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UNIDADE I INTRODUÇÃO Dos clássicos aos contemporâneos: permanências e rupturas na teoria sociologia Ao longo do tempo, o estudo da diversidade humana ganhou mais profundidade e abrangência. Inicialmente notou-se que ela manifesta-se em diferentes níveis, como nos aspectos linguísticos, religiosos, étnicos, culturais e econômicos. Porém também se percebeu que ela é muito mais do que isso: é uma característica intrínseca da natureza humana, que é parte fundamental de nossa existência. A diversidade humana é a capacidade que as pessoas têm de ser diferentes e únicas, de se expressarem de maneiras diferentes e de contribuírem de forma diferente para a sociedade. É a pluralidade de culturas, crenças, ideias e costumes que compõem a humanidade. Assim ela é um tema importante na Sociologia porque nos lembra de que somos diferentes uns dos outros, mas igualmente importantes, além de nos ajudar a entender a complexidade e a riqueza das relações humanas. Ao estudarmos a diversidade humana, podemos aprender a aceitar e a valorizar as diferenças entre as pessoas e assim aproveitar ao máximo o que nos torna únicos. Objetivos Ao fim desta unidade, você deverá ser capaz de: · Identificar as principais similaridades e diferenças entre a teoria sociológica clássica e a sociologia contemporânea. Conteúdo Programático Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas: · Tema 1 – O legado do pensamento de Marx, Durkheim e Weber. · Tema 2 – Autocontrole e civilização: o pensamento de Elias. · Tema 3 – Modernidade e racionalidade: as contribuições da Escola de Frankfurt. As transformações ocorridas após a Revolução Industrial modificaram a forma de organização e vida da humanidade ao longo de todo o planeta, em tempos diferentes, criando uma integração entre os países que nunca antes foi verificada. Esta ainda hoje é objeto de estudo para as ciências humanas em geral, pois, em um espaço de tempo histórico muito pequeno, “uniu” o que até então esteve separado por milênios. Figura 1: Paisagem de cidade inglesa durante a Revolução Industrial. Fonte: Wikimedia / Commons. Tema 1 O legado do pensamento de Marx, Durkheim e Weber Já ocorreu de você estar em um ambiente com pessoas que pouco conhece e sentir-se inseguro quanto a como se comportar? Influenciado pelo positivismo de Comte, Émile Durkheim prosseguiu com o objetivo de dar contornos e conteúdos à disciplina recém-criada, a Sociologia. Assim, munido dessa determinação e orientado pelo paradigma da Biologia, que prega a objetividade e a neutralidade do cientista, Durkheim dedicou-se a desenvolver de forma sistemática a teoria sociológica e seu método de pesquisa, entendendo-a como uma ciência e sendo o sociólogo obrigado a submeter seu trabalho ao rigor da metodologia científica, por meio da contínua comprovação das evidências coletadas. Fonte: Wikimedia Commons. Durkheim, portanto, adotou o método científico para o estudo da sociedade, a fim de compreender a relação entre as estruturas sociais e o comportamento humano. Para isso, ele enfatizou o uso da observação direta, da análise estatística e da comparação de dados para comprovar suas hipóteses e teorias sobre a sociedade. Além disso, Durkheim também desenvolveu uma teoria sociológica baseada no conceito de “consciência coletiva”, que é a ideia de que a vida social é regida por forças objetivas que transcendem as intenções individuais. Essa teoria foi influenciada pelo pensamento religioso e filosófico da época e serviu como base para muitos dos conceitos sociológicos que vieram a seguir. Durkheim também considerava a comparação de uma sociedade com outra como objeto e objetivo da Sociologia, constituindo-se em uma morfologia social para classificar as espécies sociais da mesma maneira que a Biologia fazia com as espécies animais. Ele procurou, entretanto, diferenciar as espécies sociais em função das épocas históricas pelas quais passavam as sociedades nas quais essas espécies estavam inseridas. As transformações sociais são mais efêmeras, enquanto a diversidade das espécies é mais constante. Em uma passagem do livro As regras do método sociológico, ele disse: Desde suas origens, passou a França por formas de civilização muito diferentes: começou por ser agrícola, passou em seguida pelo artesanato e pelo pequeno comércio, depois pela manufatura e, finalmente, chegou grande indústria. Ora, é impossível admitir que uma mesma individualidade coletiva possa mudar de espécie três ou quatro vezes. Uma espécie deve definir-se por caracteres mais constantes. O estado econômico, tecnológico etc. apresenta fenômenos por demais instáveis e complexos para fornecer a base para uma classificação. (DURKHEIM, 2001, p. 82) Para que o trabalho de constituição de uma morfologia social seja efetivamente considerado científico, Durkheim orienta os cientistas sociais a trabalharem com uma minuciosa observação empírica. Foi a partir desse empirismo que ele identificou os dois diferentes tipos de solidariedade existentes entre os indivíduos dentro de uma sociedade: a mecânica e a orgânica. Durkheim também foi pioneiro no uso de estatísticas para mapear as tendências sociais e descobrir as causas que as influenciam. Ele usou seus dados para desenvolver teorias sobre a divisão de trabalho, o individualismo, a anomia e outras questões que ainda são relevantes hoje. Esse sociólogo foi um dos primeiros a usar a noção de fato social para descrever como as regras e as normas da sociedade influenciam os comportamentos dos indivíduos. Em essência, ele propôs que os fatos sociais têm um poder coercitivo sobre os indivíduos, e que as instituições sociais têm um papel importante para manter a ordem. Além disso, Durkheim também propôs que a religião desempenha um papel vital na manutenção da ordem social. Ele argumentou que a religião oferece uma estrutura de crenças, valores e normas que ajuda os indivíduos a encontrarem um sentido de identidade, propósito e direção. Além disso, a religião pode servir como um meio de promover a solidariedade entre os membros da sociedade, ao criar laços de lealdade mútua. O sociólogo também acreditava que a religião poderia aumentar o compromisso dos indivíduos com a justiça social e ajudar a criar sentimentos de unidade e ligação entre as pessoas. Portanto ele argumentou que a religião é essencial para manter a ordem social, pois ela promove a conformidade, a integração e a solidariedade entre os membros da sociedade. Ele afirmou que as crenças religiosas ajudam a estabelecer normas, orientações e padrões de comportamento que asseguram o bom funcionamento da sociedade, a manutenção da ordem social e a harmonia entre os membros. Além disso, argumentou que a religião está ligada aos valores de justiça, honestidade e responsabilidade, que são fundamentais para o bem-estar social. Por outro lado, ele assegurou que a religião pode também criar conflitos por causa de diferenças de crença, o que leva à divisão da sociedade, e argumentou que, embora a religião possa oferecer aos seus seguidores consolo e orientação moral, ela também pode servir como um elemento divisor entre culturas e nações, especialmente quando as diferenças de crença são usadas como meios para justificar a violência e a discriminação. Por isso, ele sugeriu que as pessoas devem abordá-las de uma forma mais respeitosa e tolerante, assim como procurar encontrar um terreno comum que possa ajudar a construir pontes entre pessoas de diferentes religiões. Durkheim percebeu o suicídio como fato social, isto é, dependente de forças sociais mais do que da situação individual do suicida, o que se tornava evidente pela regularidade de suas manifestações: suicidase mais de dia do que de noite, menos em tempos de guerra do que em épocas de paz, menos os que têm fé religiosa do que descrentes e mais solteiros do que casados. Ele identificou quatro tipos de suicídio: egoístico, altruísta, anômico e fatalista. O primeiro ocorre quando a solidão e a ausência de vínculos sociais resultam em um sentimento de desesperança e de insatisfação emrelação à vida. O altruísta manifesta-se quando a pessoa sacrifica a própria vida para atender a pressões morais de uma comunidade (como acontece com algumas vítimas da guerra). O anômico surge quando a vida torna-se desorganizada e desregulada, o que acontece em sociedades com leis inadequadas ou com baixos níveis de integração social. Por fim, o fatalista é quando o suicida sentese impotente diante de um destino já traçado. Assim, para Durkheim, o suicídio não é resultado da ação de um único indivíduo, mas, sim, de um problema coletivo que se manifesta na vida de determinadas pessoas. O suicídio, portanto, é um fato social, dependente de forças sociais mais do que da escolha individual do suicida. Durkheim distingue-se dos demais pensadores sociais de sua época porque suas ideias iam além da reflexão filosófica, constituindo um todo e aliando teoria e metodologia no estudo da sociedade. Ele ia além do método científico das ciências sociais de sua época, também trabalhava com as particularidades em que vivia, levando em consideração os elementos de coesão de pequenos grupos de indivíduos. Ele já esboçava uma sociologia que relacionava o macro, o micro e o individual. Assim sendo, quebrou diversos paradigmas e limites que eram dados pela filosofia social da época, fazendo com que esta perdesse importância enquanto explicação da sociedade, tornando-o um clássico utilizado até hoje como referência para os estudos sociológicos. Muito influenciado pela conturbada história do século XIX, Marx inspirou-se em intelectuais utopistas importantes, como ClaudeHenri de Rouvroy, o Conde de Saint-Simon; e Georg Hegel, de quem absorveu a dialética como movimento histórico. Também se apropriou de algumas discussões propostas pelos liberais, como David Ricardo e Adam Smith. Rejeitando a tradicional visão linear da história, o filósofo Hegel concebeua como um movimento não evolucionista, que se desenvolve pela oposição de forças antagônicas, manifestadas por afirmação, negação e negação da negação. Para desenvolver sua teoria, Marx parte do princípio de que a estrutura social é consequência de como ela é organizada para a produção material (forças produtivas e relações de produção). Como forças produtivas, entendem-se as matériasprimas extraídas da natureza, o conjunto de ferramentas necessárias à produção e as técnicas de produção. As relações de produção são, por sua vez, a maneira como os homens entendem a organização para produzir e distribuir esses bens materiais, o que inclui as relações de trabalho entre os produtores. Essa portanto é a base material sobre a qual as classes sociais organizam-se. Fonte: Wikimedia Commons. Para Marx, cada sociedade e cada modo de produção estabelecem suas próprias relações de produção. Apenas nas comunidades primitivas, Marx identifica a ausência de classes sociais que nascem com a exploração do trabalho. Assim ser um servo, no feudalismo, significa não possuir terras, depender dos senhores feudais para obter alimentos e solidarizar-se com os interesses de outros trabalhadores em condição equivalente e, com eles, compartilhar valores, estilo de vida e visão de mundo. No capitalismo, as relações de produção são definidas pelo mercado e pela propriedade privada dos meios de produção. Os trabalhadores precisam associar-se para comprar os meios de produção e obter condições de trabalho melhores e proteção contra a exploração. Essa associação de trabalhadores é chamada de sindicato. Este tem como principal função defender os interesses dos trabalhadores e negociar com os empregadores. Por serem elementos intrínsecos ao modo de produção, as classes sociais são sempre antagônicas, complementares e interdependentes, pois uma classe só existe em relação e em oposição à outra, contra a qual lutaria, de acordo com as ideias de Marx. Essas classes são divididas em grupos econômicos principais, como a burguesia (donos de capital) e o proletariado (trabalhadores), e, de acordo com a teoria marxista, o conflito entre eles é o motor da história. Isso ocorre porque a burguesia é a classe dominante, que é a dona dos meios de produção e responsável por estabelecer as condições de trabalho e as relações de produção na sociedade. Nesse sentido: A teoria marxista privilegia as situações de conflito existentes na sociedade industrial (capitalistas versus operários). Os marxistas consideram que é a luta de classes, e não a harmonia social, que constitui a realidade da sociedade capitalista. A luta dos contrários é o foco da atenção desses pensadores. Ou seja, a dialética. Portanto, a dialética é um pensamento dinâmico. Você concorda? Ela está sempre construindo novos resultados e conhecimentos com base na contraposição de ideias. Entenda, porém, que esse método já era utilizado muito antes de Marx, mas foi ele que o retomou e reintroduziu no pensamento moderno. (MARCON, 2015, p. 27) Por outro lado, o proletariado é a classe dependente, que não possui meios de produção e é forçado a trabalhar para os donos de capital. Assim o conflito entre essas classes é intrínseco às relações de produção, pois a burguesia sempre tenta aumentar sua acumulação de riqueza e, para isso, exige cada vez mais tempo de trabalho dos trabalhadores. Aos poucos, intensificou-se o antagonismo entre capitalistas e operários, envolvendo a apropriação da riqueza produzida pautada em salários cada vez mais baixos, jornadas de trabalho mais longas e maior produtividade com o uso de tecnologia. Esse antagonismo gerou diversas formas de luta, como a formação de sindicatos, as greves e as passeatas. Por outro lado, os capitalistas buscavam cada vez mais lucros e encontraram um aliado na mão de obra barata. A partir dessa rivalidade, foram surgindo legislações trabalhistas para proteger os direitos dos trabalhadores, como a jornada de trabalho, as férias, os salários, as condições de trabalho e a estabilidade no emprego. Nesse sentido, as leis trabalhistas passaram a ser responsáveis por estabelecer o equilíbrio entre o interesse dos empresários em aumentar a produção e o dos trabalhadores em obter salários justos e condições de trabalho adequadas. Diante desse cenário, Karl Marx previa a superação do capitalismo pela revolução do proletariado. De acordo com a teoria marxista, o capitalismo é visto como uma estrutura que produz desigualdades sociais, pois os trabalhadores são explorados para obter maiores lucros para os capitalistas. A revolução do proletariado seria a forma de transformação social necessária para superar essas desigualdades, pois os operários deveriam ter o poder de controlar a produção e a distribuição da riqueza. Assim Marx previa a necessidade de uma ação revolucionária por parte dos trabalhadores para que o capitalismo fosse superado, e, para isso, ele acreditava que a consciência de classe destes deveria ser desenvolvida, para que eles se unissem e lutassem por sua emancipação. Porém a primeira revolução socialista não se deu nos países pioneiros da Revolução Industrial, mas, sim, na Rússia, durante a Revolução de Outubro de 1917. Esta foi liderada pelos bolcheviques e por Vladimir Lênin, que estabeleceram o primeiro estado socialista do mundo. Durante a revolução, a Rússia tornou-se o primeiro país no mundo a estabelecer um sistema socialista. Sob o governo dos bolcheviques, a Rússia passou a se chamar União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS e foi um dos principais países a desenvolver a ideologia socialista. O governo soviético criou um sistema de planificação central baseado na propriedade estatal dos meios de produção e na nacionalização das principais indústrias e serviços, além de diversas políticas de distribuição de renda e estabelecimento de direitos trabalhistas. Durante esse período, a economia soviética cresceu muito, tornando-se uma das mais avançadas do mundo. A partir da revolução, muitos outros países adotaram o socialismo como sistema econômico, por exemplo, China, Cuba, Coreia do Norte e antiga Iugoslávia, entre outros. Durante o desenvolvimento de suas ideias, Marx utilizou umaampla visão da história com conceitos de diversas áreas do conhecimento, além de uma análise minuciosa de seu período histórico, no intuito de explicar a origem das classes sociais e do capitalismo. É assim que ele atribui a origem das desigualdades sociais a uma enorme quantidade de riquezas que se concentra na Europa, do século XIII até a segunda metade do século XVIII, nas mãos de uns poucos indivíduos que têm o objetivo e as possibilidades de acumular bens e obter lucros cada vez maiores. No período pré-capitalista, a época em que os trabalhadores possuíam autonomia de seu trabalho, bem como dos meios de produção, deixou de existir em detrimento das corporações de ofício em que paulatinamente foram introduzindo-se e ampliando a divisão social do trabalho, sendo dominada pela burguesia comercial cada vez mais enriquecida pelos lucros do mercantilismo. Na segunda metade do século XVIII, na Inglaterra, a Revolução Industrial levou os artesãos individuais à falência. Todos os meios de produção ficaram acessíveis somente aos ricos membros da burguesia, fazendo com que os artesãos, desprovidos de capital, não pudessem competir com essas novas estruturas produtivas. Sem mercado para a venda de sua produção (muito mais cara que as mercadorias produzidas pelas fábricas), os artesãos viram-se obrigados a procurar trabalho como operários nas modernas indústrias. Com isso, surge uma nova classe social: o proletariado. No capitalismo, a força de trabalho é considerada uma mercadoria, porém não uma qualquer, é considerada como uma mercadoria sui generis, pois é a única capaz de criar valor, possuindo vontade própria e tendo a possibilidade de reprodução. Antes de Marx, os autores clássicos da economia já haviam trabalhado essa ideia ao reconhecerem o trabalho como fonte de riqueza da produção social, bem como teorizado que o valor das mercadorias estava relacionado ao tempo de trabalho gasto em sua produção. Marx complementa dizendo que esse tempo de trabalho estabelecia-se em relação às habilidades individuais e às condições técnicas e tecnológicas disponíveis na sociedade. Nesse sentido, ao valor de uma mercadoria era acrescido o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção. Com isso, ao valor das mercadorias, eram incorporadas as várias habilidades exigidas para a realização do trabalho e todos os tempos de produção necessários. Para exemplificar, vamos imaginar a seguinte situação: um capitalista possui capital necessário e quer investir na produção de sapatos, usando como unidade de valor uma moeda para determinar custos e lucro e supondo que o custo de produção de cada sapato (matéria-prima, maquinário, energia e impostos) some 100 moedas e o salário diário pago a cada trabalhador seja de 50 moedas. Com isso, o valor de cada par de sapato será de 150 moedas, representando a despesa do capitalista. No entanto, no capitalismo, o dono do meio de produção produz com o intuito de obter lucro (com a venda das mercadorias produzidas, ganhar um valor maior daquele investido inicialmente). No exemplo do parágrafo anterior, isso não acontece, pois o valor final da mercadoria é o mesmo do valor do custo de sua produção. Então como o capitalista faz para obter o lucro? A resposta mais simples e imediata seria aumentar o preço da venda da mercadoria para 180 ou 200 moedas, porém isso seria uma solução pontual que acarretaria problemas futuros, pois atrairia mais pessoas interessadas em produzir sapatos pelo alto valor de venda, correndo o risco de ter uma quantidade muito grande desse produto no mercado, diminuindo assim seu valor até ficar menor que o custo de sua produção. Para Marx, não é na relação de compra e venda das mercadorias que se encontram as bases para o lucro individual dos capitalistas nem para a manutenção do sistema. Para entendermos o conceito de lucro para Marx, voltemos ao exemplo da produção de sapatos. Na fábrica em questão, a jornada de trabalho diária de cada operário é de nove horas, sendo que cada um produz um par a cada três horas. Nessas três horas, ele produz o valor equivalente ao seu salário (necessário à sua subsistência); nas seis horas restantes do dia trabalhado, o operário produz mais mercadorias, gerando para o capitalista um valor maior daquele recebido na forma de salário. A duração da jornada de trabalho será determinada pelo capitalista em função de seu interesse na obtenção do lucro. Nessa jornada de nove horas, ao final da qual o operário produzia três pares de sapatos, cada par continua valendo 150 moedas, porém agora ele custa menos ao dono do meio de produção. É que, na conta do valor dos três pares, a quantia investida nos meios de produção também foi multiplicada por três, no entanto, a quantia relativa ao salário – correspondente a um dia de trabalho – permaneceu a mesma. Desse modo, o custo de cada par de sapatos reduziu-se a 116 moedas. A conta é simples: na jornada de três horas, o custo do par é de 150 (100 dos meios de produção mais 50 do salário); já na jornada de nove horas, o custo dos meios de produção das três horas é multiplicado por três, ficando em 300 moedas. O salário continua sendo de 50 moedas. O custo total agora é de 350 moedas. Dividindo isso pelos três períodos de três horas da produção de cada sapato, o custo final fica de 116 moedas por sapato. Percebe-se que uma coisa é o valor do salário; e outra, o quanto esse trabalho rende ao dono dos meios de produção. Esse valor excedente é denominado por Marx de mais-valia. Com os olhos voltados para as sociedades políticas e economicamente estabelecidas, como a França e a Inglaterra, Marx e Durkheim pensaram a sociedade a partir de suas estruturas. Max Weber, embora influenciado por ambos, não privilegiou essa visão macrossociológica assim como a ideia de um desenvolvimento histórico comum a todas as sociedades, fosse ele o materialismo histórico ou o evolucionismo positivista. Trata-se portanto de uma prática investigativa indutiva. Fonte: Wikimedia Commons. Weber esforçou-se para compreender a sociedade a partir de suas particularidades, buscando entender as ações individuais e como elas eram influenciadas pelo contexto social específico. Ele então se concentrou na análise do significado que atribuímos às nossas ações e como elas são influenciadas por nossas crenças e nossos valores. É nessa perspectiva que ele desenvolveu o conceito de “atos racionais”, que trata de nossa capacidade de pensar logicamente sobre o que fazer em determinada situação. Nesse sentido, Weber acreditava que os indivíduos têm a capacidade de escolher seus próprios fins e meios, ao contrário da visão determinística de Marx e Durkheim, e que isso é o que dá significado a nossas vidas. Para entendermos como Weber descreveu suas principais análises da vida social, precisamos dizer que, para ele, diferentemente do que já havia sido falado por outros autores, não há oposição entre indivíduo e sociedade, porém ambos integrados na ação social. Essa ação é condicionada em função de outros atores sociais, dos quais o agente espera uma ação recíproca. Os fatores fundamentais para a ação de determinado agente repousam tanto em sua causa quanto no contexto histórico do local de onde a ação está sendo executada. Com isso, temos a clara percepção que o agente da ação social é uma das categorias essenciais para o estudo da sociedade segundo o método weberiano. Para Weber, a motivação dos agentes sociais não é somente econômica, mas tem origem também nas crenças e nos valores de cada um. Dessa forma, a análise de Weber sobre a vida social baseia-se na interação entre indivíduos e seu contexto histórico, o que lhe permite estudar o comportamento social com mais profundidade. Assim, a concepção de ação envolve as ideias de interação social e de reciprocidade nas relações estabelecidas por indivíduos e grupos em um dado contexto social. Se temos como ponto de vista a ação vinculada a essa interação, devemos trabalhar com a relação entre ação e comportamento, pois este implica a atuação do indivíduo. Porém, essa atuação não se encontradistanciada no que Domingues (2004) denomina INTENCIONALIDADE, que demarca a motivação de indivíduos e grupos para agir e, por sua vez, engloba ação e reação. Nesse sentido, se considerarmos a interação social, devemos considerar, consequentemente, os outros indivíduos e as situações sociais que são a base do agir de indivíduos e grupos. Weber (1982) defende que o elemento definidor da ação é o sentido estabelecido no agir; este, por sua vez, não se encontra distanciado do que está presente na sociedade. Assim, definindo a ação, o sentido define também o processo de interação. Se nos atentarmos, podemos compreender por que a teoria da ação é o elemento constitutivo das chaves analícas na contemporaneidade. (NERY, 2017, p. 15). Weber tratou de diversos assuntos em suas obras: da política à economia e da vida cotidiana à ética. Abordou sobre o poder e as formas de governo e o direito e a família. Porém deu especial importância a um tema: a religião e seu papel na vida econômica moderna. Ele argumentou que a religião protestante, como a calvinista, desempenhou um papel relevante na formação da base social para a economia moderna. Ele alegou que a crença na predestinação, na qual uma pessoa é julgada com base na vida que leva, e não nos padrões sociais, levou as pessoas a acreditarem que o trabalho árduo e a economia eram uma forma de cumprir sua vontade divina. Isso ajudou a criar o espírito empreendedor que é necessário para o desenvolvimento de uma economia moderna. Além disso, Weber expôs que a crença na predestinação levou os cristãos protestantes a acreditarem que eles não poderiam comprar seu caminho para o céu, o que permitiu que se concentrassem em acumular riquezas materiais em vez de espirituais. Essa crença levou à criação de um capitalismo moderno que foi um grande motor para o crescimento econômico. Weber também argumentou que a religião protestante tinha um impacto significativo na forma como a vida econômica era encarada e que a noção de que o trabalho árduo era uma forma de obediência à vontade divina ajudou a legitimar o trabalho como algo positivo e importante, e isso criou as condições necessárias para o crescimento econômico. Além disso, a crença na predestinação levou à geração de um sistema de economia capitalista que privilegiava a riqueza material em vez da espiritual, o que também contribuiu para o crescimento econômico. Leitura Conceitos sociológicos fundamentais Autor: Max Weber Editora: Grupo Almedina (Portugal) Capítulo: 2 Ano: 2015 ISBN: 978-972-44-1559-8 Comentário: nesse trecho do livro, é dissecado o conceito de ação social weberiano. É um excelente complemento para um melhor entendimento da ideia e, com isso, estabelecer as conexões necessárias com o conteúdo aqui disposto. Disponível na Minha Biblioteca. Dentre as opções de que o sociólogo dispõe para compreender e interpretar a vida social, uma das mais importantes para Weber é a que ele chamou de “tipo ideal”. Trata-se de uma construção teórica abstrata que ele elabora por meio do estudo organizado das várias manifestações específicas de um fenômeno, no qual Weber acentua aquilo que lhe pareça característico ou instituidor. Nenhum dos exemplos representará de forma total o tipo ideal, mas manterá relativo grau de proximidade com esse conceito. Com isso, conseguiremos estabelecer comparações, além disso, identificar semelhanças e diferenças, constituindo uma ideia totalmente disruptiva que visa resumir aquilo que é essencial nas múltiplas manifestações da vida social, permitindo a identificação de exemplares em diferentes tempos e lugares. O tipo ideal não é um modelo pronto e acabado a ser buscado pelas formações sociais históricas nem a ser observado pelo cientista. Acaba por ser um elemento de análise científica, em um processo de construção do pensamento social, permitindo a conceituação de fenômenos, as formações sociais e a identificação da realidade observada. Ele é um mecanismo de análise de abstração que permite ao cientista fazer generalizações que podem ser usadas para explicar a realidade social. É usado para descrever e categorizar as formações sociais e identificar relações entre os elementos da estrutura social. É uma forma de pensar em termos de padrões, permitindo que o cientista extraia o significado de uma variedade de dados complexos. Um exemplo desse tipo de análise é a Teoria da Estrutura Social, desenvolvida por, além de Weber, Ferdinand Tönnies, que usa categorias para definir as relações entre grupos sociais. Ela propõe que as estruturas sociais podem ser entendidas mediante categorias, como classes, status, papéis e poder. Estas são então usadas para explicar como as relações entre grupos sociais são estabelecidas. A Teoria da Estrutura Social também permite ao cientista examinar como as estruturas sociais mudam e evoluem ao longo do tempo. Indicação de filme O jovem Karl Marx Ano: 2017 Comentário: aos 26 anos, Karl Marx embarca com a mulher, Jenny, para o exílio em Paris. Lá eles encontram Engels, filho de um industrial inglês que estudava o início da formação da classe operária inglesa, trazendo para Marx o ingrediente que faltava para a receita completa de sua visão de mundo. Marx leva para o exílio então o que seria o embrião de sua obra mais importante: o Manifesto do Partido Comunista. Já em Londres, Marx e Engels dedicam-se a publicar artigos sobre política e economia e a escrever obras teóricas. Durante esse período, Marx desenvolveu ainda mais sua teoria do materialismo histórico-dialético, que veio a ser a base do marxismo. O Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, resume essas ideias e torna-se um marco na história da teoria marxista. Para conhecer mais sobre o filme, acesse o trailer a seguir. Tema 2 Autocontrole e civilização: o pensamento de Elias Pesquisas demonstram que ouvir o próprio nome ativa mais certas áreas do cérebro do que qualquer outro som. Por que você acha que isso acontece? Os estudos sociológicos têm apontado que a alteridade é o elemento principal na condição humana, ou seja, a relação do eu com o outro, em uma oposição dialética. Cada um deles percebese segundo uma realidade própria e intrínseca, na medida em que se distingue de outro diante do qual se posiciona e com o qual interage. A alteridade é assim, uma relação estabelecida entre duas partes, que não se reduz a nenhuma das duas e contribui para o desenvolvimento da identidade de cada uma. A partir daí, é possível perceber como a alteridade desempenha um papel fundamental na vida social, pois ela possibilita o encontro entre as diferenças e a troca de experiências, além de contribuir para o desenvolvimento das relações humanas, pois, ao tratar com alguém diferente de nós, somos forçados a transpor nossas próprias fronteiras, provocando novas formas de pensar e atuar. É assim que nos tornamos mais abertos ao mundo, ampliamos nossas perspectivas e aproximamo-nos de outras culturas. Em suma, a alteridade é a chave para a compreensão e a convivência harmoniosa entre as pessoas. Norbert Elias foi um dos sociólogos que estudou essa relação entre o eu e os outros do ponto de vista de um processo que ele chamou de “individualização”. Essa liberdade estimula a experiência própria da individualidade, ou seja, de constituir um ser único e independente. Por outro lado, essa experiência faz surgir o sentimento de responsabilidade para com o outro e para com a sociedade. Assim há um processo contínuo de responsabilização e solidariedade, que pode ser visto como um dos principais fatores para a formação de uma identidade e de relacionamentos sociais saudáveis. Complementando, Elias deixa clara sua concepção sociológica na relação existente entre os processos sociais e as ações individuais. Para ele, esses dois elementos são inseparáveis, trazendo à tona, em sua teoria, um alerta de que não podemos visualizar simplesmente o indivíduo, mas sempre trabalhar sociologicamente o contexto no qual ele se encontra inserido, e aquele que é originado por ele em processo de interação. É isso queElias denomina SOCIEDADE DE INDIVÍDUOS – esse é, inclusive, o nome de uma das suas obras mais conhecidas. (NERY, 2017, p. 75) Esse período da existência é revivido inicialmente pela criança no estádio do espelho e atinge a maturidade no adulto, quando este identifica-se com sua história, como resultado de escolhas e opções individuais. A experiência da vida é caracterizada por um processo de desenvolvimento contínuo, no qual os momentos de escolha e os de aprendizagem são fundamentais para a formação de cada indivíduo. O desenvolvimento pessoal é o resultado da interação entre diversos fatores, externos e internos, e influenciado por cultura, educação, experiências, relacionamentos e muitos outros motivos. Portanto, ao longo da vida, o desenvolvimento pessoal depende da tomada de decisões que influenciam o crescimento da personalidade, os valores, as habilidades e as competências individuais. Saiba mais Um dos ramos da Sociologia, a microssociologia, faz um enfoque qualitativo no estudo das relações singulares e cotidianas. Teve como principal precursor Max Weber e como seguidores dessa abordagem Herbert Mead (18631931) e Erving Goffman (1922-1982). Baseia-se principalmente na observação e na interpretação do comportamento e do aparato simbólico utilizado na comunicação entre atores ou grupos sociais. É na relação com o outro que surge o indivíduo, um ser consciente de si, capaz de interagir com o outro e consequentemente com a sociedade e que desenvolve um sentimento misto de responsabilidade e liberdade em relação a seus atos. Essa vivência de si como unidade e coletividade, segundo Elias, está expressa nos nomes próprios com os quais identificamos as pessoas — há o prenome, que distingue a unidade; e o nome, ou sobrenome, que identifica o grupo ao qual pertencemos. Nossa vida pauta-se pela relação entre o eu e o outro, ou seja, entre nós e a sociedade. A partir dessa relação, o indivíduo passa a desenvolver a consciência da responsabilidade e dos direitos que tem em relação ao seu próprio destino e ao dos outros, tornando-se capaz de compreender sua própria identidade, realizar escolhas e modificar suas circunstâncias. Ele busca a interação com o outro para aprender sobre si mesmo e o mundo que o cerca, construindo assim sua própria história, sua individualidade e sua personalidade. Assim a relação com o outro é uma das principais fontes de desenvolvimento para o indivíduo, pois descobrir novas formas de convivência e de interação com os outros permite que ele explore novas possibilidades, reinvente-se e viva novas experiências. Complementando a ideia: Um conceito essencial em Elias é o de civilização. Devemos entender que as transformações que ocorrem nos denominados COSTUMES SOCIAIS são sempre interiorizadas pelos indivíduos, que formam repertórios específicos de ações individuais e coletivas, ou seja, moldes de comportamento individuais. Essas mudanças têm um caráter fundamentalmente histórico, aspecto mediante o qual Elias trabalha os determinantes do que chama de PROCESSO CIVILIZADOR, uma vez que envolve verificação de como as imposições externas foram historicamente internalizadas pelos indivíduos, convertendo-se até mesmo em uma segunda natureza. [...] Elias trabalha, em sua sociologia, aspectos significativos para mostrar que as coações exteriores têm como finalidade produzir instâncias individuais de autocoação. Isso significa que as regras e as normas presentes na sociedade para que possamos conviver melhor têm de funcionar como autocoação, perdendo, dessa forma seu caráter eminentemente externo e passando a ser interiorizadas. Nesse sentido, Elias aponta para a interiorização da exteriorização, sendo esta o conjunto de regras e de normas que produzimos socialmente. (NERY, 2017, p.76-78) Dessa forma, percebemos que o desenvolvimento de nossa identidade é complexo. Inicia-se nos primeiros tempos de vida e é estimulado por experiências simbólicas e comunicacionais, que podem ser a imagem no espelho, a pronúncia de nosso nome, o sorriso de nossos pais ou o objeto que carregamos com as mãos. Aos poucos, as noções do eu e do outro, que continuam a se referir mutuamente por toda a vida, transformam-se em consciência, que se amplia na medida em que amadurecemos e construímos nossa história com nossas experiências e opções. Além disso, é possível identificar que a identidade também é influenciada por cultura, crenças religiosas, valores familiares, gênero, raça, classe social, entre outros fatores. O processo de construção de nossa identidade é único e só pode ser compreendido por intermédio de uma abordagem interdisciplinar. Elias pesquisou as relações de disputa e confronto entre diferentes grupos de uma sociedade. Estudou um bairro operário de uma cidade inglesa que apresentava altos índices de violência e criminalidade, dando a essa comunidade o nome fictício de Winston Parva. Ali identificou dois grupos diferentes vivendo no local: o dos estabelecidos (established) e o dos outsiders. O primeiro era formado por pessoas que estavam no bairro há muito tempo (por meio de gerações). Tinha laços de amizade e até de inimizade bastante estreitos, ou seja, as pessoas visitavam-se com frequência e participavam de uma rede de relações conhecida e comum. Faziam parte, por assim dizer, do establishment (daí o nome atribuído a eles por Elias). Já o grupo dos outsiders constituía-se de operários que começaram a se mudar para o bairro no pós-guerra e passaram a constituir uma ameaça para os que lá estavam. Como os hábitos locais enraizados não eram de conhecimento dos outsiders, não estando inseridos na cultura local e não tendo espaço na hierarquia social estabelecida, foram recebidos com hostilidade. Bastava falar com as pessoas de lá para deparar com o fato de que os moradores de uma área, na qual viviam as “famílias nativas”, consideravam-se humanamente superiores aos residentes da parte vizinha da comunidade, de formação mais recente. Recusavam-se a manter qualquer contato social com eles, exceto o exigido por suas atividades profissionais; juntavam-nos todos num mesmo saco, como pessoas de uma espécie inferior. Em suma, tratavam todos recém-chegados como pessoas que não se inseriam no grupo, como “os de fora” [outsiders]. (ELIAS; SCOTSON, 2000, p. 20) Os mecanismos presentes no conflito estudado em Winston Parva eram portanto a exclusão e a estigmatização, por meio das quais os estabelecidos demonstravam sua “superioridade” em relação ao grupo dos arrivistas. A comunicação teve um papel importante nesse confronto, tanto para estabelecer os limites das relações como para expressar o menosprezo. Os estabelecidos recorriam à fofoca e às piadas pejorativas para reforçar sua hostilidade; já os outsiders, como não conheciam os estabelecidos e não se conheciam entre si, não conseguiam reagir. Elias mostrou a importância dos locais frequentados pelos estabelecidos, de seus hábitos de lazer e de seus rituais religiosos que fortaleciam a coesão e o sentimento de pertença a uma mesma comunidade. As posições de poder, dentro dessas instituições comunitárias, reforçavam o prestígio e a distinção dos membros do grupo. Também a memória coletiva e a história foram importantes para a integração dos estabelecidos, pois transmitiam a ideia de que estavam juntos havia muito tempo e repetiam situações herdadas de outras gerações. Todos esses aspectos aumentaram a ação grupal e sedimentaram suas atitudes. Segundo Elias, a estigmatização molda a conduta das pessoas. Os estabelecidos tendem a imprimir resistência a qualquer argumento que contrarie suas noções já existentes. Os outsiders, por sua vez, acabam por assimilar a imagem deles construída confirmando as hostilidades recebidas. Elias diz ainda que, para se sentirem aceitos e conquistarem espaço no establishment, alguns outsiders corroboravam com a visão depreciativa do grupo, reproduzindo fatos que confirmavam os estigmas e os preconceitos deste. Para os autores, a educação das crianças e dos jovens é a causa da sedimentação desses estereótipos.Leitura Sociologia Autor: Joel M. Charon e Lee Garth Vigilant Editora: Saraiva Edição: 2ª Capítulo: 4 Ano: 2013 ISBN: 9788502175549 Comentário: no capítulo quatro, A Estrutura Social, você encontrará ótimos subsídios para complementar a compreensão dos conceitos trabalhados no Tema 2. Ajudará a entender a ideia do sociólogo Norbert Elias. Disponível na Minha Biblioteca. Tema 3 Modernidade e racionalidade: as contribuições da Escola de Frankfurt Qual o veículo de comunicação que traz mais e melhores informações? Um dos primeiros centros de pesquisa a estudar a importância dos meios de comunicação e sua influência sobre o comportamento humano (tanto individual quanto coletivo) foi a Escola de Frankfurt, que denunciava o caráter ideológico das mensagens que eram veiculadas pelos meios de comunicação. Por intermédio das diversas análises desenvolvidas com o intuito de mostrar como os meios de comunicação de massa participavam, de forma deliberada, do processo de alienação das pessoas, criaram o conceito de “indústria cultural”, substituindo o de cultura de massa, ou seja, cultura criada em moldes industriais e estandardizados para um amplo público de consumidores. A indústria cultural tem o poder de ditar modismos e incentivar, ou mesmo de estabelecer novos hábitos culturais. Na prática, ela busca homogeneizar os comportamentos, utilizando, em geral, a cultura norte-americana como padrão. Claro que há muitas exceções, tanto em relação ao padrão seguido quanto em relação ao poder para homogeneizar. Os Beatles, por exemplo, eram uma banda inglesa, e seu comportamento e seus cabelos compridos foram copiados por muitos jovens do mundo ocidental, mas não por todos. Outra característica da indústria cultural é transformar tudo em espetáculo, mesmo as maiores tragédias. Tudo passa a ser uma mercadoria que deve ser consumida. Você já deve ter percebido que a televisão cobre terremotos e guerras de forma semelhante a jogos de futebol e espetáculos de artistas populares. (MARCON, 2015, p. 8) A Escola de Frankfurt também desenvolveu a Teoria da Recepção, que analisa como o receptor, ou o indivíduo que consome o produto da indústria cultural, interpreta e transforma a mensagem de acordo com suas experiências subjetivas. De acordo com essa teoria, o receptor não é um mero objeto passivo da mensagem, mas, sim, um sujeito ativo e interpretativo, que pode responder à mensagem de maneiras diversas. Em outras palavras, o receptor pode reinterpretar ou mesmo resistir à mensagem original. Os integrantes da Escola de Frankfurt denunciaram a lógica racional existente na base da construção ideológica da modernidade e o objetivo deliberado de levar as audiências à alienação. A indústria cultural, segundo esses autores, é responsável pela passividade do público, pelo seu conservadorismo, pela constante diminuição da qualidade da informação veiculada, bem como pela produção artística. As ideias de ordem que ela [indústria cultural] inculca são sempre as do status quo. Elas são aceitas sem objeção, sem análise, renunciando à dialética, mesmo quando elas não pertencem substancialmente a nenhum daqueles que estão sob sua influência. O imperativo categórico da indústria cultural, diversamente do de Kant, nada tem em comum com a liberdade. (ADORNO, 1977, p. 293) O grupo de Frankfurt aponta que, ao dar às pessoas o que elas querem, a indústria cultural não desafia sua capacidade de raciocínio ou seu conhecimento, em vez disso, estimula a tendência a aceitarem a realidade existente ao invés de enfrentá-la criticamente, tornando-as mais passivas. Os frankfurtianos argumentam que, para além das manipulações do mercado, o público também é influenciado pelas estruturas de poder presentes na cultura de massa. Os meios de comunicação, por exemplo, são usados como forma de disseminar ideias e valores que refletem os interesses dos grupos dominantes da sociedade, dificultando a criação de um espaço público que permita a discussão de temas políticos e sociais importantes. Assim os frankfurtianos acreditam que a indústria cultural tem um papel decisivo na formação de opiniões e ações dos públicos, contribuindo portanto para a manutenção da ordem social existente. Por fim, eles consideram que é possível superar o controle exercido pela indústria cultural, estimulando a livre expressão e a criatividade de artistas e produtores culturais, além disso, acreditam que é viável desenvolver uma cultura autêntica, que não seja controlada por interesses econômicos e políticos, no entanto, que possa contribuir para o progresso social e cultural. No pós-guerra, o Instituto para Pesquisa Social foi retomado, e um dos pesquisadores que mais tem distinguido-se no estudo da sociedade da comunicação é Jürgen Habermas. Para o autor, ela é formada pelas tendências interpretativas da sociedade a respeito da realidade, que ele chama de “visão de mundo”. A partir dela, a sociedade acompanha os acontecimentos que se desenrolam à sua volta, manifestam suas posições e buscam interferir em seus resultados e consequências. Para Habermas, a comunicação é baseada na participação consciente e ativa de todos os indivíduos. Ele defende que é preciso reconhecer os direitos e as responsabilidades de cada um para que ela seja eficaz. Assim, quando as pessoas reconhecem a importância de se expressar e escutar uma à outra, elas criam um espaço de diálogo aberto que ajuda a construir uma sociedade mais justa e igualitária. Além disso, Habermas afirma que a comunicação é essencial para a compreensão e o entendimento entre as pessoas. É por meio dela que estas trocam ideias, opiniões e informações que auxiliam na construção de uma base de confiança e compreensão entre elas. Assim a comunicação é fundamental para promover a cooperação entre os indivíduos e estimular o desenvolvimento da sociedade. O sociólogo também propõe a ideia de que a comunicação deve ser livre de todas as formas de coerção, pois isso pode levar à manipulação e à desigualdade. Ele acredita que, quando as pessoas não são forçadas a se comunicar, elas podem buscar e seguir a verdade e a moral de forma mais livre. Assim a comunicação livre torna-se uma forma de emancipação, uma vez que os indivíduos podem expressar suas ideias livremente sem medo de represálias. Além disso, Habermas também acredita que a comunicação livre e sem coerção é a única maneira de criar um espaço em que todos possam ser ouvidos e entendidos. Essa liberdade de expressão é essencial para a justiça social e a igualdade. A comunicação também oferece oportunidades para que os indivíduos se conectem, compartilhem suas opiniões e compreendam outros pontos de vista. Isso ajuda a criar um ambiente de respeito e compreensão mútua, o que é fundamental para o desenvolvimento de relações sociais saudáveis. Por fim, ela é essencial para a construção de um mundo melhor, pois ajuda a construir pontes entre as pessoas, criando um ambiente de aprendizagem e compreensão mútua. Por meio da comunicação, também é possível criar consciência social sobre questões importantes, como o meio ambiente e a proteção dos direitos humanos. Compartilhar ideias e informações é uma ferramenta poderosa para promover mudanças positivas. Portanto ela é uma das principais ferramentas que temos para criar um mundo melhor. Então a comunicação é um elemento fundamental na construção de uma sociedade melhor, pois exige dos indivíduos um diálogo consciente e ativo, que pode auxiliar na criação de soluções para os problemas que afetam a sociedade. Além disso, é o suporte para a criação de uma base de confiança entre as pessoas, que pode ser um importante catalisador para o desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida coletiva. Leitura Teorias da comunicação de massa Autor: Denis McQuail Editora: Grupo A Edição: 6ª Capítulo: 2 Ano: 2012 ISBN: 978-1-84920-292-3 Comentário: no capítulo dois, Teorias, você encontrará exemplos de como o conceito de indústria cultural, visto no Tema 3, é trabalhado em outras áreas do conhecimento, sendo um ótimo exemplo de como a Sociologiaé abrangente e essencial. Disponível na Minha Biblioteca. Para refletir As teorias que foram expostas neste tema 3 dizem respeito principalmente à sociedade que se institui e consagra-se no século XX, com o desenvolvimento das grandes empresas de informação e dos meios de comunicação. E a sociedade do espetáculo, denunciada por Guy Debord, parece concretizar-se em uma sociedade em que cada vez mais se mesclam lazer e conhecimento e consumo e produção; valores consagrados, como a nação e o trabalho, parecem desmoronar; e comportamentos, mentalidades e objetivos aparentam cada vez mais fragmentários, temporários e sem substância. Assim os conceitos aqui abordados e referenciados necessitam ser analisados em vista dos novos aparatos de comunicação, da interatividade, da globalização, da virtualidade e de uma dimensão planetária que nossa sociedade insiste em apresentar. Fonte: Elaborado pelo autor. Encerramento Já ocorreu de você estar em um ambiente com pessoas que pouco conhece e sentir-se inseguro quanto a como se comportar? É comum que mesmo pessoas seguras e extrovertidas, quando estão com familiares e amigos, transformem-se completamente em um ambiente novo. Nesses momentos, tomamos consciência de como a sociedade é diversificada e de que forma ela exerce influência sobre nosso comportamento. Pesquisas demonstram que ouvir o próprio nome ativa mais certas áreas do cérebro do que qualquer outro som. Por que você acha que isso acontece? Temos uma relação sentimental com nosso nome e que ele nos transmite alguma coisa de especial, além de ser uma forma simpática de nos dirigirmos às pessoas, pois realmente apreciamos ouvi-lo. Isso faz parte da constituição de nossa identidade. Qual o veículo de comunicação que traz mais e melhores informações? As possibilidades de obtenção de informação são por meio de pessoas e da observação ao seu redor. É importante que você perceba que grande parte das informações que obtém vem dos meios de comunicação, mesmo quando se trata do ambiente em que vive. Resumo da Unidade O Tema 1 aborda características gerais dos três grandes clássicos (Marx, Durkheim e Weber) relacionados ao surgimento da Sociologia enquanto ciência na passagem do século XIX para o século XX, sob a influência das grandes transformações ocorridas na Europa e que serviram de base para a construção da modernidade ao longo do século XX e da pós-modernidade vivenciada nos dias atuais. Dentro dessa construção, o Tema 2 aborda o processo pelo qual todas as pessoas passam no interior da sociedade: o desenvolvimento da individualidade. Ele, que promove a subjetividade, é estimulado pelo contato com o outro, o não eu, do qual nos distinguimos. Por meio dele e uma vez que estamos integrados à cultura, temos a possibilidade de aprimorar nossas identidades pessoal e social. As instituições, como a família, a escola e a religião, são espaços que auxiliam as relações entre essas duas instâncias de nossa vida. A partir disso, o Tema 3 trabalha a relação do indivíduo pós-moderno com a sociedade do espetáculo, bem como sua visão de mundo no qual está inserido. Referências ADORNO, T. W. A indústria cultural. In: COHN, G. (org.). Comunicação e indústria cultural. São Paulo: Nacional, 1977. DURKHEIM, É. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2001. ELIAS, N.; SCOTSON, J. L. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. MARCON, K. J. Sociologia contemporânea. São Paulo: Pearson Education Brasil, 2015. E-book. ISBN: 978-8543011028. Biblioteca Virtual Pearson. NERY, M. C. R. Sociologia contemporânea. Curitiba: InterSaberes, 2017. E-book. ISBN: 9788559725568. Biblioteca Virtual Pearson. UNIDADE II INTRODUÇÃO A relação indivíduo e sociedade na teoria sociológica contemporânea Estudante, uma forma ideal de compreendermos a teoria que fundamenta as ciências sociais é por meio da conexão de autores clássicos com autores contemporâneos. Pierre Bourdieu e Michel Foucault são importantes pensadores da contemporaneidade, que além de apresentarem conceitos inovadores, tomam por base o estudo de autores como Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim, pilares do conhecimento sociológico, e reformulam alguns dos conceitos aplicando novos contextos para análise do mundo atual. Pierre Bourdieu, em parceria com Jean-Claude Passeron, desenvolveu uma consistente teoria crítica a respeito do sistema escolar. Enquanto Michel Foucault faz uma releitura do conceito de poder e o atualiza para todas relações sociais. Já Erving Goffman, autor intermediário entre os autores clássicos e os contemporâneos, destaca em sua análise da interação social como se constitui a identidade pessoal a partir da perspectiva do interacionismo simbólico, que pode ser utilizada para compreendermos as relações humanas no mundo real, e se estende até mesmo para o ambiente virtual. O conjunto das teorias que veremos a seguir são importantes temas da teoria e da análise sociológica. Objetivos Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: · Examinar a relação indivíduo e sociedade nas produções sociológicas de teóricos contemporâneos e suas especificidades. Conteúdo Programático Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas: · Tema 1 – Goffman e as contribuições do interacionismo simbólico. · Tema 2 – A perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu. · Tema 3 – Poder e biopoder na teoria de Foucault. Pierre Bourdieu, sociólogo francês, estudou o contexto da educação e da escola e revelou a estrutura que sustenta as desigualdades na distribuição do conhecimento nessa instituição. Para subsidiar suas reflexões, Bourdieu desenvolveu conceitos como o de habitus, de campo e de capital cultural para explicar nossos comportamentos e nossas relações sociais. O vídeo abaixo apresenta a origem do autor, indica seus principais livros e um pouco do conjunto da obra deste importante cientista social, que está entre os mais importantes pensadores da sociologia contemporânea. https://bit.ly/3RDIVvf Tema 1 Goffman e as contribuições do interacionismo simbólico Como se forma a identidade pessoal? Historicamente, o interacionismo simbólico surgiu na Escola Sociológica de Chicago em meio ao processo de formação e do crescimento das grandes cidades dos Estados Unidos na década de 1920. Nesse sentido, grande parte de sua história teve a Universidade de Chicago como sede e representa um dos capítulos mais importantes da chamada sociologia americana. Em sua origem, este grupo vivenciou o intenso e multifacetado processo de urbanização e industrialização nos EUA, processo no qual questões como imigração e delinquência, características da sociedade de massas americana, tornaram-se temas de investigação. (ENNES, 2013, p. 67-68) A sociologia interacionista aplicou termos comuns ao campo da dramaturgia (como os de papel social, de ator social, de cena do crime e de cenário social), associando essas expressões ao comportamento dos indivíduos, e "a expressão ‘interação simbólica’ data de 1937. Sua paternidade cabe a Herbert Blumer (1900-1987), professor em Chicago e importante personagem no cenário acadêmico americano" (LALLEMENT, 2018, n. p.). O interacionismo simbólico é uma teoria sociológica que analisa as diversas questões cotidianas dos indivíduos em sociedade. Especificamente, estuda a vida social, e o principal tema dessa corrente de pensamento é o da interação social, que: “pode ser compreendida como um complexo processo social que envolve a motivação, a interação face a face, as dimensões racionais e irracionais (fantasia), as dimensões estruturais e as relações de poder”. (STRAUSS, 1999, p. 64 apud ENNES, 2013, p. 70) Assim a interação social se concretiza pelo encontro de duas pessoas, ou pelo encontro de um grupo de indivíduos. Com isso o interacionismo simbólico também é conhecido como sociologia do cotidiano, ou como microssociologia (por se debruçar sobre os relacionamentos rotineiros da sociedade) realizando o "estudo das relações interpessoais, dos processos sociais, do status e do papel de todas as interações padronizadas(ou não) ocorridas no seio de grupos organizados ou em situações não estruturadas" (PANSANI, 2018, n. p.). O interacionismo simbólico é uma teoria que faz um contraponto ao modelo Funcionalista, teoria que define que tanto as relações sociais dos indivíduos como as ações desses mesmos indivíduos resultam das regras que estão pré-estabelecidas pela sociedade. E a alusão comum para exemplificar o funcionalismo é a da sociedade como uma máquina que funciona de maneira ordenada como um sistema, e todas as peças (instituições e indivíduos) precisam funcionar em harmonia. O interacionismo simbólico argumenta que os indivíduos se relacionam a partir de formas independentes e diferentes do regramento pré-estabelecido funcionalista e constituem coletividades com suas próprias normas, as quais são aceitas e seguidas por seus membros. Os indivíduos influenciam a constituição de coletividades e, ao mesmo tempo, essas coletividades influenciam o comportamento dos indivíduos, e “em vez de permanecerem passivos diante dos fatos sociais, não cessam de produzi-los. Interpretando a situação em que se acham imersos, os atores concebem e constroem a sua ação" (LALLEMENT, 2018, n. p.). Em resumo, as pessoas agem se comportando em relação às regras sociais, mas também de maneira autônoma em relação a essas mesmas regras. Erving Goffman, sociólogo e psicólogo canadense, é um dos mais importantes pensadores do interacionismo simbólico, buscando compreender mais diretamente o comportamento individual em relação ao contexto da coletividade que as pessoas vivem. Erving Goffman, como estudioso desse tema, utilizava da técnica de pesquisa da observação participante das ciências sociais (técnica utilizada pelos pesquisadores que convivendo com as pessoas coletam e registram informações para subsidiar as pesquisas), observando o comportamento e as reações do grupo pesquisado. O autor defendia que os pesquisadores deveriam estar próximos dos seus objetos de estudos, ou seja, das fontes iniciais e primárias de uma pesquisa em um processo de imersão completo com o objeto pesquisado, pois “a partir das contribuições de interacionistas simbólicos, os processos identitários são dinâmicas de localização de indivíduos e grupos no espaço social” (ENNES, 2013, p. 65). É assim que se constituem, por exemplo, os movimentos sociais, pela identificação em comum das mesmas ideias dentre as diferentes opiniões e diferentes indivíduos com diferentes marcadores sociais, como de gênero, etnia, nacionalidade, geracional e sexualidade, e podem também ser realizadas por indivíduos com os mesmos marcadores sociais, como homens brancos e heterossexuais, criando um grupo fechado em torno de algum valor cultural ou de alguma moral específica. Indicação de filme A Onda Ano: 2008 Comentário: como futuros profissionais das ciências sociais é muito importante que utilizemos das produções audiovisuais para ampliarmos nossos conhecimentos sobre temas que contemplem questões sociológicas. Assim uma ótima referência é o filme A Onda (2008), cujo enredo destaca uma turma de estudantes do ensino médio, os quais pertencem à terceira geração após o final do nazismo na Alemanha, e se tornam parte de uma experiência em sala de aula, liderados por um de seus professores. O enfoque dessa produção mostra o potencial que existe na sociedade para o surgimento de um regime político totalitário, e a partir da possibilidade de manipulação das pessoas, alcançar o poder no mundo contemporâneo, o que pode afetar a democracia e a liberdade, causando vários problemas morais na vida de todos. Esse filme revela o quanto o grupo social pode influenciar na formação da identidade pessoal dos indivíduos. Para conhecer mais sobre o filme, ative a legenda em português e acesse o trailer: Goffman (2014) detalha que os indivíduos reconhecem os ambientes sociais em que vivem, e com base nesse reconhecimento interpretam papéis sociais, os quais o autor define no conjunto geral de todas as demais interações sociais, como teatralidade, que é: Quando um indivíduo desempenha um papel, implicitamente, solicita de seus observadores que levem a sério a impressão sustentada perante eles, Pede-lhes para acreditarem que o personagem que vêem no momento possui os atributos que aparenta possuir, que o papel que representa terá as consequências implicitamente pretendidas por ele e que, de um modo geral, as coisas são o que parecem ser. (GOFFMAN, 2014, p. 25) Goffman (2014) reconheceu que os indivíduos constroem suas identidades pessoais a partir de interações sociais com outros indivíduos, e é nesse momento que o autor percebeu que agimos e atuamos socialmente a partir do cenário social que se apresenta para nós, e o “conjunto de interações humanas, isto é, das ações e reações recíprocas por meio dos quais os homens se aproximam ou se afastam, se associam ou se dissociam” (PANSANI, 2018, n. p.). Como exemplo, podemos citar o de alguém na condição de estudante do ensino básico, agindo de modo disciplinado e falando uma linguagem culta durante as aulas e, à noite, integrar uma banda de rock e se comportar de maneira contestatória às regras sociais que organizam a própria escola que ele estuda, o que repercute nas expressões corporais desse estudante, na linguagem e na vestimenta também, tanto durante o período em que estuda, quanto no período em que se dedica a tocar na banda de rock (de modo oposto ao comportamento de estudante). Nesse sentido, as dinâmicas de localização social caracterizam-se, também, pela produção da diferença e do sentimento de pertença dos indivíduos e dos grupos sociais e, em suas relações, dão origem aos processos identitários. Essas relações, por sua vez, são mediatizadas por fronteiras materiais ou simbólicas, isto é, elementos definidores e demarcadores do eu/nós e do outro/outros. Essas fronteiras são, também, socialmente construídas e ressignificadas, em razão das mudanças dos contextos sociais e históricos, ora configuradas de modo centralizado e unificado, ora descentrado e fragmentado (ENNES, 2013, p. 66). Desse modo, os indivíduos vão se reconhecendo e se adequando voluntariamente aos diferentes ambientes e às maneiras que cada espaço social se organiza para poder interagir. A impressão que marca a passagem dos indivíduos pelos diferentes contextos sociais é o que Goffman (2014) apresenta como a parte teatral das interações sociais e humanas, visto que “o relacionamento social comum é montado tal como uma cena teatral” (GOFFMAN, 2014, p. 71). Goffman (2014) descreve que é como se os indivíduos atuassem constantemente em diferentes palcos, conforme a necessidade de representação, isso em um sentido coletivo, e as demais pessoas, que interagem também, realizam seus comportamentos com essa mesma teatralidade, com vista a causarem boa impressão nos seus pares, já que “na vida cotidiana, por certo, há uma clara compreensão de que as primeiras impressões (que causamos) são importantes” (GOFFMAN, 2014, p. 19). Os indivíduos constroem perfis pessoais em que revelam qual seu propósito como sujeitos nessas representações sociais, podendo ser exemplificado entre a de ser alguém engajado realizando ações sociais, mobilizando os demais para beneficiar pessoas carentes de recursos materiais, ou a de alguém competitivo que pensa apenas nas melhores oportunidades para ganhar mais dinheiro e não pensa nos seus semelhantes. À época da construção do conceito de interacionismo simbólico, as interações sociais se limitavam aos encontros face a face, mas no mundo contemporâneo ainda permanece esse modelo (face a face), no entanto na atualidade as interações foram acrescidas dos encontros virtuais com características próprias de comunicação entre as pessoas. Como resultado desses comportamentos, os indivíduos podem também não revelarem suas reais identidades pessoais, pois se trouxermos as análises de Goffman (2014) para o mundo contemporâneo, encontraremos no uso das redes sociais essa busca constante de os indivíduos causarem boa impressão e de apresentarem apenas o melhor de si, muitasvezes com a aparência forjada pelos filtros de edição disponíveis em aplicativos, com fotos destacando apenas momentos positivos e de pessoas sempre felizes. Mas também há o seu extremo, de pessoas em redes sociais divulgando questões imorais e ilegais. Nesse contexto, está a ideia de marketing pessoal, quando os indivíduos roteirizam de forma estratégica a apresentação dos seus nomes porque querem compartilhar boas impressões para avaliação pública tendo como meta ser um indivíduo que sirva de referência no segmento profissional em que atuam. Veja um exemplo de interação social virtual disposto a seguir na Figura 2.1. Figura 2.1: Interação social virtual Outro ponto importante são os significados que são atribuídos aos símbolos culturais, os quais podem assumir um certo tipo de valor para um determinado segmento social diferente do atribuído por outro grupo, como o significado que uma bandeira de um clube de futebol pode representar, que se for deliberadamente jogada fora por um torcedor de outro clube, instaura-se as condições para o conflito físico, gerando inclusive um processo social de violência. A importância que o símbolo da bandeira de um clube de futebol assume, em nosso exemplo, é construída com base na interação social e é apreendida pela convivência com os demais indivíduos como uma prática social ensinada. A interpretação que outros indivíduos — que não se envolvem com o futebol — podem ter sobre essa relação com uma bandeira, uma camiseta ou qualquer outro símbolo futebolístico, pode variar entre a admiração e a perspectiva crítica de haver mais temas na sociedade para as pessoas se importarem e se dedicarem que para apenas com a rotina de um clube de futebol. Quando as instituições assumem o significado de símbolos, os indivíduos podem ser orientados pelos valores que são por elas atribuídos, como, por exemplo, quando indivíduos com identidades políticas de oposição, ou mesmo de apoio ao governo, seguem as orientações de determinado partido político que simpatizam, e caso esses apoiadores venham a se criticar mutuamente, podem entrar em vias de fato (brigando) para defender as ideias que aprenderam e que passaram a governar seus atos e suas narrativas. Mas é possível que os mesmos indivíduos revejam suas opiniões sobre suas ideologias políticas, caso sejam extremamente radicais, e ainda mantenham alguma afinidade com suas agremiações partidárias, mas mudem sua percepção sobre essa experiência de militância política. Em outra medida, os indivíduos podem acreditar fielmente em informações que não são reais, com as fake news (notícias falsas), e tornar essas ideias informadas incorretamente em realidade, e as defenderem como verdade, mesmo sendo inverídicas. Os boatos nas redes sociais servem de exemplo como a de quando anunciam a morte de uma pessoa que está viva, ou de que haverá falta de um determinado produto e a maioria corre para comprar todo o estoque deixando os demais sem poder comprá-lo também. Mas quando somos capazes de entendermos a importância que cada um coloca em um símbolo, podemos desenvolver empatia e respeito. Esses são alguns exemplos de como o interacionismo simbólico opera na vida social e na sociedade. Goffman (2014) destaca que a questão da identidade pessoal está no cerne do conceito de interação social, pois esse autor entende que os indivíduos ao mesmo tempo em que desenvolvem suas identidades, buscam também, por meio do recurso da manipulação, apresentar suas versões de imagem em público com o objetivo de causar boa impressão e ser reconhecido de modo favorável, pois ao se apresentar para os seus pares, alguns indivíduos se comportam de modo a tentar controlar a percepção que possam causar. Goffman (2014) aponta ainda em seu texto os recursos que os indivíduos podem utilizar para estender a boa impressão que venham causar. Segundo Ennes (2013, p. 63), “o interacionismo simbólico pode ser uma referência válida para pensarmos os processos identitários característicos da sociedade contemporânea”. Para o autor, a realidade é produzida como resultado das interações sociais e não podemos compreendê-las fora de um contexto mais amplo, e "quem estuda a identidade deve necessariamente examinar a fundo a interação. Com efeito, é no decorrer do face a face interacional, e graças a este, que se pode avaliar melhor tanto a si mesmo como aos outros" (LALLEMENT, 2018, n. p.). A contribuição do interacionismo simbólico para as análises sociológicas é descrita por Ennes (2013) como um dos recursos metodológicos para a compreensão das diferenças entre os indivíduos, o que possibilita compreendermos também como se processa as relações de poder, de subordinação entre esses mesmos indivíduos e a forma de hierarquizar a sociedade a partir da construção da identidade pessoal de cada um. Tema 2 A perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu Por que a escola foi tão criticada? Pierre Bourdieu, sociólogo francês, deixou um grande legado para a teoria sociológica contemporânea. Esse autor inovou em vários aspectos nos estudos dos fenômenos sociais quando apresentou a sociologia como uma ciência voltada para a tomada de posicionamento político por parte dos sociólogos e a crítica à dominação entre as classes sociais. A perspectiva de análise de Pierre Bourdieu inovou também quando fez uso dos principais conceitos de autores clássicos com visões distintas da sociedade, como de Karl Marx, ao utilizar-se do conceito de classes sociais de Max Weber e sua análise do subjetivismo, e de Émile Durkheim em relação à ideia de objetividade, pois “a partir de sua reflexão epistemológica, Pierre Bourdieu desenvolve uma nova concepção de ação que busca superar as oposições clássicas da Sociologia” (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 44). Para Pierre Bourdieu, o ofício principal do sociólogo é o de revelar tudo que possa estar oculto nas relações humanas em sociedade, rompendo assim com a conduta tradicional de neutralidade, diferentemente do modelo utilizado na sociologia do século XIX, propondo um novo modelo de intelectual, engajado com os problemas da sociedade, sem deixar de lado o rigor no uso das metodologias para a construção de sua teoria sociológica. Pierre Bourdieu elaborou um importante conjunto de conceitos como o de agente, campo, habitus, capital social, estrutura, capital cultural, reflexividade, reprodução, dominação, dentre outros. Sobre o conceito de “campo”, Pierre Bourdieu o descreve como um espaço de disputas por poder e por relevância, desse modo, a sociedade é formada pela composição de diferentes campos, e o campo com maior relevância é o campo econômico. Nessa ideia de campo se inicia a forma de classificação da sociedade em meio a disputas, visando a busca de poder, mais detidamente, de reconhecimento social e de poder político. É nesse espaço (simbólico) que as coisas são validadas ou não, é onde se estabelece o que tem valor erudito na cultura, que é bastante valorizado, e o que é parte da cultura popular (ainda que reproduzido pela indústria cultural) recebendo uma chancela legitimada como de qualidade inferior. No campo profissional, é possível exemplificarmos diversas disputas pelos melhores cargos nas empresas em razão de oferecer os melhores salários (vantagem material) e de reconhecimento (vantagem simbólica). A ideia de indivíduo é convertida por Pierre Bourdieu para a de agente ou de agentes sociais, sendo esses os responsáveis pela incorporação do habitus. O conceito de habitus, originariamente, foi elaborado pelo filósofo Aristóteles e resignificado por Pierre Bourdieu, que seria originalmente a “maneira de fazer corporal”, e “se essa noção não foi inventada por Pierre Bourdieu, este último a redefiniu para dar-lhe um lugar no rol dos instrumentos da sociologia” (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 49). O habitus passa por um processo de incorporação, quando a socialização dos agentes ocorre pelo corpo (incorporado) e também pelos exercícios de práticas sociais. Como exemplo de reconhecimento do habitus de uma pessoa é possível perceber pelas diferenças e pela formade falar e por seus gestos, os quais parecem a priori como algo natural, mas que são ensinados, pois resultam da maneira com que o agente (indivíduo) é socializado. O campo social é o espaço qual ocorre o habitus, ou a interiorização realizada pelos agentes (indivíduos) dos valores e das normas pelas interações sociais. Assim o habitus é nomeado como uma “estrutura estruturante”, ou seja, enquanto estrutura pela convivência social (aprendemos por meio das nossas interações sociais com outras pessoas ou grupos que passam a ser parte da forma como pensamos), e estruturante como parte do aprendizado de como as relações sociais específicas funcionam (que por meio dessas mesmas interações sociais sabemos o ritual de cada espaço da sociedade), por exemplo, ao passarmos pela etapa de formação escolar, seguimos diversas regras impostas pela administração da escola. Cada agente revela seu habitus, que o distingue dos demais, como pela escolha de suas roupas, pelo tipo de entretenimento que escolhe, pelos lugares que frequenta, e pela maneira que come, são, em síntese, os gostos e preferências de cada um que promovem distinções entre as pessoas. É pelo habitus que as classes se diferenciam por conta das diferentes condições sociais acessadas por cada agente, assim: O habitus, para Pierre Bourdieu, é composto de esquemas de percepções (maneiras de perceber o mundo), de apreciações (maneiras de julgá-los) e de ações (maneiras de comportar-se) que foram interiorizadas e incorporadas pelos indivíduos ao longo de sua socialização — primária, durante a infância, e secundária, na idade adulta, de maneira mais ou menos inconsciente [...] O habitus variam segundo as condições de existência e a trajetória social de cada indivíduo. À medida que as condições de existência são comuns a todo um conjunto de pessoas localizadas na mesma condição socioeconômica, essas pessoas compartilham em parte do mesmo habitus. Isso autoriza Bourdieu a falar em habitus operário e em habitus burguês. (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 50) Para Pierre Bourdieu, o conceito de “capital” é descrito como acúmulo de forças que os agentes dispõem para fazer frente à defesa de seus interesses nos diferentes campos sociais. Quando criamos uma associação para defender os interesses de uma comunidade essa é uma forma de reforçar esse capital para atuar coletivamente em prol de alguma causa social. Já o capital social faz menção a pertencer a um determinado grupo que mantém relações entre si e que pode, a qualquer momento, garantir ganhos e privilégios, é a conhecida networking (ou rede de contatos), como quando alguém fica desempregado e busca apoio dos seus conhecidos para garantir uma nova colocação no mercado de trabalho. Leitura Sociologia Geral: habitus e campo. Curso no Collège de France (1982-1983). v. 2. Autor: Pierre Bourdieu Editora: Vozes Capítulo: Aula de 14 de dezembro de 1982 Ano: 2021 ISBN: 9786657133026 Comentário: a aula do dia 14 de dezembro de 1982 é bastante importante e de fácil leitura e compreensão. Esse texto registra o curso ministrado por Pierre Bourdieu, o qual aborda, dentre outros temas, o conceito de “campo” e o relaciona ao conceito de “habitus” no qual o autor apresenta inúmeros exemplos para compreendermos de maneira didática como essas duas noções se relacionam e se aplicam no cotidiano. Para Pierre Bourdieu, a cultura com maior prestígio é justamente a cultura controlada pelas classes dominantes com capacidade de prover os agentes de prestígio com mais valor social. Conforme Pierre Bourdieu, o valor atribuído à cultura transforma-se em capital cultural, que por sua vez pode proporcionar vantagens tanto materiais quanto simbólicas. O capital cultural pode ser compreendido em três formatos. Capital cultural objetivado aquele que atribui valor às obras culturais como objetos, quadros, esculturas, textos literários e peças teatrais. Capital cultural institucionalizado por meio da expedição de certificados e diplomas pelas instituições escolares do estado, por exemplo, o diploma universitário. Capital cultural incorporado relacionado diretamente com o habitus, como o aprendizado de outros idiomas. O habitus pode também ser compreendido como o capital cultural que foi incorporado, ou: para designar os conhecimentos e capacidades de apreciar diferentes formas culturais oriundas da cultura erudita, isto é, a cultura valorizada pelas instituições culturais (como o teatro, a música clássica e a pintura). Este capital cultural é tanto mais importante quanto mais favorecida for a classe social. (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 62) Pierre Bourdieu atribui extrema importância à questão da reflexividade nas ciências sociais como recurso metodológico e estende essa importância para qualquer outra área do conhecimento que queira ser reconhecida como científica. Uma autorreflexão realizada pelo autor é a que busca entender se é possível que um saber sociológico possa ser mesmo objetivo partindo da perspectiva de que o sociólogo que pensa esse saber é também diretamente condicionado pela realidade que analisa, ou seja, o cientista social coloca em suas análises seus pontos de vista sobre os problemas pesquisados, podendo assim analisar o mundo parcialmente com base nas suas opiniões pessoais. No campo da educação, Pierre Bourdieu, em parceria com Jean-Claude Passeron, desenvolveu o conceito de reprodução social, quando destacou que a escola é um espaço gerador de desigualdades. Bourdieu e Passeron (2014) apontam que a escola valoriza bem mais a cultura dominante, que forma o capital cultural das classes dominantes, e que quando fazem parte do currículo escolar, como conteúdos a serem ensinados, não são compreendidos pelos estudantes das classes populares, em que “o habitus que a escola tende a inculcar é mais ou menos próximo do habitus que foi inculcado pela família no seio do ambiente social” (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 64) da classe dominante. Em geral, os familiares dos estudantes das classes populares têm pouca escolaridade e pouca afinidade com as questões no mundo escolar, realidade que desfavorece os seus filhos estudantes. Bourdieu e Passeron (2014) definem que a imposição de significados (como os da escola analisada pelos autores) pode ser compreendida como de um “poder de violência simbólica, isto é, todo poder que chega a impor significações e a impô-las como legítimas, dissimulando as suas relações de força” (BOURDIEU; PASSERON, 2014, p. 19). Esse tipo de violência (simbólica) comum no âmbito da cultura e das instituições não se utiliza da coercitividade e da punição física para o convencimento que torna os valores da cultura dominante como legítimos e inquestionáveis, pois a violência simbólica supõe o consentimento dos dominados como supõe dos dominantes a dominação, a ‘vontade de obedecer’ dos dominados [...] se explica [...] pela adesão de todas a um conjunto de crenças. Dentre elas, encontra-se a ideologia do dom promulgada pela escola em proveito dos dominantes. A assimilação dessa ideologia participa, pois, da interioridade das relações de força entre as classes sociais. (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 74) A violência simbólica, diferentemente da violência física (esta segunda podemos relacionar como o lado externo da versão simbólica, que busca convencer pelo uso da agressividade), opera pela manifestação do discurso dominante apresentado como a verdade, pois “toda ação pedagógica [...] é objetivamente uma violência simbólica, enquanto imposição, por um poder arbitrário, de um arbitrário cultural” (BOURDIEU; PASSERON, 2014, p. 20). A violência simbólica circula na sociedade de forma a coagir sem ser percebida nas formas como as crenças morais, e mesmo os preconceitos, fazem com que os agentes (indivíduos) percebam que os padrões estabelecidos, mesmo sendo discursos da classe dominante, são corretos e devem ser seguidos. Assim encontramos pessoas jovens apoiando ideias conservadoras e reacionárias, e pessoas de gerações mais antigas escapando desses discursos, pela experiência de vida, sendo mais progressistas, e sendo assim,fortemente criticadas. De modo a exemplificar, os estudantes com origem nas classes dominantes reconhecem de imediato a cultura ensinada na escola porque convivem previamente com os mesmos valores culturais, pois acessam a literatura clássica e contemporânea, frequentam o cinema, viajam constantemente, conhecem locais históricos, praticam instrumentos musicais, realizam cursos extras e assistem peças de teatro. Quando esses estudantes das classes dominantes acessam a escola, as condições para que fiquem em vantagem em relação aos estudantes das classes populares já estão dadas pelo contexto, pois esse segundo grupo convive com outra realidade de pouco acesso aos bens culturais, que, em certa medida, não compreendem a narrativa ensinada pelos educadores, pois o currículo ensinado carrega muitas das informações que os estudantes das classes dominantes experienciaram antes de irem para a escola. Segundo Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, o discurso meritocrático sustentado pela escola não passa de uma ‘ideologia’, e a ordem social legitimada não corresponde a uma verdadeira meritocracia. A seleção e a classificação efetuadas pela escola na verdade se fundem sobre a maior ou menor proximidade dos alunos com a cultura escolar, ela mesma muito próxima da cultura da elite. Por consequência, a hierarquia escolar reflete não as diferenças de dons pessoais, mas as desigualdades sociais iniciais. As desigualdades sociais transformadas em desigualdades escolares tornam-se em seguida desigualdades sociais na saída escolar. A escola é assim apresentada [...] como uma instância de reprodução social. (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 71) A escola, por meio da ação pedagógica, em um modelo que reproduz os valores culturais dominantes, pode promover um cenário de exclusão mesmo em sala de aula, assim, “os filhos oriundos das classes populares são, portanto, os mais implicados pela eliminação, pelo banimento ou pelo atraso escolar” (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 61). No modelo de educação analisada por Bourdieu e Passeron (2014), os filhos das classes dominantes, em geral, alcançam as melhores posições por conta de sua origem social e de suas qualificações escolares. Contudo Bourdieu e Passeron (2014) não indicam que os filhos das classes populares não possam alcançar êxito nas trajetórias escolares, mas quando alcançam é com muito mais esforço até finalizarem todo o ciclo de formação escolar. Bourdieu e Passeron (2014) pensam em uma alternativa a esse modelo competitivo da escola tradicional e destacam que “a ideologia escolar da escola libertadora é o que move a acreditar na ascensão social por esta via (BOURDIEU; PASSERON, 2014, p, 22), escola libertadora pensada também pelo educador brasileiro Paulo Freire. A questão da dominação é outro tema presente na obra de Pierre Bourdieu que compreende o espaço social como o âmbito das relações polarizadas entre dominantes, (aqueles que detêm o poder) e os dominados (as classes populares). Karl Marx, por exemplo, enfatiza que a luta de classes promoveria relações de dominação entre classe burguesa (dominantes) e classe operária (dominados), sendo o aspecto econômico o elemento dessa divergência de interesses que provocaria toda ordem de desigualdades sociais. Ao passo que para Max Weber a dominação seria uma espécie de concessão da parte dominada que dependeria da obediência dos dominados, assim podemos pensar em um pequeno esquema de relação de comando–obediência, ou seja, daquele que detém o poder, como o chefe (que comanda) e uma equipe de trabalhadores (que obedecem realizando as tarefas orientadas), em uma relação de aceitação e cumplicidade frente a esse comando justamente porque assim aprenderam. Pierre Bourdieu reformula essa ideia de dominação de Max Weber. Para Pierre Bourdieu, inicialmente, a dominação passa pelo processo de socialização a partir de todas as interações sociais que realizamos, o que o autor classifica como nossos habitus primários, que envolve o trabalho educacional das famílias, e, posteriormente, pelos habitus secundários, ou aqueles ensinados pelas escolas. As normas que regem a dominação estão presentes nas nossas práticas sociais e assim aprendidas ao longo da vida, ou seja, vamos acumulando com nossas experiências diferentes capitais (no sentido simbólico) como capital cultural, econômico e social. Podemos, para fins de compreensão, comparar duas crianças oriundas da mesma classe social, porém a primeira os pais com acesso a recursos materiais, mas com pouco interesse em questões culturais, e a segunda, além de acesso a recursos materiais, os pais gostam de acessar os produtos da cultura. Assim, há uma distinção também entre crianças da mesma classe social que será valorizada no momento de frequência na escola e nas demais relações na sociedade. A aceitação das distinções culturais, como a valorização dos diplomas universitários, das vestimentas adequadas para os diferentes espaços, acontece como parte do jogo de cumplicidade da sociedade, pois a dominação é uma relação imperceptível, e percebemos apenas quando alguém destoa dos padrões aceitos, como quando alguém veste uma roupa que não condiz com o ambiente, como ir em um restaurante classificado de jantar excelente, com chef, calçando chinelos de dedo. A dominação para Pierre Bourdieu é uma relação consensual e imperceptível, mas ao mesmo tempo arbitrária, porque são ações impostas para todos, definidas pelas instituições e transmitidas como algo natural, criando nossos habitus que reproduzimos em nossas narrativas, pois não a questionamos. Como exemplo, está à disposição dos estudantes na sala de aula, em carteiras escolares individuais, organizadas em filas, além do seu sistema de avaliação que classifica de maneira diferente os estudantes. Esse modelo se estende para as outras formas de organizar as demais instituições sociais, porque, mesmo adultos, somos o tempo todo disciplinados. Para refletir Estudar a teoria sociológica é um exercício que expande nosso senso crítico e nos torna capazes de refletir com base em dados científicos, o que é diferente, por exemplo, de uma simples opinião dos fatos com base em informações do senso comum, geradas pelas impressões de cada um. O conteúdo dessa unidade pode contribuir de alguma maneira para sua reflexão sobre questões práticas do cotidiano? Para Bourdieu e Passeron (2014), é a escola a instituição que reforça e garante as relações sociais de dominação que se estendem para a sociedade, para a cultura e para a economia, pois “os mecanismos de dominação e violência simbólica não agem somente no domínio escolar". Eles também se encontram em todas as esferas do mundo social” (JOURDAIN; NAULIN, 2017, p. 74). Quando a escola valoriza a cultura apreciada pelas elites sociais há um processo, ao mesmo tempo, de dominação e de imposição dessa cultura com a cultura legítima. O sistema educacional é definido assim por Bourdieu e Passeron (2014, p. 25), como o conjunto dos mecanismos institucionais ou habituais pelos quais se encontra assegurada a transmissão entre as gerações da cultura herdada do passado (isto é, a informação acumulada), as teorias clássicas tendem a dissociar a reprodução cultural de sua função de reprodução social, isto é, a ignorar o efeito próprio das relações simbólicas na reprodução das relações de força. (BOURDIEU; PASSERON, 2014, p. 25) Essa citação de Bourdieu e Passeron (2014) descreve a escola como instrumento reconhecido e que alcança toda a sociedade para reproduzir continuamente a cultura dominante, e critica as antigas análises teóricas de outros sociólogos sobre a escola que não enfatizaram esse sentido de reprodução social das relações de poder. É nesse sentido que Pierre Bourdieu coloca a sociologia como algo reflexivo por realizar esse trabalho de revelação das questões que estão por trás das relações sociais e de poder, e que não são facilmente percebidas pelos agentes (indivíduos). Por isso que o autor enfatiza com a célebre frase que a “Sociologia é um esporte (no sentido de ciência) de combate”. Tema 3 Poder ebiopoder na Teoria de Foucault O que é poder? A obra do filósofo francês Michel Foucault influencia outros campos do conhecimento, incluindo a sociologia, a história e até mesmo a medicina social. Michel Foucault desenvolveu uma nova teoria para a questão do poder, e assim expandiu a compreensão que havia sobre esse tema. Nas concepções clássicas, como naquela analisada pelo sociólogo alemão Max Weber, o poder se distingue como podendo ser algo sobre controle de um indivíduo, como do proprietário de uma empresa, pelo seu poder individual (de autoridade) com repercussão no cumprimento das ordens pelos trabalhadores, mas nem todos trabalham e assim não precisam receber as ordens de alguém nesse tipo de relação de poder. Contudo, quando esse poder é exercido por uma pessoa, que representa o Estado, como parte do quadro de funcionários públicos, como os policiais, essa ideia de poder se expande e é reconhecida como a de um poder legítimo, pois todos precisam cumprir as leis e não cometer crimes. Nesse caso, o exercício desse poder não depende de que as pessoas o aceitem, esse poder do estado é um poder macrossocial (com alcance em toda a sociedade). Essa versão do poder o localiza no centro, na representação do estado que detém o que conhecemos como monopólio (exclusividade) do exercício do poder político. Já na perspectiva de poder de Karl Marx, o poder tem uma relação direta com a questão econômica em razão da luta de classes e da posição que os indivíduos ocupam nas relações de produção, os proletários (com a força de trabalho) teriam menos poder que os burgueses (donos dos meios de produção). Na nova proposta estudada por Michel Foucault, há um rompimento com essa análise marxista sobre a ideia de poder com base na luta de classes. Surge a ideia de microfísica para o poder, micro porque está presente nas relações entre as pessoas, em todos os espaços da sociedade, e não está fixo e nem permanente em apenas um único lugar (como nas instituições do estado), e física porque influencia diretamente nos corpos, pois o corpo é reconhecido como espaço para o exercício de poder, como quando os pais permitem ou não de as meninas usarem determinada roupa. O poder passa a ser compreendido como uma relação exercida em lugares assimétricos (em meio a relações sociais, mesmo que desequilibradas) com algumas pessoas detendo mais poder que outras, mas as que têm menos poder não deixariam de exercê-lo, pois a menina pode usar a roupa proibida sem os pais saberem. Esse exercício de poder atinge a todos (todos podem exercer em alguma medida alguma forma de poder), por isso Michel Foucault entende o poder organizado em uma espécie de rede, espalhado por toda a sociedade. Por essa teoria, Michel Foucault contesta o poder descrito por Max Weber, de ser um monopólio (do Estado), ou pela ideia de poder sendo exercida pelo modelo histórico do soberano que poderia ditar quem viveria ou quem morreria, além de o poder não ser mais central nas instituições, como a família, a escola e no âmbito da economia e da política, como exemplos. O poder está em todos os espaços da sociedade em uma ideia de micropoderes, e em uma circulação horizontal e não apenas em linha vertical, de cima (onde se encontra o Estado e a classe dominante) e para baixo (onde se localiza a população, a classe dominada), pois “o poder está em toda parte; não porque englobe tudo, e sim porque provém de todos os lugares” (FOUCAULT, 2021, p. 89). O Estado não perdeu sua força de impor seu poder pelo controle das forças de segurança (por meio da polícia e do exército) ou da Justiça (pela aplicação das leis como meio de punir e disciplinar), mas a ideia de Michel Foucault sobre poder é a de que a forma de o poder se manifestar é que deixou de ser apenas por meio de um estado político que centraliza essas ações. Saiba mais Um site seguro e de livre acesso é o Foucault et alii que disponibiliza um grande acervo de textos elaborados por autores qualificados com amplo interesse em divulgar a obra de Michel Foucault e que utilizam o referencial teórico desse autor em suas publicações. Michel Foucault também entende o poder, ao mesmo tempo, como saber e verdade. Nesse sentido, são duas as linhas de estudo do autor: a arqueologia e a genealogia. A arqueologia busca compreender como algo se torna aceito como saber legítimo e assim reconhecido como válido pelas instituições, como o caso da loucura ao longo da história, que passou por diferentes fases, pela trágica (o comportamento dos loucos era relacionado a questões sobrenaturais), pela moral (quando as pessoas insanas são tidas como imorais), e pela específica (momento em que a loucura é reconhecida como doença que precisa ser medicada e tratada). Nesse terceiro momento, o discurso médico sobre a loucura é um exemplo de como saber se torna poder, porque antes de ser uma enfermidade, a definição de loucura resulta de um discurso científico constituído para realizar a tarefa de adestrar o ser humano, dividindo-o entre loucos e normais. Desse modo, o poder político da medicina consiste em distribuir os indivíduos uns ao lado dos outros, isolá-los, individualizá-los, vigiá-los um a um, constatar o estado de saúde de cada um, ver se está vivo ou morto e fixar, assim, a sociedade em um espaço esquadrinhado, dividido, inspecionado, percorrido por um olhar permanente e controlado por um registro, tanto quanto possível completo, de todos os fenômenos. (FOUCAULT, 2021, p. 89) Com a genealogia Michel Foucault se propõe a compreender as origens do poder, ou seja, a maneira que se transforma e quais são as práticas que o sustentam. Michel Foucault estuda o surgimento das instituições punitivas (prisões e hospitais) e também divide a punição humana em fases, sendo a primeira a do suplício (quando o objetivo era causar o máximo de dor física para o criminoso em cerimônias públicas de tortura), e depois pela fase privativa de liberdade, que é a atual (como forma de punir a alma humana com isolamento social em cumprimento de longas penas nas prisões). No período da genealogia nasce a prática da vigilância para disciplinar e manter a disciplina fazendo nascer a ideia de “corpos dóceis” (que veremos a seguir) quando essa vigilância se estendeu para as escolas, hospitais, quartéis e prisões. O objetivo foi o de educar os corpos, regrando comportamentos e gestos para exercer controle sobre as pessoas. Michel Foucault destaca que esse poder disciplinar não seria apenas destrutivo, mas construtivo também, pois revelaria um novo ser humano que aceita os padrões e se submete à rotina de controle, como ir para a escola diariamente, ou cumprir longas jornadas de trabalho. Michel Foucault se utiliza do exemplo do Panóptico (que é uma torre colocada no centro de uma prisão para realizar a vigilância em todas as direções) como sendo a representação da sociedade disciplinadora que vivemos. No modelo do Panóptico, a vigilância geraria a dúvida no preso se está ou não sendo vigiado, e assim ele se comportaria da maneira esperada. Esse poder disciplinar foi gestado no século XIX e ainda exerce sua influência no mundo contemporâneo, pois podemos relacionar essa forma de controle com as inúmeras câmeras de vigilância espalhadas pelos locais públicos e pela preocupação em sermos avaliados negativamente, e assim não extrapolamos as regras impostas. Michel Foucault entende que o poder não é algo que possa ser controlado como um bem material ou possa ser um exercício exclusivo das classes dominantes que teriam se apossado do poder (como de um objeto), e os dominados apenas cumpririam as vontades ditadas pelos poderosos. O poder pode ser exercido por meio de estratégias que podem ser realizadas por todas as pessoas, pois inclusive o exercício do poder pelas classes dominantes se utiliza de recursos e de técnicas de persuasão para se tornar consenso e ser aceito por todos. Assim o poder não é algo estático, por isso a ideia de rede é algo que circula na sociedade, e “diferente das ideias absolutistas que afirmavam que o poder é um direito para poucos, Foucaultafirma que se o poder não estiver em circulação, não poderá ser exercido, pois o poder ‘só funciona em cadeia’” (FOUCAULT, 2021, p. 183), podendo ser exercido por todos. Nesse sentido, o poder não poderia ser apropriado por um único grupo social, mesmo no exercício legitimado do controle do Estado. Esse formato de poder pensado por Michel Foucault propicia o enfrentamento contínuo entre as forças sociais, como quando os professores das escolas públicas realizam uma greve, mesmo contrariando a vontade do governo. Michel Foucault, analisando o poder na forma disciplinar, destacou que a criação de instituições como a escola, os hospitais, os manicômios, as prisões, dentre outras, teve como objetivo o adestramento das pessoas. A ideia foi a de vigiar as populações no seu conjunto, mas também individualmente, agindo de modo a controlar o uso dos corpos pelas pessoas, restringindo suas ações e escolhas. O objetivo desse poder disciplinar é o de manter todas as condutas sobre controle moral, disciplinadas em todas as suas atividades e práticas sociais, desde o cuidado com a saúde, com a sexualidade (condicionando práticas sexuais aceitáveis e as não aceitáveis), pelos costumes impostos a todos, e mesmo na vida em família na relação entre pais e filhos e entre irmãos. O resultado esperado é o de populações com corpos dóceis (disciplinados e, ao mesmo tempo, produtivos) e facilmente controláveis e dominados. Michel Foucault também apresenta outras formas de compreender o poder, como as ideias de biopoder e biopolítica. O biopoder seria exercido pelo controle político (vigilância) sobre os corpos das pessoas utilizando as instituições criadas para exercer o poder disciplinar para tornar os corpos mais produtivos (docilizados). Os corpos são assim ajustados para o trabalho e não para a perda de energia como a desperdiçada pelas práticas sexuais ou outros prazeres. A biopolítica, diferentemente do biopoder, não atua diretamente sobre os corpos, como o biopoder o faz, mas sobre questões que envolvem a população (para o controle das massas) como pelos problemas em seus aspectos político, biológico, científico e de poder. A biopolítica se debruça sobre a questão do controle populacional acompanhando as taxas de nascimento, de óbitos, de reprodução humana e de nascimentos (natalidade). O biopoder como tecnologia dos corpos, manifesta-se na forma de biopolítica como práticas aplicadas sobre as populações para o controle da vida e mesmo da morte. Como exemplo, todas as campanhas de saúde pública que distribuem vacinas definem antes aqueles que podem ser vacinados primeiro e os que devem aguardar a vez de ser vacinado por algum critério pré-definido, essa é uma prática de biopoder executada por meio da biopolítica. O investimento do Ministério da Saúde na compra dos remédios para a farmácia do nosso Sistema Público é outro exemplo de como o biopoder pode ser exercido na forma de biopolítica, pois define quais produtos ficarão disponíveis para a população e quais doenças não terão recursos farmacêuticos disponíveis. As novas tecnologias da área da saúde quando disponíveis apenas nas empresas privadas, como a dos novos medicamentos (mais caros), ou as novas terapias de tratamento para as doenças, definem, de certo modo, aqueles que terão mais chance de viver daqueles que correm mais riscos de morrer. Isso se aproxima daquela antiga e clássica ideia de poder soberano, guardada a devida proporção de cada época histórica, quando se define quem poderá viver acessando os novos medicamentos e as novas terapias e quem correrá risco de morrer por não ter acesso a esses mesmos recursos. Questões do âmbito da biologia humana passam necessariamente pelo controle do aspecto político ou da biopolítica (como o governo definindo a política pública para a área da saúde). Por fim, o cuidado com a saúde preventiva, com as doenças como o câncer e toda forma de enfermidade, de certa forma também o aborto, o cuidado com a velhice humana (ou a ideia de terceira idade) e as pesquisas genéticas, são práticas de biopoder orientadas pela biopolítica. Encerramento Como se forma a identidade pessoal? O interacionismo simbólico destaca que por meio das nossas interações sociais no ambiente exterior, tomamos consciência do que esses teóricos definem como “sentido de si mesmo”. Assim, as interações sociais contribuem diretamente para a moldagem da identidade pessoal de cada um, e servem de orientação para compreendermos a identidade dos outros. Por que a escola é tão criticada? Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron analisaram a organização da escola francesa e encontraram uma instituição estruturada com base na cultura da classe dominante o que dificultava o desempenho dos estudantes da classe popular, condição que promoveu um intenso processo de desigualdade entre os estudantes. O que é poder? O poder pode ser dividido a partir de duas compreensões sociológicas: pelo modelo clássico, como macropoder, concentrado nas instituições, fixo, sendo exercido por uma autoridade que estabelece as regras que devem ser seguidas por todos, pertencendo ao Estado; ou pela versão de micropoder de Michel Foucault, para quem o poder é uma ação que se transforma e está em todos os lugares, e é exercido, em alguma medida, por todos, e dessa forma não pertence a nenhuma pessoa. Resumo da Unidade Neste material, apresentamos o principal conceito do interacionismo simbólico que se refere à ideia de interação social como elemento que influencia diretamente na formação da identidade pessoal dos indivíduos pelo contato com outras pessoas. Esse contato social dos indivíduos foi destacado como sendo uma espécie de teatralidade no mundo real quando as pessoas representam papéis sociais com o objetivo de causarem boa impressão. O conceito de habitus se aproxima muito do conceito de interação social quando revela que é algo incorporado pelos agentes (versão da ideia de indivíduo), pois tudo que aprendemos e incorporamos é resultado de nosso contato com outras pessoas. Desse modo, é por essa perspectiva de habitus que os agentes se identificam e se reconhecem como semelhantes, e, ao mesmo tempo, promovem distinção social entre si, ou para manter ou para conquistar alguma forma de influência ou de exercício ou poder. Em outro momento, a concepção de poder se distingue entre a versão de exercício por uma autoridade (ou do governo que impõe suas vontades, à força se for necessário) e a do poder como recurso de resistência que se distribui entre todas as pessoas e é assim utilizado de forma estratégica em todas as relações sociais, pois todas as pessoas dispõem de algum nível de poder. Referências BOURDIEU, P.; PASSERON, J-C. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 7. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2014. ENNES, M. A. Interacionismo simbólico: contribuições para se pensar os processos identitários. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais, São Paulo, v. 43, p. 63-81. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 13. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2021. GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. 20. ed. Tradução de Maria Célia Santos Raposo. Petrópolis: Vozes, 2014. JOURDAIN, A.; NAULIN, S. Teoria de Pierre Bourdieu e seus usos sociológicos. Petrópolis: Vozes, 2017. ISBN: 9788532654168. Biblioteca Virtual Pearson. LALLEMENT, M. História das ideias sociológicas: das origens aos contemporâneos. Petrópolis: Vozes, 2018. ISBN: 9788532658531. Biblioteca Virtual Pearson. PANSANI, C. Pequeno dicionário de sociologia. Campinas: Autores Associados, 2018. ISBN: 9788574962412. Biblioteca Virtual Pearson. UNIDADE III INTRODUÇÃO Múltiplas modernidades: perspectivas críticas e novos sujeitos na teoria sociológica O que chamamos de contemporaneidade, é um período histórico de grandes transformações, cujas datas não são precisas. Sabemos que, no século XX, acontecimentos radicais, como as guerras mundiais e o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), mudaram a configuração geopolítica do planeta e as relações internas e externas de cada país. Para o sociólogojamaicano Stuart Hall (1932-2014), essas mudanças precipitaram rupturas intransponíveis, fazendo-nos pensar no fim da Modernidade e em propor o início de uma nova era, a Pós-Modernidade, caracterizada, entre outros fatores, pela liderança dos Estados Unidos no Ocidente, pela globalização, pela expansão do capitalismo em bases informacionais e pela comunicação por meio de redes de computadores, além de outras transformações. Analisar e compreender todas essas questões é dever da Sociologia contemporânea, o que tem exigido o desenvolvimento de novas metodologias e a exploração de temas não tradicionais. Objetivos Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: · Analisar perspectivas críticas produzidas por novos sujeitos e seus impactos na teoria sociológica. Conteúdo Programático Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas: · Tema 1 – Racionalização e reflexividade. · Tema 2 – Estudos culturais e a questão das identidades. · Tema 3 – Pós-colonialismo e decolonialidade. Aplicandose as ideias sobre o condicionamento histórico do pensamento e sobre o caráter coletivo do conhecimento, podemos dizer que, por exemplo, ao conceber o programa que cria a rede social Facebook, Mark Zuckerberg tinha historicamente todas as condições de fazêlo; não fosse ele, seria outro jovem promissor. Portanto, estavam dadas as condições históricas, cognitivas, técnicas e linguísticas para o desenvolvimento do Facebook. Tema 1 Racionalização e reflexividade Por vezes, as mudanças de hábitos e costumes servem para solucionar problemas, mas como isso pode acontecer? Como início do estudo da racionalização no seio da Sociologia, faz-se necessário, a princípio, entender a definição e origem do conceito. Nas ciências humanas, genericamente, racionalização é o método que defende o papel central da razão na ordenação de toda atividade humana. Esta abordagem baseia-se na ideia de que a lógica e a ciência são a melhor maneira de alcançar o progresso social. A racionalização tem raízes históricas profundas, remontando à Antiguidade Clássica. O pensamento racionalista de Platão e Aristóteles influenciou a formação da Filosofia europeia, que, por sua vez, foi a base da moderna ciência e da tecnologia. Na Idade Média, filósofos como Santo Agostinho e Tomás de Aquino destacaram a importância da razão para a obtenção de verdades universais. No século XVII, a filosofia racionalista de René Descartes enfatizou ainda mais a importância da Lógica e da Matemática no estudo do mundo. Esta abordagem prosseguiu durante o século XVIII, quando o pensamento racionalista foi usado para compreender o mundo natural e explicar o comportamento humano. Na Sociologia, a racionalização é usada para explicar o comportamento humano. É a ideia de que as pessoas agem de acordo com a lógica e a ciência para atingir objetivos. Esta abordagem é particularmente relevante para entender a modernização da sociedade, na qual as pessoas tentam reorganizar os sistemas sociais de modo a torná-los mais eficientes e produtivos. A racionalização também é usada para explicar como as pessoas tomam decisões lógicas e racionais ao tomar decisões cotidianas. Ainda pela perspectiva sociológica, racionalização também pode ser compreendida como a construção de uma visão coerente e totalizadora do mundo, partindo de dados parciais ou de um princípio único. A racionalização pode ser vista como uma forma de organização social, na qual as pessoas criam padrões de raciocínio e de ação para obter o maior benefício possível a partir de uma única base de informações. O objetivo dessa racionalização é tornar a tomada de decisão mais eficiente, pois as pessoas não precisam recorrer a abordagens complexas ou a uma extensa pesquisa para tomar decisões. Em vez disso, as pessoas podem avaliar os possíveis resultados de suas ações com base nos princípios básicos da racionalização. A racionalização também tem implicações sociais, pois ela ajuda a definir e a delimitar os papéis e responsabilidades de cada membro de uma sociedade. Por exemplo, a racionalização pode ajudar a determinar quais atividades são mais importantes para uma organização, que tipo de estrutura ela deve ter e quais regras deverão ser seguidas pelos membros da organização. Este tipo de racionalização, por sua vez, pode contribuir para a manutenção de um ambiente de trabalho organizado e produtivo. Nesse tema, estudaremos o conceito a partir do pensamento de Max Weber e dos pensadores da Escola de Frankfurt, haja vista que esta, por meio do desenvolvimento da teoria crítica, foi amplamente influenciada por Weber. Weber, na obra A ética protestante e o espírito capitalista, trabalha a ideia de racionalidade ao distinguir a ação racional valorativa da ação racional instrumental. A primeira é aquela que busca atingir certos fins e é motivada por valores como fé, prosperidade, bem-estar etc. Já a segunda é aquela que se concentra no meio para atingir os fins desejados, enfatizando a prática e a eficiência em detrimento dos valores. Para Weber, o espírito capitalista foi desenvolvido a partir destas duas ações racionais. Ele argumenta que o protestantismo ensinou aos seus seguidores a buscarem a prosperidade e a riqueza por meio de uma ação racional valorativa, enquanto as outras religiões ensinavam que a riqueza era pecaminosa. Desta forma, a riqueza passou a ser vista como um sinal da bênção de Deus ao indivíduo. Além disso, o protestantismo também ensinou aos seus seguidores a buscarem a prosperidade por meio de uma ação racional instrumental, destacando a prática, a disciplina e a eficiência. A ação racional valorativa do protestantismo ensinava aos seus seguidores a importância de avaliar a vida e as ações com base em princípios morais, ao invés de simplesmente segui-los por tradição ou por costume. Por outro lado, a ação racional instrumental ensinava aos seus seguidores a importância da racionalidade e da análise na tomada de decisões, ao invés de seguir meramente as suas emoções. Esta combinação de ações racionais permitiu ao protestantismo fornecer aos seus seguidores uma nova forma de pensar, que foi essencial para o desenvolvimento do espírito capitalista. O protestantismo incentivou aos seus seguidores a prática da responsabilidade individual, ao estimular o uso da razão e a busca por conhecimento. Esta nova forma de pensar desenvolveu na população o espírito de empreendedorismo, permitindo que cada pessoa desenvolvesse um senso de responsabilidade pessoal pelo seu próprio futuro. Também foi incentivado o trabalho duro, pois acreditava-se que Deus recompensaria aqueles que trabalhassem com zelo. Ao mesmo tempo, o protestantismo promoveu a riqueza e a prosperidade ao enfatizar a importância da economia de mercado. Esta combinação de ações racionais permitiu que muitas pessoas trabalhassem com maior ênfase e vigor, e incentivou também a acumulação de riquezas, o que permitiu ao capital se desenvolver e gerar grandes mudanças na sociedade. Ao impulsionar a iniciativa individual, o protestantismo ajudou a desenvolver o espírito empreendedor que foi necessário para o desenvolvimento econômico. O protestantismo também influenciou a economia ao promover a disciplina de trabalho, a confiança na providência divina e a prática de economia. Esses princípios levaram à criação de algumas das maiores empresas e corporações da história. Por exemplo, a empresa americana Barclays foi fundada por um banqueiro luterano, enquanto a empresa alemã Siemens foi fundada por um químico calvinista. Além disso, o protestantismo contribuiu para a ascensão da classe média, promovendo um maior nível de educação e uma maior consciência sobre os direitos econômicos. Isso permitiu que as pessoas trabalhassem com maior eficiência e tivessem acesso aos recursos necessários para criar empresas e acumular riquezas. Além disso, o protestantismo incentivou o trabalho duro e a poupança, o que permitiu que muitas pessoas migrassem para a classe média. Segundo a teoria crítica da Escola de Frankfurt, a racionalização é a justificação de certaspráticas de dominação como necessárias ao progresso e ao desenvolvimento social, ocultando, entretanto, os verdadeiros interesses da classe dominante. A racionalização é usada para instituir relações de poder desiguais em todos os níveis da sociedade, ocultando ou distorcendo a realidade para servir aos interesses daqueles no topo da hierarquia social. A teoria crítica da Escola de Frankfurt procura desvendar as estruturas opressoras da sociedade moderna e as relações de poder desiguais que elas produzem. Por meio de seu enfoque crítico, os teóricos da Escola de Frankfurt buscam desvendar a racionalização como uma forma de dominação e oferecer uma alternativa à racionalização como forma de libertação. Os frankfurtianos criticam a “racionalidade instrumental”, que resultou do “desencantamento do mundo” gerado pelo sistema capitalista e privilegia a eficácia e o lucro em detrimento de valores humanos. Eles defendem a ideia de que a ética não deve ser subordinada à economia, pois isso conduziria a uma cultura de desconsideração pelos direitos humanos e à desumanização das relações sociais. Os filósofos da Escola de Frankfurt acreditam que é necessário desenvolver uma nova forma de racionalidade, que combine a eficácia do pensamento instrumental com a consciência crítica, a fim de reparar a desumanização e restabelecer a dignidade humana. Eles acreditam que o indivíduo deve se envolver em uma reflexão crítica para se libertar de dominações arbitrárias, tornando-se capaz de estabelecer sua própria identidade. Esta consciência crítica é a base para a criação de uma nova forma de racionalidade, que reconhece a complexidade da realidade e permite ao indivíduo se libertar de estruturas de dominação e construir uma nova ordem social, mais justa e igualitária. Esta nova racionalidade não precisa necessariamente ser baseada na lógica formal, mas pode ser baseada na lógica do bom senso, da criatividade, da tolerância e da compreensão. A partir desta nova racionalidade, é possível construir um sistema social mais inclusivo, no qual todas as pessoas são consideradas iguais e têm direitos iguais. Com este tipo de consciência crítica, é possível transformar a sociedade para torná-la mais justa e igualitária. Podem ser adotadas diversas medidas para promover a inclusão social, como a implementação de programas educacionais abrangentes para todas as faixas etárias; a promoção da igualdade de oportunidades nas áreas de trabalho, educação, saúde e lazer; e a criação de políticas públicas voltadas para a garantia de direitos econômicos, sociais e culturais para todos. Além disso, é necessário investir na promoção da conscientização e da sensibilização da população sobre a responsabilidade de todos em tornar a sociedade mais inclusiva. É preciso criar espaços de diálogo, de discussão e de debate para que as pessoas possam compreender melhor os desafios relacionados à inclusão social. A construção do conceito de reflexividade ou de um sujeito reflexivo passa pela premissa de que há, por parte dos sujeitos, uma investigação interna das suas próprias ações e, por meio dela, a possibilidade de reformulação das suas ações dentro da coletividade e do próprio indivíduo, levando em consideração o entendimento do acesso ao pensamento e às informações, construídas e reconstruídas continuamente durante toda a existência do indivíduo. Esse conceito aponta para a necessidade de se desenvolver um processo de autogestão, que possa permitir ao indivíduo a compreensão de seu próprio pensamento, propondo que o indivíduo busque aprimorar suas competências, habilidades e aptidões para que possa lidar e se ajustar aos meios que o cercam. A reflexividade possibilita também que o indivíduo tenha consciência de si mesmo e de seu lugar no mundo, além de possibilitar uma melhor compreensão sobre si e sobre o meio em que está inserido. Assim, ela possibilita o desenvolvimento de um sujeito ativo, responsável e consciente de suas ações e de suas consequências. Ao refletir, o indivíduo passa a ter consciência das suas ações e suas consequências, podendo, assim, tomar decisões mais conscientes e responsáveis. Além disso, a reflexividade possibilita ao indivíduo entender melhor a dinâmica das relações sociais, permitindo-lhe entender a complexidade e a diversidade das relações sociais. Além disso, a reflexividade possibilita ao indivíduo desenvolver habilidades como a capacidade de fazer autocrítica, autoanálise, autopercepção, bem como a de compreender e questionar as normas sociais. A reflexividade também aumenta a consciência de si e de outros, promovendo, assim, a compreensão de como as pessoas estão interconectadas entre si e como as suas escolhas influenciam o ambiente social. Em suma, a reflexividade permite que o indivíduo desenvolva uma maior consciência social e emocional, o que o torna mais capaz de se relacionar com um nível mais profundo com outras pessoas, contribuindo para o crescimento e harmonização das relações sociais. Anthony Giddens é um sociólogo britânico conhecido por sua teoria da estruturação, que destaca a importância da reflexividade na vida social. Para ele, a reflexividade se refere ao processo pelo qual as pessoas refletem sobre suas próprias ações e seus impactos na sociedade e, em seguida, ajustam suas ações com base nessas reflexões. Giddens argumenta que a reflexividade é uma característica fundamental da vida social moderna e que ela permite às pessoas adaptarem-se a mudanças sociais e tecnológicas com maior eficiência. Giddens utiliza o termo ‘reflexividade’ para caracterizar a maneira com o qual o indivíduo se comporta no quadro da Modernidade radical (aliás, em certos textos, ele utiliza a expressão ‘Modernidade reflexiva’ como sinônima de 'Modernidade radical’). A noção aqui tem um sentido diferente do que ela tinha no quadro da Teoria da Estruturação (cf. cap. I). Lá, ela qualificar toda forma de prática social, não importando o contexto em que esta se desenrolava. Aqui, a reflexividade reenvia a um contexto particular, o da Modernidade radical, no qual um indivíduo é continuamente levado a escolher entre tal ou tal prática, entre tal ou tal projeto de vida, apoiando-se num grande número de informações, de referências, de ‘recursos reflexivos’. (NIZET, 2016, p. 98) De acordo com Giddens, a reflexividade ajuda a criar um senso de consciência sobre a realidade, permitindo que as pessoas sejam mais criativas e produtivas. Ele argumenta que a reflexividade não apenas ajuda as pessoas a aceitarem mudanças, mas também a serem mais proativas e a tomarem decisões informadas. Para Giddens, em uma sociedade reflexiva, são consideravelmente modificadas as relações existentes até então com a tradição, as estruturas hierárquicas e a autoridade. Isso ocorre pelo fato de que as pessoas passam a tomar decisões baseadas em suas próprias experiências e conhecimentos, e não mais como era antes, pela aceitação das decisões de outras pessoas consideradas autoridades. Assim, a sociedade reflexiva é caracterizada por um maior grau de autonomia e liberdade para as pessoas, uma vez que elas podem tomar suas próprias decisões com base no conhecimento acumulado durante sua vida. Além disso, é importante destacar que a sociedade reflexiva é marcada pela presença de novas tecnologias, como a internet, que permite às pessoas a disseminação de informações e conhecimentos em um curto espaço de tempo, o que contribui para a autonomia individual e coletiva. As novas tecnologias também podem ser usadas para permitir que as pessoas tenham acesso a informações e conhecimentos que antes eram limitados. Isso pode ajudar a estimular o pensamento crítico e o questionamento dos valores e dos conhecimentos, o que também é importante para a formação de uma sociedade reflexiva. Por fim, as novas tecnologias também permitem que as pessoas estabeleçam conexões e interações com outras pessoas e culturas, o que contribui para o desenvolvimento de novas formas de pensar e de agir. Em função da renovação constante das informações apreendidas, há também umareforma das práticas reflexivas, tidas como sociais. Assim, é possível aprimorar e desenvolver ações e comportamentos mais inovadores e que atinjam um maior nível de eficácia. Além disso, a renovação das informações apreendidas também permite a aquisição de novos conhecimentos, contribuindo para uma maior consciência crítica sobre questões relevantes para a sociedade. Essa aquisição de conhecimentos pode servir para a formação de opiniões mais fundamentadas e bem informadas, o que facilita a participação ativa na transformação social. Como os conhecimentos adquiridos podem ser compartilhados e ampliados, eles podem ser usados para aprimorar as ações em prol do bem-estar da sociedade e da comunidade. Por exemplo, o conhecimento adquirido pode ser usado para desenvolver projetos de lei que visem melhorar a educação, a saúde, a segurança e a qualidade de vida da população. Além disso, a aquisição de conhecimentos pode ajudar a aprimorar a capacidade de comunicação entre pessoas e grupos, e aumentar a consciência sobre temas importantes. Constrói-se o entendimento de que os sujeitos possuem uma história própria, a qual é constituída pela constante ação reflexiva, reconstrução e recriação de suas identidades, em um processo dialético entre o passado e o presente, e entre o social e o individual. Nesse sentido, a história ajuda a compreender como os sujeitos constroem suas identidades, tendo como base suas experiências passadas e presentes, bem como as relações que estabelecem com os outros e com as circunstâncias sociais. Por isso, a história de vida de cada sujeito é um processo único e ímpar, pois é influenciado por vários fatores externos e internos. Assim, compreender a história de vida de um sujeito nos permite entender melhor o seu modo de pensar, sentir e agir. Giddens fala aqui de ‘estilo de vida’ para designar a preocupação permanente que o indivíduo tem tornar harmoniosas as escolhas que ele faz, nos diferentes domínios que acabamos de evocar. Ele sublinha igualmente que o indivíduo se exprime a propósito dessa busca de coerência e de continuidade, sugeridas na forma de narrativas (narratives). (NIZET, 2016, p. 100) Com o alto grau de reflexividade da atualidade, há a proposta de crescente autonomia frente às expectativas determinadas pela sociedade. Por meio do autoconhecimento, as pessoas têm buscado descobrir quem elas realmente são, suas características, suas limitações e seus desejos. O resultado é que muitos têm reagido às expectativas impostas pela sociedade e têm se recusado a aceitá-las. Da mesma forma, o aumento da consciência e da autocrítica também tem estimulado o questionamento de leis, regras e normas estabelecidas pela sociedade, o que pode levar a mudanças em relação aos padrões sociais vigentes. Assim, a reflexividade atual tem contribuído para a promoção de uma maior autonomia, uma vez que as pessoas estão buscando viver de acordo com seus próprios valores, independentemente das expectativas da sociedade. Tema 2 Estudos culturais e a questão das identidades Ao estar em lugar com características totalmente diferentes da que está acostumado, é comum perceber que as pessoas se comportam de maneira diferente daquela com a qual está familiarizado(a)? A palavra cultura vem do latim colere, que significa o cultivo da terra, ou seja, a agricultura. Com o tempo, pelas características da linguagem, possuidora da capacidade de separar aquilo que é concreto e material para se aludir ao que é imaterial e abstrato, o termo cultura passou a designar aquilo que se cultiva mentalmente e não mais somente a terra. Com o tempo, a cultura passou a designar também tudo aquilo que se faz com esforço, cuidado e determinação, a fim de obter maiores e melhores resultados. Ter cultura significava, então, ter conhecimento, cultivar ideias e acumular saberes. Como saberes e conhecimento são obtidos por meio de leituras e do processo educacional, pessoas cultas passaram a ser entendidas como aquelas que tinham acesso a esses benefícios, ou seja, a elite econômica e política, a nobreza e a burguesia. A cultura também se tornou um meio de diferenciar socialmente as pessoas. As elites desenvolveram um gosto refinado e buscaram diferentes formas de expressão artística, como a poesia, a pintura e a música. A cultura tornou-se uma forma de estabelecer hierarquias e de demonstrar a superioridade de uma classe social sobre outra. No entanto, a cultura também pode ser usada como um meio de conexão e compreensão entre povos e culturas diferentes. A cultura pode ser usada para compreender outros pontos de vista, como no caso dos estudos interculturais. É também um meio de compartilhar histórias e experiências que nos ajudam a nos conectar com outras pessoas. Portanto, o sentido de “cultura” é muito mais do que apenas um meio de distinguir ou conectar as pessoas. É uma forma de aprender, compartilhar e celebrar nossas diferentes experiências, e, ao mesmo tempo, de nos conectar com outras pessoas e culturas. Essa diferenciação de comportamento teve início ainda no Império Romano, quando a elite bizantina instituiu a moda e o uso de talheres para se distinguir do restante da população. O uso de talheres, então, passou a ser um sinal de distinção social e status, que foi se perpetuando no decorrer dos séculos. Por volta do século XIX, o uso de talheres tornou-se mais difundido entre as classes médias e, em seguida, foi adotado por todas as classes sociais. Atualmente, o uso dos talheres é considerado como um símbolo de boas maneiras e civilidade. O uso de talheres é uma forma de demonstrar respeito e boa educação. Eles são usados para facilitar o consumo de comida e evitar o contato direto com os alimentos. Além disso, seu uso ajuda a evitar o desperdício de comida, pois permite que os alimentos sejam servidos, comidos e compartilhados de forma adequada. O uso de talheres também é importante para diferenciar o comportamento entre as classes sociais. Por exemplo, é esperado que os membros da elite social usem os talheres corretamente, enquanto a classe média pode usar os talheres de forma mais casual. Isso ajuda a criar e manter a distinção entre as classes. Portanto, podemos afirmar que o conceito de cultura é histórico e tem evoluído ao longo do tempo, sendo influenciado por diferentes contextos sociais e culturais. Além disso, é comum que o termo seja usado de forma equivocada ou reducionista, desconsiderando a complexidade e a riqueza da cultura. Desde a Antiguidade, pensadores sociais procuram explicar por que grupos humanos vivem de maneiras diferentes, mas foi só na Modernidade que o conceito de cultura ganhou o status de objeto científico. A Modernidade foi um período de grandes transformações, que incluíram a emergência de novos modos de pensar e agir, a descoberta de novos mundos e a invenção de novas tecnologias. Estas mudanças levaram à criação de novas formas de organização social, política e econômica, que, por sua vez, criaram novos padrões culturais e comportamentais. Foi neste contexto que o conceito de cultura ganhou reconhecimento científico. Na Modernidade, o conceito de cultura passou a ser entendido como algo mais complexo e multifacetado, e não mais como o simples resultado de determinados costumes ou tradições. Por meio de novas teorias e métodos de estudo, os cientistas passaram a estudar a cultura como um conjunto de práticas, crenças e valores compartilhados por um grupo social. Esta abordagem permitiu aos cientistas entender a cultura como um fenômeno dinâmico, que evolui ao longo do tempo e que se manifesta de diferentes formas em diferentes contextos sociais. O evolucionismo esteve em evidência nas Ciências Sociais, sobretudo na Europa, entre os séculos XIX e XX. Essa corrente de pensamento desenvolveu a ideia de que as sociedades evoluíam como as espécies animais, sendo o modelo urbano-industrial europeu o exemplo máximo dessa evolução. No entanto, esta visão evolucionista foi contestada a partir do século XX, pois foi possível compreender que as sociedades humanas são dinâmicas e nãoseguem um padrão evolutivo único e linear. A partir desta compreensão, a diversidade das sociedades passou a ser respeitada e reconhecida como uma parte fundamental da realidade humana. Assim, a teoria evolucionista não apenas foi contestada como também foi substituída por outras abordagens, como a antropologia cultural, que considera as sociedades humanas em suas particularidades, sem a necessidade de classificá-las como mais ou menos evoluídas. Esta visão possibilita, por exemplo, o estudo das mudanças culturais ao longo do tempo, sem o vínculo a uma hierarquia de sociedades. Após o declínio europeu verificado depois da Segunda Guerra Mundial, a Academia do velho continente começou a rever a ideia de ser o modelo a ser seguido. Assim, o evolucionismo caiu em desuso como modelo de explicação das características de uma sociedade. No lugar dele, surgiu a chamada teoria crítica, que busca analisar as microrrelações que formam a sociedade, argumentando que existem forças mais fortes e construtivas que determinam o comportamento humano, além de fatores individuais. A teoria crítica também se mostra mais aberta à diversidade cultural, social e política, já que sua abordagem não parte do princípio de que uma cultura é melhor que outra. Ao invés disso, ela procura identificar as condições sociais que limitam ou impulsionam certos comportamentos. Por fim, a teoria crítica se mostra mais sensível às mudanças da sociedade, pois ela busca entender como as relações sociais se manifestam ao longo do tempo. Também pode servir como ferramenta para questionar as estruturas e práticas sociais, com o objetivo de promover a emancipação social. Nas últimas décadas, as Ciências Sociais passaram a abordar a diversidade etnográfica, a compreender melhor os processos culturais, a identificar o papel das instituições sociais e culturais na manutenção das diferenças e, também, a realizar um estudo comparativo das sociedades que foram pesquisadas. Essas mudanças não foram somente teóricas, mas, também, práticas. Os cientistas sociais que iam a campo passaram a desenvolver métodos de pesquisa que privilegiavam o diálogo direto com as comunidades, o que permitiu um maior contato com o território e a cultura de quem foi pesquisado. Atualmente, os estudos antropológicos (dentro das Ciências Sociais) têm como meta a realização de pesquisas que possam contribuir para a compreensão, preservação e melhoria das condições de vida das populações estudadas. Assim, eles são cada vez mais orientados para a ação, buscando soluções práticas para os problemas dessas sociedades. Assim, podemos concluir, resumidamente, três aspectos importantes no que diz respeito à cultura. Primeiro, a cultura representa um conjunto de significados compartilhados por um grupo; segundo, por meio do compartilhamento desse conjunto de significados que nos possibilita sermos membros de um grupo e permitindo a identificação com ele e; terceiro, a cultura, referindo-se a uma situação ou a um objeto, expressando um caráter multidiversificado. Desde seu início, a Sociologia procurou entender o processo pelo qual se dá a formação da individualidade, elemento pelo qual se desenvolve a subjetividade e a consciência dos indivíduos. Desde então, diversos autores analisaram essa relação entre indivíduo e sociedade como sendo de oposição. Mediante estudos de campo e análise de diferentes abordagens filosóficas, sociológicas, antropológicas e psicológicas, a Sociologia tem procurado entender como a sociedade se relaciona com o indivíduo, como os mecanismos de estruturação do social influenciam o desenvolvimento da identidade e como o indivíduo se apropria das estruturas sociais e as transforma. Leitura Nome do livro: Fundamentos de Sociologia e Antropologia Autor: Carolina Bessa Ferreira de Oliveira; Débora Sinflorio da Silva Melo; Sandro Alves de Araújo Editora: Grupo A Capítulo: 2 Ano: 2018 ISBN: 978-85-9502-382-6 Comentário: No capítulo “Cultura e multiculturalismo”, são abordados temas caros ao estudo do conceito de cultura; trabalhando o ser humano enquanto ser cultural, a diferenciação entre cultura e tradição, e multiculturalismo existente no Brasil. Disponível na Minha Biblioteca. Ao longo de sua história, a Sociologia tem buscado refletir sobre a relação entre os indivíduos e a sociedade, com ênfase na estruturação do social e nas formas como as relações sociais influenciam o desenvolvimento da identidade e a formação da subjetividade. Durkheim, por exemplo, foi um dos primeiros sociólogos a estudar o papel do social na formação das identidades individuais, defendendo a ideia de que as estruturas sociais estão profundamente enraizadas na consciência dos indivíduos e influenciam seus comportamentos. Por outro lado, autores como Marx e Weber destacaram a importância do indivíduo na formação das estruturas sociais, defendendo a ideia de que os indivíduos são agentes ativos na construção da sociedade. Ao longo dos anos, a relação entre indivíduo e sociedade tem sido analisada de diferentes perspectivas, de modo a estabelecer um diálogo entre esses dois elementos fundamentais para a compreensão da realidade social. Esses estudiosos reconhecem a íntima relação entre cultura e individualidade e procuram entender como a cultura molda a individualidade. Os estudiosos destacam a importância de entender como os ambientes sociais e culturais afetam a formação da identidade individual, como as crenças, valores e comportamentos sociais contribuem para a construção da individualidade e como as pessoas são afetadas por sua cultura. Eles também destacam que a individualidade é afetada pela interação entre o indivíduo e a cultura, e que as características individuais são formadas por meio da interação com o ambiente social. Além disso, esses estudiosos também apontam para a importância de levar em conta o contexto histórico, político e social em que o indivíduo está inserido para compreender a formação da individualidade. A consciência de que o outro existe como ser autônomo e independente nos permite perceber nossa individualidade e reconhecer a do outro, criando assim um relacionamento saudável baseado na reciprocidade e no reconhecimento. Esta consciência nos ajuda a entender que somos seres únicos e com necessidades diferentes, desenvolvendo, assim, a empatia e a compaixão. Desta forma, podemos desenvolver relacionamentos saudáveis que se caracterizam por um amor e respeito mútuos, além de sermos capazes de respeitar os limites e nos colocarmos no lugar do outro. A consciência também nos ajuda a desenvolver a responsabilidade e o autocontrole, pois nosso comportamento é diretamente influenciado pelas nossas escolhas. Isso significa que temos o poder de escolher o que fazemos e como nos comportamos, o que nos ajuda a entender o nosso papel no mundo e a lidar com as consequências de nossas ações. Significa também que temos a responsabilidade de tomar decisões conscientes e responsáveis, e que essas decisões têm um impacto direto na nossa vida e na vida dos outros. Isso nos ajuda a compreender o significado de responsabilidade pessoal e nos leva a refletir sobre as nossas ações e seus efeitos. Desta forma, a responsabilidade pessoal nos ajuda a tomar decisões mais éticas e corretas, pois nos permite entender melhor os impactos das nossas escolhas. A cultura fornece diferentes possibilidades para o processo de construção coletiva e individualsubjetiva. Começando pela linguagem que utilizamos para dar significado a nossas ideias e, assim, nos comunicarmos com os outros. É por meio dela que expressamos nossos sentimentos, pensamentos e desejos. Outra forma pela qual a cultura nos permite construir coletiva e individualmente é por meio da arte. A arte permite que nos comuniquemos uns com os outros de maneira simbólica e expressiva, criando uma obra única que reflete nossas experiências e desejos. A música, por sua vez, permite que nos conectemos emocionalmente com os outros, para que possamos compartilhar nossos sentimentos e experiências. Outra forma importante pela qual a culturanos permite construir coletiva e individualmente é por meio de nossa história. Ela nos permite compreender o passado, o presente e o futuro de maneira mais profunda, pois permite que nos conectemos com aqueles que vieram antes de nós e com aqueles que estão por vir. Com a consolidação da sociedade urbana e industrial, a diferenciação entre grupos e pessoas se intensificou, multiplicando-se as diferenças de estilos de vida e as funções de cada indivíduo na sociedade. Essa busca cada vez maior pela consolidação de uma identidade, em um mundo multicultural, coloca-nos a necessidade de entender o que é identidade cultural.Identidade cultural é a busca de afirmação de uma diferença e de uma semelhança. Quando buscamos a identidade cultural, procuramos identificar aqueles que são iguais, que se identificam conosco. Isso fortalece o sentimento de solidariedade grupal. Porém, se somos iguais, é porque somos diferentes dos outros.[...] A identidade necessita estabelecer as diferenças em relação aos membros de outras comunidades. O reconhecimento das diferenças fortalece a identidade própria. Um aspecto importante da cidadania em um mundo globalizado é reconhecer o direito do outro de ser diferente, seja em termos étnicos, culturais, sexuais ou outro qualquer. O respeito à identidade do outro possibilita a convivência na diversidade, permitindo, por meio da difusão cultural, o enriquecimento de todas as culturas, modificando-as e aproximando-as, pois toda cultura é dinâmica e plástica. (MARCOM, 2015, p. 94) A divisão social do trabalho, por exemplo, que, nas sociedades tribais, é bastante simplificada, implicou na geração de inúmeras atividades no Ocidente. E, na passagem da sociedade feudal para a capitalista, a diferenciação entre grupos e pessoas se intensificou, enquanto a crescente urbanização as aproximou de forma física e social. Assim, com o passar do tempo, multiplicaramse as diferenças entre as pessoas, seus estilos de vida e os papéis sociais que desempenham. Os papéis sociais dizem respeito às diversas funções que os indivíduos assumem em cada um dos domínios sociais em que se inserem ao longo da vida, estabelecendo relações sociais com os outros — a família, o bairro, a cidade, o país, o trabalho ou a religião. Em cada uma desses domínios, ocupam posições com correspondentes expectativas, deveres e direitos. O conjunto das características pertencentes a cada uma dessas posições corresponde ao desempenho dos papéis sociais. Os papéis sociais são definidos pelo contexto cultural, histórico, econômico e social em que se encontram, assim como pelas relações interpessoais que estabelecem. Essas relações são afetadas por fatores como a classe social, etnia, religião, gênero, idade e orientação sexual, entre outros. Os papéis sociais desempenham um papel fundamental na vida das pessoas, pois têm um papel importante na maneira como as pessoas se relacionam, como elas se expressam e como elas interagem com outras pessoas. Esses papéis também contribuem para a formação da identidade individual, bem como para a manutenção da ordem social. Por isso, é importante que as pessoas sejam conscientes dos papéis sociais que desempenham e que se esforcem para desempenhá-los da melhor maneira possível. Concluise, dessas análises, que os papéis sociais funcionam como códigos e mediações entre personalidades e convenções sociais. É por meio desses papéis que agimos e modificamos a sociedade. Ao mesmo tempo, eles nos trazem obrigações, direitos e responsabilidades que nos permitem interagir com outras pessoas. Por fim, observa-se que a interação entre as pessoas, por meio dos papéis sociais, permite que as relações sejam estabelecidas de forma justa e harmônica, o que fomenta o desenvolvimento de uma sociedade saudável. Esses status são realizados por pessoas que desempenham papéis específicos em uma organização ou em uma comunidade, que são realizados de acordo com as normas estabelecidas pela sociedade. Cada status dá ao seu titular diferentes direitos e obrigações. Por exemplo, o status de empresário dá ao seu titular o direito de controlar os negócios e tomar decisões sobre eles, mas também exige que ele cumpra com as leis e regulamentos de negócios. Além disso, a sociedade complexa também estabelece diferentes níveis de prestígio e autoridade associados a cada status. Por exemplo, o status de empresário pode ser visto como tendo mais prestígio e autoridade do que o de operário de fábrica. Esses níveis de prestígio e autoridade podem mudar ao longo do tempo, à medida que as normas sociais mudam. Indicação de filme Nome: A Festa de Babette Ano: 1987 Comentário: O filme mostra como na Dinamarca, no século XIX, duas mulheres, Filippa e Martine, filhas de um rigoroso pastor luterano, tomam conta de uma pequena comunidade de fiéis reunidos por seu pai. Uma vez morto o pastor, chega à comunidade Babette, uma parisiense que passa a trabalhar como faxineira. Tempos depois, ela recebe uma soma de dinheiro que ganhou em uma loteria e resolve preparar uma grande festa para os habitantes da localidade. O filme permitirá entender o que é uma comunidade religiosa, bem como as transformações que podem ocorrer na cultura local por intervenção de pessoas, hábitos e ideias vindas do exterior. Para conhecer mais sobre o filme, acesse o trailer clicando no link a seguir: O que está ESCONDIDO no filme "A FESTA DE BABETTE" Local onde deve ser inserido: Tema 2 Tema 3 Pós-colonialismo e decolonialidade É correto considerarmos que a história de um povo seja descrita por pessoas historiadoras cuja origem são do país que o colonizou? Os conceitos de pós-colonialismo e decolonialidade são perspectivas teóricas que visam a reconstrução dos espaços de irradiação dos discursos em sociedades em que se instalou o saber/poder do colonizador destaque para o resgate da história, do conhecimento e do sujeito dependente na luta por autonomia. O pós-colonialismo pretende desconstruir as diferenças culturais impostas pelo colonialismo e reinterpretar a história das relações coloniais com uma perspectiva mais inclusiva. A decolonização, por outro lado, é o processo de libertação de um país ou região da influência e controle de um poder colonial. Esta visão busca o restabelecimento da paz, da estabilidade política e de um compromisso de respeito mútuo entre as nações envolvidas. No caso de um país decolonizado, o pós-colonialismo e a decolonização trabalham juntos para reconstruir a identidade nacional, promover a igualdade econômica e social e estabelecer uma cultura de diálogo entre as nações. Esta é uma forma de garantir que as transformações decorrentes da decolonização possam ser verdadeiramente reconhecidas e que a cooperação internacional possa ser desenvolvida para o bem-estar de toda a humanidade. A colonização e o pensamento europeu trouxeram, aos povos colonizados, não só a marca da dependência econômica, mas, também, a dependência sociocultural por meio da expansão de uma influência intelectual e um colonialismo cultural. O pensamento europeu imposto às colônias, incluindo o cristianismo, levou a uma transformação completa na cultura, na educação, na religião, na língua e nos costumes das pessoas colonizadas. A imposição de valores europeus e o abandono dos sistemas culturais e religiosos dos nativos, levaram à desagregação de muitas comunidades e à destruição de suas tradições. A cultura europeia também trouxe, às colônias, as ideologias de racismo, de hierarquias sociais e de dominação dos colonizadores sobre os colonizados. Esta imposição de um sistema de hierarquias e de discriminação alimentou ainda mais a dependência do povo nativo. Além disso, a colonização também foi responsável pelo desenvolvimento de um pensamento eurocêntrico, que coloca a Europa como o centro do mundo e dos valores, e que leva à negação dos direitos e da cultura dos povos colonizados. Parte do pensamento sociológico latino-americano e seus representantes vêm trabalhando nas últimas décadas um giro decolonial, ou seja, um rompimento com o ocidental-centrismoe seus reflexos na produção do conhecimento, uma demanda que surge pela expansão do argumento pós-colonialidade e dos estudos subalternos. Tais teses são defendidas por importantes pensadores e acadêmicos, como Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Enrique Dussel, Ramón Grosfoguel, María Lugones, Santiago Castro-Gómez, Boaventura de Sousa Santos, entre outros. Aníbal Quijano, por exemplo, defende a noção de “decolonização”, buscando compreender o papel do colonialismo e do imperialismo na formação dos sistemas de poder contemporâneos. Para ele, o colonialismo é uma estrutura de poder global que possui raízes históricas profundas, e o seu desmonte é uma tarefa necessária para a construção de novas relações de poder justas e equitativas. Walter Mignolo, por sua vez, propõe o pensamento da decolonialidade, que busca repensar as relações entre o sul e o norte, a partir de uma perspectiva que se coloca fora do pensamento ocidental-centrado. Ele defende que é necessário repensar os processos de colonização e decolonização a partir de uma perspectiva subalterna, que busca rompê-los e criar novas relações de poder. Enrique Dussel, outro importante pensador, propõe o pensamento da filosofia da libertação, que busca compreender a história das Américas como uma história de luta por liberdade, justiça e igualdade, contra os processos de colonização e imperialismo. Para ele, é necessário compreender o contexto histórico para entender o presente e criar um futuro mais justo e igualitário. A teoria social latino-americana contemporânea, portanto, busca repensar as relações de poder a partir de uma perspectiva decolonial, que busca compreender e rompê-las a partir de uma perspectiva subalterna. Estes pensadores nos oferecem uma importante contribuição para a construção de novas relações de poder justas e igualitárias. Esta perspectiva crítica vai além da teoria social tradicional, pois não se limita a analisar as relações de poder e a classe social predominantemente eurocêntricas, mas também considera outros fatores, como a questão racial e de gênero, a desigualdade socioeconômica, a cultura, a história, a religião e a colonização. Assim, a teoria social latino-americana contemporânea busca interpretar e compreender a realidade social latino-americana considerando as múltiplas formas de dominação e resistência que caracterizam a região. Ela também busca identificar e destacar as contribuições dos grupos subalternos para a produção e reprodução da realidade social latino-americana. Os intelectuais dessa corrente propõem uma nova perspectiva de produção do conhecimento oriunda dos subalternos, da diferença colonial, como grande contributo ao debate acadêmico, sendo a principal contribuição da corrente de pensamento decolonial a crítica radical e profunda da visão ocidental-centrista, que resgata a produção teórica latino-americana. Após a publicação da obra Orientalismo, de 1978, pelo palestino Edward Said, a teoria pós-colonial mergulhou em uma reflexão sobre a nada concreta divisão geopolítica do mundo (Países do Norte x Países do Sul) em que estamos inseridos, recuperada em uma dimensão crítica e política, na qual a descrição do outro a partir de um olhar eurocêntrico era parte de uma construção deliberada de repressão Norte-Sul. Esta teoria foi amplamente utilizada para analisar as relações de poder entre as potências coloniais europeias e seus territórios coloniais. O objetivo era entender como os europeus tinham construído uma narrativa de dominação sobre esses territórios e como essa narrativa influenciava na forma como esses territórios eram vistos e governados. A teoria pós-colonial também buscou desconstruir as representações criadas pelos colonizadores, para oferecer uma visão mais justa e realista sobre a cultura e a história do mundo. É um movimento que procura recuperar a autenticidade das narrativas dos povos colonizados e questionar as narrativas criadas pelos europeus. Além disso, busca identificar e desmantelar as estruturas de dominação que ainda persistem nos territórios coloniais. A teoria pós-colonial também foi importante para a emergência de novas formas de resistência contra essas estruturas de poder. O movimento pós-colonial busca fornecer um espaço para que as pessoas possam partilhar suas histórias e experiências de colonização e, assim, criar uma maior consciência e compreensão sobre as questões relacionadas ao colonialismo. Por meio da teoria pós-colonial, os povos coloniais começaram a ter mais acesso aos meios de comunicação e a serem ouvidos internacionalmente. Isso permitiu a emergência de novas formas de resistência, como a luta pela autodeterminação das populações coloniais. A teoria pós-colonial e o giro decolonial surgiram da necessidade de se pensar e analisar as tensões resultantes entre o centro e as periferias, expandindo os trabalhos para fora do eixo central (Europa e Estados Unidos), sendo trazidos ao debate autores africanos, asiáticos e latino-americanos, visando a abertura de possibilidades dentro do campo das ciência sociais, reinventando também as definições em torno da ideia de originário. Os estudos pós-coloniais interpretam a modernidade a partir de outro lugar, enfatizando a necessidade de fazer uma nova leitura do processo de colonização. Porém, esses estudos não podem ficar restritos ao meio acadêmico, ignorando o lado político, ou seja: [...] um dos riscos, sobretudo na tradição acadêmica brasileira, é de o projeto decolonial se tornar apenas um projeto acadêmico que invisibiliza o locus de ununciação negro, deixando de lado sua dimensão política, isto é, seu enraizamento nas lutas políticas de resistência e reexistência das populações afrodiaspóricas e africanas, indígenas e terceiro-mundistas.O descolamento do projeto decolonial da luta política das populações negras, caso se concretizasse, seria uma traição à própria decolonialidade. Esse é um risco que visuaizamos quando diversos acadêmicos brasileiros começam a utilizar o título decolonialidade nos seus trabalhos acadêmicos e, no entanto, não citam qualquer autor negro ou indígena, ou sequer têm qualquer relação com os movimentos sociais, limitando-se a dialogar com os membros de investigação modernidade/colonialidade e com outros teóricos latino-americanos que falam a partir de uma perspectiva da população branca. (BERNARDINO-COSTA; MALDONADO-TORRES; GROSFOGUEL, 2019. p. 10) O cientificismo e o eurocentrismo apresentam um modelo de universalismo abstrato que é baseado na ideia de que existem certas características intrínsecas a todos os seres humanos: razão, liberdade, progressos, individualismo e responsabilidade. Esse modelo, que é profundamente enraizado nos princípios ocidentais, está baseado na ilusão de que as realidades da vida — incluindo os bens culturais, religiosos, econômicos e políticos — são suficientemente similares em todos os lugares para serem capturadas em termos universais e abstratos. Esta visão eurocêntrica de universalismo tornou-se hegemônica no pensamento moderno e tem influenciado a forma como pensamos sobre nós mesmos e sobre os outros. Para refletir Vivemos um momento inquietante em que novos paradigmas se fixam, abalando certezas, introduzindo questões, exigindo reflexão e posicionamento diante da sociedade. Essa transformação social é encarada com estranhamento por alguns, com curiosidade por outros e como um desafio por todos. Em razão desses contrastes e dessa perplexidade que envolve a sociedade atual, a Sociologia se volta para a revisão e a releitura dos clássicos, para releituras de seus conceitos, numa atitude que se predispõe a interpretar a realidade, buscando originalidades e contrastes, em vez de aprisioná-la em conceitos inflexíveis. A Sociologia é particularmente necessária em épocas de crise e mudanças como a que vivenciamos na atualidade. Assim, é hora de pensar a vida social de modo sistemático e consequente. Fonte: Elaborado pelo autor. Infelizmente, essa hegemonia também tem excluído as narrativas particulares e experiências que não se encaixamdentro desta visão eurocêntrica do universalismo. O cientificismo e o eurocentrismo têm gerado conflitos de interesses entre diversas nações, raças, culturas e povos, pois não há lugar para as diferenças culturais e religiosas dentro de sua visão de universalismo abstrato. Para mudar essa hegemonia, é necessário reconhecer a existência e o valor das diferenças culturais e religiosas. É necessário abraçar e incentivar narrativas e experiências que não se adequam ao padrão de universalidade eurocêntrica e do cientificismo. Isso não significa necessariamente abrir mão da universalidade, mas sim mudar a forma como a entendemos. É necessário reconhecer que o universalismo pode ser encontrado em diversas narrativas e culturas, e que o diálogo entre elas pode ajudar a construir um novo modelo de universalismo que represente os interesses de diferentes grupos. O projeto decolonial parte da premissa de que existem formas/experiências de saber que são excluídas pelo cientificismo e eurocentrismo, que vão desde a sabedoria local, passando pelas práticas espirituais e culturais, até os ensinamentos dos povos originários. Esta afirmação corpo-geopolítica de identidade se baseia no reconhecimento da história, das culturas, das línguas e das memórias que se desenvolveram a partir da colonização e que é responsável pela formação atual do território. Assim, ao pôr em prática a afirmação de identidades corpo-geopolíticas, o projeto decolonial promove a desconstrução e/ou a reinterpretação daquilo que foi construído pelo cientificismo e eurocentrismo, com a intenção de reintegrar e validar aquelas formas/experiências de saber que normalmente são desconsideradas. Esse projeto busca promover ações que vão desde a criação de espaços para reconhecer os direitos dos povos originários, a educação para a inclusão de sabedorias espirituais e culturais, passando por campanhas de conscientização para a desconstrução de estereótipos relacionados à etnia, gênero, orientação sexual etc. Ele também almeja criar um diálogo entre diferentes culturas e epistemologias, com o objetivo de gerar maior empatia e compreensão entre os seres humanos. Saiba mais Modernidade é um termo que, em Ciências Humanas, designa valores, hábitos e tendências que os países ocidentais construíram e implementaram desde o Renascimento cultural e artístico (século XV) até meados do século XX. A Modernidade está ligada principalmente ao desenvolvimento do capitalismo e da produção industrial, do racionalismo e do nacionalismo. Faz parte da Modernidade, o Modernismo — movimento artístico de várias tendências, como o Cubismo e o Impressionismo, defendidos pelas vanguardas artísticas, na passagem do século XIX para o XX. O universalismo concreto é um tipo de particularismo que é baseado em pontos de vista e interesses particulares, mas que procura estabelecer um diálogo entre os diferentes pontos de vista, interesses e identidades. Em vez de impor um único padrão, busca encontrar um equilíbrio entre os interesses individuais e coletivos. O objetivo é criar um conjunto de regras e direitos que sejam aceitos de forma universal, mas que também sejam adaptados às necessidades e características específicas de cada região, cultura e grupo social. O universalismo concreto também enfatiza a importância de valorizar os direitos humanos básicos. Entende que é necessário assegurar o direito de todos à liberdade de expressão, ao direito de se organizar politicamente e ao direito de desenvolver sua identidade cultural. Ao mesmo tempo, entende que é necessário assegurar que todos os direitos sejam cumpridos de forma equitativa e que não haja discriminação contra grupos sociais específicos. O universalismo concreto é visto como uma alternativa ao universalismo abstrato, pois assume que não há uma única maneira de pensar ou agir. Ao invés disso, busca encontrar soluções adaptáveis que possam servir a todos os grupos envolvidos. Ele está ligado às Ciências Sociais, em particular, à Sociologia, à Antropologia e à Economia. É centrado na análise dos processos sociais e culturais e das relações entre as pessoas, buscando compreender como as pessoas constroem e compreendem o mundo social ao seu redor. Ao contrário do universalismo abstrato, que parte da premissa de que existem verdades universais, o universalismo concreto parte do princípio de que a verdade é construída pelas pessoas e que deve ser adaptada ao contexto local. Esta abordagem busca encontrar soluções que sejam mutuamente aceitáveis, que sejam aplicáveis em diferentes contextos e que possam levar ao desenvolvimento social e à justiça. Neste tipo de universalismo, há uma preocupação em preservar as particularidades e diferenças culturais, mas também promover uma aproximação e interação entre elas. A partir desta premissa, o universalismo concreto pretende contribuir para a construção de uma cultura de paz, respeito e solidariedade entre as pessoas, baseada em valores que levem em consideração as diferenças e as demandas de todos os povos. Além disso, esta iniciativa preserva e incentiva a compreensão entre os grupos, recusando padrões de dominação e hierarquia baseados na desigualdade. Por fim, o universalismo concreto tende a posicionar-se numa perspectiva anticolonialista, rejeitando formas de discriminação política, econômica, racial e cultural. É, assim, uma intenção de superação de conflitos e desigualdades por meio da construção de relações de irmandade e interdependência entre os povos. Encerramento Por vezes, as mudanças de hábitos e costumes servem para solucionar problemas, mas como isso pode acontecer? É importante que identifique aspectos favoráveis da atualidade e problemas, por exemplo, que permanecem e, muitas vezes, podem se tornar mais agudos, como a violência. Ao estar em lugar com características totalmente diferentes da que está acostumado, é comum perceber que as pessoas se comportam de maneira diferente daquela com a qual está familiarizado(a)? É bastante comum que estranhe hábitos, costumes e comportamentos diferentes do seu. O importante é que você pense e perceba que já experimentou a diversidade cultural, isto é, a existência de culturas diferentes das suas. É correto considerarmos que a história de um povo seja descrita por pessoas historiadoras cuja origem são do país que o colonizou? Pode até acontecer isso, mas, além de não possuir total fidedignidade em relação aos fatos, a história será escrita a partir da visão do colonizador, sem considerar obras de autores oriundos do povo estudado. Resumo da Unidade As teorias desenvolvidas no século XIX, chamadas teorias de longo alcance, procuravam dar conta de uma visão universalista do ser humano e das características do mundo em que ele interage. Nos séculos XX e XXI, entretanto, fatores como os diversos conflitos bélicos entre nações, as lutas sociais, a desorganização das economias mais desenvolvidas, o recurso à violência e as transformações sociais no mundo ocorrendo de forma cada vez mais rápida exigiram que os cientistas se debruçassem sobre problemas mais locais e menos universais, dando origem às teorias de médio alcance. Elas também foram propiciadas pela democratização da educação e pela proliferação de centros de pesquisa em países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Diversos cientistas, inúmeros grupos e investimentos públicos nas Ciências Sociais facilitaram a rápida formação de sociólogos e incentivaram a lógica da especialização. Referências BERNARDINO-COSTA, J.; MALDONADO-TORRES, N.; GROSFOGUEL, R. (orgs.). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. ISBN: 9788551306055. Biblioteca Virtual Pearson. MARCON, K. J. (org.). Sociologia contemporânea. São Paulo: Pearson Education Brasil, 2015. ISBN: 9788543011028. Biblioteca Virtual Pearson. NIZET, J. A sociologia de Anthony Giddens. Petrópolis: Vozes, 2016. ISBN: 9788532653055. Biblioteca Virtual Pearson. OLIVEIRA, C. B. F. de; MELO, D. S. S.; ARAÚJO, S. A. Fundamentos de Sociologia e Antropologia. Porto Alegre: Grupo A, 2018. ISBN: 9788595023826.Minha Biblioteca. UNIDADE IV INTRODUÇÃO O conhecimento sociológico e o mundo contemporâneo A sociologia contemporânea brasileira, como primeiro tópico que estudaremos, iniciou no Brasil ainda na década de 1920. O primeiro foco de estudos foi voltado à compreensão de como nosso país formou-se como nação. As questões que receberam atenção dos primeiros pesquisadores brasileiros contemplaram temas como a abolição da escravatura, a composição dos povos originários (sobre as diferentes matrizes culturais indígenas) e os aspectos que influenciaram o nosso desenvolvimento econômico Outro ponto que destacamos neste material diz respeito ao desdobramento metodológico disponível como recurso de análise para as pesquisas sociológicas, quando os cientistas sociais contemporâneos realizam conexões dos temas das próprias pesquisas com o trabalho de autores clássicos. Conheceremos, assim, exemplos dessa aproximação teórica e como ela se realiza. O período histórico em que vivemos, conhecido como o da sociedade da informação, impactou todas as formas de relacionamento humano e social, mediado pela evolução tecnológica. E este é um importante assunto sobre o qual a sociologia tem se debruçado para traduzir todos os efeitos disso nas nossas formas de comunicação e na vida em sociedade. Objetivos Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: · Avaliar os desafios no processo de produção de conhecimento sociológico no mundo contemporâneo. Conteúdo Programático Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas: · Tema 1 — Sociologia brasileira contemporânea. · Tema 2 — Sociologia contemporânea e seus desdobramentos metodológicos. · Tema 3 — Mudanças tecnológicas e os desafios para a sociologia do século XXI. Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro, contribuiu diretamente para que esta área do conhecimento se institucionalizasse no mundo acadêmico como ciência fundamentada nos rigores metodológicos sem deixar de lado o aspecto crítico, quando necessário. Fernandes estudou os problemas e as desigualdades do Brasil e, assim, ponderou que a sociologia precisa intervir na realidade para que a sociedade se transforme. Este vídeo apresenta a origem do autor, indica alguns dos livros dele e destaca o pensamento e a trajetória deste cientista social brasileiro que é considerado o patrono da sociologia nacional: https://bit.ly/3xSs9ze Tema 1 Sociologia brasileira contemporânea Como realizar uma pesquisa sociológica? A sociologia como conhecimento surge no século XIX. Desse modo, cronologicamente a sociologia é um conhecimento do mundo contemporâneo. Assim, quando buscamos entender como a sociologia se divide, encontramos dois momentos importantes. O primeiro é o da sociologia clássica, que reúne os autores que criaram as bases do pensamento sociológico, como Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim, que servem de referências até os dias atuais. A segunda fase faz menção à produção da sociologia do presente a partir das pesquisas de novos autores que desenvolvem novas teorias que também se conectam, em muitos casos, com os autores da primeira fase. A linha do tempo da sociologia brasileira também tem cronologia própria e pode ser dividida em três momentos: o da introdução, quando chega ao Brasil como disciplina para ser ensinada em algumas escolas secundárias carregando forte influência do Positivismo (teoria filosófica surgida na França, segundo a qual a ordem e, ao mesmo tempo, a ciência são elementos para uma sociedade conquistar progresso social). Com isso, é por inspiração das ideias dos positivistas que a bandeira do Brasil registra a frase “Ordem e Progresso”, como exemplo da penetração dessas ideias na cultura política do país. Podemos destacar que, na primeira fase da sociologia contemporânea, encontramos importantes autores que buscaram explicar como se processou a formação da cultura e da identidade do povo brasileiro, identificando as inúmeras razões que promoveram nosso atraso econômico e social, nossa falta de modernização e de progresso material. Nesta etapa, “a sociologia abordava assuntos macro-históricos ou macroestruturais, ou seja, a formação do Brasil, industrialização, questões relativas à dependência econômica do país ao mercado internacional” (MARCON, 2015, p. 131). A década de 1920 é marcada pela participação de um grupo de brilhantes cientistas sociais, os autores brasileiros mais relevantes desse período inicial, que fizeram as primeiras pesquisas sobre os problemas nacionais. Dentre eles, podemos elencar Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Simonsen e Raymundo Faoro. Veremos a principal obra de cada um desses autores. Iniciaremos por Gilberto Freyre, que escreveu o célebre livro Casa grande e senzala, em 1933, quando buscou demonstrar que a miscigenação do povo brasileiro era positiva e que contrariava as ideias racistas da época analisada, ideias que apontavam existir um grupo humano superior a outro (como o de brancos caucasianos europeus em relação aos povos de outras partes do mundo). Já Caio Prado Jr. apresentou o livro Formação do Brasil contemporâneo, em 1942, trazendo uma historiografia do desenvolvimento brasileiro tanto econômico quanto político, desde o Brasil Colônia até o Brasil do tempo da publicação. Outro autor desta primeira fase é Sérgio Buarque de Holanda, com o livro Raízes do Brasil, de 1936, obra que analisa a formação do povo brasileiro. Holanda fundamentou esse trabalho com base no referencial teórico de Max Weber (autor clássico) quando demonstrou as razões do atraso da sociedade brasileira a partir do conceito de racionalidade de Weber. Por essa perspectiva teórica, “Sérgio Buarque de Holanda estava mostrando que o problema da sociedade brasileira era justamente a falta de racionalização e, por isso, éramos uma sociedade atrasada” (CARVALHO, 2011, p, 81). Nesse sentido, o brasileiro foi categorizado a partir de um tipo cordial, como consta na análise de Raízes do Brasil, ou como alguém sem formalidade, sem consciência de relação impessoais e convivendo naturalmente com a cultura do patrimonialismo, ou seja, sem considerar que há uma separação objetiva entre o que é particular do que é parte da coisa pública (patrimônio do Estado), dando origem a práticas rotineiras de corrupção, que são comuns na realidade brasileira. Como exemplo dessa cultura patrimonialista na atualidade, estão os cartões de crédito corporativos utilizados pelos gestores do governo federal, que foram instituídos para serem usados com gastos em situações de trabalho oficial e que sofrem um desvio, com gastos de compras de serviços e de produtos de consumo pessoal, pagos com o dinheiro dos impostos cobrados de toda a população, que financia esses cartões. Outro importante estudo desta primeira fase é o livro A história econômica do Brasil, de 1937, escrito por Roberto Simonsen. Esse autor mapeou o desenvolvimento econômico do país, traçando como marco zero a chegada dos portugueses (colonizadores do país) até a década de 1920. Esse trabalho é reconhecido pelo pioneirismo na abordagem da questão que envolveu a formação econômica brasileira. Raymundo Faoro é o cientista social que escreveu o livro Os donos do poder, lançado em 1958, quando destacou que a formação da cultura política no Brasil se ajustou ao modelo burocrático trazido pelos portugueses, que realizaram uma transposição direta da estrutura das instituições existentes em Portugal, sem considerar o contexto e a realidade brasileira. O ponto principal do texto demonstra como o rei português não fazia nenhuma distinção entre o que era pessoal e o que era pertencente ao Estado nacional, exemplo da cultura patrimonialista analisada por Sérgio Buarque de Holanda e herdada culturalmente pelas práticas de grande parte das atuais gerações de governantes do Brasil. O patrimonialismo é um traço que herdamos de países de cultura ibérica e pode ser encontrado em diferentes países, até nos países desenvolvidos, mas o que diferencia o Brasil é o grau de nossas desigualdades sociais, visto que as elites acessamo controle do poder político e não consideram as reais necessidades das populações mais desfavorecidas. Esses primeiros autores criaram as bases para a sociologia brasileira. Na segunda fase da sociologia contemporânea, os cientistas sociais produziram uma série de trabalhos sobre questões que envolviam os interesses das classes trabalhadoras no âmbito rural e urbano, incluindo as disputas econômicas entre as nações. O ano de 1960 (ano de inauguração da capital do Brasil, Brasília) serve de referência para essa nova sociologia brasileira, que realizou uma ampla investigação sobre o processo de modernização e de industrialização do país e sobre as divergências que envolviam a temática da reforma agrária (pela posse e distribuição das terras para produção agrícola). Florestan Fernandes é um dos principais sociólogos do período. Além de realizar um esforço em prol do desenvolvimento da sociologia brasileira com base nos fundamentos da ciência, ele inaugurou também uma metodologia com base no rigor tanto analítico quanto crítico. Nesse sentido: Florestan criou vários grupos de pesquisa que vieram a reformular a sociologia no Brasil, conferindo-lhe rigor que jamais tivera. Publicou mais de 50 trabalhos acadêmicos no Brasil e no exterior, contribuindo para transformar as ciências sociais no país e estabelecendo um novo estilo de pensamento (MARCON, 2015, p. 133). Florestan Fernandes usou do referencial marxista para analisar as nossas desigualdades sociais. Também foram temas dos trabalhos dele a realidade dos povos indígenas e a participação do povo negro no Brasil — este segundo grupo foi tema de uma das pesquisas do autor, que o estudou desde a fase da escravidão até o processo de marginalização social enquanto trabalhadores (como mão de obra remunerada). No livro Mudanças sociais no Brasil, de 1979, Florestan Fernandes analisa a ideia de mudança e também a de transformação social, expondo o lugar que as elites brasileiras ocupam na sociedade e como, com o apoio do Estado, buscam formas de manter os próprios privilégios e, ao mesmo tempo, impedir que as classes populares participem do sucesso econômico do país. Fernandes (1979, p. 332) observa que Em uma ordem social na qual a distribuição desigual da renda, do poder e do prestígio é regulada por fatores estruturais e organizatórios, aqueles mecanismos e aquelas técnicas acabariam operando, fatalmente, como ‘fermentos sociais’. Privilégios e garantias sociais, compartilhados de forma desigual, não foram defendidos — nem o podiam ser — como regalias exclusivas. Florestan Florestan defendeu ainda que a escola, além de universal (disponível para toda a população), deveria ser democrática, no sentido de acessibilidade ao conhecimento, em especial, para a classe popular. O conceito mais importante do autor é o de “demora cultural”, pelo qual descreve que a sociedade evolui, progride, mas nem todos os membros conseguem se beneficiar dessa prosperidade, porque existe uma relação de controle e de restrição que subordina a classe popular, reproduzindo o poder hegemônico da classe dominante que acessa e faz uso da maior parte da riqueza gerada pelo esforço e pelo trabalho de toda a sociedade. Florestan Fernandes teve como aluno o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (FHC, como é conhecido), que foi presidente do Brasil por dois mandatos. Nessa direção, “a participação de intelectuais das ciências sociais na política foi e tem sido muito importante para o país, pois representa a integração da teoria social com a prática política” (MARCON, 2015, p. 134). FHC focou suas análises em temas que analisavam o desenvolvimento econômico e as relações internacionais. Em 1967, FHC publicou o livro Dependência e desenvolvimento na América Latina, em coautoria com o também sociólogo chileno Enzo Faletto. O livro trouxe uma nova perspectiva, que ficou conhecida como “teoria da dependência”, que explicava as condições para o surgimento de relações de dependência econômica das economias periféricas, como a do Brasil (país em desenvolvimento), em relação à economia de países do centro (ou países desenvolvidos), como os Estados Unidos e as nações europeias de economia de mercado. Outro autor destacado na sociologia brasileira contemporânea é o sociólogo e antropólogo Darcy Ribeiro, que publicou o livro O povo brasileiro, em 1995, no qual descreveu minuciosamente cada uma das matrizes dos povos originários (como os tupi-guaranis) e como se processou nossa formação étnica e cultural. Dois fatos marcantes repercutiram na forma de se fazer pesquisa com a sociologia no Brasil. O primeiro foi o começo do processo de democratização, a partir de 1985, que, mesmo com a eleição indireta para presidente, marcou o fim do regime militar iniciado em 1964. O segundo foi um acontecimento de repercussão internacional, pois […] com a volta da democracia, a sociologia procurou outros focos para pesquisas. Isso porque houve uma diminuição de movimentos sociais, e não só porque voltamos a ser uma democracia, mas também por uma conjuntura de euforia pela queda do Muro de Berlim. Esse fato histórico provocou a extinção dos regimes comunistas no Leste da Europa, repercutindo diretamente nos temas que passaram a ser pesquisados pelos sociólogos (MARCON, 2015, p. 134). No século XX, surgiram diversos novos movimentos sociais especializados em demandas específicas, pautados em temas como os de identidade sexual (composto de gays e lésbicas), de etnia e raça (como o que envolve os interesses do movimento negro), de gênero (abordando as questões sobre as mulheres e o feminismo) e as pautas ambientais (que estão no centro da discussões políticas na atualidade), dentre outros. Nesse sentido, a pesquisa sociológica passou a realizar estudos com base em subáreas (ou subcampos). Assim, passou a apresentar uma espécie de especialização de temas a partir da constituição de inúmeros programas de pós-graduação nos anos 1970. Surgiram diversas linhas de pesquisa sociológicas com o propósito de atender aos novos cenários sociais que se apresentaram e de compreendê-los. As áreas do conhecimento, o que inclui a sociologia, estão organizadas em uma tabela que se divide em quatro eixos: o da grande área (que reúne diversas áreas em torno da afinidade do tema para a pesquisa); em áreas (reunindo conhecimentos que possuem relação direta); em subáreas (segmentada por temas); ou em especializações de pesquisa. Como exemplos dessa vasta lista (das especializações), podemos citar a sociologia ambiental, a sociologia da cultura, a sociologia da religião, a sociologia da educação, a sociologia do trabalho, a sociologia das organizações, a sociologia da violência e a sociologia da saúde, para conhecermos algumas dessas novas vertentes investigativas. Segundo Marcon (2015), uma das características da sociologia brasileira contemporânea são as pesquisas microssociais, ou seja, que focam determinados grupos sociais, como da cultura do funk carioca, das torcidas de futebol, das ações dos skinheads (com origem na juventude inglesa e adeptos em todo o Brasil). Assim, as razões para a pesquisa de “novos temas mais específicos [que] passaram a ser estudados pela sociologia, como o futebol, o feminismo, as favelas, a violência urbana, era [por ser] necessário repensar o Brasil em um mundo cada vez mais globalizado” (MARCON, 2015, p. 134). A sociologia contemporânea brasileira acompanha os desdobramentos que estão presentes tanto no âmbito local do nosso país quanto aqueles comuns ao mundo globalizado, realizando, assim, estudos qualificados sobre os novos contextos sociais que surgem a cada época. A seguir, veremos como a sociologia atualiza os temas presentes na obra dos autores da sociologia clássica, conectando-os com as novas demandas e realidades do mundo atual. Tema 2 Sociologia contemporânea e seus desdobramentos metodológicos Qual o poder da tecnologia? Sabemos que a sociologia clássica deixou um grande legado que fundamenta a teoria sociológica contemporânea e que ainda é estudado em todo o mundo pelos cientistas sociais e porpesquisadores de outras áreas do conhecimento. No entanto a produção sociológica contemporânea assume como desafios atualizar, referendar ou mesmo criticar o trabalho dos autores clássicos e algumas das questões desse período, como veremos a seguir. Vamos conhecer três possibilidades de analisarmos a sociedade: pelo aspecto econômico, cultural e político. Iniciamos pelo campo econômico. Karl Marx, por exemplo, analisou o contexto do capitalismo a partir do pensamento econômico socialista, incluindo a luta de classes e as divergências entre os interesses da classe burguesa e da classe proletária, em um ambiente social que prevalecia o capitalismo industrial — processo de produção bastante poluente e que utilizava da queima de carvão para gerar a energia necessária para o funcionamento do parque fabril. Ao longo do tempo, a transformação do sistema capitalista envolveu diferentes mudanças nas relações de trabalho, mas, tanto na época de Marx quanto no mundo atual, os cientistas sociais refletem sobre as questões que envolvem as desigualdades econômicas (com efeito nas desigualdades sociais), assim como as que envolvem a distribuição da renda, da riqueza coletiva produzida pelo conjunto da sociedade e do controle do capital, que pode ser “definido como o conjunto de ativos não humanos que são passíveis de adquirir, vender e comprar em algum mercado” (CAPRARA, 2017, p. 427). Porém encontramos outra visão no mundo acadêmico contemporâneo que amplia e também polemiza essa perspectiva de análise das desigualdades apenas pelo aspecto econômico, como fez Karl Marx. Assim: […] as antigas questões sobre os conflitos entre capital e trabalho e as desigualdades que incorrem nessas formações sociais vêm ganhando novos espaços. Dados e estudos podem até divergir sobre se estamos assistindo a um crescimento das desigualdades de riqueza e renda, ou se estamos numa das épocas menos desiguais da história, reduzindo a pobreza como nunca, mas as investigações sobre o tema permanecem relevantes (CAPRARA, 2017, p. 425). Caprara (2017) destaca que há um equilíbrio na sociedade com relação à distribuição da riqueza, ponto de vista que diverge da realidade que é possível observarmos no cotidiano, pelas condições de vida da grande maioria da população na sociedade brasileira. As desigualdades sociais, em meio a uma realidade de concentração da riqueza, seria um dos pontos de instabilidade da democracia contemporânea, discutido, em parte, por alguns teóricos, em razão das constantes conturbações relativas à falta de uma distribuição justa dos bens materiais produzidos pela sociedade. Assim, haveria uma tendência inevitável de uma parcela cada vez maior da renda ficar nas mãos dos capitalistas. Piketty nomeia esse mecanismo como o “princípio da acumulação infinita” (RESENDE, 2019). A base da concepção descrita por Caprara (2017) está no livro O capital no século XXI, de Piketty (2014), economista francês alinhado com o pensamento econômico liberal. [...] cujo título se inicia com ‘O Capital’, em si, carrega uma associação quase imediata a ‘O Capital’ de Karl Marx. Não é uma coincidência. Como poderia ser possível supor como expectativa do leitor, o título similar ao clássico livro de Marx não implica em uma reprodução ou uma reatualização das análises de Marx ao contexto do século XXI. Longe disso. Na verdade, Piketty, ao longo dos capítulos, sempre remete a Marx para criticá-lo. Essa crítica se dá de um ponto principal, o futuro do capitalismo, em relação ao que chama de ‘apocalipse marxista’. Esse apocalipse se expressaria, segundo a visão do nosso autor, na tendência inevitável à queda de taxa de lucro à medida que a acumulação de capital aumenta, que redundaria em sérios conflitos sociais entre capitalistas e trabalhadores, aumentando as contradições lógicas no interior do sistema capitalista (RESENDE, 2019, p. 94). Piketty (2014) apresenta argumentos que são contestados por outros teóricos, como o de desmistificar a análise de Marx de que o capitalismo chegaria ao fim ou a de que algum elemento seria determinante para o aumento das desigualdades, do que Piketty (2014) discorda. Como contraponto a essa perspectiva, está a discussão sobre o capitalismo no mundo atual, quando precisamos envolver como elemento também a questão do clima, em razão de que o atual nível de exploração dos recursos naturais e a emissão de diferentes agentes poluidores provocaram o aumento da temperatura da Terra. Com isso, “ou mudamos radicalmente o nosso sistema econômico, ou ele muda radicalmente o nosso mundo. O capitalismo e o clima estão em colisão. As alterações climáticas são uma batalha entre o capitalismo e o planeta” (CARDOSO, 2017, p. 173). O enfrentamento entre o capitalismo e os interesses frente às mudanças climáticas, que colocam a vida no planeta em risco, é um dos temas contemporâneos bastante pesquisados na sociologia. A autora da reflexão citada acima por Cardoso (2017), Naomi Klein (2016), discute ainda que, para haver uma reversão nesse quadro catastrófico sobre a questão do problema ambiental que vivemos, é necessária uma grande mobilização transnacional que redirecione o atual modelo de produção, pois “para superarmos a crise climática necessitamos de ação coletiva numa escala sem precedentes” (CARDOSO, 2017, p. 174). Desse modo, apresentamos como a sociologia contemporânea se desdobra metodologicamente ao conectar um autor clássico, no caso, Karl Marx, que criticou duramente o capitalismo e que defendia incansavelmente a classe proletária, e que agora recebe críticas teóricas de Thomas Piketty (2014), que defende a classe dominante e propõe que o capitalismo está longe de ter um fim na atualidade, como previsto por Marx. Esse tema ainda reverbera com o alerta de Naomi Klein (2016), sobre a necessidade urgente de mudar o atual cenário de exploração econômica e o modelo de produção capitalista. Indicação de filme Adeus, Lênin! Ano: 2003 Comentário: como futuros profissionais das ciências sociais, é muito importante que utilizemos das produções audiovisuais para ampliarmos nossos conhecimentos sobre temas que contemplem questões sociológicas. Assim, uma ótima referência é o filme que faz alusão ao líder do comunismo soviético, Adeus, Lênin! (2003), que demarca o fim do regime comunista em vários países do Leste Europeu, cujo enredo se passa na Alemanha na época da queda do Muro de Berlim. A mãe do protagonista, uma ferrenha socialista que sofreu um infarto antes de o muro ser derrubado, retoma a consciência, e o filho usa todos os recursos, incluindo os midiáticos, para manipular a realidade e esconder dela que o capitalismo venceu o sistema socialista. O filme discute o modelo de sociedade que controla as informações e as censura, quando necessário, além do uso de propaganda para que todos aceitem a ideologia dominante. Também há uma forte crítica ao sistema socialista sem que haja uma pregação em favor do capitalismo, pois mostra que, em meio à grande oferta de produtos, os personagens, muitas vezes, não têm dinheiro para comprá-los. A nova realidade atinge diretamente a vida de todos, que vivem a crise da falta de empregos e têm, ao mesmo tempo, uma relação de afeto e de incoerência tanto com o socialismo quanto com o capitalismo. Para conhecer mais sobre o filme, acesse o trailer disponível em: A autora ainda prevê a constituição de um grande movimento de contestação semelhante à proposta de ação sugerida por Karl Marx que também fazia menção à necessidade de a classe trabalhadora agir e reagir frente à exploração econômica. Fonte: Erick Caldas Xavier / Wikimedia Commons. Klein (2016, p. 195) defende a máxima de que a “alteração [é] do sistema, não [das] alterações climáticas”, tema que conversa diretamente com a exploração indiscriminada da floresta amazônica, que a cada ano perde quilômetros de cobertura vegetal. Inúmeras árvores são extraídas de modo ilegal (para uso como madeira e para abertura de espaço para o manejo da pecuária), em um processo que afeta o regime de chuvas em diferentes regiões, ocasionando longosperíodos de estiagem, como a que atinge a região Sul do Brasil, diminuindo a produção de alimentos, principalmente dos pequenos produtores, pois a economia brasileira é baseada no agronegócio. É possível perceber, nesse exemplo, todo o circuito em que um tema de pesquisa sociológica se articula, desde o aspecto teórico até a conexão com o mundo prático. Outro contexto que pode ser apresentado e que exemplifica como a sociologia se desdobra metodologicamente é a do campo da cultura. Ela inclui a discussão sobre a indústria cultural (ou a transformação dos bens culturais em mercadorias), tema central dos estudos culturais de tradição inglesa, liderados pelo sociólogo jamaicano Stuart Hall. Esse autor é a referência mais contemporânea quando o assunto envolve também a questão da identidade cultural. Saiba mais Um site seguro e de livre acesso é o da Revista Lusófona de Estudos Culturais, com novas edições nos meses de junho e dezembro e que conta com um bom acervo de publicações com enfoque em diversas temáticas sobre as relações de poder e sobre as práticas do cotidiano, com artigos, resenhas, além de entrevistas. Para saber mais, acesse a seguir: Os estudiosos da cultura (que estudam a produção dos significados e a forma com que eles são disseminados para a sociedade) perceberam que a produção em escala dos produtos da cultura e a distribuição em todos os meios de comunicação, desde a época analógica (de produtos físicos), foi um processo de massificação do consumo. Esse tema se aproxima da reflexão de Marcuse (2015), pois, para esse autor, a massificação tem como resultado a constituição de um ser humano com uma única dimensão. Marcuse (2015) descreve essa dimensão única (desse ser humano) fazendo menção ao que nomeou como “homem unidimensional”, ou uma sociedade formada por pessoas com um pensamento único em torno das questões políticas, sociais e culturais, que é transmitido pelos produtos da cultura, podendo ser de entretenimento, como livros, discos, revistas, filmes, mas também pelos discursos políticos, pelos programas das agremiações partidárias e pelas mensagens oficiais do governo, além das mensagens das publicidades comerciais. Leitura Teorias sociológicas e temas sociais contemporâneos Autor: Everson Araujo Nauroski Editora: Intersaberes Capítulo: 4.1 — A indústria cultural e sua gênese Ano: 2018 ISBN: 9788559726596 Comentário: esta leitura é bastante objetiva e descritiva sobre o papel da indústria cultural na sociedade capitalista. A postura das produções artísticas de fazer crítica ao sistema e ao poder passa a ser utilizada como meio de promover o engajamento ideológico das massas. Em paralelo, a reflexão ocupa um espaço cada vez menor, reduzindo a capacidade de contestação, para atender também à necessidade comercial de produtos da cultura. Disponível na Biblioteca Virtual Pearson. Marcuse (2015) observa que há um nítido controle sobre a sociedade a partir do uso da tecnologia, pois, quando um produto cultural é distribuído em massa pelos meios de comunicação, ocorre um fenômeno que promove a identificação da grande maioria da população. A consequência disso é a homogeneidade da opinião pública e do comportamento coletivo, o que faz com que as pessoas aceitem, sem muito questionar, a ideologia dominante representada pelas ideias do capitalismo. A tecnologia utilizada para a massificação cultural resulta em uma relação de poder ideológico e também político. Esse expediente foi utilizado por Adolf Hitler, na Alemanha, como meio para disseminar a ideologia nazista, fazendo uso do rádio e do cinema para transmitir intensamente a narrativa política que ele defendia apresentando-a como verdade; teve como efeito o engajamento da grande maioria da sociedade alemã da época. Essa discussão sobre o “homem unidimensional” pode ser associada também com o atual modelo de produção cultural digital, em que acontece o mesmo processo de promoção de homogeneidade pelo consumo de um único estilo de música ou pelo uso reiterado de redes sociais, como o TikTok. Karl Marx defendia que a classe trabalhadora eliminasse toda a estrutura de controle ideológico do capitalismo (ou a indústria cultural dele) e preservassem apenas a estrutura de produção fabril (ou os meios de produção dos bens materiais). Marcuse (2015) estabelece um diálogo teórico com Karl Marx quando defende que uma verdadeira mudança da sociedade requer que o aparato tecnológico (que transmite a cultura da sociedade capitalista) seja subvertido, pois esse mecanismo exerce controle e impede que as transformações na sociedade aconteçam, pelo fato de as pessoas não desenvolverem senso crítico em relação a tudo aquilo que consomem como produto cultural; nesses casos, as sociedades experienciam uma certa paralisia, pela falta de oposição e de resistência. Marcuse (2015) descreve ainda que não existe alienação social, como podemos sugerir, pelo consumo dos produtos da cultura capitalista, mas, sim, uma identificação estreita das pessoas com o modelo de sociedade vigente, o que o autor chama de mimese (quando a tecnologia é a representação de como deve ser a consciência das pessoas). Como exemplo de ideia disseminada no capitalismo está a de que as pessoas precisam ser produtivas o tempo todo, pois esse comportamento interessa ao funcionamento do sistema. Assim, sempre estiveram presentes nas sociedades condições impostas para que parte das pessoas entendam e percebam a realidade apenas por um ponto de vista. Essa é mais uma demonstração de como a sociologia contemporânea pode se desdobrar para explicar um fenômeno social. Podemos incluir entre os nossos exemplos o movimento feminista, descrevendo-o como um campo político, no sentido analisado por Pierre Bourdieu (2002). Segundo este, podemos discutir como a sociologia contemporânea se desdobra metodologicamente, e como as disputas de poder se estabelecem entre as forças que participam desse espaço político, social e cultural. Assim, o feminismo traçou uma longa trajetória desde a primeira onda, com a luta pelo direito ao voto reivindicado pelas mulheres ainda no final do século XIX. O resultado foi o de que as mulheres alcançaram progressivamente esse direito, que se consolidou nas democracias do mundo ocidental. Simone de Beauvoir (1967) torna-se referência da chamada segunda onda do feminismo e abre o segundo volume da obra O segundo Sexo com a célebre frase: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” (BEAUVOIR, 1967, p. 9), como uma ideia de construção social para essa representação do feminino e do que é ser mulher. Até aquele momento, havia uma distinção entre o que pertenceria ao espaço público e o que pertenceria ao espaço privado, sendo que o espaço da casa (privado e de afazeres domésticos) era destinado à mulher, e o espaço da rua (público e de trabalho remunerado), destinado ao homem, provedor da família, em uma relação de dependência das mulheres. Esse exemplo apresenta inicialmente a identidade cultural formulada ainda na idade moderna, a partir de um modelo binário, e que não recebia nenhuma contestação — ou se era homem (masculino) ou se era mulher (feminino). O movimento feminista surge nesse cenário e traz para o espaço público discussões sobre a constituição das famílias, sobre a sexualidade e sobre os direitos de reprodução humana. Dentre outras pautas, reivindicou uma identidade para cada grupo que apoiava esse movimento, como homossexuais e lésbicas. Nascia, assim, o conceito de política de identidade, uma identidade para cada movimento que integrou a luta pelos direitos sexuais e reprodutivos. Assim, a questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social. Em essência, o argumento é o seguinte: as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. Assim, a chamada ‘crise da identidade’ é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocado as estruturas e processos centrais das sociedadesmodernas (HALL, 2006, p. 7). A cultura sempre regulou as formas aceitáveis e “saudáveis” de se constituir e aceitar a família a partir de determinado padrão. Instâncias como a Igreja, a medicina e a psicologia formularam muitas “verdades” (ideias concebidas sobre as relações entre homens e mulheres). Mas, de maneira oposta, o movimento feminista questionou a perspectiva do modelo binário (como referência de identidade estável para essas relações), que se apresenta pelo modelo de família tradicional formado por pai e por mãe e, preferencialmente, com poucos filhos. A questão da mulher torna-se uma questão política a partir dos anos 1960, pois as verdades instituídas pelas instâncias citadas são questionadas, e surgem novas versões para esses discursos (religioso, médico e psicológico), havendo uma disputa por novos significados para a identidade sexual das pessoas. O movimento gay surgiu nos anos 1970, defendendo o direito à diferença e o da inclusão, combatendo a discriminação e a violência contra os membros da comunidade. Por meio do ativismo político, questiona a forma única de relacionamentos (representada pela identidade cultural da idade moderna, que vimos antes), apresentando um leque de sujeitos (homossexuais, transexuais, bissexuais, dentre outros) reivindicando direito à liberdade e à vida afetiva. Todo esse conjunto de questões está contemplado pelos estudos de gênero como conhecimento interdisciplinar para afirmação das identidades sexuais e inclui outros segmentos de análise, como estudos sobre as mulheres, os estudos sobre os gays, os estudos sobre os homens e os estudos queer (linha teórica que se volta ao estudo da diversidade sexual daqueles que não reconhecem o gênero com o qual nascem e transgridem essa referência cultural e biológica), como a transexualidade. Esse aspecto da identidade cultural está no centro das disputas políticas entre os grupos progressistas (do movimento feminista, passando pelo movimento negro, ao movimento LGBTQIA+), que lá no início dos anos 1960 contestaram as ideias dos grupos conservadores (e religiosos). Agora, eles recebem a contestação dos conservadores, pela insatisfação com as conquistas desses movimentos sociais, principalmente pelo modelo multifacetado de as identidades serem reconhecidas. Dentre outras questões, os conservadores contestam o padrão e os novos arranjos de as famílias serem formadas também por pares homoafetivos. Assim, revivemos o renascimento de ideias que pertencem à ideologia fascista ou, segundo Pansani (2018), uma forma de nacionalismo totalitário segundo a qual a nação é absorvida pelo Estado, dirigido por um partido que encarna os ideais nacionais. As ações da extrema-direita ideológica, em diversos lugares do mundo, tudo em nome de Deus, se dão pela incompreensão de que o ser humano é formado por muitas diferenças, que não são aceitas por grande parte da população. Tema 3 Mudanças tecnológicas e os desafios para a sociologia do século XXI O que tem desafiado a sociologia? O impacto das novas tecnologias nas sociedades contemporâneas, nos relacionamentos humanos, assim como nas investigações acadêmicas, é um tema mapeado pela sociologia, que reconhece que necessita sempre de metodologias de análise atualizadas, readequadas para os novos tempos que vivemos. O desafio que se apresenta refere-se ao uso de novos recursos técnicos (uso de softwares e de aplicativos) para a interpretação adequada desta nova sociedade, ou o uso de dados digitais como fonte empírica (na tradição acadêmica, o modo empírico, tradicional, é o encontro presencial para a coleta de informações a partir das experiências testemunhadas pelos pesquisadores na observação e na convivência). Contudo o formato de investigação produzido pelo meio virtual também é reconhecido como válido cientificamente quando realizado com as ferramentas analíticas adequadas. Inicialmente, destacamos que a introdução das tecnologias da informação promoveu mudanças nas formas como as pessoas passaram a se relacionar, formando, desse modo, uma sociedade interconectada com diferentes relacionamentos mediados pelas tecnologias. Uma das consequências disso é que a cultura, as relações sociais e as instituições se alteraram profundamente, na medida em que novas formas de comunicação dependentes das tecnologias digitais adquiriram um uso generalizado (NASCIMENTO, 2016, p. 218). O trabalho do sociólogo espanhol Manuel Castells, tomando como referência o conjunto da trilogia “A era da informação”, com três volumes, faz uma profunda reflexão sobre como a sociedade foi impactada pelo uso intenso das tecnologias. O autor detalha como as relações humanas se reconfiguraram em todos os cenários — políticos, sociais e culturais e, principalmente, econômicos. No primeiro volume da trilogia, A sociedade em rede, de Castells (1999), encontramos a menção às Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), que são os meios que realizam a conexão em rede entre as pessoas. Na atualidade, o uso massificado desses recursos tecnológicos fez surgir novas tarefas e novos profissionais, como os youtubers (criadores de conteúdos diversos para a rede social YouTube), os influencers (pessoas que se tornam celebridades e buscam influenciar as demais para o consumo de produtos ou de serviços em redes sociais diversas) e os social medias (gerentes de redes sociais), que monitoram e cuidam das contas de empresas e de artistas e transformam essas tarefas em ganho monetário. Nascimento (2016) demarca o surgimento de uma nova especialidade da sociologia, a da “sociologia digital”, para dar conta da necessidade de uso de novas ferramentas de análises, em razão das novas formatações de relacionamentos pessoais e profissionais que se apresentam, em meio a um volume de dados e de variáveis para serem comparadas e analisadas. Um desafio que se apresenta é o da integração dos sociólogos com o uso dessas tecnologias, porque parece ser característico existir o que o autor descreve como “tecnofobia” nessa área do conhecimento. Assim, cria-se outra demanda para a formação acadêmica, a de que os estudantes sejam devidamente treinados para usar os equipamentos e aplicativos comuns a esta nova era centrada na informação on-line. Nascimento (2016) comenta que a sociologia precisa compreender o modo digital e fazer uso dele, para acompanhar os novos desdobramentos da sociedade digitalizada. O autor cita o trabalho de Lupton (2015 apud NASCIMENTO, 2016) quando essa autora enumera que a sociologia digital precisa se concentrar em quatro campos distintos: a) Prática profissional digitalizada: usar ferramentas digitais para propósitos profissionais. b) Análise de dados digitais: usar dados digitais para investigações qualitativas e quantitativas. c) Análises sociológicas de uso de mídias digitais: pesquisar os impactos das mídias e das redes sociais digitais para o comportamento dos atores sociais. d) Sociologia digital crítica: realizar análises das mídias digitais com base nas teorias sociais. Cada um destes campos demandaria um esforço intelectual nas ciências sociais contemporâneas, na instrumentalização e no desenvolvimento do que a autora denomina de habilidades computacionais (NASCIMENTO, 2016). Nascimento (2016) demonstra que alguns desses recursos (que são básicos na atualidade) já podem ser reconhecidos como de uso corrente, como o uso dos editores de textos e das planilhas, e os mais sofisticados, como o programa SPSS Statistics (ou programa estatístico para as ciências sociais), que produz diferentes relatórios e gráficos para analisar dados e fundamentar as pesquisas. A comunicação das pesquisas em redes sociais das instituições de ensino ou pessoais dos pesquisadores também compõe este novo cenário, que expande o acesso ao conhecimento antes restrito ao âmbito acadêmico e a um público específico, passando a ser compartilhado com o público em geral. Outra discussão que é relevante observar é a de que o consumo em massa desses novos produtos da informação pode expor as pessoas ao que é chamado de overload, ou sobrecargade informações e de conteúdos que são consumidos em excesso e que podem provocar fadiga nas pessoas. Uma nova conceituação para descrever isso é a síndrome da fadiga de informações. Outro fenômeno negativo desta nova realidade é que vivemos também uma era do falseamento da realidade (com a manipulação das informações apresentadas como notícias, sem a avaliação de um profissional da comunicação), no que ficou conhecido como era da pós-verdade (do inglês, post-truth), como sendo uma disseminação sem compromisso com a veracidade de um fato, com base em argumentos inventados pelo emissor da informação para influenciar a opinião pública). Em geral, é desmentida posteriormente, mas que se propagada antes alcançando o objetivo proposto de mentir com segundas intenções e capturando muitas pessoas, que passam a acreditar nessa informação sem fazer a necessária avaliação crítica ou checagem da origem do que foi consumido como notícia, mas que é uma inverdade. Também podemos encontrar esse exemplo de pós-verdade quando colocam em xeque até mesmo o conhecimento científico já válido (como pessoas que negam os benefícios das vacinas para a saúde humana) e propagam informações deturpadas, postulando a negação da realidade, recusando-se a aceitar que os fatos podem ser comprovados cientificamente, tudo com base em crenças e em opiniões pessoais e, em alguns casos, fundamentado em convicções de cunho religioso. Assim, cada pessoa faz a própria interpretação dos conteúdos que são distribuídos pela internet e reinterpreta o que já está assegurado como verdade, mesmo tendo sido comprovado pela ciência. Também há os casos de produção de vídeos editados remetendo a situações manipuladas com o uso de aplicativos de deep fake (recurso que faz uso de inteligência artificial, imita e falseia movimentos faciais e corporais, e até mesmo a fala de uma pessoa), atribuindo a alguém uma afirmação deturpada de algum fato que ele próprio desconhece. Castells (1999) explica o conceito de “geração de fluxos” como sendo o de relacionamentos que se estabelecem entre as pessoas pelo uso da tecnologia, como por meio das pessoas se comunicando a distância (uma em cada cidade ou mesmo em outro país), ou um médico realizando uma consulta (por telemedicina), e ainda um grupo de crianças jogando virtualmente, cada uma em casa, com o próprio telefone ou computador pessoal. Castells (1999) descreve que o novo paradigma apresentado pelo uso das tecnologias promoveu as bases para a reconstituição do desenvolvimento econômico e para a reconfiguração do modo de produção capitalista. Afinal, no âmbito econômico, os negócios podem se realizar sem a necessidade de deslocamentos geográficos, pois todas as operações comerciais acontecem pelo mundo digital, como a compra, a venda e os pagamentos. Desse modo, a geração de fluxos também se expande para a nova economia capitalista, porque hoje o capital financeiro circula rapidamente de um país a outro, como quando um empresário faz negócio com um parceiro em algum país latino-americano e, por contingências estratégicas, passa a ser mais vantajoso negociar com outro país, como a China. Para Castells (1999), não existe mais distinção entre o mundo real e o mundo virtual, pois estamos presentes em ambos diariamente, compartilhando momentos e situações. A formação de redes interconectadas criou condições estruturais para essa nova sociedade global que está assentada no uso das comunicações digitais. Podemos relembrar quais são as fases do sistema capitalista, que pode ser dividida em três momentos históricos: capitalismo industrial (analisado por Karl Marx); capitalismo financeiro (analisado por Thomas Piketty); e capitalismo informacional (analisado por Manuel Castells). O capitalismo informacional é a fase mais recente que a humanidade está vivendo (revolução tecnológica e científica, ao mesmo tempo) e que se iniciou em meio ao processo de globalização, com o incremento da robótica, da inteligência artificial e das demais tecnologias, mas com uma grande maioria precisando ainda ser incluída digitalmente e ter acesso a uma internet de qualidade. Assim, gera-se riqueza sem a necessidade da presença física das pessoas ou da instalação de uma estrutura edificada (como lojas, escritórios e fábricas) para que os negócios se concretizem. Como exemplo, podemos citar o caso da Uber, empresa multinacional que realiza a prestação de serviço de transporte de particulares por meio de uso de aplicativo de geolocalização em smartphones. A Uber não dispõe de um único veículo e é a maior empresa no segmento de transporte, com motoristas que se filiam à plataforma e pagam um percentual para oferecerem esse serviço. Castells (1999) enfatiza que temos que ter especial atenção ao modo como a humanidade está produzindo conhecimento e como isso está sendo informado para as pessoas por meio da indústria cultural, pois este é um ponto estratégico para o novo capitalismo informacional. Para refletir Somos contemporâneos de um mundo mediado pela tecnologia, da qual fazemos uso diariamente e à qual estamos adaptados, como um comportamento natural em nossas rotinas diárias. Qual tecnologia afetaria mais o andamento do seu dia a dia se você ficasse sem poder utilizá-la? Segmentos especializados da teoria sociológica, como o da sociologia do trabalho (que iniciou analisando as relações de trabalho a partir de um modelo de produção em que as empresas contratam os trabalhadores para realizar tarefas presenciais em locais definidos), atualmente precisam reinterpretar as novas formas de flexibilidade das relações de trabalho. Afinal, estas também são realizadas no modo remoto, ou home office (produzido a partir da habitação do trabalhador e intermediado pelos computadores e smartphones), que se alinha com a ideia de sociedade em rede de Castells (1999). O trabalho é executado ou na condição de pessoa jurídica, sem vínculo empregatício, ou como prestador de serviço (como a realizada pelos entregadores de alimentos). Como exemplo, citamos as entregas de pedidos pelo aplicativo Ifood. Os trabalhadores prestam serviço em condições categorizadas como precárias, sem a garantia dos direitos trabalhistas e, em muitos casos, sem sobras financeiras para pagar a mensalidade da previdência social, o que vai impactar negativamente o futuro dessas pessoas, não proporcionando uma aposentadoria adequada. Esses trabalhadores ainda reproduzem um discurso liberal do capitalismo informacional, de que são empreendedores, e um dos argumentos que os motiva é o de disporem, em certa medida, de mais tempo livre, mas na prática realizam longas e extenuantes jornadas de trabalho, com baixa remuneração. Por fim, para os novos universos que estão se constituindo, como o do mundo do trabalho, que tomamos como exemplo, a sociologia contemporânea é desafiada a encontrar respostas aos problemas que surgem e, quando for pertinente, indicar formas para que essa relação de forças se reequilibre. Isso se dá no sentido apontado por Pierre Bourdieu (2002), como parte de um campo de disputa por poder e por reconhecimento (neste caso, no campo do trabalho), e para colocar o conhecimento sociológico como parte das ações que podem participar da transformação da sociedade. A sociologia não é a única instância que pode contribuir para a transformação social, mas oferece grande potencial de colaboração no estabelecimento de um mundo mais humanista. Encerramento Como realizar uma pesquisa sociológica? A sociologia utiliza o método conhecido como analítico para a realização de pesquisas, auxiliado pelo conjunto de técnicas para coleta de dados empíricos (com origem nas observações e nas fontes de informações). Esses dados são interpretados com o uso de ferramentas estatísticas, se for o caso, e do referencial teórico que o pesquisador quiser alinhar ao estudo, como analisar a burocracia na sociedade utilizando como suporte o trabalho de Max Weber e de outros autores que já realizaram pesquisas semelhantes. Qual o poder da tecnologia? Para a sociologia, a tecnologia pode ser utilizadacomo recurso para o controle ideológico da sociedade, distribuindo e disseminando narrativas, com o objetivo de manter o poder sobre o destino da sociedade, e condicionando as pessoas a aceitar sem questionamento. O que tem desafiado a sociologia? A sociologia como conhecimento fragmentou-se em pequenos campos específicos de análise, sob influência dos novos arranjos sociais que multiplicaram as formas de representações sociais, voltando-se mais para temas particulares. Assim, a sociologia perdeu um pouco da capacidade de narração e de crítica de assuntos amplos, como os que envolvem a globalização, além de estarmos vivendo uma época recheada de incertezas sobre diversas questões. A sociologia precisa se reequipar teoricamente, de modo contínuo, para melhor compreender estes novos tempos. Resumo da Unidade Apresentamos os principais autores que criaram as bases para formação de uma sociologia especificamente brasileira. As publicações desse primeiro momento acompanharam o contexto social e a realidade demarcada da época, abordando questões sobre como o Brasil se constitui como nação e algumas problemáticas historicamente presentes no cotidiano nacional, como o patrimonialismo, a nefasta prática da apropriação dos bens públicos por muitos gestores do Estado. A sociologia é um conhecimento que possibilita a articulação entre diversos temas, mesmo em períodos históricos distintos, como demonstramos a partir de um ponto específico da teoria marxista sobre o capitalismo, tendo como referência a realidade do século XIX; a questão foi criticada no presente por outro autor, revelando como o conhecimento bem formulado é atemporal e ainda serve de sólida referência. Exemplo disso é a produção teórica dos pilares da sociologia clássica, incluindo Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim. A sociologia tem buscado se reinventar como conhecimento e refletido acerca dos desafios que os novos tempos têm apresentado, como o uso das tecnologias, e que repercutem na necessidade de novas ferramentas analíticas para a compreensão dos novos cenários sociais, políticos, culturais e econômicos. Ao mesmo tempo, é preciso colocar-se à disposição da sociedade, para contribuir em prol de um mundo mais harmônico e humanizado. Referências BEAUVOIR, S. de. O segundo sexo — a experiência vivida. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1967. BOURDIEU, P. Campo de Poder, Campo Intelectual: Itinerario de un concepto. Buenos Aires: Montressor, 2002. CAPRARA, B. Thomas Piketty e “O capital no século XXI”: da economia política à sociologia contemporânea. Sociologias, [S. l.], v. 19, n. 4, p. 424-439, 2017. https://bit.ly/3SnCCfM CARDOSO, P. M. Resenha de: Tudo pode Mudar. Capitalismo vs. Clima. Crítica de Ciências Sociais, [S. l.], v. 113, p. 173-184, 2017. https://bit.ly/3ZkXF4V CARVALHO, A. 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A diversidade humana é a capacidade que as pe ssoas têm de ser diferentes e únicas, de se expressarem de maneiras diferentes e de contribuírem de forma diferente para a sociedade. É a pluralidade de culturas, crenças, ideias e costumes que compõem a humanidade. Assim ela é um tema importante na Sociol ogia porque nos lembra de que somos diferentes uns dos outros, mas igualmente importantes, além de nos ajudar a entender a complexidade e a riqueza das relações humanas. Ao estudarmos a diversidade humana, podemos aprender a aceitar e a valorizar as difere nças entre as pessoas e assim aproveitar ao máximo o que nos torna únicos. Objetivos Ao fim desta unidade, você deverá ser capaz de: · Identificar as principais si milaridades e diferenças entre a teoria sociológica clássica e a sociologia contemporânea. Conteúdo Programático UNIDADE I INTRODUÇÃO Dos clássicos aos contemporâneos: permanências e rupturas na teoria sociologia Ao longo do tempo, o estudo da diversidade humana ganhou mais profundidade e abrangência. Inicialmente notou-se que ela manifesta-se em diferentes níveis, como nos aspectos linguísticos, religiosos, étnicos, culturais e econômicos. Porém também se percebeu que ela é muito mais do que isso: é uma característica intrínseca da natureza humana, que é parte fundamental de nossa existência. A diversidade humana é a capacidade que as pessoas têm de ser diferentes e únicas, de se expressarem de maneiras diferentes e de contribuírem de forma diferente para a sociedade. É a pluralidade de culturas, crenças, ideias e costumes que compõem a humanidade. Assim ela é um tema importante na Sociologia porque nos lembra de que somos diferentes uns dos outros, mas igualmente importantes, além de nos ajudar a entender a complexidade e a riqueza das relações humanas. Ao estudarmos a diversidade humana, podemos aprender a aceitar e a valorizar as diferenças entre as pessoas e assim aproveitar ao máximo o que nos torna únicos. Objetivos Ao fim desta unidade, você deverá ser capaz de: Identificar as principais similaridades e diferenças entre a teoria sociológica clássica e a sociologia contemporânea. Conteúdo Programático