A Dimensão Psicológica da Arte
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A Dimensão Psicológica da Arte

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A Dimensão Psicológica da Arte: Reflexões acerca do Processo de Criação na Perspectiva da Psicologia Analítica
 Mariana Tavares Cavalcanti Liberato

Apenas aquele aspecto da arte que existe no processo de criação artística pode ser objeto da psicologia, não aquele que constitui o próprio ser da arte. (...) Ou seja, a pergunta sobre o que é a arte em si, não pode ser objeto de considerações psicológicas, mas apenas estético-artísticas (JUNG, 1991, p. 54).

	Tomando como ponto de partida a citação acima, proferida por Jung, numa palestra sobre a “Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética”, desejamos discorrer de maneira breve acerca do modo peculiar de conceber a produção psicológica e a criação artística, apresentado por tal abordagem.
	Começamos tentando delimitar, com o autor já mencionado, o que estaria no campo da psicologia em relação à arte. Percebemos, pois, que não estamos tentando dizer o que é arte, mas procurando conhecer mais a respeito da atividade criadora e da estruturação da obra de arte. Sob esta perspectiva, a psicologia analítica busca contribuir no processo da decifração das imagens simbólicas contidas em determinada obra, clarificando suas significações, que, muitas vezes, não são possíveis de serem apreendidas pela a visão da época vigente (Silveira, 1976, p.55).
 	É importante determo-nos um pouco mais na questão trazida acima, que envolve a compreensão das imagens simbólicas de uma obra de arte. Este é um ponto fundamental que aparece quando falamos em criação artística na teoria junguiana. Para tal abordagem, existem dois diferentes processos na criação de uma obra. Um destes processos estaria mais vinculado à intenção do artista, ao que ele deseja representar. Esse tipo de arte é bastante acessível e de fácil compreensão. O outro, todavia, parece escapar ao próprio artista que o concebe. É como se, de súbito, fosse tomado por uma inspiração avassaladora, que o move a dar determinada forma a sua arte.
 	Quanto a esses dois processos, é interessante esclarecermos que, primeiramente, Jung trata-os referindo à criação literária. Posteriormente, o crítico contemporâneo Herbert Kühn irá pensar esses dois processos, de forma análoga, nas artes plásticas. Denomina-os, respectivamente, de “Arte dos Sentidos” e “Arte da Significação”.
	Um outro ponto relevante é que esses dois tipos de processo não são mutuamente excludentes. Eles ocorrem em diversos graus de intensidade. Jung diz que, mesmo no primeiro caso, o artista não escapa da influência do inconsciente (si-mesmo) (op.cit., p.63).
	Nesta breve explanação, vem desenhando-se algo fundamental em nossa análise: para a psicologia analítica, o processo criativo vai além do consciente, do pessoal. A esse processo criativo, tal abordagem nomeia-o de complexo autônomo.
	Este é um conceito bastante caro à psicologia junguiana. Para auxiliar-nos na clarificação do mesmo, recorreremos à Nise da Silveira (1976): “Os complexos são agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de afetividade. Compõe-se primariamente de um núcleo possuidor de intensa carga afetiva. Secundariamente estabelecem-se associações com outros elementos. Formam-se assim verdadeiras unidades vivas, capazes de existência autônoma” (p.35).
	Esses complexos constituem a maior parte dos conteúdos do inconsciente pessoal, mas não são restritos a ele. Existem complexos de outra natureza, relativos a manifestações vitais do ser humano. O que tal constatação mostra-nos é que os complexos estão alicerçados sobre uma base comum, os arquétipos.
É importante esclarecermos que arquétipos não são idéias ou imagens inatas, mas maneiras instintivas de imaginar e de fazer representações que se assemelhem. De uma maneira simplificada, o que torna-se mais relevante acerca desta questão é que podemos sempre pensar na ligação entre vivências individuais e as grandes experiências da humanidade (ibid.).
	Tomando como base esses conceitos, Jung irá abordar as obras de arte, ao serem interpretadas, como possuidoras de um caráter superpessoal, inerente às produções humanas.
	Como exemplo disso, temos a análise que o autor faz de um quadro de Leonardo da Vinci: “A Virgem, o menino Jesus e Sant’Ana”, exposto no Museu do Louvre. Este quadro também foi alvo de análise de Freud, em seu artigo sobre o pintor.
	A diferença marcante entre as duas interpretações é que, enquanto Freud preocupa-se, primordialmente, em descobrir conexões entre o que foi pintado e os acontecimentos emocionais infantis de Leonardo; Jung, por sua vez, dá relevância à imagem arquetípica na qual se estrutura a figura, dando menor destaque à psicologia individual do autor.
	Deste modo, sua análise inicia apoiando-se na hipótese de ter ocorrido uma reativação do arquétipo mãe, devido aos fatos acontecidos na vida de Leonardo. O pintor, quando criança, teve a experiência de conviver com duas “mães”. Uma era Caterina, sua mãe legítima e a outra, era Donna Albiera, esposa de seu pai. Quando possuía por volta de cinco anos, Leonardo foi levado para morar com o pai e com sua madrasta.
	Além disso, foi descoberto por Oscar Pfister, a projeção da imagem de um abutre nas pregas do manto da Virgem. Tal imagem projetada inconscientemente pelo pintor, vincula-se a uma recordação fantasiosa de sua infância, onde uma abutre teria posto a cauda em sua boca, quando ele ainda estava no berço. Freud irá deter-se mais neste ponto, apesar de traçar alguma paralelo entre a vivência do pintor e mitos da antigüidade egípcia.
	Jung, contudo, enfatiza este aspecto, meio relegado por Freud, ligando todas essas imagens ao mito egípcio de Mout, uma deusa mãe, que era representada com corpo de mulher e cabeça de abutre. Com isso, demonstra que, mesmo o arquétipo mãe assumindo formas mais condizentes com a época (figura da Virgem e de Sant’Ana), a representação do abutre ainda aparece de forma velada.
	 A figura mãe desdobra-se, também, em relação a outro mito, popular em vários povos, que é a de ser uma característica de heróis possuir duas mães: a mãe carnal e a mãe espiritual. Esses dois aspectos encontram-se no mesmo arquétipo e aparecem na obra de da Vinci.
	Este é um exemplo bastante interessante, que nos possibilita uma melhor compreensão em relação ao que já foi referido anteriormente sobre o papel dos complexos e dos arquétipos no processo de criação artística. Muitos outros exemplos ainda poderiam ser citados, inclusive relativos a obras mais contemporâneos. Artistas como Picasso, Lispector, Zé Ramalho, entre tantos outros, poderiam ser por nós analisados e, com certeza, muito contribuiriam com nossa reflexão.
Em relação ao que já foi posto, resta-nos, ainda, frisar que não basta haver a emergência de imagens arquetípicas, para se criar uma obra de arte. Essas imagens estão sempre revelando-se em nossa vida cotidiana, seja através de sonhos ou de fantasias inerentes ao humano. Para que tais imagens transformem-se em arte, é necessário que sejam elaboradas, de maneira que tornem-se acessíveis a linguagem da época na qual estão inseridas. Esse processo de elaboração (ou transmutação, como refere-se Silveira) ainda não foi possível de ser explicado por nenhuma psicologia.
	Para finalizar, deixemos com o próprio Jung a tarefa de condensar o que, nesta curta explanação, tentamos expor, visando o fomento da discussão acerca do encontro entre arte e psicologia.

Este é o segredo da ação da arte. O processo criativo consiste (até onde
nos é dado segui-lo) numa ativação inconsciente do arquétipo e numa elaboração e formalização na obra acabada. De certo modo a formação da imagem primordial é uma transcrição para a linguagem do presente pelo artista, dando novamente a cada um a possibilidade de encontrar o acesso às fontes mais profundas da vida que, de outro modo, lhe seria negado. É aí que está o significado social da obra de arte: ela trabalha continuamente na educação do espírito da época,