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Ano VII - 45. BOLETIM INFORMATIVO DA CASA ROMÁRIO MARTINS OUTUBRO - 1980 PILARZINHO BAIRRO NA HISTÓRIA DA CIDADEPesquisa: Tânia Mara de Paula Toledo Roseli Boschilia Texto Final: Rafael Greca de MacedoA Casa Romário Martins, unidade de memória da Cidade de Curitiba, existe há seis anos, no Largo da Igreja da Ordem. INTRODUÇÃO Há quase dois estamos empenhados no levantamento da história dos bairros da cidade. É forma fácil de ficarmos perto do povo. De oferecermos à população necessário serviço de recolher suas lembranças. De ganharmos da população dados preciosos para nosso arquivo histórico. Este boletim com a história e as estórias do Pilarzinho, vem somar com outras publicações da Fundação Cultural de Curitiba, todas elas sobre bairros da cidade: Santa Felicidade, Orleans, Abranches, Santa Cândida, Bacacheri, Vila São Pedro. Curitiba precisa conhecer sua história. Valorizar antigos caminhos. Chamar atenção sobre as velhas casas, pitorescos armazéns de secos e molhados. É importante repetir as andaças das carroças dos nossos avós. Mesmo que, sobre a lama antiga, esteja asfalto. Fonte preciosa deste boletim, além das pesquisas em arquivos e livros, foi a palavra dos moradores do bairro. Assim, também é importante agradecer a Hermegenildo Gasparini, Angelinas Gava Gasparini, Catarina Costa, João e Paulina Ronkoski, Catarina Prudlick, Edwino Polak, Margarida De Conto Gava, Angelina Basso, Angelina Santi de Conto, Firmina Pereira, Genoveva Purkot, Antonia Polak, Marta Schaffer, Idalina Gasparim Wolf, Palmira Loyola Born, Albina Loyola Greca, Maria do Pilar Loyola Born Pilatti, josepha Flor, Pedro Gbur, Marco Baroni, Irmã Gemma do Sagrado Coração de Jesus professora no bairro em 1915 Adelaide Casagrande, e às famílias Ballim, Scandelari, Pilati, Fila, Trevisan, Krause, Antonio e Isabel K. Gbur, José e Isabel P. Polak. Completa este boletim o trabalho da professora Beatriz Teixeira de Melo Miranda, da universidade Federal do Paraná, sobre a "Importância da Imigração na Sociedade Curitibana da segunda metade do século XIX". Este complemento, com aval do Departamento de história da UFPr, só valoriza testemunho do pessoal do Pilarzinho e as pesquisas de Roseli Boschila e Tânia Mara de Paula Toledo, da equipe da Romário martins. Sirvam todos estes testemunhos à história de todos nós e façam de Curitiba, no Pilarzinho, compreensível para maior número de pessoas. Sempre mais humana e para todos, como é nosso desejo. Em outubro de 1980 Rafael Greca de Macedo CoordenadorAspecto da capela do Pilar, nos anos 40. antigo armazém Born caiu para dar lugar ao supermercado. Foto cedida por Palmira Loyola Born. A roda de vento, a horta e a casa Schaffer. Foto cedida por Martha Schaffer. Família Purkot, descendentes dos pio- neiros de 1871. Simão e Anastazia (Galuska) Purkot, com filhos, noras e genros, em foto tirada no centro de Curitiba. Fotografia cedida por Genoveva Purkot. 4A história do Pilarzinho remonta ao dos primeiros moradores à Virgem final do século XVIII. Pelo menos é do Pilar, tradicionalmente venerada, 0 q ue refere frontão da capela de no Paraná, desde a fundação da atual HISTÓRIA DO BAIRRO Nossa Senhora do Pilar lá existente Antonina Nossa Senhora do Pilar desde 1932 com a inscrição: da Graciosa em 1714. "Fundada em 1782, reconstruída em primeiro documento que mencio- 1932". na Pilarzinho como localidade A inscrição é confirmada (? pelo próxima a Curitiba, é uma ata das historiador Ermelino Agostinho de sessões da Câmara Municipal, de 19 Leão que, no seu Dicionário Históri- de julho de 1844, onde OS vereadores diz: "O bairro do Pilarzinho discutiam a petição de uma carta de quase todo silvoso, recebeu este foro do cidadão Plácido Ribeiro, que nome, em virtude de existir uma tinha a intenção "de levantar uma ermida consagrada a Nossa Senhora olaria no rocio, no lugar denominado do Pilar".1 Campina a direita, da estrada que E reforçadas por quase todos OS segue para Pilarzinho, ao pé do moradores antigos do bairro que barreiro de fazer ainda recordam "(...) a igreja antiga, Depois da elevação do Paraná a toda de barro, lenha e capim. Província do Império do Brasil, no Construção tão antiga que não relatório do chefe de polícia de pudemos aproveitar nem telhado. Curitiba, prestado ao presidente Totalmente demolida antes da cons- Zacharias de Góes e Vasconcellos, trução da que está aí (...)", conforme nosso primeiro governador nova- as lembranças de Hermenegildo Gaspa- mente aparece Pilarzinho, como rini, de 71 anos.² um dos 27 quarteirões da cidade. Também arcebispo Dom Pedro texto está no jornal "O 19 de Fedalto no seu livro sobre a arquidio- dezembro", de 25 de novembro de cese não desmente a inscrição, 1854: "Tem a cidade de Curitiba 27 ponderando: "Se a data indicar ano quarteirões que são OS seguintes: da sua construção, pode-se afirmar, da cidade; que é uma das capelas mais antigas Ahú; dos arredores de O Pilarzinho; fato é que nos arquivos da Cúria Nossa Senhora das Mercês; Metropolitana de Curitiba, nos assen- Santa Quitéria; tamentos dos livros tombo da Paró- 6.° Tatuquara; quia de Nossa Senhora da Luz dos 7.° Campo Comprido; Pinhais, atual Catedral, e mesmo nos 8.° Botiatuvinha; anais da Câmara Municipal, não foi Campo Magro; encontrado nenhum documento que Atuba; confirme a data. Palmitar (SIC); É lembrar que bem pode ter dado Cachoeira; origem ao nome uma ermida, sem Veados; patrimônio de bens ou terras que Ribeirão da Onça; direito canônico exigia para fazê-la Capivary; capela, simples endereço da devoção Boixininga; 5Borda do Campo; alguns colonos americanos solicita- Campina Grande; ram à Câmara "100 graças (sic) cada Arraial; um de terra no lugar denominado Serro-Linda; "Pilarzinho", tendo obtido apenas a Marmelleiro; concessão de 50 braças em cada Botiatuva; quadra a cada um dos requerentes". Pacutuva; Estes imigrantes, de nomes Sache, Tranqueira; Redimond, Deggins e Denff, não Conceição; deixaram descendentes no bairro, Ouro Fino; sendo provável sua transferência para Assunguy de outros Com término da Guerra do Também de 1854, do dia 11 de abril, Paraguai, e a volta dos Voluntários é pedido de Emília Maria de Jesus, da Pátria, surgiu na Câmara Munici- dirigido à Câmara municipal, por pal a proposta da criação de "uma "(...) 50 braças quadradas de terreno, colônia municipal em no rocio desta cidade, no quarteirão para concessão de terras aos soldados do do império. Este não é último de uma série de Como este projeto, formulado na pedidos de terras, no rocio da vila, no sessão de 11 de agosto de 1870, é quarteirão do Pilarzinho, dirigidos à único na história da cidade, sendo Câmara Municipal daí por diante, até todas as demais colônias regidas por a extinção completa dos terrenos na disposições da Presidência da Provín- região.⁷ cia, vale a pena transcrevê-lo na A estes primeiros habitantes, na sua íntegra: maioria brasileiros descendentes de portugueses, logo somaram imi- grantes alemães. PROJETO DE FUNDAÇÃO DA Os Schaffer, que estiveram por aqui, MUNICIPAL DO em 1856, escolhendo terrenos para PILARZINHO agricultura, se estabeleceram no Pilarzinho em 1863. Com pioneiro, Sessão Ordinária de 11 de agosto João, agricultor e açougueiro, vieram de 1870 sua mulher Anna Mueller, seus dois Presidente do Snr. Dr. Moura filhos, mais Wolf, que primeira- Presentes Snrs. Vereadores Drs. mente residiram no Tanguá, atual Moura Sá Ribas e município de Almirante Tamanda- Candido Miz Miz Lopes e Tiburcio Borges faltando com A partir da chegada dos Schaffer, participação mais Snrs. Vereado- naturais de Romerstadt, outros colo- res. Abrio o Snr. Presidente a nos alemães foram chegando, sempre Sessão lida a acta antecedente foi aportados em São Francisco do Sul approvada. Veio a mesa parecer se- SC e tiveram seus pedidos de terra guinte: A commissão nomeada pela deferidos pela Câmara Municipal, no Camara para apresentar projecto de mesmo quarteirão do posturas para a execução da Lei Pro- Neste meio tempo, isto é, em 1867, vincial 243 de 20 de abril do cor- 6Paiol da Hella. Anos 20. Aparecem: José Hella, O pa- triarca. Thomaz, Valentim, Luiza, Inês e Paulina, OS filhos. Anna Hella, a matriar- ca. Vicente e Antônio, filhos menores. Foto cedida por Paulina Hella Ronkoski. Casa de 1887, dos primeiros tempos do Pilarzinho. No final do século, OS pioneiros ali faziam suas festas de casamento e bati- zado. A tipologia lembra antigo armazém. Foto cedida por Dona Idalina Wolf. No Pilarzinho, trabalhadores cortando erva-mate. Detalhe especial: carroção com a barrica imensa, puxado a bois. Foto cedida por Idalina Gasparin 7rente anno tem a honra de apresental- construção do cerco geral da area a, afim de ser descutida e approvada. destinada a Colonia, são feitos a Sala das Sessões 11 de Agosto de expensas da Camara Municipal, que é 1870. Miz Lopes Tiburcio A. subvencionada para esse fim pela Candido. provincia nos termos da lei 243 Projecto de Fundação de Colonia de 20 de Abril do corrente anno. municipal, em Pilarzinho (1) Art.t. Os colonos que se estabelecerem na referida area ficão Art. É destinada uma área isento do foro municipal dentro do não inferior a meia legua quadrada primeiro anno, assim como dos nos terrenos do patrimonio da emolumentos do titulo de aforamen- Camara Municipal de Curitiba, no to perpetuo que se lhes conceder. quarteirão do Pilarzinho, a margem Art. Todo colono que dentro esquerda do Rio Bariguy, que terá de dous annos contados da data em por limites, por um lado tomando que foi empossado de seu lote, não como ponto de partida o mesmo rio tiver nelle estabelecido morada habi- Bariguy a linha divizora entre OS tual e cultura effectiva perderá terrenos de patrimonio municipal e direito ao mesmo lote, qual poderá OS de propriedades particular dos ser concedido a outro. moradores da caxoeira, para OS Art. Pode qualquer colonos que quizerem n'ella fundar colono transferir a outrem o domi- espontaneamente estabelecimentos nio de seu terreno, se houver pago agricolas. regularmente 0 foro e consintindo a Art Essa area sera dividida Camara Municipal que tem direito em lotes de 20:000 braças quadradas de opção em virtude do dominio para cada familia, subdividindo-se, directo. porem, OS mesmos lotes em menor Art. Ao foreiro da Camara para colonos que as quizerem. Municipal, cujos terrenos forem Art. Na divisão de lotes de abrangidos pelo cerco geral da 20:000 braças quadradas se traçará colonia, são garantidos seus caminhos vicinaes necessarios ao direitos se tiverem cultivado effecti- uso e comodidade dos estabele- vamente mesmos terrenos. cimentos. Art. producto do foro Art. A area da Colonia será que pagarem OS colonos e foreiros feixada por meio de vallos ou cercas actuaes a que se refere artigo de Lei, segundo as condições do antecedente, sera applicado de prefe- terreno, e de modo a obstar a rencia á conservação do cerco geral entrada de quaisquer animaes. da area da Colonia. Art. Para livre transito nas estradas que atravessão territorio Art. Os caminhos vicinaes da Colonia, se construirá cerco serão abertos e conservados pelos collocando-se portões nos lugares colonos zeladores para cuidar da necessarios. conservação do cerco geral, dos Art. Os trabalhos da caminhos vicinaes, das pontes e demarcação e divisão dos lotes, do estradas na área da Colonia e dos traçado dos caminhos vicinaes, e de portões que a feixarem percebendo 8cada um gratificação que será marca- transferir dominio util de um da no respectivo título. terreno que possue por carta de foro Art. No territorio que for no quarteirão do Pilarzinho rocio abrangido pelo cerco geral da area da desta Cidade a Sebastião Wekerlim. Colonia não é permitido ter solto Deferido: Data era supra, e eu Er- animal algum que possa damnificar melino Marques dos Santos Secre- as plantações. tario a escrevi. Art. Sendo uma plantação Tiburcio JA Martins Freitas damnificada por qualquer animal, Candido Menezes Lopes. dono deste pagará, alem do damno á pessoa prejudicada, uma multa a As primeiras concessões de lotes, Camara Municipal de 10$000 rs que agora com 22,500 braças quadradas será dupla nas reincidencias. cada um, foram feitas aos ex-voluntá- Art. Os actuaes foreiros rios da Pátria que lutaram na Guerra cujos terrenos comprehendidos no doParaguai, na seguinte ordem: Fran- cerco da area da Colonia, ficão cisco Antonio Vallin, João Benedito sugeitos ás disposições destas pustu- Régis, Francisco Gonçalves Neto, ras. Francisco Alves Baptista, João Fran- Art. A conservação do cisco Dias, João Marcelino Ferreira, feixo, entre OS terrenos de patrimo- Marcelino Antonio da Silva, Joa- nio Municipal e de propriedade quim José de Sant'Anna, Joaquim da particular, será feita pelos respectivos Costa, Paulino José Teixeira, Francis- proprietários destes podendo mesmo CO José Teixeira, Belizário Antônio serem a isso abrigados policialmente. Menezes, Gregório Rosário de Azeve- Art. Ficão revogadas as dis- do, Bernardino Alves de Jesus, posições da lei 79 de 11 de Julho Joaquim Lourenço da Cunha, Felício de 1861, que forem contrarias as das Antonio Alves, Francisco da Rocha presentes posturas; posta a votos foi Pariz, Francisco Antonio Baptista, approvado o projeto de posturas aci- Samuel Christiano Henry, Manuel ma e tirado a limpo foi remetido ao Malaquias José Neto, João Alves dos Exmo. Governo da Provincia afim de Santos e Manoel Domingues Tava- ser provisoriamente approvado todos res. 11 OS artigos (e pedindo-se igualmente Em seguida à concessão dos terrenos ao mesmo ordene a Thesouraria Pro- aos ex-combatentes do Paraguai vincial para mandar por a disposição continua a ocupação do bairro, no desta Camara as quantias necessarias ano de 1817, desta feita com colonos para execução de ditas posturas. E poloneses, muitos dos quais ainda por ter dada a hora levantou Snr. tem descendentes no Pilarzinho. Presidente a Sessão do que para cons- historiador Alfredo Romário Mar- tar mandou lavrar a presente acta tins refere que "os primeiros imigran- que sendo lida e approvada assigna- tes poloneses entraram no Paraná em rão, e eu Ermelino Marques dos San- 1871, em número de 78, e foram tos Secretario escrevi: Em tempo: localizados no Pilarzinho, em terras Leo-se um requerimento de Clara cedidas pela municipalidade de Curi- Maria Subtil pedindo licença para 9E Romário Martins pode ser confir- residência, coberta de glicínias, edifi- mado por Aicides Munhoz, diretor cada em barro amassado sobre de Fazenda e Agricultura do Paraná, estrutura de madeira trançada. É a que, em 1918, descreveu a Colô- casa onde nasceu Simão Purkot, nia:"(...) Ainda foi a presidência do descendente direto dos pioneiros. doutor Venâncio Lisboa que consti- ros. tuiu a colônia Pilarzinho em 1871 Do mesmo tempo são as terras da (sic), em 500 hectares de terreno do família Fila, onde ainda persiste município e com 78 polacos introdu- imensa casa avarandada, com muito zidos na província por Sebastião pouco das suas feições originais. Saporski, que se retirou por conta Também de 1871, desta feita nos própria de Santa arquivos da Catedral, são OS 3 pri- A chegada dos colonos poloneses no meiros registros de batismo, de Pilarzinho foi um pouco conturbada. crianças filhas de poloneses nasci- Uma vez que havia pessoas que não das na nova colônia: Úrsula, filha aceitavam a presença desses imigran- de Fabian Barcik e Edweges Purkot; tes nos arredores da cidade de José, filho de Bernardo Fila e Cata- Curitiba e OS acusavam de arruaceiros rina Fila; Leopoldo, filho de Felipe e vagabundos, além de proclamarem e Isabel Kokot. Para 3 catecúme- que esses colonos haviam recebido nos poloneses o vigário de Nossa auxílio da Câmara Municipal. Senhora da Luz, Padre Agostinho No entanto, o que ocorreu foi a Machado Lima, registrou dois novos ameaça que esses imigrantes fariam cristãos filhos de brasileiros: Arsênio, aos granjeiros alemães fornecedores filho de Bento Antonio do Nasci- de leite, lenha, verduras a popula- mento e Maria Angela, e Antônio, ção de Curitiba. Esse desenten- filho de Claro Jan Lisboa e Rita da dimento foi responsável pela publica- ção de uma obra literária na Polônia: No ano seguinte, 1872, "havia 150 Bitwa Pilarzinho. (Luta pelo pessoas no Pilarzinho, com trinta lotes, divididos em 5 hectares cada Destes 78 imigrantes poloneses foram encontrados no bairro alguns Entre 1875 e 1878 chegaram ao descendentes, com o mesmo sobre- bairro OS italianos, do mesmo grupo nome dos pioneiros: Purkot, Gbur, de imigrantes que fundariam, em Polak, Kokot, Fila, Prudlik, Kania. 1878, Santa Felicidade. "Ou por Estes nomes constam dos Anais da iniciativa própria, ou com ajuda do Comunidade Brasileiro Polonesa. 15 governo (...) se fixaram em colônias já Seus primitivos terrenos foram con- existentes, onde se ao cedidos por carta de foro em 28 de lado de imigrantes de outras naciona- novembro de 1871. Desta época é a lidades, como nas colônias Argelina e antiga propriedade onde ainda hoje Pilarzinho (...) que hoje se encontra- reside Dona Genoveva Purkot. Em- m dentro do quadro urbano da bora as terras já não lhe pertençam, merece registro como uma das casas A identidade e a vizinhança destes mais antigas do Pilarzinho, esta primeiros italianos com pessoal de 10Santa Felicidade vai determinar que relação à capela do Pilarzinho confir- a assistência espitirual do Pilarzinho ma Ermelino de Leão, dom Pedro passe a ser feita pelos padres Fedalto, Hermenegildo Gasparini e a scalabrinianos, titulares da Capelania tradição oral do bairro na afirmativa Curada para OS Católicos Italianos, que dá início a este boletim, segundo criada pelo bispo de Curitiba, Dom a qual o bairro teria surgido em José de Camargo Barros, em torno de uma antiga ermida da No entanto, não foi essa a primeira Senhora do Pilar, restando apenas a atenção das autoridades de Curitiba dúvida quanto à data de 1782. com OS moradores do bairro. Já em Foi no ano de 1897 que se iniciou a 1875, no seu relatório à Assembléia, construção da atual igreja de São presidente da provincia do Paraná Marcos, sob a responsabilidade dos Adolpho de Lamenha Lins, grande padres italianos de Santa Felicidade, incentivador da imigração diz mais especificamente do Padre Bres- seguinte, no subtítulo Abranches e conforme se pode notar Pilarzinho: "Estas colônias estão pelo estilo vêneto da edificação, com estabelecidas em terrenos da munici- a torre separada da nave. palidade, no rocio da cidade, com A igreja, sede da paróquia do pequeno auxilio do governo imperial. Pilarzinho criada só em 1973, foi Apesar de muitos trabalhadores, OS inaugurada no ano de 1900.20 colonos encontram dificuldades em Pertenceu, como todas as terras de sua alargar a sua cultura pela insuficiên- freguesia à capela de Santa Felicida- cia de terreno que tem cada lote, de até 1912, depois à capela do Bom entretanto OS lotes estão todos com Jesus do Cabral, até 1936, quando casa e inteiramente cobertos de passou a pertencer à Santana do plantações de cereais. A população Abranches, da qual foi desmembrada atual destes núcleos é a seguinte: em 73. sex masc sex fem total polacos silesianos 235 197 432 irlandeses 15 25 40 250 222 472 Existe em cada um destes núcleos uma capela, a cargo do respectivo capelão padre João José Rodrigues, que desempenha perfeitamente as funções de seu cargo. No núcleo Pilarzinho há uma escola promiscua mantida pela Província, e no Abranches, uma outra por conta do Ministério da Agricultura e regida pelo professor polaco Frantz Mots- ko. Ambas as escolas são muito A referência de Lamenha Lins em 11A chácara dos Schaffer, na colheita do Foto cedida por Martha Schaffer. Antigo carro de leite da Família Schaffer. Utilizado no transporte do produto da chácara até a cidade. Detalhe importan- te: as garrafas de vidro, litros de modelo alemão. Foto cedida por Martha Schaffer. Casamento polonês de Paulina Purkot e Leonardo Schavonka. Em 25 de julho de 1931. Em Santana do Abranches. Foto cedida por Antonia Polak. 12NA SEQUÊNCIA A MEMÓRIA Dona Margarida de Conto Gava DOS MORADORES MAIS conta das idas à cidade, de carroção, TESTEMUNHOS ANTIGOS DO BAIRRO, OU DE para vender que seus pais produ- SEUS DESCENDENTES, ziam na chácara. E não esquece as ILUSTRA A HISTÓRIA. festas do Pilar. Dona Firmina, ainda lembra da antiga capela do Pilar. Das festas com Eu me chamo Margarida de Conto padre vindo de Santa Felicidade. Gava. Seus pais cuidavam das terras de um Nasci em 1894, tenho 86 anos. Sou sargento. Seria um dos voluntário da filha de Luiz e Angela de Conto, Pátria, de 1871? imigrantes italianos, Chegaram aqui no Pilarzinho e Meu nome é Firmina Pereira. Tenho aqui moraram toda sua vida. Morre- 96 anos. Nasci em 1884. Nasci e me ram no bairro. criei aqui no bairro. Meus pais Como a maioria dos moradores, eles cuidavam de uma chácara que possuiam chácara, aravam a terra, pertencia a um sargento, que não me vendiam OS produtos no centro da lembro nome. Meus pais se cidade. Eu me lembro que naquele chamavam Quintiliano e Gertrudes tempo era uma imensidão de terras, e Pereira. Eram brasileiros e sempre bairro do Pilarzinho só tinha moraram no Pilarzinho. chácaras. bairro, no meu tempo de criança, Faziam parte da paisagem OS cavalos, era deserto, não havia muitas casas. as carrocinhas, OS animais nos pastos. Eram poucas, uma longe da outra. Meus pais vendiam leite no centro. Tinha bastante era mato. E animais. Comecei a trabalhar com 7 anos. La Frequentei a escola de Dona Ana todas as manhãs de carroça, com Loyola, muito boa professora, gente meu irmão, vender produto em daqui do bairro, com muitos alunos Curitiba. A gente, naquela época, filhos de moradores da região. trabalhava muito e aprendia a fazer A escola ficava perto da atual tudo um pouco. Quando mocinha, sociedade Primavera. Naquele tempo fui até costureira. não existia o clube. Era tudo terreno Acho que fui a primeira costureira baldio. Eu me lembro que a capela do bairro. Tinha fregueses homens, da Nossa Senhora do Pilar já existia mulheres e crianças. Era bem conhe- quando eu era criança, não como cida. Casei com 18 anos, com agora, parece que era de madeira. Bortolo Gava, também filho de A grande festa era da Senhora do italianos, na Igreja de São Marcos, Pilar. Muito bonita. padre vinha de onde casavam todos imigrantes da longe, de Santa Felicidade, para OS nossa colônia. festejos. Naquele tempo a gente ia a A igreja de São Marcos, padroeiro de pé até centro. Não tinha condução. Veneza, foi construída pelos italia- Só na cidade é que existia bonde nos. Eu devia ter 8 anos. de mula, custava um tostão a A Capela do Pilar é bem mais antiga. passagem. Tem uma data que diz que ela foi 13levantada em 1782 e reformada em Sou Marco Barone. Tenho 86 anos. 1932. Filho de João e Angela Barone, meus A grande festa do bairro sempre foi pais vieram da Itália, depois de lá. No 15 de agosto. Bem movimen- ficarem um tempo em Guajuvira, tada. Havia também a festa de Santa acabaram aqui. Luzia, em 13 de dezembro, de Possuiam chácara e plantavam. Como muitos milagres. a maioria dos imigrantes da região, As pessoas contam muitas estórias a vendiam produtos na cidade. esse respeito. Era um tempo bom e de muita Eu vi um dos milagres: Uma vez fartura. Os produtos eram frescos e chegou uma família, que tinha vindo bem tratados. Todo verdureiro tinha de Curitiba, de caleça, para rezar a fregueses certos. Naquela época a Santa Luzia. Naquele tempo eu Tiradentes era um banhado e possuía a chave da nossa igreja de passava por ali um rio, também havia São Marcos e êles pediram para rezar uma ponte de madeira (-possível lá. confusão com a Praça Zacharias, Passou algum tempo e escutamos onde havia a ponte do rio choro. Fomos ver que havia Os italianos daqui tinham leiterias e acontecido. 0 chefe da família tinha vendiam tudo na cidade. recuperado a visão. Foi realmente Vizinhos nossos eram, na época, OS um milagre e aconteceu há 40 anos. Carceceri, OS Zanotto, OS Gusso, O povo daqui é muito de Santa Stocheiro, OS Lago, OS Polak, OS Luzia e acredita nos seus poderes. Trevisan, OS Gava, OS Flor, OS Pilatti, Todas as festas de igreja do bairro OS Kania, OS Fila. Todos bem eram enormes. Missa, procissão e afastados uns dos outros. Nada de quermesse. A gente almoçava por lá, montoeira. lamos à escola de Dona aproveitávamos a festança dia Ana Gaiola (Loyola) que era a única todo. do Pilarzinho. Baile mesmo não havia. A gente se A Capela do Pilar é muito antiga. Já reunia na casa dos amigos, contrata- foi de madeira, e bem menor. tava um gaiteiro e dançava a tarde Os italianos construíram a igreja de toda. As moças levavam bolo, café, São Marcos. Eram todos muito bolachas, e OS rapazes pagavam 0 devotos e queriam uma igreja para músico. Cada semana era na casa de aos domingos. Isso aconteceu por um, era muito divertido e tenho volta de 1900. saudades daqueles dias. Inclusive dá para dizer que fomos Dona Catarina Prudlik mudou-se da nós que achamos a Santa do Pilar. A Lamenha Pequena para Pilarzinho criançada estava brincando num e nunca mais saiu do bairro. Recorda banhado e descobriu a imagem, a vizinhança e a boa escola do pequenininha, jogada Abranches. Eu me chamo Catarina Prudlik, Seu Marco Barone lembra dos vizi- tenho 85 anos. Sou filha de Maria e nhos, da capela, e da igreja Thomáz Grzybowski, poloneses. Nas- 14ci na Lamenha Pequena, aqui perto, Todos moradores aqui por perto, na em 1895. Nove dos meus irmãos região da atual usina de asfalto da nasceram no Brasil. Só minha irmã Prefeitura na rua João Gava. mais velha é que nasceu na viagem de Próximo à igreja eu lembro da navio da Polônia para cá. chácara da Margarida Gava e do Eles logo compraram chácara no velho armazém do Agostinho Basso. Pilarzinho e aqui ficamos. Meu pai Frequentei escola no Abranches. Em morreu cedo, aos 41 anos, em polonês. ensino era muito bom, e acidente. Me lembro pouco dele. pago. Os pais podiam escolher entre Acho que as terras foram vendidas alemão, italiano, português e polo- pelo governo. Aos poucos, compra- nês, para as aulas dos filhos. mos mais terras. Minha mãe era Não havia no meu tempo muitos muito trabalhadeira e morreu aos 61 brasileiros por aqui. anos. A maioria era de estrangeiros. Meus pais gostavam muito daqui. Porque na Polônia não havia tanta Dona Genoveva Purkot, que já terra para plantar e morar. vendeu a chácara dos seus avós, ainda Os vizinhos eram OS Flor, OS Pilatti, mora na antiga casa, e lembra a mesa OS Kowalski, OS Sermalck, OS Franco. farta, com leite e requeijão. LOURENCO Curityba Croquis da posisão das colones Windler Born Langer Virmona Deetrish Here CAPINA ARGELINA CAMPO POPLADE Mapa das chácaras de Curitiba com as proprieda- des dos colonos. Desenho de 1929. Arquivo da Casa Romário Martins. 15Sou descendente de oloneses e Domingo era dia de festa. De casada com polonês. íamos à missa. 0 nome já diz: Genoveva Kania Purkot. A família do meu marido foi Paulina Hella Roncoski e João das primeiras do bairro. Acredito que Roncoski lembram dos casamentos chegaram aqui em 1817. Estudei na escola dos poloneses do Abranches. festivos, da vizinhança, dos antigos Morei muito tempo com meus avós armazéns. que residiam no Pilarzinho, mas ia estudar, em polonês, lá nascolônia. Eu sou Paulina Hella Roncoski. Filha Vovô e vovó eram José e Edwiges de José e Ana Hella, neta de Kania. Meus tios eram Maria, Isabel e imigrantes poloneses. Nossa antiga casa, rústica, pequena, já foi demolida. Francisco Kania. Trabalharam muito na plantação e Todo mundo trabalhava na terra. Verduras eram vendidas na criação de animais. Como poloneses, embora morassem Antigamente era muito fácil plantar no Pilarzinho, se davam melhor com porque tudo era mais barato. 0 pessoal do Abranches. Lá íamos à Meus avós moravam aqui perto, onde escola, à igreja, festas, batizados, está a Sociedade Primavera ou por enterros, e primeiras comunhões. ali. A escola aqui do Pilarzinho era só Não existia armazém no bairro, no para brasileiros e italianos. Os ale- começo. Comprávamos tudo em mães não se misturavam muito. Nem Curitiba. Casei bem com 16 anos. Naquela época eu já trabalhava para uma família polonesa no centro. Os Lachowski. Tinham fábrica de malas. Casei, como todos OS poloneses, em Santana do Abranches. Tive onze filhos. Dois não se criaram. Meu marido, Pedro Purkot, era filho do Simão, pioneiro no bairro. Os avós dele ganharam a terra do governo. Hoje a chácara não mais me perten- ce. Tive de vender. Moro na casa, para cuidar. O dono é João Schneider. Todos éramos lavradores: plantá- vamos e cuidávamos da criação. Naquele tempo era uma fartura de dar gosto: Quando chegava visita era bem recebida com mesa farta, leite Ana Loyola, primeira professora. Filha de João Gonçalves Loyola e Maria Loyola. puro, pão fresco, bom requeijão. Nasceu em 21 de fevereiro de 1871. Morreu em Hoje tudo é diferente. 1955, 16católicos eram. Frequentavam a 1947. Não havia muita coisa no igreja Luterana da rua Inácio Lusto- bairro. Tive de puxar a madeira de za, aquela antiga. carroção, na chuva. A maioria dos italianos se fixaram ao Trabalhei na chácara do sogro, com redor da Sociedade Primavera, perto arado, plantação. da capela do Pilar. Se davam bem Depois, na pedreira, acho que dos conosco, poloneses. Quando precisa> Gava. vam de alguma coisa, a gente em- Naquela época havia no bairro, nossa prestava: ferramentas, cavalos para casa, duas leiteiras, uma cocheira, lavoura, arados. uma casinha. Os vizinhos eram Os poloneses gostavam muito de Josefina Cordeiro, Emílio Lucas, festas. Meu pai, José Hella, era um João Coller. Perto da capela, lembro gaiteiro como poucos. Sempre requi- do João Gbur, do armazém Polak, sitado para tocar em casamentos. dos Casagrande. Nós, com OS Hella, Quanta tradição, naquele tempo! Se moramos sempre mais perto das usava fazer a roda da mesa, OS Mercês. convidados dançavam em volta, e iam deixando dinheiro para OS Maria do Pilar Born Pilatti, aparenta- noivos. Era lindo! Tudo acontecia de da dos Loyola, relembra a manhã e em dia de semana. Os professora, Dona Ana Loyola, e padres não gostavam de casar aos antigo engenho do seu bisavô. sábados porque as festas duravam dias e as pessoas não apareciam na missa de domingo. Mais de 100 Sou Maria do Pilar Born Pilatti, pessoas eram convidadas. Era festan- sobrinha de Ana Loyola, a primeira ça dia e noite. O cortejo era de professora do bairro. Tenho 63 anos. carroça. Meus pais sempre moraram aqui. Os cavalos enfeitados com fitas, Gustavo Born, este nome de papai, papel, e muita cor. tinha armazém perto da capela do Os músicos iam na carroça. Tocando Pilar, onde hoje é o supermercado tempo todo. Basso. Meu por parte de mãe, Ao meio-dia, OS convidados iam para Ignácio de Loyola, pai de João a casa do pai da noiva, almoçar. Uma Loyola, era dono de engenho de erva fartura. Às três horas tinha café. À mate. O engenho ficava no final do noite, jantar. Comia-se dia todo. bairro, na divisa do rio Barigui, e Lembrava-se da Polônia. Hoje tudo terrenos hoje são dos Mylla. isto está se apagando. Os mais velhos Minha tia, Ana Loyola, morreu aos ainda falam idioma. Os filhos e 85 anos, há 26 anos atrás, e foi nossa netos não ligam muito para estas primeira professora, em escola que coisas. A geração futura terá pouco a ficava perto da atual sociedade aprender com seus avós e bisavós. Primavera. Acho que a sua escola era Eu sou João Roncoski, marido de do Governo. As crianças que rece- Paulina. Moro no Pilarzinho há 39 biam suas aulas eram filhas de anos, desde 1941. italianos e brasileiros. Os polaqui- Construí nossa casa em janeiro de nhos estudavam no Abranches. 17Hermenegildo Gasparini lembra do quarteirão. Todos conheciam. Os velho inspetor de quarteirão, das terrenos eram separados por valas, ao primeiras escolas, da fundação da invés das cercas de hoje em dia. Sociedade Primavera. A Capela de Nossa Senhora do Pilar também era cuidada pelos Loyola. Sou Hermenegildo Gasparini, nasci Toda a vida, quando terminava a no dia 19 de maio de 1909. última novena da festa, vinha Vivi sempre no Pilarzinho, com meus capelão da família Loyola, e determi- pais, João e Ernesta Gasparini. Papai nava quem seria' festeiro do ano veio de Veneza com 25 anos. Numa seguinte. também tinham a boa chácara, plantou muito. Sem escola. empregados. Milho, feijão, batatinha. Criávamos animais para vender. E A professora era a Donana. Deu aula para muita gente. Muitos senhores de mamãe cuidava de vacas leiteiras. hoje em dia. Os Gavasforam alunos As garrafas com leite eram dela. Eu não! la à escola em São tampadas com palha de milho e Marcos, das freiras italianas. Tinha vendidas na cidade. Tudo ia para centro de carroção. do primeiro ao quarto ano. Depois Os fregueses em Curitiba eram da aula, trabalhávamos. Eu cuidava conhecidos nossos. dos porcos, meus irmãos arruma- Dos parentes do meu pai, todos vam pasto para a criação do gado vieram para Brasil. Minha mãe leiteiro. ainda escrevia para a Itália. Dizia A Sociedade Primavera foi fundada que, quando imigrou, teve de assinar em 1927. João Gasparini, meu pai, documento onde renunciava à heran- foi quem doou O terreno. Uma firma ça. Porisso, nunca mais tivemos fez 0 prédio. Tempos depois, quando notícias da Europa. entrou um presidente mais sabido, é A família mais antiga acho que era que nós assinamos um documento dos Loyola. Brasileiros. João passando a posse do terreno para Loyola era autoridade. Inspetor do nome da Sociedade Primavera. 18Foto do casamento de Angelina Costa Basso e Ferdinando A stinho Basso. Imigrantes italia- nos. Foto cedida por Angelina Basso.NOTAS DO TEXTO 1. LEÃO, Ermelino Agostinho de. Dicionário histórico e geográfico do Paraná. Curityba, Emp. Graphica Paranaense, 1926. V. IV. 1563. 2. Depoimento oral de Ermenegildo Gasparini. 3. FEDALTO, Pedro. A arquidiocese de Curitiba na sua história. Curitiba, 1956. 111. 4. BOLETIM do Archivo Municipal de Curityba. Actas das Sessões da Camara. Curityba, Impressora Paranaense, 1931. V. LIV. p.81. 5. PARANÁ. Relatório do Presidente da Província. Dr. Zacarias Goes de Vasconcelos. Curityba, jornal Dezenove de Dezembro, ano I, 25/11/1854. 6. BOLETIM do Archivo Municipal de Curityba. Actas das Sessões da Camara. Curityba, Impressora Paranaense, 1932. V. LVIII. p.88. 7. BOLETIM do Archivo Municipal de Curityba. Actas das Sessões da Camara. Curityba, Impressora Paranaense. 8. CIDADÃOS de Römerstadt. Jornal Der Kompass, Ano 28, n. 72, 1929. 9. BOLETIM do Archivo Municipal de Curityba. Actas das Sessões da Câmara. Curityba, Impressora Paranaense, v.65, 1960. .14-5. 10. BOLETIM do Archivo Municipal de Curityba. Actas das Sessões da Câmara. Curityba, Impressora Paranaense, v.64, p.39. 11. BOLETIM do Archivo Municipal de Curitiba. Actas das Sessões da Câmara. Curityba, Impressora Paranaense, 1960. v.65. p.18 (Conforme nota do revisor Júlio Moreira). 12. MARTINS, Romário. Quantos somos e quem somos: dados para a história e a estatística do povoamento do Paraná. Curityba, Empresa Gráfica Paranaense, 1941. p.66. 13. MUNHOZ, Alcides. Observações gerais sobre Estado do Paraná. 1n: Anais da Comunidade Curitiba, 1970. v.1. p.87. 14. WACHOWICZ, Ruy. camponês polonês no Brasil; tese de docência livre. Curitiba, 1978. 169p. 15. ANAIS da Comunidade Brasileiro-Polonesa. Curitiba, 1970. v.1. p.125. 16. BALHANA, Altiva Pilatti. Santa Felicidade, uma paróquia venêta no Brasil. Curityba, Fundação Cultural, 1978. p.27. 17. p.37. 18. PARANÁ. Relatório do Presidente da Província Dr. Adolpho de Lamenha Lins. Curityba, Typ. V. Lopes, 1877. p.84. 19. LIVRO Tombo da Paróquia de Santa Felicidade, n.1, 1895-1904. p.3. 20. BALHANA, Altiva Pilatti. Santa Felicidade, uma paróquia venêta no Brasil. Curitiba, Fundação Cultural, 1978. p.38. 20BIBLIOGRAFIA DO COMPLEMENTO ANAIS da Comunidade Brasileiro-Polonesa. Curitiba, 1970. BALHANA, Altiva Pilatti. Santa Felicidade, uma paróquia vêneta no Brasil. Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba. BALHANA, Altiva Pilatti et alii. História do Paraná. Curitiba, Grafipar, 1969. v.1. BOLETIM do Archivo Municipal de Curityba. Actas das Sessões da Câmara. FEDALTO, Pedro. A arquidiocese de Curitiba na sua história. Curitiba, 1956. LEÃO, Ermelino Agostinho de. Dicionário histórico e geográfico do Paraná. Curityba, Emp. Graphica Paranaense, 1926. MARTINS, Romário. História do Paraná. Curitiba, Empresa Gráfica Paranaense, 1937. Quantos somos e quem somos; dados para a história e a estatística do povoamento do Paraná. Curityba, Empresa Gráfica Paranaense, 1941. Terra e gente do Paraná. Curitiba, Empresa Gráfica Paranaense, 1944. MARTINS, Wilson. Um Brasil diferente. São Paulo, Editora Anhembi, 1955. WACHOWICZ, Ruy C. Abranches: um estudo de história demográfica. camponês polonês no Brasil. PARANÁ, Relatório dos Presidentes da Província (1864-1889) GLOSSÁRIO Na sequência, a explicação de termos antigos encontrados no texto. Para melhor compreensão: frontão: Peça da frente de um edifício. Parte superior da porta ou janela principal. silvoso: selvagem, silvestre, com mato. livro tombo: - livro para registro dos principais acontecimentos de uma paróquia, igreja ou irmandade. Contém a história da paróquia, sua descrição, inventário dos seus bens. rocio: zona pertencente à Câmara Municipal num raio de meia légua a partir do centro, ou seja, do Palourinho, que ficava na praça Tiradentes atual. 21foreiro: - aquele que paga pelo foro. foro: privilégio ou uso de um terreno garantido pelo tempo ou pela lei. No caso, garantido pela Câmara Municipal, depois, pela Prefeitura. braça: antiga medida de comprimento, com 2,20 metros a braça. deferido: atendido, aprovado. catecúmeno: - aquele que se prepara para receber 0 batismo católico. capelania: - benefício ou cargo do padre capelão. curato: Cargo do cura. Residência do padre cura. Vêneto: gente de Veneza, parte da Itália. Nave: - espaço da igreja desde a entrada até 0 altar. Ermida: Pequena igreja no campo, em lugar isolado. Direito Canônico: Conjunto de regras de Direito, da Igreja Católica Romana. 22A IMPORTÂNCIA DA IMIGRAÇÃO NA SOCIEDADE CURITIBANA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX * Beatriz Teixeira de Melo Miranda A história da imigração no Paraná se insere no processo brasileiro do século XIX, onde a política imigratória passa a ser orientada no sentido de estimular a entrada de novos contingentes populacionais. Saliente-se, porém, que a imigração dirigida ao Paraná, a partir da segunda metade do século foi promovida pelo governo provincial, apoiado na "Lei Orçamentária 514, de 28 de outubro de 1848, que reafirma a competência de colonizar por parte dos governos provinciais e concede terras devolutas para a criação de núcleos Essa proposição seria reafirmada em 1850, com a "Lei de Terras", que favoreceu e estimulou a imigração com a posse de terras. A preocupação dos governantes da recém criada província do Paraná era de promover uma política imigratória adaptada às suas condições particulares. "Ao contrário de outras regiões do Império, onde a imigração se destinava a suprir a carência de mão-de-obra na grande lavoura de exportação, no Paraná, a não ser a eventual introdução de imigrantes nas obras públicas, sobretudo na construção de estradas, 0 problema imigratório foi, desde logo, orientado visando a criação de uma agricultura de abastecimen- to"2. A vinda de colonos era considerada necessária para solucionar a escassez e carestia dos produtos agrícolas que, àquele tempo, afligiam não só a Província, mas também todo Império. Foi, pois, com 0 objetivo de introduzir "trabalhador", 0 e 0 "agricultor" na Província do Paraná, que Zacarias de Goes e Vasconcelos baixou a Lei 29, de 21 de março de 1855, reafirmando OS interesses da Província em promover a imigração. Essa atitude marcou a política imigratória da Província, seguida posteriormente por outros de seus governantes. Do ponto de vista administrativo, foi Zacarias de Goes e Vasconcelos primeiro a imprimir um critério de colonização estrangeira no Paraná. Antecederam porém, à sua administração, OS 3 primeiros núcleos coloniais que já haviam sido instalados: primeiro com alemães, 1BALHANA, Altiva História do Curitiba, Grafipar, 1969. 4v. v.1. p.159. 2 Mudança na estrutura agrária dos Campos Gerais. Boletim da Universidade Federal do Curitiba (3) : 28-9, 1963. Do Departamento de História do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. 23em 1829, no Rio Negro; em seguida, a Colônia Tereza, no Ivaí, fundada com franceses, em 1847; 0 terceiro, de Superaguí, fundada em 1852, nas proximidades de Guaraqueçaba, com suíços, franceses e alemães. Estes núcleos faziam parte do programa de colonização desenvolvido pelo governo Imperial, com objetivo de povoar vazios demográficos. "Embora a área do planalto de Curitiba estivesse à margem deste programa colonizador, pode-se constatar que houve a seguir um movimento espontâneo de reimigração que alterou a constituição da população curitibana. Nas décadas dos 1830 e 1850, alemães do Rio Negro (Paraná e da Colônia Dona Francisca (Santa Catarina), localizaram-se ao redor de Curitiba, sobretudo nas suas partes norte, noroeste se nordeste, em pequenas chácaras"3. A segunda década após a instalação da província pode ser considerada como a fase áurea da colonização, tendo-se em vista que, de 1868 a 1878, foram instalados cerca de 60 núcleos coloniais, resultantes de iniciativas oficiais e particulares. Adolfo Lamenha Lins, quando na presidência da Província, no período de 1875 a 1876, fez da imigração seu principal plano de governo, plano este que imprimiria à política imigratória paranaense uma fisionomia particular dentro do fenômeno geral da imigração, pois, embora dirigindo OS destinos da Província por menos de 2 anos, participou ativamente do movimento colonizador. Sua maneira peculiar de encarar problema chegou mesmo a ser imitada por outras unidades do Império. Nos arredores de Curitiba, dentro do período estudado, foram fundados OS seguintes núcleos coloniais: Argelia, em 1868, às margens da Estrada da Graciosa, distando 3 km da capital e constituída de colonos franceses; em 1871... "chegavam OS primeiros colonos poloneses e localizava-se também no Pilarzinho, reimigrantes que eram da colônia Príncipe Dom Pedro, posteriormente anexada à colonia Brusque, da vizinha Província de Santa Abranches, criada em 1873, localizada nas proximidades do Rio Barigui, em sua margem esquerda, composta de "polacos prussianos"; Orleães, criada em 1875, localizada à pequena distância da estrada de Mato Grosso e distando 10 km da capital, povoada por "polacos franceses e italianos; Santa Cândida, criada também em 1875, localizada à margem esquerda da Estrada da Graciosa e a 8 km do centro de 3BALHANA, Altiva Pilatti et alii. A imigração e processo de urbanização em Curitiba. A Cidade e a História, ANAIS do VII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História, São Paulo, 1974, vol. 1, p.529. 4WACHOWICZ, Ruy C. Abranches: paróquia de imigração polonesa. Curitiba, 1974. p.10. Dissertação (Mestrado. Universidade Federal do 5Polacos-prussianos" Denominação usada conforme relatórios de Presidentes de Província. 24Curitiba, cujo povoamento se fez em maioria por poloneses, mais algumas famílias suíças; Santo Inácio, em 1876, distando 4 km da capital e vizinhando com núcleo de Nova Orleans. Foram criados também OS núcleos Dom Pedro em 1876, às margens do rio compondo-se sua população de "polacos-prus- sianos", bem como de silesianos e italianos; Tomaz Coelho, no mesmo ano de 1876, distando 17 km da capital, formada por "polacos-prussia- nos" e por galicianos, assim como a D. Augusto, criada ainda em 1876 e localizada às margens da estrada de Mato Grosso, distando 16 km da capital, composta de "polacos-prussianos", silesianos, galicianos, ingleses e franceses: Dantas, criada em 1878, situada na localidade chamada "Agua Verde", formado por colonos italianos; Alfredo Chaves, também criado em 1878, situada a 30 km da capital, vizinhando com núcleo de Santa Cândida e município de Arraial Queimado; sua colonização se fez com italianos tiroleses. Do mesmo período datam OS núcleos de Antônio Rebouças, criado em 1878, distando 19 km da capital e situado às margens da estrada do Mato Grosso, cujo povoamento se fez por imigrantes italianos; Lamenha, criado também em 1878, em local distanciado 9 km de Curitiba, e constituído de Presidente Faria, fundado em 1886, a 20 km da capital, composto de imigrantes italianos; Santa Gabriela, em 1886, distando 8 km de Curitiba, limitando com a Colônia Lamenha formado por imigrantes italianos; Maria José, criado em 1887, distanciado 19 km da capital, constituído também de italianos; Antônio Prado, fundado um ano antes com italianos e localizada 18 km de Curitiba; por fim, núcleo de Santa Felicidade, a 2 km da capital, com reimigrantes italianos, provindos de Alexandra em 1878. A colonização das cercanias de Curitiba atraiu reimigrantes do litoral e dos Campos Gerais, em vista dos resultados satisfatórios obtidos com OS núcleos coloniais ali instalados. Estes reimigrantes se localizaram em parte, nas colônias já existentes. Outros, radicaram-se em novos núcleos criados para este fim. As séries dos registros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos da Paróquia de Nossa Senhora da Luz de Curitiba, possibilitaram conhecer país de origem dos imigrantes, bem como a proporção entre OS sexos, variáveis que tornaram possível a análise do fenômeno da imigração na formação da população curitibana na segunda metade do século XIX, seja de 1851 a 1880. Naquelas atas, nos três decenios 1851-1860; 1861-1870; 1871-1880 são OS imigrantes de origem alemã, polonesa e italiana OS que constituem a maioria da população imigrante. São registradas as presenças de portugueses, franceses, prussianos, holandeses, suiços, austr íacos, espanhóis, irlandeses e argentinos. 6"Rio Poçauna" nome mencionado nos Relatórios Provinciais. 25Pela análise das fontes citadas ficou evidenciado que a contribuição daqueles contingentes populacionais foi importante pelas transformações que ocasionaram na estrutura demográfica curitibana. Estas alterações se observaram através do aumento dos índices de batizados, casamentos e óbitos, demonstrando a evolução da população da Paróquia de Nossa Senhora da Luz de Curitiba. A diversificação da produção e o desenvolvimento do comércio se relacionam também com aqueles contingentes chegados à Curitiba. Alterando desse modo, sua própria fisionomia urbana e suburbana. O processo da imigração, no Paraná, traria também, elementos de renovação para meio rural paranaense, ou seja iniciar-se-ia uma série de mudanças em suas estruturas agrárias. Ocorre então, uma alteração no regime de propriedade, pela necessidade de fixar imigrante. Desse modo, formaram-se colônias com terras distribuídas para a agricultura, em pequenos lotes de 25 a 30 hectares, agrupados ao redor da cidade, visando seu abastecimento. Por sua vez, colono imigrante mantinha com a cidade relações elementares de comércio, indispensáveis a sua subsistência. Nessas colônias, 0 lote da família era trabalhado pelo próprio colono, bem como por sua mulher e seus filhos; produto desse trabalho era vendido nos mercados próximos. Era este regime de pequeno proprietário, sem estranhos, empregados, escravos ou agregados. Junto com estas colônias desenvolveu-se a atividade agrícola diversificada. Consequentemente, houve a introdução de novas culturas e 0 restabelecimento de outras, contando-se entre as primeiras centeio, a aveia, a cevada e as frutas cítricas; entre as segundas o trigo, tabaco, linho, a vinha. Paralelamente a esses produtos, outros já existentes foram incrementados, contribuindo para 0 equilíbrio da estrutura econômica nas regiões onde se localizaram núcleos coloniais. na lavoura do "polaco" 0 centeio; a videira era que mais se via na lavoura do italiano. Ao lado disto OS polacos plantavam milho, feijão, batata inglesa, batata doce, ervilha, aveia, ervilhaca; OS italianos, além da uva, cuidavam de outras frutas, em contraste com 0 polaco, que só abre exceção para o pêssego e a Esses produtos eram colocados no mercado, conduzidos nas carroças coloniais pelas mulheres, de modo "que nas ruas curitibanas não se viam outros tipos a não ser das colonas polonesas, alemãs e italianas, vindas dos arredores para a mercância 7VITOR, Nestor. A Terra do futuro. Rio de Janeiro, Tip. Jornal do Comércio, 1913. 101p. p.37. 103. 26"Um dos maiores encantos para 0 viajante que aporta ao Paraná é sentir de perto espetáculo da vida colonial nos arredores de Curitiba"9. Como fator de continuidade para crescimento das colônias e do mercado curitibano, tornava-se vital a existência de uma infra-estrutura baseada vias de comunicação. Se transporte das mercadorias agrícolas de algumas colônias foi favorecido, era porque elas estavam situadas à margem ou nas proximidades de estradas-tronco, tais como: Estrada da Graciosa, estrada do Mato Grosso, Estrada do Assunguí. "De outro modo, atendendo-se ao erro cometido no estabelecimento de algumas colônias sem as condições indispensáveis para a sua prosperidade, quais são, boas estradas, e a proximidade dos mercados de permuta e de consumo, não se pode hoje ser indiferente aos reclamos dos colonos pela realização de uma providência vital como é O estabelecimento de vias regulares de As estradas significaram sempre elemento de integração entre meio rural e urbano, OS quais se definiram realmente em Curitiba à época em que se iniciaram as atividades diferenciadas dos imigrantes; com OS poloneses e italianos mais dedicados à agricultura, alemães e franceses voltados à vida urbana. Os imigrantes rurais eram alvo da preocupação dos administradores provinciais, bem como dos responsáveis pelas colônias, no sentido de que deviam dispor de estradas que as ligassem à Capital. Analisando este aspecto, Vice-Presidente da Província, Manoel Antônio Guimarães, em 1873, comentava a propósito da Colônia Assunguí: "O desenvolvimento e a prosperidade daquele estabelecimento depende tão somente da facilidade de comunicação com a capital por meio de uma estrada de As numerosas colônias estabelecidas no rocio de Curitiba, com agricultores poloneses, permitem caracterizá-las como sendo rurais; ressalte-se, porém, que muitos dos colonos eram artesãos e de atividades urbanas, como pode ser constatado através das atividades do "Comitês de Cidadãos", dirigidos por Simão Grafowski, professor que trouxe para a 9BALÃO, Jaime. As colônias do Boletim Colonial e Agrícola do Estado do Paraná. Curitiba, 1(3): 11-20, 1907. 10DANTAS FILHO, Manuel Pinto de Sousa. Relatório apresentado à Assembléia Legislativa do Paraná em 4 de junho de 1879. Curitiba, Typ, Perseverança, 1879. 31p. 11GUIMARÃES, Manoel Antonio, Relatório com que abriu a Sessão da Legislatura da Assembléia Provincial do Paraná em 17 de fevereiro de 1873. Cutiryba, Typ. Viuva Lopes, 1873, 9p. 27colônia religiosos favorecendo a abertura de escolas credenciadas"12. Os imigrantes alemães e franceses também se dedicaram à agricultura. Em sua grande maioria, porém, exerceram atividades urbanas, como demonstra a não existência de colônias agrícolas alemãs ou francesas propriamente ditas. Além disso, a dispersão dos imigrantes da agricultura, na maioria alemães, em favor do comércio e da indústria, é uma constante na história de Curitiba. "Assim, a imigração não só se caracteriza, em conjunto, por sua localização e por profissões eminentemente urbanas e técnicas, como ainda criou um ambiente favorável à sua estabelecendo de certo modo a preponderância do elemento germânico nos ramos comerciais e industriais de Curitiba. A participação do imigrante no desenvolvimento industrial de Curitiba verificou-se através da criação de numerosas pequenas indústrias na área de colonização agrícola. Houve um florescimento do artesanato rural, destinado ao suprimento de artigos necessários à vida local dos núcleos coloniais e a transformação de produtos agrícolas para sua comercialização. Moinhos, fiações, tecelagens, fundições, cutelarias, cervejarias, cerâmicas e outras atividades caracterizam 0 surto industrial da região. "Trata-se, portanto, de um artesanato de produção e transformação evoluindo, até certo ponto, no sentido de constituir pequenas e médias Foram, pois, OS imigrantes que introduziram nos meios urbano e rural de Curitiba, certas novidades comerciais e industriais. Representando espírito empresarial do imigrante em Curitiba, observa-se sua atuação no comércio intermediário da erva-mate, da madeira, na formação de pequenas oficinas e nas casas de comércio de importação. No comércio rural e urbano destaca-se 0 imigrante, via de regra um dos próprios colonos, que, beneficiado pela solidariedade étnica, seria agente de trocas, fornecedor do sal, do açúcar, dos tecidos e instrumentos agrícolas, bem como 0 vendedor, nos centros urbanos, da produção agrícola e artesanal das colônias. Muitas vezes, esse negociante pode capitalizar fundos que lhe permitiram estabelecer uma grande casa comercial na cidade, tornando-se, ele próprio, um fornecedor por atacado de outros comerciantes e mesmo um importador e exportador. "O comércio urbano cresce ligado às necessidades e à demanda dos 12WACHOWICZ, Ruy C. Abranches; paróquia da imigração polonesa. Curitiba, 1974. 107 p. p.18 (Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Paraná). 13MARTINS, Wilson. Um Brasil São Paulo, Anhembi, 506p. p.349. 14BALHANA, A.P. et alii. Alguns aspectos... p.213. 28imigrantes, unidos aos comerciantes muitas vezes pela comunidade, de origem"15, abrindo caminho para posições de importância na vida econômica urbana. Nessa problemática, um exemplo entre muitos que poderiam ser citados é de "José Hauer, reimigrante da Colônia Dona Francisca que, em 1863, instalou em Curitiba uma selaria; comerciante de mão cheia, passou logo a dedicar-se ao comércio internacional, com importação e exportação de mercadorias. Em seguida, fundou, em Rio Negro, uma empresa de navegação fluvial e, além disso, construiu com seus filhos, em Curitiba, a primeira usina de força "O outro exemplo é de Gottlieb Müller, que a partir de uma pequena oficina de ferraria, estabelecida em 1878, evoluiu para um torno de fundição, tornaria e fábrica de máquinas "Marumby" e outros artigos Também na própria legislação se observam OS reflexos das atividades profissionais dos imigrantes; assim, na Lei 459, de 15 de abril de 1876, concedia-se privilégio por 20 anos, a Teodoro Stresser para fabricar telhas mais perfeitas que diminuíssem peso da cobertura dos prédios e não precisassem de emboço para melhorar OS telhados. A José Wolf, pela Lei 468, do mesmo ano, foram concedidos idênticos privilégios para estabelecer máquinas para tecer e fiar algodão e linho. Esses artesãos, comerciantes e industriais criaram e aplicaram em Curitiba, técnicas que transformaram completamente a sua estrutura urbana, econômica e social. Apesar do maior surto imigratório em Curitiba ter ocorrido entre as décadas de 1860 e 1880, até 1865 Curitiba. "era uma cidadesinha de pequeno comércio, casas baixas e afastadas uma das outras, janelas sem vidro e fechadas com tramelas de madeira, ruas tortas, angulosas e sem calçamento, prejudicando comércio e trânsito do gado leiteiro. Muitas poucas ruas tinham calçadas empedradas. Carros de bois de duas rodas transportavam lenhas e produtos, assim como carretões pesados, também de duas rodas, levavam material de A situação se explicaria pelo ainda curto período após estabelecimento imigrante que estava, de certa forma, um pouco limitado por contingências inerentes ao próprio processo de adaptação, que é comum a toda problemática de participação do imigrante no meio de 15BALHANA, A.P. et alii. p.215 16AULICH, Verner. Paraná e OS alemães. Curitiba, s.ed. 1953, 163p. p.96. 17FUGMANN, Wilhelm. Die Deutschen in Curitiba, Oliveiro, 1929. 324p. p.246. 18FUGMANN, p.290 29adoção. Uma vez superadas as primeiras dificuldades, porém, OS imigrantes, atuando como um todo, começam a interferir na estrutura rural, suburbana e na urbana. As impressões de Bigg-Wither, 19 ao passar por Curitiba em 1873, confirmam a posição dos imigrantes como elemento de modernização. Fenômeno semelhante é observado na Província de São Paulo, que como Paraná objetivando a expansão de sua economia regional desenvolveu a imigração em função da necessidade do trabalho agrícola. Isto fez com que OS governos provinciais e particulares promovessem meios para facilitar a imigração e a colonização pretendendo, ambos OS setores, aproveitamento do trabalho livre do estrangeiro como substituto do trabalho escravo do negro na economia cafeeira em franco desenvolvimento. No Paraná, onde era menor a presença do trabalho escravo no quadro econômico, o regime da escravatura não prejudicou 0 movimento imigratório como acontecia em outras regiões brasileiras onde latifúndio era sum entrave ao desenvolvimento da imigração que evoluiu sistematicamente, procurando a administração provincial trazer 0 imigrante agricultor, e fixá-lo à terra através do sistema da colonização. "O regime de pequena propriedade rural, nascido nos lotes de terra que foram concedidos aos imigrantes como colonos, teve resultados profícuos nas regiões por onde se implantou. Foi, sem dúvida, um dos fatores de fixação do colono, e com essa fixação criou condições que estimularam o progresso regional, através do desenvolvimento do artesanato e do crescimento da produção É no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que vai ser ressaltado sistema de "colonização", bem como da imigração, este principalmente, em São Paulo. Aí a imigração se acentuou após 1870, acelerando-se rapidamente tendo como fator de atração não somente a agricultura do café, mas também as atividades urbanas e industriais da capital paulista. Portanto, em São Paulo, pelas condições econômicas vigentes, a política imigratória não foi realizada apenas no sentido de formação de núcleos coloniais, se bem que houve tentativas nesse sentido, anteriores àquela data como a colônia alemã de Santo Amaro e outras. Assim, somente as fundadas a partir da segunda metade do século XIX alcançaram êxito. Algumas, instaladas nas imediações da capital tornaram-se com a expansão desta, parte do Grande São Paulo. Entre outras, citamos São Caetano e São Bernardo. Como já foi afirmado anteriormente, fenômeno semelhante ocorreu em Curitiba, onde alguns grupos se instalaram no rocio da cidade e outras 19BIGG-WITHER, Thomas p. Novo caminho no Brasil meridional; a província do Paraná. Rio de Janeiro, J. Oiympio, 1974, 417p. p.55-56. 20DIEGUES JÚNIOR Manuel. Imigração, urbanização e industrialização. Rio de Janeiro, Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, 1964. 384p. p.46. 30em suas vizinhanças. Tais núcleos transformaram-se posteriormente em bairros da capital, incorporando-se a sua vida urbana. Outro ponto em comum entre as duas capitais, em relação ao movimento imigratório é justamente à época em que socorre este movimento, ou seja, entre 1850 a 1888, segundo período do processo histórico da imigração brasileira, pela classificação estabelecida por Manuel Diegues Júnior21. Em Curitiba, um grande impulso é dado a partir da década de 1860 e em São Paulo, a partir de 1870. E na segunda fase que se insere a presente pesquisa, a qual tem, como um dos seus objetivos, demonstrar imigrante como elemento de modernização, não só pelas contribuições no desenvolvimento econômico-social, mas sobretudo como fator de mudança na composição e distribuição populacional, através da sua importância na dinâmica e estrutura demográfica da população. O professor Samuel H. Louwrie, ao estudar a imigração no crescimento demográfico de São Paulo, enfatiza sobre a modificação provocada por ela na composição dessa Outro ponto a ressaltar é que estes grupos, além de transformarem a paisagem regional com suas presenças, deixaram aí suas características culturais e seus valores. Muitas dessas etnias imprimiram à população de São Paulo, Curitiba, e a outras áreas do país, como é caso de São Leopoldo e Caxias no Rio Grande do Sul e Vale do Itajaí em Santa Catarina uma diversificação regional, consequência de um estilo de vida diferente daquele observado nas zonas de origem luso-brasileira. Por outro lado, as influências nacionais se fizeram sentir nos diferentes grupos constituintes daquelas comunidades e conjuntamente iniciativas e variadas atividades cresceram em diferentes campos. No econômico, deu-se, através da contribuição do imigrante, a diversificação da produção na agricultura. A industrialização surgiu, em certas áreas de imigração, das antigas atividades artesanais. Foi caso de Curitiba. De outra maneira deu-se a industrialização de São Paulo: foi implantada como decorrência da aplicação de capitais para a formação de estabelecimentos industriais. Consequentemente, "verificou-se verdadeiro desdobramento social da primitiva classe de colonos e de imigrantes artífices. A atração exercida pelo estabelecimento industrial acarretava uma transformação na atividade até então exercida. Os artífices e artesãos passavam de categoria, e do primitivo ambiente rural se transferiam para as vilas criadas ou acompanhavam desenvolvimento da própria localidade23. JÚNIOR, p.25-26. 22LOUWRIE, Samuel H. Imigração e crescimento da população do Estado de São Paulo. São Paulo, 1938, p.6. Apud DIEGUES JÚNIOR, p.46. 23DIEGUES JÚNIOR, p. 123. 31A presença dos imigrantes na formação das cidades é marcante quanto à influência italiana e alemã. Se OS grupos europeus vieram inicialmente para exercer atividades rurais, nas fazendas de café em São Paulo ou na criação de uma agricultura de abastecimento para Curitiba, ao exercerem atividades urbanas, tiveram, consequente- mente, uma maior e mais rápida participação na sociedade regional. Fazendo-se um paralelo, pode-se verificar que "a urbanização em áreas de imigração, como no Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou no Paraná, surgiu, grosso modo, como decorrência do desenvolvimento de antigos núcleos rurais, colônias que se expandiam dando margem à formação de cidades, facilitada, essa formação, pela diferenciação de atividades. Em outras áreas onde a imigração se fez sentir, mesmo naqueles ou em outros Estados, teve origem em propósitos deliberados, como foi caso de Petrópolis, ou envolvendo-se no ritmo decorrente de circunstâncias várias, como se deu em São O que procuramos evidenciar é, pois, que em ambas as cidades estudadas, OS dois processos, urbanização e industrialização, caminharam juntos, associados ao empreendimento agrícola que lhes garantiu desenvolvimento. Dessa ligação decorre uma série de transformações que vão marcar como caracteristicamente urbanas, Curitiba e São Paulo, ainda que de maneira própria e peculiar cada uma Curitiba, como já foi demonstrado anteriormente, e São Paulo eram, até quase 0 final do século XIX, centros acanhados. Entretanto, todos impulsionados por novas idéias e valores, aguardavam Em São Paulo, entre OS antecedentes que explicam progresso, é preciso considerar a "fronteira" do café em grande expansão juntamente com desenvolvimento das estradas de ferro e melhoramento de outros meios de transportes. Ligado a estes dois fatores está aumento da imigração, onde 0 advento foi 0 braço trabalhador assegurado. Em todas essas mudanças, imigrante contribuiu com sua técnica e elementos culturais. Também em Curitiba, fenômeno de mudança foi observado não só na construção de edifícios para fins industriais e comerciais, como também na diferenciação do estilo arquitetônico, na dieta alimentar, nas artes e na estratificação social. Esses princípios de urbanismo e modernização valem como indicadores de uma forma de incorporação dos imigrantes na população urbana. Outra forma de incorporação foi 0 crescimento da área urbanizada de Curitiba, onde colônias como: "Pilarzinho, Dantas e Argelina, foram absorvidas pela área urbana, 24DIEGUES JÚNIOR, p.128. 32constituindo-se de bairro de Capital. Outras colônias mais distantes, como Santo Inácio, Abranches, Santa Cândida, Orleans e outras, foram integradas na sua área suburbana 25. O desenvolvimento de numerosas instituições com finalidade de atender questões relativas à administração, ao ensino, às associações de classe e associações esportivas ou recreativas são elementos caracteriza- dores da modernização da sociedade curitibana.através da atuação dos imigrantes. 25BALHANA, Altiva Pilatti et alii. Alguns aspectos... 116. 33CIDADE DE CURITIBA CASA ROMÁRIO MARTINS FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBABOLETINS DA CASA ROMÁRIO MARTINS FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA 1. Desembrulhando as Balas Zequina 25. Cem Anos de Bento Mossurunga Valêncio Xavier Roselys Vellozo Roderjan 2. Os Caminhos da Pavimentação em Curitiba 26. Memórias da Sorte & do Azar história e Rafael Greca de Macedo estórias do Cassino Ahú de Curitiba Maí 3. Romário Martins Rafael Greca de Nascimento e Rafael Greca de Macedo Macedo 27. Memória de Vida, Linneu Ferreira do 4. 3 Contos de Armando Ribeiro Pinto Amaral Equipe 5. Bento Mossurunga Roselys Vellozo 28. Imagens e Paisagens que Curitiba Perdeu Roderjan Equipe 6. Maria Bueno peça de Oraci Gemba 29. Memórias de Vida, Guataçara Borba 7. Lazer na Curitiba Antiga Valêncio Carneiro Equipe Xavier 30. Memória da Aviação em Curitiba Equipe 8. Freguês de Caderno (Armazéns de Secos e 31. Memória de Vida, Francisco Accioly Filho Molhados) Rafael Greca de Macedo Maí Nascimento e Rafael Greca de 9. 3 Contos de Cláudio Lacerda Macedo 10. Notícias sobre a Imprensa no Paraná até 32. Ruínas de São Francisco Rafael Greca 1900 Oswaldo Pilotto de Macedo e Equipe 11. História de Curitiba, em Quadrinhos 33. Vila São Pedro, bairro na história da Moacir Calesco e Valêncio Xavier cidade Rafael Greca de Macedo, Tânia 12. Chichorro e seus Calungas Newton Mara de Paula Toledo Roseli Boschilia. Carneiro 34. Carnaval de Curitiba em 1884 13. Premiados no I Concurso Municipal de reprinter de proclama Contos 35. 7 Quedas Canendiyu, roteiro do filme de 14. Lance Maior roteiro do filme de Sílvio Sílvio Back, texto de André Rebouças Back 36. População Curitibana e Paranaense de 15. Schroeder e Kirstein, Rótulos Antigos 1780 Ruy Christovam Wachowicz Rosirene Gemael Memória de Vida, Carlos Heller Equipe 16. Santa Cândida, Pioneira da Colonização 38. Memória de Vida, Raul de Azevedo Linista Ruy Christovam Wachowicz Macedo Equipe Lambrequim texto e fotos de Key 39. A Santa Casa de Misericórdia de Curitiba Imaguire Júnior Equipe 18. Viagem do Navio S. M. Albatrós, Capítulo 40. A Visita Imperial a Curitiba David sobre Paraná 1885/1886 Antônio da Silva Carneiro 19. Referências sobre Filmagens e Exibições 41. Parque Inglez (Subsídios para a história Cinematográficas em Curitiba 1892/1907 do bairro do Bacacheri) Rafael Greca de Solange Stecz Macedo, Maí Nascimento e Vera Lúcia 20. Eclético Key Imaguire Júnior Gregório de Andrade Linguajar Paranaense Resenha Vasco 42. Passeio Público Rafael Greca de Taborda Ribas Macedo e Maí Nascimento Projeto Rogério Bonilha 43. A Arte Paranaense antes de Andersen 23. Palácio do Congresso Izabel Corção Newton Carneiro 24. Arquitetura do Imigrante Italiano 44. Igreja da Ordem Restauro e História Equipe Rafael Greca de Macedo