como a cadeira Wassily (figura 27) projetada por Marcel Breuer, o conjunto de mesas empilháveis (figura 28), de Josef Albers, ou a lâmpada MT8 (figura 29), de William Wagenfeld e Carl Jakob Jucker. Figura 27 - Marcel Breuer. Cadeira Wassily Fonte: Italianleether (BREUER, 1925) 72 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS Figura 28 - Josef Albers. Conjunto de mesas empilháveis Fonte: Italianleether (ALBERS, c.1927) Figura 29 - William Wagenfeld e Carl Jakob Jucker. Lâmpada MT8 Fonte: Italianleether (WAGENFELD; JUCKER, 1924) A Bauhaus agregou beleza e funcionalidade aos projetos e experimentações que realizava e chegou ao fim em 1933, 73 ARTE MODERNA com o nazismo. Fechada, a Bauhaus tem seus professores e alunos perseguidos pelo Estado alemão. Nesses turbulentos anos, muitas das figuras-chave da Bauhaus emigraram para os Estados Unidos, onde o trabalho e filosofias de ensino influenciaram gerações de artistas, arquitetos e designers. CONSIDERAÇÕES FINAIS Antes de finalizarmos as vanguardas europeias representativas da arte moderna, é necessária uma observação quanto ao panorama nacional, do fim do século 19 a meados do século 20. O Brasil permaneceu em descompasso às vanguardas internacionais alinhando-se somente a partir de 1951. Porém, dos movimentos de arte moderna estudados, são observadas aproximações pontuadas em alguns artistas: impressionismo (Eliseu Visconti, Washington Maguetas, Georgina de Albuquerque, João Timóteo da Costa e Abigail de Andrade); expressionismo (Anita Malfatti, Oswaldo Goeldi, Lasar Segall, Flávio de Carvalho, Iberê Camargo e Cândido Portinari); cubismo, após a semana de arte moderna de 1922 (produções geometrizadas de Tarsila do Amaral como São Paulo (1924) ou em Rego Monteiro); os ideais futuristas e dadaístas (semana de arte moderna de 1922 com a rejeição 74 MOVIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS ao passado, culto ao futuro e aversão às ordens impositivas) e surrealismo (Ismael Nery e Tarsila do Amaral, obras do movimento antropofágico, Abaporu). Concluímos, então, nosso intenso mergulho na arte moderna, pois navegamos por diferentes movimentos de vanguarda. E pouco a pouco, percebemos a libertação da pintura das amarras da fidelidade representativa, a começar com o impressionismo. À medida que avançamos, percebemos aproximações, diferenças e reminiscências dos movimentos modernos na sociedade contemporânea. Na moda, lembramos de Mondrian; na comunicação social, lembramos dos futuristas e da Bauhaus; no cinema e nos games, lembramos dos surrealistas e das colagens cubistas. Enfim, infinitas possibilidades que essas experiências, do século passado, exalam ainda um frescor em afinidades com nosso tempo, com nossas experiências. Se observarmos com cuidado, os traços são ainda perceptíveis em várias campanhas publicitárias, vídeos institucionais, vídeos comerciais, games, na estética do cotidiano e na moda. Procure desvendar algumas dessas reminiscências em sua área de atuação. Sucesso! 75 ARTE MODERNA REFERÊNCIAS ALBERS, J. Conjunto de mesas empilháveis. [c. 1927]. 1 conjunto de 4 mesas. Disponível em: http://italianleather.com.