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DIREITO PENAL QUESTÕES COMENTADAS - CRIMES CONTRA A VIDA - EXERCÍCIOS COMENTADOS – CRIMES CONTRA A PESSOA (ARTS. 121 a 154 do CP) 1. Assinale a alternativa correta: a) É pacífico na doutrina que somente a mulher pode ser sujeito ativo do crime de exposição ou abandono de recém-nascido (art. 134 do CP), considerando ser este um crime próprio. b) O crime de maus-tratos pode ser praticado pelo homem em detrimento de sua esposa, considerando a especial proteção outorgada pela legislação à mulher na vida conjugal. c) Severino chegou em casa bêbado. A primeira pessoa que encontrou foi seu filho Pablo, de cinco anos, e sem razão nenhuma desferiu um soco na criança que quebrou dois dentes dela. Nessa situação, deve Severino responder pelo crime de maus-tratos. d) João, pessoa franzina, trabalha no supermercado de Terêncio como operador de caixa, sendo que este frequentemente obriga o empregado a carregar sacos com mais de cinquenta quilos de peso para forçá-lo a pedir demissão. Como João tem esposa e três filhos, se submete a essa condição de trabalho absolutamente incompatível com sua condição física. Nesse caso, Terêncio pratica o crime de maus-tratos. e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. Comentários: Deve ser marcada a alternativa “e”. Quanto à letra “a”, percebe-se que a doutrina majoritária considera que o homem também pode ser sujeito ativo do crime de exposição ou abandono de recém-nascido, em casos que estiver envolvido em adultério ou incesto. Nesse sentido os ensinamentos de Heleno Fragoso (apud CUNHA, 2008, v. 3, p. 66): sujeito ativo “Só pode ser a mulher que concebe ilicitamente ou o pai adulterino ou inscetuoso, pois só tais pessoas podem alegar a prática do fato para ocultar desonra própria”. Acrescenta Cunha (2008, v. 3, p. 66) que esta é a posição que vem prevalecendo na doutrina. No tocante à letra “b”, afasta-se a possibilidade do crime de maus-tratos ser praticado pelo marido em detrimento da esposa, visto que não há relação de subordinação entre eles. No caso da letra “c”, também não há crime de maus-tratos, identificando-se a conduta com o crime de lesão corporal. Note-se que o pai não agiu com o intuito de corrigir o filho, mas simplesmente com a intenção de lesioná-lo. A afirmação constante na letra “d” está incorreta porque no caso não há o crime de maus- tratos, mas sim o delito de redução à condição análoga à escravo (art. 149, caput, do CP). Lembre-se também que para haver maus-tratos a relação de sujeição da vítima em relação ao sujeito ativo deve ser para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, segundo se vê no art. 136 do CP. 2. Considere a seguinte situação hipotética: Pedro saiu de casa e abandonou sua esposa Laurentina com dois filhos menores. Não tendo comocustear as despesas do lar a mulher ingressou em juízo contra o ex-marido, pedindo-lhe pensão alimentícia. No dia da audiência, enquanto esperavam no corredor, Pedro começou a provocar sua ex-mulher, falando em voz alta para uma pessoa que lá estava que Laurentina era uma “cachaceira”; e que ia provar que teve motivos para abandoná-la. Ouvindo isso, imediatamente a mulher se aproximou do ex-marido, que é negro, e gritou que ele era um “macaco fedorento”, no intuito de humilhá-lo. Em referida situação: a) Pedro cometeu o crime de injúria. b) Laurentina não deverá ser condenada por nenhum crime, visto que está amparada pelo instituto da “retorsão imediata”. c) Pedro está amparado pela imunidade judiciária, não devendo responder por qualquer crime. d) Tanto Pedro quanto Laurentina estão amparados pela imunidade judiciária. e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. Comentários: A alternativa correta corresponde à letra “a”. No momento em que Pedro chamou Laurentina de “cachaceira”, e isto chegou ao conhecimento dela, consumou-se o crime de injúria. Lembre-se que neste crime não há a necessidade de imputação de um fato determinado, sendo suficiente que o agressor profira uma ofensa (apta a agredir a honra subjetiva) no intuito de humilhar a vítima. Laurentina, para revidar à injúria sofrida, chamou Pedro de “macaco fedorento” (injúria qualificada pelo preconceito - art. 140, § 3º, do CP), também no intuito de humilhá-lo. Nesse caso não há que se falar no instituto da “retorsão imediata” para beneficiar a mulher, visto que incabível na situação. Nesse sentido os ensinamentos de Fernando Capez, que, utilizando-se dos argumentos de Cezar Roberto Bitencourt, alega que nesse caso é desproporcional aceitar que uma injúria simples possa ser retorquida por uma injúria preconceituosa (2010, v. 2, pp. 310 e 316). Nesse andar, resta afastada a afirmação constante na letra "b". No tocante à letra “c”, deve-se observar que a imunidade judiciária não abarca a ofensa proferida nos corredores do fórum (CAPEZ, 2010, v. 2, p. 322). Se fosse proferida durante a audiência, e no contexto da discussão da causa, aí sim se poderia falar em imunidade judiciária prevista no art. 142, I, do CP. Quanto à letra “d”, acrescente-se, além daquelas colocações referentes à letra “c”, que não cabe imunidade judiciária no caso de injúria preconceituosa (no caso, proferida por Laurentina). 3. Considere a seguinte situação hipotética: certo dia, Rogério, que reside na zona rural, estava limpando seu revólver quando este disparou acidentalmente e atingiu sua empregada (Gertrudes) que estava próximo. Ocorre que Rogério havia esquecido um cartucho na arma antes de começar a limpá-la. Temendo ser responsabilizado, e percebendo que era muito provável que a empregada morresse, e ainda, considerando que estavam somente os dois na casa; foi embora e deixou a arma próximo de Gertrudes para fazer parecer que esta tinha mexido no revólver e se atirado acidentalmente. Voltou somente algumas horas depois, ocasião em que encontrou Gertrudes já morta. Nesse caso: a) Rogério deve responder pelos crimes de homicídio culposo e de omissão de socorro, em concurso. b) Rogério deve responder apenas pelo crime de homicídio culposo, sem a incidência de qualquer majorante, visto que não tinha como evitar a morte de Gertrudes. c) Rogério deve responder apenas pelo crime de omissão de socorro, visto que não foi culpado pelo disparo da arma, considerando que a mesma disparou acidentalmente. d) O fato de Rogério não ter prestado socorro à vítima é penalmente irrelevante. e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. Comentários: A letra “e” corresponde à assertiva que deve ser marcada. No caso, Rogério agiu culposamente produzindo os ferimentos que levaram à morte de Gertrudes. Além disso, se omitiu em prestar socorro à mesma. Nessa situação, segundo a doutrina majoritária, ele responde por homicídio culposo (art. 121, § 3º, do CP), com a incidência da majorante de omissão de socorro prevista no art. 121, § 4º, do CP. Parte da doutrina defende que, nessa situação, ao agente poderia ser imputado o crime de homicídio doloso por conta da incidência do art. 13, 2º, “c”, do CP, pois se o agente cria com seu comportamento anterior o risco, e se, em um segundo momento, age dolosamente no sentido de recusar socorro à vítima, podendo perfeitamente fazê-lo, deverá responder pelo resultado que tinha a obrigação de evitar, e a título de dolo, identificável em sua conduta de recusar, conscientemente, socorro à vítima. Cezar Roberto Bitencourt (2010, v. 2, pp. 109-111) aborda com maestria esta temática. Defende o autor, no caso, a incidência do homicídio culposo, majorado pela omissão de socorro. Ressalta,contudo, que há doutrinadores (dentre eles, Mirabete) que defendem a incidência de homicídio doloso em situação congênere, em sua forma omissiva imprópria. Referindo-me à letra “a”, deve-se ficar bem claro que apesar da discussão mencionada no parágrafo anterior, não há qualquer doutrinador que defenda a incidência, no caso, de concurso entre os crimes de homicídio culposo e omissão de socorro, visto que a omissão funciona como majorante do primeiro delito para os adeptos da corrente majoritária. E, para quem defende a incidência de homicídio doloso, a omissão vai funcionar como circunstância que permite justamente o enquadramento na conduta típica de homicídio. No tocante à letra “b”, já vimos que se Rogério for responder por homicídio culposo, deve também responder pela majorante da omissão de socorro. Quanto à letra “c”, descarta-se tal assertiva, visto que está evidente que houve culpa de Rogério no disparo acidental, visto que deveria ter checado se na arma não havia algum cartucho antes de começar a limpá-la. Afasta-se também a letra “d”, visto que a omissão, como já se viu, é penalmente relevante para o enquadramento da conduta do agente. 4. Assinale a alternativa correta: a) A doutrina não faz nenhuma diferenciação entre sequestro e cárcere privado. b) Se um empregador mantém vigilância armada para evitar que seus empregados se retirem do local de trabalho, no intuito de explorar ilicitamente a mão-de-obra destes, deve responder pelo crime de seqüestro ou cárcere privado (art. 148 do CP). c) É admissível o perdão judicial para beneficiar pessoa que cometeu o crime de constrangimento ilegal. d) Zé desferiu, em sala de aula, um tapa em Tiago, seu colega de classe, que tropeçou, caiu e bateu com a cabeça em uma cadeira, tendo por essa razão falecido. Nesse caso, Zé deve responder pelo crime de homicídio culposo, afastando-se a hipótese de lesão corporal seguida de morte. e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. Comentários: Deve-se marcar a letra “d”. Alerta Prado (2008, v. 2, p. 140) que para a configuração do crime de lesão corporal seguida de morte o resultado agravador (morte, sobrevinda culposamente) deve ter sido provocado por lesão corporal dolosa. De modo que, se culposa a lesão ou se o falecimento é provocado por vias de fato (art. 21 da LCP), deve o agente responder apenas por homicídio culposo (art. 121, § 3º, do CP). Por exemplo: “o indivíduo desfere uma bofetada no rosto da vítima, que perde o equilíbrio, vindo a bater a cabeça em uma pedra, sobrevindo, posteriormente, a sua morte. Há, na espécie, um delito culposo de homicídio que decorreu da prática de uma contravenção penal (LCP, art. 21)” (CAPEZ, 2010, v. 2, p. 184). Desse modo, como no caso da questão a conduta antecedente foi vias de fato, tendo no consequente a morte (que sobreveio culposamente), não há que se falar em lesão corporal seguida de morte, visto que não houve lesão corporal no antecedente, mas sim vias de fato. Responde o agente, portanto, por homicídio culposo. A letra “a” está errada porque a doutrina diferencia sim sequestro de cárcere privado. Dizem os doutrinadores que sequestro é o gênero do qual cárcere privado é espécie. No cárcere privado deve haver o enclausuramento da vítima, enquanto que este é dispensável no seqüestro, que se contenta com qualquer tipo de privação da liberdade do sujeito passivo. Essa distinção serve apenas para fins teóricos, visto que em qualquer dos casos mencionados, o enquadramento será no art. 148 do CP, que trata do sequestro e cárcere privado. Na letra “b” o caso é de redução à condição análoga à escravo (art. 149, § 1º, II, do CP). Cabe enfatizar que esse delito, no contexto que foi cobrado na questão, absorve o crime do art. 148 do CP, por ser este meio necessário para sua execução. Afasta-se a letra “c” porque, segundo se tem com clareza na doutrina, o perdão judicial somente é possível quando é previsto legalmente para determinada infração penal (como é o caso da lesão corporal e do homicídio culposos, nas condições previstas nos arts. 121, § 5º, e 129, § 8º, ambos do CP) . No caso do constrangimento ilegal (art. 146 do CP), não há previsão nenhuma nesse sentido. 5. Zeno chegou bêbado em casa, e como o jantar não estava pronto, passou a agredir sua esposa Genoveva com socos e pontapés. Genoveva, então, para se defender, desferiu uma facada em Zeno, fazendo com que as vísceras do mesmo ficassem expostas. Acionada a polícia, foram os dois imediatamente conduzidos ao hospital. Também foram tomadas as providências devidas para o início da persecução penal. Depois de submetidos à perícia, constatou-se que Zeno correu risco de vida e que Genoveva sofreu apenas lesões leves. Nesse caso, qual deve ser o exato enquadramento penal das condutas de Zeno e Genoveva? Justifique. Resposta: Consta no enunciado que Zeno agrediu Genoveva, que em decorrência disso sofreu lesões corporais leves. Nesse primeiro aspecto, não há grande dificuldade no enquadramento penal. Basta apenas observar que a agressão foi perpetrada no âmbito das relações domésticas, sendo tal fato abarcado pelo art. 129, § 9º, do CP, que faz referência à violência doméstica como qualificadora da lesão corporal. Vale ressaltar que se a lesão fosse grave ou gravíssima, deveria se enquadrar o fato no § 1º ou § 2º do art. 129 do CP, fazendo-se incidir o § 10º do mesmo artigo por conta da violência doméstica. Assim, na questão em tela a resposta correta é que Zeno deve responder pelo delito previsto no art. 129, § 9º, do CP. Temos ainda no enunciado que Genoveva, para se “defender”, desferiu uma facada em Zeno, provocando-lhe perigo de vida. A hipótese, a princípio, seria de lesão corporal grave (art. 129, § 1º, II, do CP). Não se pode esquecer, contudo, que o ato de Genoveva foi para se “defender” da agressão do marido, atraindo assim a hipótese de legítima defesa (art. 25 do CP). O dispositivo mencionado assim prevê: “Art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”. O art. 23, que também faz referência à legítima defesa, dentre outras excludentes de ilicitude, menciona em seu parágrafo único que: “O agente, em qualquer das hipóteses deste artigo, responderá pelo excesso doloso ou culposo”. A legítima defesa, conforme se depreende do art. 25 do CP, tem os seguintes requisitos (segundo sistematizado por Luiz Flávio Gomes e Antonio García-Pablos de Molina, 2007, v. 2, pp. 449-451): a) agressão injusta, real, atual ou iminente; b) ameaça ou ataque a direito próprio ou alheio; c) necessidade da reação ou proporcionalidade entre o ataque e a reação; d) agente precisa ter consciência que atua para defender direito próprio ou alheio (aspecto subjetivo). Na questão em deslinde a única dúvida que pode pairar no tocante ao reconhecimento da legítima defesa é em relação à proporcionalidade do revide, requisito este largamente aceito pela doutrina contemporânea. Resta perguntar: após Genoveva ser agredida com socos e pontapés pelo marido, sua reação no sentido de dar-lhe uma única facada foi desproporcional? Primeiramente, devemos lembrar que a relação de proporcionalidade, em um primeiro momento, deve ser aferida na comparação entre o bem jurídico ameaçado e aquele que é violado para se defender o primeiro. No caso, o bem jurídico ameaçado era a integridade corporal, e o violado, do mesmo modo, por quem estava se defendendo, também foi a integridade corporal. Quer dizer: por este prisma não podemos utilizar o princípio da proporcionalidade para afastar a incidência dalegítima defesa, mesmo que tenha sobrevindo lesão grave a Zeno. O princípio da proporcionalidade foi lembrado pelos doutrinadores em sede de legítima defesa principalmente para afastar alegações de legítima defesa da honra ou do patrimônio; em ocasiões nas quais o indivíduo para defender a sua honra ou de outrem, ou mesmo o patrimônio, age no sentido de tirar a vida do agressor. Nesse caso, segundo é evidente, o revide é claramente desproporcional. Lembram Gomes e Molina (2007, v. 2, p. 451) que o nosso CP não usa a palavra proporcionalidade no seu art. 25, dizendo apenas que a repulsa deve ser mediante a utilização dos meios necessários e com moderação. Diante disso, exemplificam os autores: “Se o sujeito ataca a socos, por exemplo, em princípio, a reação não pode ser armada (não é preciso arma para se defender de ataque a mãos limpas). Mas tudo isso é muito relativo. Depende de quem é a pessoa que ataca e de quem se defende. Ataque a socos de um lutador de boxe lógico que vai permitir à vítima (inferiorizada corporalmente) reação armada (proporcional). Ataque de um lutador de artes marciais autoriza reação armada (pode-se chegar até à morte, desde que tenha havido proporcionalidade)”. Guilherme de Souza Nucci (2006, p. 241), falando sobre o uso dos meios necessários para repelir a injusta agressão, sem afastar (por óbvio) a exigência da moderação no uso desses meios, assim pondera: “Não se exige, no contexto da legítima defesa, tal como se faz no estado de necessidade, a fuga do agredido, já que a agressão é injusta. Pode ele enfrentar a investida, usando, para isso, os meios que possuir ao seu alcance, sejam eles quais forem. […] O agressor pode estar, por exemplo, desarmado e, mesmo assim, a defesa ser realizada com emprego de arma de fogo, se esta for o único meio que o agredido tenha a seu alcance. O direito não deve ceder ao injusto, seja a que pretexto for”.(Grifos nossos) No caso do enunciado, entendo que não houve reação desproporcional, visto não ser exigível de uma mulher (que em circunstâncias normais é fisicamente mais frágil que o homem) que apanhe do marido (socos e pontapés, no caso da questão, que lhe provocaram lesões leves; e isto porque a agressão foi cessada por sua reação) ou mesmo que restrinja a sua defesa ao uso de seu próprio corpo (ficando impedida de usar qualquer arma), visto que, em circunstância usuais, sua desvantagem é evidente. Quanto ao excesso, previsto no art. 23, parágrafo único, do CP, certamente também não houve, visto que, segundo consta no enunciado, a mulher desferiu uma única facada no agressor (não sendo exigível, durante uma situação dessa, que ela escolhesse minuciosamente em qual parte do corpo iria atingi-lo); e uma vez cessada a agressão do marido, não há registros que tenha continuado a atingi-lo. Conforme explica Rogério Greco (2010, v. I, p.32): “Da mesma forma que o excesso doloso, no excesso culposo o agente responderá por aquilo que ocasionar depois de ter feito cessar a agressão que estava sendo praticada contra sua pessoa”. (Grifos nossos) 6. Lourenço é policial civil. Certo dia, quando estava realizando investigações para combater o tráfico ilícito de drogas viu um traficante, de nome Juan, sendo agredido por dois usuários de entorpecentes, que estavam revoltados porque Juan havia lhes vendido pó de trigo feito cocaína. Lourenço estava armado com uma pistola, os dois usuários estavam apenas com pedaços de pau e o traficante estava sem arma nenhuma. No momento, Lourenço chegou a pensar em interferir para salvar Juan, porém resolveu ficar inerte, apenas assistindo a confusão. Nesse instante, surgiu Lucas, que possui um comércio no local, e ficou juntamente com Lourenço assistindo a briga por vinte minutos. Depois de muito bater em Juan os usuários foram embora. Nesse instante Lourenço falou para Lucas que era policial, diante do quê os dois se aproximaram de Juan e constataram que o mesmo já estava morto. Lourenço, então, pediu emprestado o celular que Lucas trazia consigo e ligou para chamar o pessoal do IML para fazer a remoção do cadáver. Nesse caso, por qual(is) crime(s) devem responder Lourenço e Lucas? Justifique. Resposta: Lourenço na condição de policial tinha o dever de agir no sentido de evitar o resultado que sobreveio a Juan. É inquestionável que, no caso, responde por homicídio, visto que, mesmo portando arma de fogo enquanto que os agressores estavam utilizando apenas pedaços de pau, se furtou de agir, sendo, na ocasião, perfeitamente possível sua interferência. Rogério Greco (2009, p. 143) dá o seguinte exemplo envolvendo policial, afirmando previamente que o dever de agir do mesmo decorre do art. 144 da CF: “Dessa forma, o policial, como regra, encontra-se na situação de garantidor em virtude de uma imposição legal. Assim, como exemplificamos acima, se o policial, dolosamente, deixa de prestar socorro à vítima que havia sido atingida por um disparo de arma de fogo, por reconhecê-lo como um perigoso traficante, se esta vier a falecer, não será responsabilizado pelo crime de omissão de socorro (art. 135, parágrafo único, do CP), mas, sim, pelo homicídio doloso por omissão”. No caso da questão o policial presenciou toda a agressão. Se o policial que apenas encontra alguém ferido e dolosamente deixa de socorrê-lo já é enquadrado em homicídio doloso, imagine aquele que presencia toda a agressão, sabendo que ela poderá levar a vítima à morte, e nada faz para socorrê-la, tendo plena possibilidade de fazê-lo. Na hipótese versada seria também possível atribuir a Lourenço a qualificadora prevista no art. 121, § 2º, III, do CP, visto que a morte através de várias pauladas pode ser considerado meio cruel (TJPR, 1ª Câmara Criminal, ACR 4304076, j. 21-08-2008, DJ 7694), e ele estava ciente dessa circunstância objetiva, devendo por ela responder, visto que sua conduta é acessória em relação ao comportamento dos executores do delito[1].Entendo, de outro modo, que não se possa argumentar que esteja presente no caso a qualificadora do art. 121, § 2º, IV, do CP, visto que o simples fato do crime ter sido executado por dois agentes não leva à caracterização de modo de execução que dificultou ou tornou impossível a defesa do ofendido, visto que este modo (genericamente considerado), para qualificar o crime de homicídio, tem que ser análogo à traição, emboscada ou dissimulação, ou seja, tem que ser insidioso (traiçoeiro). Bitencourt (2010, v. 2, p. 85) destaca que: “Recurso que dificulta ou impossibilita a defesa somente poderá ser hipótese análoga à traição, emboscada ou dissimulação, do qual são exemplificativas”. Do magistério de Mirabete e Fabbrini (2008, v. 2, p. 41) colhe-se: “Também não se qualifica o delito pela simples superioridade de armas (RT 578/331, 534/333, 445/461, 459/344; JTJ 166/296) ou pelo concurso de agentes (RJTJESP 26/401)”. (Grifos nossos) No tocante à conduta de Lucas, deve-se primeiramente verificar que ele não estava na posição de garante, afastando-se a hipótese de crime omissivo impróprio. Na circunstância, ele não poderia interferir para salvar o traficante, visto que havia dois homens armados com paus agredindo a vítima, porém poderia muito bem acionar as autoridades públicas, visto que portava um telefone celular. Desse modo, sua conduta é enquadrada no art. 135, parte final, do CP, devendo responder pelo crime de omissão de socorro. Ressalte-se, outrossim, que também deve responder pela majorante constante no parágrafo único, parte final, do art. 135 do CP, visto que sobreveio morte à vítima. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS NUCCI, Guilherme de Souza. Código penal comentado. 5ª ed. rev., atual. e ampl. –São Paulo: RT, 2006. GRECO, Rogério. Curso de direito penal, parte especial, vol. II. 7ª ed. rev.,ampl. e atual. – Niterói: Impetus, 2010. GRECO, Rogério. Atividade policial. 2ª ed. rev.,ampl. e atual. – Niterói: Impetus, 2009. GRECO, Rogério. Curso de direito penal, parte geral, vol. I. 12ª ed. rev.,ampl. e atual. – Niterói: Impetus, 2010. CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal – parte geral, v. 1. 6ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003. MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de direito penal, parte especial, v. II. 25ª ed. São Paulo: Atlas, 2008. CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal – parte especial, v. 2. 10ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010. BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal – parte especial, v. 2. 10ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010. CUNHA, Rogério Sanches; coordenação de Luiz Flávio Gomes e Rogério Sanches Cunha. Direito penal – parte especial, v. 3. – São Paulo: RT, 2008. GOMES, Luiz Flávio; MOLINA, Antonio García-Pablos de; coordenação de Luiz Flávio Gomes. Direito penal – parte geral. – São Paulo: RT, 2007. [1] “Participação por omissão: pode ocorrer, desde que a pessoa que se omitiu tivesse o dever de evitar o resultado. Portanto, o bombeiro que, tendo o dever jurídico de agir para combater o fogo, omite-se deliberadamente, pode responder como partícipe do crime de incêndio” (NUCCI, 2006, p. 273). Postado por Gecivaldo Vasconcelos Ferreira às 22:41 5 comentários: Links para esta postagem Marcadores: Direito Penal III - exercícios comentados EXERCÍCIO - HOMICÍDIO (ART. 121 do CP) QUESTÃO: SAULO (18 anos) resolveu matar ROBERTO (20 anos) para evitar que este casasse com sua mãe (MARISA, de 50 anos) sob o regime de comunhão universal de bens, pois sabia que tal pessoa queria apenas aplicar um golpe em sua genitora, que se encontrava totalmente apaixonada pelo conquistador. Sabendo disso, FERNANDA (20 anos), irmã de SAULO e também filha de MARISA, para fortalecer a ideia de SAULO, imitou a caligrafia de ROBERTO e falsificou um bilhete onde este supostamente declarava que tinha um caso com a namorada de SAULO, deixando referido documento jogado no quarto de seu irmão. Quando leu o bilhete, SAULO imediatamente procurou ROBERTO e lhe desferiu duas facadas no abdômen. Logo depois, muito nervoso e crendo que a vítima já havia falecido, pois estava inconsciente, enterrou-a em um terreno isolado. Após alguns dias, todas as circunstâncias do crime foram elucidadas pela polícia. Foi constatado, ainda, através do exame necroscópico que ROBERTO faleceu asfixiado, visto que foi enterrado vivo, e que as facadas seriam insuficientes para provocarem sua morte. Somente depois de preso é que SAULO ficou sabendo que o bilhete que lhe deixou furioso foi falsificado por sua irmã. Diante da situação hipotética descrita, responda fundamentadamente: SAULO e/ou FERNANDA cometeram algum crime? Caso positivo, qual? Tentado ou consumado? Deve ser reconhecido algum privilégio e/ou qualificadora no caso? RESPOSTA: SAULO, indubitavelmente, cometeu o crime de homicídio. FERNANDA, sua irmã, instigou através de um bilhete falsificado o agente a praticar o delito. Figura, portanto, como partícipe no crime referido (participação moral). Vale ressaltar que o fato de SAULO não saber da concorrência de FERNANDA não elimina a responsabilidade desta, visto que, no concurso de pessoas, é perfeitamente possível ao partícipe aderir à conduta do agente sem o conhecimento deste, visto não ser necessário um ajuste prévio entre eles[1]. Alguns alunos fizeram referência ao cometimento dos crimes de falsificação de documento por parte de FERNANDA e de ocultação de cadáver por parte de SAULO. Esse ponto não foi cobrado, visto que se trata de crimes que ainda não foram estudados pela turma. Desde já se esclarece, contudo, que seria possível reconhecer que FERNANDA incidiu no crime do art. 298 do Código Penal (falsificação de documento particular) por ter falsificado um bilhete, porém poder-se-ia também defender que tal crime foi absorvido pelo crime-fim pretendido pela agente (homicídio) por força do princípio da consunção. A discussão, no entanto, geraria polêmica. Quanto à ocultação de cadáver (art. 211 do CP), necessário observar que o tipo prevê a seguinte conduta: “Art. 211. Destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele”. Em um primeiro momento devemos refletir que o objeto material desse crime é o cadáver (corpo humano sem vida) ou parte dele. Referida constatação levaria, em príncípio, à conclusão de que se não havia cadáver no momento da ação tornar-se-ia impossível a consumação do delito por impropriedade do objeto (art. 17 do CP), pois quando SAULO enterrou a vítima, a mesma ainda estava viva. Ensinam Luiz Flávio Gomes e Antonio García-Pablos de Molina (2007, v. 2, p. 490), contudo, que a impropriedade do objeto, para o crime se reputar como impossível deve ser absoluta, e ainda, que essa verificação de impropriedade absoluta deve ser feita ex post factum (após a realização do fato). No mesmo sentido a doutrina da Guilherme de Souza Nucci (2006, p. 183), que também afirma que a averiguação de idoneidade do objeto deve ser feita após a ocorrência do fato, dizendo ele que este: "trata-se do único método seguro para analisar se o objeto era, realmente, absoluta ou relativamente impróprio [...]". Nesse andar, se formos averiguar o objeto material do crime do art. 211 do CP depois da ocorrência do fato hipotético em comento, chegaremos à conclusão que o mesmo foi atingido, visto que apesar da vítima ainda estar viva quando SAULO lhe enterrou, lá ela morreu e se transformou em um cadáver que ficou oculto; conformando-se o resultado, assim, com o dolo do agente (que era ocultar um cadáver, que em um momento inicial ainda não existia, mas que depois passou a existir). Assim, pode-se defender que, no caso, tenha ocorrido homicídio em concurso com ocultação de cadáver, sendo que este último crime pode ser atribuído apenas a SAULO. Esse entendimento é simétrico aos ensinamentos de Rogério Greco (2010, v. I, p. 591), conforme segue: "Pode acontecer, ainda, que ocorra um resultado aberrante também na hipótese em que o agente, após efetuar dois disparos, supondo já ter causado a morte da vítima, com a finalidade de ocultar o suposto cadáver, coloca-a em uma cova, enterrando-a, sendo que esta, na verdade, ainda se encontra viva, vindo, contudo, a morrer asfixiada. [...] havendo o 'dolus generalis', o agente deverá ser responsabilizado pelo seu dolo inicial, ou seja, se pretendia causar a morte com os disparos por ele efetuados, mas se esta somente ocorreu depois que a vítima fora enterrada e asfixiada, continuará a ser responsabilizado por um único crime de homicídio doloso consumado, além do delito de ocultação de cadáver". Continuando a responder os demais questionamentos, repise-se que o homicídio, no qual figura SAULO como autor e FERNANDA como partícipe, se consumou, pois foi produzido o resultado lesivo pretendido (qual seja: morte de ROBERTO). É bem verdade que ocorreu o fenômeno do aberratio causae, porém isso não interfere na responsabilização penalprimária, segundo bem explica Fernando Capez (2003, v. 1, p. 190): Dolo geral, erro sucessivo ou “aberratio causae”: quando o agente, após realizar a conduta, supondo já ter produzido o resultado, pratica o que entende ser um exaurimento e nesse momento atinge a consumação. Exemplo: um perverso genro, logo após envenenar sua sogra, acreditando-a morta, joga-a, o que supunha ser um cadáver, nas profundezas do mar. A vítima, no entanto, ainda se encontrava viva, ao contrário do que imaginava o autor, vindo, por conseguinte, amorrer afogada. Operou-se um equívoco sobre o nexo causal, pois o autor pensava tê-la matado por afogamento. No momento em que imaginava estar simplesmente ocultando um cadáver, atingia a consumação. Tal erro é irrelevante para o Direito Penal, pois o que importa é que o agente queria matar, e acabou, efetivamente, fazendo-o, não interessando se houve erro quanto à causa geradora do resultado morte. O dolo é geral e abrange toda a situação, até a consumação, devendo o sujeito ser responsabilizado por homicídio doloso consumado, desprezando-se o erro incidente sobre o nexo causal, por se tratar de um erro meramente acidental. Mais. Leva-se em conta o meio que o agente tinha em mente (emprego de veneno), para fins de qualificar o homicídio, e não aquele que, acidentalmente, acabou empregando (asfixia por afogamento). Quanto à indagação, se deve ser reconhecido algum privilégio e/ou qualificadora no caso, de início cabe afastar a incidência da asfixia como circunstância qualificadora; pois o agente não responde para esse efeito pela causa real da morte (no caso, asfixia), mas sim pela causa através da qual pretendida provocar o óbito (ou seja, esfaqueamento). Fundamenta-se tal posição na doutrina transcrita imediatamente acima. Analisando a presença de outra(s) qualificadora(s), observei que alguns alunos mencionaram a ocorrência de motivo torpe (art. 121, § 2º, I, do CP) por conta de eventual ganância de SAULO que teria motivado o crime, considerando que se sua mãe casasse com ROBERTO teria sua herança reduzida. Deve ser observado, porém, que a questão não trouxe nenhum elemento que pudesse permitir, com segurança, aconclusão que havia esse sentimento de ganância. Pelo contrário, o enunciado deixa evidente que a motivação do agente era evitar que sua mãe fosse enganada. É claro que se o caso fosse real, caberia forte discussão sobre a presença ou não da ganância. Aqui se trata, porém, de uma questão hipotética, na qual devemos nos prender ao que consta no enunciado. E, na presente situação o enunciado não permite, implícita o explicitamente, detectar a presença da ganância como motivadora da ação do agente. Quanto ao ciúme que também acabou funcionando como causa motivadora do crime, o mesmo também não leva à configuração de motivo torpe nem fútil, segundo já assentado na doutrina[2]. Ressalto, outrossim, que o fato do aluno defender a presença da qualificadora do motivo torpe na situação não foi determinante na escolha das melhores respostas, visto que se trata de um aspecto secundário. Quanto à presença ou não de privilégio, importante pontuar que SAULO agiu tentando proteger sua mãe e também, de certa forma, influenciado ou acometido por violenta emoção. Deve ser observado, não obstante, que apesar de haver um motivo aparentemente nobre para o cometimento do crime (querer proteger a mãe de um conquistador) este motivo não chega a configurar um relevante valor social ou moral. A expressão “relevante” é importantíssima nesse contexto; segundo bem leciona Cezar Roberto Bitencourt (2010, v. 2, p. 203): É insuficiente, porém, para o reconhecimento da privilegiadora o valor social ou moral do motivo: é indispensável que se trate de valor relevante, como destaca o texto legal. E a relevância desse valor, social ou moral, é avaliada de acordo com a sensibilidade média da sociedade e não apenas segundo a sensibilidade maior ou menor do sujeito ativo, embora não se possa esquecer que a relevância do valor social ou moral é subjetiva e não puramente objetiva, segundo os padrões da sociedade e não conforme o entendimento pessoal do agente. Desse modo, sob o ponto de vista subjetivo da sociedade como um todo, segundo me parece, não havia esse valorrelevante determinando a conduta de SAULO. Quanto a eventual violenta emoção do agente, independentemente de se analisar se ela existiu ou não, descarta-se de imediato a sua incidência, visto que ela não foi motivada por injusta provocação da vítima. Por fim, ressalto que percebi que alguns alunos fizeram também, em suas respostas, referências a circunstâncias agravantes e atenuantes. Não vou, contudo, aqui analisá-las, visto que o enunciado não exigia a identificação das mesmas. Feitas as considerações supra (que valem como fundamentação), temos, em síntese, as seguintes respostas conclusivas: 1) SAULO e/ou FERNANDA cometeram algum crime? Resposta: sim. 2) Caso positivo, qual? Resposta: crime de homicídio. 3) Tentado ou consumado? Resposta: consumado. 4) Deve ser reconhecido algum privilégio e/ou qualificadora no caso? Resposta: não. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS NUCCI, Guilherme de Souza. Código penal comentado. 5ª ed. rev., atual. e ampl. – São Paulo: RT, 2006. GRECO, Rogério. Curso de direito penal, parte geral, vol. I. 12ª ed. rev.,ampl. e atual. – Niterói : Impetus, 2010. GRECO, Rogério. Curso de direito penal, parte especial, vol. II. 7ª ed. rev.,ampl. e atual. – Niterói : Impetus, 2010. CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal – parte geral, v. 1. 6ª ed. São Paulo : Saraiva, 2003. BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal – parte especial, v. 2. 10ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010. GOMES, Luiz Flávio; MOLINA, Antonio García-Pablos. Direito penal - parte geral. v. 2. São Paulo: RT, 2007. [1] Nesse sentido: NUCCI, 2006, p. 270. [2] (NUCCI, 2006, p. 533). Postado por Gecivaldo Vasconcelos Ferreira às 18:52 4 comentários: Links para esta postagem Marcadores: Direito Penal III - exercícios comentados EXERCÍCIOS COMENTADOS - ARTS. 121 a 154 do CP 1. Considere a seguinte situação hipotética: Fernando manteve relações sexuais com sua empregada doméstica, Antônia, vindo a engravidá-la. O ocorrido deixou Fernando extremamente preocupado, visto que era casado, e temia que sua esposa descobrisse a traição. A situação de estresse fez com que Fernando passasse a tratar Antônia com rispidez. Sempre falava firmemente com a doméstica (evitando qualquer tipo de intimidade), porém sem exceder as suas prerrogativas de patrão. Certo dia, quando chegou em casa, percebeu que seus filhos tinham tomado banho e molhado completamente o banheiro, deixando-o também todo lambuzado de sabão. Imediatamente, Fernando, de forma imprudente, determinou que Antônia, já com sete meses de grávida, lavasse referido cômodo. Ao cumprir a determinação do patrão, a doméstica, por conta de seu estado (tinha dificuldades para se abaixar, visto que a barriga já estava muito grande) e da espécie de serviço que teve que executar, caiu violentamente, quebrando o braço direito, e apresentando sangramento vaginal. Após a queda, Fernando socorreu Antônia, levando-a ao hospital, porém infelizmente a mesma veio a perder o bebê que carregava em seu ventre. Nesse caso Fernando deve responder pelo(s) seguinte(s) crime(s): a) Nenhum crime. b) Lesão corporal dolosa. c) Aborto. d) Aborto e lesão corporal. e) Lesão corporal culposa. Comentários: A assertiva correta corresponde à letra “e”. Note-se que existem alguns elementos exigíveis para configuração do delito culposo, quais sejam (GRECO, 2007, v.I, p. 197): a) conduta humana voluntária, comissiva ou omissiva; b) inobservância de um dever objetivo de cuidado (negligência, imprudência ou imperícia); c) o resultado lesivo não querido, tampouco assumido, pelo agente; d) nexo de causalidade entre a conduta do agente que deixa de observar o seu dever de cuidado e o resultado lesivo dela advindo;e) previsibilidade; f) tipicidade. A questão já diz textualmente que Fernandoagiu de forma imprudente ao mandar Antônia lavar o banheiro nas condições em que se encontrava, e considerando também a situação física da mesma. De outro modo, certamente houve previsibilidade (mesmo que seja somente objetiva) da queda e respectiva lesão corporal e aborto. A lei não pune o aborto culposo, de modo que resta apenas a punição, no caso, pelas lesões corporais culposas. 2. Considere a seguinte situação hipotética: Rufino, após ser chamado de “ladrão” por Noel, reagiu imediatamente, chamando o mesmo de “corno”. O fato foi presenciado por várias pessoas. Os dois agiram com intenção de afetar a honra subjetiva da parte contrária respectiva. Em referida situação: a) Rufino poderá ser beneficiado com perdão judicial, visto que apenas retorquiu a injúria sofrida. b) Tanto Rufino quanto Noel poderão ser beneficiados pelo perdão judicial. c) Noel cometeu o crime de calúnia, visto que imputou falsamente fato criminoso a Rufino. d) Rufino cometeu o crime de calúnia, visto que imputou fato desonroso a Noel. e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. Comentários: Assertiva correta: letra “a”. Na situação hipotética narrada não se identifica calúnia nem difamação, considerando que não houve imputação de fato específico (desonroso ou criminoso) por nenhum dos envolvidos à parte adversa. Há somente injúria de um contra o outro. Prevê o CP (art. 140, parágrafo 1º) casos em que o juiz pode, em se tratando de crime de injúria, conceder perdão judicial, deixando de aplicar a pena, sendo eles: a) quando há provocação da vítima; b) retorsão imediata. Na questão é ilustrada uma hipótese de retorsão imediata por parte de Rufino, que após ser chamado de “ladrão” por Noel, ofendeu a este, chamando-o de “corno”. Não cabe atribuir o mesmo benefício (do perdão judicial) a Noel, visto que não agiu após provocação e nem retorquiu a injúria antes sofrida. Nesse sentido ensina a melhor doutrina (CAPEZ, 2006, v.2, p.263): “Com efeito, tanto não há a compensação de crimes que o primeiro injuriador, causador da retorsão, não é beneficiado pelo perdão judicial, respondendo pelo crime contra a honra. Somente o sujeito que sofreu a injúria e a retrucou será contemplado com a causa extintiva da punibilidade”. 3. Considere a seguinte situação hipotética: Ronaldo possui uma propriedade rural onde planta soja. Após arregimentar um grupo de cem trabalhadores, passou a manter vigilância armada no local, proibindo que os obreiros saíssem da propriedade sem sua autorização prévia, com o objetivo de fazê-los colher a safra com extrema rapidez. Antes dos mesmos começarem a trabalhar assinaram um contrato através do qual se comprometeram a não sair da fazenda enquanto durasse a colheita da safra, mesmo que fosse em seus horários de folga. O patrão sempre alertava que quem tentasse fugir iria ser demitido sem direito a qualquer remuneração, além de correr o risco de levar tiros. Nesse caso, Ronaldo deve ser condenado pelo(s) seguinte(s) crime(s): a) ameaça (art. 147 do CP), seqüestro e cárcere privado (art. 148 do CP) e redução a condição análoga à de escravo (art. 149, parágrafo 1º, II, do CP). b) seqüestro e cárcere privado. c) redução a condição análoga à de escravo. d) constrangimento ilegal (art. 146 do CP). e) Nenhum dos crimes evidenciados anteriormente. Comentários: Assertiva correta: letra “c”. O contexto fático hipotético descrito evidencia que os demais crimes espelhados nas alternativas incorretas emanam de circunstâncias direcionadas (no caso que se apresenta) para a realização do crime de redução a condição análoga à de escravo (art. 149 do CP). Tanto o cerceamento da liberdade de locomoção, quanto as ameaças e eventual constrangimento ilegal foram levados a efeito para garantir a consumação do crime descrito no art. 149 do CP. E, assim ocorrendo, a hipótese é de crimes de uma única espécie (considerando a pluralidade de vítimas do crime de redução a condição análoga à de escravo), afastando-se o concurso heterogêneo de delitos. Nesse sentido ensina Capez (2006, v.2, p.321): “Resta mencionar que alguns crimes acabam sendo absorvidos pela conduta do art. 149 do CP; é o caso da ameaça, do constrangimento ilegal, do cárcere privado”. 4. Considere a seguinte situação hipotética: durante uma festa as pessoas começaram jogar cerveja umas nas outras. Algumas ficaram enfurecidas e começaram uma confusão indiscriminada, onde várias pessoas se agrediam mutuamente. Durante a confusão, Roberto foi atingido por uma garrafa, vindo a falecer. A polícia chegou, e levou para a delegacia vinte pessoas que, comprovadamente, estavam participando do confronto. Durante as investigações, foram requisitadas as imagens do circuito interno da casa de show, ficando comprovado que a garrafada que levou Roberto a óbito foi desferida por Leonardo, que participou do confronto desde o início. Leonardo confessou que agiu com animus necandi. Quanto às demais agressões ocorridas durante o entrevero, não foi possível estabelecer a autoria, sendo elas apenas de natureza leve. Diante disso: a) Todos os envolvidos na confusão (exceto Roberto, por óbvio), devem responder pelo crime de homicídio. b) Leonardo deve responder apenas pelo crime de homicídio. c) Leonardo deve responder pelo crime de homicídio em concurso com o crime de rixa. d) As demais pessoas envolvidas no confronto (exceto Leonardo e Roberto), devem responder somente pelo crime de rixa simples (art. 137, caput, do CP). e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. Comentários: Assertiva correta: letra “c”. Não há dúvida na doutrina de que, uma vez sendo identificado o autor de homicídio praticado durante a rixa, deve ele responder pelos dois crimes (rixa e homicídio). Note-se que no crime de rixa, o sujeito passivo não é somente a pessoa que morreu, mas também os demais rixosos. Não é possível, portanto, dizer que o homicídio absorve o crime de participação na rixa. Há, contudo, discussão doutrinária relevante no sentido de definir se o autor do homicídio deve responder por este em concurso com rixa simples ou com rixa qualificada. Por tal razão, mencionamos na letra “c” apenas o crime de “rixa”, não especificando sua forma. Quanto aos demais contendores (exceto o que morreu, por óbvio), devem responder pelo crime de rixa qualificada. Quanto ao ponto abordado, consultar GRECO, 2007, v.II, pp. 403 e 406-409. BIBLIOGRAFIA GRECO, Rogério. Curso de direito penal – parte especial, vol. II. 3ª ed. rev.,ampl. e atual. – Niterói : Impetus, 2007. CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal – parte especial, v. 2. 6ª ed. São Paulo : Saraiva, 2006. GRECO, Rogério. Curso de direito penal – parte geral, vol. I. 8ª ed. rev.,ampl. e atual. – Niterói : Impetus, 2007.