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Escola, Currículo e Sociedade Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Fabiana Granado Sampaio Me. Janaina Pinheiro Vece Prof.ª Me. Simone Dias da Silva Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos • Introdução; • Aspectos Históricos sobre o Currículo; • Legislação e Currículo:Uma Abordagem Necessária; • Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos. • Aprofundar nossos conhecimentos acerca do conceito de currículo, das infl uências teóricas e legislativas que o subjazem. OBJETIVO DE APRENDIZADO Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos Contextualização Tirinha Mafalda - https://goo.gl/tsuw9k Ex pl or A personagem Mafalda apresenta de forma irônica uma crítica ao conteúdo e à abordagem da professora. A reflexão humorística, proposta na tirinha, nos remete ao tema principal desta Unidade: o currículo escolar. Para darmos início à unidade, contudo, convidamos você a refletir acerca da questão: afinal, o que é currículo? Então, vamos começar? 8 9 Introdução Esta primeira unidade – Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos – dis- cute inicialmente a definição e o estudo etimológico da palavra currículo a partir da abordagem de diferentes concepções, sobretudo o seu desenvolvimento histórico. Na sequência, apresenta-se a contextualização das transformações sociais, econô- micas e políticas no Brasil e como elas interferem na organização do currículo da escola. Além disso, ao final, é proposta a análise da legislação brasileira acerca de currículo. Partindo de tais considerações, a organização didática do material está situada em três títulos: O que é currículo?; Os Aspectos Históricos sobre o Currículo Escolar e a Legislação; e Currículo: uma abordagem necessária. Você já parou para pensar “o que é currículo”? Por ser um termo de uso social e presente no vocabulário escolar, talvez seja ne- cessário esclarecer o que se entende por currículo, para então examinar possíveis respostas à questão. Acerca do assunto, Souza (2008) descreve que: O uso do termo currículo é relativamente recente no Brasil. Para muitos pro- fessores esse é um termo confuso e impreciso. Alguns o relacionam aos pro- gramas escolares ou planos de ensino (o rol de conteúdos a serem ensinados numa série e/ou nível de ensino), terminologia tradicionalmente empregada no país, desde o século XIX, para referir-se aos conteúdos estabelecidos a serem transmitidos nas escolas. De forma correlata, há professores que associam o termo ao sentido restrito de grade curricular (distribuição do nú- mero de aulas de cada matéria em cada série). (SOUZA, 2008, p. 7) Dessa forma, por situar-se nos âmbitos político, econômico, cultural, social e educacional, associam-se à palavra currículo distintas concepções que derivam dos diversos modos como a educação foi concebida historicamente, bem como das influências teóricas que a afetam e se fazem hegemônicas em um dado momento. Nesse sentido, pode-se afirmar que ao longo da história o currículo tem adquirido determinados significados como: (a) Os conteúdos a serem ensinados e aprendidos; (b) as experiências de aprendizagem escolares a serem vividas pelos alunos; (c) os planos peda- gógicos elaborados por professores, escolas e sistemas educacionais; (d) Os objetivos a serem alcançados por meio do processo de ensino; (e) os processos de avaliação que terminam por influir nos conteúdos e nos procedimentos selecionados nos diferentes graus da escolarização. (MEC, 2007, p. 18) 9 UNIDADE Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos No estudo etimológico da palavra currículo, podemos encontrar interpretações como as de Silva (1995), Sacristán (1998) e Kishimoto (1994). Para Silva (1995, p. 15): Se quisermos recorrer à etimologia da palavra “currículo”, que vem do latim curriculum, “pista de corrida”, podemos dizer que no curso desta “corrida”, que é o currículo, acabamos por nos tornar o que somos. Nas discussões cotidianas, quando pensamos em currículo, pensamos apenas em conhe- cimento, esquecendo-nos de que o conhecimento que constitui o currículo está inextricavelmente, centralmente, vitalmente envolvido naquilo que so- mos, naquilo que nos tornamos: na nossa identidade, na nossa subjetividade. De acordo com Sacristán (1998, p. 125), “o termo currículo provém da palavra latina currere, que se refere à carreira, a um percurso que deve ser realizado e, por derivação, à sua representação ou apresentação”. Kishimoto (1994, p. 13) diz que “o termo latino currus – carro, carruagem –, currí- culo significa o lugar no qual se corre”. O sentido etimológico aqui adotado se refere ao apresentado por Silva (1995), uma vez que o currículo: Vai muito além da escola, mas também está dentro dela, que faz suas esco- lhas por conteúdos, métodos, formas de organização pedagógica e institucio- nal no seu constituir-se cotidiano. E dentro dela podemos buscar desvendar os processos históricos que nos tornam aquilo que somos através de práticas pedagógicas que contribuam para a emancipação social. Reinventando, por- tanto, cotidianamente, o fazer pedagógico no sentido de potencializar suas possibilidades emancipatórias. (OLIVEIRA, 2005, p. 25) O posicionamento de Oliveira (2005) mostra que as indagações acerca do currí- culo se fazem presentes na escola, na pesquisa, na legislação e na própria sociedade, porque a sua ou as suas concepções se referem à construção histórica produzida em contextos que acompanham as transformações sociais, políticas, culturais, intelectuais e pedagógicas. Por isso é tão importante compreender o currículo atrelado à dinâmica dos diferentes âmbitos que constituem a sociedade. A esse respeito, Sacristán (1998, p. 126) afirma que “o conceito de currículo é bastante elástico; poderia ser qualificado de impreciso porque pode significar coisas distintas, segundo o enfoque que o desenvolva [...]”. Coerente à citação de Sacristán (1998), Kishimoto (1994) destaca que: [...] o currículo envolve modos distintos de encarar o homem e a socie- dade, de conceber o processo de transmissão e elaboraçãoaos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais”. Para realizar a leitura na integra da Constituição Federal (1988), acesse o endereço eletrônico: https://goo.gl/v6aZGBEx pl or A análise cronológica das legislações no Brasil revela que a educação teve um investimento significativo das políticas públicas, efetivando-se na década de 1990, a partir da reformulação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelecendo em seu Artigo 26 que: Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacio- nal comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabele- cimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela. Para ter acesso à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9.394 de 20 de dezembro de 1996, acesse o endereço eletrônico: https://goo.gl/eoAqTiEx pl or Como ação articulada ao cumprimento de algumas das metas do Plano Nacio- nal da Educação (PNE), instituído em 2014, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) começou a ser construída em 2015 com o objetivo de estabelecer os conteúdos fundamentais a serem aprendidos por crianças e jovens durante a Educação Básica. Resgatando o processo histórico dos materiais curriculares, em cumprimento à Constituição Federal de 1988 e à LDB n.º 9.394/96, foram elaborados pelo MEC e pelo Conselho Nacional da Educação documentos para as diferentes etapas da Educação Básica, até a concretização da BNCC, sendo eles: 9 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental • PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (1997); • RCNEI – Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998); • PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (2000); • DCN – Diretrizes Curriculares Nacionais (2012); • BNCC – Base Nacional Comum Curricular (2017). A liberdade de organização conferida aos sistemas de ensino vincula-se à exis- tência de diretrizes que os orientem e lhes possibilitem a definição de conteúdos em conformidade à base nacional comum do currículo, bem como à parte diver- sificada. Nesse contexto, as propostas dos documentos oficiais tornam-se mais do que uma simples publicação, pelo contrário, trata-se de um processo de discussão nas escolas e nas Secretarias de Educação acerca da concepção de currículo e seus desdobramentos. Sintetizando Constituição Federal (1988) Lei de Direitos e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96 Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (1997) Referências Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1998) Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (2000) Diretrizes Curriculares Nacionais (2012) Adiante são discutidos os principais aspectos acerca dos documentos que subjazem às etapas iniciais da educação básica, ou seja, a educação infantil e o ensino fundamental. Base Nacional Comum Curricular (2017) Figura 1 Adiante são discutidos os principais aspectos acerca dos documentos que subja- zem às etapas iniciais da educação básica, ou seja, a educação infantil e o ensino fundamental. O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) Foi um documento elaborado no ano de 1997 e editado em 1998 no momento em que creches e pré-escolas passaram a integrar os sistemas de ensino no Brasil, constituindo-se como a primeira etapa da Educação Básica. 10 11 Figura 2 Fonte: Ministério da Educação O RCNEI (1998) foi o primeiro documento, em âmbito nacional, que direciona e embasa a ação dos municípios quanto ao público da educação infantil e dos pro- fissionais da educação. A preocupação com a melhoria da qualidade do ensino na educação infantil se justificou nos anos 1990 por fatores sociais e pedagógicos. O primeiro atrelado à inserção da mulher no mercado de trabalho, tornando a creche um direito consti- tucional, e o segundo, às questões pedagógicas que, influenciadas pelo avanço das pesquisas psicogenéticas e cognitivas, contrapunham o processo de escolarização em detrimento do desenvolvimento infantil. De uso não obrigatório, o MEC expediu o referencial nacional servindo de sub- sídio para a uniformidade do atendimento das escolas de educação infantil no país. Portanto, apesar de apresentar uma base curricular nacional, o RCNEI (1998) não é mandatário, mas apresenta-se como um documento de reflexão e apoio às escolas. Mas, afinal, quais são os assuntos abordados nos três volumes do documento RCNEI? Volume 1 – Introdução O caderno introdutório apresentava o con- texto da educação infantil e trazia questões im- portantes acerca dos princípios que norteiam a proposta curricular, como o respeito à dignidade e aos direitos das crianças consideradas nas suas diferenças individuais, sociais, econômicas, cultu- rais, étnicas e religiosas. Além do contexto sociológico, o Volume 1 traz discussões concernentes à concepção de criança, educação, instituição escolar e de professor, de- finindo a partir desse delineamento os objetivos gerais para a Educação Infantil. Figura 3 Fonte: Ministério da Educação 11 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental Para realizar a leitura na íntegra da introdução do documento RCNEI (1998), acesse o link: https://goo.gl/LfXKHZEx pl or Volume 2 – Formação Pessoal e Social O Volume 2 trazia contribuições prioritárias a respeito dos processos de construção da iden- tidade e da autonomia da criança. Para tanto, no documento, foram apresentados aspectos relacionados às características e potencialidades do processo de desenvolvimento, concebendo a criança, acima de tudo, como sujeito ativo no pro- cesso de autoconhecimento. No mesmo volume, encontravam-se conteúdos relacionados aos ob- jetivos gerais previstos para as crianças de zero a três anos e orientações didáticas para subsidiar o planejamento do professor a partir de atividades permanentes, sequenciadas e projetos. Figura 4 Fonte: Ministério da Educação Para realizar a leitura na íntegra do Volume 2 do RCNEI (1998), acesse: https://goo.gl/3kW9hK Ex pl or Volume 3 – Conhecimento de Mundo O Volume 3 é relativo ao âmbito das expe- riências acerca do conhecimento de mundo a partir do trabalho com os eixos: Movimento, Música, Artes Visuais, Linguagem Oral e Escri- ta, Natureza e Sociedade e Matemática. Apesar dos eixos serem apresentados separadamente, a proposta construtivista que subjaz o RCNEI (1998) recomendava que a abordagem das áre- as de conhecimento não poderia ser fragmen- tada, mas de maneira integrada, respeitando o sujeito em sua totalidade. Figura 5 Fonte: Ministério da Educação Para realizar a leitura na íntegra do volume 3 do RCNEI (1998), acesse o link: https://goo.gl/V3noS5Ex pl or 12 13 Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental Constituiu um referencial de qualidade para a educação no Ensino Fundamental em todo o país, os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) foram elaborados em um contexto em que dados do Censo de 1990 apontavam que apenas 19% da população brasileira possuía o ensino fundamental. Figura 6 Fonte: Ministério da Educação A exclusão escolar tinha início logo no primeiro ano de escolaridade, em que apenas 51% do total de alunos eram aprovados. Além disso, mesmo aqueles que concluíam os oitos anos de estudos que compunham o ensino fundamental na época acabavam dispondo de menos conhecimentos do que o esperado para os concluintes. De acordo com o Volume 1 dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997, p. 17): Durante as décadas de 70 e 80 a tônica da política educacional brasileira recaiu sobre a expansão das oportunidades de escolarização, havendo um aumento expressivo no acesso à escola básica. Todavia, os altos índices de repetência e evasão apontavam problemas que evidenciavam a grande insatisfação com o trabalho realizado pelaescola. Os altos índices de evasão e repetência evidenciavam a baixa qualidade do en- sino e a incapacidade dos sistemas educacionais e das escolas de garantirem a permanência do público, penalizando principalmente os alunos de níveis de renda mais baixos. Tendo em vista a reversão do quadro desanimador para uma formação cidadã, o documento foi produzido com a função de orientar e garantir a coerência dos investimentos no sistema educacional, socializando pesquisas e recomendações, subsidiando a participação de técnicos e professores. Porém, o documento não se constituía como obrigatório, o que fez com que muitos municípios e estados 13 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental elaborassem seus próprios currículos durante a primeira década do século XXI e, devido à sua generalidade e amplitude, acabou se tornando invisível diante do or- denamento dos currículos estaduais e municipais, que por sua vez foram obtendo características próprias. Realize a leitura do Volume 1 dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) acessando o link: https://goo.gl/oyTSkzEx pl or Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) apontavam questões de tratamen- to didático por área de conhecimento e por ciclo. O documento estava organizado, de modo a servir de referência, de fonte de consulta e de objeto para reflexão e debate fundamentando a relevância das áreas de conhecimento para a formação cidadã, conforme o quadro síntese a seguir. Volume 2 – Língua Portuguesa: trabalhava com a ideia que a escola tem a responsabilidade de garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes lin- guísticos, necessários para o exercício da cidadania. Para saber mais, acesse o link: https://goo.gl/JrjTCw Figura 7 Fonte: Ministério da Educação Volume 3 – Matemática: deu supor- te para resolver problemas da vida co- tidiana e com aplicações no mundo do trabalho, funcionou como instrumento essencial para a construção de conhe- cimentos em outras áreas curriculares. Para saber mais, acesse o link: https://goo.gl/bk7X58 Figura 8 Fonte: Ministério da Educação Volume 4 – Ciências Naturais: o papel das ciências naturais é o de co- laborar para a compreensão do mun- do e suas transformações, situando o homem como indivíduo participativo e parte integrante do universo. Para saber mais, acesse o link: https://goo.gl/qE5hjV Figura 9 Fonte: Ministério da Educação 14 15 Volume 5 – História e Geografia: desempenham funções de cidadania e de relações com diferentes espaços e tempos entre a humanidade e a natureza. https://goo.gl/pwQg5Q Ex pl or Para saber mais, acesse o link: https://goo.gl/Y1717n Ex pl or Volume 6 – Arte: a educação em arte propicia o desenvolvimento do pensa- mento artístico, que caracteriza o modo particular de dar sentido às experiências das pessoas. https://goo.gl/cFQyh3 Ex pl or Para saber mais, acesse o link: https://goo.gl/3ZLxGP Ex pl or Volume 7 – Educação Física: trouxe uma proposta de democratização, hu- manização e diversificação da prática pedagógica, de uma visão biológica para um trabalho que incorpore as di- mensões afetivas, cognitivas e sociocul- turais dos alunos. Para saber mais, acesse o link: https://goo.gl/A5osuC Figura 10 Fonte: Ministério da Educação Apesar de apresentar os volumes por área de conhecimento, os Parâme- tros Curriculares Nacionais (1997) buscaram contribuir para a superação da fragmentação das disciplinas e ainda trouxeram outros documentos para inte- grar a grade curricular, os chamados temas transversais. Esses expressam con- ceitos e valores necessários ao exercício da democracia e da cidadania a partir de temáticas emergentes na sociedade contemporânea: Ética, Meio Ambiente, Saúde, Trabalho e Consumo, Orientação Sexual e a Pluralidade Cultural; es- sas não são disciplinas autônomas, mas temas que permeiam todas as áreas de conhecimento. 15 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) Em 2012, o Ministério da Educação (MEC) lançou as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), sendo um documento de muita relevân- cia para o desenvolvimento curricular brasilei- ro. As DCN instituíram os critérios gerais que deveriam ser considerados por municípios e es- tados para a elaboração dos currículos. Dessa forma, o documento referenciava os objetivos gerais a serem alcançados e direcionava o de- senvolvimento dos objetivos mais específicos. A organização dos conteúdos mais específi- cos deveria ser um trabalho a ser desenvolvido nas escolas. Figura 11 Fonte: Ministério da Educação A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) vem a ser a operacionalização das DCNs, dos objetivos curriculares estabelecidos no documento anterior e no direi- to de aprender dos alunos. Dessa forma, os documentos são complementares e ambos se organizam como referenciais que devem ser considerados e aos quais os currículos dos sistemas locais (municipais ou estaduais) devem responder. Figura 12 Fonte: Ministério da Educação A primeira versão da BNCC foi disponibilizada para consulta em 2015. Depois houve o processo de consultas públicas e de vários pareceres de especialistas liga- dos à educação, sendo publicada em 2016 a segunda versão do documento, que 16 17 também foi objeto de amplo debate público e igualmente analisada por estudiosos de Educação. A terceira versão do texto foi encaminhada pelo MEC ao Conselho Nacional de Educação (CNE) em 6 abril de 2017, com referências curriculares para a educação infantil e o ensino fundamental. Coube ao CNE realizar audiências públicas ao longo de 2017 e emitir um pare- cer sobre o documento, enviado ao MEC para homologação que aconteceu no dia 20 de dezembro de 2017. A partir disso desse momento, inicia-se o processo de implementação da BNCC, com a construção de currículos estaduais e municipais. A importância desses documentos, em específico a BNCC, é que eles são refe- renciais que já estavam explícitos na LDB, quando se instituiu a necessidade de um conjunto de objetivos educacionais a serem garantidos para todos os educandos brasileiros como elementos de equidade e promoção da qualidade da educação. De acordo com o próprio material, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os educan- dos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da educação básica, de modo que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacio- nal de Educação (PNE) (BRASIL, 2017), Essa é a direção para a qual apontavam os PCN, as DCN estabelecidas também no PNE, com a complementação da publicação dos Direitos de Aprendizagem. Esses pressupostos finalmente se concretizam em um documento de objetivos de aprendizagem obrigatórios para todos os níveis e escolas do país, a BNCC. O novo documento apresentava um conjunto de objetivos que priorizavam um piso mínimo de aprendizagens para todos os estudantes do país. É o documento no qual esses objetivos se explicitam e recebem forma, a partir de todos os componentes curriculares contemplados na lei. As aprendizagens obrigatórias são organizadas em competências e habilidades, voltadas à formação integral de todos os alunos em suas variadas dimensões: in- telectual, afetiva, ética, física, sociopolítica etc. Mas, afinal, o que é competência? De acordo com o próprio documento, competência é a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cogni- tivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas com- plexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL, 2017). Para buscar a efetivação dessa política, o Ministério da Educação trabalhou em parceria com diversos órgãos ligados à educação– entre eles Consed (Conse- lho Nacional de Secretários de Educação), Undime (União Nacional dos Dirigen- te Municipais), União dos Conselhos Municipais de Educação (UNCME) e Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação (FNCEE) –, oportunizando uma participação de vários especialistas da área e também alcançando uma abrangência 17 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental maior. Na busca de oportunizar a tão sonhada equidade educacional, um dos prin- cípios centrais da BNCC foi maximizar a colaboração entre as instâncias federais, estaduais e municipais na construção de um currículo, tendo como suporte a base de conhecimentos estabelecidos no documento, mas ao mesmo tempo respeitando a tão variada diversidade regional da extensão territorial brasileira. Importante! Vale a pena a evidenciar que a BNCC não se constituiu em um currículo, mas a base normativa para a elaboração dos currículos estaduais e municipais. Isso significa que todos os currículos, a partir de 2017, deverão considerar a BNCC. Importante! O documento trabalha com o desenvolvimento de dez competências gerais, que se inter-relacionam e se estendem na organização didática proposta para as três etapas da educação básica, articulando-se na elaboração de conhecimentos, no desenvolvimento de habilidades e na formação de atitudes e valores apresentados de maneira didática por meio da Figura 13. Figura 13 Fonte: Movimento pela Base Nacional Comum (2017) Acessando o link a seguir, você terá a oportunidade de aprofundar os seus conhecimentos acerca da BNCC. Vale a pena realizar a leitura! https://bit.ly/2skbClsEx pl or 18 19 Vale a pena assistir ao vídeo da UNDIME (União dos Dirigentes Municipais), um parceiro do processo de elaboração da Base, o documento é apresentando de uma forma bem esclare- cedora e traz as 10 competências da BNCC: https://youtu.be/pq0ieMDrHr8 Ex pl or A trajetória que professores e técnicos das secretarias percorreram em seu esfor- ço para elaborar um currículo significativo e na busca de qualidade educacional para os estudantes das escolas em que atuam foi muito grande e cheia de obstáculos. No entanto, é relevante considerar o momento em que se vive, com o debate em torno da BNCC e sua posterior implementação, como uma oportunidade para de- senvolver currículos que sejam relevantes para todos os brasileiros, que respeitem a diversidade de um país de características continentais e que, ao mesmo tempo, se- jam construídos sobre uma base de equidade, que considere todos e lhes oportunize a mesma qualidade de educação e oportunidade para superar os desafios que as diferentes comunidades enfrentam no século XXI. O objetivo com a BNCC é o de desenvolver um conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os estudantes deverão alcançar em seu processo escolar e , nessa trajetória, orientar o desenvolvimento e a implementação dos currículos da educação básica dos sistemas e das redes das distintas unidades federativas (MODER, 2017). 19 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites Movimento pela Base nacional Comum Curricular https://bit.ly/2Gil2aX Leitura BNCC na prática: entenda como a Base Nacional Comum Curricular vai mudar o seu dia a dia na escola Alguns textos da revista Nova Escola que vão auxiliar no seu aprendizado. https://bit.ly/2S6dKx0 32 respostas sobre a Base Nacional Comum Curricular https://bit.ly/2mWlGxE Base Nacional Comum Curricular Ensino Fundamental: material para o professor https://bit.ly/2GcrNuI 20 21 Referências BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1998 BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2017. Disponível em: . Acesso em: 06 nov. 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9.394, de dezembro de 1996. Brasília, DF: MEC, 1997. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, DF: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Movimento pela Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC/UNDIME, 2017. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. MODER, Max. Reflexões de apoio para o desenvolvimento curricular no Brasil: guia para gestores educacionais. São Paulo: UNDIME, 2017. 21 Escola, Currículo e Sociedade Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Me. Simone Dias da Silva Prof.ª Me. Janaina Pinheiro Vece Prof.ª Dr.ª Fabiana Granado Garcia Sampaio Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos • Introdução; • Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio; • Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI); • Proposta Curricular para Educação de Jovens e Adultos. • Tratar de outros documentos educacionais e bases legais que orientam as propostas curriculares das instituições de ensino de todo o país, tendo em vista que a educação brasileira elaborou a Base Nacional Comum Curricular (2017), que instrumentali- za estados e municípios para elaborarem o seu próprio currículo, esse documento estabelece competências que toda as crianças e jovens têm o direito de desenvolver durante sua escolaridade. OBJETIVO DE APRENDIZADO O Currículo Escolar e os Documentos Ofi ciais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Ofi ciais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos Contextualização Para iniciarmos esta unidade, convidamos você a refletir sobre a importância dos conteúdos curriculares na formação de nossos alunos. Charge Mafalda, disponível em: https://goo.gl/2LFq5C. Fonte: Quino. Ex pl or Lembra-se da charge em que a personagem Mafalda, de maneira irônica,criti- cava o conteúdo da aula? A mensagem transmitida na tirinha permite refletir sobre as orientações curricula- res e as expectativas de aprendizagem disponibilizadas nos documentos educacionais. Será que o currículo escolar atende às necessidades e aos interesses dos alunos e às demandas da sociedade atual?Ex pl or Esta unidade de estudo – O currículo escolar e os documentos oficiais: ensino médio e educação de jovens e adultos – apresenta dois documentos que regem o currículo oficial de outras duas etapas da educação básica brasileira, são eles: os Parâ- metros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (2000) e a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (2017). Em um de seus tópicos, será apresentado um apanhado geral do documento mais importante da atualidade a nortear toda a educação básica, a BNCC, e posteriormente, você será direcionado ao ensino médio, juntamente com a Proposta Curricular para Educação de Jovens e Adultos para o Ensino Fundamental e Médio (2001). Nesta unidade são abordados o contex- to em que esses documentos foram desenvol- vidos e seus aspectos gerais, como objetivos, concepções, estrutura e algumas considerações. Durante a leitura, aproveite para re- gistrar os aspectos que achar mais importantes e as dúvidas que sur- girem. Boa leitura! 8 9 Introdução Nas últimas unidades desta disciplina, trataremos das bases legais e dos docu- mentos curriculares da educação brasileira, sabendo que esses documentos são oficiais e orientam as políticas curriculares das redes de ensino do país. Conhecere- mos, então, as principais características e os conceitos que estão por trás de cada um deles. A Secretaria de Educação Básica zela pela educação infantil, pelo ensino funda- mental e o ensino médio. A educação básica é o caminho para assegurar a todos os brasileiros a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e para fornecer-lhes os meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. São dois os principais documentos norteadores da educação básica: a Lei de Dire- trizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Plano Nacional de Educação (PNE) – regidos, naturalmente, pela Constituição da República Federativa do Brasil (1988), além dos documentos curriculares dos quais trataremos a seguir. Para saber mais, clique no link: https://goo.gl/hvB4b. Ex pl or Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio O Brasil, como os demais países da América Latina, está empenhado em pro- mover reformas na área educacional que permitam superar o quadro de extrema desvantagem em relação aos índices de escolarização e de nível de conhecimento que apresentam os países desenvolvidos. Figura 1 Fonte: Getty Images 9 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos Particularmente, no que se refere ao Ensino Médio, dois fatores de natureza muito diversa, mas que mantêm entre si relações observáveis, passam a determi- nar a urgência de se repensar as diretrizes gerais e os parâmetros curriculares que orientam esse nível de ensino. Em primeiro lugar, o fator econômico apresenta-se e define-se pela ruptura tecnológica característica da chamada terceira revolução técnico-industrial, na qual os avanços da microeletrônica têm um papel preponderante e, a partir década de 1980, acentuam-se no País. A denominada “revolução informática” promove mudanças radicais na área do conhecimento e passa a ocupar um lugar central nos processos de desenvolvi- mento em geral. É possível afirmar que, nas próximas décadas, a educação vá se transformar mais rapidamente do que em muitas outras, em função de uma nova compreensão teórica sobre o papel da escola, estimulada pela incorporação das novas tecnologias. As propostas de reforma curricular para o Ensino Médio pautam-se nas cons- tatações sobre as mudanças no conhecimento e seus desdobramentos, no que se refere à produção e às relações sociais de modo geral. Nas décadas de 1960 e 1970, considerando o nível de desenvolvimento da industrialização na América Latina, a política educacional vigente priorizou, como finalidade para o ensino médio, a formação de especialistas capazes de dominar a utilização de maquinarias ou de dirigir processos de produção. Essa tendência levou o Brasil, na década de 1970, a propor a profissionalização compulsória, estratégia que também visava a diminuir a pressão da demanda sobre o ensino superior. Na década de 1990, enfrentamos um desafio de outra ordem. Agora, o volume de informações, produzido em decorrência das novas tecnologias era constante- mente superado, colocando novos parâmetros para a formação dos cidadãos; não se tratava só de acumular conhecimentos. A formação do aluno deve ter como alvo principal a aquisição de conhecimentos básicos, a preparação científica e a capacidade de utilizar as diferentes tecnologias relativas às áreas de atuação. Propõe-se, no nível do ensino médio, a formação geral em oposição à formação específica; o desenvolvimento de capacidades de pesquisar, buscar informações, analisá-las e selecioná-las; a capacidade de aprender, criar, formular, em lugar do simples exercício de memorização. Os PCNs constituíram-se em um documento muito significativo e elaborado, mas que não se concretizou em uma melhoria significativa para essa etapa. O alunado do século XXI exigiu um documento mais detalhado e com maior direcionamento de aprendizagens aplicáveis à realidade; devido a isso, a BNCC apresentou objetivos mais concretos e capacidade de quali- ficar o ensino para toda a Educação Básica. 10 11 Explorando um pouco mais a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento de propriedade normativa que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essen- ciais que todos os alunos devem atingir ao longo das etapas e modalidades da edu- cação básica. Conforme prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei n.º 9.394/1996, a Base deve nortear os currículos dos sistemas e das redes de ensino das unidades federativas, como também os projetos pedagógicos de todas as escolas públicas e privadas de educação infantil, ensino fundamental e ensino médio em todo o Brasil (BRASIL, 2018). A Base define conhecimentos, competências e habilidades que se espera que todos os educandos desenvolvam ao longo da escolaridade básica. Norteada pelos princípios éticos, políticos e estéticos delineados pelas Diretrizes Curriculares Na- cionais da Educação Básica (DCN), a Base soma-se ao intento que direciona a educação brasileira para a formação humana integral e para a estruturação de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. O que vale ser evidenciado é que a BNCC não se constitui como um currículo em si, mas como parte dele, ou seja, a sua finalidade é nortear a elaboração dos referenciais curriculares e dos Projetos Político-Pedagógicos (PPP) das escolas, à medida que institui as competências e habilidades que serão desenvolvidas pelos educandos ano a ano. De modo geral, pode-se afirmar que a Base indica o ponto em que se deseja chegar. O currículo trabalha o caminho para se chegar lá. Diante disso, preserva-se a autonomia de cada rede de ensino para adaptar os currículos, respeitando a diversidade e as peculiaridades de cada contexto educacional; isso é, as instituições escolares poderão contextualizá-los e adaptá-los de acordo com seus projetos pedagógicos. A implantação da BNCC foi pautada em um processo de colaboração entre União, estados, municípios e Distrito Federal, bem como instituições privadas. Cada ator educativo tem sua autonomia garantida, à medida que a Base estimula a valorização da diversidade e considera as particularidades múltiplas dos contex- tos educacionais brasileiros. Nesse sistema colaborativo, algumas ações foram previstas para fundamentação após o processo de homologação do documento e sua implantação: 1. Revisão das formações: inicial e continuada dos professores,articulando-as à BNCC; 2. Reelaboração dos referenciais curriculares federais, estaduais, municipais e privados; 3. Reformulação dos projetos político-pedagógicos de cada unidade escolar; 4. Adaptação de materiais didáticos, bem como os processos de avaliação da Educação Básica. 11 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos Formação para professores inicial e continuada Currículos das escolas Políticas públicas: avaliação e material didático Referenciais curriculares das redes Figura 2 – Ações para a consolidação da BNCC no período de implantação Ao analisar o documento, os vários especialistas reconhecem a importância da BNCC para a educação no Brasil e os avanços apresentados na última versão em relação aos textos anteriores, porém, a BNCC também foi marcada por algumas polêmicas, como a retirada dos termos identidade de gênero e orientação sexual, além da antecipação para o segundo ano para o fim da alfabetização. Para retirar algumas dúvidas, vale a pena assistir o vídeo do Canal Futura sobre os princi- pais pontos da BNCC: https://youtu.be/pqRJT4JF_nQ.Ex pl or O texto da BNCC foi estruturado tendo como referência o desenvolvimento de 10 competências gerais que abrangem aspectos cognitivos e socioemocionais já mencionado nos capítulos anteriores. Tais competências são fundamentais para a formação dos alunos, pois visam garantir, como resultado do seu processo de aprendizagem e desenvolvimento, uma formação humana integral que visa à cons- trução de uma sociedade justa, democrática e inclusiva (BRASIL, 2017). Muitas das competências propostas pela BNCC já estão no cotidiano de muitas escolas, nos planejamentos escolares e nas intenções educativas, e em outras, pre- cisam ser ajustadas visando oportunizar a equidade de aprendizagens. É necessário conhecer o documento e refletir sobre as ações que já são desenvolvidas e aquelas que podem ser aprimoradas visando ao desenvolvimento das competências nos educandos ao longo de suas trajetórias escolares, pois essas ações farão parte do currículo de todas as redes de educação. 12 13 A primeira parte do documento constitui na introdução e nela esse contempla as 10 competências gerais da BNCC, os seus marcos legais, os fundamentos peda- gógicos e detalhes do pacto interfederativo. O segundo capítulo explora a estrutura da BNCC, ou seja, como está organi- zada a primeira etapa da educação básica. De acordo com os eixos estruturantes, a primeira constitui a etapa da educação infantil, e nela devem ser garantidos seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento, para que as crianças tenham con- dições de aprender e se desenvolver. Sendo eles: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e se conhecer. Ainda nessa mesma parte do documento, indo além dos direitos de aprendi- zagem e desenvolvimento, são definidos os cinco campos de experiências, nos quais as crianças podem aprender e se desenvolver: 1. O eu, o outro e o nós; 2. Corpo, gestos e movimentos; 3. Traços, sons, cores e formas; 4. Escuta, fala, pensamento e imaginação; 5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Vale ressaltar ainda que nesse mesmo capítulo é organizada a explicação de como a BNCC apresenta as cinco áreas do conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Ensino Religioso). Ainda nesse mesmo capítulo, é apresentada a composição alfanumérica que organiza os objetivos de conhecimento e as habilidades estabelecidas, conforme Figura 3. Figura 3 Fonte: BNCC, 2018 O terceiro capítulo abarca os direcionamentos sobre a educação infantil, os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, desdobrando um aprofun- damento dos campos de experiência e o significado de uma passagem tranquila desse período para o fundamental. 13 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos Na quarta etapa do documento, é explorado o ensino fundamental em si, sendo, os dois primeiros anos do Ensino Fundamental, destinada a uma ação pedagógica voltada ao processo de alfabetização, com a finalidade de garantir vastas oportu- nidades para que os educandos se apropriem do sistema de escrita alfabética de modo articulado ao trabalho com outras habilidades de leitura e de escrita e ao seu envolvimento em práticas diversificadas de letramento. No terceiro ano, avançando aos demais anos do fundamental, os alunos vão ampliando a autonomia intelectual, a compreensão de normas e os interesses pela vida social, o que lhes oportuniza en- volver com sistemas mais amplos, que dizem respeito às relações dos sujeitos entre si, com a natureza, com a história, com a cultura, com as tecnologias e com o ambiente. Para conhecer melhor a introdução e os demais capítulos da Base Nacional Comum Curricular , acesse o site: https://goo.gl/2dnT8j.Ex pl or Base Nacional Comum Curricular para o Ensino Médio A última versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino mé- dio foi entregue pelo Ministério da Educação (MEC) ao Conselho Nacional de Edu- cação (CNE) no final do 2º semestre de 2018, mas não foi homologada no mesmo período que a educação infantil e ensino fundamental. A carga horária do ensi- no médio será distribuída em cinco itinerários formativos, explícitos no capítulo 2 (Estrutura da BNCC) como: 1. Linguagens e suas tecnologias (Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa); 2. Matemática e suas tecnologias (Matemática); 3. Ciências da natureza e suas tecnologias (Biologia, Física e Química); 4. Ciências humanas e sociais aplicadas (História, Geografia, Sociologia e Filosofia); 5. Formação técnica e profissional. De acordo com o documento (BRASIL, 2018), essa nova estrutura aumenta o protagonismo juvenil, uma vez que prevê a oferta de variados itinerários formati- vos1 para atender à variedade de interesses dos alunos: o aprofundamento acadê- mico e a formação técnica profissional. Ademais, ratifica a organização do ensino médio por áreas do conhecimento, sem referência direta a todos os componentes que tradicionalmente compõem o currículo dessa etapa. 1 No Brasil, a expressão “itinerário formativo” tem sido tradicionalmente utilizada no âmbito da educação profissional, em referência à maneira como se organizam os sistemas de formação profissional ou, ainda, às formas de acesso às profissões. No entanto, na Lei n.º 13.415/17, a expressão foi utilizada em referência a itinerários formativos acadêmicos, o que supõe o aprofundamento em uma ou mais áreas curriculares e, também, a itinerários da formação técnica profissional (BRASIL, 2018). 14 15 Para você estudar melhor essa etapa, leia o documento na íntegra da BNCC do ensino médio: https://goo.gl/PzckVt.Ex pl or Cada área do conhecimento organiza competências específicas, cujo desenvolvi- mento deve ser proporcionado ao longo dessa etapa, tanto no âmbito da BNCC como dos itinerários formativos das diferentes áreas. Essas competências mostram como as competências gerais da educação básica se exprimem nas áreas. Elas estão articuladas às competências específicas de área para o ensino fundamental, com ajustes relevantes ao atendimento das necessidades de formação dos estudantes do ensino médio. Os desafios do ensino médio ainda são maiores do que o fundamental, afinal pes- quisas têm mostrado que essa etapa representa uma lacuna na garantia do direito à educação. Dentre os fatores que expõem esse cenário, evidencia-se o desempenho insuficiente dos alunos nos anos finais do Ensino Fundamental, a organização curri- cular do ensino médio antes da Base, com excesso de componentes curriculares, e uma abordagem pedagógica apartada das culturas juvenis e do mundo do trabalho. Quadro 1 Desafi os para o Ensino Médio · Universalizar o acesso, a permanência e o direito à aprendizagem e ao desenvolvimento na faixa etária de 15 a 17 anos; · Ampliar o acesso da faixa etáriaacima de 18 anos com a garantia das mesmas condições; · Ampliar ações de superação da distorção idade-série; · Consolidar a identidade e a organização curricular dessa etapa educacional. Vale a pena assistir o vídeo do canal Futura sobre a BNCC do Ensino Médio, disponível em: https://youtu.be/hEIzWTMiiuE.Ex pl or Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI) O Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI), instituído pela Portaria n.º 971, de 9 de outubro de 2009, integra as ações do Plano de Desenvolvimento da Edu- cação (PDE) como estratégia do Governo Federal para induzir a reestruturação dos currículos e superar os desafios do ensino médio. O objetivo do ProEMI é apoiar e fortalecer o desenvolvimento de propostas cur- riculares inovadoras nas escolas de ensino médio, ampliando o tempo dos estudan- tes na escola e buscando garantir a formação integral com a inserção de atividades que tornem o currículo mais dinâmico, atendendo também às expectativas dos estudantes do ensino médio e às demandas da sociedade contemporânea. 15 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos Os projetos de reestruturação curricular possibilitam o desenvolvimento de ativi- dades integradoras que articulam as dimensões do trabalho, da ciência, da cultura e da tecnologia, contemplando as diversas áreas do conhecimento a partir de oito macrocampos: Acompanhamento Pedagógico; Iniciação Científica e Pesquisa; Cultura Corporal; Cultura e Artes; Comunicação e uso de Mídias; Cultura Digital; Participação Estudantil e Leitura e Letramento. A adesão ao Programa Ensino Médio Inovador pode ser realizada pelas Se- cretarias de Educação Estaduais e Distrital. As escolas de Ensino Médio rece- bem apoio técnico e financeiro, através do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), para a elaboração e o desenvolvimento de seus projetos de reestrutu- ração curricular. Proposta Curricular para Educação de Jovens e Adultos A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetiza- ção, Diversidade e Inclusão (SECADI), em articulação com os sistemas de ensino, implementa políticas educa- cionais nas áreas de alfabetização e educação de jovens e adultos, educação ambiental, educação em direitos hu- manos, educação especial, do campo, escolar indígena, quilombola e educação para as relações étnico-raciais. O objetivo da SECADI é contribuir para o desenvol- vimento inclusivo dos sistemas de ensino voltados para a valorização das diferenças e da diversidade, a promo- ção da educação inclusiva, dos direitos humanos e da sustentabilidade socioambiental, visando à efetivação de políticas públicas transversais e intersetoriais. Figura 4 Fonte: MEC, 2001 O objetivo é promover a superação do analfabetismo entre jovens com 15 anos ou mais, adultos e idosos e contribuir para a universalização do ensino fundamental no Brasil. Sua concepção reconhece a educação como direito humano e a oferta pública da alfabetização como porta de entrada para a educação e a escolarização das pessoas ao longo de toda a vida. A concretização dessas políticas educacionais dá-se por meio de ações de apoio técnico e financeiro para projetos de alfabetização de jovens, adultos e idosos apre- sentados pelos Estados, Municípios e Distrito Federal. Para saber mais, clique no link: https://goo.gl/hWP9C4. Ex pl or 16 17 Proposta Curricular para Educação de Jovens e Adultos 1º Segmento do Ensino Fundamental A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) 9394/96 assegura que a EJA (Educação de Jovens e Adultos) seja destinada aos que não tiveram aces- so a ou oportunidade de continuar seus estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. O dever do Estado com a educação escolar pública será efetivado para os que a ele não tiveram acesso na idade própria; progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio e oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando. (BRASIL, 1996, art. 4º) A EJA, como uma modalidade da educação básica, é pautada na LDBEN n.º 9.394/96 pelos mesmos princípios que a educação regular fundamental e mé- dia. A proposta curricular da EJA tem por objetivo oferecer subsídios que orientem a reflexão pedagógica sobre essa modalidade. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) propôs metodologias e didáticas que favoreçam o atendimento à EJA de forma legal e prática por meio de uma Pro- posta Curricular. A Proposta Curricular para o primeiro segmento do ensino fun- damental para a educação de jovens, adultos (e também idosos) constitui-se em um subsídio à elaboração de projetos e propostas curriculares a serem desenvolvidos por organizações governamentais e não governamentais, adaptados às realidades locais e necessidades específicas. A Constituição Federal de 1988 estendeu o direito ao ensino fundamental aos cidadãos de todas as faixas etárias, o que nos estabelece o imperativo de ampliar as oportunidades educacionais para aqueles que já ultrapas- saram a idade de escolarização regular. Além da extensão, a qualificação pedagógica de programas de educação de jovens e adultos é uma exigên- cia de justiça social, para que a ampliação das oportunidades educacionais não se reduza a uma ilusão e a escolarização tardia de milhares de cida- dãos não se configure como mais uma experiência de fracasso e exclusão. (PROPOSTA CURRICULAR 1º SEGMENTO, 2001, p. 14) Este trabalho representa, para o MEC, a possibilidade de colocar à disposição das secretarias estaduais e municipais de educação e dos professores de educação de jovens e adultos um importante instrumento de apoio, com a qualidade de refe- rencial que lhe é conferida pelo notório saber de seus autores. Na reflexão pedagógica sobre essa modalidade educativa, há especial relevância a consideração de suas dimensões social, ética e política. O ideário da educação popu- lar, referência importante na área, destaca o valor educativo do diálogo e da partici- pação, a consideração do educando como sujeito portador de saberes que devem ser reconhecidos. Educadores de jovens e adultos identificados com esses princípios têm procurado, nos últimos anos, reformular suas práticas pedagógicas, atualizando-as frente às novas exigências culturais e novas contribuições das teorias educacionais. 17 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos As orientações curriculares apresentadas na Proposta referem-se à alfabetiza- ção e pós-alfabetização de jovens e adultos, cujo conteúdo corresponde às quatro primeiras séries do Ensino Fundamental (a Proposta foi aprovada quando ainda existia o Ensino Fundamental de 8 anos). Elas não constituem propriamente um currículo, muito menos um programa pronto para ser executado, tratam-se de um subsídio para a formulação de currículos e planos de ensino, que devem ser desen- volvidos pelos educadores de acordo com as necessidades e objetivos específicos de seus programas. A primeira parte desse documento traz um breve histórico da educação de jo- vens e adultos no Brasil, no qual se destacam soluções e impasses pedagógicos gerados por essas práticas, alguns fundamentos nos quais se baseou a formulação de objetivos gerais da proposta, delineando uma visão bastante geral da situação social que vivemos na atualidade, das necessidades educativas dos jovens, adultos e idosos pouco escolarizados, do papel da escola e do educador. Também discu- te a importância da elaboração de currículos baseados nessas indicações, inevita- velmente genéricas, o que exigirá dos educadores o esforço de complementá-las com análises de seus contextos específicos, a partir dos quais poderão formular de modo mais preciso os objetivos de seus programas. Na segunda parte, são apresentados os objetivos gerais em conteúdos e objeti- vos mais específicos, organizados em três áreas: Língua Portuguesa, Matemática e Estudos da Sociedade e da Natureza. Para cada uma dessas áreas, expõem-se considerações sobre suarelevância e sobre a natureza dos conhecimentos com que trabalha. Reúnem-se, ainda, algumas indicações metodológicas e alguns aportes das teorias sobre o ensino e a aprendizagem de seus conteúdos. Para cada área, são definidos blocos de conteúdos com um elenco de tópicos a serem estudados. Para cada tópico, há um conjunto de objetivos didáticos que especificam modos de abordá-los em diferentes graus de aprofundamento. Pelo seu grau de especificida- de, esses objetivos oferecem também muitas pistas sobre atividades didáticas que favorecem o desenvolvimento dos conteúdos. Para as áreas de Língua Portuguesa e Matemática, há indicações detalhadas quanto às formas mais adequadas de abordar cada bloco de conteúdo nos estágios iniciais e nos estágios mais avançados das aprendizagens. Com relação aos Estudos da Sociedade e da Natureza, considerou-se que a sequenciação poderia ser feita levando em conta apenas os interesses ou as necessidades dos educandos, ou seja, qualquer um dos tópicos de conteúdo pode ser tratado com alunos iniciantes ou avançados, desde que se considere o grau de domínio que esses tenham da repre- sentação escrita, ao lado da possibilidade de lançar mão de recursos audiovisuais e da interação oral. Na terceira e última parte, a proposta curricular para o primeiro segmento trata do planejamento e da avaliação, traz sugestões de como planejar unidades didáticas que favoreçam ao estabelecimento de relações entre os diversos conteúdos, tornan- do seu desenvolvimento mais interessante para alunos e professores e o trabalho do dia a dia mais rico e estimulante. 18 19 A avaliação, por sua vez, é abordada como parte constitutiva do planejamento. São sugeridos também critérios de avaliação especificamente orientados para deci- sões associadas à certificação de equivalência de escolaridade e ao encaminhamen- to dos jovens e adultos para o segundo segmento do ensino fundamental. Com esse conjunto articulado de objetivos e conteúdos educativos, referências e sugestões didáticas, o documento pretende esboçar um mapa que oriente as opções das equipes envolvidas na elaboração curricular e no planejamento. Essas opções, entretanto, devem referir-se principalmente aos contextos educativos de que participam. Para conhecer a Proposta Curricular do 1º Segmento na íntegra, clique no link: https://goo.gl/ubgV0h.Ex pl or Proposta Curricular para Educação de Jovens e Adultos 2º Segmento do Ensino Fundamental A proposta curricular para o segundo segmento do ensino fundamental para a educação de jovens, adultos e idosos foi lançada pela SEF, em 2002, com base na Resolução n.º 01/2000 e no Parecer CNE/CEB n.º11/2000, que estabelecem as Diretrizes Curriculares Nacionais para EJA. A Coordenação de Educação de Jovens e Adultos (COEJA) da Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação organizou essa Proposta Curri- cular para o Segundo Segmento do Ensino Fundamental da Educação de Jovens e Adultos (EJA) (correspondente à etapa de 5ª a 8ª série), com a finalidade de sub- sidiar o processo de reorientação curricular nas secretarias estaduais e municipais, bem como nas instituições e escolas que atendem ao público de EJA, considerando as especificidades de alunos jovens, adultos e idosos e também as características desses cursos. Volume I – apresenta temas que devem ser analisados e discutidos cole- tivamente pelas equipes escolares, pois trazem fundamentos comuns às diversas áreas para a reflexão curricular; Volume II – são apresentados os objetivos gerais em conteúdos e obje- tivos mais específicos, organizados em quatro áreas: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, História e Geografia. Para cada uma dessas áreas, expõem-se considerações sobre sua relevância e sobre a natureza dos conhecimentos com que trabalha; Volume III – são apresentados os objetivos gerais em conteúdos e objeti- vos mais específicos de outras quatro áreas de conhecimento: Matemáti- ca, Ciências Naturais, Arte e Educação Física, além de algumas indicações metodológicas sobre o ensino e a aprendizagem de seus conteúdos. 19 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos A primeira parte do documento faz uma breve retomada histórica da educação de jovens e adultos em nosso país, com a finalidade de situar os professores, atores que nesse momento participam da construção dessa trajetória. Apresenta, ainda, dados coletados em um levantamento realizado pela COEJA junto às secretarias de educação, aos professores e alunos, permitindo uma caracterização mais detalhada do segundo segmento. A segunda parte, com base no cenário delineado na parte anterior, tematiza questões importantes para a constituição de uma proposta curricular. A primeira delas refere-se tanto à construção do Projeto Educativo da Escola em que a EJA está inserida, quanto à clara definição da identidade dessa modalidade de ensino. Em relação à identidade, merecem atenção a perspectiva do acolhimento pela equipe escolar e as relações da escola com o mundo do trabalho e com a sociedade do conhecimento. São retomadas as concepções de Paulo Freire sobre a dimensão sociopolítica e cultural da educação de jovens e adultos e é feita uma análise das contribuições de teorias socioconstrutivistas nesse contexto. Discutem-se concep- ções como as de aprendizagem, conhecimento, contrato didático e avaliação e é proposta uma inversão da lógica que tradicionalmente orientou a organização cur- ricular, tomando como ponto de partida não um conjunto de disciplinas – no qual umas são mais valorizadas do que outras –, mas sim um conjunto de capacidades a serem construídas pelos alunos ao longo de sua formação. Com esse propósito, os conteúdos são analisados em suas diferentes dimensões: seu papel, as formas de selecioná-los e organizá-los; apresentam-se orientações didáticas gerais e orientações sobre avaliação, discutindo distintas modalidades organizativas e aspectos da gestão do tempo, do espaço e dos recursos didáticos. Vale destacar que essa proposta curricular está inserida em uma política edu- cacional em que se destacam alguns princípios importantes à democratização do ensino no país: • a necessidade de unir esforços entre as diferentes instâncias governamentais e da sociedade para apoiar a escola na complexa tarefa educativa; • o exercício de uma prática escolar comprometida com a interdependência escola/sociedade, tendo como objetivo situar os alunos como participantes da sociedade (cidadãos); • a participação da comunidade na escola, de modo que o conhecimento apren- dido resulte em maior compreensão, integração e inserção no mundo; • a importância de que cada escola tenha clareza quanto ao seu projeto educati- vo, para que, de fato, possa se constituir em uma unidade com maior grau de autonomia e que todos os que dela fazem parte possam estar comprometidos em atingir as metas a que se propuseram; • o fato de que os jovens e adultos desse país precisam construir diferentes capa- cidades e que a apropriação de conhecimentos socialmente elaborados é base para a construção da cidadania e de sua identidade; • a certeza de que todos são capazes de aprender (PROPOSTA CURRICULAR 2º SEGMENTO, 2002, p.9). 20 21 Para conhecer a Proposta Curricular do 2º Segmento na íntegra, clique no link: https://goo.gl/scUS9A.Ex pl or Programa Nacional do Livro Didático para Educação de Jovens e Adultos (PNLD EJA) A Resolução CD/FNDE n.º 51/2009 dispõe sobre o Programa Nacional do Livro Didático para Educação de Jovens e Adultos, com o objetivo de disponibilizar livros didáticos aos alfabetizandos e estudantes jovens, adultos e idosos das entida- des parceiras do Programa Brasil Alfabetizado, das escolas públicas com turmas de alfabetização e de ensino fundamental na modalidade EJA. Figura 5 Fonte: Getty Images Os livros didáticos devem ser todos consumíveis e entregues para utilização dos alunos e educadores beneficiários, que passam a tersua guarda definitiva, sem ne- cessidade de devolução ao final de cada período letivo. O programa mantém ações de escolha e distribuição trienal de forma integrada dos livros didáticos, consideran- do todas as matrículas, e de reposição anual de forma integral dos livros didáticos para cobertura das matrículas adicionais. Para saber mais sobre o Programa Nacional do Livro Didático para Educação de Jovens e Adultos, clique no link: https://goo.gl/5SF9SK. Ex pl or 21 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos É importante que o processo educativo na EJA não se restrinja à aquisição de conhecimentos, mas que desenvolva em seus alunos habilidades e capacidades de pensar e fazer associações entre o que já aprendeu e o seu meio. Essa educação deve ser entendida como tomada de consciência para que os alunos se insiram mais aptos e ativos na sociedade, transformando e alcançando seus objetivos. Cabe lembrar, ainda, que existem experiências de educação básica de jovens, adultos e idosos que desenvolvem trabalhos mais sistemáticos nas áreas de Edu- cação Física e Arte e que avaliam positivamente o impacto dessas áreas no de- senvolvimento geral dos educandos. Essa é, entretanto, uma prática muito pouco generalizada. Há também programas que desenvolvem trabalhos específicos de preparação profissional, essa proposta curricular não abrange essas áreas, mas considera importante que os educadores exercitem a liberdade de opções que essa modalidade educativa permite e exige para adequar seus programas às necessida- des e interesses dos envolvidos. 22 23 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Vídeo do Canal Futura https://youtu.be/s3f7d7MDPVI Leitura Base Nacional Comum Curricular No site da Base Nacional Comum Curricular, são disponibilizados vários materiais elaborados pelo MEC, em parceria com o CONSED e a UNDIME, para apoiar as secretarias de educação e escolas na realização do Dia D para estudo e discussão da BNCC. É importante que a BNCC seja conhecida e analisada por todos os educadores brasileiros! Vale a pena pesquisar e aprender ainda mais sobre este documento norteador dos currículos brasileiros. https://goo.gl/eDBZ3x Base Nacional Comum Curricular – Ensino Médio https://goo.gl/1yYKAm Material da Nova Escola https://goo.gl/K3Y4bn 23 UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos Referências BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio: Introdu- ção – bases legais. Brasília, DF: MEC/SEF, 2000. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1998 BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da educação. Resolução CD/FNDE nº 51. Programa Nacional do Livro Didático para Educação de Jovens e Adultos (PNLD EJA). Brasília, DF: 2009. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Ensino Médio. Brasília, DF: MEC, 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2017. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9.394, de dezembro de 1996. Brasília, DF: MEC, 1997. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Proposta Curricular para a educação de jovens e adultos: primeiro segmento do ensino fundamental: 1ª a 4ª série: introdução. Brasília, DF: MEC/SEF, 2001. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Proposta Curricular para a educação de jovens e adultos: segundo segmento do ensino fundamental: 5ª a 8ª série: introdução. Brasília, DF: MEC/SEF, 2002. BRASIL. Portaria n. 971, de 09 de outubro de 2009. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 out. 2009a. 24do conheci- mento e de selecionar os elementos da cultura com que necessariamente a escola trabalha. (KISHIMOTO, 1994, p. 8) 10 11 No entanto, apesar da diversidade de conceituações e posicionamentos sobre currículo, é importante ressaltar que qualquer que seja a concepção adotada, não há dúvidas quanto à sua relevância no processo educativo da instituição escolar. A pretensão a té o momento é a de evidenciar que o entendimento de currículo está vinculado às interpretações e reinterpretações dos diferentes contextos históri- cos, sendo elas orientadas pela dinâmica da sociedade. Nessa condição, são apre- sentados os aspectos históricos e legislativos tão necessários para a compreensão do currículo escolar. Segundo Moreira e Silva (1995, p. 7): O currículo há muito tempo deixou de ser apenas uma área meramente técnica, voltada para questões relativas a procedimentos, técnicas, méto- dos. Já se pode falar agora em uma tradição crítica do currículo, guiada por questões sociológicas, políticas, epistemológicas. Partindo das análises dos teóricos que você leu até agora sobre currículo, o que você vê como mais signifi cativo ao tratarmos do conceito currículo? Qual seria a sua defi nição?Ex pl or Aspectos Históricos sobre o Currículo Sabendo que o currículo expressa a leitura do con- texto social e seus aspectos históricos, é preciso pri- meiramente considerar a escola enquanto organização situada na vida e na cultura da sociedade. Pensando dessa forma, é importante localizar alguns aspectos históricos, sendo que a partir desse entendimento de cultura vai sendo redesenhado cada currículo. Voltan- do a origem do modelo escolar, no século XVI até iní- cio do século XX, a estrutura organizacional social era em forma de castas, sendo que não havia uma relação entre as esferas: superior e inferior. Pensando nesse modelo, a escola foi sendo organizada por uma elite, tendo o objetivo de perpetuar somente a sua manei- ra de ver a sociedade. O documento que sistematizou essa concepção de currículo foi o Ratio Studiorum. Figura 1 Fonte: Wikimedia Commons Importante! De acordo com Saviani (2007), as ideias contidas no Ratio são fi éis à pedagogia tradi- cional que tem como entendimento o homem como ser universal e a educação como instrumento para moldá-lo. Você Sabia? 11 UNIDADE Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos Esse documento constitui a gênese do currículo no Brasil, sendo suporte para o ordenamento, a garantia de uniformidade de procedimentos, de mente e coração dos educadores jesuítas e dos alunos, para a consecução dos objetivos propostos, opondo-se à turbulência desencadeada pelo movimento reformista do século XVI. O Ratio Studiorum tem como preceito a formação intelectual clássica estreita- mente vinculada à formação moral, tendo como base as virtudes, os costumes e há- bitos saudáveis. A intenção do currículo é formar homens cristãos, tendo a convicção de que a educação sem a religião se torna um perigo para a sociedade. Analisando o contexto desse documento, foi o marco fundamental do que se intitula o Modelo Tradicional da Educação. A escola até o início do Sec. XX acolhia uma pequena parcela da população, o conhecimento acumulado típico da educação tradicional era destinado a uma elite. O processo de industrialização, de urbanização, obrigará o sistema educa- cional a repensar o seu modelo curricular, buscando uma nova forma de pensar o ensino. Nesse processo, há uma valorização da atuação do aluno, de seu interesse, tendo como influências no Brasil vários pensadores como Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira. Um documento que consolidava o ideário do movimento renovador foi o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, que re- conhecia a educação como direito de todos e dever do Estado, reivindicando uma escola pública, apoiada nos princípios de laicidade, obrigatoriedade e gratuidade. Novas exigências para o currículo começam a surgir nesse momento histórico como: olhar para o ensino aprendizagem, avaliação, método, planejamento, efi- cácia e objetivo. A partir da denominada Guerra Fria, entre soviéticos e americanos, aparece a preocupação com o sentido do conteúdo nos currículos das escolas americanas, voltadas às propostas dos centros científicos das universidades, tendo em vista que deveriam formar os cientistas e líderes da nação para fazer frente ao avanço cientí- fico e tecnológico do bloco comunista (LOPES; MACEDO, 2011). Bobbitt (apud LOPES; MACEDO, 2011), um dos teóricos de currículo da época, defendia um currículo cuja função era preparar o aluno para a vida adulta economi- camente ativa a partir de dois conjuntos de atividades que deveriam ser igualmente considerados na escola: o que chama de currículo direto e de experiências indiretas. Dessa forma, o organizador do currículo deveria então determinar as grandes áreas da atividade humana encontradas na sociedade e subdividi-las em atividades menores, sendo esses os objetivos do curso. Esse modelo de currículo fica definido como tecnicista. Nessa concepção, os alunos podem ficar retidos por décimos não cumpridos dentro da avaliação da disciplina, o livro didático constitui um suporte para as disciplinas, a avaliação assume um destaque no cenário curricular e a estrutura da equipe gestora composta por diretor, coordena- dor serve para supervisionar o processo educativo. Outro destaque desse momento é o planejamento, sendo uma influência de um contexto fabril, tendo como berço teóri- co as ideias de Taylor e Fayol. Esse modelo não é muito distante da época atual, pois até hoje as escolas utilizam esses instrumentos na dinâmica das instituições. 12 13 De acordo Silva (2010), todas essas teorias citadas constituem-se como tradicio- nais, por não desenvolverem uma proposta crítica e por não questionarem o modelo social vigente. Faça uma recapitulação dos principais documentos e concepções das teorias tradicionais de educação que você conheceu até agora!Ex pl or No cenário da educação nos últimos 50 anos, questões relativas ao currículo têm ocupado um lugar diferente nas políticas nacionais e internacionais sobre educação, suscitando interessantes debates e discussões sobre a sua elaboração, implementa- ção e legislação. Autores importantes como Freire, Althusser, Bourdieu, Passeiron, entre outros, contribuíram no questionamento desse currículo e desse tipo de escola que reproduzia o sistema social. Dentre esses autores citados, podemos destacar o autor Paulo Freire, que con- tribuiu significativamente para a construção de uma nova Pedagogia, defendendo que o conhecimento das pessoas excluídas podia se tornar referência para debater o currículo dentro da sala de aula. Defendia que certa compreensão de mundo poderia transformar a vida das pessoas. Era contra a educação bancária, típica do currículo tradicional, em que o pro- fessor deposita o conhecimento em um aluno carecido de seus próximos pensamen- tos, devido à maneira de conduzir sua aula. Retratava o autor que essa forma de sistema somente reproduziria a estratificação das classes sociais, servindo o ensino de adestramento para a formação de massa de trabalho. A partir de todas essas discussões e efervescências de novos teóricos, houve uma mudança de direcionamento do currículo, do tradicional para o crítico, e hou- ve no Brasil a valorização das políticas públicas de educação. Retomando o período anterior, o sistema educacional brasileiro, por oferecer historicamente um atendimento dual e elitista, foi marcado por um modelo curricu- lar extremamente excludente e de baixa qualidade. A abordagem técnico-linear do currículo vigorou primeiramente, na década de 1940, nos Estados Unidos, esten- dendo-se aos demais países nos anos seguintes. No modelo técnico-linear, o currículo é concebido como uma atividade racional e neutra. Como instrumento de racionalização da atividade educativa, seu desen- volvimento depende estritamente da execução e da qualidade do planejamento.De acordo com Souza (2008, p. 10): As críticas a esse modelo tecnicista, a-histórico e descontextualizado, centra- do na prescrição e no planejamento curricular, desencadearam um conjunto de trabalhos críticos, na década de 1960 e 1970, na Inglaterra e nos Estados Unidos, responsáveis pela renovação dos estudos nessa área. Essa revisão crítica iniciou e consolidou-se no âmbito da Sociologia da Educação, consti- tuindo o que se convencionou denominar de teorias críticas. 13 UNIDADE Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos Decorrentes da contraposição ao modelo técnico-linear, as perspectivas críticas surgiram a partir da década de 1970 com a intenção de discutir as determinações sociais e suas relações com a estrutura de poder na sociedade, sendo a publicação de Michael Young (1971) a primeira corrente sociológica voltada para a problema- tização do currículo. De acordo com Souza (2008), dois movimentos de reconceptualização do currí- culo surgiram na época, sendo eles: • O Enfoque Histórico Hermenêutico: influenciado pelos estudos de Paulo Freire, que evidencia a experiência dos alunos e suas necessidades como centrais à cons- trução do currículo. No Brasil, Paulo Freire foi um dos pioneiros a denunciar e a demonstrar de forma consistente o descaso do sistema escolar brasileiro e seu ca- ráter discriminatório, opressor e a sua verdadeira intenção de destinar a educação apenas a uma elite; • Enfoque Neomarxista: conduzido por Michael Apple e Henry Giroux, que afir- mam que o currículo não pode ser separado da totalidade social e cultural, tratan- do-se especificamente de um ato político. Nas décadas de 1970 e 1980, na área da Sociologia da Educação, Bourdieu e Passeron também mostraram o caráter reprodutivo da escola, que inevitavelmente impacta em seu currículo. Ambos os enfoques, ao contrapor os princípios de regulação e controle social, colaboraram para abalar a hegemonia do paradigma tecnicista do currículo. De acordo com Souza (2008, p. 10): Dessa maneira, as teorias críticas do currículo de natureza sociológica passa- ram a escrutinar os conteúdos de ensino e sua transmissão, desnaturalizando o currículo, apontando-o como uma construção social e ressaltando as suas relações com o poder e com a produção de subjetividades. Na década de 1980, cenário de conquistas históricas na educação brasileira, configurou-se a tendência crítica do currículo, conforme apresentado por Souza (2008, p. 12): Já os anos 80 do século XX, viram florescer no Brasil o pensamento crítico sobre o currículo de natureza sociológica. Foram traduzidos no início da década de 1980 dois livros que influenciaram profundamente as propostas de reestruturação curricular ocorridas no país nesse período: Ideologia e Currículo, de Michael Apple (1982) e Pedagogia Radical, de Henry Giroux (1983). Esses autores influenciaram o pensamento curricular desenvolvido nos cursos de Pedagogia e nos programas de Pós-graduação em Educa- ção, os quais estavam consolidando nessa época. As contribuições dessas teorias clássicas no campo do currículo concentram-se na problematização da relação entre currículo, sociedade e poder. Fundamentado na abordagem neomarxista, Apple (1982), em sua crítica, aponta a escola como instituição de reprodução cultural, ou seja, instituição que reproduz e legitima de- terminadas desigualdades econômicas, sociais e culturais. 14 15 Para Souza (2008), até então, o predomínio de determinadas áreas de conheci- mento no currículo esteve relacionado ao papel da escola na seleção de indivíduos para ocuparem diferentes posições econômicas e sociais. Entende-se, dessa maneira, porque as Ciências Sociais, as Artes, a Edu- cação Física e as Humanidades em geral tendem a ser secundarizadas nos currículos escolares e a receberem menos recursos financeiros para o cus- teio de pesquisas científicas e projetos de desenvolvimento do currículo. (SOUZA, 2008, p. 17) Apple (1982) se preocupou em mostrar como as escolas se constituem como produtoras e reprodutoras da manutenção e do controle social, analisando a rela- ção entre ideologia e currículo. Para o autor, ideologia consiste em um conjunto de ideias que marcam a legitimação, o conflito de poder e o estilo de argumentação. Apple (1982, p. 127) atribuiu, para tal explicação, o conceito de currículo oculto, que se refere às “normas e valores que são implícitos, porém efetivamente trans- mitidos pelas escolas e que habitualmente não são mencionados na apresentação feita pelos professores dos fins e objetivos”. Em outras palavras, podemos dizer que o currículo oculto consiste no conjunto de concepções que o professor transfere aos alunos durante as aulas, sem que haja um planejamento prévio e sem que esse tenha consciência do que transmite. Dessa forma, pode-se afirmar que por meio do currículo oculto são disseminadas ideologias pertencentes a determinados grupos hegemônicos da sociedade. Souza (2008) traz uma interpretação importante acerca do currículo oculto: Reconhecer a existência do currículo oculto não deve levar os professores a um certo ceticismo e a um sentimento de culpa pelo fato de transmi- tirem, sem o desejarem, muitas vezes normas, valores ideologias a seus alunos. Na realidade a análise do currículo oculto deve servir para desmis- tificar a aparente neutralidade do ato pedagógico. A ideia de Souza (2008, p. 25), de que “todo currículo compreende uma seleção de elementos da cultura considerados válidos para serem transmitidos nas escolas”, nos revela que os conteúdos selecionados para compor o currículo são elementos legitimados culturalmente pela sociedade e que essa seleção não ocorre de forma dissociada das relações de poder. Assim, historicamente, as propostas curriculares desenvolvidas no Brasil a partir da década de 1980 foram fundamentadas nas perspectivas críticas, mantendo al- guns dos seus elementos e atribuindo-lhes novas dimensões e significados, surgindo uma nova concepção: a tendência teórico-prática do currículo. A dimensão processual do currículo, que atualmente prevalece no Brasil, pre- ocupa-se não só com as determinações políticas, mas também com as questões institucionais. Nesse sentido, o currículo adquire um papel dinâmico que envolve o currículo apresentado, prescrito e realizado, uma vez que, “é na sala de aula que o currículo se concretiza” (SOUZA, 2008, p. 35).UNIDADE 15 UNIDADE Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos Nesse novo paradigma de educação, o currículo se configura de maneira am- pliada e dinâmica, deixando de estar centrado somente nos conteúdos, sendo que nessa perspectiva: [...] o currículo não é pensado como uma ‘coisa’, como um programa ou cursos de estudos. Ele é considerado como um ambiente simbólico, material e humano, que é constantemente reconstruído. Este processo de planejamento envolve não apenas o técnico, mas o estético, o ético e o político, se quisermos que ele responda plenamente tanto ao nível pessoal quanto social. (APPLE, 1999, p. 210) Essa breve apresentação histórica sobre o currículo escolar mostra que em pleno século XXI as discussões sobre o currículo devem levar em consideração que: Tudo o que está em jogo no processo de ensino e aprendizagem, in- cluindo: as informações e os conhecimentos prévios que tanto os alunos como os professores possuem e aqueles que são construídos ao longo do processo educativo pela interação entre uns e outros; os conteúdos, planos e programas de estudo, assim como os dos materiais curricula- res e dos trabalhos de aula; os procedimentos utilizados para ensinar e aprender; a organização do espaço ocupado; o clima gerado; e o conhe- cimento construído resultante da interação entre todos os elementos. (TORRES, 1995, p. 14) Legislação e Currículo: Uma Abordagem Necessária Apesar de não lhe ser conferido o caráter legal, a Declaração Universal dos Di- reitos Humanos, em 1948, anunciou a educação como um direito de todos e para todos. O documento repercutiu, nas décadasseguintes, debates educacionais que culminaram na produção de diversos documentos, como declarações, leis, diretri- zes nacionais e internacionais, acerca da garantia do direito de acesso e permanên- cia no processo de escolarização. No Brasil, no ano de 1988, a Constituição Federal representou um “divisor de águas”. Nessa conjuntura, a educação foi compreendida como um direito inaliená- vel, prevendo e partilhando responsabilidades nos setores de investimento e acom- panhamento das políticas públicas. A análise dos artigos 205 e 206 da Constituição Brasileira mostram que esses se referem à abrangência de todas as possibilidades e condições para a efetivação de garantia do direito à educação. 16 17 Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios [...]: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liber- dade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; [...]. Sabendo que todo cu rrículo expressa uma leitura do contexto social, cultural e polí- tico, a oferta democrática do ensino e a garantia de direitos repercutiram diretamente nas discussões sobre o currículo escolar. Para o cumprimento da lei, coube a cons- trução de um novo currículo, tendo em vista a superação de modelos tradicionais e conservadores que, até então, acentuavam ainda mais as diferenças e injustiças sociais. A organização do ensino em séries, conteúdos rigidamente estabelecidos e um sistema de avaliação seletivo, classificatório e meritocrático, acabou constituindo-se como uma representação de escola incoerente aos princípios da Declaração Uni- versal dos Direitos Humanos (1948) e da Constituição Federal (1988). O caráter reprodutivo e seletivo do sistema educacional denunciado na metade do século XX, com a pressão em prol da democratização do ensino e com o reconheci- mento da educação como direito de todos, pôs adiante uma problemática complexa: Como desenvolver um currículo de qualidade para todos? Ex pl or A elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9.394, de 20 de Dezembro de 1996, é a primeira lei educacional a explicitar um conceito de educação e apontar a garantia de inclusão social. Com o fim do Regime Militar e o modelo econômico em processo de transformação, e com a promulgação da Cons- tituição Federal de 1988, ficou mais que evidente a necessidade de se redefinir os rumos da educação no país. A LDB n.º 9.394/96 apresenta avanços significativos sobre currículo ao assumir a concepção de educação em um sentido abrangente, englobando, além do processo de escolarização, a formação que ocorre no seio da família, na escola, no trabalho e na convivência em geral. Em consonância com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e a Constituição Federal (1988), os princípios da LDB n.º 9.394/96 são apresentados no Artigo 3º: 17 UNIDADE Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos I. Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II. Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pen- samento, a arte e o saber; III. Pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV. Respeito à liberdade e apreço à tolerância; V. Coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI. Gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII. Valorização do profissional da educação escolar; VIII. Gestão democrática do ens ino público, na forma desta lei e da legislação dos sistemas de ensino; IX. Garantia de padrão de qualidade; X. Valorização da experiência extra-escolar; XI. Vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos Uma proposta para a conquista da garantia de um padrão previsto no artigo 206, inciso VII, da Constituição Federal, pode ser a implementação da BNCC (Base Na- cional Comum Curricular) que foi entregue pelo Ministério da Educação ao Conse- lho Nacional de Educação no dia 6 de abril de 2017. Conforme a Lei n.º 9131/95, coube ao CNE, como órgão normativo do sistema nacional de educação, fazer a análise da proposta da BNCC para a produção de um parecer e de um projeto de resolução que, ao ser homologado pelo Ministro da Educação, transformou-se em uma normativa nacional. O CNE realizou audiências públicas regionais em alguns estados com exclusivo caráter consultivo, na intenção de colher subsídios para produzir a norma instituido- ra da Base Nacional Comum Curricular. Essas audiências foram importantes para que os conselheiros entendessem as posições e contribuições provenientes de diver- sas entidades e atores da sociedade civil e, assim, deliberassem os devidos ajustes para adequar a proposta da Base Nacional Comum Curricular, elaborada pelo MEC, ponderando as necessidades e diversidades da educação brasileira (BRASIL, 2018). No dia 22 de dezembro de 2017, foi publicada a Resolução CNE/CP n.º 2, que implementa e orienta a implantação da Base Nacional Comum Curricular a ser res- peitada obrigatoriamente ao longo das etapas e respectivas modalidades no âmbito da Educação Básica. Lembrando que a BNCC aprovada se refere à Educação In- fantil e ao Ensino Fundamental (BRASIL, 2018). A resolução n.º 2 do CNE institui: Art. 1º A presente Resolução e seu Anexo instituem a Base Nacional Co- mum Curricular (BNCC), como documento de caráter normativo que de- fine o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais como direito das crianças, jovens e adultos no âmbito da Educação Básica escolar, 18 19 e orientam sua implementação pelos sistemas de ensino das diferentes ins- tâncias federativas, bem como pelas instituições ou redes escolares. Parágrafo Único. No exercício de sua autonomia, prevista nos artigos 12, 13 e 23 da LDB, no processo de construção de suas propostas pedagó- gicas, atendidos todos os direitos e objetivos de aprendizagem instituídos na BNCC, as instituições escolares, redes de escolas e seus respectivos sistemas de ensino poderão adotar formas de organização e propostas de progressão que julgarem necessários. Dessa forma, através dessa resolução, pode-se perceber que as redes e sistemas poderão elaborar os seus currículos baseados nas propostas progressivas essenciais da BNCC. A nova base tem como proposta estabelecer os objetivos de aprendi- zagem que todas as escolas do país (públicas e privadas) devem estar preparados para garantir aos seus estudantes. Espera-se que a BNCC consiga estabelecer um conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os estudan- tes deverão alcançar em sua trajetória escolar, e que, nesse processo, oriente o de- senvolvimento e a implementação dos currículos da educação básica dos sistemas e das redes das distintas unidades federativas. Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – https://youtu.be/g2_9XIE18NA Ex pl or 19 UNIDADE Currículo: Aspectos Históricos e Legislativos Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Currículo Escolar - Elaboração e Implementação na Escola https://goo.gl/evThoA Declaração Universal dos Direitos Humanos https://goo.gl/CquRab Constituição Federal https://goo.gl/zaRrL Constituição Federal - LEI Nº 9.394, de 20 de Dezembro de 1996 https://goo.gl/QvfVfh Base Nacional Comum Curricular (BNCC) https://goo.gl/xlJzrN 20 21 Referências APPLE, M. A política do conhecimento oficial: faz sentido a ideia de um currículo nacional? In: MOREIRA, Antônio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Currículo, Cultura E Sociedade. São Paulo: Cortez Editora, 1999. APPLE, M. Ideologia e Currículo. SãoPaulo: Brasiliense, 1982. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1998 BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: . Acesso em: 09 out. 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de Histórica e Cul- tura Afro-Brasileira e Africana. Brasília, DF: MEC, 2004. Redação dada pela Lei nº. 10.639/2003. BRASIL. Ministério da Educação. Indagações sobre Currículo: currículo e desen- volvimento humano. Brasília, DF: Secretaria da Educação Básica, 2007. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacio- nal n.º 9.394, de Dezembro de 1996. Brasília, DF: MEC, 1997. KISHIMOTO, T. M. Propostas Pedagógicas e Currículo em Educação Infantil. Brasília, DF: Secretaria de educação fundamental, 1996. KRAMER, S. Propostas pedagógicas ou curriculares: subsídios para uma leitura crítica. Educação Sociedade. Campinas, ano XVIII, n. 60, dez. 1997. LOPES, A. C.; MACEDO, E. Teorias de Currículo. São Paulo: Cortez, 2011. OLIVEIRA, I. B; ALVES, N; BARRETO, R.G (Org.). Pesquisas em Educação métodos, temas e linguagens. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. I. Pérez. Compreender e Transformar o Ensino. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998. SAVIANI, Demerval. História das Ideias Pedagógicas no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2007. (Coleção memória da educação) SILVA, T. T. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. SILVA, T. T. 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Claudio Brites Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC • Introdução; • Currículo: Diferentes Abordagens, Tipos e Níveis; • Um Novo Suporte para os Currículos: BNCC. • Tratar das múltiplas interpretações sobre o conceito de currículo, considerando que a compreensão conceitual demanda de crenças e concepções educacionais e os de- safi os da BNCC dentro desse cenário. OBJETIVO DE APRENDIZADO Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafi os da BNCC Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC Contextualização Quino Os currículos não são conteúdos prontos a serem passados aos alunos. Trata-se de uma construção e seleção de conhecimentos e práticas produzi- das em contextos concretos e em dinâmicas sociais. (FERNANDES, 2007) Leia a charge: https://goo.gl/njLUkt Ex pl or Considerando a afirmação acima e a indignação que a personagem Mafalda ex- pressa no desfecho de um momento de curiosidade e descoberta, percebe-se que na situação de aprendizagem ilustrada na charge a transmissão de conhecimentos representa uma concepção de ensino, o que nos remete à temática dessa Unidade, às múltiplas interpretações de currículo. Para iniciarmos esta unidade, convidamos você a refletir acerca da questão: afi- nal, quais são essas interpretações sobre currículo? Informação Esta unidade de estudo – Currículo: múltiplas interpretações – destaca o caráter ideológico e cultural do currículo escolar e sua construção, a qual ocorre a partir de múltiplos fatores sociais. Na sequência, apresenta algumas interpretações e aborda- gens de currículo que se apresentam em diferentes tipos, níveis e categorias. Ao final, é apresentada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e sua representação, assim como os desafios dessa na atualidade. Apresenta-se ainda um conceito de cur- rículo escolar plural e integrado em torno das suas principais características. Durante a leitura, aproveite para registrar os aspectos que achar mais importantes e as dúvidas que surgirem. Boa leitura! 8 9 Introdução O currículo é um campo permeado de ideologia, relações de poder e também é in- separável da cultura. Tanto a teoria educacional tradicional quanto a teoria crítica veem no currículo uma forma institucionalizada de transmitir a cultura de uma sociedade. Esse encontro entre a ideologia e cultura se dá em meio a relações de poder na sociedade. Por isso, o currículo se torna um terreno propício para a transformação ou manutenção das relações de poder e, portanto, para as mudanças sociais. Deve-se considerar ainda que o currículo se refere a uma realidade histórica, cultural e socialmente determinada, e se reflete em procedimentos didáticos e ad- ministrativos que condicionam sua prática e teorização. A elaboração de um currículo é um processo social por relacionar-se diretamen- te com fatores lógicos, epistemológicos, intelectuais e determinantes sociais como poder, interesses, conflitos simbólicos e culturais, dirigidos por fatores ligados à classe, raça, etnia e gênero. Sacristán (1998) afirma que: O currículo é a ligação entre a cultura e a sociedade exterior à escola e à educação, entre o conhecimento e cultura herdados e a aprendizagem dos alunos; entre a teoria – ideias, suposições e aspirações – e a prática pos- sível, dadas determinadas condições. (SACRISTÁN, 1998, p. 61) O conceito de currículo é passível de múlti- plas interpretaçõese perspectivas, já que sua construção está intimamente ligada ao sujeito em processo de aprendizagem e ao universo de conhecimento. O currículo não é normal- mente o que se pensa – uma relação de disci- plinas ou uma lista de coisas a serem ensinadas –, é antes de tudo uma construção cultural e, para sua eficiência e contribuição social, deve ter aplicabilidade e apresentar resultados. O currículo torna-se um conceito polissêmico pelas diferentes formas como é encarado, ao longo do tempo e em função dos diversos contextos sociais, econô- micos e culturais da sociedade a que se destina. Figura 1 Fonte: Getty Images 9 UNIDADE Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC Currículo: Diferentes Abordagens, Tipos e Níveis McNeil (2001) apresenta as diferentes concepções de currículo por meio de uma classificação em quatro abordagens distintas: Currículo Acadêmico Dentre as orientações curriculares, é a que possui maior tradição histórica. Sua abordagem se baseia, principalmen- te, na estrutura do conhecimento, como um patrimônio cultural, transmitido às novas gerações. As disciplinas clássicas consagradas pela ciência representam ideias e valo- res que resistiram ao tempo e às mudan- ças socioculturais. Segundo McNeil (2001) a finalidade da educação, segundo o currículo aca- dêmico, é a transmissão dos conhecimentos vistos pela humanidade como algo inquestionável e principalmente como uma verdade absoluta. À escola, cabe de- senvolver o raciocínio dos alunos para o uso das ideias e processos mais provei- tosos ao seu progresso. Currículo Humanístico Tem como base teórica a tendência educacional denominada Escola Nova, essa abordagem defende que o currículo necessita levar em consideração a realidade dos alunos. Para McNeil (2001), no currículo com ênfase humanística, o foco se desloca do conteúdo disciplinar para o indivíduo. O aluno é visto como um ser individual, dotado de uma identidade pessoal que precisa ser descoberta, construída e ensi- nada. O currículo tem a função de propiciar experiências gratificantes, de modo a desenvolver sua consciência para a libertação e autorrealização. Currículo Tecnológico Tem sua base na tendência tecnicista, o comportamento e o aprendizado são moldados pelo professor, o detentor do conhecimento, cabe a ele planejar, progra- mar e controlar o processo educativo; ao aluno, agente passivo, compete absorver a eficiência técnica para atingir todos os objetivos propostos. Figura 2 Fonte: Getty Images Figura 3 Fonte: Getty Images 10 11 Currículo: Diferentes Abordagens, Tipos e Níveis McNeil (2001) apresenta as diferentes concepções de currículo por meio de uma classificação em quatro abordagens distintas: Currículo Acadêmico Dentre as orientações curriculares, é a que possui maior tradição histórica. Sua abordagem se baseia, principalmen- te, na estrutura do conhecimento, como um patrimônio cultural, transmitido às novas gerações. As disciplinas clássicas consagradas pela ciência representam ideias e valo- res que resistiram ao tempo e às mudan- ças socioculturais. Segundo McNeil (2001) a finalidade da educação, segundo o currículo aca- dêmico, é a transmissão dos conhecimentos vistos pela humanidade como algo inquestionável e principalmente como uma verdade absoluta. À escola, cabe de- senvolver o raciocínio dos alunos para o uso das ideias e processos mais provei- tosos ao seu progresso. Currículo Humanístico Tem como base teórica a tendência educacional denominada Escola Nova, essa abordagem defende que o currículo necessita levar em consideração a realidade dos alunos. Para McNeil (2001), no currículo com ênfase humanística, o foco se desloca do conteúdo disciplinar para o indivíduo. O aluno é visto como um ser individual, dotado de uma identidade pessoal que precisa ser descoberta, construída e ensi- nada. O currículo tem a função de propiciar experiências gratificantes, de modo a desenvolver sua consciência para a libertação e autorrealização. Currículo Tecnológico Tem sua base na tendência tecnicista, o comportamento e o aprendizado são moldados pelo professor, o detentor do conhecimento, cabe a ele planejar, progra- mar e controlar o processo educativo; ao aluno, agente passivo, compete absorver a eficiência técnica para atingir todos os objetivos propostos. Figura 2 Fonte: Getty Images Figura 3 Fonte: Getty Images O currículo tecnológico, concebido funda- mentalmente como método, tem como fun- ção identificar meios eficientes, programas e materiais para alcançar resultados previamen- te determinados. É expresso de várias formas: levantamento de necessidades, plano escolar sistêmico, instrução programada, sequências instrucionais e avaliação por desempenho. McNeil (2001) destaca que na perspectiva tecnológica de currículo a educação consiste na transmissão de conhecimentos, compor- tamentos éticos, práticas sociais e habilidades que propiciem o controle social. Currículo Reconstrucionista Social Tem como concepção teórica e meto- dológica a tendência histórico-crítica e tem como objetivo principal a transformação social e a formação crítica do sujeito. Para McNeil (2001), o reconstrucionismo social concebe homem e mundo de forma interativa, que a sociedade injusta e alienada pode ser transformada à medida que o sujeito, por meio da reflexão e consciência crítica, se assume como autor de seu próprio destino. Nessa perspectiva, a educação, é o agente social que promove mudanças. A visão social da educação e currículo consiste em provocar no indivíduo atitudes reflexivas sobre si e sobre o contexto em que está inserido, objetivando a intervenção conscien- te e libertadora sobre si e a realidade, de modo a alterar a ordem social. Sintetizando Quadro 1 Currículo Acadêmico Currículo Humanístico Currículo Tecnológico Currículo Reconstrucionista Social · Tendência Tradicional; · Foco na transmissão de conhecimentos. · Tendência Escola Nova; · Foco no aluno. · Tendência Tecnicista; · Foco no método e na padronização do saber; · Aluno passivo. · Tendência Histórico- Crítica; · Foco na formação crítica do sujeito e na transformação social. Antes, porém, de analisarmos os demais aspectos sobre o currículo, examinare- mos o tema central das discussões: o currículo escolar. Figura 4 Fonte: Getty Images 11 UNIDADE Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC Não há um consenso sobre o que é currículo, Moreira (1997, p. 11) escla- rece que isso ocorre por ser um conceito complexo, embora ressalte que as definições de currículo geralmente abrangem “um conhecimento escolar e ex- periências de aprendizagem”. No enfoque do conhecimento escolar, o currículo é o conhecimento tratado pedagógica e didaticamente pela escola e que deve ser aprendido e aplicado pelo aluno. Já no enfoque das experiências de aprendizagem, o currículo passa a sig- nificar o conjunto de experiências a serem vividas pelo educando sob a orientação da escola. De modo geral, pode-se tentar enquadrar o significado de currículo escolar em duas perspectivas: I. O currículo é identificado como um plano estruturado e organizado cuja elaboração deve seguir duas regras: a previsão e a precisão dos resultados; II. O currículo representa um conjunto de experiências educativas, identi- ficando-se como uma ideia em permanente construção e reformulação. Na primeira perspectiva, o currículo é identificado como um conjunto de conteú- do a ensinar e como um plano de ação, correspondendo a um plano de estudos ou a um programa, estruturado e organizado a partir de objetivos, conteúdos e ativida- des. Na segunda perspectiva, o currículo assume propósitos flexíveis e refere-se ao conjunto de experiências educativas vividas pelos alunos no contexto escolar, em uma proposta global do currículo ao contexto em que ele é desenvolvido, valorizan- do o papel do educador e educando, tendo em conta a importância de considerar suas experiências, saberes, atitudese crenças. Alguns estudos realizados sobre o currículo escolar a partir das décadas de 1960 e 1970 destacam a existência de vários níveis de currículo escolar: formal, real e oculto. Currículo Formal Esse nível refere-se ao currículo estabelecido pelos sistemas de ensino, é ex- presso em diretrizes curriculares, objetivos e conteúdos das áreas e disciplinas. É o currículo prescrito que traz institucionalmente conjuntos de diretrizes educacionais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), o Referencial Curricular Na- cional para Educação Infantil (1998) e a Base Nacional Comum Curricular (2017). O currículo formal se apresenta como o currículo vigente e é transmitido aos professores na forma de guias de ensino, projetos e livros didáticos. A partir de 2017, com o documento da BNCC aprovado passa a ser uma referência nacional obrigatória para processos de elaboração de currículo e materiais didáticos, de políticas de formação de professores, além de estabelecer critérios para avaliações externas. Vale ressaltar que ele não constitui um currículo, mas é suporte para a elaboração dos currículos estaduais e municipais. 12 13 Currículo Real É o currículo que acontece dentro da sala de aula com professores e alunos a cada dia em decorrência de um projeto pedagógico e dos planos de ensino, corresponde ao currículo operacional. A passagem entre o que é e o que se deseja, entre o ideal e o real, a teoria e a prática, determinam o currículo real. [...] é a efetivação do que foi planejado, mesmo que nesse caminho do planejar e do executar aconteçam mudanças, intervenção da própria experiência dos professores, decorrentes dos seus valores, crenças, significados. É currículo que sai da prática dos professores, da percepção e do uso que fazem do currículo formal, assim como o que fica na percepção dos alunos. (LIBÂNEO, 2004, p. 172) Currículo Oculto É o termo utilizado para denominar as influências que afetam a aprendizagem dos alunos e o trabalho dos professores. O currículo oculto representa tudo o que os alunos aprendem diariamente em várias práticas, atitudes, comportamentos, gestos, percepções, que vigoram no meio social e escolar. O currículo é oculto porque ele não aparece no planejamento do professor, mas sim nas relações cotidianas. O currículo oculto é representado pelas influências que afetam a aprendizagem dos alunos e o trabalho do professor proveniente da experiência cultural, dos valores e significados trazidos pelas pessoas de seu meio social e vivenciado na própria escola, ou seja, das práticas e experiências compartilhadas em escola e na sala de aula. (LIBANEO, 2004 p. 172) Segundo Silva (2003), o currículo oculto é constituído por todos aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita, para aprendizagens sociais relevantes. Assim o currículo escolar associa-se a um conjunto de esforços pedagógicos, podemos afirmar que é por intermédio do currículo que as “coisas” acontecem na escola. Daí a necessidade de constantes discussões e reflexões sobre o currículo, tanto o formalmente planejado e desenvolvido quanto o currículo oculto. Figura 5 Fonte: Getty Images Figura 6 Fonte: Getty Images 13 UNIDADE Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC De acordo com Sacristán (1998), o currículo escolar se define a partir da atividade de diferentes profissionais da educação, com competências e características múltiplas de intervenção, dispondo de mecanismos de ação e decisão próprios. Também apresenta outra distinção que ajuda a compreender os diferentes tipos de decisões e práticas que intervêm em cada nível de objetivação do currículo. Assim, esse autor considera: Quadro 2 a. Currículo prescrito: conjunto de prescrições ou orientações gerais definidas em um nível oficial; b. Currículo apresentado: conjunto de materiais pedagógicos, tais como guias de ensino e livros didáticos, elaborado com o objetivo de traduzir para os professores o significado e os conteúdos do currículo prescrito; c. Currículo moldado: cada professor molda o currículo com base na sua cultura profissional, nas orientações oficiais e nos conteúdos de guias e materiais didático-pedagógicos; refere-se aos planos de ação elaborados pelos docentes; d. Currículo em ação: concretização curricular que ocorre com a prática pedagógica em sala de aula. É o fazer pedagógico propriamente dito; e. Currículo realizado: o que é possível e passível de ser efetivado no período letivo e que se traduz nas aprendizagens dos alunos em relação aos conhecimentos trabalhos nas instituições educativas; f. Currículo avaliado: evidencia a relação entre currículo e as avaliações realizadas, pois trata do currículo formulado para atender às expectativas dos processos internos e externos de avaliação. Um currículo educacional não existe fora do contexto histórico social ao qual ele se destina. A política e os mecanismos educacionais intervêm na modelação do currículo e em determinadas concepções de educação. A organização do currículo reflete as demandas da sociedade para atender às múltiplas transformações e mudar a prática educativa. Essas modificações interfe- rem diretamente no papel da escola e do educador, pois o sucesso de uma mudan- ça curricular requer coerência e fundamentação para possibilitar sua aplicação e a obtenção de resultados positivos. Na década de 1990, a educação brasileira passou por transformações impac- tantes e necessárias para atender às solicitações sociais e educacionais. A promul- gação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) e a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e do Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (RCNEI) causaram um grande movimento pela reorgani- zação curricular do ensino no país, sendo as discussões a respeito das múltiplas concepções de currículo palco dessas mudanças. Mudanças na proposta curricular acarretam prescrições mínimas e diretrizes cur- riculares, isso implica em regulações nos conteúdos, nas aprendizagens básicas e nas orientações pedagógicas que podem ser complementadas por uma parte diver- sificada para atender à heterogeneidade cultural, mas não as substituir. O currículo prescrito impõe conteúdos mínimos na intenção de respeitar a igualdade de oportunidades de aprendizagem na rede pública e privada de ensino, mas a concretização de uma reorganização curricular dentro dos sistemas supõe condicionar o ensino, ou seja, mediar as mudanças prescritas. 14 15 Mesmo após um longo período desde a elaboração dos PCN (1997) e do RCNEI (1998), as escolas ainda buscavam organizar seus planos de ensino procurando atender as prescrições e orientações desses documentos, pois tais documentos não apresentam currículos prontos para orientar as escolas e seus professores quanto ao que e como ensinar. Além disso, pesquisas apontavam para a enorme distância existente entre currí- culos prescritivos (os dos documentos oficiais) e currículos reais (os da sala de aula, que os professores realizam), como também entre a realidade vivida pelos alunos e os conteúdos que constituem os currículos escolares. Essa distância ocorre, principalmente, pelo processo de globalização dos últimos anos e pelo avanço tecnológico. Daí, a necessidade de regulações nos currículos prescritos, tendo como base as demandas sociais e os interesses e as necessidades dos alunos e da comunidade escolar. Um Novo Suporte para os Currículos: BNCC Partindo desse pressuposto, a BNCC está sendo apresentada como uma aposta de mudança na elaboração dos currículos, a partir do estabelecimento de obje- tivos educativos a serem garantidos para todos os brasileiros como elemento de equidade e promoção da qualidade da educação para todos. Essas expectativas se efetivam nesse documento apresentando aprendizagens obrigatórias para todos os níveis e escolas de todo o país. Antes da publicação da BaseNacional Comum Curricular, o que ocorria dentro das instituições escolares, com a ausência de um referencial curricular obrigatório, era que os processos de aprendizagem eram definidos por duas fontes principais: por um lado, os livros didáticos, que constituíam uma proposta pedagógica de um currículo não declarado; e também pelas matrizes de avaliação padronizadas. Isso contribuiu para dois efeitos negativos: • primeiro, as avaliações padronizadas mensuram somente uma parte do que os sistemas educativos devem ensinar. Como culminância, aquilo que não entra na matriz avaliativa tende a não ser ensinado, uma vez que a mensagem transmitida é que seria de menos importância por não ser avaliada. O agravante é que nessa categoria não se enquadram várias aprendizagens procedimentais, de desenvolvimento de habilidades, atitudes, que, por não serem mensuradas, são retiradas desse tipo de avaliação em larga escala; • e em segundo lugar, também é impossível que provas padronizadas contemplem todos os saberes importantes para todas as comunidades, de modo que muitos conhecimentos são desconsiderados devido a sua pouca importância e, consequentemente, eliminados. 15 UNIDADE Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC Com a implementação da BNCC em 2017, os estados e municípios terão uma grande responsabilidade de desenvolver os seus currículos de forma a dar significado e qualidade ao ensino nas escolas, respeitando a diversidade de características regionais e continentais e, ao mesmo tempo, considerando a base de equidade de habilidade e competências propostas no documento. Afinal o que documentos curriculares devem conter? Ex pl or De acordo com Moder (2017), contêm: • Expectativas: projeções do que se espera que aconteça com a aprendizagem do estudante, dando clareza sobre o ponto de desenvolvimento das aprendiza- gens ao qual precisam estrategicamente conduzir seus educandos; • Experiências: o currículo em si não prescreve experiências, no entanto, to- das as expectativas de aprendizagem pressupõem uma base de experiências escolares que devem ser levadas em consideração. Por exemplo, a maioria dos currículos que vigoram em todo mundo contém expectativas de aprendiza- gem referidas a valores da sociedade, o que alguns chamam de competências sociais ou habilidades interpessoais e outros, competências do século XXI. De maneira geral, os currículos estabelecem entre suas expectativas de apren- dizagem algumas que não se desenvolvem isoladamente. Se pensarmos no desenvolvimento do pensamento crítico, sendo uma vertente fundamental para a participação democrática atual, esse é citado na maioria dos documentos curriculares atuais, porém é elemento que não se desenvolve somente com uma aula de uma determinada disciplina, pois não existe a “matéria de pensa- mento crítico” e são muitos os fatores que culminam para o seu desenvolvimento. Então, como se estabelecem esse tipo de aprendizagem e seus desdobramentos? Ex pl or Na verdade, pressupõe que na escola exista o movimento de desenvolver esse pensamento crítico, ou seja, os professores proporcionem momentos de leitura reflexiva, comparando diferentes versões sobre um mesmo tema. Desse modo, ofe- rece condições e espaços para que os educandos possam opinar e contrapor suas opiniões com as de seus companheiros. Assim, para que estimule o pensamento democrático, os estudantes deverão ter vivências nas quais vivam a democracia, com suas responsabilidades e direitos, e a instituição escolar, sendo o cenário para reforçar tais aprendizagens. De acordo com Moder (2017), para delimitar a amplitude das expectativas a serem indicadas, é relevante ter clareza sobre algumas diferenciações. Dentro do processo educacional, há três universos gerais que possibilitam que esse processo se estabeleça e que os alunos aprendam – que é o sentido final da educação. Esses universos a serem apresentados a seguir não são fragmentados e estan- ques. As linhas divisórias entre eles são sutis e tendem a se diluir, não ficando claro 16 17 onde termina um e inicia o outro. Diversas vezes, essa divisão também é motivo de deliberações das equipes de profissionais que desenvolvem ou gerenciam o currículo. • Universo curricular: compreendem-se as expectativas e as definições sobre o que se almeja atingir com a aprendizagem dos estudantes, bem como sobre os elementos que norteiam os educadores direcionando, assim, o seu trabalho; • Universo didático: refere-se às condições e às estratégias que serão empre- gadas na prática para que as aprendizagens possam acontecer. É o lugar prin- cipal para as decisões dos docentes, com o estabelecimento de estratégias, o que permitirá que os alunos alcancem as aprendizagens definidas ou descritas no currículo; • Universo avaliativo: refere-se às informações que o educador e o sistema podem colher sobre o que ocorre com os alunos em seu processo de aprendi- zagem; são, contudo, importantes para garantir o sucesso das aprendizagens. Tanto as avaliações realizadas pelos educadores quanto as avaliações padroni- zadas possuem função significativa no processo de aprendizagem ao disponibi- lizar informações sobre as quais são os avanços e as dificuldades que os alunos estão enfrentando em seu processo de aprendizagem. Esse é o verdadeiro foco da avaliação junto ao currículo. A BNCC foi elaborada para garantir a efetivação dos direitos de aprendizagem, com a intenção de articular de forma efetiva os universos citados acima. Além disso, desencadeia uma série de processos nas diferentes instâncias educativas que devem convergir na intenção do desenvolvimento integral dos alunos. Veja no diagrama a seguir a amplitude de responsabilidades de diversas instâncias para o sucesso da implementação do documento: Figura 7 Fonte: BNCC, 2018 17 UNIDADE Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC Ao observar o diagrama, pode-se perceber o grande movimento mobilizador, na parte mais externa do círculo, de órgãos responsáveis pela elaboração e imple- mentação da BNCC, como o Ministério da Educação (MEC), o Conselho Nacional de Educação (CNE), o Conselho Nacional de Secretário de Educação (CONSED), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME) e as secreta- rias municipais e estaduais de Educação, além da participação de pesquisadores, das organizações sociais, de equipes gestoras e professores que participaram das consultas públicas promovidas pelo CNE e seminários organizados pelo CONSED e pela UNDIME. Depois desse movimento inicial, na parte mais interna (de azul mais claro e verde claro), temos uma marcação direcionada ao movimento da reelaboração do currículo de estados e municípios e a revisão de políticas de formação para profissionais da rede, o que acarreta a revisão dos Projetos Políticos-pedagógicos (PPPs) e de outros documentos que orientam a prática de ensino das instituições escolares. De amarelo, constitui a atuação dos professores, que além de participar do acompanhamento do processo de consultas públicas, também promoverá o desenvolvimento das competências expressas no documento, na sala de aula. É fundamental que a equipe gestora e professores conheçam e compreendam a proposta, a estrutura e a lógica da organização do documento para a efetivação qualitativa da aprendizagem do aluno. Para reforçar todo esse conhecimento que você adquiriu sobre a BNCC, assista o vídeo: BNCC Apresentação https://youtu.be/TVHrqfwa6UQ; Qual é o papel da BNCC? https://youtu.be/0_Ou-JqbWTM. Ex pl or Será que posso, como professor, implementar o currículo de forma a contribuir com a equi- dade de ensino? De acordo com tudo que você estudou, na sua opinião, a BNCC pode fazer parte desse processo de melhoria? Ex pl or Nessa perspectiva do currículo, entendendo ser esse um plano que resulta de um modelo explicativo para o que deve ser ensinado e aprendido, a partir de indagações como: Visto como uma prática, o currículotraz, então, outras perspectivas diante de uma visão mais pedagógica, justamente devido ao fato de ser ele o responsável por tudo o que envolva a educação de uma forma geral. O quê? Para quem? Por quê? Quando e como o currículo será oferecido e utilizado? Figura 8 Fonte: Adaptado de Getty Images 18 19 Como destaca Sacristán (2000, p.15), “o currículo é a forma de ter acesso ao conhecimento, não podendo esgotar seu significado em algo estático, mas através das condições em que se realiza como uma forma particular de entrar em contato com a cultura.” O currículo deve ser entendido de uma forma concreta e dinâmica, que necessita de adaptações constantes para sua implementação nos espaços educativos. Todas as concepções de currículo aqui comentadas mostram uma pequena parte da amplitude de seus significados. O currículo é o coração da escola e o caminho que todos percorrem, nos diferentes níveis do processo educacional, sendo o pro- fessor peça fundamental na construção desse. Por isso, deve haver compromisso, participação crítica e colaborativa na elaboração ou regulações de currículos, para que sejam mais adequados para a atual conjuntura histórico-social e aos interesses e demandas da comunidade escolar. 19 UNIDADE Currículo: Múltiplas Interpretações Curriculares e Desafios da BNCC Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Vídeo da Base Nacional Comum Curricular feito pelo Ministério da Educação https://youtu.be/g2_9XIE18NA Vídeo da UNIVESP sobre os desafios da Educação e a BNCC https://youtu.be/bVTeB5y7Qwg Leitura Indagações Sobre Currículo Acessando o link a seguir, você terá a oportunidade de saber um pouco mais sobre as concepções curriculares. https://goo.gl/SvvFer Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 https://goo.gl/zaRrL 20 21 Referências BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacio- nal n.º 9.394, de dezembro de 1996. Brasília, DF: MEC, 1996. BRASIL. Parecer 22/98, discute as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília, DF: CNE/CEB, 1998. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacio- nais. Brasília: MEC/SEF, 1997. FERNANDES, Cláudia de Oliveira. Indagações sobre currículo: currículo e ava- liação. Brasília : Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007. GASPAR, M. I.; ROLDÃO. M. C. Elementos de Desenvolvimento Curricular. Lisboa: Universidade Aberta, 2007. LIBÂNEO, J. C. Organização e Gestão da escola: teoria e prática. 5. ed. Goiâ- nia: Alternativa, 2004. MCNEIL, J. O currículo. Campinas, SP: Editora, 2001. MODER, Max. Reflexões de apoio para o desenvolvimento curricular no Bra- sil: guia para gestores educacionais. Brasília, DF: Undime, 2017. MOREIRA, A. F. B. (Org.). Currículo: questões atuais. Campinas, SP: Papirus, 1997. PEREZ, Tereza (Org.). BNCC – A Base Nacional Comum Curricular na prática da gestão escolar e pedagógica. São Paulo: Moderna, 2018. ROLDÃO, M. C. Diferenciação Curricular Revisitada: conceito, discurso e prá- xis. Porto: Porto Editora, 2003. SACRISTÁN, J. Gimeno. O currículo: os conteúdos do ensino ou uma análise da prática? In: PÉREZ GÓMEZ, A. I.; SACRISTÁN, J. Gimeno. Compreender e transformar o ensino. Porto Alegre: Artmed, 1998. SACRISTÁN, J. Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 2000. SILVA, T. T. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. 21 Escola, Currículo e Sociedade Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Fabiana Granado Sampaio Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental • Introdução; • Sintetizando; • O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI); • Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental ; • As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). • Apresentar os aspectos legislativos que fixam a necessidade de conteúdos mínimos a serem desenvolvi- dos nos planos curriculares das escolas estaduais e municipais; • Abordar ainda dois documentos que regem o currículo oficial, sendo eles o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) e os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (1997) e a Base Nacional Comum Curricular (2017). OBJETIVOS DE APRENDIZADO O Currículo Escolar e os Documentos Ofi ciais: Educação Infantil e Ensino Fundamental Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE O Currículo Escolar e os Documentos Oficiais: Educação Infantil e Ensino Fundamental Contextualização Assim como a tirinha apresentada no link abaixo, cujo o personagem coloca diversas inquietações sobre o contexto escolar, assim, existem diversas inquietações acerca do currículo escolar: O quê? Como? Para quê? Por quê? E para quem en- sinar? São alguns dos questionamentos que permeiam cotidianamente o trabalho dos professores e da equipe pedagógica das escolas. https://goo.gl/FgMwbA Ex pl or Para sanar ou alimentar ainda mais as discussões sobre currículo, conheceremos alguns documentos oficiais que subsidiam e definem conteúdos mínimos ao público da educação infantil e do ensino fundamental no Brasil. Pronto para esta unidade? 8 9 Introdução O resgate histórico sobre o currículo escolar evidencia os desafios enfrentados nas últimas décadas em busca da garantia de uma escola democrática, em que todos os alunos tenham acesso a uma educação de qualidade. O ano de 1980, palco de grandes conquistas nos âmbitos educacional, econômico, político e social no Brasil, foi um “divisor de águas” no que se refere à democratização do Ensino Fundamental, atendendo às prescrições legais da educação como um direito social. A proposta de criação de uma base curricular não é recente. As discussões acer- ca do currículo escolar acompanham a Constituição Federal de 1988 que, desde então, determinou em seu Artigo 210 o dever do Estado em fixar “conteúdos mínimos para o Ensino Fundamental, de maneira a assegurar a formação básica comum e respeito