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PANCREATITE AGUDA E CRÔNICA (PANCREATITES) P R O F S . I S A B E L L A P A R E N T E E T O M A S C O E L H O Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites) 2GASTROENTEROLOGIA PROF. ISABELLA PARENTE INTRODUÇÃO: Olá, caríssimo(a) aluno(a), Que maravilha vê-lo aqui! Espero que esteja bem disposto(a), porque o tema que você decidiu estudar hoje é um dos mais cobrados nas provas de Residência Médica quando o assunto é Gastroenterologia! Você sabia disso?! @profaisabella @proftomascoelho @estrategiamed/estrategiamed t.me/estrategiamed Estratégia MED https://www.instagram.com/profaisabella/ https://www.instagram.com/proftomascoelho/ https://www.instagram.com/estrategiamed/ https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://t.me/estrategiamed https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites) 3GASTROENTEROLOGIA DRGE E OUTRAS ESOFAGITES ÚLCERA PÉPTICA E H. PYLORI PÓLIPOS INTESTINAIS E CA COLORRETAL PANCREATITES HEMORRAGIA DIGESTIVA CA ESTÔMAGO DOÊNÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL DISFAGIA, ALTERAÇÕES MOTORALS, ESTRUTURAIS DO ESÔFAGO CA ESÔFAGO CA PÂNCREAS 0 100 3,42% 3,62% 4,28% 7,30% 7,93% 8,46% 8,97% 9,43% 10,59% 12,21% 13,28% 200 300 400 500 600 DIARREIA E SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL TEMAS MAIS PREVALENTES DA GASTROENTEROLOGIA 524 482 418 372 354 334 313 288 169 143 135 Dê uma olhada no gráfico que preparamos para você logo abaixo! Consegue ver o que está ali, no SEGUNDO LUGAR?! As pancreatites (agudas e crônicas)! Esse tema corresponde a 12,21% de todas as questões de Gastroenterologia e costuma ser cobrado tanto no bloco de Clínica Médica quanto de Cirurgia. Eu, particularmente, adoro estudar e ensinar esse tema, então, estou bastante animada com as páginas que virão. Resolvi várias questões sobre pancreatite, revisei os principais livros e guidelines sobre o tema (não são poucos!) e trouxe tudo “mastigadinho”, aqui, para você, da forma mais didática possível. Meu objetivo é que você gabarite TODAS as questões de pancreatite e que, assim como eu, aprenda a AMAR estudar esse tema. Ousada?! Você só saberá quando chegar ao final da leitura... Seguimos juntos nessa?! Prof. Isabella Parente Almeida Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 4 SUMÁRIO 1.0 PANCREATITE AGUDA 8 1.1 ETIOLOGIA 9 1.1.1 LITÍASE BILIAR 9 1.1.2 ÁLCOOL 11 1.1.3 HIPERTRIGLICERIDEMIA 11 1.1.4 MEDICAMENTOS 11 1.1.5 COLANGIOPANCREATOGRAFIA RETRÓGRADA ENDOSCÓPICA (CPRE) 13 1.1.6 TRAUMA 13 1.1.7 HIPERCALCEMIA 13 1.1.8 ALTERAÇÕES ANATÔMICAS 13 1.1.9 INFECÇÕES E TOXINAS 14 1.1.10 DISTÚRBIOS VASCULARES 14 1.1.11 GENÉTICA 14 1.1.12 IDIOPÁTICA 14 1.2 FISIOPATOLOGIA 17 1.3 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 20 1.3.1 DOR ABDOMINAL 20 1.3.2 NÁUSEAS E VÔMITOS 20 1.3.3 OUTROS SINTOMAS 21 1.4 DIAGNÓSTICO 25 1.4.1 AMILASE 26 1.4.2 LIPASE 28 1.4.3 OUTROS EXAMES LABORATORIAIS 29 1.4.4 ULTRASSONOGRAFIA DE ABDOME 31 1.4.5 TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DE ABDOME 32 1.4.6 OUTROS EXAMES DE IMAGEM 35 1.5 AVALIAÇÃO DA GRAVIDADE 36 1.5.1 FATORES DE RISCO PARA GRAVIDADE 36 1.5.2 CRITÉRIOS DE RANSON 37 Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 5 1.5.3 APACHE II (ACUTE PHYSIOLOGY AND CHRONIC HEALTH EVALUATION) 40 1.5.4 ESCORE DE MARSHALL 41 1.5.5 BISAP (BEDSIDE INDEX OF SEVERITY IN ACUTE PANCREATITIS) 42 1.5.6 CLASSIFICAÇÃO DE ATLANTA REVISADA 43 1.6 DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS 47 1.7 COMPLICAÇÕES 48 1.7.1 COLEÇÃO FLUIDA PERIPANCREÁTICA AGUDA (CFPA) 49 1.7.2 PSEUDOCISTO PANCREÁTICO 50 1.7.3 COLEÇÃO NECRÓTICA AGUDA (CNA) 51 1.7.4 NECROSE PANCREÁTICA DELIMITADA/MURADA OU WALLED-OFF NECROSIS 52 1.7.5 NECROSE INFECTADA 53 1.7.6 TROMBOSE VENOSA PORTAL E ESPLÊNICA 54 1.7.7 RUPTURA DO DUCTO PANCREÁTICO 55 1.7.8 PSEUDOANEURISMA 55 1.7.9 COMPLICAÇÕES SISTÊMICAS X FALÊNCIA ORGÂNICA 55 1.8 TRATAMENTO 57 1.8.1 RESSUSCITAÇÃO VOLÊMICA 57 1.8.2 CONTROLE ÁLGICO 58 1.8.3 DIETA 58 1.8.4 ANTIBIOTICOTERAPIA 59 1.8.5 TRATAMENTO DAS COMPLICAÇÕES 62 1.8.6 TRATAMENTO CONFORME ETIOLOGIA 66 2.0 PANCREATITE CRÔNICA 69 2.1 ETIOLOGIA E FATORES DE RISCO 70 2.1.1 ÁLCOOL 70 2.1.2 TABAGISMO 71 2.1.3 HIPERTRIGLICERIDEMIA 71 2.1.4 GENÉTICA 71 2.1.5 AUTOIMUNE 71 2.1.6 CAUSAS OBSTRUTIVOS 72 2.1.7 IDIOPÁTICA 72 2.1.8 RECORRÊNCIA/RECIDIVA DE PANCREATITE AGUDA 72 Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 6 2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 74 2.2.1 DOR ABDOMINAL 74 2.2.2 MÁ DIGESTÃO 75 2.2.3 DIABETES MELLITUS 75 2.2.4 OUTROS SINTOMAS 75 2.3 COMPLICAÇÕES 77 2.3.1 PSEUDOCISTO 77 2.3.2 OBSTRUÇÃO DUODENAL OU DO DUCTO BILIAR 80 2.3.3 PSEUDOANEURISMA 80 2.3.4 DERRAMES INTRACAVITÁRIOS 81 2.3.5 TROMBOSE DA VEIA ESPLÊNICA 81 2.3.6 INSUFICIÊNCIA PANCREÁTICA ENDÓCRINA 81 2.3.7 CÂNCER DE PÂNCREAS 81 2.4 DIAGNÓSTICO 82 2.4.1 EXAMES DE IMAGEM 82 2.4.2 EXAMES ENDOSCÓPICOS 85 2.4.3 TESTES FUNCIONAIS 87 2.5 TRATAMENTO CLÍNICO 91 2.5.1 ORIENTAÇÕES 91 2.5.2 CONTROLE ÁLGICO 92 2.5.3 ENZIMAS PANCREÁTICAS 93 2.5.4 SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINAS 93 2.5.5 TRIGLICERÍDEOS DE CADEIA MÉDIA 93 2.6 TRATAMENTO CIRÚRGICO 94 2.6.1 DUCTO PANCREÁTICO DILATADO 96 2.6.1.1 PROCEDIMENTO DE PUESTOW 96 2.6.1.2 PROCEDIMENTO DE FREY 98 2.6.1.3 PROCEDIMENTO DE DUVAL/ZOLLINGER 99 2.6.2 DUCTO PANCREÁTICO SEM DILATAÇÃO 99 2.6.2.1 ACOMETIMENTO DA CABEÇA/PROCESSO UNCINADO DO PÂNCREAS 100 2.6.2.1.1 DUODENOPANCREATECTOMIA 100 Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 7 2.6.2.1.2 RESSECÇÃO DA CABEÇA PANCREÁTICA COM PRESERVAÇÃO DUODENAL (PROCEDIMENTO DE BERGER) 100 2.6.2.2 ACOMETIMENTO DO CORPO E DA CAUDA DO PÂNCREAS 101 2.6.2.2.1 PANCREATECTOMIA DISTAL 101 2.6.2.3 ACOMETIMENTO DIFUSO DO PÂNCREAS 102 2.6.2.3.1 PANCREATECTOMIA TOTAL 102 3.0 LISTA DE QUESTÕES 106 4.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 107 5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 110 Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 8 1.0 PANCREATITE AGUDA O pâncreas é um órgão incrível! Sua anatomia e fisiologia já foram inteiramente destrinchadas por nós e, se você ainda não estudou, recomendo fortemente que retorne ao livro de "Anatomia e Fisiologia do Pâncreas e Neoplasias Pancreáticas". A menos que você esteja 100% seguro de que domina essa parte mais “básica” do estudo, recomendo que não pule etapas. Isso pode dificultar sua completa compreensão do que estudaremos a partir de agora... Sem mais delongas, vamos começar com o estudo da PANCREATITE AGUDA! A “queridinha” de prova merece destaque por ser bem mais exigida do que a pancreatite crônica. Que tal uma boa definição para iniciarmos seu entendimento? CAPÍTULO Pancreatite aguda é o nome dado ao processo inflamatório agudo que afeta o pâncreas, podendo envolver tecidos peripancreáticos e/ou outros órgãos. A pancreatite aguda (PA) é, provavelmente, a principal causa gastrointestinal que motiva internação nos Estados Unidos. Sua incidência vem aumentando ao longo dos anos, embora varie nos diferentes países e regiões, a depender de sua etiologia (se alcóolica, biliar etc.). No Brasil, a incidência média de PA no ano de 2014 foi de 19 casos para cada 100.000 habitantes. Embora cerca de 90% dos portadores de pancreatite aguda apresentem quadro leve e autolimitado, em torno de 10% irão evoluir de uma forma REVISÃO 2012 – CLASSIFICAÇÃO DE ATLANTA – SUBTIPOS DE PANCREATITE AGUDA Pancreatite aguda edematosa intersticial: cursa com aumento difuso ou localizado do pâncreas secundárioO que você precisa decorar desses critérios?! O ideal seria memorizar tudo, inclusive valores. Saber se o critério faz parte do grupo dos critérios admissionais ou daqueles considerados após as primeiras 48 horas da admissão também é importante. Os critérios admissionais de Ranson relacionam-se aos fatores de risco e marcadores de inflamação, enquanto aqueles avaliados após as 48 horas relacionam-se, principalmente, aos sinais de falência orgânica. Vou tentar facilitar isso para você por meio de alguns mnemônicos. Vamos lá?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 39 Que tal algumas questões ilustrativas sobre o assunto?! CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO SERGIPE – SE – 2020) São utilizados como critérios prognósticos na pancreatite aguda, EXCETO: A) Idade. B) TGP (ALT). C) Desidrogenase lática. D) Glicemia. COMENTÁRIO: Entre as alternativas, a única que não contempla critério de gravidade de Ranson é a alternativa B. A AST (TGO) é critério admissional de gravidade segundo Ranson, e não a ALT (TGP). Atenção! Questões com essa “pegadinha” são muito frequentes! Gabarito: alternativa B. (HOSPITAL MILITAR DE AÉREA DE SÃO PAULO - HMASP) Paciente de sexo feminino, de 45 anos é atendida no pronto atendimento do Hospital do Exército com história de dor abdominal, em andar superior do abdome, em faixa, acompanhada de vários episódios de vômitos, há 12 horas da entrada. Ao exame físico apresenta-se hemodinamicamente estável, com dor difusa à palpação abdominal, pior em epigástrio e mesogástrio, descompressão brusca negativa. Os exames laboratoriais mostram amilase 1030 U/L. Qual a principal hipótese diagnóstica e os exames laboratoriais iniciais para auxílio na avaliação de gravidade? A) Úlcera perfurada, exames: glicemia, TGO, TGP, fosfatase alcalina. B) Pancreatite aguda, exames: glicemias, leucograma, DHL, TGO. C) Pancreatite aguda, exames: glicemia, bilirrubinas, fosfatase alcalina. D) Pancreatite aguda, exames: lipase, gama- GT, glicemia. E) Úlcera perfurada, exames: glicemia, TGO, DHL. COMENTÁRIO: Para diagnóstico de pancreatite aguda, o doente deverá preencher dois dos três critérios seguintes: • Clínico: dor abdominal quadrante superior associada a náuseas e vômitos. • Laboratorial: aumento de amilase e/ou lipase acima de três vezes o limite superior da normalidade. • Imagem: alterações típicas de pancreatite aguda nos exames de imagem. Ou seja: podemos concluir que o paciente fecha critérios para pancreatite aguda (clínico + laboratorial). E que exames deveremos solicitar na admissão? Leucograma, glicemia, LDH e TGO, pois fazem parte dos critérios admissionais de Ranson e servirão para predizer a gravidade do quadro. Gabarito: alternativa B. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 40 1.5.3 APACHE II (ACUTE PHYSIOLOGY AND CHRONIC HEALTH EVALUATION) Trata-se de escore complexo, porém com a vantagem de poder ser completamente aplicado na admissão ou em qualquer momento da internação do paciente, ao contrário do escore de Ranson, que precisa de pelo menos 48 horas para ser calculado. O APACHE II baseia-se na idade, em comorbidades e em 12 medidas fisiológicas. Trata-se de escore destinado não só à pancreatite aguda, mas a qualquer outro doente crítico, sendo o mais amplamente validado entre os escores preditores de gravidade na pancreatite aguda. Assim como o escore de Ranson, apresenta baixo valor preditivo positivo (49%) e elevado valor preditivo negativo (89%). Por ser escore extremamente complexo, felizmente não há a necessidade de decorá-lo. Porém, deixo abaixo tabela constando as variáveis avaliadas pelo APACHE II. Variáveis avaliadas pelo APACHE II Idade: 400 301-400 201-300 101-200 5 Cardiovascular PAs, mmHg > 90 60 anos 1 ponto Derrame pleural 1 ponto Ureia > 50 mg/dL 1 ponto SIRS ≥ 2 critérios (FC > 90bpm; FR > 24 irpm ou PaCO2 38 oC ou 12.000 ou >10% formas jovens oué que seu nome serve como mnemônico para os critérios considerados, observe: B → BUN (blood urea nitrogen) > 50 mg/dL I → idade > 60 anos S → SIRS ≥ 2 critérios A → alteração do estado mental P → pleural (derrame pleural) PANCREATITE AGUDA É CONSIDERADA GRAVE QUANDO BISAP ≥ 2 PONTOS! Confira abaixo questão que aborda o critério de BISAP: CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR) – SP – 2020) Atualmente, um dos escores de gravidade mais utilizados em pancreatite aguda trata-se do BISAP (Bed Side Index), que consta de 5 critérios. São eles: A) Ureia ou BUN, alteração do status mental, presença de SIRS, Idade e derrame pleural B) Bilirrubina, INR, presença de SIRS, Amilase e alteração do pulso C) Bilirrubina, Idade, alteração do Status mental, Amilase, derrame pleural D) Ureia ou BUN, Idade, presença de SIRS, Alteração pressórica e derrame pleural E) Bilirrubina, INR, alteração do Status mental, Amilase, alteração pressórica COMENTÁRIO: Agora que acabamos de estudar, a questão ficou simples, não é mesmo?! O BIPSAP está entre os critérios criados mais recentemente para avaliar prognóstico na pancreatite aguda e destaca-se por sua simplicidade. Que tal relembrá-lo?! Ureia > 50 mg/dL (BUN); idade > 60 anos; SIRS ≥ 2 critérios; alteração de estado mental; e derrame pleural. Tais critérios estão comtemplados na alternativa C. Gabarito: alternativa C. 1.5.6 CLASSIFICAÇÃO DE ATLANTA REVISADA A classificação de Atlanta, datada de 1992, foi revisada em 2012 e, com ela, definiu-se a classificação da pancreatite aguda quanto a sua gravidade. Felizmente, trata-se de uma classificação simples, o que nos ajuda na tarefa de memorizá-la. SIM! ESSA CLASSIFICAÇÃO É MUITO COBRADA EM PROVAS. Vamos perder alguns minutos decorando-a?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 44 Classificação da gravidade da pancreatite aguda (ATLANTA, 2012) Pancreatite aguda leve Ausência de falência orgânica E Ausência de complicações locais ou sistêmicas Pancreatite aguda moderadamente grave Falência orgânica reversível em 48 horas (falência orgânica transitória) E/OU Presença de complicações locais ou sistêmicas Pancreatite aguda grave Falência orgânica não-reversível em 48 horas (falência orgânica persistente) Falência orgânica: em que consiste? O próprio nome já nos fornece uma bela pista. A falência orgânica ocorre pela falha no funcionamento de um ou mais órgãos. Representam sinais de falência orgânica: Pressão arterial sistólica 2mg/dL após ressuscitação volêmica; e sangramento gastrointestinal superior a 500 mL em 24 horas. O que seriam essas complicações locais e sistêmicas? As complicações locais serão estudadas a seguir, mas, como não gosto de deixar meu(minha) aluno(a) curioso(a), exemplifico: são coleções fluidas peripancreáticas e coleções necróticas agudas. Já as complicações sistêmicas são exacerbações de comorbidades subjacentes em decorrência da pancreatite aguda, por exemplo, agravamento de doença arterial coronariana ou de doença pulmonar crônica. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 45 Sequestro líquido estimado superior a 4000 ou 6000 mL é um dos critérios utilizados para predizer Abaixo, você terá a oportunidade de treinar como o conhecimento acerca dos critérios de Atlanta pode ser exigido em sua prova. Vamos lá?! CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR) – SP – 2020) Amanda, nascida e criada no berço do samba, sempre curtia os preparativos deste dia. Após a última feijoada de que participou, queixou-se de dor abdominal moderada seguida de náuseas e vômitos. Após a persistência do desconforto, preferiu procurar um serviço de emergência. No Pronto Atendimento foi avaliada; ao exame clínico, apresentava-se hemodinamicamente estável e afebril, com o aparelho cardiorrespiratório sem alterações, mas com o exame do abdome revelando peristalse presente, sendo o mesmo flácido e doloroso à palpação em hipocôndrito direito, com dor intensa a ponto de limitar a inspiração e que se irradiava para o ombro direito. Exames complementares foram solicitados, revelando o leucograma leucocitose com desvio para a esquerda e o hepatograma, elevação discreta das transaminases, da fosfatase alcalina e da bilirrubina total (à custa da fração direta). O exame de imagem, realizado na emergência, fechou a hipótese diagnóstica mais provável para o caso acima. Após 48 horas da abordagem inicial, Amanda foi submetida a tratamento cirúrgico. No pós-operatório, Amanda apresentou importante dor em andar superior do abdome, em barra, associada ao aparecimento de hematomas em região umbilical e flanco direito, sendo internada no CTI. A conduta seguinte foi conservadora, permanecendo a paciente internada por longo período. Após a alta hospitalar, foi acompanhada no ambulatório da Cirurgia Geral, não apresentando novas intercorrências. Em relação aos critérios de Atlanta para o diagnóstico de pancreatite aguda grave, marque a alternativa ERRADA. A) Choque: pressão sistólica 2 MG/dL D) Hemorragia digestiva > 500 ml/24 horas E) Sequestro de líquido superior a 3.000 ml COMENTÁRIO: Acabamos de estudar que, para ser considerada como portador de pancreatite aguda grave segundo os critérios de Atlanta, o paciente deverá apresentar sinais de falência orgânica que não se revertem após 48 horas. Mas, afinal, que parâmetros levaríamos em consideração para predizer falência de um determinado órgão?! É esse conhecimento que o examinador deseja que você tenha para que escolha, então, aquela alternativa que NÃO contemple sinal de falência orgânica. Vamos lá?! Correta a alternativa A: Pressão sistólica 2 mg/dL. • Hematócrito ≥ 48% em homens ou ≥ 39,6% em mulheres. A pontuação ZERO relaciona-se com a ausência de necrose pancreática e outras complicações. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 47 1.6 DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS Quando estudamos manifestaçõesclínicas da pancreatite aguda, vimos que a dor abdominal típica dessa entidade é aquela que se manifesta no quadrante superior do abdome, principalmente na região epigástrica. Por esse motivo, a pancreatite aguda admite uma série de diagnósticos diferenciais, a saber: • Doença ulcerosa péptica: nesses casos, os pacientes costumam apresentar histórico de dor epigástrica recorrente, geralmente, sem irradiação. Histórico de infecção por Helicobacter pylori pode estar presente. • Isquemia mesentérica: geralmente, o paciente é idoso e apresenta fatores de risco para doença aterosclerótica. Associa-se a dor abdominal intensa com dissociação clínica - exame físico no início do quadro. Na isquemia mesentérica, paciente pode ter histórico de evacuações sanguinolentas. Elevações discretas de amilase e lipase podem ocorrer nessa entidade. • Colecistite aguda: comumente, a dor localiza-se mais à direita do abdome, também associada a náuseas e vômitos. Sinal de Murphy costuma estar presente. A colecistite aguda pode cursar com aumento dos níveis de amilase. • Cetoacidose diabética (CAD): a CAD pode cursar com dor abdominal associada a náuseas e vômitos, com aumento dos níveis séricos de amilase secundários à acidose. A lipase geralmente apresenta níveis normais na CAD. • Perfuração de víscera oca: cursa com dor abdominal súbita e sinais de peritonite. Amilase pode estar elevada, mas dificilmente acima de três vezes do valor normal. • Infarto agudo do miocárdio (IAM): o IAM, sobretudo o de parede inferior, pode manifestar-se com dor epigástrica associada a náuseas e vômitos. • Hepatite aguda: em geral, cursa com dor no quadrante superior do abdome, anorexia, náuseas e vômitos. Icterícia, colúria, acolia fecal e prurido são outros sintomas possivelmente associados. Cursa, ainda, com aumento importante de aminotransferases associada a valores normais de amilase e lipase. • Outros diagnósticos diferenciais possíveis: coledocolitíase, obstrução intestinal, colangite, cólica renal, aneurisma dissecante da aorta, vasculite associada a doenças do tecido conjuntivo, pneumonia etc. Não é incomum que as questões de pancreatite aguda se apresentem como um caso clínico em que temos vários diagnósticos diferenciais nas alternativas. Confira um exemplo clássico logo abaixo: CAI NA PROVA (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE PIRACICABA – SMS - SP – 2017) Mulher, 46 anos, começou a apresentar há 3 dias episódios de dor de forte intensidade, em região epigástrica, progressiva, com irradiação para região interescapular, com náuseas e vômitos pós-alimentares, inapetência. Sem febre. Ao exame físico, paciente IMC 38, ictérica 2+/4+ com dor à palpação profunda em epigástrico e hipocôndrio direito sem sinais de irritação peritoneal, RHA diminuídos. O provável diagnóstico e o melhor exame para confirmação diagnóstica são, respectivamente: A) Colelitíase, radiografia para abdome agudo. B) Coledocolitíase, ultrassonografia de abdome. C) Pancreatite, amilase e lipase. D) Nefrolitíase, tomografia de abdome com contraste. E) Abdome agudo perfurativo, radiografia de tórax. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 48 COMENTÁRIO: Estamos diante de paciente feminina obesa, com dor epigástrica aguda, que irradia para o dorso, associada a náuseas e vômitos, ictérica. Qual, entre os diagnósticos apresentados, encaixa-se melhor no caso clínico em questão? Incorreta a alternativa A: A colelitíase refere-se à presença de cálculo na vesícula biliar, podendo cursar com dor abdominal, sobretudo em hipocôndrio direito, associada a náuseas e vômitos, principalmente após refeições copiosas. Enquanto apenas na vesícula, os cálculos biliares não causam icterícia. Incorreta a alternativa B: A coledocolitíase refere-se à presença de cálculos biliares no colédoco, causando cólica biliar (dor abdominal sobretudo em hipocôndrio direito associada a náuseas e vômitos) e icterícia. 1.7 COMPLICAÇÕES A pancreatite aguda pode cursar com complicações locais ou sistêmicas. Neste tópico, iremos focar nas complicações LOCAIS, também definidas pela classificação de Atlanta, revisada em 2012. Preparei abaixo uma pequena listinha de como a pancreatite aguda pode complicar. COMPLICAÇÕES LOCAIS DA PANCREATITE AGUDA • Coleção fluida peripancreática aguda. • Pseudocisto pancreático. • Coleção necrótica aguda. • Coleção pós-necrótica aguda, ou walled-off. Detalharemos as principais complicações a seguir, mas, antes, é PRIMORDIAL que você saiba QUANDO DESCONFIAR DE PANCREATITE AGUDA COMPLICADA. Você sabe?! Não?? Quando desconfiar de pancreatite aguda complicada? • Persistência ou recorrência de dor abdominal; • Novo aumento nos níveis séricos das enzimas pancreáticas (amilase e lipase); • Piora da disfunção orgânica; • Piora clínica do doente: sinais de sepse, como febre, leucocitose etc. Correta a alternativa C: A pancreatite aguda tem na obesidade um dos seus fatores independentes de mau prognóstico e na etiologia biliar uma das suas principais causas. Caracteristicamente, cursa com dor no abdome superior associada à irradiação para dorso, sendo acompanhada de náuseas e vômitos, tal qual o quadro em questão. Para seu diagnóstico, solicita-se dosagem de amilase e lipase, que costumam estar elevadas acima de três vezes do valor superior da normalidade. Incorreta a alternativa D: A nefrolitíase costuma ser assintomática até que ocorra obstrução ao fluxo urinário, geralmente com a migração desse cálculo para ureteres. Nesse contexto, é causa de dor lombar intensa que pode associar-se a náuseas e vômitos, além de irradiar para virilha, testículos ou grandes lábios. Incorreta a alternativa E: No abdome agudo perfurativo, o doente costuma apresentar dor abdominal intensa associada a peritonite e mau estado geral. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 49 É muito importante que você preste bastante atenção ao quadro acima, pois, em questões de prova, assim como na vida, as complicações de pancreatite aguda costumam ser cobradas justamente em um contexto em que um paciente com pancreatite aguda, que estava evoluindo de forma satisfatória ou razoável, torna a apresentar piora clínica, seja com retorno da dor abdominal, novo aumento de amilase/lipase ou, ainda, sinais de deterioração clínica (como, por exemplo, febre, aumento de leucócitos e até mesmo falência orgânica). As complicações da pancreatite aguda costumam ser adequadamente identificadas através de TC multidetectores de alta resolução contrastada de abdome. 1.7.1 COLEÇÃO FLUIDA PERIPANCREÁTICA AGUDA (CFPA) Essa coleção costuma desenvolver-se precocemente no contexto da pancreatite aguda intersticial edematosa, cerca de 48 horas após o início dos sintomas (por definição, até quatro semanas do início do quadro). Caracteriza-se por coleção fluida homogênea, sem conteúdo sólido, sem paredes bem definidas, única ou múltipla, adjacente ao pâncreas. A maioria dessas coleções é estéril e resolve-se espontaneamente sem necessidade de intervenção alguma. Uma coleção fluida peripancreática aguda que persiste por mais de quatro semanas origina um PSEUDOCISTO PANCREÁTICO, sobre o qual falaremos a seguir. ACHADOS TOMOGRÁFICOS DA CFPA TC com contraste: coleção líquida; única ou múltipla; homogênea; baixa atenuação; ausência de parede bem definida; restrita por planos de fáscia peripancreática normais; adjacente ao pâncreas Figura. Ilustração representando achados de tomografia computadorizada de abdome em paciente com pancreatite aguda e múltiplas coleções peripancreáticas agudas mal delimitadas se estendendo pelos planos peripancreáticos e pela fáscia perirrenal anterior esquerda. Fonte: Acervo Pessoal. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatiteaguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 50 1.7.2 PSEUDOCISTO PANCREÁTICO ACHADOS TOMOGRÁFICOS DO PSEUDOCISTO PANCREÁTICO TC com contraste: coleção homogênea de baixa atenuação; redonda ou oval; realce capsular uniforme; ausência de componente não-líquido; parede bem definida e espessa. Observe atentamente a imagem abaixo, extraída de prova de Residência Médica do Sistema Único de Saúde (SUS) – São Paulo – Acesso Direto, 2019: Imagem de tomografia computadorizada de abdome ilustrando pseudocisto pancreático (seta vermelha). Apresenta-se como coleção líquida (ausência de conteúdo sólido) em topografia pancreática, comprimindo o estômago (seta azul). O paciente apresentava náuseas, vômitos e sensação de plenitude gástrica (sintomas obstrutivos altos) e massa palpável no epigástrico. Fonte: Prova de Residência Médica do Sistema Único de Saúde (SUS) – São Paulo – Acesso Direto, ano 2019. Cerca de 5% a 15% dos portadores de pancreatite aguda evoluirão com pseudocisto pancreático. Por definição, chamamos de pseudocisto pancreático uma coleção “encapsulada” que ocorre após quatro semanas do início dos sintomas de pancreatite aguda, ou seja, é uma complicação tardia. Recebe o nome de “pseudocisto”, porque sua cápsula não é verdadeira, mas formada por debris inflamatórios e fibrose. O pseudocisto pancreático é, geralmente, extrapancreático e não cursa com presença de necrose ou conteúdo sólido. Na TC, representa coleção redonda ou oval bem delimitada, homogênea e com densidade de fluido. O conteúdo do pseudocisto é rico em amilase. Acredita-se que o pseudocisto pancreático tenha origem na ruptura do ducto pancreático principal ou em seus ramos, com consequente vazamento de suco pancreático, originando a coleção fluida. Essa teoria justificaria o motivo pelo qual o pseudocisto é rico em amilase. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 51 1.7.3 COLEÇÃO NECRÓTICA AGUDA (CNA) O pseudocisto pancreático pode complicar com INFECÇÃO, HEMORRAGIA, FÍSTULA PANCREÁTICA, OBSTRUÇÃO GASTRODUODENAL ou BILIAR e PSEUDOANEURISMA. A maioria dos pseudocistos pancreáticos (70%) irá regredir espontaneamente. Os pseudocistos que mais facilmente regridem são aqueles localizados na CAUDA, com menos de 4 cm e sem evidência de obstrução ou comunicação com ducto pancreático principal. A coleção necrótica aguda é coleção fluida com variável quantidade de material necrótico sólido, que surge precocemente na pancreatite aguda (dentro das primeiras quatro semanas de início dos sintomas). Contrapõe-se, justamente, ao conceito de coleção fluida peripancreática aguda, uma vez que esta última necessariamente não contém necrose em seu interior. Além disso, a coleção necrótica aguda surge a partir de uma pancreatite necrosante e pode estar infectada ou não. A diferenciação entre coleção necrótica aguda e coleção fluida peripancreática aguda pode ser extremamente difícil nos primeiros dias. A partir da primeira semana, a distinção entre essas duas coleções é feita com maior facilidade através de tomografia computadorizada com contraste. Vale lembrar que a RM possui maior sensibilidade em relação à TC para identificação dos tecidos necróticos. ACHADOS TOMOGRÁFICOS DA CNA TC com contraste: coleção com densidade heterogênea; quantidade de conteúdo sólido é variável; ausência de realce ou hiporrealce; loculada ou não; ausência de paredes bem definidas; pancreática e/ou extrapancreática. Figura. Representação ilustrativa de imagem de tomografia computadorizada de abdome mostrando coleção necrótica aguda, mal delimitada, localizada no corpo do pâncreas em paciente com pancreatite aguda grave. Fonte: Acervo Pessoal. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 52 1.7.4 NECROSE PANCREÁTICA DELIMITADA/MURADA OU WALLED-OFF NECROSIS Anteriormente chamada de necrose pancreática delimitada, organizada, necroma, pseudocisto associado a necrose ou necrose pancreática subaguda, a walled-off necrosis (WON) refere-se à coleção necrótica pancreática e/ou peripancreática que contém parede inflamatória bem definida, fibrótica e espessa. Assim como o pseudocisto pancreático, a WON surge tardiamente no contexto da pancreatite aguda, após quatro semanas de início de uma pancreatite aguda necrosante. ACHADOS TOMOGRÁFICOS DA WON TC com contraste: coleção fluida heterogênea; presença de atenuações sólidas; loculações; parede encapsular bem definida; pancreática ou extrapancreática. Figura. Imagem de tomografia computadorizada de abdome de portador de pancreatite aguda exibindo necrose pancreática murada (seta vermelha). Extensa área sugestiva de necrose pancreática delimitada. Repare na lesão cística, centrada no parênquima pancreático, com áreas heterogêneas de permeio e paredes espessas. Essa lesão comprime significativamente a câmara gástrica. Fonte: Acervo Pessoal. A WON surge a partir do tecido pancreático ou peripancreático necrótico, pode ser múltipla e cursar com infecção. É mais comum na cauda e corpo do pâncreas. A TC contrastada pode apresentar dificuldades na diferenciação entre conteúdo líquido e sólido, não sendo rara a existência de confusão diagnóstica entre pseudocisto e WON. Nesses casos, exames como RM, USE e ultrassonografia abdominal podem ser necessários. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 53 1.7.5 NECROSE INFECTADA Assim como o pseudocisto, a necrose pancreática infectada também é muito cobrada em provas de Residência Médica, sobretudo no que diz respeito à conduta. Versaremos melhor sobre isso no tópico de tratamento. O tecido necrótico é passível de infecção e, por esse motivo, é possível que coleções necróticas como a coleção necrótica aguda ou a walled-off necrosis evoluam com essa complicação. Cerca de um terço dos doentes que apresentam necrose pancreática evoluem com infecção desse tecido necrótico e, curiosamente, não há uma correlação entre a extensão da necrose e o risco de infecção. Quando desconfiaremos de infecção do tecido necrótico? • Na presença de GÁS no interior da coleção, evidenciada na tomografia computadorizada. • O gás extraluminal pode, ou não, formar níveis hidroaéreos. • Em caso de dúvida, pode ser realizada aspiração com agulha fina do conteúdo necrótico, com posterior envio do material para CULTURA. Figura. Imagem de tomografia computadorizada com achados compatíveis com necrose pancreática aguda em permeio a cabeça pancreática com focos de gás no seu interior (pontos pretos, apontados com seta vermelha), sugestivos de necrose infectada. O principal diagnóstico diferencial é a manipulação prévia dessas coleções, quando o gás é habitual em um pós-procedimento recente. Fonte: Acervo Pessoal. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 54 A complicação infecciosa está associada a alta morbimortalidade e deve ser prontamente identificada para imediata instituição de antibioticoterapia. Que tal uma tabela correlacionando o subtipo da pancreatite aguda e o período em que tais coleções são encontradas? Coleções (peri)pancreáticas x subtipo pancreatite x tempo SUBTIPO TEMPO Pancreatite aguda edematosa Pancreatite aguda necrosante 4 semanas Pseudocisto pancreático Necrose pancreática murada ou walled-off necrosis Por que uma pancreatite aguda infecta? A patogênese ainda é incerta e várias hipóteses são aventadas: invasão transmural por translocação bacteriana colônica, disseminação hematogênica, bactérias provenientes das vias biliares, ascensão do duodenovia ducto pancreático principal. Quais são os principais patógenos envolvidos na PA infectada? Bactérias Gram-negativas: Escherichia coli, Proteus, Klebsiella pneumoniae. Outros patógenos possíveis? Bactérias Gram-positivas: Staphylococcus aureus, Streptococcus faecalis, Enterococcus Bactérias anaeróbias Fungos (principalmente Candida albicans) 1.7.6 TROMBOSE VENOSA PORTAL E ESPLÊNICA Aproximadamente metade dos pacientes com pancreatite aguda necrosante evolui com trombose venosa porto-esplênico-mesentérica, motivada pela inflamação pancreática. Tal complicação é rara na ausência de necrose. Nesse contexto, ocorre principalmente trombose da veia esplênica, podendo ocorrer esplenomegalia e formação de varizes gástricas. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 55 Figura. Imagem de tomografia computadorizada exibindo complicação da pancreatite aguda: trombose crônica da veia esplênica. Repare no achado indireto dessa complicação: as famosas varizes isoladas do fundo gástrico que estão evidentes na imagem. São essas imagens serpiginosas delimitando a câmara gástrica que estão assinaladas pela seta. Fonte: Acervo Pessoal. 1.7.7 RUPTURA DO DUCTO PANCREÁTICO Uma das complicações possíveis da pancreatite aguda é a ruptura do ducto pancreático, levando ao acúmulo de líquidos/ secreções. Tal ruptura pode levar à ascite pancreática, com acúmulo de líquido rico em amilase na cavidade peritoneal e distensão abdominal. A ascite pancreática pode ser volumosa a ponto de 1.7.8 PSEUDOANEURISMA A enzima elastase pancreática, no contexto da pancreatite aguda, pode levar à lesão vascular e, consequentemente, pseudoaneurisma. Este, por sua vez, pode ocasionar vultuosos sangramentos gastrointestinais, gerando dor abdominal aguda, taquicardia e hipotensão. 1.7.9 COMPLICAÇÕES SISTÊMICAS X FALÊNCIA ORGÂNICA A classificação de Atlanta revisada em 2012 diferencia complicações sistêmicas de falência orgânica. Conceitua, portanto, complicação sistêmica como agravamento de uma condição de saúde previamente existente devido à pancreatite aguda. Já a falência orgânica ocorre pela intensa ativação de citocinas inflamatórias promovida pela pancreatite aguda, gerando uma síndrome de resposta inflamatória sistêmica (SIRS). Questões sobre complicações de pancreatite aguda são MUITO frequentes nas provas de Residência Médica, principalmente no bloco de cirurgia. Que tal alguns exemplos? provocar síndrome compartimental abdominal. Também pode haver ruptura do ducto pancreático posterior no espaço pleural, gerando derrame pleural. Nesse caso, o paciente apresentará dor torácica, dispneia e tosse. O líquido pleural, nesses casos, também será rico em amilase (> 50000 UI). Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 56 CAI NA PROVA (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE SÃO PAULO – SUS - SP – 2019) Uma senhora de 35 anos teve, há 8 meses, pancreatite aguda biliar grave, que melhorou com tratamento clínico. Ficou internada por várias semanas. Alguns dias após a alta, passou a apresentar vômitos pós-alimentares, sensação de plenitude gástrica precoce e notou abaulamento no epigástrio. Não sabe referir se teve febre. Fez a tomografia computadorizada ilustrada a seguir. Diagnóstico mais provável: COMENTÁRIO: Estamos diante de paciente com pancreatite aguda que, após um tempo superior a quatro semanas, evoluiu com lesão cística em topografia pancreática, associada a sintomatologia compatível com obstrução gastrointestinal alta (vômitos, plenitude pós-prandial), além de abaulamento no epigástrio. Nesse caso, devemos pensar nas complicações locais tardias que podem se associar à pancreatite aguda: pseudocisto pancreático e necrose pancreática murada ou delimitada. A análise pormenorizada do exame de imagem revela uma imagem hipodensa, homogênea e bem delimitada, com paredes espessadas, compatível com pseudocisto pancreático. Lembre-se de que, na necrose pancreática murada, a coleção seria heterogênea. Assim, a alternativa A é o gabarito da questão. Antes de prosseguirmos, gostaria que você percebesse que a coleção se relaciona intimamente com o estômago e que, por esse motivo, trata-se de um pseudocisto sintomático. Nesse caso, uma excelente solução seria a drenagem endoscópica do pseudocisto através do estômago. Falaremos sobre isso no tópico sobre tratamento. Gabarito: alternativa A. A) Pseudocisto de pâncreas. B) Hematoma peripancreático. C) Abscesso pancreático. D) Necrose pancreática delimitada. E) Cisto pancreático. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 57 (HOSPITAL OFTALMOLÓGICO DE SOROCABA – HOS - SP – 2019) Segundo a revisão da classificação de Atlanta para pancreatite aguda, publicada em 2012, foi descrita uma entidade morfológica que consiste em uma área circunscrita contendo líquido e restos pancreáticos necróticos que substitui parte do parênquima pancreático e surge a partir de uma área de necrose que ocorre tardiamente no curso da pancreatite aguda necrosante, cerca de quatro semanas após o quadro inicial. Essa entidade é: A) necrose pancreática delimitada (walled-off necrosis). B) pseudocisto pancreático. C) acúmulos líquidos agudos peripancreáticos. D) esteatonecrose peripancreática. E) pancreatonecrose difusa peripancreática. COMENTÁRIO: Essa questão exige o conhecimento das definições das complicações locais associadas à pancreatite aguda, que acabamos de estudar. Quando pensamos em complicação local que ocorre após quatro semanas (complicação tardia) de um paciente com pancreatite aguda necrosante, já pensamos em necrose pancreática delimitada/murada. Essa hipótese é ratificada com a descrição de que se trata de área circunscrita (bem delimitada) com conteúdo líquido e restos necróticos, fazendo com que a alternativa A seja o gabarito da questão. Gabarito: alternativa A. 1.8 TRATAMENTO Parte CRUCIAL do estudo da pancreatite aguda diz respeito ao tratamento dessa condição. Inclusive, peço sua atenção especial, porque esse tema é MUITO cobrado nas provas de Residência. Primeiramente, é necessário esclarecer que não existe um tratamento farmacológico específico direcionado à pancreatite aguda. Após feito o diagnóstico da pancreatite aguda, geralmente na emergência, além da avaliação prognóstico do doente por meio de critérios de gravidade, três pilares principais devem ser observados: 1. ressuscitação volêmica; 2. controle álgico; 3. manejo dietético. Vamos estudar sobre cada um deles separadamente a partir de agora. Prepare o “expresso duplo” que lá vem tema importante! 1.8.1 RESSUSCITAÇÃO VOLÊMICA A ressuscitação volêmica agressiva é a etapa mais importante no manejo do paciente com pancreatite aguda, devendo ser instituída ainda nas primeiras 12 a 24 horas de início dos sintomas. Está indicada para melhorar a perfusão tissular, mesmo na ausência de instabilidade hemodinâmica, auxiliando na prevenção de necrose do parênquima pancreático. Isso porque a necrose pancreática resulta na perda de líquido para o interstício, gerando hipoperfusão pancreática. O volume de fluido infundido deve ser ajustado conforme idade, peso, bem como comorbidades renais e cardíacas preexistentes, lembrando sempre que a sobrecarga de fluidos também é deletéria. Recomenda-se o monitoramento do hematócrito, função renal e lactato, como marcadores de volemia e perfusão tissular do doente. Uma queda no hematócrito e na ureia sérica é esperado nas primeiras 12 a 24 horas da ressuscitação volêmica, decorrentes da adequada reposição volêmica. Em relação ao tipo de fluido preferencialmente administrado, cita-se os CRISTALÓIDES ISOTÔNICOS, podendo ser utilizados o soro fisiológico 0,9% ouo Ringer lactato. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 58 1.8.2 CONTROLE ÁLGICO Já estudamos, no tópico sobre manifestações clínicas, que a pancreatite aguda dói e essa dor pode ser leve, mas frequentemente é muito intensa e extremamente incômoda ao doente. Por esse motivo, um adequado controle álgico faz parte dos pilares do tratamento da pancreatite aguda e não deve ser desprezado. Assim, todo portador de pancreatite aguda deve receber analgesia nas primeiras 24 horas da sua internação. No controle álgico, não há restrição quanto ao uso de nenhuma das possíveis medicações, a menos que o doente apresente injúria renal aguda, quando deve ser evitada a utilização de anti-inflamatórios não-esteroidais. OPIOIDES E A PANCREATITE AGUDA IMPORTANTE! Alguns estudos mais antigos recomendavam evitar o uso de opioides como a morfina no controle da dor causada por pancreatite aguda, pois acreditava-se que essa medicação promoveria um espasmo no esfíncter de Oddi, favorecendo o uso da meperidina, que não teria esse efeito. Atualmente, não há recomendação de nenhuma restrição nesse sentido e a mudança de pensamento tem motivado muitas questões de prova. FIQUE ATENTO! O guideline de 2019 publicado no “World Journal of Emergency Surgery” sugere que o uso de hidromorfona seria preferível ao uso da morfina ou fentanil, porém não há contraindicação ao uso de nenhuma das três medicações. 1.8.3 DIETA NUTRIÇÃO ENTERAL X NUTRIÇÃO PARENTERAL TOTAL NA PANCREATITE AGUDA • A nutrição enteral apresenta como vantagens a preservação da barreira mucosa intestinal, bem como o fato de impedir a translocação bacteriana que contribui para a infecção da necrose pancreática. • Estudo comparativo entre nutrição enteral e nutrição parenteral total revelou que a nutrição enteral estava associada a menores taxas de complicações infecciosas, falência orgânica e mortalidade. • A nutrição parenteral pode ser utilizada como forma de complementar as calorias necessárias, caso não sejam totalmente alcançadas por meio da nutrição enteral. • Outro tema polêmico diz respeito à posição da sonda enteral no paciente com pancreatite aguda. Atualmente, tanto a sonda gástrica quanto a jejunal são consideradas seguras, ou seja, tanto faz se a sonda está pré ou pós-pilórica. O paciente com pancreatite aguda frequentemente se apresenta com dor abdominal, náuseas e vômitos que o impedem de alimentar-se. Assim, na vigência desses sintomas, o paciente será inicialmente conduzido em dieta zero. Todavia, atualmente, preconiza-se a rápida instituição da dieta, tão logo possível. Assim, nos pacientes com pancreatite aguda leve, a dieta oral poderá ser instituída tão logo haja controle clínico da dor, priorizando-se dieta líquida à sólida pobre em gordura. Até lá, esses pacientes podem ser manejados apenas com hidratação endovenosa, uma vez que costumam apresentar melhora mais rápida, quando retomarão a dieta oral. Para aqueles pacientes que evoluem com pancreatite aguda mais grave, deve-se ponderar a dieta oral zero, com meios alternativos para compensar o gasto calórico diário desse doente crítico. Nesses casos, preconiza-se a instituição precoce da dieta enteral em detrimento à nutrição parenteral total. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 59 Quando introduzir a dieta via oral? • Ausência de íleo paralítico: movimentos peristálticos presentes. • Ausência de náuseas e vômitos. • Dor abdominal em franca melhora. Nesses casos, iniciar com dieta líquida a pastosa pobre em resíduos e gordura, com posterior progressão para dieta mais sólida, conforme tolerância. Importante pontuar: NÃO há necessidade de aguardar normalização de amilase e lipase para reintrodução da dita oral! Outro ponto crítico do manejo dietético de paciente com pancreatite aguda diz respeito ao momento em que a dieta via oral deverá ser reiniciada. Tal momento irá depender da gravidade da pancreatite e dos sinais/sintomas do doente. Interessante estudo feito em pacientes com pancreatite aguda grave comparou a instituição de nutrição enteral em 24 horas de internação com dieta zero + introdução da alimentação via oral apenas após 72 horas e não encontrou melhora nas taxas de infecção ou morte no grupo que foi precocemente alimentado com a sonda nasoenteral. Mais estudos são necessários para maiores conclusões diante desses achados. Por ora, a mensagem que você deverá memorizar é: temos de promover a reintrodução precoce da dieta, tão logo possível, nos portadores de pancreatite aguda! 1.8.4 ANTIBIOTICOTERAPIA Atualmente, NÃO se recomenda o uso PROFILÁTICO de antibióticos no contexto da pancreatite aguda, uma vez que se evidenciou que tal medida não promove melhoria na morbimortalidade desses doentes. Você já sabe, mas não custa lembrar… Uso profilático de antibióticos refere-se ao uso no doente de pancreatite aguda sem evidência de infecção vigente, na intenção de evitá-la. Quando estaria, então, indicado o uso de antibióticos no paciente com pancreatite aguda?! A resposta é simples: NA VIGÊNCIA DE INFECÇÃO. ANTIBIÓTICOS E PANCREATITE AGUDA Recomenda-se o uso de antibióticos na pancreatite aguda infectada. OBSERVAÇÃO IMPORTANTE PARA PROVA: a existência de necrose, pura e simplesmente, não é sinônimo de infecção. Assim, apenas a necrose pancreática INFECTADA precisa ser tratada com antibióticos. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 60 Desconfiamos da presença de complicações infecciosas quando o doente evolui com deterioração clínica, embora seja realmente desafiador diferenciar infecção do status inflamatório sistêmico, que pode ser encontrado na vigência de pancreatite aguda. É importante lembrar que a presença de gás no interior da coleção ou no retroperitônio é sinal de complicação infecciosa. Por fim, uma vez que se constata a necessidade de antibioticoterapia, uma nova dúvida é instaurada: QUAL ANTIBIÓTICO DEVERÁ SER USADO? Nesse caso, deve-se dar preferência aos antibióticos capazes de penetrar o parênquima pancreático e que apresentem cobertura para microrganismos aeróbios e anaeróbios, Gram-positivos e Gram-negativos. Importante pontuar que os principais patógenos implicados na necrose pancreática infectada são Gram-negativos, destacando-se a Escherichia coli e a Pseudomonas aeruginosa. Carbapenêmicos (imipenem, meropenem) e quinolonas (ciprofloxacino, levofloxacino) apresentam boa penetração no parênquima pancreático associado a excelente cobertura anaeróbia. Contra o uso das quinolonas, pesa-se a alta taxa de resistência mundial a esses fármacos, provavelmente motivada por seu uso indiscriminado. Preparei a seguinte tabela com os principais pontos cobrados nas provas de Residência Médica em relação ao manejo do doente com pancreatite aguda. Que tal gastarmos alguns minutos revisando esse importante tópico através dela?! MANEJO CLÍNICO PANCREATITE AGUDA – PONTOS-CHAVE Reposição hídrica Principal etapa do tratamento do paciente com pancreatite aguda Solução: cristaloides (SF 0,9% e Ringer lactato) Dieta Pancreatite leve: dieta zero com hidratação endovenosa e reintrodução da dieta oral tão logo seja possível Pancreatite grave: dieta enteral x NPT exclusiva Dieta por sonda enteral associada a menores taxas de infecção, falência orgânica e mortalidade Posição da sonda enteral: tanto gástrica quanto jejunal parecem ser seguras Analgesia Não há restrições quanto a nenhuma medicação utilizada para controle da dor, incluindo opioides como a morfina. Antibioticoterapia Não há benefício em seu uso profilático. Utilizar apenas se houver evidência de INFECÇÃO. Dar preferência a medicamentos que penetremno parênquima pancreático: carbapenêmicos (principal), quinolonas Legenda: SF = soro fisiológico. Vamos de “questõezinhas” para solidificarmos os conteúdos aprendidos até aqui?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 61 CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE DE RIBEIRÃO PRETO – UNAERP - SP – 2020) Homem de 55 anos procura o serviço de pronto atendimento devido a uma dor abdominal súbita e intensa, localizada no epigástrio e com irradiação para o dorso, associada a vários episódios de vômito. Apresentava-se taquicárdico, com PA 100x60 mmHg, murmúrio vesicular diminuído em bases e abdome doloroso a palpação difusa, levemente distendido, ruídos hidroaéreos diminuídos, com defesa voluntária evidente. Sobre este caso, considere as afirmativas e assinale a opção correta. 1. A amilase sérica poderá estar aumentada na maioria desses casos. 2. A reposição vigorosa de fluidos é o elemento mais importante no tratamento inicial. 3. O controle da dor normalmente é atingido com o uso de analgésicos e anti-inflamatórios endovenosos, devendo-se evitar narcóticos. 4. A tomografia computadorizada do abdome deve ser evitada numa fase precoce, pois o contraste endovenoso pode piorar a função renal, agravando a evolução da doença. 5. Como suporte nutricional, a oferta de nutrientes deve ser feita por via oral associada a dieta parenteral. A) Somente 1 e 2 estão corretas. B) Somente 1, 4 e 5 estão corretas. C) Somente 2, 3 e 4 estão corretas. D) Somente 1, 3 e 4 estão corretas. E) Somente 2, 4 e 5 estão corretas. COMENTÁRIO: Estamos diante de paciente masculino com dor abdominal aguda no epigástrio, com irradiação para dorso, associada a náuseas e vômitos. Como já estudamos, essa descrição álgica é típica de um doente com pancreatite aguda. Pensando nessa hipótese como principal, vamos avaliar cada uma das assertivas. 1) VERDADEIRA. A pancreatite aguda, via de regra, cursa com níveis aumentados de amilase e lipase. Outras causas de dor abdominal como cetoacidose diabética, colecistite, coledocolitíase, úlcera péptica perfurada também podem cursar com hiperamilasemia. 2) VERDADEIRA. Os três pilares do tratamento da pancreatite aguda são controle álgico, manejo dietético e ressuscitação volêmica. A reposição volêmica, mesmo na ausência de sinais de instabilidade hemodinâmica, está indicada por promover uma importante melhora na perfusão tecidual pancreática. Os cristaloides isotônicos (soro fisiológico ou Ringer lactato) são os fluidos de escolha. 3) FALSA. A dor é um sintoma cardinal no contexto da pancreatite aguda, devendo ser agressivamente tratada nas primeiras 24 horas de internação. Não há restrições quanto aos analgésicos a serem utilizados, podendo ser indicado o uso de opioides. 4) FALSA. A tomografia computadorizada deve ser realizada no contexto da pancreatite aguda de maior gravidade, após 72 horas do início dos sintomas, período em que as complicações podem ser vistas com melhor precisão. 5) FALSA. A pancreatite aguda costuma ser manejada com dieta zero inicial e reintrodução da dieta via oral/enteral tão logo possível. A via parenteral, sobretudo a nutrição parenteral total, deverá ser evitada por aumentar o risco de translocação bacteriana e não auxiliar na manutenção da integridade da mucosa intestinal. Estão corretas as assertivas 1 e 2, logo, a alternativa A é o gabarito da questão. Gabarito: alternativa A. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 62 (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE VOTUPORANGA - SP – 2020) Mulher de 53 anos, previamente hígida, comparece ao pronto atendimento com queixa de dor intensa no andar superior do abdômen associada a vômitos. Ao exame físico, PA: 130x70 mmHg, FC: 114 bpm, FR: 23 ipm, SpO₂: 98%, Tax: 38,3°C. Dor à palpação do epigástrio, sem sinais de irritação peritoneal. Restante do exame clínico normal. Exames: hemoglobina: 9 g/dL, leucócitos: 16.450cél/µL, neutrófilos: 11.240 cél/µL, plaquetas: 157.000/µL, creatinina: 0,6 g/dL, amilase: 590(VR 120U/L), lipase: 800(VR 80U/L). Sobre o caso descrito, assinale a alternativa CORRETA: A) A analgesia pode ser feita com analgésicos opioides potentes, como a morfina. B) A paciente deve permanecer em jejum até a completa resolução clínica e laboratorial. C) Há indícios de infecção bacteriana, e se deve iniciar antibiótico carbapenêmico. D) A paciente já apresenta critérios de pancreatite aguda moderadamente grave pela classificação de Atlanta. COMENTÁRIO: Paciente apresentando quadro de dor intensa no andar superior do abdome associada a náuseas e vômitos, cursando com aumento de amilase e lipase mais de três vezes acima do limite superior da normalidade deve receber o diagnóstico de PANCREATITE AGUDA. O autor quer saber qual é a alternativa correta, sendo uma excelente oportunidade para discutirmos a conduta nesses casos. Vamos lá?! Correta a alternativa A: Analgesia otimizada é um dos pilares do tratamento da pancreatite aguda. Nesse contexto, não há restrições quanto aos analgésicos a serem utilizados, podendo ser indicado o uso de opioides. Incorreta a alternativa B: O jejum deve ser substituído por manejo dietético adequado tão logo possível, preferencialmente por via oral ou enteral, a depender da condição do doente. Incorreta a alternativa C: Não há indícios infecciosos, uma vez que febre e leucocitose podem ocorrer pelo status inflamatório associado à pancreatite aguda, sem que indique infecção. Incorreta a alternativa D: Uma pancreatite aguda é considerada moderadamente grave pelos critérios de Atlanta quando houver falência orgânica transitória (que se resolve em 48 horas) ou complicações locais ou sistêmicas sem persistência de falência orgânica. Paciente não tem sinais de falência orgânica ou complicações e, portanto, não pode ser assim classificada. 1.8.5 TRATAMENTO DAS COMPLICAÇÕES As complicações locais da pancreatite aguda já foram estudadas anteriormente, porém esse tópico se destina ao tratamento de cada uma delas. • Coleção fluida peripancreática aguda: complicação que costuma ocorrer precocemente na pancreatite aguda edematosa, geralmente, resolve-se espontaneamente, admitindo CONDUTA EXPECTANTE. Na presença de febre, piora clínica e leucocitose, devemos pesquisar infecção dessa coleção por meio de drenagem percutânea para análise do conteúdo associado à antibioticoterapia. • Pseudocisto pancreático: cerca de 70% dos pseudocistos pancreáticos regridem espontaneamente, o que justifica a CONDUTA EXPECTANTE diante de tal cenário. Os pseudocistos pancreáticos deverão ser abordados na vigência de infecção, crescimento ou sintomas (dor abdominal persistente, náuseas e vômitos, perda de peso, saciedade precoce), ocasião em que se recomenda a drenagem endoscópica (procedimento de escolha) ou percutânea guiada por tomografia computadorizada ou ultrassonografia. A drenagem percutânea requer que o pseudocisto esteja em Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 63 posição que possibilite acesso através da pele, guiado por exame de imagem, além de apresentar maior risco de complicação infecciosa. A drenagem endoscópica transgástrica ou transduodenal estão indicadas para pseudocistos em contato íntimo (em contato com estômago ou duodeno. Figura. Representação esquemática da drenagem cirúrgica de pseudocisto pancreático. Observe que a relação anatômica entre pseudocisto e estômago permite a criação de pertuito através do qual o conteúdo cístico é drenado para estômago. • Necrose estéril: A necrose pancreática pode ocorrer em até 20% dos portadores de pancreatite aguda. Caso o paciente apresente necrose pancreática SEM evidência infecciosa, a conduta será EXPECTANTE a princípio. Mesmo sabendo que 1/3 das necroses evoluem para infecção, ANTIBIOTICOPROFILAXIA NÃO ESTÁ INDICADA. A necrosectomia somente deverá ser feita caso haja persistência da dor abdominal que impeça alimentação oral, e/ou persistência das disfunções orgânicas. Nesses casos, é ideal que a cirurgia seja adiada por pelo menos 10 dias, para que haja melhor organização do processo inflamatório, com delimitação dos tecidos sadios. O período ideal para realização da necrosectomia é após quatro semanas do início dos sintomas. • Necrose infectada: a infecção é a principal complicação da necrose pancreática, causada, sobretudo, por translocação bacteriana entérica. Nesses casos, como há vigência de infecção, indica-se tratamento com antibiótico intravenoso, preconizando-se aqueles com boa penetração no parênquima pancreático, a exemplo dos carbapenêmicos (primeira escolha), quinolonas, ceftazidima ou cefepime. Se possível, é recomendável punção aspirativa com agulha fina guiada por tomografia computadorizada, para coleta de material para Gram e cultura a fim de identificar o patógeno, Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | Março 2022 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 64 com posterior reavaliação da antibioticoterapia instituída. A grande maioria dos pacientes com necrose infectada não apresentará melhora apenas com a antibioticoterapia, ocasião em que se indica a drenagem percutânea. A drenagem percutânea é procedimento minimamente invasivo considerado primeira linha de tratamento em pacientes com necrose pancreática infectada, resultando em resolução completa da infecção em 20% a 60% dos pacientes. Apresenta como possível complicação a ocorrência de fístulas pancreático-cutâneas. Caso haja falha terapêutica, indica-se a realização de necrosectomia minimamente invasiva (necrosectomia endoscópica transgástrica ou desbridamento retroperitoneal da necrose pancreática vídeo-assistido) ou via aberta, que deverá ser instituída preferencialmente após quatro semanas. As técnicas minimamente invasivas estão associadas à redução da morbimortalidade, porém múltiplos procedimentos podem ser requeridos. • Pseudoaneurisma: constitui uma contraindicação à drenagem endoscópica, a menos que tenha sido CAI NA PROVA (HOSPITAL RIO DOCE DE LINHARES –ES – 2020) Paciente de 35 anos, masculino, retorna no seu consultório para controle pós internação de um quadro de pancreatite aguda alcóolica há cerca de 6 semanas. Paciente se encontra estável e no momento assintomático. Relata estar se alimentando melhor, sem ingerir bebida alcóolica e em acompanhamento psiquiátrico. Ele traz junto uma tomografia que foi solicitada na consulta anterior, de controle do quadro apresentado e que mostra uma lesão cística de 6 cm no andar superior do abdômen. Considerando o caso descrito, assinale a alternativa que apresenta a conduta MAIS ADEQUADA a ser tomada. A) Como se trata de uma coleção líquida deve ser puncionada e esvaziada para evitar complicações. B) Como já tem 6 semanas a conduta é cirúrgica e indica a necessidade de uma cistogastrostomia. C) Como o paciente está assintomático a lesão pode ser observada e acompanhada clinicamente. D) O melhor tratamento nesse caso deve ser a drenagem endoscópica. previamente embolizado. O tratamento de escolha é, portanto, a angiografia com embolização arterial. • Ascite pancreática: tratamento consiste na drenagem abdominal, com colocação endoscópica de stent pancreático através do ponto de ruptura do ducto pancreático, que leva à formação da ascite. Atenção! Pacientes com ascite pancreática volumosa podem cursar com a chamada síndrome compartimental abdominal, definida como pressão intra-abdominal > 20 mmHg associado a nova disfunção orgânica. Nesses casos, é mandatória a realização de drenagem do conteúdo abdominal (paracentese). • Fístula pancreatopleural: a fístula pancreatopleural leva à formação de derrame pleural rico em amilase. Nesse caso, o doente deverá ser manejado com: nutrição parenteral, drenagem torácica e octreotide. Cerca de 40% dos doentes não respondem a esse paciente, sendo indicada drenagem torácica associada a esfincterotomia endoscópica e colocação de stent. Que tal conferir algumas questões que versam sobre o tratamento das complicações associadas à pancreatite aguda?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 65 COMENTÁRIO: Gabarito: alternativa C. (UNIVERSIDAD DE SÃO PAULO – SP – 2020) Homem, 53 anos de idade, apresentou episódio de pancreatite aguda com aumento progressivo do abdome e no oitavo dia de internação evoluiu com desconforto respiratório, hipotensão, oligúria e a pressão intra-abdominal atingiu 23 mmHg, com adoção de suporte cardiovascular, respiratório e renal. Com base nas alterações fisiológicas, nos achados físicos e de imagem (vide figura), qual o procedimento mais efetivo para melhorar as alterações observadas? A) Drenagem percutânea. B) Sondagem gástrica e retal. C) Laparotomia com peritoneostomia. D) Drenagem endoscópica. COMENTÁRIO: Estamos diante de paciente estável e assintomático, com lesão cística em topografia pancreática em período superior a quatro semanas da ocorrência de pancreatite aguda, o que nos leva ao diagnóstico de PSEUDOCISTO PANCREÁTICO. Qual seria a melhor conduta nesse contexto?! Acompanhar clinicamente, uma vez que o paciente não apresenta sintomas. Lembre-se de que 70% dos pseudocistos pancreáticos irão regredir espontaneamente, admitindo conduta expectante. Estamos diante de paciente com pancreatite aguda que complicou com ascite pancreática e desenvolvimento da síndrome compartimental abdominal (pressão intra-abdominal > 23 mmHg associada a sinais sugestivos de falência orgânica, como hipotensão, oligúria e desconforto respiratório). Nesse caso, a conduta inicial deve ser no intuito de aliviar a pressão intra-abdominal. Qual é a medida mais rápida e eficiente nesse caso? A drenagem percutânea! Esse procedimento irá permitir a retirada de boa parte do líquido ascético intra-abdominal, aliviando a pressão na cavidade. Vale lembrar que sondagem gástrica e retal são medidas indicadas diante de hipertensão abdominal, todavia, tomando o caso específico, em que temos a ascite pancreática como principal causa dos altos níveis pressóricos, sem dúvidas, a drenagem percutânea da ascite será mais eficiente. Gabarito: alternativa A Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 66 Que tal uma tabela sintetizando o manejo diante das principais complicações?! 1.8.6 TRATAMENTO CONFORME ETIOLOGIA O paciente evoluiu com pancreatite aguda por algum motivo, concorda?! Como vimos anteriormente, o motivo pelo qual o paciente apresentou pancreatite aguda deverá ser investigado, pois, uma vez identificado, seu adequado manejo evitará que o paciente evolua com novos episódios de pancreatite aguda. Neste tópico, abordaremos justamente o tratamento das causas da pancreatite aguda. • PANCREATITE AGUDA DE ETIOLOGIA BILIAR: além do já comentado tratamento clínico, dois pontos fundamentais devem ser discutidos para os pacientes com pancreatite aguda de etiologia biliar: MANEJO COMPLICAÇÕES Pseudocisto pancreático Assintomático e não-infetado: conduta expectante Infectado/Sintomático/Crescimento:drenagem endoscópica ou percutânea Necrose pancreática Estéril: conduta expectante Infectada: antibioticoterapia e drenagem percutânea ou endoscópica → na ausência de melhora, necrosectomia (minimamente invasiva ou aberta) Pseudoaneurisma Embolização por arteriografia Ascite pancreática Drenagem percutânea Colocação endoscópica de stent pancreático através do ponto de ruptura do ducto pancreático Fístula pancreatopleural Drenagem torácica Nutrição enteral Octreotide Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 67 1. Quando realizar a colecistectomia? • A colecistectomia videolaparoscópica está indicada para TODOS os portadores de pancreatite aguda de etiologia biliar. Mas, quando essa cirurgia deverá ser realizada? • Em pacientes com pancreatite aguda leve de etiologia biliar, recomenda-se a realização de colecistectomia videolaparoscópica na mesma internação motivada pela pancreatite aguda, com o intuito de evitar recorrência da pancreatite. Naqueles pacientes com pancreatite aguda de maior gravidade, com a presença de coleções fluidas peripancreáticas, a colecistectomia deverá ser adiada até estabilização ou resolução das coleções e melhora do status inflamatório do doente. 2. Quando realizar colangiopancreatografia retrógrada endoscópica com papilotomia? • Não se recomenda a realização da CPRE com papilotomia na emergência para todos os pacientes com pancreatite aguda de etiologia biliar. Tal procedimento está indicado para pacientes com colangite (lembre-se da tríade de Charcot: icterícia, febre e dor abdominal) e obstrução do ducto biliar comum. • PANCREATITE AGUDA ALCOOLICA: além do tratamento de suporte, o paciente deverá ser encaminhado para tratamento do alcoolismo, com acompanhamento profissional periódico e adequado. • PANCREATITE AGUDA POR HIPERTRIGLICERIDEMIA: nos pacientes com pancreatite aguda grave, aférese ou uso de insulina regular intravenosa em bomba de infusão contínua, deverá ser considerado. O objetivo do tratamento é que os níveis de triglicérides sejam doenças completamente distintas, mas, sim, como entidades diferentes dentro do espectro da doença pancreática. A pancreatite crônica, inclusive, pode ser resultado de múltiplos e recorrentes episódios de pancreatite aguda. Então, que tal começarmos com uma bela definição de PANCREATITE CRÔNICA?! A primeira grande lição que preciso que você compreenda é que, ao contrário da pancreatite aguda, a pancreatite crônica é IRREVERSÍVEL. A avaliação histológica desse parênquima pancreático revela inflamação crônica, fibrose, destruição dos tecidos exócrinos e, finalmente, dos tecidos endócrinos. A segunda grande lição é que a pancreatite crônica é uma doença PROGRESSIVA, ou seja, nas fases iniciais, não se apresenta com toda a clínica típica e o pâncreas mantém sua funcionalidade de forma que o diagnóstico nessa fase pode ser realmente desafiador. Acredita-se que a incidência de pancreatite crônica varie em torno de 5 a 12/100.000 indivíduos, com uma prevalência de 50/100.000. A já citada dificuldade diagnóstica no início do quadro, sem dúvidas, influencia na determinação da real incidência e prevalência dessa entidade clínica. Além disso, esses números também variam de acordo com a prevalência regional dos fatores de risco, que estudaremos em seguida. No Brasil, a pancreatite crônica tem maior prevalência na região Sudeste, possivelmente motivada pelo excessivo consumo de álcool. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 70 2.1 ETIOLOGIA E FATORES DE RISCO A pancreatite crônica está associada a inúmeros fatores de risco e, muitas vezes, o mesmo doente apresenta mais de um deles. Indubitavelmente, a etiologia alcóolica merece destaque e iremos iniciar nosso estudo por ela. 2.1.1 ÁLCOOL O consumo excessivo de álcool é responsável por cerca de 70% a 80% dos casos de pancreatite crônica, sobretudo nos grandes centros urbanos, sendo o PRINCIPAL FATOR DE RISCO para a doença. No entanto, apenas 3% a 7% dos etilistas evoluem para pancreatite crônica. Esse achado sugere que outros fatores sejam necessários para que o paciente evolua para tal condição, tais como: dieta, fatores genéticos, tabagismo, etnia, tipo de álcool ingerido etc. Entre esses fatores, o tabagismo tem se destacado. Estima-se que 90% dos indivíduos que consomem álcool de forma exagerada e evoluem para pancreatite crônica sejam, também, fumantes. Existem inúmeros mecanismos através dos quais o consumo de álcool parece levar à doença pancreática. Preparei um breve resumo desses mecanismos no quadro abaixo: ÁLCOOL E A LESÃO PANCREÁTICA Como o álcool provoca danos ao pâncreas? • Aumento da concentração de proteínas no suco pancreático → contribui com a formação de cálculos no ducto pancreático → obstrução → células pancreáticas não secretam as enzimas digestivas e sofrem autodigestão. • Provoca síntese e secreção de litostatina pelas células acinares → contribui com a formação de cálculos no ducto pancreático → obstrução → células pancreáticas não secretam as enzimas digestivas e sofrem autodigestão. • Promove maior secreção de glicoproteína 2 no suco pancreático → contribui com a formação de cálculos no ducto pancreático → obstrução → células pancreáticas não secretam as enzimas digestivas e sofrem autodigestão. • Metabólitos do álcool aumentam fragilidade dos grânulos de zimogênio e lisossomos → ativação anormal das enzimas no interior das células acinares → autodigestão. • Acetaldeído provoca lesão direta às células acinares. • Aumenta atividade de NF-kappa beta. • Redução da microperfusão pancreática. • Aumento dos níveis de cálcio intracelular. • Ativação das células estreladas pancreáticas (CEP) → estimula a síntese de colágeno e outros componentes, contribuindo com a fibrose pancreática. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 71 2.1.2 TABAGISMO O tabagismo age de forma sinérgica ao alcoolismo no intuito de levar à pancreatite crônica. Quanto maior o número de maços- dia, maior é a chance de que ocorra progressão para pancreatite crônica; de maneira semelhante, a interrupção do tabagismo reduz tal progressão. O tabagismo aumenta o risco de câncer de pâncreas, de calcificações pancreáticas e de insuficiência pancreática exócrina e endócrina. Os mecanismos pelos quais o tabagismo combinado ao etilismo levam à pancreatite crônica provavelmente envolvem lesão direta associada a aumento do estresse oxidativo. 2.1.3 HIPERTRIGLICERIDEMIA A hipertrigliceridemia já foi estudada como fator etiológico para a pancreatite aguda, você se lembra?! Pacientes com aumento de triglicérides superiores a 1000 mg/dL têm maior chance de evoluir com pancreatite aguda e esses episódios podem ser recorrentes, levando a um dano pancreático progressivo, com evolução para pancreatite crônica. 2.1.4 GENÉTICA Muitos pacientes portadores de pancreatite apresentam mutações gênicas, tanto autossômicas recessivas quanto autossômicas dominantes. • Pancreatite hereditária está associada a mutações no gene PRSS1 (gene da protease de serina 1), impedindo a destruição da tripsina ativada prematuramente e fazendo com que haja ativação de outras enzimas digestivas no interior do pâncreas. Os indivíduos acometidos por tal condição, de herança autossômica dominante, costumam apresentar pancreatite crônica de início precoce. • Mutação no gene CFTR, canal de cloreto regulado por AMPc, pode estar associado à fibrose cística, principal causa de pancreatite crônica em crianças. Tal gene é responsável pela secreção de bicarbonato e cloreto nas secreções pancreáticas e respiratórias. • Mutação no gene N34S SPINK1 aumenta em 20 vezes o risco de desenvolvimento de pancreatite crônica. Quando combinada a duas mutações do CFTR, esse risco aumenta em 900 vezes. 2.1.5 AUTOIMUNE A pancreatite crônica autoimune caracteriza-se por distúrbio inflamatório pancreático crônico associado à fibrose do pâncreas e admite dois subtipos: • Tipo I: pancreatite esclerosante linfoplasmocitária Compreende a manifestação pancreática de doença sistêmica IgG4 associada. Nessa entidade, os níveis séricos de IgG4 costumam estar elevados (sensibilidade 80% e especificidade de 98%). Além do pâncreas, outros órgãos também são afetados, como os ductos biliares (constrições biliares), linfonodos (linfadenopatia hilar), glândulas salivares (sialoadenite esclerosante), retroperitônio (fibrose retroperitoneal), órbita e rins (nefrite intersticial). Estima- se que cerca de 60% dos pacientes acometidos por essa entidade apresentem acometimento extrapancreático. A biópsia pancreática revela denso infiltrado linfoplasmocitário rico em células IgG4 positivas associado à fibrose. Biópsia de qualquer um dos outros órgãos, se afetados, exibirá achados semelhantes. Essa entidade clínica costuma responder de forma dramática aos corticosteroides. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 72 • Tipo II: pancreatite ducto-central idiopática ou pancreatite com lesão granulocítica A pancreatite autoimune do tipo II é limitada ao pâncreas, não se associa à elevação sérica de IgG4 e nem 2.1.6 CAUSAS OBSTRUTIVOS Entidades que cursem com obstrução do ducto pancreático principal podem gerar pancreatite crônica, a exemplo de tumores pancreáticos, cálculos ductais, retrações fibróticas e cistos da parede duodenal. O pâncreas divisum é causa questionável de pancreatite crônica em adultos. Acredita-se que os casos a ele atribuídos também cursem com alterações genéticas. Quando não se consegue identificar a causa da pancreatite crônica, acabamos por classificá-la como “pancreatite crônica idiopática”. Corresponde a cerca de 10% a 20% dos casos de pancreatitea edema inflamatório, sem necrose. Ocorre em 90% a 95% dos doentes e está associada à doença leve, com baixa morbimortalidade (cerca de 3%). Autolimitada, geralmente, apresenta resolução em uma semana. Pancreatite necrosante: há evolução para necrose do parênquima pancreático, dos tecidos peripancreáticos ou de ambos. Ocorre em 5% a 10% dos doentes e está associada a quadros graves, com elevada morbimortalidade (cerca de 17% de mortalidade). Interessante pontuar que a principal causa de mortalidade dentre os portadores de PA varia com o passar dos dias de doença. Assim, nas primeiras duas semanas, a mortalidade por PA ocorre devido à síndrome da resposta inflamatória sistêmica e da falência orgânica. Nas semanas seguintes, geralmente, o doente morre por sepse ou outras complicações da PA. dramática, com necessidade de internação prolongada e elevada morbimortalidade. Em 1992, o Simpósio Internacional de Pancreatite Aguda, realizado em Atlanta (EUA), padronizou algumas definições e critérios diagnósticos para PA. A última revisão da classificação/ critérios de Atlanta foi feita em 2012 e, com ela, solidificou-se a divisão da pancreatite aguda em DOIS SUBTIPOS assim definidos: Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 9 1.1 ETIOLOGIA Até agora, você já entendeu que a pancreatite aguda é uma doença inflamatória do pâncreas de gravidade variável. Mas, afinal, o que pode causá-la?! Esse tópico é muito exigido nas provas de Residência Médica, então atente-se a ele! 1.1.1 LITÍASE BILIAR Não à toa essa é a primeira etiologia que estudaremos: A LITÍASE BILIAR É A PRINCIPAL CAUSA DE PANCREATITE AGUDA, você sabia?! Cálculos biliares representam cerca de 40% das causas de pancreatite aguda, embora apenas 3% a 8% dos portadores de cálculos biliares evoluam para essa condição. A PA de etiologia biliar é mais frequente em mulheres de 50 a 70 anos, ainda que o risco de desenvolver PA secundária a cálculos seja maior em homens. A maior incidência em mulheres justifica-se pelo fato de elas terem maior prevalência de doença biliar litiásica. Como o cálculo biliar causa pancreatite aguda? Embora não se saiba ao certo, duas teorias são mais aceitas. Trouxe um resumo aqui! Teoria obstrutiva: o cálculo biliar migra para o ducto pancreático, obstruindo-o. No entanto, a secreção pancreática mantém-se, promovendo aumento excessivo da pressão no interior do ducto pancreático obstruído. Teoria do refluxo: o cálculo biliar fica impactado na ampola de Vater (formada pela união do ducto pancreático com o ducto colédoco), permitindo o refluxo de sais biliares para o pâncreas. Esses sais biliares provocariam, então, uma necrose das células acinares pancreáticas. Importante pontuar que os cálculos biliares menores que 5 mm são mais propensos a passar pelo ducto cístico e obstruir a ampola de Vater, motivo pelo qual estariam associados a um risco aumentado de pancreatite aguda. Assim, não é incomum nos depararmos com questões de prova em que um indivíduo portador da chamada “lama biliar” ou “barro biliar” evolui com pancreatite aguda. LAMA BILIAR ou BARRO BILIAR é nome dado à suspensão viscosa (“lama”) que pode ocorrer no interior da vesícula biliar com a possibilidade de conter pequenos cálculos de diâmetro inferior a 5 mm. Se você ainda não conseguiu entender bem como pode um cálculo biliar provocar pancreatite, observe a imagem abaixo. Acredito que ela o ajudará a entender como ocorre a pancreatite biliar. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 10 Perceba que o ducto pelo qual saem as secreções biliares provenientes da vesícula biliar (em verde) conecta-se ao ducto que sai do pâncreas (em vermelho), formando a ampola de Vater. A ampola de Vater desemboca na papila duodenal, por meio da qual tais secreções são lançadas no duodeno. Nessa imagem, conseguimos ver que um cálculo proveniente da via biliar pode impactar na ampola de Vater e, com isso: 1) obstruir a saída das secreções pancreáticas e 2) permitir refluxo de bile por meio do ducto pancreático. Nada como uma imagem para nos ajudar a visualizar essa explicação, não é mesmo?! Figura 1. Representação esquemática de cálculo impactado no ducto biliar comum, determinando pancreatite aguda. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 11 1.1.2 ÁLCOOL Agora, estamos diante da SEGUNDA causa mais comum de pancreatite aguda (cerca de 30% a 35% dos casos). Não se engane, a incidência de pancreatite aguda em etilistas, no entanto, é baixa (cerca de 5% a 10% desenvolvem PA) e varia de acordo com a quantidade de álcool ingerida, a presença de tabagismo e a suscetibilidade individual. A PA por álcool é mais comum em homens jovens. Importante enfatizar que nem todo estilista que evolui com PA alcóolica tem uma doença pancreática crônica induzida pelo álcool subjacente. E como o álcool causaria pancreatite aguda? O álcool tem uma série de efeitos nocivos ao pâncreas, desencadeando a liberação de citocinas inflamatórias, como NF-kappa beta, TNF alfa, Interleucina 1 (Il1). Há, então, um aumento da expressão e da atividade de proteases apoptóticas, chamadas caspases. O álcool também diminui a perfusão pancreática, promove espasmo do esfíncter de Oddi (situado na ampola de Vater), leva a uma sensibilização excessiva dos ácinos à colecistocinina e promove precipitação proteica no lúmen dos ductos pancreáticos, levando a sua obstrução. 1.1.3 HIPERTRIGLICERIDEMIA A hipertrigliceridemia, sobretudo quando associada a triglicérides ≥ 1000 mg/dL, pode levar à pancreatite aguda, sendo sua causa em 1,3% a 3,8% dos casos. Algumas estatísticas apontam que esse percentual pode checar a 14%. O mecanismo pelo qual a hipertrigliceridemia leva à PA ainda não está definido, mas parece haver influência da liberação de ácidos graxos livres, lesão das células acinares e do endotélio. 1.1.4 MEDICAMENTOS Várias medicações têm o potencial de causar pancreatite aguda, entretanto apenas 0,1% a 2% dos casos de pancreatite aguda são secundários ao uso de medicamentos. Os mecanismos pelos quais essa PA ocorre são inúmeros, a saber: reação de hipersensibilidade, geração de metabólico tóxico, efeito tóxico direto, isquemia, trombose intravascular, aumento da viscosidade do suco pancreático ou até mesmo algum outro mecanismo desconhecido. Entre os potenciais causadores de PA, podemos citar, principalmente: sulfonamidas, metronidazol, tetraciclina, tiazídicos, furosemida, estatinas, azatioprina, sulfassalazina, 6-mercaptopurina, ácido valproico, acetaminofeno e alguns antirretrovirais. O prognóstico da PA induzida por drogas é excelente. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 12 SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO DA PANCREATITE AGUDA INDUZIDA POR FÁRMACOS Você sabia que as drogas que induzem pancreatite aguda podem ser classificadas de I a IV de acordo com o potencial de causar a doença? Esse esquema de classificação foi proposto por Badalov (et al.), em 2007, e baseou-se na presença de teste de provocação positivo, exclusão de outras etiologias e período de latência compatível. Segundo esse sistema, as drogas poderiam ser assim classificadas: Classe Ia: drogas que têm pelo menos um caso relatado com teste de provocação positivo, excluindo-se todas as outras causas mais comuns. Exemplos: bezafibrato, codeína, dapsona, enalapril, furosemida, isoniazida, mesalazina, metronidazol, sinvastatina, sulfametoxazol, tetraciclina, ácido valproico. Classe Ib: drogas que têm pelo menos um caso relatado com teste de provocação positivo, sem exclusão de todas as outras causas. Exemplos: amiodarona, azatioprina, lamivudina,crônica. Pancreatite tropical – um tipo de pancreatite idiopática Como o próprio nome sugere, a pancreatite tropical ocorre em áreas tropicais, ou seja, regiões que se situam por volta de 30 graus acima e abaixo da linha do Equador, destacando-se a Índia e a África. Cerca de metade dos portadores dessa condição apresentam mutação do SPINK1, porém a etiologia dessa entidade ainda permanece indefinida. Clinicamente, apresenta-se como pancreatite crônica de início na infância associada a desnutrição, diabetes, além de pâncreas calcificado e atrofiado. Ocorre morte precoce, por volta dos 50 anos de idade. à infiltração por células IgG4. Cerca de 15% a 30% dos casos associam-se a doença inflamatória intestinal. À semelhança da pancreatite autoimune tipo I, também apresenta excelente resposta aos corticosteroides. 2.1.7 IDIOPÁTICA A pancreatite crônica idiopática pode ser de início precoce, ocorrendo por volta dos 20 anos, e apresentando dor abdominal como principal sintoma. Já na pancreatite crônica idiopática de início tardio, que surge por volta dos 50 anos, os achados mais comuns são calcificação pancreática, bem como insuficiência exócrina e endócrina. 2.1.8 RECORRÊNCIA/RECIDIVA DE PANCREATITE AGUDA Após um episódio de pancreatite aguda, 10% dos pacientes evoluirão com pancreatite crônica. Assim, a recidiva/recorrência de pancreatite aguda é uma das principais causas de pancreatite crônica. O risco também é maior nas pancreatites agudas mais graves, como as necrosantes. Que tal sintetizarmos as causas/fatores de risco da pancreatite crônica, que acabamos de estudar?! Mnemônico: TIGRÃO (só que sem o ~) Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 73 Fatores de risco/causais – pancreatite crônica T Tóxico-Metabólicas: Alcoolismo Tabagismo Hipertrigliceridemia Medicamentos Hipercalcemia I Idiopática: Pancreatite tropical G Genética: Mutação PRSS1, CFTR, SPINK1, CTRC, CASR R Recidivas/Recorrência: Pancreatite aguda que recidiva várias vezes A Autoimune: Pancreatite autoimune tipo I e II O Obstrução: Tumores Cistos Fibroses Quer saber como os fatores de risco/etiológicos da pancreatite crônica podem ser cobrados em sua prova de Residência Médica?! Confira a questão a seguir e vamos aproveitar para fazer uma breve revisão!! CAI NA PROVA (UEL – PR – 2020) Em relação à pancreatite crônica, considere as afirmativas a seguir. I. O tabagismo tem um efeito sinérgico ao álcool em sua etiologia. II. Níveis séricos de IgG4 estão elevados na pancreatite autoimune. III. Polimorfismos genéticos aumentam o risco de progressão da doença. IV. Esteatorreia ocorre nas fases iniciais por insuficiência exócrina. Assinale a alternativa correta. A) Somente as afirmativas I e II são corretas. B) Somente as afirmativas I e IV são corretas. C) Somente as afirmativas III e IV são corretas. D) Somente as afirmativas I, II e III são corretas. E) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 74 COMENTÁRIO: Caro Aluno, questão sobre pancreatite crônica abordando nuances clássicas sobre o tema. Que tal analisarmos cada alternativa isoladamente? I. (CORRETA). O tabagismo tem um efeito sinérgico ao álcool em sua etiologia. A principal causa de pancreatite crônica no Brasil é a pancreatite alcoólica (70% a 80% dos casos). Já tabagismo é responsável por aproximadamente 25% dos casos de pancreatite crônica. Tabagismo e alcoolismo agem sinergicamente no dano ao pâncreas. II. (CORRETA). Níveis séricos de IgG4 estão elevados na pancreatite autoimune. A dosagem de IgG4 tem elevada sensibilidade e especificidade para o diagnóstico da pancreatite autoimune tipo I, como acabamos de ver. III. (CORRETA). Polimorfismos genéticos aumentam o risco de progressão da doença. Entre os fatores de risco/causais para pancreatite crônica, podemos citar fatores genéticos (mutações nos genes PRSSI, SPINK1, CFTR). A associação entre essas mutações aumenta, ainda mais, o risco de progressão para pancreatite crônica. IV. (INCORRETA). Esteatorreia ocorre nas fases iniciais por insuficiência exócrina. A esteatorreia é uma das manifestações da insuficiência pancreática exócrina que ocorre apenas tardiamente no contexto da pancreatite crônica, quando mais de 90% do parênquima pancreático é afetado. Estudaremos sobre isso adiante! Gabarito: alternativa D. 2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Outro aspecto muito relevante a ser conhecido diz respeito às manifestações clínicas da pancreatite crônica. A pancreatite crônica geralmente apresenta início insidioso e tem na dor abdominal seu principal sintoma, secundária à inflamação, isquemia ou ao aumento da pressão intrapancreática. Importante pontuar que uma pequena quantidade de portadores de pancreatite crônica apresenta-se assintomático. 2.2.1 DOR ABDOMINAL Considerado um dos principais sintomas de pancreatite crônica, a dor abdominal apresenta intensidade variável e, geralmente, progressiva com a evolução da doença. Tal dor costuma associar-se à ingestão alimentar de forma que, muitas vezes, o doente passa a “evitar a alimentação”, causando perda ponderal. A localização dolorosa mais comum é a região epigástrica, havendo irradiação para as costas. Náuseas, vômitos e anorexia também podem estar associados ao quadro álgico. A dor abdominal varia em relação à sua intensidade, podendo ser de leve a intensa. Neste último caso, o doente apresenta perda importante da sua qualidade de vida associada ao fato de muitas vezes necessitar recorrer ao uso de narcóticos. Outro ponto importante a ser citado diz respeito à mudança no padrão da dor. Uma piora súbita da dor abdominal pode estar associada a complicações da pancreatite crônica, como obstrução biliar ou duodenal, pseudocisto ou carcinoma pancreático. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 75 2.2.2 MÁ DIGESTÃO Lembra do nosso tópico sobre distúrbios disabsortivos?! O pâncreas, por sua função exócrina, pode levar à má digestão e, consequentemente, à disabsorção em condições patológicas, a exemplo da pancreatite crônica. Na pancreatite crônica, a inflamação e fibrose pancreáticas afetam ductos pancreáticos e células acinares. Nesses casos, o doente cursa com clínica de diarreia crônica, esteatorreia, fadiga e perda de peso. Interessante citar que, para que haja má digestão secundária à pancreatite crônica, cerca de 90% da capacidade secretória do pâncreas exócrino deve estar comprometida. Por esse motivo, a esteatorreia é mais comum após anos de doença (5 a 10 anos, aproximadamente). Casos mais graves cursam, também, com hipovitaminoses A, D, E e/ou K (vitaminas lipossolúveis) e seus sintomas, como hemorragias, osteopenia etc. Cerca de 20% dos pacientes com pancreatite crônica apresentam sintomas de má digestão sem cursar com dor abdominal! 2.2.3 DIABETES MELLITUS As células das ilhotas pancreáticas também podem ser atingidas pela pancreatite crônica, cursando com diabetes mellitus. Tal distúrbio ocorre em cerca de 40% a 80% dos doentes e, geralmente, apenas anos após os sintomas de dor abdominal e disabsorção. 2.2.4 OUTROS SINTOMAS Icterícia e colangite ocorrem em 5% a 10% dos portadores de pancreatite crônica, secundárias à fibrose da parte distal do colédoco. Esse tema será abordado logo adiante, no tópico de complicações. Qual seria, então, o paciente “típico” de pancreatite crônica nas provas de Residência Médica? PANCREATITE CRÔNICA: PACIENTE TÍPICO • Fator de risco: alcoolismo, tabagismo, múltiplos episódios de pancreatite aguda prévios, fibrose cística etc. • Dor abdominal epigástrica de intensidade variável (geralmente intensa). • Perdade peso. • Esteatorreia. • Diabetes Mellitus. Obs.: lembrando que, nos estágios iniciais da doença, o paciente pode apresentar-se assintomático ou oligossintomático. Quer ver um exemplo clássico de como o conhecimento sobre as manifestações clínicas da pancreatite crônica é exigido nas questões?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 76 CAI NA PROVA (SUS BAHIA – BA – 2020) Homem, 40 anos de idade, procura atendimento médico com queixa de dor abdominal em epigástrio, irradiada para dorso, há cerca de dois anos. Neste período, refere emagrecimento de 15Kg e diarreia pastosa, cerca de 3 evacuações ao dia. De antecedentes, refere tabagismo 15 anos/maço e etilismo de 110g etanol, diariamente. Ao exame, apresenta-se emagrecido, em regular estado geral, descorado +1/4+, hidratado, acianótico, anictérico, afebril. FC: 90bpm, PA: 100X70mmHg, Peso 50Kg. Ausculta sem alterações. Abdome escavado, com ruídos hidroaéreos presentes, timpânico, flácido, com dor discreta à palpação em epigástrio. Frente ao quadro descrito, indique a hipótese diagnóstica mais provável e sua etiologia. COMENTÁRIO: Questão discursiva do ano de 2020 do SUS-Bahia. O autor quer saber qual é o diagnóstico provável do doente com base em sua apresentação clínica. Paciente com histórico de etilismo e tabagismo, perda ponderal e diarreia apresentando dor epigástrica com irradiação para dorso, provavelmente, é portador de PANCREATITE CRÔNICA. Acabamos de estudar que a pancreatite crônica ocorre por inflamação crônica do pâncreas, gerando fibrose e dano irreversível ao parênquima pancreático. Consequentemente, as funções que o pâncreas exercia passam a ser progressivamente comprometidas. Assim, pelo comprometimento da função exócrina, o doente de pancreatite crônica cursa com distúrbio disabsortivo que leva à diarreia e perda de peso. A principal causa de pancreatite crônica no Brasil é a pancreatite alcoólica, ocorrendo em 70% a 80% dos casos. Gabarito: PANCREATITE CRÔNICA POR ÁLCOOL. (UNIVERSIDADE DO RIO VERDE (UNIRV) - GO – 2020) G.G.F, 42 anos, é admitido em enfermaria de clínica médica relatando dor abdominal intensa, que piora no período pós-prandial, em cólica, com irradiação para o dorso, associado a diarreia e perda ponderal de 15 kg nos últimos 6 meses. Exames laboratoriais mostram glicemia de jejum: 400 mg/dl, colesterol total: 300 mg/dl, HDL-colesterol: 44 mg/dl, triglicerídeo: 440 mg/dl, ureia: 20 mg/dl (VR: 10 a 40), creatinina: 0,9 mg/dl (VR: 0,6 a 1,4), elastase fecalpalpável abdominal e indolor. O pseudocisto pancreático é complicação possível em pacientes com pancreatite crônica e são assintomáticos na maioria dos casos. A depender de suas dimensões, pode ser palpável ao exame físico. Incorreta a alternativa A: O câncer de pâncreas, embora seja complicação possível da pancreatite crônica e possa gerar massa palpável, provavelmente levaria a outros comemorativos, como dor abdominal, icterícia, perda de peso, fadiga, uma vez que tumores palpáveis representam doença avançada. Incorreta a alternativa B: A necrose pancreática ocorre em consequência de episódios de pancreatite aguda ou crônica agudizada, não necessariamente leva à massa palpável, a não ser que existam outras complicações associadas. Correta a alternativa C: conforme comentamos acima. Incorreta a alternativa D: O hemangioma pancreático não é diagnóstico associado à pancreatite crônica e não é nele que pensaremos frente a um quadro de massa palpável em paciente com pancreatite crônica. Incorreta a alternativa E: O abscesso pancreático é complicação infecciosa que cursaria com outros comemorativos como dor, febre, toxemia etc. Paciente está muito bem e assintomático demais para ter um abscesso no pâncreas. (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA – PR – 2018) Sobre pseudocistos pancreáticos, atribua V (Verdadeiro) ou F (Falso) às afirmativas a seguir: ( ) A maioria dos pseudocistos não apresenta comunicação com o sistema ductal pancreático; ( ) Pseudocistos grandes (maiores que 6 cm de diâmetro) têm maior probabilidade de se tornarem sintomáticos; ( ) Pseudocistos sintomáticos ou que estão aumentando de tamanho podem ser tratados através de derivação interna, cirúrgica ou endoscópica; ( ) Em pseudocistos não complicados, a drenagem percutânea é preferível em relação à drenagem interna, por apresentar menos complicações; ( ) Pseudocistos diretamente adjacentes ao estômago ou duodeno podem ser drenados seguramente por endoscopia. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 80 COMENTÁRIO: Essa questão é uma excelente revisão sobre tudo o que estudamos sobre pseudocistos. Vamos avaliar cada um dos itens?! (FALSA) A maioria dos pseudocistos apresenta comunicação com o sistema ductal pancreático. (VERDADEIRA) Pseudocistos maiores realmente têm uma maior chance de não regredirem espontaneamente e de evoluírem com complicações. (VERDADEIRA) O pseudocisto pancreático regride em até 70% dos casos, sendo indicada conduta expectante para aqueles pacientes assintomáticos. Entretanto, em casos de complicação, a drenagem cirúrgica percutânea ou endoscópica seria a conduta mais adequada. (FALSA) A drenagem interna é preferível à drenagem percutânea, uma vez que esta última está associada a uma série de complicações, como, por exemplo, fístulas cutâneas. (VERDADEIRA) Pseudocistos que mantêm relação anatômica com estômago ou duodeno podem ser drenados por endoscopia de forma segura e eficaz. Por meio desse procedimento, cria-se um pertuito entre o cisto e a parede do estômago (cistogastrostomia) ou duodeno (cistoduodenostomia), de maneira que o conteúdo do cisto passa a ser drenado para o interior do estômago. Gabarito: alternativa D. Assinale a alternativa que contém, de cima para baixo, a sequência correta. A) V - V - V - F - F. B) V - V - F - V - F. C) V - F - V - F - F. D) F - V - V - F - V. E) F - F - F - V - V. 2.3.2 OBSTRUÇÃO DUODENAL OU DO DUCTO BILIAR Vimos que a pancreatite crônica pode cursar com icterícia ou colangite. Tal clínica ocorre diante da obstrução do ducto biliar. De fato, 5% a 10% dos pacientes portadores de pancreatite crônica complicam com obstrução do ducto biliar ou do duodeno. Nos casos de obstrução duodenal, o doente apresenta clínica de dor abdominal pós-prandial e saciedade precoce. Já os casos de obstrução do ducto biliar cursam com dor abdominal, icterícia, colestase e até mesmo cirrose biliar. 2.3.3 PSEUDOANEURISMA O pâncreas apresenta proximidade anatômica com vários vasos importantes, como as artérias pancreaticoduodenal, gastroduodenal, hepática e esplênica. Na pancreatite crônica, as enzimas digestivas pancreáticas podem promover lesão na parede vascular, gerando os chamados pseudoaneurismas. A artéria mais comumente afetada pelo pseudoaneurisma pancreático é a artéria esplênica (40% dos casos), seguida pela artéria gastroduodenal (30%), pancreaticoduodenal (20%), gástrica (5%) e hepática (2%). A clínica de pseudoaneurisma é bem diversa, variando desde dor e distensão abdominais, melena e sangramento leve a hemorragia aguda expressiva com repercussão sistêmica. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 81 2.3.4 DERRAMES INTRACAVITÁRIOS DERRAMES INTRACAVITÁRIOS – MANEJO • Octreotide (análogo da somatostatina) para que haja redução da secreção pancreática. • Metade dos pacientes necessitará de abordagem endoscópica para fechamento das fístulas. 2.3.5 TROMBOSE DA VEIA ESPLÊNICA Cerca de 11% dos pacientes com pancreatite crônica evoluem com trombose da veia esplênica. A veia esplênica apresenta relação anatômica com a porção posterior do pâncreas e, em situação de inflamação como ocorre na pancreatite crônica, há predisposição a eventos trombóticos. A trombose da veia esplênica faz com A pancreatite aguda pode cursar com derrame pleural e ascite secundários à ruptura do ducto pancreático, com formação de fístulas para cavidade pleural ou peritoneal, ou à ruptura de pseudocisto com derramamento de seu conteúdo para as respectivas cavidades. O doente com ascite pode apresentar-se assintomático ou evoluir com dor e distensão abdominal e dispneia (em ascites mais volumosas). Similarmente, em casos de derrame pleural, o doente pode apresentar dor torácica e dispneia. O diagnóstico dessas condições é feito mediante análise do líquido, obtido por paracentese ou toracocentese. Concentrações de amilase superiores a 1000 UI/L são comumente encontradas. que os pacientes desenvolvam hipertensão no sistema porta e, consequentemente, predispõe às varizes gástricas. Quanto ao quadro clínico, o paciente pode ser assintomático ou cursar com sangramento gastrointestinal por meio das varizes gástricas. Ascite e esplenomegalia podem ocorrer. 2.3.6 INSUFICIÊNCIA PANCREÁTICA ENDÓCRINA Você já se cansou de saber que o pâncreas apresenta uma função endócrina e uma função exócrina, não é?! Após anos de pancreatite crônica, 30% a 50% dos portadores de pancreatite crônica evoluem com insuficiência pancreática endócrina e a manifestação mais proeminente dessa condição é a evolução para diabetes mellitus. Nesses casos, o diabetes tende a ser de difícil controle, com grande flutuação dos níveis séricos de glicose. 2.3.7 CÂNCER DE PÂNCREAS Paciente com pancreatite crônica apresenta risco aumentado de evolução para câncer de pâncreas devido à inflamação crônica do pâncreas. Tal risco dependerá do tempo de duração da doença, bem como da etiologia da pancreatite crônica. Segundo o tratado de Medicina Interna do Harrison, vinte anos após o diagnóstico de pancreatite crônica calcificada, o risco acumulado para câncer de pâncreas é de 4%. Pacientes com pancreatite crônica hereditária têm risco dez vezes maior de desenvolverem câncer de pâncreas. A sintomatologia do câncer pancreático assemelha-se e confunde-se com os próprios sintomas da pancreatite crônica, a citar: a dor abdominal, anorexia, perda de peso, icterícia e diabetes mellitus. Vamos sintetizar todas as complicações da pancreatite crônica em uma única tabela?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 82 Complicações – pancreatite crônica Pseudocisto pancreático Ascite pancreática Obstruçãoducto biiliar Derrame pleural Obstrução duodenal Trombose da veia esplênica Pseudoaneurisma Câncer de Pâncreas Diabetes mellitus 2.4 DIAGNÓSTICO Adentraremos, agora, no estudo deste tópico desafiador: o diagnóstico da pancreatite crônica. Ao contrário da pancreatite aguda, a pancreatite crônica não costuma cursar com níveis acentuadamente elevados de amilase e lipase, o que dificulta seu diagnóstico. Até o momento, já entendemos os fatores de risco e as manifestações clínicas – inclusive das complicações – então, diante da suspeita de um paciente com pancreatite crônica, como devemos proceder?! 2.4.1 EXAMES DE IMAGEM Exames de imagem como a TC de abdome multidetectores e a ressonância magnética com colangiopancreatografia são duas excelentes opções para melhor avaliação do pâncreas de paciente com suspeita de pancreatite crônica. Apesar da excelente qualidade técnica, esses exames podem ser inconclusivos para casos iniciais de pancreatite crônica havendo, muitas vezes, uma dissociação entre os sintomas e os achados dos exames. • Tomografia computadorizada (TC): com sensibilidade de 56% a 95% e especificidade de 85% a 100%, a TC de abdome é um dos mais disponíveis exames para avaliação do pâncreas e ducto pancreático. É útil não só no diagnóstico da pancreatite crônica, como de suas complicações. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 83 Figura. Imagem de tomografia computadorizada de abdome com contraste (corte transversal) de paciente com pancreatite crônica alcoólica, apresentando múltiplas calcificações / cálculos pancreáticos e afilamento difuso do parênquima pancreático. Fonte: Acervo Pessoal. Quais são os achados de pancreatite crônica na TC?! • Atrofia do pâncreas (54% dos portadores). • Dilatação do ducto pancreático (68% dos portadores). • Múltiplas calcificações parenquimatosas e intraductais (50% dos portadores). Importante reforçar que, em pacientes com pancreatite crônica de início precoce, a TC de abdome pode não mostrar nenhuma alteração conclusiva, apresentando perda de sua sensibilidade e especificidade. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 84 Como identificar o pâncreas em uma tomografia computadorizada?! Cada vez mais tem-se cobrado imagens nas provas de Residência Médica. Por isso, trouxe esse pequeno adendo para alinharmos um conhecimento muito importante: você consegue localizar com facilidade o pâncreas em uma TC de abdome?! Se sim, que ótimo! Você já pode pular para o próximo tópico. Caso não seja sua realidade, peço que passe alguns minutos apreciando a imagem abaixo: Fonte: Imagem extraída do Shutterstock. Através dela, você vê uma imagem de TC de abdome no corte transversal, com a representação de vários órgãos. Na porção central, circulado em vermelho, vemos o pâncreas. • Ressonância Magnética (RM): a ressonância magnética com colangiopancreatografia (CPRM) é excelente exame para visualização do ducto pancreático, que pode estar alterado no contexto da pancreatite crônica. Parece ser melhor que a TC para visualização de alterações pancreáticas e ductais nos estágios mais iniciais da pancreatite crônica, porém é mais caro e com menor disponibilidade. Quais são os achados da pancreatite crônica na RM? • Ducto pancreático principal normal (casos iniciais). • Irregularidades leves do ducto pancreático principal e seus ramos. • Ducto pancreático principal com áreas focais de estreitamento e dilatação + ectasia de seus ramos laterais. • Atrofia glandular. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 85 E a secretina? A secretina é um hormônio produzido pelas células duodenais, com capacidade de estimular a secreção pancreática. Secretina exógena pode ser administrada no momento da CPRM para melhor visualizar o ducto pancreático, além de possibilitar que se estime a secreção pancreática. Permite avaliar estenoses intraductais e ruptura do ducto pancreático. Trata-se CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO – ES - 2017) Paciente do sexo masculino, 53 anos, etilista crônico, foi internado na enfermaria de gastroenterologia de um Hospital Universitário apresentando dor em andar superior de abdome, iniciada há cerca de três anos, mas que se tornaram mais intensas nos últimos seis meses, com piora pós alimentação. Refere emagrecimento não quantificado. Realizou tomografia de abdome que evidenciou calcificações no parênquima pancreático e dilatação do ducto de Wirsung. Qual a melhor conduta para esse paciente? A) Complementar investigação com a realização de colangiopancreatografia retrógrada endoscópica. B) Complementar investigação com a realização de ultrassonografia endoscópica. C) Complementar investigação com a realização de colangioressonância. D) Iniciar reposição de enzimas pancreáticas. E) Prescrever dieta zero e hidratação endovenosa. COMENTÁRIO: Estamos diante de paciente com dor abdominal crônica pós-alimentar associada à perda de peso. Essa sintomatologia poderia estar presente em várias entidades clínicas e a chave para acertarmos a questão são os achados tomográficos: calcificações pancreáticas associadas à dilatação do ducto de Wirsung ou ducto pancreático. Que doença tipicamente cursaria com essa imagem?! A pancreatite crônica! Sabendo o diagnóstico, conseguimos inferir que a resposta é alternativa D. A suplementação de enzimas pancreáticas faz parte do manejo do distúrbio digestivo causado pela condição. Não se preocupe! Estudaremos isso em breve! Por enquanto, só quero que você entenda que é fundamental conhecer os achados característicos da pancreatite crônica na TC. Gabarito: alternativa D. de exame mais seguro e preciso do que a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE). O conhecimento acerca dos achados radiológicos em paciente com pancreatite crônica é fundamental para acertarmos algumas questões de Residência Médica. Que tal um exemplo?! 2.4.2 EXAMES ENDOSCÓPICOS A ultrassonografia endoscópica (USE) é o melhor exame para detecção de pancreatite crônica em pacientes com alterações leves no estágio inicial da doença. O consenso Rosemont apresenta os critérios ultrassonográficos por meio do qual se pode considerar o diagnóstico de pancreatite crônica. Baseou-se na opinião de autoridades no assunto, necessitando de maiores estudos confirmatórios. Os critérios propostos pelo consenso Rosemont dividem-se em aspectos parenquimatosos e ductais. Apresento-os abaixo, para que você tenha conhecimento. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 86 Consenso Rosemont para diagnóstico de pancreatite aguda – critérios baseados no USE Critérios Aspectos parenquimatosos Aspectos ductais Critério Principal A Focos hiperecoicos com sombreamento pós- acústico Cálculos no ducto pancreático principal Critério Principal B Lobularidade em favo de mel1 Critérios Secundários Focos hiperecoicos, de não-sombreamento, com ≥ 3 mm de comprimento e largura Contorno do ducto pancreático principal irregular Lobularidade (três ou mais lóbulos não contíguos) no corpo ou na cauda Ramos laterais dilatados3 Cistos pancreáticos ≥ 2 mm no eixo curto Dilatação do ducto pancreático principal ≥ 3,5 mm no corpo ou ≥ 1,5 mm na cauda Pelo menos três fitas2 Margem do ducto pancreático principal hiperecoico > 50% do ducto pancreático principal no corpo e cauda Legenda: 1 FAVO DE MEL = lobularidade com pelo menos três lóbulos contíguos no corpo ou cauda. 2 FITAS = linhas hiperecoicas com ≥ 3 mm de comprimento vistas em pelo menos duas diferentes direções no corpo ou cauda. 3 RAMOS LATERAIS DILATADOS = pelo menos três estruturasanecoicas tubulares com ≥ 1mm de largura cada. Como classificaremos a pancreatite crônica com base nesses achados?! Dê uma olhada na caixa de texto abaixo: PANCREATITE CRÔNICA CONSISTENTE: UM critério principal A + TRÊS ou mais critérios secundários UM critério principal A + critério principal B DOIS critérios principais A SUGESTIVO DE PANCREATITE CRÔNICA: UM critério principal A + menos de TRÊS critérios secundários Critério principal B + TRÊS ou mais critérios secundários CINCO ou mais critérios secundários PANCREATITE CRÔNICA INDETERMINADA: Ausência de critério principal + TRÊS a QUATRO critérios secundários na ausência Critério principal B + 200 mcg/g de fezes = pâncreas exócrino normal. • Elastase fecal 100 – 200 mcg/g de fezes = insuficiência pancreática leve. • Elastase fecal 7 g/dia = ESTEATORREIA. OBS: na insuficiência pancreática exócrina, esses valores costumam estar muito aumentados, sendo frequentemente BEM SUPERIORES a 7 g/dia. TESTE DA SECRETINA: a secretina é um hormônio que provoca secreção ductal de fluidos ricos em bicarbonato. Uma das formas de averiguarmos a função exócrina do pâncreas é por meio da administração intravenosa de secretina e coleta do fluido proveniente do ducto pancreático, por via endoscópica, de 15 em 15 minutos, por uma hora após a administração de tal hormônio. Opção à coleta do fluido via endoscopia é a intubação duodenal por meio de sonda flexível. Interpretação do resultado • Pâncreas exócrino normal: bicarbonato ≥ 80-90 mEq/L. • Insuficiência exócrina leve: 75% do valor normal. • Insuficiência exócrina moderada: 30%-75% do valor normal. • Insuficiência exócrina grave: ≤ 30% do valor normal. TESTE DA COLECISTOCININA: a colecistocinina estimula a secreção das enzimas digestivas pelas células acinares pancreáticas. O raciocínio é semelhante ao do teste da secretina explicado acima, com a diferença que, no caso da colecistocinina, dosamos as enzimas pancreáticas, como a tripsina. Esse teste está em desuso hoje em dia. Interpretação do resultado Tripsinaestudado no livro de distúrbios disabsortivos, mas devido à sua importância, vale a pena relembrá-lo nesse momento. A D-xilose é um carboidrato monossacarídeo absorvido a nível intestinal, tanto por transporte ativo dependente de sódio quanto por difusão simples. No teste, o paciente recebe 25 g de D-Xilose diluída em água após jejum noturno. Essa dose é capaz de ser absorvida por difusão passiva a nível intestinal, possibilitando a avaliação da permeabilidade do intestino delgado proximal (porção onde são absorvidos os carboidratos). Após a ingestão da D-xilose, a amostra de sangue venoso é coletada após uma hora e a urina, pelas próximas cinco horas. A excreção adequada de D-xilose é de 6,0 ± 1,5 g. Valores inferiores a esse ou uma concentração sanguínea menor que 20mg/dL são sugestivas de má ́ absorção. Trata-se de teste útil na diferenciação de má ́absorção por doença da mucosa intestinal e má ́ absorção secundária à digestão deficitária, como é o caso da insuficiência pancreática exócrina, que pode ocorrer na pancreatite crônica. Nessa última situação, o teste da D-xilose encontra-se normal. Vale ressaltar que pacientes com insuficiência renal podem apresentar resultado falso-positivo pela excreção deficitária da D-xilose secundária à doença renal parenquimatosa. Da mesma forma, resultados falso-positivos são observados no supercrescimento bacteriano, uma vez que a D-xilose pode ser degradada pelas bactérias intestinais, comprometendo sua absorção adequada. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 90 Vamos sintetizar os testes funcionais em uma única tabela para facilitar a visualização?! Toda vez que você ver algum deles alterados em prova, deverá lembrar de insuficiência pancreática exócrina! EXAMES PARA AVALIAÇÃO INSUFICIÊNCIA PANCREÁTICA EXÓCRINA Exame Interpretação Quantificação da elastase fecal Elastase fecal 100 – 200 mcg/g de fezes: insuficiência pancreática leve Elastase fecal 7 gramas/dia: ESTEATORREIA Teste da secretina Pâncreas exócrino normal: bicarbonato ≥ 80-90 mEq/L Insuficiência exócrina leve: 75% do valor normal Insuficiência exócrina moderada: 30%-75% do valor normal Insuficiência exócrina grave: ≤ 30% do valor normal Teste da colecistocinina Tripsinapromove diversos efeitos nocivos ao pâncreas. O tabagismo, além de predispor a uma série de malignidades, aumenta o risco de pancreatite crônica induzida pelo álcool. Assim, duas medidas de extrema relevância para o caso em questão seriam: CESSAR TABAGISMO e CESSAR ETILISMO. Gabarito: CESSAR TABAGISMO E ETILISMO. • Dieta: os pacientes devem ser estimulados a adotar uma dieta pobre em gorduras e, em caso de hipertrigliceridemia, tal condição deverá ser tratada. Ultimamente, tem-se estudado a suplementação com triglicerídeos de cadeia média, podendo ser benéfica. Acredita-se que tal suplementação aumente os níveis plasmáticos de colecistocinina e/ou apresente efeitos antioxidantes. Não devemos menosprezar a importância da adequada orientação do doente na vida e nem na prova! Quer um exemplo?! 2.5.2 CONTROLE ÁLGICO A dor é um dos principais sintomas da pancreatite crônica, podendo levar a drástica redução da qualidade de vida desses doentes. Nesses casos, devemos tratá-los com adequada ANALGESIA. Em alguns pacientes, o uso de enzimas pancreáticas de forma suplementar parece aliviar as queixas álgicas, embora não seja válido para a maioria dos pacientes, tornando controversa tal utilização. Para casos em que não há melhora, lançaremos mão de analgesia escalonada segundo nível da dor. Ou seja, inicia-se o tratamento com analgésicos menos potentes, com aumento progressivo da potência analgésica. Primeiramente, pode-se introduzir o uso de analgésicos simples como PARACETAMOL ou ANTI-INFLAMATÓRIOS NÃO- ESTEROIDAIS (AINEs), devendo-se ficar atento aos efeitos colaterais gastrointestinais destes últimos. Caso não haja melhora da dor, opioides, como TRAMADOL ou até mesmo MORFINA, poderão ser utilizados. Importante reforçar o alto grau de dependência a opioides que alguns doentes de pancreatite crônica desenvolvem. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 93 Por fim, ultimamente muito se tem discutido sobre a natureza neuropática da dor que envolve o doente com pancreatite crônica. Nesse contexto, destacam-se o uso de fármacos como antidepressivos (inibidores da receptação da serotonina ou antidepressivos tricíclicos), anticonvulsivantes (gabapentina) e ansiolíticos (pregabalina). ATENÇÃO! Não há evidências que suportem, até o momento, o uso de agentes antioxidantes como eficientes no tratamento da dor abdominal associada à pancreatite crônica. 2.5.3 ENZIMAS PANCREÁTICAS 2.5.4 SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINAS Pacientes com pancreatite crônica associada à insuficiência pancreática exócrina apresentam dificuldade de absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K), que deverão ser suplementadas em veículo adequado. Embora a suplementação com enzimas pancreáticas seja controversa em relação à melhora do controle álgico, é inequívoco seu benefício no distúrbio digestivo que se instala nos pacientes com pancreatite crônica. Os suplementos de enzimas pancreáticas podem apresentar concentrações variáveis de lipase, proteases e amilases. Além disso, podem ser de liberação lenta, revestidos, ou não. Recomenda-se supressão ácida com inibidores de bomba de prótons no caso de utilização de suplementos não-revestidos, uma vez que o pH básico melhora a performance das enzimas pancreáticas. Tais enzimas são comumente ingeridas antes das refeições e melhoram a digestão alimentar, diminuindo a disabsorção e, consequentemente, seus sintomas, como é o caso da esteatorreia. 2.5.5 TRIGLICERÍDEOS DE CADEIA MÉDIA Não sei se você está lembrado, mas, quando estudamos distúrbios disabsortivos, falamos sobre os triglicérides de cadeia média. Eles têm a propriedade de não necessitar dos sais biliares e da formação de micelas para sua absorção, de forma que são degradados diretamente pelas lipases gástrica e pancreática e, posteriormente, absorvidos com baixo estimulo à secreção pancreática. Por esse motivo, esses triglicerídeos são utilizados para portadores de pancreatite crônica que apresentem importante perda ponderal, com pouca resposta à suplementação com as enzimas pancreáticas, conforme estudamos acima. O tratamento clínico da pancreatite crônica é frequentemente palco de questões de prova de Residência Médica. Vamos avaliar como ele pode ser cobrado?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 94 CAI NA PROVA (SUS BAHIA – BA – 2020) Homem, 40 anos de idade, procura atendimento médico com queixa de dor abdominal em epigástrio, irradiada para dorso, há cerca de dois anos. Neste período, refere emagrecimento de 15Kg e diarreia pastosa, cerca de 3 evacuações ao dia. De antecedentes, refere tabagismo 15 anos/maço e etilismo de 110g etanol, diariamente. Ao exame, apresenta-se emagrecido, em regular estado geral, descorado +1/4+, hidratado, acianótico, anictérico, afebril. FC: 90bpm, PA: 100X70mmHg, Peso 50Kg. Ausculta sem alterações. Abdome escavado, com ruídos hidroaéreos presentes, timpânico, flácido, com dor discreta à palpação em epigástrio. Frente ao quadro descrito, cite as duas principais medidas terapêuticas farmacológicas (classes das drogas) que devem ser instituídas nesse momento. COMENTÁRIO: Paciente com quadro clássico de pancreatite crônica representado pela história de etilismo, associada a dor epigástrica com irradiação para dorso, tendo um passado de diarreia e emagrecimento. O autor quer saber que duas medidas terapêuticas FARMACOLÓGICAS deverão ser instituídas no contexto da pancreatite crônica. O tratamento da pancreatite crônica tem como objetivo principal o controle da sintomatologia. Assim sendo, diante de quadro de dor abdominal, é mandatório ANALGESIA OTIMIZADA. Anti-inflamatórios não-esteroidais, tramadol e opioides são alguns dos fármacos possíveis. A reposição das enzimas pancreáticas também é peça fundamental nesse contexto, sendo indicada para pacientes com sinais de insuficiência pancreática exócrina, promovendo melhora da dor crônica. Gabarito: enzima pancreática OU pancreolipase OU pancreatina E analgésico OU anti-inflamatório não-esteroide OU opioide. 2.6 TRATAMENTO CIRÚRGICO As principais indicações de tratamento cirúrgico da pancreatite crônica são: • dor refratária; • obstrução biliar ou pancreática; • obstrução duodenal; • pseudocisto pancreático; • pseudoaneurisma; • possibilidade de neoplasia pancreática. Nosso foco será na cirurgia para o tratamento da dor, o assunto mais cobrado nos concursos de Residência. Procedimentos endoscópicos são uma possibilidade e, normalmente, são utilizados antes dos procedimentos cirúrgicos. No entanto, vários procedimentos endoscópicos são necessários e alguns estudos sugerem que a cirurgia é superior à endoscopia no alívio da dor e, ainda, que a cirurgia precoce pode ajudar na preservação da função pancreática (1). Em torno de 40% a 75% dos pacientes com pancreatite crônica falham nas terapias médicas e endoscópicas, sendo encaminhados para cirurgia. A indicação mais comum é dor abdominal incapacitante/refratária. Memorize essa informação! Ela é muito cobrada! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 95 Os objetivos da cirurgia são: • aliviar a dor de maneira eficaz e duradoura; • minimizar a morbidade a curto e longo prazo; • preservar o parênquima pancreático e, portanto, a função pancreática a longo prazo. ATENÇÃO! Em geral, pacientes com ducto pancreático dilatado (definido como diâmetro > 7 mm) necessitam de um procedimento de descompressão. Já os pacientes com ducto pancreático não dilatado requerem ressecção. Atualmente, a presença, ou não, de ducto pancreático dilatado e a morfologia das glândulas pancreáticas são os principais determinantes na escolha dos procedimentos cirúrgicospara a pancreatite crônica (Figura 1). Figura 1 -Algoritmo para o tratamento cirúrgico da pancreatite crônica Dor abdominal intratável devido a pancreatite crônica Duodenopancreatectomia clássica (Whipple) ou Duodenopancreatectomia com preservação pilatórica (Traverso-Longmire) ou Ressecção cabeça pancreática com preservação duodenal (Beger) Doença pp. em cabeça do pâncreas Pancreatectomia corpo-caudal Doença pp. em cauda do pâncreas Pancreatectomia total com autotransplante de ilhotas pancreáticas Doença difusa Ducto pancreático não dilatado (7 mm) DEVIDO À PANCREATITE CRÔNICA Fibrose, drenagem ruim junto à cabeça pancreática? Pancreaticojejunostomia lateral com ressecção pancreática localizada (Frey) SIM Pancreaticojejunostomia lateral (Puestow) NÃO Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 96 CAI NA PROVA (ABC 2020) As indicações de cirurgia em casos de pancreatite crônica são: A) Diabetes, suspeita de carcinoma de pâncreas, esteatorreia, pseudocisto sintomático. B) Dor grave e incapacitante, suspeita de carcinoma de pâncreas, icterícia obstrutiva, pseudocisto sintomático. C) Pancreatite por colelitíase, dor intratável, icterícia e esteatorreia. D) Dor intratável, esteatorreia, ascite e derrame pleural. COMENTÁRIO Na lata! Quais são as indicações de cirurgia para pancreatite crônica? • dor refratária; • obstrução biliar ou pancreática; • obstrução duodenal; Gabarito: alternativa B. 2.6.1 DUCTO PANCREÁTICO DILATADO DICA! Devemos dar muita importância aos epônimos, pois caem nos concursos de Residência! 2.6.1.1 PROCEDIMENTO DE PUESTOW Vamos a uma breve descrição da cirurgia para que você possa entender o conceito e sua aplicabilidade. A cirurgia de Puestow e Gillesby foi descrita, pela primeira vez, em 1957 e modificada em 1960, por Partington e Rochelle, sendo essa a técnica que mais se assemelha à utilizada atualmente. A dilatação do ducto pancreático é definida como um ducto pancreático principal medindo, pelo menos, 7 mm de diâmetro. A dilatação do ducto pancreático pode ser secundária a uma única pedra ou estenose. No entanto, é frequentemente causada por múltiplas estenoses e pedras no ducto pancreático. A dilatação do ducto pancreático observada na pancreatografia para pancreatite crônica é, classicamente, descrita como uma cadeia de lagos, que reflete a presença de múltiplas dilatações e estenoses. Os principais procedimentos indicados nos casos de pancreatite crônica com ducto dilatado são os procedimentos de Puestow-Gullesby (modificado por Partington-Rochelle) e o procedimento de Frey. Vamos falar sobre eles para entendermos suas indicações e a técnica cirúrgica. • pseudocisto pancreático; • pseudoaneurisma; • possibilidade de neoplasia pancreática. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 97 Os passos principais da cirurgia são (Figura 2): • (1) abertura do ducto pancreático em sua face anterior em sua extensão longitudinal; • (2) divisão do Jejuno; • (3) anastomose do ducto pancreático ao jejuno (látero-lateral); • (4) Jejuno-Jejuno anastomose (em Y de Roux). Figura 2 - Procedimento de Puestow A principal vantagem oferecida por esse procedimento é a conservação do parênquima, que preserva a função endócrina e exócrina. O procedimento de Puestow modificado fornece paliação da dor em 80% dos casos. No entanto, trinta por cento dos casos apresentam recorrência, geralmente em um período de três a cinco anos após a cirurgia (2). A recorrência da dor está ligada a fibrose ou litíase na cabeça pancreática que não foi tratada durante a cirurgia. As complicações são incomuns (20%), incluindo hemorragia intraoperatória, hemorragia pós-operatória e fístula anastomótica (10%). Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 98 2.6.1.2 PROCEDIMENTO DE FREY O procedimento de Frey, descrito em 1987, é uma opção em relação ao procedimento de Puestow, sendo uma alternativa para pacientes com ducto pancreático dilatado. O trabalho inicial de Frey incluiu 50 pacientes. Oitenta e nove por cento deles teve alívio da dor, 64% experimentaram ganho de peso significativo e apenas 11% tiveram progressão para diabetes(3). Os resultados de Frey foram validados por outras séries, tanto em sua própria instituição quanto em outras, com taxas de alívio da dor de 62% a 91% e taxas de morbidade de 8% a 39% (4). Os passos principais da cirurgia são (Figura 3): • (1) abertura do ducto pancreático em sua face anterior em sua extensão longitudinal; • (2) ressecção do tecido fibrótico na cabeça do pâncreas em sua porção anterior, deixando 1 cm de tecido pancreático ao longo da borda duodenal; • (2) divisão do Jejuno; • (3) anastomose do ducto pancreático ao jejuno (látero-lateral); • (4) Jejuno-Jejuno anastomose (em Y de Roux). Figura 3 - Procedimento de Frey Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 99 2.6.1.3 PROCEDIMENTO DE DUVAL/ZOLLINGER O procedimento de Duval (também descrito por Zollinger) é um procedimento de drenagem em que é realizado uma pancreaticojejunostomia em Y de Roux na cauda pancreática (Figura 4). Figura 4 - Procedimento de Duval O procedimento de Duval foi abandonado devido à alta taxa de recorrência associada a ele. 2.6.2 DUCTO PANCREÁTICO SEM DILATAÇÃO Em pacientes com ducto pancreático principal de pequeno diâmetro (Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 101 Os passos principais da cirurgia são (Figura 3): • (A) secção do colo do pâncreas; • (B) ressecção subtotal da cabeça pancreática, mantendo uma borda de parênquima pancreático que contenha o suprimento sanguíneo da arcada duodenal e a via biliar intacta; • (C) anastomose pancreatojejunal em Y de Roux. Na grande série de pacientes relatados por Berger, o alívio da dor foi alcançado em 92% dos 388 pacientes mais recentes (7). 2.6.2.2.1 PANCREATECTOMIA DISTAL Em pacientes com pancreatite crônica e doença localizada no corpo e cauda do pâncreas, a pancreatectomia distal pode ser um meio eficaz de obter alívio da dor. Pacientes com esse padrão de pancreatite crônica, geralmente, associam alterações inflamatórias graves envolvendo os vasos esplênicos ou trombose da veia esplênica com grandes vasos colaterais, tornando a pancreatectomia distal com esplenectomia concomitante, em vez da pancreatectomia distal com preservação do baço, a abordagem mais segura. 2.6.2.2 ACOMETIMENTO DO CORPO E DA CAUDA DO PÂNCREAS Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 102 Figura 6 - Pancreatectomia Distal (Corpo-caudal) 2.6.2.3 ACOMETIMENTO DIFUSO DO PÂNCREAS São relatadas taxas de alívio da dor de 57% a 84%, enquanto as de reabilitação ocupacional de 29% a 73%. As taxas de morbidade foram de 15 %a 32% e de mortalidade, 2%. A fístula pancreática pós-operatória é a principal complicação a curto prazo da pancreatectomia distal. Ocorre em aproximadamente 30% dos pacientes e parece estar mais relacionada a fatores específicos do paciente do que a técnicas operatórias. Insuficiência endócrina pós- operatória foi relatada em 8% a 45% dos pacientes. 2.6.2.3.1 PANCREATECTOMIA TOTAL A pancreatectomia total para pancreatite crônica foi realizada em 1944, por Clagett, na clínica Mayo. A cirurgia consiste em ressecar todo o parênquima pancreático e duodeno, bem como anastomose gastrojejunal e coledocojejunal (Figura 7). Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 103 Figura 7 - Pancreatectomia Total O alívio da dor pode chegar de 72% a 100% com a pancreatectomia total, tendo resultados perioperatórios semelhantes aos de outras ressecções pancreáticas importantes (morbidade de 22% a 54%, mortalidade de 0 a 14%). Os pacientes submetidos à pancreatectomia total têm uma forma “quebradiça” de diabetes, na qual evitar hiper e hipoglicemia é problemático. Além disso, episódios letais de hipoglicemia são comuns no diabetes apancreático grave. Isso ocorre devido à falta de resposta hipoglicêmica, à ausência de glucagon pancreático e ao desconhecimento da hipoglicemia, apesar da necessidade contínua de tratamento com insulina exógena. Em 1977, pesquisadores da Universidade de Minnesota descreveram o autotransplante de ilhotas após pancreatectomia total para evitar os efeitos do diabetes induzido cirurgicamente. Na maior experiência com autotransplante de ilhotas pancreáticas(8), um terço dos pacientes submetidos a esse procedimento eram independentes de insulina, um terço adicional necessitava de insulina intermitentemente e o outro terço era totalmente dependente. Segundo esse estudo, 90% tive alívio ou redução da dor e 50% conseguiu interromper os narcóticos. Embora os resultados preliminares tenham sido encorajadores, a implementação rotineira dessa intervenção cirúrgica tem sido controversa. As principais limitações associadas a esse procedimento incluem o custo e a falta de instalações de processamento de ilhotas. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 104 UFA! Muita coisa até aqui, não é mesmo?! Agora, vamos exemplificar como essas técnicas cirúrgicas são cobradas nas provas! CAI NA PROVA (HUAP 2019) Com relação ao tratamento cirúrgico da pancreatite crônica, indique a alternativa correta. A) Paciente com indicação cirúrgica que tem ducto pancreático de cinco milímetros de diâmetro é melhor tratado pela pancreatojejustomia em Y de Roux. B) A escolha do procedimento cirúrgico independe da presença ou ausência de dilatação do ducto pancreático. C) Nos casos de dor intratável clinicamente, a melhor alternativa cirúrgica é a duodenopancreatectomia mesmo com dilatação do ducto pancreático. D) A obstrução distal do ducto pancreático pode, ocasionalmente, ser tratada com pancreatectomia corpo-caudal. E) Os procedimentos descompressivos estão associados com a alta taxa de sucesso nos pacientes com envolvimento glandular difuso sem dilatação do ducto pancreático. Dor intratável Ducto dilatado (>7 mm) Puestow Frey Cabeça Cauda Difuso GDP (Whipple) Berger Pancreatectomia corpo-caudal (distal) Pancreactomia total Ducto não dilatado (107 CAPÍTULO 4.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Ahmed Ali U, Pahlplatz JM, Nealon WH, van Goor H, Gooszen HG, Boermeester MA. Endoscopic or surgical intervention for painful obstructive chronic pancreatitis. Cochrane Database Syst Rev. 2015; (3): CD007884. Published 2015 Mar 19. doi:10.1002/14651858.CD007884.pub3 2. 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Dunn, J. G. Hunter, J. B. Matthews and R. E. Pollock (2014). Schwartz's Principles of Surgery, 10th edition, McGraw-Hill Education. 7. Conwell DL, Banks PA, Greenberger NJ. Pancreatites aguda e crônica. In: Jameson JL, Kasper DL, Longo DL, Fauci AD, Hauses SL. Medicina Interna de Harrison. 20 ed. Porto Alegre: AHGH, 2020. 8. Conwell DL, Lee LS, Yadav D, Longnecker DS, Miller FH, Mortele KJ, Levy MJ, Kwon R, Lieb JG, Stevens T, Toskes PP, Gardner TB, Gelrud A, Wu BU, Forsmark CE, Vege SS. American Pancreatic Association Practice Guidelines in Chronic Pancreatitis: evidence-based report on diagnostic guidelines. Pancreas. 2014; 43(8):1143-62. 9. Diener MK, Hüttner FJ, Kieser M, et al. Partial pancreatoduodenectomy versus duodenum-preserving pancreatic head resection in chronic pancreatitis: the multicentre, randomised, controlled, double-blind ChroPac trial. Lancet. 2017; 390 (10099): 1027-1037. doi:10.1016/S0140- 6736(17)31960-8 10. Dominguez-Munoz JE, Drewes AM, Lindkvist B, Ewald N, Czakó L, Rosendahl J, Löhr JM; HaPanEU/UEG Working Group. Recommendations from the United European Gastroenterology evidence-based guidelines for the diagnosis and therapy of chronic pancreatitis. Pancreatology. 2018 Dec; 18(8):847-854. doi: 10.1016/j.pan.2018.09.016. Epub 2018 Oct 6. Erratum in: Pancreatology. 2020 Jan; 20(1):148. 11. Dudeja V, Christein JD, Jensen EH, Vickers SM. Pâncreas Exócrino. In: Townsend CM, Beauchamp RD, Evers BM, Mattox KL. Sabiston Tratado de Cirurgia: a base biológica da prática cirúrgica. 20 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. 12. Duggan SN, Ní Chonchubhair HM, Lawal O, O'Connor DB, Conlon KC. Chronic pancreatitis: A diagnostic dilemma. World J Gastroenterol. 2016 Feb 21;22(7):2304-13. 13. Elta GH, Enestvedt BK, Sauer BG, Lennon AM. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Pancreatic Cysts. Am J Gastroenterol. 2018 Apr;113(4):464-479. 14. Felga GEG. Pancreatite Aguda. In: Zaterka S, Eisig NE. Tratado de gastroenterologia: da graduação à pós-graduação. 2 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2016. 15. Freedman SD (2020). Treatment of chronic pancreatitis. In Whitcomb DC & Grover S (Ed), UpToDate. In: www.uptodate.com (Acessado em 30 de dezembro de 2020.) 16. Freedman SD (2020). Chronic pancreatitis: Clinical manifestations and diagnosis in adults. In Whitcomb DC & Grover S (Ed), UpToDate. In: www.uptodate.com (Acessado em 30 de dezembro de 2020.) 17. Friedman LS. Liver, Billiary Tract, & Pancreas Disorders. In: Papadakis MA, McPhee SJ, Rabow MW. Current Medical Diagnosis & Treatment, 59 ed. United States: Editora McGraw-Hill Education, 2020. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 108 18. Frey CF, Amikura K. Local resection of the head of the pancreas combined with longitudinal pancreaticojejunostomy in the management of patients with chronic pancreatitis. Ann Surg. 1994;220(4):492-507. doi:10.1007/BF02348284 19. Foster BR, Jensen KK, Bakis G, Shaaban AM, Coakley FV. Revised Atlanta Classification for Acute Pancreatitis: A Pictorial Essay. Radiographics. 2016 May-Jun;36(3):675-87. 20. Galvão-Alves J, Galvão MT. Pancreatite autoimune. JBM. 2014; 102(1): 17-22. 21. Gestic MA, Callejas-Neto F, Chaim EA, Utrini MP, Cazzo E, Pareja JC. Surgical treatment of chronic pancreatitis using Frey's procedure: a Brazilian 16-year single-centre experience. HPB (Oxford). 2011;13(4):263-271. doi:10.1111/j.1477-2574.2010.00281.x 22. Greenlee HB, Prinz RA, Aranha GV. Long-term results of side-to-side pancreaticojejunostomy. World J Surg. 1990;14(1):70-76. doi: 10.1007/ BF01670548 23. Gianotti L, Meier R, Lobo DN, Bassi C, Dejong CH, Ockenga J, Irtun O, MacFie J; ESPEN. ESPEN Guidelines on Parenteral Nutrition: pancreas. Clin Nutr. 2009;28(4):428-35. 24. Guarita DR, Felga GEG, Mott CB. Pancreatite Crônica. In: Zaterka S, Eisig NE. Tratado de gastroenterologia: da graduação à pós-graduação. 2 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2016. 25. Hines OJ, Pandol SJ. Management of severe acute pancreatitis. BMJ. 2019 Dec 2;367:l6227. 26. Howell DA (2020). Management of pancreatic pseudocysts and walled-off pancreatic necrosis. In Whitcomb DC & Robson KM (Ed), UpToDate. In: www.uptodate.com (Acessado em 30 de dezembro de 2020. 27. Isaji S, Takada T, Mayumi T, Yoshida M, Wada K, Yokoe M, Itoi T, Gabata T. Revised Japanese guidelines for the management of acute pancreatitis 2015: revised concepts and updated points. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2015;22(6):433-45. 28. Ito T, Ishiguro H, Ohara H, Kamisawa T, Sakagami J, Sata N et al. Evidence-based clinical practice guidelines for chronic pancreatitis. J Gastroenterol. 2016; 51: 85-92. 29. 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Pancreatoduodenectomy in the treatment of chroniclosartana, omeprazol, sulfametoxazol-trimetoprima. Classe II: drogas com pelo menos quatro casos na literatura e com período de latência consistente em 75%, ou mais, dos casos. Exemplos: paracetamol, didanosina, eritromicina, propofol, tamoxifeno. Classe III: drogas com pelo menos dois casos na literatura, sem período de latência consistente entre os casos e sem teste de provocação. Exemplos: alendronato, atorvastatina, captopril, ceftriaxona, hidroclorotiazida, isotretinoína, lamivudina, metformina, prednisona. Classe IV: drogas que não se encaixam nas classes acima, casos únicos relatados em literatura, sem teste de provocação. Exemplos: cisplatina, colchicina, ciclofosfamida, danazol, diclofenaco, finasterida, octreotide, ritonavir, rosuvastatina, sertralina. Fármacos classe Ia, Ib e II teriam, portanto, maior potencial de cursar com pancreatite aguda. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 13 1.1.5 COLANGIOPANCREATOGRAFIA RETRÓGRADA ENDOSCÓPICA (CPRE) Você sabia que a pancreatite aguda é a complicação mais frequentemente associada à CPRE? Cerca de 5% a 10% dos indivíduos submetidos a esse procedimento evoluem com pancreatite aguda, principalmente se realizado com finalidades terapêuticas. Portanto, é importante que você conheça essa associação. Os fatores de risco que se associam à PA pós-CPRE são: idade menor que 60 anos, história de PA pós-CPRE prévia, mais de duas injeções de contraste no ducto pancreático, procedimentos terapêuticos (e não apenas diagnósticos), esfincterotomia da papila menor, disfunção do esfíncter de Oddi e CPRE realizada por profissionais em treinamento. Na 20ª edição do Tratado de Medicina Interna de Harrison, consta que o uso profilático de stent no ducto pancreático e de anti-inflamatórios não esteroides por via retal poderiam reduzir a incidência de pancreatite aguda pós-CPRE. O uso de outros medicamentos com tal intuito vem sendo estudado. A Sociedade Americana de Endoscopia, por sua vez, sugere a hidratação endovenosa com Ringer lactato como forma de prevenir a pancreatite aguda pós-CPRE. Felizmente, 90% a 95% dos casos evoluem para PA leve e autolimitada. 1.1.6 TRAUMA O trauma abdominal fechado evolui para pancreatite aguda em 2% dos casos, ao passo que o trauma abdominal penetrante o faz em 1% dos casos. Trata-se da principal causa de pancreatite aguda nas crianças. 1.1.7 HIPERCALCEMIA A hipercalcemia também pode levar à pancreatite aguda, embora seja considerada causa rara. Mecanismos propostos envolvem a ativação do tripsinogênio para tripsina dentro do parênquima pancreático e precipitação cálcica no interior do ducto pancreático, levando à elevação da pressão intraductal. O hiperparatireoidismo é causa de pancreatite aguda em 1,5% a 3% dos acometidos devido à hipercalcemia associada. A hipercalcemia paraneoplásica, toxicidade por vitamina D e a sarcoidose também são associadas à PA secundária e ao aumento dos níveis de cálcio. 1.1.8 ALTERAÇÕES ANATÔMICAS Existe um fluxo normal de secreções pancreáticas do parênquima em direção ao ducto pancreático para, por fim, atingir o duodeno por meio da ampola de Vater, está lembrado(a)?! Não?! Corre lá no tópico de ANATOMIA, no livro “Anatomia do Pâncreas e Neoplasias Pancreáticas”! Enfim, o que preciso que você saiba é que perturbações na anatomia pancreática podem alterar esse fluxo e levar à lesão pancreática. É o que ocorre em algumas anormalidades congênitas, tumores pancreáticos e até em algumas parasitoses. Por exemplo, o pâncreas divisum, variação anatômica presente em 10% da população, está associado a um risco de 5% a 10% de evolução para pancreatite aguda ao longo da vida. A fisiopatologia seria justificada pela obstrução do fluxo de saída da papila minor. Pâncreas anular, coledococele tipo V e junção biliopancreática anômala são exemplos de anormalidades anatômicas que também podem cursar com pancreatite aguda. Da mesma forma, tumores do pâncreas ou da papila duodenal podem levar à PA por obstrução da drenagem do suco pancreático, de forma que a pancreatite pode ser, inclusive, a primeira manifestação da doença. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 14 1.1.9 INFECÇÕES E TOXINAS Pancreatite aguda pode estar associada a infecções por vírus (Coxsackievirus, herpes simplex, HIV), bactérias (Mycoplasma, Legionella, Leptospira, Salmonella), fungos (Aspergillus) ou parasitas (Ascaris, Cryptosporidium e Toxoplasma), embora a incidência real seja desconhecida. Além disso, toxinas de animais peçonhentos, como aracnídeos e répteis, podem levar à pancreatite aguda por estímulo colinérgico. 1.1.10 DISTÚRBIOS VASCULARES A isquemia pancreática pode levar a uma inflamação aguda do pâncreas, gerando desde quadros leves até pancreatite necrotizante. Alguns distúrbios vasculares com potencial de evolução para pancreatite aguda são: choque hemorrágico, vasculites, ateroembolismo e hipotensão intraoperatória. 1.1.11 GENÉTICA Pacientes com fatores genéticos que predisponham à pancreatite aguda frequentemente evoluem com PA recorrente, PA na infância ou, ainda, progressão para pancreatite crônica. Alguns genes mutados foram identificados como predisponentes da PA, a saber: gene PRSS1 (gene do tripsinogênio catiônico), gene CFTR (gene regulador da condutância transmembrana da fibrose cística), gene SPINK1 (inibidor da tripsina secretória pancreática), gene CTRC (gene C da quimiotripsina) e gene CASR (receptor sensível ao cálcio). 1.1.12 IDIOPÁTICA A pancreatite aguda idiopática responde por impressionantes 25% a 30% dos casos de pancreatite aguda, sendo assim classificada quando nenhuma das etiologias acima é identificável. É possível que os portadores dessa condição apresentem um perfil genético de risco mais complexo a ser desvendado. Você acredita que existem inúmeras questões de prova de Residência Médica que cobram unicamente qual é a principal etiologia da pancreatite aguda? Garanto que essa você não erra mais... Para fazer com que você não esqueça nunca mais, preparei o RANKING DA PANCREATITE AGUDA logo abaixo: Como a etiologia da pancreatite aguda é assunto muito cobrado nas provas de Residência Médica, revisar nunca é demais, não é mesmo?! Preparei esta tabela com as possíveis causas de PA e peço que você perca algum tempo analisando-a. A maioria das causas já foi explicada acima, outras são bem mais raras e foram acrescentadas apenas na tabela. O Tratado de Medicina Interna de Harrison, uma das principais referências de prova, divide as causas da PA em comuns e incomuns. Achei essa abordagem interessante e fiz algumas adaptações a fim de trazê-la aqui para você! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 15 ETIOLOGIA – PANCREATITE AGUDA Causas comuns Causas incomuns Litíase biliar Causas vasculares Consumo de álcool Doenças do tecido conjuntivo Hipertrigliceridemia Púrpura trombocitopênica trombótica CPRE Hipercalcemia Medicamentos Divertículo periampular Trauma abdominal Pâncreas divisum Pós-operatório Pancreatite hereditária Fibrose cística Infecções Insuficiência renal Pancreatite autoimune Fonte: Adaptado de Tratado de Medicina Interna (Harrison) – 20ª edição Para finalizar um tópico tão importante, que tal algumas questões de prova?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 16 CAI NA PROVA (HOSPITAL MILITAR DE ÁREA DE SÃO PAULO – SP – 2020) São causas de pancreatite aguda, exceto: A) Litíase biliar B) Alcoolismo C) Hipertrigliceridemia D) Medicamentosa E) Hiperamilasemia COMENTÁRIO: Questão simples e direta! Ficou bem mais fácil depoispancreatitis. World J Surg. 2003;27(11):1203-1210. doi:10.1007/ s00268-003-7239-6 36. Souza GD, Souza LRQ, Cuenca RM, Jerônimo BSM, Souza GM, Vilela VM. Entendendo o consenso internacional para as pancreatites aguda: classificação de Atlanta 2012. Arq Bras Cir Diag. 2016; 29 (3): 206-210. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 109 37. Tenner S, Baillie J, DeWitt J, Vege SS; American College of Gastroenterology. American College of Gastroenterology guideline: management of acute pancreatitis. Am J Gastroenterol. 2013 Sep;108(9):1400-15. 38. Townsend, C. M., R. D. Beauchamp, B. M. Evers and K. L. Mattox (2017). Sabiston Textbook of Surgery: The Biological Basis of Modern Surgical Practice, Elsevier Saunders. 39. Vege SS (2020). Management of acute pancreatitis. In Whitcomb DC & Grover S (Ed), UpToDate. In: www.uptodate.com (Acessado em 30 de dezembro de 2020.) 40. Vege SS (2020). Clinical manifestations and diagnosis of acute pancreatitis. In Whitcomb DC & Grover S (Ed), UpToDate. In: www.uptodate. com (Acessado em 30 de dezembro de 2020.) 41. Vege SS (2020). Etiology of acute pancreatitis. In Whitcomb DC & Grover S (Ed), UpToDate. In: www.uptodate.com (Acessado em 30 de dezembro de 2020.) 42. Vege SS (2020). Predicting the severity of acute pancreatitis. In Whitcomb DC & Grover S (Ed), UpToDate. In: www.uptodate.com (Acessado em 30 de dezembro de 2020.) 43. Working Party of the British Society of Gastroenterology; Association of Surgeons of Great Britain and Ireland; Pancreatic Society of Great Britain and Ireland; Association of Upper GI Surgeons of Great Britain and Ireland. UK guidelines for the management of acute pancreatitis. Gut. 2005 May;54 Suppl 3(Suppl 3):iii1-9. 44. Yokoe M, Takada T, Mayumi T, Yoshida M, Isaji S, Wada K, Itoi T, Sata N, Gabata T, Igarashi H, Kataoka K, Hirota M, Kadoya M, Kitamura N, Kimura Y, Kiriyama S, Shirai K, Hattori T, Takeda K, Takeyama Y, Hirota M, Sekimoto M, Shikata S, Arata S, Hirata K. Japanese guidelines for the management of acute pancreatitis: Japanese Guidelines 2015. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2015 Jun;22(6):405-32. 45. (2) Greenlee HB, Prinz RA, Aranha GV. Long-term results of side-to-side pancreaticojejunostomy. World J Surg. 1990;14(1):70-76. doi:10.1007/BF01670548 46. (3) Frey CF, Amikura K. Local resection of the head of the pancreas combined with longitudinal pancreaticojejunostomy in the management of patients with chronic pancreatitis. Ann Surg. 1994;220(4):492-507. doi:10.1007/BF02348284 47. (4) Gestic MA, Callejas-Neto F, Chaim EA, Utrini MP, Cazzo E, Pareja JC. Surgical treatment of chronic pancreatitis using Frey's procedure: a Brazilian 16-year single-centre experience. HPB (Oxford). 2011;13(4):263-271. doi:10.1111/j.1477-2574.2010.00281.x 48. (5) Diener MK, Hüttner FJ, Kieser M, et al. Partial pancreatoduodenectomy versus duodenum-preserving pancreatic head resection in chronic pancreatitis: the multicentre, randomised, controlled, double-blind ChroPac trial. Lancet. 2017;390(10099):1027-1037. doi:10.1016/ S0140-6736(17)31960-8 49. (6) Russell RC, Theis BA. Pancreatoduodenectomy in the treatment of chronic pancreatitis. World J Surg. 2003;27(11):1203-1210. doi:10.1007/s00268-003-7239-6 50. (7) Beger HG, Schlosser W, Friess HM, Büchler MW. Duodenum-preserving head resection in chronic pancreatitis changes the natural course of the disease: a single-center 26-year experience. Ann Surg. 1999;230(4):512-523. doi:10.1097/00000658-199910000-00007 51. (8) Bramis K, Gordon-Weeks AN, Friend PJ, et al. Systematic review of total pancreatectomy and islet autotransplantation for chronic pancreatitis. Br J Surg. 2012;99(6):761-766. doi:10.1002/bjs.8713 52. Townsend, C. M., R. D. Beauchamp, B. M. Evers and K. L. Mattox (2017). Sabiston Textbook of Surgery: The Biological Basis of Modern Surgical Practice, Elsevier Saunders. 53. Brunicardi, F. C., D. K. Andersen, T. R. Billiar, D. L. Dunn, J. G. Hunter, J. B. Matthews and R. E. Pollock (2014). Schwartz's Principles of Surgery, 10th edition, McGraw-Hill Education. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 110 5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS CAPÍTULO Caro(a) Aluno(a), Parabéns por ter chegado ao fim deste livro! Aos poucos, você está construindo uma base sólida de conhecimento que lhe permitirá alcançar seu principal objetivo: A APROVAÇÃO NA RESIDÊNCIA MÉDICA! Ao longo deste livro, busquei focar nos principais temas cobrados nas provas de Residência em se tratando de pancreatites, trouxe exercícios para solidificar o conhecimento, tabelas e mnemônicos para facilitar a aquisição de conhecimento. Tenho certeza de que você̂ fez um bom proveito e de que está pronto para resolver as questões sobre o tema! Caso tenha qualquer dúvida em relação a este material ou a qualquer outro tema relacionada à GASTROENTEROLOGIA, fique à vontade para enviar-me mensagem através do Instragram (@profaisabella) ou procurar por mim no FÓRUM DE DÚVIDAS DO ESTRATÉGIA! Críticas e sugestões também são bem-vindas, pois é através delas que nos aperfeiçoaremos cada dia mais! Agora, permita-se descansar um pouco! Já estou aguardando ansiosamente por você para o próximo módulo! Um forte abraço! Profa Isabella Parente Almeida Instagram: @profaisabella Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 111 https://med.estrategiaeducacional.com.br/ 1.0 Pancreatite Aguda 1.1 Etiologia 1.1.1 Litíase Biliar 1.1.2 Álcool 1.1.3 Hipertrigliceridemia 1.1.4 Medicamentos 1.1.5 Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica (CPRE) 1.1.6 Trauma 1.1.7 Hipercalcemia 1.1.8 Alterações Anatômicas 1.1.9 Infecções e Toxinas 1.1.10 Distúrbios Vasculares 1.1.11 Genética 1.1.12 Idiopática 1.2 Fisiopatologia 1.3 Manifestações Clínicas 1.3.1 Dor Abdominal 1.3.2 Náuseas e Vômitos 1.3.3 Outros Sintomas 1.4 Diagnóstico 1.4.1 Amilase 1.4.2 Lipase 1.4.3 Outros Exames Laboratoriais 1.4.4 Ultrassonografia de Abdome 1.4.5 Tomografia Computadorizada de Abdome 1.4.6 Outros Exames de Imagem 1.5 Avaliação da Gravidade 1.5.1 Fatores de Risco para Gravidade 1.5.2 Critérios de Ranson 1.5.3 APACHE II (Acute Physiology and Chronic Health Evaluation) 1.5.4 Escore de Marshall 1.5.5 BISAP (Bedside Index of Severity in Acute Pancreatitis) 1.5.6 Classificação de Atlanta Revisada 1.6 Diagnósticos diferenciais 1.7 Complicações 1.7.1 Coleção fluida peripancreática aguda (CFPA) 1.7.2 Pseudocisto pancreático 1.7.3 Coleção necrótica aguda (CNA) 1.7.4 Necrose pancreática delimitada/murada ou walled-off necrosis 1.7.5 Necrose infectada 1.7.6 Trombose venosa portal e esplênica 1.7.7 Ruptura do ducto pancreático 1.7.8 Pseudoaneurisma 1.7.9 Complicações sistêmicas X Falência orgânica 1.8 Tratamento 1.8.1 Ressuscitação Volêmica 1.8.2 Controle álgico 1.8.3 Dieta 1.8.4 Antibioticoterapia 1.8.5 Tratamento das Complicações 1.8.6 Tratamento conforme etiologia 2.0 Pancreatite Crônica 2.1 Etiologia e Fatores de Risco 2.1.1 Álcool 2.1.2 Tabagismo 2.1.3 Hipertrigliceridemia 2.1.4 Genética 2.1.5 Autoimune 2.1.6 Causas obstrutivos 2.1.7 Idiopática 2.1.8 Recorrência/Recidiva de Pancreatite Aguda 2.2 Manifestações Clínicas 2.2.1 Dor abdominal 2.2.2 Má digestão 2.2.3 Diabetes Mellitus 2.2.4 Outros sintomas 2.3 Complicações 2.3.1 Pseudocisto 2.3.2 Obstrução duodenal ou do ducto biliar 2.3.3 Pseudoaneurisma 2.3.4 Derrames intracavitários 2.3.5 Trombose da veia esplênica 2.3.6 Insuficiência Pancreática Endócrina 2.3.7 Câncer de pâncreas 2.4 Diagnóstico 2.4.1 Exames de Imagem 2.4.2 Exames endoscópicos 2.4.3 Testes funcionais 2.5 Tratamento Clínico 2.5.1 Orientações 2.5.2 Controle álgico 2.5.3 Enzimas pancreáticas 2.5.4 Suplementaçãode vitaminas 2.5.5 Triglicerídeos de cadeia média 2.6 Tratamento Cirúrgico 2.6.1 Ducto pancreático dilatado 2.6.1.1 Procedimento de Puestow 2.6.1.2 Procedimento de Frey 2.6.1.3 Procedimento de Duval/Zollinger 2.6.2 Ducto pancreático sem dilatação 2.6.2.1 Acometimento da cabeça/processo uncinado do pâncreas 2.6.2.1.1 Duodenopancreatectomia 2.6.2.1.2 Ressecção da cabeça pancreática com preservação duodenal (procedimento de Berger) 2.6.2.2 Acometimento do corpo e da cauda do pâncreas 2.6.2.2.1 Pancreatectomia distal 2.6.2.3 Acometimento difuso do pâncreas 2.6.2.3.1 Pancreatectomia total 3.0 Lista de questões 4.0 Referências Bibliográficas 5.0 Considerações Finaisdo que acabamos de estudar, não é mesmo? Qual das alternativas não contempla causa de pancreatite aguda? Incorreta a alternativa A: A litíase biliar é a principal causa de pancreatite aguda. Incorreta a alternativa B: O alcoolismo é a segunda principal causa de pancreatite aguda e a principal causa de pancreatite crônica (veremos adiante). Incorreta a alternativa C: A hipertrigliceridemia pode levar à pancreatite aguda, sobretudo quando níveis forem iguais ou superiores a 1.000 mg/dL. Incorreta a alternativa D: Algumas medicações podem levar à ocorrência de pancreatite aguda, sendo responsáveis por até 2% dos casos. Correta a alternativa E: A hiperamilasemia NÃO é causa de pancreatite aguda, porém essa entidade, comumente, cursa com níveis (FACULDADE DE MEDICINA DE MARÍLIA (FAMEMA) – SP – 2020) Em relação aos aspectos etiopatogênicos da pancreatite aguda, assinale a alternativa correta. A) Em aproximadamente 80% dos casos, o fator epidemiológico é conhecido, sendo o fator biliar o mais comum da forma aguda. B) A presença de calcificação parenquimatosa no pâncreas sugere fortemente o diagnóstico da pancreatite de etiologia biliar. C) As drogas ilícitas e o emprego de alguns medicamentos não são considerados fatores etiológicos da pancreatite aguda. D) Em aproximadamente 6% dos casos, não há causa definida, constituindo-se na pancreatite idiopática. COMENTÁRIO: Questão que versa sobre aspectos etiológicos da pancreatite aguda em que o autor nos questiona qual seria a alternativa correta. Vamos avaliar juntos cada uma delas?! Correta a alternativa A: Segundo o Tratado de Cirurgia de Sabiston (20ª ed.), a etiologia biliar é responsável por 40% dos casos e a alcóolica, por 35%. Já segundo Tratado de Medicina Interna de Harrison (20ª ed.), a etiologia biliar é responsável por 30% a 60% dos casos e a alcóolica, por 15% a 30%. A etiologia idiopática responderia por cerca de 20% a 30% das causas de pancreatite aguda, ou seja, em 80% dos casos, aproximadamente, há uma causa conhecida. Incorreta a alternativa B: A presença de calcificação parenquimatosa no pâncreas sugere pancreatite crônica, cuja principal causa é o etilismo. Incorreta a alternativa C: A pancreatite aguda medicamentosa é descrita, sendo responsável por cerca de 2% dos casos de pancreatite aguda. Incorreta a alternativa D: A pancreatite aguda idiopática corresponde a impressionantes 20% a 30% dos casos de pancreatite aguda. aumentados de amilase. Estudaremos sobre isso no tópico de diagnóstico. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 17 1.2 FISIOPATOLOGIA Você se recorda das células acinares que estudamos na anatomia do pâncreas (e que pedi, encarecidamente, que você voltasse para ler lá no começo)?! Bom, como você é um(a) aluno(a) “nota 10” e voltou para revisar os conceitos de anatomia e fisiologia do pâncreas, é provável que tenha respondido mentalmente a minha pergunta da seguinte maneira: Perfeito, meu(minha) querido(a) aluno(a), já consigo ver você com o jaleco da sua instituição preferida no primeiro dia de R1, hein?! As células acinares e as enzimas por ela produzidas, enquanto estiverem no parênquima pancreático, não estão em sua forma ativada. Em situações normais, essas enzimas se ativam no intestino delgado, após serem lançadas por meio do ducto pancreático principal. No entanto, a teoria mais aceita para Claro, professora! São as células produtoras das enzimas digestivas, como a tripsina, quimotripsina e amilase, que compõem o suco pancreático explicar a fisiopatologia da pancreatite aguda, chamada TEORIA DA AUTODIGESTÃO, defende que, na PA, ocorre uma ativação das enzimas proteolíticas ainda no interior das células acinares – e, portanto, em pleno parênquima pancreático. Essas enzimas ativadas, principalmente a tripsina, seriam responsáveis pela digestão dos tecidos pancreáticos, peripancreáticos e, também, pela ativação de outras enzimas. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 18 Figura. Representação esquemática das fases fisiopatológicas da pancreatite aguda. Curioso(a) sobre o tema?! Vamos aprofundar um pouquinho mais... Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 19 Segundo essa teoria, inicialmente, haveria a já comentada ativação das enzimas proteolíticas ainda no pâncreas. Acredita- se que a catepsina B ative a tripsina (enzima proteolítica), provocando lesões nas células acinares. Trata-se da fase inicial de instalação da pancreatite aguda. Na segunda fase, haveria uma ativação, quimiotaxia e sequestro de neutrófilos e macrófagos no pâncreas, promovendo, então, uma reação inflamatória com liberação de citocinas. Esses neutrófilos também teriam papel na ativação do tripsinogênio à tripsina, gerando ainda mais digestão dos tecidos pancreáticos e peripancreáticos. Por fim, na terceira fase, as enzimas proteolíticas ativadas, sobretudo a tripsina, levariam à ativação de outras enzimas, como a elastase (que degrada parede vascular) e a fosfolipase A2 (que degrada células adiposas), gerando ainda mais destruição parenquimatosa CAI NA PROVA (Clínica de Campo Grande – CCG- MS – 2017) Assinale verdadeiro (V) ou falso (F) correta em relação a etiofisiopatologia da pancreatite aguda: I - A liberação de mediadores inflamatórios promove vasodilatação, depressão do miocárdio, diminuição do retorno venoso, insuficiência renal aguda entre outros efeitos.; II - A ativação da fosfolipase A2 ocasiona lesão aguda dos enterócitos.; III- A liberação de lipase promove necrose gordurosa e hemorragia intrapancreática.; IV - A ativação de complemento e cinina leva à coagulação intravascular disseminada. A) F; V; F; V. B) V; V; F; V. C) V; F; F; V. D) V; F; V;F. COMENTÁRIOS: Questões sobre a fisiopatologia da pancreatite aguda não são muito comuns, mas podem aparecer. Vamos avaliar cada um dos quatro itens acima em busca da sequência correta? I - VERDADEIRA. A morte celular intensa, mediada pelas enzimas proteolíticas ativadas, levaria à liberação de peptídeos, de substâncias vasoativas, bradicinina e histamina, gerando vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular. II - FALSO. A ativação da enzima fosfolipase A2 levaria a uma destruição parenquimatosa do pâncreas e tecidos vizinhos. III- FALSO. A lipase e fosfolipase A2 degradam células adiposas, ao passo que os vasos sanguíneos intrapancreáticos são degradados pela elastase. IV - VERDADEIRA. A lesão celular provoca ativação do complemento, induzindo a vasodilatação e agregação plaquetária, entre outros, o que contribui com a CIVD. Também leva à liberação de bradicinina pela ativação do fator XII, que pode ativar a via intrínseca da coagulação e causar CIVD. Correta a alternativa C. do pâncreas e tecidos vizinhos. A morte celular intensa levaria à ativação do complemento e liberação de peptídeos de substâncias vasoativas, bradicinina e histamina, gerando vasodilatação, bem como aumento da permeabilidade vascular. A partir daí, instala-se um quadro de síndrome de resposta inflamatória sistêmica com potencial evolução para falência orgânica. Coagulação intravascular disseminada também pode sobrevir secundariamente à ativação do complemento, com aumento da agregação plaquetária, também mediante ativação do fator XII, e da via intrínseca, por meio da bradicinina. E, quando falo em falência orgânica, isso significa falência de QUALQUER órgão ou sistema. Ou seja, caso a pancreatite aguda complete essa evolução, estaremos diante de um gravíssimo quadro com alto risco de desfecho fatal. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA20 1.3 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Até aqui você já entendeu que a pancreatite aguda tem diversas causas e compreendeu alguns dos mecanismos propostos por meio dos quais ela se instalaria, não é mesmo?! Mas, um ponto básico no estudo de qualquer doença é saber quais são suas manifestações clínicas. Afinal, que sinais ou sintomas nos fariam suspeitar de uma pancreatite aguda?! Vamos estudá-los AGORA! 1.3.1 DOR ABDOMINAL Trata-se da PRINCIPAL queixa dos pacientes que evoluem com pancreatite aguda. Ela é tão importante que faz parte do diagnóstico da doença, como veremos a seguir. A dor abdominal na pancreatite aguda apresenta intensidade variável, de leve à intensa e incapacitante. Geralmente, é aguda e localiza-se no EPIGÁSTRIO, ANDAR SUPERIOR DO ABDOME ou PERIUMBILICAL. Pode irradiar para Posição GENUPEITORAL: você lembra qual é? A posição genupeitoral está representada ao lado e ocorre quando o doente mantém joelhos e peito apoiados sob mesmo plano horizontal, com o eixo do tronco inclinado de trás para frente e de cima para baixo. Ficará mais fácil entender olhando a figura ao lado. 1.3.2 NÁUSEAS E VÔMITOS Cerca de 90% dos doentes portadores de PA evoluem com náuseas e vômitos que são incapazes de aliviar a dor abdominal. Acredita-se que esses sintomas sejam motivados pela dor intensa, pela hipomotilidade gástrica e intestinal, pela relação íntima entre pâncreas inflamado e o estômago e/ou pela peritonite química. Fonte: Shutterstock Fonte: ShutterstockFonte: Shutterstock Fonte: Shutterstock DORSO (em metade dos pacientes), FLANCOS (direito e/ou esquerdo), TÓRAX ou até ABDOME INFERIOR. Alguns pacientes referem que a dor ALIVIA na posição GENUPEITORAL (abaixo) e piora com a posição SUPINA. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 21 1.3.3 OUTROS SINTOMAS Icterícia costuma estar presente em até 25% dos doentes devido, principalmente, à etiologia biliar. Entretanto, também pode ser observada no contexto de edema da cabeça do pâncreas com compressão do colédoco (porção intrapancreática). Dispneia pode acompanhar os pacientes por conta da inflamação diafragmática secundária à pancreatite. Quando eu vou desconfiar que o paciente da questão tem pancreatite aguda, ou seja, qual seria um caso típico de pancreatite aguda? DOENTE TÍPICO O típico paciente é aquele que se apresenta com dor abdominal no andar superior do abdome, moderada à intensa, com irradiação para o dorso e acompanhada de náuseas e vômitos. Quais são os achados do EXAME FÍSICO de um doente portador de pancreatite aguda? EXAME FÍSICO NA PANCREATITE AGUDA Ao contrário de muitas doenças como a apendicite aguda e a diverticulite, que podem apresentar um exame físico bem típico, na pancreatite aguda, os sintomas são mais típicos que os sinais. Ou seja, não há um exame físico exatamente típico de um paciente com pancreatite aguda, entretanto devemos ficar atentos aos seguintes achados: SINAIS VITAIS: febre, taquicardia, hipotensão, taquipneia e hipoxemia podem ser surpreendidos, sobretudo em pacientes com quadro mais grave. MUCOSA: icterícia pode ser evidenciada por esclera amarelada, não obrigatória em todos os pacientes com pancreatite aguda. ABDOME: dor leve à palpação ou dor intensa, a depender da gravidade da inflamação pancreática. Essa dor à palpação pode ocorrer não só na região epigástrica/abdome superior, mas em todo o abdome, de forma difusa. Distensão abdominal pode ser percebida. Ruídos hidroaéreos abolidos ou reduzidos. Massa abdominal palpável (necrose pancreática encapsulada, pseudocisto pancreático ou pâncreas aumentado com coleções líquidas) pode existir. DERMATOLÓGICO (observados em alguns pacientes): Equimoses em flancos (sinal de Grey-Turner). Equimose periumbilical (sinal de Cullen). Equimoses na base do pênis (sinal de Fox). Paniculite ou necrose nodular da gordura subcutânea, ocorrendo sobretudo nas extremidades. Fonte: Shutterstock Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 22 ATENÇÃO TOTAL NESTE MOMENTO! Sinal de Grey-Turner e de Cullen DESPENCAM nas provas de Residência Médica. Eles são indicativos de mau prognóstico e de hemorragia retroperitoneal. Embora não sejam exclusivos da pancreatite aguda, nas provas de Residência Médica, frequentemente se associam a essa condição. Você deve memorizá-los e, óbvio, irei ajudá-lo com isso! Observe a ilustração abaixo e o mnemônico que preparamos para você: MNEMÔNICO!!! Os dois sinais são equimoses que ocorrem no abdome, certo? Sinal de Grey-Turner tem DUAS palavras – Grey e Turner. E quantos flancos nós temos? DOIS! Perfeito... Sinal de Grey-Turner = equimose nos flancos. Sinal de Cullen tem UMA palavra – apenas Cullen. E quantos umbigos nós temos? UM! Então, sinal de Cullen = equimose periumbilical. Sei que pode parecer um mnemônico ruim, mas funcionou para mim... pode funcionar também para você! Então, se ajudá-lo a acertar a questão, já está valendo! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 23 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS – PANCREATITE AGUDA Dor abdominal Sinais dermatológicos Leve à intensa Sinal de Cullen: equimose periumbilical Epigástrica | quadrante superior abdome | periumbilical Sinal de Grey-Turner: equimoses nos flancos Irradia para dorso | flancos | tórax | abdome inferior Paniculite ou nódulos subcutâneos nas extremidades Piora com posição SUPINA Melhora com posição GENUPEITORAL Náuseas e vômitos Outros sinais Comuns Febre Não aliviam dor abdominal Taquicardia Hipotensão Outros sintomas Icterícia (50% dos casos) Dispneia Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 24 CAI NA PROVA (HOSPITAL ESTADUAL SERRA DOS ÓRGÃOS – UNIFESO – RJ – 2020) No exame físico de um paciente com quadro de pancreatite aguda necro- hemorrágica, a presença de qual sinal, ao exame físico, é compatível com esse diagnóstico? A) Sinal de Grey-Turner. B) Sinal de Blumberg. C) Sinal de Mcburney. D) Sinal de Prehn. E) Murphy. COMENTÁRIO: Correta a alternativa A: O Sinal de Grey Turner é a presença de equimose nos flancos. É sugestivo de pancreatite necro-hemorrágica (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE JOÃO PESSOA – SMS – PB – 2020) Paciente do sexo feminino, 60 anos de idade, chega ao hospital com quadro de dor abdominal localizada em epigástrio e/ou periumbilical, que irradia para as costas, acompanhada de vômitos. Nega febre, não urinou nas últimas 12 horas e refere evacuação normal. Ao exame físico a paciente apresenta mucosas secas, turgor de pele reduzido, frequência cardíaca de 90bpm e PA 90 x 50 mmHg, abdômen distendido doloroso a palpação difusamente com presença de equimoses nos flancos e periumbilical. Assinale a alternativa correta em relação ao caso em questão. A) A principal hipótese diagnóstica é de pancreatite crônica e a paciente deve ser encaminhada para realizar exames de ressonância magnética e ultrassom endoscópico. B) A principal hipótese diagnóstica é de pancreatite aguda e a paciente deve ser encaminhada para tratamento cirúrgico imediato. C) A principal hipótese diagnóstica é de pancreatite crônica e a paciente deve ser encaminhada para tratamento cirúrgico imediato. D) A principal hipótese diagnóstica é de pancreatite aguda e a paciente deve ser encaminhada imediatamente para unidade de terapia intensiva. e ocorre devido à hemorragia retroperitoneal. Importante pontuar que não é patognomônico de pancreatite aguda, embora, nas questões de prova, geralmente esteja presente nessa condição clínica. Incorreta a alternativa B: O sinal de Blumberg, um sinal clássico da apendicite aguda, consiste na descompressãobrusca dolorosa no ponto de McBurney. Incorreta a alternativa C: Não existe sinal de McBurney, e sim PONTO de McBurney. Ele está situado no limite do terço médio com o terço inferior de uma linha traçada entre o umbigo e a crista ilíaca anterossuperior. Incorreta a alternativa D: O sinal de Prehn é alívio da dor ao elevar a bolsa testicular do lado afetado. Positivo nas orquiepididimites e negativo na torção testicular. Incorreta a alternativa E: O sinal de Murphy consiste na interrupção abrupta da inspiração profunda por dor à palpação do hipocôndrio direito. Esse sinal é um clássico da colecistite aguda. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 25 COMENTÁRIO: Paciente com quadro de dor abdominal epigástrica associada a náuseas e vômitos com irradiação para costas, tem sintomas compatíveis com o diagnóstico de pancreatite aguda. Analisando melhor o caso, paciente está hipotensa e sem diurese em 12 horas, além de apresentar os sinais de Grey-Turner e Cullen (equimoses nos flancos e periumbilical, respectivamente). Qual é a alternativa CORRETA para a questão?! Incorreta a alternativa A: O doente com pancreatite crônica apresenta dor abdominal crônica de intensidade progressiva associada a emagrecimento. Ademais, pode cursar com diarreia e diabetes. Quadro clínico da questão é aguda, desfavorecendo esse diagnóstico. Incorreta a alternativa B: A pancreatite aguda é doença de tratamento clínico, a menos que apresente complicações específicas, como necrose pancreática infectada. Iremos estudar mais sobre o tratamento da pancreatite aguda ao final do capítulo. Incorreta a alternativa C: A pancreatite crônica não é bom diagnóstico para o caso em questão. Se o fosse, a cirurgia estaria indicada para tratamento de dor refratária ao tratamento clínico otimizado. Correta a alternativa D: Paciente com sintomas compatíveis com pancreatite aguda, apresentando sinais de disfunção orgânica (ausência de diurese e hipotensão) e as equimoses que são características de mau prognóstico. Nesse caso, o ideal seria encaminhar a paciente para Unidade de Terapia Intensiva. 1.4 DIAGNÓSTICO Já vou iniciar este tópico com um conceito IMPORTANTE e EXIGIDO nas provas de Residência Médica: o diagnóstico de pancreatite aguda não depende da realização de exames de imagem!! Ou seja, diante de um paciente com suspeita de pancreatite aguda, você não precisará da realização de tomografia computadorizada de abdome e, muito menos, de ultrassonografia do abdome para confirmar esse diagnóstico. Esses exames têm indicações específicas no contexto da PA e explicaremos em breve. E como é feito, então, o diagnóstico de pancreatite aguda?! Para diagnóstico de pancreatite aguda, são necessários dois dos três critérios abaixo: 1. Achados clínicos típicos/compatíveis: dor abdominal no quadrante superior do abdome associado a náuseas e vômitos. 2. Elevação de três ou mais vezes nos níveis séricos de AMILASE e/ou LIPASE. 3. Achados característicos nos exames de imagem. Conseguiu perceber que podemos diagnosticar pancreatite aguda apenas com achados clínicos e laboratoriais (itens 1 e 2)?! Os achados clínicos compatíveis com pancreatite você já domina, não é mesmo?! Acabamos de estudá-los. Vamos, então, aprofundarmo-nos no estudo da AMILASE e da LIPASE. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 26 1.4.1 AMILASE A amilase e a lipase são enzimas digestivas produzidas pelo pâncreas. Na fase inicial da pancreatite aguda, a síntese dessas enzimas é mantida, porém a secreção está bloqueada. Assim, essas enzimas saem das células acinares, onde são produzidas, para o espaço intersticial, atingindo a circulação sistêmica. Um aumento de amilase acima de três vezes o limite superior da normalidade apresenta sensibilidade de 67% a 87% e especificidade de 85% a 98% para diagnóstico de pancreatite aguda. No entanto, é de suma importância lembrar que não apenas a pancreatite aguda pode cursar com hiperamilasemia, existindo uma série de outros distúrbios que podem se apresentar com tal achado (quer saber mais?! Leia atentamente a tabela ao fim deste tópico). A amilase costuma aumentar em seis a 12 horas após o início da pancreatite aguda, ou seja, eleva-se já nas primeiras 24 horas, com pico em 48 horas. Costuma manter-se elevada por cerca de três a sete dias. O aumento da amilase não é achado obrigatório na pancreatite aguda e algumas situações especiais podem fazer com que esse aumento não seja possível, a saber: • Pacientes com pancreatite alcóolica: alguns desses pacientes apresentam lesão pancreática subjacente que torna o pâncreas incapaz de produzir amilase (cerca de 20% dos doentes). • Pacientes com hipertrigliceridemia: os triglicérides aumentados podem interferir no método laboratorial pelo qual a amilase é dosada em cerca de metade dos doentes. A amilase é enzima encontrada principalmente no pâncreas e saliva, entretanto pode estar presente em vários outros órgãos - pulmões, tireoide, tubas uterinas, intestino delgado, ovários, tecido adiposo, musculatura esquelética - em pequenas quantidades. Além disso, pode ser produzida por neoplasias de pulmão, esôfago, mama e ovário. Por esse motivo, várias outras condições podem cursar com aumento de amilase. Por exemplo, pacientes com acidose (pH ≤ 7,32) podem apresentar elevação fictícia de amilase, o que explica a hiperamilasemia nos pacientes com cetoacidose diabética. Confira abaixo a tabela que prometi com as outras causas de HIPERAMILASEMIA que NÃO a PANCREATITE AGUDA. OUTRAS CAUSAS DE HIPERAMILASEMIA Mecanismo Distúrbios Aumento amilase salivar Justificativa: a amilase também está presente na saliva, e os principais métodos de dosagem de amilase sérica não diferenciam amilase salivar da pancreática. Alguns distúrbios cursam com aumento da produção de amilase salivar. • Parotidite • Alcoolismo crônico • Anorexia/bulimia Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 27 Macroamilasemia Justificativa: a amilase pode ligar-se a macromoléculas, como imunoglobulinas e polissacarídeos, formando complexos, chamados de macroamilase. Devido ao seu elevado tamanho, a excreção renal desse complexo é reduzida, acarretando elevações nos níveis da amilase sérica. • Doença celíaca • Infecção por HIV • Artrite reumatoide • Linfoma • Retocolite ulcerativa • Gamopatia monoclonal Aumento amilase outros órgãos/tumores Justificativa: a amilase também está presente em pequenas quantidades em outros órgãos e alguns tumores também podem produzi-la. • Carcinoma de pulmão, mama, tireoide, ovário, pâncreas • Gestação, gestação ectópica, gestação ectópica rota • Doenças/infecções pulmonares Outros distúrbios pancreáticos • Pancreatite crônica • Pseudocisto pancreático • Ascite por ruptura de ducto pancreático • Trauma pancreático Drogas • Opioides • Heroína • Ácido aminosalicílico • Nitrofurantoína • Aspirina • Sais de cálcio • Clorpromazina • Didanosina • Estrogênio • Lamivudina • Metoclopramida • Metronidazol • Sulfonamidas • Ácido valproico Mecanismos incertos de aumento da amilase • Cetoacidose diabética • Queimadura • Insuficiência/transplante renal • Doenças das vias biliares: colecistite, coledocolitíase • Doenças intra-abdominais: úlcera péptica perfurada, obstrução intestinal, inflamação intestinal, peritonite, aneurisma de aorta, pós-operatório Hiperamilasemia idiopática • Síndrome de Gullo • Hiperamilasemia familial Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 28 1.4.2 LIPASE A lipase é um marcador mais confiável do que a amilase para diagnóstico de pancreatite aguda, alémde apresentar maior meia-vida. A lipase sérica apresenta sensibilidade de 82% a 100% para diagnóstico de pancreatite aguda. É considerado marcador mais acurado, específico e com maior janela diagnóstica no contexto da pancreatite aguda. O aumento da lipase inicia-se em quatro a oito horas após o início dos sintomas da pancreatite aguda, com pico em 24 horas, e permanece elevada por oito a 14 dias, quando retorna aos níveis habituais. Ou seja, a lipase começa a aumentar quase concomitantemente à amilase, porém permanece elevada por mais dias. Mesmo sendo mais específica que a amilase, a lipase também pode estar elevada em algumas situações que não na pancreatite aguda, como descrito na tabela abaixo: OUTRAS CAUSAS DE HIPERLIPASEMIA Pancreatite crônica Insuficiência renal Obstrução intestinal Colecistite aguda Infarto intestinal Ulceração duodenal Pancreatite calculosa Tumor pancreático Diabetes mellitus tipo 2 Cetoacidose diabética Infecção pelo HIV Hepatite C Pós-CPRE Sarcoidose Doença celíaca Doença inflamatória intestinal Drogas Idiopática Legenda: HIV = vírus da imunodeficiência adquirida humana; CPRE = colangiopancreatografia retrógrada endoscópica ATENÇÃO! Peço que guarde esta informação em um precioso local da sua mente. É um conceito básico e EXTENSAMENTE exigido nas provas de Residência Médica: Os níveis de amilase e lipase não têm importância prognóstica na pancreatite aguda. OU SEJA: NÍVEIS MAIS ELEVADOS NÃO SIGNIFICAM PANCREATITE AGUDA MAIS GRAVE! Que tal uma questão para treinarmos alguns aspectos do que estudamos até agora? Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 29 CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (UFPR) – PR – 2017) Com relação à amilasemia, é CORRETO afirmar que: A) Geralmente se eleva após 48 horas do início dos sintomas de pancreatite aguda. B) É importante para o prognóstico da pancreatite aguda. C) Hiperamilasemia pode ocorrer na parotidite. D) Tem maior especificidade do que a lipasemia para o diagnóstico de pancreatite aguda. E) Tem maior sensibilidade do que a lipasemia para o diagnóstico de pancreatite aguda. COMENTÁRIO: Questão sobre AMILASEMIA, ou seja, aumento sério de amilase. O autor deseja saber qual é a assertiva correta. Incorreta a alternativa A: Na pancreatite aguda, tanto a amilase quanto a lipase aumentam já no primeiro dia de doença. No entanto, a amilase costuma ficar elevada por, apenas, três a sete dias, enquanto a lipase continua elevada por sete a 14 dias. Incorreta a alternativa B: Aumento de amilase acima de três vezes é um dos critérios diagnósticos possíveis para pancreatite aguda, entretanto os valores de amilase não interferem no prognóstico da doença. Correta a alternativa C: Outras doenças/condições podem cursar com aumento da amilase, sendo a parotidite uma delas. Incorreta a alternativa D: A lipase é mais acurada e específica para o diagnóstico de pancreatite aguda do que a amilase. Incorreta a alternativa E: A amilase tem sensibilidade de 67% a 87% para diagnóstico da pancreatite aguda, enquanto a lipase tem sensibilidade de 82% a 100%. 1.4.3 OUTROS EXAMES LABORATORIAIS Pacientes com pancreatite aguda podem cursar com outras alterações nos exames laboratoriais, a saber: • Hemograma completo: hemoconcentração pode ser constatada em alguns pacientes com pancreatite aguda e esse achado tem implicações prognósticas. A hemoconcentração ocorre por perda de fluido intravascular para o terceiro espaço. Da mesma forma, leucocitose pode ser evidenciada em doentes mais graves. • Tripsinogênio: o tripsinogênio é o precursor da enzima tripsina, responsável pela digestão proteica. Na pancreatite aguda, a concentração sérica de tripsinogênio também eleva-se poucas horas após o início dos sintomas, retornando aos níveis habituais no terceiro dia. Apresenta sensibilidade média de 82% e especificidade de 94% para diagnóstico de pancreatite aguda. • Proteína C Reativa (PCR): PCR pode encontrar-se aumentada na pancreatite aguda, e valores iguais ou superiores a 150 mg/dL no terceiro dia denotam doença de pior prognóstico. O pico do aumento da PCR ocorre após 48 a 72 horas. • Triglicérides: valores de triglicérides superiores a 1.000 mg/dL fazem com que suspeitemos da hipertrigliceridemia como causa da pancreatite aguda na ausência de cálculos biliares ou alcoolismo. • Ureia: elevações nos níveis de ureia podem ocorrer no contexto da pancreatite aguda e ureia > 20mg/ dL representa um preditor de maior mortalidade independente, no contexto da pancreatite aguda. • Hiperglicemia: a hiperglicemia pode ocorrer por secreção diminuída de insulina, excessiva de glucagon e débito aumentado de glicocorticoides e catecolaminas pelas suprarrenais. A depender do valor, a hiperglicemia tem implicação prognóstica. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 30 CRITÉRIOS PREDITORES PANCREATITE AGUDA GRAVE ATENÇÃO!! É muito cobrado nas provas de Residência Médica que achados/exames seriam um fator prognóstico para a pancreatite aguda. Existem vários critérios que iremos estudar a seguir. Agora, preciso que você memorize estes três critérios INDEPENDENTES: • Hematócrito > 44%: critério independente para pancreatite aguda grave. • Ureia > 20 mg/dL: preditor independente de mortalidade na pancreatite aguda grave. • PCR ≥ 150 mg/dL no 3º dia: critério preditor de pancreatite aguda grave. • Bilirrubinas: cerca de 10% dos pacientes com pancreatite aguda apresentarão níveis séricos elevados de bilirrubina, cujo aumento costuma ser transitório e com normalização em quatro a sete dias. • Cálcio: pode ocorrer hipocalcemia no contexto da pancreatite aguda e, a depender do valor, essa hipocalcemia pode ser indicativa de um pior prognóstico. Não se sabe ao certo o mecanismo pelo que há hipocalcemia no contexto da pancreatite aguda. A ocorrência de saponificação do cálcio pelos ácidos graxos na vigência de necrose gordurosa parece contribuir para esse fenômeno. • Procalcitonina: a procalcitonina é o exame laboratorial mais sensível para detecção de infecção pancreática. Valores de procalcitonina iguais ou maiores a 3,8 mg/ mL dentro de 96 horas do início dos sintomas são preditores de necrose pancreática. Nesse contexto, apresenta sensibilidade de 93% e especificidade de 79%, aproximadamente. • Alanina aminotransferase (ALT): o aumento de aminotransferases tem importância na sugestão da etiologia da pancreatite aguda. Dosagem de ALT superior a 150 U/L tem especificidade de 96% para etiologia biliar. Além disso, em se confirmando a pancreatite aguda, ALT elevado tem valor preditivo positivo de 95% no diagnóstico de PA biliar. No entanto, ALT em níveis menores não exclui a litíase biliar como causa da doença. • Outros achados possíveis: aumento dos níveis de fosfatase alcalina e aspartato aminotransferase (AST) e hipoxemia também podem ser observados no contexto da pancreatite aguda. A hipoxemia pode predizer pior evolução do doente. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 31 1.4.4 ULTRASSONOGRAFIA DE ABDOME Ultrassonografia de abdome é exame OBRIGATÓRIO na admissão do doente com pancreatite aguda. Esse exame não é necessário para o diagnóstico de pancreatite aguda, porém é mandatório para estabelecermos qual seria a ETIOLOGIA da pancreatite aguda. Qual a importância disso? • A etiologia biliar é a principal causa de pancreatite aguda, como já vimos no início do nosso estudo, e a ultrassonografia de abdome é excelente exame para avaliação de cálculos na via biliar. • Devemos investigar a etiologia da pancreatite aguda, pois, apenas por meio de sua identificação, poderemos fazer um adequado tratamento para a condição que motivou o quadro e, consequentemente,evitaremos recidivas da pancreatite aguda. ACHADOS ULTRASSONOGRÁFICOS NA PANCREATITE AGUDA • Pâncreas hipoecoico com aumento difuso, heterogêneo ou homogêneo. • Coleção anecoica peripancreática pode ser visualizada na presença de fluidos peripancreáticos. • Áreas ecogênicas podem denotar necrose. Lembrar que o US não é o melhor exame para identificar necrose pancreática! • Se etiologia biliar: presença de cálculos ou lama biliar na vesícula ou ducto biliar. Segundo o guideline, de 2019, da World Society of Emergency Surgery, a ultrassonografia abdominal deverá ser feita nas primeiras 48 HORAS DE ADMISSÃO do doente para avaliar etiologia biliar. A presença de gás no intestino e de gordura intra-abdominal podem dificultar a visualização adequada do pâncreas e ducto biliar. E SE A ULTRASSONOGRAFIA DE ABDOME NÃO MOSTRAR CÁLCULOS? Caso a realização de US de abdome não demonstre cálculos, lama biliar ou sinais de obstrução biliar e se não houver sinais de colangite ou achados laboratoriais que sugiram obstrução biliar, partiremos para COLANGIOPANCREATOGRAFIA POR RESSONÂNCIA MAGNÉTICA (CPRM) ou ULTRASSOM ENDOSCÓPICO. O objetivo desses exames é identificar COLEDOCOLITÍASE OCULTA, se não houver outro diagnóstico provável para a pancreatite aguda. Esses exames são preferíveis à COLANGIOPANCREATOGRAFIA RETRÓGRADA ENDOSCÓPICA (CPRE). O conhecimento adquirido nesse tópico pode ser exigido em sua prova de Residência Médica. Que tal um exemplo?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 32 (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (UFPR) – PR – 2019) Paciente feminina, 52 anos, é internada no setor de emergência com quadro de 20 horas de evolução de dor abdominal aguda de forte intensidade associada a náuseas e vômitos. A dor localiza-se no andar superior do abdome anterior e irradia-se para o dorso. O hemograma mostra 16.000 leucócitos e a amilase sérica é de 3.750 UI/dl. Após atendimento inicial, e com evolução clínica favorável, qual exame complementar está indicado para definição do diagnóstico etiológico mais provável do quadro clínico apresentado? A) Ultrassonografia endoscópica. B) Seriografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno. C) Tomografia axial computadorizada. D) Endoscopia digestiva alta. E) Ecografia abdominal. CAI NA PROVA COMENTÁRIO: Não há dúvidas de que se trata de um quadro de pancreatite aguda, pois a paciente apresenta sintomas típicos (dor no abdome superior com irradiação para dorso associada a náuseas e vômitos) relacionados ao aumento de três vezes o valor normal da amilase. Dado o diagnóstico, qual é a conduta?! Toda vez que estivermos diante de um quadro de pancreatite aguda, é mandatória sua investigação etiológica. A identificação do fator causal permite o tratamento direcionado associado à menor possibilidade de recorrência. Sabemos que a principal causa de pancreatite aguda é biliar (40% a 70% dos casos) e, para investigá-la, é necessária a realização de ultrassonografia abdominal (US) nas primeiras 48 horas. Essa resposta está contemplada no item E. Comentaremos a utilização dos demais exames de imagem no contexto da pancreatite aguda a seguir. Gabarito: alternativa E. 1.4.5 TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DE ABDOME A tomografia computadorizada de abdome (TC) NÃO é exame OBRIGATÓRIO no contexto da pancreatite aguda. Deixei essa frase em destaque, porque você precisa internalizá-la. A TC de abdome é totalmente dispensável nos casos de pancreatite aguda leve, ou seja, na maioria dos casos. Quando esse exame deverá ser solicitado? • Em caso de DÚVIDA diagnóstica, podendo auxiliar na definição da etiologia da pancreatite aguda (para excluir peritonite secundária à perfuração, isquemia mesentérica e outras causas de dor abdominal no pronto-socorro que correspondem a diagnósticos diferenciais de pancreatite aguda). • Na suspeita de complicações da pancreatite aguda. Nesses casos, o exame de escolha é a TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DE ABDOME COM CONTRASTE, que deverá ser realizada apenas APÓS 72 HORAS DO INÍCIO DOS SINTOMAS DE PANCREATITE AGUDA. A TC de abdome somente deverá ser realizada após esse período, porque, antes disso, não é possível a adequada visualização da extensão das áreas de necrose e isquemia pancreática e peripancreática. Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 33 A TC DE ABDOME NO CONTEXTO DA PANCREATITE AGUDA Você já entendeu que não deve solicitar TC para todos os casos de pancreatite aguda, porém isso não significa que o exame não tenha importância. Tem sim, E MUITA! Vamos reforçar sua relevância abaixo: 1. DIAGNÓSTICO: a TC de abdome tem importância no diagnóstico da pancreatite aguda, sobretudo na exclusão de outros diagnósticos diferenciais e em casos duvidosos. 2. PROGNÓSTICO: um dos principais escores prognósticos da pancreatite aguda baseia-se em critérios tomográficos. Trata- se do índice de gravidade por TC e falaremos sobre ele adiante. 3. COMPLICAÇÕES: a TC de abdome contrastada é o melhor exame para diagnóstico das complicações, principalmente, na identificação da necrose pancreática e peripancreática. A chamada “fase venosa portal” é a fase do contraste que melhor possibilita a avaliação do parênquima pancreático, permitindo a adequada análise da viabilidade, do grau de infiltração peripancreática e da presença de ar ou líquido livre intracavitário. Vou aproveitar este momento para introduzir um importante CRITÉRIO PROGNÓSTICO NA PANCREATITE AGUDA que leve em conta ACHADOS DE TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA e que é muito cobrado nas provas de Residência Médica, chamado de ÍNDICE DE GRAVIDADE POR TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA. ÍNDICE DE GRAVIDADE POR TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA Para calcularmos esse índice, levamos em consideração os achados da TC graduado de A a E (chamados de critérios de Balthazar) e o percentual de necrose do parênquima pancreático identificado por TC. Sem mais delongas, apresento-o: ÍNDICE DE SEVERIDADE POR TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA CRITÉRIOS DE BALTHAZAR Classificação Achados tomográficos Pontuação (A) A Pâncreas normal 0 pontos B Aumento focal ou difuso do pâncreas 1 ponto C Inflamação peripancreática associada a anomalias pancreáticas 2 pontos D Coleção líquida em apenas uma localização 3 pontos E Duas ou mais coleções líquidas e/ou gás no pâncreas e adjacências 4 pontos Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 34 NECROSE PANCREÁTICA Percentual de área necrótica Achados Pontuação (B) Nenhuma Ausência de necrose pancreática 0 pontos 50% Necrose de > 50% do pâncreas 6 pontos Índice de severidade por TC – cálculo: somatória das duas pontuações acima Morbidade Mortalidade Soma das pontuações (A+B) 0 0 0 – 1 pontos 8% 3% 2 – 3 pontos 35% 6% 4 – 6 pontos 92% 17% 7 – 10 pontos Perceba que quanto maior a pontuação no ÍNDICE DE SEVERIDADE POR TC, maior será a morbimortalidade da pancreatite aguda. Pacientes com pontuação superior a 6, por exemplo, apresentam mortalidade em torno de 17%. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ – PA – 2020) Paciente, 55 anos, deu entrada no pronto socorro com dor em andar superior do abdome de forte intensidade. Foi internado com diagnóstico de pancreatite aguda biliar. No 3º dia de internação, realizou tomografia de abdome com contraste com diagnóstico de Balthazar B. Esse quadro significa: A) necrose pancreática. B) coleção líquida em apenas uma localização. C) pâncreas normal. D) aumento focal ou difuso do pâncreas. E) duas ou mais coleções e/ou presença de gás dentro ou adjacente ao pâncreas. CAI NA PROVA Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho |Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 35 COMENTÁRIO: Questões como essa são muito frequentes nas provas de Residência Médica. Nesse caso, não tem jeito. Você deve memorizar os critérios de Balthazar. O que significa então Balthazar B?! Pela tabela que acabamos de estudar, Balthazar B corresponde ao aumento focal e difuso do pâncreas, contemplado no item D. Gabarito: alternativa D. 1.4.6 OUTROS EXAMES DE IMAGEM Você compreendeu que os exames de imagem, na pancreatite aguda, servem principalmente para averiguar qual é a etiologia da pancreatite e se há presença de complicações, certo?! Podemos lançar mão de alguns outros exames de imagem quando a avaliação inicial do doente não nos auxiliar na adequada identificação etiológica do evento. Nesse contexto, dois exames de imagem merecem destaque: • ULTRASSONOGRAFIA ENDOSCÓPICA (USE): já falamos brevemente desse exame quando explicamos sobre US abdominal. A USE é importante exame na investigação etiológica da pancreatite aguda, sobretudo na identificação de COLEDOCOLITÍASE (cálculos biliares no colédoco). Esse exame possibilita melhor avaliação da via biliar e do pâncreas. Tem vantagem sobre a CPRE, uma vez que esta pode agravar os sintomas da pancreatite aguda devido à manipulação das vias biliares. Figura. Representação esquemática de USE. Observe que o endoscópio é introduzido pela boca, atravessa esôfago, estômago e permite a visualização do pâncreas devido à íntima relação mantida entre as paredes do estômago e do pâncreas (em amarelo). No exemplo ao lado, o USE foi usado no contexto de avaliação de tumor pancreático. Tumor ou cisto Agulha Ultrassom Endoscópico (USE) ULTRASSOM ENDOSCÓPICO Tumor ou cisto Agulha Ultrassom Endoscópico (USE) ULTRASSOM ENDOSCÓPICO Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 36 • RESSONÂNCIA MAGNÉTICA (RM) DE ABDOME: excelente exame na avaliação da necrose e inflamação pancreáticas, bem como na presença de líquido livre na cavidade abdominal. Tem como limitações seu custo, disponibilidade e dificuldade técnica de realização em doentes instáveis. Como vantagem, podemos citar o fato da não exposição à radiação e a menor nefrotoxicidade do gadolínio da RM em comparação ao contraste iodado da TC. PANCREATITE AGUDA NA RESSONÂNCIA MAGNÉTICA • Imagem ponderada em T1: aumento difuso ou focal do pâncreas e borramento das margens do pâncreas. Hipointensidade do parênquima pancreático em relação ao parênquima hepático. • Imagem ponderada em T2: parênquima pancreático hiperintenso em relação ao parênquima hepático. • COLANGIOPANCREATOGRAFIA POR RESSONÂNCIA MAGNÉTICA (CPRM): interessante exame a ser realizado em casos específicos de definição etiológica mais difícil, pois permite uma excelente visão da anatomia do ducto biliar e pancreático. Bom para evidenciar alterações anatômicas, como pâncreas divisum, algumas neoplasias císticas pancreáticas ou tumores menores intraductais. PANCREATITE AGUDA IDIOPÁTICA: COMO PROCEDER? A pancreatite aguda é definida como idiopática quando, após avaliação laboratorial e exames de imagem iniciais, a causa da pancreatite aguda permanecer indefinida. Nesses casos, preconiza-se a realização de, pelo menos, DOIS US DE ABDOME para avaliar etiologia biliar. Passada a fase aguda, deve-se realizar: US ENDOSCÓPICO e TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DE ABDOME COM CONTRASTE para avaliar a presença de microlitíase, pancreatite crônica ou neoplasias. Se nenhum desses exames for diagnóstico, devemos proceder com RESSONÂNCIA MAGNÉTICA, visando a identificação de anormalidades morfológicas. 1.5 AVALIAÇÃO DA GRAVIDADE 1.5.1 FATORES DE RISCO PARA GRAVIDADE Idade > 60 anos, obesidade (IMC > 30 kg/m2), história de alcoolismo e presença de comorbidades (insuficiência cardíaca, insuficiência renal ou hepatopatia) são fatores de risco independentes para gravidade da pancreatite aguda. Costumam ser cobrados em algumas questões de provas, portanto, deverão ser memorizados. Outro tema recorrente nas provas de Residência Médica diz respeito à avaliação da gravidade da pancreatite aguda. Existem vários preditores de doença grave, alguns são dados de forma independente, e outros foram agrupados em escores. VOCÊ PRECISA CONHECER TODOS ELES. Foco total nesse tópico a partir de agora, certo?! Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 37 MNEMÔNICO “CAIO”: a presença de qualquer um deles é fator de risco independente para pancreatite grave C → comorbidade A → alcoolismo I → idade > 60 anos O → obesidade 1.5.2 CRITÉRIOS DE RANSON Os critérios de Ranson foram criados em 1974 e, apesar das críticas, ainda é o escore MAIS COBRADO EM PROVAS DE RESIDÊNCIA MÉDICA. Ele realmente é MUITO exigido. Se você tiver que escolher só um critério para memorizar, SEM DÚVIDA, seria esse. Tal escore baseia-se em 11 parâmetros, sendo cinco observados no momento da admissão do doente e seis, após 48 horas dessa admissão. Além disso, os valores de corte para alguns desses parâmetros variam caso a pancreatite tenha etiologia BILIAR ou NÃO-BILIAR. Vou apresentá-los em uma mesma tabela, com esquema de cores pontuando quando esses valores são os mesmos e quanto são distintos. Preparado(a)?! CRITÉRIOS DE RANSON Admissão Primeiras 48 horas Etiologia não-biliar Etiologia biliar Etiologia não-biliar Etiologia biliar Idade > 55 anos Idade > 70 anos Queda hematócrito > 10% Queda hematócrito > 10% Leucócitos > 16.000/ mm3 Leucócitos > 18.000/ mm3 Aumento de ureia > 10 mg/dL Aumento de ureia > 4 mg/dL Glicose > 200 mg/dL Glicose > 220 mg/dL Cálcio 350 U/L LDH > 400 U/L PaO2 250 U/dL AST (TGO) > 250 U/dL BE 6 litros Perda de líquido estimada > 4 litros Legenda de siglas: LDH = desidrogenase lática; TGO = transaminase glutâmico oxalacética; AST = aspartato aminotransferases Legenda de cores: cinza escuro = critérios que variam o valor de acordo com etiologia biliar ou não biliar; cinza claro = critérios que não variam o valor com a etiologia Estratégia MED Prof. Isabella Parente e Prof. Tomás Coelho | Curso Extensivo | 2025 Pancreatite aguda e crônica (Pancreatites)GASTROENTEROLOGIA 38 CRITÉRIOS ADMISSIONAIS: mnemônico ÁGILL (com DOIS “L”s). Paciente com suspeita de Pancreatite aguda chegou na admissão?! Seja ÁGILL ;) A → AST G → glicose I → idade L → LDH L → leucócitos Agora, que tal uma frase que o ajude a memorizar os CRITÉRIOS considerados APÓS AS PRIMEIRAS 48 HORAS, criados por sua humilde professora?! “Urgente! Hoje Li Belíssimo Capítulo de Pancreatite”. Vamos desmembrar?! CRITÉRIOS APÓS 48 HORAS DA ADMISSÃO Frase: “Urgente! Hoje Li Belíssimo Capítulo de Pancreatite” Urgente → ureia (falência renal) HojE → hematócrito (falência circulatória) LI → perda de líquidos (falência circulatória) BElíssimo → BE (base excess) (falência renal) CApítulo → cálcio de PAncreatite → PaO2 (falência respiratória) Prontinho! Espero que esses mnemônicos ajudem você! Perdi algumas páginas para falar sobre isso porque realmente é um assunto que é bastante cobrado. Vale a pena dedicar alguns minutos para decorar esses critérios. CRITÉRIOS DE RANSON: O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER? CRÍTICAS: a principal crítica aos critérios de Ranson é o fato de ele não prever totalmente o potencial de gravidade da pancreatite aguda na admissão, uma vez que seis dos critérios só são avaliados após 48 horas. VALOR PREDITIVO POSITIVO: 50% (considerado baixo). VALOR PREDITIVO NEGATIVO: 90% (considerado alto) → esses critérios são, portanto, utilizados para descartar casos graves de pancreatite aguda. PANCREATITE AGUDA É CONSIDERADA GRAVE QUANDO TRÊS OU MAIS CRITÉRIOS DE RANSON ESTIVEREM PRESENTES!