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pesca recursos pesqueiros amazonia livro

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que se estabeleceu nessas áreas adaptou-se
a este processo e ocupou as áreas conforme a duração de alagamento.
As áreas mais baixas, que passam mais tempo alagadas, são geralmen-
te ocupadas pelas gramíneas e vegetações de pequeno porte, e as áre-
as mais altas, que passam menos dias por ano alagadas, são ocupadas
por vegetação arbórea (Ayres, 1993).
Figura 2. Nível médio histórico do rio Solimões-Amazonas nas cidades de Fonte Boa,
Coari, Manaus, Parintins, Santarém e Porto de Moz registrado pelo DNAEE.
As setas escuras indicam os picos de enchente, e as claras os picos de seca.
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
Apesar da forma do ciclo anual do nível do rio ser semelhan-
te para os diversos trechos ao longo do eixo do rio Solimões-Ama-
zonas, existem diferenças sutis, mas marcantes entre elas. A Figura
2 mostra o nível médio mensal dos rios obtido de uma série histó-
rica de dados coletados pelo DNAEE (Departamento Nacional de
Águas e Energia Elétrica, atualmente incluído na ANA, Agência
Nacional de Águas). Os períodos de seca aparentemente seguem
um padrão “rio abaixo”. Ela é percebida primeiro em Fonte Boa
(setembro), depois em Coari (outubro) e, em seguida, nos demais
trechos à jusante (novembro). No entanto a cheia não segue este
padrão, sendo percebida primeiro em Porto de Moz (abril), depois
em Santarém (maio) e depois nos trechos rio acima (junho) (Figura
2). Este fenômeno ocasiona uma alteração na forma da onda do
ciclo da água, sendo o período entre o pico de cheia e o pico de
seca menor nos trechos rio acima do que nos trechos rio abaixo.
Nos trechos rio acima, a enchente é mais demorada que a vazante,
e nos trechos rio abaixo estes têm aproximadamente a mesma du-
ração (Figura 3).
Figura 3. Número de dias entre os pico de cheia e seca nos trechos do rio Solimões-
Amazonas.
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
Amplitude de alagação
A amplitude de alagação, a diferença entre o nível máximo e míni-
mo do rio, varia ao longo do rio Solimões-Amazonas. Há uma tendência
de a alagação ser maior na Amazônia Central, em Manaus, e diminuir
tanto rio acima quanto rio abaixo, sendo a menor amplitude em Porto de
Moz (Figura 2 e Tabela 3). Esta tendência é demonstrada pelas diversas
formas de se medir a amplitude, considerando: (i) a diferença entre os
valores extremos de uma série histórica de dados, a amplitude máxima;
(ii) a diferença entre a média dos valores extremos anuais, amplitude dos
extremos médios; e (iii) a média da diferença entre os valores extremos de
cada ano, amplitude média anual. A amplitude máxima em Manaus, ob-
servada desde 1903 foi de 16m e a amplitude média anual foi de 14,6m.
Em oposição, a amplitude máxima em Porto de Moz medida desde 1979
foi de 4,2m, sendo a média anual de 3,6m (Tabela 3).
Variação interanual da alagação
A série histórica de nível do rio mostra a grande variabilidade do
padrão de alagação ente os anos. A Figura 4 ilustra esta variabilidade,
apresentando a flutuação diária do nível do rio em Manaus entre 1951
e 1995. Manaus possui a informação mais antiga de nível do rio, tendo
sido iniciadas as medições em 1903. No período de 1951 e 1995, deu-
se a maior enchente medida até hoje, a de 1953 (2969cm), e a segun-
Tabela 3. Indicadores do ciclo hidrológico medido ao longo do eixo Solimões –
Amazonas, utilizando séries temporais registradas pelo DNAEE.
edadiC
açnerefiD
soertne
somertxe
étasodidem
)mc(ejoh
açnerefiD
saertne
saidém
siasnem
samertxe
étasadidem
)mc(ejoh
açnerefiD
onamixám
omsem
)mc(ona
euqmesonA
uosilanaes
eirésa
laropmet
eD étA
aoBetnoF 8521 127 4211 2791 9991
iraoC 7051 928 6631 8791 8991
suanaM 5061 498 2641 3091 9991
snitniraP 0711 226 979 7691 8991
mératnaS 528 454 627 0391 8991
zoMedotroP 124 781 953 9791 8991
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
da maior, a de 1976 (2961). A seca histórica ocorreu em 1963 (1364cm)
e a segunda ocorreu em 1958 (1474cm). Mas além dos valores extre-
mos, é interessante observar os períodos em que as cheias e as secas
não foram pronunciadas. A Tabela 4 apresenta os valores máximos e
mínimos de enchentes e secas para o trecho entre Fonte Boa e Porto de
Moz. As diferenças obtidas dos valores históricos máximos, ou seja, de
cheia e seca mais acentuadas, são as mesmas apresentadas na Tabela
3. No entanto as diferenças obtidas dos valores de cheia e seca menos
Tabela 4. Valores máximos e mínimos de enchentes e secas para o trecho entre Fonte
Boa e Porto de Moz.
edadiC
aiehC aceS açnerefiD onA
laicinIxaM onA niM onA xaM onA niM onA xaM niM
aoBetnoF 8712 3991 0981 5891 029 5991 0741 6891 8521 024 8791
iraoC 8371 9991 9431 0891 132 8991 4601 4791 7051 582 2791
suanaM 9692 3591 7712 6291 4631 3691 4812 4701 5061 7- 3091
snitniraP 1411 5791 846 0891 92- 1991 555 4791 0711 39 7691
mératnaS 077 3591 173 8991 55- 7991 472 9391 528 79 0391
zoMedotroP 174 7991 862 0891 05 9791 362 1891 124 5 9791
Figura 4. Oscilação diária do nível do rio Negro em Manaus no período de 1951 a 1995.
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
intensas mostram que o nível máximo do rio em um ano pode ser me-
nor que o nível mínimo em outro ano (valores negativos na coluna
“Diferença-Min.” da Tabela 4). Dessa forma, considerar o valor absolu-
to da cota como indicador de período de cheia ou seca é um problema,
pois a enchente de Manaus do ano de 1926 esteve abaixo da seca do
ano de 1974. Esta diferença foi menor que 1m nos trechos abaixo de
Manaus e maior que 2m nos trechos acima de Manaus. Os anos em
que a intensidade da cheia ou seca foi mais intensa não coincide para
os diferentes pontos analisados.
A Várzea Amazônica
Um componente fundamental para a pesca na paisagem da pla-
nície sedimentar está representado pelas áreas periodicamente inun-
dadas pelas águas brancas, que são denominadas de várzeas, igapós
ou campos alagados. Estas se estendem ao longo do rio Solimões –
Amazonas, desde Pucallpa, no Peru, até a sua foz, sendo que as ca-
racterísticas da alagação, assim como a amplitude e intensidade de
alagamento variam tanto espacial, ao longo de seu percurso, como
temporalmente.
As estimativas sobre a extensão das áreas alagadas ainda são pre-
liminares, tendo em vista a diferença nos métodos e escalas considera-
dos. Na Amazônia Central, as áreas inundadas pelos rios de águas bran-
cas ocupam em torno de 10% do Estado do Amazonas (150.000km2),
ou 35% da área total da Bacia Amazônica, estimada para o território
brasileiro em 4.982.000km2 (Ferraz ,1994). Deste total da área de vár-
zea, a maior parte, 92.400km2, é ocupada pela várzea do canal princi-
pal do rio Amazonas, seguida pelas várzeas do rio Purus com 21.833km2,
Juruá com 16.516km2, Madeira com 8.189 km2, Japurá com 2.957km2,
Iça com 2.895km2 e Jutaí com 2.421km2. Ao longo do rio Amazonas,
encontram-se faixas de várzea de até 200km, como ocorre no Baixo
Amazonas, já no Médio e Alto Solimões estas faixas somente alcançam
20km de extensão.
A planície inundável na Amazônia peruana foi estimada em
62.100 km2 por Salo et al. (1986), sendo que a área de inundação
ativa foi estimada por Bayley (1981) em 41.600 km2. O sistema
formado pela confluência dos rios Beni, Madre de Dios, Mamoré e
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
Itenez, possui cerca de 145 rios e 37 lagos (Arteaga, 1991) e o rio
Itenez apresenta uma área inundada de 100.000 a 150.000km2
(Roche & Fernández Jáuregui, 1988; apud Lauzanne et al., 1990).
As confluências dos rios Solimões, Japurá, Jutaí e Içá, no Brasil,
apresentam uma área alagada de 49.530km2 e, no Baixo Amazo-
nas, na confluência com os rios Amazonas, Madeira, Tapajós e
Xingu, a área estimada é em torno de 37.000km2 (Bayley & Petrere,
1989).
Diversidade dos recursos pesqueiros
Riqueza