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Sua escolha por este curso e pela UNIRP demonstra o reconhecimento que somente mediante uma boa formação se poderá obter êxito profissio- nal. Vivemos na era do conhecimento e da informação, e quanto mais nos dedicarmos em sua busca, maior probabilidades de crescimento pessoal e profissional teremos. A bagagem de conhecimento adquirida é que dirá quem somos para as pessoas e para o mercado de trabalho, portanto, se você resolveu estudar é porque decidiu aprender algo a mais e ser responsável por aquilo que apren- der. As melhores oportunidades estão abertas para as pessoas com maior ca- pacidade de interação, de sabedoria em lidar com diferentes situações e com- petentes para resolver problemas da sua área de conhecimento. Num mundo moderno e globalizado, que sofre mudanças constantemen- te a uma velocidade incrível, se não quisermos ficar perdidos no tempo e no espaço, precisamos buscar formação e atualização, pois vivemos em uma sociedade competitiva e restrita, onde não só o conhecimento é avaliado, mas a formação adquirida também. E lembre-se que o estudo e o conhecimento são os melhores investi- mentos que podemos fazer para nós mesmos, pois ninguém poderá, jamais, tirá-los de nós. Bons Estudos!! Equipe EAD SUMÁRIO APRESENTAÇÃO............................................................................................................................... 3 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 7 1 A SOCIOLOGIA E SUA IMPORTÂNCIA ............................................................................... 11 2 A SOCIOLOGIA DE DURKHEIM, MARX, WEBER E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO ....................................................................................................................... 15 2.1 Uma breve história da Sociologia ........................................................................................... 15 2.2 Emile Durkheim ...................................................................................................................... 15 2.3 Karl Marx e a Educação .......................................................................................................... 18 2.4 Max Weber e a Educação ....................................................................................................... 19 2.4.1 Max Weber e os termos ......................................................................................................... 21 3 EDUCAÇÃO PARA A EMANCIPAÇÃO E A ESCOLA DE FRANKFURT ............................ 27 4 VISÕES DE BOURDIEU E GRAMSCI NO PROCESSO EDUCACIONAL ........................ 33 4.1 Gramsci e a Educação ............................................................................................................. 35 5 MANNHEIM E A EDUCAÇÃO ............................................................................................. 39 6 CULTURA .............................................................................................................................. 55 6.1 Definição ................................................................................................................................. 55 6.2 A cultura e seus derivados ...................................................................................................... 56 6.3 Os tipos de cultura .................................................................................................................. 58 7 A EDUCAÇÃO E O DOMÍNIO SOCIAL .............................................................................. 61 7.1 O domínio social e a escola .................................................................................................... 62 7.2 A história da escola ................................................................................................................. 65 8 EDUCAÇÃO E A SOCIEDADE BRASILEIRA ........................................................................ 69 9 EDUCAÇÃO E DESIGUALDADE SOCIAL NA AMÉRICA DO SUL .................................... 75 10 SOCIEDADE E A EDUCAÇÃO: ESTABLET E BAUDELOT ................................................ 81 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 90 7 :: Sociologia da Educação :: INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO Vamos começar nosso estudo de Sociologia da Educação com a carta que os Índios das Seis Nações enviaram aos governantes de Virgínia e Maryland, Estados Unidos, por ocasião do estabelecimento de um tratado de paz assinados por eles. De acordo com Brandão (2000): como as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados a momentos solenes como aquele, os governantes (de Virgínia e Maryland) mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às escolas dos brancos. 4 Fonte: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/ infantil/direitosdoindio.htm No trecho a seguir, também citado por Brandão (2000, p. 8), temos a resposta dos índios, que recusaram o pedido. Ademais, temos, a partir do trecho a seguir, claros alguns dos conceitos relacionados à Sociologia e à Educação que nos interessam. Vejamos: [...] Nós estamos convencidos, portanto, que os senho- res desejam o bem para nós e agradecemos de todo coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senho- res não ficarão ofendidos ao saber que a vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa. 8 :: Sociologia da Educação :: [...] Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ig- norantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e cons- truir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem al- guns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens. A sociedade humana, sua estrutura, cultura, suas interações, normas, crenças, seus valores, interesses, costumes, relacionamentos, que tão bem vemos retratados nesse trecho, são objetos de estudo da Sociologia. Do mesmo modo que cada contexto social tem suas características próprias, não há uma única forma ou um modelo único de educação: temosa educa- ção do colonizador, do colonizado, do guerreiro, do burocrata e assim por diante. Se considerarmos as várias épocas históricas, e os vários modelos de sociedade existentes, vamos perceber que são diferentes os modos de edu- cação, como também são diferentes os objetivos educacionais em cada re- gião ou sociedade. A educação não é única e menos ainda universal, ou igual para todos. De acordo com o dicionário de língua portuguesa Aurélio (2000), o termo “sociologia” é definido como ”o estudo das relações entre pessoas que vivem em uma comunidade ou em grupos diferentes. É o estudo das principais instituições próprias à vida em sociedade”, ao passo que “Educa- ção” é definido como “o processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano.” As Leis e Diretrizes e Bases da Educação Nacional (L.D.B.), particular- mente a lei nº 9394/96 de 20 de dezembro de 1996 afirma que: Artigo 1º: a educação abrange os processos formativos que desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. 9 :: Sociologia da Educação :: Artigo 2º: a educação, dever da família e do Estado, inspi- rada nos princípios de liberdade nos ideais de solidariedade hu- mana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educan- do, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho Unindo essas definições anteriores, podemos afirmar que, de acordo com Rodrigues (2007), a atuação com o objetivo de educar está associada às regras sociais e aos valores que os indivíduos de uma determinada socieda- de, cultura e momento histórico compartilham entre si. Sabendo que a escola é um subsistema social, logo ela não está afasta- da da comunidade e da sociedade. Ela é o espelho das circunstâncias e das imposições estipuladas pela sociedade. Dentro da escola, há muitos grupos sociais formados de professores, diretores, secretários, alunos, coordena- dores, etc., os quais apresentam grande poder no comportamento dos es- tudantes e, como não podia deixar de ser, na educação deles. Mesmo no interior da sala de aula, apesar da autoridade exercida pelo docente, as influ- ências das posições sociais do estudante não podem ser desprezadas. Dessa forma, a disciplina de Sociologia da Educação alicerça-se nas re- lações entre a atuação que objetiva educar e as estruturas da vida social, nas quais estão inclusas a economia, a cultura, a religião, as normas e a política. Para atingir o objetivo desta disciplina, faz-se necessário compreender- mos a posição dos grandes e clássicos sociólogos da humanidade, relacio- nando suas teorias com a educação. Posteriormente, vamos discursar sobre a educação e as influências sociais. 11 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO I 1 A SOCIOLOGIA E SUA IMPORTÂNCIA Agora vamos estudar um pouco sobre Sociologia. Esta é uma ciência que não tem mais que um século, que se preocupa com a vida em sociedade e que estuda a forma de comportamento ou ação dos indivíduos dentro da sua comunidade (RODRIGUES, 2007). Semelhante ao reino animal, o homem também apresenta um ciclo de vida que vai desde a reprodução, luta pela sobrevivência, preocupação com seus descendentes, moradia e comida. Com bases nessa afirmativa, podemos afirmar que o homem apresenta reações instintivas, como a maioria dos ani- mais, reações essas que lhe são inatas, tais como: respirar, ter fome, sentir frio e medo. No entanto, por influência do meio ambiente e/ou pela própria natu- reza humana, o homem desenvolveu capacidades que necessitam de aprendi- zado, por isso aprendemos a usar talheres para fazermos a nossa refeição, a respeitar e obedecer regras, a trabalhar, a comprar e assim por diante. Essa é uma característica unicamente humana. O homem tem a capa- cidade de criar sistemas de símbolos, tal como a linguagem, dando sentido às práticas vividas, de maneira que as repassa para gerações futuras. Assim, podemos afirmar que nós somos os únicos seres vivos que pensam, que raciocinam, que modificam suas práticas vividas em uma fala de significados, que discriminam as experiências no tempo, que transmitem essas experiên- cias a seus semelhantes e que planejam o futuro. Dessa forma, o homem está sempre vivendo em grupo, relacionando- se com o outro, construindo relações baseadas em significado, em avaliação, em respeito, em valores, em hábitos, formando a base do seu conhecimen- to do mundo, de modo que esse conhecimento seja transmitido às gerações futuras. A esse processo damos o nome de cultura humana, e toda cultura tem a sua forma de educação. A educação básica da Educação, por exem- plo, trata justamente dessa relação entre os homens, da capacidade que eles têm de aprender, de ensinar, de produzir e de modificar o conhecimento. Por necessidade humana de sobrevivência, sabemos que as sociedades 12 :: Sociologia da Educação :: foram criadas pelo homem e que apresentam vida real, mas necessitam ser interiorizadas pelos seus participantes. Em outras palavras: para que uma pessoa integre uma sociedade, é preciso uma maneira pela qual ela aprenda os componentes que caracterizam a parte dela nessa comunidade ou socie- dade, tais como: conduta, linguagem, comportamento. Nessa posição, pode- se afirmar, segundo Tedesco (1985, p. 81), “que educação é socialização e, como tal, constitui um fenômeno necessário em toda estrutura social que pretenda perdurar.” Dessa forma, o caráter mais importante deste sistema de socialização surge na comunicação entre as gerações as quais adotam um traço reprodutor. De acordo com Kruppa (1994), o sistema social é todo forma- do dentro de uma ação educativa, pois a vivência entre os homens é a base da educação. Isso ocorre por meio da relação entre os homens, da interação que leva a se educar, formando-se, assim, a sociedade. Segundo Brandão (1981, p. 07 apud Kruppa 1994, p. 21) Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para apren- der-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. As pessoas associam a vida delas na relação com o outro, criando ins- tituições sociais. Essas instituições sociais têm, como objetivo, realizar deter- minadas necessidades e, para isso, elas são estruturadas com valores e re- gras que organizam as interações humanas e o espaço físico, onde ocorrem essas interações, tais como: a família, a igreja, a escola, o Estado, etc. Dentre todas as instituições sociais a que mais sobressai é a linguagem, pois todas as outras dependem diretamente dos padrões da linguagem. É por meio dela que classificamos, formamos conceitos, atribuímos significa- dos, as relações que nos norteiam no ambiente e com o outro. Entre todas as formas existentes de linguagem (oral, escrita, gestual, desenho, som, co- res), a que se mantém até os dias atuais é a oral e, na maioria das vezes, acaba tornando-se a única maneira de conhecermos as demonstrações cul- turais de grupos humanos. É mister lembrarmo-nos de que as instituições sociais não são naturais, 13 :: Sociologia da Educação :: ou mesmo inatas do homem; são, porém, formadas pelos homens para su- prir suas necessidades e interesses. Ademais, só serão modificadas pelos homens por meio da sua ação e interação social. Assim, também, ocorre com a escola, que é um subsistema social. 15 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 2 2 A SOCIOLOGIA DE DURKHEIM, MARX, WEBER E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Neste capítulo, conheceremos as teorias dos seguintes sociólogos con- siderados clássicos dessa ciência: Durkheim, Marx e Weber. Primeiramente, falaremos sobre Durkheim e, em seguida, sobre Marx e Weber.2.1 UMA BREVE HISTÓRIA DA SOCIOLOGIA No século XIX, Augusto Comte (1798-1857) foi o primeiro filósofo a empregar o termo “Sociologia. Augusto Comte (1798-1857) 2.2 EMILE DURKHEIM 16 :: Sociologia da Educação :: Emille Durkheim (1858-1917), por sua vez, tornou mais rigoroso o método científico em Sociologia. Esse autor nasceu em 1858 em Épinal, Fran- ça. Filho de judeus, não seguiu o rabinato, tal como era a tradição da sua família, declarando, mais tarde, ser agnóstico1. Depois da graduação lecio- nou Pedagogia e Ciências Sociais durante 5 anos (de 1887 a 1902). Seus alu- nos, em sua maioria, eram professores do ensino primário. Percebia a edu- cação como um fato social. Em 1902 foi ajudar Ferdinandi Buisson na cadeira de Ciências da Educação na Sorbonne, onde em 1906 sucedeu Buisson. Suas obras mais famosas são: “A Divisão do Trabalho” e “O Suicídio”,(1917) . Veio a falecer em 1917. Para esse sociólogo, há a necessidade de se explicar o fato social pelas suas causas sociais, e não somente por meio da história, de razões psicológi- cas e biológicas. É fato social toda maneira de agir, fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, que é geral, na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter. (LAKATOS, 1996, p. 64). O que caracteriza o fato social são: exterioridade, coercibilidade e ge- neralidade, de modo que a exterioridade está associada à consciência do indivíduo; a coercibilidade é a força exercida sobre o indivíduo; e a generali- dade, por sua vez, é o que torna o indivíduo comum à comunidade ou a sociedade. Segundo Durkheim, em sua teoria, procurou-se comprovar que os fatos sociais são independentes ao que o indivíduo pensa. Todos nós temos a consciência individual, mas as normas de comportamento e os padrões de conduta foram denominados pela consciência coletiva, que seriam as cren- ças, os valores, iguais à maioria das pessoas que formam a comunidade, ou membros de uma mesma sociedade. Em outras palavras, seria o tipo moral da sociedade que está em vigor. Para esse sociólogo francês (1858-1917 apud RODRIGUES, 2007), exis- 1Pode-se dizer que o agnosticismo, como atitude intelectual, tem duas vertentes. No terreno filosófico, consiste em negar qualquer possibilidade de conhecimento fora do terreno da ciência e do pensamento racional. No terreno religioso, consiste não em negar a fé ou as afirmações nela baseadas, mas em negar que essa fé e essas afirmações tenham ou possam ter suporte racional. Em ambos o casos, o pensamento agnóstico se baseia na razão, na racionalidade e no conhecimento científico. No segundo caso, ao não negar a metafísica, a fé e os fenômenos supranaturais, está, racionalmente, deixando aberta a possibilidade de aceitá-los, se e quando explicáveis pela razão. (Dicionário Aulete da Língua Portuguesa, 2013) 17 :: Sociologia da Educação :: tem dois seres indissolúveis, mas distintos no jovem aluno: um denominado individual, que seria o jovem bruto, que é construído pelos estados mentais de cada indivíduo. O crescimento dessa parte do jovem foi considerado até o século XIX a principal atuação da educação. Os professores, por meio da ciência psico- lógica, procuravam construir, nos seus alunos, os valores e a moral. O que Durkheim considerou o outro lado ou outra parte do jovem aluno é um conjunto de ideias relacionadas que mostram, dentro do indivíduo, a socie- dade de que fazem parte. Dessa forma, esse sociólogo julgava que a sociedade seria melhor por meio do processo educativo, baseado na premissa segundo a qual a educa- ção é uma socialização da nova geração para a geração adulta e quanto mais eficaz for o método, maior será o crescimento da comunidade em que a escola está implantada. Essa concepção durkheimiana, conhecida por muitos de funcionalista, segundo a qual se afirma que a consciência individual é construída pela socie- dade, contraria o idealismo que afirma que a sociedade é construída pela consciência humana. Para esse sociólogo, a construção do homem social, adquirida em gran- de parte pela educação, é a associação feita pela sujeito de um conjunto de normas, regras e princípios, tais como: aspectos morais, éticos e religiosos, visto que o homem é produto e produtor da sociedade. Percebemos que essa teoria, atribuiu à educação não só um benefício social, mas também associou, pela primeira vez na história, a cultura social. De acordo com Rodrigues (2007), Émile Durkheim não construiu ne- 18 :: Sociologia da Educação :: nhum método pedagógico, mas a sua teoria ajudou na compreensão do pa- pel social do professor como autoridade em sala de aula, à qual o aluno deveria submeter-se. Ademais, também mostra que a função da Educação é construir um cidadão que integrará o espaço público, mas não o desenvolvimento indivi- dual do estudante. A escola tem como missão estimular e produzir, no estu- dante, estados físicos e morais que são exigidos pela política social no seu todo, incluindo não só aspectos morais, mas também os associados à reli- gião, a valores, a normas, à ação política, ao desenvolvimento político e, até, o industrial. A escola, no seu papel educativo, deve dar importância às causas histó- ricas, para que o estudante possa não só ter consciência da sua origem, mas também compreender tanto a realidade em que está inserido, quanto as situações de que depende. Dessa forma, terá condições para agir. Somente a escola tem condições para transmitir essas informações. Baseado na afirmativa de Durkheim, afirma-se que, somente por meio da educação, vamos socializar-nos, aprender a ser membros da sociedade, saber qual o nosso lugar e agir de acordo com ele. Enfim, precisamos saber o nosso papel social e o que esperar do outro. A grande particularidade sobre o conceito de educação para esse teó- rico: “é concebê-la como elemento integrador da sociedade. A educação deve existir para manter a ordem social”. (MEKSENAS, 2011, p. 45). O dever que é da educação não é o de modificar a sociedade capitalista, mas, sim, manter os valores morais desse grupo social agregando os sujeitos, buscando reestruturar algumas características sociais vistas como nocivas. Percebemos que, pela maneira que encara a educação, Durkheim é totalmente conservador. Para ele, a educação “não existe para mudar e sim para reproduzir.” (op. cit, p.45). 2.3 KARL MARX E A EDUCAÇÃO 19 :: Sociologia da Educação :: Karl Heinrich Marx nasceu na Alemanha em 05 de maio de 1818. Cursou Filosofia, Direto e História em Bonn e Berlim. Tinha como ideolo- gia uma sociedade com distribuição de renda equilibrada. Além de filósofo, era economista, cientista social e era considerado um grande revolucioná- rio socialista. Em consequência de seu radicalismo, Karl Marx foi expulso de muitos países da Europa. Em meados de 1840, como comunista assumido, Marx ataca o sis- tema capitalista, afirmando que o capitalismo era responsável pelo desequilíbrio humano, aumentando as diferenças sociais. Esse revolucio- nário desejava que os trabalhadores se unissem com o objetivo de acabar com o sistema capital, pois, para ele, os capitalistas ficavam mais ricos à base do empobrecimento do proletariado. (RODRIGUES, 2007) Marx percebe a educação como um subsistema econômico no qual o empregado torna-se mais pobre quanto maior a riqueza que ele produz. A educação era definida por ele como sendo a união de métodos de apren- dizagem consciente, que estão relacionados diretamente aos processos de funcionamento que apoiam a ordem social que vigora. Uma vez que a escola mostra influência e propensão, as quais estão direcionadas em conservar e manter a política capitalista, política essa que revela influências que atuam na forma de discordar e promover as pessoas para um ponto de vista crítico da sociedade. KarlMarx morreu na Inglaterra em 1883. Um dos seus seguidores foi Lênin, que, na antiga União Soviética, utilizou das ideias de Marx para afirmar o comunismo. Marx era um revolucionário e escreveu vários li- vros, por exemplo: “Capital” (1867); “Manifesto Comunista” (1848), sem- pre criticando o poder capitalista. Atualmente as ideias marxistas influenciam muitos economistas e historiadores, pois esses concordam que, para entender uma sociedade, primeiro temos que entender sua maneira de produção. 2.4 MAX WEBER E A EDUCAÇÃO 20 :: Sociologia da Educação :: Max Weber nasceu na Alemanha, filho de pais da classe média alta. Uma vez que seu pai era advogado, Max teve um bom estímulo intelectual vindo da sua realidade familiar. Iniciou seus estudos em História, Economia, Filosofia e Direto em 1882 em Heidelberg, vindo a concluí-los em Berlim (Alemanha). Casou-se em 1983 e, em 1894, passou a ser professor de Eco- nomia na universidade de Freiburg, seguindo para Heidelberg em 1896. Por motivos de doenças emocionais, deixou os trabalhos de docência, retornando-os em 1903, mas atuando como coeditor do Arquivo de Ciênci- as Sociais. Morreu em 1920. A sociologia para Weber tem como meta entender o comportamento humano e buscar justificativa de seu início e seu resultado. A conduta social é a trajetória para o entendimento da situação social e a compreensão das intenções. Dessa maneira, o entendimento social deve englobar a análise dos efeitos que o indivíduo busca conseguir. Para este teórico, a ação social é construída em cima de valores inter- nos das pessoas que fazem parte daquela comunidade, reforçando a impor- tância de ser considerada a ação social um tipo de comportamento que dá sentido para o próprio agente. Ao estudar Weber, notamos que ele afirma que a ação de cada indiví- duo é levada por um motivo que é direcionado pela tradição, por necessida- des racionais ou pela emoção. Esse motivo quando se revela na ação real passa a ter um perfil econômico, político, etc. A meta que mostra a ação social permite revelar o seu significado, que é social na proporção em que cada pessoa age considerando a resposta e ou ação do outro. Os aconteci- mentos sociais não envolvem a quantidade, mas a qualidade, a interpretação, a subjetividade e a compreensão histórica. (COSTA, 1996). Para Weber, há dois tipos de compreensão: a primeira é chamada de “real”, fundamentada no comportamento visível, na vontade direta ou indi- retamente mostrada; a segunda é a “explanatória”, a qual enfoca mais nos motivos, busca o diagnóstico do sentido ou mesmo das vontades que induz o comportamento do indivíduo. A ação social pode ser da mesma forma que toda ação: “racional”, buscando os fins; “racional buscando os valores”; “afetiva e tradicional”. Ademais, o seu modelo ideal de organização é o bu- rocrático. (TRAGTENBERG apud BERNARDES, 2003, p. 165). Este sociólogo define autoridade por meio dos termos “poder” e “le- gitimidade”, dividindo-a em três tipos ideais: a tradicional, que é admissão 21 :: Sociologia da Educação :: pelos costumes; a carismática, que traz a admissão pela influência; e, por último, a racional, legal ou burocrática, que é a admissão das pessoas que se encontram envolvidas no quadro administrativo, das leis ou normas. Ade- mais, divide em três as dimensões da sociedade: fator econômico que se refere à forma, um tipo de classe; a ordem social, a qual forma o status; e, por fim, a ordem política, que representa o poder. Socialização para Weber é um modo pelo qual o indivíduo aprende e internaliza os rudimentos socioculturais do seu ambiente, integrando-os com a sua personalidade. É um modo em que a pessoa internaliza os padrões sociais da ação, do pensar e do sentir. Além disso, busca adaptar os costu- mes, valores, crenças, dentro das necessidades e expectativas sociais, com bases na etnias, cultura, religião, política, economia, etc., que inconsciente- mente ou conscientemente induz o indivíduo. (LAKATOS, 1998). 2.4.1 Max Weber e os termos Vamos, agora, definir alguns termos dessa teoria, diferenciando-os, com bases em Max Weber: Ø Comportamento e conduta: segundo Weber, o com- portamento é a parte congênita que forma a personalidade, que inclui o caráter, o temperamento, etc.; já conduta é a maneira que a pessoa se mostra para um determinado grupo ou cultura. Ela não é inata, mas aprendida pelas pessoas que acompanham as normas da socialização. Ø Indivíduo e pessoa: indivíduos são todos aqueles que pertencem e fazem parte de uma sociedade em termos quanti- tativos, sem saber de sua forma de vida. Pessoas são seres que mantém, de maneira qualitativa, sua identidade, sua particulari- dade, que compõem um grupo social. Ø Preconceito e a discriminação: o preconceito, como o mesmo nome diz, é um conceito formado antes do conheci- mento total de um determinado tema, assunto, pessoa ou mes- mo objeto. É o julgar ou avaliar sem ter noção precisa do seu conteúdo. A discriminação, no entanto, é marginalizar, isolar por meio de atitudes, determinado objeto, pessoa, tal como: racis- mo, etnia e assédio. Ø Contato social e interação social: o contato social é 22 :: Sociologia da Educação :: notar o outro, perceber o outro. Os contatos podem ser: pri- mários e secundários – os primários são objetivos, diretos, não formais, árduos, partilhados, tornando a vida social mais intensa, mais árdua e necessária para vida em sociedade. Os contatos sociais secundários não são diretos, incompletos, sem profundi- dade, não necessitam da presença do outro. O controle é defici- ente, comprometedor, levando ao aumento de crimes, desajustes familiares, delinquências. A interação social, por sua vez, é defini- da como predomínio de uma pessoa sobre a outra. São ações coletivas exercidas por várias pessoas com metas comuns. As consequências de suas ações são físicas, biológicas e sociais. Es- sas ações englobam os anseios dos grupos sociais e desenvol- vem-se por meio da comunicação, envolvendo pessoas e obje- tos externos, além de ser dependente do controle social. Tanto a interação social quanto o contato social formam situações in- dispensáveis para a vida social humana. O controle social é a forma como um grupo ou sociedade mantém as mesmas normas dos componentes de seu grupo, para garantir os mesmos comportamentos e a mesma organização. Inicia-se com a educação social, que é contínua e se mantém por meio da pressão social, que trabalha em prol de reforço – prêmios para aqueles que obedecem e castigos para os desobedientes, tudo para manter a disciplina e a ordem social. Os papeis sociais devem ser cumpridos totalmente. São formas de padronizar e preve- nir comportamentos adequados, para não estimularem a desobediência.As instituições precisam ter função e estrutura com um caráter, como: a finali- dade – realizar as necessidades sociais; o conteúdo – que precisa ser relativa- mente permanente, tais como os papeis sociais, os padrões morais. Além da finalidade e do conteúdo, as instituições devem ser estruturadas e unificadas: estruturadas no sentido de ser unida entre todos no padrão de comporta- mento; e unificada no sentido de ter os mesmos valores e o mesmo código de conduta. Instituição é uma estrutura relativamente permanente de padrões, papeis e relações que os indivíduos realizam segundo determinadas formas sancionadas e unificadas, com o objetivo de satisfazer necessidades sociais básicas (FICHTER, 1973, p. 297). Papeis sociais são formas de agir que definem os comportamentos das 23 :: Sociologia da Educação :: pessoas nas práticas de suas funções. É a atuação esperada dos que ocupam algum tipo de status. Status é definido como o lugar ocupado pelo sujeito em seu grupo social, envolvendo direitos, deveres, prestígio, renome e consideração, de acordo com o valor dado a cada posição. Além disso, o status é adquirido ou por meiodas condições familiares ou por meio da qualidade e habilidade no cumprimento do seu papel social. Weber distinguiu os termos: seleção, seleção biológica e seleção soci- al: entende-se por seleção a batalha pela sobrevivência; já as doenças prove- nientes da genética ou mesmo a sobrevivência desencadeada pela herança genética é chamada de seleção biológica; por fim, as oportunidades que a pessoa têm na vida é qualificado como seleção social. Assim, a educação torna-se um componente importante que ajuda no sucesso do indivíduo na sua seleção social. De acordo com esse sociólogo, Weber (1996), essa relação entre se- leção social e educação deve-se ao fato de: Ø Quando os membros da sociedade consentem a acei- tação do sujeito, por causa das suas qualidades específicas, deno- mina-se seleção social. No entanto, essa seleção não é só produ- to da educação, mas ocorre também nas religiões, política. Ø Quanto menor o número de membros de um grupo com vantagens econômicas, maior será seu valor e respeito pe- rante seu grupo social. Weber não construiu uma teoria e nem escreveu um capítulo sobre Educação. De fato, ele fez somente algumas observações e reflexões que são encontradas na Sociologia Política, mostrando que vários tipos de domi- nação estão relacionados com os tipos de Educação e com a Sociologia da Religião, quando a sua teoria dá ênfase à mudança social. Entretant, na teoria de Weber, encontramos não só várias referências ao trabalho do docente, mas também escritos sobre a educação racional para a burocracia, a educação e religião, o ensino jurídico, a educação eco- nômica, a política e o trabalho. 24 :: Sociologia da Educação :: A teoria de Weber questiona a função da Educação dentro de uma sociedade capitalista, ao afirmar, de acordo com Machado (1989), que os empregados de empresa que raciocinam com coerência têm como objetivo o maior lucro e apresentam pensamento lógico matemático ao ter como referência custos e benefícios. A única forma da sociedade capitalista produ- zir funcionários assim é modificando a educação em uma educação raciona- lizada, onde o indivíduo seja submisso e obediente ao direito racional. Dessa forma, Weber percebe a Sociologia da educação com dois obje- tivos pedagógicos: o primeiro refere-se ao que o próprio Weber qualificou como a “pedagogia do cultivo”, isto é, o de posicionar o estudante em con- dições para uma conduta de vida; o segundo está relacionado à difusão do conhecimento especializado ou, antes, denominado como “a pedagogia do treinamento”. O primeiro objetivo da “pedagogia do cultivo” tem como missão ofe- recer condições para que o estudante se desenvolva culturalmente para o nível social em que está inserido, levando-o à reflexão para possíveis mudan- ças não só de comportamento interior, mas também para comportamento social. Enfim, é educar o homem instruído. Este tipo de pedagogia foi muito utilizado na China para selecionar fun- cionários, os quais eram avaliados pela riqueza de vocabulário, pelo conheci- mento literário. Além disso, seu modo de pensar era de um indivíduo bem instruído. Essas provas não avaliavam as habilidades específicas, mas o dom excepcional que o candidato apresentava. O enfoque maior da educação chinesa era com a formação culta do sujeito. Torna-se necessário, agora, expor como se processava essa educa- ção nas escolas chinesas. 25 :: Sociologia da Educação :: Nos primeiros anos de escolaridade, eram construídas avaliações de estilo, de redação e de conhecimento profundo de autores considerados clássicos. A literatura na educação era composta de hinos, contos épicos, rituais e cerimônias. Após os sete anos, as crianças eram separadas por gê- neros. A entrega do “livro da escola” ocorria sob um conjunto de formalida- des, de regras e rituais para o autocontrole, além de repeito, piedade e medo para com os pais e adultos. Já no ensino superior o estudante deveria passar por um vestibular para sua entrada na faculdade. Era uma formação literária, durante a qual se aprendiam a música, as artes da dança, as artes das armas e os rituais. A música tinha um significado mágico: o de manter os “espíritos encadeados”. Era dada maior importância à escrita chinesa do que à oratória, por motivos linguísticos, por exemplo: a língua monossilábica chinesa requer uma percepção muito maior do som e do tom. Então, tudo que era intelectual- mente falado era considerado inferior, comparado com a escrita. Os alunos dos primeiros anos de escolaridade, antes mesmo de estarem alfabetizados ou, pelo menos, dominando os significados dos símbolos, tinham que pintar mais ou menos dois mil caracteres. Comparada com a educação ocidental, a chinesa era laica, a aprendiza- gem enfocava mais os cerimoniais e os rituais do que os conhecimentos científico e filosófico. De fato, os chineses desconheciam a filosofia ocidental. Mesmo ao cálculo matemático não era dada a sua devida importância. Os comerciantes tinham acesso a esse conhecimento por meio da experiência no trabalho. O segundo objetivo pedagógico de Weber ficou conhecido como a “pedagogia do treinamento” com a finalidade de estimular as habilidades do indivíduo. No entanto, influências burocráticas, associações capitalistas, empresas privadas, privilégio da razão como fonte de conhecimento e domí- nio político levaram a educação a apresentar um novo objetivo que é o do conhecimento especializado que enfoca somente o crescimento social, status, riqueza material e não a liberdade do homem. Esta direção do conhecimento está associada ao capitalismo que é a formação de especialistas. Para Weber (1971), essa educação ajuda na cons- trução de uma camada social vantajosa para os ocupantes de cargos políticos na burocracia. Enfim, os princípios que nortearam esta teoria foram a pátria, a liber- 26 :: Sociologia da Educação :: dade, a religião, a política, a solidariedade e a nação. Entretanto, também o próprio Weber chamou a atenção para situações em que podem ocorrer divergências entre esses princípios, principalmente no que se refere ao com- prometimento da liberdade ou mesmo à falta desta nos estudantes e profes- sores em sala de aula, já que, para Weber, os valores nacionalistas e a educa- ção política estão acima dos valores de liberdade. Portanto, até o momento, demos enfoques teóricos com implicações educacionais a partir dos seguintes sociólogos clássicos: Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Agora, vamos estudar a educação para a emancipa- ção e a Escola de Frankfurt, com bases em sociólogos atuais. 27 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 3 3 EDUCAÇÃO PARA A EMANCIPAÇÃO E A ESCOLA DE FRANKFURT Para entendermos melhor, torna-se necessário socorrermos ao filó- sofo Theodor Ludwig Adorno, o qual estudou filosofia, musicologia, psicolo- gia e sociologia e é um dos representantes da escola de Frankfurt. Essa escola nasceu na cidade de Frankfurt – Alemanha – em 1924 e tinha como objetivo observar detalhadamente os aspectos sociais da indus- trialização moderna. Recebeu o nome de Instituto de Pesquisa Social e apre- sentava ideias marxistas. No entanto, posteriormente, posicionou-se com críticas ao marxismo, não considerando, por exemplo, as ideias da “infraestrutura econômica e as lutas de classes”. No fim da segunda guerra mundial, Adorno retorna para o Instituto de Pesquisa social como codiretor e, em 1955, torna-se diretor deste Instituto. 4 Escola Frankfurt: fundada em 1923 sob o nome de “Instituto para Pesquisa Social” 28 :: Sociologia da Educação :: Adorno organiza a teoria crítica, a qual tem como objetivo não apenas de aumentar o saber, mas também trazer emancipação ao homem, tal como desenvolver a criatividade e o talento Essa teoria apresenta-se em oposição à teoria tradicional que se mostra partida, quebrada da ciência especializada. Além disso, a teoria crítica reconhecea ciência associada a uma práxis social definida. A realidade humana contradiz-se, e o raciocínio instrumental cres- ce as distorções sociais. O Movimento Iluminista abrangentemente pensava que a superioridade do homem residia em seu saber, o qual seria o único caminho de sua emancipação. Entretanto, o tipo de racionalidade privilegiado pelo desenvolvimento da ciência a par- tir do século XVIII foi quase que exclusivamente o modelo cartesiano hipotético dedutivo. Assim, o caminho histórico per- corrido pelo sujeito racional, ao contrário da pretendida liberta- ção da humanidade das correntes do obscurantismo, acabaram por reconduzir a tantas outras formas de irracionalidade. (OLI- VEIRA, 2005, p. 06). De acordo com Adorno (1995), a ciência justifica-se na fundamenta- ção da verdade como resultado da ação científica. Uma vez respondida as indagações filosóficas, encontra-se a verdade científica. Assim, a ciência sepa- ra-se da filosofia, a qual foi a base das suas indagações e reflexões. Ao mesmo tempo em que o uso da razão leva a uma sociedade eman- cipada, também cria o impedimento do uso da emancipação, quer dizer leva ao impedimento da autonomia. Essa crítica leva a um outro questionamento sobre o papel educativo e como esse se processa, além de como ocorre, no aspecto educativo, o desenrolar do saber instrumental e fragmentado. Por- que a teoria crítica, além de repensar as bases da razão em crise e mostrar os mecanismos de domínio da indústria cultural, também submete a volta da educação para a emancipação. Adorno (1995) defende em seu texto “Edu- cação e Emancipação” uma educação baseada na utilização de um raciocínio objetivo, ou razão objetiva, na independência, na autonomia. Se a “razão pura que foi defendida pelo idealismo alemão” (Adorno, 1995, p. 118), não pode hoje ser aplicada, não podemos negar que a construção de um pensa- mento preciso, rigoroso e independente seja o alicerce para o desenvolvi- mento de um sujeito emancipado. Trata-se aqui de defender não uma razão no sentido universal, mas uma racionalidade ética, na qual a educação se fundamenta para a emancipa- ção do indivíduo. A educação para a emancipação deve ser crítica. “A educa- 29 :: Sociologia da Educação :: ção tem sentido unicamente como educação dirigida a uma autorreflexão crítica” (ADORNO, 1995, p. 121). Seguindo o pensamento freudiano, Adorno (1995) sustenta a ideia de que a tendência da civilização é desenvolver a barbárie. Uma civilização de- sumana leva ao aumento de genocídios e maldades entre as pessoas. Dessa forma, a educação deve compreender essa realidade moderna e ter a res- ponsabilidade em sua ação, pois é construtora da consciência das pessoas. Essa barbárie é explicada por esse filósofo, ao afirmar que o sistema mundial é regulado pela heteronomia, quer dizer, o indivíduo é submisso à lei criada pelo outro e não pela autonomia. Isso pode gerar uma rebelião da pessoa contra a própria sociedade. Tal rebelião é o que constitui a barbárie que é a realidade que vivemos atualmente, pois o indivíduo vive aprisionado dentro de um sistema de redes geradoras de violência. Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, es- tando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização- e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a forma- ção nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impul- so de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o peri- go de que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma ten- dência imanente que a caracteriza. Considero tão urgente impe- dir isto que eu reordenaria todos os outros objetivos educacio- nais por esta prioridade. (ADORNO, 1995, p. 155). A civilização da heteronomia é compreendida como “um tornar-se de- pendente de mandamentos, de normas que não são assumidas pela razão própria do indivíduo” (ADORNO, 1995, p. 124). Partindo do princípio de instigar, afim de se efetivar uma educação para a libertação, dentro de uma realidade onde predominam indivíduos menores de vinte e um anos e tendo consciência que a própria sociedade do esclarecimento científico não levou os seus cidadãos para a sua independência, Adorno reforça a ideia de se repensar a educação de maneira crítica e racional. A indústria cultural mostra bem como o sistema social controla os indi- 30 :: Sociologia da Educação :: víduos, transformando-os em submissos a várias leis e regras, sem que esses possam direcionar sua própria vida de maneira racional e independente. ...a organização social em que vivemos continua sendo heterônoma, isto é, nenhuma pessoa pode existir na sociedade atual realmente conforme SUS próprias determinações; enquanto isto ocorre, a sociedade forma as pessoas mediante inúmeros canais e instâncias mediadoras, de um modo tal que tudo absor- vem e aceitam nos termos desta configuração heterônoma que se desviou de si mesma em sua consciência. É claro que isto che- ga até às instituições, até à discussão acerca da educação política e outras questões semelhantes. O problema propriamente dito da emancipação hoje é se e como a gente – e que é “a gente”, eis uma grande questão a mais- pode enfrentá-lo. (ADORNO, 1995, p. 181). De acordo com esse teórico, há dois elementos dentro da prática educativa: um denominado de adaptação e outro, de resistência. Organizar o indivíduo para que ele se adapte à realidade em que vive e, junto a isso, manter a sua individualidade, não é tão difícil, pois o sujeito já vem ao mundo praticamente adaptado a este. A escola quase que não tem papel fundamen- tal nessa adaptação do indivíduo na sociedade. Assim, a prática educativa deve enfocar mais a dimensão de resistência. A educação voltada para a emancipação do sujeito leva a uma definição de inteligência maior que o conhecimento formal e científico. A educação deve ajudar o indivíduo para os desafios com a prática real e não para a prática alienada de mundo, pois o indivíduo não conseguiria orientar-se nesse tipo de realidade. Assim, Adorno posiciona-se em prol a uma definição de racionalidade e de consciência que supera a sociedade cientificamente fragmentada: Mas aquilo que caracteriza propriamente a consciência é o pensar em relação à realidade, ao conteúdo- a relação entre as formas e estruturas de pensamento do sujeito e aquilo que este não é. Este sentido mais profundo de consciência ou faculdade de pensar não é apenas o desenvolvimento lógico formal, mas o ato de pensar é o mesmo que fazer experiências intelectuais. Nesta medida e nos termos que procuramos expor, a educação para a experiência é idêntica à educação para a emancipação. (ADORNO, 1995, p. 151). 31 :: Sociologia da Educação :: Percebemos que, através desta charge, a escola depende do que a própria sociedade deposita nela. Essa nova maneira de compreender a relação do indivíduo com a rea- lidade em um indivíduo crítico que não é submisso a uma sociedade domi- nante servirá de estímulo para uma nova ideia de educação libertadora que percebe o sujeito como agente transformador da sociedade, reformulando sua maneira de pensar e interpretar o mundo. 33 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 4 4 VISÕES DE BOURDIEU E GRAMSCI NO PROCESSO EDUCACIONAL Neste capítulo, vamos entender a influência do sistema sobre as práti- cas educacionais, sob a visão dos seguintes teóricos: Bourdieu e Gramsci. Neste capítulo, vamos iniciar com o ponto de vista do sociólogo fran- cês Pierre Bourdieu, o qual, baseado na teoria de Durkheim, nos mostra o peso do sistema sobre as práticas educacionais. Na segunda parte deste capí- tulo, vamos comentar sobre o comunista e intelectual italiano AntônioGramsci, que, por meio do marxismo, leva-nos a repensar as formas de luta pelo poder na sociedade atual e o quanto que a educação está comprometi- da com essa luta. Lembrando que a teoria durkheimiana buscou unir as ciências huma- nas em volta da Sociologia, o sociólogo Bourdieu faz uma síntese teórica entre o perfil durkhrimiano e o estruturalismo. Esse estruturalismo está liga- 34 :: Sociologia da Educação :: do à sociologia de Durkheim na mesma proporção em que busca mostrar o valor das estruturas sociais que estão por trás das atitudes do indivíduo. (RODRIGUES, 2007). De acordo com Bourdieu (1960 apud Rdrigues 2007, p. 74), os sujeitos são usados como “marionetes das estruturas dominantes”, o que quer dizer que, para esse sociólogo, a teoria durkheimiana e o estruturalismo mostram como os sujeitos de uma dada sociedade seguem as ordens predetermina- das pela estrutura social em vigor. Mesmo os agentes sociais que acreditam estar agindo com autonomia social, na realidade, estão sendo coagidos a agir e, na maioria das vezes, não têm consciência disso. O que Bourdieu denomina de ação é, na realidade, sistema pelo qual as estruturas reproduzem-se. Assim, o sujeito fica submisso às ordens da soci- edade e obedece o que as estruturas ordenam. Ele acredita no discurso dominante, que o leva a se iludir que sua ação é construída em cima de sua própria vontade. (RODRIGUES, 2007). No livro “Os herdeiros”, escrito por Bourdieu e Jean-Claude Passeron em 1964, os autores criticam o discurso autoritário que visa a uma escola igual para todos, para se tornar possível a concretização das potencialidades do sujeito. Esses autores deixam claro que o sistema escolar reafirma em seus estudantes a “reprodução das relações sociais e de poder vigentes”. A escola utiliza de “critérios sociais” de seleção dos jovens para conquistar de- terminados “postos na vida” (RODRIGUES, 2007, p. 73). Ademais, esses autores mostram a impossibilidade de acabar com as estruturas de reprodução, ao afirmarem que a doutrina pedagógica ajuda a esconder o poder reprodutor do sistema que se encontra nas mãos dos educadores. O próprio sistema de ensino seleciona os estudantes, sem que estes percebam e, dessa forma, reproduzam as relações vigentes. Mesmo a revolução estudantil leva a reforçar o sistema, pois a revolução ou a revolta estudantil leva a uma reflexão do sistema e, consequentemente, ao um apren- dizado com o intuito de melhor ação no sentido de reproduzir as relações. (op.cit). Bourdieu e Passeron, com bases nas teorias de Durkheim, Marx e Weber, afirmam que a ação pedagógica é uma “violência simbólica”, porque determina, por meio de um poder arbitrário, uma concepção de cultura das classes dominantes e não dominantes, que, pelo sistema de ensino, é impos- ta para toda sociedade. (RODRIGUES, 2007).Quer dizer que a escola traba- lha em cima da cultura da classe dominante 35 :: Sociologia da Educação :: Essa imposição para fixar a cultura de dominação de determinados gru- pos e classes sobre os outros grupos dependem do que Bourdieu e Passeron (1970, apud RODRIGUES, 2007, p. 74) atribuíram ao “trabalho pedagógico”. Quer dizer, um discurso que leva o aluno a internalizar as informações im- postas pela cultura e repassá-las para gerações futuras. O nível sócio econômico e cultural do aluno ao ingressar na escola é determinante para o seu sucesso escolar e para o tipo de escola que irá estudar – de melhor ou má qualidade –, não ocorrendo somente nos anos iniciais de estudo, reproduzindo-se essas premissas no ensino médio e supe- rior. Dessa forma, estamos condenados a reproduzir as estruturas indefini- damente, pois alunos oriundos de famílias pobres ingressarão em escolas inseridas nas comunidades de baixa renda e filhos da burguesia estudarão em escolas tidas como de boa qualidade. No entanto, uma visão diferente dos autores citados apresentam o sociólogo Gramsci, com o pensamento baseado na teoria de Marx. 4.1 GRAMSCI E A EDUCAÇÃO Antonio Gramsci nasceu na Itália em 1891 e faleceu em 1937. Era co- munista, não escreveu nenhum livro, mas, durante o tempo que ficou preso, sob a guarda do Estado fascista italiano, na época de Mussolini, escreveu vários cadernos conhecidos, tal como “Caderno de cárcere”. Esses escritos representam uma fonte de reflexão para as ciências sociais, filosóficas e po- líticas. Em seus escritos, Gramsci faz uma distinção política entre os países do Oriente e dos países do Ocidente: a) os países que formam o Oriente são aqueles em que o Estado e a política mantêm o poder, e a sociedade civil não é organizada e nem tem força para lutar contra o poder. A única maneira é 36 :: Sociologia da Educação :: fazer uma revolução, indo contra o Estado, dando o poder aos operários, como fez Lênin na Revolução Russa em 1917; b) em relação ao Ocidente, Gramsci escreve que se tratam de países formados, em sua maioria, por uma sociedade civil estruturada, organizada e apresentam condições de, jun- to ao Estado, administrar a vida social, pois é regida por uma política capita- lista bem adiantada, com um mercado interno intenso. Assim, a força não está concentrada só no Estado, mas atenuada entre o Estado e a sociedade civil. Em outras palavras, Gramsci quer dizer que a maioria dos países do Ocidente vive do capitalismo, e, dessa forma, o poder não está centrado somente no Estado, mas dividido entre as empresas, clubes, mercado, cultu- ra, partidos políticos e visão de mundo entre as pessoas. Para conseguir o poder, tanto as classes quanto os grupos políticos não devem desencadear uma revolução contra o Estado; torna-se, porém, ne- cessária uma revolução no dia a dia. É um trabalho constante sobre a política e a sociedade. A política tem que ser feita na sociedade, deve referir-se a todos os espaços de poder disponíveis. A luta política não deve limitar-se apenas a uma luta de pura força física ou de puro poder econômico. O Estado é força, coerção, dominação, mas a soci- edade é o espaço do consenso, é o lugar onde os homens conflitam seus interesses através da persuasão. Não basta força portanto. É preciso conquistar a consciência das pessoas. Quem quiser disputar o poder nessa sociedade ocidental, moderna, complexa, tem que, no dizer de Gramsci, “ganhar a batalha das ideias”. (RODRIGUES, 2007, p. 76). Dessa forma, entende-se que não basta acabar com a diferença eco- nômica de uma classe sobre a outra, nem com a apoderação particular dos meios de criar riquezas. É necessário brigar contra a educação elitizada do saber e da cultura. Para Gramsci, o meio termo seria o equilíbrio: acabar com a cisão entre os intelectuais e os menos favorecidos, pois são os intelec- tuais que ocupam os cargos de chefia do Estado e, assim, usando do poder de administrar o Estado, acabam controlando a cultura e ditando as regras sociais. Entretanto, para ganhar a supremacia política e idealizada ou, utilizan- do o termo que o próprio Gramsci elaborou, a “hegemonia e bloco hegemônico” para explicar esta situação, torna-se necessário ganhar essa 37 :: Sociologia da Educação :: luta de ideias. É claro que, entre os intelectuais e o proletariado, os intelectu- ais apresentam maior chance de ganhar essa luta, pois eles sabem ordenar a cultura, atribuir o papel que o homem dá à realidade em que vive, perceber a cisão de poder e riqueza da sua sociedade e também, determinar se os homens vão julgar como justa ou injusta esta situação. (GRAMSCI, 1995).Quer dizer que os intelectuais apresentam mais argumentos para convencer, apre- sentam poder maior de liderança, conhecimentos e domínio da riqueza. Entrementes, sempre há aqueles que querem que continue a hegemonia atual e outra parcela da sociedade que quer mudanças ou uma nova hegemonia. Assim, formam blocos que apresentam os mesmos ideais, fazem alianças com outros blocos, enfim, é uma batalha pela hegemoniae cada bloco conta com seus próprios intelectuais que lutam para ordenar a cultura conforme seus ideais. Ao nos referirmos aos intelectuais, não podemos esquecer que estes vieram da escola e que foram construídos nela o papel de organizar a cultu- ra. É a escola que passa essas informações sobre cultura e sociedade. Gramsci, ao observar as escolas italianas da sua época, percebe que, na “sociedade moderna, a ciência e a vida cotidiana” estão emboladas, isto é, as atividades práticas estão misturadas com as atividades especializadas, ou melhor, as ati- vidades práticas estão misturadas com as teóricas. Ademais, Gramsci diz: ...toda atividade prática tende a criar uma escola para os próprios dirigentes e especialistas e, consequentemente, tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais eleva- do, que ensinam nestas escolas. Isso gera um sistema educacio- nal híbrido. De um lado um tipo de escola humanista, que dá uma formação clássica, destinada a desenvolver em cada indiví- duo uma cultura geral, destinada a dar a cada um o poder funda- mental de pensar e de saber se orientar na vida. De outro lado surgiram as diversas escolas especializadas, voltadas para a for- mação específica dos diferentes ramos profissionais, ou basea- das na necessidade de operacionalizar os conteúdos científicos. (RODRIGUES, 2007, p. 79). O importante aqui é notarmos essa diferença em relação à divisão de classe econômica e social: a escola direcionada para desenvolver em cada indivíduo uma cultura geral é uma escola para filhos das classes dominantes. Gramsci (1995) percebe que, além do reforço da desigualdade social e do elitismo, existe um avanço desorganizado da escola para dar conta das 38 :: Sociologia da Educação :: novas tecnologias, faltando, pois, um planejamento político educacional. Ele tinha uma visão de como a nova escola tinha que atuar: para ele, a escola deveria ser bem estruturada, igual para todos, com o ensino fundamental e médio de características formativas, balanceando, de maneiras e pesos iguais, o desenvolvimento do potencial do trabalho manual e o desenvolvimento potencial do trabalho intelectual. Dessa maneira, percebemos que Gramsci se preocupava em ter uma escola que não fosse direcionada para a classe dominante, mas que fosse voltada para o equilíbrio de forma igual para todos. 39 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 5 5 MANNHEIM E A EDUCAÇÃO Karl Mannheim nasceu na Hungria em 1893, foi filósofo e sociólogo e faleceu em 1947. Ficou conhecido como o sociólogo do conhecimento. Para ele, a sociologia são teorias que estão direcionadas para professores e estu- dantes com a função de fazer-lhes entender a posição da educação moder- na. A função da teoria sociológica é a de compreender o que as pessoas pensam sobre a sociedade e não tentar explicá-la. Mannheim era a favor de uma sociedade totalmente democrática, voltada ao bem estar social, embasada em um projeto racional e com a ideologia de se ter uma sociedade governa- da por cientistas. Além da sociologia do conhecimento, outra colaboração desse soció- logo foram os seus estudos que ocorreram durante o seu exílio na Inglater- ra, onde esse húngaro pesquisou o comportamento dos jovens na época do nazismo, na Segunda Guerra Mundial. Procurando buscar alternativas para ultrapassar a política autoritária, Mannheim destaca uma compreensão mais ampla da escola e uma atuação política que leve a mudanças desses jovens 40 :: Sociologia da Educação :: estudantes a ter permissão a uma educação e instrução políticas que modifi- quem esses jovens para agentes promotores da transformação social, o que é importante para o reforçamento de sociedades democráticas. Ao discutir e debater o valor da juventude na sociedade e a função que a mesma deve ou deveria desencadear, Mannheim mostra a importância de entendermos o jovem, considerando o seu o passado histórico, político e social, no qual faz parte sua origem e no qual está inserido. Notamos a asso- ciação do jovem e a sociedade em termos de reciprocidade. (MANNHEIM, 1972). Pela atuação da educação, percebemos a sociedade em um processo de conscientização de maneira progressiva. É em consequência dessa ma- neira de conscientização que percebemos as transformações sociais pro- postas por esse sociólogo, de maneira que possamos compreender a rela- ção entre cultura, educação, conscientização e transformação social. A disposição na qual esses elementos se dispõem na teoria de Mannheim são: SOCIEDADE →→→→→ CULTURA →→→→→ EDUCAÇÃO →→→→→ CONSCIENTIZAÇÃO →→→→→ MUDANÇA SOCIAL Assim, percebemos que os indivíduos constroem a cultura. Os próxi- mos que vierem após estes tornam-se produto dessa cultura e acabam por transmiti-la para as próximas gerações em um método denominado educa- ção. O processo educativo gera a conscientização da sociedade ou comu- 41 :: Sociologia da Educação :: nidade e, consequentemente, irá promover o progresso técnico que levou ao processo de mudança social. Quando aplicamos a teoria de Mannheim ao processo educativo, esse processo passa a ser denominado “Teoria da Escola Conservadora”, pois essa teoria irá repassar, ativamente, as tradições oriundas das gerações pre- cedentes. Esse teórico percebia o homem não só como ser social, mas também como um ser biológico e psicológico, induzido por estímulos do ambiente que o levava a se tornar condicionado a esses, a caminhar para uma compre- ensão cada vez maior dos seus impulsos e para o controle social. A forma pelo qual aprendemos pode ser projetada. O que deve ser aprendido não diz respeito apenas a assuntos psicológicos ou sociológicos, mas a diferença está em como aprendem os homens e, até mesmo, o que devem aprender. A pergunta que Karl Mannheim faz é até que ponto as pessoas percebem esta coerência? Essa coerência está não só na convivên- cia de instituições, como a família, o governo, a autoridade, a educação, mas também no monitoramento e no saber da doutrina, no entendimento do processo mental e emocional De acordo com este sociólogo, mesmo que o capitalismo tenha au- mentado as desigualdades sociais, os anseios dos jovens de nível socioeconômico inferior em se aproximarem socialmente da classe elitizada aumentou e trouxeram, ao processo educacional, subsídios culturais das di- versas classes sociais e a intercomunicação entre elas. (RODRIGUES, 2007). Mannheim notou que a ciência sociológica começou a ter cada vez mais valor na modernidade, para se entender a educação. Antes da política capitalista, o processo educacional consistia basicamente em apoiar o jovem a adaptar-se à ordem social já estabelecida pela tradição. Esse processo, ele percebeu com a ajuda da psicanálise, que era só de assimilação “inconscien- te”, pelo estudante, do referencial da ordem vigente. Desencadeada pela solidez da sociedade industrial, a tradição foi sendo trocada pela racionalização da vida. Assim, os conteúdos educacionais de- vem ser mediados em um processo “consciente”, em que o estudante se aperceba do ambiente social em que está inserido e das transformações pe- las quais atravessa. Para esse sociólogo, o processo educacional, seus objetivos e anseios 42 :: Sociologia da Educação :: devem ser criados com bases no contexto social, pois a Sociologia serve como base para a Educação: Queremos compreender nosso tempo, as dificuldades desta Era e como a educação sadia pode contribuir para a regenera- ção da sociedade e do homem. (MANNHEIM, apud RODRIGUES, 2007, p. 82). Muitos docentes sabem da angústia que há entre a quantidade de infor- mações, sua relação mútua com o método e os objetivos educacionais, por exemplo: ensinar a criança um aglomerado de ideias e desejar que elas as organize com exatidão, buscando mostrar-lhes quais os meios e os fins ob- tidos. Para ele, este sociólogo o real projeto dependeda coordenação das instituições educacionais e apreciações psicológicas, já que ele entendia a educação não só como um meio de influenciar nas formas de viver e pensar, mas também como forma de expressar os valores institucionais, filosóficos, sociais, enfim tudo que envolvia a nação (MANNHEIM, 1972). Esse húngaro dedicava muita atenção por estudar a personalidade do sujeito e afirmava que os homens são livres, limitados ou mesmo condicio- nados no saber. ... a individualidade, o self, não deve ser comparada apenas em termos filosóficos, senão também como aspecto da psicolo- gia do desenvolvimento, de acordo com a qual a mais alta apren- dizagem, a experiência pessoal, a consciência, envolvem de uma elaboração dos processos mais simples de condicionamento in- fantil e da interação que se verifica entre um organismo e seu físico e social. (MANNHEIM, 1972, p. 15). Para o autor, atrás do método, encontram-se reflexões sobre: o que pode aprender o ser humano? Até que ponto pode ser moldada a natureza humana por influências educacionais? Quais são as limitações da contribuição do professor? Que significação tem a atmosfera educacional? Nesses questionamentos, Mannheim relaciona essas reflexões à práti- ca e confirma-as com uma outra reflexão: para que serve a educação? Ade- mais, acrescenta: ...É nosso propósito educar personalidades independentes 43 :: Sociologia da Educação :: sem dar atenção particular à situação social em que se encon- tram? Ou talvez o nosso propósito seja educar para o ajusta- mento, que algumas pessoas podem considerar como sadia a interligação entre indivíduos adaptáveis, que se desenvolvem, em uma sociedade mutável, que também se desenvolve... (MANNHEIM, 1972, p. 31). Por isso, precisamos dar atenção à Sociologia ao estudarmos a Educa- ção, porque a Sociologia configura assunto no qual podem-se consistir aná- lises psicológicas e filosóficas. Nessa mesma obra, o autor cria uma diferença entre quatro termos e associa-os à educação: treinamento, instrução, ensino e educação: O treinamento, segundo esse sociólogo, está ligado a debates sobre educação, como danoso, e tem seu conceito como pejorativo, porque está associado às trapaças do ofício, à ação de submissão e a um entendimento limitado dos motivos de qualquer atividade. O treinamento reforça a sub- missão do homem, o ser educado por outro, o aprender dentro de um alicerce de um plano conhecido. Para que este termo tenha sentido, é ne- cessário repetição, finalidade e aperfeiçoamento. O segundo termo é instrução, que para Mannheim (1972) significa a emissão de saberes, ao que se apregoa e não ao docente nem ao estudante. Esse termo é causa de desordem nos debates educacionais, por não ser classificado como material atual, mas só cooperação do instrutor. Utilizando as próprias palavras de Mannheim “...aqui está um material ordenado para ser apresentado a vocês. Absorvam-no e façam o que quiserem”. (1972, p. 36) O terceiro termo é ensino, que acarreta a relação entre os sujeitos e pede a ânsia de consequências, de maneira que o docente possa verificar se aquilo que foi dado realmente foi aprendido. Estes três termos: treinamento, instrução e ensino estão vinculados a certos métodos, estratégias e artimanha de ofício. Além disso, entende-se um interesse pelo método de aprendizagem dos estudantes e a interação da mente do docente e dos alunos. A expectativa é que o destaque, nessa interação, esteja focado no professor, no que ele diz e na forma como diz. O quarto e último termo é a educação, que só pode ter um futuro dentro de uma situação social. Se a exigência de educação for originária 44 :: Sociologia da Educação :: de sujeitos que vivem juntos, então um de seus objetivos é de se consen- tir-lhes viverem juntos da melhor forma. Onde crescem grupos sociais ou sociedades, crescem também os meios normais de planejarem seu modo de vida, e, a esse tipo, o sociólogo denomina de “as instituições da sociedade”. A educação, portanto, é a ação dos dois lados, lida igualmente com o crescimento adaptável dos sujeitos e com uma sociedade que se transforma e cresce. Mannheim (1972) afirma que a Educação vem do latim educare, que está associada ao desenvolvimento físico e mental das crianças. Essa palavra apresenta um significado vasto, mas está relacionada a todos os elementos conquistados pela instrução individual e pelo treinamento social, os quais in- duzem à felicidade, à competência e à capacidade para o trabalho social do sujeito educado. Como já sabemos que a escola não é o único meio educacional em que se desenvolve a criança, pois não nos podemos esquecer da família, que é a educação mais importante, temos que admitir a verdade de que, na insti- tuição escola, não só o corpo docente é importante, mas também toda a organização e estrutura para funcionar a escola – os tipos de disciplinas ofe- recidas e o ambiente em que está inserida. Em qualquer sociedade, a medida que a educação se desenvolve, há instituições que modelam comportamentos, adequando-os para maneiras assertivas, dentro das regras e critérios já impostos pela história e pela tradi- ção, tal como: instituição da família, da escola, do matrimônio. O homem cumpriu seu aperfeiçoamento na história, porque passou, de uma geração para outra, as melhores maneiras de ajustamento, escolhi- das as formas que mais sucesso obtiveram em viver. Tornou-se possível por- que o homem teve em suas mãos um controle maior da aprendizagem com- parado aos outros animais. ...Os resultados de uma aprendizagem numa geração não se transmitem à seguinte e nem são passivamente adquiridos por ela. A aprendizagem eficaz só se verifica quando, em resposta a uma necessidade sentida, uma pessoa se apodera ativamente de alguma parte do meio, de ideias, hábitos, habilidades e os entretece num novo padrão de comportamentos para si mes- ma. (Mannheim, 1972, p. 76) 45 :: Sociologia da Educação :: Esse método de aprendizagem, que é uma das maiores conquistas dos seres humanos, de acordo com o autor acima citado, reinicia em cada nova geração, ou em outras palavras, em cada nenê, na proporção em que vai se desenvolvendo. Consegue, no decorrer da sua vida, e transmite-se a outra geração por meio da linguagem, do costume, tradição e imitação. “Estas qualidades caracteristicamente humanas envolveram a habilida- de do homem para transformar suas possibilidades biológicas herdadas em padrões culturais...” (IBDEM, 1972, p. 93) A parte mais alta dessa atividade interna é uma maneira de sondagem mental, que se concretiza por meio de lembranças, juízos, percepções, con- ceitos e ideais, oriundos das práticas anteriores. Dessa forma, o sujeito pre- vê as perspectivas do outro e adéqua seu comportamento de acordo com elas, em outra palavras, socializa-se. Cultura brasileira É dentro do nosso ambiente cultural que adquirimos informações e ideias de como e do que devemos aprender. Além disso, esse ambiente cul- tural influencia na escolha do que almejamos reter depois de termos apren- dido. Para Mannheim (1972), dentro de um processo educacional amparado por uma sociedade estável, há um compromisso no que diz respeito ao que deve ou não ser aprendido, como e de quem. 46 :: Sociologia da Educação :: Aos pesquisadores dessa ciência, importa averiguar como embala a estrutura geral da individualidade das funções que o homem desempenha, consciente ou inconscientemente, dentro da sociedade a que pertence. As associações de status formam outra grandeza sobre a qual estabe- lecem muitos hábitos do pensar e do sentir. ...em todas as culturas se encontram meios para enfrentar conflitos, choques de interesses e estes meios, a seu turno, aju- dam a bloquear ou dificultar ações futuras. Por exemplo, todo o sistema legal é uma tentativa para estabelecer um princípio de equidade e indica que certos tipos de comportamentoatrairão as recriminações e a punição da sociedade. A lei se destina, de um lado, por implicação, a inculcar a espécie de comportamento a que a sociedade dá valor e, de outro, a proporcionar os meios de desestimular a pessoa anti-social, que não lhe obedece à su- gestão. (MANNHEIM, 1972, p. 133). Em períodos regulares da história, a cultura apresenta-se estável. Os critérios e os valores que a criança construiu por meio da educação informal mantêm-se reforçados pela experiência anterior, principalmente em relação às situações em que ocorreram prêmios psicológicos para frustrações que podem ter ocorrido. Quando uma comunidade ou mesmo uma sociedade modifica-se rápi- do, pode ocorrer que aquilo que se aprendeu na infância como prontidão para a vida adulta não se realize. ...Numa sociedade como a nossa, cumpre-nos zelar por que se preparem as crianças para crescer com um sentido de continuidade e tradição, embora se provejam, ao mesmo tem- po, da presteza para reconhecer a necessidade de mudança e adaptabilidade e iniciativa para agir. (MANNHEIM, 1972, p. 135) Em nossa sociedade, temos que assumir que a concorrência e a con- quista na vida são objetivos que se apresentam em todo o período, indo desde as provas escolares até a bolsa de valores. A concordância, o adaptar-se, o estar pronto para fazer o que as ou- tras pessoas desejam da gente é outro projeto e, de certa forma, discrepan- te da nossa sociedade. Na verdade, essas duas inclinações mostram os polos entre os quais há de se tomar jeito toda a educação. 47 :: Sociologia da Educação :: Há dois lados: de um lado estão a criatividade, o compromisso, a natu- ralidade – são as habilidades que confirmam o original e o regulador do ho- mem; do outro lado estão a resignação, a persistência, o esforço comum, a adequação – são as habilidades que afirmam a animação de enterrar a agressividade e a individualidade dos anseios do grupo. Esse sociólogo une o que a ciência filosófica, a psicológica e a sociolo- gia anseiam encontrar na educação. Percebermos, em nossa prática e em nossa política, a intensidade que ela efetiva na realidade. Devemos construir certas normas de educação, tal como expandir o conhecimento, criar méto- dos de provar a verdade, ofertar para cada um as chances coerentes com suas habilidades. Além dessas, existe a norma de tomar consciência de que a educação necessita interessar-se pelo sentimento e pelas instituições soci- ais, formas para entender como essas instituições exercem regras e normas, tais como objetivos a que deveríamos visar. Afirmaríamos que o filósofo educacional tem por meta oferecer ao sujeito, dentro do possível, as posi- ções em que consiga ser ele mesmo, autentico, quer dizer, ter sua identida- de própria construída. Doravante, não existe uma maneira veloz de realizar nenhuma dessas metas, que só podem ser realizadas em função do arranjo fisiológico e psico- lógico da criança e de todo meio em que está inserida. Hoje entendemos que, em muitos casos, certas formas de experiência infantil dificultam ao adulto o alcançamento das me- tas já mencionadas. Existe uma psicologia da educação capaz de guiar-nos no trato das crianças e mostrar-nos algumas das rela- ções existentes ente as primeiras experiências e seu efeito na maturidade, mas precisamos reconhecer que, apesar de todo o nosso conhecimento psicológico ou do aprimoramento da análi- se entre causa e efeito, não nos é dado predizer e ordenar de maneira infalível, pois há fugaz diferença entre ensino e aprendi- zagem. (MANNHEIM, 1972, p. 136). Mesmo com esses princípios filosóficos e psicológicos, há ainda o con- tento uno da cultura atual, o ambiente do estudante. Aquele que for colocar em prática os ensinamentos da educação, deve estar pronto para usar todas as informações importantes que podem vir a ser descobertas a partir de uma pesquisa sobre política, história, economia, ciências das artes, etc., por- que a instituição educacional busca escolher os elementos básicos dessa cul- tura. 48 :: Sociologia da Educação :: Ao nos referirmos ao sujeito que vive em sociedade, passa-se a ideia de que este vive em uma comunidade com jurisdição em todos os casos. Sabe-se que, na verdade, ele vive com vários grupos, e cada grupo deixa um legado, em grau maior ou menor, um traço sobre o seu caráter. Nesse caso, o autor aconselha a leitura da “Alegoria do Mito da Caver- na” de Platão, no qual se esclarecem o fracionamento de grupos e a reflexão filosófica sobre as sombras da realidade. Ademais, nesse texto sobre o mito da caverna, vemos uma explicação de como deve ser achado o grupo do chefe e, mais adiante, o próprio líder mostra-nos como precisa ser educado, para cumprir suas responsabilidades. De acordo com Rodrigues (2007), os romancistas dos séculos XVII e XVIII perceberam a ocorrência do grupo, mas só no século XIX, quando ingressou o pensamento sociológico, percebemos de que os fenômenos de grupo não são apenas vários indivíduos juntos, mas que há uma grande diver- sidade de formações de grupos, e cada uma destas formações fornece um choque distinto sobre as atitudes do sujeito. Muitos sociólogos e filósofos, incluindo Marx, começaram a pensar rigorosamente na sociedade e na atividade dos grupos dentro da sociedade. Existem dois tipos de grupos: os primários e os secundários, sendo que a diferença está nas formas de agrupamentos. É considerado grupo secundá- rio as organizações industriais, políticas, educacionais. (RODRIGUES, 2007) Entretanto, a família é considerada grupo primário, pois é nela que, primeiro, obtemos as marcas da nossa personalidade. Além do aprendizado individual, a família oferece-nos o primeiro contato social. As ações primárias de simpatia, amor, conquista, mágoa, ambição, devoção pelo herói, senti- mento de justiça, valores de bem e mal, opinião alheia, honestidade e tantas outras têm sua origem nesse grupo primário em que são encontradas em todas as sociedades. No entanto, não é adquirido na sociedade, porque to- das as sociedades têm grupos primários, principalmente o da família. São nestes grupos que se fortalecem essas qualidades citadas e, sem elas, os indi- víduos não conseguiriam viver juntos. Para o autor acima citado, em uma comunidade pequena, simples, de número escasso de família, os anseios da democracia podem ser realizados em forma primária. No entanto, a medida que vai crescendo a sociedade, os convívios aumentam, o que era considerado grupo particular é trocado por uma organização abstrata e por uma aparência em que os sujeitos vivem separados psicologicamente um dos outros. Por exemplo um vilarejo que 49 :: Sociologia da Educação :: vai crescendo e mais tarde se torna uma cidade, o que antes era formado por um grupo pequeno de pessoas, com ambições limitadas passa a se tor- nar uma organização abstrata, com uma população maior cujas pessoas pou- co se conhecem.(MANNHEIM, 1972) A escola tem três funções principais. A primeira é expor certos fatos considerados importantes, e a seleção destes fatos é feita pelos funcionários da autoridade educacional local, pelos grupos de professores, pelos professores individuais, pelos dire- tores, pelos inspetores...pelos pensadores e escritores educaci- onais, às vezes pelos administradores e diretores e, frequente- mente de uma forma ou de outra, pela opinião pública... a segun- da função principal da escola é estimular certas atitudes julgadas úteis na realização da tarefa da aprendizagem e também valiosas para a criança em sua vida presente e futura como pessoa. A terceira função principal consiste, naturalmente, em ajudar a pre- parar o aluno, por certo número de maneiras, para uma carrei- ra... (MANNHEIM, 1972, p. 160). Para este mesmo autor, uma percepção sociológica das salas de aulas necessita ter em mente a dominação do todo da vida escolar sobre cada uma dessas crianças, sobre a sala deaula, sobre o comportamento da família em relação à educação, ao corpo docente, ao método e à técnica emprega- da pelo professor em sala de aula, somado ao estímulo que o professor da sala propõe aos seus alunos, de maneira que se possa fazer justiça à função que cada qual executa e o suporte onde as relações humanas ocorrem. Em outras palavras, o professor deve ter conhecimento da realidade de vida dos seus alunos. Ao falar sobre a natureza humana e a ordem social, este sociólogo associa o padrão da sociedade, nos seus procedimentos de condicionamen- to e extinção do condicionamento e o recondicionamento afirmando que estes procedimentos configuram uma parcela importante para o entendi- mento da aprendizagem e exercem uma parte em tudo o que entendemos por educação. Se observarmos os diferentes tipos de sociedade vamos no- tar que estas criam diferentes tipos de comportamento. O relacionamento do neném com sua mãe, os métodos fundamentais de cooperação, conflito são necessários para construir o fundamento da personalidade. Um dos mais relevante é o conflito, onde se percebe um confronto de opiniões, e é muito significativo em qualquer sociedade, compreender o porque dos motivos vieram existir tais conflitos e como a sociedade cons- 50 :: Sociologia da Educação :: truiu maneiras de lidar com eles, pois o debate de contrariedade como estes nos permite a entender os problemas que nos são mostrados e que nos forçam a optar. São contrariedades de ordem moral que originam de rela- ções humanas e demonstram como os sujeitos aprendem a viver se relacio- nar uns com outros e quais são as relações construtivas ou adulterada que podem desenvolver-se. Mannheim (1972) afirma que uma situação é trabalhar com sujeitos que fazem parte do grupo primário e entram em contato pessoal uns com os outros, diferente de trabalhar com grupos e com a rigidez sociais por esses desenvolvidas e em função das quais tem que fazer seus julgamentos. Afirma este autor que a disputa individual é diferente da grupal, mesmo que ambas servem a motivos semelhantes. A união de equipe não só a ânsia de ganho individual de cada participante do grupo somado pela quantidade de participantes, sua verdade é mais obscura e cabe ao educador buscar entendê-la compreendendo a importância das escolhas e os critérios de es- colher. Além dos conflitos para os quais podemos encontrar solu- ção, podemos compreender quem , em toda sociedade há sem- pre a possibilidade de desorganização ou colapso individual ou social. A agressividade pode ser, por si mesma, sintoma de medo e é causa poderosa de ansiedade e sofrimento. Mas, nem sem- pre são as tentativas deliberadas de procurar o engrandecimen- to pessoal ou denominação que causam o colapso ou a desorga- nização da sociedade. Quando os hábitos ou modos de pensar da sociedade se acham em face de transição é muito frequente encontrarmos inúmeros casos de confusão e perturbação. (MANNHEIM, 1972, apud RODRIGUES, 2007, P. 99) Existem muitas formas de controle na sociedade, vários procedimen- tos de controle, para assegurar um tipo de justiça e o mais claro deles é a lei, cujo principal objetivo é em fazer que a firmeza e a ausência de piedade de rebaixem a honestidade. O professor deve entender as forças que levam ao controle da sociedade porque, se as observar bem, precisará acatar a natu- reza da liberdade e as maneiras que deverá explanar. O professor deve se questionar se pode sustentar a lei que leva os homens a serem cultos ou no mínimo instruídos. (RODRIGUES, 2007). Este professor entenderá a sociedade se perceber as relações entre liberdade, autoridade, disciplina e controle e também, ter consciência de que 51 :: Sociologia da Educação :: dentro de uma mesma cultura pode haver maneiras desiguais de valores nas muitas subculturas. Um dos maiores incentivos sociais é o status, ele engrandece o indi- víduo através da obtenção do poder, aquisição financeira é sinônimo de êxito, a carreira profissional, educação, nível de escolaridade são regras que levam a atribuir status de várias maneiras, e de novo o professor deve se instruir de vários recursos da sociedade para conceder crédito e influ- ência. Cabe ao professor estar preparado para refletir sobre toda a relação entre o compromisso da escola e o que o bairro e a comunidade tem para oferecer. Além de definir a natureza humana e a ordem social, Mannheim definiu Estado, como incluído na estrutura social, conceituando como uma organi- zação que tem como meta de mostrar os limites dentro dos quais precisa- mos nos comportar em relação aos outros. O Estado só deve reconhecer suas responsabilidades com a permissão do grupo, pois é construído pelo homem, se conserva com o nosso consentimento. O Estado tem responsabilidades legislativas e executivas e concede aos seus empregados a responsabilidade de elaborar maneiras adequadas de agir e de fixar os instrumentos de controle, entre e dentro dos grupos. Dessa forma, o professor deve perceber o Estado como ordenação que instaura diretrizes dentro das quais todos podem trabalhar. A ciência sociológica serve para o professor se colocar em união com os mais importantes instrumentos que movem a sociedade. Necessitamos que ele (professor) entenda a diferença entre revolução e reforma e que tenha condições de perceber que a democracia se realiza embasado na mu- dança e que não é um método de Estado autoritário. Faz-se necessário saber que a democracia se uni as instituições que possibilitam uma certa to- lerância de aceitar um conflito, mas também ao mesmo tempo, sustentam a certeza do direito à liberdade. Hoje percebemos em nossa sociedade transformações que vem sen- do desencadeadas não somente por políticos, mas também por circunstân- cias culturais de todos os tipos, que vão desde a educação em nossas escolas e faculdades até as propagandas em nossos muros e as consequências das invenções técnicas sobre a nossa maneira de viver. 52 :: Sociologia da Educação :: Cumpre ao educador que se torne sensível, pelo estudo da Sociologia, à estrutura da ordem social em que vive, ao im- pacto óbvio ou disfarçado dos grupos sociais e à relação entre as pessoas e a ordem social que elas se acham colocadas (MANNHEIM, 1972, p. 176). Para o mesmo autor, a escola é apenas um subsistema social que busca a educação. Determina o seu lugar ao lado do lar, indústria, igreja, serviços sociais, meios de comunicação de massa. Cabe aqui mostrar que existe uma diferença entre a educação formal e informal, temos consciência que a soci- edade deu a escola um lugar de enorme importância a qual ela faz jus, o resultado da educação não focará somente através dos órgãos formais, mas na realidade, faz parte do compromisso da escola dar condições para os estudantes desvendar, cada vez mais as influências informais que pairam pelo campo da sua percepção. As escolas desempenharam uma significativa influência no passado e no presente porque introduziram e monitoraram princípios profissionais e, na época da educação obrigatória, influenciaram no desenvolvimento do tipo social. Não podemos afirmar que a escola produz um tipo de pessoa, na verdade especificamente no século XIX, as escolas públicas foram desapro- vadas, ou melhor criticadas porque produziam um tipo reconhecível de cida- dão com comportamentos totalmente aceitos, como também produziam uma estirpe desviado do sujeito comum. A nossa investigação da ciência sociológica é procurar compreender como a educação saudável pode auxiliar para a recuperação da sociedade e do homem. Nesta ânsia de orientação a Sociologia passa a ser usada como uma ferramenta empregada em dois sentidos: como “teoria da educação e, como novo enfoque da sua história”. Estuda-se a história com o objetivo de ter uma referência para “compreender a nossa própria sociedade” e com isto construir uma teoria sociológica da educação aptapara ajudar-nos em nossa obrigação vigente. (MANNHEIM, 1972, p. 184) Este sociólogo comenta sobre o agrupamento dos objetivos educacio- nais de Max Weber, que diferencia três modelos principais de educação atra- vés da História. O primeiro é denominado de educação carismática que sobressaiu na época em que a religião tinha um maior domínio e controle , estimulando poderes ocultos, não adquiridos, instinto religiosa e ao ânimo interior para a prática transcendental, quer dizer suscitar poderes inatos. A segunda é a educação para a cultura que tem como meta explicar 53 :: Sociologia da Educação :: que alguns conteúdos classificados como clássicos tem as características in- ternas apto de produzir certo tipo sociedade. Aqui refere-se ao estilo, modo de vida que, inconscientemente é repassado através das ideias apresentadas do controle educacional formativo. Não podemos deixar de notar que, até hoje, as várias maneiras de humanismo tiveram a função de fazer a distinção social e que a forma de vida suscitado por elas só podia ser acompanhado por nível social elevado. A reflexão sociológica do humanismo está em atinar se seus valores podem ser transportados das classes ociosas para a classe classificada como média e a classe trabalhadora. A terceira é a educação especializada que tem como meta enviar um conhecimento ou talento especial associada ao crescimento da divisão do trabalho, que faz com que se torne especialista necessário à modernidade. Este tipo de educação direcionada e específica não só veda os níveis mais profundos da individualidade, que contradiz os interesses da educação religi- osa, mas também os vários lados humanísticos da personalidade, que era idealizado da minoria culta. Enfim, a educação especializada fragmenta não só a personalidade como também a capacidade mental de entender a situa- ção humana que necessita ser compreendida. Carecemos de um estudo mais profundo dos primeiros rudimentos sociais, das técnicas especiais de praticar estes três modelos de educação, este estudo iria nos ajudar a explicar a nossa situação atual e nos levar a decisões sobre as alternativas de cada uma destes modelos serem utilizados em momentos diferentes da vida e em fases distintas do desenvolvimento do sujeito. Pois, mesmo que tenha sido evoluído em uma ordem verificável da história, estes três diferentes modelos de educação não se eliminam re- ciprocamente, antes se integram e, uma visão mais íntegra do seu significado pode nos levar a encontrar um lugar adequado na educação moderna. (MANNHEIM, 1972). Este teórico percebe uma outra visão do estudo sociológico sobre a educação, mostrando o problema da síntese das várias tendências que ocor- rem em várias camadas sociais e em várias regiões etnológicas e geográficas. ... Outro aspecto da síntese das diferentes forças que ope- ram numa cultura consiste em harmonizar elementos antagôni- cos. Por exemplo, os contrastes entre a escola e a vida, o traba- lho e o lazer, a ação e a reflexão, o controle pessoal e a expres- são pessoal, a individualização e a cooperação, a mudança e a tradição. Tais estudos são igualmente instrutivos, não só quando versam períodos em que se alcançou o equilíbrio, mas também, 54 :: Sociologia da Educação :: quando versam períodos em que se sucedem a desarmonia e a destruição. (MANNHEIM, 1972, p. 189). Para ele não deveríamos estar com os olhos vedados a certas inclina- ções atuais, que funcionam no sentido de produzir modelos adequados de vida. A agitação da juventude, ou melhor dizendo, o movimento dos jovens suscitaram novos ideais do ser humano verdadeiro, que anseia ter uma cor- respondência autêntica com o meio e com seus semelhantes. Este sociólogo aconselha que a mais importante contribuição da pers- pectiva sociológica da história e do conceito da educação é dar ênfase para o fato de que nem os objetivos e nem os métodos educacionais podem ser realizados sem um cenário, sem uma história, sem um contexto, mas o opos- to disso é de grande valor, se socialmente dirigido. Em relação a esses conceitos de Mannheim, podemos concluir que sua visão sobre a sociedade, educação e escola, é bem conservadora: Para Mannheim não se trata de substituir a sociedade capi- talista por um novo modo de vida. Ao contrário, ele acreditava que a sociedade capitalista, sendo bem planejada, seria democrá- tica. (LIMA, 2011, p.50). Podemos, então, afirmar que a sua teoria é conservadora, porque in- duz a crer que a sociedade de hoje é boa, precisando só ser refeita em alguns dos seus pontos. 55 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 6 6 CULTURA Neste capítulo, vamos descrever e aprofundar nosso conhecimento sobre os diversos tipos de cultura, pois precisamos dominar bem esses sabe- res para uma boa atuação profissional. 6.1 DEFINIÇÃO Primeiramente, tentaremos definir a palavra cultura e todas as suas variações: A palavra “cultura” vem do latim colere que significa “cultivar”. De acordo com o dicionário da língua portuguesa, Aurélio (2000), “cultura” é definida da seguinte maneira: a) o ato, efeito ou modo de cultivar; b) complexo de padrões de comportamento, das manifestações artísticas, intelectuais trans- mitidas coletivamente; c) conjunto dos conhecimentos adquiridos em deter- minado campo. 56 :: Sociologia da Educação :: Herskovits (apud LAKATOS, 1999, p. 129) afirma que cultura é todo conjunto que está incluso o conhecimento, as crenças, moral, arte, lei, hábi- tos, costumes, aptidões. Além disso, cultura consiste na soma de ideias, com- portamento padronizado. Enfim, é a parte feita pelo homem. Cultura é uma extensão do método social da vida de uma sociedade. Ela apresenta-se em agrupamentos humanos, humanos esse cujas peculiari- dades os unem à cultura, mas também os diferenciam. Cultura diz estar associada à humanidade como um todo e, ao mesmo tempo, a cada um dos povos. A história, por meio dos seus registros, revela-nos as mudanças pelas quais as culturas passam. Cada experiência e realidade cultural tem sua razão interna. Tendo conhecimento dessas razões, compreendemos suas práticas e costumes, concepções e mudanças. Ao tomarmos consciência da forma como a sociedade foi construída, seus ideais e interesses entenderemos os seus valores e costumes. (BRANDÃO, 2000) As modificações nos modelos de família, nas formas de habitar, de se vestir, de distribuir os produtos de trabalho, são consequências de sua histó- ria e têm lógica para os grupos sociais que a vivem. Em outras palavras: a maneira de viver, os interesses da comunidade, a forma de trabalhar, a fonte de renda são justificadas pela história, pelo passado dessa comunidade. De acordo com o autor citado, a história relata-nos que os grupos sociais se espalharam e ocuparam, quase que totalmente, todos os conti- nentes do planeta. A rapidez em que ocorre a comunicação entre os povos é nova, recente e, assim, os grupos sociais que vivem em regiões mais isola- das estão sumindo, quer dizer, os meios de comunicação estão unindo mais rapidamente as pessoas, e essas estão deixando de ficarem isoladas, pois a propensão, o caminho é o de compor uma única civilização mundial. A compreensão da cultura está associada à interação e a grupos huma- nos. A beleza dos tipos variados de cultura e suas relações levam-nos a conscientizar que somos seres sociais. No entanto, para acontecer a interação, primeiramente temos que enxergarmos a nossa cultura, o nosso modo de vida, para, depois, olharmos o da outra. Primeiro temos que nos conhecer para depois conhecer o outro. 6.2 A CULTURA E SEUS DERIVADOS Seguindo as definições de cultura encontramos os seus derivados: 57 :: Sociologia da Educação :: Ø Relativismo cultural: são qualidades regionais, geo- gráficas, históricas. Em sua variação encontramos a subcultura. Ø Subcultura: mantém a cultura geral, pois não há cul- turainferior, superior, forte, fraca, boa ou ruim, há simplesmente cultura. É o relativismo cultural quem alicerça e explica os vários tipos de cultura, ou, em outras palavras, a diversidade cultural. Nós brasileiros não temos uma cultura totalmente igual: há con- trastes regionais ligados ao modo de falar, ao vestuário, à alimen- tação, tal como a comida típica da Bahia e a comida típica do Rio Grande do Sul. Além destas diferenças regionais, há as diferenças socioeconômicas, tal como o sudeste brasileiro mais industriali- zado do que o nordeste brasileiro; as diferenças de vários tipos de origens, como a dos índios, a dos negros, etc. Cada uma des- tas culturas distintas – negros, índios, nordestinos, imigrantes, etc. – configura uma subcultura dentro da cultura maior que forma a cultura brasileira. (MORRISH, 1975) Ø Etnocentrismo: é o exagero, o excesso na importân- cia de uma dada cultura cujos integrantes conceituam a outra cultura, comparando-a com a sua própria cultura. Isso é inaceitá- vel em uma realidade globalizada. Em outras palavras, é um grupo social que acredita que as suas normas são as mais corretas e cer- tas, julgando os outros grupos como inferiores, tomando o pró- prio grupo como referência maior. Um exemplo básico de etnocentrismo foi o comportamento dos colonizadores europeus em relação aos povos indígenas. Os colonizadores julgavam que o seu grupo era uma sociedade civilizada e os índios eram conside- rados povos bárbaros, incultos e desumanos. (BRANDÃO, 2000). De fato, o etnocentrismo modifica a cultura do grupo em modelo de referência: nossa religião é a melhor, nossa raça é superior às demais, nosso grupo social é o mais evoluído. Ø Preceitos: São os modos populares mais marcantes que, por causa da importância para os membros da sociedade, fixaram-se em leis, em certo ou errado, pode ou não pode, tal como: roubo, bigamia, incesto. Ø Traço cultural: é a parte menor de uma cultura, por exemplo: a forma de se comportar, as maneiras de se comuni- car, formas de cozinhar os alimentos. Em resumo, é o que dife- rencia um povo do outro. 58 :: Sociologia da Educação :: Ø Mores: são aqueles modos, costumes declarados es- senciais, intocáveis pelos componentes do grupo social, que se referem à índole sagrada, que não se discute, tal como o ritual de velório, o carnaval, os pratos típicos. Ø Aculturação acontece quando há uma coligação de diversas culturas em um convívio contínuo, modificando os pa- drões comportamentais dos grupos. Agora, quando somente um grupo é aculturado, ocorre uma dominação da parte dos outros grupos. Em outras palavras é impor uma cultura sobre a outra. Exemplo do que ocorreu com a cultura indígena, eles foram aculturados pelos homens brancos. 6.3 OS TIPOS DE CULTURA Podemos descrever os tipos de cultura como: a) cultura ideal – é a mensagem do que é correto fazer; é aquilo que idealizamos, sonhamos em acontecer. b) cultura real – é vivência do que realmente ocorre; c) cultura material – são os instrumentos (objetos, utensílios) que o grupo utiliza no seu cotidiano; d) cultura não material – é tudo que se necessita para a construção da cultura material, por exemplo: crenças, ideias, formas de pen- sar; d) cultura não manifesta – são formadas pelo aprendizado das pesso- as, conhecimentos nas situações que aprenderam a lidar no cotidiano; ; f) contracultura – ocorre em situações que um grupo desaprova e enfrenta as regras, normas e anseios da cultura dominante, por exemplo: as revolu- ções internas, hippes, feminismos; f) cultura de massa – é a propaganda, sem que se possa questionar ou mesmo contestar, de notícias pré-fabricadas, cuja exiguidade antecipa sua aceitação por indivíduos de qualquer nível de conhecimento, nivelando em nível inferior as notícias, com o objetivo de transformar a cultura em um conjunto parecido, frequente e não contesta- do. (LAKATOS, 1999, p. 311). Além desses tipos de culturas que previamente elencamos, existem outros termos que são importantes nesse contexto: Ø Contágio social: propagação transmissível, inconsci- ente, irracional, somente emoção, em grupos como movimen- tos políticos, torcidas organizadas, linchamentos: O sistema de status define um padrão de rela- ções que irá governar a interação entre os membros 59 :: Sociologia da Educação :: de um grupo e determinadas condutas são conside- radas mais apropriadas para expressar a relação exis- tente entre as pessoas que ocupam diferentes posi- ções na hierarquia do status. A maneira pela qual as pessoas se comportam em suas relações como ocupantes de status superi- or ou inferior, são aspectos do papel social (LAKATOS, MARCONI, 1999, p. 99). Ø Mudanças e transformação social: a mudança é o descontrole e o retomada do controle que acontece por fato- res: geográficos, como inundações, seca, terremotos, etc.; bi- ológicos: são as epidemias, miscigenação; sociais: grandes des- cobertas, tecnologia avançada, invenções. Os fundamentos de mudanças sociais são quatro: a) evolucionista: que é o avanço e a melhoria, por motivos das novas criações ou descobertas científicas b) cíclica: como o próprio nome diz, são ciclos que se repetem nas mesmas situações, periodicamente; c) equilíbrio: equilíbrio com a cor- relação e composição de papeis, em outras palavras, é o entendimento, a acomodação; d) conflito: que bagunça com a sociedade de modo claro e visível., violências As transformações sociais só podem ocorrer a base de revoluções ou guerras por exemplo a revolução industrial que trouxe muitas mudanças nos comportamentos das sociedades; já as mudanças sociais, porém, são siste- mas adaptados aos já existentes e mantêm a mesma estrutura social. A cultura do grupo que o indivíduo pertence mostra como este deve comportar-se, pois é a própria cultura que decide os padrões de comporta- mento. Um padrão de comportamento é uma regra, isto é, uma perspectiva ou mesmo uma delimitação de como o sujeito deve agir dentro da sua soci- edade. Essa regra social é o resultado da própria história do grupo. (MORRISH, 1975, p. 44). Exemplificando a afirmativa acima, podemos dizer que é norma os pais beijarem os filhos, cumprimentarem as pessoas com a mão direita e não com a esquerda, como também é norma a reprodução ocorrer em famílias construídas pelo casamento. Assim, notamos que o que é norma dentro de uma sociedade pode 60 :: Sociologia da Educação :: não ser em outra. A norma só é aceita em comportamentos permissível e não obrigatório. Quer dizer que não adianta criar uma norma objetivando o impossível, o não realizável, por exemplo: o homem tem que voar. As nor- mas podem estipular formas de comer, tipos de alimentos, maneiras ade- quadas de andar, mas não impor atitudes básicas e naturais, por exemplo: você deve respirar, deve comer, etc. É natural que todos respirem, comam sem a necessidade de existir normas para este fim. (MORRISH, 1975, 51) 61 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 7 7 A EDUCAÇÃO E O DOMÍNIO SOCIAL Sabemos que, assim que nascemos, estamos inseridos em um proces- so educacional e passamos a nossa vida aprendendo coisas novas e nos edu- cando. Na infância, esse processo educacional torna-se mais forte comparado às idades mais avançadas: a sua influência é maior no desenvolvimento infan- til, pois é a base do desenvolvimento físico, intelectual, social, psíquico, que o sujeito necessita para se tornar um ser social e ser considerado ser humano. Esse processo desenvolve-se em todos os lugares em que a criança está e necessita apenas de pessoas mais velhas que ajudem a criança a associar modelos comportamentais. Usando as palavras de Durkeheim (1978, p. 41): A educação é ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não se encontrem ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e desenvolver, na criança , cert5os números de estados físicos,intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança particularmente se destine. Sabemos que há vários tipos de educação. Para cada modelo de socie- dade, em um mesmo país, no seu interior, variam os tipos de educação. Se tomarmos a Idade Média para exemplificar, lembramos que a educação das babás dos filhos da elite era mais completa. A educação do proletariado não 62 :: Sociologia da Educação :: é a mesma do burguês, e a educação do centro urbano não é a mesma da zona rural. Apesar de todas essas diferenças, há um consenso nas formas de edu- cação, pois todas têm o mesmo objetivo que é o de transmitir aos jovens as ideias, pensamentos, sentimentos que, de acordo com a sociedade, são ade- quados para fazer deles adultos. Essas formas ou modelos de educação geram padrões fixos de com- portamentos que estão associados à sociedade ou ao grupo social, e a crian- ça as percebem como absolutos, pois a crianças não têm outra opção senão aceitar, o que lhe é imposto pelo adulto. A verdade e a realidade que a crian- ça conhece é a que foi apresentada pelo adulto. Quando essa criança cresce, ela perceberá que existem outras realidades, outros padrões de comporta- mentos, outras maneiras de viver em sociedade. (MARTINS, 1982). O mesmo autor acima citado afirma que os modelos educacionais são impostos na criança tanto de forma diretiva, intencional, tal como: “não atra- vesse a rua sem olhar dos lados!”, “escove os dentes antes de dormir!”, “respeite seus pais!”, quanto sem a intenção direta. Os modelos educacionais que são impostos indiretamente são formas padronizadas de educar, que se tornam internalizadas pela criança inconsci- entemente, ocorrendo por meio do convívio social e da percepção e imita- ção dos pais e pessoas mais velhas. Estão incluídas, nessa classe, a forma como a criança se percebe em relação ao outro e ao mundo, a introversão, a timidez, a extroversão, os preconceitos, entre outros. 7.1 O DOMÍNIO SOCIAL E A ESCOLA Agora vamos direcionar a educação ao ensino escolar. A escola é um subsistema social que tem uma finalidade única: mostrar aos alunos, por meio de atividades sistemáticas organizadas e planejadas, o conteúdo cultural da humanidade, que são os conhecimentos obtidos no transcorrer de sua his- tória, fazendo parte desse contexto as descobertas científicas e o desenvol- vimento tecnológico, perpassado para os estudantes mediante disciplinas dis- tintas. Respeitando as grandes diferenças entre os pensamentos sociológicos, não podemos desconsiderar que há um ponto comum entre elas, que con- cebe a educação como um sistema de transmissão da cultura e inclui: regras, 63 :: Sociologia da Educação :: valores, normas, comportamentos, os quais têm um objetivo principal que é o da reprodução social. Cabe aqui citar as palavras do sociólogo Durkheim, comentado no ca- pítulo I: ...longe de a educação ter por objeto único e principal o indivíduo e seus interesses, ela é antes de tudo o meio pelo qual a sociedade renova perpetuamente as condições de sua própria existência. A sociedade só pode viver se dentre seus membros existe uma suficiente homogeneidade. A educação perpetua e reforça essa homogeneidade, fixando desde cedo na alma da criança as semelhanças essenciais que a vida coletiva supõe. (DURKHEIM, 1973:52). Parece conveniente retomar alguns princípios que buscam uma rela- ção global entre a escola e a reprodução social. O caso é que elas focam fundamentalmente na questão da reprodução idealista que pode ajudar como um início de aproximação. No entanto, não nos podemos esquecer de que esses desenvolvimen- tos especulativos são abrangentes e limitados ao mesmo tempo. Abrangente, porque diz respeito à ligação das máquinas ideológicas que permitem que a sociedade exista e se conserve. Limitados, porque favorecem a apreciação da ideologia, de forma quase única. Perguntamo-nos, então, qual o objetivo das máquinas ideológicas no sistema da reprodução social. Se favorecemos a formação de bens materiais como norteadores de investigação no andamento da sociedade, a história social pode ser recontada por meio das maneiras de associação do serviço social. Dizendo, em outras palavras, é a maneira pela qual as pessoas geram bens materiais para a sua sobrevivência. Torna-se coerente pensar que ocor- re uma cisão entre vários agentes que executam o serviço social ou trabalho social. (RODRIGUES, (2007). A organização escolar procria, em grau social, as várias culturas da con- dição social. Os meios de procriação justificam-se nas relações de poder, relações que são de controle e submissão, que não podem ser justificadas por um mero assentir de usos diferenciais. É através do discurso dominante que ocorre. Dessa forma, quando averiguamos o objetivo ideológico do modelo escolar, uma das apreensões é a da soberania, independência que pode ser dada a ele. 64 :: Sociologia da Educação :: Podemos perguntar, neste momento, como a escola pode ter inde- pendência e ao mesmo tempo manter a divisão da sociedade em classes? Socorremo-nos aos sociólogos Poulantzas, (1975); Bourdieu e Passeron (1976), para procurar responder a essa questão. De forma similar, pode-se afirmar que a escola constrói, de um lado, o trabalho intelectual e, de outro, o trabalho técnico. Vários estudos compro- varam que uma escola dentro do sistema capitalista, globalizado, não pode, junto à formação intelectual, formar técnicos. O que se instrui na formação profissional do proletariado é a obediência, o respeito, a adoração de um trabalho intelectual que se encontra distante dele, porque eles não podem ser doutrinados em uma escola capitalista. “De maneira alguma, as coisas se apresentam da mesma forma para a nova pequena burguesia e para o traba- lho intelectual, sendo sua força de trabalho, em seu lado intelectual, efetiva- mente formada pela escola.” (POULANTZAS,1975, p. 288). 4 Nicos Poulantzas O que este sociólogo tenta explicar é que as metas da escola só conse- guem ser averiguadas em relação às classes sociais as quais conduzem sua ação não a serviço das redes escolares. Dessa forma, encontramos, dentro da escola, a divisão social do trabalho. Fazendo uso das próprias palavras de Poulantzas (1975, p. 289): O principal papel da escola capitalista não é? qualificar? dife- rentemente o trabalho manual e o trabalho intelectual, mas, muito mais, desqualificar o trabalho manual (sujeitá-lo), qualificando só o trabalho intelectual. 65 :: Sociologia da Educação :: O que diferencia uma escola da outra, para atingirem os seus objeti- vos, são os métodos aplicados na aquisição do conhecimento. Muitas esco- las utilizam o método passivo, que tem como diretriz a transferência simples e concreta da matéria pelo docente. Existem também métodos segundo os quais a aquisição do conhecimento ocorre partindo da experiência e da rea- lidade dos estudantes, os quais não ficam passivos na transmissão do conhe- cimento, mas constroem seu próprio conhecimento da realidade. (MARTINS, 1982). Vejamos, então, um pouco sobre a história da escola. 7.2 A HISTÓRIA DA ESCOLA A escola começou a existir em termos de espaço físico, a partir do início da Idade Média (476-1453). Nas sociedades anteriores à era da escrita, como também até hoje em muitas tribos indígenas e algumas regiões do mundo, não existiam escolas, de modo que o ensino se fazia pela convívio com os mais velhos, no dia a dia, nas divisões do trabalho para sobrevivência, por exemplo: caça, pesca, plantio agrícola, histórias de comportamentos e valores passados de geração em geração dos seus antepassados. Todos os mais velhos são professores e a educação ocorre por meio da prática e da experiência. BRANDÃO (2000). O mesmo autor relata que, na Idade Média, o processo de ensinar tornou-se especializado, ocorrendo em espaços físicosadequados. A elite adquiria esse tipo de conhecimento em seus castelos, a partir de uma apren- dizagem voltada para a arte da cavalaria, para a literatura, para o latim, para a filosofia, para a honra e para as boas maneiras de comportamentos. Já os 66 :: Sociologia da Educação :: filhos do proletariado, por outro lado, utilizavam os espaços do salão paro- quial e aprendiam religião, moral, noções básicas de aritmética e gramática da língua local. Com a Revolução Industrial, que ocorreu em meados do século XVIII , a escola da elite foi sendo mudada por uma escola mais moderna, preocu- pando-se mais em oferecer disciplinas mais científicas. Em consequência do desenvolvimento industrial, surgiu a classe operária, que era composta de trabalhadores da zona rural que imigraram para a cidade, para trabalharem nas indústrias. Por necessidade de mão de obra mais qualificada, os trabalhadores es- pecializaram-se e, com o desenvolvimento da zona urbana em ascensão, formou-se um povo melhor instruído, o que levou a burguesia (elite) a to- mar consciência de que os trabalhadores necessitavam de algum tipo de co- nhecimento mais específico. Dessa forma, nasceu a escola dos operários que ficava ao lado da esco- la da burguesia. A diferença entre elas era que a escola elitizada levava seus alunos até o ensino superior, preparando-os para serem futuros administra- dores; já a escola dos operários limitava-se ao ensino primário, ou melhor, alfabetizava, no sentido de ler, escrever e contar, e não de interpretar, fazer uma síntese e desenvolver raciocínio lógico matemático. Essa situação perdurou até o início do século XX, quando os trabalha- dores tiveram a oportunidade de cursar escolas profissionais. (MORRISH, 1975). Em meados deste mesmo século, o proletariado iniciou a conquista pelos direitos à educação, de um ensino público e obrigatório. No Brasil, até a situação atual, o ensino é obrigatório e gratuito. Visão semelhante apresenta Kuppa (1994) ao afirmar que a escola é o reflexo da sociedade. Ela mostra, em grande parte, a desigualdade da socie- dade em que está inserida: alunos oriundos de nível socioeconômico mais alto chegam ao ensino superior com mais facilidade, têm acesso aos bens culturais, tais como: jornais, revistas, computador com internet, livros, tea- tros, viagens, cinema, e a escola acredita na competência deles. O mesmo não ocorre, infelizmente, com os filhos de classe inferior, que não conse- guem vencer as dificuldades apresentadas na educação básica e acabam não concluindo o Ensino Médio. Mesmo quando terminam, encontram dificulda- des em ingressarem no Ensino Superior e trabalharem ao mesmo tempo para ganhar o seu sustento. 67 :: Sociologia da Educação :: Nos países ricos, o desenvolvimento das tecnologias reforçam a atitu- de de quem tem a aquisição econômica, apresentando maior possibilidade de juntar o saber e ir ampliando-o e acumulando-o, por meio do processo de pesquisa e criação, de que são passadas para ele na escola. Nos países subdesenvolvidos, o acesso à tecnologia e ao saber são importados a um custo muito alto. Para toda tecnologia importada, o país precisa ter um fundo de reserva para quitá-la – essa reserva é construída por meio dos produtos que o país exporta, o que acaba precisando, de um lado, de uma grande produção e, de outro, uma economia no consumo interno dos bens produzidos. De acordo com Kruppa, (1994, p. 49): As classes de maior renda, no Brasil, aproximam-se dos níveis de consumo e de conforto atingidos pelas classes ricas dos países desenvolvidos. Para que isso seja possível é necessário que as classes trabalhadoras, nos países subdesenvolvidos, paguem a conta, seja por assumirem a produção com baixos salários, so- frendo o ônus da concentração de renda, seja por estarem sem condições de consumo, pela alta dos preços, que acaba reduzin- do o consumo, com economia de bens para a exportação, sem prejuízo para os donos dessa produção. No Brasil, as despesas com a saúde, educação, transporte público são inferiores ao formato da economia e da sociedade: as despesas estatais com infraestrutura (construção de estradas, usinas, siderúrgicas) propiciam o favorecimento do capital industrial. Percebe-se que a conclusão não é nada positiva para o trabalhador. Quer dizer gasta-se menos com investimento para saúde, educação e transporte público. 68 :: Sociologia da Educação :: Sánches, (2011) afirma que, neste caso, a escola é o espelho das dife- renças e, por que não dizer, das desigualdades da ordem social: a minoria de nível socioeconômico alto completa a educação básica e conclui o ensino superior; porém, a grande maioria que são filhos do proletariado não conse- guem vencer os obstáculos e acabam não concluindo a educação básica. Todo processo educacional tem como meta: ordenar a internalização dos valores dominantes que refletem as condições de domínio social que estão por trás do discurso pedagógico. Dessa forma, entende-se a desigual- dade que está no eixo do processo educacional. Isso remete-nos a um questionamento: pode a escola mudar esta rea- lidade ou, por ser um subsistema social, ela depende que a sociedade invista nesse processo? Não temos uma resposta pronta para este questionamento, mas já sabemos que a escola exerce uma influência enorme no desenvolvimento da sociedade. Ela é imprescindível para a vida humana. Entretanto, ela é con- traditória, pois ao mesmo tempo em que coopera para a transformação da situação existente, ela é também usada como ferramenta para o controle social, o que escraviza e liberta ao mesmo tempo. (op.cit). Os que evidenciam o comando social são aqueles que se favorecem diretamente com a circunstância existente, aos quais se juntam aqueles que aguardam no futuro se favorecer, por meio da ascendência social. Por este motivo, teimam em manter a ordem vigente. Se por acaso não podem mantê- la, objetivam, ao menos, monitorar o próprio método de variação, para que ele não elimine as suas vantagens. (LIMA, 2003). 69 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 8 8 EDUCAÇÃO E A SOCIEDADE BRASILEIRA Neste capítulo, vamos, em primeiro lugar, fazer um retrospecto dos fatos econômicos e políticos ocorridos no Brasil no período de 1955 a 1971 e, depois, relacionaremos esses fatos com a nossa educação atual. O ano de 1950 é considerado o marco da entrada das empresas multinacionais no Brasil, apesar do início da nossa industrialização ter ocorri- do no século anterior, por volta de 1880, de uma maneira bem discreta. Em 1930, esse processo destaca-se e, antes o que dependia da nossa agricultura, a partir deste período, começa a depender da industrialização, segundo Meksenas (2011). O Brasil, em vez de se dedicar e se preocupar com a educação básica e com a pesquisa científica universitária, passa a investir na indústria que pro- duz materiais de consumo duráveis, propiciando a produção de tecnologia nacional. Dessa maneira, buscou-se a trajetória da importação da tecnologia. De acordo com o autor citado, para que isso se tornasse realidade, foi necessário o apoio administrativo de Juscelino Kubitschek durante 1955 a 1960 e também da política seguida pelos militares no poder após 1964. Com esse tipo de administração controlado pela classe dominante, que almeja o lucro imediato ao invés da autonomia nacional, as portas das multinacionais são abertas. 70 :: Sociologia da Educação :: Essas empresas, uma vez instaladas no Brasil, desfrutaram dos benefí- cios de produção do nosso país que era a mão de obra barata e também a abundância de matérias-primas. Neste enfoque, Meksenas (2011, p. 98) cita o sociólogo Peter Evans que classificou de tríplice aliança a união dos inte- resses do capital nacional, do capital estatal e do capital internacional. De 1962 até 1964, grupos de empreendedores que dividiam o poder na junta com o presidente João Goulartbuscam barrar o crescimento desta política de internacionalização do dinheiro brasileiro com regras, tal como a redução de envio de lucros ao exterior. Sofrendo pressão pelos movimen- tos populares, o presidente Goulart procura começar uma reforma agrária que culminou, em abril de 1964, na tomada do poder por parte dos militares (o famoso “golpe militar”, depondo João Goulart e iniciando o regime mili- tar. (FAUSTO, 2002). O regime militar durou de 1964 a 1984, resultando: em uma dívida externa que aumentou de 3 para 105 bilhões de dólares; em uma inflação que era de 70 % para 200% ao ano; em recursos – que deveriam ser para a educação – que abaixaram de 12% para 4%; e, durante o poder militar, em um país que ficou em 6º lugar em produção de armas, de acordo com Meksenas, 2007. De acordo com Fausto (2002), as consequências desse regime foram: o aumento de desemprego, a inflação descontrolada, as pequenas empresas abrindo falência, o aumento da miséria e das favelas, o aumento da taxa de analfabetismo, além de doenças, fome, criminalidade e violência. Durante o poder militar, entre 1968 e 1971, houve uma necessidade de uma reforma educacional para manter o crescimento econômico embasado no capital internacional. Para o autor citado, essas mudanças no sistema educacional incluíram a Reforma Universitária de 1968 e a do Ensino Médio de 1971, durante as quais o Ministério da Educação e Cultura (MEC) e a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) assinaram um convênio que tinha como meta apoiar a cooperação norte-americana, para que o Brasil resol- vesse seus problemas de país subdesenvolvido. De acordo com Chauí (2001), essas combinações podem ser compactadas em três princípios básicos: Educação e desenvolvimento, Educação e segurança, Educação e comunidade, que estão descritos a seguir: 71 :: Sociologia da Educação :: Ø Educação e desenvolvimento: o ensino escolar apoia e auxilia o crescimento econômico e social. Percebemos, aqui, que a importação da tecnologia e, já inclusa, a importação do saber em produzir essa tecnologia impedem que faculdades bra- sileiras produzam conhecimentos científicos, mas podem e de- vem apenas construir pessoas treinadas para copiarem conheci- mentos vindo de fora, deixando, assim, de investir e apoiar a pesquisa científica no país. Ø Educação e segurança: foi removida as disciplinas do Ensino Médio, de cunho político, crítico, tais como: filosofia, so- ciologia e psicologia, pois esses conteúdos das disciplinas citadas poderiam fazer com que os estudantes se tornassem mais críti- cos e, consequentemente, ameaçassem a segurança nacional. Em substituição a essas disciplinas, incluíram Educação Moral e Cívi- ca, ausente de conteúdo crítico. Em outras palavras, esse segun- do princípio consentiu o controle ideológico sobre a educação. Ø O terceiro e último princípio, Educação e comuni- dade, tentou interpretar por comunidade a participação da soci- edade civil nas resoluções da escola, mas, na verdade, criou con- selhos de educação compostos somente por empresários e, com bases nesses conselhos, planejou maneiras de ter um ensino que se destinasse ao lucro. Dessa aliança MEC-USAID, surgiu a Reforma Universitária sob o De- creto Lei 5540/68 e a Reforma do Ensino Médio sob o Decreto Lei 5692/71. Alei 5540/68 definiu, além de outras coisas, que: As empresas poderiam adotar o ensino superior. Isto fez com que o número de faculdades particulares que almejam mui- to mais o lucro do que os ideais educacionais se multiplicassem. Existência das licenciaturas curta, quer dizer, para se tor- nar professor do ensino fundamental e médio bastava cursar um ano e mio de curso superior para cada disciplina a ser lecionada, por exemplo: um estudante que completasse três anos de ensi- no superior de ciências poderia lecionar duas disciplinas distintas como biologia e física. Já o Decreto-Lei 5692/71, além de outras coisas: 72 :: Sociologia da Educação :: Fundiu o curso primário com o ginasial formando um úni- co ciclo chamado de 1º grau compondo 8 anos de escolaridade. Denominou o curso colegial de 2º focando disciplinas profissionalizantes. De acordo com Meksenas (2011), em consequência desta reforma da educação, as faculdades não colocaram em primeiro plano a pesquisa cientí- fica, pois não era do interesse dos empresários desenvolverem conhecimento científico. Os cursos profissionalizantes tiveram serventia, pois, só para dimi- nuir mais ainda o nível do ensino, porque as escolas não tinham infraestrutura, tais como: laboratórios, acervo bibliográfico bom, professores especializados, etc., para tornarem eficientes os cursos profissionalizantes. Hoje, estamos sob a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB 9394/96 de 20 de dezembro de 1996. Todo o decurso de formular essa lei foi muito debatido nas escolas públicas, universidades, sindicatos de todo o país. A sociedade civil foi a que mais apresentou propostas para melhorar a educação, mas também a classe dominante, os empresários e os conserva- dores apresentaram sugestões. Por estes motivos, esta lei comporta ideais progressistas e conservadoras ao mesmo tempo. Dentre as várias mudanças educacionais que a nova LDB trouxe, te- mos: o término do ensino profissionalizante compulsório, o fim das licencia- turas curtas; a retirada, da grade curricular, as disciplinas de Educação Moral 73 :: Sociologia da Educação :: e Cívica. O ensino formal passa a ser chamado de Educação Básica e inclui: Educação Infantil, Fundamental (duração mínima de 8 anos) e Ensino Médio (3 anos); o respeito, o direito à educação e a inclusão de pessoas portadoras de necessidades especiais. Essa lei também facilitou a organização dos parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), com ofertas modernas. (MEKSENAS, 2011). Vocês devem estar perguntando-se como os docentes, estudantes e a sociedade em geral podem ajudar a educação brasileira a melhorar. Não te- mos uma resposta objetiva, simples e fácil para essa questão, mas podemos ter esperança, pois, segundo Meksenas (2011, p. 104 e 105), afirma-se: Apenas com a organização de todos é possível questionar os governantes e exigir ensino público de qualidade, equipamen- tos como laboratórios (de ciências, de informática, do ensino de língua estrangeira e outros), bibliotecas e salas de aulas adequa- das. Exigir também, salários dignos aos professores, jornadas de trabalho adequadas e apoio científico-pedagógico às suas ativida- des. Todas estas condições são importantes e fazem parte da democratização da escola ... ...Professores e alunos são vítimas da sociedade produtora da desigualdade social e que se reflete na educação. 75 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO 9 9 EDUCAÇÃO E DESIGUALDADE SOCIAL NA AMÉRICA DO SUL Já percebemos, no decorrer da disciplina, que faz parte do fundamen- to capitalista separar as pessoas em níveis sociais: de um lado, o dono do capital, e, de outro, o proletariado. Esse fundamento esclarece o enriqueci- mento versus pobreza. Por isso, dizemos que é o próprio sistema capital que desencadeia a desigualdade social, que induz às seguintes consequências: uma minoria de crianças com educação formal garantida e uma maioria afas- tada das escolas; uma porcentagem pequena de crianças estudando em es- colas privadas e uma parcela grande em escolas que falta uma boa infraestrutura que leva ao comprometimento do ensino; uma minoria de docentes com um salário razoavelmente adequado e a maioria com salário desprezível. De certa forma, já nos acostumamos a conviver com a realidade de executivos, deputados, ministros, governadores, atletas, artistas, que rece- berem altos salários, consomem artigos caros, frequentam restaurantes bons. Além disso, existem poderosos industriais, empresários a abrir falência, mas prosseguindo e usufruindo do bom e do melhor (RODRIGUES,2007). 76 :: Sociologia da Educação :: Em contrapartida, temos consciência de crianças que trabalham mais de oito horas por dia para receberem meio salário mínimo no final do mês. Ademais, pais de família se sujeitando a empregos transitórios, sem estarem documentados na carteira de trabalho. Além disso, homens que têm a mes- ma função que as mulheres e recebem um salário maior que elas. Ainda encontramos, em pleno século XXI, negros que, por sua origem afro-brasi- leira, exercem funções inferiores em relação aos de outras descendências. (op. cit., 2007). Essa realidade mostra-nos que a desigualdade social está associada à economia, à política, à educação, ao gênero e à etnia do país. O resultado leva a modos de vida diferentes em uma mesma região e cultura, onde uma parcela grande das pessoas não tem permissão para sonhar com uma vida melhor, com mais dignidade. Além do mais, essa falta de esperança econô- mica, cultural, educacional, política, social faz crescer a violência e a desobe- diência às regras, às normas e às leis sociais. 77 :: Sociologia da Educação :: Quanto à violência, o índice de homicídios em cidades bra- sileiras é quatro vezes superior ao valor considerado moderado pelos padrões internacionais, determinado por cinco homicídi- os/ano para grupo de 100 mil habitantes. Assim, uma cidade como São Paulo teria uma violência considerada moderada se houves- se 750 homicídios/ano. Entretanto, o índice paulistano supera os três mil. (MEKSENAS, 2011, p. 131). Para este autor citado, toda essa realidade mostra-nos que não damos a devida atenção para a desigualdade social e, mais, equivocadamente, acha- mos que ela é derivada da pobreza e é própria de países pobres. Entretanto, a verdade é que a desigualdade está relacionada aos padrões ricos da socie- dade e à concentração de renda, ou seja, organização socioeconômica capaz de produzir infinitos bens de consumo e, ao mesmo tempo, de não os distribuir. Dessa forma, a luta para diminuir significativamente a de- sigualdade social precisa que os governantes de um país adotem as políticas públicas de dividir a riqueza armazenada. A África é o continente que apresenta altos níveis de pobreza, porém as desigualdades sociais da América do Sul é maior que a dos africanos. Não estamos incluindo Cuba, que é considerado o país mais pobre da América Latina. Mesmo sendo o mais pobre, apresenta um padrão de educação e saúde parecidos com os da Europa e melhores que os do Brasil, ainda que nosso país seja considerado o mais rico da América do Sul. Na opinião de Meksenas (2011), o Estado como instituição política tem a responsabilidade de organizar, executar e avaliar ações, planos e leis que apresentem condições de limitar os lucros exorbitantes do capital sobre o trabalho. Somente assim, essa instituição tem condições de garantir cen- tros de saúde, hospitais públicos, escolas, capital para administrar a previdên- cia social, casas populares e, até, produzir empregos. Uma das formas de redistribuir a riqueza acumulada em um país é por meio da arrecadação dos impostos. Na América do Sul, ao invés de redistribuir a arrecadação acumulada, esse nosso continente acaba por centralizar ainda mais. Debater a arrecadação de imposto de renda indica debater a car- ga tributária de um país. A tabela a seguir traz referências sobre esse assunto: 78 :: Sociologia da Educação :: Essa tabela mostra-nos que o Brasil é o país que mais arrecada impos- tos. Isso quer dizer que temos recursos e que poderíamos ter um sistema de saúde, de educação de primeiro mundo. Por quê não temos? Deveras, atualmente, ocorre o mau uso do dinheiro público e a possibilidade de trapa- cear a lei, sonegando impostos, aumentando, assim, a desigualdade social em nosso país. Além do mais, temos muitas empresas capitalistas, mas que usam fachadas de instituição filantrópica e que, por isso, são isentas do paga- mento de impostos, tais como clubes e escolas particulares. O sociólogo Kliksberg (2000) citado por Meksenas (2011, p. 134) mos- tra-nos alguns índices que revelam a concentração de renda no caso especí- fico do Brasil: 79 :: Sociologia da Educação :: É importante observar essa tabela, pois ela mostra-nos que, de 1970 a 1994, a renda nacional do 1% mais rico quase dobrou, em comparação a dos 25% mais pobres que diminuiu. Outro fato importante é que, no mes- mo período, o valor do salário mínimo nosso reduziu em aproximadamente 30%. Antes de falarmos da desigualdade na educação, devemos saber que, neste século XXI, a educação aparece como um elemento influente não só para o desenvolvimento econômico, mas também da competitividade na realidade globalizada. Sabendo que, por meio da educação, podemos dimi- nuir significadamente as desigualdades sociais. Percebe-se, nessa tabela, que se aumentou a proporção de crianças entre 7 a 14 anos que frequentam a escola em nosso país, tanto do sexo masculino quanto do sexo feminino, negros e brancos de ambos os sexos. Hoje, as inscrições no Ensino Fundamental, na América do Sul, ultra- passam os 90%. Atualmente, o número de analfabetos diminuiu. Entrementes, a grande preocupação da educação em nosso país está voltada para o fracas- so escolar e para a baixa qualidade do ensino para filhos da classe operária. A desigualdade social que se manifesta na educação acaba por reproduzir outras desigualdades. Sabemos que apenas com um bom nível de escolarização da população será possível de- senvolver o país. (MEKSENAS, 2011,p. 136) Atualmente, aqui no Brasil, completam o Ensino Fundamental e dão continuidade aos estudos uma média aproximada de 93% dos alunos de nível socioeconômico mais alto e somente 63% dos filhos da classe operária continuam os estudos. Conclui-se que a chance de estudar está associada ao nível socioeconômico do aluno. 81 :: Sociologia da Educação :: CAPÍTULO I0 10 SOCIEDADE E A EDUCAÇÃO: ESTABLET E BAUDELOT Neste capítulo, desenvolveremos o pensamento desses dois sociólo- gos sobre a educação na política capitalista. 4 Christian Baudelot e Roger Establet Baudelot e Establet são sociólogos e professores de Sociologia da Edu- cação na Universidade da França. Seguidores de Marx, buscam desenvolver um conceito crítico da educação no sistema capitalista. Baseados na premis- sa de que a sociedade capitalista é desigual por causa do abuso de uma classe social por outra, o sistema educacional que ocorre na escola também é de- sigual, pois a escola é uma instituição sob comando da classe dominadora que produz a desigualdade social. Eles vão além ao afirmarem, com bases nas pesquisas e estudos que realizaram, que “a escola é a instituição mais eficiente para segregar as pes- soas, por dividir e marginalizar parte dos alunos com o objetivo de reprodu- zir a sociedade de classes.” (MEKSENAS, 2011, p.71). Essas pesquisas que Baudelot e Establet realizaram ocorreram nas es- colas francesas em um sistema capitalista, que não é diferente do nosso. Nesses estudos, eles constataram a presença de dois tipos de ensino: um para filhos de empresários e outro para classe trabalhadora. 82 :: Sociologia da Educação :: O ensino destinado para filhos de empresários, isto é, para a classe dominante, estava nas melhores escolas, com boa estrutura, biblioteca farta e atualizada, laboratórios bem equipados, com tempo e recursos financeiros para os seus estudos. Em contrapartida, os filhos das classes trabalhadoras estudavam nas escolas inferiores. Os filhos da elite fazem atividades extra classe, tais como: cursos de idiomas, esportes, música. Os filhos do proleta- riado, por outro lado, não têm a mesma oportunidade de participarem de cursos complementares. Para esses dois sociólogos, a classe dominante estuda para se manter como classe dominante: são estes alunos que terminam a Educação Básica e ingressam na melhores faculdades. Já aclasse trabalhadora estuda para se manter como classe dominada: trata-se daqueles estudantes que mal che- gam a terminar o Ensino Básico, de maneira que poucos concluem o Ensino Médio e labutam muito para ingressarem em um curso profissionalizante ou técnico. (KUENZER, 2007). Essa diferença de escola não aparece de maneira transparente, ela con- vivem de maneira disfarçada. Visivelmente, a escola apresenta-se como igual para todos, baseadas na Leis e Diretrizes e Bases. 83 :: Sociologia da Educação :: Para autora citada acima, esses dois sociólogos seguem as ideias de Marx a respeito da instituição educacional, com a função de reforçar a ideo- logia capitalista, que trabalha em prol da classe dominante, como se esse interesse privativo fossem de toda a sociedade. Dessa forma, a escola acaba repassando para os alunos os mesmos valores, ideais, costumes, cultura da classe dominante, como uma realidade única, como uma verdade justa, acer- tada e viável. Usando as palavras de Meksenas (2011, p. 72): O processo de escolarização é diferente para cada uma das classes sociais, embora a ideologia tente mostrar que é o mesmo. A classe empresarial recebe uma escolarização que lhe permite obter os conhecimentos necessários para o seu exercí- cio de classe dirigente. A classe trabalhadora passa por uma rede de escolarização que lhe possibilita apenas exercer um trabalho disciplinado dentro de sua condição de classe dirigida. A forma, a maneira, a didática, os modelos de comportamento, as for- mas de se expressarem as ideias e os pensamentos que o professor usa para transmitir os conteúdos da sua disciplina são chamados, aqui, de discurso. Para Baudelot e Establet, esses discursos ocorridos no interior da es- cola, mais precisamente nas salas de aula, são reproduções da realidade da classe dominadora, do seu cotidiano, e são parecidos com as normas e valo- res transmitidos pelas famílias da elite. A escola é o prosseguimento da vida habitual das famílias da elite. Os discursos são os mesmos. No caso da classe trabalhadora, ocorre o inverso: quando a criança entra na escola, ela encontra um discurso elitizado, um discurso fora da sua realidade, fora do seu contexto, do seu cotidiano. Nessa situação, segundo esses sociólogos, a escola não é considerada a continuação da casa dela, da vida dela; trata-se, porém, de uma ruptura, de outra realidade. A criança acaba encontrando dificuldades de associar esses novos conhecimentos, porque não consegue interpretar esses discursos. Dessa maneira, não ocor- re assimilação com a sua realidade, com a experiência de vida, enfim, não se assemelha ao seu cotidiano. Essa realidade escolar leva a criança de nível socioeconômico inferior a se sentir deslocada, ameaçada, inibida. A todo momento, existe um professor mostrando que a forma dela falar é errada, intimidando-a, de maneira que isso tudo faça com que a escola se torne distante desse aluno. (KUENZER, 2007) 84 :: Sociologia da Educação :: Meksenas, (2011, 74) cita esses sociólogos no texto a seguir: [...] por tratar com a mesma linguagem crianças de classes sociais diferentes, a escola reproduz a desigualdade. Enquanto a criança da classe burguesa conhece esta linguagem, pois a vive no cotidiano, a criança pobre se encontra diante de linguagem nova que terá de dominar com muito esforço e sacrifício. Esse fato se reflete no aprendizado dessas crianças, pois enquanto a primeira aprende com facilidade, a segunda terá muita dificulda- de. E óbvio que o desempenho da criança pobre na escola capi- talista será diferente do desempenho da criança rica. Acreditamos que tenha ficado clara essa questão da desigualdade social e a educação. Explica-se o porquê tantos alunos da classe trabalhadora aca- bam não continuando os estudos, parando no Ensino Fundamental ou, quan- do muito, terminando o Ensino Médio. Esses sociólogos, Baudelot e Establet, tentam mostrar que a culpa da derrota escolar não é da própria criança e da sua família. Entretanto, sempre tem alguém afirmando que a criança de nível socioeconômico inferior, que não tem uma alimentação rica e balanceada, acaba apresentando pouca ca- pacidade para aprender; além disso, comentam que os filhos de famílias frag- mentadas levam as crianças a não se interessarem pelo ensino escolar. Os filhos de pais pobres não se sentem estimulados e não se interessam e nem gostam de estudar e, por conta disto, não são competentes suficientemente para triunfar na vida. Com esses argumentos, fica fácil não culpar a escola, mas depositar a culpa na criança e sua família pela derrota escolar. De qualquer maneira, Agnès Van-Zanten (1988, p. 185), nos diz que: “os elos sociais entre as famí- lias e a instituição escolar sempre estiveram no centro das preocupações dos sociólogos da educação” Neste sentido, temos uma entrevista do sociólogo francês Bernard Lahire para a revista Educação, de maio de 2012, na qual foi questionado sobre o fato de o ambiente familiar poder explicar o sucesso escolar de uma criança e o fracasso escolar de outra, de modo que essas crianças não só vêm do mesmo bairro classificado de classe média baixa, mas também apre- sentam a mesma condição econômica e social, além de que frequentam a mesma escola e têm os mesmos amigos. As causas do fracasso ou o sucesso escolar são eminente- 85 :: Sociologia da Educação :: mente sociais e a família está no centro dos problemas. Mas o caráter social destes problemas faz com que eles não se redu- zam às características do meio familiar. Sabe-se que um aluno que vem de uma família na qual o capital cultural se destaca tem mais chances de ter um bom percurso escolar. Mas se entramos nos detalhes de experiências individuais, veremos que as crian- ças com bom desempenho são as que conseguiram encontrar apoios (escolares ou extraescolares) para dar um sentido à es- cola. Esse apoio é forte e evidente quando os pais têm capitais culturais consolidados e disponibilidade para passá-los aos seus filhos. Entretanto, pode acontecer de a criança conhecer outras pessoas em que essas características se fazem presentes - são as chamadas experiências extrafamiliares. Isso explica o fato de que pais com forte capital cultural podem ter filhos com dificul- dades escolares quando as condições não estão reunidas para transmitirem os capitais que portam, ao mesmo tempo que pais com fraco nível cultural podem ter filhos estudiosos. 4 Bernard Lahire Este sociólogo afirma que: “só há uma maneira de fugir do fracasso escolar: instituir políticas que modifiquem o ambiente das crianças com es- truturas familiares frágeis.” É importante que se lembre, ainda, nessa mesma entrevista, que a So- ciologia não tem o objetivo de mostrar à família, ou mesmo à escola, o que deve ser feito. O que se pode dizer é que muitas imparcialidades são realiza- das no que se diz respeito aos pais de estudantes em dificuldades. 86 :: Sociologia da Educação :: Deduz-se que, rapidamente, são levados a se demitirem-se excluirem – as ações da própria escola faz isso. O sociólogo tem a função de avisar que certos pais apresentam dificuldades sociais que os levam a se afastarem ou desviarem da vida escolar de seus filhos. Se desejarmos que esses pais se tornem mais presentes e incentivem melhor seus filhos na educação escolar, é necessário e importante que a sociedade dê as condições para essa realiza- ção, por exemplo: empregos estáveis, salários suficientes, tempo e horários disponíveis, com a escolarização de seus filhos, etc. Em relação ao papel do professor, de acordo com Lahire (2012), não é raro termos educadores não só professores, mas também orientadores educacionais e outros que buscam informações sobre a vida familiar, o que inclui: separações conjugais, doenças, desemprego, nível de escolaridade, com o objetivo de conhecer e compreender melhor seu aluno, buscando apri- morar sua atuaçãopedagógica. Pois o valor do filho, para as famílias de baixa renda, passa a ser medi- do, em uma grande parte, pelo seu grau de escolaridade. Os métodos esco- lares admitem um lugar de importância na vida das famílias. O trabalho e os investimentos em prol da escolarização compõem um dos poucos entendi- mentos de ordem social em assunto de valores morais, de acordo com Nogueira, (1998). No entanto, Baudelot e Establet, citados por Meksenas (2011, p.76), denunciam que a escola, sutilmente, por meio de sua linguagem, marginaliza a criança pobre. Essa proximidade com um discurso diferente do seu dia a dia inicia desde o primeiro ano de sua escolaridade no Ensino Fundamental. É, dessa forma, instaurado o processo de exclusão e desigualdade da classe trabalhadora. Seguindo o pensamento desses sociólogos de que a escola trabalha para a classe dominante e que acaba reproduzindo a divisão de classes, o docente também desempenha o papel de reprodutor dessas diferenças so- ciais, pois, se a escola trabalha para a classe empresarial e o professor tem uma atuação marcante, podemos deduzir que o docente está ajudando a reproduzir a desigualdade social. (KUENZER, 2007). Para esses sociólogos, os docentes surgem como os primeiros a aca- tar as regras da escola e a instituir essas mesmas regras nos seus alunos. Depois, esses professores educam seus alunos, para que eles produzam na instituição escolar como se produzissem em uma fábrica de montagem, por meio de gratificação e punição, pois é o professor quem dá recompensa ou puni o aluno. 87 :: Sociologia da Educação :: É a partir do eixo recompensa–punição que o professor encontra meios para controlar seus alunos de tal forma que inibe aqueles que possuem valores sociais diferentes dos encontrados na escola, favorecendo o aparecimento do aluno padrão: sub- misso. Nesse sentido, nem sempre a nota, prova ou avaliação correspondem a uma forma de medir o crescimento intelectual de uma criança. São instrumento de controle do professor para punir alunos tidos como maus, que as vezes são os mais criati- vos. (MAKSENAS, 2011,78). Entrementes, também temos situações em que o papel do professor foi de grande valia para o desenvolvimento intelectual daqueles que fazem parte da classe assalariada, como nos mostra o sociólogo Bernard Lahire em sua entrevista Revista da Educação, maio 2012: Os depoimentos das pessoas que vêm de meios populares e que tiveram sucesso na escola mostram o papel de certos pro- fessores que atuam no papel de pigmaleão [quando uma influên- cia positiva ajuda a mudar uma trajetória que evoluía de uma for- ma negativa]. Um exemplo famoso é o do escritor francês Albert Camus, que conta como o seu instrutor incentivou a sua família a inscrevê-lo em um liceu (escola de ensino médio na França) para que ele pudesse continuar os seus estudos. Neste momento, é importante tirarmos as dúvidas sobre a classifica- ção das classes sociais no Brasil. Algum tempo atrás, as classes D e E manti- nham a maioria da nossa população, de acordo com Coelho e Coelho (2011). Hoje, a maioria é composta da classe C, oriunda de uma migração das clas- ses D e E – classes formadas por pessoas menos beneficiadas. Antigamente, falávamos em pirâmide de classes sociais em nosso país. As classes D e E eram a maioria no Brasil, formando uma grande base nessa pirâmide, segundo Coelho e Coelho (2011). 88 :: Sociologia da Educação :: No mês de dezembro de 2010, essa pesquisa foi realizada com 1500 pessoas envolvendo 70 cidades. Dessas 70, nove são das regiões metropoli- tanas. No ano de 2010, 19 milhões saíram das classes D e E, ingressando na classe C, e 12 milhões deixaram a classe C e evoluíram para a AB. Em 2005, cinco anos atrás, antes dessa pesquisa, as classes A, B e C juntas representa- vam só 49% da população brasileira e, em 2010, apresentavam um total de 74%. Restam ainda 36% para formar a base da pirâmide, que começa a tomar forma mais igualitária. O próprio gráfico mostra que as classes D e E vem diminuindo e aumentando a classe C. No final de 2010, a classe C, ou melhor dizendo, a classe média brasi- leira aumentou 19 milhões de pessoas, passando a um total de 101 milhões de pessoas, o que significa 53% da população do país. De acordo com dados de 2005 do Coeficiente de Gini do Brasil (CIA), trata-se de 56,7. Esse nível mede a desigualdade na distribuição de renda, de modo que: Ø Igual a 100, indica-se uma distribuição totalmente desigual; Ø Igual a zero (0), indica-se total igualdade na distribuição da renda. Países como a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia e muitos outros da Eu- ropa apresentam coeficiente abaixo de 30. No mesmo escalão do Brasil, estão países, tais como: Guatemala, Colômbia, Honduras, Zimbábue e Haiti. Além do Coeficiente de Gini, temos outro indício da distribuição de renda: é a relação entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres da popu- lação. Nesse caso, as melhores relações tendem a ser menores que 10 (che- gando próximo a níveis tão bons quanto 4). No Brasil, infelizmente, a relação é de 49,8 (ainda de acordo com dados da CIA). Essa relação é comparável a de países como Guatemala, Venezuela e El Salvador. Torna-se importante esclarecer que a classificação de classes sociais utilizada no Brasil segue o estabelecido no Critério de Classificação Econô- mica Brasil, ou Critério Brasil. Esse Critério Brasil define as classes sociais em posição do poder aquisitivo de compra e consumo de determinados produtos. Por exemplo: caso uma família tenha acesso a cada um dos produ- tos, ela ganha pontos, que vão sendo adicionados e comparados com uma tabela. A classe social dessa família é determinada pelo número de pontos que ela conseguir somar. Sabendo que, nesse Critério Brasil, existem sete (7) classes econômicas diferentes, quais sejam: A1, A2, B1, B2, C, D, E, de acordo com (COELHO e COELHO, 2011) 89 :: Sociologia da Educação :: Vamos fazer um pequeno teste para sabermos em qual classificação social estamos? Tendo seus pontos somados, compare com as faixas de corte abaixo para determinar qual a classe social de sua família: A tabela acima é a que determina em qual classe social o indivíduo se insere. 90 :: Sociologia da Educação :: REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, THEODOR. Reflexões a partir da vida danificada. São Pau- lo:: Ática, 1992. AULETE. Dicionário online da língua portuguesa. Disponível em: <http:// aulete.uol.com.br/agnosticismo#ixzz2TUwNxRzX>. Acesso em: 16/05/ 2013. AURÉLIO, Ferreira. Mini dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. BERNARDES, Cyro. Sociologia da Administração. São Paulo: Saraiva, 2003. BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean Claude. Elementos para uma teo- ria do sistema de ensino. Barcelona: Laia, 1976. BRANDÃO, Carlos, Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 2000. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Àtica, 2001. 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