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52 LEI Nº 13.105, DE 16 DE MARÇO DE 2015. Código de Processo Civil. PARTE GERAL LIVRO I DAS NORMAS PROCESSUAIS TÍTULO ÚNICO - DAS NORMAS FUNDAMENTAIS E DA APLICAÇÃO DAS NORMAS PROCESSUAIS CAPÍTULO I - DAS NORMAS FUNDAMENTAIS DO PROCESSO CIVIL Lucas Casquer Mastrocola1 Pedro Bellentani Quintino de Oliveira2 Arts. 1º - 15 Art. 1º. O processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código. Tendo em vista o pleonasmo jurídico, para reforço de ideia, que traz o artigo primeiro, do Código de Processo Civil, tem-se que o legislador buscou, por meio do processo, um meio pelo qual se pudesse efetivar a tutela constitucional do próprio processo, no ambiente de constitucionalização do direito (JUNIOR; NERY, 2016, p. 195). Isto porque, ao que parece, há uma clara crescente de constitucionalização do Direito, no ordenamento jurídico brasileiro, e o Código de Processo Civil de 2015, recente como é, não pode deixar de seguir essa tendência. E é nesse diapasão que se faz o referido dispositivo legal, não no sentido de ser um novo ramo do direito processual, mas sim um ponto de vista metodológico, a partir do 1 Graduando em Direito pelo Centro Universitário do Norte Paulista (UNORP). 2 Graduado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Advogado. Mestre em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP - Franca. Especialista em Direito Empresarial pelo Programa de Pós- Graduação Lato Sensu da Faculdade Getúlio Vargas - FGV Direito São Paulo. Doutorando em Direito Constitucional pela Instituição Toledo de Ensino (ITE) - Bauru. Coordenador e Professor do Curso de Direito no Centro Universitário do Norte Paulista (UNORP) - São José do Rio Preto/SP. Membro do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do INCOR - São José do Rio Preto. 53 qual se examina o processo como um instrumento para efetivar valores constitucionais: desde a tutela de garantias fundamentais até a própria jurisdição constitucional, com a definição de competências dentro do Estado, em sua soberania. Ademais, há ainda importância à hermenêutica, vez que não se pode ter, por exemplo, aplicação literal ou dar sentido diverso, sem se observar os valores constitucionais, aos dispositivos do Código de Processo Civil – embora ainda seja de caráter pleonástico, pois, por óbvio, nenhuma norma infraconstitucional pode contrariar a Constituição Federal. Art. 2º. O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei. Apesar de haver casos excepcionais que são previstos em lei – por exemplo, o art. 712, do Código de Processo Civil, e 878, da Consolidação das Leis do Trabalho -, o juiz não pode iniciar o processo de ofício, mas sim aguardar a iniciativa da parte, para que não se tenha solapado o princípio da inércia da jurisdição; até por dever ser a Justiça imparcial, como pressuposto não só de existência, mas também de possibilidade, nos termos democráticos. Assim, uma vez iniciado o processo, deve-se haver impulsionamentos oficiais, que são atos do juiz e dos auxiliares da Justiça; e, especialmente, atos que devem ser praticados pelas partes ou que exigem a sua provocação, visando a efetivação de princípios como o interesse de agir, na busca da prestação jurisdicional, enquanto elementar do processo. Tanto que, caso não se pratique ato, cuja iniciativa competia-lhe, incide-se a contumácia, e, mais ainda, na condição de autor, pode ensejar até a extinção do processo sem resolução do mérito, nos termos dos incisos II e III, do artigo 485, deste códex. Art. 3º. Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito. § 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei. § 2º O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. § 3º A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial. Consoante direito e garantia fundamental, previsto no inciso XXXV, do artigo 5º, da Constituição Federal do Brasil de 1988, o referido dispositivo legal visa efetivar o 54 direito de ação, com acesso à justiça, a postular tutela jurisdicional, preventiva ou reparatória de direito individual, coletivo ou, até mesmo, difuso. Com isso, intende-se a tutela adequada, isto é, que detenha de eficácia, desta esperada, de sorte a ou garantir (ameaça) ou reparar (lesão) direito por lei garantido. Assim sendo, até a concessão de liminar relaciona-se, no sentido suscitado, a esta previsão legal e, por reflexo, constitucional, igualmente. Outrossim, conforme por todos sabido, traz o Código de Processo Civil de 2015, em seu bojo, uma maior preocupação e até dedicação para com o caráter conciliador, permitindo às partes a possibilidade de chegar-se a um mínimo de consenso, com resultado razoável a ambas, ao invés de ter-se decisão “unilateral”, por assim dizer, do magistrado. Por conseguinte, nos parágrafos deste artigo, há formas inovadoras a esta prestação, além de maior proteção. Sendo a primeira a arbitragem, que é a mais discutível, vez que essa só se concretiza em detrimento da prestação jurisdicional; quer dizer, em renúncia a esta, sem se poder pleitear na Justiça. Contudo, há inúmeras ressalvas, para que se possibilite a existência desta, havendo lei própria a regê-la, a Lei N.º 9.307, de 23 de setembro de 1996; salvaguardando, por exemplo, a possibilidade de revisão de sentença arbitral, em caso de litígio ou de nulidade. Ou seja, pode-se afirmar que a doutrina interpreta de duas formas a admissibilidade da arbitragem em nosso ordenamento, em vista do CF 5.º XXXV: (i) admitir a arbitragem implicaria renúncia à garantia de acesso ao Judiciário; (ii) a arbitragem é admita tendo em vista que o Poder Judiciário intervém em determinadas situações (RICCI, 2004, p. 194). No parágrafo segundo, há o estímulo à solução consensual, que passa a ser dever do Estado e, sempre que possível, deverá o juiz valer-se de medidas que criem, nos litigantes, a necessidade de tentar a conciliação; embora, por óbvio, deva o juiz, enquanto órgão de Estado, ater-se a como se dará a mencionada solução consensual. Por fim, há, também, a obrigação de estímulo à conciliação (participação mais efetiva do conciliador), à mediação (o mediador facilita o diálogo entre as partes) e a outros métodos de solução consensual de conflitos – inclusive, a alhures delineada arbitragem -; de modo a possibilitar tanto maior satisfação às partes quanto celeridade à Justiça, que são determinantes na lide, enquanto prestação jurisdicional. Art. 4º. As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa. 55 A despeito de o referido dispositivo legal mencionar razoável, não se tem no ordenamento jurídico brasileiro um prazo propriamente dito, adotando-se a teoria do ‘não- prazo’, pela qual se extrai a duração aceitável por meio de princípios, como o da proporcionalidade, e ao analisar caso a caso. Nesse mesmo diapasão, contudo, em sentido correlato, as palavras do outrora Ministro do Supremo Tribunal Federal, quando relator da ADI 3510, no ano de 2008, o ilustre Ayres Britto, vêm a calhar: Embora não se saiba exatamente o que é o razoável, o meio-termo, sabe-se, seguramente, o que é absurdo, esdrúxulo e totalmente desproporcional... E com isto é possível ter-se um bom caminho, uma direção, para que se cheque ao razoável e ao que é do maior bom-senso possível. Quer dizer, ainda que não tenha o legislador fixado prazos específicos, quando da duração razoável do processo,sobre o ordenamento jurídico e sobre processos administrativos ou jurisdicionais findos ou em curso; (II) colheita de provas, salvo se a medida for adotada em processo, em curso no estrangeiro, de competência exclusiva de autoridade judiciária brasileira; (III) qualquer outra medida judicial ou extrajudicial não proibida pela lei brasileira. Art. 31. A autoridade central brasileira comunicar-se-á diretamente com suas congêneres e, se necessário, com outros órgãos estrangeiros responsáveis pela tramitação e pela execução de pedidos de cooperação enviados e recebidos pelo Estado brasileiro, respeitadas disposições específicas constantes de tratado. Independentemente de o auxílio direto ser ativo ou passivo, a autoridade central brasileira, em regra o Ministério da Justiça, deverá será acionada para dar prosseguimento aos contatos necessários com suas congêneres ou outros órgãos responsáveis estrangeiros pela tramitação e execução dos pedidos de cooperação internacional, respeitadas as disposições específicas constantes de tratado. Art. 32. No caso de auxílio direto para a prática de atos que, segundo a lei brasileira, não necessitem de prestação jurisdicional, a autoridade central adotará as providências necessárias para seu cumprimento. Quando requisitado auxílio direto por Estado estrangeiro que tenha como objeto um ato que independe de prestação jurisdicional, é incumbência da autoridade central, geralmente o Ministério da Justiça, tomar as providências para seu cumprimento. Art. 33. Recebido o pedido de auxílio direto passivo, a autoridade central o encaminhará à Advocacia-Geral da União, que requererá em juízo a medida solicitada. Parágrafo único. O Ministério Público requererá em juízo a medida solicitada quando for autoridade central. Nos casos em que o pedido de auxílio internacional efetuado por Estado estrangeiro tenha como objeto uma providência que depende de ato judicial, a autoridade central, que em regra será o Ministério da Justiça, deverá, caso recepcionado o pedido, encaminhá-lo para a Advocacia-Geral da União, que é o encarregado pela requisição em juízo da medida solicitada. Há também a possibilidade exposta no parágrafo único, que positiva que, caso 83 forem conferidas ao Ministério Público as funções de autoridade central, no procedimento da cooperação internacional, ele próprio requererá em juízo a medida solicitada, sem intervenção da Advocacia-Geral da União. Art. 34. Compete ao juízo federal do lugar em que deva ser executada a medida apreciar pedido de auxílio direto passivo que demande prestação de atividade jurisdicional. Tal dispositivo diz respeito a competência do processamento da requisição da Advocacia-Geral da União, ou extraordinariamente do Ministério Público. Portanto, caberá ao Juízo Federal do lugar da execução da providência. A competência da Justiça Federal é justificada em função da conexão internacional; quanto ao lugar da execução como critério, a fundamentação se baseia na premissa de a proximidade com o objeto potencializa as chances de ser alcançado resultado útil. Seção III - Da Carta Rogatória Rafael Bussolote Finotti Silva Tiago Clemente Souza Art. 35. (VETADO). “Art. 35. Dar-se-á por meio de carta rogatória o pedido de cooperação entre órgão jurisdicional brasileiro e órgão jurisdicional estrangeiro para prática de ato de citação, intimação, notificação judicial, colheita de provas, obtenção de informações e cumprimento de decisão interlocutória, sempre que o ato estrangeiro constituir decisão a ser executada no Brasil.” Razões do veto: “Consultados o Ministério Público Federal e o Superior Tribunal de Justiça, entendeu-se que o dispositivo impõe que determinados atos sejam praticados exclusivamente por meio de carta rogatória, o que afetaria a celeridade e efetividade da cooperação jurídica internacional que, nesses casos, poderia ser processada pela via do auxílio direto.”9 9 CARTA ROGATÓRIA - COLABORAÇÃO - INEXISTÊNCIA DE TRATADO. A inexistência de tratado entre o país no qual situada a Justiça rogante e o Brasil não obstaculiza o cumprimento de carta rogatória, implementando-se atos a partir do critério da cooperação internacional no combate ao crime. CARTA ROGATÓRIA - OBJETO - DADOS DE PROCESSOS EM CURSO NO BRASIL E COLETA DE DEPOIMENTOS. O levantamento de dados constantes de processos em andamento no Brasil não implica a quebra do sigilo assegurado pela Carta da República, ante a publicidade que os reveste. No tocante à coleta de 84 Art. 36. O procedimento da carta rogatória perante o Superior Tribunal de Justiça é de jurisdição contenciosa e deve assegurar às partes as garantias do devido processo legal. § 1º A defesa restringir-se-á à discussão quanto ao atendimento dos requisitos para que o pronunciamento judicial estrangeiro produza efeitos no Brasil. § 2º Em qualquer hipótese, é vedada a revisão do mérito do pronunciamento judicial estrangeiro pela autoridade judiciária brasileira. Desprende-se do artigo que o procedimento da carta rogatória é de competência originária do Superior Tribunal de Justiça. É também expresso que que o procedimento será contencioso, devendo, por isso, assegurar às partes as garantias do devido processo legal, como manda o caput. Tal defesa, contudo, está limitada a discussão quanto ao cumprimento ou não dos requisitos para que a declaração estrangeira judicial produza efeitos no Brasil. Não há, em hipótese nenhuma, a possibilidade de a autoridade do judiciário brasileiro rever o mérito do pronunciamento judicial estrangeiro. Seção IV- Disposições Comuns às Seções Anteriores Rafael Bussolote Finotti Silva Tiago Clemente Souza Art. 37. O pedido de cooperação jurídica internacional oriundo de autoridade brasileira competente será encaminhado à autoridade central para posterior envio ao Estado requerido para lhe dar andamento. Em caso de cooperação jurídica internacional ativa, o dispositivo prenuncia que o pedido será encaminhado à autoridade central para posterior envio ao Estado requerido para lhe dar andamento. Relembramos que por força do § 4o do art. 26, a função de autoridade central, na ausência de designação específica, será do Ministério da Justiça. Art. 38. O pedido de cooperação oriundo de autoridade brasileira competente e os documentos anexos que o instruem serão encaminhados à autoridade central, acompanhados de tradução para a língua oficial do Estado requerido. depoimentos, descabe examinar o envolvimento, ou não, no processo em curso no estrangeiro, daqueles que devem ser ouvidos, sob pena de mesclagem de jurisdições. (CR 9854 AgR, Relator(a): MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 28/05/2003, DJ 27-06-2003 PP-00043 EMENT VOL-02116-02 PP-00393) 85 Ainda nos casos de cooperação jurídica ativa, não só o pedido, oriundo de autoridade brasileira competente, como também os documentos anexos que o instruem, serão encaminhados à autoridade central, acompanhados de tradução para a língua oficial do Estado requerido. Portanto, incumbe a autoridade que requer a tomada de providências em país estrangeiro a tarefa de tradução, e não a autoridade central. Art. 39. O pedido passivo de cooperação jurídica internacional será recusado se configurar manifesta ofensa à ordem pública. Há formalizado no CPC/15 uma hipótese de rejeição do pedido de cooperação jurídica internacional feito por país estrangeiro. Sendo assim, por força deste dispositivo, o pedido será recusado se configurar manifesta ofensa à ordem pública. Percebe-se então que há competência da autoridade central para analisar o mérito da questão, restrito a ofensa à ordem pública. A formalização é importante e reafirma a soberania do que aquise entende como direito no espaço de jurisdição brasileira. Lembra Humberto Theodor Júnior que não se procederá pelas vias de cooperação jurídica internacional aos atos de execução de decisão estrangeira, caso em que se adotará o regime de carta rogatória ou de ação de homologação de sentença estrangeira, com exceção de cumprimento de decisões interlocutórias e de despachos que ordenem citação, intimação, notificação judicial, colheita de provas e obtenção de informações.10 Art. 40. A cooperação jurídica internacional para execução de decisão estrangeira dar-se-á por meio de carta rogatória ou de ação de homologação de sentença estrangeira, de acordo com o art. 960 . Leciona o art. 7°, da Resolução n.° 9/2005, do STJ “As cartas rogatórias podem ter por objeto atos decisórios ou não decisórios”. Coube ao CPC/15 então dar legitimação formal a previsão. Lembramos que a homologação de sentença estrangeira está objetivamente associada a decisões definitivas e sujeita a juízo de determinação do STJ. Por sua vez, a carta rogatória está objetivamente associada a atos ordinatórios, bem como a decisões interlocutórias, que visam a concessão do exequatur ao ato estrangeiro. Quaisquer das medidas dão eficácia as decisões estrangeiras no Brasil. 10 THEODORO JR, Humberto. Novo Código de Processo Civil. 21ª Edição. Rio de Janeiro: Forense. 2018. p. 112. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art960 86 Art. 41. Considera-se autêntico o documento que instruir pedido de cooperação jurídica internacional, inclusive tradução para a língua portuguesa, quando encaminhado ao Estado brasileiro por meio de autoridade central ou por via diplomática, dispensando-se ajuramentação, autenticação ou qualquer procedimento de legalização. Parágrafo único. O disposto no caput não impede, quando necessária, a aplicação pelo Estado brasileiro do princípio da reciprocidade de tratamento. Foram reduzidas as formalidades da cooperação. Quando o envio do pedido de cooperação jurídica internacional for realizado por meio de autoridade central ou por via diplomática, a ajuramentação, autenticação ou qualquer procedimento de legalização, inclusive tradução para a língua portuguesa. Todavia, quando necessário, o Estado brasileiro poderá aplicar o princípio da reciprocidade de tratamento, caso o país de origem, por exemplo, exija ajuramentação, autenticação ou qualquer procedimento de legalização de pedido de cooperação provindo do Brasil. TÍTULO III- DA COMPETÊNCIA INTERNA CAPÍTULO I - DA COMPETÊNCIA Seção I Disposições Gerais Eduardo Jannone da Silva11 Arts. 42 – 63 Art. 42. As causas cíveis serão processadas e decididas pelo juiz nos limites de sua competência, ressalvado às partes o direito de instituir juízo arbitral, na forma da lei. Esta matéria era regulamentada pelo art. 86, do CPC/73, possuindo assento constitucional na dicção do art. 5°, XXXV, da CF/1988 e correlação com a Lei Federal n° 9.307/1996. O dispositivo em exame revela que a função jurisdicional titularizada pelo Estado restou atribuída, pelo ordenamento jurídico vigente, aos órgãos que integram o Poder Judiciário. A competência (que é ligada ao órgão “juízo” e não ao agente “juiz”), por sua vez e nas lições de Liebman (1980), representa a “quantificação da jurisdição”, não podendo essa mesma competência, porém, limitar a jurisdição, vez que “o órgão jurisdicional possui jurisdição plena em seu âmbito de atuação” (WAMBIER; ALMEIDA, 2007, p. 93). 11 Doutor em Ciências – Fonoaudiologia – Processos e Distúrbios da Comunicação – Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de São Paulo (2016 a 2019); Mestre em Direito – Sistema Constitucional Instituição Toledo de Ensino de Bauru/SP (2006 a 2008); Bacharel em Direito - Faculdade de Direito de Bauru - Instituição Toledo de Ensino de Bauru/SP (1995 a 1999); Advogado. 87 Assim como já preconizava o art. 86, do CPC/73, o CPC/2015 facultou às partes convencionar que a lide seja submetida à jurisdição arbitral, desde que dentro dos limites fixados na Lei Federal n° 9.307/1996. Em verdade, entende-se que a jurisdição estatal deve cooperar com a jurisdição arbitral, realizado a primeira aquilo que desborda da atribuição legal do árbitro. Ademais, e em existindo dúvida sobre se determinada lide deve ser resolvida por juiz estatal ou por árbitro, é esse último quem, ao menos em um primeiro momento, deve se manifestar a respeito (cf.: arts. 8º, parágrafo único, 20, 32 e 33, todos da Lei Federal n° 9.307/1996; art. 485, VII, 2ª Parte, do CPC/2015; STJ, REsp 1.302.900/MG, rel. Min. Sidnei Beneti, 3ª T., j. 09.10.2012; STJ, REsp 1.278.852/MG, rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4ª T., j. 21.05.2013), ainda que, posteriormente, possa haver manifestação judicial sobre a questão. Ainda, e sendo a decisão proferida por juízo estatal absolutamente incompetente, mesmo assim terá havido prestação jurisdicional – razão pela qual seus efeitos deverão ser conservados até que outra decisão seja proferida pelo juízo competente. Em caso de decisão proferida por árbitro fora dos limites da jurisdição arbitral, e uma vez intentada a ação correspondente objetivando infirmar tal decreto decisório (art. 20, da Lei Federal n° 9.307/1996), a mesma “ratio” deve ser aplicada. Art. 43. Determina-se a competência no momento do registro ou da distribuição da petição inicial, sendo irrelevantes as modificações do estado de fato ou de direito ocorridas posteriormente, salvo quando suprimirem órgão judiciário ou alterarem a competência absoluta. Esta matéria era regulamentada pelo art. 87, do CPC/73. A competência é abstratamente disciplinada pelo sistema jurídico. Assim, e uma vez ajuizada a demanda, implementa-se a fixação da competência, que, em regra, não deverá ser modificada, exceto em caso de posterior supressão de órgão judiciário ou modificação que verse sobre competência absoluta. Nesse sentido, por exemplo, o comando da Súmula 58 do STJ: “Proposta a execução fiscal, a posterior mudança de domicílio do executado não desloca a competência já fixada”. Porém, e caso exista sentença proferida anteriormente à modificação de regra jurídica de competência absoluta (competência em razão da matéria ou da hierarquia), tem- se por válido o decisum (cf.: STF, CC 6967-RJ, rel. Min. Sepúlveda Pertence; STJ, AgRg no Ag 691.994/SP, 3ª T., rel. Min. Sidnei Beneti, j. 18.09.2008; Súmula 367 do STJ: “A competência estabelecida pela EC n. 45/2004 não alcança os processos já sentenciados”). 88 Em hipótese de competência relativa, e objetivando proteger a parte, o legislador preconizou a regra da estabilização da competência (perpetuatio jurisdictionis), de modo a obstar a alteração do lugar do processo em havendo modificações supervenientes do estado de fato ou de direito. Art. 44. Obedecidos os limites estabelecidos pela Constituição Federal , a competência é determinada pelas normas previstas neste Código ou em legislação especial, pelas normas de organização judiciária e, ainda, no que couber, pelas constituições dos Estados. Esta matéria era regulamentada pelo art. 91, do CPC/73, também possuindo relação com o art. 93 daquele diploma. Ainda, tem assento constitucional na dicção do art. 125, §1°, da CF/1988 e correlação com o art. 22, da Lei Complementar Federal n° 35/1979 (Lei Orgânica da Magistratura Nacional), com o art. 2º, caput, da Lei Federal n° 7.347/1985 (Lei da Ação Civil Pública), com o art. 93, da Lei Federal n° 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor) e com art. 3°, §2°, da Lei Federal n° 9.099/1995 (Juizados Especiais). O Poder Judiciário, para prestar a jurisdição com eficiência, necessitou dividir suas atividades entre os diversos órgãos queo compõe, se valendo, para tanto, de variados critérios - seja para compor uma racionalizada distribuição de trabalho, seja porque o julgamento de determinados temas requer a dedicação de um órgão especializado (cf. comentário ao art. 62 do CPC/2015 sobre competência funcional; comentário aos arts. 64 e 65 do CPC/2015 sobre competência absoluta e relativa e prorrogação da competência). Para se definir o juízo competente perante o qual a ação deverá ser ajuizada, deve- se atentar para os seguintes critérios: (1) funcional; (2) matéria a ser decidida; (3) territorial; (4) valor. Por primeiro, necessário se faz inferir se o caso é de competência funcional originária de algum tribunal (sobre a competência originária do STF e do STJ, cf., respectivamente, arts. 102, I, e 105, I, da CF/1988), sendo que, nos termos do § 1º, do art. 125, da CF/1988, “a competência dos tribunais será definida na Constituição do Estado”. Vencida tal análise preambular, se indaga se o caso é de competência de justiça especializada. Na sequência, e em se tratando de competência da justiça comum, se avalia se seria federal (ratione personae - art. 109 da CF/1988) ou estadual (residual). Uma vez identificado que se trata de justiça estadual ou federal, ainda se indaga qual o foro territorialmente competente (comarca ou seção judiciária, conforme se trate, respectivamente, de justiça estadual ou federal - cf. arts. 46 ss. do CPC/2015). Em complemento, se investiga se há vara especializada no juízo territorialmente competente. Em se tratando de juízo competente para a ação civil pública, a competência é absoluta, tratando-se, em princípio, de critério de competência funcional (cf. comentário aos http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm 89 arts. 62 e 63 do CPC/2015). Porém, e em caso de dano de alcance nacional, há competência concorrente entre os juízos da capital do Estado e o do Distrito Federal, cuidando-se, portanto, de competência relativa (cf. art. 2º, caput, da LACP – Lei Federal n° 7.347/1985, c/c art. 93 do CDC – Lei Federal n° 8.078/1990). Em se tratando de julgamento de causas de menor complexidade (cuja competência também considera o critério do valor), o juízo competente será o dos Juizados Especiais Cíveis (art. 3º, da Lei Federal n° 9.099/1995), o qual, contudo, não tem competência absoluta - diversamente do que ocorre com o Juizado Especial Federal (art. 3º, § 3º, da Lei Federal n° 10.259/2001) e o da Fazenda Pública (art. 2º, § 4º, da Lei Federal n° 12.153/2009). Em existindo, na mesma seção judiciária, vara cível federal e de juizado especial federal, este terá competência absoluta (art. 3º, § 3º, da Lei Federal n° 10.259/2001), assim como ocorre com os Juizados Especiais da Fazenda Pública (cf. art. 2º, § 4º da Lei Federal n° 12.153/2009). Por derradeiro, e quanto a matéria em análise, deve-se observar as seguintes súmulas e repetitivo do C. Superior Tribunal de Justiça: Súmula 1: “O foro do domicílio ou da residência do alimentando é o competente para a ação de investigação de paternidade, quando cumulada com a de alimentos”; Súmula 4: “Compete à Justiça Estadual julgar causa decorrente do processo eleitoral sindical”; Súmula 10: “Instalada a Junta de Conciliação e Julgamento, cessa a competência do Juiz de Direito em matéria trabalhista, inclusive para a execução das sentenças por ele proferidas”; Súmula 11: “A presença da União ou de qualquer de seus entes, na ação de usucapião especial, não afasta a competência do foro da situação do imóvel”; Súmula 15: “Compete à Justiça Estadual processar e julgar os litígios decorrentes de acidente do trabalho”; Súmula 32: “Compete à Justiça Federal processar justificações judiciais destinadas a instruir pedidos perante entidades que nela têm exclusividade de foro, ressalvada a aplicação do art. 15, II, da Lei 5.010/66”; Súmula 33: “A incompetência relativa não pode ser declarada de ofício”; Súmula 34: “Compete à Justiça Estadual processar e julgar causa relativa a mensalidade escolar, cobrada por estabelecimento particular de ensino”; Súmula 46: “Na execução por carta, os embargos do devedor serão decididos no juízo deprecante, salvo se versarem unicamente vícios ou defeitos da penhora, avaliação ou alienação dos bens”; Súmula 57: “Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar ação de cumprimento fundada em acordo ou convenção coletiva não homologados pela Justiça do Trabalho”; Súmula 58: “Proposta a execução fiscal, a posterior mudança de domicílio do executado não desloca a competência já fixada”; Súmula 66: “Compete à Justiça Federal processar e julgar execução fiscal promovida por Conselho de Fiscalização Profissional”; Súmula 82: “Compete à Justiça Federal, excluídas as reclamações trabalhistas, processar e julgar os feitos relativos a movimentação do FGTS”; Súmula 97: “Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar reclamação de servidor público relativamente a vantagens trabalhistas anteriores à instituição do regime jurídico único”; Súmula 137: “Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar ação de servidor público municipal, pleiteando direitos relativos ao vínculo estatutário”; Súmula 170: “Compete ao juízo onde primeiro for intentada a ação de acumulação de pedidos, trabalhista e estatutário, decidi-la nos limites da sua jurisdição sem prejuízo do ajuizamento de nova causa, com o pedido remanescente, no juízo próprio”; Súmula 171: “Cominadas cumulativamente, em lei especial, penas privativa de liberdade e pecuniária, é defeso a substituição da prisão por multa”; Súmula 172: “Compete a Justiça Comum processar e julgar 90 militar por crime de abuso de autoridade, ainda que praticado em serviço”; Súmula 173: “Compete à Justiça Federal processar e julgar o pedido de reintegração em cargo público federal, ainda que o servidor tenha sido dispensado antes da instituição do Regime Jurídico Único”; Súmula 480: “O juízo da recuperação judicial não é competente para decidir sobre a constrição de bens não abrangidos pelo plano de recuperação da empresa”; REsp (repetitivo) 1.111.159/RJ: “1. Demanda envolvendo questões referentes ao empréstimo compulsório sobre energia elétrica proposta unicamente contra a Eletrobrás, perante a justiça estadual. Na hipótese, a União requereu o ingresso no feito, com fundamento nos arts. 5.º, da Lei 9.469/1997 e 50, do CPC de 1973, após a prolação da sentença pela justiça estadual. 2. No que se refere à competência para dirimir questões referentes ao empréstimo compulsório sobre energia elétrica, a jurisprudência desta Corte se firmou no sentido que a competência da justiça federal é definida em razão das partes litigantes e não da matéria em discussão, de sorte que, sendo a demanda proposta unicamente em desfavor da Eletrobrás, a competência para sua apreciação é da justiça estadual, ao passo que, ingressando a União no feito, a competência passa a ser da justiça federal, por força do que determina o art. 109, inciso I, da Constituição Federal. 3. O pedido de intervenção da União realizado após a prolação da sentença enseja tão somente o deslocamento do processo para o Tribunal Regional Federal, para que examine o requerimento de ingresso na lide e prossiga (se for o caso) seu julgamento, sem a automática anulação da sentença proferida pelo juízo estadual”. Art. 45. Tramitando o processo perante outro juízo, os autos serão remetidos ao juízo federal competente se nele intervier a União, suas empresas públicas, entidades autárquicas e fundações, ou conselho de fiscalização de atividade profissional, na qualidade de parte ou de terceiro interveniente, exceto as ações: I - de recuperação judicial, falência, insolvência civil e acidente de trabalho; II - sujeitas à justiça eleitoral e à justiça do trabalho. § 1º Os autos não serão remetidos se houver pedido cuja apreciação seja de competênciado juízo perante o qual foi proposta a ação. § 2º Na hipótese do § 1º, o juiz, ao não admitir a cumulação de pedidos em razão da incompetência para apreciar qualquer deles, não examinará o mérito daquele em que exista interesse da União, de suas entidades autárquicas ou de suas empresas públicas. § 3º O juízo federal restituirá os autos ao juízo estadual sem suscitar conflito se o ente federal cuja presença ensejou a remessa for excluído do processo. Esta matéria não possuía dispositivo correspondente no CPC/73, sendo tão somente relacionada com o art. 99 daquele diploma. Ainda, tem assento constitucional na dicção do art. 109, I e §1°, da CF/1988 e correlação com o art. 2º, da Lei Federal n° 12.016/2009 (Mandado de Segurança). No tocante à competência da Justiça Federal, temos que a mesma é disciplinada pelo disposto no art. 109 da Constituição Federal, tendo o constituinte originário excluído expressamente a competência da Justiça Federal para julgar feitos de falência, acidente de trabalho e sujeitos à justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho (CF/1988, art. 109, I), tendo as redações dos incisos do art. 45, caput, do CPC/2015 seguido tal diretriz. O mesmo art. 109 da Constituição Federal, também em seu inciso I, estatuiu que competirá à Justiça Federal julgar as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa 91 pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes (exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho), sendo que, em havendo intervenção no feito formulado pela União, esse deve ser deslocado para a Justiça Federal para a análise do pedido (cf. art. 45, caput do CPC/2015; Súmulas 218 e 365 do STJ; Repetitivo REsp 1.111.159/RJ). Contudo, e se excluído do processo o ente federal, os autos devem ser restituídos ao juízo estadual, sendo incabível a suscitação de conflito de competência (cf. § 3º, do art. 45 do CPC/2015 e Súmula 224 do STJ). Ainda, em se tratando de Ação de Mandado de Segurança impetrado contra ato de dirigente de instituição particular de ensino superior e de acordo com o estatuído no art. 2º da Lei 12.016/2009, vem decidindo o STJ que a competência será federal quando a impetração voltar-se contra ato de dirigente de universidade pública federal ou de universidade particular; diversamente, a competência será estadual quando o writ for impetrado contra dirigentes de universidades públicas estaduais e municipais, componentes do sistema estadual de ensino (cf. STJ, CC 113.305/TO, decisão monocrática, j. 25.05.2011, rel. Min. Cesar Asfor Rocha). Art. 46. A ação fundada em direito pessoal ou em direito real sobre bens móveis será proposta, em regra, no foro de domicílio do réu. § 1º Tendo mais de um domicílio, o réu será demandado no foro de qualquer deles. § 2º Sendo incerto ou desconhecido o domicílio do réu, ele poderá ser demandado onde for encontrado ou no foro de domicílio do autor. § 3º Quando o réu não tiver domicílio ou residência no Brasil, a ação será proposta no foro de domicílio do autor, e, se este também residir fora do Brasil, a ação será proposta em qualquer foro. § 4º Havendo 2 (dois) ou mais réus com diferentes domicílios, serão demandados no foro de qualquer deles, à escolha do autor. § 5º A execução fiscal será proposta no foro de domicílio do réu, no de sua residência ou no do lugar onde for encontrado. Esta matéria era regulamentada pelo art. 94, do CPC/73, também possuindo correlação com os arts. 70 a 78 do CC/2002, com o art. 12, do Decreto-Lei Federal n° 4.657/1942 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro) e com os arts. 127 e 159, do CTN. Na seara da competência territorial, e inexistindo regra específica, a ação deverá ser proposta no foro do domicílio do réu. Em situações nas quais a ação possa ser ajuizada no foro do domicílio do autor, e em havendo litisconsórcio ativo facultativo de autores domiciliados em Estados diversos, o foro competente será o de qualquer um deles – hipótese 92 na qual a competência se estende a todos os integrantes do litisconsórcio (cf. STJ, REsp 942.185/RJ, 5ª T., j. 02.06.2009, rel. Min. Jorge Mussi; cf. também comentário ao art. 51 do CPC/2015). Entende-se, ainda, que a doutrina do forum non conveniens é passível de aplicação não apenas em casos de conflito de jurisdições, mas, também em situações em que há dois ou mais juízos com competência concorrente para julgar a lide – como pode se verificar, à título exemplificativo, em hipótese prevista no art. 53, V do CPC/2015, na qual pode-se considerar ser mais adequado, para o julgamento da causa, o juízo em cujo âmbito de competência territorial ocorreu o ato ilícito (e não o juízo do domicílio do autor - cf. STJ, AgRg no Ag 1.137.193/GO, rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4.ª T., j. 27.10.2009). Art. 47. Para as ações fundadas em direito real sobre imóveis é competente o foro de situação da coisa. § 1º O autor pode optar pelo foro de domicílio do réu ou pelo foro de eleição se o litígio não recair sobre direito de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação de terras e de nunciação de obra nova. § 2º A ação possessória imobiliária será proposta no foro de situação da coisa, cujo juízo tem competência absoluta. Esta matéria era regulamentada pelo art. 95, do CPC/73, também possuindo correlação com os arts. 70 a 78, 328 e 341, do CC/2002, com o art. 12, do Decreto-Lei Federal n° 4.657/1942 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro), com os arts. 127 e 159, do CTN, com o art. 48, da Lei Federal n° 6.766/1979 (Parcelamento do Solo Urbano) e com o art. 58, II, da Lei Federal n° 8.245/1991 (Locação de Imóveis Urbanos). Conforme a dicção da cabeça do art. 47 do CPC/2015, para as “ações fundadas em direito real sobre imóveis é competente o foro de situação da coisa”, ou seja, competência absoluta e inderrogável, assim como ocorre com a ação possessória imobiliária (§2°). Em complemento, o § 1º estatui que “o autor pode optar pelo foro de domicílio do réu ou pelo foro de eleição” caso a ação não recaia sobre direitos de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação de terras e de nunciação de obra nova, preconizando, em tais casos, a competência relativa (já tendo sido decidido, contudo, que tal regra do §1° não alcança ações atinentes à contrato de compra e venda relativa ao bem, de extinção de hipoteca e anulatória de escritura pública de cessão e transferência de direitos sucessórios [hipóteses nas quais o autor poderá optar pelo foro de domicílio do réu ou pelo foro de eleição] - cf. STJ, AgRg na MC 14.534/GO, 3ª T., j. 16.09.2008, rel. Min. Nancy Andrighi; STJ, REsp 1.048.937/PB, rel. Min. Massami Uyeda, 3ª T., j. 22.02.2011; STJ, CC 111.572/SC, rel. Min. Nancy Andrighi, 2ª Seção, j. 09.04.2014). Sobre a prevenção em caso de imóvel cuja extensão abrange duas ou mais unidades jurisdicionais, cf. comentário ao art. 60 do CPC/2015. 93 Conforme acima esposado, e considerando a regra disposta no citado art. 47, caput, a competência para a ação de desapropriação é absoluta, do “foro da situação da coisa”, não incidindo, pois, o princípio da perpetuatio jurisdictionis (e, sim, o princípio do forum rei sitae - cf. comentário ao art. 43 do CPC/2015). Porém, há decisões no sentido de que, ajuizada ação de desapropriação de imóvel perante a justiça estadual, a criação de vara federal, situada no local do imóvel, desloca a competência para esse juízo (cf. STJ, REsp 1.150.489/CE, rel. Min. Mauro Campbell Marques, 2ª T., j. 10.08.2010), bem como que é competente o juízo da Fazenda Nacional da Capital do Estado, e não o da situação da coisa, para a desapropriação promovida por empresa de energia elétrica, se a União Federal intervém como assistente (STF, Súmula 218). Art. 48. O foro de domicílio doautor da herança, no Brasil, é o competente para o inventário, a partilha, a arrecadação, o cumprimento de disposições de última vontade, a impugnação ou anulação de partilha extrajudicial e para todas as ações em que o espólio for réu, ainda que o óbito tenha ocorrido no estrangeiro. Parágrafo único. Se o autor da herança não possuía domicílio certo, é competente: I - o foro de situação dos bens imóveis; II - havendo bens imóveis em foros diferentes, qualquer destes; III - não havendo bens imóveis, o foro do local de qualquer dos bens do espólio. Esta matéria era regulamentada pelo art. 96, do CPC/73, também possuindo correlação com os arts. 73 e 1.785, do CC/2002. A competência para processar o inventário, a partilha, a arrecadação, o cumprimento de disposições de última vontade, a impugnação ou anulação de partilha extrajudicial e todas as ações em que o espólio for réu será do juízo do foro do domicílio do autor da herança, sendo irrelevante o lugar da situação dos bens ou do óbito (ainda que esse último tenha ocorrido no estrangeiro) - competência territorial, logo, relativa (cf. STJ, CC 19.334/MG, 2ª Seção, rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira). Cumpre igualmente ressaltar que “o foro do inventário não exerce a vis attractiva sobre o processo em que se pleiteia reparação de danos decorrentes de ato ilícito do de cujus, por não ser o objeto da ação relativo ao espólio” (RT 580/158). Porém, e em que pese não haver conexão entre o inventário e a ação anulatória de testamento, aquela, ao final, dependerá do resultado desta, sendo conveniente que a declaração de nulidade de testamento e todas as demais ações que digam respeito à sucessão também sejam apreciadas pelo juízo do inventário (cf. STJ, REsp 1.153.194/MS, rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª T., j. 13.11.2012). 94 Art. 49. A ação em que o ausente for réu será proposta no foro de seu último domicílio, também competente para a arrecadação, o inventário, a partilha e o cumprimento de disposições testamentárias. Esta matéria era regulamentada pelo art. 97, do CPC/73, também possuindo correlação com os arts. 22 a 26, 38 e 39, do CC/2002. Dispõe o presente comando legal que “a ação em que o ausente for réu será proposta no juízo do foro de seu último domicílio, também competente para a arrecadação, o inventário, a partilha e o cumprimento de disposições testamentárias”. Tal se deve, pois, e nas lições de Medina e Araújo (2020) “o instituto da ausência representa uma comprovação nítida sobre a necessidade de determinação da titularidade dos bens e direitos em relação a uma determinada pessoa. O desaparecimento da pessoa do seu domicílio provoca uma situação de crise quanto à gestão e administração do patrimônio jurídico, que poderá culminar com a declaração de sua ausência. Não se trata, unicamente, de um interesse patrimonial, pois a certeza quanto à existência é fundamental para a segurança das relações jurídicas em geral, incluindo o direito de família. Além disso, o interesse público é manifesto quanto ao paradeiro do desaparecido, em virtude da possibilidade de mudança do seu estado civil (morte)”. Art. 50. A ação em que o incapaz for réu será proposta no foro de domicílio de seu representante ou assistente. Esta matéria era regulamentada pelo art. 98, do CPC/73. A regra da fixação do juízo competente para ação movida por ou contra incapaz visa proteger pessoa absoluta ou relativamente incapaz, sobremaneira por considerá-la mais frágil na relação jurídica processual. Logo, não há razão para diferenciar-se a posição processual do incapaz (como autor ou réu em qualquer ação), devendo ser viabilizado ao seu representante demandar no foro de seu domicílio (cf. STJ, REsp 875.612/MG, rel. Min. Raul Araújo, 4ª T., j. 04.09.2014). Art. 51. É competente o foro de domicílio do réu para as causas em que seja autora a União. Parágrafo único. Se a União for a demandada, a ação poderá ser proposta no foro de domicílio do autor, no de ocorrência do ato ou fato que originou a demanda, no de situação da coisa ou no Distrito Federal. Esta matéria era regulamentada pelo art. 99, do CPC/73. Ainda, tem assento constitucional na dicção do art. 109, da CF/1988 e correlação com o art. 15, da Lei Federal 95 n° 5.010/1966 (Lei de Organização da Justiça Federal), com a redação da Lei Federal n° 13.876/2019. O regramento referente ao foro competente envolvendo demandas em que a União for parte está disposto no art. 109 da CF/1988, sendo que o CPC/2015, através deste art. 51, cuidou de reiterar o que estabelecem os §§ 1º e 2º, do art. 109, do Texto Constitucional. Assim, e em ação ajuizada em face da União e suas autarquias, “cabe ao autor a escolha do foro conveniente, podendo a parte autora, inclusive, ajuizar a ação no foro de seu domicílio, nada impedindo que opte por ajuizar a ação contra a União na capital do Estado-membro, ainda que exista vara federal instalada no município em que ele for domiciliado” (cf. STF, ARE 1.151.612 AgR/SP, 2ª T., rel. Min. Cármen Lúcia, j. 19/11/2019). Nos termos do § 3º, do art. 109, da Constituição Federal, a “lei poderá autorizar que as causas de competência da Justiça Federal, em que forem parte instituição de previdência social e segurado, possam ser processadas e julgadas na justiça estadual, quando a comarca do domicílio do segurado não for sede de vara federal”. O art. 15 da Lei Federal n° 5.010/1966 (Lei de Organização da Justiça Federal) dispõe que “quando a Comarca não for sede de Vara Federal, poderão ser processadas e julgadas na Justiça Estadual: […] III – as causas em que forem parte instituição de previdência social e segurado e que se referirem a benefícios de natureza pecuniária, quando a Comarca de domicílio do segurado estiver localizada a mais de 70 km (setenta quilômetros) de Município sede de Vara Federal”. Assim, o critério a ser considerado é a distância entre a cidade sede da comarca estadual e a cidade sede de vara da justiça federal mais próxima. E quanto aos processos em trâmite nos juízos estaduais, o Conselho da Justiça Federal consignou restrição ao exercício da competência federal delegada, porém, tão somente para as ações propostas a partir de 1º de janeiro de 2020 (de modo que se mantém incólume a delegação para os processos atualmente em trâmite na justiça comum estadual - cf. CJF, Proc. n° 0006509- 11.2019.4.90.8000, rel. Conselheira Maria Thereza de Assis Moura). Art. 52. É competente o foro de domicílio do réu para as causas em que seja autor Estado ou o Distrito Federal. Parágrafo único. Se Estado ou o Distrito Federal for o demandado, a ação poderá ser proposta no foro de domicílio do autor, no de ocorrência do ato ou fato que originou a demanda, no de situação da coisa ou na capital do respectivo ente federado. Esta matéria não possuía dispositivo correspondente no CPC/73, sendo tão somente relacionada com o art. 100, IV, “d” daquele diploma. 96 Em demandas nas quais figure como parte o Estado e do Distrito Federal, temos que o legislador instituiu a exata ratio estabelecida no art. 51 do CPC/2015, sendo que, inclusive e ainda sob a égide do CPC/1973, a jurisprudência assim já assentava (cf. STJ, REsp 193.725/SC, rel. Min. João Otávio de Noronha, 2ª T., j. 17.02.2005; STJ, REsp 879.675/SP, rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, 5ª T., j. 29.11.2007). Art. 53. É competente o foro: I - para a ação de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento ou dissolução de união estável: a) de domicílio do guardião de filho incapaz; b) do último domicílio do casal, caso não haja filho incapaz; c) de domicílio do réu, se nenhuma das partes residir no antigo domicílio do casal; d) de domicílio da vítima de violência doméstica e familiar, nos termos da Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha); II - de domicílioou residência do alimentando, para a ação em que se pedem alimentos; III - do lugar: a) onde está a sede, para a ação em que for ré pessoa jurídica; b) onde se acha agência ou sucursal, quanto às obrigações que a pessoa jurídica contraiu; c) onde exerce suas atividades, para a ação em que for ré sociedade ou associação sem personalidade jurídica; d) onde a obrigação deve ser satisfeita, para a ação em que se lhe exigir o cumprimento; e) de residência do idoso, para a causa que verse sobre direito previsto no respectivo estatuto; f) da sede da serventia notarial ou de registro, para a ação de reparação de dano por ato praticado em razão do ofício; IV - do lugar do ato ou fato para a ação: a) de reparação de dano; b) em que for réu administrador ou gestor de negócios alheios; V - de domicílio do autor ou do local do fato, para a ação de reparação de dano sofrido em razão de delito ou acidente de veículos, inclusive aeronaves. Esta matéria era regulamentada pelo art. 100, do CPC/73. Ainda, tem assento constitucional na dicção dos arts. 5°, I, 109, 110 e 226, §5°, da CF/1988 e correlação com os arts. 22 a 25, 27, 29 a 36, 38, 39, 73, 75, 76, 327, 328, 861 a 875 e 1.785, CC/2002, com o art. 147, I, da Lei Federal n° 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e com o art. 26, Lei 5.478/1968 (Ação de alimentos). No inciso I, alíneas “a” a “d”, do art. 53, restaram elencados os foros competentes para ação de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento ou dissolução de união estável, sendo eles, concorrentemente: o do domicílio do guardião de filho incapaz, o de último domicílio do casal, o de domicílio do réu, ou de domicílio da vítima de violência doméstica e familiar, nos termos da Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha). Cumpre, ainda, registrar que a competência para o julgamento de ação que envolva interesse de criança ou http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm 97 adolescente (arts. 3°, 6° e 147, I, da Lei Federal 8.069/1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente) é determinada pelo domicílio dos pais ou responsável, ou seja, competência absoluta (cf. STJ, AgRg no CC 94.250/MG, 2ª Seção, j. 11.06.2008, rel. Min. Aldir Passarinho Junior; STJ, CC 102.849/CE, 2ª Seção, j. 27.05.2009, rel. Min. Fernando Gonçalves) – sendo essa diretriz também aplicada nos casos em que litigam os pais contra aquele que exerce a guarda da criança ou adolescente (cf. STJ Súmula 383: “a competência para processar e julgar as ações conexas de interesse de menor é, em princípio, do foro do domicílio do detentor de sua guarda”). Cf. também o comentário ao art. 50 do CPC/2015. No tocante à competência para a ação em que se pedem alimentos, essa restou fixada no domicílio ou residência do alimentando. Ainda, nossa jurisprudência assentou que “em se tratando de execução de prestação alimentícia, a aparente antinomia havida entre o art. 475-P e parágrafo único (e também o art. 575, II) e o art. 100, II, todos do CPC (de 1973, correspondentes, respectivamente, ao art. 516 e parágrafo único e ao art. 53, II do CPC/2015), resolve-se em favor do reconhecimento de uma regra de foro concorrente, que permite ao alimentando escolher entre: (I) o foro do seu domicílio ou residência; (II) o Juízo que proferiu a sentença exequenda; (III) o Juízo do local onde se encontram bens do alimentante, sujeitos à expropriação; e (IV) o Juízo do atual domicílio do alimentante. Na hipótese, é competente para o processamento da execução de alimentos o foro do domicílio ou residência do alimentando, eleito por ele para o ajuizamento da ação, ainda que a sentença exequenda tenha sido proferida em foro diverso. Relativização da competência funcional prevista no art. 475-P do CPC (de 1973, correspondente ao art. 516 do CPC/2015).” (cf. STJ, CC 118.340/MS, rel. Min. Nancy Andrighi, 2ª Seção, j. 11.09.2013). No âmbito das ações indenizatórias relativas a ilícitos civis ou penais, temos que, por regra, a competência é a do lugar do ato ou fato (cf. art. 53, IV, a, do CPC/2015; STJ, EAg 783.280/RS, rel. Min. Nancy Andrighi, 2ª Seção, j. 23.02.2011). Nas ações indenizatórias envolvendo acidente de veículos (art. 53, V, do CPC/2015) poderá o autor optar em propor a demanda no foro que lhe é mais conveniente (no foro do seu próprio domicílio, no foro do local do acidente ou, ainda, no foro do domicílio do réu), exceto no caso de locadora de veículos: “É competente o juízo do foro do domicílio do autor ou do local do fato para a ação de reparação de dano sofrido em razão de acidente de veículos. Isso porque a regra geral do foro do domicílio do réu não seria suficiente para atender às necessidades decorrentes de lides relacionadas aos acidentes de trânsito, dado que muitas vezes a vítima haveria de ajuizar a demanda em comarcas distantes de seu domicilio ou mesmo do local do fato. As pessoas jurídicas locadoras de frotas de veículos não estão abrangidas pela prerrogativa legal de escolha do foro. Assim, não incide a regra do art. 100, 98 V, parágrafo único, do Código de Processo Civil de 1973 – nem a do art. 53, V, do atual CPC – no caso de ação judicial movida pela locadora para reparação dos danos sofridos em acidente de trânsito no qual envolvido o locatário, ainda que o veículo seja de propriedade da locadora. A escolha dada ao autor de ajuizar a ação de reparação de dano decorrente de acidente de veículos é exceção à regra geral de competência, definida pelo foro do domicílio do réu. Não se pode dar à exceção interpretação tão extensiva a ponto de subverter o escopo da regra legal, mormente quando importar em privilégio à pessoa jurídica cujo negócio é alugar veículos em todo território nacional em detrimento da defesa do réu pessoa física. Hipótese em que ambos os envolvidos no acidente, possíveis vítimas – o locatário do veículo e o réu –, têm domicílio no local onde ocorreu o acidente, comarca de Porto Alegre, não atendendo à finalidade da lei a tramitação da causa em Minas Gerais, sede da autora, empresa proprietária e locadora do veículo” (cf. STJ, EDcl no AgRg no Ag 1.366.967/MG, Rel. p/ Acórdão Min. Maria Isabel Gallotti, 4ª T., j. 27/04/2017). Cf. também STJ, REsp (repetitivo) 1.357.813/RJ. Na ação de reparação de danos fundada em responsabilidade contratual ou extracontratual, a competência será a do local onde se produziu o dano, não no domicílio do réu. Porém, e por se tratar de competência territorial relativa, pode ser derrogada por contrato, prevalecendo o foro de eleição (cf. STJ, REsp 1.087.471/MT, rel. Min. Sidnei Beneti, 3ª T., j. 14.06.2011). Sobre a cláusula de eleição de foro, cf. comentário ao art. 63 do CPC/2015. Para a ação de arbitramento de honorários advocatícios, será competente, com fulcro no art. 53, III, d do CPC/2015, o foro do lugar em que a obrigação deve, ou devesse, ser satisfeita (cf. STJ, REsp 1.072.318/SP, rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª T., j. 07.04.2011). Nas ações movidas por consumidor contra fornecedor, admite-se, inclusive e de ofício, o reconhecimento de nulidade de cláusula de eleição de foro celebrada em contrato de adesão, com consequente remessa dos autos para o juízo de domicílio do réu (cf. comentário ao art. 63 do CPC/2015). Tal sistemática é aplicada igualmente no caso em que a parte supostamente mais fraca da relação de direito material não é o réu, mas, sim, o autor da ação. Em caso de ação de indenização proposta por dependente de trabalhador falecido em acidente de trabalho, a competência para julgar tais ações é da Justiça do Trabalho: “A competência para julgar ações de indenização por danos morais e materiais decorrentes de acidente de trabalho, após a edição da EC 45/04, é da Justiça do Trabalho. (…). O ajuizamento da ação de indenização pelos sucessores não altera a competênciada Justiça especializada. A transferência do direito patrimonial em decorrência do óbito do empregado 99 é irrelevante” (cf. STF, CC 7.545, Pleno, j. 03.06.2009, rel. Min. Eros Grau). Diante disso, o STJ cancelou sua Súmula 366 (cf. STJ, CC 101.977/SP, Corte Especial, j. 16.09.2009, rel. Min. Teori Albino Zavascki). Para o caso de ação indenizatória relativa a danos morais decorrentes de matéria publicada na internet, temos que nem sempre será possível definir, com precisão, o “lugar do ato ou fato” (art. 53, IV, do CPC/2015). Assim, em se tratando de lesão decorrente de matéria jornalística, será o “lugar do ato ou fato” aquele “em que residem e trabalham as pessoas prejudicadas” (cf. STJ, REsp 191.169/DF, 4ª T., rel. Min. Aldir Passarinho Júnior), uma vez que é nessa localidade que “houve a repercussão efetiva da notícia” (cf. STJ, REsp 509.203/AL, 3ª T., rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito). A mesma conclusão se aplica à hipótese em que determinada matéria é divulgada na internet (cf. STJ, AgRg no Ag 965.530/RJ, 4ª T., j. 05.08.2008, rel. Min. Aldir Passarinho Júnior). Na hipótese de mensagens eletrônicas difamatórias (via e-mail), admite-se o ajuizamento de ação contra o provedor detentor dos dados cadastrais do autor de tais mensagens (cf. STJ, REsp 1.068.904/RS, rel. Min. Massami Uyeda, 3ª T., DJe 30.03.2011). Por derradeiro, e quanto a matéria em análise, deve-se observar as seguintes súmulas do C. Supremo Tribunal Federal e do C. Superior Tribunal de Justiça, além de repetitivo desse último: STF Súmula 363: “A pessoa jurídica de direito privado pode ser demandada no domicílio da agência, ou estabelecimento, em que se praticou o ato”; STJ, Súmula 1: “O foro do domicílio ou da residência do alimentando é o competente para a ação de investigação de paternidade, quando cumulada com a de alimentos”; STJ, Súmula 383: “A competência para processar e julgar as ações conexas de interesse de menor é, em princípio, do foro do domicílio do detentor de sua guarda”; STJ, Súmula 540: “Na ação de cobrança do seguro DPVAT, constitui faculdade do autor escolher entre os foros do seu domicílio, do local do acidente ou ainda do domicílio do réu”; STJ, REsp (repetitivo) 1357813/RJ: “Em ação de cobrança objetivando indenização decorrente de Seguro Obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres – DPVAT, constitui faculdade do autor escolher entre os seguintes foros para ajuizamento da ação: o do local do acidente ou o do seu domicílio (parágrafo único do art. 100 do Código de Processo Civil [de 1973, correspondente ao art. 53, V do CPC/2015]); bem como, ainda, o do domicílio do réu (art. 94 do mesmo Diploma [CPC de 1973, correspondente ao art. 46 do CPC/2015]) (STJ, REsp 1.357.813/RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, 2ª Seção, j. 11.09.2013). Seção II -Da Modificação da Competência Eduardo Jannone da Silva Art. 54. A competência relativa poderá modificar-se pela conexão ou pela continência, observado o disposto nesta Seção. 100 Esta matéria era regulamentada pelo art. 102, do CPC/73. No âmbito da temática relativa à modificação da competência relativa, a lei processual tratou de enumerar as hipóteses de cabimento (não sendo aplicáveis tais diretrizes para competência absoluta). Logo, “o foro da situação da coisa é absolutamente competente para conhecer de ação fundada em direito possessório sobre imóveis. Por força da interpretação sistemática dos arts. 95, in fine, e 102 [do CPC/1973, correspondentes aos arts. 47 e 54 do CPC/2015], a competência do foro da situação do imóvel não pode ser modificada pela conexão ou continência. É irrelevante, portanto, que anteriormente ao ajuizamento da ação possessória pelo adquirente do bem tenha sido ajuizada outra ação, pelos alienantes, em que se busca questionar a causa que ensejou a transferência da propriedade dos bens” (cf. STJ, REsp 660.094/SP, 3ª T., rel. Min. Nancy Andrighi, RT 868/192). Sobre a definição de conexão, cf. comentário ao art. 55 do CPC/2015; sobre a definição de continência, cf. comentário ao art. 56 do CPC/2015. Art. 55. Reputam-se conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir. § 1º Os processos de ações conexas serão reunidos para decisão conjunta, salvo se um deles já houver sido sentenciado. § 2º Aplica-se o disposto no caput: I - à execução de título extrajudicial e à ação de conhecimento relativa ao mesmo ato jurídico; II - às execuções fundadas no mesmo título executivo. § 3º Serão reunidos para julgamento conjunto os processos que possam gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias caso decididos separadamente, mesmo sem conexão entre eles. Esta matéria era regulamentada pelo art. 103, do CPC/73. Ainda, tem correlação com os arts. 7º, §§ 2º e 3º, 56 e 202, § 1º, do Decreto-Lei Federal n° 7.661/1945 (Lei de Falências, revogada pela Lei Federal n° 11.101/2005, mas, aplicável aos processos iniciados antes do início da vigência desta Lei), e com os arts. 6º, § 8º, 76 e 134, da Lei Federal n° 11.101/2005 (Nova Lei de Recuperação e Falência). Nos termos da lei processual civil, e para que ocorra conexão entre duas ou mais ações, necessária se faz que entre as mesmas haja identidade entre pedido ou causa de pedir (CPC/2015, art. 55, caput), sendo prescindível que as partes sejam idênticas: “A conexão pressupõe a existência de causas que, embora não sejam iguais, guardam entre si algum vínculo, uma relação de afinidade, o que denota que o alcance da regra de conexão tem sido alargado, de modo a se interpretar o vocábulo ‘comum’, contido no texto legal, como uma indicação do legislador de que, para caracterizar a conexão, seria desnecessária a identidade 101 total dos elementos da ação, bastando tão somente uma identidade parcial” (STJ, REsp 1.226.016/RJ, 3ª T., j. 15.03.2011, rel. Min. Nancy Andrighi); “A moderna teoria materialista da conexão ultrapassa os limites estreitos da teoria tradicional e procura caracterizar o fenômeno pela identificação de fatos comuns, causais ou finalísticos entre diferentes ações, superando a simples identidade parcial dos elementos constitutivos das ações” (cf. STJ, REsp 1221941/RJ, rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4ª T., j. 24.02.2015). Cumpre igualmente registrar que o art. 55, § 3º, do CPC/2015, embora não alterando o conceito legal de conexão, estabeleceu que, havendo risco de decisões contraditórias e sobretudo em obediência à segurança jurídica, justifica-se a reunião de ações para que restem julgadas em conjunto. O art. 55, § 2º, do CPC/2015 previu a nominada “conexão por prejudicialidade”, a qual justifica a reunião das referidas causas, desde que em se tratando de hipótese de competência relativa, “seja porque a conexão não possibilita a modificação da competência absoluta, seja porque é vedada a cumulação em juízo incompetente para apreciar uma das demandas” (cf. STJ, CComp 106.041/SP, 1ª Seção, j. 28.10.2009, rel. Min. Castro Meira). Por derradeiro, e quanto a matéria em análise, deve-se observar as seguintes súmulas do C. Superior Tribunal de Justiça: Súmula 235: “A conexão não determina a reunião dos processos, se um deles já foi julgado”; Súmula 383: “A competência para processar e julgar as ações conexas de interesse de menor é, em princípio, do foro do domicílio do detentor de sua guarda”. Art. 56. Dá-se a continência entre 2 (duas) ou mais ações quando houver identidade quanto às partes e à causa de pedir, mas o pedido de uma, por ser mais amplo, abrange o das demais. Esta matéria era regulamentada pelo art. 104, do CPC/73. Na continência, conforme dicção do presente comando legal, constata-se integral identidade entre as partes e as causas de pedir de duas ações. Porém, depreende-se que o pedido realizado em uma das ações é mais amplo que o pedidoaduzido na outra. Assim, assenta a jurisprudência que, nesse caso, haverá litispendência parcial (cf. STJ, RMS 24.196/ES, 5.ª T., rel. Min. Felix Fischer), uma vez que “uma ação está contida na outra” (cf. STJ, REsp 627.975/PB, 1ª T., rel. Min. Luiz Fux). Cf. comentário ao art. 57 do CPC/2015. Art. 57. Quando houver continência e a ação continente tiver sido proposta anteriormente, no processo relativo à ação contida será proferida sentença sem resolução de mérito, caso contrário, as ações serão necessariamente reunidas. 102 Esta matéria era regulamentada pelo art. 105, do CPC/73. Quando verificada a continência, dois desfechos poderão ocorrer: se a ação continente tiver sido proposta em primeiro lugar, deverá a ação contida ser extinta sem resolução do mérito; caso contrário, as ações devem ser reunidas. Ainda, e caso haja identidade entre partes e causas de pedir, mas, os pedidos forem diferentes (não havendo sequer identidade parcial entre os pedidos), tratar-se-á de conexão e não de continência. Art. 58. A reunião das ações propostas em separado far-se-á no juízo prevento, onde serão decididas simultaneamente. Esta matéria era regulamentada pelo art. 106, do CPC/73. O juízo prevento é aquele para o qual deverão ser distribuídas as demais ações relacionadas à primeira que tiver sido intentada. Porém, insta registrar que não será o caso de reunião das causas perante o juízo prevento se os autos tiverem que ser remetidos para juízo que detenha competência absoluta (cf. STJ, CComp 100.345/RJ, 2.ª Seção, j. 11.02.2009, rel. Min. Luis Felipe Salomão; STJ Súmula 489: “Reconhecida a continência, devem ser reunidas na Justiça Federal as ações civis públicas propostas nesta e na Justiça estadual”). Quanto ao critério para a definição da prevenção, cf. comentário ao art. 59 do CPC/2015. A obrigatória reunião de ações (que poderá ser determinada de ofício pelo juiz ou a requerimento das partes) possui por objetivo viabilizar a prolação de decisões coerentes e harmônicas entre si (STJ, CComp 95.868/RJ, 1ª Seção, j. 13.08.2008, rel. Min. Teori Albino Zavascki). Todavia, o objetivo da regra somente será atingido se as causas estiverem tramitando em fases processuais similares (pois, assim não sendo, não se justificará a reunião das ações - Súmula 235 do STJ: “a conexão não determina a reunião dos processos, se um deles já foi julgado”). Art. 59. O registro ou a distribuição da petição inicial torna prevento o juízo. Esta matéria era regulamentada, ao menos em parte, pelos arts. 106 e 219, “caput”, do CPC/73. Ainda, tem correlação com os art. 202, § 1º, do Decreto-Lei Federal n° 7.661/1945 (Lei de Falências, revogada pela Lei Federal n° 11.101/2005, mas, aplicável aos processos iniciados antes do início da vigência desta Lei), e com os arts. 6º, § 8º, da Lei Federal n° 11.101/2005 (Nova Lei de Recuperação e Falência). 103 O CPC/73 trabalhava com dois critérios para a definição do juízo prevento: em se tratando de ações ajuizadas perante juízos com a mesma competência territorial, o prevento seria aquele que despachou em primeiro lugar (art. 106 do CPC/1973); se de competência territorial diversa, aquele em que antes ocorreu a citação (art. 219 do CPC/1973). Contudo, o CPC/2015, através do comando aqui versado, previu uma regra única para ambas as hipóteses, dispondo que o registro ou a distribuição da petição inicial torna prevento o juízo. Ademais, algo similar já era previsto no art. 6º, § 8º, da Lei Federal n° 11.101/2005 (Nova Lei de Recuperação e Falência). Art. 60. Se o imóvel se achar situado em mais de um Estado, comarca, seção ou subseção judiciária, a competência territorial do juízo prevento estender-se-á sobre a totalidade do imóvel. Esta matéria era regulamentada pelo art. 107, do CPC/73. O dispositivo em análise preconiza que, em se tratando de ação referente a imóvel e nos termos do art. 47 do CPC/2015, será competente o foro da situação da coisa. Se esta, porém, extrapolar os limites territoriais da competência de um órgão jurisdicional (estendendo-se por dois ou mais juízos), ou mesmo forem imprecisos os limites territoriais das unidades jurisdicionais, o foro competente será determinado pela prevenção (cf. STJ, CComp 39.766/BA, 2ª Seção, j. 25.08.2004, rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro; STJ, CComp 9.981/GO, 2ª Seção, j. 30.11.1994, rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar). Art. 61. A ação acessória será proposta no juízo competente para a ação principal. Esta matéria era regulamentada pelo art. 108, do CPC/73. Sabe-se que o legislador nomina de “acessória” a ação que é intentada com vistas ao ajuizamento de outra ação, ou porque é formalmente ligada a outra ação (p. ex.: os embargos de terceiro que se vinculam à “ação principal” [cf. art. 677, § 3.º, do CPC/2015]; a ação de alimentos que se vincula à ação de investigação de paternidade [RT 743/356]; a ação anulatória de ato jurídico que se vincula ao processo de execução [RT 767/226]; a ação para indenizar o dano processual que se vincula ao processo em que ele foi produzido [RT 603/52]). Art. 62. A competência determinada em razão da matéria, da pessoa ou da função é inderrogável por convenção das partes. 104 Esta matéria era regulamentada pelo art. 111, “caput”, 1ª parte, do CPC/73. O dispositivo em análise preconiza que é vedado às partes modificar a competência referente à matéria, à pessoa e à função (o que, por outro lado, não ocorre na competência relacionada ao valor e ao território - cf. comentário ao art. 63 do CPC/2015). A competência em razão da pessoa não diz respeito, propriamente, à pessoa em si mesmo considerada, mas, à função que a pessoa exerce, ainda que transitoriamente. A competência funcional é estabelecida em razão das funções a serem desempenhadas pelo órgão jurisdicional no processo. Ademais, a jurisprudência já assentou que “a competência para o cumprimento de sentença” prevista no art. 475-P do CPC/2015 “é funcional e, consectariamente, absoluta” (cf. STJ, CComp 62.083/SP, 1ª Seção, j. 24.06.2009, rel. Min. Luiz Fux; STJ, CComp 112.219/RS, rel. Min. Gilson Dipp, 3ª Seção j. 27.10.2010). Mais recentemente, contudo, se decidiu no sentido da relativização da referida regra (cf. STJ, CComp 118.340/MS, 2ª Seção, j. 11.09.2013, rel. Min. Nancy Andrighi). Cf. também comentário ao art. 53 do CPC/2015. Art. 63. As partes podem modificar a competência em razão do valor e do território, elegendo foro onde será proposta ação oriunda de direitos e obrigações. § 1º A eleição de foro só produz efeito quando constar de instrumento escrito e aludir expressamente a determinado negócio jurídico. § 2º O foro contratual obriga os herdeiros e sucessores das partes. § 3º Antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada ineficaz de ofício pelo juiz, que determinará a remessa dos autos ao juízo do foro de domicílio do réu. § 4º Citado, incumbe ao réu alegar a abusividade da cláusula de eleição de foro na contestação, sob pena de preclusão. Esta matéria era regulamentada pelo art. 111, “caput”, 2ª parte, e parágrafos, do CPC/73. Ainda, tem correlação com o art. 78, do CC/2002, com o art. 1º, do Decreto-Lei Federal n° 4.597/1942 (Prescrição das ações contra a Fazenda Pública) e com o art. 58, II, da Lei Federal n° 8.245/1991 (Locação de imóveis urbanos). Nos termos do “caput” do artigo em exame, e como regra geral, é facultado às partes modificar a competência em razão do valor e do território, elegendo foro onde deverão ser propostas as ações relacionadas aos direitos e obrigações oriundos de determinado negócio jurídico (cf. Súmula 335 do STF: “é válida a cláusula de eleição do foro para os processos oriundos do contrato”). A jurisprudência, contudo, assentou que a cláusula de eleição de foro será considerando nula se contida em contratode adesão, nos casos em que se depreenda a hipossuficiência do consumidor (cf. STJ, REsp 629.049/MT., 3ª T, rel. Min. Menezes Direito) e tal cláusula dificulte sua defesa (cf. STJ, CComp 41.728/PR, 2ª Seção, 105 rel. Min. Fernando Gonçalves). Por fim, insta registrar que “se a autoria do feito pertence ao consumidor, contudo, permite-se a escolha do foro de eleição contratual, considerando que a norma protetiva, erigida em seu benefício, não o obriga quando puder deduzir sem prejuízo a defesa dos seus interesses fora do seu domicílio” (STJ, REsp 1.707.855/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª T., j. 20/02/2018). No tocante à Manifestação judicial sobre a invalidade de cláusula de eleição de foro em contrato de adesão, e em que pese a mesma ser permitida ex officio pelo juiz (cf. art. 63, §§ 3º e 4º, e 65 do CPC/2015), a competência é relativa. Logo, inexistindo anterior manifestação do juiz acerca da nulidade da cláusula de eleição de foro, e se o réu não a alegar, ocorrerá a prorrogação da competência. Seção III – Da Incompetência Andrea da Silva Barbosa12 Arts. 64 – 76 Art. 64. A incompetência, absoluta ou relativa, será alegada como questão preliminar de contestação. § 1º A incompetência absoluta pode ser alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição e deve ser declarada de ofício. § 2º Após manifestação da parte contrária, o juiz decidirá imediatamente a alegação de incompetência. § 3º Caso a alegação de incompetência seja acolhida, os autos serão remetidos ao juízo competente. § 4º Salvo decisão judicial em sentido contrário, conservar-se-ão os efeitos de decisão proferida pelo juízo incompetente até que outra seja proferida, se for o caso, pelo juízo competente. A presente seção disciplina sobre a incompetência absoluta e relativa. O artigo 64 no seu caput determina que a alegação de incompetência seja ela absoluta seja ela relativa deve ser feita em preliminar de contestação e não como antes no Código de 1973 que determinava ser por via de exceção de incompetência relativa. Deste modo, o réu que queira alegar a incompetência seja ela absoluta seja ela relativa, deverá fazê-la em preliminar de contestação. Lembrando que, em se tratando de incompetência relativa, se não feita nesta oportunidade a competência prorrogar-se a, isto é, ocorre o prejuízo do direito de agir diante da perda de oportunidade, o que não se aplica a incompetência absoluta, esta, poderá ser alegada a qualquer momento. 12 Pós Graduanda em Direito Civil e Direito Processual Civil. Advogada 106 Importante ressaltar ainda, que a incompetência absoluta pode ser alegada pelo próprio autor, neste caso não há que se falar em preliminar de contestação, o autor deverá alegar a incompetência por petição. De acordo com a súmula 33, STJ: A incompetência relativa não pode ser declarada de ofício. O § 1º, por se tratar de incompetência absoluta, traz uma regra decorrente de norma cogente, ou seja, poderá ser alegada a qualquer momento, tempo e grau de jurisdição, justamente por não haver preclusão. Considerando que esta norma leva uma nulidade de natureza absoluta, o juiz pode reconhecer de ofício sua incompetência absoluta, desde que, antes abra prazo para manifestação das partes a respeito do assunto, respeitando assim o contraditório (art. 10 do CPC/2015). O § 2º, por sua vez, determina que as questões de incompetência devem ser decididas antes de todas as outras existentes no processo, ou seja, o juiz logo após a manifestação da parte contrária, quando se instaura o contraditório (uma vez que exista a arguição de incompetência a parte contrária se manifestará nos autos), decidirá sobre a incompetência, mas o seu acolhimento não importa na extinção do processo, mas tão somente na remessa para outro juízo. Esta decisão imediata se faz necessária para evitar a prática de outros atos processuais por aquele juízo incompetente, evitando um prolongamento indevido no processo em razão da sua incompetência. O § 3º, trata de uma consequência do acolhimento da alegação de incompetência. De acordo com o princípio da competência – competência, o juízo onde a ação foi proposta inicialmente tem competência para julgar sobre a sua competência, o reconhecimento de ofício da incompetência ou sendo essa alegação acolhida, gera o dever da remessa dos autos do processo ao juízo competente, que dará andamento ao processo e tomara as decisões oriundas do mesmo. O § 4º, disciplina que as decisões já proferidas pelo juízo incompetente conservarão seus efeitos até que outra seja proferida, desta forma, o parágrafo em comento estabelece um aproveitamento dos atos processuais, ou seja, embora tenha havido atos decisórios pelo juízo incompetente, quando os autos chegarem ao juízo competente este irá analisar se é possível validar aqueles atos que já foram praticados anteriormente ou cassar a sua eficácia. Deste modo, o juízo competente ao receber o processo, poderá através do seu livre convencimento motivado, confirmar a decisão proferida pelo juízo incompetente, invalidar ou substituir essa decisão ou ainda proferir nova decisão. Esse entendimento difere do 107 disciplinado no CPC /1973 (art. 113, §2º), que determinava que o reconhecimento da incompetência consequentemente anulava todos os atos decisórios proferidos pelo juízo incompetente. Acertada a inovação deste parágrafo no CPC/2015, pois confere aproveitamento dos atos processuais do juízo incompetente, gerando celeridade e economia processual. Para Cassio Scarpinella Bueno: “A ‘exceção de incompetência’ foi abolida pelo novo CPC, que preserva, não obstante, os principais efeitos (e diferença) da incompetência relativa e da incompetência absoluta como se verifica deste art. 64 e do art. 65. Assim, de acordo com o art. 64, caput, tanto a incompetência relativa como a incompetência absoluta devem ser arguidas em preliminar de contestação pelo réu. (…) o § 4º traz novidade importante: diferentemente do CPC de 1973, as decisões proferidas por juízo absolutamente incompetente não se consideram, desde logo, nulas. Seus efeitos são preservados até que nova decisão seja proferida pelo juízo competente a respeito de sua conservação. A redação do dispositivo permite a aplicação desta mesma sistemática para os casos de incompetência relativa já que, em última análise, a manutenção, ou não, das decisões anteriores pressupõe proferimento de nova decisão em um ou em outro sentido. O § 1º do art. 64 permite que a incompetência absoluta seja alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição, sem prejuízo de ela também ser reconhecida de ofício pelo magistrado. Há antinomia com o caput? A melhor resposta à questão é no sentido de superar eventual incompatibilidade entre as duas regras. Nada de diferente, aliás, do que existe no sistema do CPC de 1973. Assim, cabe ao réu arguir a incompetência absoluta desde logo, fazendo-o em preliminar de contestação. Se não o fizer, contudo, poderá levantá-lo ao longo do processo porque não há preclusão. Tanto que é dever do magistrado pronunciar-se sobre a incompetência absoluta de ofício (e sempre após prévio contraditório) em qualquer tempo e grau de jurisdição. (Bueno, Cassio Scarpinella – Novo Código de Processo Civil anotado/Cassio Scarpinella Bueno. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 82-83). Art. 65. Prorrogar-se-á a competência relativa se o réu não alegar a incompetência em preliminar de contestação. Parágrafo único. A incompetência relativa pode ser alegada pelo Ministério Público nas causas em que atuar. Em termos gerais, o artigo 65 mantém a regra do art. 114 do CPC/1973, prevendo que a incompetência relativa deve ser alegada em preliminar de contestação, sob pena de ser prorrogada, havendo a preclusão da matéria. 108 Deste modo, aquele juízo que antes era incompetente,considerando que sua competência não foi alegada, será prorrogada, portanto o juízo passa a ser competente. Em linhas gerais, a incompetência relativa deverá ser alegada pelo réu na primeira oportunidade, ou seja, na primeira vez que se manifestar no processo, deste modo, se o réu se manifestar no processo antes da contestação, este será o momento para alegar a incompetência relativa, salvo, se nesta ocasião o réu não tiver as informações para suscitar a questão. O parágrafo único do artigo 65, inovou ao disciplinar que o Ministério Público poderá alegar a incompetência relativa, nas causas em que atuar. Para Cássio Scarpinella Bueno: “O parágrafo único do art. 65 reconhece expressamente legitimidade do Ministério Público para arguir a incompetência relativa nos casos em que atuar. Como é sempre difícil conceber que o Ministério Público seja réu, a viabilidade restringe-se aos casos em que aquele órgão atuar na qualidade de fiscal da ordem jurídica (art. 178). (Bueno, Cassio Scarpinella – Novo Código de Processo Civil anotado/Cassio Scarpinella Bueno. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 83). Uma questão controvertida tanto na doutrina quanto na jurisprudência, refere-se ao fato da atuação do Ministério Público como fiscal da ordem jurídica, estes casos estão previstos no art. 178 do CPC. Para uma parte da doutrina na hipótese de atuação como fiscal da lei, o Ministério Público não poderá alegar a incompetência relativa, esta poderá ser alegada apenas quando o MP for parte no processo. Já para uma segunda corrente, o Ministério Público atuando como fiscal da lei poderá quando intimado, nas hipóteses do art. 178 do CPC, alegar a incompetência relativa quando da sua manifestação, isto quando o réu não houver alegado a referida incompetência, afastando-se assim a preclusão. Art. 66. Há conflito de competência quando: I - 2 (dois) ou mais juízes se declaram competentes; II - 2 (dois) ou mais juízes se consideram incompetentes, atribuindo um ao outro a competência; III - entre 2 (dois) ou mais juízes surge controvérsia acerca da reunião ou separação de processos. Parágrafo único. O juiz que não acolher a competência declinada deverá suscitar o conflito, salvo se a atribuir a outro juízo. O artigo 66, por sua vez, trata do conflito de competência, podendo ser este conflito positivo ou negativo. O conflito de competência tem natureza de incidente processual por tratar de uma questão fundamental para a regularidade do processo, art. 951 e seguintes. De acordo com o inciso I, o conflito é positivo quando dois ou mais juízes se declaram competentes para julgar o mesmo processo. O conflito deverá ser solucionado pelo 109 respectivo Tribunal, ou seja, compete ao STF julgar os conflitos de competência envolvendo o STJ ou qualquer outro tribunal, ao STJ julgar os conflitos de competência entre os tribunais, bem como, os conflitos de competência entre tribunal e juízes a ele não vinculados e entre juízes vinculados a tribunais diversos, ressalvada a competência do STF. Já o conflito negativo, disciplinado no inciso II, ocorre quando dois ou mais juízes se consideram incompetentes para o julgamento da ação. Deste modo, tem-se que a “reciprocidade” é um dos pressupostos para a instauração do incidente. Em outras palavras, a ação é proposta perante o juízo A, que se declara incompetente e determina a remessa para o juízo B, que por sua vez também se declara incompetente e atribui a competência ao juízo C, até o momento temos uma sucessão de declarações de incompetência. A partir do momento que o juízo B afirma ser incompetente deve-se instaurar o conflito de competência. Os artigos 55 (conexão) e 56 (continência) tratam de dois fatores de reunião de processos, ou seja, os autos do processo saem de um juízo e vão para outro e eventualmente pode ocorrer um conflito sobre em qual juízo devera se dar a reunião desses processos, e é sobre esse assunto que o inciso III aborda. De acordo com o inciso III, quando dois ou mais juízes divergem a respeito de para onde devem ser enviados os processos ou em qual juízo devem ser reunidos, a regra para solucionar esse conflito é a regra da prevenção (art. 69), o juízo prevento é aquele para onde as ações conexas ou as ações em que há continência devem ser encaminhadas. Com relação ao parágrafo único, Cassio Scarpinella Bueno entende que: (...) O parágrafo único do art. 66 é novidade. De acordo com ele, o juízo que não acolher a competência declinada deverá suscitar o conflito, salvo se a atribuir a outro juízo. Trata-se, nesse sentido de generalização, do que, no âmbito da Justiça Federal, está estampado na Súmula 224 do STJ e que acabou sendo refletida no § 3º do art. 45. (Bueno, Cassio Scarpinella – Novo Código de Processo Civil anotado/Cassio Scarpinella Bueno. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 84). Quando um juiz se diz incompetente e determina a remessa dos autos a um segundo juiz, este poderá, acolher a competência ou se este se considerar incompetente poderá atribuir a competência a outro juízo e remeter os autos a este ou ainda suscitar o conflito de competência para que o problema seja solucionado pelo tribunal respectivo. Ademais, poderá o Ministério Público nas causas em que atuar alegar a incompetência relativa. Por fim, deixo algumas súmulas relacionadas ao artigo 66 do CPC: 110 Súmula 59, STJ: Não há conflito de competência se já existe sentença com trânsito em julgado, proferida por um dos juízos conflitantes. Súmula 224, STJ: Excluído do feito o ente federal, cuja presença levara o Juiz Estadual a declinar da competência, deve o Juiz Federal restituir os autos e não suscitar conflito. Súmula 236, STJ: Não compete ao Superior Tribunal de Justiça dirimir conflitos de competência entre juízes trabalhistas vinculados a Tribunais do Trabalho diversos. Súmula 428, STJ: Compete ao Tribunal Regional Federal decidir os conflitos de competência entre juizado especial federal e juízo federal da mesma seção judiciária. CAPÍTULO II - DA COOPERAÇÃO NACIONAL Andrea da Silva Barbosa Art. 67. Aos órgãos do Poder Judiciário, estadual ou federal, especializado ou comum, em todas as instâncias e graus de jurisdição, inclusive aos tribunais superiores, incumbe o dever de recíproca cooperação, por meio de seus magistrados e servidores. Este artigo estabelece regras de cooperação nacional, ou seja, todos sabemos que há necessidade de divisão dos serviços do poder judiciário em vários órgãos, instancias, mas isso não quer dizer que determinado órgão ficará adstrito a prática de processos de sua competência, pois será necessário que um órgão do poder judiciário preste auxílio a outro, praticando ato de cooperação nacional. Em outras palavras, é necessário que uma testemunha que mora no Estado de São Paulo seja ouvida, mas o processo tramita na comarca do Rio de Janeiro. Nesse caso, o juízo competente para o julgamento dessa ação (Rio de Janeiro) enviará uma carta precatória ao juízo da comarca onde a testemunha reside (São Paulo), este juízo determinara a intimação da testemunha e a audiência para oitiva do seu depoimento. Após, o juízo da comarca de São Paulo devolverá os autos dessa carta precatória ao juízo da comarca do Rio de Janeiro, para que ele possa fazer a valoração da prova e o julgamento da causa de sua competência. 111 Este é um caso de cooperação nacional. Para Cássio Scarpinella Bueno: “Inovando em relação ao CPC de 1973 e a exemplo do que o novo CPC propõe para o plano internacional, o capítulo ora anotado traça as regras relativas à cooperação nacional como um verdadeiro ‘dever de recíproca cooperação’ entre todos os órgãos jurisdicionais de quaisquer graus de jurisdição, não só em relação aos magistrados, mas também entre os servidores. É o modelo de ‘processo cooperativo’, derivado do art. 6º, analisadoé possível identificá-la porque se consegue extrair o que é absolutamente descabido e desproporcional, orientando-se ao que seria, cabalmente, proporcional e razoável. Ainda, ao final deste artigo, fala-se em solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa, espelhando-se no inciso LXXVIII, da Constituição Federal do Brasil de 1988, para que se efetive a devida prestação da tutela jurisdicional. Ademais, quando se inclui a atividade satisfativa, quer-se dizer justamente a devida prestação da tutela jurisdicional, haja vista que se devem superar os entraves processuais, sanando-se os vícios, de sorte a evitar-se nulidade e dando-se cabo a qualquer lide. Art. 5º. Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a boa-fé. Trata-se de imposição exata – não-genérica, como o Código de Processo Civil italiano, que em seu artigo 88 refere-se, apenas e tão-somente, ao dever de “lealdade e probidade” – e por essa razão, se se ultrapassam os limites por estes impostos, estar-se-ia incorrendo de forma análoga no artigo 187, do Código Civil (JUNIOR; NERY, 2016, p. 217); cabendo responsabilização da parte que abusa, consoante determinam os artigos 79 e 81, do Código de Processo Civil. Ainda, é salutar frisar, enquanto o abuso de direito é ilicitude que se verifica de forma objetiva, a litigância de má-fé afere-se de forma subjetiva. Assim, a boa-fé passaa ser entendida como expressão de princípio de cooperação, pelo caráter que traz este Código de Processo Civil, no que se propôs. 56 Art. 6º. Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva. Neste, o princípio de cooperação passa a ser expresso e definido, inobstante, apesar de poder parecer, não se trata de ônus, mas sim de dever de probidade e lealdade processual, que devem ser observados pelos mencionados sujeitos do processo; quais sejam, as partes e seus respectivos procuradores. Logo, como outrora dito, qualquer que descumpra este dever de probidade fica sujeito à sanção dos artigos 79 e 81, do Código de Processo Civil, ainda que o resultado da demanda não tenha sido afetado por essa eventual conduta. Além, para Arruda Alvim, o termo “parte” deve ser visto entendido em seu sentido lato, significando todo aquele que participa do processo, incluindo-se o assistente, o oponente, o litisdenunciado, o chamado ao processo (2015 apud JUNIOR; NERY, 2016, p. 218). Com efeito, o dever de probidade é preceito de natureza processual e, portanto, seu descumprimento implica sanção processual, igualmente; assim sendo, qualquer eventual infração funcional deve ser investigada por via adequada e de acordo com o regime legal de cada carreira, em sua disciplina que lhe é própria. Mais, ainda que cooperação e solidariedade surjam do princípio da boa-fé, a sua explicitação neste artigo faz-se por deveras importante, vez que, para além de nortear a participação das partes no processo, traz possibilidade a evitar a natural tendência humana ao individualismo; sem se preocupar com a versão e afins da parte adversa, tornando penosa a solução à lide. Então se pode evocar a máxima de que o processo civil não privilegiaria a verdade real, a contrario sensu do processo penal; embora não se possa, por isso, privilegiar o seu interesse em desfavor da atividade estatal judiciária, haja vista que ainda se trata, por óbvio, de instrumento juridicamente relevante – de interesse maior, por assim dizer. Finalmente, por mais que se tenha como princípio expresso, o legislador não trouxe nenhuma punição a quem não viesse a cooperar – sendo que não se trata de ajudar a outra parte, mas sim colaborar tanto com a adversa quanto com o próprio órgão jurisdicional, para que se obtenha do processo a melhor condução possível; todavia, em sendo desdobramento do princípio de boa-fé, deve ser observado, pois a inobservância desse, sim, é punível. Art. 7º. É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório. 57 Prima facie, pode ser este entendido como extensão do artigo 5º, caput, parte inicial, da Constituição Federal de 1988, conquanto se tem por escopo a igualdade de tratamento e de atuação das partes é tão própria do sentido de justiça que é comum a todas as leis modernas, podendo, portanto, ser considerada princípio geral do processo (CHIOVENDA, 2009, p. 100). Portanto, compete ao juiz assegurar às partes a isonomia, pois a igualdade de que fala o texto constitucional é real, substancial, significando que juiz deve tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida de suas desigualdades (JUNIOR, 2009, p. 112). Deste modo, as partes, por decorrência lógica do princípio do contraditório – para além do próprio ora exposto -, devem ter as mesmas oportunidades, sendo o juiz pelo suscitado artigo o responsável dessa observância e, mais ainda, garantia e eventual saneamento dos vícios e afins que possam obstá-la. E, em decorrência do princípio do contraditório, extrai-se a paridade de armas, que não se limita a essas oportunidades iguais e afins, mas também se estende aos mesmos instrumentos de ataque e defesa, possibilitando ao juiz a solução mais justa e equânime, ao final do processo (LOPES, 2008, p. 266). Art. 8º. Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência. Para além da observância autoexplicativa em comento destes princípios. Por óbvio, o juiz não pode descurar dos mesmos princípios da Administração quando da apreciação, pelo Judiciário, de decisões administrativas. Afinal, as decisões administrativas estão submetidas ao crivo do Judiciário, mesmo quanto ao mérito (GRINOVER, 2007, p. 34). Tanto é que a autoridade administrativa, quando responsável por decisão de processos administrativos, deve estar igualmente atenta aos princípios constitucionais- processuais; mais-notadamente, o do contraditório, por tratar-se da natureza basilar de todo e qualquer processo. Ademais, por ser cláusula geral processual, obriga o juiz a dar-lhe concretude, não bastando a mera igualdade formal de armas e, por conseguinte, compreende igualmente a restrição às decisões surpresa; isto é, não se pode surpreender com decisão fu decisão fundamentada em fatos ou circunstâncias das quais não se tenha dado ciência. 58 Art. 9º. Não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida. Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica: I - à tutela provisória de urgência; II - às hipóteses de tutela da evidência previstas no art. 311, incisos II e III; III - à decisão prevista no art. 701. Junto do artigo posterior, este veda a chamada decisão surpresa, que, como alhures explicado, é baseada em circunstâncias ou fatos dos quais não se dera conhecimento à parte prejudicada pela mesma decisão; decorrendo, portanto, do princípio do contraditório, também. Ademais, é salutar frisar o due process of law, porque deve o juiz observar o contraditório - que está previsto no artigo 7º deste códex -, a não ser quando dos casos especificados por este artigo 9º; quais sejam, medida de urgência ou risco de perecimento de direito. Destarte, para que se efetive o atendimento a este princípio, não basta garantir o órgão julgador, às partes, a possibilidade de manifestar-se no processo, mas também a de acompanhar a colheita de provas e dessa fazer parte; de sorte a tornar superada a questão de que o processo civil não busca a verdadena perspectiva externa, de relação entre os próprios órgãos do Judiciário e seus personagens.”. (Bueno, Cassio Scarpinella – Novo Código de Processo Civil anotado/Cassio Scarpinella Bueno. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 84). A finalidade dessa cooperação nacional é tornar efetiva e célere a prestação do serviço jurisdicional, bem como, a razoável duração do processo, princípios fundamentais na Constituição Federal. A desburocratização resultante da cooperação pode evitar o acúmulo processual e reduzir as custas do processo, beneficiando as partes, que aguardam pelo veredito. Todavia, a almejada celeridade processual está além da letra do Código, portanto, a mera positivação da cooperação jurisdicional nacional não a torna automaticamente eficaz, devendo ao Poder Judiciário proporcionar o aparato necessário para viabilizar a aplicação desses dispositivos. Art. 68. Os juízos poderão formular entre si pedido de cooperação para prática de qualquer ato processual. Em regra, não há uma forma especifica de pedido de cooperação entre os órgãos do poder judiciário, ou seja, qualquer ato pode ser praticado por meio de cooperação. Isto se da para facilitar e desburocratizar a prática de atos processuais ou diligências, fora da circunscrição territorial do foro da causa, facilitando o cumprimento das precatórias. Ressalta-se que a cooperação é sinônimo do agir de boa-fé e esse fator deve sempre nortear os sujeitos do processo. Art. 69. O pedido de cooperação jurisdicional deve ser prontamente atendido, prescinde de forma específica e pode ser executado como: I - auxílio direto; II - reunião ou apensamento de processos; III - prestação de informações; IV - atos concertados entre os juízes cooperantes. § 1º As cartas de ordem, precatória e arbitral seguirão o regime previsto neste Código. § 2º Os atos concertados entre os juízes cooperantes poderão consistir, além de outros, no estabelecimento de procedimento para: 112 I - a prática de citação, intimação ou notificação de ato; II - a obtenção e apresentação de provas e a coleta de depoimentos; III - a efetivação de tutela provisória; IV - a efetivação de medidas e providências para recuperação e preservação de empresas; V - a facilitação de habilitação de créditos na falência e na recuperação judicial; VI - a centralização de processos repetitivos; VII - a execução de decisão jurisdicional. § 3º O pedido de cooperação judiciária pode ser realizado entre órgãos jurisdicionais de diferentes ramos do Poder Judiciário. O artigo 69, disciplina sobre as várias formas de cooperação nacional. O legislador determina que: “O pedido de cooperação jurisdicional deve ser prontamente atendido”, ou seja, impõe um dever ao magistrado quando recebe o pedido de cooperação nacional, ademais, não há em regra uma forma específica para a prática desses atos de cooperação, podendo ser realizados como auxílio direto, reunião ou apensamento de processos, prestação de informações ou ainda como atos concertados entre os juízes cooperantes, deste modo, diante do caso concreto, os juízes podem determinar qual será o ato de cooperação e de que forma deverá ser praticado. O rol exemplificativo do artigo trata de alguns exemplos de cooperação, dentre eles o auxílio direto, que é a modalidade mais simplificada de cooperação, tende a propiciar o intercâmbio imediato entre os servidores ou magistrados, sem a interferência de qualquer outro órgão ou autoridade. O pedido de auxílio direto, por exemplo, pode tornar desnecessária a formalidade de expedir carta precatória para a prática de determinado ato processual. No que concerne a cooperação nacional, a reunião de processos pode ocorrer por conexão, a fim de evitar a prolação de decisões conflitantes. No apensamento de processos haverá a junção de processos para que tramitem em conjunto sem que isso implique na modificação da numeração originária. Outra técnica de cooperação nacional é a prestação de informações que deve ocorrer de forma simples, sem maiores formalidades. Já a medida de atos concertados entre os juízes cooperantes, são aqueles que de comum acordo são fixados pelos juízes cooperados para estabelecer procedimentos relacionados as hipóteses do § 2º. O § 1º trata das cartas de ordem, precatória e arbitral, estas devem seguir uma forma específica, estabelecida nos artigos 236 e 237 do CPC. Para Cassio Scarpinella Bueno: As cartas de ordem, precatória e arbitral deverão observar o regime previsto nos arts. 260 a 268, de acordo com o § 1º do art. 69. Sua expedição, todavia, tende a minimizar diante da abrangência que o novo CPC deu à cooperação nacional e à desformalização admitida neste 113 tipo de comunicação. O § 3º do art. 69, por fim, dispõe que o pedido de cooperação judiciária pode ser realizado entre órgãos jurisdicionais de diferentes ramos do Poder Judiciário, regra que, em rigor, deveria estar alocada no art. 67.”. (Bueno, Cassio Scarpinella – Novo Código de Processo Civil anotado/Cassio Scarpinella Bueno. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 85). Ademais, no que tange o § 3º podemos dizer que por exemplo, é possível que um juízo Federal de primeira instancia solicite a prática de um ato de cooperação a um juízo estadual de uma comarca diversa, se naquela comarca não houver vara federal. LIVRO III DOS SUJEITOS DO PROCESSO TÍTULO I - DAS PARTES E DOS PROCURADORES CAPÍTULO I - DA CAPACIDADE PROCESSUAL Andrea da Silva Barbosa Art. 70. Toda pessoa que se encontre no exercício de seus direitos tem capacidade para estar em juízo. O art. 70 do CPC/2015 repete o art. 7º do Código de 73, ao afirmar que toda pessoa que se encontre no exercício de seus direitos tem capacidade para estar em juízo. De início, é importante diferenciar capacidade de ser parte de capacidade para estar em juízo. O primeiro se conecta com o conceito de personalidade jurídica, ou seja, tem capacidade de ser parte quem tem personalidade jurídica, mesmo aqueles que não tem capacidade civil plena, menor de dezoito anos por exemplo, tem personalidade jurídica, logo tem capacidade de ser parte, mesmo que lhes falte capacidade de estar em juízo, e é isso que exige o artigo 70, aqueles que não tem capacidade civil plena, deverão ser devidamente representados ou assistidos a depender da sua incapacidade. Essa capacidade de estar em juízo também conhecida como “legitimatio ad processum” é um pressuposto processual de validade, sua ausência pode levar a extinção do processo sem analise do mérito. Art. 71. O incapaz será representado ou assistido por seus pais, por tutor ou por curador, na forma da lei. Lucas Casquer Mastrocola Pedro Bellentani Quintino de Oliveira Lucas Casquer Mastrocola (1) Pedro Bellentani Quintino de Oliveira (1)real, permitindo que as partes enfatizem e façam valer seu ponto de vista. Nada obstante, o juiz deve igualmente garantir que não se tenha abuso de direitos, nos termos aqui explicitados, para que tanto o prazo razoável do processo quanto a devida prestação jurisdicional sejam alcançados. Logo, a concessão de medida cautelar ex officio, sem que seja ouvida a parte adversa, faz-se como verdadeira exceção, que só deve pelo juiz ser tomada em situações deveras excepcionais; as quais são previstas nos incisos I, II e III de seu parágrafo único – tutela provisória de urgência, certas hipóteses de tutela de evidência (as previstas no art. 311, incisos II e III) e decisão que se lastra no artigo 701, também do Código de Processo Civil. É exemplo a ADPF 347, de relatoria do Ministro Marco Aurélio: EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL PENAL. ILEGITIMIDADE ATIVA DE AMICUS CURIAE PARA PLEITEAR TUTELA PROVISÓRIA INCIDENTAL EM ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL. REFERENDO. AMPLIAÇÃO DO OBJETO DA CAUSA PRINCIPAL E CONCESSÃO DE MEDIDA CAUTELAR DE OFÍCIO. IMPOSSIBILIDADE. NÃO REFERENDO. 1. O amicus curiae não tem legitimidade ativa para pleitear provimento jurisdicional de concessão de medida cautelar em sede de controle abstrato de constitucionalidade. Ilegitimidade de parte reconhecida. 2. Embora no controle abstrato de constitucionalidade a causa de pedir seja aberta, o pedido da inicial deve ser certo e determinado. Impossibilidade de o julgador ampliar o objeto a demanda de ofício. 3. Medida cautelar referendada na parte em que reconhece a ilegitimidade ativa de terceiro interessado. 4. Não referendo da cautelar quanto à ampliação do objeto da ADPF. 59 Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício. Estando este dispositivo em consonância com as garantias constitucionais do devido processo legal (artigo 5º, caput e inciso LIV, da Constituição Federal de 1988) e do contraditório (artigo 5º, LV, também da Constituição), não permite juiz tampouco Tribunal decidir sobre qualquer questão, ainda que se trate de matéria de ordem pública, atinente ao processo, sem que se tenha concedido, previamente, prazo para as partes poderem manifestar-se acerca dessa. E, mais uma vez, tem-se a proibição de decisão surpresa – a, repita-se, que é baseada em circunstâncias ou fatos dos quais não se dera conhecimento à parte prejudicada pela mesma decisão -, justamente, por ter por escopo, ressalte-se, os princípios do contraditório e do devido processo legal, previstos, respectivamente, no artigo 5º, caput e incisos LIV e LV, da Constituição Federal de 1988. Assim, pela relação de transparência entre o juiz e as partes, é notório constatar que o juiz é tido como sujeito ativo do processo, uma evolução que se vem impondo desde os últimos 25 anos do século XX; não passivo, sob o argumento superado de que o processo tão-só interessaria às partes envolvidas (JUNIOR; NERY, 2016). Isto porque deve o juiz, juntamente com as outras partes todas – em sentido amplo, as próprias partes, mas também os seus procuradores, membros do Parquet etc -, pautar-se por atuar na realização do direito material, a usar o processo em sua verdadeiro função, a de instrumento de efetividade do direito material. Para Barbosa e em outras palavras, incumbe-lhe dirigir o processo de tal maneira que ele sirva bem àqueles a quem se destina a servir. E o processo deve, sim, servir às partes; mas deve também servir à sociedade (2013 apud JUNIOR; NERY, 2016, p. 225). Sendo poder-dever de o juiz ouvir as partes, haja vista que há a proibição de decisão surpresa, em decorrência do princípio do contraditório constitucionalmente positivado; de modo a ensejar ao juiz o poder-dever de ouvir as partes acerca de todo e qualquer ponto do processo, mesmo os que possivelmente serão por ele decididos, sejam a requerimento de parte ou interessado, seja de ofício. E jamais se pode implicar no adiantamento do entendimento do juiz – já que se implicaria pré-julgamento não só intolerável, como também inconstitucional, a macular a imparcialidade inexorável ao juiz e a respectiva equidistância que deve, sempre, ser mantida; garantindo-se o contraditório e a vedação à decisão surpresa, em conformidade com, reforce-se, o due process of law. 60 Destarte, tem-se reconhecido, no poder-dever de o juiz informar às partes, a incidência de matéria de ordem pública – no intuito de poderem as partes, querendo, tomar as medidas que entendam ser necessárias -, que poderia ele decidir ex officio, tanto por conta do contraditório (vedação à decisão surpresa) quanto para ter-se limite à atividade do juiz no processo; ainda que seja ele sujeito ativo, consoante delineado (TARZIA, 2001, p. 725/726). Tamanha a proteção constante neste dispositivo legal que, mesmo que a decisão de matéria de ordem pública seja devida – por exemplo, havia de fato a prescrição ou carência da ação -, sobrevém a nulidade do ato, por cerceamento de defesa e ofensa ao contraditório. Art. 11. Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade. Parágrafo único. Nos casos de segredo de justiça, pode ser autorizada a presença somente das partes, de seus advogados, de defensores públicos ou do Ministério Público. Quer-se dizer, o princípio da publicidade determina, justamente, que os julgamentos pelo Poder Judiciário realizados devem ser públicos, salvo quando a Lei determinar o contrário – no caso de segredo de justiça -; nessa hipótese, a publicidade do ato será restrita às partes e aos seus respectivos procuradores. Sendo que a fundamentação não pode ser genérica, limitando-se, por exemplo, à transcrição de depoimentos e documentos, exigindo-se a exposição de razões fáticas e de direitos que embasam a decisão. Ainda, este dispositivo legal, no que se refere à publicidade dos atos processuais, dimensiona-se com direito fundamental de todo e qualquer cidadão (artigo 5º, LX, da Constituição Federal do Brasil de 1988), embora a própria Carta faça menção aos casos em que se admite o sigilo e realização de atos sob segredo de justiça; ex vi Barbosa se houverem de discutir matérias de especial delicadeza (2015 apud JUNIOR; NERY, 2016, p. 232). Ademais, embora a Lei enumere esses casos, nada impede que o juiz confira outros, ao seu critério, mas em virtude de interesse público, processamento em segredo de justiça, em hipótese que justifica o seu proceder (artigos 189, incisos I a V, 368, 731 e 747, todos do Código de Processo Civil). Por conseguinte, a comunicação pública desses (publicação de editais e intimações) deve ser feita por cifras, que permita a transmissão real da mensagem tão-só a seus procuradores; da sentença, a advento exemplificativo, devendo constar, apenas e tão- somente, a conclusão. Devendo todas as partes – novamente, em sentido lato -, zelar pelo sigilo de tudo o que contém o processo. 61 Art. 12. Os juízes e os tribunais atenderão, preferencialmente, à ordem cronológica de conclusão para proferir sentença ou acórdão. § 1º A lista de processos aptos a julgamento deverá estar permanentemente à disposição para consulta pública em cartório e na rede mundial de computadores. § 2º Estão excluídos da regra do caput: I - as sentenças proferidas em audiência, homologatórias de acordo ou de improcedência liminar do pedido; II - o julgamento de processos em bloco para aplicação de tese jurídica firmada em julgamento de casos repetitivos; III - o julgamento de recursos repetitivos ou de incidente de resolução de demandas repetitivas; IV - as decisões proferidas com base nos arts. 485 e 932 ; V - o julgamentode embargos de declaração; VI - o julgamento de agravo interno; VII - as preferências legais e as metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça; VIII - os processos criminais, nos órgãos jurisdicionais que tenham competência penal; IX - a causa que exija urgência no julgamento, assim reconhecida por decisão fundamentada. § 3º Após elaboração de lista própria, respeitar-se-á a ordem cronológica das conclusões entre as preferências legais. § 4º Após a inclusão do processo na lista de que trata o § 1º, o requerimento formulado pela parte não altera a ordem cronológica para a decisão, exceto quando implicar a reabertura da instrução ou a conversão do julgamento em diligência. § 5º Decidido o requerimento previsto no § 4º, o processo retornará à mesma posição em que anteriormente se encontrava na lista. § 6º Ocupará o primeiro lugar na lista prevista no § 1º ou, conforme o caso, no § 3º, o processo que: I - tiver sua sentença ou acórdão anulado, salvo quando houver necessidade de realização de diligência ou de complementação da instrução; II - se enquadrar na hipótese do art. 1.040, inciso II . Ainda que se diga no caput deste artigo “preferencialmente”, dar preferência à ordem cronológica não significa que seja faculdade do juiz, vez que este deve, sim, atender preferentemente à ordem cronológica, sempre que possível; tanto que, para não atender a esta, deverá justificar, necessariamente. Logo, para além da ordem cronológica em comento, nos termos acima explicitados, há exceções e essas exceções têm, como é curial, natureza de urgência; devendo ser julgadas com prioridade, seja porque demora poder acarretar perecimento de direito, seja por razões puramente administrativas, no intuito de agilizar-se o funcionamento do Judiciário. Entretanto, nessas exceções, deve-se prevalecer a ordem cronológica dos demais atos, que tem de ser aplicada em consonância com o texto acima comentado, até para que se garanta, a título de exemplo, o demonstrado prazo razoável; efetivando-se a parte administrativa do Poder Judiciário. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art485 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art932 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art1040 62 CAPÍTULO II - DA APLICAÇÃO DAS NORMAS PROCESSUAIS Lucas Casquer Mastrocola Pedro Bellentani Quintino de Oliveira Art. 13. A jurisdição civil será regida pelas normas processuais brasileiras, ressalvadas as disposições específicas previstas em tratados, convenções ou acordos internacionais de que o Brasil seja parte. Prima facie, mister salientar que dentro de suas fronteiras, o Estado soberano é livre para dispor a respeito do direito material regente de atos nacionais que possam interferir na esfera internacional. É o caso, por exemplo, da nacionalidade. Mas o ‘poder jurisdicional’ do Estado é limitado pela competência estabelecida por princípios gerais de Direito internacional (MAGALHÃES, 1999, p. 767). Ademais, a legislação processual brasileira não se aplicará tão-só em caso de disposição específica em tratado ou convenção – como da interpretação literal do instado artigo -, mas também em caso de jurisdição arbitral, porque, ainda que todas as partes sejam brasileiras, é possível eleger-se nessa modalidade o direito processual, bem como o material, por normas de direito estrangeiras. Portanto, ao que parece, o legislador buscou impedir confusão interpretativa, ao passo que a aplicabilidade da legislação processual no espaço dar-se-ia da mesma forma que se faz com a material; a qual é regida, como notório, pelas regras da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro (LINDB). Cabalmente, quanto à sua prevalência, o CPC 13 segue princípio básico de direito processual internacional, segundo o qual a lei processual aplicável, via de regra, será a do foro competente para a apreciação da causa. A competência interna, por motivos de soberania nacional, é do Estado em que o processo deverá tramitar (GOMES, 2003, p. 176). Art. 14. A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a vigência da norma revogada. Em igual diapasão e no sentido amplo do inciso XXXVI, do artigo 5º, da Constituição Federal do Brasil de 1988 - o qual roga que a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada -, este dispositivo infraconstitucional segue a regra-geral de irretroatividade da lei nova; no sentido de que a retroatividade é 63 verdadeira exceção e que tão-só pode ser aplicada com interpretação e aplicação deveras restritivas, em casos excepcionais por Lei definidos. Por isso, não se distingue lei de ordem pública e de ordem privada, pois a Constituição não o faz, sendo vedado ao intérprete fazê-lo, sob nenhuma hipótese; em outras palavras, como direito fundamental, existe si et por cause, sem que se admita nenhuma espécie de relativização, mesmo a de supremacia do “direito público” ao “direito privado”, pela superveniência de lei nova de “ordem pública” (JUNIOR; NERY, 2016, p. 240). Destarte, tendo em vista a regra-geral do efeito imediato da lei – no que se refere à sua aplicação -, tem-se que a lei nova é aplicável às relações jurídicas existentes ou por nascer, sendo que os fatos pendentes são em verdade presentes e, por conseguinte, regulados pela eficácia imediata da lei nova, que se aplica ao presente. Isto porque se entende que a regra “tempus regit actum” não significa aplicação da lei do ‘começo’ do processo; valendo, igualmente, às relações continuativas, isto é, as que ainda se encontram em execução (facta pendentia). (JUNIOR; NERY, 2016). Tanto é assim que, para justificar a aplicação da lei nova aos feitos pendentes, a doutrina fala em “retroatividade apenas na aparência” (MAXIMILIANO, 1946, p. 264). Com efeito, os atos outrora praticados, sob a égide da lei antiga, estão protegidos pela garantia constitucional do inciso XXXVI, do artigo 5º, da Constituição Federal do Brasil de 1988, conforme alhures fundamentado. Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Por este, tem-se que o Código de Processo Civil é a lei geral do processo no Brasil, não sendo aplicável, apenas e tão-somente, quando houver regra especial aplicável e contrária à regra-geral deste códex, por conta da incidência do chamado princípio da especialidade. Então, mesmo que não exista na lei especial dispositivo expresso da aplicação deste código, quando da lacuna, aplica-se este justamente por ser a lei geral do processo, nos termos do artigo supracitado. Consequentemente, será este aplicável tanto na forma subsidiária – quando houver omissão relativa (lacuna parcial) – quanto na supletiva – ao haver omissão absoluta (lacuna plena) -; devendo para tal ser observada a compatibilidade com o processo em que se pretende aplicá-lo, seja a compatibilidade subsidiária, seja relativa (JUNIOR; NERY, 2016, p. 245). 64 LIVRO II DA FUNÇÃO JURISDICIONAL TÍTULO I - DA JURISDIÇÃO E DA AÇÃO Beatriz Krebs Delboni3 Norberto Oya4 Arts. 16 – 27 Art. 16. A jurisdição civil é exercida pelos juízes e pelos tribunais em todo o território nacional, conforme as disposições deste Código. Art. 1º do CPC/1973: A jurisdição civil, contenciosa e voluntária, é exercida pelos juízes, em todo o território nacional, conforme as disposições que este Código estabelece. 1. A jurisdição A jurisdição pode ser analisada sob três ângulos: poder, função e atividade. Enquanto poder, ela consiste na manifestação da soberania nacional, dentro dos limitesadmitidos pelo Estado Democrático de Direito. Dito de outro modo, é o poder do Estado de interpretar e aplicar a lei, fazendo valer suas decisões por meios coercitivos. No que toca à função, a jurisdição serve para resolver conflitos da sociedade e satisfazer o direito dos jurisdicionados. Ressalta-se que não basta prestar uma tutela jurisdicional – essa tutela deve ser efetiva. Como atividade, a jurisdição está associada ao conjunto de atos praticados pelo juiz no processo, que permitem a prestação da tutela. Nota-se, assim, que os três elementos estão interligados entre si. A partir de uma série de atos processuais (atividade), o Estado tem o dever de solucionar controvérsias e prestar uma tutela jurisdicional efetiva (função), assim como tem o poder para implementar sua decisão por meios coercitivos (poder). Para fins de aplicação das regras do Código de Processo Civil, entende-se que a jurisdição civil abrange toda jurisdição não penal. 2. Funções típicas e atípicas Pela leitura do art. 16, que fala em “juízes e tribunais”, depreende-se que a função 3 Mestranda em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Advogada. Bacharel pela Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas – FGV Direito SP 4 Mestrando em Direito Processual Civil e Especialista em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Procurador do Estado de São Paulo. 65 jurisdicional é típica do Poder Judiciário. No entanto, há situações excepcionais em que os Poderes Legislativo e Executivo também a exercem como função atípica. O Poder Legislativo exerce função jurisdicional atípica, por exemplo, quando o Congresso Nacional julga crimes de responsabilidade cometidos pelo Presidente da República (arts. 85 e 86 da Constituição Federal – CF/1988). Já um exemplo do Poder Executivo exercendo função jurisdicional atípica é a apreciação por seus órgãos de defesas e recursos administrativos. 3. Princípio da unidade da jurisdição De acordo com o princípio da unidade da jurisdição, ela é una e indivisível, representando a soberania do Estado. Esse conceito não se confunde com o de competência, que pode ser definida como medida, quantidade de jurisdição. Isso porque, ainda que a jurisdição seja única, na prática seria inviável que todos os juízes e tribunais tratassem de todos os temas passíveis de ensejarem conflitos. Dessa forma, são estabelecidos órgãos encarregados do exercício da jurisdição, cada um com a sua função (art. 92 da CF/1988). 4. Princípio da territorialidade Nenhuma parte do território brasileiro pode ser excluída da jurisdição, nem entregue à apreciação de um Estado estrangeiro. Ainda assim, há situações em que se admite a competência concorrente, por meio da qual o Brasil pode homologar sentenças estrangeiras, desde que preenchidos determinados requisitos. 5. Jurisdição contenciosa e voluntária O atual art. 16 corresponde ao art. 1º Código de Processo Civil de 1973 (CPC/1973), que falava expressamente em jurisdição contenciosa e voluntária. Apesar do desaparecimento das expressões, entende-se que permanece a distinção entre elas. Nesse sentido, a jurisdição contenciosa diz respeito à existência de um conflito a ser dirimido pelo magistrado. Já a voluntária não envolve um litígio, mas trata de um interesse sujeito ao controle do Poder Judiciário (arts. 719 e seguintes do Código de Processo Civil de 2015 – CPC/2015). Como exemplos diferenciadores entre as duas, pode-se citar, respectivamente, o divórcio litigioso e o divórcio consensual. 66 6. Arbitragem À época da introdução da Lei 8.307/1996 (Lei de Arbitragem), houve intenso debate sobre a constitucionalidade da arbitragem no Brasil, por conta do art. 5º, inciso XXXV, da CF/1988, segundo o qual não se excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. O Supremo Tribunal Federal (STF) apreciou incidentalmente a questão no julgamento do AgRg na SE 5206, de relatoria do min. Sepúlveda Pertence, em 2001, julgando a arbitragem constitucional por maioria de votos. Assim, atualmente, é pacífico entendimento de que a arbitragem é admitida no direito brasileiro, constituindo uma legítima substituição voluntária da justiça estatal (Lei 8.307/1996; arts. 3º, §1º, 189, inciso IV, 237, inciso IV, 260, §3º, 337, inciso X e §5º, 359, 485, inciso VII, 515, inciso VII, 516, inciso III, 960, §3º e 1.012, inciso IV, do CPC/2015; e art. 114, §2º, da CF/1988). Art. 17. Para postular em juízo é necessário ter interesse e legitimidade. Art. 3º do CPC/1973: Para propor ou contestar ação é necessário ter interesse e legitimidade. 1. O direito de ação Ao longo da história, diversas teorias buscaram explicar o direito de ação (monista, dualista, concretista, abstrata, eclética). Hoje, pode-se considerar o direito de ação como o direito à obtenção de uma tutela jurisdicional efetiva. Ressalta-se que o direito de ação não está condicionado à existência efetiva do direito material invocado, ou seja, o requerente não necessariamente obterá uma sentença favorável de mérito ao exercê-lo. É por meio do direito de ação que se provoca a jurisdição (princípio da inércia da jurisdição, presente no art. 2º do CPC/2015) e se inicia a série de atos do processo. 2. Condições da ação Pela leitura do art. 5º, inciso XXXV, da CF/1988, extrai-se um direito genérico por meio do qual todos os cidadãos têm amplo acesso ao Poder Judiciário. Entretanto, o exercício do direito processual de ação, ainda que derivado do texto constitucional, não é irrestrito. Pelo contrário, ele requer o preenchimento das condições da ação, consubstanciadas no interesse processual e na legitimidade ad causam. 67 O fundamento dessa restrição é a economia processual: se o juiz perceber desde logo que não será possível conceder a tutela jurisdicional, ele deve extinguir a ação, sob pena de prolongar um processo sem qualquer utilidade e sobrecarregar imotivadamente o Poder Judiciário. Nesse caso, aplica-se o art. 485, inciso VI, do CPC/2015, que trata da extinção do processo sem resolução do mérito. Destaca-se que a redação do código atual gerou dúvidas quanto à permanência das condições da ação no ordenamento jurídico, uma vez que a expressão não consta mais expressamente na lei processual – a exemplo disto, autores como Fredie Didier Jr. sustentam que elas passaram a integrar os pressupostos processuais. Ainda assim, prevalece na doutrina o entendimento de que as condições da ação continuam existindo, não se confundindo com os pressupostos processuais. Por fim, o CPC/2015 suprimiu a possibilidade jurídica do pedido das condições da ação, restando tão somente o interesse processual e a legitimidade ad causam. 3. Interesse processual O interesse processual ou interesse de agir refere-se à indispensabilidade da via escolhida para se atingir o fim desejado pela parte autora. Fala-se, com isso, em necessidade e adequação da tutela jurisdicional pleiteada. Nessa linha de raciocínio, a necessidade verifica-se quando inexiste outro modo se obter a satisfação do direito alegado sem a provocação da jurisdição – na grande maioria dos casos, porque há uma resistência da outra parte. Já a adequação consiste na correlação entre o remédio processual pleiteado e a pretensão que o requerente busca atingir. 4. Legitimidade ad causam A legitimidade ad causam pode ser analisada sob diversos aspectos. Simplificadamente, ela se verifica quando existe uma relação entre o sujeito e a causa, tanto do ponto de vista do autor quanto do réu. No plano ativo – autor –, há legitimidade quando o indivíduo pode, ao menos potencialmente, receber os benefícios da tutela jurisdicional requerida. No plano passivo – réu –, é legítimo o sujeitoque, a princípio, pode sofrer os impactos negativos da concessão da tutela jurisdicional pleiteada. A legitimidade ad causam (“para a causa”) difere da legitimidade ad processum (“para o processo”). Esta última refere-se à capacidade para estar em juízo, enquadrando-se 68 na categoria de pressupostos processuais – que são requisitos anteriores ao processo, ligados à sua validade e previstos no art. 486, inciso IV, do CPC/2015. Art. 18. Ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando autorizado pelo ordenamento jurídico. Parágrafo único. Havendo substituição processual, o substituído poderá intervir como assistente litisconsorcial. Art. 6º: Ninguém poderá pleitear, em nome próprio, direito alheio, salvo quando autorizado por lei. 1. Legitimidade ordinária e extraordinária Este ponto é um desdobramento da legitimidade ad causam. Fala-se em legitimidade ordinária quando um indivíduo defende direito próprio em nome próprio. Tem-se, aqui, uma identidade entre a parte material e a parte processual. É a regra geral do ordenamento jurídico. Já a legitimidade extraordinária ocorre quando um sujeito defende direito alheio em nome próprio. Deixa de existir, portanto, uma identidade entre a parte material e a parte processual. Trata-se, como o próprio nome indica, de uma exceção. Diferentemente do art. 6º do CPC/1973, que falava “autorizado por lei”, a parte final do caput do atual art. 18 fala em autorização pelo “ordenamento jurídico”. Assim, deve haver previsão no sistema como um todo, o que não pressupõe necessariamente a existência de uma lei em sentido estrito. 2. Substituição processual Chama-se o legitimado extraordinário de substituto processual. Na substituição processual, o substituto exerce ação própria. Dito de outro modo, ele é parte no processo, de modo que apresenta interesse na relação processual, bem como tem os poderes inerentes à ação. A coisa julgada advinda dessa ação atinge tanto o substituto quanto o substituído. A substituição processual não se confunde com a representação ou assistência (art. 71 do CPC/2015), nem com a sucessão processual (art. 108 e seguintes do CPC/2015). Nesse sentido, o representante e o assistente não agem em nome próprio, mas em nome do representado e do assistido, respectivamente. Já na sucessão processual, uma pessoa anteriormente estranha à relação processual passa a integrá-la ocupando a mesma posição da pessoa sucedida. É, em suma, uma modificação da titularidade material, podendo ocorrer tanto no polo ativo quanto no passivo. 69 São aplicáveis a este tópico os Enunciados 110, 487 e 667 do Fórum Permanente de Processualistas Civis (FPPC). 3. Assistente litisconsorcial O parágrafo único do dispositivo dispõe que, no caso de substituição processual, o substituído pode intervir como assistente litisconsorcial, com vistas a influir na relação jurídica entre o substituto e seu adversário (vide art. 124 do CPC/2015). Art. 19. O interesse do autor pode limitar-se à declaração: I - da existência, da inexistência ou do modo de ser de uma relação jurídica; II - da autenticidade ou da falsidade de documento. Art. 4º do CPC/1973: O interesse do autor pode limitar-se à declaração: I - da existência ou da inexistência de relação jurídica; II - da autenticidade ou falsidade de documento. 1. Ação declaratória Em sentido amplo, pode-se dizer que todas as ações têm, em certa medida, um conteúdo declaratório, uma vez que objetivam a declaração de existência de um fato ou direito. Em sentido estrito, depreende-se da redação do art. 19 que a ação de natureza meramente declaratória pode ter dois fins. O primeiro consiste em solucionar uma situação de incerteza quanto à existência, inexistência ou modo de ser de uma relação jurídica documento. Nota-se que houve um acréscimo do CPC/2015 em relação ao “modo de ser”, que não constava na redação do código revogado. O segundo objetivo refere-se à declaração de autenticidade ou falsidade de um documento. Trata-se de uma exceção conferida pelo ordenamento jurídico, uma vez que, via de regra, a declaração incide sobre um direito, e não sobre um fato – como é o caso do documento. Além disso, o que o art. 19 dispõe é que uma ação meramente declaratória não está condicionada à formulação de outros pedidos (como o condenatório ou constitutivo), bastando o pedido declaratório. Exemplos desse tipo de ação podem ser extraídos das súmulas 181, 213 e 242 do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ainda, nos termos da súmula 258 do STF, admite-se reconvenção em ação declaratória. 70 2. Interesse da parte autora A ação meramente declaratória pressupõe a existência de uma dúvida sobre uma relação jurídica ou sobre um documento. Essa dúvida deve ser objetiva, isto é, deve ultrapassar a esfera pessoal, subjetiva da parte autora. Pressupõe-se, assim, que algum fator externo provoque a situação de incerteza. É o caso, por exemplo, de um indivíduo que afirma que um documento é verdadeiro, enquanto outro imputa-lhe falsidade. Ademais, para que haja interesse processual, a situação duvidosa deve ser apta a afetar a esfera jurídica de quem ajuíza a ação meramente declaratória. Art. 20. É admissível a ação meramente declaratória, ainda que tenha ocorrido a violação do direito. Art. 4º, parágrafo único, do CPC/1973: É admissível a ação declaratória, ainda que tenha ocorrido a violação do direito. Art. 5º do CPC/1973: Se, no curso do processo, se tornar litigiosa relação jurídica de cuja existência ou inexistência depender o julgamento da lide, qualquer das partes poderá requerer que o juiz a declare por sentença. 1. Ação declaratória e violação do direito Na mesma linha do artigo anterior, o art. 20 dispõe que é possível ajuizar a ação meramente declaratória ainda que o direito tenha sido violado, ou seja, independentemente da formulação de pedido condenatório. O objetivo desse dispositivo é permitir que o indivíduo opte pela tutela jurisdicional que melhor satisfaz suas necessidades. Para tanto, também devem ser preenchidas as condições da ação (interesse processual e legitimidade ad causam). Trata-se de um entendimento pacífico, conforme se depreende da jurisprudência do STJ (AgInt no AREsp 1556722/MG, 3ª Turma, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellize, julgado em 09/03/2020, DJe 13/03/2020; AgRg no REsp 1228645/SP, 1ª Turma, Rel. Ministro Sérgio Kukina, julgado em 17/11/2015, DJe 01/12/2015; AgRg no REsp 1470000/RS, 2ª Turma, Rel. Ministro Humberto Martins, julgado em 23/09/2014, DJe 06/10/2014). 2. Ação declaratória incidental O art. 5º do CPC/1973 previa expressamente a ação declaratória incidental. Apesar 71 de o CPC/2015 ter suprimido esse dispositivo, entende-se que a ação declaratória incidental continua sendo cabível. Nessa esfera, o Enunciado nº 111 do FPPC dispõe que há interesse no ajuizamento de ação declaratória quanto à questão prejudicial incidental. Aplica-se à hipótese o art. 503, §1º, do CPC/2015, segundo o qual a questão prejudicial, decidida expressa ou incidentalmente no processo, pode ser revestida pela coisa julgada em determinadas hipóteses. Ainda, o Enunciado nº 437 do FPPC coloca que a coisa julgada sobre a questão incidental limita-se à existência, inexistência ou modo de ser de situação jurídica e à autenticidade ou falsidade de documento. TÍTULO II - DOS LIMITES DA JURISDIÇÃO NACIONAL E DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL CAPÍTULO I - DOS LIMITES DA JURISDIÇÃO NACIONAL Beatriz Krebs Delboni Norberto Oya Art. 21. Compete à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações em que: I - o réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver domiciliado no Brasil; II - no Brasil tiver de ser cumprida a obrigação; III - o fundamento seja fato ocorrido ou ato praticado no Brasil. Parágrafoúnico. Para o fim do disposto no inciso I, considera-se domiciliada no Brasil a pessoa jurídica estrangeira que nele tiver agência, filial ou sucursal. Art. 88 do CPC/1973: É competente a autoridade judiciária brasileira quando: I - o réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver domiciliado no Brasil; II - no Brasil tiver de ser cumprida a obrigação; III - a ação se originar de fato ocorrido ou de ato praticado no Brasil. Parágrafo único. Para o fim do disposto no n. I, reputa-se domiciliada no Brasil a pessoa jurídica estrangeira que aqui tiver agência, filial ou sucursal. 1. Normas internas sobre direito processual civil internacional No presente capítulo, o CPC/2015 dispõe sobre normas internas sobre processo civil internacional. O direito processual civil internacional trata de um conjunto de regras firmadas em tratados internacionais em sintonia com as normas internas dos Estados, existentes em razão 72 da soberania dos países e da necessidade de se colocar limites territoriais às normas processuais e à jurisdição. Além disso, servem para oferecer critérios de admissibilidade da cooperação jurisdicional e modos de sua operacionalização (DINAMARCO, 2016, p. 121- 122). Os arts. 21 e 22 dispõem sobre a competência internacional concorrente dos juízes do país e de juízes de fora, isto é, ambos têm competência para julgar processo atinente às matérias dispostas. Por não ser exclusiva, uma decisão judicial estrangeira a respeito do mesmo teor poderá ser homologada no Brasil, por meio do STJ, para ter eficácia. Decisão estrangeira passível de homologação é a que não ofenda a ordem pública, a soberania e a dignidade da pessoa humana. Os arts. 21, 22 e 23 também cuidam dos limites da jurisdição dos tribunais brasileiros e estão em consonância com o princípio da efetividade, dado que a justiça brasileira só deve atuar nas hipóteses em que sua decisão gere efeitos. 2. Réu domiciliado no Brasil O inciso I, do art. 21, do CPC/2015 dispõe sobre a competência da justiça brasileira quando o demandado tem domicílio (não abrange residência) no Brasil, independentemente de ser brasileiro ou estrangeiro, réu ou executado, pessoa natural ou jurídica, ainda que estrangeira que tiver agência, filial ou sucursal, conforme parágrafo único do mesmo artigo. Tem-se aqui a competência concorrente, mas não exclusiva, pois uma decisão judicial estrangeira a respeito do mesmo teor poderá ser homologada no Brasil, por meio do STJ (art. 105, inciso I, letra “i”, da CF/1988), para ter eficácia. 3. Obrigação a ser cumprida no Brasil O art. 21, inciso II, do CPC/2015, cuida das demandas que têm obrigação a ser cumprida no Brasil e estabelece também a competência concorrente, ao não excluir a competência da justiça de outro país. 4. Fato ocorrido ou ato praticado no Brasil Ao dispor no art. 21, inciso III, do CPC/2015, sobre ação judicial com fundamento em fato ocorrido no Brasil, está-se referindo ao fato jurídico decorrente da natureza ou da coisa capaz de gerar responsabilidade civil. O ato praticado no país – seja lícito ou ilícito – ou negócio jurídico é aquele dotado para produzir direitos ou obrigações para as partes. 73 Art. 22. Compete, ainda, à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações: I - de alimentos, quando: a) o credor tiver domicílio ou residência no Brasil; b) o réu mantiver vínculos no Brasil, tais como posse ou propriedade de bens, recebimento de renda ou obtenção de benefícios econômicos; II - decorrentes de relações de consumo, quando o consumidor tiver domicílio ou residência no Brasil; III - em que as partes, expressa ou tacitamente, se submeterem à jurisdição nacional. Sem correspondência no CPC/1973. 1. Ações de alimentos O disposto na alínea “a”, do inciso I, do art. 22, do CPC/2015 visa favorecer o autor da ação de alimentos, quando domiciliado ou residente no país. A inovação processual do CPC/2015 está em sintonia com a Convenção de Nova Iorque sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (assinada pelo Brasil em 31/12/1956, aprovada pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo n. 10, em 14/11/1958, e promulgada pelo Decreto n. 56.826, de 02/09/1965) e com a Convenção Interamericana sobre Obrigação Alimentar, de 18/12/1997. Quanto ao inciso I, alínea “b”, este tem por finalidade tornar exequível a execução de sentença condenatória em face do réu que tenha vínculos patrimoniais no país. 2. Relação de consumo Nas ações em matéria de consumo, quando o consumidor tiver domicílio ou residência no Brasil, a justiça brasileira tem competência para processar e julgá-las. O legislador procurou favorecer a parte comumente mais vulnerável nessa relação (proteção integrante do art. 6º, inciso VIII, do Código de Defesa do Consumidor – CDC), com o disposto no inciso II, do art. 22, do CPC/2015. Nessa situação, a ação poderá ser proposta no domicílio do autor (art. 101, inciso I, do CDC). Portanto, o conteúdo dos incisos I e II do art. 22 corresponde a uma exceção ao art. 21, inciso I, do CPC/2015. 3. Sujeição da jurisdição nacional O art. 22, inciso III, do CPC/2015, traz em seu texto situação pela qual as partes concordam em submeter seu litígio à justiça local, seja de maneira expressa, seja de forma tácita. Entre as ocorrências possíveis e identificadas, estão: (i) eleição do foro brasileiro por 74 convenção entre as partes em cláusula contratual; (ii) renúncia à jurisdição de outro país; (iii) opção da parte pela competência brasileira quando beneficiada pela competência concorrente do juiz de outro país. Art. 23. Compete à autoridade judiciária brasileira, com exclusão de qualquer outra: I - conhecer de ações relativas a imóveis situados no Brasil; II - em matéria de sucessão hereditária, proceder à confirmação de testamento particular e ao inventário e à partilha de bens situados no Brasil, ainda que o autor da herança seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território nacional; III - em divórcio, separação judicial ou dissolução de união estável, proceder à partilha de bens situados no Brasil, ainda que o titular seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território nacional. Art. 89 do CPC/1973: Compete à autoridade judiciária brasileira, com exclusão de qualquer outra: I - conhecer de ações relativas a imóveis situados no Brasil; II - proceder a inventário e partilha de bens, situados no Brasil, ainda que o autor da herança seja estrangeiro e tenha residido fora do território nacional. 1. Competência exclusiva O art. 23 regula os casos de competência exclusiva da justiça local. O juiz brasileiro é o único que poderá examinar e julgar as matérias ali elencadas, com eficácia no território nacional, independentemente da nacionalidade das partes. Decisão estrangeira que aprecie qualquer um desses temas arrolados não tem qualquer eficácia e efeito aqui no país e, portanto, não é passível de ser homologada pelo STJ (art. 964 do CPC/2015). O mesmo tratamento recebe o exequatur da carta rogatória expedida por autoridade judiciária estrangeira (art. 964 e parágrafo único, do CPC/2015). 2. Direito real ou pessoal Os imóveis situados no território nacional estão sob a jurisdição dos juízes brasileiros. Eventuais demandas ajuizadas sobre esses bens podem se referir a litígio de direito real ou pessoal (art. 23, inciso I). 3. Direito sucessório Todos os processos que envolvem a dissolução de comunhão hereditária (inventário, partilha, arrolamento ou confirmação de testamento particular – art. 1.878 do Código Civil) de bens móveis e imóveis situados no Brasil são de competência do juízo nacional, independentemente do domicílio do falecido e de sua condição de brasileiro ou não (art. 23, inciso II). 75 Partilha de bens decorrente dedissolução de sociedade conjugal O disposto no art. 23, inciso III, do CPC/2015 compreende a ocorrência de dissolução de sociedade conjugal (divórcio, separação judicial ou decorrente de união estável) que envolva bens situados no Brasil, cuja competência exclusiva está a cargo do juiz local. Pouco importa a nacionalidade do titular dos bens e se ele teve ou não domicílio no Brasil. Dinamarco doutrina que a partilha extrajudicial de bens situados no território brasileiro também está contemplada nas hipóteses tratadas no art. 23, incisos II e III, do CPC/2015 (DINAMARCO, 2018, p. 227-228). Art. 24. A ação proposta perante tribunal estrangeiro não induz litispendência e não obsta a que a autoridade judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas, ressalvadas as disposições em contrário de tratados internacionais e acordos bilaterais em vigor no Brasil. Parágrafo único. A pendência de causa perante a jurisdição brasileira não impede a homologação de sentença judicial estrangeira quando exigida para produzir efeitos no Brasil. Art. 90 do CPC/1973: A ação intentada perante tribunal estrangeiro não induz litispendência, nem obsta a que a autoridade judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas. 1. Litispendência A litispendência corresponde à existência de duas ações idênticas (mesmas partes, causa de pedir e pedido – art. 337, §§ 1º e 2º, do CPC/2015) em curso perante órgãos jurisdicionais com competência concorrente. 2. Inexistência de litispendência O dispositivo cuida da hipótese em que há em outro país processo em curso perante autoridade judiciária, o que não impede a justiça local de apreciar idêntica demanda (com a tríplice identidade de partes, causa de pedir e pedido) e das que lhe são conexas (competência concorrente). A exceção fica por conta de haver previsão de litispendência internacional com eficácia extintiva em tratado internacional ou acordo bilateral em vigor no Brasil, caso em que a ação em curso neste país deve ser extinta. 76 3. Coisa julgada Com duas ações em curso versando sobre o mesmo litígio, uma no Brasil e outra em país estrangeiro, somente se ocorrer primeiro o trânsito em julgado da decisão judicial brasileira é que esta prevalecerá em face da decisão judicial estrangeira pendente de homologação pelo STJ. Para que a decisão judicial estrangeira predomine sobre a decisão nacional, além do trânsito em julgado no país de origem, dependerá de homologação pelo STJ antes do trânsito em julgado da decisão judicial brasileira. Assim, não há óbice à homologação de sentença estrangeira quando a ação judicial no Brasil ainda estiver em curso. A homologação realizada pelo STJ produzirá eficácia e o processo em trâmite no Brasil deve ser extinto sem julgamento do mérito. Art. 25. Não compete à autoridade judiciária brasileira o processamento e o julgamento da ação quando houver cláusula de eleição de foro exclusivo estrangeiro em contrato internacional, arguida pelo réu na contestação. § 1º Não se aplica o disposto no caput às hipóteses de competência internacional exclusiva previstas neste Capítulo. § 2º Aplica-se à hipótese do caput o art. 63, §§ 1º a 4º . Sem correspondência no CPC/1973. 1. Competência concorrente Apesar de o teor do caput do presente artigo contrastar com o conteúdo do art. 22, inciso III, do CPC/2015 (“Compete, ainda, à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações: (...) III - em que as partes, expressa ou tacitamente, se submeterem à jurisdição nacional”), trata-se de reciprocidade de tratamentos à competência concorrente dos juízes estrangeiro e brasileiro. 2. Derrogação da jurisdição brasileira Para derrogação da jurisdição brasileira, devem ser atendidos os seguintes requisitos: i) competência concorrente das jurisdições nacional e estrangeira; ii) cláusula de eleição de foro exclusivo estrangeiro; iii) contrato internacional; iv) alegação pelo réu em contestação acerca da existência da citada cláusula, sob pena da prevalência da competência nacional. 3. Cláusula de eleição de foro abusiva É ineficaz cláusula de eleição de foro internacional que seja abusiva. Como exemplo disso, tem-se a concessão vantagem exclusiva somente para uma das partes contratantes (art. 63 e §§ do CPC/2015). http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art63%C2%A71 77 4. Protocolo de Buenos Aires O Decreto n. 2.095, de 17/12/1996, promulgou o Protocolo de Buenos Aires sobre Jurisdição Internacional em Matéria Contratual, e dispôs nos arts. 4 a 6 os termos da aplicação da eleição de jurisdição. CAPÍTULO II - DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL Seção I- Disposições Gerais Beatriz Krebs Delboni Norberto Oya Art. 26. A cooperação jurídica internacional será regida por tratado de que o Brasil faz parte e observará: I - o respeito às garantias do devido processo legal no Estado requerente; II - a igualdade de tratamento entre nacionais e estrangeiros, residentes ou não no Brasil, em relação ao acesso à justiça e à tramitação dos processos, assegurando-se assistência judiciária aos necessitados; III - a publicidade processual, exceto nas hipóteses de sigilo previstas na legislação brasileira ou na do Estado requerente; IV - a existência de autoridade central para recepção e transmissão dos pedidos de cooperação; V - a espontaneidade na transmissão de informações a autoridades estrangeiras. § 1º Na ausência de tratado, a cooperação jurídica internacional poderá realizar-se com base em reciprocidade, manifestada por via diplomática. § 2º Não se exigirá a reciprocidade referida no § 1º para homologação de sentença estrangeira. § 3º Na cooperação jurídica internacional não será admitida a prática de atos que contrariem ou que produzam resultados incompatíveis com as normas fundamentais que regem o Estado brasileiro. § 4º O Ministério da Justiça exercerá as funções de autoridade central na ausência de designação específica. Sem correspondência no CPC/1973. 1. Normas gerais Os arts. 26 e 27 disciplinam as normas gerais sobre a cooperação jurídica internacional. Ela é prestada por órgãos brasileiros (cooperação passiva) por solicitação de órgãos estrangeiros. Mais especificamente, o art. 26 dispõe sobre a coordenação das relações internacionais do Estado Brasileiro com o Estado estrangeiro, à luz do art. 4º, da CF/1988, e art. 1, “3”, da Carta das Nações Unidas, de 26/06/1945 (Decreto n. 19.841, de 22/10/1945). 78 2. Carta rogatória A cooperação solicitada por órgão jurisdicional nacional para a justiça estrangeira é materializada pelo envio de carta rogatória, sendo rogante quem a solicita e rogado a autoridade judiciária de outro país a quem se remete a carta. A carta rogatória é tratada nos arts. 36, 40, 232, 237, inciso II, 256, §1º, e 260 a 267, 377, 915, §4º, do CPC/2015. 3. Diretrizes Os incisos I a V, do art. 26, do CPC/2015 tratam das linhas gerais a serem seguidas pelos tratados internacionais. Todo ato internacional deve obediência ao devido processo legal, consagrado no art. 5º, inciso LIV, da CF/1988 (inciso I e §3º do CPC/2015). O inciso II acentua os princípios da igualdade e do acesso à justiça, inscritos no caput do art. 5º, e incisos XXXV e LXXIV, da CF/1988. A publicidade processual disposta no inciso III está em harmonia com os arts. 5º, inciso LX, 37, caput, e 93, inciso IX, da CF/1988. A autoridade central referida no inciso IV é abordada no item 7, abaixo. O inciso V cuida da cooperação internacional espontânea e transparente, sem burocracia ou formalismo excessivo, a fim de não a inviabilizar. 4. Cooperação jurídica internacional não disciplinada em tratado Caso não haja tratado disciplinando o tema, a cooperação jurídica internacional pode ser concretizadacom base na reciprocidade entre os países, pela via diplomática (art. 26, §1º, do CPC/2015). 5. Homologação de sentença estrangeira Para a homologação de sentença estrangeira, modalidade de cooperação jurisdicional passiva, não é exigível a reciprocidade (arts. 26, §2º, e 960 a 965, do CPC/2015). 6. Respeito à ordem pública Disciplinada em tratado internacional, a cooperação jurídica internacional deve respeitar os princípios fundamentais e os direitos e garantias fundamentais dispostos nos arts. 1º a 17 da CF/1988 (art. 26, §3º, do CPC/2015). Os atos internacionais não podem ofender a ordem pública. 79 7. Medida não jurisdicional O disposto no §4º, do art. 26, do CPC/2015, refere-se à cooperação jurídica internacional realizada por meio de auxílio direto (medida não jurisdicional), regulado pelo art. 28 do CPC/2015. Vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional é responsável por promover a articulação dos órgãos dos Poderes Executivo e Judiciário e do Ministério Público nas áreas de cooperação jurídica internacional em matéria civil e penal e recuperação de ativos. Ainda nestas áreas, exerce a função de autoridade central, por meio da coordenação e da instrução de pedidos ativos e passivos de cooperação jurídica internacional e negociar acordos de cooperação jurídica internacional (art. 14, incisos III, alíneas “a” e “b”, incisos IV e V, do Decreto n. 9.662, de 01/01/2019). Art. 27. A cooperação jurídica internacional terá por objeto: I - citação, intimação e notificação judicial e extrajudicial; II - colheita de provas e obtenção de informações; III - homologação e cumprimento de decisão; IV - concessão de medida judicial de urgência; V - assistência jurídica internacional; VI - qualquer outra medida judicial ou extrajudicial não proibida pela lei brasileira. Sem correspondência no CPC/1973. 1. Atos de exercício de jurisdição Os incisos I a IV do art. 27, do CPC/2015 (com exceção da notificação extrajudicial e da obtenção de informações contidas na parte final dos incisos I e II do mesmo dispositivo) correspondem a atos de exercício de jurisdição praticados por juiz brasileiro, em atendimento a solicitação de juiz estrangeiro sem competência territorial. 2. Medidas de cooperação não jurisdicional Por sua vez, os atos de notificação extrajudicial, obtenção de informações (parte final dos incisos I e II do art. 27, do CPC/2015) e de assistência jurídica internacional (inciso V do art. 27, do CPC/2015) são medidas de cooperação não jurisdicional solicitada por agente público de outro país, não integrante de órgão jurisdicional, por intermédio de auxílio direto (arts. 26, §4º, e 28, do CPC/2015). 80 3. Assistência jurídica internacional A assistência jurídica internacional (art. 27, inciso V, do CPC/2015) corresponde ao benefício aos estrangeiros necessitados da gratuidade da assistência jurídica integral, consagrado no art. 5º, inciso LXXIV, da CF/1988. A esse respeito, destaca-se o Acordo sobre o Benefício da Justiça Gratuita e a Assistência Jurídica Gratuita entre os Estados Partes do MERCOSUL, a República da Bolívia e a República do Chile, de acordo com o Decreto n. 6.679, de 08/12/2008. 4. Lista exemplificativa A lista de hipóteses contida no presente dispositivo é exemplificativa, e não exaustiva. Assim, é possível a cooperação jurídica internacional em outros atos de natureza judicial ou extrajudicial, desde que não seja vedada pelo direito brasileiro (art. 27, inciso VI, do CPC/2015). Seção II - Do Auxílio Direto Rafael Bussolote Finotti Silva5 Tiago Clemente Souza6 Arts. 28 - 41 Art. 28. Cabe auxílio direto quando a medida não decorrer diretamente de decisão de autoridade jurisdicional estrangeira a ser submetida a juízo de delibação no Brasil. O auxílio direto é procedimento de natureza administrativa destinado a fazer valer as decisões do estrangeiro que, por conta de lei interna nacional, não precisam de homologação pelo poder judiciário. Quanto as decisões que dependem de juízo de deliberação no Brasil, a cooperação fica restrita ao mecanismo de homologação de sentença, previsto nos art. 960 a 965. Para Marinoni, Arenhart e Mitidiero caberá auxílio direto quando a medida não decorrer diretamente de decisão da autoridade jurisdicional estrangeira a ser submetida a juízo de deliberação no Brasil. Caracteriza-se pela comunicação direta, sem prévia autorização do Poder Judiciário brasileiro, entre a autoridade estrangeira e a autoridade central brasileira, contrário, portanto, da carta rogatória.7 5 Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - Trabalha no escritório Maeda, Ayres e Sarubbi Advogados. 6 Doutorando em Direito Constitucional pela UGMG. Mestre em Teoria do Direito e do Estado pelo UNIVEM. Especialista em Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra. Advogado. 7 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Curso de Processo Civil. Vol. 2. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2017. p. 22. 81 Lembra, ainda, Humberto Theodoro Júnior que a cooperação internacional não se restringe aos atos do Poder Judiciário, podendo ser solicitada medida de natureza administrativa, podendo ser prestada por meio de informações dos registrados públicos, atos policiais ou alfandegários, por exemplo.8 Art. 29. A solicitação de auxílio direto será encaminhada pelo órgão estrangeiro interessado à autoridade central, cabendo ao Estado requerente assegurar a autenticidade e a clareza do pedido. Foi feita a opção legislativa de não distinguir, a natureza do órgão estrangeiro, assim, seja de natureza jurisdicional ou de qualquer outra natureza, o órgão poderá solicitar o auxílio direto para a prática de ato no Brasil. A solicitação deve ser encaminhada à autoridade central que, na ausência de designação específica, será o Ministério da Justiça. Relembramos a hipótese de outra autoridade central, conforme o art. 26, § 4º. Ao Estado requerente cabe fazer um pedido claro e assegurar sua autenticidade, bem como a dos documentos que a instruírem. Há na doutrina a diferenciação entre cooperação jurídica ativa ou passiva. Como leciona Humberto Theodoro Jr., “A cooperação jurídica internacional pode ser ativa ou passiva, dependendo do local em que for feito o pedido e daquele onde deverá ser realizado o ato. Se o Brasil requerer a prática de determinado ato a algum Estado estrangeiro, a colaboração é denominada ativa, sendo passiva quando é a autoridade estrangeira quem solicita a realização de ato em território nacional”. Verificamos então que o artigo em comento traz uma hipótese de cooperação jurídica passiva. Art. 30. Além dos casos previstos em tratados de que o Brasil faz parte, o auxílio direto terá os seguintes objetos: I - obtenção e prestação de informações sobre o ordenamento jurídico e sobre processos administrativos ou jurisdicionais findos ou em curso; II - colheita de provas, salvo se a medida for adotada em processo, em curso no estrangeiro, de competência exclusiva de autoridade judiciária brasileira; III - qualquer outra medida judicial ou extrajudicial não proibida pela lei brasileira. 8 THEODORO JR, Humberto. Novo Código de Processo Civil. 21ª Edição. Rio de Janeiro: Forense. 2018. p. 112. 82 Exceção feita aos casos previstos em tratados de que o Brasil é signatário, o auxílio direto terá os seguintes objetos: (I) obtenção e prestação de informações