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vai modular isso de uma maneira muito ampla. E literariamente, 
a beleza é muito acentuada porque ela se presta a uma série de metáforas muito elucidativas. 
 
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O Direito do Sangue 
 
Onde está baseada a legitimidade? 
 
Para a concepção medieval a legitimidade está baseada no direito do sangue, é portanto um 
conceito biológico, pelo fato de se ter sangue, o rei pode mandar. A Ética, a Moral, o 
comportamento, o Direito de cada um tem como limite o poder soberano legítimo do rei ungido 
por Deus. E a peça é justamente a história das transgressões a esse princípio. A coisa é muito 
mais ampla do que se pensa, porque, note bem, o sangue é uma coisa viva, que nos dá vida. E 
essa peça é cheia de metáforas vegetais, metáforas que falam da vida das plantas. Há um paralelo 
entre a vida dos homens e das plantas. 
 
Sangue e Seiva 
 
Aquilo que é sangue no rei, é seiva nas plantas. A seiva é mais ou menos o sangue da natureza, e 
o sangue é a seiva do rei. Onde elas se encontram? 
 
Elas se encontram exatamente na legitimidade, na medida em que o rei tem um sangue sagrado, 
ungido, e de certa maneira ele encarna também a seiva da natureza. Isso está ligado a uma velha 
concepção de soberania, a uma velha concepção de realeza que vem dos povos primitivos, que 
vem dos ritos agrários e que se traduz na realeza, nesse momento da Idade Média, pela ligação 
visceral, pela ligação orgânica do rei com a natureza. 
 
Soberania e Natureza 
 
Vejam bem, obedecer ao rei é obedecer à lei da natureza. Transgredir, não seguir o rei, é violar a 
lei da natureza. O rei faz corpo com a natureza. Mas, notem bem, por outro lado, como o rei faz 
corpo com a natureza, a monarquia estará próspera enquanto o rei estiver ligado com a natureza e 
for saudável. No momento em que o rei não estiver mais ligado com a natureza, em que houver 
uma discrepância, digamos assim, entre o sangue do homem e a seiva da natureza, a sociedade 
entra em crise. 
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Há um princípio mágico em jogo, quer dizer, a soberania está baseada com essa ligação mágica 
do rei com a natureza. 
 
Waste Land 
 
Esse princípio místico que está presente também em Ricardo II, que está ligado às lendas 
medievais, que está ligado aos mitos agrários que exprime a saúde ou a doença da sociedade é 
uma coisa tão poderosa que repercute até os nossos dias. Naturalmente muitas pessoas já leram o 
poema a Terra Estéril, por alguns traduzido como a Terra Hermada, por outros como a Terra 
Gasta. Em inglês é The Waste Land, do poeta T. S. Eliot, é um poema moderno, é um poema 
feito em 1920. Esse poema procura exatamente mostrar que o mundo contemporâneo está doente 
por causa da crise dos valores morais, por causa da crise dos valores espirituais. 
 
Em que ele vai se inspirar? Na lenda do Santo Grau. Ele vai se inspirar, exatamente, no problema 
do rei doente que doença é a terra. Isso dá uma idéia de como esses mitos, essas lendas são 
duradouras e como elas servem para exprimir vários momentos da história. Elas serviram para 
Shakespeare exprimir a crise da monarquia inglesa no fim da Idade Média, serviram para T. S. 
Eliot, na entrada do século vinte, comentar a crise dos valores espirituais. 
 
Que raízes são essas que se arraigam? 
Que ramos se esgalham nessa imundície pedregosa? 
Filho do homem não podes dizer, ou sequer estimas 
Porque apenas conheces um feixe de imagens fraturadas, 
Batidas pelo sol. 
E as árvores mortas já não mais te abrigam 
Nem te consola o canto dos grilos 
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca 
Apenas uma sombra medra sobre esta rocha escarlate 
Chega-te à sombra desta rocha escarlate 
E vou mostrar te algo distinto de tua sombra 
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A caminhar atrás de ti quando amanhece 
Ou de tua sombra vespertina ao encontro do levante 
Vou revelar te o que é o medo em um punhado de pó. 
 
T. S. ELIOT 
 
O Bom Governo 
 
Renato Janine Ribeiro 
 
A política medieval se constrói em cima de uma grande idéia que é a idéia do bom governo. A 
idéia principal é essa de que o governo deve agir segundo certos valores que são o da justiça, o 
da bondade e o da caridade, aqueles valores que a igreja cristã desenvolveu, que ela detalhou por 
toda a Idade Média é que deveriam ser então a pedra de toque de todo governo medieval. 
 
Justiça 
 
Somente se pode entender a idéia do rei justo a partir da idéia de justiça e aí nós temos o grande 
conceito político medieval. É uma idéia de justiça muito diferente da nossa, tanto que às vezes a 
gente até usa o termo latino justicia, porque ela significa a idéia de que cada um ocupa o seu 
lugar no mundo. Os lugares são diferenciados e cada um deve ocupar um deles, mas sem jamais 
se meter no lugar que não é o seu. Então a idéia de justiça está ligada, por exemplo, a idéia de um 
mundo que se organiza como o cosmos. O termo cosmos, indica essa idéia de universo, na qual 
tudo está ordenado, cada planeta tem o seu lugar saindo da Terra, como todo mundo sabia na 
Idade Média, no centro do mundo e tendo a Terra em torno dela vários planetas que giram, 
inclusive o próprio Sol, girando em torno da Terra. Então essa idéia de uma ordenação cósmica 
de que todas as estrelas, todos os astros estão bem distribuídos, se liga também a idéia de uma 
justiça, de uma sociedade, na qual todas as pessoas têm o seu lugar determinado. 
 
Bondade 
 
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O rei justo, ele basicamente expressa a sua bondade de duas maneiras. Uma através das esmolas. 
Em relação aos pobres, que são inúmeros na Idade Média, ele faz caridade. Para os nobres, o rei 
justo deve mostrar-se um rei magnânimo, um rei generoso, então se um nobre se destaca em um 
torneio o rei dá a metade do seu reino para ele, é um gesto magnânimo, o rei mostra que premia 
aquele que é valoroso, aquele que é poderoso. Para uns ele dá esmola, para outros ele dá a metade 
do reino, dá um grande feudo, mas em todos os casos a bondade do rei está se expressando no 
fato de que ele dá coisas. Não é a idéia de que ele governa bem, não é o jeito que ele desenvolve 
o seu Estado, de que ele vence a pobreza, não, ele atende os pobres, mas sempre haverá pobres. 
 
Corpo 
 
Outra semelhança que era usada pelo rei medieval era a relação dele com o corpo. Quer dizer, o 
rei era como se fosse a cabeça e os súditos como se fossem os membros do corpo. A cabeça 
manda, mas ela tem com o corpo uma relação de cooperação, a cabeça não pode viver sem o 
corpo e nem o corpo sem a cabeça, então o rei não pode existir sem os súditos e os súditos 
também não podem ter vida sem a cabeça que lhes dá ordem, que lhes dá comando etc. 
 
Então sempre se dava ao rei essa imagem ideal de alguém que tinha uma relação harmônica com 
os súditos a ele subordinados. 
 
Tirano 
 
O rei justo se opõe a uma figura que é a grande figura negra do pensamento medieval que é o 
tirano. O tirano trata todos os súditos como se fossem escravos ou animais, como se não tivessem 
racionalidade e como se dependessem de uma esfera que não é humana, de uma esfera que é do 
bicho, aquele que é tratado como mero objeto e por isso mesmo enquanto o rei justo tem uma 
relação de amor com o seu povo, o tirano tem uma relação de medo. Ele mete medo nos súditos e 
ele também morre de medo dos súditos. Não se concebe um tirano sem o medo de ser 
assassinado. Isso leva a uma conseqüência interessante que é a questão do sono. Fala-se que 
muitas vezes que o tirano tem um sonho ruim, que ele tem um sono conturbado, que ele dorme 
mal e há uma frase que aparece, por exemplo, em Thomas Morus mas que já apareceu antes e que 
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continua a aparecer ainda hoje na imagem do tirano. A idéia de que ele não dorme duas vezes 
seguidas