Coletânea   Parte V   Adolescência
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Coletânea Parte V Adolescência


DisciplinaPsicologia da Adolescencia e Idade Adulta42 materiais279 seguidores
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CAPÍTULO 20 
Adolescência: tornar-se jovem 
quando eu tiver setenta anos 
então vai acabar esta adolescência 
vou largar da vida louca 
e terminar minha livre docência 
vou fazer o que meu pai quer 
começar a vida com passo perfeito 
vou fazer o que minha mãe deseja 
aproveitar as oportunidades 
de virar um pilar da sociedade 
e terminar meu curso de direito 
então ver tudo em sã consciência 
quando acabar esta adolescência 
Paulo Leminski
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Quando lemos um livro, particularmente um livro que fale de 
Psicologia, esperamos nos encontrar em suas páginas. Mas geralmente 
esses livros estão distantes de nossas vidas. Falam de coisas que não 
sentimos, usam termos que não escutamos, enfim, estão descolados de 
nossa realidade. 
Esse distanciamento entre a vida e a teoria é conseqüência do 
trabalho científico, que produz abstrações sobre a realidade. A ciência 
não reproduz a realidade, mas afasta-se dela para poder compreendê-la. 
Discutimos um pouco esse aspecto no primeiro capítulo deste livro, 
quando procuramos separar o conhecimento científico do conhecimento 
do senso comum. 
Entretanto, em nenhum outro capítulo esta questão fica tão 
evidente quanto na discussão sobre a adolescência. Enquanto estamos 
discutindo o tema cientificamente, você, jovem, está vivenciando [pg. 
290] o fenômeno. O risco aqui é o de nos distanciarmos completamente 
do leitor ou, com um pouco de sorte, estabelecer uma conversa franca, 
honesta, sem moralismo. E muito difícil estabelecer o limite entre esses 
dois extremos. Por um lado, fala a cabeça racional do cientista e, por 
outro, o desejo do educador do encontro com a juventude. 
Abrimos o capítulo com uma poesia de Paulo Leminski que traduz 
um pouco as inquietações da juventude. Loucura e liberdade ao lado de 
controle e responsabilidade. Uma vontade de ser criança e adulto ao 
mesmo tempo. Essa parece ser a linha. Levantar as questões teóricas 
que mais se aproximem desse conflito e buscar na poesia, na literatura, 
aquele toque de vida e de emoção que falta na teoria. Venha conosco! 
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Um grupo de psicólogos e pesquisadores da Universidade de 
Roma realizou uma pesquisa com jovens italianos, originando um 
extenso volume chamado A condição juvenil: crítica à Psicologia do 
adolescente e do jovem, publicado em 1980. Nesse livro, procuram 
discutir a definição de adolescente e de jovem. 
A primeira conclusão dos autores é a de que as palavras 
adolescência e juventude não têm uma definição precisa. Vários 
estudiosos dizem que a adolescência é a fase que vem depois da 
infância e antes da juventude. Chegam a afirmar que a adolescência 
começa por volta dos doze anos e termina por volta dos dezoito. 
Já no senso comum, no dia-a-
dia das pessoas, o termo adolescência 
é pouco usado. Dá-se preferência ao 
termo juventude para designar tanto o 
menino ou a menina após a 
puberdade quanto o jovem adulto. 
O fato é que não há um critério 
claro para definir a fase que vai da 
puberdade até a idade adulta. Essa 
confusão acontece porque a 
adolescência não é uma fase natural 
do desenvolvimento humano, mas um derivado da estrutura 
socioeconômica. Em outras palavras, nós não temos adolescência e sim 
adolescentes. [pg. 291]
Parece contraditório afirmar que não existe adolescência, mas que 
existem adolescentes. Acontece que os critérios que poderiam definir 
essa etapa não fazem parte da constituição do indivíduo, mas são 
construídos pela cultura. Não podemos falar em uma fase natural do 
desenvolvimento humano denominada adolescência. Mas, quando uma 
determinada sociedade exige de seus membros uma longa preparação 
para entrar no mundo adulto, como na nossa, teremos de fato o 
adolescente e as características psicológicas que definirão a fase, que, a 
título de compreensão, diremos que foi artificialmente criada. 
Acompanhando ainda os pesquisadores da Universidade de Roma, 
podemos dizer que a evolução do indivíduo na nossa cultura dá-se 
através de uma série de fases: a pré-natal, a do neonato (a criança assim 
que nasce), a infância, a pré-adolescência, a adolescência, a adulta e, 
por fim, a velhice. 
Mas seria possível atribuir essas fases a outras civilizações? Para 
ficar somente com um exemplo, citaremos o estudo realizado pelo 
Os critérios que poderiam definir a 
adolescência são construídos pela cultura. 
etnólogo Bronislaw Malinowski1 (1884-1942), acerca da cultura dos 
nativos trobriandeses, que vivem em ilhas do noroeste da Nova Guiné na 
Oceania: 
No caso dos jovens trobriandeses, a puberdade começa antes que 
na nossa sociedade mas, nessa fase, as meninas e os meninos 
trobriandeses já iniciaram sua atividade sexual. Não há, como em outras 
culturas primitivas, um determinado rito de passagem para a fase adulta. 
Apenas, gradualmente, o rapaz vai participando cada vez mais das 
atividades econômicas da tribo e até o final de sua puberdade será um 
membro pleno da tribo, pronto para casar-se, cumprir as obrigações e 
desfrutar dos privilégios de um adulto. 
Essa fase descrita pelo etnólogo, se é possível estabelecer um 
paralelo, estaria para a nossa sociedade, em termos etários, definida 
como pré-adolescente. Entretanto, no nosso caso, as relações sexuais 
vêm bem depois dessa fase. Outra diferença é que os nativos das ilhas 
Trobriand, devido ao tabu que representam as relações sexuais cora as 
irmãs, saem de casa na puberdade, para uma espécie de república 
organizada por um jovem mais velho não casado, ou por um jovem viúvo. 
Essa \u201crepública\u201d tem o nome de bukumatula, e lá os jovens, moças e 
rapazes, moram sem controle dos pais. Mas, até que casem e organizem 
suas próprias casas, trabalham para as suas famílias. [pg. 292]
Esse exemplo mostra que a adolescência não é uma fase natural 
do desenvolvimento humano, deixando claro o alerta que nos fazem os 
autores italianos, ao afirmar: 
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1
 Bronislaw Malinowski. Sexo y represión en la sociedad primitiva. 
2
 G. Lutte. \u201cAdolescenza e gioventu: fasi naturali dello sviluppo umano o istituzioni socio-economiche di 
emarginazione e sfrutamento?\u201d In: G. Lutte et alii. La condizione giovanile. p. 15 (Trecho trad. autores). 
Isto é, se pensarmos no caso dos trobriandeses, verificaremos que 
entre eles ocorre um salto da pré-adolescência (que é mais prolongada 
que a nossa) para a fase adulta. Dessa forma, não existiria adolescência 
entre eles. 
Podemos considerar, então, 
que a adolescência é uma fase 
típica do desenvolvimento do 
jovem de nossa sociedade. Isso 
porque uma sociedade evoluída 
tecnicamente, isto é, 
industrializada, exige um período 
para que o jovem adquira os 
conhecimentos necessários para 
dela participar. 
Essa concepção parece 
correta, já que o adolescente 
precisa, para enfrentar 
determinadas profissões, de uma preparação muito mais avançada que a 
das sociedades primitivas. Mas não se pode dizer que todo adolescente 
de nossa sociedade passa pelo mesmo processo, já que