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Microeconomia – Organização Industrial Prof. Dr. Carlos C. S. Saiani Sala: 1J - 219 ssaiani@yahoo.com.br ssaiani@ie.ufu.br Aulas 3 e 4 2 Defesa da Concorrência C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU 1. Objetivos e Características da Defesa da Concorrência 3 Aulas 3 e 4 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Política de Defesa da Concorrência •objetivos: • garantir a existência de condições de competição • preservar ou estimular a formação de ambientes competitivos para induzir, se possível, a maior eficiência econômica resultante do funcionamento dos mercados 4 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Política de Defesa da Concorrência • concorrência deve ser promovida e defendida pelo Estado • sistemas legais especificamente definidos para esta finalidade: • leis de defesa da concorrência ou leis antitruste 5 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Defesa da Concorrência •busca limitar o exercício do poder de mercado • não torna o poder de mercado e os monopólios ilegais • controla a forma pela qual o poder é adquirido e mantido • reprime o exercício abusivo do poder e não ele em si 6 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Defesa da Concorrência •2 padrões básicos de ações (regras): • voltadas para as condutas dos agentes no processo competitivo • voltadas aos parâmetros estruturais que condicionam as condutas 7 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Ações de Conduta • caráter repressivo • punições às práticas anticompetitivas (restritivas da concorrência) derivadas do exercício abusivo de poder de mercado • consideradas ilícitas se restringirem o processo concorrencial • o que prejudica, em última análise, os consumidores 8 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Ações Estruturais • controle preventivo sobre atos de concentração • atos de concentração: fusões, aquisições, joint ventures ... • buscam evitar o surgimento de estruturas de mercado mais concentradas 9 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Defesa da Concorrência • os 2 tipos de regras não impõem a obrigação de efetivamente competir e de que forma • indução das forças de mercado e das estratégias das empresas à competição e, assim, às inovações e à eficiência • evita que o processo concorrencial seja restringido por agentes com poder suficiente para isso • portanto, não age diretamente sobre os resultados desse processo, mas sim nos meios que levam a esses resultados 10 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Defesa da Concorrência • não impõe aos agentes obrigações que assegurem diretamente os resultados positivos da concorrência • na verdade, é um tipo de regulação reativa do Estado que impõe ao agente o dever de abster-se de determinadas práticas • “cumpre-se” a lei enquanto não se prejudica o processo concorrencial 11 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Características da Política Antitruste (a) defender o processo da concorrência => reprimir qualquer tipo de prática que restrinja esse processo • “cumpre-se” a lei enquanto não se prejudica o processo concorrencial • efeito de restringir a concorrência: caracteriza um ato como proibido pela lei 12 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Características da Política Antitruste (b) imposições decorrentes da lei são, substancialmente, abstenções • não produzem efeitos anticompetitivos 13 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Características da Política Antitruste •observação: • objetivo da lei antitruste é defender o processo concorrencial • não os concorrentes e/ou os consumidores individualmente • defender os benefícios sociais, não individuais 14 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU 2. Conceitos Básicos da Análise Antitruste 15 Aulas 3 e 4 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Análise Antitruste • poder de mercado • empresas podem causar danos ou restrições à concorrência • condição necessária para haver ilicitude, mas não suficiente • depende da constatação de efeitos anticompetitivos (efetivos ou potenciais) de uma conduta ou de um ato de concentração 16 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Análise Antitruste •poder de mercado no Brasil • legislação usa o termo posição dominante quase como sinônimo • capacidade de alterar unilateral ou coordenadamente as condições de mercado • ou parcela de mercado (market share) de 20% ou mais em um mercado relevante 17 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Análise Antitruste • “compensação” • condutas restritivas ou atos de concentração => efeitos negativos sobre a concorrência • contudo, podem resultar em ganhos de eficiência que os compensem • reduções de custo associadas e economia de escala e de escopo; aumentos de produtividade ou de qualidade; aperfeiçoamentos tecnológicos; economias de custo de transação ... 18 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Análise Antitruste • consenso de que condutas ou atos de concentração não devem ser proibidos se seus efeitos restritivos forem compensados por “eficiências” • caso contrário, a aplicação da lei resultaria em ineficiênciasnos mercados e, consequentemente, em resultado contrário ao interesse social 19 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Mercado Relevante • primeiro passo (essencial) para a análise antitruste • em relação ao qual são calculados os índices de concentração e caracterizadas as demais condições para a existência de poder de mercado e de seus danos à concorrência • mercado(s) que atua(m) o(s) agente(s) envolvido(s) e no(s) qual(is) ocorrem os supostos efeitos restritivos à concorrência 20 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Mercado Relevante • locus (produto/região) em que o poder de mercado possa (hipoteticamente) ser exercido • principais conceitos utilizados: • elasticidades-preço da demanda e da oferta • as duas devem ser suficientemente baixas para que um aumento de preço resulte em maiores lucros para a empresa que exerce poder de mercado 21 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Mercado Relevante •Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (CADE) • todos os produtos/serviços considerados substituíveis (perfeitamente ou não) entre si pelo consumidor, devido às suas características, preço e utilização 22 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Mercado Relevante • Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (CADE) • dimensão geográfica • área em que as empresas ofertam e procuram produtos/serviços em condições de concorrência suficientemente homogêneas em termos de preços, preferências dos consumidores e características • devem ser identificados os obstáculos à entrada de produtos ofertados por empresas fora da mesma área 23 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Dimensão Geográfica • análises que devem ser feitas: • se os consumidores podem comprar o produto em outras localidades a custos acessíveis • se os concorrentes de outras localidades podem direcionar suas vendas para a região em análise a custos acessíveis 24 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Mercado Relevante • teste do monopolista hipotético • se uma empresa hipotética, no mercado considerado (produto/área), é capaz de impor um aumento de preço significativo e persistente para caracterizar um exercício de poder de mercado • mercado relevante: menor mercado possível (menor agregado de produtos combinado com a menor área) que satisfaça esse critério • parâmetro no Brasil: aumento de preço de ~10% (arbitrário, mas imprescindível) 25 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Teste do Monopolista Hipotético • “conclusão”: • para uma dada função de demanda, quanto mais alto o parâmetro de aumento de preço tomado como referência, menor será a elasticidade-preço da demanda necessária para que o mercado (produto/área) “passe” no teste • portanto, a delimitação do mercado relevante afeta diretamente os resultados de um julgamento antitruste 28 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Observações • teste é adaptável a qualquer situação e a qualquer tipo de mercado (sem limites de tamanho) • para dado volume de vendas da(s) empresa(s) envolvida(s), quanto menor o mercado, maiores as possibilidades de existir poder de mercado => potencial de danos à concorrência • por outro lado, quanto maior o mercado, mais diluída será a participação da empresa analisada => menor a probabilidade de efeitos contra a concorrência 29 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Observações: Poder de Mercado • associado à capacidade de empresa(s) restringir(em) a produção e aumentar(em) preços para, não atraindo novos competidores (contestabilidade do mercado), o obter(em) lucros acima do normal • poder de fixar preços significativa e persistentemente acima do nível competitivo (acima dos custos médios) • porém, o poder não se expressa apenas em preços • utilizado por facilidade e por ser consequência natural • parte das condutas anticompetitivas não ocorre via preços 30 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Observações: Análise Antitruste • coerente com o modelo estrutura-conduta- desempenho • quanto maior a concentração da oferta (estrutura) => maior probabilidade de atos anticompetitivos (conduta) => preços e lucros mais elevados (desempenhos) • poder de mercado seria função crescente da concentração • porém, a concentração é condição necessária, mas não suficiente, para o surgimento de poder de mercado 31 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Observações: Concentração • participação no mercado (market share): • medida aproximada para avaliar poder de mercado • possibilidade estrutural de existência de poder de mercado • razão de concentração de ordem k (geralmente, 4) 𝑪𝑹 𝒌 = 𝒔𝒊 𝒌 𝒊 • 𝑠𝑖: participação no mercado da empresa i • índice Herfindahl-Hirschman 𝑯𝑯 = 𝒔𝒊 𝟐𝑵 𝒊=𝟏 32 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Observações: Concentração • participação no mercado e indicadores de concentração, isoladamente, não significam muito • análise deve ser conjunta a outros fatores • condições de entrada: barreiras à entrada, capacidade inovativa ... • inovação: principal “antídoto” às barreiras à entrada e ao uso abusivo do poder de mercado • existência de competidores potenciais (mercados contestáveis) • dinâmica da concorrência 33 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Eficiência e Razoabilidade • condutas ou atos de concentração restritivos => podem resultar em eficiências compensatórias • análise caso a caso • importante: efeitos líquidos sobre a eficiência econômica • => Princípio da Razoabilidade • por outro lado, abordagem “per se”: • aplicada a práticas restritivas com efeitos líquidos sempre negativos, sem necessidade de avaliação34 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU 3. Padrões da Ação Antitruste 35 Aulas 3 e 4 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Análise Antitruste 1) identificação da existência de poder de mercado e das condições para seu exercício • em um mercado relevante previamente definido 2) avaliação dos efeitos anticoncorrenciais (efetivos ou potenciais) da conduta ou do ato de concentração sobre o mercado relevante 36 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Análise Antitruste 3) análise dos possíveis ganhos de eficiência ou outros benefícios gerados 4) ponderação entre efeitos anticompetitivos e ganhos de eficiência • se o primeiro prevalecer, a conduta deve ser considerada ilícita e punida 37 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Condutas Anticompetitivas • horizontais • reduzem a concorrência entre as empresas de um mesmo mercado com o objetivo de aumentar o poder de mercado • acordos entre concorrentes • p.e., cartéis e acordos de associações de profissionais • concorrência predatória entre eles • p.e., preços predatórios (deliberadamente abaixo do custo variável médio) 38 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Condutas Anticompetitivas •verticais • ocorrem no âmbito das relações entre empresas (compradoras e vendedoras ao longo da cadeia produtiva) • restrições praticadas por ofertantes de um mercado (de origem), com poder de mercado, sobre outro mercado (mercado alvo) relacionado verticalmente (a montante ou a jusante) 39 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Condutas Anticompetitivas • verticais: exemplos • fixação de preços de revenda • restrições territoriais e de base de clientes • acordos de exclusividade • recusa de venda/negociação (ou boicote) • venda casada • discriminação de preços 40 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Atos de Concentração • ganhos de eficiências • economias de escala e de escopo • economias de racionalização e de especialização • economias de utilização e de expansão de capacidade produtiva • sinergias e outras formas de interação entre ativos complementares • economias em P&D, tecnologia e eficiências dinâmicas • economias de custos de transação 41 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Atos de Concentração • situações típicas de atos com potenciais anticompetitivos 1) concorrentes (reais ou potenciais) se fundem para aproveitarem economias de escala, baixando custos • contudo, podem aumentar preços e lucros 42 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Atos de Concentração 2) concorrentes potenciais se unem para desenvolver novo produto ou eliminar investimentos duplicados em P&D, evitando os custos de uma “corrida para chegar primeiro” • pode retardar a introdução da inovação no mercado 43 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Atos de Concentração 3) concorrentes multiproduto combinam especializar-se, fornecendo um ao outro os insumos necessários e, assim, reduzindo custos e aumentando a especialização (equipamento e pessoal) • pode eliminar a concorrência em qualidade e preços 44 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Observação: Atos de Concentração • não é necessária mudança na estrutura societária ou transferência de propriedade ou administração compartilhada • assim, outros exemplos (“contratos”): • contratos de cooperação • contratos de distribuição • consórcios societários • redes de franquias 45 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Compromisso de Desempenho • pode ser exigido para que um ato de concentração seja aprovado • uma vez assinado, tal documento possibilita o monitoramento, pelas autoridades antitruste, do cumprimento das condições compensatórias que justificaram a aprovação • medidas de caráter comportamental, mas, principalmente, estrutural • alto custo de monitoramento e menor ingerência política 46 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU Bibliografia • CADE. Relatório de Gestão 2007. Brasília, 2008 • KUPFER, D.; HANSENCLEVER, L. Economia industrial: fundamentos teóricos e práticas no Brasil, 2013, cap. 22 • SALGADO, L. H. Agências reguladoras na experiência brasileira: um panorama do atual desenho institucional, 2003 47 C ar lo s Sa ia n i – M ic ro e co n o m ia – O rg an iz aç ão In d u st ri al – R I – U FU