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Apostila de Bioclimatologia I

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técnicas gerais de manejo, considerando as 
instalações ou abrigos, objetivando o conforto térmico, práticas gerais de nutrição 
quantitativa e qualitativa, controle de doenças infecto-contagiosas e parasitárias, 
estratégias de melhoramento e seleção dos animais devem estar disponíveis, no 
sentido de tornar o ambiente natural, propiciando boas condições e permitindo boas 
respostas produtivas dos animais. 
 
 
 
AÇÃO DA TEMPERATURA SOBRE OS ANIMAIS DOMÉSTICOS 
 
 
O clima atua diretamente sobre os animais domésticos, principalmente 
através de seus agentes. 
 A temperatura é neste aspecto, o componente do clima de maior 
importância porque exerce ação acentuada sobre as duas classes que encerram 
maior número de espécies domésticas, mamíferos e aves. Os animais dessas 
classes são homeotérmicos, isto é, são animais que tem a habilidade de controlar 
sua temperatura corporal dentro de uma faixa estreita, quando expostos a grandes 
variações de temperatura. A temperatura interna é constante, independente da 
temperatura ambiente; graças ao fato desses animais serem dotados de aparelho 
fisiológico termorregulador. Este aparelho termorregulador é comandado pelo 
hipotálamo, pequeno agrupamento de células, parte do diencéfalo, na base do 
cérebro que funciona da seguinte maneira; as terminações nervosas da pele 
recebem as sensações de calor ou frio e as transmitem ao hipotálamo que atua 
sobre outras partes do cérebro, sistema nervoso, sistema circulatório, hipófise, 
tireóide, determinando vasodilatações ou vasoconstrições, sudação, aceleração do 
ritmo respiratório, provavelmente queda ou aumento do apetite (sensação de fome), 
maior ou menor ingestão de água (sensação de sede), maior ou menor intensidade 
do metabolismo, acamamento ou eriçamento dos pêlos, resultando desses 
fenômenos conforme sua ação num ou em outro sentido, maior ou menor 
termogênese (produção de calor) ou maior ou menor termólise (eliminação de 
calor). 
 A Figura 2 apresenta um esquema desse processo. 
 As várias espécies de interesse zootécnico dispõem de dois 
mecanismos essenciais para manter sua condição de homeotermia, tanto nas 
regiões frias, como nas quentes, consubstanciados na produção de calor e sua 
evaporação. O adequado balanço entre produção de calor corporal e eliminação do 
 
 
 
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calor corporal resulta na adaptação da máquina-animal, tanto no sentido 
termorregulador, como nas suas possibilidades pecuárias. 
 De posse desses dois recursos fisiológicos - produção e eliminação 
de calor, as várias espécies de animais contam, como já foi dito, com dispositivos 
anatomorfofisiológicos peculiares, que lhes dão posicionamento na classificação da 
adaptabilidade bioclimática de LEE , em que o suíno revelou-se o menos adaptado 
e o ovino exibiu-se como um dos mais eficientes termorreguladores para as altas 
temperaturas externas. Nesta ordem de idéias, os animais monogástricos e 
poligástricos teriam diferentes comportamentos adaptativos, desde a faixa de 
termoneutralidade até as zonas extremas de termogênese e termólise. 
 De acordo com o diagrama de KLEIBER (Figura 3), a temperatura 
ótima para a vida dos homeotérmicos seria a de 20ºC, que corresponde a 
temperatura crítica abaixo ou acima do qual o animal requer aumentar ou diminuir a 
produção de calor, equivalente ao conforto fisiológico. BRODY propôs que o 
referido termo zero de 20ºC fosse transformado numa faixa de temperatura ótima, 
delimitada pelas temperaturas críticas superior e inferior, em torno de 20ºC e 
denominada zona de neutralidade térmica, conforme o diagrama de BRODY 
(Figura3). McDOWELL admitiu que a zona de conforto climático, onde uma 
pequena mudança na temperatura externa tornaria-se imperceptível nas funções 
fisiológicas, situando-se entre 13 e 18ºC. 
 Os animais monogástricos, que evoluíram em climas temperados, 
como aves, suínos e outros, procuram manter constante a temperatura corporal, na 
maioria das vezes, as custas, sobretudo, da regulação da produção de calor com 
pouco embaraço metabólico, mas com algum prejuízo para a eficiência do processo 
produtivo. Assim, logo após a eclosão da casca, os pintos regulam a temperatura 
do corpo, via produção de calor, uma vez que tem limitada a habilidade de controlar 
a evaporação. Semelhante conhecimento induziu a moderna avicultura e, por 
analogia, também a suinocultura, ao sistema de exploração intensiva nos trópicos, 
que inclui a proteção da máquina-animal contra o calor ambiente. 
 Os animais poligástricos mantém em ambiente temperado, mais as 
custas (gastos) da evaporação do calor, do que da produção, com pequenos custos 
metabólicos. Nas regiões tropicais, esses ruminantes acionam tanto os dispositivos 
de controle da produção de calor, como os de sua dissipação corporal. A habilidade 
de poder combinar a regulação e a evaporação, ao mesmo tempo, acaba por 
conferir aos ruminantes uma ampla faixa de termoneutralidade ao redor de 20ºC. O 
que não sucede igualmente aos monogástricos, de acordo com o esquema de 
WEBSTER (Figura 4). No esquema do referido autor, observa-se que os 
monogástricos ficam restritos à estreita faixa de neutralidade em torno de 20ºC, 
enquanto que os poligástricos dispõem de amplos espaços de termoneutralidade, 
desde de 10 até 28ºC, de acordo com seus recursos fisiológicos. Então, entende-se 
como bovinos, ovinos, caprinos e outros disseminam-se pelos quatro cantos da 
terra, em pleno ecossistema de exploração pastoril, sem proteção especial. 
 Um dos recursos mais efetivos para controlar a produção de calor 
pelos homeotérmicos nas zonas quentes é o consumo quantitativo e qualitativo de 
alimentos, por dia e em relação ao peso vivo. Tanto os animais monogástricos, 
como os poligástricos utilizam o mecanismo de apetite voluntário para regular a 
consumação de alimentos, como fonte energética. Assim, as aves reduzem a 
ingestão de alimentos na razão de 1,5% para cada aumento de 1ºC na temperatura 
ambiente acima de 25ºC, segundo JOHNSON, como valor quantitativo. Para 
ganhar o mesmo peso, os cordeiros usaram rações com 60% de alimentos 
concentrados e 40% de volumosos a 27ºC, enquanto que a 4ºC necessitam de 40% 
de concentrados e 60% de volumosos, como valor qualitativo, conforme 
McDOWELL. 
 
 
 
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 É bem possível que os zebuinos disponham de recursos mais 
eficazes do que os bovinos, para controlar a produção e também a evaporação de 
calor, recorrendo ao consumo de alimentos, com maior presteza e alta escala, para 
assegurar a homeotermia. Assim, dentro da própria zona de neutralidade térmica, 
ao redor de 20ºC, o consumo de alimentos, à vontade, foi três vezes mais elevado 
pelos bovinos do que por zebuinos, segundo REGSDALE, indicando que 
precocemente o zebu já fazia o controle da produção de calor. Em plena zona de 
termogênese, os bovinos Jersey consumiram 50% mais de alimentos do que os 
zebuinos nas temperaturas frias, conforme ALLEN. Tais resultados experimentais 
poderiam sugerir que os zebuinos, na sua forma original, não estariam 
suficientemente adaptados às regiões frias, nem ao calor ameno, porque fizeram 
sua evolução em ambiente de altas temperaturas. 
 De outro lado, no início da zona de termólise, a 27-28ºC, os bovinos 
europeus começam a diminuir a ingestão de alimentos comparativamente a 20ºC, 
porém os zebuinos só fazem semelhante redução a 38ºC, porque já haviam usado 
o referido recurso termorregulador desde 20ºC. Em temperaturas de 41ºC por 
exemplo, os bovinos de raças européias sofreram depressão no consumo de 
alimentos, mais ainda ingeriram 43% mais do que os zebuinos, VILLARES. 
 Afinal, ROGERSON registrou queda de 10% no metabolismo basal de 
zebuinos, em confronto com bovinos. A redução do consumo de alimentos já na 
faixa de 20ºC, a falta de habilidade para aumentar adequadamente a ingestão de 
alimentos sob temperaturas frias e a drástica