Prévia do material em texto
ARRANJO MUSICAL AULA 1 Prof. Hugo Leonardo Martins Correa 2 CONVERSA INICIAL O arranjo musical é uma disciplina prática que – de maneira similar à composição musical – possui intrínsecas relações com uma série de outras disciplinas no âmbito musical. Nesta aula, o nosso objetivo é apresentar, em cinco tópicos, algumas características e fundamentos inerentes ao arranjo musical. O primeiro tópico desta aula propõe uma discussão acerca da definição do termo arranjo musical. No segundo tópico, discorreremos sobre a importância da partitura como forma de notação musical. Contudo, apenas escrever corretamente partituras não assegura a qualidade de um arranjo, pois é preciso extrair dos instrumentos musicais a sonoridade que melhor lhes convém, tema este que será abordado nos tópicos 3 e 4. Por fim, no quinto e último tópico apresentamos algumas formas de planejar um arranjo musical, visando auxiliar o arranjador iniciante na criação de um percurso para a realização dos primeiros arranjos. TEMA 1 – DEFININDO ARRANJO MUSICAL É raro encontrarmos um livro sobre arranjo musical que apresente uma discussão aprofundada acerca de possíveis definições para o termo. Possivelmente, o maior problema em relação ao conceito do arranjo musical é a sua intrínseca relação com o exercício da composição. Deste modo, é difícil encontrar uma definição absoluta que estabeleça claras fronteiras entre arranjo e composição. Para Carlos Almada (2000) e Ian Guest (1996a, 1996b, 1996c) ambas as atividades possuem uma natureza criativa, permitindo assim existam técnicas e ferramentas comuns. Pontuada a interseção que existe entre composição e arranjo, podemos afirmar que o arranjo musical é o trabalho criativo que se desenvolve a partir de determinada matéria-prima previamente composta. Dois elementos se destacam na definição proposta: [1] o trabalho criativo e [2] a matéria-prima previamente composta. A existência desses dois itens é essencial para classificar uma atividade como arranjo musical. Para esmiuçarmos esta definição, apresentamos abaixo algumas situações comumente encontradas no mercado de trabalho que costumam ser classificadas como arranjo musical. 3 Considere a seguinte situação: um coral especializado em samba solicita para você – arranjador – uma adaptação da música “Se essa rua fosse minha”. Segundo o cliente, o arranjo deve ser adequado para o nível técnico dos coralistas e deve assimilar características do samba, de modo a se encaixar no repertório do grupo. Para realizar o trabalho, você utiliza a melodia e a harmonia básica da música e cria uma nova versão da obra utilizando padrões rítmicos do samba. Observe que, na situação descrita, a matéria-prima previamente composta se refere à melodia e harmonia básica da música em questão. A partir desta matéria-prima o arranjador desenvolve um trabalho criativo visando atingir as orientações sugeridas pelo cliente. A música é reconhecida pelo público devido a matéria-prima, contudo, é possível perceber que se trata de uma nova versão. Por fim, podemos afirmar que a referida situação descreve um arranjo musical. Agora considere a seguinte situação: você compõe uma melodia e a harmoniza. Essa primeira etapa pode ser compreendida como composição, pois ela é responsável por gerar uma determinada matéria-prima. Em seguida, você cria um acompanhamento e contracantos utilizando técnicas de arranjo. A segunda etapa pode ser compreendida como arranjo, pois se trata de um trabalho criativo (a elaboração dos acompanhamentos) elaborado a partir de uma matéria-prima previamente composta (melodia e harmonia). Comumente, essa situação costuma ser descrita apenas como composição musical, contudo, ao analisarmos os procedimentos adotados podemos perceber que – no exemplo descrito – é possível separar as etapas de composição e arranjo. Essa última situação pode ainda apresentar um desdobramento: o compositor poderia criar a melodia, a harmonia, o acompanhamento e os contracantos simultaneamente. Descrever onde termina a composição e inicia o arranjo neste caso é uma tarefa complicada e muitas vezes impossível, especialmente se considerarmos que o processo criativo não costuma ocorrer de maneira linear. Cabe ressaltar que, em todas as situações hipotéticas apresentadas, a matéria-prima previamente composta se refere à melodia e harmonia de uma música. Essa concepção de matéria-prima é a mais comum dentro do arranjo musical. As situações descritas são corriqueiras no mercado de trabalho. Ao considerarmos tais atividades podemos compreender que a criatividade é 4 essencial para a realização de um arranjo musical. “Nesse contexto, podemos entender a criatividade como a habilidade de aplicar o conhecimento teórico em novas situações concretas, cabendo ao arranjador determinar qual ferramenta será mais adequada para cada situação” (Correa, 2020, p. 19). TEMA 2 – ESCRITA E COMUNICAÇÃO Existem diversas maneiras de se grafar uma música. Partitura, tablatura, musicografia Braille e partitura gráfica são apenas algumas formas de notação musical. Apesar da existência dessas diversas formas de notação, podemos observar que a partitura é a forma de notação musical predominante no mercado de trabalho e nas bibliografias de arranjo. Devido a esse padrão, todos os arranjos da disciplina serão apresentados na partitura. A partitura é um conjunto de sinais gráficos que capaz de imprimir um significado e expressar determinadas nuances do som. Um equívoco comum ao escrever uma partitura ocorre quando o arranjador apenas insere notas e ritmos. Uma partitura pode – e muitas vezes deve – expressar mais informações. A intensidade com a qual as notas devem ser executadas podem ser grafadas com sinais de dinâmica. A maneira como as notas são alternadas podem ser grafadas com sinais de articulação. Ao menos uma indicação de andamento deve ser sinalizada para que o intérprete compreenda o andamento da obra. Em arranjos mais longos, a inserção de letras de ensaio é um elemento padronizado no mercado editorial de partituras. Esses são apenas alguns elementos que evidenciam a complexidade presente na escrita de partituras. A figura abaixo representa uma partitura com todas as indicações supracitadas. Figura 1 – Exemplo de partitura Crédito: Hugo Yasha, 2021. 5 Atualmente são raras as ocasiões nas quais o arranjador escreve a partitura à mão. O surgimento dos computadores pessoais mudou a maneira como escrevemos partituras, estabelecendo um nítido padrão no mercado de trabalho. Ao escrevermos um arranjo no computador, a formatação e o espaçamento dos elementos são definidos pelo algoritmo do programa, independendo assim da qualidade caligráfica do arranjador. Ao entregarmos um arranjo para um cliente costumamos enviar dois tipos de partituras: a grade e as partituras individuais. Segundo Dourado, a grade é a partitura que “representa todos os instrumentos do conjunto ou da orquestra” (2004, p. 149). Em grupos com muitos instrumentos musicais é comum que a grade seja impressa no formato paisagem em papéis de tamanhos maiores (normalmente A3) para que seja possível visualizar todas as informações. A figura abaixo representa a primeira página da grade de uma composição. Figura 2 – Primeira página da grade da música Vai dar certo! Crédito: Hugo Yasha, 2021. Enquanto as grades representam todos os instrumentos de um conjunto, as partituras individuais (também chamadas de partes) contém apenas as informações de um único instrumento musical (Dourado, 2004). Num grupo com 6 diversos instrumentos, é comum que apenas o regente fique com a grade, enquanto cada intérprete utilize a partitura individual referente ao seu respectivo instrumento. A figura 3 apresenta uma das partituras individuais extraídasda música Vai dar certo! . Figura 3 – Partitura individual do saxofone alto 1 da música Vai dar certo. Crédito: Hugo Yasha, 2021. No passado era necessário escrever manualmente a grade e cada uma das partituras individuais. Hoje, os softwares de notação musical geram 7 automaticamente as partituras individuais conforme o arranjador constrói a grade. Dentre os softwares de notação musical mais comuns no mercado destacam-se o Finale, o Sibelius e o Musescore. Para o exercício da profissão de arranjador é imprescindível o domínio de um desses softwares, pois – conforme citado anteriormente – o padrão mercadológico impõe uma qualidade editorial que dificilmente é atingida numa partitura manuscrita. TEMA 3 – CLASSIFICAÇÃO DOS INSTRUMENTOS A classificação dos instrumentos musicais é uma tarefa que rendeu diversos estudos ao longo da história. Dentre as muitas formas de categorizar os instrumentos musicais destaca-se a classificação proposta por Erich Moritz von Hornbostel e Curt Sachs, intitulada classificação Hornbostel-Sachs. Essa classificação foi uma das primeiras que extrapolou os instrumentos europeus e abarcou instrumentos de culturas e lugares distintos. Outro sistema de categorização relevante é a classificação por naipes. Esse sistema divide os instrumentos considerando aspectos interpretativos, históricos e musicais (Correa, 2020). 3.1 Classificação Hornbostel-Sachs A classificação Hornbostel-Sachs possui a primícia de categorizar os instrumentos musicais de acordo com as propriedades físicas responsáveis pela emissão do som, resultando assim em cinco principais grupos: idiofones, membranofones, cordofones, aerofones e eletrofones. Os instrumentos classificados como idiofones são aqueles cujo som é proveniente da vibração do próprio corpo do instrumento, não necessitando assim de membranas ou cordas. Podemos observar exemplos de idiofones nos pratos de uma bateria. Os membranofones são os instrumentos musicais cujo som é produzido “pela vibração de uma membrana estendida e tensionada” (Correa, 2020, p.26). Essa categoria engloba todos os tambores (são exemplos o bumbo, a caixa-clara e a conga). Os instrumentos musicais classificados como cordofones são aqueles cuja emissão sonora depende da vibração de uma ou mais cordas. Alguns 8 cordofones – como o violão, por exemplo – contam com uma caixa de ressonância que, dentre diversas funções, amplifica o som do instrumento. Para Correa, “os aerofones são os instrumentos musicais nos quais o som é gerado através de colunas de ar que normalmente são contidas dentro do corpo dos instrumentos” (2020, p. 29, grifo do original). São exemplos dessa categoria as flautas e o órgão de tubos. O termo eletrofones é compreendido como a “designação genérica para aparelhos musicais eletroacústicos ou eletromecânicos que produzem som por meio de alto-falantes” (Dourado, 2004, p. 119). Os sintetizadores são exemplos dessa categoria. O sistema Hornbostel-Sachs subdivide cada uma das cinco categorias supracitadas em centenas de subcategorias. Mesmo com uma vasta gama de classificações, é possível encontrar instrumentos musicais que se encaixam em mais de uma categoria. 3.2 Classificação por naipes Os naipes – também chamados de seções – são grupos de instrumentos musicais que se consolidaram historicamente na formação das orquestras ocidentais. Essas orquestras costumam ser divididas em quatro naipes: cordas, madeiras, metais e percussão. Numa orquestra, o naipe das cordas é composto predominantemente por instrumentos de cordas friccionadas (violinos, violas, violoncelos e contrabaixos). Esses instrumentos tiveram suas respectivas construções consolidadas por volta de 1700, sendo assim o primeiro naipe a ser amplamente explorado e estudado pelos compositores (Adler, 2002). Mais tarde, no século XIX, a harpa conquistou seu espaço na orquestra devido à aperfeiçoamentos em sua construção (Dourado, 2004). Dentro do naipe das cordas, a harpa é classificada como um instrumento de cordas pinçadas. O naipe das madeiras é composto por flautas, clarinetes, oboés, fagotes e saxofones. Cada um desses instrumentos faz parte de uma respectiva família que pode englobar mais instrumentos. Por exemplo, é comum a utilização de quatro diferentes flautas nas orquestras: a flauta soprano (a mais comum), o flautim, a flauta contralto e a flauta baixo (Adler, 2002). O naipe dos metais é composto por trompetes, trompas, trombones e tubas. Assim como no naipe das madeiras, os instrumentos presentes no naipe 9 dos metais também possuem famílias. Logo, é possível encontrar – por exemplo – diversos trompetes diferentes numa orquestra. O naipe da percussão é o mais vasto da orquestra. Dentre os instrumentos que aparecem com mais frequência nesse grupo podemos destacar os tímpanos, os pratos, o bumbo sinfônico, a caixa-clara e a marimba. Além de instrumentos musicais tradicionais, o naipe da percussão pode incluir diferentes e inusitados objetos como bigornas1, tigelas2 e canhões3. Fora das orquestras tradicionais europeias, é possível observamos a existência de um quinto naipe: a base (ou seção rítmico-harmônica). O naipe da base possui uma sonoridade heterogênea devido aos diferentes instrumentos que compõem a seção: guitarra, violão, piano, baixo elétrico e bateria. Apesar das diferentes construções e sonoridades, os instrumentos da base são agrupados em um único naipe devido à função que juntos eles desempenham na música: executar acompanhamentos. A seção rítmico-harmônica é comumente encontrada em conjuntos instrumentais mais voltados para a música popular. A escrita de partituras voltada para a seção rítmico-harmônica é um dos conhecimentos essenciais para a atividade do arranjo musical, pois uma parcela significativa do mercado trabalho engloba os instrumentos que compõem a base. TEMA 4 – FORMAÇÕES INSTRUMENTAIS TRADICIONAIS No cenário musical atual é comum nos depararmos com determinadas formações instrumentais que – por motivos históricos, interpretativos e musicais – já estão consolidadas. Considerando que escrever para esses grupos é uma tarefa comum na rotina de um arranjador, é importante que você conheça algumas formações instrumentais tradicionais. Dentre as principais formações instrumentais podemos destacar: os quartetos de cordas, as orquestras de cordas, as orquestras tradicionais, as big bands, as bandas sinfônicas, as bandas marciais e os quintetos de sopros. 1 Uma bigorna atua como solista na obra Feuerfest! de Josef Strauss. 2 O compositor Toru Takemitsu utiliza tigelas tradicionais japonesas na obra From me flows what you call Time. 3 Tiros de canhão foram escritos na partitura da obra Abertura 1812 do compositor russo Tchaikovsky. 10 O quarteto de cordas é composto por dois violinos (nomeados na partitura como violino I e violino II), uma viola e um violoncelo. A figura abaixo apresenta um excerto de partitura escrito para quarteto de cordas. Figura 4 – Excerto da música Se essa rua fosse minha arranjado para quarteto de cordas. Crédito: Hugo Yasha, 2021. Segundo Correa “uma orquestra de cordas é formada por violinos (agrupados em violino I e violino II), violas, violoncelos e contrabaixo(s)” (2020, p.33, grifo nosso). Enquanto o quarteto de cordas é formado apenas por quatro intérpretes, uma orquestra de cordas costuma variar entre 12 e 21 músicos. Na prático isso significa que vários músicos executarão uma mesma pauta. As tradicionais orquestras ocidentais conservam uma formação consolidada aproximadamente no final do século XIX. Dourado afirma que a orquestra moderna é formada por: Violinos, violas, violoncelos e contrabaixos (em números aproximados: 32, 12, 12 e 8, respectivamente), oboés, flautas, clarinetas e fagotes (em grupos de quatro cada, incluindo músicos que costumam alternarcom oboé e corne inglês, flauta e piccolo, clarineta e clarone, e fagote e contrafagote), 4 trompetes, 3 trombones, 5 a 8 trompas, 1 tuba, tímpanos, percussão miscelânea, harpa e piano. (DOURADO, 2004, p. 238-239) Cabe ressaltar que cada época teve o seu tipo de orquestra. Ao analisarmos partituras anteriores ao século XIX é possível observar que a formação citada por Dourado sofre alterações. Apesar disso, as orquestras 11 ocidentais sempre conservaram uma estrutura com instrumentos de sopro, arco e percussão. A figura abaixo apresenta um exemplo de partitura orquestral. Figura 5 – Primeira página da partitura da música Bolero de Ravel. Fonte: Figura retirada do livro Arranjo Musical (RAVEL, 1928, p.1 apud CORREA, 2020, p. 36). As big bands nasceram nos Estados Unidos e possuem sua história intimamente relacionada ao jazz. Uma partitura escrita para a formação tradicional da big band deve conter respectivamente os seguintes instrumentos: saxofone alto I, saxofone alto II, saxofone tenor I, saxofone tenor II, saxofone barítono, trompete I, trompete II, trompete III, trompete IV, trombone I, trombone 12 II, trombone III, trombone IV (ou trombone baixo), guitarra elétrica, piano, baixo (acústico ou elétrico) e bateria. As bandas marciais e as bandas sinfônicas são grupos estruturados sobre instrumentos de sopro e instrumentos de percussão. A principal diferença entre os grupos reside na mobilidade, pois as bandas sinfônicas se apresentam em salas de concerto, já as bandas marciais tocam em marchas e desfiles. Devido a necessidade de mobilidade das bandas marciais, o conjunto instrumental sofre alterações. Correa (2020) cita o exemplo das tubas que, nas bandas marciais, são substituídas por sousafones. Consolidado nos séculos XIX e XX, o quinteto de sopros é formado respectivamente por flauta, oboé, clarinete, trompa e fagote. A emissão de som em cada um desses instrumentos ocorre de forma distinta (exceto entre oboé e fagote, pois ambos possuem palheta dupla), assegurando assim um caráter heterogêneo ao grupo. Antes de escrever uma partitura para algum dos grupos supracitados – ou mesmo para outras formações tradicionais não citadas nesse tópico – é importante que você realize análises de partituras e ouça obras já escritas para o grupo em questão. Desse modo, é possível compreender padrões de notação e conhecer possíveis sonoridades pertinentes à cada conjunto. TEMA 5 – PLANEJAMENTO PARA ELABORAÇÃO DO ARRANJO Considere a seguinte situação: você estuda os aspectos técnicos e teóricos do arranjo musical e então aparece a primeira oportunidade de trabalho na área. O cliente quer que você – arranjador – faça um arranjo de uma canção para um coral amador. Como você deve proceder nessa situação? Apenas o próprio arranjador pode responder essa pergunta com exatidão. Caso o cliente solicitasse o mesmo trabalho para 10 arranjadores diferentes, certamente teríamos 10 metodologias de trabalho distintas. Essa situação ilustra um importante fato comum no exercício do arranjo musical: não existem regras ou modelos que assegurem a qualidade de uma obra e o andamento de um arranjo. Arranjadores experientes tendem a compreender seu próprio ritmo de trabalho e processo criativo, para assim administrarem as tarefas da maneira que melhor lhes convier. Pontuada essa infinita abertura proporcionada pelas artes, frisamos que nosso objetivo nos parágrafos seguintes é apresentar sugestões de planejamento voltadas especialmente para 13 arranjadores iniciante, que muitas vezes se sentem perdidos devido ao imenso número de possibilidades. Na situação apresentada no primeiro parágrafo desse capítulo existe um elemento de exímia importância para a realização do trabalho: o arranjo deve ser adequado para um coral amador. Nesse caso, é possível que um arranjo considerado bom para um coral profissional não funcione dentro do contexto solicitado pelo cliente, resultando assim num trabalho menos efetivo. O ponto fundamental de qualquer arranjo é o contexto. O papel do arranjador é criar um arranjo que funcione para a situação na qual a música será inserida. Não existem fórmulas para compreender quais ferramentas serão mais apropriadas. Recomendamos que, primeiramente, o arranjador interaja com o cliente com o objetivo de descobrir o máximo de informações possível acerca do arranjo. Correa (2020) sugere que durante a interação com o cliente sejam feitas algumas perguntas como: quem são os intérpretes? Qual a quantidade de intérpretes? Qual o nível técnico dos intérpretes? Quais são os instrumentos e/ou vozes? O arranjo será apresentado ao vivo ou gravado em estúdio? Qual a finalidade do arranjo? Quanto tempo hábil o grupo tem para ensaiar? Qual a duração do arranjo? Qual é o público-alvo do arranjo? Os instrumentos serão amplificados? Responder algumas dessas perguntas pode auxiliar no orçamento que você passará para o cliente, pois será possível projetar de maneira mais precisa o trabalho como um todo. Correa (2020) sugere uma possível organização do trabalho em sete etapas conforme disposto no quadro abaixo. Quadro 1 – Possíveis etapas para a elaboração de um arranjo Etapa Objetivo Interação com o cliente Compreender o contexto do arranjo Conhecer a música Obter o domínio do conteúdo musical da obra Preparação da partitura Criar a partitura com os instrumentos necessários e as informações sobre a música. Transcrição Transcrever a melodia e a harmonia da música Arranjo Realizar a adaptação/reinvenção da música. Edição Garantir a legibilidade e fluidez das partituras. Envio Entregar o resultado final para o cliente. Fonte: Quadro transcrito do livro Arranjo Musical (Correa, 2020, p.44-45). Ao analisarmos a metodologia proposta por Correa podemos inferir que a etapa intitulada “Arranjo” é a única que possui um caráter predominantemente 14 criativo. As demais tarefas podem ser consideradas mecânicas (transcrever, por exemplo, é uma tarefa que não costuma exigir criatividade). Caso seja possível, recomendamos que o arranjador acompanhe os ensaios e assista a apresentação e/ou a gravação de seu arranjo. O resultado prático obtido no final do processo auxilia o arranjador a lapidar suas ferramentas, aprimorando assim sua habilidade para futuros arranjos. NA PRÁTICA Uma das primeiras dificuldades práticas enfrentadas por arranjadores iniciantes é o domínio de um software de notação musical. Nesses casos, o arranjador sabe o que deve fazer, mas não sabe como deve fazer, pois não consegue encontrar os recursos necessários para realizar a notação musical. A atividade aqui proposta tem por objetivo auxiliar o estudante a vencer essa barreira inicial. Primeiramente, selecione uma música que você goste e procure por sua respectiva partitura. Caso você tenha dificuldade em encontrar a partitura, volte à primeira etapa e selecione outra música. Uma vez encontrada a partitura, realize a transcrição da melodia e da harmonia por meio de um software de notação musical. A figura abaixo apresenta um exemplo de transcrição da melodia e da harmonia da obra Se essa rua fosse minha. Figura 6 – Exemplo de atividade prática. Crédito: Hugo Yasha, 2021. 15 Caso surjam dificuldades no percurso, é possível encontrar auxílio nos manuais dos softwares e em fóruns especializados. Tenha em mente que, ao final do processo, você poderá utilizar a partitura escrita como portfólio. FINALIZANDO Nesta aula, abordamos a definição de arranjo musical, que pode ser compreendido como o trabalho criativo que se desenvolve a partir de determinada matéria-prima previamente composta. Existem diversas formas de grafarmos um arranjo, contudo, a partitura é a forma de notação musical predominante no contexto mercadológico do arranjo. Atualmente escrevemos partituras por meio de softwaresespecializados, pois dessa forma a leitura independe da caligrafia do arranjador. Contudo, não basta saber escrever partituras para realizar arranjos, pois é necessário conhecer os instrumentos musicais individualmente e coletivamente (como parte de um determinado grupo). Conhecimento este que é essencial para que o arranjador extraia dos instrumentos musicais o som que melhor lhes convém. Além do conhecimento técnico e teórico, é importante que o arranjador compreenda o contexto do arranjo que ele está criando. Um arranjo considerado bom para um quarteto de cordas profissional pode não funcionar para um quarteto de cordas de estudantes. O nível técnico dos intérpretes, a ocasião na qual o arranjo será apresentado e a duração do arranjo são algumas situações que podem determinar o contexto de um arranjo. Após compreender o contexto, o arranjador inicia a elaboração do arranjo. Não existem fórmulas ou receitas capazes de assegurar a qualidade de um arranjo. Recomendamos que você observe o seu processo criativo. Assim, será possível elaborar um planejamento que se adeque ao seu ritmo de trabalho e a sua rotina. 16 REFERÊNCIAS ADLER, S. The Study of Orchestration. 3. Ed. New York: W. W. Norton & Company, 2002. ALMADA, C. Arranjo. Campinas: Ed. Da Unicamp, 2000. CORREA, H. Arranjo musical. Curitiba: InterSaberes, 2020. DOURADO, H. Dicionário de termos e expressões na música. São Paulo: Ed. 34, 2004. GUEST, I. Arranjo: método prático. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996a. v.1. _____. Arranjo: método prático. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996b. v.2. _____. Arranjo: método prático. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996c. v.3. RAVEL, M. Bolero, 1928. 1 partitura. 41 p. Disponível em: . Acesso em: 13 abr.2021.