Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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1 –Introdução

Há tempos vozes de preclaros juristas ecoam aos quatro cantos de nossa plaga aclamando por um processo penal de melhor qualidade, sugerindo mudanças ao ultrapassado Código de 1940, com o escopo de atingir a um processo de resultados em um menor espaço de tempo possível.

Noutro dizer, um processo que disponibilize instrumentos adequados à tutela jurisdicional de todos os direitos, com o fito de assegurar a utilidade das decisões.

Trata-se, portanto, da efetividade do processo em que se põe em evidência a instrumentalidade do sistema processual em relação ao direito material e aos valores sociais e políticos. A justiça morosa, ineficiente, dá lugar ao descrédito e à insegurança jurídica.

Por outro lado, a idéia de que o Estado possa e deva punir penalmente toda e qualquer infração, sem se admitir, sob hipótese alguma, certa margem à disponibilidade da ação penal pública, havia mostrado, à evidência, ao longo dos longevos anos, sua falência e hipocrisia.

Em paralelo, havia percebido que a solução litigiosa penal em certos casos de somenos importância poderia ser atingida pelo método consensual tendo em vista que, com o aumento da criminalidade, as infrações de menor potencial ofensivo estavam relegadas a um segundo plano, passando a ter preferência no julgamento os crimes mais graves diante da necessidade de se retirar do convívio social os elementos de maior periculosidade.

Sendo assim, houve a necessidade de um procedimento mais célere para a apuração desses delitos considerados diminutos, dando resposta, de imediato, ao ato infracional e evitando manobras protelatórias que levavam à inevitável prescrição da pretensão punitiva.	

Nesse diapasão, o legislador constituinte inseriu, com claque, na Constituição Federal de 1988, o disposto no artigo 98, inciso I, estabelecendo que a União, no Distrito Federal, e nos territórios, e os Estados deveriam criar “juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução das causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas na lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau”.

Com essa disposição, obrigando à criação dos Juizados Especiais, a Carta Magna deu margem a importantes inovações em nosso ordenamento jurídico penal e processual penal, dando resposta à imperiosa necessidade de o sistema processual penal brasileiro navegar nas tendências contemporâneas, possibilitando uma solução rápida para a lide penal, quer pelo consenso das partes, com a pronta reparação dos danos sofridos pela vítima na composição, quer pela transação, com a aplicação de penas não restritivas de liberdade, quer por um procedimento sumário para a apuração da responsabilidade penal dos autores de infrações penais de menor potencial ofensivo na hipótese de não se lograr ou não ser possível aplicar uma ou outra daquelas medidas inovadoras.

Para que fosse colocado em prática o disposto constitucional, foi promulgada a Lei Federal nº 9.099/95, que, em sua aparente singeleza, significa uma verdadeira revolução no nosso sistema processual penal.

Assim, a aplicação imediata da pena não privativa de liberdade, antes mesmo do oferecimento da acusação, não só rompe com a tradição do nulla poena sine judicio, como até possibilita a aplicação da pena sem antes discutir a questão da culpabilidade.

A proposta do Parquet não implica reconhecimento da culpabilidade penal, como, de resto, tampouco implica reconhecimento da responsabilidade civil, conforme veremos.

	

 2 – Conceito. Natureza Jurídica. Distinções

 2.1– Conceito

A suspensão condicional do processo é um dos avançados institutos preconizados pela Lei Federal n.º 9.099/95, a qual trouxe para a nossa plaga o modelo de justiça criminal consensual. Insculpi o art. 89, caput, da Lei dos Juizados Especiais, que nos crimes em que a pena mínima cominada por igual ou inferior a 1 (um) ano, abrangidas ou não por esta lei, o Parquet , ao oferece a denúncia, poderá propor a suspensão do processo por 2 (dois) a 4 (quatro) anos, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presente os demais requisitos que autorizam a suspensão condicional da pena (CP, art. 77).

Salienta-se que, embora o retro artigo mencione exclusivamente “Ministério Público”, “denúncia”, não é obstáculo para a incidência da suspensão na ação penal privada, por causa da analogia in bonan partem que vem sendo reconhecida amplamente na hipótese do art. 76.

A suspensão condicional do processo é, portanto, uma autêntica revolução atinente à quebra do princípio da obrigatoriedade da ação penal, já que adota o princípio da oportunidade regrada (item 3.1.1, p. 10-11) pela lei e condicionada a uma decisão judicial. Por azos de conveniência, o Estado pode renunciar à investigação, à instauração e ao julgamento de processo penal.

O instituto da suspensão do processo pode ser assim entendido: é um ato bilateral, dependente de uma decisão do magistrado para alcançar o que se pretende, que sobrestai o processo sem que o acusado ou querelado conteste a imputação, mas, também, não admite culpa nem proclama sua inocência, com a faculdade de extinguir a punibilidade, caso todas as condições fixadas sejam cumpridas, durante determinado interstício de prova.

Cumpridas as exigências traçadas com o consenso do acusado, sem que tenha havido cancelamento, resulta extinta a punibilidade, ou seja, deixa de existir a pretensão punitiva estatal decorrente do fato punível descrito na denúncia.

Ante o exposto, indaga-se se a suspensão condicional do processo está em consonância com o princípio da inocência insculpido no art. 5º, inc. LVII, da Carta Constitucional de 1988.

Entendemos que sim tendo em vista que este instituto não considera o acusado culpado, que não cumpre pena, mas condições. Está em causa, conforme acima dito, na suspensão o nolo contendere – não contesta, mas também não assume culpa.

Deriva da autonomia da vontade do acusado, a qual, no caso, nada mais significa que estratégia da ampla defesa constitucionalmente assegurada. O acusado pode aceitar ou não a suspensão.

Em suma, não existe obrigação legal nem imposição.

2.2 – Natureza Jurídica

Quando se pretende externar a essência de determinado instituto e o seu relacionamento classificatório na seara do ramo jurídico em que se projeta, estamos diante da natureza jurídica.

Entende-se tratar de um instituto misto, de natureza dúplice. Deveras, possui cunho material – penal -, por dar ensejo a uma eventual extinção da punibilidade nos termos do artigo 89, § 5º da Lei Federal nº 9.099/95, caso o réu cumpra as condições impostas durante o período de prova, mas, por outro lado, tem natureza processual à vista do procedimento aplicável, que condiciona ao sobrestamento da lide, sem exame da culpabilidade do agente.

Dessarte, em sendo também uma verdadeira norma processual, a sua incidência é de imediato, ainda que o fato delituoso tenha ocorrido antes da vigência da lei acima mencionada. Ademais, em sendo uma lei nova benéfica, seus efeitos são retrooperantes, isto é, aplicam a fatos ocasionados anteriormente à vigência da lei, por força de mandamento constitucional – art. 5º, inc. XL.

Nesse comenos, averbera Tourinho Filho (2007, p. 213):

Na verdade, se a norma do art. 89 é eminentemente híbrida, visto que mesclada de conteúdo processual e penal, sobressaindo, com vantagem, suas conseqüências jurídicas no plano material, como se infere do seu § 5º, deverá ela ser subsumível à noção de Lex Mitior, e, desse modo, a toda evidência, é possível a sua aplicação.

2.3- Distinções

Ao conceituarmos o instituto da suspensão condicional do processo, foi dito, na primeira parte, que é um ato bilateral uma vez que a proposta