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Agenda 21 - acoes2edicao

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tradicional pela via das comunicações, exacerbando o individualismo e o consumismo que, por sua natureza, não têm condições de atender à maioria da população mundial. 
Como lidar com o volume crescente de resíduos perigosos em função do aumento vertiginoso de produtos descartáveis? Como encontrar solução para a destruição das culturas tradicionais que, bem ou mal, protegiam o ser humano das incertezas da vida com modestas mas eficientes economias familiares de subsistência e de apoio social? Como conviver com a alimentação industrializada que institucionaliza a obesidade e a ‘indústria do regime' em todos os países do mundo? 
Esses são alguns exemplos clássicos de insustentabilidade que demonstram a irracionalidade dos padrões de consumo vigentes na sociedade, que contrastam com as carências da maioria excluída e com as impossibilidades de uma civilização mais solidária. 
O desafio é, portanto, mudar a natureza e a direção do modelo de desenvolvimento dominante no mundo, aproveitando de outra maneira potencialidades humanas, sociais e científicas; é defender uma globalização solidária, baseada em valores comuns e em objetivos partilhados de integração e de expansão, incorporando os países em desenvolvimento e os marginalizados que, de outra forma, estariam excluídos, de antemão, da partilha das conquistas do todo da comunidade internacional. 
É esse o esforço que o Brasil vem buscando empreendendo nos foros internacionais e internamente, quando ao concluir a sua Agenda 21 que prevê ações e meios de implementação capazes de promover as mudanças desejadas pela sociedade brasileira. 
No extremo oposto da globalização assimétrica, situa-se o esforço bem-sucedido das Nações Unidas em definir, no ciclo de conferências realizadas nas duas últimas décadas, uma agenda global para a humanidade. Essa agenda elegeu como princípios norteadores do consenso os temas: mudança de padrões de produção e consumo, direitos humanos, inclusão das mulheres e das crianças e, em especial, o combate à pobreza e à promoção dos direitos sociais. 
Nesse amplo painel, destacou-se o desenvolvimento sustentável como idéia/força propulsora de um novo desenvolvimento, que aproximasse ambientalistas e desenvolvimentistas, e a cooperação internacional entre os dois ‘pólos simbólicos', o Norte e o Sul. Tendo sido concebida na primeira reunião do ciclo das grandes conferências internacionais, realizadas pelas Nações Unidas, a Agenda 21 foi também o documento mais abrangente, irradiando o desenvolvimento sustentável e o princípio da parceria para os encontros seguintes. 
A partir da última rodada de encontros internacionais iniciados no Rio de Janeiro e os subseqüentes em Viena, no Cairo, em Copenhague, em Pequim e Istambul, finalizados com a Declaração do Milleniun, o mundo não é mais o mesmo, tem direção e sabe para onde ir. Coube a cada país definir a sua própria Agenda Nacional, com os mesmos métodos participativos, os mesmos valores e princípios que nortearam o pacto global em torno do novo desenvolvimento, inspirado nos princípios da Carta da Terra, da governança global, da sustentabilidade e da eqüidade e, sobretudo, na soberania e na responsabilidade comum, mas diferenciada, dos países que compõem a comunidade internacional. 
O reencontro com o desenvolvimento: um consenso nacional
É consenso nacional que se deve retomar, com determinação, um processo de desenvolvimento acelerado que, há vinte anos, tem sido insuficiente para garantir ao país os patamares necessários de emprego e renda. Também é consenso que a retomada desse desenvolvimento deve se pautar pelo paradigma do desenvolvimento sustentável. 
Hoje a sociedade brasileira acredita não ser possível governar em clima de ‘populismo fiscal', no qual as promessas ultrapassam, de forma exagerada, as possibilidades de receita e gasto. A tão esperada retomada do desenvolvimento somente poderá ocorrer à medida que certo número de novos requisitos, convergentes, seja atendido. Isso significa que a concepção do desenvolvimento tornou-se mais complexa e que as diferentes dimensões que o compõem comportam-se de maneira interdependente. 
Ao contrário do que ocorreu no passado, quando o termo desenvolvimento praticamente se confundia com o crescimento econômico, hoje a mesma palavra designa um conjunto de variáveis, novas e interdependentes, que transcendem a economia em seu sentido estrito. As dimensões social, ambiental, político-institucional, científico-tecnológica e cultural impregnam o paradigma de tal sorte que fica difícil até mesmo distingui-las ou precisar entre elas a mais relevante. Esse é o sentido mais profundo da dimensão holística no novo paradigma de desenvolvimento sustentável. 
Não resta dúvida de que energia e esforços foram canalizados contra a desordem financeira e em favor da estabilização da economia que, além de ter enfrentado uma ordem internacional conturbada e uma retração de investimentos encontrou, principalmente nos grupos domésticos dependentes da correção monetária, resistência inusitada. 
Finda essa primeira etapa, com diminuição da taxa de inflação, fato inédito na história republicana, e consolidação de doloroso ajuste em clima de negociação democrática, é anseio de todos retomar o crescimento, tônica de nosso passado recente, mas que se limitou a 8% na década de 1990; crescimento esse pouco significativo quando se leva em consideração a necessidade de gerar mais empregos e menos desperdício no país. 
O desenvolvimento tem sido para nós, brasileiros, vocação histórica, um encontro marcado com o destino. Por conta de muitas décadas bem-sucedidas, de crescimento quase ininterrupto a taxas, em média, muito altas, o Brasil projetou sua liderança industrial entre os países de passado colonial e do então denominado Terceiro Mundo. 
Essa posição privilegiada garantiu à população altos índices de mobilidade social em termos comparados. Os mecanismos de recompensa gerados pela mobilidade neutralizaram, em boa parte, os efeitos perversos da concentração da renda e da desigualdade social que, por várias décadas, passaram despercebidos para a maioria da sociedade brasileira. 
Desenvolvimento e poupança interna
É preciso conceder especial atenção ao crescimento do mercado interno que, sem diminuir o esforço de exportação, gerador e distribuidor de riquezas, pode reduzir a dependência excessiva do capital externo e ampliar a capacidade de poupança do país, contribuindo para o equilíbrio da balança de pagamentos. Ao mesmo tempo, é fundamental também cuidar da pauta de importações, combatendo o consumo supérfluo. 
O aumento da produtividade que vem ocorrendo em dimensões expressivas é fator decisivo que permitirá maior ousadia nas políticas de distribuição de renda e de erradicação da miséria absoluta, por meio da expansão do mercado interno e do nível e qualidade do emprego, todos pré-requisitos indispensáveis ao fortalecimento democrático e à construção da cidadania. 
Na nova sociedade, cenário da Agenda 21, o capital produtivo e o financeiro precisam caminhar de mãos dadas com o capital natural, o humano e o social, tendo em vista a redução do estoque de recursos naturais no último século e suas conseqüências ecológicas de médio e longo prazos. Da mesma forma, o capital humano é o motor de um sistema que se retroalimenta, com velocidade inusitada, de informação, comunicação, serviços e conhecimento. 
Desenvolvimento sustentado e desenvolvimento sustentável
O desenvolvimento conquistado nos últimos dez anos precisa vigorar, daqui para frente, em clima previsível de crescimento com estabilidade, consolidado pelo controle da dívida, a responsabilidade fiscal e o equilíbrio orçamentário e financeiro. A esse conjunto de medidas restritivas, indispensáveis para se atingir novo patamar de crescimento, designou-se o termo já em desuso de ‘desenvolvimento sustentado' que, freqüentemente, se confunde com ‘desenvolvimento sustentável'. 
O desenvolvimento sustentável deve ser entendido como um conjunto de mudanças