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Planejamento para Melhoria dos Processos de Cuidado na APS MÓDULO VI | AVALIAÇÃO E MONITORAMENTO NA APS DISCIPLINA 14 Brasília (DF) 2026 Planejamento para Melhoria dos Processos de Cuidado na APS DISCIPLINA 14 Tiragem: 1ª edição – 2026 – versão eletrônica Elaboração, distribuição e informações: 2026 Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde. A.C.Camargo Câncer Center. Esta obra é disponibilizada nos termos da Licença Creative Commons – Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte. A coleção institucional da Oferta de Aperfeiçoamento da Prática em Coordenação do Cuidado a partir da Atenção Primária à Saúde pode ser acessada, na íntegra, na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde: http://bvsms.saude.gov.br Colaboração: Gustavo Guazzelli Nanni - SAPS/MS Hannah Shiva Ludgero Farias - SAPS/MS Joyce Regina dos Santos Monteiro da Silva - SAPS/MS Luciana Pelucio Ferreira - SAPS/MS Sofia Nader de Araújo - SAPS/MS Designer educacional: Gustavo Henrique de Faria Barra - CONASEMS Coordenação de desenvolvimento gráfico: Cristina Perrone - CONASEMS Diagramação e projeto gráfico: Luciana Monteiro Campello - CONASEMS Fotografias e ilustrações: Biblioteca do Banco de Imagens do CONASEMS Imagens: Biblioteca do Banco de Imagens do CONASEMS Flickr Ministério da Saúde Flickr CONASEMS Envato Elements https://elements.envato.com Freepik https://br.freepik.com Pexels https://www.pexels.com/pt-br/ Revisão: Camila Miranda Evangelista - CONASEMS Coordenação-geral: Ana Cláudia Cardozo Chaves - SAPS/MS Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas - SAPS/MS Ana Paula Neves Marques de Pinho - A.C.Camargo Cristiane Martins Pantaleão – CONASEMS Hisham Mohamad Hamida – CONASEMS Mauro Junqueira - CONASEMS Patricia da Silva Campos – CONASEMS Verônica Savatin Wottrich - CONASEMS Organização: Núcleo Pedagógico do CONASEMS Coordenação técnica e pedagógica: Beatriz Zocal da Silva - SAPS/MS Danylo Santos Silva Vilaça - SAPS/MS Jacirene Gonçalves Lima Franco - SAPS/MS Kelly Cristina Santana - CONASEMS Maria da Penha Marques Sapata - CONASEMS Marta de Sousa Lima - CONASEMS Patricia da Silva Campos - CONASEMS Soane Cristina Almeida dos Santos - CONASEMS Thais Coutinho de Oliveira - SAPS/MS Elaboração de conteúdo: Brígida Gimenez Carvalho Revisão técnica de conteúdo: Beatriz Zocal da Silva - SAPS/MS Jacirene Gonçalves Lima Franco - SAPS/MS Maria da Penha Marques Sapata - CONASEMS Patricia da Silva Campos - CONASEMS Soane Cristina Almeida dos Santos - CONASEMS Thais Coutinho de Oliveira - SAPS/MS MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção Primária à Saúde - SAPS Esplanada dos Ministérios Bloco G, Edifício Sede CEP: 70058-900 – Brasília/DF CONSELHO NACIONAL DE SECRETARIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE - CONASEMS Esplanada dos Ministérios, Bloco G, Anexo B, Sala 144 Zona Cívico-Administrativo CEP: 70058-900 – Brasília/DF A.C.CAMARGO CANCER CENTER R. Prof. Antônio Prudente, 211 – Liberdade CEP: 01509-010 - São Paulo/SP - Brasil COMO NAVEGAR NESTE E-BOOK Antes de iniciar a leitura do material, veja, aqui, algumas dicas para aproveitar ao máximo os recursos disponíveis. SUMÁRIO: uma forma rápida de acessar facilmente as temáticas. Quer retornar à lista das temáticas? Basta clicar no ícone, no canto superior da página. Sempre que surgir o QR CODE, aponte a câmera do seu celular para acessar o conteúdo. Você, também, pode clicar sobre ele, com o botão direito do mouse, para abrir em uma nova aba ou navegador. QR CODE Caso tenha dificuldade para visualizar os elementos visuais, utilize a função de zoom do PDF. ZOOM Iniciamos, agora, os estudos do e-book da Disciplina 14 – Planejamento para Melhoria dos Processos de Cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS), última disciplina do Módulo VI – Avaliação e Monitoramento na APS. Este material foi estruturado para fomentar a reflexão crítica sobre a relevância do planejamento na qualificação das práticas de cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente no contexto da APS e no cotidiano das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Ao longo deste e-book, você poderá explorar conceitos, estratégias e instrumentos que contribuem para a elaboração de um Planejamento Estratégico Situacional (PES) nas UBS, visando aprimorar os processos de trabalho e a qualidade da assistência prestada pelas equipes. BEM-VINDO! O objetivo é fortalecer a sua capacidade de análise, organização e qualificação das ações desenvolvidas nos serviços de saúde, promovendo um cuidado mais efetivo e alinhado às necessidades da população. Esperamos que este conteúdo contribua para o desenvolvimento de novas competências e para o enriquecimento da sua prática profissional. Bons estudos! AB | Atenção Básica ACE | Agente de Combate às Endemias ACS | Agente Comunitário de Saúde APS | Atenção Primária à Saúde CENDES | Centro de Estudos do Desenvolvimento CNES | Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde CONASEMS | Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde COSEMS/MG | Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Minas Gerais DCNT | Doenças Crônicas Não Transmissíveis eMulti | equipe Multiprofissional na Atenção Primária à Saúde eSF | equipes de Saúde da Família ESF | Estratégia Saúde da Família FOFA | Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças IVIS | Plataforma Integrada de Vigilância em Saúde MAC | Média e Alta Complexidade MS | Ministério da Saúde PMAQ | Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica PNAB | Política Nacional de Atenção Básica PSE | Programa Saúde na Escola RAS | Rede de Atenção à Saúde SES | Secretaria de Estado da Saúde LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS SIA | Sistema de Informações Ambulatoriais Siaps | Sistema de Informação da Atenção Primária à Saúde SIH | Sistema de Informações Hospitalares SIM | Sistema de Informação de Mortalidade SINAN | Sistema de Informação de Agravos de Notificação SINASC | Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos SISAB | Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica SISVAN | Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional SUS | Sistema Único de Saúde SWOT | Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats TRIA | Triagem para Risco de Insegurança Alimentar UBS | Unidade Básica de Saúde USF | Unidade de Saúde da Família VS | Vigilância em Saúde LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS FIGURA 01 Relação entre as necessidades de saúde e o processo de trabalho em saúde 46 FIGURA 02 Módulo de vigilância de práticas assistenciais do Siaps 61 LISTA DE FIGURAS FIGURA 03 Módulo de cofinanciamento da APS no Siaps FIGURA 04 Vínculo e acompanhamento territorial - classificação final - eAP 62 FIGURA 05 Vínculo e acompanhamento territorial - classificação final - eSF 63 FIGURA 06 Qualidade - classificação final - eAP 63 64 FIGURA 07 Qualidade - classificação final - eSF 64 FIGURA 08 Qualidade - classificação final - eMulti 65 LISTA DE FIGURAS FIGURA 09 Qualidade - classificação final - eSB FIGURA 10 Resultados do componente de qualidade (C2): cuidado no desenvolvimento infantil de equipe fictícia da APS no Siaps 65 68 FIGURA 11 Árvore de problemas 91 LISTA DE QUADROS E TABELAS QUADRO 01 Síntese dos atributos da APS e de suas finalidades 26 QUADRO 02 Dimensões da gestão do cuidado 27 QUADRO 03 Análise do problema (Matriz SWOT/FOFA) QUADRO 04 Problema priorizado: grande número de faltosos ao programa de puericultura 83 QUADRO 05 Matriz de causa, problema e consequência 88 QUADRO 06 Plano de ação para enfrentamento do problema priorizado 90 94 TABELA 01 Exemplo de classificação de problemas de saúde segundo critérios de priorização 81 Introdução O Cuidado como finalidade primordial da APS SU M Á R IO 01 02 03 13 19 29 Características da APS e de seus processos de trabalho Planejamentoem ações que contribuam para melhorar o cuidado no território. 97 06 Finalizando Nesta disciplina, você compreendeu como a tripla carga de agravos no Brasil representa um desafio para a organização do cuidado e como o planejamento pode contribuir para reorganizar os processos de trabalho e qualificar a atenção na APS do SUS. Retomamos o conceito de cuidado e suas dimensões de gestão, já apresentados ao longo do aperfeiçoamento, e aprofundamos as características do processo de trabalho na APS. Nesse contexto, destacamos a importância de reconhecer as necessidades individuais e coletivas da população do território e de organizar o cuidado a partir da escuta, do vínculo e do respeito à autonomia dos usuários. 99 Também discutimos a importância do trabalho intersetorial, da atenção integral e da articulação entre os diferentes profissionais para garantir a continuidade e a qualidade do cuidado. Na sequência, conhecemos uma adaptação do Planejamento Estratégico Situacional (PES) para as unidades locais da APS, apresentada como ferramenta para reorganizar o processo de trabalho e enfrentar os principais problemas de saúde identificados no território. Foram abordados seus fundamentos e etapas, destacando a participação da equipe na elaboração e na execução do plano, bem como a importância de utilizar informações e evidências sobre as necessidades de saúde da população. 100 Também sistematizamos os principais passos para a construção de um planejamento simplificado de ação. Para isso, discutimos como priorizar os problemas, analisar o problema selecionado por meio da matriz SWOT, identificar suas causas e consequências, reconhecer os nós críticos e definir ações para alcançar os objetivos propostos. Nesse processo, os Painéis de Gestão e de Vigilância podem apoiar a identificação dos problemas do território e o acompanhamento das ações desenvolvidas para enfrentá-los. Por fim, destacamos que o planejamento não termina com a definição das ações. É necessário acompanhar sua execução e monitorar os resultados, utilizando essas informações para avaliar o que foi alcançado e, quando necessário, ajustar o que foi planejado. 101 Espera-se que os conhecimentos desenvolvidos nesta disciplina contribuam para que o planejamento seja incorporado ao cotidiano das equipes como uma prática contínua, apoiada em informações, evidências e monitoramento. Dessa forma, será possível responder de maneira mais efetiva às necessidades de saúde da população e fortalecer um cuidado integral, resolutivo e de qualidade na APS. Planejar é transformar as necessidades do território em ações concretas para qualificar o cuidado. Que esse conhecimento fortaleça o trabalho da sua equipe e contribua para uma APS cada vez mais resolutiva e próxima das pessoas. 102 07 Bibliografia 104 ARTMANN, E.; AZEVEDO, C. DA S.; SÁ, M. DE C. Possibilidades de aplicação do enfoque estratégico de planejamento no nível local de saúde: análise comparada de duas experiências. 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Esses processos são inter-relacionados e se referem, por um lado, em mudanças no perfil populacional (aumento da expectativa de vida, redução do crescimento populacional e elevação da proporção de idosos na população); e, por outro, no padrão de adoecimento e de mortes, que colocaram as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) como principal causa de morbimortalidade no Brasil (Peixoto, 2020). 14 No entanto, embora as DCNT sejam responsáveis pela maior parte da carga de doenças no país, ainda persistem outros importantes problemas de saúde, entre eles: ● arboviroses, como dengue, chikungunya e zika; ● infecções respiratórias; ● outras doenças transmissíveis; ● agravos por causas externas, como acidentes de trânsito e violência interpessoal. Esse quadro compõe o perfil de morbimortalidade do país (Peixoto, 2020; Mendes, 2008). A situação demonstra que o Brasil vivencia uma tripla carga de agravos. E que estes demandam e desafiam o SUS à adoção de medidas mais efetivas visando ao controle dos problemas. Para saber mais sobre a tripla carga de doenças no Brasil, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado, e leia o artigo: "A tripla carga de agravos e os desafios para o Sistema Único de Saúde". Para complementar a leitura, assista ao breve vídeo de Patricia Ellen sobre esse tema. Clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado para acessá-lo. 15 https://www.scielo.br/j/csc/a/s5Lkp5nxCvVnpVrKRC8gkzS/?lang=pt https://www.facebook.com/CLPBrasil/videos/entenda-a-tripla-carga-de-doen%C3%A7as-que-afeta-o-sistema-%C3%BAnico-de-sa%C3%BAde-do-brasil-c/1398763730934082/ https://www.scielo.br/j/csc/a/s5Lkp5nxCvVnpVrKRC8gkzS/?lang=pt https://www.facebook.com/CLPBrasil/videos/entenda-a-tripla-carga-de-doen%C3%A7as-que-afeta-o-sistema-%C3%BAnico-de-sa%C3%BAde-do-brasil-c/1398763730934082/ O enfrentamento desse cenário requer o desenvolvimento de políticas públicas e a oferta de cuidados de forma mais sistemática e institucionalizada. O SUS assume, nesse caso, um papel central na organização e na coordenação das ações de cuidado, em distintas dimensões. Necessidade do cuidado de si (promoção do autocuidado). Necessidade do cuidado do outro (por profissionais e pelo sistema de saúde, dentre outros que cuidam). Necessidade do cuidado com o espaço e o meio ambiente (especialmente para prevenir os agravos provocados por causas externas e por problemas climáticos). Para compreender esse processo, precisamos resgatar um conceito fundamental do nosso aperfeiçoamento: o cuidado! 16 O cuidado é, em seu sentido primeiro, uma atitude de desvelo, de atenção e de zelo que se devota a uma pessoa ou a algo pelo qual temos especial ligação afetiva. Pode também indicar preocupação, inquietação quando o ser que necessita ser cuidado corre risco; e ainda comporta um conjunto de dispositivos de apoio, de sustentação e de proteção sem os quais a vida humana corre risco (Boff, 2020). Para Boff (2005), o cuidado possui uma dimensão que está incluída na constituição do ser humano, ou seja, sem cuidado, deixamos de sermos humanos. 17 SA IB A M A IS Se, como vimos, o cuidado está na constituição do ser humano, todos têm a capacidade de cuidar. Os pais cuidam dos filhos, os filhos cuidam dos pais, os vizinhos podem cuidar uns dos outros, benzedeiros e religiosos também cuidam. Enfim, essas são apenas algumas formas de cuidado presentes em nossa sociedade. Nesta disciplina, trataremos do planejamento e organização dos processos de trabalho com o objetivo de proporcionar o cuidado aos usuários, considerando a finalidade primordial da Atenção Primária à Saúde (APS) no SUS. Ou seja, como já tratado na Disciplina 1: “O SUS e a Integralidade do Cuidado”, o cuidado não é de responsabilidade exclusiva do profissional/setor da saúde. Porém, o cuidado das pessoas e da população do território constitui uma finalidade primordial da APS no SUS. 18 02 O Cuidado como finalidade primordial da APS Você talvez se pergunte: por que o cuidado do outro é a finalidade primordial da APS? Isso acontece principalmente porque APS foi designada na Política Nacional da Atenção Básica (PNAB, 2017) para ser coordenadora do cuidado na Rede de Atenção à Saúde (RAS). Em outras palavras, significa dizer que a APS deve garantir acesso universal, cuidado integral, contínuo e equânime à população. Para coordenar o cuidado é necessário fazer sua gestão, o que: “A gestão do cuidado, portanto, requer interdependência e cooperação (integração) entre os sujeitos e entre as instituições, que devem defender a saúde enquanto um direito de todos os cidadãos (universalidade), em todas as fases da vida e ao longo do tempo, compartilhando os projetos terapêuticos (coordenação) e tendo o usuário como centro do cuidado” (Santos, 2018, p.30). Além disso, é importante lembrar que, o cuidado como finalidade primordial da APS também está fundamentado em seus atributos essenciais e derivados (Starfield, 2002). 20 Acesso de primeiro contato É a porta de entrada preferencial do sistema de saúde. Significa que o serviço de APS deve ser o primeiro local procurado pelos usuários sempre que surgir uma nova necessidade de saúde. Este atributo pressupõe que as unidades da APS devem proporcionar: ● Facilidade de acesso geográfico e organizacional. ● Acolhimento da demanda espontânea. ● Redução de barreiras administrativas e coordenação do acesso aos demais níveis de atenção. Agora, para aprofundar essa temática, vamos relembrar os Atributos Essenciais da APS, apresentados na Disciplina 1. 01 21 Longitudinalidade Refere-se ao acompanhamento contínuo do usuário ao longo do tempo, independentemente da presença de doença e envolve: ● O vínculo entre o profissional e o usuário. ● O conhecimento da história clínica e familiar. ● O acompanhamento das condições agudas e crônicas. ● O fortalecimento da confiança entre equipe e população. 02 22 Integralidade Corresponde à capacidade da APS de oferecer ou organizar um conjunto abrangente de ações de promoção, prevenção, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos, considerando as necessidades dos indivíduos e da comunidade. A integralidade da APS inclui: ● Ações preventivas. ● Atendimento clínico. ● Educação em saúde. ● Acompanhamento domiciliar e encaminhamento quando necessário. 03 Coordenação do cuidado É a capacidade da APS de integrar os diferentes pontos da Rede de Atenção à Saúde (RAS), garantindo a continuidade da assistência. 04 23 A coordenação do cuidado envolve: ● Encaminhamentos qualificados. ● Comunicação entre níveis assistenciais. ● Utilização adequada do prontuário. ● Acompanhamento do usuário após consultas especializadas ou internações. A APS também possui Atributos Derivados, que são: Orientação familiar Reconhece a família como unidade fundamental para compreensão do processo saúde-doença, sendo importante: ● O conhecimento da dinâmica familiar. ● A participação da família no cuidado. ● A avaliação dos fatores familiares que interferem na saúde. 05 24 Orientação comunitária Considera as necessidades da população do território e pressupõe: ● A realização da territorialização. ● O diagnóstico da situação de saúde. ● A participação social. ● O planejamento baseado nas necessidades locais e o monitoramento de indicadores. 06 Competência cultural Refere-se à capacidade dos profissionais de reconhecer, respeitar e incorporardiferenças culturais, religiosas, sociais e étnicas no cuidado, incluindo: ● O respeito às crenças. ● A comunicação adequada. ● A redução de barreiras culturais e o cuidado centrado na pessoa. 07 25 Quadro 1 ─ Síntese dos atributos da APS e de suas finalidades Fonte: adaptado de Starfield, 2002. Essencial Acesso de primeiro contato Porta de entrada do sistema. Longitudinalidade Vínculo e acompanhamento contínuo. Integralidade Atendimento às diversas necessidades de saúde. Coordenação do cuidado Integração com a Rede de Atenção à Saúde (RAS). Derivado Orientação familiar Considera a família no cuidado. Orientação comunitária Atua conforme as necessidades do território. Competência cultural Respeita características culturais da população. Tipo Atributo Finalidade Observe, no Quadro 1, uma síntese dos atributos essenciais e derivados da APS: Vale ressaltar que os atributos propostos por Barbara Starfield (2002) fundamentam a organização da APS no SUS e estão alinhados à Política Nacional de Atenção Básica (PNAB). 26 Quadro 2 ─ Dimensões da gestão do cuidado Fonte: adaptado de Cecílio, 2011; Garbois et al., 2017. Dimensão Individual Está relacionada às características, necessidades e escolhas de cada pessoa. Considera seu modo de viver, de cuidar da própria saúde, seus projetos de vida e sua capacidade de participar das decisões sobre o próprio cuidado. Dimensão Familiar Considera a família como um espaço que pode oferecer cuidado e apoio, mas também pode estar relacionada a situações de sofrimento e ao processo de adoecimento. Dimensão Profissional O cuidado que acontece principalmente no encontro entre o profissional de saúde (como médico, enfermeiro e outros) e o usuário. Além de normalmente ocorrer no espaço dos serviços de saúde, se utilizar de equipamentos, medicamentos, exames e conhecimentos científicos, esse cuidado também depende de atitudes como ouvir, acolher e construir uma relação de vínculo e confiança com a pessoa atendida. Quanto maior a presença desses atributos nos serviços, melhores tendem a ser os resultados em saúde, incluindo maior acesso, melhor qualidade do cuidado, maior satisfação dos usuários, redução de internações por condições sensíveis à APS e maior equidade (Starfield, 2002). Também cabe resgatar que, para coordenar o cuidado, é importante compreender que sua gestão se dá em distintas dimensões, como apresentado no Quadro 2. (continua) 27 Quadro 2 ─ Dimensões da gestão do cuidado Fonte: adaptado de Cecílio, 2011; Garbois et al., 2017. Dimensão Organizacional Refere-se à maneira como os serviços de saúde são organizados e funcionam no dia a dia, incluindo a gestão, os fluxos e protocolos de atendimento, os processos de trabalho e a distribuição das equipes. Dimensão Sistêmica Diz respeito à integração entre os diferentes serviços da rede de saúde, garantindo que o usuário seja referenciado e tenha acesso, quando necessário, a outros serviços da rede de atenção e tenha continuidade no cuidado ao longo de todo o atendimento. Dimensão Societária Envolve as políticas públicas, os determinantes sociais que influenciam a saúde da população, a legislação e o compromisso da sociedade com o direito à saúde. (conclusão) Trataremos, nesta disciplina, sobre o processo do cuidado nas dimensões: profissional, organizacional e sistêmica, no espaço da APS e na sua inter-relação com outros serviços que compõem a RAS, porque nos interessa compreender: Como melhorar os processos de cuidado na APS? Para isso, precisamos compreender os processos de trabalho na APS. 28 03 Características da APS e de seus processos de trabalho Na PNAB, a APS tem um caráter abrangente e envolve um conjunto de ações de saúde individuais, familiares e coletivas de promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos, cuidados paliativos e vigilância em saúde. Desta forma, a PNAB configura a porta de entrada preferencial do sistema e centro de comunicação da RAS, sendo a coordenadora do cuidado e a ordenadora das ações e serviços disponibilizados na rede. Segundo o Ministério da Saúde, a PNAB deve ser desenvolvida por meio de cuidado integrado e gestão qualificada, realizada com equipe multiprofissional e dirigida à população em território definido, sobre a qual as equipes assumem responsabilidade sanitária (Brasil, 2017). 30 Agora, vamos olhar mais detalhadamente a APS no SUS a partir da proposta da PNAB e das características desse espaço de atenção e cuidado. E levando em conta que a APS é a porta de entrada preferencial na RAS, a apreensão dessas necessidades deve ser a mais ampliada possível e, como já referido, contemplar a dinâmica individual e coletiva do processo saúde-doença. Esta definição da APS a configura com particularidades que a diferenciam da atenção à saúde prestada em outros pontos da RAS, como hospitais e serviços ambulatoriais especializados. Tais diferenciais devem ser considerados na organização do processo de trabalho para a melhoria do cuidado na APS. Dentre as características do processo de trabalho na APS, está a forma como se dá a percepção das necessidades dos usuários. Os profissionais que ali atuam não sabem, a princípio, quantos e quais usuários atenderão numa jornada de trabalho, com quais problemas e necessidades estes chegarão à UBS, tampouco se terão condições de atendê-los. 31 Portanto, caracteriza-se também pela necessidade de diálogo profissional-usuário e pelo reconhecimento do território. O território, mais do que uma delimitação geográfica, é um espaço vivo, onde as pessoas convivem, estabelecem relações, compartilham características históricas, demográficas, epidemiológicas, administrativas, tecnológicas, políticas, sociais e culturais. Assim, constroem a vida em comunidade. Essas características fazem com que o território esteja em permanente mudança (Miranda et al., 2008). Compreender essas características, ou seja, conhecer o território, processo chamado de territorialização, permite identificar os problemas/necessidades locais e planejar ações de saúde mais adequadas à realidade da população. 32 A territorialização se refere às estratégias de reconhecimento e localização dos problemas e necessidades de saúde em um determinado espaço (Gondim, 2011). Além disso, permite avaliar o impacto das ações e dos serviços, ou seja, como influenciam a saúde da população. Também ajuda a planejar práticas de cuidado mais próximas da realidade, considerando o dia a dia, as necessidades e as condições de vida das pessoas, “efetivamente abrindo espaços para o desenvolvimento de práticas de saúde voltadas para o chão concreto, para o lugar da vida cotidiana das pessoas” (Santos e Rigotto, 2011, p. 389). Para aprofundar seus conhecimentos sobre territorialização, acesse os conteúdos da Disciplina 2 – “Territorialização e Planejamento Territorial” e leia o material "Territorialização como instrumento do planejamento local na Atenção Básica". Para acessá-lo, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. 33 https://ares.unasus.gov.br/server/api/core/bitstreams/ea3a695e-afd8-452b-bdd1-e28c71644625/content/view https://ares.unasus.gov.br/server/api/core/bitstreams/ea3a695e-afd8-452b-bdd1-e28c71644625/content/view Aqui, também se destacam, os Painéis de Gestão e de Vigilância em Saúde, que são ferramentas digitais que organizam e apresentam dados e indicadores sobre a situação de saúde da população. Eles apoiam o monitoramento de doenças, agravos e fatores de risco, subsidiando o planejamento, a avaliação das ações e a tomada de decisões por gestores e profissionais do SUS, ou seja, apoiam a gestão do cuidado e a tomada de decisão. Veremos mais detalhes sobre esses painéis e como acessá-los mais adiante. 34 SA IB A M A IS N A P R Á TI CA Vejamosuma situação-exemplo dessa primeira característica: Se o território de abrangência de uma Unidade de Saúde apresenta elevada ocorrência de criadouros do mosquito Aedes aegypti, evidenciando condições favoráveis à sua proliferação e aumentando o risco de transmissão da dengue, deverá haver atuação dos trabalhadores da UBS, em conjunto com os Agentes de Combate às Endemias (ACE), para identificar os criadouros e eliminá-los, bem como reforçar a educação e a vigilância em saúde para toda a população. 35 A equipe deve estar qualificada, a Unidade de Saúde equipada e com materiais disponíveis para o diagnóstico e atendimento a todas as pessoas que apresentem sinais e sintomas compatíveis com a dengue e outras arboviroses. Além disso, deve acompanhar, encaminhar casos mais graves para outros serviços da rede (se for necessário) e fazer a vigilância do caso (acompanhar, monitorar sinais, sintomas, resultados de exames e notificar casos suspeitos). A Vigilância em Saúde (VS) também é um processo de trabalho da própria UBS, mesmo que isso nem sempre fique explícito no dia a dia da equipe. Algumas ações são atribuição direta da Unidade, como a vacinação, a busca ativa e o acompanhamento de casos e contatos. Outras dependem de articulação com a equipe de Vigilância em Saúde (epidemiológica, sanitária, ambiental ou de saúde do trabalhador), como o mapeamento de riscos no território e a análise de dados para orientar medidas de controle mais amplas. 36 Ter o entendimento sobre o que é atribuição própria da UBS e o que depende de articulação com outros serviços ajuda a equipe a enxergar com mais precisão onde estão os gargalos e o que pode ser melhorado nesse processo. Em segundo lugar, destaca-se que o foco do processo de trabalho é atender às necessidades de saúde das pessoas, das famílias e da população do território onde vivem. Por isso, as ações desenvolvidas devem contemplar tanto o cuidado individual quanto o coletivo. Neste sentido, o trabalho dos profissionais de saúde não se limita às Unidades de Saúde. Ele também acontece em outros espaços do território, como escolas, creches, domicílios e locais comunitários, aproximando os serviços de saúde de outras instituições e da realidade da população. Daí a importância de ações intersetoriais para que o trabalho seja efetivo. 37 Trata-se de uma iniciativa intersetorial dos Ministérios da Saúde e da Educação com a finalidade de contribuir para o pleno desenvolvimento dos estudantes da rede pública de ensino da educação básica. Acontece por meio da articulação entre os profissionais de saúde da APS e os profissionais da educação (Brasil, s/d). Para saber mais sobre o Programa Saúde na Escola (PSE), clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. No Brasil, o Programa Saúde na Escola (PSE) é uma dessas ações. 38 https://sisaps.saude.gov.br/pse/ https://sisaps.saude.gov.br/pse/ Em terceiro lugar, na APS, o usuário e a população do território não se encontram institucionalizados, preservam certa autonomia em relação ao serviço e aos profissionais, o que requer uma atuação profissional e um processo de trabalho no qual se efetive a comunicação, a escuta, o diálogo. Essa condição difere da que ocorre quando os usuários estão hospitalizados, em que seguem a rotina da instituição, geralmente em uma atitude mais passiva de receber os cuidados prestados pelos trabalhadores de saúde. Para refletir! Na UBS em que você atua há articulação e trabalho conjunto com outras instituições atuantes no território? Que necessidades e problemas de saúde estão sendo enfrentados com essas ações? 39 N A P R Á TI CA Vejamos outra situação-exemplo em que um mesmo usuário ora é atendido em uma UBS, ora está sob o cuidado do hospital: O Sr. Arnaldo tem diabetes mellitus tipo 2 e foi atendido no serviço de urgência com sinais de estado hiperglicêmico hiperosmolar e rebaixamento do nível de consciência, necessitando ser hospitalizado. No hospital, ele passou a receber, dos profissionais e da instituição, o que necessita para compensar seus sinais e exames, e obter o resultado esperado de seu tratamento: a dieta adequada, o medicamento na dose e horários adequados, a realização dos exames laboratoriais, entre outros cuidados, que lhe são prestados nas condições e nos horários previamente estabelecidos. 40 Ao ter alta, passou a ser acompanhado na Unidade de Saúde da APS. Na maioria das vezes, em condições de se deslocar com autonomia de sua residência até a unidade de saúde. Nessa condição, a execução dos cuidados necessários para manutenção da saúde do Sr. Arnaldo depende de sua colaboração, visto que apenas pequena parte desses cuidados é desenvolvida no interior da unidade e pelos profissionais de saúde. A maior parte dos cuidados necessários para manutenção e/ou recuperação de sua saúde (a alimentação, a medicação, a atividade física) depende quase que exclusivamente do Sr. Arnaldo ter compreendido, ter concordado com o plano terapêutico proposto e ter possibilidades de desenvolvê-lo. 41 O primeiro conjunto se refere a atributos das práticas dos profissionais de saúde, sendo valores ligados ao que se pode considerar uma boa prática. O segundo conjunto refere-se a atributos das organizações dos serviços. O terceiro aplica-se às respostas governamentais aos problemas de saúde. Destaca-se, ainda, uma quarta característica do processo de trabalho desenvolvido na APS, que se refere à busca pela integralidade da assistência, entendida como “um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso” (Brasil, 2001, p. 19). Segundo Mattos (2001), a integralidade, desde a criação do SUS, segue sendo um bom indicador da direção a ser seguida pelo sistema e suas práticas. Este mesmo autor aponta três conjuntos de sentidos do princípio da integralidade: Nesse sentido, Silva (2008) defende que a garantia da integralidade da atenção poderá ser alcançada a partir de uma APS qualificada, indispensável para que exerça a função de coordenadora do cuidado e ordenadora da RAS. 42 Esta mudança passa por estratégias, no sentido de garantir o fortalecimento da APS e de adequar tanto a oferta quanto a formação/preparo dos profissionais para atuarem de forma interprofissional e interdisciplinar neste campo. Enfim, depende de organização do processo de trabalho, da articulação da Vigilância em Saúde (VS) com a atenção clínica. Vamos retomar o caso exemplo do Sr. Arnaldo e verificar como os profissionais que integram a equipe da APS se articularam para prestar o cuidado. Na sua residência, o Sr. Arnaldo recebeu a visita do ACS, que fez seu cadastro e passou seus dados para a equipe de Saúde da Família (eSF). Ao ser atendido na UBS, o Sr. Arnaldo teve seu prontuário acessado pela técnica de enfermagem, que também aferiu seus sinais vitais e sua glicemia, além de registrar suas queixas. Depois, foi atendido pelos demais profissionais da equipe da UBS (enfermeiro, médico, dentista), que o orientaram sobre os cuidados cotidianos, em especial com a medicação, com a alimentação e com a saúde bucal. 43 No próximo atendimento, foi proposto ao Sr. Arnaldo um plano terapêutico que incluiu, além da medicação e da dieta, o controle periódico da glicemia, participação nas atividades físicas oferecidas pela UBS, participação em grupos de convivência, dentre outras ações que o ajudarão a cuidar de sua saúde. Na reunião da eSF e com o matriciamento da equipe multiprofissional, a situação do Sr. Arnaldo foi discutida novamente e avaliada pelos demais profissionais da UBS: nutricionista, profissional de educação física e psicóloga. Para saber mais sobre as boas práticas de cuidado das pessoas com diabetes, clique aqui ou escaneie o QR Codeao lado. 44 https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/fichas-tecnicas/equipe-de-atencao-primaria-e-saude-da-familia/nota-metodologica-c4-cuidado-da-pessoa-com-diabetes/view https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/fichas-tecnicas/equipe-de-atencao-primaria-e-saude-da-familia/nota-metodologica-c4-cuidado-da-pessoa-com-diabetes/view Em síntese, o processo de trabalho na saúde, e em especial na APS, compartilha elementos comuns aos demais processos de trabalho. Ele possui uma finalidade previamente definida de dar direcionalidade técnica, um objeto sobre o qual atuam instrumentos ou meios de trabalho e agentes responsáveis por sua execução (Nogueira, 1995; Mendes-Gonçalves, 1994). Nas organizações de saúde em geral, e na APS em particular, o processo de trabalho é coletivo e parcelar, necessariamente multiprofissional, ou seja, depende da conjugação do trabalho de vários profissionais. Cada um contribui com uma parte do cuidado, de acordo com sua função e conhecimento, e, ao desenvolver ações que se complementam e quando há comunicação e trabalho em equipe, o atendimento torna-se mais completo e de melhor qualidade para o usuário (Malta e Merhy, 2010). Nesse sentido, devemos entender os processos de trabalho como uma sequência coordenada e inter-relacionada de ações e atividades, envolvendo o encontro entre a pessoa portadora de necessidades e o trabalhador, no qual são mobilizados saberes, instrumentos, práticas, realizados de forma sequencial e intencional, com o objetivo de atender às suas necessidades de saúde (Figura 1). 45 Portanto, os processos de trabalho em saúde são organizados para responder às necessidades de saúde da população. Nesses processos, articulam-se diferentes componentes (Merhy, 2002): Necessidades de Saúde Processo de Trabalho Fonte: elaborado pela autora. Figura 1 ─ Relação entre as necessidades de saúde e o processo de trabalho em saúde Objeto de trabalho: as necessidades de saúde das pessoas e da população do território. Meios de trabalho: as tecnologias utilizadas para desenvolver as ações, que podem ser: ● Tecnologias duras: materiais, equipamentos e instrumentos. ● Tecnologias leve-duras: saberes estruturados, como rotinas e protocolos. ● Tecnologias leves: escuta, comunicação e vínculo, por meio das quais se estabelece a relação entre trabalhador e usuário. 46 Cabe destacar que no processo de trabalho em saúde, o trabalhador desempenha um papel de fundamental importância, pois sua história, suas habilidades e sua capacidade inventiva atuam no sentido de organizar o processo de trabalho e de compor os saberes necessários à produção do cuidado (Merhy, 2002). Por todas essas características, um dos grandes desafios do processo de trabalho em saúde é conseguir coordenar adequadamente esse conjunto diversificado, especializado e fragmentado de atos cuidadores individuais. Desta forma, torna-se possível efetivamente coordenar e melhorar os processos de cuidado na APS (Merhy e Cecílio, 2003). 47 04 Planejamento Estratégico Situacional (PES) Para enfrentar o desafio de reorganizar o processo de trabalho e lidar com os principais problemas de saúde identificados no território, o Planejamento Estratégico Situacional (PES) constitui uma ferramenta importante! Mas, antes de começar, precisamos responder a uma questão: como reorganizar o processo de trabalho na APS utilizando o planejamento local? Na área da saúde, recomenda-se a aplicação do Planejamento Estratégico Situacional (PES), que constitui uma forma de planejar baseada nos problemas reais de um território ou organização. 49 Diferente do planejamento normativo, que considera a realidade relativamente estável e previsível e, cujo planejamento é elaborado por especialistas e de forma mais centralizada, o PES considera que a realidade é dinâmica, complexa e incerta. Seu objetivo é identificar os problemas mais importantes, compreender suas causas, e elaborar propostas de ações possíveis para melhorar a situação, com participação das pessoas envolvidas na ação, considerando os recursos disponíveis e o contexto político, social e institucional (Artmann, et al., 1997; Cordoni Jr, et al., 2017). Para sua utilização em organizações locais de saúde, como é o caso das UBS, Artmann et al. (1997), propuseram sua adaptação e simplificação, considerando a especificidade das organizações de saúde e dos problemas de saúde e a consequente necessidade de um enfoque metodológico de planejamento adaptado a esta especificidade. Desta forma, ao adaptar o PES, busca-se: Valorizar o trabalho em equipe e a participação dos profissionais, favorecendo a construção coletiva de um plano de ação para o enfrentamento dos problemas e necessidades identificadas. Fortalecer a capacidade de análise dos trabalhadores e intervenção sobre problemas concretos, considerando os recursos disponíveis e a governabilidade da equipe. 50 Integrar planejamento, execução e avaliação, permitindo revisões contínuas do plano, de acordo com a avaliação dos resultados obtidos. Na próxima temática, você vai aprender todos os passos necessários para operacionalizar o Planejamento Estratégico Situacional (PES). 51 05 Operacionalização do Planejamento - uma adaptação do PES para Unidades Básicas de Saúde (UBS) N A P R Á TI CA Amanda estava sentindo-se desafiada. Enfermeira de uma equipe de Saúde da Família da USF Altamira há poucos meses, após participar de alguns treinamentos oferecidos pela secretaria de saúde e conhecer a realidade do território de abrangência da unidade, estava de posse de várias informações. Dentre os problemas que pôde identificar estavam: O alto número de doentes crônicos (hipertensos e diabéticos) e a baixa adesão destes ao programa. O grande número de faltosos ao Programa de Puericultura. Vamos conhecer a situação vivenciada pela enfermeira Amanda, descrita a seguir. Além disso, nas discussões com a equipe sobre como o serviço estava organizado para atender os usuários, percebeu que os integrantes da equipe tinham opiniões divergentes sobre os problemas que deveriam enfrentar. 53 A confirmação de muitos casos de dengue na área de abrangência (epidemia). A baixa cobertura de citologia oncótica entre as mulheres. A ocorrência de vários casos de sífilis em gestantes. A baixa cobertura vacinal em crianças menores de 1 ano. Amanda estava confusa, já que cada trabalhador da equipe tinha opinião diferente sobre o que era mais urgente para ser enfrentado, e pensou: o O que será mais importante? o Por onde devo começar? o Como fazer análise da situação? o Como planejar uma intervenção considerando as diversas opiniões dos trabalhadores? A grande proporção de gestantes adolescentes. 54 Para ajudar a Amanda nessa situação, devemos considerar alguns elementos que são fundamentais para que se possa operacionalizar o planejamento no âmbito de uma UBS. Vamos acompanhar os passos que Amanda deve seguir: PASSO 1 Definir quem vai planejar A proposta é que os membros da equipe de trabalho sejam atores ativos no processo de elaboração do planejamento. Recomenda-se que o processo de planejamento seja desenvolvido em oficinas de trabalho, reunindo funcionários da UBS, membros da comunidade, lideranças e integrantes da Secretaria da Saúde. PASSO 2 Identificação dos problemas a serem superados A identificação dos problemas a serem superados deve ser feita mediante a avaliação dos resultados insatisfatórios que se observam na realidade. As demandas podem ser percebidas a partir do não-cumprimento, ou de divergência, em relação a normas ou padrões considerados válidos pelo senso comum, e que são passíveis de mudança no âmbito de ação daqueles que planejam. 55 E onde Amanda deve buscar as informações sobre os principais problemas parasubsidiar a elaboração do plano? A informação sobre o funcionamento do sistema de saúde e o contexto em que ele se insere é fundamental para o sucesso do plano. A efetividade dos resultados planejados mantém relação direta com a qualidade das informações. Na saúde, as informações necessárias se referem tanto à caracterização das Unidades de Atendimento (capacidade instalada dos serviços), como da população do território sob a responsabilidade da equipe (perfil sociodemográfico e epidemiológico) (Tancredi, 1998). A Epidemiologia e os Sistemas de Informação e Vigilância em Saúde têm sido ferramentas bastante utilizadas para identificar as necessidades de saúde e auxiliar o planejamento dos serviços. 56 É necessário que as informações em saúde, produzidas nos nossos serviços de vigilância, e disponíveis nos bancos de dados nacionais (SIM, SINASC, SISVAN, SIH, Siaps) sejam utilizadas e sua análise alimente o processo de planejamento e subsidie a direcionalidade das ações planejadas. Nesse sentido, os Painéis de Gestão e os Painéis de Vigilância em Saúde são espaços interativos que disponibilizam informações e indicadores sobre a rede de serviços de saúde e as vigilâncias (epidemiológica, ambiental, saúde do trabalhador e sanitária), voltados à consulta de dados e documentos de interesse público. Em geral, esses painéis consolidam informações sobre a capacidade instalada dos serviços, o alcance de metas e indicadores pactuados, incidência de doenças, de mortalidade e coberturas vacinais. Isso permite que gestores, profissionais e a população monitorem riscos e tomem decisão, clínica e gerencial, visando mudanças de processos de trabalho, para melhor gerir o sistema de saúde e proteger a saúde das pessoas. 57 Também possibilitam o acesso a informações relevantes que contribuem para o processo de planejamento, considerando este como instrumento fundamental para a discussão e a consolidação do planejamento institucional (da UBS e do município). Apresentamos, a seguir, alguns painéis de monitoramento oficiais disponíveis no Brasil. 58 Como exemplo de painéis de gestão, você pode acessar os relatórios do eGestor APS, clicando aqui ou escaneando o QR Code, ao lado, e verificar os dados disponíveis sobre: ● Credenciamento e Financiamento da APS: os valores transferidos e a validação das equipes/serviços da APS de cada município; equipes e estabelecimentos credenciados e aptos para recebimento do custeio; situação das adesões de ações, programas e estratégias da APS, dentre outras informações. ● Cobertura da APS: estimativa de quantas pessoas podem ser atendidas pelas equipes de saúde com base na capacidade instalada no território; a cobertura populacional estimada pela Estratégia Saúde Bucal e pelos ACS; o mapa demográfico de equipes e cobertura da APS em sua região; além do histórico do quantitativo de equipes e serviços custeados pelo MS. ● Ações e programas da APS: acesso a relatórios de vários programas desenvolvidos na APS: Bolsa família, Micronutrientes, Mais Médicos e Médicos pelo Brasil, PSE, TRIA, PMAQ, Saúde na Hora, dentre outros. 59 https://relatorioaps.saude.gov.br/ https://relatorioaps.saude.gov.br/ https://relatorioaps.saude.gov.br/ Para acessar as informações disponibilizadas pelo Siaps, clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado. Além disso, os relatórios do Siaps constituem importantes ferramentas para o planejamento do cuidado na APS e merecem destaque nesse processo. Por meio da plataforma, é possível consultar, por exemplo, dados sobre a Vigilância de Práticas Assistenciais, que apresenta a produção assistencial da APS em diferentes dimensões de análise. Essas informações apoiam o monitoramento das ações desenvolvidas pelas equipes e a tomada de decisão na gestão do SUS. Para consultar os dados sobre as práticas assistenciais, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. Essa funcionalidade também permite superar uma limitação histórica das informações sobre a produção da APS. Além do número de ações realizadas, é possível visualizar a quantidade de pessoas beneficiadas por essas ações. 60 https://siaps.saude.gov.br/publico https://siaps.saude.gov.br/publico/praticas-assistenciais https://siaps.saude.gov.br/publico https://siaps.saude.gov.br/publico/praticas-assistenciais O recurso está disponível nos módulos de atendimentos individuais, atendimentos odontológicos, procedimentos, visitas domiciliares e atividades coletivas, que já eram disponibilizados para consulta pública no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB). Fonte: Brasil [s. d.]. Figura 2 ─ Módulo de vigilância de práticas assistenciais do Siaps Além disso, no Siaps é possível monitorar e avaliar o resultado dos Componentes do Cofinanciamento Federal da APS - Vínculo e Acompanhamento Territorial e Qualidade, conforme ilustrado na figura a seguir. 61 Fonte: Brasil [s. d.]. Figura 3 ─ Módulo de cofinanciamento da APS no Siaps Em relação ao componente de Vínculo e Acompanhamento Territorial, Amanda pode acompanhar a distribuição das equipes por classificação final destes indicadores por quadrimestre, ilustrados nas figuras a seguir. 62 Figura 4 ─ Vínculo e acompanhamento territorial - classificação final - eAP Figura 5 ─ Vínculo e acompanhamento territorial - classificação final - eSF Fonte: Brasil [s. d.]. Fonte: Brasil [s. d.]. 63 Figura 6 ─ Qualidade - classificação final - eAP Figura 7 ─ Qualidade - classificação final - eSF Fonte: Brasil [s. d.]. Fonte: Brasil [s. d.]. 64 Figura 9 ─ Qualidade - classificação final - eSB Figura 8 ─ Qualidade - classificação final - eMulti Fonte: Brasil [s. d.]. Fonte: Brasil [s. d.]. 65 Outra informação importante que auxiliará Amanda, tanto no planejamento quanto no monitoramento do plano, refere-se ao acompanhamento dos indicadores do componente “Qualidade da APS”. Entre eles, destacam-se os indicadores relacionados às: Equipes de Saúde da Família (eSF): • Mais acesso. • Cuidado no desenvolvimento infantil. • Cuidado na gestação e puerpério. • Cuidado da pessoa com diabetes. • Cuidado da pessoa com hipertensão. • Cuidado da pessoa idosa. • Cuidado da mulher na prevenção do câncer. Equipes de Saúde Bucal (eSB): • Primeira consulta programada. • Tratamento concluído. • Taxa de exodontia. • Escovação supervisionada na faixa etária escolar (6 a 12 anos). • Procedimentos odontológicos preventivos. • Tratamento restaurador atraumático. 66 Equipes Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde (eMulti): • Ações interprofissionais realizadas pela eMulti na APS. • Média de atendimentos por pessoa pela eMulti na APS. Há também os indicadores do componente de qualidade de outras modalidades de equipe, como a Equipe de Atenção Primária Prisional e a Equipe de Consultório na Rua. Para saber mais sobre esses componentes, clique nos títulos ou escaneie os QR Codes. 67 Equipe de Atenção Primária Prisional Equipe de Consultório na Rua https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/fichas-tecnicas/equipe-de-atencao-primaria-prisional https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/fichas-tecnicas/equipe-de-consultorio-na-rua https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/fichas-tecnicas/equipe-de-consultorio-na-rua https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/fichas-tecnicas/equipe-de-atencao-primaria-prisional https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/fichas-tecnicas/equipe-de-consultorio-na-rua Esses relatórios são disponibilizados, por quadrimestre, em planilhas (CSV ou XLSX) e em gráficos, o que facilita a visualização e a evolução do trabalho das diferentes equipes. Veja o exemplo na figura a seguir, sobre o indicador “Cuidado no desenvolvimento infantil” da eSF. 68 Figura 10 ─ Resultados do componente de qualidade (C2): cuidadono desenvolvimento infantil de equipe fictícia da APS no Siaps Fonte: Brasil [s. d.]. Há também o painel de apoio à gestão do CONASEMS. Esse painel disponibiliza informações e indicadores de todos os municípios do país sobre: Panorama Municipal Apresenta informações estratégicas sobre a situação de saúde do município, incluindo dados populacionais, condições de vulnerabilidade, cobertura do SUS e determinantes sociais da saúde. Esses dados subsidiam a gestão e o planejamento das ações e políticas públicas de saúde. 69 Atenção Primária à Saúde (APS) Disponibiliza informações sobre os componentes do financiamento da APS, incluindo incentivos, critérios de cálculo e requisitos para adesão. Também oferece indicadores e ferramentas de análise que apoiam a qualificação das equipes, o monitoramento dos resultados e a ampliação do acesso aos serviços. Vigilância em Saúde (VS) Reúne informações relacionadas à cobertura vacinal, qualidade da água para consumo humano, doenças e agravos de notificação, além de indicadores de mortalidade. Esses dados apoiam o planejamento, a execução e o monitoramento das ações de Vigilância em Saúde. Média e Alta Complexidade (MAC) Apresenta dados sobre a produção ambulatorial e hospitalar de média e alta complexidade, possibilitando o acompanhamento de procedimentos especializados, internações, consultas e demais serviços ofertados nos níveis secundário e terciário de atenção à saúde. 70 Rede Assistencial Disponibiliza informações sobre os estabelecimentos e serviços de saúde existentes no município, permitindo identificar a oferta assistencial e possíveis vazios de atendimento. Essas informações apoiam o planejamento e a organização da rede de serviços do SUS. Gestão Financeira Apresenta dados sobre os recursos federais destinados ao SUS, incluindo repasses, saldos financeiros, receitas e despesas. Essas informações contribuem para o acompanhamento da execução orçamentária e para o planejamento financeiro da saúde municipal. Planejamento em Saúde: Permite acompanhar o status dos instrumentos de planejamento registrados no DIGISUS, incluindo metas, pactuações e relatórios obrigatórios. Favorece o monitoramento das ações, a transparência da gestão e o cumprimento das responsabilidades legais. 71 Você pode acessar o "Painel de apoio à gestão do CONASEMS" e visualizar todas essas informações clicando aqui ou escaneando o QR Code, ao lado. Há também o painel da Sala de Apoio à Gestão Estratégica (SAGE), que reúne informações sobre estabelecimentos e profissionais de saúde, políticas, programas, projetos, estratégias e ações, situação dos instrumentos de planejamento no SUS e obras na área da saúde. Para acessá-lo, clique aqui ou escaneie o QR Code abaixo. 72 https://paineis.conasems.org.br/ https://novasage.saude.gov.br/ https://paineis.conasems.org.br/ https://novasage.saude.gov.br/ Em relação aos painéis de Vigilância em Saúde, o Ministério da Saúde disponibiliza diversas ferramentas que apoiam a análise da situação de saúde da população e o planejamento das ações nos territórios. Uma delas é a Plataforma Integrada de Vigilância em Saúde (IVIS), que reúne informações sobre nascimentos, óbitos, agravos de notificação e outros indicadores de saúde de todo o território nacional. Para acessá-la, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. O Ministério da Saúde também disponibiliza o Painel de Vigilância dos Agravos Não Transmissíveis, que reúne informações sobre doenças e condições crônicas, contribuindo para o monitoramento e a definição de estratégias de prevenção e cuidado. Para acessá-lo, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. 73 http://plataforma.saude.gov.br/ https://svs.aids.gov.br/daent/ http://plataforma.saude.gov.br/ https://svs.aids.gov.br/daent/ Outra fonte relevante de informação é o Painel do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que apresenta dados sobre a mortalidade materna no Brasil, disponibilizados em gráficos e tabelas. As informações podem ser consultadas por ano, região, raça/cor, faixa etária, entre outros recortes. Para acessá-lo, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. Para acessá-lo, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. No âmbito estadual, o Portal da Vigilância em Saúde de Minas Gerais disponibiliza diversos painéis temáticos sobre agravos e indicadores de saúde, com informações detalhadas por região de saúde e por município. 74 https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiMDhlMjI3OTEtOGVjMS00M2E5LTk4YjEtY2U0ZmY4YjA2Yzc0IiwidCI6IjAyNzM3ZTQ4LWUwM2ItNDk1NS04MTExLWU2MDMzZTI2Y2EzYiJ9%20%20%20%20%20 http://vigilancia.saude.mg.gov.br/index.php/paineis-tematicos/ https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiMDhlMjI3OTEtOGVjMS00M2E5LTk4YjEtY2U0ZmY4YjA2Yzc0IiwidCI6IjAyNzM3ZTQ4LWUwM2ItNDk1NS04MTExLWU2MDMzZTI2Y2EzYiJ9%20%20%20%20%20 http://vigilancia.saude.mg.gov.br/index.php/paineis-tematicos/ Além desses painéis, vale relembrar uma importante ferramenta apresentada na Disciplina 13, “Pesquisa, avaliação e qualidade da APS”: o TabNet. Trata-se de uma plataforma que permite consultar, tabular e analisar dados epidemiológicos, sanitários e de morbimortalidade, possibilitando a construção de séries históricas e a compreensão dos principais problemas de saúde da população. Para acessá-lo, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado. Entre as principais informações disponíveis no TabNet, destacam-se: o Estatísticas vitais: dados de nascidos vivos (SINASC) e mortalidade (SIM). o Informações epidemiológicas e de morbidade: dados sobre doenças e agravos de notificação (SINAN), como hanseníase, tuberculose, hepatites virais, dengue, entre outras. 75 https://datasus.saude.gov.br/informacoes-de-saude-tabnet/ https://datasus.saude.gov.br/informacoes-de-saude-tabnet/ o Assistência à saúde: informações sobre internações hospitalares (SIH/SUS) e procedimentos ambulatoriais (SIA/SUS). o Cadastros e demografia: dados sobre os estabelecimentos de saúde cadastrados no CNES e estimativas populacionais dos municípios e estados brasileiros. O uso dessas ferramentas permite aos gestores e profissionais de saúde monitorar indicadores, identificar prioridades e subsidiar o planejamento e a avaliação das ações desenvolvidas nos territórios. E agora que a Amanda já tem a compreensão de como ter mais informações sobre os problemas mais prevalentes na área de responsabilidade de sua UBS, apresentamos uma sistematização sobre os passos para a construção de um planejamento simplificado de ação. 76 Iniciamos resgatando os problemas identificados pela equipe e expostos pela Amanda: • A alta prevalência de pessoas com doenças crônicas (hipertensão e diabetes). • A baixa adesão de pessoas com diabetes ao tratamento ofertado pela UBS. • O grande número de faltosos ao programa de puericultura. • A grande proporção de gestantes adolescentes. • A confirmação de muitos casos de dengue na área de abrangência (epidemia). • A baixa cobertura de citologia oncótica entre as mulheres. • A ocorrência de vários casos de sífilis em gestantes. • A baixa cobertura vacinal em menores de 1 ano. Normalmente é muito difícil para uma equipe planejar ações de intervenção simultânea para enfrentar os diversos problemas identificados, logo, é recomendável que se analise e priorize um problema a partir do qual a equipe vai iniciar seu plano de ação. 77 78 Na literatura da área de planejamento em saúde, é comum a utilização de critérios objetivos para a priorização de problemas de saúde da população, oriundos do método CENDES-OPS, e que são: magnitude, transcendência, vulnerabilidade e custos (Teixeira et al., 2010). No caso em que estamos trabalhando, o planejamento no nível de uma UBS, e considerando que a UBS não possui orçamento próprio, sugerimos a substituição do critério “custo”, pelo da “governabilidade”. Assim,a análise da intervenção planejada pode considerar a capacidade técnica e política da equipe para executar o plano. A análise desses quatro critérios deve ser realizada, preferencialmente, por aqueles que executarão o plano. Para cada problema analisado, a equipe deve atribuir uma nota de zero a 10, para cada critério, sendo que a pontuação: 0 a 2 - baixa; 3 a 5 - significativa; 6 a 8 - alta; 9 e 10 - muito alta. TRANSCENDÊNCIA Importância ou relevância política, cultural e técnica do problema para a equipe/população. O quanto há de tecnologia disponível (conhecimentos e recursos materiais) e eficaz para o enfrentamento do problema em questão. VULNERABILIDADE GOVERNABILIDADE Capacidade política, técnica e gerencial para o desencadeamento das ações necessárias ao enfrentamento dos problemas. Extensão ou tamanho do problema na população do território de atuação da equipe (número de pessoas afetadas pelo problema). MAGNITUDE É importante que compreendamos o significado de cada um dos critérios utilizados na priorização dos problemas identificados: 79 o (Magnitude) Qual é o tamanho do problema? o (Transcendência) Qual é a relevância política, cultural e técnica do problema? o (Vulnerabilidade) Existem conhecimentos, recursos materiais ou recursos financeiros disponíveis para sua resolução? o (Governabilidade) Há capacidade política, técnica ou gerencial para desenvolver ações voltadas à resolução do problema? Para compreender melhor cada um desses fatores, analise as questões a seguir e reflita sobre as possíveis respostas: A seguir, observe a Tabela 1, que apresenta um exemplo de aplicação desses critérios e pode auxiliar na compreensão da análise e priorização dos problemas. 80 Tabela 1 ─ Exemplo de classificação de problemas de saúde segundo critérios de priorização Fonte: elaborado pela autora, 2026. Alta prevalência de pessoas com doenças crônicas (hipertensão e diabetes). 10 4 8 6 28 Baixa adesão de pessoas com diabetes ao tratamento ofertado pela UBS. 6 6 8 4 24 Grande número de faltosos ao Programa de Puericultura. 6 5 10 9 30 Grande proporção de gestantes adolescentes. 4 8 6 4 24 Confirmação de muitos casos de dengue na área de abrangência (epidemia). 8 6 8 7 29 Baixa cobertura de citologia oncótica entre as mulheres. 6 6 8 6 26 Ocorrência de vários casos de sífilis em gestantes. 4 8 10 6 28 Baixa cobertura vacinal em menores de 1 ano. 5 8 10 6 29 Documento de Origem Magnitude Transcendência Vulnerabilidade Governabilidade TOTAL 81 De acordo com a pontuação obtida, o problema priorizado foi “grande número de faltosos na puericultura”. Este problema, se efetivamente enfrentado, terá impacto também no indicador do componente de qualidade da APS: “cuidado no desenvolvimento infantil”, que no ano de 2025, no município em que Amanda atua, teve uma avaliação abaixo do esperado. O município alcançou, no terceiro quadrimestre, apenas uma classificação 'bom' e uma 'ótimo' entre os 25 indicadores avaliados, conforme apresentado na Figura 10. PASSO 3 Análise do Problema Depois de priorizados os problemas, é necessário analisá-los. Para isso recomenda-se que a equipe que planeja conheça bem a realidade local, observando: o Características sociais, demográficas, epidemiológicas e culturais da população residente; o Características do território em relação aos recursos sociais e de saúde, infraestrutura urbana; o Relações de poder econômico e político. 82 Para cada problema priorizado deve-se analisar as fortalezas e fraquezas (presentes no ambiente interno) e quais as oportunidades e ameaças (existentes no ambiente externo) (Teixeira et al., 2010). A análise da situação problema poderá ser feita por meio da matriz SWOT (também conhecida em português como Matriz FOFA), que é uma ferramenta de planejamento estratégico usada para avaliar os cenários interno e externo de uma organização, no nosso caso da Unidade de Saúde. Strengths/Forças Weaknesses/Fraquezas Opportunities/Oportunidades Threats/Ameaças Fatores Positivos Ambiente Interno Fatores Negativos Ambiente Externo Quadro 3 ─ Análise do problema (Matriz SWOT/FOFA) Fonte: adaptado de Teixeira et al., 2010. 83 O ambiente interno compreende tudo o que envolve e circunda a organização. No nosso caso, a UBS, onde se apresentam todos os recursos materiais, humanos, financeiros, políticos, sociais, tecnológicos necessários ao desenvolvimento do plano. No ambiente interno se encontram as capacidades internas da organização, ou seja, seus pontos fortes e fracos. Já o ambiente externo se refere às condições que influenciam positiva ou negativamente a organização/UBS e estão fora da governabilidade da equipe que planeja (Rezende, 2012). A análise dos problemas, a partir da matriz SWOT (FOFA), possibilita compreender o problema sob uma perspectiva mais ampla, bem como planejar ações para seu enfrentamento, coerentes com a análise realizada, o que tornará a execução do plano mais bem-sucedida (Cordoni Jr et al., 2017). 84 Para revelar as forças devemos responder às seguintes questões: • O que temos de diferencial? • Quais são as qualidades dos nossos trabalhadores e que nossos usuários percebem (Quais são os diferenciais da nossa equipe)? • Quais são os recursos especiais que temos à disposição? • Quais as qualidades dos nossos serviços e pelas quais somos reconhecidos? Para descobrir as Fraquezas, podemos nos perguntar: • Quais lacunas e fraquezas existem no nosso serviço? • De que maneira a qualificação da equipe potencializa o problema? • Como a falta de materiais/equipamentos/recursos potencializa o problema? • Quais são as reclamações mais frequentes do nosso serviço (motivo)? 85 Algumas perguntas a serem feitas na análise das oportunidades: • Como podemos agregar mais valor aos nossos serviços para nos fortalecer no enfrentamento do problema? • Quais condições políticas, econômicas ou sociais podem ser favoráveis para o enfrentamento do problema? • Existem programas/atividades/projetos aos quais podemos aderir? • Como nossa relação com outros atores/órgãos pode nos auxiliar no enfrentamento do problema? (Cosems, SES, MS, etc.) Para descobrir as ameaças, podemos nos perguntar: • Existem condições políticas, econômicas, sanitárias ou sociais que podem ser ameaças para o enfrentamento do problema? • Como nossa relação com outros atores/órgãos pode nos prejudicar no enfrentamento do problema? (COSEMS, SES, MS, etc.) 86 Depois, pense em como as fraquezas podem ser um risco para as oportunidades e em como as fraquezas podem tornar as ameaças ainda mais perigosas. Em síntese: Tomando as forças como ponto de partida, você pode ponderar sobre como pode utilizá-las para potencializar as oportunidades identificadas. Além disso, preste atenção em como as forças podem ajudar a sua organização a se preparar contra as ameaças. Para saber mais sobre como utilizar a matriz SWOT, clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado, e leia o artigo: "Aplicação da Matriz SWOT: tecnologia para a gestão do trabalho na Atenção Primária à Saúde". Para complementar a leitura, assista ao vídeo: “Análise SWOT e Diagrama Ishikawa para diagnóstico e gestão de problemas”. Clique aqui ou escaneie o QR Code ao lado para acessá-lo. 87 http://www.seer.ufsj.edu.br/index.php/recom/article/view/4244 https://www.youtube.com/live/xldc835fjn4?si=zhLERaufpFmmweBR https://www.youtube.com/live/xldc835fjn4?si=zhLERaufpFmmweBR http://www.seer.ufsj.edu.br/index.php/recom/article/view/4244 https://www.youtube.com/live/xldc835fjn4?si=zhLERaufpFmmweBR Em uma reunião, Amanda e sua equipe preencheram a matriz FOFA conforme apresentado no Quadro 4. Quadro 4 ─ Problema priorizado: grande número de faltosos no programa de puericultura Fonte: elaborado pela autora, 2026. Fatores PositivosFatores Negativos Ambiente Interno Forças • Existência de equipe de profissionais (eSF e eMulti) na UBS. • Estrutura física e equipamentos na UBS. • Identificação das crianças menores de um ano. • ACS com disponibilidade para busca de faltosos. Fraquezas • Profissionais desmotivados. • Horário da UBS não compatível para o atendimento dos pais que trabalham em horário comercial. • A puericultura não é realizada no mesmo dia da vacina. Ambiente Externo Oportunidades • A Igreja/Pastoral da criança atua em parceria com a UBS. • A maternidade municipal informa à UBS todos os nascimentos da área de abrangência. Ameaças • Pais não valorizam a puericultura. • Ocorrência de epidemias (Covid-19; dengue) desestruturando as atividades programáticas na APS. 88 PASSO 4 Explicação do Problema Para aprofundar a compreensão do problema, é necessário que a equipe identifique suas causas e consequências. Entre as causas identificadas, é importante reconhecer aquelas consideradas “nós críticos”, que serão abordadas com mais detalhes a seguir. 89 Para auxiliar nesse trabalho, pode ser utilizada a matriz apresentada a seguir: Causa Problema Consequência Ou, de forma mais lúdica, o desenho da árvore. “A árvore de problemas é um diagrama mais simples e tem por objetivo explicar o problema, identificando suas “raízes” (determinantes estruturais), seu “tronco” (condicionantes históricos) e seus “galhos”, “folhas”, e “frutos” (consequências)” (Teixeira et al., 2010, p. 63). Quadro 5 ─ Matriz de causa, problema e consequência Fonte: elaborado pela autora, 2026. A seleção de nós críticos consiste em identificar, dentre as causas que explicam o problema, aquelas que, quando modificadas, terão impacto direto sobre o problema. São os problemas intermediários que precisam ser enfrentados para modificar a situação existente. Devem estar dentro da governabilidade de quem planeja (Cordoni Jr et al., 2017). 90 Figura 11 ─ Árvore de problemas Causas: • Falta de organização da agenda dos profissionais. • Falta de adesão pelas mães (devido ao trabalho, horário da UBS incompatível com sua disponibilidade, ter outros filhos, falta de incentivo e conhecimento da necessidade da mesma). • Falta de qualificação dos profissionais de saúde. Problema: • Grande número de faltosos no programa de puericultura. Consequência: • Mães sem orientação quanto ao crescimento e desenvolvimento. • Aumento dos fatores de risco para o crescimento e desenvolvimento. • Aumento do número de óbitos infantis. Fonte: adaptado de Teixeira et al., 2010, p. 63. 91 Uma operação compreende um conjunto de ações destinadas a alterar a causa do problema. Toda a operação depende de ações, que estão na área de governabilidade do ator, que são factíveis e coerentes com a realidade. PASSO 5 Desenhos das Operações Após a identificação dos nós críticos, que neste caso foi a “falta de organização da agenda dos profissionais” e a “falta de qualificação e motivação dos profissionais”, devem ser discutidos os objetivos que podem ser alcançados e a forma de torná-los viáveis. É necessário refletir sobre algumas variáveis importantes, tais como: o O tempo em que se pretende alcançar esses objetivos. o Os recursos necessários. o A análise do impacto que cada operação irá gerar sobre a causa do problema. 92 o O que faremos (definir as ações necessárias)? o Por que faremos (compreender os motivos que justificam as ações)? o Onde faremos (definir os locais que serão afetados pelas ações)? o Quem se responsabilizará (atribuir os responsáveis em ação proposta)? o Quando faremos (definir prazos)? o Como faremos (descrever como devem ser atingidos os objetivos pretendidos)? o Quanto custará (definir os recursos necessários para a implementação das ações propostas no plano)? Para a elaboração das operações, recomenda-se que sejam respondidas as seguintes indagações: Sugere-se a utilização de uma planilha (modelo apresentado no Quadro 6) para facilitar a visualização do planejamento realizado. 93 Causa (nó crítico): falta de organização da agenda dos profissionais. Objetivo: ofertar consultas de puericultura em quantidade suficiente para atender as crianças do território. Meta: acompanhar 80% das crianças menores de 2 anos. Ação: organizar a agenda dos profissionais. Operações Recursos Responsável Prazo 1. Identificar número de crianças menores de 2 anos no território. Listagem de nascidos vivos na maternidade e cadastro de famílias. Coordenação/ ACS. Junho de 2026. 2. Reservar 1 vaga/dia na agenda de todos os profissionais para puericultura. Agenda dos profissionais. Administrativo. A partir de Julho de 2026. 3. Garantir a realização da Puericultura às crianças no dia em que comparecem para a vacinação. Agenda dos profissionais. Administrativo, médico e enfermeiro. A partir de Junho de 2026. 4. Monitorar o comparecimento das crianças na puericultura. Relação atendimentos UBS. Enfermeira e equipe médica. A partir de Julho de 2026. 5. Checar com a Pastoral da Crianças se as crianças acompanhadas pela Pastoral estão inscritas e sendo acompanhadas pelo Programa de Puericultura da UBS. Contato pessoal com agentes da Pastoral da Criança. Coordenação/ ACS. Junho de 2026. Quadro 6 ─ Plano de ação para enfrentamento do problema priorizado Fonte: elaborado pela autora, 2026. 94 Problema Priorizado: Grande número de faltosos ao Programa de Puericultura FIQUE ATENTO! A pastoral pode apoiar a comunicação e a mobilização comunitária, desde que isso não envolva o compartilhamento de dados pessoais identificáveis, conforme pactuação local. A parceria comunitária não autoriza compartilhamento de listas nominais ou dados de saúde. A busca ativa e o contato individual devem permanecer sob responsabilidade da equipe/ACS, observando sigilo, finalidade pública, melhor interesse da criança e proteção de dados pessoais sensíveis (Lei nº 13.709/2018). Você percebeu que, para a proposição das operações com vistas a superar esse nó crítico, foi considerada a análise da matriz SWOT/FOFA, resgatando as fortalezas e oportunidades, mas também as fraquezas e ameaças. Agora que você já se familiarizou com este método, que tal elaborar as ações para o segundo nó crítico identificado pela equipe da Amanda: a “falta de qualificação e motivação dos profissionais”. 95 Um último ponto a ser levantado referente ao processo de planejamento nas UBS diz respeito à importância do processo de acompanhamento e avaliação do Plano desde o início de sua formulação até sua implementação, observando mudanças no ambiente e variáveis relacionadas à eficiência e eficácia, produtividade e agilidade, que influenciam no atendimento prestado ao indivíduo e à coletividade, na produção do cuidado em saúde e, indicando os ajustes necessários ao longo do tempo. PASSO 6 Monitoramento e avaliação Recomenda-se que mensalmente as ações planejadas sejam avaliadas novamente pela equipe (se estão sendo executadas e se necessitam de ajustes), e que, no mínimo, a cada quadrimestre sejam verificados os resultados. No caso do exemplo que aqui apresentamos, se refere a um indicador do componente de qualidade da APS: “cuidado no desenvolvimento infantil”. 96 Nessa perspectiva, a utilização de painéis de gestão e painéis de vigilância, entendidos como instrumentos de apoio à gestão, monitoramento, tomada de decisão e melhoria contínua, também podem ser úteis nesta etapa. A G O R A É S U A V EZ No seu local de trabalho, você consegue identificar os principais problemas e mobilizar sua equipe para, de forma conjunta, reconhecer suas causas, definir prioridades e construir um plano de intervenção, considerando o aprendizado desta disciplina? A mudança começa por você. Seja agente de mudança na sua UBS e transforme o planejamento