Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

ARRANJO MUSICAL 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Hugo Leonardo Martins Correa 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
O arranjo musical é uma disciplina prática que – de maneira similar à 
composição musical – possui intrínsecas relações com uma série de outras 
disciplinas no âmbito musical. Nesta aula, o nosso objetivo é apresentar, em 
cinco tópicos, algumas características e fundamentos inerentes ao arranjo 
musical. 
O primeiro tópico desta aula propõe uma discussão acerca da definição 
do termo arranjo musical. No segundo tópico, discorreremos sobre a importância 
da partitura como forma de notação musical. Contudo, apenas escrever 
corretamente partituras não assegura a qualidade de um arranjo, pois é preciso 
extrair dos instrumentos musicais a sonoridade que melhor lhes convém, tema 
este que será abordado nos tópicos 3 e 4. Por fim, no quinto e último tópico 
apresentamos algumas formas de planejar um arranjo musical, visando auxiliar 
o arranjador iniciante na criação de um percurso para a realização dos primeiros 
arranjos. 
TEMA 1 – DEFININDO ARRANJO MUSICAL 
É raro encontrarmos um livro sobre arranjo musical que apresente uma 
discussão aprofundada acerca de possíveis definições para o termo. 
Possivelmente, o maior problema em relação ao conceito do arranjo musical é a 
sua intrínseca relação com o exercício da composição. Deste modo, é difícil 
encontrar uma definição absoluta que estabeleça claras fronteiras entre arranjo 
e composição. Para Carlos Almada (2000) e Ian Guest (1996a, 1996b, 1996c) 
ambas as atividades possuem uma natureza criativa, permitindo assim existam 
técnicas e ferramentas comuns. Pontuada a interseção que existe entre 
composição e arranjo, podemos afirmar que o arranjo musical é o trabalho 
criativo que se desenvolve a partir de determinada matéria-prima 
previamente composta. 
Dois elementos se destacam na definição proposta: [1] o trabalho 
criativo e [2] a matéria-prima previamente composta. A existência desses 
dois itens é essencial para classificar uma atividade como arranjo musical. Para 
esmiuçarmos esta definição, apresentamos abaixo algumas situações 
comumente encontradas no mercado de trabalho que costumam ser 
classificadas como arranjo musical. 
 
 
3 
Considere a seguinte situação: um coral especializado em samba solicita 
para você – arranjador – uma adaptação da música “Se essa rua fosse minha”. 
Segundo o cliente, o arranjo deve ser adequado para o nível técnico dos 
coralistas e deve assimilar características do samba, de modo a se encaixar no 
repertório do grupo. Para realizar o trabalho, você utiliza a melodia e a harmonia 
básica da música e cria uma nova versão da obra utilizando padrões rítmicos do 
samba. Observe que, na situação descrita, a matéria-prima previamente 
composta se refere à melodia e harmonia básica da música em questão. A partir 
desta matéria-prima o arranjador desenvolve um trabalho criativo visando atingir 
as orientações sugeridas pelo cliente. A música é reconhecida pelo público 
devido a matéria-prima, contudo, é possível perceber que se trata de uma nova 
versão. Por fim, podemos afirmar que a referida situação descreve um arranjo 
musical. 
 Agora considere a seguinte situação: você compõe uma melodia e a 
harmoniza. Essa primeira etapa pode ser compreendida como composição, pois 
ela é responsável por gerar uma determinada matéria-prima. Em seguida, você 
cria um acompanhamento e contracantos utilizando técnicas de arranjo. A 
segunda etapa pode ser compreendida como arranjo, pois se trata de um 
trabalho criativo (a elaboração dos acompanhamentos) elaborado a partir de 
uma matéria-prima previamente composta (melodia e harmonia). Comumente, 
essa situação costuma ser descrita apenas como composição musical, contudo, 
ao analisarmos os procedimentos adotados podemos perceber que – no 
exemplo descrito – é possível separar as etapas de composição e arranjo. 
 Essa última situação pode ainda apresentar um desdobramento: o 
compositor poderia criar a melodia, a harmonia, o acompanhamento e os 
contracantos simultaneamente. Descrever onde termina a composição e inicia o 
arranjo neste caso é uma tarefa complicada e muitas vezes impossível, 
especialmente se considerarmos que o processo criativo não costuma ocorrer 
de maneira linear. 
 Cabe ressaltar que, em todas as situações hipotéticas apresentadas, a 
matéria-prima previamente composta se refere à melodia e harmonia de uma 
música. Essa concepção de matéria-prima é a mais comum dentro do arranjo 
musical. 
 As situações descritas são corriqueiras no mercado de trabalho. Ao 
considerarmos tais atividades podemos compreender que a criatividade é 
 
 
4 
essencial para a realização de um arranjo musical. “Nesse contexto, podemos 
entender a criatividade como a habilidade de aplicar o conhecimento teórico em 
novas situações concretas, cabendo ao arranjador determinar qual ferramenta 
será mais adequada para cada situação” (Correa, 2020, p. 19). 
TEMA 2 – ESCRITA E COMUNICAÇÃO 
Existem diversas maneiras de se grafar uma música. Partitura, tablatura, 
musicografia Braille e partitura gráfica são apenas algumas formas de notação 
musical. Apesar da existência dessas diversas formas de notação, podemos 
observar que a partitura é a forma de notação musical predominante no 
mercado de trabalho e nas bibliografias de arranjo. Devido a esse padrão, 
todos os arranjos da disciplina serão apresentados na partitura. 
A partitura é um conjunto de sinais gráficos que capaz de imprimir um 
significado e expressar determinadas nuances do som. Um equívoco comum ao 
escrever uma partitura ocorre quando o arranjador apenas insere notas e ritmos. 
Uma partitura pode – e muitas vezes deve – expressar mais informações. A 
intensidade com a qual as notas devem ser executadas podem ser grafadas com 
sinais de dinâmica. A maneira como as notas são alternadas podem ser grafadas 
com sinais de articulação. Ao menos uma indicação de andamento deve ser 
sinalizada para que o intérprete compreenda o andamento da obra. Em arranjos 
mais longos, a inserção de letras de ensaio é um elemento padronizado no 
mercado editorial de partituras. Esses são apenas alguns elementos que 
evidenciam a complexidade presente na escrita de partituras. A figura abaixo 
representa uma partitura com todas as indicações supracitadas. 
Figura 1 – Exemplo de partitura 
Crédito: Hugo Yasha, 2021. 
 
 
5 
Atualmente são raras as ocasiões nas quais o arranjador escreve a 
partitura à mão. O surgimento dos computadores pessoais mudou a maneira 
como escrevemos partituras, estabelecendo um nítido padrão no mercado de 
trabalho. Ao escrevermos um arranjo no computador, a formatação e o 
espaçamento dos elementos são definidos pelo algoritmo do programa, 
independendo assim da qualidade caligráfica do arranjador. 
Ao entregarmos um arranjo para um cliente costumamos enviar dois tipos 
de partituras: a grade e as partituras individuais. Segundo Dourado, a grade é a 
partitura que “representa todos os instrumentos do conjunto ou da orquestra” 
(2004, p. 149). Em grupos com muitos instrumentos musicais é comum que a 
grade seja impressa no formato paisagem em papéis de tamanhos maiores 
(normalmente A3) para que seja possível visualizar todas as informações. 
A figura abaixo representa a primeira página da grade de uma 
composição. 
Figura 2 – Primeira página da grade da música Vai dar certo! 
Crédito: Hugo Yasha, 2021. 
Enquanto as grades representam todos os instrumentos de um conjunto, 
as partituras individuais (também chamadas de partes) contém apenas as 
informações de um único instrumento musical (Dourado, 2004). Num grupo com 
 
 
6 
diversos instrumentos, é comum que apenas o regente fique com a grade, 
enquanto cada intérprete utilize a partitura individual referente ao seu respectivo 
instrumento. A figura 3 apresenta uma das partituras individuais extraídasda 
música Vai dar certo! . 
Figura 3 – Partitura individual do saxofone alto 1 da música Vai dar certo. 
Crédito: Hugo Yasha, 2021. 
No passado era necessário escrever manualmente a grade e cada uma 
das partituras individuais. Hoje, os softwares de notação musical geram 
 
 
7 
automaticamente as partituras individuais conforme o arranjador constrói a 
grade. Dentre os softwares de notação musical mais comuns no mercado 
destacam-se o Finale, o Sibelius e o Musescore. Para o exercício da profissão 
de arranjador é imprescindível o domínio de um desses softwares, pois – 
conforme citado anteriormente – o padrão mercadológico impõe uma qualidade 
editorial que dificilmente é atingida numa partitura manuscrita. 
TEMA 3 – CLASSIFICAÇÃO DOS INSTRUMENTOS 
A classificação dos instrumentos musicais é uma tarefa que rendeu 
diversos estudos ao longo da história. Dentre as muitas formas de categorizar 
os instrumentos musicais destaca-se a classificação proposta por Erich Moritz 
von Hornbostel e Curt Sachs, intitulada classificação Hornbostel-Sachs. Essa 
classificação foi uma das primeiras que extrapolou os instrumentos europeus e 
abarcou instrumentos de culturas e lugares distintos. 
Outro sistema de categorização relevante é a classificação por naipes. 
Esse sistema divide os instrumentos considerando aspectos interpretativos, 
históricos e musicais (Correa, 2020). 
3.1 Classificação Hornbostel-Sachs 
A classificação Hornbostel-Sachs possui a primícia de categorizar os 
instrumentos musicais de acordo com as propriedades físicas responsáveis pela 
emissão do som, resultando assim em cinco principais grupos: idiofones, 
membranofones, cordofones, aerofones e eletrofones. 
Os instrumentos classificados como idiofones são aqueles cujo som é 
proveniente da vibração do próprio corpo do instrumento, não necessitando 
assim de membranas ou cordas. Podemos observar exemplos de idiofones nos 
pratos de uma bateria. 
Os membranofones são os instrumentos musicais cujo som é produzido 
“pela vibração de uma membrana estendida e tensionada” (Correa, 2020, p.26). 
Essa categoria engloba todos os tambores (são exemplos o bumbo, a caixa-clara 
e a conga). 
Os instrumentos musicais classificados como cordofones são aqueles 
cuja emissão sonora depende da vibração de uma ou mais cordas. Alguns 
 
 
8 
cordofones – como o violão, por exemplo – contam com uma caixa de 
ressonância que, dentre diversas funções, amplifica o som do instrumento. 
Para Correa, “os aerofones são os instrumentos musicais nos quais o 
som é gerado através de colunas de ar que normalmente são contidas dentro do 
corpo dos instrumentos” (2020, p. 29, grifo do original). São exemplos dessa 
categoria as flautas e o órgão de tubos. 
O termo eletrofones é compreendido como a “designação genérica para 
aparelhos musicais eletroacústicos ou eletromecânicos que produzem som por 
meio de alto-falantes” (Dourado, 2004, p. 119). Os sintetizadores são exemplos 
dessa categoria. 
O sistema Hornbostel-Sachs subdivide cada uma das cinco categorias 
supracitadas em centenas de subcategorias. Mesmo com uma vasta gama de 
classificações, é possível encontrar instrumentos musicais que se encaixam em 
mais de uma categoria. 
3.2 Classificação por naipes 
Os naipes – também chamados de seções – são grupos de instrumentos 
musicais que se consolidaram historicamente na formação das orquestras 
ocidentais. Essas orquestras costumam ser divididas em quatro naipes: cordas, 
madeiras, metais e percussão. 
 Numa orquestra, o naipe das cordas é composto predominantemente por 
instrumentos de cordas friccionadas (violinos, violas, violoncelos e contrabaixos). 
Esses instrumentos tiveram suas respectivas construções consolidadas por volta 
de 1700, sendo assim o primeiro naipe a ser amplamente explorado e estudado 
pelos compositores (Adler, 2002). Mais tarde, no século XIX, a harpa conquistou 
seu espaço na orquestra devido à aperfeiçoamentos em sua construção 
(Dourado, 2004). Dentro do naipe das cordas, a harpa é classificada como um 
instrumento de cordas pinçadas. 
 O naipe das madeiras é composto por flautas, clarinetes, oboés, fagotes 
e saxofones. Cada um desses instrumentos faz parte de uma respectiva família 
que pode englobar mais instrumentos. Por exemplo, é comum a utilização de 
quatro diferentes flautas nas orquestras: a flauta soprano (a mais comum), o 
flautim, a flauta contralto e a flauta baixo (Adler, 2002). 
 O naipe dos metais é composto por trompetes, trompas, trombones e 
tubas. Assim como no naipe das madeiras, os instrumentos presentes no naipe 
 
 
9 
dos metais também possuem famílias. Logo, é possível encontrar – por exemplo 
– diversos trompetes diferentes numa orquestra. 
 O naipe da percussão é o mais vasto da orquestra. Dentre os 
instrumentos que aparecem com mais frequência nesse grupo podemos 
destacar os tímpanos, os pratos, o bumbo sinfônico, a caixa-clara e a marimba. 
Além de instrumentos musicais tradicionais, o naipe da percussão pode incluir 
diferentes e inusitados objetos como bigornas1, tigelas2 e canhões3. 
 Fora das orquestras tradicionais europeias, é possível observamos a 
existência de um quinto naipe: a base (ou seção rítmico-harmônica). O naipe 
da base possui uma sonoridade heterogênea devido aos diferentes instrumentos 
que compõem a seção: guitarra, violão, piano, baixo elétrico e bateria. Apesar 
das diferentes construções e sonoridades, os instrumentos da base são 
agrupados em um único naipe devido à função que juntos eles desempenham 
na música: executar acompanhamentos. A seção rítmico-harmônica é 
comumente encontrada em conjuntos instrumentais mais voltados para a música 
popular. 
 A escrita de partituras voltada para a seção rítmico-harmônica é um dos 
conhecimentos essenciais para a atividade do arranjo musical, pois uma parcela 
significativa do mercado trabalho engloba os instrumentos que compõem a base. 
TEMA 4 – FORMAÇÕES INSTRUMENTAIS TRADICIONAIS 
No cenário musical atual é comum nos depararmos com determinadas 
formações instrumentais que – por motivos históricos, interpretativos e musicais 
– já estão consolidadas. Considerando que escrever para esses grupos é uma 
tarefa comum na rotina de um arranjador, é importante que você conheça 
algumas formações instrumentais tradicionais. Dentre as principais formações 
instrumentais podemos destacar: os quartetos de cordas, as orquestras de 
cordas, as orquestras tradicionais, as big bands, as bandas sinfônicas, as 
bandas marciais e os quintetos de sopros. 
 
1 Uma bigorna atua como solista na obra Feuerfest! de Josef Strauss. 
2 O compositor Toru Takemitsu utiliza tigelas tradicionais japonesas na obra From me flows what 
you call Time. 
3 Tiros de canhão foram escritos na partitura da obra Abertura 1812 do compositor russo 
Tchaikovsky. 
 
 
10 
O quarteto de cordas é composto por dois violinos (nomeados na 
partitura como violino I e violino II), uma viola e um violoncelo. A figura abaixo 
apresenta um excerto de partitura escrito para quarteto de cordas. 
 
Figura 4 – Excerto da música Se essa rua fosse minha arranjado para quarteto 
de cordas. 
Crédito: Hugo Yasha, 2021. 
Segundo Correa “uma orquestra de cordas é formada por violinos 
(agrupados em violino I e violino II), violas, violoncelos e contrabaixo(s)” (2020, 
p.33, grifo nosso). Enquanto o quarteto de cordas é formado apenas por quatro 
intérpretes, uma orquestra de cordas costuma variar entre 12 e 21 músicos. Na 
prático isso significa que vários músicos executarão uma mesma pauta. 
As tradicionais orquestras ocidentais conservam uma formação 
consolidada aproximadamente no final do século XIX. Dourado afirma que a 
orquestra moderna é formada por: 
Violinos, violas, violoncelos e contrabaixos (em números aproximados: 
32, 12, 12 e 8, respectivamente), oboés, flautas, clarinetas e fagotes 
(em grupos de quatro cada, incluindo músicos que costumam alternarcom oboé e corne inglês, flauta e piccolo, clarineta e clarone, e fagote 
e contrafagote), 4 trompetes, 3 trombones, 5 a 8 trompas, 1 tuba, 
tímpanos, percussão miscelânea, harpa e piano. (DOURADO, 2004, p. 
238-239) 
 
Cabe ressaltar que cada época teve o seu tipo de orquestra. Ao 
analisarmos partituras anteriores ao século XIX é possível observar que a 
formação citada por Dourado sofre alterações. Apesar disso, as orquestras 
 
 
11 
ocidentais sempre conservaram uma estrutura com instrumentos de sopro, arco 
e percussão. A figura abaixo apresenta um exemplo de partitura orquestral. 
 
Figura 5 – Primeira página da partitura da música Bolero de Ravel. 
Fonte: Figura retirada do livro Arranjo Musical (RAVEL, 1928, p.1 apud 
CORREA, 2020, p. 36). 
 
As big bands nasceram nos Estados Unidos e possuem sua história 
intimamente relacionada ao jazz. Uma partitura escrita para a formação 
tradicional da big band deve conter respectivamente os seguintes instrumentos: 
saxofone alto I, saxofone alto II, saxofone tenor I, saxofone tenor II, saxofone 
barítono, trompete I, trompete II, trompete III, trompete IV, trombone I, trombone 
 
 
12 
II, trombone III, trombone IV (ou trombone baixo), guitarra elétrica, piano, baixo 
(acústico ou elétrico) e bateria. 
 As bandas marciais e as bandas sinfônicas são grupos estruturados 
sobre instrumentos de sopro e instrumentos de percussão. A principal diferença 
entre os grupos reside na mobilidade, pois as bandas sinfônicas se apresentam 
em salas de concerto, já as bandas marciais tocam em marchas e desfiles. 
Devido a necessidade de mobilidade das bandas marciais, o conjunto 
instrumental sofre alterações. Correa (2020) cita o exemplo das tubas que, nas 
bandas marciais, são substituídas por sousafones. 
 Consolidado nos séculos XIX e XX, o quinteto de sopros é formado 
respectivamente por flauta, oboé, clarinete, trompa e fagote. A emissão de som 
em cada um desses instrumentos ocorre de forma distinta (exceto entre oboé e 
fagote, pois ambos possuem palheta dupla), assegurando assim um caráter 
heterogêneo ao grupo. 
Antes de escrever uma partitura para algum dos grupos supracitados – ou 
mesmo para outras formações tradicionais não citadas nesse tópico – é 
importante que você realize análises de partituras e ouça obras já escritas para 
o grupo em questão. Desse modo, é possível compreender padrões de notação 
e conhecer possíveis sonoridades pertinentes à cada conjunto. 
TEMA 5 – PLANEJAMENTO PARA ELABORAÇÃO DO ARRANJO 
Considere a seguinte situação: você estuda os aspectos técnicos e 
teóricos do arranjo musical e então aparece a primeira oportunidade de trabalho 
na área. O cliente quer que você – arranjador – faça um arranjo de uma canção 
para um coral amador. Como você deve proceder nessa situação? Apenas o 
próprio arranjador pode responder essa pergunta com exatidão. 
Caso o cliente solicitasse o mesmo trabalho para 10 arranjadores 
diferentes, certamente teríamos 10 metodologias de trabalho distintas. Essa 
situação ilustra um importante fato comum no exercício do arranjo musical: não 
existem regras ou modelos que assegurem a qualidade de uma obra e o 
andamento de um arranjo. Arranjadores experientes tendem a compreender seu 
próprio ritmo de trabalho e processo criativo, para assim administrarem as 
tarefas da maneira que melhor lhes convier. Pontuada essa infinita abertura 
proporcionada pelas artes, frisamos que nosso objetivo nos parágrafos seguintes 
é apresentar sugestões de planejamento voltadas especialmente para 
 
 
13 
arranjadores iniciante, que muitas vezes se sentem perdidos devido ao imenso 
número de possibilidades. 
Na situação apresentada no primeiro parágrafo desse capítulo existe um 
elemento de exímia importância para a realização do trabalho: o arranjo deve ser 
adequado para um coral amador. Nesse caso, é possível que um arranjo 
considerado bom para um coral profissional não funcione dentro do contexto 
solicitado pelo cliente, resultando assim num trabalho menos efetivo. 
O ponto fundamental de qualquer arranjo é o contexto. O papel do 
arranjador é criar um arranjo que funcione para a situação na qual a música será 
inserida. Não existem fórmulas para compreender quais ferramentas serão mais 
apropriadas. Recomendamos que, primeiramente, o arranjador interaja com o 
cliente com o objetivo de descobrir o máximo de informações possível acerca do 
arranjo. Correa (2020) sugere que durante a interação com o cliente sejam feitas 
algumas perguntas como: quem são os intérpretes? Qual a quantidade de 
intérpretes? Qual o nível técnico dos intérpretes? Quais são os instrumentos e/ou 
vozes? O arranjo será apresentado ao vivo ou gravado em estúdio? Qual a 
finalidade do arranjo? Quanto tempo hábil o grupo tem para ensaiar? Qual a 
duração do arranjo? Qual é o público-alvo do arranjo? Os instrumentos serão 
amplificados? 
Responder algumas dessas perguntas pode auxiliar no orçamento que 
você passará para o cliente, pois será possível projetar de maneira mais precisa 
o trabalho como um todo. Correa (2020) sugere uma possível organização do 
trabalho em sete etapas conforme disposto no quadro abaixo. 
Quadro 1 – Possíveis etapas para a elaboração de um arranjo 
Etapa Objetivo 
Interação com o cliente Compreender o contexto do arranjo 
Conhecer a música Obter o domínio do conteúdo musical da obra 
Preparação da partitura Criar a partitura com os instrumentos necessários e as 
informações sobre a música. 
Transcrição Transcrever a melodia e a harmonia da música 
Arranjo Realizar a adaptação/reinvenção da música. 
Edição Garantir a legibilidade e fluidez das partituras. 
Envio Entregar o resultado final para o cliente. 
Fonte: Quadro transcrito do livro Arranjo Musical (Correa, 2020, p.44-45). 
 Ao analisarmos a metodologia proposta por Correa podemos inferir que a 
etapa intitulada “Arranjo” é a única que possui um caráter predominantemente 
 
 
14 
criativo. As demais tarefas podem ser consideradas mecânicas (transcrever, por 
exemplo, é uma tarefa que não costuma exigir criatividade). 
 Caso seja possível, recomendamos que o arranjador acompanhe os 
ensaios e assista a apresentação e/ou a gravação de seu arranjo. O resultado 
prático obtido no final do processo auxilia o arranjador a lapidar suas 
ferramentas, aprimorando assim sua habilidade para futuros arranjos. 
NA PRÁTICA 
Uma das primeiras dificuldades práticas enfrentadas por arranjadores 
iniciantes é o domínio de um software de notação musical. Nesses casos, o 
arranjador sabe o que deve fazer, mas não sabe como deve fazer, pois não 
consegue encontrar os recursos necessários para realizar a notação musical. A 
atividade aqui proposta tem por objetivo auxiliar o estudante a vencer essa 
barreira inicial. 
 Primeiramente, selecione uma música que você goste e procure por sua 
respectiva partitura. Caso você tenha dificuldade em encontrar a partitura, volte 
à primeira etapa e selecione outra música. Uma vez encontrada a partitura, 
realize a transcrição da melodia e da harmonia por meio de um software de 
notação musical. 
A figura abaixo apresenta um exemplo de transcrição da melodia e da harmonia 
da obra Se essa rua fosse minha. 
Figura 6 – Exemplo de atividade prática. 
Crédito: Hugo Yasha, 2021. 
 
 
15 
 Caso surjam dificuldades no percurso, é possível encontrar auxílio nos 
manuais dos softwares e em fóruns especializados. Tenha em mente que, ao 
final do processo, você poderá utilizar a partitura escrita como portfólio. 
FINALIZANDO 
Nesta aula, abordamos a definição de arranjo musical, que pode ser 
compreendido como o trabalho criativo que se desenvolve a partir de 
determinada matéria-prima previamente composta. Existem diversas formas de 
grafarmos um arranjo, contudo, a partitura é a forma de notação musical 
predominante no contexto mercadológico do arranjo. Atualmente escrevemos 
partituras por meio de softwaresespecializados, pois dessa forma a leitura 
independe da caligrafia do arranjador. 
Contudo, não basta saber escrever partituras para realizar arranjos, pois 
é necessário conhecer os instrumentos musicais individualmente e 
coletivamente (como parte de um determinado grupo). Conhecimento este que 
é essencial para que o arranjador extraia dos instrumentos musicais o som que 
melhor lhes convém. 
Além do conhecimento técnico e teórico, é importante que o arranjador 
compreenda o contexto do arranjo que ele está criando. Um arranjo considerado 
bom para um quarteto de cordas profissional pode não funcionar para um 
quarteto de cordas de estudantes. O nível técnico dos intérpretes, a ocasião na 
qual o arranjo será apresentado e a duração do arranjo são algumas situações 
que podem determinar o contexto de um arranjo. 
Após compreender o contexto, o arranjador inicia a elaboração do arranjo. 
Não existem fórmulas ou receitas capazes de assegurar a qualidade de um 
arranjo. Recomendamos que você observe o seu processo criativo. Assim, será 
possível elaborar um planejamento que se adeque ao seu ritmo de trabalho e a 
sua rotina. 
 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
ADLER, S. The Study of Orchestration. 3. Ed. New York: W. W. Norton & 
Company, 2002. 
ALMADA, C. Arranjo. Campinas: Ed. Da Unicamp, 2000. 
CORREA, H. Arranjo musical. Curitiba: InterSaberes, 2020. 
DOURADO, H. Dicionário de termos e expressões na música. São Paulo: Ed. 
34, 2004. 
GUEST, I. Arranjo: método prático. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996a. v.1. 
_____. Arranjo: método prático. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996b. v.2. 
_____. Arranjo: método prático. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996c. v.3. 
RAVEL, M. Bolero, 1928. 1 partitura. 41 p. Disponível em: 
. Acesso em: 13 abr.2021.

Mais conteúdos dessa disciplina