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MORFOMETRIA DO OSSO HIOIDE E SUA RELAÇÃO COM A APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO. Isabel Molla FERREIRA Discentes da União das Faculdades dos Grandes Lagos – UNILAGO Renan Alves dos SANTOS Discentes da União das Faculdades dos Grandes Lagos – UNILAGO Rosana Mara ANZOLIN Docente da União das Faculdades dos Grandes Lagos – UNILAGO AUTORES A apneia obstrutiva do sono (AOS) é um distúrbio respiratório caracterizado por episódios recorrentes de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono, estando associada a importantes repercussões cardiovasculares, metabólicas e neurocognitivas. Nos últimos anos, fatores anatômicos têm sido reconhecidos como determinantes relevantes na fisiopatologia da doença, destacando-se o papel do osso hioide na manutenção da permeabilidade das vias aéreas. O presente estudo propõe uma análise morfométrica do osso hioide e sua relação com a predisposição à AOS, por meio da avaliação de parâmetros anatômicos obtidos em exames de imagem e da correlação dessas medidas com dados clínicos descritos na literatura. Alterações na posição, no comprimento e nas dimensões do osso hioide podem influenciar diretamente a estabilidade das vias aéreas superiores, favorecendo seu colapso durante o sono e contribuindo para o desenvolvimento e a gravidade da síndrome. A caracterização morfológica dessas variações anatômicas poderá fornecer subsídios para a identificação de indivíduos com maior risco de AOS, além de contribuir para o aprimoramento das estratégias diagnósticas e do planejamento terapêutico, incluindo abordagens cirúrgicas direcionadas. Dessa forma, a investigação da morfometria do osso hioide representa uma ferramenta promissora na compreensão dos mecanismos anatômicos envolvidos na apneia obstrutiva do sono e pode auxiliar no desenvolvimento de modelos preditivos mais precisos para essa importante condição clínica. RESUMO Apneia obstrutiva do sono; Osso hioide; Morfometria; Vias aéreas superiores; Anatomia. PALAVRAS - CHAVE ABSTRACT ABSTRACT Obstructive sleep apnea (OSA) is a respiratory disorder characterized by recurrent episodes of partial or complete obstruction of the upper airway during sleep and is associated with significant cardiovascular, metabolic, and neurocognitive consequences. In recent years, anatomical factors have been recognized as important determinants in the pathophysiology of the disease, particularly the role of the hyoid bone in maintaining upper airway patency. This study proposes a morphometric analysis of the hyoid bone and its relationship with the predisposition to OSA through the evaluation of anatomical parameters obtained from imaging examinations and the correlation of these measurements with clinical data reported in the literature. Alterations in the position, length, and dimensions of the hyoid bone may directly influence upper airway stability, promoting its collapse during sleep and contributing to the development and severity of the syndrome. The morphological characterization of these anatomical variations may provide valuable information for identifying individuals at greater risk for OSA and contribute to improving diagnostic strategies and therapeutic planning, including targeted surgical approaches. Therefore, the investigation of hyoid bone morphometry represents a promising tool for understanding the anatomical mechanisms involved in obstructive sleep apnea and may assist in the development of more accurate predictive models for this important clinical condition. Keywords: Obstructive sleep apnea; Hyoid bone; Morphometry; Upper airway; Anatomy. 1. INTRODUÇÃO A apneia obstrutiva do sono (AOS) é um distúrbio respiratório crônico caracterizado por episódios recorrentes de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em hipóxia intermitente, fragmentação do sono e alterações significativas na homeostase cardiovascular e metabólica. Estima-se que a AOS afete aproximadamente um bilhão de indivíduos em todo o mundo, constituindo um importante problema de saúde pública devido à sua elevada prevalência e às repercussões clínicas associadas, incluindo hipertensão arterial sistêmica, doença coronariana, acidente vascular cerebral, resistência à insulina e comprometimento cognitivo (Benjafield et al., 2019). A fisiopatologia da AOS é multifatorial e envolve uma complexa interação entre fatores neuromusculares, obesidade, controle ventilatório e alterações anatômicas das vias aéreas superiores. Entre esses fatores, as características craniofaciais e a morfologia do esqueleto cervical têm recebido crescente atenção, uma vez que podem influenciar diretamente a permeabilidade das vias aéreas durante o sono (Jordan et al., 2014). Diversos estudos demonstraram que indivíduos com AOS apresentam alterações estruturais que favorecem o colapso faríngeo, incluindo retrognatismo mandibular, aumento do volume de tecidos moles e posicionamento inferiorizado do osso hioide (Schwab et al., 2003). O osso hioide constitui uma estrutura anatômica singular, localizada na região cervical anterior ao nível da terceira vértebra cervical, sendo o único osso do corpo humano que não se articula diretamente com outros ossos. Sua estabilidade é mantida por um complexo sistema de músculos supra-hioideos e infra-hioideos, que desempenham funções essenciais na deglutição, fonação e manutenção da patência das vias aéreas superiores (Standring, 2021). Além disso, o osso hioide atua como importante ponto de ancoragem para a língua e para os músculos faríngeos, exercendo papel fundamental na biomecânica da via aérea superior. Nas últimas décadas, estudos de imagem demonstraram que o posicionamento inferior e posterior do osso hioide está associado ao estreitamento da orofaringe e ao aumento da colapsabilidade das vias aéreas superiores durante o sono. Particularmente, a distância hioide-plano mandibular (H-MP) tem sido amplamente utilizada como parâmetro anatômico na avaliação de pacientes com AOS, sendo observada uma correlação entre o aumento dessa medida e a gravidade da doença (Tsai et al., 2007; Schwab et al., 2003). Adicionalmente, investigações morfométricas sugerem que variações nas dimensões do corpo e dos cornos maiores do osso hioide podem influenciar a dinâmica das estruturas adjacentes, contribuindo para diferenças individuais na susceptibilidade ao desenvolvimento da síndrome. Apesar dos avanços no entendimento da fisiopatologia da AOS, a contribuição específica da morfologia do osso hioide permanece incompletamente elucidada. A maior parte dos estudos concentra-se em análises cefalométricas bidimensionais, havendo escassez de investigações que explorem detalhadamente os parâmetros morfométricos do osso hioide e suas implicações clínicas. Nesse contexto, a avaliação anatômica dessa estrutura torna-se particularmente relevante, uma vez que pode contribuir para a identificação de marcadores morfológicos associados ao risco de AOS, além de fornecer subsídios para o desenvolvimento de estratégias diagnósticas mais precisas e para o aprimoramento do planejamento terapêutico, especialmente em pacientes candidatos a intervenções cirúrgicas das vias aéreas superiores. Dessa forma, o presente estudo propõe analisar a morfometria do osso hioide e sua relação com a apneia obstrutiva do sono, buscando ampliar o conhecimento acerca dos determinantes anatômicos envolvidos na fisiopatologia da doença e contribuir para a compreensão das variações estruturais potencialmente associadas à gravidade e ao desenvolvimento dessa importante condição clínica. 2. METODOLOGIA Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, realizada com o objetivo de analisar as evidências científicas acerca da morfometria do osso hioide e sua relação com a apneia obstrutiva do sono. A busca bibliográfica foi conduzida nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e Scientific Electronic Library Online (SciELO), utilizando os descritores em Ciênciasda Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH): "Hyoid Bone", "Morphometry", "Obstructive Sleep Apnea", "Upper Airway" e seus correspondentes em português, combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, metanálises e estudos observacionais publicados em inglês, português e espanhol, sem restrição de desenho metodológico, que abordassem aspectos anatômicos, morfométricos ou a relação entre o osso hioide e a apneia obstrutiva do sono. Foram excluídos trabalhos duplicados, resumos de congressos, cartas ao editor, dissertações, teses e estudos que não apresentavam relação direta com o tema proposto. Após a seleção, os estudos foram analisados de forma crítica e agrupados de acordo com os principais eixos temáticos: anatomia e embriologia do osso hioide, parâmetros morfométricos, influência da posição do osso hioide na patência das vias aéreas superiores e sua associação com a fisiopatologia e gravidade da apneia obstrutiva do sono. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO A análise da literatura evidencia que a apneia obstrutiva do sono (AOS) constitui uma doença de natureza multifatorial, resultante da interação complexa entre alterações anatômicas, características craniofaciais, fatores neuromusculares, composição corporal e mecanismos fisiológicos relacionados ao sono. A doença caracteriza-se por episódios recorrentes de obstrução parcial ou completa da via aérea superior durante o sono, ocasionando redução ou interrupção do fluxo aéreo, hipóxia intermitente, despertares e fragmentação da arquitetura do sono. Embora diferentes fatores possam participar de sua fisiopatologia, a configuração anatômica da via aérea superior representa um dos principais determinantes da susceptibilidade individual ao colapso faríngeo. Nesse contexto, o osso hioide apresenta importância particular por sua relação anatômica e funcional com a língua, a mandíbula, a faringe e a musculatura cervical (Dempsey et al., 2006). Anatomicamente, o osso hioide apresenta características singulares quando comparado às demais estruturas ósseas do esqueleto humano. Localizado na região cervical anterior, aproximadamente ao nível da terceira vértebra cervical, é constituído por um corpo central, dois cornos maiores e dois cornos menores. Diferentemente dos demais ossos do esqueleto axial, não possui articulação óssea direta com outras estruturas, permanecendo suspenso por meio de um complexo sistema muscular e ligamentar. Entre suas principais conexões estão os músculos supra-hioideos e infra-hioideos, além de estruturas relacionadas à mandíbula, à língua e à laringe. Essa configuração permite ampla mobilidade do hioide e explica sua participação em funções como deglutição, fonação e respiração (Standring, 2021). A mobilidade do osso hioide possui importância para a manutenção da permeabilidade da via aérea superior, uma vez que sua posição está intimamente relacionada à atividade dos músculos que controlam a posição da língua e das estruturas faríngeas. Durante a vigília, a atividade neuromuscular dos músculos dilatadores da faringe contribui para a manutenção do lúmen aberto. Durante o sono, entretanto, ocorre redução fisiológica dessa atividade, especialmente durante determinadas fases do sono, tornando a via aérea mais suscetível ao estreitamento. Quando essa redução do tônus muscular ocorre em indivíduos que apresentam características anatômicas desfavoráveis, a probabilidade de colapso da via aérea aumenta significativamente (Dempsey et al., 2006). Nesse cenário, o posicionamento do osso hioide pode exercer influência sobre a relação espacial entre a língua e a parede posterior da faringe. Uma posição mais inferior do hioide pode estar associada a alterações na disposição da musculatura supra-hioidea e da base da língua, modificando a configuração do espaço retrolingual e hipofaríngeo. Dessa forma, o hioide pode ser compreendido como parte de um sistema anatômico que participa da estabilidade das vias aéreas superiores, embora sua posição não seja suficiente, isoladamente, para explicar a ocorrência da AOS. Os estudos de imagem disponíveis na literatura sustentam a existência de diferenças anatômicas entre indivíduos com AOS e indivíduos sem a doença. Schwab et al. (2003), utilizando ressonância magnética volumétrica, demonstraram que pacientes com AOS apresentam alterações em diferentes componentes anatômicos da via aérea superior. A utilização da ressonância magnética permitiu avaliar não apenas a configuração do espaço aéreo, mas também estruturas moles associadas ao processo obstrutivo. Os resultados demonstraram que fatores anatômicos múltiplos contribuem para o estreitamento da via aérea, reforçando a necessidade de uma avaliação integrada das estruturas que participam da sua manutenção. Entre as alterações mais frequentemente descritas encontra-se o posicionamento inferior do osso hioide. Essa característica tem sido identificada por diferentes métodos de avaliação, especialmente pela cefalometria lateral. A posição vertical do hioide pode ser estimada por meio da distância entre o ponto mais anterior do osso e o plano mandibular, conhecida como H-MP. O aumento dessa distância representa um posicionamento relativamente mais inferior do hioide em relação à mandíbula e tem sido associado, em diversos estudos, à presença e à gravidade da AOS. O autor Tsai et al. (2007) avaliaram a relação entre características cefalométricas e AOS em indivíduos não obesos e observaram que pacientes com doença grave apresentavam maior distância entre o hioide e o plano mandibular. Esse resultado possui relevância porque demonstra que a relação entre o hioide e a AOS pode ser observada mesmo na ausência de obesidade, um dos principais fatores de risco para a doença. Os autores também identificaram alterações relacionadas à língua, ao palato mole e às dimensões mandibulares, demonstrando que a posição do hioide está inserida em um conjunto de características anatômicas que podem favorecer o colapso da via aérea superior (Tsai et al., 2007). A importância da distância H-MP também é sustentada por evidências mais recentes. Uma revisão sistemática publicada em 2026 avaliou 22 estudos sobre a relação entre o osso hioide e a gravidade da AOS e identificou associação positiva entre a posição inferior do hioide e o índice de apneia e hipopneia (IAH). Entre as variáveis analisadas, a distância H-MP apresentou o maior poder preditivo para a gravidade da AOS. Entretanto, os autores ressaltaram que as evidências disponíveis ainda são insuficientes para estabelecer uma relação consistente entre a posição anteroposterior do hioide e a gravidade da doença (Correa-Morillo et al., 2026). Esse resultado é relevante porque reforça a importância da posição vertical do hioide, mas, simultaneamente, demonstra que nem todas as características espaciais da estrutura apresentam a mesma relevância clínica. A associação entre o posicionamento inferior do hioide e o aumento do IAH pode ser explicada por mecanismos anatômicos e biomecânicos. O hioide estabelece conexões musculares com estruturas responsáveis pela movimentação e estabilização da língua. Alterações em sua posição podem modificar os vetores de tração exercidos sobre essas estruturas e influenciar a configuração do espaço retrolingual. Durante o sono, a redução do tônus muscular pode potencializar essa condição anatômica, favorecendo o deslocamento posterior da língua e o estreitamento da via aérea. Consequentemente, indivíduos que apresentam uma posição hioidea menos favorável podem apresentar maior susceptibilidade à ocorrência de eventos obstrutivos (Dempsey et al., 2006). Entretanto, a interpretação desses resultados deve ser realizada com cautela. O fato de pacientes com AOS apresentarem maior distância H-MP não significa necessariamente que o deslocamento inferior do hioide seja a causa primária da doença. A relação pode ser bidirecional ou representar um marcador anatômico de outras alterações estruturais. A mandíbula, por exemplo, exerce influência diretasobre a posição da língua e sobre o espaço disponível para sua acomodação. Alterações mandibulares podem, consequentemente, modificar a posição da língua e produzir adaptações secundárias na posição do hioide. Portanto, a associação entre H-MP e AOS deve ser compreendida dentro de um modelo anatômico mais amplo. Nesse sentido, Johal, Patel e Battagel (2007) demonstraram que indivíduos com AOS apresentam um conjunto de alterações craniofaciais quando comparados a indivíduos sem a doença. Entre as características observadas estavam alterações nas dimensões da maxila e da mandíbula, aumento do tamanho da língua, alterações no palato mole e posicionamento mais inferior do osso hioide. A presença simultânea dessas alterações demonstra que o hioide não deve ser avaliado de maneira isolada. Sua posição provavelmente reflete a interação entre diferentes componentes do complexo craniofacial e da via aérea superior (Johal; Patel; Battagel, 2007). A relação entre mandíbula, língua e hioide apresenta especial importância na compreensão da fisiopatologia da AOS. A mandíbula fornece suporte anterior para a língua e estabelece relação indireta com o hioide por meio da musculatura supra-hioidea. Em indivíduos com retrognatismo mandibular ou dimensões mandibulares reduzidas, a língua pode apresentar posicionamento mais posterior, reduzindo o espaço disponível na região retrolingual. Esse fenômeno pode ser acompanhado por alterações na posição do complexo hioideo, resultando em uma configuração anatômica menos favorável à manutenção da patência da via aérea durante o sono. Além da posição do hioide, suas características morfométricas também podem apresentar importância. Estudos utilizando tomografia computadorizada demonstraram que determinadas dimensões do osso hioide podem apresentar associação com a gravidade da AOS. Em uma investigação realizada com 106 indivíduos do sexo masculino, foram avaliadas diferentes medidas do hioide, incluindo a distância entre os cornos maiores e o comprimento anteroposterior. Os autores observaram associação entre algumas dessas dimensões e o IAH, sugerindo que não apenas a localização, mas também a morfologia do osso pode estar relacionada à gravidade da doença (Lee et al., 2014). Esses achados ampliam a compreensão sobre o papel do hioide. Se, por um lado, a distância H-MP fornece uma estimativa da posição vertical da estrutura, por outro, a análise de suas dimensões permite investigar características morfológicas que podem influenciar sua relação com os tecidos moles. Dessa maneira, a avaliação morfométrica pode contribuir para identificar diferentes padrões anatômicos entre pacientes com AOS. Contudo, ainda são necessários estudos com amostras maiores para estabelecer valores de referência e determinar quais parâmetros apresentam maior utilidade clínica. Outro aspecto relevante é a influência da obesidade sobre a relação entre o hioide e a via aérea. O excesso de tecido adiposo na região cervical e parafaríngea pode aumentar a pressão extraluminal sobre a faringe e reduzir o calibre do espaço aéreo. A obesidade também pode modificar a relação espacial entre a língua, a faringe e as estruturas hioideas. Dessa forma, alterações anatômicas do hioide podem apresentar efeitos diferentes dependendo da composição corporal do indivíduo. A análise isolada de uma medida cefalométrica, portanto, pode não ser suficiente para explicar a gravidade da doença em indivíduos com diferentes características antropométricas (Dempsey et al., 2006). A influência da obesidade também ajuda a explicar a heterogeneidade observada entre pacientes com AOS. Alguns indivíduos desenvolvem doença significativa mesmo apresentando baixo ou normal índice de massa corporal, enquanto outros apresentam maior gravidade em associação ao excesso de peso. Essa diferença demonstra que a anatomia craniofacial e a configuração das vias aéreas podem exercer papel particularmente importante em indivíduos não obesos. Nesses pacientes, parâmetros relacionados ao hioide, à mandíbula e à língua podem fornecer informações complementares importantes para a compreensão do mecanismo predominante de obstrução. A avaliação do hioide também apresenta relação com a dinâmica respiratória. Estudos experimentais demonstraram que alterações no volume pulmonar e mudanças no tônus muscular podem deslocar o osso hioide, indicando que sua posição não é completamente estática. Em indivíduos com obesidade ou AOS, essas alterações podem apresentar características diferentes, sugerindo que o posicionamento do hioide resulta da interação entre forças musculares, pressão intratorácica e configuração anatômica das vias aéreas (Sutherland et al., 2019). Esse aspecto é particularmente importante porque demonstra que avaliações realizadas durante a vigília podem não reproduzir integralmente a posição e o comportamento da estrutura durante o sono. A natureza dinâmica do hioide também deve ser considerada na interpretação dos exames de imagem. A maioria das avaliações cefalométricas é realizada com o indivíduo acordado e em determinada posição corporal, geralmente sentado ou em ortostatismo. Entretanto, a AOS ocorre durante o sono, quando há alterações no tônus muscular, na posição corporal e na mecânica respiratória. Assim, uma medida obtida durante a vigília representa apenas uma parte da realidade funcional do paciente. Métodos que permitam avaliar alterações dinâmicas durante o sono podem, no futuro, proporcionar informações mais precisas sobre a participação do hioide no processo obstrutivo. A evolução dos métodos de imagem tridimensional representa, portanto, uma perspectiva importante para a investigação da relação entre o hioide e a AOS. A tomografia computadorizada e a ressonância magnética permitem avaliar a anatomia da via aérea em diferentes planos e estabelecer relações espaciais entre o hioide, a mandíbula, a língua, a coluna cervical e os tecidos moles. Schwab et al. (2003) demonstraram a importância da avaliação volumétrica das estruturas da via aérea, contribuindo para a compreensão de que a obstrução pode resultar de diferentes combinações anatômicas. Apesar das vantagens dos métodos tridimensionais, a cefalometria continua apresentando relevância por sua relativa simplicidade, disponibilidade e possibilidade de obtenção de medidas padronizadas. A distância H-MP, por exemplo, é uma variável de fácil mensuração e apresenta associação com a gravidade da AOS em diferentes populações. Entretanto, sua interpretação deve considerar possíveis diferenças decorrentes da idade, sexo, padrão facial, índice de massa corporal e características étnicas. A ausência de padronização universal desses fatores representa uma das principais limitações para a utilização do parâmetro como marcador diagnóstico isolado. A literatura também apresenta evidências de que alterações do hioide possuem importância terapêutica. A suspensão hioidea foi desenvolvida com o objetivo de modificar a posição do osso e aumentar a estabilidade da região hipofaríngea. Riley, Powell e Guilleminault (1994) avaliaram uma técnica cirúrgica de suspensão hioidea em pacientes com obstrução da via aérea e observaram melhora dos parâmetros respiratórios em indivíduos selecionados. Esses resultados fornecem suporte indireto para a participação funcional do hioide na manutenção da permeabilidade das vias aéreas. A existência de uma intervenção capaz de modificar a posição do hioide e produzir melhora de parâmetros respiratórios apresenta importância fisiopatológica. Entretanto, esses resultados não devem ser interpretados como evidência de que todo paciente com AOS e posicionamento inferior do hioide necessite de intervenção cirúrgica. A indicação de procedimentos sobre o complexo hioideo depende da identificação do padrão anatômico de obstrução e da avaliação individualizada do paciente. Dessa forma, o valor desses procedimentos está principalmente na demonstração de que a posição do hioide pode ser modificada terapeuticamente em situações específicas. Outro ponto relevante diz respeitoà possibilidade de utilizar parâmetros hioideos como parte de modelos preditivos. Considerando que a AOS apresenta etiologia multifatorial, a combinação de medidas como H-MP com variáveis craniofaciais, antropométricas e clínicas pode apresentar maior capacidade de predizer a presença e a gravidade da doença do que qualquer variável isolada. A recente revisão sistemática de Correa-Morillo et al. (2026) reforça essa possibilidade ao demonstrar que a posição inferior do hioide apresenta associação com maior IAH, embora ainda existam limitações quanto à padronização dos métodos e à qualidade dos estudos disponíveis. As limitações metodológicas identificadas na literatura devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Os estudos apresentam diferenças quanto ao tamanho das amostras, critérios diagnósticos, características demográficas, métodos de imagem e parâmetros utilizados para mensurar a posição do hioide. Além disso, muitas investigações possuem desenho transversal, o que permite identificar associações, mas não estabelece necessariamente relação causal. Dessa maneira, ainda não está completamente esclarecido se o posicionamento inferior do hioide contribui diretamente para o desenvolvimento da AOS ou se representa consequência de outras alterações anatômicas. A heterogeneidade das populações estudadas constitui outra limitação importante. Características craniofaciais podem variar entre diferentes populações, assim como a distribuição de gordura corporal, o padrão facial e as dimensões das estruturas ósseas. Portanto, valores de referência obtidos em uma população podem não ser diretamente aplicáveis a outra. Estudos multicêntricos e com maior diversidade populacional são necessários para estabelecer parâmetros mais confiáveis e generalizáveis. Dessa forma, embora a distância H-MP seja uma das variáveis mais estudadas, sua interpretação deve ser realizada em conjunto com outros parâmetros. A avaliação clínica, a polissonografia, a análise do índice de massa corporal e a investigação das características craniofaciais permanecem fundamentais para o diagnóstico e a estratificação da AOS. A análise do hioide deve ser entendida como um instrumento complementar, capaz de fornecer informações sobre o fenótipo anatômico do paciente, e não como substituta dos métodos diagnósticos estabelecidos. A análise dos resultados permite concluir, portanto, que o osso hioide apresenta papel relevante na organização anatômica e funcional das vias aéreas superiores. A posição inferior do hioide, especialmente quando associada ao aumento da distância H-MP, apresenta relação consistente com a presença e a maior gravidade da AOS. Essa associação é sustentada tanto por estudos cefalométricos quanto por investigações utilizando métodos de imagem mais avançados e, mais recentemente, por evidências provenientes de revisão sistemática da literatura (Tsai et al., 2007; Correa-Morillo et al., 2026). Entretanto, os resultados também demonstram que o hioide não deve ser considerado um fator independente e isolado na fisiopatologia da doença. Sua posição e morfologia estão relacionadas à configuração mandibular, à posição da língua, ao palato mole, à musculatura faríngea e à distribuição dos tecidos moles. A presença de alterações simultâneas nesses componentes pode produzir uma via aérea estruturalmente mais suscetível ao colapso durante o sono. Assim, a contribuição do hioide parece ocorrer principalmente por meio de sua integração ao complexo craniofacial e às estruturas responsáveis pela manutenção da permeabilidade faríngea. Em síntese, os achados analisados reforçam a importância da avaliação anatômica do osso hioide no contexto da AOS. O posicionamento inferior e o aumento da distância H-MP constituem características frequentemente associadas à doença e podem apresentar utilidade como marcadores anatômicos complementares. Contudo, a ausência de padronização universal, a heterogeneidade metodológica e a predominância de estudos observacionais ainda limitam a utilização dessas medidas como ferramentas diagnósticas independentes. Diante disso, pesquisas futuras devem priorizar estudos longitudinais, amostras maiores e mais diversificadas, além da utilização de métodos tridimensionais e avaliações funcionais durante o sono. A integração entre parâmetros morfométricos do hioide, características craniofaciais, medidas do volume da via aérea e dados polissonográficos poderá contribuir para o desenvolvimento de modelos preditivos mais precisos. Essa abordagem poderá favorecer uma melhor identificação dos diferentes fenótipos anatômicos da AOS e, consequentemente, auxiliar na individualização das estratégias terapêuticas. Assim, o conjunto das evidências disponíveis permite considerar o osso hioide como um componente anatômico relevante na fisiopatologia e na avaliação da apneia obstrutiva do sono. Embora sua alteração não seja suficiente para explicar isoladamente a ocorrência da doença, a associação entre posição inferior do hioide, aumento da distância H-MP e maior gravidade da AOS reforça sua importância na investigação anatômica dos pacientes. A compreensão mais aprofundada dessa relação poderá contribuir para o avanço da avaliação morfofuncional das vias aéreas superiores e para o desenvolvimento de abordagens diagnósticas e terapêuticas mais individualizadas no campo da Otorrinolaringologia e da Medicina do Sono .4. CONCLUSÃO A presente revisão de literatura demonstrou que a morfometria do osso hioide desempenha papel relevante na fisiopatologia da apneia obstrutiva do sono, uma vez que alterações em seu posicionamento e em suas características anatômicas estão associadas à redução da permeabilidade das vias aéreas superiores e ao aumento da predisposição ao colapso faríngeo durante o sono. Entre os parâmetros mais frequentemente relacionados à doença, destaca-se o posicionamento inferior do osso hioide e o aumento da distância hioide-plano mandibular, os quais apresentam correlação com a presença e a gravidade da síndrome. Além de sua importância na manutenção das funções de deglutição, fonação e respiração, o osso hioide constitui um elemento fundamental na dinâmica biomecânica das vias aéreas superiores, atuando como ponto de ancoragem para estruturas musculares responsáveis pela estabilidade faríngea. Dessa forma, a avaliação de suas características morfométricas representa uma ferramenta promissora para a identificação de indivíduos com maior risco para o desenvolvimento da apneia obstrutiva do sono e para o aprimoramento das estratégias diagnósticas e terapêuticas. Entretanto, a literatura ainda apresenta limitações relacionadas à heterogeneidade metodológica, à ausência de padronização das medidas anatômicas e à escassez de estudos tridimensionais envolvendo diferentes populações. Nesse contexto, tornam-se necessários novos estudos, especialmente aqueles baseados em métodos avançados de imagem e análises morfométricas padronizadas, a fim de elucidar de maneira mais precisa a contribuição do osso hioide na patogênese da apneia obstrutiva do sono. Portanto, conclui-se que a morfometria do osso hioide possui relevante aplicabilidade clínica e científica, podendo contribuir significativamente para a compreensão dos mecanismos anatômicos envolvidos na apneia obstrutiva do sono, bem como para o desenvolvimento de modelos preditivos e de abordagens terapêuticas mais individualizadas e eficazes para os pacientes acometidos por essa importante condição clínica. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENJAFIELD, A. V. et al. 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