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ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO
ab ord agen s
Sirio Possenti
Rosana Paulillo
Egon de Oliveira Rangel
J.A. Guilhon Albuquerque
Maria Tereza Aina Sadek
Bolívar Lamounier
Vera Chaia
Paulo-Edgar Resende
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida
(Organizadores)
edwe
ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO
a b o rd a g e n s
Esta obra foi publicada
com o apoio da
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA
DO ESTADO DE SÃO PAULO - FAPESP
(Processo 94/2950-3)
ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO
ab o rd a g e n s
EDUC - Editora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Reitor. Antonio Carlos Caruso Ronca
Vice-Reitor Acadêmico: Fernando José de
Almeida
Conselho Editorial: Ana Maria Rapassi,
Fernando José de Almeida (Presidente),
Bemardette A. Gatti, Lúcia Santaella, Sylvia
Helena Souza da Silva, Maria do Carmo
Guedes, Maura Pardini Bicudo Veras,
Onésimo de Oliveira Cardoso, Ricardo
Augusto de Miranda Cadaval, Scipione de
Pierro Neto, Teresa Celina de Arruda Alvim
Pinto.
Sirio Possenti
Rosana Paulillo
Egon de O liveira Rangel
J.A. Gu ilhon d e A lbuque rque
M aria Tereza A ina sadek
Bolívar Lam ounier
ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO:
a b o rd ag en s
São Paulo
1993
Catalogação na Fonte - Biblioteca Central/PUC-SP
Análise do discurso político: abordagens/orgs. Lúcio Flávio Rodrigues
de Almeida, Paulo Resende, Vera C haia.- São Paulo: EDUC, 1993.
110p.; 23 cm. - (Coleção Eventos)
ISBN 85-283-0060-9
I. Análise do discurso. I. Almeida, Lúcio Flávio Rodrigues de.
II. Resende, Paulo-Edgar Almeida. III. Chaia, Vera. IV. Série.
V. Título.
CDD 415
Série Eventos
Produção
F.veline BouteiUer Kavakama
Composição
F.laine Cristine Fernandes da Silva
Revisão
Berenice Haddad Aguerre
Capa
Luiz Orlando Caracciolo
EDUC - Editora da PUC-SP
Diretora
Maria do Carmo Guedes
Rua Monte Alegre, 984
05014-001 - São Paulo — SP
Fone: (011) 873-3359
Fax: (011) 62-4920
SUMÁRIO
7 APRESENTAÇÃO
11 ANÁLISE DO DISCURSO: UMA COMPLICAÇÃO
DO ÓBVIO?
Sirio Possenti
25 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE
DO DISCURSO REFERIDO
Rosana Paulillo
49 A ANÁLISE DE DISCURSO: ENTRE AS CONDIÇÕES
DE PRODUÇÃO E A SUPERFÍCIE DISCURSIVA
Egon de Oliveira Rangel
71 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
DA ANÁLISE DE DISCURSO
José Augusto Guilhon de Albuquerque
81 DISCURSO POLÍTICO: NOTAS PARA UM DEBATE
Maria Tereza Aina Sadek
93 NOVAS FORMAS DO DEBATE DEMOCRÁTICO
Bolívar Lamounier
APRESENTAÇÃO
O Departamento de Política da Faculdade de Ciências Sociais
da PUC-SP implantou, em 1989, o Núcleo de Memória Política Bra
sileira. A prioridade inicial do Núcleo foi contribuir, ao lado de ou
tras instituições de pesquisa, para o estudo ampliado do Poder Le
gislativo no Brasil, no nível do Congresso Nacional, das Assem
bléias Legislativas e das Câmaras Municipais.
Como primeira atividade do Núcleo, realizamos um ciclo de
conferências no qual foram debatidas questões referentes aos proce
dimentos metodológicos de análise de discurso e pesquisas que fize
ram uso dessas metodologias.
Ao organizarmos esse ciclo de conferências tivemos a preocu
pação de convidar especialistas nas áreas de Lingüística e Ciência
Política. Os textos desta coletânea expressam a importância da análi
se de discurso feita de modo interdisciplinar, visando a compreensão
do fenômeno social de maneira mais abrangente.
Em “Análise do Discurso: Uma Complicação do Óbvio?”, Sirio
Possenti procura eliminar, de forma segura e bem humorada, lugares
comuns que produzem a ilusão de uma extrema facilidade dos pro
blemas que se colocam para esta “disciplina”. A análise do discurso
não é um campo perfeitamente delimitado de cientifícidade, nem
possui a chave para a solução de todos os problemas que permane
cem insolúveis no interior do universo caótico das ciências humanas.
Ao contrário, insistindo em que se trata de um campo vago e
complexo, Possenti expõe alguns supostos consensuais, assim como
as distinções entre as principais vertentes que se constituem neste
elenco de procedimentos de análise, aos quais o autor, longe de
contemplar com um pleno estatuto de cientifícidade, prefere reservar
um “lugar de crítica” , similar, sob vários aspectos, aos que Foucault
atribui à psicanálise e à etnologia.
8 Apresentação
O artigo “Procedimentos de Análise do Discurso Referido” de
Rosana Paulillo se defronta com o discurso que inclui outro discur
so, isto é, todas as formas em que a citação se verifica. Não se trata
do discurso que representa uma realidade exterior, mas que reporta:
é a linguagem em relação à linguagem. Nos processos discursivos, a
fala dificilmente é ato de sujeito isolado, que nomeia o real, mas re
plica, fala a partir de outras falas, que se põe como complemento ou
contraste em relação a outras falas. A temática do discurso referido
se liga, portanto, ao campo do interdiscurso e da heterogeneidade do
sujeito enunciador, atravessado pela multiplicidade de vozes.
A autora apresenta, em primeiro lugar, como referência históri
ca do trabalho atual de análise do discurso referido, a teoria da
enunciação de Émile Benveniste e a teoria do dialogismo de Mikhail
Bakhtin. Em segundo lugar, a autora apresenta procedimentos de
análise de discurso nos quais se correlacionam formas de linguagem
e efeitos de sentido.
Ao longo das reflexões que desenvolve em seu “A Análise de
Discurso: Entre as Condições de Produção e a Superfície Discursi
va”, Egon Rangel revela a complexidade das teorizações acerca des
ses dois aspectos do discurso, bem como das relações entre eles. Pa
ra isso o autor se reporta ao exame que efetuou, em sua pesquisa, do
Diário Completo, de Lúcio Cardoso, e de um manual de sexologia.
Por outro lado, recorre a uma rica bibliografia teórica.
Quando Egon Rangel, após examinar dois níveis das condições
de produção do discurso (formação ideológica ou discursiva e con
texto imediato de enunciação), recorre ao conceito de “ordem dis
cursiva”, o resultado do cotejo daqueles materiais lingüísticos tão
díspares toma-se, ao mesmo tempo, surpreendente e elucidativo.
José Augusto Guilhon de Albuquerque, em “Pressupostos Teó
ricos e Metodológicos da Análise de Discurso”, situa a análise do
discurso na longa tradição de reflexão sobre o pensamento. Duas
questões fundamentais se apresentam: a dinâmica interna do pensa
mento e seus efeitos de conhecimento e convencimento.
A preocupação é com as representações do sujeito, com o que
ele diz, e não com o que ele quer dizer ou deveria dizer. O discurso
Apresentação 9
representa e não retrata a realidade. Descarta-se qualquer hierarquia
entre discursos para a verificação da verdade, ou sua interpretação.
Conseqüência técnica desta concepção é a identificação do sujeito
do discurso e de seu objeto. Ao ser eliminada a separação entre su
jeito e discurso, este passa a ser a representação da realidade pelo
sujeito.
O artigo “Discurso Político: Notas Para Um Debate” , de Maria
Tereza Aina Sadek, analisa os “... espaços ocupados pelo discurso
político e seus conseqüentes desdobramentos nas concepções sobre a
vida política” . A autora identifica três modelos que orientam e dão
significado aos discursos políticos: o modelo idealista-ateniense, o
ético-normativo e o realista. Após analisar esses modelos, conclui
que apesar de ter ocorrido alterações sócio-economicas e políticas, o
discurso dos anos 20 e 30 ainda é atual na sociedade brasileira con
temporânea.
Bolívar Lamounier, em “Novas Formas do Debate Democráti
co” , aponta a revalorização de estudos sobre o pensamento político
brasileiro, detectando três fases neste desenvolvimento: a construção
do Estado, a questão da industrialização e autonomia nacional, e a
terceira fase centrada na questão democrática.
Conforme o autor, a preocupaçãocom a democracia se encon
tra presente nas obras de Sérgio Buarque de Holanda e Victor Nunes
Leal, porém, somente nos meados dos anos 70 é que a questão de
mocrática aparecerá como um ‘arcabouço político-institucional’, ten
do em vista consolidar a democracia no Brasil. Lembra, no entanto,
que permanece a tensão entre os conceitos institucional e substanti
vo da democracia e na sua avaliação a história dessa tensão deve ser
analisada pela área do discurso político.
A utilização pelos articulistas de instrumental teórico e meto
dológico adequado para análise de discurso, com ênfase na interdis-
ciplinaridade, é contribuição valiosa para a compreensão da dinâmi
ca de momentos políticos específicos da sociedade brasileira.
Os organizadores.
ANÁLISE DO DISCURSO: UMA COMPLICAÇÃO DO ÓBVIO?1
SIRIO POSSENTI
IE L -U N IC A M P
Há dois grupos aos quais não é fácil tentar dizer o que seja
análise do discurso, em pouco tempo. Um é o dos lingüistas, porque
em princípio são eles que detêm as melhores e mais consistentes ex
plicações de fenômenos da linguagem, e a análise do discurso lhes
soa como, no mínimo, uma invasão de terreno. Mais do que isso, ela
lhes aparece como reintroduzindo questões pertinentes, algumas das
que mais claramente foram excluídas desta disciplina pelos seus mo
dernos fundadores. Neste sentido, a análise do discurso parece um
pouco uma nova filologia ou uma nova retórica, a depender da sa
liência menor ou maior de certas questões em análise. É preciso que
o analista do discurso se municie de bons argumentos e arranje uma
boa estratégia (e às vezes refinadas táticas) para que consiga não
criar um rival ou não ouça, em troca de sua laboriosa argumentação,
alguma grosseira resposta do tipo “isto confunde campos” , “isto
não tem objetividade” , “isto é sociologia” , “isto não corre o risco de
ser uma semi-lingüística e uma semi-história?” , etc. É necessário di
zer, a bem da verdade, que, se os lingüistas não têm razão, não dei
xam de ter algumas razões para comentários do gênero. E isto pode
depender menos do profeta da nova disciplina do que das condições
mesmas desta disciplina, isto é, de algumas de suas características.
1. Texto elaborado a partir de anotações utilizadas para uma conferência em
que se solicitava que o autor “explicasse” para “ leigos” o que é a análise
do discurso. O autor não tem certeza de ter cumprido a missão que acei
tou, se bem que acredita mais no que disse então do que nisso que poste
riormente escreveu.
12 Sirio Possenti
Um outro grupo a quem não é fácil expor os fundamentos e as
principais linhas da análise do discurso é o que aqui está representa
do por vocês: os cientistas políticos ou, mais genericamente, os
cientistas sociais. Por várias razões, a principal das quais é que, de
feto, alguns dos trabalhos da análise do discurso se confundem e se
fundem com o das ciências sociais. Se for verdade o que diz Robin,
uma das razões pelas quais a análise do discurso surgiu e se firmou
relativamente foi a solicitação de historiadores (e logo de outros
cientistas sociais) para ajudá-los a responder perguntas do tipo “co
mo ler e entender textos?”, para as quais eles imaginavam que a lin
güística poderia ter respostas. Campos como a lingüística e outros
das ciências sociais se aproximaram, acabaram contribuindo com
partes relevantes e acopláveis e formaram, de certa forma, este que é
para alguns um novo campo e para outros uma junção adequada e
fértil de campos de trabalho já sedimentados, com objetos e métodos
específicos. Explicar o que é análise do discurso para cientistas po
líticos é de certa forma difícil porque, se se enfatizar o lado lingüís
tico, pode-se dar a entender que as utilizações imediatas podem ser
de pouca monta. Se se enfatizar o lado social, histórico, ideológico,
etc. da análise do discurso, corre-se o risco de querer ensinar o pa
dre-nosso ao vigário.
Algumas caracterizações fáceis da análise do discurso merecem
ser afastadas de imediato, sob pena de se obscurecer ainda mais o
campo. Em primeiro lugar, uma certa fé, encontrável em alguns cír
culos e numa certa bibliografia, segundo a qual se descobriu enfim
um lugar de efetiva solução dos verdadeiros problemas. Este lugar
seria a análise do discurso. Assiste-se por vezes a arroubos de cará
ter religioso em relação ao novo campo, que teria dogmas e santos
intocáveis. Característica das novas disciplinas, certamente, porque
não conseguiram ainda unanimidade em relação a seu direito de
existência. E dos novos adeptos, que repetem slogans com a certeza
que só uma certa ignorância pode garantir. Penso que a análise do
discurso não ganha muito com este tipo fácil de reconhecimento,
podendo fazer melhor seu papel se permanecer como uma espécie de
lugar de crítica, como os ocupados, segundo Michel Foucault, pela
Análise do discurso:. 13
psicanálise e pela etnologia, com as quais partilha, aliás, pelo menos
em algumas versões, de certas características.
A segunda caracterização fácil e superficial que não merece
atenção séria é a que despreza contribuições próprias dos campos
envolvidos, sejam elas as oriundas da lingüística ou as de outras dis
ciplinas. O mais comum é que se valorize mais a contribuição de um
dos campos apenas, o que pode levar a perdas na análise. O bom
senso parece indicar que as várias disciplinas envolvidas têm contri
buições relevantes, e o destaque maior ou menor de cada uma delas
depende muito mais dos objetivos da análise (e da competência es
pecífica do analista) do que propriamente do objeto a ser analisado.
Por outro lado, a análise do discurso exerce um fascínio sobre
todo o estudioso que se interessa pelo campo, muito mais facilmente,
por exemplo, que a história, a sociologia ou a lingüística. Se o inte
ressado não for muito cuidadoso, poderá surpreender-se em pouco
tempo a ejacular uma certa terminologia da moda diante de qualquer
situação excitante, seja ela uma oportunidade de passar por pratica
mente de um tipo de conhecimento engajado, seja pela facilidade,
que a nova disciplina parece superficialmente propiciar, de poder
falar simultaneamente e com autoridade de mais de um campo de
conhecimento. É relativamente comum em iniciantes na arte falarem
como profundos conhecedores de temas psicanalíticos, históricos,
filosóficos, com a voracidade e simplificação dos ledores de orelhas.
Uma atitude recomendável e saudável neste domínio é uma boa
dose de ceticismo. Afinal, se nunca houve campo fácil de conheci
mento e se os problemas são complexos em cada domínio, por que
se haveria de esperar o contrário de um tipo de abordagem à primei
ra vista mais complexo, visto que opera simultaneamente em mais de
um campo e sem abandonar a priori nenhum dos problemas rele
vantes de cada um deles? Se o milagre é muito grande, o santo a ser
invocado é São Tomé.
Uma das formas de se evitar uma certa euforia ingênua é mos
trar o quanto o campo é vago e complexo, o quanto cada discurso
sobre a análise do discurso pode ser diferente de outro. De certa
maneira, dizèr isto aqui significa dizer-lhes que talvez não devam
14 Sirio Hossenti
esperar tanto da análise do discurso para solucionar os problemas
que vão encontrar na realização de seu projeto.
A melhor maneira de mostrar que o campo da análise do dis
curso é vago e confuso é analisar, ainda que intuitivamente, a pró
pria expressão “análise do discurso”. Para isso é preciso dizer, antes
de mais nada, que ler um texto, qualquer que seja sua dimensão, é
mais do que decodificar, e que, portanto, uma língua não pode ser
Concebida como um código. Suponhamos que a expressão “análise
do discurso” ocorra numa expressão mais complexa do tipo “a aná
lise do discurso amplia os horizontes da lingüística”. O sintagma
“análise do discurso”, para aparecer nesta posição da frase,deve
obedecer a algumas condições. Há as propriamente gramaticais, que
não vou mencionar, mas cuja existência não pode ser esquecida. Das
não estritamente gramaticais, é relevante mencionar pelo menos
duas. É preciso que o locutor aceite que a análise do discurso existe,
da mesma forma que se aceita ou pressupõe a existência de alguém
chamado “Joaquim” quando se diz algo como “Joaquim morreu na
torca” . Isto é, utilizar a expressão “análise do discurso” efetiva
mente numa situação real significa, entre outras coisas, admitir que
existe alguma coisa que este nome denota. Como “análise do discur
so” é uma expressão complexa, não um mero nome, ela mesma tem
uma análise interna que pode ser assim sumariada: se existe “análise
do discurso” , existência pressuposta pela enunciação da expressão,
então também se pressupõe a existência de um objeto chamado “dis
curso”. Se há a análise de um objeto, este mesmo objeto suposta
mente existe. Esta expressão se toma óbvia do ponto de vista das
relações semânticas internas, isto é, pode ser perfeitamente analisada
segundo regras de composição não ad hoc - a paráfrase com “anali-
sar discursos” deixa mais evidente do ponto de vista sintálico-se-
mântico a relação entre “analisar” e “discurso” . Não é nada óbvia,
no entanto, de um outro ponto de vista, que pode ser chamado, em
bora talvez isso crie uma certa confusão momentânea, de discursivo.
Em outras palavras, a expressão pode ser evidente de um ponto de
vista sintático-semântico, isto é, lingüístico, mas não do ponto de
vista discursivo. O que pode significar “discursivo” neste contexto?
Análise do discurso:. 15
Creio que existem dois postulados básicos na análise do dis
curso, que qualquer das teorias em confronto no interior da área
aceitaria sem maiores problemas. O primeiro diz respeito à relevân
cia da enunciação, o que implica uma recusa em analisar qualquer
evento lingüístico como sendo apenas um evento de ordem gramati
cal - ou pelo menos em admitir que uma análise de ordem gramatical
esgote todos os aspectos de tal evento. É que o fato de ocorrer numa
ou noutra circunstância pode ser determinante para sua análise. O
segundo postulado é que as palavras (embora não só este tipo de
elemento lingüístico, mas também outros, como as frases) têm seu
sentido determinado - ou no mínimo fortemente condicionado -jx>r
fatores extralingüísticos, que podem ser de vários tipos, desde os
ideológicos, históricos, doutrinários, até os mais banalmente con-
textuais. Por exemplo, a palavra “massa” pode designar uma coisa
completamente diferente no discurso político e no discurso culinário.
“A massa não está preparada” pode ser um enunciado de interpreta
ção completamente distinta, portanto, se dito por um militante políti
co que lamenta que certas ações tenham que ser adiadas ou por um
cozinheiro que pede paciência aos comensais, isto é, em circunstân
cias em que são outras as ações que devem ser adiadas. Atente-se
para o quanto isto é aparentemente óbvio.
Ora, se as palavras só têm sentido no jnterior de certas fonna-
ções, no interior de certos quadros, de certos esquemas, nada mais
razoável do que esperar que a palavra “discurso” esteja submetida
às mesmas leis. Isso quer dizer que o sentido da palavra “discurso”
pode mudar completamente ou pelo menos, significativamente, con
forme se trate de uma ou de outra teoria. Há provavelmente ele
mentos que unem os diversos tipos de análise do discurso, mas há
seguramente coisas que os separam.
Será certamente uma afirmação fácil de sustentar entre analis
tas do discurso a de que a palavra “discurso” pode mudar de senti
do. Eque, portanto, dizer que o objeto da análise do discurso é o
discurso, para um analista do discurso, significa, de certa forma,
produzir um enunciado incompatível com o discurso da análise do
discurso. Por que? Porque dizer que o objeto da análise do discurso
16 Sirio Possetiti
é o discurso é admitir, contraditoriamente, que uma análise sintático-
semântica desta expressão é suficiente, sendo desnecessário levar em
conta o quadro (ou contexto, ou discurso) em que tal enunciação se
dá. Ora, a afirmação de que uma análise lingüística, em sentido es
trito, é insificiente, é um dos pilares fundamentais da análise do dis
curso. Se Pêcheux ouvisse aquela afirmação, certamente a acres
centaria às obviedades de La Palice e, se a ouvisse da boca de um
analista do discurso, faria isso com um certo ar de desânimo, imagino.
Resumindo: afirm ar que “a análise do discurso amplia os hori
zontes da lingüística” significa produzir um enunciado que contém
relativamente numerosas palavras cujo sentido não é evidente. Mas
que pode tomar-se claro, inteligível, acoplando-se uma análise lin
güística a considerações de outra ordem, como, por exemplo, as se
guintes: a tomada em consideração em comum, por parte dos interlo
cutores, de um certo conjunto de textos nos quais palavras como
“análise”, “discurso” e “lingüística”, termos mais marcados do ponto
de vista teórico ou doutrinário, tenham seu sentido relativamente
uniformizado por uma certa prática. Em_suma, tomada em considera-
ção de um certo discurso onde tais palavras têm um sentido conheci
do. Além disso, é necessário também uma partilha de conhecimentos
ou de posições que confiram sentido à expressão “ampliarmos hori
zontes” que, dentre outras coisas, dá a entender que os horizontes
da lingüística antes da análise do discurso eram estreitosje. que am-
pliá-los é uma coisa que não se lamenta. Ao contrário, é desejável.
Alguns dos elementos necessârios para a interpretação-acima
mencionada têm a ver apenas com o universo de discurso específico
ena que se fala, no caso, sobre análise do discurso e lingüística. Ou
tros têm a ver com procedimentos enunciativos mais gerais, inde
pendentes do tipo de discurso a que se adere (dizer alguma coisa
significa ter com o que se diz um certo compromisso ou criar um
certo quadro a partir do qual o comportamento que se segue é alte
rado, etc.). E outros, ainda, decorrem de uma análise lingüística,
gramatical, do enunciado dito.
Para exemplificar com outro material este tipo de complexida
de e a relevância de cada elemento de um evento discursivo, consi
Análise do discurso:. 17
dere-se o seguinte texto. Trata-se de uma tira de L.F. Veríssimo, pu
blicada em jornal no dia 22 de outubro de 1989 (estes dados têm re
levância relativa) em que seus personagens (as cobras) mantêm o se
guinte diálogo:
- Então você acha que há uma luz no fim do túnel, Cândida?
- Que túnel?
- Assim não dd pra conversar...
Este pequeno texto exibe claramente uma das características do
funcionamento da linguagem num diálogo real entre falantes: a ne
cessidade da aceitação de um certo quadro para que o diálogo
“prospere” e os problemas que aparecem para os interlocutores
quando um delesnSo aceita.o quadro. Neste exemplo, o pressuposto
que a primeira cobra tenta impor a sua interlocutora é o da existên
cia de um túnel, que, por não ser tematizada explicitamente, mas
pressuposta - ou implicada - pela enunciação da palavra “túnel” ,
coloca o seguinte dilema: ou você aceita as condições que decorrem
do que eu digo (que um certo túnel que nós sabemos qual é existe),
ou não é possível conversar. Este diálogo serve também para apontar
que o quadro pressuposto pode ter duas características: ser apenas
implicado pela enunciação, ou ser, além disso, marcado ideologica
mente, de maneira que aceitar a existência de um certo objeto pode
significar aceitar atribuir a ele um conjunto de predicadosaue fazem
dele um objeto marcado de um certo ponto de vista. Enfim, pode
significar aderir a um certo discurso. É fácil perceber que este tipo
de análise é completamente diverso de uma análise gramatical. Por
outro lado, o que ela diz é óbvio, no sentido de que todos osfalantes
atuam, segundo regras desse tipo, o que significa que.as conhecem.
Á análise do discurso se constitui-em grande parte da explicitação de
tais regras e da tentativa de fazer delas um corpo teórico çomxarac-
terístiças sintáticas e semânticas desejáveis para os enunciados de
uma teoria.
Se o exemplo analisado fosse um texto político em sentido es
trito, vocês talvez percebessem mais claramente que há um conjunto
de elementos implicados na análise que concernem diretamente a
18 Sirio Possenti
este campo do saber, e não à lingüística. Suponham que se tratasse
de analisar uma passagem como “As vantagens da democracia
são...”. Mesmo como está, um texto pela metade, fica evidente que
ele implica em aceitar-se que ‘há vantagens na democracia’. Se isto
não é óbvio para falantes conhecedores de um certo campo do saber,
a ciência política, então o que seria um exemplo de obviedade? Pode
parecer ridículo, mas fatos como estes são um problema para teorias
lingüísticas que se ocupam da relação entre sons e sentidos, por
que alguma coisa está sendo dita sem que, de certa forma, esteja
sendo dita.
***
Já que se disse acima que para se saber Q que significa a ex
pressão “análise do discurso” é necessário ultrapassar as análises
sintático-semânticas. E hora de esclarecer um pouco mais como isso
pode ser feito. O que farei nesta seção é falar rapidamente dos dois
principais sentidos da palavra “discurso” , na expressão que vem
sendo analisada. A conseqüência será, espero, que fiquem claros os
critérios de interpretação da expressão.
Para exemplificar claramente a questão, tomarei um episódio
que se repetiu comigo mais de uma vez. Quando dizia a alguém que
estava fazendo minha tese em análise do discurso, imediatamente
ouvia a seguinte pergunta: - Qual? E ficava claro que nunca houve
interesse em saber de que tipo de análise se tratava, mas sim de que
tipo de discurso, ou de qual discurso se tratava. A partir deste
exemplo fica clara a primeira e a mais intuitiva das duas noções de
discurso que quero comentar rapidamente.
Neste primeiro sentido, “discurso” significa algo como um
conjunto de enunciados, sendo que, na expressão, a palavra “con
junto” tem importância óbvia. É neste sentido que a palavra “dis
curso” vai bem em expressões como “o discurso dele é conserva
dor”, “o candidato é outro mas o discurso é o mesmo”, ou, mais
simplesmente, em expressões como “discurso religioso” , “discurso
político”, “discurso sindical”, etc. Ao dizer que esta noção de dis
curso é mais intuitiva não quero dizer que seja fácil defíní-la de ma
Análise do discurso:... 19
neira clara. Quero dizer apenas que este sentido da palavra é mais
conhecido, pelo menos para um certo tipo de falante, em geral com
formação acadêmica razoável.
Dos grandes nomes que utilizam a palavra mais ou menos neste
sentido, vale a pena mencionar Foucault, não apenas porque uma
grande parte dos trabalhos do campo deve a ele mais do que em ge
ral se pensa, mas também pelo fato de ele ter dado conta de uma ca
racterística fundamental do objeto que ele assim nomeou, e que tan
tos outros assim nomeiam, não necessariamente com a mesma argú
cia. A característica a que quero me referir é a da dispersão, e por
uma razão muito simples; quando o termo “discurso” é utilizado no
sentido que neste momento se tematiza, é comum que conote um
conjunto de enunciados que formam uma unidade e que se opõem a
outro conjunto que forma outra unidade.
Assim, por exemplo, o discurso médico pode aparecer como
sendo uniforme e oposto, diferenciado do discurso religioso, diga
mos. A noção de dispersão, entre outras coisas, é capaz de fazer
perceber que a relação entre os enunciados de um discurso pode se
dar por mecanismos muito diversps, isto é, que eles não constituem
uma.unidade, no sentido mais trivial desta palavra. Um discurso
é composto por enunciados de natureza um tanto diversa. Em
Foucault, talvez o exemplo mais claro seja o que ele chama de dis
curso médico, que é composto de enunciados discritivos de corpos e
sintomas, evidentemente, mas também de “observações tomadas
mediatas por instrumentos, protocolos de experiências de laborató
rios, cálculos estatísticos, constatações epidemiológicas ou demográ
ficas, regulamentações institucionais, prescrições terapêuticas”.
Aquilo que se poderia chamar de discurso nacionalista é com
posto, sem dúvida, por um conjunto de enunciados relativos às van
tagens ou desvantagens de se permitir o ingresso do capital estran
geiro, por exemplo, mas sem dúvida uma análise mais cuidadosa vai
demonstrar que há disposições legais que se relacionam de uma ma
neira determinada com os enunciados mais ideológicos e retóricos e
20 Sirio Possenti
que se destinam a implementar ou a impedir que tais enunciados
passem a ter vigência efetiva e produzam determinados frutos.2
A noção de dispersão é importante porque se, por um lado fa
lar de “discurso” significa de certa maneira falar de uma certa uni
dade, pesquisas de corpora de enunciados revelarão, por outro, que
os discursos são compostos menos regularmente do que parece indi
car a intuição. De qualquer modo, uma das características da pesqui
sa que leve em conta esta noção de discurso será sempre uma pes
quisa que tomará em conta um corpus extenso e em geral produzido
durante um espaço de tempo relativamente longo.
Tenho a sensação de que, sem querer dar a ninguém nenhum
conselho, no Brasil seria ainda muito importante que se fizessem
pesquisas neste filão, tentando descobrir, por exemplo, como certos
discursos permanecem, como certos enunciados não deixam de rea
parecer continuamente, nas mais diversas circunstâncias. Diria que,
mais do que uma noção enunciativa de discurso, que interessa mais
ao lingüista que pesquisa o sentido dos enunciados produzidos mais
ou menos “ao vivo” por e para interlocutores em situações banais, a
noção mais interessante para cientistas sociais é esta primeira.
Uma segunda noção de discurso é relevante e deve ser men
cionada numa situação como esta. Ela tem a. ver fundamentalmente
com uma forma de encarar o evento lingüístico. Pode ser caracteri
zada fundamentalmente por dois traços: a relevância da enunciação e
o papel do falante, ou melhor, a atitude do falante em relação a seu
próprio texto ou, mais geralmente, a seu próprio enunciado. A con
cepção que considera a enunciação um fator relevante leva em conta
vários fatores, dentre os quais merecem ser mencionados como mais
relevantes os seguintes. Falar não é agenciar apenas conhecimentos
lingüísticos, isto é, gramaticais, mas todo um conjunto de regulações
que fazem da linguagem uma forma de relação entre os membros da
sociedade, que lhes impõe restrições e lhes cobra compromissos e
2. Alusão a um exemplo fornecido por um dos participantes, a quem dou o
devido crédito, embora sem lembrar-me do nome.
Análise do discurso:., 21
conseqüências. Da mesma maneira, entender um enunciado ou uma
série deles não é apenas decodificar um conjunto de signos, mas re
lacionar o que significa o enunciado dito com um contexto específi
co e tirar daí conseqüências tanto em relação ao sentido do enun
ciado poferido quanto em relação ao falante que se responsabiliza
por sua enunciação.
Neste campo, os atos de fala são o melhor exemplo. Prometer é
assumir um compromisso, perguntar é colocar o ouvinte em situação
diversa daquela em que estava e obrigá-lo a responder, etc. Correla-
tivamente, entender que o que foi dito é uma promessa, é também
poder exigir que seu autor a cumpra. Ser alvo de uma pergunta é
obrigar-se a responder, etc. Assim, a língua é uma forma de ação
sobre o outro e de comprometimento. Esta vertente enfoca com certo
privilégio o lugar e papel do falante individual nesta ação lingüísti
ca, daí porque é acusada de estar comprometidacom uma certa visão
do sujeito segundo a qual, ele exerceria um controle sobre o sentido
de seu discurso e escaparia, assim, às injunções da história. É possí
vel que haja razões para esta crítica, mas parece que é mais adequa
do criticar o tipo de concepção de sociedade que daí decone ou que
é suposta. Os atos dos indivíduos aparecem sempre descritos como
submetidos a regras. O que parece mais adequado é dizer que as re
gras é que são um pouco diferentes ou têm outro alcance.
Uma outra característica desta concepção é a tentativa de for
mular um conjunto de regras para a interpretação não literal dos
enunciados, seja quando a interpretação é diversa da literal, seja
quando a ultrapassa. Noções como pressuposição, inferência, implí
cito, implicatura e outras do gênero, povoam os escritos dos autores
que se dedicam a esta forma de abordagem dos fenômenos da lin
guagem. Uma terceira característica é a consideração explícita dos
interlocutores e a delimitação de seu papel na interação lingüística.
De alguma maneira, isso eqüivale a admitir que a mesma coisa dita
por falantes diferentes pode não ter os mesmos efeitos, os mesmos
sentidos. (O que é, na verdade, um luear de encontro jdas.duaa.coD-
cepções de discurso que estão aqui sendo expostas,, porque na pri-
meira fica claro que um sujeito só pode dizer o que lhe permite sua
22 Sirio Possenti
doutrina ou_sua ideologia ou a teoria que adota e que aquilo que diz
será interpretado no interior de um certo quadro. Seu discurso é re
grado de fora. Aqui se verifica a mesma coisa. As regras que o su
jeito precisa conhecer e cumprir não são apenas as regras lingüísti
cas). Representantes típicos desta vertente assim sumariada são
Benveniste e Ducrot, somados a alguns filósofos que se ocuparam
de tentar encontrar regras que explicassem certos fenômenos da lin
guagem ordinária, como Grice, Austin, Searle (os nomes vão aqui
sem preocupação de ordená-los segundo qualquer critério e mesmo
numa uniformização que é certamente grosseira. O objetivo é mais
situar uma problemática que lhes está associada). Como é fácil veri
ficar, a questão aqui não é se há um ou mais enunciados, se eles se
relacionam de uma forma ou de outra, mas apenas se eles são efeti
vamente ditos ou não, e o que significa efetivamente, dado que são
ditos nas circunstâncias tais e não em tais outras.
Talvez se pudesse dizer, em resumo, que a questão do discurso
é esclarecer o que os enunciados efetivamente produzidos significam
ou significaram, dado que foram produzidos a partir de um determi
nado lugar social e estão correlacionados a determinados outros
enunciados. Considerados estes fatores, percebe-se que não é possí-
vef fazer deles uma análise meramente lingüística. A problemática
que se instaura passa a ser, como uma das conseqüências, a necessi
dade de revisar algumas noções pertencentes ao corpo das teorias
lingüísticas, e reformulá-las consistentemente, para que possam fazer
parte de um corpo teórico que dê conta dos enunciados, considerada
sua realidade lingüística e, simultaneamente, sua realidade histórica.
***
Uma última seção, breve. Só para dizer em poucas linhas e de
lorma um pouco mais clara, quais são os problemas da análise do
discurso. E sem sequer assinalar qualquer resposta. Parece que se
pode resumir as questões às quais a análise do discurso tenta res
ponder às seguintes:
Análise do discurso:. 23
\ a) quem fala?
J b) a quem é dirigida a fala?
• c) o que significa o que foi dito?
Parecem questões banais, de respostas óbvias. Mas elas ime
diatamente deixam de parecer assim quando se começa pensar
que alguém pode estar dizendo o que já foi dito muitas vezes; quan
do se pensa no que descobriu Freud sobre os atos falhos; quando se
pensa nas doutrinas às quais os falantes aderem e cujos enunciados
repetem intermitentemente (e pior, às vezes de formas superficial
mente diferentes, o que obriga o analista do discurso a pedir socorro
à lingüística para determinar o que é que pode ser tomado como
igual e obriga o lingüista a pedir socorro ao, digamos, historiador, e
cada um achando que o outro tem a solução); quando se pensa no
quanto enunciados historicamente datados passam por verdades ex
ternas; quando se pensa no duplo ou múltiplo sentido das palavras;
quando se pensa nos sentidos inesperados e indesejados que se ex
traem do que se diz segundo as “melhores intenções” ; quando se
pensa em quantas vezes diz-se uma coisa num lugar só porque se sa
berá em outro lugar que ela foi dita (e era isso mesmo que era dese
jado, mas não havendo garantia de que os resultados serão os proje
tados), etc. Distinções e conceitos como locutor e enunciador, elo-
cutário e destinatário, sujeito e autor, universo de discurso e con
texto, leis de discurso e condições de produção, sujeito do enuncia
do e sujeito da enunciação, intenção e inconsciente, ideologia, dou
trina e formação discursiva, discurso e texto e outros menos votados
estão sendo escoimados de sentidos indesejados e polidos e renova
dos para servirem como termos de uma metalinguagem destinada a
lançar um pouco de luz sobre a complexidade e variedade dos
eventos lingüísticos.
Tentar dizer quemfala é mexer fundo na questão do sujeito, é
enredar-se numa questão que é ideologicamente muito marcada.
Tentar dizer a quem se fala é de certa maneira ainda pensar a mesma
questão, mas com o agravante de que, pelo menos nas civilizações
em que a escrita funciona correntemente, qualquer tentativa de con
trole da ação do leitor sobre um texto só pode ser feita através do
24 Sirio Possenti
próprio texto, mas que é vazado numa linguagem que não é código e
portanto não oierece nenhuma garantia de transparência e exatidão.
Tentar dizer o que um texto significa é querer responder enfim à
questão fundamental sobre a natureza da linguagem. A resposta não
tem nada de óbvio, uma vez que a variedade dos fatores que atuam
sobre a linguagem ou co-atuam com ela é tão grande que mal se po
de sonhar em dar conta de um deles.
PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DO DISCURSO REFERIDO
ROSANA PAULILLO
Depto. de Lingüística - PUC-SP
De maneira imediata, a expressão discurso referido ou discur
so reportado designa, no campo da análise do discurso e das teorias
da enunciação, o fenômeno em que o discurso inclui outro discurso.
Em suma, todas as formas em que o fenômeno da citação pode se
dar. Vê-se que no campo do discurso referido ocorre uma espécie de
deslocamento em relação àquilo que parece ser a função dominante
da linguagem, ou seja, aquela em que a linguagem se põe numa rela
ção de representação com algo que lhe é exterior as coisas, os fatos,
os acontecimentos, o mundo, enfim. No campo do discurso referido,
temos a linguagem sendo mobilizada para reportar não o mundo, na
sua imaginária exterioridade em relação à linguagem, mas a própria
linguagem.
Contrariamente ao que, à primeira vista, possa parecer, o fe-
nômeno do discurso referido não é nem esporádico, nem marginal
nos processos discursivos, seja nas manifestações que podemos re
meter a uma tipologia padronizada (discurso científico, político,
etc.), seja na discursividade cotidiana. O fenômeno do discurso refe
rido recobre, numa extensão e intensidade notáveis, a discursividade
humana, e ésse fãtò aponta para a realidade de que a fala é essen
cialmente não um ato de um sujeito isolado que nomeia o real, mas,
réplica, fala a partir de outras falas, fala que se põe como comple
mento oUjContraste em relação a outras falas. Nesse sentido, a temá
tica do discurso referido se liga diretamente ao campo do interdis-
curso e da heterogeneidade do sujeito enunciador, ao sujeito de
26 Rosana 1‘aulillo
linguagem como um ser não-uno, não-homogêneo, mas atravessado
e suportado por uma multiplicidade de vozes.
Nestejirtigo, apresentarei, emprimeiro lugar, o que se pode
chamar de fontes históricas, no campo da Lingüística, dos trabalhos
em tomo do discurso referido, ou seja, aTeoria da Enunciação de
Émile Benveniste, de um lado, e a Teoria do Dialogismo de Mikhail
Bakhtin, de outro. Trata-se de duas fontes de investigação que, em
bora tenham se desenvolvido independentemente, chegaram a uma
abordagem bastante aproximada e constituem ambas os pontos de re
ferência a partir dos quais se desenvolveram os trabalhos atuais no
campo da análise do discurso referido.
Em segundo lugar, apresentarei de maneira sucinta alguns pro
cedimentos de análise do discurso referido. Na esteira das fontes
anteriormente mencionadas, alguns trabalhos se desenvolveram1 no
sentido de analisar algumas correlações razoavelmente sistemáticas
entre certas formas de linguagem e certos efeitos de sentido. Neste
momento, portanto, estaremos às voltas com os procedimentos meto
dológicos da análise do discurso referido (daqui em diante, DR).
Finalmente, mencionarei algumas linhas de reflexão mais re
centes, no campo da Lingüística, que a meu ver são tributárias da
temática do DR, no sentido de que o aprofundamento dos estudos
sobre o DR permitiu perceber que certos fenômenos que, no DR,
aparecem de maneira explícita e exemplar, na verdade permeiam a
linguagem como um todo. Trata-se aqui das temáticas da polifonia e
da heterogeneidade da enunciação.2
I. O Discurso Reportado na Teoria da Enunciação
Como se sabe, a Teoria da Enunciação de Benveniste se sus
tenta na distinção entre enunciado e enunciação. Enquanto o enun
ciado - o segmento de linguagem realizado - se põe como o produto
1. Maingueneau (1981); Authier (1978).
2. Authier (1982); Ducrot (1984); Maingueneau (1987).
Procedimentos de análise... 27
do ato de fala, a enunciação constitui o ato mesmo, o processo que
ensejou a produção do enunciado. Todo o edifício da teoria da
enunciação se sustenta nessa distinção e no pressuposto, que toma
tal distinção necessária, de que no limite um enunciado é ininteligí
vel se dissociado do ato de enunciação em que se produziu.
Para Benveniste, a língua, enquanto conjunto de unidades, é
um aparelho formal. É o ato de enunciação que põe a língua em
funcionamento. Nesse ato ocorre um processo de apropriação das
formas da língua por parte do sujeito enunciador. Não se trata, por
tanto, simplesmente de um “comportamento” , de uma ação de utili
zação da língua pelo sujeito, mas de uma realização ativa, marcada
pela singularidade do próprio sujeito e da situação em que a enun
ciação se realiza. Nesse sentido, a enunciação é sempre situada, sin
gular, histórica, portanto, é isso que faz dela um acontecimento.
No ato de enunciação, q falante, ao se apropriar do aparelho
formal da língua, produz simultaneamente três fenômenos construti
vos da enunciação enquanto ato. Em primeiro lugar, o falante se
constitui como sujeito, como o ego que enuncia3; em segundo lugar,
constitui o outro diante de si, como o seu outro, seu interlocutor - e
nesse sentido a enunciação é o processo que institui a interação na
linguagem; e, finalmente, constitui a referência, o objeto do mundo
erigido à condição de objeto de discurso, pois a condição de exis
tência dos objetos no discurso é diferente de sua condição de exis
tência enquanto objetos do mundo (em termos empíricos ou ontoló-
gicos): no discurso, o objeto se constitui como uma construção de
linguagem e é significado em função dos processos lingüísticos que
entraram em jogo na sua designação.
3. Benveniste aponta mesmo que a auto-imagem de individualidade é consti
tuída na linguagem: “É na linguagem e pela linguagem que o homem se
constitui como sujeito; porque só a linguagem fundamenta na realidade, na
sua realidade que é a do ser, o conceito de “ego” . (...) Ora, essa “subjetivi
dade” , quer a apresentemos em fenomenologia ou em psicologia (...) não é
mais que a emergência no ser de uma propriedade fundamental da lingua
gem. Ê “ego” que diz ego”. (1958:286)
28 Rosana Paulillo
Desse modo, diz Benveniste, a enunciação implica sempre a
presença do sujeito no interior de seu próprio discurso4. Esse cen-
tramento do discurso em relação a seu sujeito resulta do fato de que
todo discurso (enquanto enunciado(s) produzido(s)) traz inscrita nele
mesmo a marca da singularidade do ato de enunciação em que se
produziu.
Mas, como conciliar a singularidade do discurso com a gene
ralidade das unidades da língua se, afinal, é da matéria destas últi
mas que o discurso se tece? É nesse ponto que se explica a afirma
ção de Benveniste de que a língua é um aparelho formal mobilizado
ativamente pelo sujeito na enunciação. As unidades da língua em si
mesmas são pura possibilidade; são virtuais, genéricas, vagas, pon
tos em aberto que podem se atualizar em diferentes direções de sen
tido (daí a polissemia potencial do signo lingüístico). É a enunciação
que insufla as formas lingüísticas de um sentido afetivo, singular.
A semantização, portanto, ocorre na enunciação.5
Na construção da teoria da enunciação, Benveniste partiu da
análise de certos elementos lingüísticos que, se considerados inde
pendentemente da instância de enunciação, seriam desprovidos de
sentido. Trata- se dos dêiticos, elementos que marcam os sujeitos do
processo enunciativo e as circunstâncias de tempo e espaço que an
coram no real a enunciação (eu, você, nós, já, aqui, depois, etc.).
Na perspectiva aberta pela análise das marcas de pessoa e de osten-
ção (tempo e espaço), Benveniste avança para a análise do sistema
de temporalidade da língua, isto é, daquela parte das formas verbais
que expressam as noções de tempo. Esta análise, a meu ver a mais
interessante, é a viga mestra que sustenta o conceito de planos de
enunciação.6
4. “O ato individual de apropriação da língua introduz aquele que fala na sua
fala (...) A presença do locutor na sua enunciação faz com que cada instân
cia de discurso constitua um centro de referência interna” . (1970:82)
5. Benveniste (1969:65).
6. Benveniste (1946), (1956), (1959).
Procedimentos de análise.. 29
Analisando as marcas de temporalidade, Benveniste mostra que
não há uma relação direta, especular, entre o tempo lingüístico e o
tempo empírico7. A hipótese de que os verbos semantizam o tempo
real dos acontecimentos é uma construção que faz parte do imaginá
rio dos sujeitos sobre a linguagem. As marcas de tempo dos verbos
constituem, na verdade, uma temporalidade estritamente lingüística,
discursiva: não são determinadas por uma relação iminentemente re
ferencial com o tempo real ou empírico.
Tomemos como exemplo os três tipos de pretérito em portu
guês: perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito. Numa narrativa, é o
sujeito enunciador quem escolhe quais acontecimentos irá marcar
pelo perfeito (a-forma pontual) e quais marcará pelas formas imper-
fecüvas. Do ponto de vista dos acontecimentos relatados, todos se
situam na dimensão do passado enquanto tempo referencial, na me
dida em que todos são anteriores e exteriores à enunciação. Assim, a
escolha das formas verbais (pontuais ou imperfectivas) é determina
da pelo objeto do discurso narrativo, na medida em que as formas
pontuais ligam-se ao objeto narrativo por excelência, enquanto que
os eventos marcados pelas formas não perfectivas remetem a um se
gundo plano narrativo, a uma espécie de enquadramento da cena
principal.
Na realidade, somente o perfeito é um verdadeiro tempo, por
que sua significação se determina pela relação de oposição.que
mantém com o presente; este, por sua vez, é também um verdadeiro
tempo, propriedade que adquire pelo fato de ser coincidente com
o instante da enunciação8. Quanto ao futuro, esse não é um verda
deiro tempo: o futuro óão tem a função de representar um tempo re
ferencial posterior à enunciação, mas'marcaas expectativas, proje
ções, desejos, interferências que o sujeito experimenta no presente
7. Benveniste avança algumas considerações sobre a categoria do tempo co
mo uma construção da linguagem (1965).
8. Nesse sentido, nossas noções de tempo seriam construídas a partir da ex
periência da singularidade da enunciação, da coincidência entre o enuncia
do e o aqui-e-agora da enunciação.
JO Rosana PautíUo
da enunciação. O uso generalizado da forma do futuro perifrástico
(vou viajar ou invés de viajarei) dá uma pista dessa ancoragem do
futuro no presente.
A partir da análise das marcas de têmporalidade Benveniste
chegou ao conceito de planos em que a enunciação se realiza. Dis-
tinguiu, em primeiro lugar, dois funcionamentos enunciativos que
correspondem aos dois grandes eixos temporais - presente e passado
- e chamou-os, inicialmente de discurso e história. Mais tarde, tais
denominações se estabilizaram como plano do discurso (ou da enun
ciação stricto sensu è plano de relato.
No plano da enunciação, temos uma relação de coincidência
entre enunciado e enunciação. Aí aparecem os dêiticos marcadores
de pessoa (eu-tu) e de ostenção (aqui-agora) e os enunciados são va
zados na forma do presente. O plano da enunciação caracteriza
aqueles discursos que são totalmente ancorados na situação de enun
ciação em que se produzem.
No plano do relato, o presente, ao contrário, está excluído.
Sem dúvida, o discurso que relata é produzido num ato de enuncia
ção, mas ele não se põe em relação direta com a singularidade do
ato, nem com o presente empírico que corresponde ao momento de
sua produção. No plano do relato, o tempo do discurso é alheio à
temporalidade da enunciação, pois o discurso relata acontecimentos
passados, anteriores e exteriores à enunciação em que se produz. Es
se deslocamento temporal produz a possibilidade de um desloca
mento global em relação à singularidade da enunciação, dos sujeitos
e da situação de enunciação, que aparecem dessa forma como
alheios ao universo relatado - ocorre aqui a ausência de dêiticos,
ausência de menção ao eu-outro ao aqui-e-agora do'acontecimento
enunciativo. Os sujeitos do discurso aparecem então, essencialmen
te, na figura da terceira pessoa, de um outro que não o enunciador
ou o interlocutor.
Benveniste encontrou no discurso da História um caso exem
plar do plano do relato, na medida em que esse discurso se realiza
Procedimentos de análise. 3 /
numa espécie de grau zero da marcação enunciativa9. Não há, aqui,
pistas do ato de enunciação que o produz. Sem dúvida, no discurso
da História alguém fala, mas esse alguém está ausente de seu pró
prio discurso - tudo se passa como se houvesse uma voz em off que
relata. Sendo os acontecimentos relatados anteriores e exteriores à
enunciação, o relato toma possível que o próprio fenômeno enun-
ciativo seja velado, encoberto. Desse modo, o discurso da História
pode aparecer como um monumento, na medida em que se põe como
independente das suas condições de produção. Vale lembrar que o
plano do relato é também a forma discursiva dos mitos e lendas, em
que também se manifesta essa relação de exterioridade do discurso
em relação ao sujeito enunciador, condição de seu efeito de sentido
de perenidade, de seu “ser fora do tempo” , enquanto não determi
nado pelo tempo da enunciação.
Temos, assim, distinguidos os dois planos básicos em que o
discurso pode se articular. No entanto, cabe observar que os discur
sos efetivamente proferidos, orais e escritos, dificilmente são vaza
dos num único plano. Na maioria dos casos, os diferentes planos
combinam-se de diferentes maneiras na produção discursiva, e esse é
um dos fatores decisivos da extrema diversidade que a discursivida
de apresenta. A análise das diferentes combinatórias que entram em
jogo na produção discursiva toma possível a construção de uma ti
pologia do discurso (narrativa de ficção, narrativa histórica, matéria
jornalística, por exemplo).
A partir dessa distinção básica, Benveniste chega ao. plano, do
Discurso Referido, como uma terceira possibilidade de construção:
“(...) a enunciação histórica e a do discurso podem, conforme o ca
so, conjugar-se num terceiro tipo de enunciação. no qual o discurso
é referido em ‘termos de acontecimento e transposto para o plano
9. Tal modelo de discurso da História corresponde, talvez, mais apropriada
mente, ao texto didático ou a formas positivistas de relato histórico.
Barthes, num artigo intitulado justamente, O Discurso da História, realiza
uma investigação das variantes em relação ao modelo canônico apontado
por Benveniste.
32 Rosana Paulillo
histórico; é o que comumente se chama discurso indireto” 10. A pe
culiaridade do DR consiste no fato de que se trata de uma enuncia
ção que inclui uma outra enunciação, de um discurso encaixado em
outro discurso.
O segmento de discurso reportado é, sem dúvida, enunciação,
mas enunciação passada, anterior e exterior à enunciação atual, que
o cita. Assim, no plano do DR, a enunciação atual relata uma outra
enunciação, que adquire estatuto de acontecimento relatado.
O discurso referido difere do discurso proferido', este atualiza
sua situação de enunciação, consistindo na instância de realização
dessa situação (mesmo se não marcada no próprio discurso, como é
o caso do relato histórico); já o discurso referido 6 aquele que so
brevive, para além de seu proferimento, numa outra enunciação que,
assim, permite, num certo sentido, sua re-instanciação.
O plano do DR nos põe em contato com um fenômeno crucial
da linguagem, que é o fenômeno da multiplicidade de vozes. No
DR, o lugar do enunciador se cinde em, pelo menos, duas vozes; há
a voz do enunciador citante, aquele que é o responsável da enuncia
ção atual, que é quem fala naquela instância de discurso; mas em al
gumas seqüências esse enunciador dá lugar a outro (ou outros), põe
em cena a voz de outro(s), que são os erumciadores citados. Cha
mamos, assim, de discurso citante ao segmento do discurso atual
onde se inscreve a voz de seu enunciador e que funciona como suporte
para as outras vozes, inscritas nos segmentos de discurso citado. 11
Nem sempre é muito fácil diferenciar o escopo de cada uma
das vozes que entram em cena no DR. Consideremos, a titulo de
exemplo, a seqüência abaixo:
a. O presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados, Ulisses
Guimarães, disse em Belo Horizonte que não assumirá a
coordenação do pacto social, a sem ver m trabalho do y»*
“toda a sociedade deve participar, através de suas organiza
ções envolvendo trabalhadores e empresários”. Ele argu
10. Benveniste (1959:267).
11. Maingueneau (1981:99).
Procedimentos de análise.. 33
mentou que vai apenas “colaborar” na solução de proble
mas, na parte política, juntamente com outras foiças sociais:
“Eu sou um partícipe”, frisou descartando a possibilidade
de coordenar o pacto idealizado por Tancredo Neves.
(...)
b. Logo depois, o presidente Samey falou à imprensa, con
firmando ter pedido a Ulisses que, como presidente da
Aliança Democrática, fizesse uma sondagem no sentido de
podermos concretizar o pacto social, para ele, “uma idéia
generosa que deve ser aceita por todo o País”. Samey con
firmou que Ulisses vai ajudar “e já está nos ajudando nesse
sentido”.
c. Ontem, ainda na capital mineira (...), Ulisses Guimarães
reafirmou sua disposição de apenas figurar como “colabo
rador” na montagem do pacto social.
(seqüência de Planalto diz estranhar rejeição de Pazzianotto do
pacto, FSP, 29.9.1985).
Nessa seqüência de texto, pode-se observar que as passagens
grifadas com grifo simples correspondem claramente ao escopo da
voz do enunciador citante (o jornal), enquanto que as passagens
não grifadas correspondem claramente à voz do enunciador citado
(Ulisses, nos blocos A e C; Samey, no bloco B).No entanto os
segmentos em negrito com grifo são ambíguos: não se pode determi
nar com precisão qual a voz .que sustenta as palavras e os sentidos
que se produzem nesses segmentos, ou seja, se a responsabilidade
desses segmentos de discursos deve ser atribuída ao enunciador ci
tante ou ao enunciador citado.12
12. A análise do sentido dessas seqüências levanta três possibilidades (exem
plificando através da primeira delas):
a) Foi Ulisses Guimarães quem disse: “A meu ver, o pacto social é um
trabalho (-.)”, assumindo assim, o caráter subjetivo da enunciação;
b) Ulisses teria dito: “O pacto social é um trabalho („)”; foi o enuncia
dor citante que, acrescentando o inciso “a seu ver”, subjetivou uma
enunciação (a de Ulisses) que, na forma de uma afirmação categórica,
se pretendia objetiva.
c) Ulisses não proferiu exatamente as palavras em questão; foi o enun
ciador citante que pretendeu, nesse segmento, sintetizar as palavras e
os sentidos do discurso original, produzindo, portanto, uma interpreta
ção da fala de Ulisses.
34 Rosana Paulillo
Por outro lado, a seqüência em questão nos permite observar
um fenômeno no plano do DR, que é a construção de um jogo poli-
fônico, onde se ouvem várias vozes. As falas de Ulisses e de Samey
que, enquanto discursos proferidos, ocorreram em situações dife
rentes, em tempo e espaço diferentes e que não constituíam interlo-
cuções recíprocas, podem, no plano do DR ser postas em contra
ponto, compondo uma estrutura analógica à dos tumos de um
diálogo.
Dessa forma, na seqüência analisada, se produz um efeito de
1 7sentido de contradição entre as posições das duas personagens1 ,
pelo mecanismo de pôr as falas em confronto, que o DR permite.
2. O Discurso Referido na Concepção do Dialogismo de Bakhtin
A teoria do dialogismo de Mikhail Bakhtin constitui o segundo
aporte teórico que alimentou a construção das teorias sobre o DR.
Bakhtin dedica alguns capítulos de seu famoso Marxismo e Filosofia
da Linguagem, à análise das formas de DR e a atenção especial que
o fenômeno do DR aí recebe14, se explica na medida em que o fe
nômeno do DR traz evidências à tese do dialogismo, que é a marca
específica do chamado Círculo de Bakhtin.15
Para Bakhtin, o DR é por excelência o discurso de outrem
(conceito central na concepção do dialogismo, em que ojüscurso é
sempre algo que aponta, no interior de si mesmo, para a presença da
alteridade16). Sua peculiaridade consiste no fato de que no DR o dis
13. Não importa se tal contradição, que o discurso sugere como efeito de
sentido, é ou não real do ponto de vista das relações políticas - trata-se,
de qualquer forma, de um sentido que é posto em circulação. Desse ponto
de vista, é interessante observar que a seqüência de matéria analisada
tem, como subtítulo, justamente Ulisses recusa.
14. Note-se que as formas de DR constituem o dnico fenômeno particular de
linguagem a que, nesse texto, se consagra uma análise.
15. Cf.Todorov (1981).
16. Cf. Bakhtin (1975).
Procedimentos de análise... 35
curso de outrem figura não como um tema, mas “em pessoa” 17. No
DR, não relatamos simplesmente o conteúdo, o significado do dis
curso do outro, mas o próprio discurso como um acontecimento
de fala, na ressonância própria de sua materialidade significante.
Pois, como observa Bakhtin, no DR, o discurso^ original conserva
“(...) pelo menos sob uma forma rudimentar, a autonomia primitiva
do discurso de outrem, sem o que, ele não poderia ser completa
mente apreendido”.18
Para Bakhtin, a linguagem é essencialmente dialógiç# e todas
as estruturas de linguagem refletem, de uma maneira ou de outra,_ o
fenômeno constitutivo do diálogo que a atravessa. Nesse sentido, o
sujeito, mais do que um ser falante, seria um ser “dialogante” , na
medida em que o movimento da linguagem pressupõe uma dinâmica
reflexiva, interativa. O fenômeno do diálogo aponta, para Bakhtin,
para o fato de que o que caracteriza o sujeito nessa natureza de ser
“dialogante” é a reação ativa à palavra do outro. A fala do outro, a
que o sujeito está necessariamente exposto, provoca no sujeito um
movimento de recepção ativa, produz uma jpreciacão. fesse proces-
so, constitutivo do diálogo, se realiza fundamentalmente como dis
curso interno, fenômeno psíquico, não diretamente observável19. No
entanto, as formas pelas quais se dá a reação ativa ao discurso do
outro se manifestam, ganhando um certo grau de expressão estrutu
ral, na situação empírica de diálogo, na medida em que a alternância
dos turnos de fala, na interação dialógica, dá indício das formas des
sa apreciação.
17. “Mas o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso; ele
pode entrar no discurso e na sua construção sintática, por assim dizer,
“em pessoa” , como uma unidade integral da construção”. Bakhtin
(1977:130).
18. Bakhtin (1978:131).
19. “Como na realidade, apreendemos o discurso de outrem? Como o recep
tor experimenta a enunciação de outrem na sua consciência, que se ex
prime por meio do discurso ativamente absorvido pela consciência e qual
a influência que ele tem sobre a orientação das palavras que o receptor
pronunciará em seguida? Encontramos justamente nas formas do discurso
citado um documento objetivo que esclarece esse problema”. Bakhtin
• (1977:132).
36 Rosana Paulillo
Ora, o DR, para Bakhtin, guarda relações estreitas com a alter-
nância dialógica, na medida em que envolve uma interação entre
discurso citante e discurso citado. Porém, se no diálogo os diferentes
turnos são estruturalmente independentes, cada qual constituindo
uma unidade sintática independente, o mesmo não se dá no DR.
Aqui, os diferentes segmentos, correspondentes às diferentes falas,
estão integralizados numa estrutura sintática global. O DR, portanto,
integraliza, no plano da construção sintática, aqueles segmentos que,
no diálogo, guardam configuração sintática específica.
É justamente por_essa característica que as formas pelas quais
se realiza o DR refletem, segundo Bakhtin, mais expressivamente,
os movimentos nos quais se dá a apreciação da palavra do outro. E
essas formas, procedimentos estilísticos, digamos que caracterizam a
realização do DR, refletem aquelas tendências básicas e constantes
da recepção ativa à palavra do outro, ou seja aqueles aspectos da re
cepção ativa que, sendo socialmente mais relevantes, são justamente
os que se cristalizam, ganhando expressão nas formas lingüísticas:
o mecanismo desse processo não se situa na alma individual,
mas na sociedade, que escolhe e gramaticaliza - isto é, associa
ás estruturas gramaticais da lfngua - apenas os aspectos da
apreensão ativa, apreciativa, da enunciação de outrem em que
são socialmente pertinentes e constantes (...).20
Além de integrar essas diferentes falas que estão em interlocu-
Ção, um outro aspecto importante do DR, segundo Bakhtin, é que,
enquanto discurso, o DR põe em jogo uma terceira pessoa, seu in
terlocutor, o receptor que visa. Assim, se o diálogo em si mesmo
aparece como dual, o DR, organizando e integrando os segmentos
de discurso citante e de discurso citado numa configuração sintática
uma, orienta-se, por sua vez, para uma terceira pessoa. Isso aponta
para o fato de que, no limite, não há no diálogo somente um “eu” e
seu “tu” , pois na fala desse “eu” muitas outras falas se falam.
20. Bakhtin (1977:132).
Procedimentos de análise.., 37
Quanto aos diferentes procedimentos lingüfsticos de constru
ção do DR, aqueles que a tradição classificou como discurso direto,
discurso indireto e discurso indireto livre, trata-se, diz Bakhtin, de
variantes de construção sintática do DR. que a língua cristalizou e
põe à disposição dos falantes. Tais formas, como se viu, refletem
tendências historicamente consolidadas da apreensão do discurso de
outrem. Bakhtin chama-as de esquemas,na medida em que consti
tuem formas fixas de transmissão do discurso. Esses esquemas, por
sua vez, exercem uma influência não só na reprodução das tendên
cias de apreciação já cristalizadas, mas atuam sobre o processo de
desenvolvimento de novas tendências de apreciaçânr regulando-as,
estimulando-as ou mesmo inibindo a emergência dessas novas ten
dências. Os esquemas constituem, de qualquer maneira, a organiza
ção e expressão simbólica dos processos de recepção ativa do dis
curso do outro.
Do ponto de vista da análise das formas de DR, o que importa
é que tais formas, na medida em que se cristalizam como estruturas
significantes, estão correlacionadas a determinados efeitos de senti
do. O estudo dos processos de construção do DR consiste, portanto,
numa espécie de catalogação dessas formas e de seus respectivos
efeitos de sentido, tal como se realizam e se mostram na prática efe
tiva de linguagem dos sujeitos.
3. Procedimentos de Análise
3.1. O Discurso Direto
O discurso direto corresponde àquela forma de DR que pode
mos chamar de “citação literal” . Ao recorrer à forma do discurso di
reto, o DR produz, como efeito de sentido, o compromisso da enun-
çiação citante de estar reproduzindo à letra o discurso citado.
Essa citação ipsis litteris faz com que o discurso direto seja a
forma de DR onde se dá o maior grau de autonomia do discurso ci
tado em relação ao discurso citante. Aqui, os campos enunciativos
38 Rosana Paulillo
están rlaramfinte separados, aque garante ao discurso citado a pre
servação de sua autonomia sintático-semântica, embora figure como
um segmento no interior de uma enunciação outra:
João me disse ontém no Rio: “Estou feliz por partir amanhã
daqui.”
Vê-se que, no discurso direto, as marcas de enunciação (dêiti
cos) do discurso citado se preservam^ remetem à instância de enun
ciação original (a primeira pessoa, as marcas de tempo e lugar do
discurso citado se interpretam não em relação ao escopo da enuncia
ção atual, mas em relação ao escopo daquela enunciação que é indi
cada pela citação).
No discurso direto, a materialidade signifieante do discurso
citado se põe como coincidente com a do discurso original. Nesse
sentido, o discurso direto aparece como um ecoar do discurso do
outro, que se preserva como um todo unissonante. Em conseqüência
disso, o discurso direto envolve, como efeito de sentido, uma nítida
separação dos campos de subjetividade dos discursos citante e cita
do: as diferentes vozes aí presentes não se misturam.
É por isso que, no discurso direto, os verbos introdutores (que
introduzem o discurso citado) só podem ser verbos neutros, como
dizer, por exemplo, ou verbos locucionários, como gritar, sus
surrar, etc.:
Ele disse: Estou feliz agora.
Ele gritou: Estou feliz agora!
Verbos neutros, como dizer, falar, limitam-se a introduzir o
fato da fala, sem interpretar a intencionalidade comunicativa com
que esta foi proferida (como concluir, etc.21). Verbos locucionários
descrevem as características do ato físico do proferimento.
21. O uso desses verbos aponta para uma interpretação do enunciador citante
em relação ao discurso citado, envolvendo portanto, uma incursão da
subjetividade da enunciação citante sobre a enuncição citada.
Procedimentos de análise.., 39
Essa separação nítida entre os campos da enunciação citante e
da enunciação citada favorecem a que o discurso direto apareça co
mo um monumento, como algo que se dá como um bloco à aprecia
ção. Isto produz, como efeito de sentido, uma atitude de distancia
mento do discurso citante em relação ao discurso citado. Tal distan
ciamento pode apontar na direção de uma adesão respeituosa, con
templativa (como ocorre no discurso religioso, por exemplo22), mas
pode também apontar na direção de um distanciamento crítico, de
uma recusa à adesão (como se dá no discurso polêmico).
Ao se utilizar do procedimento do discurso direto, o enuncia-
dor citante pode ter como propósito salientar p dito ou o dizer do
discurso citado23. Na citação de um provérbio, por exemplo, o ob
jetivo é salientar o dito, mesmo porque o enunciado do provérbio é
sempre alegórico em relação ao acontecimento que rotula. Já no dis
curso polêmico, o discurso direto tem como função fazer salientar-se
o dizer do enunciador citado que, como alvo da crítica do enuncia-
dor citante, tem sua voz, num primeiro nível, respeitada, para, num
segundo nível, vir a ser desqualificada.24
3.2. O Discurso Indireto
Diferentemente do discurso direto, que realiza uma espécie de
descrição do discurso do outro, no discurso indireto o discurso cita
do aparece transformado pela enunciação citante. Ocorre uma incur
são do campo do discurso citante sobre o campo do discurso citado;
conseqüentemente, o discurso indireto não envolve o compromisso
da preservação da letra do discurso citado.
22. O discurso religioso se utiliza exclusivamente da forma do discurso di
reto.
23. A diferença entre o dito e o dizer corresponde à diferença semântica en
tre o que é dito, enquanto conteúdo semântico referencial do discurso
e o(s) modo(s) de dizer, que poduzem diferentes efeitos de sentido.
24. Considere-se a notação “(sic)” , como uma indicação retórica suplemen
tar, dessa atitude.
40 Rosana Paulillo
No discurso indireto, o discurso citado sofre uma transforma
ção, ao nível de sua materialidade significante, para se integrar à
enunciação citante. Por isso, a forma clássica do discurso indireto é
aquela onde o enunciado citado entra no campo do discurso, citante
como uma sentença encaixada, introduzida por um conectivo:
Ele me disse que você sabia de tudo.
O segmento grifado, correspondente à seqüência em discurso
indireto, mostra como o enunciado citado integrou-se ao ambiente
sintático do discurso citante (“ele me disse que”), transformando-se
para aí se encaixar. O enunciado originalmente proferido pelo enun
ciador citado não tinha, está claro, exatamente esta formulação (seria
algo como “Fulano sabe de tudo”). Portanto, as marcas de enuncia
ção (tempo, pessoa) do discurso citado são “traduzidas” , digamos,
para o contexto da enunciação citante..
Essa absorção da enunciação citada no campo da enunciação
citante indica que, no discurso indireto, é a voz citante quem co
manda o processo. No discurso indireto, não há uma delimitação ní
tida de territórios enunciativos, como ocorre no discurso direto, pois
a enunciação citante atua sobre a citada, interpreta-a, analisa-a.
Bakhtin observava que o discurso indireto tem uma função analítica,
marca uma atitude analítica na apreciação da fala do outro, e situava
seu aparecimento, para algumas línguas européias, na época da Re
nascença.
Em função da homogeneização da enunciação citada em rela
ção à enunciação citante, ocorre uma espécie de sobreposição, onde
a delimitação do escopo de cada uma das vozes é mais atenuada e,
não raro, ambígua. E a voz do enunciador citante que tem saliência
aqui: o discurso do outro sobrevive no DR redito pela voz do enun
ciador citante.
Uma característica importante do discurso indireto é o uso de
verbos introdutores que interpretam a intenção comunicativa com
que o discurso citado teria sido proferido. Verbos como afirmar,
confirmar, argumentar, alegar, por exemplo, são comuns aqui.
Procedimentos de análise... 41
Ocorrem também, como introdutores, verbos que acarretam a pres
suposição de verdade ou falsidade, por exemplo:
Ele demonstrou que o documento foi adulterado
onde o enunciador citante realiza uma apreciação da fala do outro
interpretando-lhe a intenção comunicativa (pretensão de provar algo)
e admitindo, simultaneamente, a validade dessa pretensão, isto é, as
sumindo, na sua apreciação, que o que disse o outro era verdadeiro.
No discurso indireto pode-se também salientar ou o dito ou o
dizer do discursocitado (embora, nesse caso, a ênfase sobre o dizer
seja sempre menos acentuada, dada a transformação da letra do dis
curso citado). Em geral, a fórmula clássica.
X dizer que...
com verbo introdutor e encaixamento sintático do enunciado citado,
está mais ligada à ênfase no dizer. Já o uso de incisos:
Segundo X ,...
De acordo com X ,...
presta-se mais. à ênfase no dito, em que o discurso do outro é forte
mente parafraseado, sintetizado pelo enunciador citante.
Essas características formais do discurso indireto envolvem al
gumas exclusões. Não é possível reportar em discurso indireto um
enunciado em língua estrangeira, já que não se pode homogeneizar
numa mesma estrutura sintática segmentos de línguas diferentes.
Também não se pode reportar em discurso indireto segmentos meno
res que um enunciado, palavras, sintagmas, expressões inteijeitivas,
por exemplo:
Ele me disse que meu Deus! (?)
mas usa-se, nesses casos, a forma do discurso direto:
César disse: “Alea jacta est.”
Ele disse: “Meu Deus!”
42 Rosana Paulillo
Da mesma forma, elementos expressivos da fala do outro não
podem figurar como tal no discurso indireto:
João disse que foi enganado por aquele imbecil do Júlio.
A presença do sintagma “aquele imbecil do” , um elemento ex
pressivo, nessa seqüência de discurso reportado envolve duas possi
bilidades de análise: ou “aquele imbecü do” é um comentário do
enunciador citante sobre “Júlio” , mencionado na fala do enunciador
citado; ou foi o próprio enunciador citado quem se referiu a Júlio
chamando-o “aquele imbecil” . Somente na primeira hipótese a se
qüência em questão corresponde a um caso de discurso indireto. Na
segunda hipótese, em que o elemento expressivo provém diretamente
da fala do enunciador citado, estaríamos diante de um caso de dis
curso indireto livre.
3.3. Discurso Indireto Livre
O discurso indireto livre é um procedimento praticamente ex
cluído do texto escrito não ficcional, mas, ao contrário, seu uso é
extensivo na linguagem cotidiana, oral e, conseqüentemente, é uma
presença forte no texto literário.
Constitui uma espécie de fusão dos dois procedimentos ante
riores, pondo em jogo, simultaneamente, ambas as estratégias25. Em
geral, conjeça-se com as estratégias de discurso indireto e, no decor
rer da enunciação citada, desliza-se para a mimetização da fala do
outro. Nesse sentido, o discurso indireto livre envolve uma fusão
das subjetividades enunciantes, uma mistura de vozes, uma carnava-
25. Numa seqüência textual de DR, é comum ocorrer a alternância entre pro
cedimentos de discurso direto e indireto: reporta-se certa enunciação em
discurso direto, outra em discurso indireto. Isto não se confunde com o
discurso indireto livre, onde a fusão dos procedimentos se dá no interior
de um mesmo segmento de enunciação citada.
Procedimentos de análise... 43
lização, e implica a perda da atitude analítica, distanciada, típica do
discurso indireto. Por essa razão, seu uso está excluído dos textos
não ficcionais.
Nesta seqüência extraída de Estorvo26, temos um exemplo de
discurso indireto livre, em que o narrador-personagem, ao reportar,
no texto, a fala da irmã, mimetiza fragmentos da fala do enunciador
citado:
(...) minha irmã ergue o rosto e pergunta se não tenho visitado
mamãe. Diz que mamãe tem andado tão sozinha, nem empre
gada ela quer, só tem uma diarista que às terças e quintas vai
lá, mas diarista mamãe acha que não é companhia. O ideal se
ria contratar uma enfermeira, mas enfermeira mamãe acha
que cria logo muita intimidade, e qualquer hora mamãe pode
levar um tombo, porque anda enxergando cada vez pior (...)
4. Outros Processos Ligados ao Fenômeno do DR
Há fenômenos de linguagem onde a presença do discurso do
outro não é explicitado, como no DR, mas indicada, aludida, mos
trada de maneira indireta. De qualquer forma, como o DR, implicam
a presença de outra(s) voz(es), além do enunciador em questão.
4.1. Colocação Entre Aspas
O aspeamento é um fenômeno específico quando ocorre sobre
um elemento lexical - palavra, expressão27. Nesse caso, o uso das
aspas, indica que o enunciador, embora use em sua enunciação
aquela palavra, sinaliza o fato de que tal palavra provém de outro(s)
discurso(s), marca a presença, assim, da alteridade no interior de seu
próprio enunciado.
26. Chico Buarque (1991), Companhia das Letras.
27. Quando incide sobre um enunciado, é uma convenção gráfica da citação
em discurso direto.
44 Rosana Paulillo
A colocação entre aspas de palavras de língua estrangeira,
elementos de gíria, são um exemplo desse procedimento. Quando se
coloca entre aspas palavras ou expressões que correspondem a con-
ceituações, nomenclaturas, qualificações, além de indicar aí a pre
sença de uma outra voz, o enunciador marca também aí sua não
coincidência com tal modo de dizer: nesse caso, no momento mesmo
em que usa a palavra, o enunciador mostra que não adere a ela, por
exemplo:
A “modernização” do país que o governo pretende...
Produz-se, nesse caso, um distanciamento crítico do enuncia
dor em relação ao dizer do outro, onde tal elemento ocorre natural
mente, não aspeado. Esse recurso da escrita corresponde, na lingua
gem oral, a uma operação de destaque do elemento distanciado atra
vés de uma anotação diferenciada.
4.2. Condicional
Certos usos do condicional, não ligados ao processo de ra
ciocínio inferencial (formulação de uma hipótese e sua possível
conseqüência), funcionam para pôr em jogo um enunciado outro,
que aponta para a presença de outras vozes, outros discursos, por
exemplo:
O incêndio teria sido provocado por um curto-circuito.
O uso do condicional é suficiente para sinalizar que, nessa
enunciação, o sujeito não assume, não adere totalmente ao enuncia
do produzido, mas que está reportando, num certo sentido, outras
falas — tem-se, então, um vestígio de uma outra voz, que seria o su
porte da forma afirmativa do enunciado.
Aqui, também, ocorre o efeito de distanciamento, que pode ir
desde o não compromisso (com a forma assertiva do enunciado) até
Procedimentos de análise. 45
a recusa crítica, sob a capa da ironia, da verdade do enunciado afir
mativo ao qual o condicional alude.
4.3. Indicadores Genéricos
Há certos embreadores que permitem atribuir a uma voz gené
rica, não identificada (real ou imaginária) o enunciado posto em jo
go na enunciação.
Dizem que...
Diz que...
Parece que...
Da mesma torma, tem-se aqui a menção a discursos outros; ou,
pelo menos, projeta-se o escopo do enunciado em questão para além
do campo da enunciação atual.
4.4. Provérbio
À primeira vista, a enunciação do provérbio parece um caso de
discurso direto. Porém duas peculiaridades recomendam a conside
ração do provérbio como um caso singular.
O enunciador de um provérbio está na posição de quem cita
palavras outras, já proferidas, já realizadas em outras falas que não a
sua e nisso a enunciação do provérbio coincide com o procedimento
do discurso direto. Porém, ao contrário do que ocorre no discurso
direto, o enunciador citado, no provérbio, não é nem identificado,
nem individualizado. O provérbio não remete à figura de um enun-
ciador original, mas à humanidade, ao senso comum, ao bom-senso.
Além disso, e diferentemente do que ocorre com o discurso di
reto, na enunciação do provérbio o enunciador citante adere total
mente ao enunciado citado, assume a validade do enunciado citado.
46 Rosana Paulillo
De qualquer forma, enunciar um provérbio implica sempre mencio
nar outras vozes, outras falas, além da sua própria.
5. Desenvolvimentos Ulteriores
As reflexões em tomo do fenômeno do DR ensejaram, de uma
torma ou de outra, a construção de teorias da linguagem e do discur
so onde a presença da alteridade no interior do discurso é vista como
um fenômeno global,constitutivo, para além dos casos exemplares
onde se explicita a presença do discurso de outro ou a ela se alude.
É o caso da teoria do interdiscurso28, em que o discurso en
quanto manifestação efetiva de linguagem é visto como atravessado
não só pelo conjunto das práticas discursivas que constituem a for
mação discursiva em que se inscreve (com as quais se põe em inter-
locução complementar), mas em que cada formação discursiva é
mesmo vista como atravessada pelas outras, com as quais está em
interlocução polêmica.
Outro desenvolvimento que se pode remeter à reflexão sobre o
discurso reterido é a teoria polifônica da enunciaçãç29, segundo a
qual os efeitos de sentido dos enunciados podem ser analisados co
mo envolvendo a presença de várias vozes, que apontam para “luga
res de discurso” diferentes. Mesmo enunciados aparentemente mo-
nofônicos podem ser vistos como envolvendo posições enunciativas
distintas. Por exemplo,
Está chovendo, mas mesmo assim eu vou sair,
1 2
onde cada segmento corresponde a diferentes posições de discurso.
Ou mesmo o caso clássico da negação:
28. Cf. Maingueneau (1987).
29. Cf. Ducrot(1984).
l ’roi cilinienlos de análise... 47
Inflação não pode ser comhatida com recessão.
em que o não menciona a presença de uma outra voz, aquela que
sustentaria a forma afirmativa do enunciado.
Finalmente, as teorias da heterogeneidade constitutiva10, em
que os mecanismos de marcação dã alteridade na fala do sujeito são
vistos como uma estratégia que este utiliza para preservar a ilusão de
homogeneidade da sua subjetividade enunciativa; assim, demarca-se
a presença do discurso do outro para melhor sinalizar seu próprio
território. Nesse sentido, todos os processos que decorrem direta ou
indiretamente do fenômeno do discurso do outro, _e cuffi presença
é tão intensiva e extensiva na linguagem, constituem uma espécie de
sintoma da impossibilidade de o sujeito se representar no real de sua
condição de ser de linguagem: ser cindido, não-uno, despedaçado,
atravessado pelo outro do inconsciente.
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Problemas de Lingüística Geral, São Paulo, Nacional/Edusp,
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30. Cf. Authier(1984).
48 Rosana Paulillo
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A ANÁLISE DE DISCURSO: ENTRE AS CONDIÇÕES
DE PRODUÇÃO E A SUPERFÍCIE DISCURSIVA
FfiO N DE: O U V K IR \ H W ( i H
Depto. de Lingüística - PI < -SP
1. Preliminaies
Já que é sobre o discurso que estamos falando, quero começar
chamando a atenção para alguns aspectos deste meu discurso, as
pectos estes que, a meu ver, esclarecem (embora talvez não justifi
quem) seus estreitos limites e seu alcance mais que modesto.
Não tematizo, aqui, o discurso político. E só não posso dizer
que o descarto completamente por dois motivos: primeiro porque há
muitas concepções diferentes do que seja o político, ou seja, há
muitas definições diferentes de qual deva ser o escopo preciso co
berto por sua definição; em segundo lugar, porque no âmbito da
chamada “escola francesa” de análise de discurso (daqui em diante
referida apenas como AD), à qual meu trabalho de alguma forma
está filiado, o discurso político teve, desde o início, um lugar cen
tral, de tal maneira que muitas de suas categorias analíticas, de
que vou me servir, foram elaboradas no trato direto com o discurso
político.
Não tendo, portanto, uma contribuição substantiva a fazer à
AD política, neste momento em que lingüistas e cientistas sociais
juntam esforços com o objetivo de delimitar um espaço teórico para
análise do discurso político, o que pretendo é fazer eco às demais
vozes deste volume, para, entre outras coisas, entrar em sintonia
com elas. É minha intenção que uma e outra coisas se façam através
de uma reflexão metodológica que, estando diretamente relacionada
50 Egon de Oliveira Range!
às dificuldades que tive que enfrentar em minha dissertação de mes
trado, tematiza uma questão mais geral da AD, questão esta que, a
meu ver, é mesmo constitutiva da Ad enquanto disciplina acadêmica.
Trata-se da questão relativa à maneira pela qual, na análise efetiva
de um discurso determinado, o analista constrói sua resposta às
questões que fatalmente sua análise terá de responder1: Quais são as
condições de produção (CP) desse discurso? Qual é sua superfície
discursiva (SD), ou seja, sua extensão, sua forma e seu conteúdo?
Que relações existem entre esses dois aspectos do discurso?
Tais questões envolvem outras, tanto mais ‘simples’ ou ‘primi
tivas’ quanto mais ‘complexas’ ou ‘derivadas’: o que são as CP de
um discurso? Quais os seus tipos? O que é uma SD ? Como medi-la
ou descrevê-la? Etc. É a questões desse gênero que me prenderei.
A maneira pela qual tais questões são respondidas, repito, de-
tine o tipo de análise que se pratica, fixando-lhe um nível - o da
enunciação ou o do enunciado, por exemplo - determinando-lhe uma
perspectiva (sociológica, psicológica, lingüística...), propondo-lhe
as unidades discursivas a serem reconhecidas e trabalhadas (a pala
vra, a frase ou o texto, entre outras possibilidades) e assim por
diante. É minha convicção2 que essas respostas são determinadas -
ou ao menos fortemente influenciadas - pelo corpus que se toma
como objeto empírico, e portanto pelo interesse nele investido pelo
analista. Quero dizer com isso que o interesse e o corpus (ou, numa
palavra, a leitura que se fez de um discurso), fazem parte das CP da
análise. Não sendo neutros nem indiferentes em relação aos resulta
dos finais - muito pelo contrário - também fazem parte das CP do
discurso que se analisa, na medida em que o constróem ej) consti
tuem como objeto ao mesmo tempo (e ambiguamente, portanto) em
pírico e teórico.
1. Evidentemente, estou pressupondo que esse analista endossa os que ca
racterizam a AD como um tipo específico de trabalho com o discurso (Cf.
a respeito Orlandi, 1986; Maingueneau, 1989 e Courtine, 1981).
2. A primeira pessoa, não só aqui, mas em todas as demais ocorrências, não
significa originalidade, mas mera inclusão pessoal num determinado ‘para
digma’.
A análise de discurso:, 51
2. Problemas metodológicos levantados por uma análise discursiva
específica
O projeto de pesquisa que deu origem a minhadissertação era
bastante simples. Consistia na apresentação de dois materiais lin
güísticos - o Diário completo de Lúcio Cardoso e um Manual de
Sexologia (Reuben, s/d) - cuja leitura mais atenta, ou, de alguma
forma, interessada, colocava problemas relativos à natureza e ao
funcionamento do discurso, problemas esses que então tomei como
objetos da pesquisa.
No caso do Diário, o que chamava a atenção era o fato de tra
tar-se de um texto com uma linguagem extremamente eficiente em
criar climas emocionais - religiosidade, pessimismo, erotismo difu
so, mas onipresente, sensibilidade exacerbada, rebeldia impotente,
vocação suicida - bastante densos e envolventes. Ao mesmo tempo,
a natureza e a origem de tais sentimentos, ou seja, as razões pelas
quais um diário (e não outro tipo de texto) fora escolhido, assim co
mo os fatos e situações que o gênero faz prever, ou eram mais ou
menos escamoteados:
Sena difícil dizer qual o motivo real que me leva a escrever
este Diário, depois de ter perdido em que redigi durante vários
anos (...) e de ter tentado outros que nunca levei adiante. (...)
Mas insensivelmente penso nos outros, nos amigos que nunca
tive, naqueles a quem eu gostaria de contar estas coisas como
quem faz confidências no fundo de um bar. Esse diabólico e
raro prazer da confidência (,..),(pp. 5-6).
ou sua descrição e análise era questionada:
Poderia citar fatos: estive com X, fomos ao cinema, depois
jantamos. Mas são estas coisas, exatamente, as que devem fi
gurar aqui nestas páginas? Ou, ao contrário, devem elas cair no
esquecimento? Prefiro o sentimento que me causaram, e se al
gum houve digno de nota, este é que deve figurar aqui, ainda
que seja expresso numa linguagem capenga e só corresponda a
uma parcela reduzida da verdade, (p. 82).
52 Lf>on Je Oliveira Range!
Cria-se no leitor a expectativa de que algo suficientemente
‘importante’, ‘grave’, etc., motiva esse tom confidencial, quase con
fessional. Mas, como tal, essa confidência/confissão nunca se dá:
João A ugusto, que vem lendo este diário desde o seu nasci
m ento, aconselhou-m e a ser mais sincero e a tocar em pontos
que até agora, segundo e le , venho escam oteando. N ão vejo, na
verdade nenhum a necessidade disto , prim eiro porque não tenho
nenhum a tese por assim d izer... g idiana, a defender, segundo
porque não vejo nenhum interesse em enum erar fatos que me
parecem mais desenháveis do que outra coisa. (p. 132).
Nesse projeto, mantém-se firme o autor. Os fatos e as situações
concretas que formam o material sobre o qual se constrói o Diário
nunca são propriamente descritos ou narrados, mas sugeridos, e ape
nas na medida do necessário para a criação do clima, conf igurando-
se então algo como uma “confissão elíptica” .
Assim, mais que descrever ou narrar, esse texto seduz. Em no
me de quê ou quem, parecia difícil dizer. Só pude respondê-lo, par
cial e provisoriamente, ao tomar conhecimento, tempos mais tarde,
do “Depoimento”, encomendado pela imprensa ao autor como ins
trumento de apresentação do Diário ao público ledor, e que, por cir
cunstâncias várias, não foi oportunamente publicado. Lá, somos in
formados das intenções guerreiras e demolidoras de Lúcio, espe
cialmente contra aquela parcela do público que ele sabia esperar
com ansiedade o livro já anunciado - o escândalo da confissão de
uma homossexualidade paradoxalmente notória - assim como contra
sua própria infância e contra aqueles a quem identificou como
“Minas Gerais” .
Meu m ovim ento de lu ta, aquilo que viso destruir e incendiar
pela visão de uma paisagem apocalíp tica e sem rem issão é Mi
nas G erais. M eu inim igo é M inas G erais.
O punhal que levanto , com a aprovação ou não de quem quer
que seja, é contra M inas G erais. Ficções. (2):71
A análise dc discurso:. 53
A emoção exacerbada e ao mesmo tempo subtraída das condi
ções de origem, a densidade da linguagem (oferecendo-se a inter
pretações pessoais diferentes), o poder de sedução que assim se ga
rante, tudo isso parece conduzir o leitor a tomar-se sem o saber,
cúmplice do punhal levantado contra Minas Gerais, assim como
identificado com o ponto de vista .do apunhalador. O que chama a
atenção, aqui, é esse especial poder de aliciamento. Um dos objeti
vos de meu projeto consistiu então, em descrever o funcionamento
interno desse discurso, tal como marcado em sua SD..
Quanto ao caso do Manual, o interesse foi outro.
Construído sob a forma de um longo questionário anônimo di
rigido por uma espécie de “consulente” a um autor mal caracteriza
do (de Reuben somos informados apenas do nome e de sua titulação
acadêmica como “doutor” ), já a partir do título - Tudo que você
queria saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar) - revela um
pressuposto de resto presente implicitamente na maioria desses ma
nuais: o público a que se dirige teria curiosidades específicas sobre a
questão, e a função do livro seria precisamente a de satisfazê-las,
mstaurandojintão uma relação dissimétrica entre emissão (como lit
gar do saber) e recepção (como lugar da dúvida e da desinforma
ção). Esse discurso “sexológico”, que apesar da diferença de caráter
e de registro, parece fortemente aparentado aos discursos da escola,
da medicina e da família, apresenta-se como discurso “científico” , e
portanto como revelador da verdade. Constrói lingüisticamente uma
sexualidade voltada pára o “natural” , adulta (mas nunca velha ou
sequer madura), heterossexual e, no entanto, quase exclusivamente
masculina, genitalizada (essencialmente preocupada com o coito),
familiar, etc. O resultado é um modelo de sexualidade rigidamente
codificado, apresentado como materialização da “saúde” e da “nor
malidade” sexuais, e frente ao qual só se toma possível a adesão in
condicional ou a recusa, que então aparece como confissão de algu
ma “anormalidade”.
Seja como for, era esse tipo de discurso impessoal e imaterial -
que não explicita sua intenções, que se profere “do alto” em nome
da Ciência, da Autoridade e da Verdade, e que parece dirigir-se
54 Egon de Oliveira Rangel
a todos e a ninguém - era esse tipo de discurso que parecia consti
tuir o interlocutor privilegiado daqueles consulentes cuja curiosidade
o texto de Reuben pressupõe. O que me intriga, neste caso, é esse
poder de criar um ‘efeito de real’, através do qual informar alguém
sobre a sexualidade eqüivale a enformar, ou seja, a dar forma e fôr
ma externas a experiências em princípio particulares.
Um segundo propósito de meu trabalho foi, então, a descrição
da produção desse efeito tal como - mais uma vez - implicado na
materialidade do texto.
Ao lado do problema constituído por cada um desses dois dis
cursos, havia um outro: o das relações que, intuitivamente, uma lei
tura ‘ingênua’ podia perceber entre os textos. Num primeiro nível de
investigação, a resposta ou a solução para esse problema é óbvia: a
relação se dá - ou é estabelecida - pela própria leitura, ou seja, pelo
simples fato de ambos serem fruto de uma mesma experiência pes
soal vivida, e, portanto, terem participado de uma mesma ‘ordem
empírica’ (Cf. Foucault, 1966; p. 10). Mas, a menos que se aceite
que a leitura por si só contrói ou determina o discurso em todos os
seus aspectos, o que essa primeira aproximação não explica é, exa
tamente, por que discursos tão diferentes do ponto de vista lingüísti
co e extra-lingüístico - gêneros diferentes, autores diferentes, épo
cas distintas, países e culturas diversas, etc. - podiam ser aproxima
dos pela leitura. Para responder a essa questão, é necessário respon
der a duas outras: o .quê, nos textos desses discursos, permite ou
mesmo provoca essa intenção? Como funcionam esses discursos,
não mais em si mesmos, mas nessa ordem empúica em que foram
colhidos?
Uma vez formuladas essas questões, todoo trabalho posterior
consistiu em respondê-las - ou ao menos equacioná-las — com os
instrumentos previstos pela AD. Nesse ponto, a pesquisa sobre os
meus objetos específicos se cruza com a questão relativa à constru
ção do objeto teórico da AD, e, portanto, de sua constituição como
disciplina. Nos termos dessa disciplina, meu problema era: a) deter
minar as CP de cada um dos efeitos de sentido tomados como pro
A aiiâtise de discurso: 55
blema a investigar; b) descrever as SD envolvidas; c) fazer tal des
crição recorrendo ao mesmo tempo às CP e aos efeitos desentido, de tal
forma que as SD aparecessem como o instrumento - ou, se quiser
mos, a estrutura significante - que, num conjunto de circunstâncias
dadas, produz os efeitos apontados. Na sua globalidade, o objetivo
da pesquisa foi, então, descrever, a partir dos materiais em questão,
o processo de construção da significação no/pelo discurso, ao mes
mo tempo em que, fazendo tal descrição, revelar-se-ia o papel estrutu-
rante ou constitutivo do discurso enquanto prática lingüística so
cialmente regulada: constituição de sujeitos, de saberes e de poderes.
A vinculação de um tal projeto com o empreendimento
foucaultiano é evidente e imediata. Por isso mesmo, a arqueologia
do saber e a genealogia dos poderes, particularmente no que dizem
respeito a uma teoria da sexualidade enquanto um discurso onde se
entrecruzam certos saberes e certos poderes, assim como certas posi
ções de sujeito, foram o ponto de partida da pesquisa, na qualidade
de teorias possíveis das CP relativas aos discursos que tomei como
objeto. Ao mesmo tempo, se bem sucedida a pesquisa e se consis
tentes as hipóteses arqueológicas e genealógicas, o resultado deveria
ser como que uma volta ao ponto de partida. As dificuldades que
então tive de enfrentar prenderam-se ao fato de, entre a partida
e a chegada, ter havido uma análise lingüística enunciativa da SD
cujos resultados não eram imediantemente creditáveis à hipótese
foucaultiana. Nesse ponto, posso dizer que as dificuldades para ca
racterizar e descrever os objetos particulares de minha pesquisa cru
zam-se com a questão relativa à construção do objeto teórico da AD,
e, portanto, de sua constituição como discurso, assim como de seu
estatuto epistemológico particular. E o que explicitarei ao final desse
texto. Antes disso, passa à apresentação dos termos da questão.
3. Condição de produção (CP) e superfície discursiva (SD): sobre
os estilos de análise na AD.
Dificuldades e problemas do tipo que acabo de referir fazem o
dia-a-dia do trabalho de análise. E a meu ver estão diretamente
56 Egon de Oliveira Rangel
relacionadas com o estatuto epistemológico não só da AD enquanto
riisr.iplina específica, mas ainda a toda e qualquer análise discursiva
que se faça com o propósito de problematizar e analisar o uso lin
güístico como prática socialmente regulada e historicamente deter
minada. Esse estatuto epistemológico particular pode ser bem perce
bido quando se examina mais de perto a maneira pela qual, no âm
bito da AD, a concepção de discurso é trabalhada como uma relação
necessária entre duas ‘materialidades’: uma lingüística (a SD) e outra
histórico-sociológica (as CP).
Segundo Çourtine (1981; p. 20), “a AD se inaugura sob o sig
no da articulação de duas faltas, da qual a noção de CP constitui o
sintoma mais seguro”. Para esse autor, a noção de condição de pro
dução, fundamental para a análise, na medida em que lhe é reserva
do um papel ao mesmo tempo explicativo da SD e direcionador do
olhar analítico, situa-se no local exato do que eu chamaria, lembran
do meu próprio trabalho, de um verdadeiro ‘fogo cruzado’. Há de
um lado, os ‘disparos’ efetuados pela ‘lingüística do discurso’, ou
seja, todas as características ‘extralingüística’ (como a situação de
enunciação e o circuito de fala, por exemplo) que, ao examinar as
propriedades mais gerais e ‘gramaticais’ do discurso, o lingüista é
levado a supor como contrapontos funcionais e/ou histórico-sociais
do discurso, sem entretanto teorizá-las diretamente; de outro lado, há
as investidas do que estou chamando de teorias das CP (como a ar
queologia e a genealogia foucaultiana, por exemplo) que, tomando
diretamente como objetivos de estudo as condições sociais e/ou psi
cológicas do exercício da fala, são freqüentemente levadas a apontar
certos tipos de unidades (‘enunciados’, ‘gêneros discursivos’, ‘pala
vras-chave’, ‘estilos’ etc.) como correlatos lingüísticos necessários
de seus objetos específicos. Nesse sentido, a dupla falta apontada
por Courtine corresponde a essa imposição recíproca de responsabi
lidades teóricas, ou seja, à falta de uma teoria global e unificada do
fenômeno discursivo. É essa mesma situação que Orlandi (1986),
fazendo coro a muitos outros, caracteriza como a falta de um
consenso teórico e/ou metodológico, nos domínios da AD como dis
ciplina.
A análise de discurso:. 57
Uma vez explicitado, esse estatuto epistemológico pode ser
nomeado. Ao apresentar, ao longo de toda sua obra, uma proposta
de análise discursiva, destinada a cumprir um papel metodológico
central tanto na arqueologia quanto na genealogia, Foucault procura
sempre caracterizá-la como uma analítica, por oposição a uma
teoria".
Enquanto uma teoria caracteriza-se como “ ... a dedução, a
partir de um certo número de axiomas, de um modelo abstrato, apli
cável a um número indefinido de descrições empíricas...” (1969;
p. 143), uma analítièa define-se como o estabelecimento de “um
domínio coerente de descrição” (1971; p. 18), com a conseqüente
“designação de um objeto” , a identificação/explicitação do “nível”
em que é preciso situar-se para definir a pertinência da questão dis
cursiva, e, finalmente, “a definição dos intrumentos que permitem
analisá-lo” (1976; p. 80).
Não podendo contar nem com a segurança prévia de um mo
delo nem com a garantia do rigor dedutivo, mas sem jamais abrir
mão da explicitação e da coerência como o rigor possível, uma ana
lítica configura-se então, tal como a entendo, como uma disciplina
em que o estilo - do (meta)discurso, assim como do pensamento a
que ele dá corpo - é constitutivo do objeto e até mesmo, em boa
parte, dos insfrumentos de análise. E o desafio maior a que esse es-
tüo precisa responder para cumprir sua função analítica (ou meto
dológica) é o de dar conta da heterogeneidade e da complexidade de
seu objeto teórico, nunca inteiramente definido ou dado antes da
própria análise, e sempre construído numa relação tensa e algojjara-
doxal - ao mesmojempo próxima, ou comprometida, e. distante -
com seus objetos empíriços. Isso quer dizer que o analista de discur-
so é levado a movimentar-se no espaço de uma analítica também ja -
radoxal (já que precisa conciliar teorias de objetos teóricos de natu
reza distinta, como a forma lingüística e as funções discursivas),
analítica essa que, ao ser exercida, leva o analista, quer ele queira
quer não, a uma espécie de epistemologia amadora, ou seja, ao
mesmo tempo aplicada e ‘militante’, já que imediatamente interessa
da não só em definir limites e competências para as diferentes disci
Egon de Oliveira Range!
plinas que forem convocadas para a análise, mas também, e em con
seqüência, em assumir e/ou rejeitar certas responsabilidades.
Esse processo de constituição do estilo queuma análise especí
fica tomará, principalmente no que diz respeito à forma particular
com que se trabalhará a relação entre o ‘lingüístico’ (SD) e o ‘extra-
lingüístico’ (GP), é diretamente determinado pelas necessidades e
características do corpus que se quer analisar. Qs efeitos-do sentido
apreendidos por uma leitura prévia, assim como as particularidades
dífuncíonamento discursivo em questão, tomados comoobjeto pelo
analista, não são dados como tais pela ordem empírica em que ocorrem. Definir um problema discursivo a analisar, qualquer que ele
seja, implica, portanto, em efetuar-se um recorte determinado no
campo discursivo, implica em constituir-se um conjunto individuali
zado de ‘fatos discursivos’ considerados, tais como manifestados
num conjunto finito de textos, interessantes^, em função de um de
terminado critério ou ponto de vista. Deve fazer parte do método da
AD tematizar esse recorte, no sentido de .explicitar e justificar o ar
bítrio que está em sua origemç, revelando assim no que consiste seu
interesse, e, com ele, seu alcance e suas implicações paraa_análise.
Só assim os procedimentos analíticos estarão explicitados o su
ficiente para serem reprodutíveis e criticdveis, duas condições ne
cessárias, como nos lembra Courtine (1981; p. 11) para uma análise
que se pretenda rigorosa e, acrescento eu, interessante. Tudo isso
quer dizer, repito, que a delimitação de um corpus é já uma primeira
e decisiva hipótese a respeito da homegeneidade de um conjunto de
C F hõmogêneas implicadas numa SD determinada. Por isso mesmo
não é qualquer teoria das CP - nem qualquer teoria da SD - que
3. Lembrando a etimologia latina da palavra ‘interessante’, “estar entre, no
meio, participar”, segundo o Aurélio - como TêzTSabelle Stengers, em re
cente e interessante palestra na PUC-SP — eu diria que os ‘fatos discursi
vos’ de que a AD possa se ocupar serão tão mais interessantes quanto mais
situarem-se no entrecruzamento das preocupações e curiosidades das mais
diferenteiTdisciplinas e estudiosos. A situação estatútariamente ‘entre’ da
ÁD, por outro lado, explica o interesse freqüente que nem sempre ela é
capaz de satisfazer.
A análise de discurso... 59
pode ser mobilizada para a análise de um corpus. Lembrando que
um lingüista cuidadoso como Maingueneau (1987; p. 53) define CP,
em seu recente manual de AD como “o ‘contexto social’ que ‘envol
ve’ um corpus, isto é, um conjunto desconexo (grifo meu) de fatores
entre os quais são selecionadas previamente os elementos que per-
mitegj__descrever uma ‘conjuntura’” , pode-se dizer que a ‘questão
metodológica’ de uma análise resume-se precisamente na tarefa de
revelar o nfvel (ou o ponto de vista) em que as CP podem ser vistas
como homogêneas - ou seja, o nfvel em que aparecem como ‘uma
conjuntura’ - assim como descrever a articulação das CP e da SD
como uma espécie de organização conjunta. Na forma como o ana-
lista reconhece e combina os fatores que podem intervir no recorte
do corpus, na homogeneização das CP e no tratamento dispensado
ao mapeamento da SD é que reside o essencial do que estou cha
mando de ‘estilo de análise’.
O que pretendo, na seqüência desse artigo, é apontar alguns
dos fatores que, no âmbito da AD, podem estar em jogo na homoge
neização das CP, assim como a relação entre esses fatores e os que
determinam o recorte do corpus. Ao fazê-lo, estarei me reportando a
três tipos de teorias das CP, as três, em princípio, relacionadas a
meu próprio trabalho.
Pretendendo prever e equacionar um primeiro nfvel de CP, há
o esforço das ‘teorias do uso’ mobilizadas peiãlíngüística do discur
so a que me referi há pouco. São as chamadas teorias docontexto,
geralmente entendido como contexto de situação. Trata-se, aqui, de
identificar as circunstâncias mundanas imediatas pressupostas
no/pelo uso da língua, tanto no sentido de que formam o contexto
que se supõe necessário para que um discurso individual, seje ele
qual for, seja produzido, quanto no sentido dê que estão implicadas
nas formas lingüísticas imobilizadas. Desse ponto de vista, a discus
são, promovida por Searle (1979 e 1983) sobre o ‘pano de fundo’
institucional e sobre as condições mundanas necessárias para o êxito
de atos de fala como a promessa, o juramento, a declaração, etc., são
exemplares e bastante esclarecedoras dessa concepção.
60 Egon cie Oliveira Range!
Muito apropriadamente, Maingueneau (1987; pp. 29-52) chama
a esse tipo de contexto de ‘ce.aa_6RUflciativa’. É o espaço da inter-
subjetividade de Benveniste (1966 e 1974), ou seja, do sujeito da
enunciação e seu(s) interlocutores) direto(s), assim como do tempo
e do lugar - físico e social - em que o discurso se dá. No limite, é
da relação conversacional, face-a-face, que se trata, como nos tra
balhos de Goffman (1981; pp. 205-272). O discurso, em todas as
suas dimensões, é apreendido na imediatez de seu ‘aqui-agora’; seus
jeitos são considerados em sua atividade de “apropriação do apare
lho formal da enunciação” (Benveniste) e, por isso mesmo, em suas
intenções e estratégias comunicativas. Todas as referências a esses
traços constitutivos da cena enunciativa, no nível do texto, são defi
nidas como compondo, o ‘plano da enunciação’ de um discurso. Os
instrumentos gramaticais previstos pela língua para essa tarefa -
pronomes pessoais como eu/você, advérbios como aqui/agora, enun
ciados performativos como ‘Eu te prometo que...’ - são chamados de
‘embreadores’ (do texto ao seu contexto; do plano da enunciação ao
plano do enunciado), ou ainda, de ‘marcas de enunciação’.
Complementando essa verdadeira ‘cena de origem’, concebida
então como a exterioridade a que a materialidade lingüística do dis
curso necessariamente remete, o entorno especificamente discursivo,
e não mais contextu^l, de um ato de enunciação, é nomeado como
seu co-texto, cujos marcadores formais no nível do texto, são os
coesivos do tipo.‘como disse Fulano’, ‘mudando de conversa’, etc.,
que remetem aos outros atos de enunciação com que aquelejse de
fronta. Esse verdadeiro interdiscurso imediato é apenas o aspecto
mais visível e concreto do que Bakhtin, assim como Ducrot, na es
teira do primeiro, chamam de caráter ‘polifônico* da enunciação.
Apesar de um discurso determinado ser proferido por um único indi
víduo, muitos sujeitos diferentes ‘falam’ através desse discurso.
Num outro nível, diametralmente oposto ao que acabo de refe
rir, as CP são homogeneizadas não mais como o contexto ou co-
texto imediatos de um discurso individualizado qualquer, mas, como
diria Foucault (1966:10), como aqueles “ ... códigos fundamentais de
uma cultura [que] fixam, logo de entrada, para cada homem, as or
A análise de discurso:. 61
dens empíricas com as quais terá de lidar, e nas quais se hâ de en-
contrar” . Esse é o plano das ‘formações ideológicas’ (FI) previstas
por Pêcheux, das ‘formações discursivas’ (FD) tais como concebidas
por Foucault (1969) ou mesmo como reinteroretada na AD por auto
res como Pêcheux (1969; 1975; 1979), Robin (1973) e Courtine
(1981; 1982).
No caso das FI de Eêcheui, o ponto de partida é o trabalho de
Althusser (1969), em que a ideologia é concebida como um funcio
namento discursivo específico que, consistindo fundamentalmente na
interpelação dos indivíduos em sujeitos de uma das duas classes so
ciais antagônicas do Modo de Produção Capitalista,JLuma das con
dições não econômicas da reprodução das relações de produção. A
FTè entendida por Pêcheux (1975), então, como uma espécie de
grande discurso prévio e anônimo, investido de uma força e direção
políticas determinadas:
Falamos de FI para caracterizar um elemento (...) susceptível
de intervir como uma força confrontada a outras na conjuntura
ideológica característica de uma formação social num momento
dado; cada FI constitui assim um conjunto complexo de atitu
des e representações que não são nem ‘individuais’ nem ‘uni
versais’, mas sim relacionadas mais ou menos diretamente
a posições de classe em conflito umas com as outras.
(ppTTO-11) ~
Dadas as Fl, Pêcheux pensa as FDs, ou seja, os conjuntos de “con
dições de exercício da função enunciãtíva” que Foucault postulara
como princípio de explicação para as regularidades discursivas que
detectava na grande massa de coisas ditas de uma época, de uma
cultura e de uma áreadeterminada do saber, como os elementos que
compõem uma Fl:
As FI de que acabamos de falar ‘comportam necessariamente,
como um de seus componentes, uma ou várias FDs interliga-
das, que determinam o que pode e deve ser d ito — na forma de
uma arenga, de um sermão, de úm pãnfleto, de uma exposição,
de um programa — a partir de uma posição dada numa coniun-
tura’... (p. 11).
62 Egon de Oliveira Rangel
Nesse sentido, o que caracteriza a interpretação que Pêcheux, e
através dele a AD, fazem das FDs de Foucault é sua inserção^num
campojjolíüco-econômico. Sendo assim, uma outra maneira de ca-
racterizar essa diferença é dizer que enquanto Foucault define a re
gra da imanência como uma das regras básicas de seu método de
análise (1969) - o político aparecendo apenas tal como pressuposto
nos enunciados de um FD - , Pêcheux define primeiro o campo de
forças em que odiscurso se move; a luta de classes; e faz dele um
princípio extralingüístico de inteligibilidade, não só dos sistemas de
regras que caracterizam cada uma das FDs de uma FI, mas ainda dos
enunciados dessas formações. Em ambos os casos a SD é descrita,
então, a partir de suas unidades mínimas, os enunciados, definidos
como invariantes semânticos e enunciativos de uma prática discursi
va histórica e socialmente determinadas.
Ouando definidas como FI e/ou como FDs, as CP são então,
vistas num grau máximo de abrangência, numa espécie de ‘vista aé
rea’ que faz desaparecerem os ‘contextos’ ou ‘situações de enuncia-
ção’ dos discursos individuais. Evidentemente, a opção por uma ou
outra dessas maneiras de homogeneizar as CP e caracterizar a ‘con
juntura’ do discurso que se analisa, é determinada pelo tipo de cor
pus e pelo objetiyo da análise. Se este tiver sido recortado como um
grande arquivo - como será o caso do Projeto que originou este
simpósio - arquivo esse que se suspeita constituir uma só e gigan
tesca SD cunhada pelo mesmo ‘código enunciativo’, dentro de um
mesmo campo político-econômico, as CP só poderão ser equaciona
das como FI e/ou FDs. Se, ao contrário, o corpus for constituído de
uns poucos discursos cuja singularidade se quer caracterizar - a fala
de um candidato num debate de TV, como no caso de um artigo de
Osakabe et alii (1983) que trabalha o debate Sandra Cavalcanti/Miro
Teixeira nas eleições para o govemo do Rio - nesse caso, repito, a
SD será interpretada como diretamente determinada pelo contexto
imediato.
No meu próprio trabalho, os obstáculos a transpor prendiam-se
exatamente ao fato de que o corpus, assim como meus interesses,
pendiam ao mesmo tempo os dois tipos de CP. O Diário, fortemente
A análise de discurso:., 63
vinculado ao contexto de enunciação, com efeitos-de sentido - como
o poder de sedução já referido - diretamente determinados por esse
contexto, exigia que a análise contemplasse esse nível das CP. Ao
mesmo tempo, a análise de sua superfície discursiva revelou uma
estrutura temática complexa, que trazia à tona, principalmente no
que diz respeito à temática religiosa obsessiva, a presença de uma
interlocução - um interdiscurso - representado no interior do pró
prio texto do Diário, configurando-se assim uma espécie de teatrali-
zação do drama vivido por Lúcio, católico praticamente dividido
entre a identificação com a moral cristã e o desejo desviante. Um
quadro como esse sugere também, portanto, condições de produção
homegêneas, do nível de uma FD da sexualidade, como a que
Foucault (1969) previu, mas não chegou a descrever, já que, ao en-
tregar-se ao projeto da História da Sexualidade, acabou deslocando
o foco de sua atenção para a constituição do sujeito de uma moral na
sua relação discursiva de si para si. Quanto ao Manual, apresentava
um semantismo em nada subordinado ao contexto de enunciação, já
por isso sugerindo CP homogeneizáveis num nível mais alto de
abrangência. Sua estrutura temática, bem menos complexa que a do
Diário, monolítica e monótona na referência ao ato sexual como de
sempenho que deve ser otimizado na busca do máximo prazer, por
sua vez metaforizado como rendimento e lucro, mesmo assim repro
duzida como o Diário, a interlocução com o leitor - figurada nas
perguntas supostamente dirigidas por um ‘interessado’ ao autor -
que o legitima como discurso normativo. Essa mesma estrutura te
mática deixa perceber que, qualquer que seja a FD a que o Manual
remeta, certamente não será a mesma do Diário. ‘Carne’, ‘desejo’ e
‘pecado’ estão no centro da FD a que o Diário remete; ‘organismo’,
‘necessidades fisiológicas’ e ‘disfunção’ movimentam a do Manual.
Mesmo assim, houve uma leitura desses dois textos em que a apro
ximação foi possível... Por quê?
É aqui que convém introduzir o que eu chamaria de^um tercei
ro nível possível aéhomogeneização das CP, intermediário entre
os dos extremos já referidos. É o nível das ‘ordens discursivas’
de Foucãüir(1971), da ‘prática discursiva’ tal como referida por
64 Egon de Oliveira Range!
Maingueneau (1987) a partir do próprio Foucault, e, finalmente, dos
‘gêneros do discurso’, desde que entendidos como padrões de enun
ciação e interlocucão fixados historicamente, como em Todorov,
(1978) e Bakhtin (1953), por exemplo. Examinemos mais de perto
esse nível de CP.
Foucault (1971) concebe a ordem discursiva como um conjunto
de procedimentos que regulam as funções enunciativas de uma práti-
clTdiscursiva qualquer, ou seja, que regulam essa prática antes da
constituição de um discurso efetivo e determinado.
Esses procedimentos são repartidos por Foucault em três gran
des grupos: aqueles que põem em jogo o poder e o desejo (procedi
mentos externos de controle), aqueles que se ocupam da classifica
ção, ordenação e distribuição da produção lingüística (procedimen
tos internos de controle) e, finalmente, aqueles que definem quem
pode ter acesso ao discurso.
Os sistemas de controle externo incubem-se de definir quem
pode falar, de que pode falar e em que circunstância, intituindo en
tão o privilégio daquele que fala, o tabu do objeto e os rituais que
cercam as circunstâncias; encarregam-se em dividir os reinos da ra
zão e da loucura, excluindo do circuito autorizado de fala os discur
sos relativos a esta última; estabelecem no discurso a oposição cer
to/errado, sendo o critério da oposição a vontade de verdade das so
ciedades ocidentais, apoiadas sobre um suporte e uma distribuição
institucionais. •
Os sistemas internos de controle exercem três grandes funções
de restrição da dimensão de acontecimento e de acaso do discurso.
À primeira (o comentário) institui discursos matrizes - discursos
primeiros - e discursos comentários - discursos segundos seu po
der residindo em permitir novos discursos a partir do primeiro e em
'revelar, através dos comentários, o que de alguma forma “já estava
dito nele” ; a segunda (o autor) limita o acaso do discurso pelo jogo
de uma identidade que tem a forma da individualidade e do ‘eu’; a
terceira (a disciplina) institui sistemas anônimos constituídos por um
domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpo de proposi
A análise de discurso:., 65
ções consideradas verdadeiras, um jogo de regras e definições, de
técnicas e de instrumentos que estabelecem aquilo que se requer pa
ra que novos enunciados sejam, reconhecidos como pertencentes à
disciplina em questão.
Finalmente, os sistemas de controle que definem quem pode ter
acesso ao discurso determinam as condições em que ele pode ser
colocado em jogo e impõe aos indivíduos um certo número de re
gras. Estabelecem-se assim rituais (convenções lingüísticas e extra-
lingüísücas que devem ser respeitadas pela falante), as sociedades
de discurso (que produzem e fazem circular em circuitos de fala ex
clusivos e fechados - e segundo regras estritas - um certo número
de discursos), as doutrinas (discursosúnicos a partir dos quais mui-
tos indivíduos definem seu pertencimento recíproco e que os liga a
certos tipos de enunciação, proibindo-lhes os demais) e a apropria
ção social dos discursos (capacitação social, pela educação, por
exemplo, de qualquer indivíduo para qualquer tipo de discurso, ob
servadas as reservas às distâncias, posições e lutas sociais).
'Pensar as CP de um discurso como uma ordem discursiva é
pensar, como sç vê, o nível de sua enunciação, tal como numa análi
se enunciativa típica da lingüística do discurso; mas, aoxontrário do
que .acontecfcjiesía, uma análise que remeta um discurso à ordem
que o cunha - identificando-o, por exemplo, como comentário auto
rizado de um texto primeiro - articula o contexto imediato da produ-
ção do discurso pelo _sujeito da enunciação com as CP mediatas. do
nível das FDs e/ou FI. Uma ordem discursiva é portanto como que
uma ‘máquina* para produçãotte FDs. E estas são como que a ‘coa-
gulação’ historicamente determinada de uma ordem, no elemento do
enunciado, ou seja, da SD. Por fim, na medida em que uma análise
da ordem revela tanto os limites impostos ao acesso do discurso,
quanto os ‘desvios’ enunciativos (imediantamente ‘mensuráveis’ pe
las leis conversacionàis da lingüística do discurso, por exemplo) que
a caracterizam como controle social da fala, abre espaço para uma
teoria dos gêneros como verdadeiros ‘embreadores’ entre a codifica
ção social da enunciação e a formulação individual do discurso.
Desse ponto de vista, uma ordem discursiva e inseparável dos gêne
66 Egon de Oliveira Rangel
ros que cria e/ou mobiliza: o mesmo gesto que divide a razão e a
loucura, por exemplo, é o que cria a oposição entre o ‘discurso psi
cótico’ (Todorov, 1978) ou patológico, em geral, o ‘discurso nor
mal’; estabelecer o certo e o errado é criar, imediatamente, gêneros
‘ficcionais’ - brincadeiras, jogos de palavra, mentiras, sentido figu
rado, literatura, etc. - em confronto com os gêneros ‘a sério’, aos
quais, aliás, o Foucault da Arqueologia se restringira - ‘discurso
teórico’, ‘discurso de experiência pessoal vivida’, etc. Por outro la
do, uma ordem discursiva é inseparável também das instituições em
que funciona e das ‘comunidades discursivas’ (Maingueneau, 1987;
pp. 53-71) que ela delimita e que, em contrapartida, lhe dão susten-
ção e condições de reprodução. É esse o caso da Escola e das Igre
jas, por exemplo, que estão inteiramente pressupostas no comentário.
Em resumo, fixar o nível da ordem discursiva como nível ideal
para a homogeneização das CP de um corpus é pôr em relevo, então,
tanto a singularidade da enunciação dos discursos que o compõem
quanto sua inserção numa conjuntura histórico-social determinante.
Volto então as minhas análises do Diário e do Manual, para
encerrar. O nível em que foi possível homogeneizar as CP desse
corpus, tomando-as então como um princípio de explicação para os
efeitos de sentido particulares e para a leitura que os aproximou,
está diretamente relacionado a alguns aspectos das respectivas or
dens discursivas. Como os materiais revelam de FDs diferentes, ain
da que em ambos os casos se possa falar em ‘discursos de sexualida
de’, mesmo as ordens discursivas são diferentes. No caso do Diário,
o gênero e a ordem são confessionais: uma interlocução dis simétrica
onde o autor figura sempre como um confidente que se expõe e jus
tifica a um confessor que analisa, condena, obsolve, etc.; no caso do
Manual, ordem e gênero são ao mesmo tempo ‘didático-pedagógi-
cos’ e ‘clínicos’, o autor ocupando o lugar de professor e médico ou
cientista numa interlocução também dissimétrica.
O nível em que um e outro discursos são aproximáveis é, en
tão, exclusivamente o da dissimetria interlocutiva e da posição com
plementar em que se encontram um em relação ao outro: o Manual
como ‘discurso de autoridade’, o Diário como discurso de experiên
A análise de discurso:.. 67
cia pessoal vivida em ‘prestação de contas’. Apesar então de rela
cionados a diferentes modos de produção discursiva da sexualidade,
ouTdiferentes ‘morais sexuais’ (Foucault, 1984) ambos ns materiais
dão testemunho, do funcionamento discursivo semelhante de um dos
aspectos da moral: aquele que Foucault chamou de ética, a relação
de si para consigo, a construção da própria subjetividade pela inter
pelação da norma.
O que minha leitura do corpus captou, portanto, foi um mesmo
‘modo de fazer’, muito embora o que se fizesse, em cada caso, fosse
diferente. E esse mesmo modo de fazer acaba criando analogias pos
síveis entre aquilo que se faz ou produz em cada caso; de tal forma
que as posições de médico e padre, por exemplo, se assimilam como
posições ‘de autoridade’; as de confidente e de cliente, como ‘posi
ções de falta'\ e as noções de virtude e pecado, de um lado, e saúde
e doença, função e disfunção, do outro, se assimilam na mesma lógi
ca maniqueísta. Pode-se dizer, portanto, que esse é um ponto de
contato possível entre FDs diferentes. Como uma das tarefas priori
tárias da AD é exatamente a de descrever essas modalidades de
contato entre FDs e FI diferentes (Cf. Courtine, 1982; p. 245), uma
vez que a ordem empírica dos discursos as embaralha constante
mente no etemo trabalho de gerar o novo e reproduzir o já dado, é
recomendável que a análise da ordem discursiva, em seu papel de
embreante por excelência dos diferentes tipos de CP receba do ana
lista o cuidado que merece.
68 Egon de Oliveira Rangel
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PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
DA ANÁLISE DE DISCURSO
J.A. GUILHON ALBUQUERQUE
Depto. de Ciência Política - USP
A análise de discurso tem por objeto o pensamento sob as suas
diversas formas de expressão. Liga-se, portanto, a uma longa tradi
ção que remonta aos primórdios da filosofia grega e, particularmen
te, à sofistica. Desde o início, a reflexão sobre o pensamento preo
cupa-se com duas questões que permanecem centrais para a análise
de discurso: o pensamento considerado em si mesmo, em seus mo-
vimentosJntemos e na sua coerência e identidade consigo mesmo; e
o pensamento considerado nos seus efeitos, tanto sobre o seu emis
sor quanto sobre seus eventuais receptores.
A primeira vertente desemboca na lógica e nas teorias do co
nhecimento e da percepção. A segunda, desagua na retórica. A anâ-
lise de discurso participa das duas vertentes. Embora ela lide mais
imediatamente com a expressão do pensamento sob suas diversas
formas, e tenha por matéria prima diferentes tipos de linguagem, e
particularmente o texto, a análise de discurso não se limita à questão
do convencimento, ou seia. à retórica.
A análise de discurso procura compreender os mecanismos
através dos quais o pensamento produz efeitos de conhecimento e de
convicção, e isto não apenas no receptor, como também no emissor
do discurso. Análise de discurso é uma expressão recente, que sina
liza uma ruptura com a tradição filosófica. Isto porque, por um. lado,
não estabelece uma oposição de princípio entre uma teoria do co
nhecimento e uma teoria da convicção e, por outro lado, porque .não
estabelece uma hierarquia de princípio, nem precedência ontológiça
entre emissor e receptoole discursos.
72 JA . Guillion Alhuc/uerqm
Essa ruptura, na verdade, não é estranha a uma corrente filosó-
tica relativamente recente, que compreende algumas teorias das
ciências voltadas para a reflexão sobre a linguagem, que tomam por
objeto a expressão do pensamento, seja na linguagem científica, seja
na linguagem filosófica ou na linguagem comum. Essas correntes
tendem a descartar o pressuposto de uma distinção a priori entre o
pensamento e sua expressão e, particularmente, entre os mecanismos
do pensamento e os mecanismos da linguagem.
Uma conseqüência importante desse pressuposto, e que tem
implicações metodológicas, é a de que todos os movimentos do pen
samento - seja no conhecimento, seja no convencimento - devem
ser estudados na sua expressão discursiva. Deve-se, portanto, des
cartar também qualquer hierarquia ontológica entre ambos, como
também qualquer dicotomia de princípio que subordine um, à lógica
dos mecanismos formais e, o outro, à retórica e, através dela, à emo
ção ou às sensações.
Outro tipo de ruptura com a tradição filosófica de reflexão so
bre o pensamento deve ser mencionado aqui. Trata-se das correntes
que vão buscar os mecanismos do conhecimento e do convencimen
to, não do lado do pensamento, mas do lado da realidade. Incluem-
se nessa órbita as sociologias do conhecimento e as terorias da
ideologia. Seu pressuposto teórico essencial é o de que, indepen
dentemente dos mecanismos internos do pensamento e das regras da
linguagem, ou sobredeterminando esses mecanismos e regras, exis
tem efeitos que derivam das relações sociais e, em particular, das
relações de poder.
A conseqüência metodológica desse pressuposto é a de que a
matéria prima da análise que visa à compreensão do pensamentojião
é o material discursivo ou, em todo caso, não se limita ao material
discursivo. Ela compreende a organização sociaLgomo um todo, in
cluindo o processo produtivo, as relações de produção e a estrutura
de dominação política.
Como podemos notar, os pressupostos teóricos das diferentes
concepções do pensamento conduzem a três diferentes direções me
todológicas: o objeto material da reflexão nn du análise deve ser
Pressupostos teóricos e metodológicos... 73
buscado seja nqj>róprio pensamento ou, em todo o caso, no sujeito
pensanie; çeja no objeto do pensamento op, em todo o caso, na rea
lidade exterior ao sujeito; seja, ainda, na própria expressão do pen
samento e, particularmente, na tinguagem.
No primeiro caso, temos tipicamente uma reflexão filosófica
ou, mais precisamente metafísica - embora não necessariamente as
sumida como tal - e que consiste em buscar, numa reflexão do pen
samento sobre o pensamento, a natureza do conhecimento e a expli
cação sobre a origem e a evolução das idéias. Dentro dessa perspec
tiva as idéias são o elemento explicativo fundamental: as idéias ver
dadeiras produzem idéias verdadeiras, as idéias falsas derivam de
idéias falsas, as novas idéias são engendradas por idéias que as pre
cedem no tempo pu na ordem lógica ou ontológiça das idéias.
No segundo caso, temos as diversas variedades de positivismo
que consistem em postular a existência de uma estrutura racional
imanente à realidade das coisas a qual, de alguma forma, impõe-se
ao pensamento. Por conseguinte, trata-se, aqui, de derivar a explica
ção do movimento das idéias e o conteúdo dos discursos de uma
teoria acerca da realidade - material, social, espiritual, pouco
importa - das coisas. Incluem-se, aqui, as diversas teorias evolu-
cionistas eJüstoricistas e, particularmente a teoria marxista da ideo
logia.
No terceiro caso, o pensamento é imanente ao discurso e, por
tanto, a origem e o movimento das idéias, bem como a estrutura do
conhecimento e os mecanismos da convicção estão embutidos no
próprio material discursivo. Este é um outro sentido em que pode
mos dizer que a expressão análise do discurso inova: ela aponta pa
ra uma teoria assumidamente reducionista do pensamento e das
idéias, na medida em que reduz o discurso à sua manifestação mate
rial. Isto eqüivale a explicar o processo desconhecimento e os meca
nismos de convencimento em termos de efeitos discursivos.
Creio que seria mais rigoroso considera a análise de discurso
como um conjunto de concepções que se enquadram nessa última
categoria, e,_que tratam o pensamento individual e sociaLcomo dis
curso, isto é, como uma realidade que se esgota nos elementos da
74 JA . Guilhon Albuquerque
própria expressão discursiva do pensamento, ou que, em todo o ca
so, pode ser explicada a partir desses elementos. Mais precisamente,
análise de discurso tem uma conotação que lhe foi emprestada por
Michel Foucault, e que consiste no pressuposto de não hierarquia
entre os discursos.
Nesse sentido, encarar como discurso uma manifestação indi
vidual ou coletiva de pensamento eqüivale a recusar qualquer para
digma de discurso verdadeiro, autêntico, justo, etc. Significa recu
sar, à verdade, à ciência, à razão, mas também às diversas lormas de
revelação, qualquer direito de extraterritorialidade com relação ao
campo discursivo.
Quando se fala em análise de discurso, entretanto, particular
mente no Brasil, é freqüente a referência a duas origens divergentes
que, no entanto, têm algo em comum: a soi-disant análise de discur
so tanto se pratica como uma análise de ideologia, quanto se encara
como uma análise da linguagem. Ora, essas duas concepções são divergentes, porque uma se volta para a realidade social como deter
minante dos processos de pensamento e de sua expressão discursiva,
enquanto a outra se restringe à materialidade do discurso para reti
rar, de sua forma ou de seu conteúdo, conforme o caso, as bases de
compreensão não só do discurso, mas também do sujeito e - por que
não? - da realidade.
Contudo, essas duas concepções têm algo em comum que justi
fica a confusão que se faz entre ambas como paradigmas da análise
de discurso. Ambas vêem no discurso - e, por extensão, no pensa
mento - um elemento intermediárjQ entre o sujeito e o objeto de co
nhecimento. Esse elemento intermediário cumpre uma função de re-
produção, e a função das teorias da ideologia, como também das teo-
rias da análise formal.e conteudística do discurso, é a de explicar as
condições dessa reprodução, isto é, o que falseia e o que garante
uma reprodução autêntica do objeto.
Varnos^então^ater-nos a essas duas concepções dojiiscurso,
freqüentemente confundidas como análise de discurso, e que
sem dúvida constituem as formas mais freqüentes de sua manifesta-
Pressupostos teóricos e metodológicos.. 75
ção no Brasil: a crítica das ideologias e a análise conteudística e
formal do discurso.
Creio que a forma mais corrente e que envolve o maior número
de enfoques teóricos e de modo de abordagem é a que considera o
discurso como ideologia. Considerar o discurso como ideologia, sig
nifica considerar o discurso como algo que se situa entre o sujeito e
a realidade. Isto tanto pode ser entendido no sentido de que a ideo
logia é algo que expressa ou que distorce a realidade. Nos dois ca
sos, o discurso-ideologia é encarado como uma espécie de lente
através da qual o sujeito recebe a reprodução da realidade.
i
Essa lente pode desfocar, como pode também concentrar, mas,
em todo caso, ela filtra e retrata o objeto. Mas, ainda que se trate de
uma reprodução distorcida, o que está pressuposto na interpretação
do discurso-como ideologia é a idéia de que o discurso reproduz a
realidade. Q jjue distingue a teoria da ideologia dentre as concep
ções do discurso equanto reprodução do objeto, é o pressuposto de
que o determinante dessa reprodução deve ser buscado do lado da
realidade social e, mais particularmente, das ,relações de produção
no sentido marxista^da expressão.
A outra vertente das teorias que encaram o discurso como re
produção do objeto - ou da realidade - compreende as teorias con-
teudísticas do discurso. O princípio de reprodução é o mesmo: o_dis-
curso é algo que reproduz. Entretanto, as teorias conteudísticas, seja
as que encaram o conteúdo do ponto de vista quantitativo ou formal,
concebem essa reprodução de forma dixersa, porque reduzem a rea-
lidade reproduzida ar> discurso. Isto significa que, ao analisar a ma-
terialidade do discurso, seja no seu conteúdo, seja na sua forma, eu .
já estou analisando a realidade.
A diferença entre as teorias conteudísticas quantitativas e as
formais, do ponto de vista técnico, é que as primeiras, previamente
ao processo analítico, empregam procedimentos classificatórios que
irão permitir trabalhar com métodos estatísticos simples e, às vezes
de natureza probabilística. Quanto às demais, que estamos chamando
de formais por oposição às simplesmente quantitativas, vão empre-
76 J A . Guilhon Albuquerque
gar algum tipo de abordagem sistêmica, em que a estrutura do dis
curso determina os conteúdos.
De qualquer modo, todas essas abordagens, seja a ideológica,
seja as diversas teorias cnntpnHfstiras, tanto as quantitativas quanto
as sistêmicas, compartilham uma concepção comum do discurso que
consiste, em primeiro lugar, em encarar o discurso na sua materiali
dade, em segundo lugar, em entender o discurso como intermediário
entre o sujeito e a realidade e, em terceiro lugar, em pressupor o dis
curso como reprodução. Quer falseie a realidade, quer a espelhe, o
discurso é esse elemento intermediário que a reproduz na sua mate
rialidade. É na materialidade do discurso que eu posso qualificar e
classificar os conteúdos, bem como referi-los a uma estrutura discur
siva ou societária.
A dificuldade comum a essas teorias está precisamente na con
cepção do discurso .como intermediário, como medium entre sujeito
e objeto e, portanto, na sua função de reprodução. Por causa desse
duplopressuposto, a análise de discurso - e análise ideológica como
aqui a entendemos - precisa sempre apelar para um princípio meta-
discursivo, para algum determinante que se mantém em estado de
extraterritorialidade com relação ao discurso.
O caso mais patente é obviamente o da análise ideológica, on
de a garantia da reprodutibiüdade da realidade pelo discurso é uma
coincidência da posição do sujeito da ideologia com o sujeito histó
rico. No caso dos esquemas analíticos mais conhecidos em ciências
sociais no Brasil, que se baseiam na estrutura narrativa, a garantia
de reprodutibilidade do discurso está na sua coincidência com con
teúdos míticos. De qualquer forma, os pressupostos de intermedia
ção e, portanto, de reprodução introduzem uma petição de transcen
dência: uma instância transcendente é necessária para garantir a
identidade entre o discurso e a realidade - ou entre o discurso e o
sujeito, dá no mesmo - ou para explicar sua não coincidência sob a
forma seja do erro, seja da falsa consciência.
É precisamente para fugir à necessidade de se garantiu; .do erro
ou da ideologia que proponho que se encare o discurso não como
intermediação, nã<T como reprodução, mas como representação. O
Pressupostos teóricos e metodológicos... 77
que quero dizer com isso é que o discurso significa a realidade em
vez de reproduzf-la ou de intermediar a relação do sujeito com o
objeto de pensamento. Com isso, os três elementos comuns às con
cepções de que estâvamos tratando são conjuntamente descartados e,
com e1esT a necessidade de uma parantia transcendente.
Em primeiro lugar, elimina-se a separação entre o sujeito e o
discurso, eliminando-se. simultaneamente, a intermediação com a
realidade. O discurso não é um elemento distinto do sujeito e da
realidade, cuja adequação a ambos é problematizada na questão do
erro e da falsa conciência, mas é a representação da realidade pelo
sujeito. Assim sendo, o discurso está no sujeito enquanto represen-
tação, significação, e está na realidade enquanto linguagem e texto,
Por isso mesmo, elimina-se o problema da reprodução, bem
como o da redução do discurso à sua materialidade. Se o discurso é
representação, significação, ele não se encara num objeto interme-
diário que reproduz a realidade para o sujeito, a significação é uma
relação entre sujeito e realidade, entre sujeito e objeto de pensa
mento
Portanto, não se coloca o problema da coincidência entre o
sujeito e o discurso: o discurso sempre coincide com o sujeito, pois
é sempre o sujeito que significa, e^o discurso sempre significa algu
ma coisa. Eu não tenho que colocar a questão de saber se o sujeito
se engana, se deixa enganar ou distorce deliberadamente a realidade.
Do ponto de vista da técnica, isto significa que eu só tenho que
preocupar-me com as representações do sujeito, com o que ele diz, e
não com o que ele quer dizer ou com o que ele deveriajdizer.
Tampouco se coloca a problema da coincidência entre o dis
curso e a realidade. Como o discurso representa, mas não retrata a
realidade, eu não tenho que descrever esse retrato, nem tenho que
compará-lo com minha própria descrição ou com alguma descrição
canônica da realidade. Como o discurso, enquanto texto ou fala, é_
um demento integrante da realidade jmaterial, ele sempre é alguma
realidade e, portanto, não se coloca a questão de saber até que
ponto ele retrata a realidade como um todo.
78 J A . Guilhon Albuquerque
Descartamos, com isso, tantoo problema da verificação do
discurso - o discurso diz a verdade? - quanto o problema da sua in
terpretação - o que ele realmente quer dizer? - para ater-nos tão so
mente ao problema da significação do discurso. Não preciso, por
tanto, nem de uma hermenêutica, que me diga qual o verdadeiro
sentido do discurso, nem de uma teoria normativa da realidade, que
me diga o que deveria dizer para ser verdadeiro.
A conseqüência técnica desses pressupostos é que, diante de
um discurso, trata-se sempre, apenas e tão somente de analisar o que
ele diz - e ele sempre diz alguma coisa com certeza - e não, de en
tender por que ele o diz, para quê ele o diz, e se o que ele diz é
aceitável ou compatível com algum ponto de vista científico, políti
co, ético, ou seja lá que tipo de normatividade se queira considerar.
Outra conseqüência técnica desses pressupostos é a de que a
análise de discurso precisa introduzir o sujeito e o objeto na análise.
Se o discurso é um elemento intermediário entre o sujeito e a reali
dade, então eu posso tratar o discurso nele mesmo, posso analisar o
discurso pelo discurso. Entretanto, se não se trata de um elemento
intermediário, eu tenho que necessariamente referir o discurso ao
sujeito e à realidade.
A primeira conseqüência técnica dessa concepção é que, ao
trabalhar com o discurso, a minha primeira preocupação é identificar
os atores ou sujeitos discursivos e o objeto de seu discurso. Não vou
considerar o discurso em si mesmo mas vou, a cada momento, iden
tificar, nos diversos textos discursivos sob análise, quaissão os ato-
res discursivos, isto é, quem está falando, e quais são os objetos de
que se está falando.
Esse objeto pode ser o próprio ator, outro ator, ou uma entida
de material qualquer, como pode ser uma entidade social. Objeto,
nesse sentido, é apenas uma posição no discurso, e não a substância
daquilo de que se fala. Assim sendo, sou obrigado a analisar o dis
curso enquanto discurso de um sujeito sobre um determinado objeto,
o qual pode ser o próprio sujeito, outro sujeito ou qualquer obje
to discursivo, seja ele material, social ou mesmo simplesmente lin
güístico.
Pressupostos teóricos e metodológicos... 79
Em termos práticos, podemos considerar discurso qualquer re
presentação verbal, seja um texto científico, uma entrevista, algo
gravado, uma aula, um texto de jornal, onde quer que eu tenha uma
representação verbal, um ator que diz, que significa algo, um objeto
que é representado verbalmente. Trata-se, portanto, de identificar os
atores e, a partir daí, identificar as representações que figuram no
discurso, isto é, tudo o que os atores representam, isto é, o(s) obje-
to(s) de seus discursos: todas as representações dos atores sobre eles
mesmos e sobre os diversos objetos de seu discurso, o que inclui as
representações das relações entre os atores com os objetos de seu
discurso.
DISCURSO POLÍTICO: NOTAS PARA UM DEBATE
MARIA TEREZA AINA SADEK
Depto. de Ciência Política - USP
O anedotário político brasileiro está repleto de histórias que
retratam, com certa ironia, o jogo de poder e nele o papel da pala
vra. Entre esses inúmeros relatos, gostaria de relembrar um que re
sume em tom sarcástico as artimanhas relacionadas à esfera da polí
tica. Conta-se que Gustavo Capanema teria cunhado a expressão “o
que vale é a versão e não o fato” , mas que ela teria sido apropriada
por José Maria Alkimim. Inconformado de ter perdido a autoria de
seu achado lingüístico, Capanema dirigiu-se a Alkimim cobrando:
“Com o quê, eu faço a frase de efeito e você diz que é sua?”. Pron
tamente, não perdendo a oportunidade, o sagaz político mineiro teria
respondido: “Ora, Capanema, o que vale é a versão e não o fato”.
O contraste entre as versões e o fato é próprio da vida política,
para não mencionar sua presença no cotidiano, recheando os mo
mentos da vida privada. No que se refere à esfera pública, esta é
uma lição que se aprende nos primeiros manuais de Ciência Política.
Entretanto, o que é marcante quando se debruça sobre a história po
lítica brasileira é o fato de que a cultura política nacional, em nome
de criticar as versões, desconfia quase que por inteiro da idéia mes
ma do conflito político. Isto se reflete no desprestígio dos políticos,
dos partidos, do Congresso. Este traço tem apresentado uma durabi
lidade tanto no discurso dos profissionais da política como no dis
curso popular que merece ser examinado.
O objetivo deste texto é apontar que, apesar das radicais trans
formações por que passou o estado e a sociedade no Brasil nos últi
mos sessenta anos, o legado ideológico das décadas de 20 e 30 deste
século fincou raízes mais profundas do que faria imaginar uma aná-
MarUi I preza \iiin Sadcí.
lise que se centrasse apenas nos aspectos sócio-econôniicos ou mes
mo institucionais. Não se pretende, pois, discutir os diferentes para
digmas que orientam as análises de discurso. Nosso objetivo é mais
modesto e segue um outro caminho. Trata-se, sobretudo, de salientar
que concepções elaboradas durante o período de crise da Primeira
República têm apresentado um excepcional grau de resistência às
mudanças estruturais e político-institucionais. Atentar para este fato
e avaliar suas conseqüências são imperativos indispensáveis para
qualquer estudo preocupado com as condições de sobrevivência da
democracia no país.
1. O Espaço da Palavra
L)a pólis ateniense ao mundo contemporâneo assistiu-se a uma
radical redefinição do papel da palavra na arena política. Saliente-se
que não é nosso propósito descrever nem explicar as profundas
translormações que ocasionaram tal deslocamento, mas simples
mente marcar a existência de diferentes espaços ocupados pelo dis
curso político e seus conseqüentes desdobramentos nas concepções
" sobre a vida política.
A despeito de o discurso poder ser sempre visto como arma
política, ou seja, como um precioso recurso de poder, é possível ma
pear três orientações distintas a respeito de seu significado no inte
rior da esfera pública. Simplificadamente, teríamos: o modelo idea-
lista-ateniense, o ético-normativo e o realista. Muito embora seja
possível localizá-los num suceder histórico, não se trata de uma
evolução progressiva, de um passar de uma forma mais simples para
outra mais complexa. Diversamente, muitas vezes se sobrepõem,
coexistindo, e_nada indica que qualquer um deles esteja definitiva
mente ultrapassado. Examinemos rapidamente estes modelos:
1.1.0 Modelo Idealista-Ateniense
A originalidade da forma de convivência humana instituída
pela pólis grega encontrou no papel da palavra e no espaço reserva
Discurso político: notas para um debate 83
do para o discurso político seu epicentro. Neste modelo, a palavra
adquiriu preeminência sobre os demais instrumentos de poder. A
força da palavra bem como o lugar por ela ocupado implicavam a
existência de um piíblico-juiz, possuidor da atribuição de julgamen
to, isto é, de cíêcidir qual parte ou qual discurso deveria se impor.
Em face de dois ou mais discursos que se defrontavam, venceria o
que apresentasse maior força persuasiva. Daí poder-se sustentar,
como o faz Vemant em sua interpretação sobre a origem do pensa
mento grego, que “a arte política é essencialmente o exercício da
linguagem”.1
A oratória identificava-se então com a arte e com a técnica,
sendo sempre julgada de forma muito positiva. Sua avaliação tinha
por critérios centrais o rigor argumentativo e a eficácia ou, em ou
tros termos, sua capacidade de convencimento na busca do “Bem
Público”. A valorização positiva da palavra contrapunha-se ao des
prestígio de formas anteriores de domínio baseadas no poder abso
luto do monarca, no prestígio pessoal ou religioso. Tratava-se agora
de conseguir demonstrar a retidão de princípio, a correta utilização
dás regras de demonstraçãoe da lógica. - t
O demagogo, nestas circunstâncias, identificava-se com o
Homem de Estado, o hábil orador, enfim, com aquele capaz dejcon-
duzir o povo. Desta forma, é possível dizer que este modelo que
concede ao discurso um espaço central tem por horizonte a busca do
“Bem”, aceita a pluralidade e tem na divergência entre as falas e na
idlía de um público-juiz seus pilares de sustentação.
1.2. O Modelo Ético-Normativo
Um outro modelo que por falta de melhor nome poderia ser de
signado de ‘ético-normativo’ parte da radical distinção entre o dis-
curso considerado falso e o verdadeiro. Nele se contrapõem a fala
do senso comum e a do sábio. A fala do senso comum é vista como
1. Jean-Pierre Vemant. ,4$ Origens do Pensamento Grego. São Paulo, Difu
são Européia do Livro, 1972; p. 35.
Maria I creia Aina Stulek
enganosa, mistificadora e por isso perigosa. A do sábio, ao contrá
rio, não é parcial, não é particularista, mas comprometida com o
real. Qesta forma, o único discurso legítimo, de fato, é o discurso do
sábio. Osl demais são desqualificados, devendo ser combatidos ou no
máximo confinados a um espaço muito reduzido. Não se trata aqui
de procurar a eficácia, nem mesmo o resultado de um jogo de con
vencimento. Não cabe a pluralidade das falas, já que apenas uma
pode apreender a totalidade, o bem geral. E claro que a expressão
“sábio” corresponde a um grande número de tipos históricos, indo
dos intelectuais ao partido, sem esquecer os césares e os tecno-
cfatas.
Os argumentos que sustentam tal percepção do discurso políti
co são bastante diversificados, muito embora apresentem uma estru
tura básica comum, cujo pilar central está na oposição radical entre a
verdade e a falsidade. O critério de julgamento é essencialmente éti-
co-normativo. Tal como ilustramos o primeiro modelo com a con
cepção imperante nos primórdios da pólis ateniense, este encontra
seu perfil muito bem traçado em Rousseau. O pensador genebrino
não é certamente seu fundador, mas o fato de ter elaborado a versão
moderna mais difundida deste tipo de percepção permite-nos apoiar
em suas proposições para melhor esclarecer o que estamos caracteri
zando como modelo ético-normativo.
Para que não se suponha que esta orientação vincula-se à mo
dernidade, deve-se lembrar traços de sua presença na antiguidade e
com mais força ainda no período medieval. Já em Aristóteles, por
exemplo, encontra-se uma mudança radical na apreciação do dis
curso quando se compara com o período que lhe antecedeu. Para
Aristóteles, o termo ‘demagogo’ deixa de significar o hábil orador,
passando a desipnar ‘uma prática corrupta ou degenerada’, ‘adulador
do povo’. A demagogia converte-se em um instrumento através do
qual se institui um governo despótico das classes inferiores ou de
muitos que governam em nome da multidão. Suas críticas a um tipo
específico de oratória permitia-lhe distinguir o discurso enganoso do
verdadeiro. E, obviamente, o enganoso deveria ser deslegitimado e
apenas o verdadeiro, valorizado.
Discurso político: notas para um debate 85
Rousseau, de forma mais sedutora do que qualquer outro autor
precedente, desenhou um quadro no qual a iadicalidade dos princí
pios normativos pode ser examinada. De seu ponto de. vista, a ordem
social legítima funda-se em um ato de vontade e só se mantém sob a
condição de preeminência incontrastável da “vontade geral”. A
“Vontade Geral” deteriora-se no contato com os interesses particu
lares, privados, cuja pior manifestação se encontra na formação de
facções, de .partidos políticos. Os particularismos, sempre pernicio
sos, devem estar dominados, submetidos ao que há de comum entre
todas as vontades. “Só a vontade geral” , dirá Rousseau, “pode diri
gir as forças do Estado dç.acordo com a finalidade de sua institui
ção, que é o bem comum”2. Para esta correta direção em nada con
tribui a presença de discursos que se confrontam. Não se trata aqui
de convencimento, mas, ao contrário, da abolição do espaço reser
vado às diferentes falas, já que estas só podem traduzir a particulari
dade dos interesses. Daí Rousseau enfaticamente afirmar que
se, quando o povo suficientemente informado delibera, não ti
vessem os cidadãos qualquer comunicação entre si, do grande
ndmero de pequenas diferenças resultaria sempre a vontade ge
ral e a deliberação seria sempre boa. Mas quando se estabele
cem facções, associações parciais a expensas da grande, a
vontade de cada uma dessas associações toma-se geral em re
lação a seus membros e particular em relação ao Estado.
E concluirá: “Importa, pois, para alcançar o verdadeiro enun
ciado da vontade geral, que não haja no Estado sociedade parcial e
que cada cidadão só opine de acordo consigo mesmo”.3
Desta forma, se os interesses particulares são perniciosos,
qualquer organização baseada nestes interesses seria mais danosa
ainda para o estado. Conseqüentemente, pregar a legitimidade de um
•* •
2. Jean Jacques Rousseau. O Contrato Social. Livro II, cap. 1. Esta ci&ção e
as que se seguem da mesma obra baseiam-se na tradução para o português
de Lourdes Santos Machado, na edição brasileira, da Coleção Os Pensado
res. São Paulo, Abril Cultural, 1973.
3. Idem, cap. 3.
M a n a I creza \ ir u i Satlet
espaço para o convencimento seria um contra-senso. Daí a substitui
ção deste espaço pela valorização das atribuições do legislador, al
guém de qualidades excepcionais, com a reta consciência dos pro
blemas comuns. Sustentará, pois:
para descobrir as melhores regras de sociedade que convenham
às nações, precisar-se-ia de uma inteligência superior, que vis
se todas as paixões dos homens e não participasse de nenhuma
delas, que não tivesse nenhuma relação com a nossa natureza e
a conhecesse a fundo. (...) Aquele que ousa empreendei a ins
tituição de um povo deve sentir-se com capacidade para, por
assim dizer, mudar a natureza humana, transformar cada indi
víduo, que por si mesmo é um todo perfeito e solitário, em
parte de um todo maior, do qual de certo modo esse indivíduo
recebe sua vida e seu ser. alterar a constituição do homem para
fortificá-la. substituir a existência física e independente, que
todos nós recebemos da natureza, por uma existência parcial e
moral.4
Apontando o perigo da instituição de um largo espaço para a
palavra, este modelo advoga seu encolhimento e atribui a uma úni
ca fala a capacidade.de apreensão “correta” do real, do bem comum.
Assim, cabe o destaque ao papçl do legislador, no caso de
Rousseau, ou do partido no de Lenin, ou de um César em tantas
propostas autoritárias. O maniquefsmo no julgamento das falas e a
submissão dos discursos à palavra dita “verdadeira” são, com fre
qüência ou tendencialmente, acompanhados de um alargamento do
espaço público em detrimento do privado.
1.3. O Modelo Realista
Diversamente das orientações anteriores, o modelo realista não
se preocupa com o critério de verdade e tampouco com a adequada
4. Ibitlem, cap. 7.
Discurso político: notas para um debate 87
demonstração dos princípios da argumentação. Aqui, o que importa
é antes de mais nada a eficácia, a capacidade de convencimento, da
do um objetivo determinado. A fala é um instrumento legítimo de
poder, a fala é poder, a despeito de seu rigor argumentativo ou de
seu compromisso com a verdade. Conseqüentemente, a princípio,
cabem tantos discursos quantos conseguirem se fazer presentes no
espaço püblico. O que determina o tamanho deste espaço é, funda
mentalmente, o jogo de forças entre atores políticos, atores estes que
se definem por sua capacidade de se fazer ouvidos. Nada indica de
antemão se teremos uma ou mais falas. Este número, como também o
tamanho e a qualidade do espaço reservado ao discurso, resultam do
poder e da habilidade dos diferentes atores políticos.
Este modelo como os demais pode ser ilustradopor uma série
de autores. Julgamos, contudo, que Maquiavel, por ter inaugurado
este tipo de orientação, traduz seus princípios fundamentais com
mestria.
Referindo-se à palavra, sustentava o pensador renascentista
que esta era uma das formas de se obter o domínio; a outra era a for-
ça. A primeira seria típica dos homens, enquanto a segunda, dos
animais. Como, por vezes, era preciso recorrer à segunda, todos
aqueles que desejassem o poder deveriam saber agir simultanea
mente como homens e como animais. Entretanto, mesmo a natureza
animal não eqüivalia apenas à força bruta, já que esta deveria se
desdobrar nas qualidades do leão e da raposa. A astúcia, típica da
raposa, indispensável em qualquer projeto de domínio, redefine, por
sua vez, a dicotomia aparentemente simples entre o homem e o ani
mal. Não se trata da força contrapondo-se à qualidade dos homens,
mas de uma força astuciosa, na qual a palavra é um ingrediente in
dispensável. Assim, dirá: “quem se contenta de ser leão demonstra
não conhecer o assunto”5. Daí deduzir que as regras que régem o
mundo da política possuem uma especificidade. Elas não são a re
produção dos valores que norteiam a vida privada. Sustentará:
5. Nicolau Maquiavel. O Príncipe, cap. XVIII. Esta referência e as seguintes
baseiam-se ha edição publicada pela Editora Vecchi, 1965.
m Maria íereza Aiiut SiuM
Todos compreendem como é digno de encômios um príncipe
quando cumpre a sua palavra e vive com integridade e não com
astúcia. No entanto, a experiência de nossos dias mostra have
rem realizado grandes coisas os príncipes que, pouco caso fa
zendo da palavra dada c sabendo com astúcia iludir os homens,
acabaram triunfando dos que tinham por norma de proceder
a lealdade.6
Nem sempre é, pois. possível manter-se fiel à palavra dada. A
eficácia do discurso está em sua capacidade de persuasão, não em
sua possível verdade ou retidão argumentativa. Integra, portanto, a
qualidade do discurso a busca do convencimento. Para isso, valem,
mais do que tudo, as aparências. Não £ necessário a um príncipe ter
todas as qualidades valorizadas em uma sociedade específica. “Mas
£ indispensável", enfatizará Maquiavel, “que pareça tê-las". A dis
tância entre o ser e o parecer ser está no imago da atividade política.
Ou, em outras palavras, para retomarmos o inicio deste texto, as ver
sões são o fato e o fato só existe por meio das versões.
2. Bnãfc o legado autoritário
A rejeição de uma ordem pluralista, a desconfiança nas insti
tuições polfòcas, criticas cenadas aos políticos são traços muito co
nhecidos da cultura política brasileira. Tentar somar afirmações
desta natureza £ uma tarefa fácil e ao mesmo tempo infindável.
Basta debruçar-se sobre os jornais, ouvir comentários no rádio ou na
televisão, interessar-se por pesquisas de opinião que imediatamente
saltará à observação o quanto estes valores se repetem. Quer com
argumentos mais sofisticados, quer com frases que só fazem repetir
velhos chavões tem sido muito preponderante um tipo de orientação
que poderia ser classificada, pata ufiEzarmos da tipologia anterior
mente exposta, como £tico-normarivo.
6. Idem.
Discurso político: notas para um debate 89
Chama, pois, a atenção, antes de mais nada, a persistência de
um discurso ético-normativo apesar das extraordinárias mudanças
experimentadas pela sociedade brasileira nos últimos decênios, bem
como as sucessivas mudanças institucionais. Como se sabe, muitas
das análises sobie a ideologia política dos anos 20 e 30 encontram
justificativas para seu caráter normativo, ãintf-líBeral, nas condições
políticas e sócio-econômicas entãoprevalecentes. Ou seja, tal como
os ideólogos do Estado Autoritário, procura-se nas estruturas eco
nômica, social e política os determinantes de uma proposta de reor
ganização do estado e da sociedade que exchii por inteiro a idéia de
um “mercado político”. Admitindo-se a plausibilidade de tal inter-
pretação, restaria sempre indagar não apenas por que não se deu
idêntica primazia em sociedades que experimentaram iguais proble
mas, mas também - e por que, principalmente - uma vez alteradas
aquelas condições, o discurso político continua muito parecido,
apoiado em iguais balizas.
É inegável que hoje estamos muito distantes do Brasil dos anos
20 e 30. Bastaria confrontar os dados referentes ao tamanho da po
pulação à distribuição da população economicamente ativa, o grau
de urbanização, o tamanho e proporção do eleitorado. De fato, o
Brasil de nossos dias guarda pouca semelhança com aquele de 70
anos atrás. A mudança é quantitativa e qualitativa. A sociedade bra
sileira é muito mais urbana, mais complexa e muito mais diversifica
da. Do ponto de vista das instituições políticas, sucederam-se vários
arranjosjnstitucionais desde o período pré-Estado Novo até a situa
ção presente, de consolidação democrática. Se estas alterações se
apresentam como indiscutíveis, o mesmo não acontece no que se re
fere ao discurso político. Este demonstra tantas similaridades com o
desenvolvido no passado que nos obriga a desconfiar tanto das in
terpretações que deduzem a ideologia da infra-estrutura como dos
mais otimistas, que acreditam estar definitivamente exorcizado o
fantasma dos períodos não-democráticos.
Uma releitura dos ideólogos dos anos 30 tem, pois, um sabor
que não se limita àquele momento histórico. Desvenda também os
fundamentos, de uma concepção que reheradamente se manifesta no
90 Maria 1'ereza Aina Sadek
discurso político atual. Assim, apesar das apreciáveis diferenças en
tre os principais autores, há que se destacar um núcleo comum, de
crítica à política, aos políticos, às instituições que sediam o conflito.
Algumas poucas citações podem ser coligadas para fundamentar as
concepções imperantes nas primeiras décadas deste século. Vamos
a elas:
No que se refere à política, há uma clara distinção entre o que
se considera a “verdadeira” política e a prática resultante do con
flito entre grupos. A primeira deveria ser procurada, almejada, en
quanto a segunda, abominada, eliminada. A política superior teria
que se opor à politicalha, às intrigas, às mentiras, ao demagogismo,
ao caudilhismo. Conseqüentemente, a política não deveria ser uma
atividade resultante do jogo das forças sociais, mas fruto de uma
consciência da realidade, com soluções “apropriadas”, objetivas,
científicas e, portãntõTuidépendentes de preferências individuais ou
partidárias. Dirá Francisco Campos:
Para as decisões políticas, uma sala de parlamento tem hoje a
mesma importância que uma sala de museu (...) O regime polí
tico das massas é o da ditadura. Não há hoje um povo que não
clame por um César (...) As transformações não se operam pela
ação da mentalidade primitivadas multidões e dos seus líderes,
mas pela influência das ciências e das artes, filósofos, pesqui
sadores, cientistas, engenheiros,_artistas. (...) Deve-se impor
silêncio à querela dos partidos, empenhados em quebrar a uni
dade do Estado e, por conseguinte, a unidade do povo e da
Nação.^
A abolição de qualquer princípio que defendesse o primado do
interesse do indivíduo sobre o da tutela social bem como a redução
da política a uma atividade técnico-administrativa são igualmente
advogadas por Azevedo Amaral e Oliveira Vianna. Sustenta Azevedo
Amaral: ,
7. Francisco Campos. O Estado Nacional. Rio de Janeiro, Livraria José
Olympio Ed„ 1940, pp. 27 e 172.
Discurso político: notas para um debate 91
No curso que teremos de seguir para aumerftar a eficiência do
Estado, como instrumento solucionador dos problemas con
cretos que nos defrontam em vários ramos da atividade admi
nistrativa, teremos de reforçar ainda certos aspectos da autori
dade executiva e sobretudo de preparar os meios de afastar a
influência perturbadora de agitações políticas.**
E assinala na mesmadireção também Oliveira Vianna:
Os parlamentos deixam ver cada vez mais a sua inutilidade, a
sua imprestabilidade como órgãos auxiliares do Governo polí
tico das sociedades. (...) Os parlamentos vão sendo insensi
velmente postos de lado e não sei se seria exagerado dizer que
se estão tom ando progressivamente um aparelho intítil e dis
pendioso.^
Da mesma forma, os partidos são criticados ao longo de toda a
sua obra. Identificados como “simples agregados de clãs, organiza
dos para a exploração em comum das vantagens do Poder”.10
Este discurso coloca fora das fronteiras da arena política as
lutas ideológicas e as disputas pelo poder. Em conseqüência, os par
tidos são vistos como desnecessários, um mal a ser extirpado. Os
discursos não poderiam apresentar um destino diferente: são suma
riamente desqualificados como expressão de interesses particularis-
tas enviesados. Trata-se, em resuno, de uma visão contrária à políti
ca, uma concepção anti-política da atividade política. A política
considerada “verdadeira” será uma resultante da análise objetiva da
realidade, daí identificar-se e esgotar-se na técnica.
Não comporá, assim, o reino das cogitações políticas a exigên
cia de se buscar compatibilizar interesses ou projetos distintos. O
confronto de posições contrárias e a disputa pela hegemonia entre
8. Azevedo Amaral. Ensaios Brasileiros. Rio de Janeiro, Omega e Barreto,
1930; p. 224.
9. Oliveira Vianna. O Idealismo da Constiuição. 2- edição, Companhia
Editora Nacional, São Paulo, 1939; pp. 105-6.
10. Oliveira Vianna. O caso do Império. 1! edição, Compaiti ia Melhora
mentos de São Paulo, São Paulo, 1925; p. 24.
92 Maria Tereza Aina Sadek
segmentos sociais diversos serão questões estranhas, entendidas co
mo sinônimo da má política, da política vulgar, de politicagem, de
vírus que deve ser combatido.
As semelhanças destes argumentos com os hoje divulgados pa
recem inegáveis. O descrédito na classe política, o desprestígio do
parlamento, a crença na necessidade de césares povoam as falas do
cotidiano. São, entretanto, suficientemente conhecidos os resultados
da implementação de projetos políticos sustentados em orientações
como a descrita acima. Sabe-se, também, as potencialidades arregi-
mentadoras de tal discurso em épocas de crise. A história está re
pleta de exemplos. Talvez saiba-se menos sobre as conseqüências de
tal discurso em períodos de consolidação democrática. A preocupa
ção com o fortalecimento da democracia no país, certamente, não
pode deixar de levar em consideração os fortes constrangimentos
advindos de uma cultura política tão eivada de valores normativos.
NOVAS FORMAS DO DEBATE DEMOCRÁTICO
BOLÍVAR LAMOUNIER
IDESP — Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de SP.
A análise do pensamento político brasileiro é hoje uma área em
expansão dentro do quadro geral das ciências sociais. Há vinte ou
trinta anos a literatura sobre esse tema era escassa; pior, muitos du
vidavam da utilidade e até da legitimidade dessa atividade. Ao ver
desses, essa área de estudos careceria de objeto, visto que o Brasil
não tinha pensamento político digno do nome - tudo o que aqui se
produzisse seria necessariamente insubsistente e imitativo (“tudo é
colonial na colônia”). Hoje, parece-me desnecessário voltar a essa
discussão. Podemos (e devemos) discutir interpretações, abordagens,
métodos, mas a validade do empreendimento parece fora de dúvida.
Neste sentido, o que ofereço neste artigo não é uma visão global da
área - menos ainda um estudo de textos ou autores específicos - , e
sim alguns apontamentos sobre o que me parece ser o tema crucial
desta nova fase: a consolidação e a reorganização institucional da
democracia em nosso país.
Um dos impulsos mais fortes à revalorização do pensamento
político brasileiro veio do estudo do “ciclo autoritário”, isto é, da
quele grupo de pensadores que se constitui pela análise crítica da
primeira Constituição republicana, passa pela Revolução de 1930 e
chega à justificação ideológica do Estado Novo: digamos, de
Alberto Tones, passando por Oliveira Vianna até Azevedo Amaral e
Francisco Campos. Foi em tomo desse grupo que se desenvolveu o
principal veio energético, geralmente contrastando o seu (alegado)
“realismo” ao “formalismo” dos liberais ou de outros que even
tualmente tivessem visão distinta acerca da organização política de
sejável para o país. Penso que hoje, sob condições internas e inter-
94 B o lív a r Lam oun ier
nacionais tão diferentes, outros ângulos de interpretação e debate
podem ser suscitados. Duas décadas sob regime militar levaram a
maioria dos intelectuais brasileiros a uma visão mais positiva a res
peito da necessidade e das chances da democracia. O colapso do
chamado “socialismo real” e o conseqüente abalo do marxismo co
mo teoria, a fragilidade teórica do economicismo latino-americano,
que há tempos se evidenciava, e o próprio avanço da Ciência Políti
ca nos últimos trinta anos recolocaram em pauta os chamados “for
malismos” da democracia, com toda a sua riqueza analítica. Parece
pois proveitoso examinar em que medida e de que a maneira a de
mocracia foi tematizada pelos pensadores brasileiros no passado, e
como o está sendo hoje.
I. Recapitulação: Três Grandes Fases
Com a inevitável simplificação, penso que três grandes fases
podem ser distinguidas no desenvolvimento do pensamento político
brasileiro neste século. A primeira seria a fase da construção do
Estado (coextensiva ao “ciclo autoritário”): aquela que vai da Pri
meira Guerra Mundial, começando com a obra de Alberto Tones,
até o final do Estado Novo (1937-1945). Nesse primeiropêríòdo, o
foco da discussão é a viabilidade do país como Estado Nacional. O
principal objetivo prático é o fortalecimento do governo central, pa
ra evitar a desagregação que se supunha" que poderia ocorrer sob a
Constituição de 1891. Todo o ciclo da crítica ao liberalismo da Pri
meira República - o que em outro texto chamei de “formação de um
pensamento autoritário” - pode ser visto como resposta a esta ques
tão básica1. Na segunda fase, que começa com o fim da Segunda
1. Ver meu texto “Formação de um Pensamento Autoritário na Primeira Re
pública: Uma Interpretação”. In: Boris Fausto, organizador, História Ge
ral da Civilização Brasileira - O Período Republicano, Tomo 3, vol. 2
(São Paulo: Difel, 1974). Vale a pena lembrar que A Organização Nacio
nal, de Alberto Torres (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933),
Novas formas do debate democrático 95
Guerra Mundial, o foco se desloca decisivamente para a questão da
industnalizqção, vista como requisito ou conseqüência do anseio da
autonomia nacional. O tema fundamental, nesse período, é a mu
dança estrutural da economia e da sociedade. O que se discute é co
mo transformar aquele impulso de industrialização - que inicial
mente fora reflexo - , em um projeto deliberado e consistente de
crescimento econômico, as relações desse projeto com a mudança
social em geral, e suas relações de retroalimentação com a formação
de uma identidade nacional mais “autêntica”. A referência obrigató
ria aqui é ao 1SEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e a
autores como Celso Furtado, Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos.
Embora relevantes, as diferenças então existentes no espectro ideo
lógico não invalidam a caracterização que hoje fazemos do foco -
ou, como diria Mannheim, da “intenção” básica - do pensamento
daquele período. Podemos admitir, por exemplo, que a esquerda não
concebesse a industrialização como um fim em si mesmo, mas como
a condição necessária a uma transformação revolucionária da socie
dade, ou simetricamente, que a industrialização fosse vista de manei
ra ambígua e aceita com restrições por boa parte da direita, preocu
pada com seu impacto na estrutura global depoder ou temerosa de
suas conseqüências sociais disruptivas. O ponto que desejo frisar,
porém, é que a industrialização passou à condição de conceito-cha-
ve, ou de elemento estruturador do campo discursivo; foi ela o ân
gulo sob o qual as questões foram colocadas e discutidas, o ponto de
convergência na pluralidade das formulações e elaborações ideoló
gicas da segunda fase.
Somente mais tarde, uma década após a implantação do regime
militar de 1964, é que começamos de fato a identificar uma terceira
fase, agora centrada na questão democrática: não somente no pro
cesso imediato de redemocratização, mas também nas raízes históri-
apareceu pela primeira vez em 1914; e que Instituições Políticas Brasilei
ras, de Oliveira Vianna (Rio de Janeiro: José Olympio, 1951) é edição
póstuma e de fato reelaboração de numerosos escritos produzidos ao longo
de todo esse período.
Bolívar Lamounier
cas distantes do autoritarismo e da democracia, no caráter democrá
tico ou não da cultura política e, progressivamente, como veremos
adiante, nas formas institucionais mais apropriadas à consolidação
da democracia no país.
A afirmação de que a questão democrática (assim como a
questão redistributiva) não foi dominante no pensamento brasileiro
até pelo menos os anos 60 ou 70 é menos contundente do que pa
rece à primeira vista. Vale a pena recordar que, mesmo na Ciên
cia Política"do' Primeiro Mundo, trabalhava-se nos anos 70 com a
idéia de uma pluralidade de vias para o pleno desenvolvimento po
lítico, e não especificamente com a questão democrática. Foram os
numersos golpes militares e a posterior preocupação com a redemo-
cratização e a consolidação das novas democracias que levaram à
modificação daquela ótica. No Brasil, onde a Ciência Política aca
dêmica apenas engatinhava, a ênfase do debate público recaía muito
mais sobre a construção do Estado e a transformação estrutural da
sociedade (por meio da industrialização) que propriamente sobre a
construção da democarcia. Nos anos 50 e 60, até o golpe militar
de_1964, o tema dos “obstáculos” políticos ao crescimento econô-
mico preponderaya sobre o da consolidação e da boa ordenação de
um sistema político democrático, entendjdo este como valor inde
pendente. Eventuais referências à questão democrática permaneciam
como subtemas ou variações sobre o tema maior ou estavam confi
nadas ao âmbito interno de certas instituições como o legislativo ou
as faculdades de Direito, não encontrando ressonância generalizada
em todo o espectro ideológico. Não quero subestimar aqui a contri
buição prestada à reflexão democrática por figuras maiúsculas como
Assis Brasil, Sérgio Buarque de Holanda e Victor Nunes Leal,
aos quais farei referência adiante. Tampouco subestimo a importân
cia prática da longa tradição eleitoral do país (interrompida por
completo somente durante o Estado Novo, 1937-1945) e dos deba
tes sobre questões institucionais, como a dos sistemas eleitoral e
de governo, que vêm ocorrendo continuamente desde o Império.
Mas a convergência dessas práticas e debates com uma valoriza
ção generalizada da questão democrática é um fato recente. Até
Novas formas do debate democrático 97
meados dos anos 70, os focos analíticos principais haviam sido a
construção do Estado e a transformação estrutural pela industrializa
ção. A democracia - e de certa forma a própria questão redistributi-
va não se localizavam no eixo conceituai dominante.2
II. Mudanças na Tematização da Democracia
Para bem recuperar o pensamento liberal-democrático anterior
a J_964, ou mesmo ao Estado Novo, e para melhor discenir seus di
lemas atuais, era preliminarmente necessário dissolver a catalogação
simplória daquele pensamento como simples “formalismo jurisdi-
cista” ; mais que isso, era necessário reelaborar e dar o devido vigor
à própria idéia do “formal” , para que o processo de representação e
o estudo das instituições que o regulam surgissem com a força que
lhes corresponde dentro da teoria democrática. De fato, o desenvol
vimento histórico da democracia, entendida aqui como sistema polí
tico e não apenas como corrente de idéias, tem como cerne a pro
gressiva diferenciação e autonomização de úm subsistema repre-
sentativo, isto é, de um conjunto de procedimentos eleitorais, parla
mentares e partidários que regulam a investidura de pessoas privadas
2. Vistas as coisas pelo ângulo da historiografia - ou seja, da pesquisa, da
análise e da interpretação - , é claro que não existe a mesma nitidez de fa
ses. O que existe é um elenco de temas que vão e vêm e são abordados de
diferentes maneiras pelos pesquisadores: releituras, que se explicam em
parte pelo desenvolvimento imanente da pesquisa, mas que em parte são
também respostas à agenda política de cada momento. O pensamento polí
tico do passado reaparece em ondas, reapropriado a cada momento segun
do os questionamentos que sucessivas conjunturas apresentam aos pesqui
sadores. Sobre a historiografia das duas primeiras fases, veja-se além do
meu texto da nota anterior, Guerreiro Ramos, “Esforços de Teorização da
Realidade Brasileira, Politicamente Orientados, de 1870 aos Nossos Dias”
(São Paulo: Primeiro Congresso Brasileiro de Sociologia, 1955) e
Wanderley Guilherme dos Saihos, Ordem Burguesa e Liberalismo Político
(São Paulo: Duas Cidades, 1978).
9<S Bolívar Lamounier
em posições de autoridade pública3. A autonomia dessa órbita ob
viamente nunca será absoluta - ela deve corresponder a (representar)
interesses e anseios sociais, e deve ser razoavelmente legitimada
pela cultura política - , mas sua institucionalização é a questão-chave
na evolução da democracia moderna. Não por acaso, foi em tomo
dela que gravitou grande parte da reflexão política brasileira, mesmo
no século passado e na primeira metade deste, quando o foco era a
construção do Estado. O otimismo ou pessimismo sobre o futuro
democrático dos diferentes autores se exprimiu quase sempre sob
esta forma: em que medida a polis poderia de fato destacar-se do oi-
kos, contrapoíse a este e eventualmente subordiná-lo como princi
pal referência normativa no comportamento político. Foi nestes ter
mos (o “complexo de Antígona” ) que Sérgio Buarque de Holanda
sintetizou a tese central de Raízes do Brasil, em 1936:
a idéia de uma entidade imaterial e impessoal pairando sobre
os indivíduos e presidindo os seus destinos é dificilmente ima
ginável para os povos da América Latina (6- edição; p. 138).
Com mais de 50 anos de retrospecto, não é difícil ver que
Sérgio Buarque era mais consistente e sutil em seu culturalismo que
Oliveira Vianna, mas menos perceptivo no que se refere às então
nascentes formas institucionais que Victor Nunes Leal. Oliveira
Vianna despejava toneladas de sarcasmo sobre o “formalismo” dos
liberais, tentando demonstrar que os “complexos culturais” funda
dos no latifúndio constituíam uma barreira intransponível à efetiva
constituição de um ordenamento institucional democrático, mas su
cumbia ao mesmo viés formalisía ao supor que a centralização dita-
3. Ver B. Lamounier, “Representação Política: a Importância de Certos
Formalismos”. In: B. Lamounier, F. Weffort e Maria Vitória Benevides,
organizadores, Direito, Cidadania e Participação (São Paulo: T.A. Quei
roz, 1981). Nos últimos anos, mesmo teóricos de formação marxista pas
saram a dar a devida ênfase aos formalismos da representação como con
dição da “incerteza” necessária ao processo democrático. Veja-se, por
exemplo, Adam Przeworski, Democracy and the Market (New York:
Cambridge and New York: University Press, 1991).
Novas formas do debate democrático 99
tonal do poder tomaria o Estado imune aos partícularismos, ao ne
potismo e aos demais “vícios” decorrentes de nossa formação sócio-
cultural. Sérgio Buarque, mais consistente, considerava que nossas
“raízes” histórico-culturaislimitavam a eficácia normativa, de qual
quer ordenamento institucional, democrático ou não. A democracia
representativa era anêmica, mas a utopia autoritária seria igualmente
corroída por dentro, degenerando em caudilhismo ou alguma outra
forma de autocracia. Opondo-se aos movimentos de extrema-esquer-
da e de extrema-direita, cético quanto às possibilidades imediatas de
quaisquer forças democrático-liberais, Sérgio Buarque parece haver
percebido com razoável antecedência que o desfecho daquela con
juntura - a primeira metade dos anos 30 - poderia ser algo como o
Estado Novo getulista. Longe de abraçar qualquer dessas altemati- • .
vas, optou pela dessecação analítica da estrutura social a elas subja
cente, insistindo sempre nas mudanças, particularmente na crescente
importância das cidades, que iriam a médio prazo forçar uma rees
truturação da vida social e política brasileira4.
Um fato notável, nem sempre frisado nas análises disponíveis,
é que a reflexão de Sérgio Buarque foi escrita justamente no mo
mento em que o país realizava uma ambiciosa reforma institucional,
com o Código Eleitoral de 1932 e em seguida com a Constituição de
1934. Como Sérgio Buarque, tampouco Victor Nunes Leal era um
liberal do tipo voluntarista e jurisdicista. Mas foi Victor Nunes, cer
ca de 15 anos depois, quem formulou com maior precisão analítica a
questão subjacente ao trabalho de Sérgio Buarque, e a questão era
basicamente esta: seriam melhores as chances da reforma eleitoral de
1932, em comparação com as diversas reformas do Império e da
Primeira República? Iríamos dessa vez conter a fraude, liquidar o
4. Ver J.F. Assis Brasil, Democracia Representativa: Do Voto e do Modo de
Votar (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1931); Sérgio Buarque de
Holanda, Raízes do Brasil (TCio de Janeiro: José Olympio, 1936; 6? ed.,
1971); B. Lamounier, “Raízes do Brasil: Quatro Décadas de um Clássico”,
Senhor Vogue, n. 1, Abril de 1978; Victor Nunes Leal, Coronelismo, En-
xata e Voto (São Pauto: Alfa-Ômega, 1986,55 ed.; primeira edição da Re
vista Forense, 1949).
vício do “govemismo” e proporcionar condições de maior envolvi
mento e independência aos eleitores? Em que medida e sob que con
dições poderiam os “formalismos” da democracia representativa ga
nhar eficácia frente às resistências do latifúndio e dos “complexos
culturais” a ele ligados? Ao mesmo tempo que frisava o enorme po
der estratificador da grande propriedade rural na sociedade brasilei
ra, VictorNunes procurou circunscrever cuidadosamente o problema
do coronelismo, evitando a visão demonológica tão comum na es
querda e mesmo em certa direita protofascista. De fato a visão de
monológica é descartada na primeira sentença do livro:
O fenômeno de imediata observação para quem procure conhe
cer a vida polftica do interior do Brasil é o malsinado corone
lismo. Não é um fenômeno simples, pois envolve um complexo
de características da polftica m unicipal....^
Outro aspecto que chama a atenção em Coronelismo, Enxada e
Voto é a plena explicitação de um modelo dinâmico de análise ape
nas sugerido em Raízes do Brasil. Fugindo àquele essencialismo
culturalista tão comum na época - e não totalmente ausente em Sérgio
Büãrque - , Victor Nunes trata de sopesar dois grandes grupos de va
riáveis, como se fossem os pratos de uma balança: num deles está
a inércia cultural, a estratificação legada pela sociedade escravista, a
coagulação do poder ao redor da propriedade rural; no outro, o cres
cimento da população urbanizada e mesmo os efeitos auto-sedimen-
tadores do ordenamento normativo, com a progressiva regularidade
das lutas eleitorais. O primeirp capítulo fala da forte concentração
da estrutura agrária e delineia com precisão os pontos através dos
quais!) poder social dela decorrente se intromete no sistema repre
sentativo, substituindo-se ao poder público. O resultado daquela
simbiose perversa, diz Victor Nunes, é o debilitamento dos govemos
municipais, em proveito dos estaduais, grandes promotores do “go-
100 Bolívar Larnounier
5. Ver Coronelismo, 5- ed., Alfa-Ômega; p. 19. Na ótica aqui esboçada, não
passará despercebida a ambigüidade do adjetivo “malsinado” , que pode
significar acusado com ou sem razão.
Novas formas do debate democrático 101
vemismo”. Lembremos também que o livro foi escrito em 1948, ba
seando-se portanto em poucos anos de prática das regras eleitorais
adotadas em 1932 e quando os índices de urbanização do país ainda
eram baixíssimos. Apesar disso, sua avaliação não era pessimista.
Ao contrário de Sérgio Buarque, que em 1936 ainda se mostrava cé
tico quanto à autonomização do ordenamento representativo frente
aos vínculos do “grupo primário”, Victor Nunes concluiu que, na
dimensão eleitoral, o mecanismo representativo começava a decolar
rumo a sua órbita própria. Não é possível negar - dizia ele na con
clusão do livro “as perturbações que ultimanente vêm minando o
sistema coronelista, as quais se tomaram mais visíveis a partir da
execução do Código Eleitoral de 1932”. Insistia na tese de que o co-
ronelismo, entendido como um sistema, expressava o poder privado
em declínio, e não ascendente, dos grandes proprietários de terra; a
decadência, não a pujança do latifúndio (ver Coronelismo, 5- ed.;
pp. 253-8).
Esta recapitulação de dois clássicos - Sérgio Buarque e Victor
Nunes - estabelece um pano de fundo, contra o qual podemos iden
tificar alguns dos novos eixos do debate sobre a democracia no Brasil.
O primeiro diz respeito à cultura política. Será ela ainda tão defe-
rencial, estratificadora e autoritária como a que se depreende da
quelas antigas descrições do “complexo cultural” fundado no lati
fúndio? Em que medida e sob que aspectos se pode dizer que a cul
tura política seja um obstáculo à consolidação da democracia no
país? Naqueles primórdios, como vimos, a discussão resvalava fa
cilmente para um culturalismo essencialista - os traços culturais
eram vistos como virtualmente imutáveis e altamente determinantes,
levando a um pessimismo exagerado. Em linha com a ciência social
da época (lembremos que Sérgio Buarque foi o nosso primeiro gran
de weberiano), atribuía-se um peso muito grande aos conteúdos
culturais e considerava-se que, na América Latina, esses conteúdos
bl ' ente o desenvolvimento da democracia repre
se w ivitação da população em tomo da grande pro-
102 Bolívar lamounier
priedade rural, tendo em vista os baixos índices de urbanização e in
dustrialização, reforçava ainda mais essa suposição de uma forte
inércia cultural. Pois bem: hoje a ciência social já não é tão cultura-
lista - os novos “racionalistas” da Ciência Política passaram ao
extremo oposto - e aquelas condições estruturais já se acham subs
tancialmente alteradas, mas o debate brasileiro sobre a democracia
às vezes parece mais culturalista que nunca. Incontáveis artigos aca
dêmicos e matérias jomalíticas estão trazendo de volta a noção de
que os mecanismos democráticos serão sempre anêmicos, ou ,linau-
tênticos”, ou “meramente formais”, enquanto os valores e compor
tamentos sociais refletirem de perto a estratificação econômica e
ocupacional. Parece haver no debate público uma constante suposi
ção de que as relações interpessoais e sociais em geral reeditam in
cessantemente um script cultural autoritário, uma eterna danse sur
place, como se fossem totalmente determinadas por uma diferencia
ção vertical imune à urbanização, às comunicações de massa e a ou
tras mudanças comportamentais. Até o mega-clientelismo e a mega-
corrupção das altíssimas esferas, são às vezes interpretados dentro
do antigo paradigma aristotélico: o insufuciente predomínio da pólis
sobre o oikos, das normas gerais sobre os vínculos de sangue. Mas
não será mais razoável considerar que estamos agora diante de fe
nômenos distintos, produzidos porcondições exatamente opostas
àquelas da antiga sociedade rural: pelo hiper-hobbesianismo de um
sistema político complexo e instável, ou pelo hiper-utilitarismo de
uma sociedade forçada a conviver com o acirramento distributívo e
com a inflação crônica? Parece evidente que a relação entre cultura
política e democracia é um tema a ser reexaminado. O modelo la
tente na obra de Sérgio Buarque e de Oliveira Vianna (não impor
tando aqui as diferenças entre ambos) era persuasivo enquanto alu-
dia a um' feixe de variáveis que se mantinha unido em virtude de
certas características do contexto global. Na estrutura social de anti
gamente, a desigualdade de renda e riqueza, o comportamento timo-
rato das camadas pobres, as restrições jurídicas e a despolitização
associavam-se estreitamente, formando um feixe compacto. Nas
grandes concentrações urbanas de hoje, e cada vez mais no meio ru
Novas formas do dehate democrático 103
ral, isso não acontece. A desigualdade.de rendas trabalha no sentido
da manutenção daquela cultura política diferencial, mas a urbaniza
ção e as comunicações de massa trabalham no sentido oposto.6
Outra questão , fundamental é a relação entre os sentidos insti
tucional e substantivo do conceito de democracia. Na literatura in
ternacional da Ciência Política, é hoje amplamente dominante o en
tendimento de que a democracia é um arcabouço institucional para a
luta política pacífica, não um modelo idealizado de sociedade, fun
dado na igualdade sòcioeconômica substantiva. No Brasil, esta dis
tinção não tem sido feita com o necessário rigor. A afirmação de que
a democracia só é “autêntica” quando estreitamente associada a
avanços no plano da igualdade (“voto não enche barriga”) continua
a ser um ponto de encontro entre parcela da esquerda e uma velha
direita autoritária e corporativa. É a tensão entre os conceitos insti
tucional e substantivo da democracia, que existe e sempre existiu
por toda parte, mas que se articula de maneira específica e com im
pacto também diferenciado no pensamento de cada país. A constata
ção inicial é óbvia: a tensão entre essas duas visões da democracia
decorre do grau de pobreza e de desigualdade de rendas existentes
no país, que agora se toma mais dramática em função da forte urba
nização. Decorre também da coincidência no tempo entre a atual
centralidade da democracia como conceito teórico e. os retrocessos
econômicos e redistributivos que tiveram início nos anos 80. Deve-
se ainda, em terceiro lugar, o fato de que a transição ao governo ci
vil em 1985 e a convocação da Assembléia Constituintejsm 1986
exacerbaram expectativas utópicas de assegurar “conquistas sociais”
pela. jria. jurídica (responsável, em grande parte, pelo excessivo de-
talhismo e pela sobrecarga retórica da Constituição de 1988).
Reconhecer as dificuldades associadas ao conceito substantivo
de democracia e apontar os eqúivocos que periodicamente o revigo
6. Ver B. Lamounier e Amaury de Souza, “Democracia c Rclorma Institu
cional no Brasil: Uma Cultura Política em Mudança ’, Hcvixia Dados,
v. 34/3, 1991.
104 Bolívar Ixtmounier
ram, não significa endossar em toda a linha a ótica “minimalista”
que hoje predomina na Ciência Política norteamericana. O conceito
analítico da democracia como um arcabouço político-institucional, a
meu ver correto, não significa que o corpo de hipóteses históricas e
empíricas que_explica a sua consolidação da democracia como sis-
tema em casos concretos possa passar ao largo das desigualdades
sociais e dos obstáculos culturais delas decorrentes. Como na divisa
francesa, penso que a democracia consolidada é uma síntese de três
fatores: a liberdade (um sistema jurídico-institucional capaz de asse
gurar a competição polftica pacífica); a igualdade (a progressiva
“desconcentração” da renda e das chances de vida em geral); e
a fraternidade (uma cultura polftica que amorteça o entrechoque en
tre j>s dois elementos anteriores).7
Igualmente relevante para o debate atual é a distinção entre re
presentação e participação. Em seu clássico Poliarchy: Participation
and Opposition, publicado em 1971 pela Yale University Press,
Robert Dahl sugeriu que o desenvolvimento histórico da democracia
representativa fosse visto como resultante de duas variáveis: de um
lado, a crescente pacificação da luta entre facções de elite, de outro,
a expansão da participação, entendida como inclusão das grandes
massas ao processo eleitoral. Observe-se que enfrentamento pacífico
entre facções de elite (por ele chamado de “contestação”) eqüivale
ao que corriqueiramente designamos como consolidação do processo
representativo: grupos diversos, em geral organizados como parti
dos, adquirem nas umas o direito de representar os seus interesses e
os de seus eleitores, em confronto com outros grupos igualmente in
vestidos em posições de autoridade. Trata-se, portanto, da consoli
dação do subsistema representativo dentro do sistema político glo
bal. Mas a referência à participarão coloca certas dificuldades. Co
7. Ver minhas “Variações sobre um Tema Francês”, capítulo primeiro de
Depois da Transição: Democracia e Eleições no Governo Collor (São
Paulo: Editora Loyola, 1991).
Novas formas do debate democrático 105
mo retrospecto histórico, é certamente correto que a ampliação do
direito de voto — passagem do sufrágio censitário ao universal — foi
uma dimensão relevante do desenvolvimento democrático, mas hoje
a maioria dos países do mundo, inclusive dezenas cujas credenciais
democráticas são duvidosas, reconhecem nominalmente a universali
dade do sufrágio. Neste sentido, o critério de Dahl já não discrimina
satisfatoriamente, servindo apenas como elemento interpretativo da
história passada. Se entendermos a participação de maneira mais
ampla, não apenas como direito, mas como prática efetiva do direito
de voto, as dificuldades aumentam. A participação efetiva pode au
mentar ou diminuir em diferentes países ou períodos, sob o influxo
de diferentes fatores. Nos Estados Unidos, os níveis de compareci-
mento eleitoral dos cidadãos aptos a votar são sabidamente mais
baixos hoje que no século XIX. Se ampliarmos ainda mais o con
ceito de participação, para abranger outras modalidades além da
eleitoral, as dificuldades se multiplicam ainda mais. Nos anos 60,
por exemplo, a participação parecia aumentar por toda parte, sob
o impacto da guerra no Vietnã e de importantes mudanças com-
portamentais. Maio de 1968 foi o momento canônico daquele pro
cesso. Mas, na década seguinte, a reversão foi igualmente notável:
um novo “conservadorismo” (ou nova apatia) tomou-se dominante
até mesmo nos campi universitários do Primeiro Mundo. Devería
mos, então dizer que os países onde ocorreu esse declínio se toma
ram menos democráticos?
As dificuldades acima apontadas tomam-se ainda mais agudas
quando se alega que o ideal democrático na verdade requer a passa
gem à chamada “democracia direta” . Na recente transição brasileira,
como se sabe, o “participacionismo” passou a ocupar um espaço
significativo no debate democrático, a ponto de se inscrever com
destaque no novo texto constitucional. Mas democrático, nesse sen
tido, é o ordenamento institucional que oferece aos cidadãos amplas
oportunidades de intervenção direta, por meio de mecanismos como
o plebiscito e a iniciativa popular? Ou o país onde tais oportunida
des são efetiva e regularmente utilizadas? Na primeira acepção, esta-
ríamos vivendo na plena vigência dessa democracia ampliada, visto
106 Bolívar Lamounier
que a Constituição de 1988 legitima a participação direta já em seu
primeiro artigo. A segunda acepção nos levaria a uma avaliação pes
simista, mas seria justo considerar não-democrática a atual Consti
tuição pelo fato de que, até o momento, aqueles mecanismos se re
velaram inóculos? O fato é que a democraciadireta permance como
um ideal utópico em toda sociedade de larga escala. Este é outro
ponto onde a análise do discurso político do passado e a reflexão
teófíca^sõbre a democracia podem ser combinados de maneira pro
veitosa. Onde será mais “rentável” o investimento, do ponto de
vista democrático: na realização do ideal participatório da democra
cia direta, ou na busca de uma organização institucional mais ade
quada, mantidos os parâmetros da democracia representativa? No
Brasil hoje, esta é uma questão pungente.
■------------------ t
III. Uma Nova Identidade Institucional?
Os debates ocorridos durante a Constituinte e a convocação de
um plebiscito sobre o sistema de govemo realizado em 1993, trouxe
ram de novo à tona a instável identidade institucional do país. Neste
sentido, além da nova centraüdade da democracia e das variações
em tomo deste conceito a que acima nos referimos, o debate atual
tem também como horizonte a fixação de uma nova estrutura ou de
um novo perfil institucional. Vale a pena explorar aqui, à guisa de
conclusão, os parâmetros da estrutura estabelecida nos anos 30, que
constituem o ponto de referência necessário desse debate.8
Meu argumento quanto a este ponto é que o modelo originário
da Revolução de 1930 assumiu a forma de um tripé, cada uma das
pontas do qual correspondia à solução dada a dilemas que haviam
emergido em três distintos subsistemas ou esferas polfico-institucio-
8. Esta seção final reproduz alguns trechos de meu artigo “O Modelo Institu
cional dos Anos Trinta e a Presente Crise BrasOeira” (São Paulo: Textos
tdesp, 1992).
Novas formas do debate democrático 107
nais. Na esfera das relações capital/trabalho a opção foi pelo corpo
rativismo, com a conseqüente rejeição do pluralismo sindicah~No
subsistema representativo, vale dizer, na esfera dos procedimentos
eleitorais e partidários e das relações federativas, a solução escolhi
da foi de caráter consociativo (no sentido de Lijphart), isto é, um ar
ranjo que se orienta mais para a proteção das minorias políticas que
para a formação de maiorias compactas e/ou o exercício unilateral
do poder por parte destas9. Na terceira ponta, o presidencialismo ou
mais exatamente, a radicalização plebiscitária do modelo presiden
cial de origem norteamericana à medida em que se consolidava a
ditadura pessoal de Getúlio Vargas.
Especificar em que aspectos e em que grau o subsistema repre
sentativo brasileiro se assemelha às chamadas democracias conso-
ciativas européias tomaria demasiado extenso o presente artigo.
Lembrarei apenas que o mecanismo consociativo não significa, no
caso brasileiro, concessão de garantias ou equivalências em direitos
a minorias, étnicas, lingüísticas ou religiòsasrdada a pouca projeção
de_ cüvagens desseJipo na arena pública, mas sim a preferência por
mecanismos l^pais arpntuadam^e fraementadores. e mesmo, indivi
dualistas, em diferentes níveis da competição política. O resultado
agregado de tais mecanismos é um sistema muito mais voltado para
o bloqueio multilateral que para o exercício do poder pela maioria
numérica resultante dos pleitos eleitorais.
Os governos militares pós-64 empenharam-se, como é sabido,
em neutralizar a força fragmentadora desses tnyi»iÍ'!mnS impondo
ao país um bipartidarismo artificial (Arena/MDB) e reduzindo a au
tonomia política e financeira dos estados e municípios. Os equívocos
e a intrínseca ilegitimidade dessa tentativa condenaram-na, porém,
ao fracasso.
A construção de um arcabouço institucional consociativo teve
início logo após a Revolução de 1930 e foi produto de uma política
9. Arend Lijphart, Democracies: Patterns o f Majoritarian and Consensus Go
vernment in Twenty-One Countries (New Haven: Yale University Press,
1984).
B o lív a r Lam ounier
deliberada. Destacavam-se entre os motivos para essa orientação, a
crítica generalizada às práticas políticas da Primeira República, com
a Virtual impossibilidade do exercício da oposição contra a oligar
quia dirigente em cada estado e, especificamente, a ocorrência de
duas guerras civis no Rio Grande do Sul. Assim, o Código Eleitoral
de 1932 introduziu parcialmente a representação proporcional no
país, associado ao voto secreto, à criação de um ramo do judiciário
encarregado de organizar e gerir todo o processo eleitoral - do alis
tamento dos eleitores à diplomação dos eleitos - e, logo em seguida,
ao voto feminino. Após a Segunda Guerra Mundial, a representação
proporcional foi consolidada com a introdução do sistema D’Hondt.
No tocante ao esquema lederativo, existe hoje uma controvérsia
acentuada a respeito da super-representação dos estados menos po
pulosos e da subrepresentação de São Paulo na Câmara Federal.
Vale a pena lembrar, entretanto, que esse dispositivo se consolidou
juridicamente após a Revolução de 1930, como reação à situação
anterior, na qual dois estados, São Paulo e Minas Gerais, pratica
mente comandavam toda a federação. Tratava-se, portanto, de um
reforço ao elemento consociativo já inerente ao conceito de federa
ção. O problema, hoje, é que esse enfoque constitucional a respeito
da federação entrou em conflito com o princípio democrático segun
do o qual o voto de todos os cidadãos individuais deve ter o mesmo
peso (“one person, one vote”). Acrescente-se ainda à lista de ele
mentos consociativos a existência, desde 1945, de um sistema multi-
partidário, com extrema facilidade, a partir de 1985, para a formação
de partidos e a concessão quase automática aos mesmos, após o re
gistro legal, de importantes recursos de poder, como o acesso anual
a uma cadeia nacional de rádio e televisão. A única importante ex
ceção à plena vigência do modelo consociativo, que era a proscrição
dos partidos extremistas (na prática, os marxistas), foi finalmente
eliminada em 1985, logo no início do regime civil.
Essa característica consociativa do sistema político brasileiro -
e principalmente a sua origem nos anos 30, épçca ainda marcada-
mente oligárquica - só agora começa a ser percebida e ressaltada
pelos analistas. Dentro dos enfoques até há pouco predomimantes, o
que se percebia era, na melhor das hipóteses, um discurso (no senti
Novas formas do debate democrático 109
do fraco do termo) de “conciliação” , e esse discurso era sempre
atendido como um traço cultural arcaico, sintoma de que a elite
“ainda” não se livrara completamente de suas raizes oligárquicas e
rurais. Mais que discurso, o que de fato ocorria era porém a constru
ção de um ordenamento institucional - ordenamento esse que nada
tinha de arcaico. Assistíamos a uma negociação político-institucional
significativa (embrião de um possível elite settlement no sentido de
Higley & Gunther) e não um “arreglo” excludente, segundo o co
nhecido estereótipo da política brasileira e latinoamericana10. Ao
mainstream da historiografia, brasileira e estrangeira, parece até
hoje inconcebível que mecanismos consociàüv^s possaarexistir em
um país latinoamericano {ergo, de cultura política autoritária), que
passou por dois regimes ditatoriais no período que estamos conside
rando, e no qual clivagens étnicas, religiosas ou lingüísticas de fato
não têm a mesma relevância que nas democracias consociativas es
tudadas por Lijphart. Mas o fato é que a evolução institucional,
(com exceção da restrição aos partidos marxistas), foi muito mais
consistentemente democrática do que se tem admitido, sendo pouco
relevante, neste nível de análise, o discurso sobre o suposto autorita
rismo das elites políticas.
Decorridas seis décadas da Revolução de 1930, podemos e de
vemos questionar se não é excessiva a fragmentação política induzi-
da por esse mecanismo consociativo; se, levado à presente exacerba
ção, ele na verdade não dificulta a estabilidade e a efetividade deci-
sória da democracia. Esta indagação é tanto maisrelevante quando
se considera que a presidência plebiscitária não tem o potencial es
tabilizador e unificador que a ela atribuíram incontáveis analistas,
obviamente inspirados em Getúlio Vargas - ou, para sermos exatos,
na fase ditatorial do getulismo. Num país fortemente urbanizado, so
cialmente muito desigual e cronicamente inflacionário, o carisma
presidencial se esvai com vertiginosa rapidez, vulnerando de manei
10. John Higley & Richard Gunther, Elites and Democratic Consolidation in
Latin America and Southern Europe (Cambridge and New York: Cam-
bridge University Press, 1992).
110 Bolívar l.amounwr
ra decisiva o pressuposto principal do modelo presidencialista ple-
biscitãnó. Do lado do legislativo, a fragmentação das forças políti
cas não é simples “reflexo” da base social, mas também resultado
dos incentivos embutidos no ordenamento institucional, que facilita
a progressão rumo ao legislativo federal de grupos sem verdadeiro
lastro representativo e dificulta a formação de maiorias parlamenta
res estáveis. Nestas condições, a fragilidade do modelo erigido a
partir dos anos 30 vem à tona com extrema nitidez. Frágil em suas
variantes autoritárias (o Estado Novo e o golpe de 1964) por não
poder estabilizar-se numa sociedade já tão complexa e aberta aos in
fluxos internacionais, o sistema político mostra-se também frágil na
moldura democrática. E aqui surge um tema crucial para o debate
atual: se essa fragilidade se deve, como querem muitos analistas,
somente aos “vícios” de nossa formação (a desigualdade social e o
alegado imutável elitismo ou autoritarismo da sociedade brasileira),
ou também a suas qualidades: a consistente evolução, ao longo dos
últimos sessenta anos, no sentido da pluralidade consociativa. Pe
rante Deus e o senso comum, é sempre mais confortável acreditar
que o bem vai com o bem e o mal vai com o mal, em duas bandas
bem distintas; mas, como dizia certo filósofo americano, “it airit
always like that’'.
Convidados pelo Núcleo de Memória Política Brasileira
(da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP),
especialistas nas áreas de Lingüística e Ciência Política
falam dos procedimentos metodológicos de análise do
discurso e pesquisas que fizeram uso dessas metodologias.
Os textos desta coletânea expressam a importância da
análise do discurso feita de modo interdisciplinar, visando
à compreensão do fenômeno social de maneira mais
abrangente. Uma contribuição valiosa para a compreensão
de momentos políticos específicos da sociedade brasileira.