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EUGENE BOYLAN 
A DIFICULDADE 
DE ORAR 
EDITORIAL ASTER 
LISBOA 
http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
A D I F I C U L DAD E 
D E ORAR 
EUGENE BOYLAN, neste livro, dirige-se 
sobretudo àquelas pessoas que encontram 
dificuldades nos métodos usuais de meditação. 
Fala de oração àquelas almas que sentem 
a necessidade de falar com Deus, porque 
sabem que é Pai, e dá-nos uma lição prorunda 
e simples: sendo a oração absolutamente 
necessária para a vida cristã, não pode estar 
obrigatoriamente ligada a processos compli­
�dos, diriceis para a mentalidade normal. 
A oração tem de ser natural e constante, 
como a respiração para a vida rlsica. 
O autor dirige-se, portanto, a todos os 
cristãos, mostrando-nos como a todos é aces­
sfvel a oração - tanto ao religioso arastado 
do mundo, como ao sacerdote secular, ou 
ao simples cristão na sua vida corrente -, 
porque a oração é afinal o resultado da ami­
zade que se possuir com Deus, sendo, ao 
mesmo tempo, causa duma progressiva inti­
midade com Ele. 
' 
p R E F A c I o 
H á um processo para imprimir desenhos a cores que 
requer a elaboração de chapas separadas para cada 
cor elementar que compõe o desenho. As impressões 
de cada uma destas chapas são sobrepostas umas às 
outras e, se a intensidade relativa de cada cor é correcta, 
o resultado é bastante natural. Se, no entanto, qual­
quer dos tons é demasiado fraco, então haverá um 
defeito correspondente na reprodução final da cor 
autêntica, que pode talvez corrigir-se com uma impres­
são suplementar do elemento enfraquecido. 
Ora a finalidade destas páginas é algo parecido com 
essa impressão suplementar. Não é que a apresen­
tação corrente da oração mental seja defeituosa, mas 
a ideia que muitas almas receberam da oração mental 
precisa de ser reforçada em algumas «cores». Esta 
finalidade expiica a extensão Irregular em certas maté­
rias, que o leitor notará nestas páginas. O assunto da 
meditação metódica é apenas esboçado, já que há 
tantos livros excelentes que a tratam elft pormenor. 
Além disso, as almas a quem este livro é primeiramente 
dedicado, são aquelas que não conseguem aproveitar 
com os métodos usuais de meditação, e também aquelas 
que em tempos foram capazes de meditar, mas que agora 
acham que se lhes tornou impossível fazê-lo. 
9 
PREFÁCIO 
Para enquadrar esta impressão suplementar no 
quadro geral da oração esboçou-se pelo menos o assunto 
na generalidade, abordando-se mais largamente algu­
mas faces que parece necessitarem de um tratamento 
mais minucioso. Mas há outro motivo para que insis­
tíssemos em incluir uma análise de estados de oração 
como aquela a que chamamos a oração de fé, e para 
que peçamos ao leitor, seja qual for a sua posição na 
escada da oração, que leia a obra toda. Diga-se o 
que se disser àcerca da lei geral do desenvolvimento 
da oração, quando se observa e se tira a média entre 
um grande número de almas diferentes, a maior parte 
dos indivíduos acha que a sua trajectória de progresso 
é extremamente sinuosa e revela variações rápidas e 
amplas. Parece, portanto, que, excepto talvez mesmo 
ao principio, uma familiarização com a natureza e a 
técnica de todos os estados de oração é não só vantajosa 
em qualquer estado, mas até necessária em todos eles. 
Esta obra, apesar do título, não é uma análise cien­
tífica ou um catálogo classificado das várias dificul­
dades que podem surgir na oração, como uma solução 
prática completa para cada um, colocada no lugar 
devido. O seu objectivo é, antes, discutir a natureza 
e os modos de oração, não com objectividade cienti-
lO 
PREfÁCIO 
fica, mas do ponto de vista individual, encarando-a 
como ela aparece a cada um. Deste modo espera-se 
colocar a alma em cpndições de lutar com a maior 
parte das suas dificullades. Além disso, o objectivo 
principal não é tanto instruir o leitor como animá-lo a 
insistir na oração e levá-lo a procurar novos esclareci­
mentos nos trabalhos de penas mais competentes. 
Por isso é que o tratamento do assunto é tão conden­
sado; e tanto é assim que será necessária uma segunda 
leitura para extrair dele tudo quanto tentámos dizer. 
Esta segunda leitura é ainda mais aconselhável pelo 
facto de que os capítulos iniciais serão mais fàcilmente 
entendidos à luz dos seguintes. 
Por ser ponto tão bem tratado em muUas outras 
obras, supõe-se que o leitor tem consciência da neces­
sidade da oração mental. Um cristão que não ora, é 
como um homem que nem pensa nem quer �·um sim­
ples animal na vida espiritual. A busca da perfeição 
é completamente impossível sem a oração mental que 
pode, é claro, fazer-se com bastante inconsciência. 
De facto, pode dizer-se que se um homem não ora, não 
pode salvar a sua alma. 
E nem mesmo nos é lícito pensar que os próprios 
leigos estão, pela sua vida, excluídos de aspirar a um 
11 
PREFÁCIO 
progresso na oração como o que se indica neste livro. 
Qualquer pessoa que esteja preparada para servir a 
Deus com boa vontade e dedique diàriamente tempo 
bastante à leitura espiritual e à oração pode com fun­
damento esperar crescer em amizade com Deus, isto 
é, progredir na oração. As dificuldades dos leigos na 
vida interior requerem uma análise mais detalhada do 
que se pode fazer neste livro, mas não são insuperáveis 
e não podem impedir que nenhum leigo de boa vontade 
tenha uma vida interior de oração mesmo no mundo. 
Somos, além disso, completamente contrários à teo­
ria de que não há nenhum estado de oração entre a 
meditação metódica ordinária e a contemplação pas­
siva. Como, segundo esperamos, se tornará evidente 
nestas páginas, a oração parece-nos ser o resultado de 
uma progressiva intimidade e amizade com Deus. 
Se a oração não pode progredir, então tão-pouco pode 
progredir a amizade. 
Este ponto é de grande importância prática, porque 
as falsas noções a este respeito podem fazer com que 
a alma perca todas as esperanças de alcançar a união 
com Deus. Ao longo do que se segue, tentaremos 
mostrar como esta união pode ser procurada e encon­
trada por uma intimidade sempre crescente com Jesus 
12 
PREFÁCIO 
na oração e no trabalho. Isto conduz a encarar cada 
exercício da vida religiosa como um ponto de encon­
tro onde o cristão tem a certeza, não só de achar Jesus, 
mas também de poder e.f_tar unido com Ele. 
Notar-se-á ainda que se evitou, em grande parte, 
dividir a oração em estados de desenho e recorte nítidos. 
As definições, quando de todo se dão, são frequente­
mente amplas e algumas vezes vagas. Isto, no entanto 
é propositado. Não vale a pena querermos ser mais 
precisos nem mais rigorosos nas nossas noções do que 
o é a própria realidade da oração. Ora a oração, em 
especial do ponto de vista individual, pode muitas vezes 
ser muito imprecisa e inclassificável. E ainda mesmo 
se existe uma escada de oração bem marcada para cada 
individuo, não é de modo algum necessário, pelo menos 
como regra geral, saber em que degrau se encontra. 
O importante é evitar parar, e subir sempre. 
O facto de a mesma dificuldade reaparecer com fre­
quência em diferentes estados do progresso na oração, 
e de o mesmo principio ter muitas aplicações ao longo 
da vida espiritual conduziu a algumas repetições no 
texto. Num livro escrito para ir ao encontro das neces­
sidades de almas isoladas e que foca o seu assunto de 
diferentes pontos de vista e tenta tratar os muitos mal 
13 
PREFÁCIO 
entendidos e noções erradas com que se pode topar, 
tal repetição parece justificada e será, segundo cremos, 
perdoada de bom grado. 
Não nos desculpamos de fazer o que só pode ser uma 
tentativa imperfeita na difícil tarefa de esboçar a dou­
trina de S. Paulo sobre a habitação das pessoas divi­
nas na alma baptizada e a incorporação da alma em 
Cristo. Esta doutrina foi o alicerce do ensinamento 
doapóstolo. É ainda um fundamento sem rival para 
uma vida de oração, parecia-nos que é não só o melhor 
encorajamento para ela, mas também o mais seguro 
apoio para a esperança de levá-la a bom termo. Em 
particular, o próprio S. Paulo dá testemunho de que o 
Espírito Santo auxilia a incapacidade da nossa oração, 
e muitos teólogos vêe11J uma estreita relação entre a 
operação dos dons do Espírito Santo e o desenvolvi­
mento da oração. 
O facto da busca da oração implicar a busca da san­
tidade, não há-de causar alguma dúvida a ninguém 
quanto à possibilidade de a alcançar. Quando o nosso 
Salvador se lavantou de entre os mortos, tinha tomado 
sobre si mesmo e triunfado de todos os possíveis 
obstáculos do nosso passado, do futuro de nós mes­
mos ou da nossa volta, que pudessem interferir na 
14 
PREFÁCIO 
nossa santidade. A agonia que despedaçou o seu 
sagrado Coração no Horto, foi o pensamento de que 
depois de ter feito e sofrido tanto - muito mais do 
que seria porventura necessário - pela nossa santidade, 
nós havíamos de tornar o seu sangue inútil pela nossa 
cobardia e pela nossa ausência de fé e de confiança 
n' Ele. O maio� valor que nós podemos dar aos sofri­
mentos de Cristo, é acreditar que podem santificar até 
mesmo os que são como nós. 
Temos de facto de completar em nós mesmos aquilo 
que falta à ressurreição de Cristo no seu Corpo, dei­
xando-o ressuscitar em nós pela nossa santidade. 
Se se desprender destas páginas alguma graça, algum 
bem, algum proveito, isso deve-se à intercessão de 
Maria- Mãe de Cristo-, deve-se à graça do Espf­
riU) Santo que opera no mais indigno sacerdote, deve-se 
aos sofrimentos de Cristo, que mereceu todas as 
graças para os homens, deve-se à misericórdia do Pai 
do Céu, que quer restaurar todas as coisas em Cristo, 
no qual, na unidade do Espfrito Santo, reside toda a 
sua glória. 
15 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
IN T R O D U Ç Ã O 
Perante a dificuldade sempre crescente de levar 
uma vida santa em contacto com um mundo que se 
torna cada vez mais flagrantemente pagão, impelidas 
muitas vezes pelo sentimento mais ou menos cons­
ciente das necessidades de um dos momentos mais 
críticos da história da cristandade, muitas almas 
começaram a examinar o estado da sua saúde espi­
ritual e a procurar meios de progredir. A necessi­
dade de maior energia interior levou-as a considerar 
em especial a sua oração, pois foi-lhes dado chegar 
a compreen der que a oração é a fonte do seu vigor 
e o centro da sua vida espiritual. 
O resultado da investigação é, em muitas casos; 
insatisfatório e desanimador. Muitos acham que 
alguma coisa está mal na sua oração ; notam uma 
falta de progresso, uma dificuldade cada vez maior 
e mesmo uma crescente falta de gosto nesc:e exercício. 
Alguns concluem que para eles é uma pura perda 
de tempo continuar a «oram como t�m feito ; 
outros acham o tempo dedicado à oração uma carga 
que se está a tornar quase intolerável. É na espe­
rança de fazer alguma coisa para aliviar estas difi­
culdades que estas páginas foram escritas. 
Não há razão nenhuma para que os seculares, no 
mundo, não encontrem proveito na discussão destes 
dramas. Mesmo os principiantes podem cobrar 
17 
A DIFICULDADE DE ORAR 
coragem se as possibilidades da oração lhes são 
postas diante, e uma vez que se corrijam os seus 
mal-entendidos sobre a natureza da oração, tentarão 
a sua prática regular com renovado propósito. Mas 
só depois de se ter feito uma tentativa continuada 
na oração regular, é que estas linhas encontram por 
completo a aplicação pretendida. 
Não se pretende fornecer um catálogo exacto das 
dificuldades da oração, com um remédio determinado 
para cada uma; antes esperamos, que examinando 
as origens donde procedem as dificuldades, o leitor se 
tomará capaz, talvez depois de algumas experiências, 
de encontrar uma solução para os seus problemas. 
Visto que muitas das dificuldades surgem de noções 
erradas da sua natureza, vamos em primeiro lugar 
passar uma breve revista ao desenvolvimento da 
oração, de modo a fixar a nossa perspectiva, para 
então voltarmos a uma análise mais detalhada dos 
seus vários elementos e estados. 
Falando tecnicamente, a oração é uma elevação 
do espírito e do coração para Deus, para o adorar, 
para o louvar, para lhe agradecer os seus benefícios 
e lhe pedir graça e misericórdia. Num sentido mais 
restrito, a palavra restringe-se à oração de petição, 
isto é, ao pedir a Deus coisas convenientes. Os seus 
principais efeitos são fazer-ncs amar a Deus mais 
e mais, conformar a., nossas vontades com a sua, 
fazer-nos verdadeiramente humildes e levar-nos a 
estar mais intimamente unidos a Ele. 
Pode com acerto descrever-se como uma conversa 
amorosa com Deus, especialmente se se recorda 
que a conversa abrange tanto o ouvir como o falar, 
e que os grandes amigos podem com frequência 
conversar sem palavras. Quando com os lábios 
utilizamos uma dada fórmula e procuramos confor­
mar de algum modo os nossos pensamentos e dese-
18 
INTRODUÇÃO 
1os com us nossas palavras, temos o que vulgarmente 
HC chnmu oração vocal. Mas, é claro, para que che­
�uc a ser oração, o espirito tem de tomar nela alguma 
pnrtc. Naquilo que se chama oração mental pro­
curamos fazer surgir estes pensamentos e desejos 
em nós, por alguma reflexão e então dar-lhes expressão 
por palavras- palavras nossas, em geral- ou 
mesmo por aquele eloquente silêncio em que o cora­
ção fala a Deus e lhe dá o louvor adequado sem o 
ruldo das palavras. Mas ainda que articulemos 
palavras, ou pronunciemos esses actos e desejos, a 
nossa oração não deixa por isso de ser oração men­
tal. É este, um erro que algumas pessoaf corr.etem, 
pensando que devem reprimir qualquer expressão 
articulada ou discurso, na oração mental. Pelo 
contrário, se, como é frequentemente o caso, a arti­
culação com os lábios contribui para tornar os nossos 
actos mais ferverosos ou mais reais, pode perfeita­
mente usar-se. Mas não é essencial. Nisto, como 
em assuntos semelhantes deve prevalecer uma santa 
l iberdade de espírito. 
Os «actos» que fazemos na oração, chamam-se 
afectos. O significado corrente desta palavra é 
inteiramente diverso do que se lhe dá aqui. Os 
afectos na oração são essencialmente actos de von­
tade pelos quais ela se dirige para Deus, e suscita 
outros actos das diversas virtudes, tais como fé, 
esperança e amor, arrependimento, humildade, gra­
tidão ou louvor. Nos primeiros estados da vida 
espiritual, estes afectos não podem, geralmente, ser 
produzidos sem uma consideração laboriosa e um 
e.:;forço fatigante. As coisas desta vida, o afogadilho 
da actividade humana, a experiência diária dos sen­
tidos, de tal modo inundam li imaginação e excitam 
as emoções que as verdades mais abstractas da fé 
e os mistérios da vida de Cristo, a dezanove séculos 
19 
A DIFICULDADE DE ORAR 
de distância, pouco cabimento têm no espirito. Temos, 
portanto de gastar algum tempo da oração a passar 
em revista estes pensamentos e a estimular o coração 
para que actue e dê expressão aos seus desejos. 
A palavra meditação, no seu sentido estrito, denota 
este trabalho preparatório da reflexão e considera­
ção, que ainda não é realmente oração ; é apenas um 
prelúdio para a oração. Os afectos e petições cons­
tituem a verdadeira oração. 
Por este motivo é pouco feliz o costume de aplicar 
a palavra meditação ao conjunto de exercícios da 
oração mental. Apesar de reservarmos este ponto 
para uma análise mais completa num capítulo pos­
terior, diga-se desde já que a palavra meditação, 
no seu sentido mais lato, quando aplicada ao exer­
cício da oração mental em conjunto, abrange muito 
mais que o sentido estrito da palavra. Para que 
possa chegar a ser oração, tem de incluir algumas 
petições ou actos. 
À medida que se avança na vidaespiritual, desen­
volvem-se convicções que fàcilmente se revivem no 
momento da oração ; a leitura e a reflexão, dois ali­
mentos essenciais da vida espiritual, aprofundam o 
conhecimento de Cristo e da sua doutrina, e 
fazem-nos crescer no seu amor; a realidade das coi­
sas do espirito toma-se mais intensa. O resultado 
é que o tempo necessário para a consideração preli­
minar se reduz cada vez mais e os afectos apresen­
tam-se mais fàcilmente e ocupam gradualmente a 
maior parte do tempo da oração. Uma tal oração 
chama-se «oração afectiva». 
Nessa altura, exactamente como quando se esta­
belece a amizade entre dois homens, amadurecem 
a mútua compreensão e a comunhão de objec­
tivos e as palavras começam a ganhar toda uma 
riqueza de significado, assim também, à medida 
20 
INTRODUÇÃO 
que cresce a intimidade com Deus, a virtude progride 
paralelamente, podemos descobrir que os nossos 
afectos - isto é, os nossos actos de vontade e das 
outras virtudes - necessitam cada vez de menos 
palavras para se exprimirem, e pode algumas vezes 
acontecer que nos contentemos com ajoelhar em 
adoração silenciosa, ou em mudo arrependimento, 
ou com qualquer outro «afecto» semelhante, sem usar 
pa1avras. Assim, a nossa oração simplifica-se. 
A esta oração simplificada chama-se frequente­
mente <<Oração de simplicidade», mas embora os 
autores estejam de acordo quanto à definição do 
termo, poderia parecer que a aplicam a coisas muito 
diferentes, e por isso, para evitar mal-entendidos, 
parece-nos preferível evitar nestas páginas, o uso 
daquela express�o. A oração a que acabámos Je 
nos referir pode ser chamada oração dos afectos 
simplificados. 
Em tudo isto, � claro, a graça de Deus tem estado 
a trabalhar. Algumas vezes, no entanto, no caso 
duma alma que é generosa e humilde, e que se recusa 
a pactuar e a assinar a paz com o amor próprio 
- não importa quantas vitórias ocasionais possa ter 
ganho o inimigo - acontece que Deus começa a 
desempenhar um papel ainda maior na sua oração 
A sua acção é dum tipo novo e pode de im­
cio passar desp�cebida. Opera nas profundidades 
da alma e serve-se muito pouco, ou nada, da imagi­
nação ou das emoções ou mesmo da actividade ordi­
nária da inteligência. Este estado de oração, que 
aqui chamaremos uma oração de fé - sem, no 
entanto, insistir demasiado na exactidão do termo -
é urna oração de grande valor e muito eficaz para 
unir a alma a Deus. Tem as suas dificuldades e 
embaraços próprios e pode requerer o exercício de 
muita paciência e um esforço decidido. Se, no 
21 
A DIFICULDADE DE ORAR 
entanto, se persevera com generosidade e confiança 
em Deus, conduz a grandes graças de oração e san­
tidade. Não será exagero chamar-lhe um atalho 
para a santidade. 
Antes de deixar este capítulo para considerar 
com maior detalhe as diferentes fases da oração, 
que acabámos de esboçar, antecipando uma análise 
futura do assunto, pode dizer-se, que ainda que 
os autores dividam a vida espiritual em «estádios» 
correspondentes aos diferentes graus de oração, que 
se encontram de modo característico nas a1mas, 
não há uma fronteira nítida de demarcação, nem 
tão-pouco nenhuma uniformidade estreita em cada 
um dos graus. A1gumas vezes, por exemplo, em 
especial durante ocasiões de grande alegria ou pesar, 
mesmo o principiante pode encontrar-se a orar dum 
modo muito simplificado, ao passo que, por outro 
lado, a alma adiantada pode ter de regressar à técnica 
da meditação para ultrapassar alguma dificuldade 
temporária. Em todas estas matérias há muitos 
mal-entendidos, e como muitas das dificuldades na 
oração mental, provêm destas noções erradas, os 
capítulos seguintes darão, antes de mais nada, um 
breve resumo das diferentes faculdades que a alma 
usa nas suas operações, para depois tratar com mais 
pormenor das várias fases de oração aqui esboçadas. 
22 
http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
AS POTÊNCIAS DA ALM A 
Falando tecnicamente, o homem é um animal 
racional. Como os animais brutos, participa da 
faculdade da sensação e do apetite sensível, enquanto 
que, do mesmo JI!.Odo que os anjos, tem inteligência e 
vontade. 
No estado de graça torna-se participante da 
natureza divina e é enriquecido com o poder de 
conhecer e amar a Deus pela fé, esperança e caridade. 
Todo o seu conhecimento natural depende do tra­
balho dos seus cinco sentidos externos. Tem, no 
entanto, sentidos internos, dois dos quais, a ima­
ginação e a memória, nos interessam aqui. Por 
meio destas faculdades, pode recordar e reproduzir 
as imagens obtidas pelos sentidos externos, por meio 
duma espécie de quadro falante. Pode mesmo 
reconstruir quadros novos - ou «fantasmas)), corno 
se lhes chama - com o material fornecido pela expe­
riência anterior 
Além destas faculdades de conhecimento sensi­
tivo há também a importantíssima faculdade de 
desejo sensível, chamada apetite sensível, a qual 
deseja qualquer objecto bom ou atractivo que os 
sentidos apresentam ao sujeito, quer duma forma 
real, quer na imaginação. Esta faculdade é auto­
mática, isto é, actua imediatamente assim que se 
lhe apresenta o objecto, e a sua acção é , muitas vezes, 
23 
A DIFICULDADI! DI! ORAR 
acompanhada por aquilo a que os filósofos chamam 
uma paixão, a qual produz um certo efeito corporal. 
Podemos ver este apetite actuar - a palavra tem 
aqui um sentido muito mais vasto do que na lin­
guagem corrente, porque engloba todos os impul­
sos que se dirigem ao bem de qualquer sentido ­
nos nossos momentos de ira ou, por exemplo, no 
desejo dos alimentos proíbidos nos dias de absti­
nência. Note-se de passagcm que, por ser auto­
mático e estar portanto fora do controle da vontade, 
este desejo não pode ser nunca um pecado em si 
mesmo. Se isto se entendesse claramente, evitar­
-se-ia muita preocupação sobre o suposto consenti­
mento a maus pensamentos e à ira, e quejandos. 
Há desejo, mas só no apetite sensível ; não pode 
haver pecado até que a inteligência reconheça a natu­
reza pecaminosa do objecto e a vontade o deseje. 
Deste modo, numa sexta-feira, por muito que o 
«apetite» do homem deseje a carne, desde que a 
sua vontade recuse o consentimento, não só ele não 
peca, como ainda pode tirar daí méritos. 
Esta digressão, que introduzimos por causa da 
sua importância em outras circunstâncias, faz-nos 
reparar nas faculdades mais elevadas da inteligência 
e da vontade. A inteligência é a faculdade pela qual 
o homem conhece a verdade ; o seu âmbito é indi­
cado pela sua capacidade de conhecer verdades 
abstractas, relações, ideias universais, etc.. Nesta 
vida - pelo menos enquanto opera segundo o seu 
modo actual - a inteligência actua abstraindo o 
seu conhecimento dos objectos individuais concretos 
representados na imaginação. Mas, mesmo depois 
de a inteligência ter obtido matéria para o pensa­
mento, a imaginação ainda continua a tentar elaborar 
alguma imagem que represente as ideias com as 
quais a inteligência está a trabalhar. É por isso 
24 
AS PO'rtNCIAS DA ALMA 
que o pensamento abstracto é tão fatigante, porque 
a imaginação não pode nunca atingir completa­
mente o seu objectivo ; tem muitas vezes de conten­
tar-se com imaginar uma palavra, ou alguma imagem 
vaga, que se adapte à ideia. Os seus esforços podem 
ser exemplificados tentando ver que «imagem» forma­
mos de Deus. As suas limitações podem exemplifi­
car-se, se tentamos representar as noções de «depen­
dência>>, de «casualidade» ou de «honestidade», ou 
qualquer outra ideia abstracta semelhante. 
A vontade é o apetite intelectivo, é a potência 
pela qual desejamos ou «amamos» objectos que a 
inteligência afirma como bons. Tudo pode ser 
olhado como bom sob algum aspecto ; mesmo o 
pecado é desejado como um bem - um bem dos 
sentidos. Em última análise, o mérito pertence só 
aos actos da vontade,e o pecado só pode come­
ter-se através dela. Da actuação da vontade depende 
toda a vida espiritual. A vontade é uma faculdade 
livre, cuja actividade nos está de tal modo sujeita que 
nenhum objecto criado pode forçá-la a actuar. 
Por causa desta dúplice natureza do homem, surge 
um certo número de reacções às quais está SUJeito 
e que designaremos, de um modo geral, por emo­
ções ou paixões. Estas radicam-se na sua natureza 
sensível ou animal. A alegria, com a respectiva 
expressão corporal, que um rapaz tem por ser clas­
sificado em primeiro lugar num exame, é, na sua 
origem. talvez mais racional do que sensível; a vio­
lência com que o mesmo rapaz riposta quando é 
atacado, vem mais da sua natureza sensível do que 
da acção do entendimento. A este último tipo de 
reacções pertencem muitos daqueles «sentimentos» 
que se encontram na oração: consolação, aridez, 
pesar, alegria, etc.. Por isso se apresentou aqui o 
assunto, pois é óbvio que, enquanto procedem 
25 
A DIFICULDADE DE ORAR 
dos sentidos, tais movimentos não são, em si mes­
mos, meritórios nem mesmo sinais de verdadeira 
devoção, que consiste na prontidão da vontade 
para servir a Deu-;. São, no entanto, um enorme 
auxílio para vencer a resi.,tência da «carne» a servir 
o espírito, e ajudam-nos a dedicar todas as nossas 
energias ao serviço de Deus. 
Na prática, nenhum ser humano poderia servir 
a Deus com todo o seu coração, a não ser que a 
sua natureza sensível encontrasse algum prazer em 
entregá-lo a Deus ; porque nós somos homens, e não 
anjos. Mas há urna diferença enorme eritre os 
«sentimentos» que se originam nas faculdades supe­
riores e transbordam para os sentidos, como por 
vezes acontece, em especial nos mais altos voos da 
vida espiritu&l, e os «sentimentos» procedentes dos 
sentidos que tendem, por si próprios, a arrastar as 
potências superiores atrás deles. Muita da «devo­
ção» que se experimenta no inicio da vida espiritual, 
contém urna boa dose deste último «Sentimento». 
Deus nos livre, no entanto, de o desprezarmos, por­
que com frequência esta consolação pode vir de 
Deus. É urna grande ajuda para desapegar os nossos 
corações das consolações das criaturas e para mover 
todo o coração na busca de Deus. Mas ima­
ginar que a verdadeira devoção consiste em tais sen­
timentos é um erro fatal. 
Há outros pontos de importância, relacionados 
com isto, mas, desde que o que fica acima é bastante 
para a nossa finalidade imediata, podem ser deixados 
para mais tarde, e podemos prosseguir no estudo 
dos primeiros estados na oração. 
26 
O RA Ç Ã O D I S CU R S I VA 
Entende-se por oração discursiva, uma oração 
na qual predomina a reflexão ou consideração de 
algum mistério ou de alguma verdade da fé. «Dis­
curso» era o vocábulo antigamente usado para desig­
nar o processo de raciocínio pelo qual se chega à 
verdade gradualmente - passo a passo -, como em 
qualquer demonstração euclidiana. 
Poderia chamar-se «intuição», à acção oposta 
do entendimento através da qual o espírito apreende 
uma verdade de relance ou porque é evidente por si 
mesma - «o todo é maior do que a parte», por 
exemplo- ou, num sentido menor e restrito, porque 
uma longa experiência lhe tornou muito familiares 
todos os passos da argumentação que a ela conduz. 
Todos, por exemplo, vêem os «axiomas» de Euclides 
por intuição, enquanto muitos dos «teoremas>> são 
tão familiares para o professor que se pode já dizer 
que os vê por intuição. 
Introduz-se aqui o termo «oração discursiva» 
propositadamente. No sentido estrito da palavra, 
<aneditação» aplica-se ao discurso do espírito, 
com actuação concomitante da imaginação e da 
memória, e apenas a isto. Como, no entanto, em 
muitos ambientes religiosos se dá o nome de medi­
tação ao exercício em que um determinado tempo 
do programa do dia se destina à oração mental, a 
27 
A DIFICULDADE DE ORAR 
palavra é com frequência aplicada a qualquer forma 
de oração mental. Mesmo que uma pessoa se eleve 
aos cumes da contemplação, diz-se que está a fazer 
a «sua meditação)). Este costume tem as suas 
desvantagens ; apropria-se duma palavra muito útil 
que há-de ser aqui substituída por «reflexão» ou 
«consideração)), e leva os que tomam o termo à letra, 
a julgar que a essência do exercício da oração 
mental reside nas considerações. 
Ora, na verdade, o facto é que não há oração de 
verdade até que a alma comece a produzir «actos» 
ou afectos». Nunca se insistirá bastante nisso. 
A finalidade da consideração, reflexão ou «medita­
ção», no seu sentido estrito, é apenas conduzir a 
alma a produzir actos. Tem ainda outros efeitos, 
que consideraremos mais adiante, mas logo que 
surgem os actos, a sua função está cumprida e deve 
por-se de parte até que a alma não possa já continuar 
a fazer actos ou, por outras palavras, não possa já 
continuar, de um ou outro modo, a falar com Deus, 
porque nisto é que consiste realmente a oração. Se 
se verifica que esta conversa com Deus é possível 
logo ao princípio do tempo de oração, não devem 
tentar-se considerações enquanto subsiste o nosso 
diálogo com Deus, mesmo que implique o fim da 
reflexão (1). 
Como, no entanto, não é este o caso corrente, 
pelo menos no princ1p10, qualquer método de 
reflexão poderá ser muito útil. 
A bibliografia sobre este assunto é abundante e a 
(1) Pelo menos esta é a nossa opinião, mas nem todos 
concordariam completamente com ela. Sobre este ponto, e 
sobre a matéria deste capitulo e do seauinte, vide o Apên­
dice I. 
28 
ORAÇÃO DISCURSIVA 
maioria das pessoas estão a par da doutrina comum, 
pelo menos até certo ponto. Numerosos autores 
esboçaram, expuseram e desenvolveram com mais 
ou menos detalhe um «método» que, nas suas linhas 
essenciais, está em geral ligado estreitamente com o 
usado por Santo Inácio nos seus célebres «Exercí­
cios Espirituais». O tema da meditação, dividido 
em «pontos», é preparado na noite anterior, e deter­
minam-se as conclusões principais, actos, petições 
e resoluções a que se há-de chegar. Quando chega 
o tempo da oração, começa-se o exercício pondo-nos 
na presença de Deus; há alguns prelúdios para fixar 
as faculdades por meio duma «composição do lugar», 
etc. e algumas petições iniciais ; toma-se o primeiro 
ponto, e a imaginação e a inteligência aplicam-se-lhe 
metàdicamente ; formulam-se certos actos ; depois 
procede-se de forma idêntica com um segundo ponto 
e, talvez, com um terceiro. Uma vez feitos os actos, 
as petições e as resoluções determinadas com antece­
dência, bem como outras que se tenham apresentado no 
decorrer do exercício, a oração termina com um 
«colóquio» ou numa conversa com Deus ou com algum 
dos seus santos e uma curta acção de graças, à qual 
se acrescenta um exame do modo como se procedeu 
no exercJCIO. Pode recolher-se algum pensamento 
para tê-lo à mão durante o dia, a fim de renovar 
na alma os efeitos da meditação. 
Para quem tenha usado um destes manuais de 
oração, que por vezes estabelecem o plano com grande 
detalhe, todo este esquema é familiar, e não vale a 
pena tratá-lo aqui mais detidamente. 
Quando se segue um método deste género, por 
certo há-de dar resultado, e constitui um modo muito 
útil de ajudar o principiante nas suas primeiras ten­
tativas de oração mental. As numerosas almas 
que podem segui-lo, não precisam dos nossos remé-
29 
A DIFICULDADE DE ORAR 
dios, mas é aconselhável preveni-las de que devem 
estar prontas a modificar o método, caso deixe 
de ser-lhes proveitoso, e pô-las em guarda contra 
o erro que se pode cometer com uma noção errada 
da natureza essencial da oração, de julgar que a 
reflexão é a oração, e, consequentemente, de não 
guardar tempo bastante para formular actos e 
conversar com Deus. Talvez encontrem um novo 
alento na sugestão de que podem ainda ter outras 
possibilidades diantede si. Há muitas almas que 
alcançaram um elevado grau de santidade e que 
parece nunca terem usado outro modo de orar. 
Dizemos «parece». porque, como se verá mais tarde, 
pode acontecer que, enquanto «meditam» com a 
parte inferior do espírito, estão, sem que o saibam, a 
contemplar a Deus de modo especial com as suas 
faculdades superiores. Isto mesmo pode acontecer 
até com a oração vocal, especialmente com a recita­
ção coral do Oficio Divino. Seja como for, há 
muitas veredas que conduzem à santidade e, se bem 
que as graças duma oração proficiente são uma pode­
rosa ajuda, senão a maior, para progredir, estas 
não constituem por si mesmas a santidade. 
Se um homem ama a Deus com todo o seu coração 
e com toda a sua alma, com todo o seu espírito e 
com todas as suas forças, cumpriu a lei por inteiro e 
é perfeito, seja qual for o seu modo de orar. 
Parece, no entanto, que há um certo número de 
pessoas que, apesar de reiterados esforços e duma 
indubitável boa vontade, não só não encontram 
nenhum proveito no uso destes métodos de oração, 
mas até se vêem embaraçados por eles, às vezes de 
tal modo que toda a oração se torna, em si mesma, 
um fardo insuportável. Como consequência disto, 
o que devia ser fonte da sua vida espiritual, seca; 
a perseverança toma-se difícil, e só se consegue 
30 
ORAÇÃO DISCURSIVA 
progredir através de esforços heróicos. A alma 
pode mesmo desistir de toda e qualquer tentativa 
para orar, e acabar num desastre espiritual. 
E há também aqueles que, em tempos, foram 
proficientes na oração, mas que, à medida que passou 
o tempo, verificaram que não podiam continuar a 
orar como costumavam e foram reduzidos a um 
estado de completa impotência na meditação, sem 
conhecerem nenhum outro modo de orar. 
Todas estas almas podem, esperamos, encontrar 
o princípio da soluçãc;> dos seus problemas na aná­
lise da oração mental que se segue. Os leigos não 
devem desanimar lá porque, às vezes, é o caso de 
sacerdotes e religiosos que nós consideramos. A maior 
parte dos pontos que se focam, e todos os princí­
pios indicados, podem aplicar-se aos que, no mundo, 
querem levar uma vida de oração e santificar o seu 
trabalho quotidiano. 
31 
MU D A N Ç A D E MÉTO DO 
Os métodos da oração discursiva detalhados em 
tantos manuais, e que constituem uma dificuldade 
para o tipo de almas que agora consideramos, desen­
volveram-se há relativamente pouco tempo; a sua 
difusão data de cerca do séc. XVI. Nos velhos tempos, 
quando a vida religiosa era de forma mais monás­
tica e a fé talvez mais viva, não era tão geralmente 
sentida a falta dum plano com tanto detalhe. Os 
espíritos da época eram totalmente alheios à ideia 
da oração limitada a um período curto e especialmente 
delicado a ela. 
Não se sabe até que ponto os antigos monges 
faziam a sua oração privada em comum. Este exer­
cício seria antes um meio de atiçar o fogo da oração, 
para que pudesse arder firmemente durante o resto 
do dia, pois se considerava todo o dia como tempo 
de oração. 
O papel da meditação, no sentido de reflexão e 
consideração, era desempenhado pela leitura espi­
ritual - que se fazia devagar e atentamente - e pro­
longava-se por uina autêntica reflexão e ponderação 
sobre as verdades da fé ou sobre os mistérios de Cristo, 
durante o tempo de trabalho manual ou nos tempos 
livres do dia. Orações, jaculatórias, ao longo do 
dia, ajudavam a voltar o coração continuamente 
para Deus, e o Ofício Divino dava expressão, duma 
33 
A DIF1CULDADE DE ORAR 
forma concreta e inspirada, aos sentimentos e neces­
sidades não só de cada alma, mas também de toda a 
Igreja, Corpo de Cristo. Assim, quando um reli­
gioso se consagrava à oração privada, todo o tra­
balho preparatório estava feito, e ia direito propria­
mente à tarefa de orar. 
Com o correr dos tempos, a evolução do estado 
religioso introduziu muitas actividades dispersivas 
na vida dos seus membros, e tornou impraticável, 
na maior parte dos casos, a recitação pública do 
Ofício Divino. Verificou-se então que era conve­
niente generalizar o costume de reservar um tempo 
determinado para a oração mental, convertê-la num 
dos principais exercícios do dia, não para limitar a 
sua prática, mas para lhe assegurar pelo menos um 
mínimo. 
Esta evolução foi talvez acelerada pelos efeitos 
do Renascimento que assistiu ao declínio do espírito 
de fé medieval que tinha impregnado até mesmo a 
vida dos leigos. Actualmente todas as casas de 
rd;giosos, mesmo as das Ordens monásticas, desti­
nam um tempo fixo para a oração mental, e o Código 
de Direito Canónico recomenda uma prática seme­
lhante para o clero secular. Para resumir o efeito 
desta mudança, poderia dizer-se que o dia inteiro 
do monge foi concentrado no espaço de cerca de 
uma hora e inserido na vida do sacerdote ou 'do reli­
gioso moderno, para se ter a certeza de que pelo 
menos durante uma certa parte do dia, se hão-de 
elevar acima dos seus cuidados e preocupações, e 
conversar com Deus. 
Desde que o objecto desta modificação não é 
limitar a oração mas apenas insistir pelo menos num 
mínimo, concluímos que se em determinado local 
ou para determinada pessoa se pode inverter este 
processo de compressão e restaurar parte do antigo 
34 
MUDANÇA DE MÉTODO 
espírito, de tal modo que a oração se espraie pelas 
outras horas do dia, é muito desejável que assim se 
faça. Para isto, a leitura espiritual que é de tanta 
importância na vida espiritual, poderia tornar-se mais 
ou menos uma meditação. 
A leitura espiritual e a oração mental são tão 
necessárias para a vida da alma como o alimento 
diário para a do corpo. Sem urna leitura espiritual 
constante, não só não pode haver progresso na ora­
ção mas nem sequer há nenhuma esperança de per­
severar na vida espiritual. Seria demasiado deli­
cado tentar demarcar o tempo mínimo para esta 
prática. A graça de Deus pode sempre adaptar-se 
às circunstâncias, e as circunstâncias de cada ambiente 
religioso são uma parte muito especial do plano 
de Deus. No entanto, quando se dispõe de tempo 
suficiente, pode dizer-se que reduzir o tempo da 
leitura espiritual, sem causa fundada, a menos de 
três horas por semana, é subalimentar a alma, e 
acarretar as consequências dessa subalimentação. 
E cremos que a leitura deveria ser feita pessoalmente 
durante pelo menos metade deste tempo. Uma dieta 
exclusiva de leitura pública dificilmente poderia ser 
suficiente para satisfazer as necessidade de cada 
indivíduo. 
Em algumas casas religiosas, devido a circuns­
tânci� especiais, talvez nem sempre seja possível 
empregar meia hora por dia nesta prática, mesmo 
por períodos parciais. Nestes casos há-de ter-se o 
cuidado de aproveitar as ocasiões que surjam, como 
nos domingos ou feriados, ou durante o tempo de 
férias, para nutrir a alma com uma leitura adequada. 
Nas casas em que se têm os livros em comum, deve 
cada qual completar a prática geral com uma leitura 
pessoal dos assuntos mais adequados às suas neces­
sidades especiais. Todos deveriam familiarizar-se 
35 
A DIFICULDADE DE ORAR 
com os actos e palavras de Jesus Cristo, porque estes 
são a revelação da palavra de Deus. A elaboração 
duma lembrança viva do Senhor, por meio duma 
leitura frequente, é de grande importância. Devía­
mos, além disso, familiarizar-nos com o esquema 
genérico da vida espiritual e, em particular, com a 
doutrina da oração, mesmo nos graus mais elevados. 
Todo este equipamento é necessário para se poder 
colaborar nas fases evolutivas da acção de Deus ; 
e também nos ajudará a tirar o melhor partido de 
uma possível direcção espiritual. 
Uma vez que se adquiriram estes conhecimen­
tos espirituais, a leitura deveria ser feita sem 
pressa, digerindo e saboreando o que se leu e oca­
sionalmente fazendo aqueles actos de oração que se 
apresentem. A leitura,que nunca se deveria come­
çar sem uma curta mas ferverosa oração a pedir 
ajuda, deveria sempre ser olhada com espírito de 
fé como comendo algures, nas linhas ou entrelinhas 
do que se leu, urna mensagem do próprio Deus, que 
a oração, a fé e a confiança tornarão perceptível. 
Esta leitura espiritual é o fundamento - poderia 
dizer-se o fundamento essencial - duma vida de 
oração e é a melhor preparação para esse exercício. 
Se se pratica fielmente, a necessidade duma longa 
e metódica consideração durante a oração, será 
ràpidamente reduzida ; de facto, isto pode até tor­
nar-se bastante impossível. 
Como consequência, os métodos vulgares de ora­
ção devem então ser modificados para se adapta­
rem às necessidades duma destas almas. À medida 
que se faz mais progresso no conhecimento e em 
especial na prática da vida espiritual, não só as con­
siderações serão reduzidas, mas os actos ou afectos 
tornar-se-ão muito mais simples. De facto, um 
acto determinado chegará a abranger muito� dos 
36 
MUDANÇA DE MÉTODO 
outros usualmente indicados no método ; e além 
disso a natureza dos actos pode mudar de tal maneira 
que seja difícil observá-los, porque há muitos impul­
sos num coração amante que escapam à obser­
vação humana. Quem pode contar os <<actos» de 
amor que a mãe faz junto do filho adormecido? 
O método de oração necessitará de uma nova modi­
ficação e, em verdade, neste ponto, os métodos devem 
ser postos de parte. 
Desde que a finalidade da consideração prescrita 
nos métodos de oração mental é, sobretudo, condu­
zir a actos ou afectos, tal consideração pode e de 
facto deve cessar assim que os actos chegam. Quando 
se atinge aquele ponto em que se pode «orar» - isto 
é, fazer attos - logo desde o principio da oração, 
estas considerações, aparte um recolhimento de 
poucos momentos no início para fixarmos a atenção, 
J>Odem ser afastados completamente da oração. 
F claro que, se a facilidade de oração cessa, pode 
ter de se voltar à reflexão para recomeçar de 
novo. Mas devemos pôr-nos em guarda contra 
o erro de pensar que as considerações são uma parte 
çssencial da oração mental. 
· Há, no entanto, um outro ponto valioso destas 
considerações : aquelas fortes convicções sobre os 
principias da vida espiritual, a realidade do sobre­
natural, etc., que se desenvolvem e aprofundam atra­
vés de uma reflexão frequente. Deve-se ter cuidado 
em sustentar estas convicções quando a reflexão 
já não é usada no tempo de oração. Isto pode 
fazer-se por meio da leitura espiritual, especialmente 
quando feita à maneira de meditação, ou por refle­
xão frequente, quase inconsciente, durante as várias 
partes do dia. 
Pode fàcilmente avaliar-se como um homem de 
negócios ou um profissional está sempre a pensar 
37 
A DIFICULDADE DE ORAR 
nos seus negócios, <<Illeditando» neles continuamente, 
e buscando aperfeiçoamentos e entrevendo novos 
meios de avançar. Se uma alma toma a sua vida 
espiritual a sério, há-de ser assídua na sua conside­
ração dos modos e meios, na sua busca da verdade, 
e no seu esforço por seguir a verdade quando conhe­
cida. Assim, sem determinação expressa, dedicará 
bastante reflexão à sua vida espiritual durante os 
momentos vagos do dia. A meditação neste sen­
tido, não deveria nunca ser posta de parte ; porque 
se um homem não pensa no seu coração, toda a 
sua vida espiritual pode ficar em breve desfeita. 
Também as resoluções que são em geral indicadas 
no método, não devem ser descuradas. Pode acon­
tecer que se não façam durante a oração mental. 
Então deveriam ser feitas ou renovadas durante o 
exame de consciência; tornar-se-ão provàvelmente 
mais simples e mais gerais à medida que passar o 
tempo. Mas desde que haja defeitos a vencer em 
particular, especialmente se são habituais, há neces­
sidade de resoluções especiais para combatê-los. 
Então, dado que a alma ache que pode orar sem 
ter de reflectir detidamente sobre diversos pontos, 
e que se dedique à reflexão e à renovação dos pro­
pósitos durante qualquer outra parte do dia, não 
há razão para não omitir a meditação metódica a 
favor duma conversa mais livre e mais plena com 
Deus, pelo menos enquanto se mantiver um tal 
estado de coisas. Porque, bem vistas as coisas, 
a meditação é apenas «pensar em Deus», enquanto 
que a oração é «falar co:in Deus», uma conversação 
que pode converter-se em «olhar para Deus e amá-lo». 
38 
O R I G E N 
D I F I C U L 
S D A S 
D A D E S 
Não só é desnecessário, para uma alma que fez 
algum progresso na vida espiritual e que vai colher 
o assunto e as convicções que conduzem à oração 
mental na leitura espiritual reflectida, fazer uma 
meditação ponto por ponto quando chega o tempo 
da oração, como ainda por cima se veria embaraçada 
com dificuldades. Isto é especialmente verdade 
quando se está pronto para o tipo de oração seguinte, 
no qual a ref lexão é reduzida a um mínimo e predo­
minam os actos e afectos, onde toda a oração é de 
facto um amável colóquio ou conversa com Deus. 
Impor a uma destas almas o uso de um <anétodo», 
é tentar obrigar um corredor a usar muletas. Não 
admira que uma alma nestas circuustâncias, ache a 
meditação uma carga intolerável. Mas, antes de 
considerar o tipo seguinte de oração, vamos ver 
primeiro se não pode haver outras razões pelas 
9uais o uso dum método determinado seja pertur­
bador e constitua um obstáculo ao êxito, mesmo 
que o indivíduo não esteja ainda no estado de apro­
veitamento na vida espiritual e tenha ainda muito 
de novato. 
Dá a impressão de que muitos autores, ao con­
siderar a subida da encosta da vida espiritual, come­
çam com a condição dum pecador habitual, para 
quem os ensinamentos de fé foram mais ou menos 
39 
A DiFICULDADE DE ORAR 
descurados, e que deu muita rédea livre ao amor 
próprio e aos desejos da natureza inferior. Pode 
pôr-se a questão de saber se um tal plano, com as 
consequentes prescrições de assunto e de método 
para a oração, pode ser aplicado ao género de almas 
que se encontram nos seminários e noviciados. 
A maior parte dos rapazes e raparigas que entram 
aqui em religião, ou que começam seriamente a 
encarar a prática da vida espiritual no mundo, já, 
por assim dizer, se embeberam das convicções da 
fé, mesmo na infância e viveram, pelo menos nos pri­
meiros tempos, numa atmosfera de fé. É verdade 
que podem não ter tido consciência disso e nunca 
terem considerado o significado real da sua religião, 
mas pelo menos tiveram a convicção suficiente para 
os levar a entrar no seminário ou no estado religioso 
e, isto com frequência, logo depois do tempo escolar. 
Em geral, também, o pecado habitual de qualquer 
tipo grave, é raro entre tais pessoas e há muitos que 
ainda conservam a sua inocência baptismal. Por 
certo que uma tal alma não tem necessidade nem 
pode encarar o longo e fastidioso arrastar dum 
plano de meditação de «prelúdio e ponto» durante 
muitos anos. É verdade que terá de ser educada 
na vida espiritual, e que os novos conhecimentos 
terão de ser assimilados pela reflexão. Mas isto 
faz-se muitas vezes, bastante espontâneamente, na 
leitura espiritual, e dificilmente necessita de um tão 
detalhado plano de ataque como o requerido, no 
caso de quem tenta converter-se duma vida de pecado. 
Fazer «meditar» estas almas sem algumas alterações 
no método é, muitas vezes, pô-las a construir urna 
casa já acabada. 
Uma leitura espiritual adequada produzirá as 
convicções necessárias em vista das novas verdades 
que apreendem, se é que a docilidade da sua fé e a 
40 
ORIGENS DAS DIFICULDADES 
prontidão do seu fervor o não fazem espontânea­
mente. Os propósitos firmes que são um dos frutos 
da meditação, surgirão, em geral, espontâneos na 
oração afectiva; e, se não, o exame de consciência 
os produzirá. Portanto, pareceria que tais almas 
estão muitasvezes realmente prontas para alguma 
espécie de oração afectiva, mesmo que depois possa 
ser-lhes necessário fazer uso da meditação durante 
algum tempo. A sua direcção requer prudência, 
mas parece um erro insistir que todos devam adop­
tar a meditação metódica. Seria muito mais eficaz 
pô-las em contacto com a pessoa do Senhor, e 
deixá-las tornarem-se íntimas com Ele em conversa 
amorosa. Um tal trato com o Senhor é um excelente 
correctivo para os seus hábitos defeituosos e moldá­
-las-á ràpidamente conforme o seu coração. 
Há outra razão que toma aconselhável este pro­
cedimento. As exigências impostas ao tempo de 
que dispõe um sacerdote ou religioso moderno pela 
preparação e depois pelo exercício das suas activi­
dades, deixam-lhe um mínimo para os exercícios 
interiores da vida espiritual e para o desenvolvi­
mento da vida de oração. Se uma pessoa nestas 
circunstâncias não entra em contacto com o Senhor, 
antes que todo o peso da actividade intensa se 
descarregue sobre ela, então não lhe será tão fácil 
desenvolver um tipo de oração que possa fàcilmente 
adaptar-se ao seu trabalho diário; enquanto que, se 
já anteriormente teve a1guma experiência da oração 
afectiva, pode em breve adquirir o hábito de con­
versar com Cristo durante o trabalho. Mesmo que 
depois de algum tempo lhe seja necessário voltar 
à oração meditada durante o tempo reservado para 
esse exercício, de modo a poder completar a sua 
formação espiritual, apesar disso adquiriu um hábito 
de oração jaculatória que é de um valor inapreciável, 
41 
A DIFICULDADE DE ORAR 
e deu o primeiro passo no. caminho da transformação 
de todas as suas actividades, em oração verdadeira. 
Há outro género de temperamento que encontra 
grande dificuldade na meditação discursiva. Alguns 
espíritos tiram as suas conclusões mais por uma 
espécie de intuição do que por um longo raciocínio 
discursivo. Quando se lhes apresenta um assunto, 
tiram dele ràpidamente todo o fruto possível de 
momento, e a colheita não será aumentada por uma 
consideração prolongada. Só mais tarde, à luz de 
novos conhecimentos e da experiência, é que as suas 
convicções se aprofundam e alargam. 
Tais almas têm pouco a lucrar em conservar o 
espírito fixado demoradamente nos pontos duma 
meditação. É melhor para elas adiantar-se para 
os actos e tentar falar com o Senhor ou, se isto 
não resulta, repetir frases de alguma oração preferida, 
devagar e atentamente. Esta dificuldade pode fàcil­
mente surgir quando, em algumas comunidades reli­
giosas, o assunto e os pontos de meditação se lêem 
na noite anterior e de novo de manhã, durante 
o tempo da oração. Ao ouvi-lo a primeira vez, 
a inteligência pode, com frequência, extrair do 
assunto, ali mesmo e nesse instante, tudo quanto 
lhe é possível, ficando pronta a iniciar a ora­
ção imediatamente. A repetição da leitura pela 
manhã, é então bastante perturbadora, já que se não 
precisa de retomar o assunto ponto por ponto. Em 
tais casos deve-se tentar falar com Deus, ou então 
retomar um assunto novo. É sempre bom ter 
qualquer alternativa determinada com antecedência. 
Os quinze mistérios do rosário constituem programa 
de oração para muitas almas. Outros fazem uso 
semelhante das estações da Via-Sacra. Outra variante 
é recordar que algures está, nesse instante, a começar 
a missa. Se se segue essa missa em espírito e ima-
42 
ORIGENS DAS DIFICULDADES 
ginação, pode fornecer assunto adequado para a 
oração. 
Outra fonte de dificuldades na oração, reside na 
escolha dum tema. Neste campo deve ter-se em 
conta as necessidades e predilecções de cada indi­
víduo. Quando se nos deixa a escolha, as regras 
ordinárias de prudência - em especial se se procura 
conselho de alguma autoridade competente - resol­
verão o assunto. Mas que fazer quando o tema é 
lido para uma comunidade na noite anterior. e repe­
tido ponto por ponto na manhã seguinte ? Esta­
mos perante uma questão delicada que requer um 
compromisso. 
É preciso evitar dois extremos. Em primeiro 
lugar, todo religioso, sejam quais forem as necessi­
dades da sua alma ou seja qual for o seu adiantamento 
nos caminhos da oração, deverá estar sempre em 
guarda, não vá menosprezar ou desdenhar de algum 
modo um alimento espiritual que lhe vem de fontes 
autorizadas. As disposições tomadas pelos supe­
riores são uma parte muito especial da providência 
divina e vêm repletas de graças. Qualquer que atenda 
a essa leitura com espírito de fé, dizendo no seu 
coração : «Fala, Senhor, que o teu servo escuta)), 
verificará que Deus se serve dela para iluminar e 
fortalecer a sua alma. Pode ser apenas um pequeno 
ponto - uma única palavra, talvez, que Ele usa ­
mas encaixará num outro contexto, o das demais 
relações de Deus com a alma, e será uma fonte de 
graça. Cumprir-se-á em nós como acreditamos. 
É questão de muita importância que as almas espe­
cialmente as mais adiantadas, sejam muito cuida­
dosas na sua atitude em tais circunstâncias. 
Por outro lado, não parece razoável querer que 
todas as almas façam a sua oração nos moldes da 
meditação lida para todos, e negar a cada um o 
43 
A D�CULDADE DE ORAR 
direito de seguir as atracções da graça. Evitando 
estes dois extremos, cada alma de boa vontade, 
embora mantendo a sua liberdade de espírito, deve 
dar preferência, em idênticas circunstâncias, ao 
tema designado por aqueles que têm o encargo de 
governá-la. Se se pode fazer uso deste tema para 
oração, mesmo que s�ja apenas como ponto de 
partida para um colóquio com Deus, deve fazer-se. 
Se, no entanto, não se adapta às necessidades 
da nlma e à actuação da graça divina, pode ser serena 
e respeitosamente posto de lado. Acontece com 
frequência que entre os pontos lidos há uma lem­
brança dh,ina para a alma se familiarizar com alguma 
verdade determinada ou algo semelhante, por refle­
xão ou leitura em qualquer outra ocasião sem que 
se torne necessário para a alma abandonar o seu 
próprio modo de orar no momento. Em toda esta 
questão há claramente necessidade de discernimento 
e prudência, e seria bom que aqueles que acham 
necessário desenvolver a sua oração em moldes 
próprios, aceitem opinião com algum conselheiro 
competente, quer ele seja superior, sacerdote, ou 
mesmo um colega prudente. 
Nas presentes circunstâncias acontece muitas vezes 
que para muitas almas nem sempre está à mão 
um guia adequado; mas, entre os retiros anuais 
e as diversas viagens que as férias ou a falta de saúde 
requerem, em geral será possível consultar algum 
«especialista» e estabelecer relações com ele. Uma 
vez que se encontrou um guia competente a quem 
se possa abrir a alma, e que se familiarizou com as 
nossas circunstâncias, uma carta eventual será o bas­
tante para prover a todas as incertezas da trajectória 
espiritual. Também neste assunto Deus adaptará 
sempre a sua graça às circunstâncias, de modo que, 
onde uma tal direcção se não possa conseguir, Ele 
44 
ORIGENS DAS DIDCULDADES 
providenciará doutro modo. Mas, onde possa conse­
guir-se um conselho competente, seria erro rejeitá-lo. 
No caso que agora consideramos, acusar de sin­
gularidade ou de soberba quem quer que não siga o 
assunto lido e sinta necessidade dum livro para 
fixar os seus pensamentos, especialmente numa comu­
nidade que englobe membros de todas as idades 
e de vários graus de vivência religiosa, parece 
bastante arbitrário. É impossível esperar que numa 
tal comunidade o mesmo alimento espiritual seja 
adequado para as necessidades de todos. É claro 
que os caprichos de cada qual não podem e não 
devem ser favorecidos. Mas é preciso um discerni­
mento prudente e urna santa liberdade de espírito. 
No entanto, onde o costume já tenha estabelecido 
uma regra nestes assuntos, o religioso deve estar 
preparado para aceitar as limitações impostas pelas 
circunstâncias - tais comoa falta duma luz - ou 
por disposição directa dos superiores. A graça 
de Deus pode sempre adaptar-se a semelhantes cir­
cunstâncias providenciais, e uma confiança resignada 
no cuidado paternal de Deus assegurará sempre a 
sua ajuda especial. Podemos estar bastante certos 
de que aqueles que se resignam alegre e confiada­
mente neste e em outros assuntos semelhantes, pro­
gredirão muito mais ràpidamente e com muito mais 
firmeza, do que se procurassem insistir em progre­
dir a seu modo. 
Note-se que Deus dá muitas vezes durante o dia 
as graças que suspendeu durante o tempo da oração. 
De facto, para uma alma que tem cuidado em aceitar 
e em se adaptar a todas as actuações da providência, 
especialmente quando Ela parece erguer obstáculos, os 
seus caminhos, por muito incompreensíveis que pare­
çam à primeira vista, estão no entanto cheios duma ter­
nura maravilhosa e duma bondade misericordiosa. 
45 
o 
DA 
C A M 
ORAÇ ÃO 
I N H o 
A F E C TIVA 
Até agora temos estado a considerar as dificuldades 
que surgem na oração, em virtude do uso . de um 
método que é inadequado ao nosso estado ou tem­
peramento. A prova geral da adequação neste 
aspecto, é dupla: facilidade no exercício e eficácia 
no resultado. Das duas, a segunda é a mais segura 
e é por vezes o único sinal dum modo apropriado 
de oração ; porque se uma alma faz oração do modo 
mais adaptado ao seu estado, o resultado manifestar­
-se-á na bondade e fervor da sua vida. 
Quem procura adoptar um modo de orar que 
ultrapasse as suas força� ou idade espiritual, depressa 
se encontrará rodeado de dificuldades, e começará 
a perder em regularidade e a abandonar o fervor 
inicial. Mas se, por exemplo, uma alma acha que 
pode passar o tempo da oração em amoroso trato 
com Deus, mesmo que use poucas palavras, e se, 
ao mesmo tempo, não começa a decair no fervC'r 
e nas outras actividades da sua vida espiritual, nem 
tão pouco começa a adquirir aquela sensibilidade 
da soberba que se recusa a aceitar mesmo a mais 
pequena humilhação ou desprezo, então pode, e 
seguramente deve, ser autorizada a orar deste modo. 
Esta é a oração afectiva, que será tratada num pró­
ximo capítulo. 
47 
A DIFICULDADE DE ORAR 
Mas que fazer com a alma que não está ainda pre­
parada para uma tal oração e que, apesar de boa 
vontade e de esforços tetJ.azes, não encontra ajuda 
no método ordinário de meditação ? Aqui, urna 
vez que as necessidades individuais diferem, temos 
de contentar-nos em fazer sugestões que possam 
indicar uma linha de conduta que há-de levar à 
solução desta dificuldade. 
Nos nossos dias, graçi:is a Deus, a comunhão diária 
é uma prática corrente, não só em casas religiosas, 
mas também para muitas almas fora do estado reli­
gioso. Enquanto que há algumas que usam um 
livro para fazer a sua acção de graças, há muitas 
almas que são capazes de manter-se em oração 
durante os habituais quinze minutos sem uma tal 
ajuda. De facto, muitos mais o fariam, se não 
tivessem uma ideia errada do modo como o Senhor 
deseja ser recebido, pois pensam que devemos 
usar os termos formais dum livro de orações em 
vez de lhe falar com as nossas próprias palavras 
incoerentes. Esta acção de graças parece fornecer 
um caminho de aproximação à oração mental, por­
que, bem entendida, a não ser que fosse uma reci­
tação meramente formal duma longa lista de ora­
ções vocais, deve ser oração mental de verdade. 
Supunhamos então que começamos a nossa oração 
com uma comunhão espiritual - bastante infor­
mal - sem nos preocuparmos muito como havemos 
de expressar o convite a Deus para que venha aos 
nossos corações (porque temos de evitar os «belos 
discursos» como uma praga na oração mental, 
mas prestando toda a atenção Àquele cuja presença 
é a causa da nossa oração, porque Ele já se encontra 
nas nossas almas desde a data do baptismo, uma 
vez que estejamos em estado de graça. Então 
podemos prosseguir exactamente como fazemos 
48 
A CAMINHO DA ORAÇÃO AFECI'IVA 
depois da comunhão sacramental. Muitas almas já 
ordenaram programas para este tempo, de forma 
a adaptar-se às suas próprias necessidades. 
Os quatro fins pelos quais a missa é oferecida, 
por exemplo, podem fornecer temas para a oraÇão, 
que pode ser desenvolvida em conversa familiar 
com o Senhor. Estas são : adorar a Deus, lou­
vá-lo e agradecer-lhe todos os seus dons, repara­
ção pelos nossos pecados e pedir-lhe graça e mise­
ricórdia. Este colóquio ou conversa com Deus 
pode ser modificado para introduzir o ponto ou 
pontos que são assunto da nossa oração. Com 
muita frequência os pontos duma meditação que 
acabam de ser lidos, podem usar-se deste modo. 
Assim, por exemplo, �e o assunto é a vida oculta 
de Cristo, podemos falar-lhe dos seus dias em Nazaré, 
familiarmente, intima'!lente, como um homem tem 
o dever de falar com o seu amigo. Podemos inter­
rogar o Senhor àcerca desses dias, podemos escutar 
o que Ele tem para nos dizer deles. Podemos 
falar-lhe do nosso trabalho diário e trocar impres­
sões com Ele : «Acharás tu o trabalho tão fati­
gante ? Os teus fregueses eram exigentes e difí­
ceis de satisfazer ? Doíam-te as costas depois de 
estar continuamente curvado sobre o banco de car­
pinteiro ? Não é verdade que sabias fazer as coisas 
muito melhor que S. José ? Tu fizeste todo o mundo! 
Como te forçaste a passar desta maneira trinta anos 
da tua curta vida, com todo o mundo à espera da 
tua doutrina e da tua salvação ?», etc. , etc.. E deve­
mos então falar-lhe da nossa própria vida, das nossas 
dificuldades, das nossas quedas, das nossas imper­
feições, dos nossos pecados. Especialmente dos 
nossos pecados! . . . porque este Homem recebe os 
pecadores e salvará o seu povo dos seus pecados. 
Os pecados dos quais estamos verdadeiramente con-
49 
A DIFICULDADE DE ORAR 
tritos, podem ligar-nos ao Salvador e o grande 
segredo de todo o trato e estreita sociedade com Jesus, 
é dar-lhe uma oportunidade para que seja para nós 
um salvador. 
Se há alguma dificuldade particular na nossa vida, 
se há algo desagradável que tenhamos de enfrentar 
nesse mesmo dia, falemos-lhe disso. Se há alguma 
coisa que insiste em aparecer como distracção, 
transformemo-la em oração falando dela a Deus. 
Falemos-lhe das coisas que nos perturbam tanto, no 
nosso trabalho diário ; falemos-lhe daquele apegamento 
que não podemos, ou mesmo que não queremos, 
quebrar. O grande meio para converter as distracções 
em oração, e transformar um desejo mau ou imper­
feito num santo propósito, é falar dele a Cristo 
exactamente como falamos a um amigo, lembrando­
-nos que Ele foi destinado por Deus para nos salvar 
dos nossos pecados e de tudo o que conduz ao pecado 
ou à negligência. Não podemos esquecer nunca 
que, porque é Deus, Ele é omnipotente e por­
tanto, não há absolutamente nenhum abismo do 
pecado ou da fraqueza, da escuridão ou du deses­
pero, da quaJ não possa ou não deseje liber­
tar-nos. 
Portanto não há ninguém que precise de ter receio, 
ninguém que não tenha o direito de aproximar-se 
d'Ele, de falar-lhe, de lhe mostrar os seus pecados, 
de falar-lhe da sua vida espiritual em qualquer dos 
seus aspectos, como falamos com o médico, da doença, 
com um amigo, dos nossos negócios, ou à namorada, 
da nossa vida, com as suas penas e alegrias, as suas 
esperanças e receios. 
O princípio básico deste modo de fazer actos é 
tal que precisa de ser posto em relevo como de impor­
tância capital em todas as fases da vida espiritual. 
E é este : o ponto essencial é entrar em contacto 
50 
A CAMINHO DA ORAÇÃO AFECTIVA 
com Cristo o mais cedo possível, na vida espiritual, 
em cada um dos seus exercícios, em especial no da 
oração e manter-se em contacto com Ele por todos 
os meios possíveis e a todo o custo. Este modo 
de actuar fará desaparecer da oração os elementos 
que a tornam desagradávele difícil a certas espécies 
de almas. É também um remédio para um engano 
muito corrente sobre a natureza da oração mental, 
porque muita gente tem a noção de que esta é pura­
mente um exercício mental, um trabalho da inteli­
gência e das suas faculdades auxiliares, para des­
cobrir a verdade, para compreendê-la, para formar 
convicções e conduzir a propósitos - um trabalho 
da cabeça, mas absolutamente alheio ao coração. 
Na realidade, tudo isto é um mero prelúdio para a 
oração, se não oração em si mesma. 
É preciso ainda insistir em uma outra consideração 
a este respeito. Para muitas almas, uma visão 
impessoal ou abstracta da virtude, da perfeição, da 
alegria do Céu, ou qualquer outra consideração 
análoga, deixa em geral o coração intacto e não 
excita desejos. Nem produz oração nem nos impele 
à prática de virtude. 
O contacto pessoal com Deus, mostra todo o 
conjunto da vida espiritual a uma luz totalmente 
diferente e, muitas vezes sem muita consideração 
explicita ou sem resoluções particulares, conduz a 
alma inconscientemente à prática de muitas virtudes 
e introduz novas energias no seu caminho espiritual. 
Nota-se um efeito análogo nos negócios humanos, 
em que somos guiados e encorajados pelos exemplos 
dos nossos amigos, do mesmo modo que é já pro­
verbial a capacidade dJm homem apaixonado para 
mudar os seus traços mais característicos e esquecer 
o seu egoísmo. Este ponto poderia ser extensa­
mente desenvolvido, porque a vida espiritual é um 
51 
A DIFICULDADE DB ORAR 
enamorar-se de Cristo, mas o espaço impede-o. 
Contentemo-nos em dizer que este é um princípio 
que reso!verá muita , senão todas as dificuldades 
da vida da alma, porque Cristo é o caminho, a ver­
dade e a vida. Mesmo nos estádios áridos da oração 
contemplativa, quando a alma parece incapaz dum 
bom pensamento ou afecto, quando Deus parece 
não ser nada mais que uma palavra de quatro 
letras, ainda podemos manter-nos em contacto com 
Jesus. 
O contacto real com Ele é estabelecido através 
da fé - fé no seu amor e na sua misericórdia. 
Alcançamo-lo pela esperança e agarramo-nos a ele 
pelo amor, não importa a aridez do nosso acto de 
amor, desde que seja um acto de vontade a acei­
tar a vontade de Deus. Mas uma discussão mais 
detida de-.te ponto tem de aguardar um capítulo 
posterior. 
Há um abuso da oração mental que poderia ser 
bom indicar aqui, no qual estão sujeitos a cair todos 
aqueles que pregam ou ensinam. Consiste em fazer 
da sua oração mental uma preparação para o tra­
balho, mais do que um despertar da vontade para 
orar e para amar. Alguns, também, passam o 
tempo da meditação «pregando» a si mesmos, interes­
sando-se especialmente em encontrar belos pensa­
mentos e palavras para o fazer a seu gosto. Falar 
ao Senhor «com as nossas próprias palavras» pode 
ser o remédio desta doença. 
Algumas vezes a lista dos actos prescritos no livro 
que usamos, aparece-nos como uma droga intra­
gável. Pode ter-se como princípio geral de con­
duta, que ninguém deve sentir-se alguma vez obri­
gado a esgotar todos os actos da lista. Se um acto 
basta para nos manter ocupados, não deve ser posto 
de parte a pretexto de passar ao seguinte. Desde 
52 
A CAMINHO DA ORAÇÃO AFECITVA 
que o coração está ocupado com Deus, falando ou 
em silêncio, isso basta. 
Mais uma vez a demasiada atenção a um método 
pode criar obstáculo ao nosso proveito na oração 
e dar em resultado que todos os nossos actos se 
tornem «reflexos». Não fazemos apenas um acto, 
digamos, de fé, mas «observamo-nos» ao fazê-lo, e 
isto seria bastante como critica, tornando nota, todo o 
tempo, de tudo quanto fazemos. Além de não ser 
pequena carga, tal acto pode fazer com que nos preo­
cupemos mais connosco próprios do que com Deus. 
Esta é a ruína de qualquer oração, porque a oração é 
uma preocupação com Deus, e os estados mais ele­
vados de oração são absolutamente impossíveis, se 
uma alma se recusa a perder-se de vista a si mesma 
e aos seus esforços. De modo idêntico, uma con­
templação contínua dos insucessos c esforços esté­
reis do homem, apenas pode conduzir ao desânimo, 
a não ser que ao mesmo tempo conservemos diante 
dos olhos, Deus e a sua amorosa misericórdia. 
O remédio par4 todas as doenças semelhantes é o 
trato familiar com Jesus Cristo. 
Poderia parecer que, ao pormos a alma deste 
modo, em contacto com Cristo, e ao colocá-la em 
conversa com Ele sobre o assunto da meditação, 
estamos apenas a voltar à «composição de lugar». 
e à «aplicação dos sentidos» prescritos no método. 
Na verdade, não há razão pela qual o não devêssemos 
fazer, pelo menos até certo ponto, porque se não 
serenamos as faculdades dos sentidos por qualquer 
modo análogo, podem estorvar i:oda a oração com 
as suas divagações. 
Mas há aqui uma diferença de perspectiva que 
parece ser de importância. Àparte o facto de que 
este método de aproximação é mais espontâneo e 
se addpta automàticamente ao grau de oração que 
53 
A DIFICULOADB DB ORAR 
cada alma alcançou, tem esta característica parti­
cular : põe-nos em contacto com o Senhor como 
mestre, modelo e amante, vivo, presente à alma 
aqui e agora. A importância deste facto parece 
que é capital, e deve fazer urna grande diferença 
para a oração e para o fervor de muitas almas. 
S4 
O R A Ç Ã O A F E C T I V A 
Já têm sido feitas frequentes referências à oração 
«afectiva>> e a sua natureza já foi mesmo indicada, 
se bem que apenas de passagem. O assunto, no 
entanto, requer mais alguma atenção. 
Os que estão familil'lrizados com o plano metódico 
para a oração mental, hão-de recordar que a consi­
deração de cada ponto deveria ser segui ia de deter­
minados «actos», e que a oração em conjunto deve­
ria terminar com um «colóquio» ou conversa com 
Deus ou algum dos seus santos. Quando estes 
actos e o colóquio se alargam pd.ra ocupar a maior 
parte do tempo da oração, a oração chama-se : «ora­
ção afectiva>>. É, portanto, um desenvolvimento 
natural da meditação, e de facto, se a meditação não 
incluir alguma oração afectiva, não chega sequer a 
ser oração. 
Não há, por consequência, nenhuma separação 
rígida e ajustada entre as duas formas. Na oração 
afectiva as considerações, seja devido a uma longa 
familialidade com o assunto ou a uma leitura espi­
ritual adequada, feita atentamente, ocupam um lugar 
pequeno e muito secundário, se é que de todo se 
fazem. Num relance, uma reflexão momentânea 
é bastante para relembrar e extrair tudo o que o 
assunto da oração significa para nós, e o coração 
começa imediatamente a exprimir-se em actos, 
55 
A DIFICULDADE DE ORAR 
petições, louvor ou qualquer outra manifestação da 
oração. A todas estas acções se dá o nome de 
«afectos». 
Para entender este termo correctamente, temos 
de esquecer por completo a associação com a pala­
vra afectivo porque, como já frisámos, este nome 
aplica-se aqui a todos aqueles movimentos da von­
tade para com Deus, que se manifestam em geral em 
actos das várias virtudes. É por esta razão que o termo 
«afectivo» se aplica a uma oração na qual predomi­
nam estes actos. No entanto, isto não quer significar 
nenhuma intensidade de sentimento ou emoção. 
Uma vez que este tipo de oração é uma audiência 
pessoal ou uma conversa amorosa com Deus, é 
susceptível de tantas variações quantas as pessoas 
que existem. Por isso mesmo não podemos esta­
belecer-lhe regras rígidas e estreitas. A grande coisa 
é falar com o Senhor com as nossas próprias 
palavras, com bastante simplicidade, acerca de qual­
quer assunto que seja de interesse mútuo. Nunca 
deveríamos enveredar pelas palavras ou frases boni­
tas. Não só o Senhor não procura lindos discursos 
como nem sequer nos pede uma boa gramática. 
De facto, a oração afectiva é muitas vezes bastante 
incoerente, usando-se uma palavra para exprimir 
urna multidãode sentimentos. 
Para algumas almas cujos espíritos estão cheios 
dos significados que encerra, o santo nome de 
Jesus é oração bastante. Aquela única palavra 
maravilhosa diz mais do que nós poderíamos alguma 
vez imaginar. Outras almas não podem encontrar 
palavras para dar expressão aos seus desejos. Rezam 
um tanto ou quanto assim : «Eu quero . . . Não sei 
que quero . . . Quero, apenas . . . » E o Senhor entende. 
Ele sabe que o que querem é Ele mesmo, tenham ou 
não consciência disso. 
56 
ORAÇÃO AFECITV A 
Tomando na devida conta o facto de que diferen­
tes temperamentos rezarão de modos bastante dife­
rentes, pode dizer-se que, pará muitos, a oração 
afectiva consistirá em enamorar-se de Cristo. 
A linguagem do amor humano despojada do seu 
sentido grosseiro, é o único modo de expressão que 
pode satisfazer a necessidade de articular o que sen­
tem algumas almas. Nem todos hão-de orar deste 
modo mas, para aqueles em que isso é natural, as 
mais delicadas formas de expressão do amor humano, 
são modelos excelentes para a nossa conversa com 
Deus. 
Ele quer possuir o nosso coração e quer dar-nos 
o seu coração, e quaisquer palavras que possam 
ajudar-nos nessa transacção, constituem urna oração 
perfeita. Este exemplo do amor humano pode 
ainda ajudar-nos doutro modo a compreender até 
onde podemos entender esta oração. Frequentemente 
a conversa dos namorados versa apenas sobre coisas 
vulgares e, no entanto, podem estar unidos um ao 
outro! Também na oração, as nossas palavras e 
mesmo o nosso assunto pode ser bastante vulgar e, 
no entanto, pode ser muito grande o amor que damos 
e demonstramos a Cristo. 
Outras almas, de diferente temperamento, servir­
-se-ão de palavras de orações que lhe são familiares, 
de versículos dos Salmos, de petições extraídas do mis­
sal, etc.. Se o estilo da oração pública da Igreja nos 
ocorre naturalmente, muito bem : se assim não é, 
então não deve tentar-se encaixar a oração de cada 
t}ual em estilo semelhante. «Dignai-vos» e outras 
palavras no género é preferível que se não usem. 
Um outro modo, que pode ajudar os que têm difi­
culdade de expressão, é o que sugere Santo Inácio, 
e consiste em repetir lentamente alguma oração vocal : 
o «Pai Nosso», a «Avé Maria», a «Alma de Cristo», 
57 
A DIFICULDADE DB ORAR 
a «Ladainha da Santíssima Virgem», etc. Para os 
que usam o Breviário, um único Salmo pode ser 
usado deste modo com grande êxito. Podemos sobre 
ele improvisar e desenvolver algumas das súplicas, 
ou podemos apenas escapar-nos, por assim dizer, por 
entre as frases, deixando que o coração se mostre a 
Deus sem palavras. Em capítulos anteriores se indi­
caram outros modos de entrar em contacto com o 
Senhor, e a devoção de cada um, há-de decerto 
encontrar aquele que melhor lhe quadrará a si. 
Há alguns erros que devem ser evitados. Um muito 
vulgar é esforçar-nos por enchermos nós toda a con­
versa. A alma deveria parar de vez em quando 
e escutar Deus. Ele responde-nos, na nossa cons­
ciência, no nosso coração, muitas vezes inconfundi­
velmente. É claro que nesta matéria, devemos estar 
em guarda contra a desilusão causada por imagi­
nações vãs e frfvolas, corno se diz rnodernamente. 
Um erro muito semelhante é julgar que devemos 
manter uma torrente continua de palavras quando 
não estamos a escutar o Senhor. Como ainda há 
pouco dissemos, deveríamos usar de uma certa elas­
ticidade nos intervalos dos actos. 
A capacidade para assim proceder, é muitas vezes 
a pedra de toque da nossa sinceridade. Assim, no 
momento em que acabámos de dizer a Jesus que o 
amamos com todo o nosso coração, só se formos 
sinceros, seremos capazes de permanecer silenciosa­
mente nesse sentimento. De outro modo sentir-nos­
-ernos obrigados a prosseguir dizendo qualquer outra 
coisa, para que não aconteça que o ouçamos dizer: 
«Se tu realmente me amasses, não farias isto e isto!» 
Esta é uma das maneiras que o Senhor utiliza para 
nos moldar segundo os desejos do seu coração. 
Um erro diverso é o de tentar sentir os nossos 
actos. O acto essencial do amor de Deus é feito 
58 
ORAÇÃO AFECTIVA 
com a vontade e, portanto, a não ser que ele se der­
rame por sobre as emoções, não pode ser sentido. 
A este respeito deveria ter-se bem presente a conhe­
cida doutrina da verdadeira contrição. O verda­
deiro arrependimento do pecado, é o afastamento 
da vontade de pecar e manifesta-se numa reso­
lução da vontade de evitá-lo no futuro. É bastante 
compatível com uma forte atracção animal para o 
prazer pecaminoso, sentida no apetite inferior, e com 
a consequente pena de abandoná-lo. 
Assim também, na oração, se os nossos actos pro­
cedem da vontade, não importa se afectam ou não o 
nosso sentimento. Uma vez que queremos amar 
a Deus, por essa mesma razão, com a ajuda da 
graça, amamo-lo realmente. 
Fora daquelas alturas em que o coração está 
árido e não pode produzir nem um bom pensa­
mento nem uma palavra boa, as mais importantes 
dificuldades da oração têm as suas raízes fora 
dela. 
Esta relação que existe entre toda a oração e o 
estado geral da vida espiritual, ainda não foi tratada. 
Um ponto podemos mencionar, já relacionado com 
a oração afectiva, porque esta espécie de oração é 
particularmente sensível às desordens na nossa vida 
espiritual. Levadas por uma noção errada de Deus 
e da atitude correcta a adoptar para com Ele, algumas 
almas têm grande dificuldade em «abandonar-se» 
e em falar com Ele naturalmente, quando em oração. 
Ora é verdade que a reverência é essencial a toda a 
oração. Mas na oração privada, estamos em con­
versa com um Deus que está enamorado de nós, 
e que procura uma grande intimidade connosco, e 
isto com tal ardor que nos dá o seu próprio corpo 
e sangue como alimento, mostrando assim quão inten­
samente deseja o nosso coração. 
59 
A DIFICULDADE DE ORAR 
Ele quer que lhe falemos livremente, e há-de dar­
-nos o desconto se a nossa atenção para com Ele 
nos leva a ser pouco cerimoniosos. Além disso, 
Ele próprio é o remédio para todas as nossas doen­
ças e, se há alguma coisa errada na nossa oração, 
tal como a falta da reverência devida, depressa Ele 
a pode corrigir. Mesmo correndo o risco de nos 
faltar reverência ou de estar imperfeitamente dis­
postos, é melhor entrar num estreito contacto com 
Aquele que veio para curar as nossas doenças, 
do que manter-se afastado d'Eie por um excesso 
de respeito. Os últimos traços do jansenismo estão 
longe de estar extintos nas nossas noções de piedade. 
60 
N O V O S P R O G R:E S S O S 
A partir deste ponto da subida dessa montanha 
que é a oração, há dois caminhos pelos quais podemos 
fazer novos progressos. Um é pela simplificação 
da oração propriamente dita, durante o tempo 
determinado para esse exercício. O outro é desen­
volvê-la em extensão, de modo a entretecer com ela 
o torvelinho do trabalho de todo o dia. 
Estes dois caminhos estão tão intimamente rela­
cionados um com o outro, que o melhor é tratá-los 
em conjunto. 
Uma vez que a oração se tomou afectiva - isto é, 
composta de actos, enquanto estes são distintos da 
reflexão - pode e deve com frequência ser renovada 
ao longo do dia, por insistentes aspirações que deve­
rão ser sempre curtas, muitas vezes originais e, em 
geral, com palavras nossas. 
Podem mesmo ser isentas de palavras; um sorriso, 
um olhar, um suspiro, um movimento de coração 
que nós próprios mal percebemos, podem dizer 
tanto como volumes e mais volumes a um amigo 
tão íntimo como Cristo. Se se desenvolve este hábito, 
a oração pode manter-se perfeitamente através das 
nossas ocupações mais absorventes, especialmente 
se a nossa oração brota do trabalho que temos entre 
mãos, num pedido de ajuda, de paciência nas difi-
61 
A DIFICULDADE DE ORAR 
culdades, numa palavra de louvor por alguma dis­
posiçãoda providência de Deus concreta, ou se, 
como S. Filipe Neri, se agradece a Deus as coisas 
que não correm «ao meu gosto»! A prática de 
receber todas as manifestações da vontade de Deus, 
em especial quando são desagradáveis, com um 
sorriso, mesmo que seja apenas interior, é uma ora­
ção de grande valor e que toca o coração de Deus 
de modo muito especial. 
Não precisamos de ter receio de passar parte do 
tempo da oração, especialmente daquela que pode­
mos chamar oração voluntária, para a distinguir do 
tempo de oração que nos é destinado, sem pronunciar 
uma palavra; desde que, é claro, nenhuma oração 
de preceito se omita por isto. Por exemplo, uma 
visita ao Santíssimo Sacramento pode ser feita com 
poucas ou nenhumas palavras, e, se achamos fácil 
fazê-la assim, não devemos permitir que nenhuma 
consideração de indulgências ou qualquer outra 
semelhante seja obstáculo e nos conduza a embre­
nhar-nos numa longa série de orações vocais repeti­
das, que apenas servirão para fatigar a alma, para 
lhe criar pouco gosto pela oração e para a manter 
afastada de Cristo. 
Muitas almas seguem atrás de Marta e têm a preo­
cupação das muitas palavras e das muitas indulgên­
cias, quando vêm ajoelhar aos pés de Jesus Cristo. 
A melhor parte é a de Maria, e não devemos deixar 
que considerações como aquela, no-la arrebatem. 
E, na verdade, se pensamos um pouco nas disposi­
ções necessárias para ganhar todo o valor duma 
indulgência plenária, poderemos compreender que 
uma pessoa que passa a maior parte do seu tempo 
calmamente aos pés do Senhor, é muito mais natural 
que lucre à primeira tentativa, do que outras almas 
mais «solícitas», em muitas tentativas. 
62 
NOVOS PROGRESSOS 
A alma pode então sentir-se capaz de passar mais 
tempo num pensamento amoroso para com Deus. 
À oração que apresenta estas características, pode­
mos dar o nome de oração «simplificada». A expres­
são «oração de simplicidade», é usada muitas vezes 
para esta oração, mas, como já fizemos notar, é pre­
ferível evitar usar aqui esta expressão. 
Esta oração simplificada é uma verdadeira oração 
de muito valor e, quando completamente desenvol­
vida, não deve ser perturbada nem para reflectir 
nem para fazer actos distintos. Na prática, enquanto 
que é uma regra segura não desprezar aqueles actos 
para os quais temos facilidade ou atracção, aparte 
o caso dum entorpecimento evidente, não devemos 
tentar impor-nos actos nos quais não vemos facili­
dade ou vemos até, talvez, com muito desagrado, em 
especial se tal disposição é habitual. 
Isto é verdade ainda na forma mais árida da ora­
ção, onde nos agarramos a Deus, segundo todas as 
aparências, mesmo só pelas pontas dos dedos da 
vontade. Podem ser precisos actos - actos cur­
tos - de quando em quando, para nos refazermos 
das distracções, mas não devemos forçar-nos a eles 
mais do que isso. Nas fases mais consoladoras 
desta oração, a alma está gozando de Deus, e este 
exercício da vontade é muito agradável para Ele e 
muito proveitoso para a alma. Se, no entanto, a 
oração se torna árida e distraída e os afectos devotos 
de qualquer género, quase impossíveis, então a alma 
é levada a orar apenas com a vontade. 
E fá-lo, corno escreve Piny, «querendo passar 
todo o tempo da oração amando a Deus, e amando-o 
mais do que a si mesma ; quer rezar a Deus pela graça 
da caridade : querendo permanecer abandonada à 
vontade divina. Temos de compreender claramente 
que, se queremos amar a Deus, (deixando um momento 
63 
A DIFICULDADE DE ORAR 
à parte a consideração do lugar que cabe à graça 
nesta acção, por esse mesmo facto o amamos de 
verdade ; se, por um acto real da vontade, determi­
namos unir-nos em amorosa submissão à vontade 
d'aquele a quem amamos - ou desejamos amar -, 
por esse mesmo acto da vontade, efectuamos imedia­
tamente essa união. O amor não é, na verdade, 
nada mais que um acto de vontade». 
A ideia de que podemos amar sem uma série de 
actos cuidadosamente articulados, é tão nova para 
algumas pessoas que pode ser bom discuti-la um 
pouco mais detidamente. 
Alguns autores lançam mão do exemplo duma 
mãe com o seu filho, para ilustrar esta verdade. 
Quantos actos não expressos, de amor e admiração 
não faz ela, muitas vezes desconhecidos para ela 
própria, quando está sentada ao lado do berço da 
criança! Quantas coisas diz à criança o silêncio 
da mãe, quando a estreita nos seus braços! Mesmo 
na amizade humana, e mais ainda no amor humano, 
não é preciso mencionar a eloquência do silêncio, 
a rica expressão dum olhar ou dum sorriso. 
Assim também, nas nossas relações com Deus, 
podemos algumas vezes dizer tudo quanto Ele quer 
que digamos, em silêncio e sossego. Isto, é claro, 
não é oração para todas as almas nem para todo o 
tempo. No entanto, se ocasionalmente nos cala­
mos entre os nossos actos, e nos limitamos a ajoelhar 
diante de Deus num estado de resignação sincera 
com a sua vontade, acontecerá muitas vezes que 
verificaremos que é possivel e proveitoso permanecer 
nessa disposição durante algum tempo. Se este 
é o caso, fiquemos com a certeza de que estamos a 
orar de verdade, porque estamos a fazer actos de fé, 
de esperança e de caridade, estamos a agradar a 
Deus e a implorar-lhe silenciosamente, a sua graça 
64 
NOVOS PROGRESSOS 
e a sua misericórdia. A oração feita deste modo, pode 
muitas vezes ser possível durante as visitas ao San­
tíssimo Sacramento. Quem encontrar facilidade em 
fazê-lo e desejar mais ensinamentos sobre o assunto, 
faria bem em consultar a segunda parte da obra de 
Caussade «Ün Prayen> ou o seu livro, mais pequeno : 
«Progress of Prayen>. 
Uma vantagem desta simplificação da oração, é 
que se toma mais fácil estendê-la às horas de tra­
balho do dia. Isto representa um enorme pro­
gresso para a solução do problema talvez mais 
importante da nossa santificação, a santificação do 
trabalho diário. Se santificámos o trabalho ter-nos­
-emos santificado. 
É claro que há diversos gra1,1s nesta oração. As 
vezes não há grande dificuldade em conservar as 
faculdades ocupadas com Deus ; elas até experimen­
tam aquelas consolações sensíveis que Deus envia 
por vezes, mesmo aos principiantes. Outras vezes, 
a imaginação está bastante vazia e lança-se a deva­
near por sua conta, e até mesmo a inteligência pode 
não encontrar nada a que se agarrar. É só através 
da fé que a vontade se agarra a Deus. 
Ainda nestes casos, é possível preservar as carac­
terísticas essenciais desta oração durante o traba­
lho diário. A vontade está voltada para Deus, 
e as outras faculdades realizam expressamente essa 
união, fazendo o nosso dever, que é naturalmente 
fazer a vontade de Deus. Deste modo o tra­
balho toma-se uma autêntica oração. É em espe­
cial no caso do trabalho mental, que se tomam 
mais evidentes as vantagens desta forma de oração. 
É muito possível que a verdadeira oração de mui­
tas almas, que têm vivido uma longa vida de fervor 
e perseverado corajosamente na sua meditação 
diária, seja algo deste tipo. A vontade é levantada 
65 
A DmCULDADB DE ORAR 
até Deus pela fé e, unindo-se a Ele pela caridade, 
reza-lhe desta maneira, silenciosa; as outras facul­
dades vão realizando a vontade de Deus, ou medi­
tando, ou fazendo oração vocal, ou qualquer outro 
exercício, ensino ou trabalho manual que a sua von­
tade indica. 
De facto, parece que para certas almas, uma destas 
ocupações para as faculdades inferiores - a reci­
tação do rosário ou o uso de jaculatórias, por exem­
plo - é uma condição necessária para o exercício 
desta oração de fé. É por esta razão que uma alma 
que parece estar absorvida na oração vocal e na 
meditação, seja realmente elevada a este grau de 
oração. Não é necessário dar mais relevo às van­
tagens duma tal oração de fé, especialmente para 
sacerdotes e religiosos activos. Têm ainda maisnecessidade dela do que os membros das ordens 
contemplativas. Com ela podem fazer da sua vida 
uma oração contínua, de modo que poderão dizer 
com verdade : Trabalhar é orar. 
66 
R E C T I D Ã O D E V I D A 
Nos capítulos anteriores, ternos vindo a encarar 
a oração como o decorrer duma amorosa amizade 
com' Deus, e vimos como ela se pode desenvolver e 
progredir, do mesmo modo que a intimidade de ami­
gos humanos. É verdade clara, que a oração é 
um acto sobrenatural e dependente, portanto, com­
pletamente da graça de Deus. Eis uma parte do 
nosso assunto que ainda não discutimos. Mas, 
pelo menos até esta altura, o trabalho da graça é 
tão proximamente paralelo ao da natureza, que esta 
visão dum desenvolvimento «natural» na intimidade 
com Deus é bastante justificada. 
De passagem, podemos aproveitar o pretexto deste 
paralelismo, para fazer notar um erro, mais espa­
lhado do que poderia esperar-se, que muitas vezes 
tolhe o crescimento da oração. 
É a crença de que, depois do laborioso e lento 
caminhar discursivo da meditação, do prelúdio e dos 
pontos, não há nenhum modo de oração simplificado, 
excepto aqueles fenómenos extraordinários, como 
visões e êxtases, que algumas vezes acompanham os 
mais altos estados de contemplação, mas que de 
facto são puramente acidentais e mesmo desneces­
sários para o desenvolvimento completo da oração. 
É um erro basilar. A oração desenvolve-se exacta­
mente como se desenvolve a intimidade humana e, 
67 
A DIFICULDADE DE ORAR 
como esta, tem as suas époéas e as suas variações. 
Se, portanto, o nosso modo de orar não é adequado 
ao estado concreto da nossa intimidade com Deus, 
é natural que surjam dificuldades. Se, por exemplo, 
estamos prontos e aptos para a oração afectiva, a 
meditação - isto é, a oração discursiva - torna-se 
uma carga infrutífera; se um acto ou um tipo de 
actos é talvez suficiente para manter a alma ocupada 
na oração, então, achamos que qualquer esforço 
para multiplicar estes actos é difícil e perturbador 
em extremo. Se o coração quer falar a Deus sem 
palavras, qualquer tentativa para forçá-lo a fazer 
urna série de actos distintos, pode destruir a oração. 
E ainda, se Deus dá a sua graça apenas à vontade e 
quer que nos unamos a Ele na fé nua, qualquer 
esforço para aplicar o espírito ou a imaginação 
ao trabalho será apenas urna distracção e é, de 
facto, uma resistência à graça. E também as 
almas que j á atingiram um alto grau da oração 
e caíram então em alguma infidelidade grave, não 
podem retomar a forma de oração primitiva sem 
reparar a falta e, ainda que não tenham de esca­
lar toda a encosta, de noyo, no entanto a sua 
recuperação tem os seus problemas próprios. Deste 
modo, cada grau de intimidade com o SenhoJ, 
tem o seu modo próprio de oração, e as dificul­
dades podem surgir do facto de não escolher o 
adequado. 
Ma!Kas maiores dificuldades na oração e os maiores 
obstáculos ao seu progresso, têm às suas raízes fora 
da oração, no estado geral da nossa vida espiritual. 
Da sinceridade da nossa intenção, da sinceridade da 
nossa lealdade, da genuinidade do nosso amor - de 
coisas como estas, depende em grande parte a nossa 
oração. Tudo aquilo que pode fomentar ou preju­
dicar a amizade, favorecerá ou prejudicará a oração. 
68 
RECTIDÃO DE VIDA 
Já notámos como é essencial para a oração a 
familiaridade com Deus, e com a sua doutrina, que 
deriva da leitura espiritual, e como pode ser uma 
grande ajuda para o seu progresso; no entanto, isto 
não é de modo algum suficiente. As disposições 
fundamentais das quais emerge a oração, e das quais 
depende o seu progresso, são humildade, confiança e 
uma sede e necessidade de Deus, que se manifesta 
em procurá-lo na oração e, naturalmente, em fazer 
sempre a sua divina vontade. Qualquer defeito nes­
tas disposições fundamentais, reflectir-se-á num fra­
casso correspondente na oração. 
A oração não se desenvolverá a não ser que a alma 
avance para a múltipla pureza de consciência, e 
coração, de espírito e de acção. No que respeita 
à primeira, a oração é uma amorosa intimidade 
com Deus. Ora esta é impossível, se a consciência 
está manchada pelo hábito deliberado de pecar, que 
representa a negação directa do amor a Deus e um 
decidido apartamento dele por parte do nosso coração 
e da nossa vida. Mesmo a infracção habitual duma 
norma na qual persistimos depois de dela termos 
sido advertidos, não permite, por assim dizer, que 
olhemos para Vt:us de frente, que procuremos a sua 
presença com aquela prontidão de coração para o seu 
serviço, que é o segredo de toda a verdadeira devo­
ção e oração. Por isso é tão importante que todos 
os sacerdotes ou religiosos, e todas as almas que 
desejam avançar, procurem fixar Deus de frente, 
com toda a reverência, pelo menos uma vez, cada dia, 
sem ràpidamente se embrenharem numa forma qual­
quer de oração vocal. 
Na sua perfeição, a pureza de consciência consiste 
numa disposição firme da vontade, de nunca consen­
tir deliberadamente em nenhuma ofensa contra 
Deus ou em nenhum desvio da sua santa vontade, 
69 
A DIFICULDADE DI! ORAR 
e isto de tal modo, que logo que topa que algum 
acto se opõe à vontade de Deus, imediatamente se 
põe de parte. Faltas de fragilidade ou por inadver­
tência, surgirão sempre, mas devemos procurar mais 
e mais evitar quaisquer faltas deliberadas; e venham 
quando vierem, nem que seja sete vezes por dia, 
devemos renunciar imediatamente a elas, e procurar 
o perdão de Deus com olhar de contrição e con­
fiança na sua misericórdia. Deste modo ganhare­
mos mais em humildade do que perdemos pela nossa 
falta, e o regresso confiante a Deus pode dar-lhe 
mais glória do que a que lhe negou a ofensa. É por­
tanto uma ilusão, esperar chegar a ser homem de 
oração quando pactuamos com o inimigo. A fra­
queza humana e os maus hábitos causarão muitas 
derrotas, mas a guerra deve ser mantida com indó­
mita coragem, e com uma firme resolução de 
conservar a consciência limpa de tudo o que possa 
ofender a Deus. 
A pureza de coração consiste em guardar todos os 
afectos do coração só para Deus. Não é bastante 
banir todos os apegos pecaminosos porque, se o 
nosso coração está dividido por um apego desorde­
nado, mesmo lícito, ao nosso trabalho, a pessoas 
ou a qualquer outra coisa, não podemos dizer que 
amamos a Deus com todo o coração. Sempre haverá 
apegos no coração humano, mas devemos subordi­
ná-los a Deus e à sua vontade, de tal modo que 
nunca usurpem o seu lugar com mola real das nossas 
acções. 
A vida espiritual é um trato de amor com Cristo. 
Ele deu-nos todo o seu coração, derramando por 
nós até à última gota, o seu sangue, na morte 
pela cruz. Ele pede o nosso coração inteiro e não 
podemos recusar-nos a querer, pelo menos, dar-lho 
todo a Ele. Sem esta disposição da vontade, é impos-
70 
RECTIDÃO DE VIDA 
sive] permanecer num silêncio amoroso diante do 
Senhor. Nada obscurece tanto a nossa visão de 
Deus, nada enfraquece tanto o nosso desejo de 
Deus, nada afrouxa tanto a nossa luta por Deus, 
nada ensurdece tanto o nosso ouvido para Deus, 
como um simples apego desordenado. Esta é a 
grande fonte de muitas das dificuldades da oração. 
Nem tão pouco os efeitos perniciosos de tais 
apegos, se limitam a esta oração simplificada do 
silêncio. Mesmo o primeiro «acto» que tentamos 
fazer na oração, soa a oco e falso nos nossos ouvidos, 
quando reparamos que estamos a dividir o nosso 
coração entre Deus e as suas criaturas. E não pode­
mos ser íntimos de Deus, durante muito tempo antes 
que Ele nos aponte alguns desses apegos, que 
fazem rapina no holocausto ; porque Deus é um Deus 
ciumento - é um fogo devorador. 
Na pureza de espírito incluímos a vigilância cui­
dadosa e constante dos nossos pensamentos e recor­
dações, excluindo prudentemente tudo o que é des­
necessário,frívolo e vão, e construindo gradualmente 
uma recordação contínua de Deus e das suas obras. 
Esta é também uma das mais importantes mistifica­
ções para aqueles que desejam progredir na vida 
espiritual, e muito mais eficaz do que as mais peni­
tentes macerações da carne. De facto, sem ela, a 
penitência corporal é quase inútil. Esta morti­
ficação interior deverá estender-se à vigilância das 
nossas emoções, especialmente as de ira, medo, 
esperança, tristeza e alegria. 
O homem cuja esperança, amor e confiança, estão 
fixos em Deus, não dá lugar à ira, quando Deus lhe 
manda provações, ou quando a gente prova a sua 
paciência até ao limite ; nem teme em vão, a amo­
rosa providência de Deus, a qual ele sabe que cobre 
todos os pequenos detalhes da sua vida. E também 
71 
A DIFICUlDADE DE ORAR 
a tristeza não entra profundamente no seu coração 
quando este está firme nas riquezas de Deus; e as 
alegrias da vida parecem triviais, desprezíveis mesmo, 
para aquele que conhece o gozo do amor de Deus. 
A pureza de acção, a que muitas vezes chamam 
pureza de intenção, consiste numa vigilância con­
tínua sobre os motivos que animam as nossas acções, 
e num esforço constante para actuar apenas por 
amor de Deus e de acordo com a sua vontade. 
Requer uma guerra sem tréguas àquele amor próprio 
que está sempre à procura de inspirar todos os nos­
sos actos. Quando um religioso se firmou na vida 
religiosa e se tomou fiel na observância da sua regra, 
há-de procurar novo progresso, não em esforços 
violentos para praticar acções , extraordinárias, mas 
numa pureza sempre crescente de intenção nos 
trabalhos ordinários da vida de cada dia. 
Este é o caminho mais seguro, na verdade - aparte 
casos muito especiais - o único caminho, para 
cumprir aquela lei de perfeição cristã que S. João 
Baptista tão bem exprimiu : «Ele deve crescer, eu 
devo diminuir». Toda a busca da nossa própria 
honra, dum bem-estar indevido, toda a busca de 
nós mesmos, por muito encoberta que esteja sob o 
pretexto de motivos altruistas ou da procura de uma 
santidade mais alta, se opõe directamente aquela 
grande regra de nos negar a nós mesmos e de o 
seguirmos, que nos foi dada por Cristo. 
Isto poderá talvez parecer muito duro, e conduzir 
apenas ao desânimo. Mas não é precisa a perfeição 
desta quádrupla pureza para o progresso da oração, 
porque tal perfeição é sinónimo de santidade; deve­
mos, no entanto, esforçar-nos no sentido de ohter 
estas disposições de pureza. Devemos desejar esta 
pureza, devemos pedi-la, devemos fazer esforços 
enérgicos para a adquirir. Mas sem um auxilio 
72 
REcriDÃO DE VIDA 
especial de Deus, é pouco provável que conseguís­
semos nela um grau suficiente. A bondade de Deus 
não tem limites, e é neste ponto que Ele costuma 
intervir, tendo compaixão das nossas fraquezas ; 
depois de nos termos afadigado toda a noite, apa­
nhando pouco ou nada. Ele actua por meio da sua 
providência especial, e em pouco tempo faz-nos 
avançar para além de tudo quanto se podia esperar. 
Mas Ele pede que façamos a nossa parte, que 
continuemos a remar para o mar alto, por assim 
dizer, e perseveremos nos nossos esforços para lhe 
sermos agradáveis, e para lhe rezarmos, por muito 
infrutíferos que pareçam esses esforços. O quadro 
perfeito que Santa Teresa de Lisieux traçou da vida 
espiritual, ajudará a dar-nos coragem. Vê-a como 
uma escada que é preciso subir, no cimo da qual, 
está Deus à espera, olhando para baixo com amor 
paternal, para os esforços do seu menino ao subir 
o primeiro degrau. O menino, que nos simboliza, 
não consegue subir nem o primeiro degrau ; apenas 
pode insistir em levantar o pezito. Mais tarde ou 
mais cedo, Deus tem pena dele e desce as escadas e 
arrebata o meninp até ao cimo nos seus braços ; 
mas - e Santa Teresa insiste nisto quase tanto como 
na gentileza amorosa de Deus - temos de insistir 
em levantar o pé. A alma não deve nunca desani­
mar pela infecundidade dos seus repetidos esforços. 
Parece ser uma lei da vida espiritual que, uma vez 
que todo o progresso depende, em última análise, 
de Deus, Ele nos deixe primeiro reconhecer a nossa 
incapacidade completa, através de esforços longos 
e fatigantes que se reduzem a nada. Mas temos a 
sua palavra : «Eu próprio virei e vos salvarei». 
73 
O R A Ç Ã O 
E V I D A E S P I R I T U A L 
A análise da oração já foi levada suficientemente 
longe para se poder ver que o núcleo essencial da 
oração é o acto da vontade, voltando-se para Deus, 
buscando a Deus, e unindo-se a Deus - a Deus, 
entende-se, como é conhecido pela fé. 
É evidente, então, que há uma estreita relação 
entre a oração e o resto da vida espiritual e que, de 
facto, à medida que se progride, tende a desapa­
recer a distinção entre elas, e a oração transborda 
dos tempos para tal reservados e começa a penetrar 
o resto do dia de tal modo que, quer na palavra quer 
no trabalho, a alma é sempre levantada para Deus, 
numa união de amor. Esta relação estreita entre as 
diferentes partes da vida espiritual, bem como a sua 
dependência mútua, existe mesmo desde o princípio. 
A oração e a prática são, na realidade, dois ramos 
da mesma árvore de caridade. Em todas as árvo­
res a vida de cada ramo depende da seiva vital que 
para ele corre do tronco, ao passo que os ramos 
fornecem toda a árvore e os outros ramos, com ali­
mento e força extraídos do ar e do sol pelo inter­
médio das folhas. Assim também nesta árvore da 
caridade, os ramos da oração e da prática dependem, 
no seu vigor, da seiva vital da graça que lhes vem da 
vida sobrenatural da alma ; enquanto que esta vida 
75 
A DIFICULDADE DE ORAR 
é, por sua vez, alimentada ela mesma pela actividade 
de cada ramo, pois que os ramos da oração e da 
prática introduzem em todo o organismo espiritual 
as riquezas da atmosfera divina e a energia do divino 
sol, para os quais estendem as folhas dos actos e dese­
jos. De facto, nesta árvore da caridade não há dis­
tinção entre raízes e ramos ; pois o amor cresce 
amando, e ama crescendo. 
O caminho, portanto, que conduz ao progresso 
na oração é exactamente o mesmo que conduz ao 
progresso na virtude. Eis porque o progresso na 
oração está aqui a ser apresentado perante sacerdotes 
e religiosos, em especial perante religiosos «activos», 
corno urna parte integrante do programa essencial 
do seu estado. O objectivo primordial de todas 
as congregações religiosas não é aquele trabalho 
concreto, como a pregação, o ensino ou a enferma­
gem, que é peculiar a cada uma delas. É a santi­
ficação de cada um dos membros individuais. Há, 
portanto, uma obrigação, para cada religioso indi­
vidualmente, de tender para a perfeição, e esta obri­
gação é o dever primordial do seu estado de vida, 
um dever que vem antes de todos os outros. Por 
isso, o religioso que está realmente a viver à altura 
das suas obrigações, está a fazer tudo o que é neces­
sário para facilitar o progresso da oração. 
Mais do que isso, \liDa vez que a oração é o mais 
poderoso meio para avançar na perfeição, e uma vez 
que o seu poder cresce com o seu desenvolvimento, 
nenhum religioso pode permitir-se descuidar o ten­
tar avançar na oração, nem dizer que essas coisas 
não são para ele. O progresso na oração é conse­
quência do progresso na virtude, e o progresso na 
virtude segue-se inevitàvelmente ao progresso na 
oração. Quanto mais tornamo" a nossa vida con­
forme com a vontade de Deus, mais facilidade encon-
76 
ORAÇÃO E VIDA ESPIRITUAL 
tramas na prática da oração. De facto, a grande 
dificuldade na oração é que as nossas vontades 
- por outras palavras, os nossos corações - não 
são totalmente dados a Deus. 
Conclui-se, portanto, que não deve haver hesi­
tação em propor a sacerdotes e aos membros de 
qualquer congregação religiosa um programa de 
oração que conduz, e inclui, aosestados mais ele­
vados da oração, mesmo aqueles estados que alguns 
autores consideram ser essencialmente diferentes da 
oração «ordinária». Pelo menos no que respeita 
ao esforço fora do tempo de oração, qualquer sacer­
dote que viva de acordo com as exigências do seu 
ministério, ou qualquer religioso que faz tudo que 
lhe é exigido pelo seu estado, está também a fazer 
tudo quanto é preciso para progredir na oração. 
Se este progresso não é aparente quando há uma 
generosa fidelidade a todos os deveres, deve ter-se 
presente que há muitas almas santas e humildes que 
têm grandes dons de oração absolutamente ocultos 
para si próprias. A oração, como já vimo�. pode 
chegar a «simplificar-se» tanto que escapa à nossa 
própria consciência. Além do que a relação entre 
o progresso e a oração não é a mesma para todos. 
Há quem vá longe na perfeição e pelo menos parece 
estar ainda nos estados elementares da oração ; 
enquanto que, por outro lado, ain4 Deus pode dar 
algumas das suas melhores graças a almas que 
estão ainda longe da perfeição. 
A oração é um meio para atingir a perfeição ; 
não é a própria perfeição. Uma coisa se pode 
afirmar confiadamente : se mais almas se aplicassem 
a orar, e a insistir nas tentativas para orar melhor, 
um número muito maior chegaria à sua devida per­
feição e isto com menos dificuldade do que se tra­
tassem a oração como um mero exercício ocasional 
77 
A DIFICULDADE DE ORAR 
da sua vida espiritual - meio que, afinal, se poderia 
dispensar. 
Neste campo, os membros das congregações mais 
activas não têm o direito de pensar que a oração 
tal como agora a descrevemos não é para eles. 
É certo, talvez, que nas ordens contemplativas pode­
ria ser mais fácil para as almas progredir na oração ; 
é verdade também, infelizmente verdade, que o 
horário do dia de alguns religiosos está tão abarro­
tado de trabalho e são tão vastas as exigências que 
se fazem às suas energias, que pouco tempo ou 
energia se pode encontrar para desenvolver a vida 
interior. Apesar disso, é verdade que as graças 
da oração são oferecidas aos religiosos activos do 
mesmo modo que a qualquer outra pt:"ssoa, e que a 
colaboração necessária da parte deles não é nada 
mais do que aquilo a que estão já obrigados pelo 
dever essencial do seu estado. As «actividades» 
legítimas dos religiosos não são nenhum obstáculo 
para a acção da graça de Deus ; são, de facto, um 
instrumento dessa graça, e pode dizer-se que se um 
religioso, depois de estar muitos anos em religião, 
não atingiu o seu devido estado de perfeição na 
oração, isto é devido, até certo ponto, não a ser 
membro duma congregação religiosa activa, mas 
antes porque as suas actividades não foram tão 
sobrenaturalizadas e tão interiores como o exige o 
seu dever principal como religioso. 
Para facilitar a oração, portanto, e para progredir 
nela, deve haver grande fidelidade à vontade de 
Deus. As regras e todas as outras manifestações 
dos desejos de Deus devem ser fielmente seguidas, 
e os detalhes da vida comum, bem como os deveres 
diários de cada um, têm de ser executados com 
grande exatidão e uma vigilante pureza de intenção. 
E depois, é preciso prontidão em corresponder à 
78 
ORAÇÃO E VIDA PSPIRJTUAL 
graça e generosidade em não recusar a Deus nada 
que Ele esteja claramente a pedir. Quanto mais 
nos abandonamos à vontade de Deus aceitando ale­
gremente todas as suas disposições e confiando 
amorosamente em todos os seus planos, tanto mais 
depressa avançaremos e tanto mais cedo chegará 
ao fim a actividade purgaLiva da acção de Deus na 
alma. O objectivo da alma deveria ser sempre 
secundar o trabalho de Deus para a sua santificação. 
Acima de tudo, uma vez que a humildade é o fun­
damento de toda a vida espiritual, e desde que Deus 
quer que a alma seja humilde a todo o custo, deve 
aceitar alegre e generosamente todas as humilhações 
que Ele lhe envia. Isto tem ainda outro efeito, 
porque afecta o que frequentemente é uma fonte de 
distracções na oração : a tendência inconsciente 
para curar as feridas do nosso amor próprio com 
pensamentos e imaginações agradáveis, com aqueles 
sonhos e devaneios tontos que tanto interferem 
com a oração. 
Não deve nunca esquecer-se a importância da 
mortificação interior. Não pode haver progresso 
na oração sem urna vida mortificada. 
Ora isto não significa uma vida de grande peni­
tência corporal. É o nosso amor próprio que deve­
mos mortificar, e tentar penitências corporais extraor­
dinárias e invulgares, sem um claro apelo de Deus 
e a aprovação de alguma autoridade adequada, é 
vulgarmente apenas uma forma subtil de nos bus­
carmos a nós próprios. Deve, é claro, haver a peni­
tência corporal suficiente para manter o corpo em 
sujeição. As regras e os costumes da ordem de 
cada um são o melhor guia nesta matéria. Devido 
ao relevo dado por alguns escritores às mortificações 
extraordinárias praticadas por alguns santos, muita 
gente ficou com a noção de que estas coisas são 
79 
A DIDCULDADE DE ORAR 
essenciaiS à santificação. A vida de Santa Teresa 
de Lisieux é suficiente para corrigir este erro. 
Deve ter-se sempre presente que é pela mortifi­
cação interior da memória, da imaginação e das 
emoções, e por uma pronta aceitação das humilha­
ções que se faz o mais rápido progresso. Dar rédea 
livre aos nossos pensamentos, entregar-se a deva­
neios, construir castelos no ar, viver continuamente 
de recordações passadas, alimentar os nossos agraVO!\ 
consentir que a soberba ferida dite os nossos pensa­
mentos ou sentimentos - todos estes hábitos são 
fatais para uma vida de oração. Apesar de quantas 
penitências corporais pratique, o sacerdote ou o 
religioso que não pode abster-se de manifestar os 
agravos e proclamar as injustiças que padece, bus­
cando consolação quando é desdenhado, e pro­
curando mesmo uma oportunidade para se des­
forrar, está longe de ser mortificado de verdade e, a 
não ser que se emende, não pode ser um amigo 
íntimo de Cristo. 
De grande importância é a fidelidade às inspira­
ções da graça, àqueles convites do Espírito de Deus 
que pede a nossa cooperação para qualquer trabalho· 
ou sacrifício particular. 
É através destes movimentos da graça que Deus 
adapta o seu plano e atende às necessidades indivi­
duais e às circunstâncias de cada alma. São de 
especial importância para a vida espiritual dum sacer­
dote no mundo. Rejeitar estes convites, em especial 
o fazê-lo habitualmente, é, na realidade, extinguir 
o espírito. Toda a vida espiritual é uma sociedade 
com Cristo e o Sru Espírito ; A oração é como que 
a reunião ou a entrevista - poderia bem chamar­
-se-lhe uma entrevista amorosa - em que afinnamos 
a Deus o nosso amor e a nos<;a cooperação, onde 
manifestamos a nossa união com Ele e encontramos 
80 
ORAÇÃO E VIDA ESPIRITUAL 
mesmo alegria nessa união. Ora, se o resto do 
nosso dia desmente os nossos protestos e contradiz 
as nossas promessas, não podemos encontrar-nos 
com Deus com sentimentos sinceros de amor e de 
cooperação ; deste modo, a oração torna-se «difícil», 
e mesmo impossível. É talvez por e�ta razão que 
tantas almas não conseguem ir longe no caminho 
da oração. Não é porque Deus lhes tenha recusado 
as graças da oração, mas porque recusaram a Deus 
aquela cooperação cum o que poderíamos chamar 
as orações da sua graça - os convite!. para trabalhar 
em união com Ele -. porque lhe recusaram aquela 
cooperação que é o necessário cumprimento e fun­
damento da sinceridade da oração afectiva. Quando 
falamos a Deus temos de ter a intenção daqmlo 
que dizemos, temos de praticar aquilo que prome­
temos, temos de demonstrar em factos o que diz�­
mos oralmente. 
81 
A SENDA DO PROGRESSO 
Há uma outra consideração que torna desejável, 
se é que não é também necessário, que os diferentes 
caminhos da oração sejam apresentadosa todos os 
sacerdotes e a todos os religiosos, e istc não apenas 
corno um conhecimento especulativo sem ter nc:nhuma 
relação com a prática, mas como métodos práticos 
da or�ção que todos poderão ter ocasião de empre­
gar. Mas isto requer urna certa introdução sob a 
forma duma análise do caminho que nos há-de levar 
às alturas da oração. 
É bastante verdade que há uma velhíssima d;vi­
são da vida espiritual em três estados - nomeada­
mente o de principiantes, adiantados e perfeitos ­
que data quase dos tempos apostólicos. É verdade 
também que o progreo;so na oração foi dividido em 
três modos, correspondentes a cada um destes três 
estados. É verdade, além disso, que o caminho 
ascendente da oração foi dividido em vários graus 
por autoridades tão grandes como Santa Teresa, 
e por muitos teólogos de experiência e renome. 
A esta tradição de testamento, a este peso do 
precedente e da prática, poderiam acrescentar-se 
as amáveis sugestões daqueles cujo conselho pro­
curamos ao traçar estas linhas, recomendando deci­
didamente a divisão da vida espiritual em graus 
bem marcados, com definições detalhadas de cada 
83 
A DIFICULDADE DE ORAR 
tipo de oração e um tratamento classificado das difi­
culdades que surgem em cada classe. 
Apesar diss ) abstivemo-nos propositadamente duma 
téntativa demasiado precisa de definição, e também 
de qualquer classificação bem delimitada dos dife­
rentes estados no progresso da oração, com divi­
sões bem marcad�s entre cada estado. Ao fazer isto 
não pomos em dúvida nem por um momento a ver­
dade dos princípios latentes num procedimento tão 
cientifico como o da tradição. Mas este livro não 
é um manual teórico para discutir as dificuldades 
da oraÇão em termos gerais ou abstractos. É antes 
uma tentativa para ajudar as almas, individualmente, 
a lidarem com as suas próprias dificuldades, e a 
encararem a vida espiritual não dum modo cientí­
fico, objectivo, mas do ponto de vista sub_iectivo do 
individuo, tratando-a como ela aparece na prática 
a cada um. 
Ora, se tomarmos a experiência dum grande 
número de almas de idade, experiência, tempera­
mento e épocas diferentes, e se tirarmos a média, 
verificaremos que as divisões e conclusões clássicas 
são bastante rigorosas e bem justificadas. Mas se 
fôssemos a medir uns quantos homens, a tirar a 
média das diferentes medidas e a fazer um fato de 
acordo com estas medidas médias, o mais natural 
seria não haver pessoa alguma a quem o fato ficasse 
bem. Assim acontece ·com a oração. As experiên­
cias de cada um, e o caminho pelo qual lhe parece 
que corre a sua oração, não hão-de submeter-se à 
letra duma lei geral. Em particular encontrar-se-á 
grande variação na sequência por que os diferentes 
graus de oração se sucedem uns aos outros. Mesmo 
naqueles cujo trilho segue mais de perto as tabu­
letas clássicas - meditação, oração afectiva, oração 
simplificada, contemplação árida, oração de união, 
84 
A SENDA DO PROGRESSO 
etc. - estas divisões só representam uma média ao 
longo dum período no qual predominou um deter­
minado tipo de oração. E não é mesmo impos­
sível que, no ponto marcado com meditação, tenha 
havido tempos em_ que se tenha praticado outros 
tipos de oração. É claro que é pouco natural que 
todos tenham estado presentes. 
Autores de espírito bastante conservador fazem 
notar que um certo número de almas começam com 
a oração afectiva. A muitos principiantes genero­
sos foram-lhes dadas, pelo menos por algum tempo, 
as graças da contemplação. A tarefa de receitar 
para cada alma deve pois ser encarada com esplrito 
aberto e numa completa selecção de receitas. 
E além desta variedade, aparentemente inerente à 
natureza do caso, parece que, em vista das neces­
sidades destes tempos críticos e do temível vigor das 
forças em oposição activa à cristandade, Deus está 
ainda mais disposto a derramar as suas generosas 
graças de oração em almas que desejem fazer uso 
delas. Não importa qual seja o seu estado na vida; 
dificilmente há uma alma que se aplique seriamente 
a procurar a oração e a santidade, da qual se possa 
dizer com algum fundamento que lhe não são ofe­
recidas as mais altas graças de oração. Portanto, 
parece desejável que cada alma tenha um conheci­
mento prático dos diferentes modos de orar e esteja 
preparada para usar cada um deles de acordo com 
as condições variáveis da graça, do fervor e do clima 
geral da sua vida espiritual. 
Isto significa que deve estar preparada para subir 
mais alto se Deus a tanto a convida, e deve estar 
pronta, com igual alegria e santa indiferença, a 
retomar a meditação se, falhando tudo o resto, isso 
se tornasse proveitoso. Isto não é afirmar que não 
haverá um desenvolvimento geral da sua oração ; 
85 
A DIFICULDADE DE ORAR 
tudo o que escrevemos mostra claramente que, 
numa vida espiritual sã, algum crescimento é quase 
inevitável. Mas é muito possível que o curso da 
oração, observado dia a dia, venha a manifestar 
toda a casta de variações e a exigir um manejo de 
vários métodos. Vale a pena notar que S. João 
da Cruz inclui sob o mesmo termo - o de medita­
ção - as diferentes variedades de oração que temos 
estado a tratar. 
Foi por isso que evitámos as definições exactas 
ou delimitações claras. Podemos definir termos 
com rigor; mas uma clara definição de estados pres­
supõe a existência de divisões diferentes e precisas 
no desenvolvimento da oração, que não são tão fáceis 
de encontrar na prática, especialmente quando as pro­
curamos no caso duma alma determinada. É mesmo 
tarefa de grande monta traçar a fronteira entre o 
estado geral da oração ordinária e o princípio daquilo 
a que muitos chamam a contemplação inglesa. Se, 
portanto, é visível uma certa imprecisão no presente 
tratamento do desenvolvimento da oração, é porque 
isto parece estar mais de acordo com a experiência 
individual. É também por isto que devemos julgar­
-nos justificados por tratar as dificuldades dos dife­
rentes modos de orar duma forma não classificada. 
Há uma arma - um caminho - que é essencial 
para lidar com todas as dificuldades e para fazer 
progressos na oração. É uma firme resolução de 
não deixar nunca de tentar, de não desistir nunca 
de orar, não importa que dificuldades surjam, não 
importa quão pequeno seja o grau de progresso, 
não importa quanto custo tenha de acarretar. Quando 
decidimos tornar-nos homens de oração, fáZemos 
uma declaração de guerra, não só aos nossos mais 
baixos instintos, mas ao próprio demónio. Só uma 
coragem decidida e uma confiança inabalável em 
86 
A SENDA DO PROGRESSO 
Deus podem tomar possível a nossa persistência 
nesse combate. Mas se somos generosos e fazemos 
quanto podemos, mesmo que seja pouco mais que 
gloriar-nos nas nossas fraquezas, então podemos 
estar certos do auxilio de Deus, porque é um prin­
cípio teológico que àqueles que usam a pouca graça 
que porventura jã têm, Deus não recusarã a graça 
posterior. 
Hã uma dificuldade, muito vulgar, que hã-de pôr 
à prova a força desta resolução ; é a luta contínua 
contra as distracções. Estas perturbações podem, 
é claro, ter a sua origem fora da oração, em aJgum 
apegamento, numa curiosidade imortificada, num 
remoer mórbido sobre as humilhações, por exemplo; 
podem ser devidas a não se conseguir um recolhi­
mento generoso e completo no princípio da oração. 
Nestes casos, o remédió é óbvio. Podem, no entanto, 
ser devidas à fadiga; porque se as potências do espí­
rito estão duramente aplicadas ao trabalho todo 
o dia, não lhes é fãcil fazer o esforço necessãrio para 
continuarem atentas àquilo que pode ser uma tarefa 
muito difícil. Neste caso, quando o trabalho que 
nos distrai é indicado por Deus, e não devido a que 
nos procuremos a nós mesmos, apenas podemos 
gloriar-nos nas nossas fraquezas e esperar na graça 
de Deus. As distracções podem,ainda, ser devidas 
à instabilidade natural do espírito, especialmente da 
imaginação. É lei psicológica que uma ideia tende 
a suscitar outra, de acordo com os conhecidos prin­
cípios da associação e do contraste, de tal modo que 
o próprio esforço para tornar clara uma ideia pode 
ser o meio de iniciar uma distracção. As distrac­
ções podem, ainda, provir de que o assunto da nossa 
oração e a actuação da graça de Deus não apresen­
tem atractivos para a imaginação, para os nossos 
gostos naturais, ou até para a parte mais familiar 
87 
A DIFICULDADE DE ORAR 
das nossas potências intelectuais. Especialmente 
neste último caso, a imaginação e os seus auxiliares 
parecem amotinar-se, e qualquer tentativa para as 
dominar apenas afastará a atenção da verdadeira 
oração, que continua nas profundidades da alma, 
no que poderia chamar-se a <<luz invisível» da fé. 
Em todos estes casos, o máximo que podemo_s 
fazer é renovar a nossa atenção a Deus de acordo 
com o modo como estamos a orar-lhe. Isto deverá 
fazer-se delicadamente e serenamente, sem vexame, 
ou mesmo sem surprêsa pela nossa própria loucura. 
Se pudéssemos compreender quanto este contínuo 
regresso a Deus lhe revela o nosso amor real por 
Ele e quanto lhe agrada mais do que a atenção arre­
batada que tem as suas raízes no amor próprio, 
nunca ficaríamos descontentes com a nossa oração 
por causa das suas numerosas distracções. Se a 
oração é um levantar o espírito para Deus, então 
cada vez que nos afastamos das distracções para 
renovar a nossa atenção, oramos a Deus - e ora­
mos nas «barbas» da dificuldade e apesar de nós 
mesmos. Que poderia ser mais agradável a Deus? 
Que de mais meritório ? Ficaríamos muito surpreen­
didos se pudéssemos lançar a vista sobre o livro de 
contas que guarda o anjo apontador e ver os diver­
sos valores que lhe lança nas nossas várias tentativas 
de oração. A oração que nos agradou, e com a 
qual ficamos todos satisfeitos, ficaria, com frequência, 
bastante baixa na sua apreciação, enquanto que a 
oração que nos desagradou, que era aparentemente 
passada só em distracções, poderia acontecer que 
merecesse em alto grau a sua aprovação. 
Algumas vezes o simples regresso a Deus é sufi­
ciente para banir a distracção ; mas, muito frequen­
temente, o mesmo pensamento de distracção insiste 
em reaparecer, apesar das nossas tentativas para 
88 
A SENDA DO PROORESSO 
libertar-nos dele. Uma maneira de l idar com tais 
instrusos é torná-los objecto da oração. Com um 
pouco de ingenuidade, pode encontrar-se alguma 
relação entre a ideia que nos distrai, e Deus. Pode, 
talvez, dar-nos alguma coisa por onde orar ; pode 
servir-nos como motivo para louvar a Deus; poderá 
ser usada como urna evidência da nossa necessidade 
da sua graça. Se tudo o mais falha, podemos voltar 
ao conselho do autor de «The cloud>> para lidar 
com as distracções, de que deveríamos procurar 
olhá-las ppr sobre os ombros, corno se estivéssemos 
a olhar para algum objecto para além delas e acima 
delas - que é Deus. Há um capítulo excelente 
sobre as distracções em «Holy wisdorn» ( «Sancta 
Sophia») de Baker, urna obra à qual muito devem 
estas páginas, e que refere a mesma tradição. A parte 
deste livro que trata da oração será decerto de grande 
ajuda ; foi publicada separadamente por Weld­
·Blundell sob o título «Prayer and holiness». 
Pode ajudar-nos um outro modo de encarar a 
oração, quando sentimos que de todo não podemos 
orar. Tornemos o tempo da oração corno urna 
entrevista com Deus. Se, pelas suas sábias razões, 
Ele resolve não comparecer à entrevista, essa é a 
sua vontade e, portanto, deve ser louvada. Pela 
nossa parte, ajoelhando ali, desamparados, e qua� 
desesperados, estamos a fazer o que Ele quer que 
façamos, e podemos confiantemente deixar o resul­
tado nas suas mãos. Estas horas desamparada�, 
passadas a combater o sono e a distracção, «sem 
conseguir nada», corno é costume dizer-se, desem­
penham um papel providencial na nossa santificação. 
As distracções que não são deliberadas são uma 
provação, não urna falta; aceitemo-las alegre e 
confiadamente. No tempo que Ele ache propicio, 
Deus virá e salvar-nos-á. 
89 
A S D I F I C U L D A D E S 
D E N Ã O O R A R 
Até aqui temos estado a considerar as dificuldades 
da oração ; vimos também que a oração é susceptível 
de desenvolvimento, e verificámos quão estreitamente 
está unida com a vida espiritual, de tal modo que 
nenhum progresso é possível numa, sem grandes 
esforços na outra. Um religioso, esquecendo tal­
vez que está já obrigado a estes esforços pelo próprio 
hábito que usa, pode permitir que a sua aparente 
dificuldade o detenha a procurar aproveitamento 
na oração. Antes de continuar a tratar qualquer 
novo avanço na oração, com as suas dificuldades, 
será bom que vejamos que alternativas se apresen­
tam a um tal religioso. 
Àparte o facto de que a pena e o esforço implícitos 
na tentativa para avançar na vida espiritual trazem 
consigo a sua própria consolação e força, uma união 
com Jesus mais intima e mais consciente, que lhes 
pode tirar toda a sua aspereza, são também contra­
balançadas pela supressão da maior de todas as 
formas de infelicidade - o serviço «a meias)) na 
religião. Para o religioso cujo coração não anda 
à procura de união com Deus, a vida é uma desola­
ção perpétua. Toda a vida religiosa está organizada 
para conduzir-nos - para transportar-nos, na reali­
dade - em direcção à meta de união divina. Qual­
quer outro caminho, ou qualquer atrazo, faz-nos 
91 
A DIFICULDADE DE ORAR 
andar toda a vida contra a vontade e remar contra a 
sua firme corrente. 
Se um religioso que assim se afasta do fim prin­
cipal do seu estado, procura distracção absorvendo-se 
no seu trabalho, está permanentemente a arranhar-se 
contra os inumeráveis obstáculos e impedimentos 
que a limitação da sua regra de vida lhe põe no 
caminho do êxito completo nessa direcção. Se 
tenta encontrar paz na busca de algum prazer infe­
rior, em breve conclui que tem de chegar a medidas 
extremas para tentar abafar os remorsos da sua 
consciência e os apelos daquela fome, profundamente 
enraizada, da sua natureza mais elevada, que não 
encontra alimento em uma tal loucura, e assim os 
seus dias estão cheios duma miséria sempre cres­
cente. Mesmo que evite tais desordens, todo o 
conjunto dos exercícios religiosos se torna sem sen­
tido, sem razão e fatigante em extremo. É como 
um rapaz na escola que não quer aprender, um 
doente em tratamento que não quer pôr-se bom, um 
soldado em armas que está decidido a não lutar. Está 
numa guerra contínua - se é que podemos dar este 
nome às suas disputas - com aquilo que o rodeia. 
O estado religioso é um estado em que urna alma 
se entrega a Deus e em que Deus se dá a si mesmo 
à alma, depois que a ajudou a sacrificar-se e a pre­
parou para esta dádiva. Qualquer plano pessoal 
oposto a este fim é completamente estranho à vida 
deste estado, e mais tarde ou mais cedo ou se põe 
completamente de parte tal fim ou então começou 
o fracasso dessa pessoa como religiaso. Mas se 
podemos fazer dessa vida, nossa a verdadeira fina­
lidade e ver todas as coisas como meios divinamente 
inspirados para nos unirem a Deus, então teremos 
encontrado urna felicidade indizível, e com ela o 
segredo da paciência alegre. 
92 
AS DIFICULDADES DE NÃO ORAR 
Muitos religiosos, por exemplo, consideram o 
recreio da comunidade uma grande prova - em vez 
de recrear, algumas vezes apenas serve para irritar. 
Suponhamos, no entanto, que se vai para lá apenas 
procurar .Jesus e para o encontrar fazendo a sua 
vontade, e então encontra-se também um ponto de 
vista que torna o exercício não só tolerável, mas 
ainda uma coisa que pode ser aceite alegremente. 
Num capítulo posterior havemos de ver quão ver­
dade é que fazendo a vontade de Deus,encontramos 
a Deus ; que, mesmo ao cumprir o que parece serem 
os mais insignificantes preceitos da regra, estamos 
a fazer uma coisa que é mais agradável a Deus e 
mais eficaz para a nossa felicidade eterna do que 
qualquer outra, por grande ou heróica que fosse, 
que pudéssemos fazer naquele momento. Uma tal 
atitude é de grande ajuda no caso daqueles preceitos 
da regra que parecem frequentemente aborrecidos e 
injustificados. Encarados deste modo, o seu cum­
primento torna-se uma oração constante, uma comu­
nhão espiritual prolongada; não só suplica a Deus 
com a máxima eficácia que venha aos nossos cora­
ções como nos une realmente a Ele. 
Além disso, é um facto que unindo-nos a Jesus 
desta maneira, fazendo alegremente a sua vontade, 
também nos unimos a todos os trabalhos de todos 
os seus servos através de todo o universo ; estamos 
unidos a cada sacerdote que celebra a missa, a cada 
missionário que prega o Evangelho, a cada alma que 
reza ou que sofre por Cristo ; e, mais ainda, parti­
cipamos do fruto do trabalho deles, e podemos 
mesmo ter parte na sua recompensa, de acordo com 
a nossa aceitação amorosa da vontade de Deus e a 
prontidão em cumprir o dever concreto que Deus 
nos designou. Procurar a Deus em verdade, fazer 
a sua vontade alegremente, amá-lo de todo o cora-
93 
A DIFICULDADE DB ORAR 
ção - este é o único caminho para a verdadeira 
oração e a verdadeira paz. 
Esta vida interior não é apenas a única esperança 
de cada indivíduo que está em religião ; é também 
a única esperança do estado reiigioso, e ao chamar-lhe 
«a única esperança» estas palavras foram tomadas 
em todo o seu significado. O Senhor m�smo disse 
aos seus apóstolos, na noite em que os ordenou 
sacerdotes e fundou a vida activa da Igreja : «Perma­
necei t:m mim, e eu em vós Eu sou a vinha, vós 
sois os ramos : aquele que permanece em mim, e eu 
nele, esse dá muito fruta, porque sem rni'll nada 
podereis fazer->. Todo o discurso que Ele lhes fez 
na noite antes de sofrer, foi uma exortação à vida 
interior, e urna indicação clara de que era a única 
fonte da sua ·fecundidade. 
Nestes tempos críticos, quando a Igreja tem tama­
nha necessidade da cooperação total de todos os 
seus religiosos, é da vida interior de oração e peni­
tência que ela mais necessita, e parece por vezes que 
é a última ajuda que os seus membros pensam ofe­
recer-lhe. Há o perigo de, sob a pressão da neces­
sidade e através do contágio com um mundo mate­
rialista, a nossa perspectiva se tornar deformada 
e a nossa escala de valores se alterar. Os maravi­
lhosos serviços que o estado rdigioso prestou à Igreja 
e aos seus mern bros, pn::gando, en�inando, curando, 
em todos os géncros de actividades, são uma das 
glórias do cnstianismo. Mas tudo isso não é TD.ais 
que bronze que soa e címbalo que tine, se não vem 
duma vida de oração e união com Deus. 
É forte a tentação para esquecer isto. Quando 
há necessidade de novos corpos de professores para 
as escolas, quando as missões clamam fortemente 
por ajuda, quando os sofrimentos dos pobres dila­
ceram os nossos corações, é muito fácil esquecer a 
94 
AS DIFICUIDADFS DB NÃO ORAR 
necessidade absoluta que representa para cada sacer­
dote e para cada religio!>o, um forte, firme e sólido 
fundamento na vida interior; é muito fácil esquecer 
a necessidade absoluta do vagar !;Uficiente para a 
oração, para a leitura espiritual e para ns co1sas da 
vida espiritual. As necessidades de momento podem 
amontoar estes exercícios num canto eternamente 
apertado do horário, podem fazer exigências cada 
vez maiores às forcas c energia dos sacerdotes e reli­
giosos, e podem mesmo chegar a preencher todo o 
campo do seu intP.resse. Isto seria fatal ; porque 
então não pode haver mais fruto, não pode haver 
mais vida, porque Jesus foi empurrado para fora 
da vida religiosa e do coração de cada religioso 
. . . Ele que é o Caminho, a Vt:.rdade, e a Vida. 
Tentar ganhar eficácia, quer do ponto de vista 
individual quer dum inslinto, reduzindo o tempo 
ou o interesse pela oração e pelos exercícios espiri­
tuais, é ainda mais insensato do que tentar rezlizar 
mais trabalho manual pondo de parte o jantar. 
Toda a sabedoria, toda a eloquência, todo o tra­
balho do mundo não podem converter nem uma 
única alma, a não ser que a oração e os sofrimentos 
de alguém atraiam a graça necessária. As palavras 
dum homem não iêm urção a não ser que ele viva 
uma vida de intimidade com Jesus. Os rapazes, 
por exemplo, respeitarão um homem de princípios 
elevados, aprenderão com um bom professor, admi­
rarão mesmo um homem penitente; mas se esse 
homem não for um amigo íntimo de Jesus, nenhum 
progresso exercerá jamais no coração e na alma do 
aluno aquela influência que o tornará também um 
amigo e um amante de Jesus ; poderia mesmo dizer-se 
que, se não há qualquer outra pessoa que esteja 
em oração em vez dele, nem sequer fará do aluno 
um bom católico. 
9S 
A DIFICULDADE DE ORAR 
Estes são apenas alguns exemplos duma verdade 
de aplicação universal. A vida exterior é inútil 
se não brota duma vida interior e nenhuma vida 
interior pode ser duradoura sem uma oração cons­
tante e de todo o coração. Ora, não há nenhum 
exercício da vida espiritual que se preste menos a ser 
regulamentado do que a ora�;ão, nem há nenhum 
cuja rcgulamen1ação creste e murche tão depressa. 
A oração deve ser a prática mais espontânea de 
todas. O seu são desenvolvimento numa congre­
gação é assegurado da melhor maneira, não através 
duma «organização» excessiva, com métodos e 
matérias fixas, mas formando antes de mais nada 
em cada religioso o espírito da vida interior, com 
uma fone convicção do seu valor e da sua nf'cessi­
dade levando-o a um tralo intimo com Jesus, e 
dand .)-)he então todas as oportunidades e facilidades 
para a desenvolver. 
96 
A O R A Ç Ã O 
D O S A C E R D O T E 
Nos capítulos preéedentes fizeram-se tantas refe­
rências à vida religiosa que deve agora prestar-se 
alguma atenção ao caso do sacerdote que vive no 
mundo. Não se pense que tudo o que se diz neste 
livro acerca da possibilidade de progredir na oração 
é um ápice se4uer menos verdadeiro para o sacerdote 
do que para o religioso. A única razão de se fazer 
aqui uma referênc ia mais demorada à vida religiosa 
é porqt e este l ivro foi escrito por um religioso, e 
porque, efectivamente, só se pode tratar com detalhe 
aquelas questões de que se tem experiência imediata. 
Pareceu que era preferível, para um autor que só 
pode ter um conhecimento de segunda-mão dos 
problemas do sacerdote, evitar ver as suas dificul­
dades com demasiado pormenor, para não correr 
o risco de não serem <:>ncaradas com inteiro conhe­
cimento e compreensão. Estas dificuldades são 
duma natureza tal que um contemplativo enclausu­
rado que tentasse tratá-las demasiado minuciosa­
mente, poderia denunciar-se num estratega de salão. 
No entanto, é prec so fazer alguma referência a 
estes problemas, pois se assim não fosse poderia 
parecer que a oração e a perfeição não eram consi­
deradas acessíveis aos sacerdotes no inundo. Ora, 
pelo contrário, o progresso da oração não lhes é 
97 
A DIFICULDADI' DE ORAR 
apenas possfvel , como é mesmo de capital importância 
pois o facto é que enquanto que o estado religioso 
é um caminho para a perfeição e, por isso mesmo, 
aberto àqueles que estão ainda longe da santidade, 
o sacerdódo pressupõe de facto qur. já se r.lcançou 
a santidade ( 1 ). Poderia dizer-se. de facto, que 
ao passo que um religioso está obrigado a tender 
para a perfeição por razão do seu estado, o sacer­
dote só está obrigado a fazê-lo se ainda não atingiu 
a perfeição requerida pelo seu sacerdócio ; a sua 
obrigação priml1ria é ser perfeito. 
Já se fez referência às palavras usadas por o 
Senhor em pessoa, ao dirigir-se aos Apóstolos depois 
de oster ordenado sacerdotes. Estão tão impreg­
nadas de luz sobre este assunto, que podem citar-se 
de novo em bloco. 
«Permanecei em mim, e eu em vós. Assim como 
o ramo não pode dar fruto por si mesmo. se não 
permanece na vide, tampouco vós, se não perma­
neceis em mim. Eu sou a vide, vós sois os ramos ; 
aquele que permanece em mim, e eu nele, esse dará 
muito fruto. Porque sem mim não podeis fazer 
nada. Se algum não permanece em mim, será 
arrancado como o ramo e murchará, e será apanhado 
e lançado no fogo e arderá. Se permaneceis em 
mim e as minhas palavras permanecerem em vós, 
pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto 
é que o meu Pai é glorificado ; em que deis muito 
fruto, e que vos torneis meus discípulos» (2). 
E, quase como se olhasse por sobre os longos 
anos e nos ouvisse protestar : «Mas, Senhor, como 
hão-de ser estas coisas ? Temos de viver no mundo 
98 
(1) Cf. S. Tomás, Summa, ll-11, 189, a. I, ad. 3. 
(2) João XV, 4-8. 
A ORAÇÃO DO SACERDOTE 
temos de viver com o mundo ; de maneira que são 
para eles, precisamente porque, como sacerdotes, as 
suas funções exigem perfeição. 
Ainda que o úitimo capítulo tenha tirado a sua 
conclusão do facto de que o dever e a finaFdade pri­
mordiais do estado religioso é tend�r para a perfei­
ção, não precisamos de considerar aq ui a perfeição 
do estado sacerdotal, precisamente como um «estado> . 
Se o texto de S. Tomás, q ue conduziu a algumas di ver­
gências r.a r:loutrina sobre este assunto, se aplica ou 
não às condições actu<lis, não é problema q uc precise 
de ser posto aqui. (Aqueles que pretendem exami­
nar este ponto encontrá-lo-ão discutido em «The 
secular Pricsthood» de E. J. Mahoney»). S. Tomás 
é bastante claro ao afirmar que as funções do sacer­
dote, não importa qual o seu «estado», requerem 
Uma maior santidade interior do que o próprio estado 
religioso ( 1 ). As declarações dos mais recentes Papas 
não deixam lugar para dúvidas sobre a necessidade 
da santidade no sacerdote. Bastará c:tar aqui Pio X: 
«Há alguns que pensam e ensinam que todo o valor 
dum sacerdote consiste em ele se dedicar às necessi­
dades dos outros. Quão falsa e desastrosa é seme­
lhante doutrina. Só a santidade pessoal fará de 
nós homens como os que pede a nossa vocação 
divina : homens crucificados para o mundo, homens 
para os quais estão mortas as coisas do mundo, 
homens que caminham numa vida renovada» (2). 
Os Pontífices seguintes apenas reafirmaram este 
principio. 
É certo que um sacerdote não está obrigado a usar 
exactamente os mesmos meios de perfeição que um 
(1) Cf. S. Tomás, Summa, 11-11, 1 84, 8). 
(2) Haerent Animo, 4 de Agosto de 1908. 
99 
A DIFICULDADE DE ORAR 
religioso, mas isso não diminui as suas obrigações, 
pois são muitas e imensas as dificuldades que nos 
separam duma tal perfeição!», dá expressão à verdade 
total do poder e do sucesso da sua missão como nosso 
Salvador numa palavra que é uma resposta perfeita 
a qualquer dificuldade que um sacerdote possa 
encontrar para atingir a santidade : «No mundo 
haveis de ter tristezas : Mas confiai, eu venci o 
mundo>>. 
Por isto é que pode afirmar-se com confiança que 
tudo o que se escreveu nestas páginas sobre a possi­
bil idade e necessidade do progresso na oração e 
na perfeição para os religiosos se aplica, «a fortiori» 
àqueles que o Senhor escolheu como amigos seus, 
mais do que como servos, e os fez sal da terra, 
isto é, os sacerdotes da sua Igreja. Porque uma vez 
que, é claro, que um religioso está obrigado à per­
feição, segue-se que tem de ser-lhe poss[vel alcançá-la, 
sejam quais forem as dificuldades que se apresentem 
no seu caminho ou as graças especiais de que precise 
para o fazer. A este respeito, as palavras que o 
Senhor usou para resumir a vida espiritual dos seus 
sacerdotes são cheias de sentido ; porque, como é 
que se pode «permanecer» em Cristo a não ser por 
meio duma vida de oração ? 
Insistiu-se bastante neste ponto, porque fornece 
um remédio para a primeira grande dificuldade que 
os sacerdotes experimentam na perseverança, na 
oração, a saber, a convicção que lhes entra, mais 
tarde ou mais cedo, de que o progresso na oração 
não é possivel para eles - que os mais elevados esta­
dos da oração são só para religiosos escolhidos. 
Este livro pode ser tomado, todo ele, como uma 
resposta a essa objecção. De facto, os sacerdotes 
têm, nesta matéria, tanto de comum com os religiosos 
que 'um resumo das dificuldades que podem surgir 
tÔO' , 
A ORAÇÃO DO SACERDOTE 
na oração dos leitores clérigos será de aplicação 
geral. 
A primeira dificuldade - devida à noção de que 
o êxito não é possível - já foi tratada. Uma segunda 
dificuldade é devida à falta de leitura espiritual 
apropriada. Esta leitura é um alimento essencial 
para uma vida de oração. Deve ser adequada às 
necessidades do indivíduo, e fazer-se não apenas 
para adquirir conhecimentos, para pregar, ou para 
fins de direcção. É por falta duma leitura assim 
que se insiste frequentemente sobre a meditação 
metódica diária, em vez de estimular as almas a 
orar. 
Em terceiro lugar, muitos falham na oração men­
tal por falta duma resolução inflexível - tem de ser 
inflexível especialmente no caso dum sacerdote que 
viva no mundo, se se quer que dure - de nunca 
desistir da prática de perder, digamos, pelo menos 
meia hora por dia tentando fazer oração, por muito 
mal sucedida que seja essa tentativa. Mesmo que o 
resultado não seja mais do que distracções ou sono­
lência, a resolução de perseverar não deve pôr-se 
de parte. Há sempre o perigo de que quem tem de 
planear o seu próprio dia ao considerar as numerosas 
e urgentes solicitações do seu tempo e as muitas 
- e aparentemente mais proveitosas - finalidades 
às quais poderia dedicar o período aparentemente 
perdido uma infrutífera tentativa de oração, possa 
ceder à tentação de abandonar esta prática. Isto 
seria fatal. Todos os sacerdotes deveriam marcar 
algum tempo determinado para a oração quotidiana, 
de preferência pela manhã antes da nissa, mas, se 
necessário, à tarde, e ter como regra firme não deixar 
nunca de pelo menos tentar orar nessa altura meia 
hora, por exemplo. Se se escolhe a tarde como 
mais conveniente, seria bom reservar um período 
101 
A DIFICULDADE DE ORAR 
curto de manhã à oração a fim de entrar em sociedade 
com o Senhor para o trabalho do dia. O espí­
rito da Igreja acerca da oração do sacerdote reflecte-se 
no cânone 1 25. Poderia dizer-se que a produtivi­
dade do trabalho do dia inteiro depende desta ten­
tativa de orar, de modo que não se deve nunca 
pô-la de parte na mira de fazer um melhor uso do 
tempo que se lhe dedica. Não há melhor uso pos­
sível. 
Uma outra causa ainda de fracasso, é indicada 
pelo facto de que muitos desistem da oração mental, 
ou pelo menos não conseguem avançar nela por 
causa da sua convicção de que oração mental signi­
fica meditação metódica e nada mais. Quando esta 
meditação se torna impossível, então ou desistem de 
qualquer tentativa para orar, ou perseveram no 
uso do «método» com esforços heróicos quando 
deviam passar a orar sem método. Um método é, 
quando muito um modo de orar, mas em geral ape­
nas representa um meio de nos prepararmos para 
orar ; nem sempre é frutífero, nem mesmo útil, e 
neste caso deve ser posto de parte. 
Aparentado com este, há também o erro de pensar 
que não há nenhuma forma de oração entre uma 
meditação deste género e a contemplação passiva. 
Uma dificuldade parecida surge da noção dema­
siado rígida da divisão do progresso na oração em 
três ou mais estados bem definidos e delimitados. 
Receia-se, digamos, fazer uso da oração simplifi­
cada porque as próprias virtudes parecem ser dema­
siado imperfeitas. Ora, possivelmente, é-se des­
viado do uso duma forma simplificada de oração 
pela impressão recebidade alguns autores que falam 
dum estado místico de oração a que chamam a ora­
ção da simplicidade e a qual, em sua opinião, pres­
supõe que a alma passou através de certos estados 
102 
A ORAÇÃO DO SACERDOTE 
clássicos de purificação chamados «noites escuras». 
Outras vezes encontramos o erro contrário, de se 
não querer voltar a um grau inferior da oração quando 
isto é necessário. 
Estas dificuldades têm a sua solução naquilo que 
se escreveu nas páginas anteriores sobre o progresso 
na oração. Em particular, é preciso insistir no 
facto de que a senda de progresso do indivíduo 
não é obrigada a seguir nenhuma lei geral. A ora­
ção deve tomar-se tal como vem, sem nos preo­
cuparmos demasiado em saber que «grau» é, ou 
que «estado» atingimos. De facto, «localizações» 
destas são muitas vezes, para o indivíduo em qual­
quer momento determinado, bastante enganadoras 
e podem mesmo ser completamente desprovidas de 
sentido. 
Ninguém pode negar o facto de que um sacerdote 
tem as suas dificuldades especiais próprias, �anto 
na sua vida espiritual como na sua oração mental 
- dificuldades que são, em geral, muito maiores 
do que as dos religiosos. A vida religiosa é abri­
gada; está ordenada para conduzir à perfeição, e 
mesmo os seus menores detalhes são dirigidos pela 
obediência. O religioso sabe em cada momento 
qual é a vontade de Deus a seu respeito, e o cumpri­
mento dessa vontade é a amarra da sua vida espi­
ritual e o fundamento da sua oração. O sacerdote 
na sua missão, não tem um conhecimento detalhado 
do plano de Deus a seu respeito, mas tem o Espírito 
Santo de Deus, e deve viver por Ele. A atenção e a 
fidelidade às inspirações do Espírito Santo e à obe­
diência da caridade podem, para ele, substituir a 
obediência do estado religioso. De fllcto, poderia 
dizer-se que a devoção ao Espírito Santo deveria 
ser uma das caracteristicas principais da vida espi­
ritual do sacerdote. O Espírito Santo foi-lhe dado 
103 
A DIFICULDADE DE ORAR 
na ordenação para todas as necessidades do seu 
sacerdócio. A santidade pessoal e a oração fazem 
parte destas necessidades. O Senhor fez depender 
toda a fecundidade da nossa «permanência» nele; 
o Espírito Santo é o princípio dessa união. 
Esta intimidade com o Senhor é também uma 
característica que deveria caracterizar a vida dum 
sacerdote. A união do sacerdote com o Senhor 
é tão estreita que ele consagra e absolve em pri­
meira pessoa : «Este é o meu corpo ; Eu te absolvo . . . >> 
Uma convicção verdadeira da sua própria impotên­
cia e da sua constante necessidade de ajuda guiá­
lo-ão em breve a um vivo sentido de intimidade com 
Jesus. Este será alimentado pelo recolhimento e 
por aspirações frequentes ao seu Divino Salvador, 
que é a origem de toda a sua fortaleza e confiança. 
Uma fonna de dar expressão a esta intimidade na 
oração é uso frequente de versiculos dos Salmos 
do breviário como aspirações da oração privada. 
Essas palavras são uma expressão inspirada de ora­
ção, e podem ser pronunciadas em nome de Cristo 
e da sua Igreja. Serão muitas vezes de ajuda na 
oração mental, porque podem também exprimir as 
nossas próprias necessidades. Os Salmos estão 
cheios de petições de perdão, gritos de confiança em 
Deus e louvor pela sua bondade que ficariam igual­
mente bem nos nossos lábios. Quem, por exemplo, 
não poderá aplicar a si mesmo as palavras do «De 
profundis» ? 
Poderia escrever-se muito mais sobre as possibili­
dades de erigir a vida espiritual do sacerdote sobre 
uma constante intimidade com Jesus, mas já se disSe 
o bastante para esclarecer que não há razão alguma 
para que os leitores clérigos não hajam de aplicar a 
si mesmos sem reservas tudo quanto aqui se escreve 
a respeito do progresso na oração e na perfeição. 
104 
A ORAÇÃO DO SACERDOTE 
Têm as suas dificuldades próprias, mas acaso não 
têm mais direito que quaisquer outros a fazer suas as 
palavras confiantes de S. Paulo : «Por isso me glo­
riarei alegremente nas minhas fraquezas, para que 
a força de Cristo possa residir em mim». (1) 
(l) ll Cor. XII, 9. 
lOS 
O ESPÍRITO DE ADOPÇÃO 
A nossa análise da oração 1evou-nos a considerar 
outras partes da vida espiritual. Não é uma digres­
são vã, porque a oração é a flor que brota da árvore 
da vida total dum homem; para assegurar o seu 
vigor é preciso olhar para toda a p1anta e para cada 
uma das suas partes. Eis porque temos de continuar 
a considerar a vida espiritual na generalidade, e a 
examiná-Ia dum ponto de vista que possa ajudar-nos 
a orar. 
O fim de toda a oração é a união com Deus. Tam­
bém poderia dizer-se que a união com Deus é o prin­
cipio de toda a oração, do mesmo modo que é o 
principio da vida espiritual. Os efeitos maravi­
lhosos do baptismo, que é iniciação à vida do espírito 
são frequentemente ignorados ou esquecidos. É uma 
perda tremenda, porque é por este Sacramento que 
somos feitos filhos de Deus, realidade que vai acom­
panhada do respectivo título. No baptismo o que 
acontece não é uma mera adopção extrínseca que 
não tem nenhum efeito interior, mas há uma mudança 
intrínseca real produzida na nossa alma e pela qual 
somos feitos participantes da natureza divina, espe­
cialmente da filiação divina, de tal modo que pode­
mos verdadeiramente chamar a Deus nosso Pai. 
Mais do que isso : no baprismo Deus vem habitar 
nos nossos corações real e verdadeiramente, dum 
107 
A DIFICULDADE DE ORAR 
modo muito diferente daquele pelo qual está pre­
sente no resto da criação. Faz a sua morada em nós 
de tal maneira que podemos conhecê�lo e amá-lo de 
um modo inteiramente novo e maravilhoso. 
Nas instruções do mesmo Cristo sobre a ora­
ção, insistiu em que nos dirigíssemos a Deus como 
a um Pai : «orai a vosso Pai . . . O Pai sabe que ten­
des necessidade dessas coisas . . . assim haveis de orar 
- «Pai Nosso». Se apenas nos lembrarmos de 
que urna vez que estejamos em estado de graça há 
em nós aquilo que nos faz filhos de Deus, realmente 
filhos, não apenas de nome - se nos lembrarmos 
também de que Deus é um Pai cuja bondade, cuja 
<<paternidade» não tem limites, a nossa confiança 
na oração terá um fundamento sólido e seguro. 
A nossa simples atitude, de joelhos ou em qualquer 
atitude de oração, torna-se de si mesma oração ; as 
nossas necessidades, a nossa fraqueza, os nossos 
fracassos, as nossas infidelidades, mesmo os nossos 
pecados, tornam-se a nossa mais eloquente súplica 
à sua paternal compaixão e pode atrair sobre nós 
a sua misericórdia infinita. Deus não abandonará 
um coração contrito, e um espírito angustiado não 
é apenas uma oração - é um sacrifício diante dos 
seus olhos. Esta confiança na nossa filiação encon­
tra um novo fundamento quando compreendemos 
que as nossas necessidades chamam a Deus não 
meramente como nossas, mas como as de Cristo, 
porque, como veremos em breve, a união de Cristo 
com a nossa alma é tal que, nestas coisas, Ele forma 
por assim dizer uma só pessoa connosco aos olhos 
de seu Pai. 
Não é preciso enumerar todos os textos da Sagrada 
Escritura que apoiam esta confiança; a parábola 
do Senhor sobre o filho pródigo é mais do que 
suficiente, porque mostra claramente quão longe se 
108 
O ESPÍRITO DE ADOPÇÃO 
pode levar esta reivindicação da filiação. Ainda 
que tenhamos desperdiçado toda a nossa fortuna 
numa vida desenfreada, ainda podemos erguer-nos 
e ir até junto de nosso Pai, confessando diante d'ele 
que pecámos; e, se a parábola do Senhor tem 
algum significado, tem de querer dizer que pode­
mos estar absolutamente certos de que o Pai virá 
ao nosso encontro, mesmo quando ,ainda estamos 
longe, - terr de querer dizer que o simples facto de 
virmos e ajoelharmos diante do Nosso Pai contra 
o qual pecámos, é urna oração que o há-de mover 
às alturas da sua infinita misericórdia e bondade. 
Se uma vela acesa dianteduma estátua de Jesus 
pode exprimir a oração duma alma confiante, quanto 
mais a presença dum pecador contrito aos pés de 
seu Pai celestial, especialmente se a distracção e a 
secura o privam de toda a visão e sentimento da 
bondade desse Pai, de tal maneira que não consegue 
encontrar nada em que apoiar-se a não ser a insen­
sível esperança dum acto de fé inflexível ! 
S. Paulo lança mais luz sobre este dom maravi­
lhoso da filiação, pois assegura que vai junto com a 
presença do próprio Espírito Santo nas nossas almas. 
O Espírito Santo não só dá testemunho de que somos 
os filhos de Deus, mas também uma vez que sem 
Ele não podemos nem sequer pronunciar meritoria­
mente o nome de Jesus, ora dentro de nós e por nós 
com uma oração inegável -a oração do próprio Deus. 
Esta doutrina profunda da presença do Espírito 
Santo nas almas daqueles que estão em estado de 
graça e da sua cooperação com as suas acções está 
longe de ser compreendida mesmo por católicos 
educados. Mas quando consideramos todas as suas 
funções na nossa alma, ficamos aturdidos, porque 
dir-se-ia que Ele está ali como possuído por nós e 
para nosso uso! 
109 
A DffiCULDADE DE ORAR 
Por muito fecunda que pudesse ser, para a nossa 
vida espiritual, uma consideração mais demorada 
desta maravilha, não podemos aqui fazer mais do 
que apontar a sua relação com a oração. Sobre 
isto, S. Paulo é bastante explfcito. Na Epístola aos 
Romanos escreve : «Do mesmo modo, o Espírito 
também auxilia a nossa fraqueza. Porque não sabe­
mos, corno deveríamos, aquilo por que deveríamos 
pedir; mas o próprio Espírito pede por nós com 
gemidos inexprimíveis. E aquele que pesquiza os 
corações sabe aquilo que o Espírito deseja; porque 
ele pede pelos santos conforrnemente a Deus». 
Se, pois, o Espírito Santo nos auxilia na nossa 
fraqueza, não havemos nós de gloriar-nos nas nossas 
fraquezas, de modo que a oração do Espírito possa 
sair, sem obstrução, das ocultas profundezas das 
nossas almas ? Porque devemos nós desesperar ante 
as friezas dos nossos corações e o fracasso das nossas 
palavras quando temos dentro de nós a própria 
Pessoa de Deus que é Ele próprio o amor do Pai e 
do Filho, por quem nós chamamos «Abba-Pai !» ? 
É claro, portanto, que não é simplesmente uma figura 
vazia de discurso o dizer que a nossa simples pre­
sença diante de Deus - por mais desamparados que 
nos sintamos, por mais inexpressivos que estejamos -
pode de per si ser uma oração que toca o coração 
de Deus, exactamente como uma criança pode tocar 
o coração dos pais só pelo seu desamparo e miséria, 
sem precisar de pronunciar uma única palavra. 
Estas considerações deveriam dar-nos confiança 
na oração, qualquer que seja o estado da vida espi­
ritual em que nos �ncontremos. De passagem deve 
notar-se que não há necessidade de procurar Deus 
fora de nós quando queremos orar. Qualquer alma 
em estado de graça tem Del.is dentro de si, procurando 
a sua amizade, a sua confiança e o seu amor. Um 
llO 
O ESPÚUTO DB ADOPÇÃO 
simples acto de atenção põe-nos em contacto com 
Ele, um simples pensamento é sufkiente para lhe falar, 
um sirnples movimento de coração é quanto basta 
para lhe testemunhar o nosso amor. 
Mas Deus não veio às nossas almas apenas para 
ficar lá inactivo. Vem para auxiliar a nossa fraqueza 
e, quando a graça santificame é derramada nas 
nossas almas pelos sacramentos ou de qualqu<!r 
outro modo, o Espírito Santo vem a nós para habitar 
em nós, e não só nos dá as virtudes infusas da fé, 
esperança e caridade e as virtudes morais, como 
ainda nos enriquece com os seus sete dons : sabedo­
ria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência. pie­
dade e temor de Deus. Podemos encarar todas 
estas riquezas, que ultrapassam todas a:. avaliações, 
como se fosse um novo organismo sobrenatural, 
pelo qual somos tomados capazes de viver uma vida 
nova como a nossa nova natureza de filhos de Deus. 
Toda a vida espiritual consiste no desenvolvi­
mento e crescimento desta nova vida - o «homem 
novo», como lhe chama S. Paulo - e a sujeição de 
toda a nossa própria natureza, o «homem velho», 
à vida do novo. Isto explica o contínuo combate 
interno que S. Paulo refere tão vivamente. A difi­
culdade desta nova vida é dara quando recordamc s 
que é uma vida de fé, não de sentimento. Mas isso 
não deve de modo algum fazer-nos hesitar nem por 
um momento antes de nos dedicarmos com todo 
o coracão às suas exigências, porque, como o 
Senhor mesmo prometeu, dá-se-nos um outro «pará­
clito», isto é, um «consolador», que nos fortalece, 
e é o próprio Deus com o seu poder omnipotente 
que vem a constituir a nossa ajuda permanente, o 
nosso auxílio e a nossa força. Nenhuma dificuldade 
real ou imaginária deve, pois, fazer-nos hesitar nunca 
em abraçar uma vida de oração. Nunca tomamos 
l l l 
A DIFICULDADE DE ORAR 
consc1encia de toda a força ao nosso dispor mas, 
quando surge uma ocasião, o poder de Deus fica 
ao nosso alcance para que o usemos, se actuamos 
com fé, confiança e humildade. 
Acima de tudo, é preciso destacar a necessidade 
absoluta e essencial de humildade para o progresso 
na oração. Deus fez o mundo para a sua glória e 
não dará a sua glória a outrem. Ora nesta vida 
Ele glorifica-se pelas obras de sua misericórdia, tendo 
compaixão da nossa fraqueza, levantando-nos do pó 
pc ra participarmos da sua própria natureza, da sua 
própria força, da sua própria alegria. Todas as 
obras da nossa vida sobrenatul81 vêm d'ele. Ainda 
mesmo o fact(l de que nos pertençam dum modo 
tal que possamos merecer por elas é devido inteira­
mente à sua bondosa misericórdia. Se portanto 
nos gloriamos de alguma coisa mais do que das 
nossas fraquezas, tomamos para nós inteiramente a 
Deus, pois Ele é que produz em nós tanto o querer 
como o agir. A nossa soberba rouba a Deus a 
honra da sua obra - obra que, na sua bondade 
realizou de tal modo que dela pudéssemos dispor 
para nosso mérito - porque não temos nada que 
não tenhamos recebido, nem mesmo os nossos 
méritos. 
Deus está mais interessado na nossa salvação e no 
nosso progresso do que nós mesmos. Ele é nosso Pai 
e é-o sempre, activamente. Isto significa que Ele nos 
santificará e nos unirá a si, desde que não ponhamos 
obstáculos no seu caminho. Ora o maior dos obstá­
culos é a nossa soberba, porque com ela desviamos a 
sua acção salvadora em nós e lançamo-la contra a 
finalidade que presidiu à criação e verdenação do 
mundo a sua própria glória. Deste modo, tornamo­
-nos inimigos de Deus, e por isst está escrito : «Deus 
resiste ao soberbo, e dá a sua graça ao humilde». 
1 12 
O I!SPÍRITO DE ADOPÇÃO 
A regra de S. Bento é muito significativa a este res­
peito. Ao escrever uma regra para uma ordem con­
templativa, na qual haviam de formar-se homens 
de oração, o santo patriarca tem apenas algumas 
palavras a dizer sobre a oração, e tão-pouco trata 
do restante da vida espiritual mais longamente, até 
que começa a falar da humildade. E neste assunto 
é eloquente e insistente, atribuindo ·lhe as qualidades 
duma escada pela qual se pode atingir as alturas da 
vida espiritual ; e S. Tomás de Aquino segue o seu 
exemplo, dando a primazia à humildade para a 
remoção dos obstáculos à acção de Deus na 
alma. 
Pouco mais podemos fazer aqui do que mencionar 
estas tremendas verdades da presença de Deus nas 
nossas almas. Tratá-las adequadamente requereria 
um livro inteiro. Fazer menos do que isso seria 
correr o risco não apenas de falseá-las mas também 
de caricaturizá-las. O leitor deverá procurar por 
si mesmo em outros sítios o desenvolvimento deles. 
As Epístolas de S. Paulo estão repletas desta doutrina; 
são fundamentais no seu ensino. Um resumo muito 
bom e acessível deste assunto e do que se prende 
estritamente com ele, e que é tratado no capítulo 
que se segue, poderá ser encontrado na intro­
duçãoda obra de Tanquerey, <<The spiritual life». 
Esta obra é uma mina de informação sobre todas as 
partes da vida espiritual e deveria fazer parte da 
biblioteca de todas as casas religiosas, mesmo daque­
las que não foram treinadas em teologia. É o prin­
cipal trabalho de consulta sobre a vida espiritual. 
Um trabalho mais pequeno de Plus, «God within 
us», será uma boa ajuda. O próximo capítulo 
indicará outras fontes de informação. 
O uso desta doutrina da presença de Deus dentro 
de nós como uma base da oração encontra apoio 
1 13 
A DmCULDADI! DI! ORAR 
no ensinamento de Santa Teresa. Num ponto diz­
-nos que a alma não precisa de procurar Deus fora 
de si para lhe orar. Ele está dentro dela, e pode 
dirip.ir-se-lhe com toda a simplicidade duma criança 
que fala a seu pai. Deveríamos contar-lhe todas as 
nossas necessidad�s e as nossas preocupações, e 
suplicar-lhe remédio para todas elas. A santa parece 
considerar que esta é uma das melhores maneiras 
de assegurar um rápido progresso na oração. 
Ern outro lado insiste nas vantagens de adql i irir 
uma viva convicção da íntima presença de Deus. 
Diz-nos que da própria fez tudo quanto pôde para 
se lembrar e para se compenetrar continuamente 
da presença do Senhor de.1tro d�la. Se estava 
a meditar um mistério, representava-o no seu interior 
e dirigia todC's os seus ((afectos» ou actos ao seu 
divino hóspede. Este modo de nos lembrar-nos 
de Deus pode ser proveitosamente acrescentado à 
maneira de orar conhecida como o segundo método 
de Santo Inácio. Faz-se isto lendo ou recitando 
muito lentamente algumas orações. Fazendo pausa 
depois de cada palavra ou fra5e, para fixar o seu 
significado no nosso espírito, para excitar a sua rea­
l idade no nosso coração, para a desenvolver em 
variações ou para insisur . nela em silenciosa adesão, 
de acordo com a nossa tendência natural. E tudo 
isto num diálogo com o Senhor e nosso mestre, 
como hóspede e nosso salvador, nosso amante e 
nosso Deus, que está em nós. Este modo de orar 
a Deus nos nossos corações, pode ser empregado 
com grande proveito no rosário, ou no Ofício 
divino. 
Tão-pouco são precisas palavras. Podemos con­
tentar-nos com dispensar uma silenciosa atenção ao 
nosso hóspede, cientes de que Ele vê e aceita o amor e 
adoração que há no nosso coração. As duas carac-
114 
O ESPÍRITO DB ADOPÇÃO 
terísticas principais a atender são a referência interior 
dt. nossa oração e a sua expressão não forçada; não 
devemos esquecer nunca a afirmação de Santa Teresa 
de que «oração mentdl não é mais do que uma ami­
zade íntima, uma conversa frequente, de coração 
pHa coração, com aquele que nós sabemos que é o 
nosso Amante>>. 
1 1 5 
A NOSSA IDENTIFICAÇÃO 
C O M C R I S T O 
Se um homem pratica um crime ou comete uma 
injúria contra alguém, os seus amigos podem natural­
mente fazer muito para o ajudar. Podem reparar 
a injúria cometida; podem aplacar a ira da pessoa 
injuriada; podem ajudar o próprio homem a fazer 
ambas estas coisas ; podem animá-lo e pedir perdão 
por ele. Mas não podem, em estrita justiça, aliviar 
a sua responsabilidade da pena submetendo-se eles 
à pena, nem tão-pouco podem apagar a nódoa da 
sua culpa. Culpa, pena e mérito são coisas pessoais ; 
não podem ser tratadas por procuração. 
No sentido estrito, nenhum homem pode tomar 
sobre si a culpa de outrem ; nenhum pode merecer 
ou ser punido justamente por outro. Então, como 
foi que Cristo nos salvou ? Como desviou Ele o 
castigo que nos era devido ? Como mereceu Ele por 
nós ? Como chegou Ele a sofrer pelos nossos peca­
dos ? A resposta mais satisfatória para estas per­
guntas e outras semelhantes acha-se nas páginas de 
S. João e de S. Paulo. S. João dá-nos as próprias 
palavras de Cristo : «Eu sou a vide, vós sois os ramos». 
S. Paulo insiste uma e outra vez : «Vós sois o ' corpo 
de Cristo». 
Não é fácil tarefa resumir e explicar a doutrina 
que tão vivamente é expressa nestas duas frases. 
A verdade sobre que assenta é tão rica, tão maravi-
1 1 7 
A DIFICULDADE DE ORAR 
lhosa, tão profunda, tão inegualável, que tem de ser 
apreciada de muitos pontos de vista diferentes, e 
temos d�! fazer uma síntese das várias - quase contra­
ditórias - ideias assim obtidas, antes que se chegue 
a uma compreensão razoàvelmente completa da 
sua natureza. 
Aqui apenas poderemos dar algumas representa­
ções parciais da verdade, mas serão o bastante para 
o nosso objectivo. 
Na incarnação, Deus Filho, a segunda pessoa da 
Trindade, uniu hipostàticamente a si uma natu­
reza humana, de modo que Jesus Cristo, o Filho 
de Maria, era Deus de verdade e homem de verdade, 
uma pessoa com duas naturezas . Isto, no entanto, 
não foi o fim do processo de união com a raça 
humana. As palavras do Evangelho de S. João e 
das Epístolas de S. Paulo esclarecem que o Sal­
vador quis entrar numa união real mas miste­
riosa com cada membro da raça humana e que 
Ele une de facto cada ser humano a si próprio no 
baptismo, de modo a formar com ele uma só 
coisa, um só corpo, um só homem, um só Cristo 
místico. 
De certos pontos de vista poderíamos quase enca­
rar esta união como formando uma só pessoa, mas 
deve entender-se claramente que não perdemos a 
nossa individualidade nesta união. No entanto, a 
união é tão estreita que Cristo pode sofrer com toda 
a justiça os nossos pecados, e nós podemos com 
toda a justiça usar os seus méritos como próprios. 
As controvérsias dos teólogos nos últimos séculos 
têm tendido a desviar a nossa atenção desta tremenda 
doutrina da nossa incorporação em Cristo, e tanto 
isto é assim que, para alguns, esta afirmação pode 
parecer demasiado vigorosa. Os Padres, no entanto, 
especialmente Santo Hilário, S. Cirilo, S. João Cri-
1 1 8 
A NOSSA IDENTIFICAÇÃO COM CRISTO 
sóstomo e Santo Agostinho, são muito mais vee­
mentes e vigorosos nas suas expressões. 
S. Tomás de Aquino, cujas palavras foram medidas 
com aquela precisão que é característica do príncipe 
dos teólogos, afirma simplesmente que no bap<ismo 
os sofrimentos de Cristo são comunicados à pessoa 
baptizada - que se torna um membro de Cristo -
dum modo tal como se ele próprio tivesse sofrido 
toda aquela dor. E responde às perguntas que 
foram postas no início deste capitulo, àcerca do 
modo como Cristo satisfaz pelos nossos pecados, 
afirmando que Ele o faz pelo facto de que nós somos 
os membros de Cristo e formamos com Ele um só 
corpo e mesmo, sob este aspecto. uma só pessoa; e 
que portanto a satisfação prestada por Cristo se 
aplica a todos os fiéis desde que são membros seus. 
Resume a doutrina dizendo que as acções de Cristo 
pertencem não só a Ele, mas também a todos os 
seus membros, exactamente com a mesma relação 
que as acções dum homem justo têm com o agente 
individual ( I ). 
, 
Uma outra maneira de exprimir esta doutrina é 
dizer que estamos «em Cristo». S. Paulo usa a 
frase cento e sessenta e quatro vezes; e tem certa­
mente de ser tomada como algo mais que uma sim­
ples metáfora. Os Santos Padres tentam ilustrar o 
parentesco comparando-o à união da gota de água 
com o vinho onde caíu. Dizem t?mbém que esta­
mos em Cristo e cheios d'Ele exactamente como um 
ferro em brasa ou um carvão lançado no fogo está 
no fogo e é parte dele. O exemplo da vinha da auto­
ri�:� do próprio Cristo vem revelar a nossa posicão 
ainda com maior clareza, porque do mesmo modo 
( I ) Cf. Summa, 11,1; q. 48, art. 1 e 2. 
1 19 
A DIFICULDADI! DI! ORAR 
que a seiva vital corre da cepa para os ramos, assim 
Ele envia o seu Espírito às nossas almas e somos 
vivificados e divinizados - o termo não é forte 
demais - pela graça, que é participação da sua 
natureza. 
Há ainda outro modo de encarar esta obra maravi­
lhosa do amor divino. Podemos dizer em verdade, 
corno diz S. Paulo, que Cristo está em nós. 
Habita nasnossas almas desde que estejamos em 
estado de graça e, desde que lho consint!lrnos, par­
ticipa em cada uma das nossas acções. Este aspecto 
d11 doutrina foi muito bem tratado no pequeno 
trabalho de Jaegher, a que já se fez referência, «Um 
com Jesus». Este pequeno livro, pouco mais que 
um folheto, revelará a muito� leitores urna rica mina 
de possibi lidades que nem sequer sonhavam. Deveria 
ser familiar a todas as almas que tomam a vida espi­
ritual a sério. Nele podemos ver como Jesus vive 
nos nossos corações - corno lhe podemos orar ali, 
e orar com Ele ali ; nele podemos ler um inflamado 
relato do desejo ardente do coração de Jesus de 
partilhar cada um dos nossos pensamentos e acções, 
de dar a cada um de nós urna parte da sua própria 
vida, méritos e amor. Deve ler-se o próprio livro, 
mas a simples ideia que aqui se dá é mostra sufi­
ciente de quanta� possibilidades abre à oração. 
Os resultados desta doutrina da nossa incorporação 
- ou identificação, se podemos usar a palavra -
a Cristo, que reduzimos a um esboço tão simples 
são vastos e de grande alcance. A exortação de 
o Senhor para que oremos em seu nome assume 
um relevo novo. Podemos lembrar ao Pai a pro­
messa de seu Filho de que tudo aquilo que se fizesse 
ao menor dos seus irmãos seria feito a Ele próprio, 
e podemos referir as nossas necessidades ao Pai 
corno necessidades do próprio Cristo, com toda a 
120 
A NOSSA IDENTIFICAÇÃO COM CRISTO 
verdade e realidade. Podemos pedir todas as gra­
ças necessárias ou proveitosas para nós ou para o 
próprio Cristo, porque é a fim de desenvolver a sua 
vida em nós que precisamos delas. Mais do que 
isso : sabemos que Cristo mesmo pede por nós e 
connosco. Por isso é que podemos tomar as pala­
vras de o Senhor muito à letra quando Ele diz : 
«Em verdade, em verdade vos digo : se pedirdes 
alguma coisa ao Pai em meu nom..::, Fie vo-la dará». 
Olhai, então, a origem da confiança absoluta com 
que devemos ir junto do trono da graça. Nenhum 
pecado, nenhum pejo. deverá :1Unca fazer-nos hesitar 
em aproximar-nos de Deus na oração. 
Se Jesus, como vemos, toma parte nas nossas 
orações e obras, também nós temos parte nas dele. 
Aqui temos um prmcírio que pode servir de muita 
ajuda quando estamos «paralizados» na oração. 
A nossa união com Jesus é tal qut:, desde que a não 
rompamos por um movimento pecaminoso deli­
berado da nossa vontade, podemos sempre apre­
sentar a reivindicação de participar nos seus méri­
tos e nas boas obras que Ele está a levar a cabo em 
todos os outros membros da Igreja, porque somos 
todos um corpo em Cristo. 
Podemos mesmo participar na sua oração ao Pai 
no céu. É claro que a medida da nossa participação 
depende da proximidade da nossa união com a 
Cabeça. A união mais perfeita é a da vontade, 
quando estamos a fazer a vontade de Deus por 
amor de Deus; então estamos o mais possível unidos 
a Ele. Por isso, por mais desamparadas ou deses­
peradas que pareçam as nossas tentativas de oração, 
se só fizemos a sua vontade, se nos pomos de joelhos 
ao seu dispor, podemos contar com uma grande 
parte na sua oração, porque Ele está vivo à mão 
direita de Deus, sempre a interceder por nós. 
121 
A DlFICULDADE DE ORAR 
A oração é um trabalho de sociedade entre Jesus 
e cada um de nós. A nossa parte na sociedade 
reside em fazer a sua vontade e em confonnar-nos 
com ela, e as l imitações dos nossos esforços fazem 
parte dessa vontade. Se cumprimos a nossa parte 
podemos reclamar todo o fruto dos nossos esforços 
conjuntos. Se, em particular, vamos à oração 
resignados com a vontade de Deus e com a nossa 
própria incapacidade, não havemos de desanimar 
com a nossa aparente falta de êxito. O Senhor 
é o nosso «suplemento» em todas estas coisas, e 
completa tudo o que não somos capazes de fazer. 
Além disso, a nossa impotência faz parte do seu 
plano de fazer-nos confiar nele. 
Assim se vê que, no que toca à oração, a nossa 
união com Cristo é de maior importância do que a 
nossa fluência ou o nosso sentimento e fervor, e 
importa mais que sermos livres de distracções. Por­
tanto, se as distracções são involuntárias mas são 
açeites como uma provação pennitida por Deus 
para os seus próprios e sábios fins, então, na medida 
em que nos unem a Cristo por sofrermos de acordo 
com a vontade de Deus, são uma ajuda para a nossa 
oração, mais do que o contrário. De facto, se uma 
alma vai à oração para se dar a Deus, resolvida a 
atender a Deus e nada mais na medida do possível, 
e se resigna com quaisquer provas ou aridez ou 
distracção que a Providência consente, a sua ora­
ção, ainda que pareça ser um fracasso completo e 
quase uma perda de tempo, é, no entanto, um sacri­
fício muito agradável diante de Deus, que atrairá 
muitas graças sobre a alma e a fará avançar muito 
na união com Ele. 
Segue-se, além disso, que cada acção do dia, por 
muito «activa» que seja, quando feita segundo a 
vontade de Deus, é feita em união com Cristo, e 
122 
A NOSSA IDENTmCAÇÃO COM CRISTO 
constitui não só por si mesma uma oração, mas 
também um excelente ponto de partida, tanto para 
um desses colóquios sem palavras, como para uma 
conversa mais articulada com Jesus, que podem 
converter o nosso dia inteiro em tempo de oração. 
É impossível trabalhar numa tão estreita companhia 
com Jesus e não lhe orar. Por outro lado, eviden­
temente, se as nossas acções não estão de acordo 
com a sua vontade, a sua companhia é um tanto 
embaraçosa, é assim que a vontade própria mata 
uma vida de oração. 
A presença de Jesus continua e intima nos nossos 
corações, significa que nenhum lugar ou ocupação 
é obstáculo para a oração. Não somos obrigados 
a sair fora de nós próprios para encontrar o Deus a 
quem queremos falar. Não somos obrigados a 
esconder os nossos fatos de trabalho, por assim dizer, 
nem de dar por acabados os nossos trabalhos do 
dia de semana antes de nos pormos na sua presença. 
Ele não só está já presente onde quer que estejamos, 
mas está a partilhar de facto do nosso trabalho 
- de modo que o nosso trabalho é mais um meio 
de oração do que um obstáculo. Isto não significa 
que não seja necessário algum período do dia em 
que possamos IJPr tudo o mais de lado para recolher 
todas as nossas potências e voltá-las para Ele. Signi­
fica, antes, que há uma oração para cada momento 
- que os corações que buscam a Deus podem orar-
-lhe já por palavras, já por obras, já com o silêncio, 
Já pensando. 
Mas não só podemos encontrar Cristo em nós 
mesmos, como encontrá-lo e servi-lo e orar-lhe no 
nosso proxuno. Tudo o que fazemos ao nosso 
próximo é feito a Jesus. Urna vez que compreen­
damos que a oração pode ser despreocupada ao 
máximo, podemos ver como qualquer contacto com 
123 
A DIFICULDADE DE ORAR 
os nossos semelhantes pode ser convertido em ora­
ção a Deus. É, para mais, significativo que o 
Senhor, antes de ter feito promessas tão extraordi­
nárias sobre a eficácia da oração, apresentasse o 
novo mandamento da caridade mútua, e o exempli­
ficas!\e lavando os pés dos seus discípulos. Pode­
mos portanto concluir que não podemos orar em 
união com Ele a não ser que estejamos unidos aos 
nossos semelhantes pela caridade. Ele insistiu mesmo 
em que, antes de oferecer sacrifícios, deveríamos 
ir reconciliar-nos com o nosso irmão a quem ofen­
demos. 
Deste modo, tudo quanto façamos, por palavras 
ou por obras, pode ser uma oração. A própria 
comida que ingerimos pode ser dada a Jesus, porque 
o que fazemos a nós mesmos, a Ele o fazemos. Mesmo 
os nossos divertimentos podem ser o seu prazer. 
Não podemos dar um passeio que Ele não parti lhe 
e aprecie ; não há parte nenhuma da nossa vida, seja 
trabalho ou divertimento, na qual nos não acom­
panhe, desde que, é claro, seja de acordo com a 
vontade do Pai. 
Assim, a alma, em estado de graça, pode de certo 
modo imitar osacerdote na missa, que levanta o 
cálice e a hóstia no fim do cânone e ora ao Pai atra­
vés de Cristo dizendo : «Por Ele, e com Ele, e nEle, 
seja para ti, Pai omnipotente, na unidade do Espí­
rito Santo, toda a honra e glória». Desta maneira, 
pondo a descoberto Cristo nas nossas vidas, ao 
fazer a vontade de Deus, cantamos o nosso cântico 
de honra e glória, que é o próprio Cristo. 
124 
O C R E S C I M E N T O 
, 
D E C R I S T O E M N O S 
No último capítulo foram expostos alguns aspec­
tos diferentes do mistério maravilhoso da nossa 
incorporação em Cristo. Deixa-se ao leitor a escolha 
daquele que mais o atraia e o desenvolvê-lo pela 
leitura e reflexão, pela oração e pela prática. Poderá, 
servir de ajuda um pouco mais de consideração 
sobre o assunto. 
Vimos que Cristo entra nas nossas almas no bap­
tismo, para aí habitar numa união amorosa e viva 
connosco. É também verdade dizer que Ele cresce 
na nossa alma. A medida em que Ele pi:trticipa em 
toda a nossa vida depende grandemente da nossa 
vontade. Não nos subtrai a nossa l iberdade ; pode­
mos, se quisermos, viver a nossa própria vida. Se o 
fazemos a tal ponto que cheguemos a cometer pecado 
mortal, expulsamo-lo da nossa alma. Mas mesmo 
aquelas acções que, sem serem seriamente pecami­
nosas, não são no entanto inteiramente de acordo 
com a sua vontade, afastam-no tanto quanto elas 
representam na nossa vida. 
Podemos portanto falar do crescimento e da for­
mação de Cristo em nós, conforme mais e mais nós 
mesmos e as nossas actividades são sujeitas e ofe­
recidas a Ele. Como é óbvio, um simples hábito 
deliberado de infidelidade, prejudica o sentido de 
intimidade com Jesus e impede deste modo a oração. 
125 
A DIFICULDADE DE ORAR 
Não podemos tomar e dar-lhe apenas uma parte das 
nossas vidas e, tendo-o esquecido, ou tendo-o mesmo 
posto de lado durante o resto do dia, esperar então 
encará-lo sem dificuldade ou embaraço quando 
decidimos tomar consciência da sua presença. Ape­
sar da sua clem�ncia e da sua paciente bondade, 
haverá pausas desagradáveis na conversa ; é preciso 
evitar certos assuntos ; os protestos de dedicação 
que dificilmente se harmonizarão com a nossa negli­
gência e recusa hão-de soar a oco e hão-de mesmo 
extinguir-se nos nossos lábios. Por vezes falamos 
louca e apressadamente para ultrapassar alguma 
recordação infeliz e, desde que tenhamos resolvido 
qut: em certos pontos lhe não daremos o que sabemos 
que Ele quer, não podemos suportar o seu olhar 
ou encará-lo de frente com aquele sorriso sereno 
de rendição completa que vem dum coração pronto 
a dar-lhe tudo aquilo que Ele pedir, o que é a ora­
ção perfeita. 
Esta é a grande diHculdade na oração. Queremos 
encontrar a Deus nas condições que marcamos, 
queremos chegar a um compromisso ; queremos 
trabalhar com Ele em certos momentos e de certa 
maneira, mas, para dizer cruamente, queremos 
ver-nos l ivre dele em outras alturas. E este é 
exactamente o problema. Não podemos ver-nos 
livres do Senhor durante certo tempo. Ele está 
ali todo o tempo, e ou o tratamos permanente­
mente como amigo, ou então experimentamos uma 
«dificuldade» na oração. 
Além disto, mesmo que tentemos de facto dar-lhe 
um lugar na nossa companhia em todos os momentos, 
podemos tentar esquecer que Ele é um Deus cruci­
ficado ; que Ele nunca fez a sua própria vontade ; 
que sempre se negou a si mesmo ; que se entregou ; 
que se despojou, tomando-se obediente até à morte 
126 
O CRFSCIMENfO DE CRISTO EM NÓS 
na cruz. Gostaríamos de possuí-lo mas não que­
remos partilhar todos os seus ideais, seguir todos 
os seus caminhos, e assim achamos outra vez ·a ora­
ção «difícil». Não admira! Porque se a oração é, 
essencialmente, um estar consciente de Deus, tudo 
aquilo que nos faz não querer ter consciência dele 
é um obstáculo à oração. Aqui reside uma das 
raízes da relação entre a mortificação e a oração. 
A não ser que pelo menos desejemos que Ele nos 
ensine os seus caminhos, mesmo o caminho da cruz, 
não podemos encontrá-lo na oração com aquele 
sentimento de lealdade aberta, franca e sem reservas 
que é tão essencial à amizade. 
É preciso que se entenda claramente que é a oposi­
ção habitual e deliberada aos desejos de Jesus que 
constitui tão sério obstáculo à oração. 
Por muito frequente ou profundamente que caia­
mos, Jesus está sempre pronto a renovar a nossa 
união, assim estejamos nós de novo resolvidos a 
abandonar o nosso próprio caminho. De facto, 
como vimos, há um tipo de amor e compreensão 
que nasce do pecado perdoado, que tem qualquer 
coisa de único e especial no seu sabor, e que tem um 
lugar especial no plano de Deus. Os pecados pas­
sados, os fracassos passados, não hão-de nunca 
interpor-se entre nós e Ele ; desde que estejamos 
contritos de verdade, constituirão apenas mais um 
laço. Também do mesmo modo os receios pelo 
futuro e aquela falta duma completa boa vontade 
que vem da fraqueza e da timidez humanas, nunca 
hão-de ser mais do que uma nova reivindicação ao 
auxílio daquele que veio curar os enfermos e salvar 
os pecadores. A sua posição oficial na nossa alma 
é a dum salvador omnipotente; tudo o que necessita 
de ser salvo é uma reivindicação perante Ele, e só 
aqueles que aprenderam a gloriar-se nas suas fra-
127 
A DIFICULDADE DE ORAR 
quezas sabem de verdade que união tão intima de 
oração e trabalho com Jesus se pode construir sobre 
a própria fraqueza, sobre os próprios fracassos e 
mesmo sobre os pecados passados. 
Isto também é verdade acerca da n ossa parte na 
cruz. Ele conhece bem o nosso horror à penitência; 
compreende perfeitamente o nosso desagrado pelo 
sofrimento ; até se compadece de nós nestas dificul­
dades. É certo que Ele quer que o ajudemos a 
levar a sua cruz, mas quer também ajudar-nos a 
fazê-lo. A sua ajuda é tão doce, tão arrebatadora 
a sua companhia, que Santa Tereza achava que só 
a primeira das suas cruzes era realmente dura; uma 
vez tendo abraçado a aspereza da sua cruz, achava-se 
em estreita união com Jesus. Requer coragem, 
requer graça, requer talvez um chamamento especial ; 
mas a verdade é que este caminho de sofrimento e 
de penitência - penitência, entenda-se, tomada ou 
aceite de acordo com a vontade de Deus e não com 
a nossa - é a estrada da mais alta alegria, e o cami­
nho seguro para as alturas da oração. 
A importância da mortificação não é apenas que 
nos fere, mas que dá a Jesus uma nova vida em nós ; 
nós apenas damos a morte a nós próprios - é isto 
o que significa <<Ill.ortificação» - para abrir o cami­
nho a Cristo. É ao mesmo tempo a razão e a medida 
da mortificação. Se apenas serve para nos fazer 
mais contentes connosco mesmos e soberbos, então já 
não é mortificação do eu; é, antes, mortificação de 
Jesus. O princípio verdadeiro da mortificação foi 
exposto por S. João Baptista quando disse : «Ele 
deve crescer, eu diminuir». 
Talvez uma comparação um tanto forçada possa 
ajudar-nos a focar este processo à sua luz autêntica. 
O pão e o vinho que na missa sé transformam 
no corpo e sangue do Senhor ornaram outrora 
128 
O CRESCIMENTO DB CRISTO EM NÓS 
a terra numa glória de vermelho e ouro ; foram der­
rubados, batidos e esmagados, moídos e espremidos 
até ficarem irreconhecíveis. E só depois de have­
rem sofrido muitas transformações é que o sacer­
dote pôde pronunciar sobre eles as palavras que 
haviam de tomá-los no corpo e sangue de Cristo. 
Ora, na mesma medida em que a missa é uma trans­
formação de pão e vinho no corpo e sangue de Jesus 
- e claro que é muito mais do que isso - poderia 
dizer-se que o Senhor diz missa connosco e 
com as nossas vidas a servirem de pão e vinho. 
Mas é uma missa na qual o moer do trigo e o espre­
mer das uvas, o coser do pão e o do vinho, o ofere­
cimento da hóstia e a oblação do cálice, a consa­
gração de ambos ea sua conversão no corpo vivo e 
no sangue de Cristo, têm lugar todos ao mesmo tempo. 
Cada vez que nos negamos de qualquer forma, e 
em certa medida nos oferecemos a Jesus, Ele vem a 
tomar posse de nós na mesma medida, e diz : «Isto 
é o meu corpo». Mais do que isso : compadece-se 
da nossa cobardia, e envia-nos provas e humilha­
ções que nos moem e nos esmagam para nos con­
verter no pão e no vinho convenientes para nos tor­
narmos parte dele. «Ü meu alimento» - disse 
Ele - «é fazer a vontade daquele que me enviou». 
E é por isso que todas as coisas feitas de acordo com 
a vontade divina dão nova vida a Jesus nas nossas 
almas, pois Ele se alimenta com o cumprimento da 
vontade de seu Pai. Todas as acções que fazemos, 
todos os sofrimentos que padecemos, seja o que for, 
desde que seja de acordo com a vontade de Deus, 
é um acto de comunhão com Jesus, um acto que não 
é apenas um mero desejo, mas um avanço real na 
nossa união com Ele; dá-lhe nova matéria sobre a 
qual Ele pode pronunciar as palavras de salvação : 
«Isto é o meu corpo». 
129 
A DIFICULDADE DE ORAR 
É óbvia a importância deste conceito para uma 
vida de oração. A oração não é já uma questão 
de passar uns poucos minutos de joelhos, esfor­
çando-nos por encontrar alguma coisa que dizer. 
Torna-se uma consciência mais ou menos contínua 
de Jesus que vive em nós e de Jesus que cresce em nós, 
de Jesus que nos molda com a sua providência ao 
desejo do seu coração ; a nossa cooperação, a nossa 
companhia, a nossa submissão, o nosso sorriso de 
abandono ; ao passo que continuamente renunciamos 
ao nosso caminho para que Ele siga o seu, tudo isto 
é a nossa oração. A mortificação, em vez de signi­
ficar fazer-nos doer, vem a significar dar o prazer, 
dar mesmo a vida a Jesus. Cada acção do dia está 
intimamente ligada a Ele. 
A prática da caridade cristã é assim focada a uma 
luz mais intensa, pois se Jesus vive no nosso pró­
ximo, e está a fazer sua a vida do nosso próximo, 
torna-se muito mais fácil compreender o que Ele 
queria dizer quando nos disse : «Sempre que o :fizes­
tes ao menor destes meus irmãos, a mim o :fizestes». 
Não temos necessidade de palavras para conver­
termos em oração as relações com os nossos seme­
lhantes. Basta recordar que «estamos a fazê-lo a 
Ele» e o nosso coração orará com o seu movimento 
secreto de amor. 
O costume de um dos maiores homens de oração 
e de acção que o mundo conheceu - que vem muito 
próximo de S. Paulo - é cheio de significado neste 
assunto. O pensamento de S. Patrício é-nos reve­
lado na sua famosa oração, aquela maravilhosa 
oração, cheia de espírito de S. Paulo, cheia do espí­
rito do próprio Cristo. «Cristo diante de II1Í1D.>> 
- reza ele - «Cristo atrás de mim, Cristo à minha 
volta, que Cristo esteja neste dia dentro e fora de 
mim, que Cristo o humilde e manso, Cristo o todo 
1 30 
O CRESCIMENTO DE CRISTO EM NÓS 
poderoso, esteja no coração de cada um a quem 
eu fale, - na boca de cada um que me fale, em todos 
os que de mim se aproximem, me vejam ou me 
ouçam>>. Conta-nos como ouviu as palavras : 
«Aquele que deu por ti a sua vida, esse é que ora 
em ti>>. Em outra ocasião escreve : «Eu vi-o rezando 
em mim» e, depois de dizer que era o Espírito que 
rezava dentro dele, relembra a promessa de S. Paulo 
de que o Espírito Santo havia de ajudar-nos na fra­
queza da nossa oração. Temos aqui o segredo da 
oração de S. Patricia, o segrr'do da sua vida interior 
e, de facto, o segredo do sucesso monumental da 
sua vida activa - união com Deus na sua alma, e o 
serviço de Deus na alma do seu próximo. Não há 
nenhum cristão que não possa imitar este exemplo. 
131 
E M M A N U E L 
D E U S C O N N O S C O 
O exemplo de S. Patrício e a revelação que as 
palavras que acabamos de citar dos seus escritos 
constituem do interior do seu coração, fornecem-nos 
o segredo do modo maravilhoso como muitos dos 
santos foram capazes de unir uma vida de oração 
com uma vida de acção quase contínua. Toda a 
nossa actividade se pode reduzir quer ao serviço de 
Cristo no nosso próximo, quer à expansão da sua 
vida em nós mesmos. Deve ter-se reparado que a 
linha de demarcação entre a oração, no sentido 
vulgar do termo, e o resto das actividades de cada 
um está a OK.tinguir-se gradualmente à medida que 
progredimos na consideração da vida espiritual. 
E assim é que devia ser, pois o Senhor mesmo 
nos disse que tínhamos de orar sempre. 
Mas não deve concluir-se daqui que não haja 
necessidade de algum tempo durante o dia no qual 
havemos de dedicar a nossa atenção indivisa à ora­
ção. Porque, como vimos, ainda que todos os 
nossos actos possam ser oração, só o hão-de vir a 
ser desde que alguns actos não sejam nada mais do 
que isso. Isto é, a natureza humana é de tal forma 
que se a vida incerior não for alimentada pela refle­
xão e pela oração pura, sucumbirá gradualmente à 
atracção da actividade natural que em breve toma 
conta das nossas acções. De facto, mesmo nas 
133 
A DIFICULDADE DB ORAR 
condições mais favoráveis, a lembrança habitual do 
Senhor só pode atingir-se depois de fracassos repe­
tidos. Mas, uma vez que se atingiu, mesmo dum 
modo limitado, toda a vida espiritual sofre uma 
notável transformação. Sob muitos aspectos, tor­
na-se mais fácil e mais atraente. 
O pensamento da mortificação e da guerra ao eu 
enche muitas almas de receio, e Faz com que recuem 
e abandonem a esperança do progresso futuro. 
Isto é bastante compreensível, mas é também bas­
tante tolo, pois o Senhor mesmo disse que o seu 
jugo é suave e o seu peso leve. A mortificação 
é corno algumas daquelas casas antigas do Conti­
nente ( I ), que vistas de fora constituem urnas estru­
turas semelhantes a barracões tristes e desagradáveis, 
mas têm por dentro um pátio cheio de todo o encanto 
dum jardim tropical, onde ressoa a música das cas­
catas e reina a fragância do rico perfume das flores. 
Nós olhárnos através daquelas grades tristes e vimos 
que aquilo que na mortificação parece a morte em 
vida é, na realidade, o crescimento de Jesus na nossa 
alma, enchendo-nos com o calor do seu sossego, a 
melodia da sua companhia e o esplendor do seu 
amor. Porque, morrendo para nós mesmos, damos­
-lhe a Ele uma nova medida de vida. 
Ao considerar este mistério da vida e do cresci­
mento de Jesus nas nossas almas, e a nossa incor­
poração dele, focámo-lo de um certo número de 
pontos de vista. Pode ser olhado como a habi­
tação nas nossas almas do Espirito Santo, o qual 
- um tanto à maneira do que acontece com a alma 
no corpo humano, que faz uma só coisa, um corpo, 
(I) O Autor exprime-se na linguagem corrente em 
Inglaterra para designar a Europa (N. T.). 
134 
EMMANUEL - DEUS CONNOSCO 
uma pessoa de muitos memhros - nos ccnverte 
numa única coisa, um Corpo, e mesmo, como pode­
remos dizer num sentido real mas limitado, uma 
Pessoa, um cr:sto. Ou podemos ver este mistério 
como a nossa incorporação em Cristo ao modo 
da enxertia dum ramo num tronco novo; temos 
a própria autoridade do Senhor para sustentar 
que nós somos ramos da vide que Ele identificou 
consigo mesmo. E podemos também olhar este 
mistério como a habitação, nas nossas almas, do 
próprio Jesus, uma união maravilhosa de colabo­
ração salvadora e amor vivo ; para isto temos a auto­
ridade das suas próprias promessas. À primeira 
vista poderíamos pensar que nos embrulhámos 
numa contradição ao fazer uso destes diferentes 
aspectos ; mas isso é apenas porque a riqueza deste mis­
tério, que encerra uma realidade sem qualquer para­
lelo em toda a criação, é tal que exige muitas ana­
logias diferentes para a sua expressão. Apesar 
desta dificuldade e apesar do uso frequente da pala­
vra «mística>) para descrevê-lo, não podemos nunca 
duvidar da sua realidade. É a maior das realidades 
para Deus : é a nossa única esperança, é o planode 
Deus que quer restabelecer todas as coisas «em 
Crista>). 
Sob risco de aumentar a confusão que esta múlti­
pla exposição possa talvez ocasionar, seria bom 
indicar um outro modo de encarar este mistério, 
porque poderá ser útil para algumas ahnas na sua 
oração. O Senhor, tomando um corpo humano 
no seio de sua Mãe Maria, tornou-se homem, viveu 
a sua vida humana para nossa salvação, morreu e 
ressuscitou de novo para esse mesmo fim. Não é 
que este fosse o seu único fim, pois a glória do Pai 
deve ter vindo antes de todos os demais. Mas Ele 
queria glorificar a misericórdia-de seu Pai, salvando-
135 
A DIFICULDADE DE ORAR 
-nos. Ora este processo não terminou com a Res­
surreição. Ressuscitado dos mortos, continua a 
sua vida em cada um de nós. Poderíamos ver toda 
a nossa existência como se fosse um corpo - um 
corpo inanimado, porque sem Cristo é sobrenatu­
ralmente morto -, um corpo no qual Cristo está 
a ser gerado gradualmente, conforme lhe submete­
mos, através das operações de graça e cooperação 
da nossa vontade, cada vez mais e em maior número 
as nossas acções. .• 
Este conceito disfruta, até cen o ponto da auto­
ridade de S. Paulo, que diz aos Gálatas que Ele 
está «em trabalhos» até que Cristo esteja formado 
neles. Também nós estamos (<em trabalhos» até 
que Cristo esteja formado em nós. Este é um aspecto 
que é preciso não descurar. Mas é ainda mais 
importante atender ao significado das palavras do 
Senhor a sua Mãe c a S. João, quando vertia 
as últimas gotas do seu sangue vivo na Cruz do Cal­
vário : «Eis aí o teu filho. Eis aí a tua Mãe». S. João 
estava ai i em representação de toda a raça humana. 
Maria é, assim, apontada como sendo a Mãe de 
cada um de nós, como que tendo sido dada a ela a 
vida de Cristo moribundo, para que ela no-la pudesse 
transmitir. É preciso uma certa cautela para evitar 
um grau de identificação demasiado afastado entre 
a vida de Jesus na sua própria carne e aquela que 
Ele vive em nós. No entanto, a carta encíclica do 
Papa Pio X Addiem illum, publicada em 2 de Feve­
reiro de 1 904, mostra-nos que podemos levar muito 
longe esta noção da maternidade de Maria em relação 
a nós, sem nos afastarmos da sua doutrina ou fazer­
mos qualquer inovação, pois que o Santo Padre cita 
as próprias palavras de Santo Agostinho para apoiar 
a sua doutrina. O Papa opina não só que foi em 
Maria que Cristo tomou a sua carne, mas também 
136 
EMMANUEL - DEUS CONNOSCO 
que em Maria uniu a si o corpo espiritual formado 
por aqueles que hão-de crer nele. 
Aqui está, portanto, um aspecto que pode dar a 
nossa Senhora uma nova importância na nossa 
vida espiritual e um novo significado para a nossa 
oração. Ela não é só a Mãe de Cristo mas é tam­
bém, real e activamente, mãe de cada um de nós, 
que cremos nele. Ela foi instrumento para a união 
da natureza humana de Cristo ao Verbo ; é também 
instrumentO".para unir cada um de nós com Cristo, 
visto . que · somos o seu corpo. Maria está a coo­
perar continuamente na formação de Cristo em nós, 
e a tal ponto que poderíamos dizer que Cristo nasce 
dela continuamente em nós. Cada vez que subme­
temos uma parte qualquer da nossa vida a Deus, 
fazendo a sua vontade do modo que Ele quer, Ela 
faz surgir uma nova alma, uma nova medida da 
plenitude de Cristo, e nós cooperamos na sua nater­
nidade. 
Deste modo a vida espiritual é não só vivida em 
união com a Santíssima Trindade, mas é também 
uma união activa com Maria. Como estamos a 
ver, tudo aquilo que se disse, num dos capítulos 
anteriores, sobre o valor da amizade familiar com 
Jesus como modo de desenvolver a vida de oração 
aplica-se também, <<mutatis mutandis», a uma fami­
liaridade filial com Maria. E não vá pensar-se 
que procurar Deus por meio de Maria é perder tempo 
seguindo um caminho desviado. Não só não é 
tempo perdido como parece que ir a Ele através de 
Maria é não só o canúnho mais curto, mas ainda 
o mais seguro. Ela é o caminho escolhido por 
Deus para vir até nós ; pela sua intercessão pode 
fazer tudo quanto Deus pode fazer pelo seu poder; 
Ela tem imenso gosto em aproveitar todas as opor­
tunidades de fazer alguma coisa mais pelo seu Menino 
137 
A DIFICULDADE DE ORAR 
Jesus, e sabe melhor que ninguém quão verdade é 
que tudo aquilo que se faz ao último de nós, a Ele 
é feito. Estas consideraçêes poderão encorajar aque­
las alma� que se encontram mais à vo'ltade falando 
a Maria do que em qualquer outro modo de orar. 
Podem ficar certos de que Ela não deixará de fazer 
nada para os unir a Jesus, nem a atenção que lhe 
prestam a Ela diminuirá no mlnimo a devida a seu 
Filho. É, de facto, verdade que M�ria não está 
presente em nós do mesmo modo que seu Filho, 
mas a sua função de Mãe, tanto nossa como de 
Cristo, dá-nos a certeza de que a sua mão t;stá sem­
pre próxima e pronta para ajudar-nos. Os seus ouvi­
dos são rápidos em ouvir-nos, e os seus olhos nunca 
nos perdem de vista. As nossas orações não pre­
cisam de palavras para serem levadas a seus ouvidos; 
o simples sorriso do nosso coração, o suspiro da 
nossa alma são imediatamente vistos por Ela e não 
é preciso esperar para que Ela venha em nosso auxí­
lio. É o refúgio dos pecadores, a consoladora dos 
aflitos ; é a Mãe do perpétuo socorro, a Mã� da divina 
graça , é a Mãe de Cristo e de todos nós. Não há 
ninguém que deva ter receio de lhe falar das suas 
necessidades, não há ninguém cujas necessidades 
excedam o seu poder; não há ninguém cujos pecados 
a façam afastar-se dela. Não há obra nenhuma, 
excepto a do pecado, que não possa ser feita sob os 
seus olhos, e o verdadeiro quadro da vida espiritual 
vivido em união com Maria é o de uma criança tra­
balhando ou brincando, segura na consciência de ter 
a sua mãe sentada ao alcance da voz, sempre pronta 
a interessar-se pelos seus actos e nunca incapaz de 
ajudar. 
138 
B A L A N Ç O 
Nos últimos capftulos tentou-se esboçar em sim­
ples linhas gt:rais algumas das maravilhas que Deus 
gravou na alma de cada cristão. Para tratar o 
assunto dum modo adequado, ainda que fosse ape­
nas na sua relação com uma vida de oração, seriam 
precisos muitos e longos capítulos. Aqui temos 
de limitar-nos a indicar o rico filão que o assunto 
encerra, e esperar que o leitor procure desenvolvê-lo 
em qualquer outra parte. As Epístolas de S. Paulo 
são, é claro, uma parte primordial. Os numerosos 
e excelentes trabalhos que surgiram nos últimos 
tempos sobre o Corpo Místico de Cristo lançarão 
muita nova luz sobre a questão. Os trabalhos de 
Mura, de Anger, de Mersch, de Sheen são já clás­
sicos sobre este assunto. Os trabalhos de Jaegher, 
de Plus, de Duperray são apenas alguns dos muitos 
livros mais reduzidos que aplicam esta doutrina à 
vida espiritual. Os escritos de Marmion criaram 
já um lugar imorredoiro na literatura espiritual. 
Não há necessidade de desenvolvermos mais o tema. 
Em resumo, portanto : no baptismo, Cristo faz 
de cada um de nós um membro seu; dá-nos o seu Pai, 
fazendo-nos filhos de Deus; dá-nos sua Mãe, como 
acabamos de ver, para que seja também nossa Mãe. 
Dá-nos o seu próprio Espírito para que nos vivifique 
com a renovação e a plenitude da vida. Dá-nos a 
139 
A DIFICULDADE DE ORAR 
sua mesma vida, visto que morreu por nós e por nós 
ressurgiu de novo e vem viver a sua vida em nós. 
Dá-nos os seus méritos, porque podemos em verdade 
chamá-los nossos. Dá-nos a sua inocência, porq11e 
tomou sobre si os nossos pecados. Dá-nos a sua 
carne e o seu sangue para nosso alimento para que 
possamos viver para Ele. Dá-se-nos ele mesmo, 
unindo-nos a si dum modo tal que, sem perdermos 
a nossa própria personalidade, nos «revestimos de 
Cristo» e podemos viver, actuar e orar em seu nome 
como Ele vive, actua e ora de verdade em nosso 
nome. Tão estreita é a união, tão persist�nte, que 
cada pecado que cometemos seacrescenta à sua 
paixão, cada cruz que levamos pacientemente alivia 
a sua. O nosso amor conforta-o no horto, assim 
como o nosso desleixo ou deslealdade o faz sofrer 
até suar sangue. Tão completa é esta união que 
cada um de nós pode dizer, segundo as palavras de 
S. Paulo : «Eu vivo, mas já não sou eu que vivo : 
é Cristo que vive em mim». 
Deve notar-se que estas verdades se não aplicam 
apenas a uns poucos escolhidos e místicos ; são os 
factos basilares da cristandade, e são verdade para 
todas as pessoas baptizadas. O baptismo não é 
apenas a destruição do pecado original, é também 
a infusão duma vida nova. Os principais obstá­
culos dessa vida em nós são os desejos da carne, os 
desejos dos olhos e a soberba da vida. Ora os três 
votos que constituem o estado religioso, os de pobreza, 
castidade e obediência, dirigem-se directamente a 
destruir esses obstáculos e a dar um lugar amplo a 
Cristo nas nossas vidas, ou melhor, na sua vida em 
nós. Que religioso pode então dizer que a santi­
dade não é para ele ? Que direito tem um religioso 
a sustentar que não é chamado a uma vida de ora­
ção ? Como pode um religioso crer que Deus pre-
140 
BALANÇO 
tende que ele ultrapasse o primeiro degrau da escada 
da oração ? E ainda que sejam necessárias graças 
especiais para as alturas da oração, como pode um 
religioso, que está já pelo seu estado obrigado a 
tudo quanto precisa fazer para se preparar para 
essas graças - a quem Deus já se deu a si mesmo, 
deu o seu Filho e o seu Espírito, - como pode Ele 
recusar-se a esperar que Deus lhe há-de dar tudo o 
que é necessário para viver uma vida de união com 
seu Filho? Se recebemos tanto de Deus, por que 
razão não poderemos esperar aquilo que - pelo 
menos em comparação - é apenas um pouco mais, 
em especial quando já recebemos o direito a pedir 
em nome de seu Filho ? A pergunta sugere a sua 
própria resposta, porque a única razão para temer­
mos uma recusa é que não estejamos realmente a 
pedir em nome de Jesus. Se, no entanto, vivemos 
em nome de Jesus, se pelo menos fazemos o máximo 
por isso, se chegámos já ao ponto de desejarmos que 
Ele viva em nós mais e mais, e se vemos que essas 
graças de oração são o meio próprio para dilatar 
a sua vida na nossa, então peçamos com toda a con­
fiança sem duvidar nada. 
Antes que prossigamos para considerar um maior 
progresso na oração, olhemos para trás um momento 
ao longo da estrada que vimos a seguir. No prin­
cípio, se não nos tínhamos, pela educação e pelo 
ambiente, familiarizado com as convicções da fé, 
orávamos por «meditação». Isto é, recordávamos 
alguma verdade e aplicávamos-lhe a nossa inteli­
gência para considerar diferentes pontos dela, ilus­
trando-a com figuras na nossa imaginação ; dedu­
zíamos certas conclusões, levávamos a nossa von­
tade a elaborar propósitos e voltávamos todas as 
nossas faculdades para Deus num colóquio ou breve 
conversa. Estas convicções tornaram-se habituais 
141 
A DIFICULDADE DE ORAR 
à medida que passou o tempo, e a ideia de Deus 
tornou-se-nos mais familiar ; em particular a nossa 
imaginação não tinha grande dificuldade em tomar 
uma ideia real do Senhor, e verificámos que se 
tornava mais fácil falar-lhe, de modo que quando 
famos orar não precisávamos de considerações 
demoradas para achar alguma coisa que dizer-lhe. 
Como dizem os livros, os afectos predomina\am na 
nossa oração. Este contacto com o Senhor amadu­
receu em amizade, e a nossa compreensão mútua 
t ornou-se tão grande que umas poucas de palavras 
bastavam para a nossa conversa, e algumas vezes 
podíamos passar inteiramente sem palavras e con­
tentávamos-nos em ajoelhar em silenciosa adoração 
ou desejo inarticulado. A nossa oração simpli­
ficou-se. Tendo em conta a condição essencialmente 
sobrenatural da oração e a sua consequente depen­
dência da graça, este progresso pode considerar-se 
natural. É apenas o que ·pode esperar-se se não 
deixamos de fazer com que a nossa vida esteja de 
acordo com a nossa amizade com Jesus. Desde 
que lhe fomos leais e tomámos cuidado de que as 
nossas acções estivessem em harmonia com os seus 
ideais e, em particular, com as coisas que nos pedia, 
uma compreensão íntima e uma silenciosa comunhão 
seguiram-se muito naturalmente. As mesmas con­
dições se requerem para a amizade humana, e pode 
esperar-se um resultado idêntico quando se realizam. 
No entanto, houve muitos altos e baixos no nosso 
progresso. Cada desvio na virtude reflectia-se com 
um insucesso correspondente na oração. As dis­
tracções constituíam sempre uma ameaça à nossa 
oração e frequentemente quase a destruíam. Em 
alguns casos também o crescimento em simplicidade 
era obscurecido por um hábito constante da oração 
vocal, ou talvez por uma insistente devoção à medi-
142 
BALANÇO 
tacão metódica. Esta última, se se leva muito longe, 
não é de modo algum o melhor caminho para as 
alturas da oração, se bem que possa ser um bom 
fundamento ; mas Deus é fiel, e a sua graça é toda 
poderosa. Como diz o provérbio, Ele pode escrever 
direito por linhas tortas. 
Apesar de todas as provações e contratempos, 
no entanto, houve talvez ocasiões em que provámos 
a doçura da amizade de Jesus. Houve ocasiões em 
que a oração brotava simplesmente nos nossos 
lábios, em que o nosso coração se inflamava na 
devoção, em que nos sentimos prontos para qualquer 
sacrifício. Podíamos sentir a nossa oração. E tal­
vez então esta devoção sensível - pois que o era, 
pelo menos em parte - diminuísse. Os mistérios 
de Jesus deixaram de tocar-nos do mesmo modo, 
o sobrenatural perdeu o atractivo que tinha para 
nós, e a oração tornou-se um trabalho árido e maça­
dor de afastar as distracções sem termos nada que 
pôr em vez delas. A nossa «devoção» estava morta, 
e era difícil saber o que fazer a seguir. Uma íntima 
convicção de um mundo que havia de chegar man­
teve-nos num caminho direito, e lançámo-nos à 
obra com toda a tenacidade que pudemos reunir. 
Uma vida de oração não era para nós - não éra­
mos chamados a servir a Deus desse modo. Assim 
pareceu talvez a alguns. Teriam razão ? 
Em primeiro lugar, esta evolução que esboçamos 
poderia ser meramente natural. Fundava-se na 
graça, é certo, mas no entanto poderia não ser mais 
do que o que se podia chamar a actuação «natural» 
da natureza auxiliada pela graça. Na realidade, 
ainda que a natureza das coisas fosse uma explica­
ção suficiente, acontece muitas vezes que o Senhor 
mesmo interferé no progresso natural, e fá-lo para 
acelerar e dilatar o nosso avanço. 
143 
A DIFICULDADE DB ORAR 
O modo como o faz, no entanto, é que deve ser 
observado, porque, pelo menos nas suas últimas fases, 
é bastante contrário àquilo que se poderia esoerar. 
Nos pri1J1eiros tempos actua com frequência um modo 
especial para intensificar a devoção sensível ; toma 
mesmo l> sua pr::sença sensível e toca o nosso coração 
tilo docemente qm.•, pelo menos nessa altura, fazemos 
grande progresso no desapego. Mas, na nossa 
reacção a estes favores, há muito amor próprio 
- «amor de dispensa» corno costumavam chamar-
-lhe os antigos - e, em qualquer caso, os sen-
tidos não podem levar-nos longe na nossa estrada 
para Deus. É certo que estes favores nos ajudam a 
firmar-nos no caminho, mas não constituem a devo­
ção verdadeira - não fornecem a força motriz para 
uma longa e fatigante jornada. A devoção autên­
tica está na nossa vontade, uma decisão de seguir a 
Cristo custe-nos o que custar. Esta é a única espécie 
de devoção que nos manterá em avanço no caminho 
estreito que conduz ao Reino de Deus. 
O Senhor, portanto, urna vez que orientou para 
si os nossos corações, começa a purificar o nosso 
amor e a nossa devoção. Mais tarde ou mais cedo 
começa a afastar a devoção sensível e a nossa oração 
torna-se «seca». Tendemos a tomar-nos melan­
cólicos e ressentidos ; mas,se somos generosos e 
tentamos cooperar com a sua graça, havemos de ver 
em breve que o que Ele quer de nós é uma completa 
c generosa submissão à sua vontade. Isto é tudo o 
que importa, e temos de aprender a achar toda a 
nossa satisfação em cumpri-lo. Para isto é preciso 
coragem ; é preciso fé ; é preciso graça É tão impor­
tante para nós que Ele se afaste, como o foi para 
os apóstolos ; de outro modo continuaríamos a viver 
pelos nossos sentidos em vez de por intermédio de 
uma fé generosa. Ora os sentidos não podem 
144 
BALANÇO 
unir-nos a Deus no sentido pleno da palavra; é na 
fé que o Senhor nos desposa, e até que tenhamos 
aprendido a viver pela fé não passamos de princi­
piantes na vida espiritual, por muito alto que tenha­
mos subido na devoção sensível. O embotamento 
natural da reacção dos sentidos que vem da familia­
ridade e da repetição da mesma experiência - a com­
preensão inconsciente, se assim se pode exprimir, 
da inadequação de qualquer sentimento ou emoção 
para satisfazer as mais profundas necessidades da 
alma - acrescentado ao trabalho das purificações 
de Deus, levou-nos a uma nova fase da vida espiri­
tual, em que a oração se torna matéria de grande 
dificuldade. Apesar de que é geralmente nos últi­
mos passos da ascensão espiritual que este estado 
se encontra numa duração constante e longa - pois 
pode durar muitos anos - no entanto aparece com 
frequência muito mais cedo em períodos curtos, e 
só quando a apreciamos no seu devido valor é que 
podemos formar qualquer verdadeira escala de 
valores da oração. Porque este estado, não obs­
tante a sua aparente esterilidade e inutilidade, conduz 
a uma oração de enorme valor, muito agradável a 
Deus e que produz uma grande virtude e um rápido 
avanço nosso. É um estado em que se tem de amar 
e orar pela fé, e por essa razão usamos o termo 
«oração da fé» para designar este tipo de oração. 
145 
A O R A Ç Ã O D E F É 
Sob o termo «oração de fé» incluimos todas aque­
las formas de oração nas qu�is nem os sentidos nem 
a inteligência encontram muita coisa em que se apoia­
rem ou que atraia os seus apetites naturais. Esta 
oração centra-se bastante à volta de Deus tal corno 
é visto à frouxa luz da fé, com os seus atractivos 
esbatidos e ocultos. É uma oração que parece 
consistir numa incapacidade para orar. Não é, no 
enta n to, nosso propósito estreitar o significado do 
nome tentando defini-lo. Pelo contrário, é prefe­
rível conservar-lhe uma aplicação tão lata quanto 
possível, de modo a poder incluir-se no seu �:ratarnento 
as dificuldades permanentes dos mais avançados, 
bem corno as paralisias temporárias daqueles que 
não chegaram ainda tão longe. 
Há muitos leitores que não gostam de citações, 
mas sentimo-nos obrigados a citar a descrição dada 
por Santa 1 oana Francisca de Chantal, da sua ora­
ção, porque é um exemplo excelente, embora avan­
çado, do tipo de oração de que estamos a tratu, e 
também porque pode servir de apresentação da 
Santa para alguns que ainda a não conheçam. Depois 
de Santa Teresa, é ela a grande autoridade do seu 
sexo sobre a oração. É, além disso, o livro vivo que 
S. Francisco de Sales «escreveU>>, porque foi ele o 
seu director e formou a sua alma nas linhas da sua 
147 
A DmCULDADB DB OllAR 
já clássica espiritualidade - urna espiritualidade que 
dificilmente terá sido ultrapassada. 
A Santa escreve : «Digo-lhe com toda a confiança 
e simplicidade que há já quase vinte anos que Deus 
me tirou todo o poder de fazer qualquer coisa na 
oração com o entendimento e a consideração ou 
meditação ; e que o mais que posso fazer é sofrer e 
descansar o meu espírito muito simplesmente em 
Deus, permanecendo nesta atitude por um inteiro 
abandono a Deus sem fazer actos nenhuns, a não ser 
que a isso seja convidada por sua iniciativa, espe­
rando ali o que seja do agrado da sua bondade 
dar-me>>. Aqui temos uma oração sem «actos», 
sem capacidade para fazer nada mais além de sofrer 
e abandonar-se a Deus. É este último ponto que 
distingue esta oração dos meros devaneios ou da 
inércia preguiçosa. Se a no�sa vida não está a ser 
continuamente moldada de acordo com a vontade 
de Deus não pode haver «abandono» real no tempo 
da oração. A nota do sofrimento não é essencial 
a esta oração, mas apesar disso a oração falha fre­
quentemente porque não a olhamos como um meio 
pelo qual nos damos a Deus. Com demasiada fre­
quência andamos à procura de consolaçõe'>, bus­
cando-nos a nós mesmos na realidade, ainda que 
seja num plano espirituaL Estamos a orar em nosso 
nome em vez de em nome de Cristo. 
Há várias fases de oração que podem ser i ncluídas 
sob este título de «oração de fé». Algumas vezes 
não podemos conceber que Deus está algures perto 
de nós. Parece ter-nos abandonado por complefo, 
ser indiferente às nossas necessidades. Nada daquilo 
que possamos dizer ou fazer parece movê-lo . Outras 
vezes são os nossos próprios esforços que parecem 
estar ausentes. Não podemos formular nem um só 
acto. As pahvras morrem-nos nos lábios logo 
148 
A ORAÇÃO DB ri 
que nascem ; são completamente inadequadas. Que­
remos alguma coisa: não podemos dizer o que seja. 
Como que só podemos soluçar e gemer. Algumas 
vezes uma aguda consciência da nossa miséria mata 
a nossa oração como, por exemplo, quando os nossos 
protestos de amor são sufocados pela lembrança 
da nossa infidelidade diária, da procura de nós mes­
mos ou da nossa falta de confiança. 
Pode talvez ser que tenhamos consciência de que 
Deus não está longe ; parece que Ele está detrás dum 
cortinado grosso e pesado, em completa escuridão. 
Mas cada esforço que fazemos para dele nos apro­
ximarmos só parece por-nos mais afastados dele. 
É como um homem a nadar, que se levanta acima 
da água para tentar ver mais longe, só para voltar 
a cair ainda mais baixo. Algumas vezes estamos 
por assim dizer em contacto com Deus, mas asse­
diam-nos as distracções, e cada esforço para liber­
tar-nos delas serve apenas para quebrar. Neste 
estado, a que se refere Santa Teresa, não devemos 
tentar eliminar as distracções. É um caso um tanto 
semelhante ao de uma dona de casa que entretém 
convidados no rés-do-chão enquanto os filhos fazem 
barulho no andar de cima. Se sobe para fazê-los 
sossegar tem de deixar a visita. Nesta fase parti­
cular da oração a acção de Deus está concentrada 
no mais profundo da alma, e não só prescinde dos 
sentidos e da imaginação como ainda não oferece 
ao entendimento nada a que se agarre fàcilmente. 
Estas potências começam então a trabalhar por sua 
conta, e qualquer tentativa para segui-Ias só faz 
com que a alma se afaste de Deus. 
Este, no entanto, é apenas um caso particular. 
Em todos os casos em que estamos desamparados, 
incuràvelmente distraídos, paraliza<.los pela secura, 
completamente incapazes de entrar em contacto 
149 
A DIFICULDADB DB ORAR 
com Deus, em aparência um tanto indiferentes a 
todas as coisas de Deus, e mesmo por vezes cheios 
de tédio por elas, ou assediados pela estupidez, 
espírito vago e mesmo com tentações, em todos 
estes casos temos de recair num \<Seco» acto de fé 
em Deus, na sua presença, no seu poder, na sua 
bondade, na sua sabedoria, na sua infinita miseri­
córdia, no seu amor paternal. Este estado de ora­
ção consiste menos num longo e ininterrupto acto 
do que numa disposição habitual e permanente de 
evitar seja o que for que desagrade a Deus e de fazer 
tudo aquilo que lhe agrade. Note-se que esta dis­
posição fundamental é bastante compatível com o 
sentimento geral de pecabilidade e aparente má 
vontade. Só termina quando tomamos consciência 
duma decisão concreta deliberada de perseverar 
em alguma coisa contrária à vontade de Deus. Mas 
dada esta boa vontade podemos aplicar à nossa 
oração o princípio que se acha na oração da Igreja 
quando se dirige a Deusdeste modo : «Ó Deus, 
para quem todos os corações estão abertos e a quem 
falamos com as nossas vontades . . . » Devemos, 
portanto, orar com as nossas vontades. 
Oramos com a vontade sempre que vamos à ora­
ção de acordo com a vontade de Deus, e nos dis­
pomos numa atitude corporal conveniente, afas­
tando o nosso espírito tanto quanto possível de 
tudo o que não seja Deus, e tentanto perseverar 
nessa atitude de alma e corpo. E isto é verdade 
por muito longe de Deus que nos sintamos, por 
muito que nos pareça que fracassámos ; porque, 
apesar de tudo, estivemos orando com a nossa von­
tade. E só isso é que interessa. Podemos não 
ter tirado satisfação absolutamente nenhuma dessa 
oração, mas Deus foi duplamente louvado, e deve 
notar-:se que nós próprios, ainda que o não saibamos, 
150 
A ORAÇÃO DE FÉ 
nos tornamos mais santos e mais agradáveis a Deus. 
Se as almas pudessem imaginar o valor desta forma 
de oração, que nova coragem não sentiriam! Por­
que é a ideia de que todo o nosso tempo é perdido 
em tais tentativas que nos faz desistir da oração 
quando esta evolui para o estado que temos estado 
a tentar descrever. 
É para que possam ter uma noção verdadeira do 
que significa reabnente o progresso na oração que 
se põe esta descrição perante os olhos de todos, 
mesmo daqueles que começam na vida espiritual. 
A noção corrente do progresso é bastante oposta à 
evolução deste género. E, no entanto, a noção 
corrente é errada, porque julga a oração pela satis­
fação própria que proporciona. Este critério é 
falso, pois a finalidade da oração é dar a Deus o 
que lhe é devido, e não apropriar-nos daquilo a que 
não ternos nenhum direito. Se agrada a Deus que 
permaneçamos perante Ele como animais mudos 
ou corno urna estátua não é conveniente, justo, certo 
e adequado que o façamos ? Mas para isso tere­
mos de aprender a encontrar a nossa felicidade em 
agradar a Deus, e não em agradar a nós mesmos. 
Por outras palavras, temos de tornar a nossa 
vida <<Cristocêntrica» em vez de egocêntrica. E então 
contentar-nos-emas com a esperança de que os 
minutos áridos que passámos na oração iluminarão 
a sua cruz. Com muita frequência, se não fizésse­
mos mais do que resolver-nos a partilhar da sua cruz, 
haveríamos de redescobrir o nosso Divino Amante, 
que parece ter-nos abandonado. No entanto nem 
sempre é este o caso. Ele pode ainda continuar 
muito longe, apesar da nossa generosidade no sacri­
fício, e teremos de contentar-nos em servi-lo à nossa 
custa até que lhe pareça bem voltar a lançar o fogo 
no nosso coração. 
151 
A DIFICULDADE DB ORAR 
É certo que Ele há-de voltar de novo se perseve­
ramos na oração, porque este estado árido não é 
mais do que o deserto que guarda a proximidade 
da terra prometida da contemplação. Há de facto 
um paralelo muito próximo entre o progresso da 
alma quando esta paralisia se tornou uma situação 
permanente e o vaguear dos israelitas no deserto. 
Apesar de tudo há, bem no fundo da alma, uma 
vaga fome habitual por alguma coisa que pode ou 
não reconhecer que é Deus. Nada na criação pode 
dar-lhe uma satisfação sólida; e ainda que a alma 
suspire pelas alegrias que antes conheceu na vida 
espiritual, sabe no fundo do seu coração que estas 
não mais poderão satisfazer as suas necessidades. 
Abandonou o Egipto e a sua vida sumptuosa; ainda 
não alcançou a terra prometida. Entretanto tem 
de aprender a contentar-se com o maná quotidiano 
que Deus lhe dá. Também não receberá mais do 
que a ração para cada dia, pois Deus só dá à alma a 
graça bastante para satisfazer as necessidades do 
momento, para que possa aprender que não pode 
fazer nada por si mesma, mas que a sua graça é 
sempre suficiente. 
Quando uma alma nestas condições se sente 
movida a ajoelhar diante de Deus, sem fazer nada, 
excepto de um modo geral esperar por Ele, não deve 
haver dúvida de que realmente ora, e de que Deus 
a prepara para ulteriores graças de oração. Este 
estado, ao qual se chama a noite escura dos sentidos, 
não é de modo algum tão invulgar como muitos 
julgam. A alina que está neste ponto precisa de 
mais conselho do que o que se lhe pode dar aqui. Há 
dois pequenos livros que tratam deste estado de 
um modo muito prático, e que podem ser recomen­
dados a todas as almas que tentam viver urna vida 
de oração. Um é «Ün Prayer» de Caussade ; o 
152 
A ORAÇÃO DE FÉ 
outro é «The Science of Prayer», de Ludovic de 
Besse. A matéria versada nestes dois livros deveria 
ser familiar para todos os que sejam sacerdotes ou 
religiosos há mais de seis anos. Ambos os livros 
tratam dos tipos simplificados de oração e das difi­
culdades e dúvidas que deles surgem, e discutem 
muitos outros aspectos da vida espiritual relacio­
nados com este estado de oração. O leitor encon­
trará grande encorajamento nas suas páginas, e 
será muito ajudado a perseverar na oração, não 
obstante as suas obscuridades e aridez. Mesmo o 
principiante se sentirá animado a dispor-se ao pro­
gresso através de esforços generosos. 
Será bom ler as obras de Santa Teresa, a quem 
podemos chamar mestra oficial da oração, à luz 
da colecta que se diz na sua missa. E não lhe falta 
experiência nem compreensão com a fraqueza e as 
repugnâncias da natureza humana. S. João da Cruz 
assusta muitos que o não conhecem, mas duas das 
suas obras «A Subida do monte Carmelo» e «A noite 
escura da alma>> hão-de ser de grande ajuda para 
muitos que têm falsas noções da oração. Foi ele 
que deu à Pequenina Flor tanta luz e coragem. 
A «Vida Espirituab>, de Tanquerey é, como já 
se disse, uma inapreciável obra de referência em todos 
estes problemas da vida espiritual. Há duas obras 
extensas sobre a oração que podem ser l idas com 
proveito : «The Graces o f Interior Prayen> de Pau­
lain, e «The Degrees of the Spiritual Life>> pelo 
Cónego Sandreau. Estes dois escritores represen­
tam escolas diferentes de pensamento, mas ambos 
concordam em apresentar-nos os mais altos estados 
de oração corno coisa que se há-de desejar e pedir, 
e para a qual devemos dispor-nos. Já nos referi­
mos a «Holy wisdorn>> de Augustine Baker ; «A Bock 
of spiritual instruction)) de Blosivs é uma obra 
153 
A DIFICULDADE DE ORAR 
clássica da mesma escola. A obra de Vital Lehodry 
«The ways of mental Prayer» é considerada como 
um dos melhores manuais práticos sobre o assunto ; 
por sua vez, o pequeno livro de Chautard, «A alma 
de todo o apostolado» é um resumo eficaz de leitura 
agradável da absoluta necessidade de uma vida inte­
rior em todas as formas da actividade espiritual. 
Mas não basta apenas o saber. As três virtudes 
teologais infusas da fé, esperança e caridade, assumem 
uma importância crescente na vida de oração. No 
entanto, o que aqui precisamos vincar é a necessi­
dade da fé - fé não só durante o acto de orar, mas 
também durante toda a vida espiritual, porque como 
vimos a oração à medida que progride, cada vez se 
relaciona mais estreitamente com o resto da vida 
espiritual. De um certo ponto de vista, poderia 
resumir-se aproximadamente todo o progresso e 
toda a purificação, nesta matéria, como urna subs­
tituição gradual do ver, sentir e conhecer, pelo crer. 
Porque o homem sensual - que podemos aqui 
tomar como o homem que vive pelo sentimento e 
pelos sentidos - não apreende as coisas de Deus. 
O homem justo, como nos diz S. Paulo, vive da fé. 
Mais tarde ou mais cedo a alma que se aproxima 
de Deus tem de viver duma fé nua, crendo, no meio 
da escuridão, por um agudo esforço da vontade 
auxiliada pela graça. Poderia mesmo dizer-se que 
a alma terá de «acreditar» no seu próprio fervor; 
com certeza não será capaz de o «sentir». 
Sem fé ninguém pensaria em entrar em religião; 
sem fé ninguém daria valor aos Sacramentos ; sem 
fé ninguém daria uma obediência sobrenatural a 
um falível superior humano. 
Toda a obediênciareligiosa assenta sobre a fé, 
e uma fé que pode ter de exercer-se em face da oposi­
ção causada pelo espírito da independência humana 
1 54 
A ORAÇÃO DE FÉ 
do súbdito, ou pela aparente fraqueza humana do 
superior, porque mesmo que o superior seja um santo 
em todas as suas obras os nossos olhos humanos 
arranjarão maneira de descobrir alguma falha nas 
suas palavras ou razões - algo que desperta a nossa 
oposição e nos tenta a gritar : «Não servirei» - algo 
que só pode ser vencido pela fé, que vê a mão e a 
vontade de Deus em todas as obras oficiais dos que 
designou como seus representantes. 
S. Tomás de Aquino diz-nos que é pelos dois 
canais da fé e dos Sacramentos que a Paixão de Cristo 
se aplica às nossas almas. A Igreja pede fé para 
o baptismo. O Senhor exige-nos fé quando ora­
mos. A fé é a respiração da vida espiritual, a subs­
tância das coisas que esperamos, a evidência das 
coisas não aparentes. É portanto evidente a impor­
tância de viver pela fé, mesmo nos primeiros estados 
da vida espiritual. «Sem fé é impossível agradar 
a Deus». E como o progresso só nos conduzirá 
a uma vida de pura fé, quanto mais tentarmos viver 
pela fé tanto mais cedo e mais depressa avança­
remos. 
Há uma circunstância em que a fé é de importân­
cia capital, a saber na recepção dos Sacramentos, 
e em particular imediatamente antes de recebê-los. 
Ainda que os sacramentos tenham o seu poder pró­
prio de acção, no entanto a medida da graça que eles 
produzem em nós depende muito das nossas disposi­
ções, e em especial da nossa fé, esperança e caridade. 
Estimulando e reavivando a nossa fé, assentamos 
os fundamentos para um aumento de esperança e 
caridade, e promovemos deste modo o nosso rápido 
crescimento na vida espiritual. 
Mas a principal importância da fé é que a fé nos 
une a Deus nesta vida. Nem os nossos sentidos 
nem a nossa razão podem apreender Deus, mas a fé 
155 
A DIFICULDADE DE ORAR 
toca Deus e mantém-nos num contacto vitaJ com 
Aquele que nos faz um Consigo. O uso dos nossos 
sentidos e da razão pode mesmo tomar-se um obs­
táculo a esta união, e é assim que S. João da Cruz 
insiste em que todas estas faculdades devem ser 
completamente mortificadas, e que a alma deve 
aprender a viver apenas pela fé, antes que possa 
unir-se completamente a Deus. Como a união 
com Deus é a essência de toda a vida espiritual, é 
evidente a suprema importância da fé em cada fase 
dessa vida; é, acima de tudo, indispensável para a 
oração. 
156 
" M U I T O S 
SÃO O S C H A MA D O S . . . " 
Há mais wna razão que torna aconselhável, para 
a alma que tenta viver uma vida de oração, a .con­
sulta da literatura sobre o assunto. Estivemos a 
observar o seu progresso desde que abandonou a 
vida sumptuosa do Egipto, seguindo-o através do 
deserto da oração seca e árida, onde tem de aprender 
a viver do maná da fé. Não é nossa finalidade tra­
tar do seu progresso futuro ; mas, uma vez que esta­
mos junto da fronteira da Terra Prometida, temos de 
acautelar-nos para não cometer a falta original de 
deixar a alma sob uma impressão falsa .e nublada 
das grandes alegrias que a esperam naquela terra 
onde correm o leite e o mel. No entanto, não pode­
mos tentar descrever as delícias e consolações das 
diferentes espécies da oração contemplativa que 
podem ser concedidas à alma que foi corajosa o 
bastante para confiar na direcção de Deus e perse­
verar em segui-lo através do deserto da escuridão. 
A bibliografia que já indicamos, ou testemunhos 
originais como os que se encontram, por exemplo, 
na vida de Santa Teresa, ajudarão a alma a com­
preender que tem diante de si um antegozo do céu 
nesta terra. 
É certo que, ainda que as povoações da alma não 
tenham de modo algum terminado quando ela se 
aproxima do cume da montanha da oração, não há 
157 
A DIFICULDADE DB ORAR 
nesta vida alegrias que igualem as que podem pro­
porcionar as alturas da oração. Se todos são ou 
não chamados a este alto estado, é uma questão 
em que não precisamos deter-nos. É, entretanto, 
bastante seguro afirmar que todos podem louvàvel­
mente orar e preparar-se para as mais elevadas 
graças de oração, desde que seja por motivos justos 
e fundamentem a sua esperança na misericórdia de 
Deus, nos méritos do Salvador e na sua pró­
pria pobreza de espírito. Nada se perde em tra­
balhar deste modo para as graças de oração porque, 
como dissemos, o trabalho de preparação é nada 
mais do que o cumprimento generoso de tudo aquilo 
que já é exigido pela natureza do estado religioso 
ou pelo ministério sacerdotal. É claro que a con­
dição da alma que Deus normalmente espera antes 
de lhe conceder as suas graças de oração contem­
plativa em algum estado elevado exige um não 
pequeno grau de abnegação pessoal e de virtude. 
Mas Deus não faz acepção de pessoas e, para os 
fins da sua sabedoria, confere muitas vezes a sua graça 
- mesmo a sua graça especial - aonde há pouco 
ou nenhum mérito. Além disso, mesmo quando 
espera por um estado estável de serviço generoso 
antes de chamar a alma a um lugar mais elevado no 
banquete do seu Amor, Ele próprio é o que mais 
tenaz e energicamente actua no trabalho de pre­
parar a alma. 
Em qualquer caso, este nível de fervor não é mais 
elevado do que o que pode e deveria realmente ser 
atingido na vida religiosa. A tragédia é que tantas 
almas tenham andado bastante no caminno para 
atingir este estado e façam quase todas, os sacrifícios 
necessários, mas que consintam em ser impedidas 
de chegarem ao seu termo por um apegamento a 
descoloridos ouropeis que não querem tentar deixar. 
158 
<<MUITOS SÃO OS CHAMADOS . . . » 
De facto, se bastantes sacerdotes e almas em reli­
g:tao não conseguem alcançar a contemplação, é, 
não tanto por ser pre:::iso um grau de perfeição dema­
siado elevada para atingi-la, mas antes por causa de 
alguma recusa obstinada da sua parte em negar 
algum pequeno apetite do amor próprio. «Um 
pouco mais e oh! quanto!» Desde o momento em 
que resolvemos decididamente per:.istir em recusar 
algum pedido que sabemos que Deus nos faz, é des­
truída aquela nossa rendição que é o fundamento 
da nossa união com Deus, e a oração contemplativa, 
que é a rior e o fruto dessa união, está posta de parte. 
Às vezes é o próprio dom de Deus que nós nos recusa­
mos a abandonar, agarrando-nos às suas consolações 
como urna criança que se recusa a ser desmamada. 
Esquecemos a exortação dos Apóstolos para sermos 
zelosos por novos dons; esquecemos o grande prin­
cípio «Negociai até que eu venha», pois devemos 
sempre usar os dons de Deus negociando com Ele 
a sua misericórdia, até que Ele se nos dá a si mesmo 
numa união tão estreita quanto possível. Por 
isso é que a generosidade e o espírito de sacrifício 
são tão essenciais para avançar na oração. Temos 
de dar a Deus um cheque em branco sobre nós pró­
prios e sobre tudo quanto temos, confiando que na 
sua graça e misericórdia nos dará todos os meios 
para correspondermos a cada uma das suas exi­
gências no sentido de obter de nós o pagamento na 
forma de abandono e sacrifício. 
A este respeito poderia dizer-se que se alguém 
tenta a experiência, se assim se pode chamar, de 
não recusar nada a Deus durante o tempo de, 
por exemplo, seis meses, ficará espantado com a 
transformação na sua vida espiritual. Se nós tivés­
semos a coragem de abandonar-nos Àquele que 
sabemos ser um Pai amoroso! Se pudéssemos 
159 
A DIFICULDADE DE ORAR 
acordar a nossa fé e compreender que o Senhor 
queria dizer aquilo mesmo que dizia - que o seu 
jugo é suave e o seu peso é leve! Não é na verdade 
extraordinário que não sejamos capazes de acreditar 
na palavra de Deus tal qual é ? 
É impossível atingir tais alturas na oração sem um 
decidido espírito de mortificação. Temos de renun­
ciar em absoluto e de resistir vigorosamente aoshábitos deliberados de pecar. A quebra deliberada 
e habitual de qualquer regra, de qualquer ordem dos 
superiores, ou um idêntico desprezo de qualquer 
dever, também tem de ser eliminado. Além disso 
não devemos nunca deixar que um certo espírito 
de indulgência própria se aposse da nossa conduta; 
o espírito que nos guia tem de ser de sacrifício. 
À primeira vista, isto parece duro - demasiado 
duro - mas torna-se mais leve e mais «razoável» 
quando compreendemos que, nos pedem que nos 
mortifiquemos, é para que Jesus possa viver em nós. 
A nossa morte para nós mesmos pela mortificação 
é a sua ressurreição em nós, e temos portanto de 
aprender a tentar em todas as circunstâncias, actuar 
por amor a Jesus, em vez de por amor à nossa própria 
comodidade. Isto significa que temos de declarar 
a guerra à busca de nós próprios, e fazer da busca 
de Jesus o nosso objectivo constante. Significa 
ainda que temos de tentar aceitar alegremente todas 
as provações que Ele nos reserva, sejam de que género 
forem - provações da alma, provações do corpo, 
provações de dentro, provações de fora, provações 
dos homens, provações do trabalho - e ver nelas 
uma nova oportunidade para nos unirmos a Jesus 
no sofrimento, para o aliviarmos da sua cruz e para 
completarmos o que falta, pela Igreja, nos sofri­
mentos de Cristo. Hão-de servir como uma nova 
ocasião de unir-nos na fé ao nosso amoroso Pai, 
1 60 
«MUITOS SÃO OS CHAMADOS . • . » 
que governa todas as coisas docemente e faz com que 
todas concorram para o nosso bem. Há-de ser 
também uma ocasião para nos unirmos ao Espírito 
Santo que mora em nós para dar força à nossa fra­
queza e iluminar a nossa cegueira, de modo que 
possamos corresponder às necessidades de cada 
momento. 
Mas significará um espírito de penitência mais 
do que isso ? Significará, talvez, que temos de 
empreender um programa de penitência, em parti­
cular de penitência corporal. É uma questão um 
tanto delicada, porque a resposta depende conside­
ràvelmente de circunstâncias particulares. É indu­
bitàvelmente verdade que se os homens fizessem mais 
penitência, haveria muitas mais pessoas guindadas 
à oração da verdadeira contemplação. Por outro 
lado, as tentativas indiscretas e imprudentes de 
infligir penitências a si próprios conduziram mais 
de uma vez, ao desastre. Os motivos e os efeitos 
devem ser salutares e o assunto é daqueles em que 
o sujeito não é juiz competente do seu caso pessoal. 
Nas ordens mais penitentes não deverá nunca, sem 
conselho adequado, exceder-se a medida habitual da 
mortificação praticada pelas almas ferverosas, e 
mesmo nesse caso deveria ser controlada por pru­
dente autoridade, mesmo que isso só seja possível 
com grandes intervalos. 
Naquelas Ordens que não prescrevem muita peni­
tência na sua vida regular, e também na vida do 
clero, há naturalmente mais lugar, e necessidade 
mesmo, para a iniciativa pessoal. Mas ainda aqui 
se não pode - a experiência demonstra-o exuberan­
temente - dispensar sem mais esse conselho e con­
trole, mesmo que se tenha de admitir a dificuldade 
- que é ,em alguns casos, uma quase impossibili­
dade - de encontrar um conselheiro prudente e 
161 
A DIFICULDADE DE ORAR 
competente, que tenha vagar e inclinação para a 
direcção de almas. No entanto, a providência de 
Deus deve ter atendido a estes casos, e o fervor 
juntamente com a oração sempre hão-de encontrar 
a pessoa indicada. Em geral pode dizer-se que 
aqueles jejuns em que se compraz a nossa vontade 
têm muita razão para ser reprovados. Aquelas 
penitências que interferem com o cabal desempenho 
dos deveres do nosso estado estão, por esse mesmo 
facto, condenadas. Aquelas que podemos fazer 
com urna «seca» mas genuína alegria e que nos não 
preocupam demasiado, nem nos ensoberbecem e 
fazem agradecer a Deus que não sejamos como o 
resto dos homens, são todas salutares e boas. 
A penitência deve fazer-se em espírito de con­
junção, para expiarmos pelos nossos pecados, mas 
melhor ainda, deve também fazer-se em união com 
o Senhor, para aliviar o peso da sua cruz e 
para completar a solidariedade do seu amor e sofri­
mento. 
Se tentássemos resumir as condições que se reque­
rem para a contemplação, seríamos obrigados a 
alongar-nos muito, porque isso significaria fazer 
um resumo completo da perfeição da vida espiritual. 
Mas é preciso insistir em que, se o fizéssemos, não 
teríamos de mencionar nem uma única di.>posição 
ou empreendimento que qualquer religioso, tanto 
activo como contemplativo, não esteja já obrigado 
a procurar pelas obrigações do seu estado, ou se 
espere que adquira para a sua perfeição. E, como 
vimos, a função do sacerdócio faz exigências idên­
ticas aos seus membros. A tragédia está em que 
haja tantos sacerdotes e religiosos que «observem 
estas coisas desde a sua juventude» e que então, 
quando o Senhor chama a atenção deles para 
qualquer apegamento ao qual pretende que renun-
162 
<oruiTOS SÃO OS CHAMADOS . • . )) 
ciem, se afastam entristecidos, porque pensam que 
têm muitos bens, muitos talentos, muitos sonhos, 
muitas esperanças, demasiadas coisas a que renun­
ciar, e o que os prende é tão frívolo e mesquinho, 
tão tràgicarnente desprezível, que os anjos devem 
espantar-se de que os homens possam ser tão loucos. 
Fidelidade cordial à vontade de Deus em seguir 
os seus preceitos, na exacta observância das nossas 
regras, dos nossos deveres quotidianos, do exercício 
da vida comum ; generosidade em corresponder às 
inspirações da graça, em decidir-se a não recusar 
a Deus nada que Ele claramente peça, em abandonar­
-nos a todos os detalhes da sua providência; humil­
dade que desconfia da sua própria força e põe toda 
a confiança apenas no misericordioso auxílio de 
Deus; um desejo resoluto de cumprir todos os deta­
lhes dos preceitos de Deus, eis o que conduzirá a 
alma a avançar ràpidamente e além de tudo o que 
se possa esperar. Uma alma assim disposta, em 
breve há-de verificar que Deus não será ultrapassado 
em generosidade, que começa a dar-lhes os seus 
auxílios especiais, que começa a tomar a seu cargo 
uma parte maior do trabalho do progresso da alma, 
e partilha com ela a sua própria força. Uma alma 
assim reparará que se torna cada vez mais unida a 
Deus nos pensamentos, no aspecto e nas acções, e 
que a sua oração desenvolver-se-á paralelamente. 
Mas há um erro que é um grande obstáculo a este 
desenvolvimento e que, portanto, é preciso evitar, 
ainda que seja preciso reconhecer que este errado 
modo de ver é apoiado pelas obras de certos autores 
que reagiram de modo excessivamente forte contra 
os erros do seu tempo. Corno vimos, alguns pen­
sam que para além da meditação ordinária, em sen­
tido estrito, não há mais nenhum estado de oração, 
senão os fenómenos extraordinários que em muitos 
163 
A DffiCULDADE DE ORAR 
espfritos se associam aos cumes da santidade. É um 
erro muito sério, e tudo quanto se escreveu aqui 
acerca do desenvolvimento da oração segundo os 
moldes da amizade humana deve ajudar o leitor a 
evitá-lo e a ver que, pelo contrário, a oração deve 
poder comportar infinitos graus · de progresso e pode 
razoàvelmente esperar-se que conduza a uma união 
do coração e da alma com Deus tão completa que 
vem a converter-se em contemplação. Não se 
pense que os êxtases extraordinários e as visões que 
encontramos ao ler as vidas de alguns santos são 
parte essencial, seja da santidade, seja dos mais 
elevados estados da contemplação. Longe disso ; 
não só não fazem parte da autêntica oração - pois 
há alguns que subiram até ao cimo a escada da ora­
ção sem darem mostras de nenhum destes efeitos -
como são mesmo algumas vezes uma manifestação 
da falta de uma perfeição completa no estado de 
oração da alma, e podem ser devidos à fraqueza 
humana; ainda que, é claro, possam também ser o 
trabalho directode Deus, destinado a realizar os 
seus planos especiais a respeito duma determinada 
alma. De qualquer modo, na prática, estão fora do 
trilho essencial da oração, o qual nos conduz cada 
vez mais longe para as profundidades da nossa alma, 
para ali nos acharmos completamente unidos a Deus. 
Por muito tarde que seja, quando uma alma vê 
todas as possibilidades da vida espiritual ou encontra 
o caminho recto da oração, é de grande importância 
que a resolução de avançar até à estreita união com 
Deus não seja dominada pelo receio de que nesta 
altura é demasiado tarde. Ainda que o passado 
tenha sido manchado pelo pecado, ou que se tenha 
perdido o tempo com uma direcção errada ou com 
um modo de orar inadequado, não pode haver nada 
no passado - absolutamente nada, seja de que espé-
164 
<<MUITOS SÃO OS CHAMADOS • • • » 
cie for - que possa ser um obstáculo insuperável 
para a santidade, desde que ergamos os nossos 
corações para Deus. É o Salvador e esse é o 
seu Nome. Fez-se homem para nos salvar dos 
nossos pecados, e há-de portanto salvar-nos dos 
nossos erros! «Para aqueles que amam a Deus, 
todas as coisas concorrem para o bem», escreve 
S. Paulo, e nisto se incluem mesmo os nossos peca­
dos. Deus tem um poder e uma misericórdia infi­
nitos ; pode servir-se de todo o nosso passado a tê-lo 
em boa conta. Por avançada que seja a hora, ou 
grandes os obstáculos, temos de volver-nos para 
Deus com uma confiança ilimitada. De facto, 
uma vez que a glória há-de ser toda dele, há-de 
haver sempre da nossa parte alguma dificuldade 
aparentemente insuperável ou alguma fraqueza. 
Apesar de tudo, «todas as coisas são possíveis ao 
que crê» ; apesar de tudo o que nos falta, seja tempo 
ou méritos, «a nossa suficiência vem de Deus». 
165 
C O N C L U S Ã O 
Muitos leitores hão-de, provàvelmente, sentir que 
muito do que se escreveu nos últimos capítulos não 
tem aplicação prática para eles, por este motivo não 
podemos deixar de citar S. João da Cruz, que é a 
autoridade por excelência neste assunto. No seu livro 
A chama de Amor vivo, ao tratar do desenvolvimento 
da oração de meditação, escreve : 
«Ü estado dos principiantes . . . é de meditação e 
de actos de reflexão. E necessário prover a alma 
neste estado com matéria de meditação, para que 
possa fazer reflexões e actos interiores, e tirar pro­
veito do calor espiritual e fervor sensíveis, pois 
isto é preciso a fim de habituar os sentidos e os dese­
jos às coisas boas de modo que, satisfazendo-se com 
a doçura delas, se possam desapegar do mundo. 
Quando isto se alcança em certo grau, Deus começa 
imediatamente a introduzir a alma no estado de 
contemplação, e isto muito depressa, especialmente 
no caso de religiosos (o sublinhado é nosso) porque 
estes, tendo renunciado ao mundo, depressa orde­
nam os sentidos e desejos de acordo com Deus ; têm, 
portanto, que passar imediatamente da meditação 
à contemplação. Esta passagem, então, tem lugar 
quando falham os actos discursivos e a medita­
ção, quando cessam a doçura sensível e os primeiros 
fervores, quando a alma não pode fazer reflexões 
167 
A DIPICULDADE DE ORAR 
como antes, nem achar conforto sensível, mas caiu 
na acidez, pois que a matéria principal se mudou 
para o espírito, e o espírito não é cognoscível pelo 
sentido. Como todas as operações da alma, que 
estão sob o seu domínio, dependem apenas dos sen­
tidos, segue-se que Deus está agora a operar de um 
modo especial neste estado, que é Ele que infunde e 
que ensina, que a alma é o recipiente na qual Ele 
deposita bênçãos espirituais pela contemplação, pelo 
conhecimento e pelo amor de si mesmo ; isto é, dá-lhe 
um conhecimento amável sem a instrumentalidade 
dos seus actos discursivos, porque já não é capaz 
de elaborá-los como antes. 
Nesta altura, a direcção da alma deve ser total­
mente diferente do que era antes. Se antes se provia 
de matéria para meditação, e meditava de facto, 
agora a matéria deve ser suspensa e deve cessar a 
meditação, porque, como disse, não pode a alma 
meditar, faça o que fizer, e o resultado são distrac­
ções. Se antes buscava o fervor e a doçura e os 
encontrava, que não mais os busque nem os deseje : 
e se tentar buscá-los, não só os não encontrará como 
ainda por cima deparará com a aridez, porque �e 
desvia do pacifico e tranquilo bem que nela foi 
secretamente depositado, quando tenta regressar 
às operações do sentido. Deste modo perde o 
último sem ganhar o primeiro, porque os sentidos 
deixam de ser o canal do bem espiritual. 
O principal objectivo de citar esta longa passagem, 
é chamar a atenção para as palavras em que o santo 
nos indica as disposições fundamentais para a pas­
sagem à contemplação, a saber; que tenhamos adap­
tado os nossos sentidos e desejos de acordo com 
Deus, disposição que, com o seu resultado, ele pensa 
encontrar ràpidamente alcançada - no caso do reli­
gioso. Mas citou-se toda a passagem porque resume 
168 
CONCLUSÃO 
numa linguagem fecunda, com o peso de toda a 
autoridade do Doutor de oração da Igreja, tudo 
aquilo que estas páginas têm estado a tentar dizer. 
A opinião do Santo doutor acerca do efeito que 
pode naturalmente esperar-se da vida no estado 
religioso, tanto da formação na virtude como do 
progresso na oração, há-de reparar-se que é bas­
tante semelhante às esperanças expressas por Santa 
Teresa nos seus escritos. A essência do estado reli­
gioso não mudou desde o tempo deles; é um estado 
de tender para a perfeição. Ora, é impossível tender 
conveniente e completamente para a perfeição sem 
levar uma vida interior. Podemos ir mais longe e 
dizer que sem uma vida interior é impossível a um 
sacerdote ou religioso viver uma vida exterior que 
não seja arruinada pela esterilidade, pela inutilidade 
sobrenatural e pela ineficácia. 
Se alguma coisa está errada nos nossos sacerdotes 
ou religiosos de hoje, - se há mesmo alguma falha 
da parte dos laicos em viver de acordo com a fé que 
indubitàvelmente possuem - se a nossa resistência 
à infiltração da civilização pagã, das atitudes pagãs, 
e dos princípios pagãos nos nossos espíritos e cora­
ções, na nossa vida privada e pública, não é tão 
resoluta, tão -expedita como deveria ser, - pode 
com certeza encontrar-se a causa na falta de uma 
vida interior e fundamentalmente na falta dessa vida 
em grau adequado entre os sacerdotes e religiosos. 
Nem com a melhor das boas vontades do mundo é 
fácil afirmar que tudo é tal como deve ser. Não 
faltam vozes - vozes competentes - bradando em 
aviso ; não faltam os sinais - sinais iniludíveis ­
que os apoiem; diz-se mesmo que se ouvem avisos 
sobrenaturais, todos deplorando a falta do necessário 
fervor e vida interior na religião. Não nos compete 
a nós dar sentença sobre o estado das coisas. Mas 
169 
A DIFICULDADE DE ORAR 
cabe a cada um de nós examinar a sua condição 
pessoal, e ver se sim ou não está em harmonia com 
a maravilhosa bagagem espiritual que Deus deu a 
cada um no baptismo. Porque o próprio Deus 
veio viver nas nossas almas, para ser o nosso guia, 
a nossa força, a nossa vida e o nosso amor. 
A raíz autêntica do mal é que nós nem chegamos 
a compreender (nem neles temos uma viva fé prática) 
os efeitos do baptismo e as possibilidades da vida 
cristã. Não compreendemos que a vida cristã é a 
vida de Cristo vivida por Cristo em nós, e não ape­
nas a nossa existência miserável arrastando-se numa 
fraqueza solitária. Não avaliamos a vida interior 
com o seu valor adequado, nem lhe damos o seu 
lugar devido na nossa escala de valores. Para mui­
tos de nós a vida espiritual, e especialmente a vida 
religiosa, é uma sucessão de práticas e trabalhos, 
nos quais a f!randeza e o êxito são medidos de modo 
muito semelhante ao de qualquer outro caminho 
da vida. Em consequência disto, o nosso programa 
espiritual é ajustado e estreitamentelimitado - limi­
tado pelo sentimento de que quando tivermos dito 
e feito, todo o nosso processo depende apenas de 
nós mesmos, da nossa força de carácter, da nossa 
força de vontade, dos nossos remorsos ; e, como 
sabemos que estes são tão pobres, não podemos 
deixar de sentir que coisas como progresso na san­
tidade e avanço na oração, não são para nós. É claro que esta é uma daquelas meias-verdades 
que são o maior dos erros. É verdade que Deus 
nos disse que sem Ele não podemos fazer nada, mas 
não escreveu também o seu Esphito Santo, para 
nossa consolação, que podemos tudo naquele que 
nos fortalece ? É verdade que o mundo está em 
nós e nos arrasta ao seu nível, mas não ouvimos 
o Senhor assegurar que Ele venceu o mundo ? 
170 
CONCLUSÃO 
Ora, haverá alguma união mais estreita do que a do 
baptismo - em que o Espírito de Deus se une à 
alma de tal modo que a toma um membro vivo do 
corpo do Filho de Deus -, em que Deus diviniza 
a alma nas suas forças · e nas suas possibilidades ? 
Se os Sacramentos produzem aquilo que significam 
- e essa é a expressão oficial para a sua actuação -
que conclusão havemos de tirar do facto de, no 
sacramento da Sagrada Eucaristia, o corpo e san­
gue de Cristo nos serem dados como nosso alimento ? 
Que limite podemos nós fixar às forças ou às possi­
bilidades duma alma que é alimentada pela carne 
viva do próprio Deus ? A maravilha não está em 
que um sacerdote ou religioso deva aspirar a uma 
alta perfeição e às graças da oração, mas sim em que 
um sacerdote ou religioso qualquer, ou mesmo qual­
quer católico, deixe não só de aspirar a estas coisas, 
mas mesmo de as atingir! 
Esta falta de compreensão dos talentos que estão 
a deixar enterrados nas suas almas é talvez a razão 
pela qual tantos religiosos têm uma visão tão defor­
mada da vida religiosa. Para muitos, o trabalho 
diário compõe-se de qualquer tarefa especial - ensi­
nar, pregar, curar os enfermos, ou estudar, por 
exemplo - como parte principal, e um certo número 
de exercícios de devoção intercalados à maneira dum 
colorido acidental, duma concessão necessária ao 
próprio estado de vida, mas ao fim e ao cabo alguma 
coisa que de modo algum tem uma importância 
primordial - que é muitas vezes, uma desvantagem 
considerável para a tarefa principal, e por vezes é 
um incómodo "l'azoável ! E quanto à vida interior . . . 
bem, dizem eles, essa é objecto duma vocação espe­
cial, que não tem nada que ver com o religioso cor­
rente. Estamos· perante uma inversão completa da 
verdadeira escala de valores, conjugada com um 
171 
A DIFICULDADE DE ORAR 
erro fundamental quanto à natureza e à finalidade 
primordial e essencial do estado religioso, o qual, 
seja qual for a natureza ou o fim específico duma 
determinada congregação, é sempre a santificação 
de cada um dos seus membros, e ao qual tudo o resto, 
de modo geral, deve estar subordinado. 
A estes dois erros se pode atribuir a maior parte 
da surpresa que muitos leitores hão-de sentir ao 
verem as palavras de S. João da Cruz, citadas há 
pouco, aplicadas ao religioso moderno : de facto, 
muito daquilo que se escreveu neste livro parecerá 
a muitos rebuscado e impraticável, uma aplicação 
errónea à vida religiosa em geral, daquilo que, dizem, 
é na verdade peculiar à vida contemplativa. Este 
ponto de vista é realmente, o resultado das opiniões 
erróneas que acabamos de apontar. A natureza 
essencial à vida cristã e ao estado religioso não 
variam nem um ápice ; e todas as conclusões basea­
das nes�a natureza são tão válidas hoje como o 
foram em todas as épocas da Igreja. A santidade é 
ainda um dever primordial, e uma possibilidade prá­
tica. A exortação do Senhor para que seja­
mos perfeitos como o Pai do Céu é perfeito, é ainda 
tão insistente e tão exequível como era no dia em que 
a formulou. 
Todas as almas cristãs podem dizer: Durante cada 
momento da sua vida, Jesus pensou em mim e amou-me 
em todos os seus sofrimentos, teve presentes ao seu 
espírito e aos seus olhos as minhas necessidades ; 
em todas as suas alegrias, o seu coração dirigia-se a 
partilhar comigo essas alegrias ; em todos os seus 
trabalhos, em todo o seu ensino, nunca deixou de 
ter em vista a minha santidade ; uma das suas maio­
res torturas foi a sua ânsia da minha felicidade e do 
meu amor. Ele sabia que tinha feito e sofrido mais 
dum cento de vezes o bastante para me fazer per-
172 
CONCLUSÃO 
feito, para me santificar. Via claramente que o 
único obstáculo para a consecução da finalidade que 
me destinava, era a minha recusa em confiar nele, 
em acreditar nele, em lançar sobre Ele todos os 
meus cuidados, em tomar a sua palavra à letra, e 
em submeter-me ao seu suave jugo, que é a carga 
leve que tinha preparado especialmente para mim; 
porque, ao ver a minha pobreza tinha, como que 
vivido a minha vida po mim com a sua perfeição 
pessoal e suspirava pelo dia em que eu faria meu o 
resultado do seu trabalho e sofrimento, fazendo o 
que me pedia que fizesse». 
Tudo isto não é exagero : Jesus mereceu tudo 
para nós, mesmo o poder de fazer nossos os seus 
méritos. Só precisa da nossa boa vontade e humil­
dade para nos fazer participar dos frutos dos seus 
trabalhos. 
E não pensemos que Jesus entre o enorme número 
de fiéis nos perde individualmente de vista; é Deus 
e tem toda a imensidade de Deus. O seu inteiro 
amor por cada um de nós não é nem um ápice menos 
extenso pelo facto de arder em amor por todos os 
homens. Temos, de facto, uma visão mais ver­
dadeira do Coração de Jesus pensando que Ele me 
amou, e se entregou por mim, do que considerando­
-nos como um entre os milhões que partilham o 
seu coração. 
Em cada acto da vida de Cristo houve um intenso 
desejo e um amor apaixonado por mim. E esse 
amor não abrandou na sua vida no sacramento do 
altar. E posso estar ainda mais certo de que tam­
pouco diminuiu na sua vida na minha alma. Naquele 
angustioso momento do horto, na profundidade 
daquilo que em qualquer outro seria desespero, 
quando lançou aquele grito de imensa agonia ao qual 
o salmista se refere com as palavras : «Para que 
1 73 
A DIFlCULDADI! DI! ORAR 
serviu o meu sangue ?» era com o meu fracasso em 
corresponder à sua graça que Ele sofria ; eram os 
meus pecados, a minha recusa em acreditar nele, 
a minha rejeição das suas súplicas, a minha des­
confiança no seu amor, o meu descrédito do seu 
poder e dos seus planos, a minha dureza de coração 
e o meu egoísmo, a minha auto-suficiência e a minha 
preguiça que estavam na sua mente e o fizeram ver­
ter o suor do seu precioso sangue. Ainda agora 
continua a implorar-nos que deixemos o seu tra­
balho dar fruto nas nossas vidas, que demos algum 
valor ao seu sangue precioso, que tenhamos alguma 
confiança, alguma fé no seu poder e no S('U amor. 
Com verdade, com demasiada verdade, pode 
ainda dizer-nos : «Oh! homens de pouca fé, porque 
duvidais ?» A caridade de Cristo urge-nos ; o amor 
daquele que nos amou primeiro chama-nos ; revigo­
remos a graça, a fé, a esperança e o amor que estão 
em nós pelos sacramentos da água, do óleo e do 
corpo e sangue de Deus. Pensemos qual é o nosso 
alimento quotidiano e vejamos quais haveriam de 
ser a nossa força e a nossa vida. Cessemos de dizer 
que estas coisas não são para unir, e lembremo-nos 
que já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em 
mim. Compenetremo-nos de que a nossa força é 
a força de Cristo, que as nossas esperanças e as nos­
sas possibilidades são as possibilidades de Cristo, 
que as nossas necessidades são as de Cristo, que os 
nossos méritos são os méritos de Cristo, que o nosso 
espírito é o Espírito de Cristo, o Paráclito, o «For­
tificador», o Espírito de Deus, e renovaremos a nossa 
coragem e a nossa firmeza e, cheios de nova esperança 
e confiança completa na palavra de Deus, lembrando­
-nos de que somos o Corpode Cristo, lançar-nos-emas 
de novo para o largo, onde há muito tempo temos 
labutado sem sucesso, decididos agora a buscar 
174 
CONCLUSÃO 
confiantemente aquela perfeição que o Coração de 
Jesus anseia por encontrar em nós, produzir em nós 
e connosco. 
Em particular, que cada alma renove a sua espe­
rança e a sua intenção de penetrar na oração. Em 
primeiro lugar, tem de resolver-se decididamente e 
nunca, em circunstância alguma, desistir dos seus 
esforços para progredir na oração. Que encare a 
oração corno deveria encarar toda a vida espiritual, 
corno um combate por Jesus, uma luta por uma 
umao estreita com Jesus. Que medite tão longa­
mente quanto for preciso - durante a leitura espi­
ritual, se necessário - mas que passe a orar ao 
Senhor com as próprias palavras assim que 
possa e sempre que possa. Que não tenha receio 
de falar com Deus sem palavras quando o possa 
fazer, e assim cada vez se aproximará mais de Jesus. 
Que faça, durante o dia, frequentes actos de desejo 
de Jesus, os quais não precisam de ser longos nem 
necessàriarnente orais ; basta um sorriso do coração. 
Que procure Jesus em todas as coisas ; que se una a 
Jesus fazendo o que lhe agrada, fazendo a vontade 
de Deus. Este é o caminho para se apossar de 
Jesus. No momento oportuno, quando possa sentir 
Jesus mais próximo, que tire daqui pleno proveito ; 
mas não deve estar tão apegado a esta presença 
sensível de Jesus que se recuse a deixá-lo partir 
quando o Mestre decide que é conveniente para a 
alma que Ele a prive da sua presença sensível e lhe 
mande um outro consolador. 
Se todo o poder da oração parece perdido, se o 
tempo da oração se torna um período de distracção 
e aridez, que não perca o alento nem se desvie do 
seu propósito. A sua oração então consistirá em 
submeter-se à vontade de Deus tão completa e gene­
rosamente quanto possa. Não há-de ter receio de 
175 
A DmCULDADB DB ORAR 
lançar mão de qualquer expediente de que disponha 
para o ajudar a combater as distracções, Muitos 
encontram grande auxilio em usar um livro, mas 
isto não deve ser feito de tal modo que se converta 
a oração em leitura espiritual ; tem de parar-se fre­
quentemente e voltar o coração para Deus, e escutar 
para ver se Ele não tem alguma coisa que dizer-nos. 
A perseverança nesta pesada provação tem uma grande 
recompensa, e toca o coração de Deus. A alma 
deve tentar estar pronta a aceitar qualquer sofri­
mento que Deus lhe envia, porque a união com 
Jesus sela-se na participação dos seus sofrimentos e 
pela nossa resistência paciente nos tormentos parti­
cipantes da Paixão de Cristo. Mas o nosso objec­
tivo principal deve ser a humildade. O reino de 
Deus está já dentro de nós, mas fazemo-lo nosso pela 
nossa pobreza de espírito. Este é o nosso título 
de união com Deus e é o primeiro princípio da 
vida espiritual que o Senhor ensinou em público. 
Portanto a alma não deve nunca, confiar em si 
mesma e, acima de tudo, não deve nunca, em 
circunstância alguma deixar de confiar absoluta­
mente em Jesus. Deus fez-se homem para salvar 
os pecadores, para dar a vida por aqueles que mor­
rem eni pecado, para dar força aos fracos e frágeis, 
para se dar aos humildes, aos pobres de espírito. 
Tomemo-lo à letra, tomemo-lo com o seu nome, 
submetamo-nos a Ele numa humilde obediência e 
numa confiança amorosa, digamos-lhe, como Maria : 
«Faça-se em mim, faça-se em mim segundo a tua 
palavra». E então seremos cheios de Cristo, por 
quem, com quem e em quem, na unidade do Espí­
rito Santo, se dá toda a glória de Deus. 
176 
A P Ê N D I C E 
Parece haver, ao longo da literatura sobre o assunto, 
dois pontos de vista acerca da finalidade do exer­
cicio conhecido por meditação. Por vezes insiste-se 
na sua natureza reflexiva, e considera-se como um 
meio de elaborar uma ideia de Deus, da vida humana 
de seu Filho, das verdades sobrenaturais, e de formar 
convicções que hão-de constituir a mola real da nossa 
vida espiritual. Noutras ocasiões a função das 
reflexões é subordinada à produção de afectos, e a 
insistência recai sobre os actos que se hão-de fazer. 
Poderia dizer-se que para uns é um trabalho de 
cabeça, enquanto que outros a encaram como um 
trabalho do coração. Este contraste, no entanto, 
seria incisivo demais. Apesar das reflexões serem 
em teoria muito distintas dos afectos, ainda assim, 
na prática não podem separar-se tão fàcilmente. 
Na prática não pode pensar-se em objectos como 
os que se nm propõem sem se ser movido a exprimir 
afectos de qualquer género, mesmo que seja incons­
cientemente; e tão pouco se pode falar com o 
Senhor sem de algum modo pensar nele. 
Há, no entanto, uma divergência quanto ao relevo 
dos dois aspectos, e por esta razão alguns prefeririam 
ser menos precisos do que nós fomos nos capí­
tulos III e IV, sobre a conveniência de pôr de parte 
as considerações quando começam a chegar os afectos. 
177 
A DIFICULDADE DE ORAR 
Ninguém pode pôr em dúvida o valor da reflexão 
sistemática para a formação da vida espiritual, mas 
há muitas almas que têm tal dificuldade em perse­
verar nela que correm o risco de desistir desse exer­
cício sem encontrarem nenhum sucedâneo para ele. 
Para reduzir esse perigo fizemos sobressair o aspecto 
afectivo da oração mental, e insistimos ao mesmo 
tempo na importância da leitura espiritual. Estas 
duas recomendações devem ser tomadas conjunta­
mente ; ambas são partes indispensáveis dum plano 
para inverter a tendência para a compressão, e para 
distribuir por diferentes partes do dia os exercícios 
que por vezes se agrupam sob o nome de meditação. 
Note-se também que frisámos em primeiro lugar 
que não deve nunca abandonar-se a meditação, no 
sentido daquela reflexão pouco formal e muitas 
vezes espontânea; e em segundo lugar qu« a alma 
deve estar pronta a regressar ao uso de considera­
ções formais quando tal for possível durante o tempo 
de oração, se e sempre que termina a facilidade para 
formular actos. Este último ponto é válido não 
só para uma determinada hora de oração, mas tam­
bém para todo um período da vida espiritual da 
alma. Só nestas condições se pode com segurança 
apreciar a concentração sobre o aspecto afectivo 
da oração mental. 
Na nossa opinião, tanto a oração mental como a 
leitura espiritual são ambas normalmente essenciais 
para uma vida espiritual sã. Pela leitura espiritual 
e na reflexão espontânea a que esta conduz, procura­
mos atingir a formação daquelas ideias e convicções 
para as quais se orienta a meditação sistemática. 
Pode chegar um momento em que nem as consi­
derações nem os afectos sejam possíveis na oração. 
e a aridez e as distracções são tais que se sente a neces­
sidade de algum auxílio. É consolador relembrar 
178 
APENO ICE 
que Santa Teresa, que já tinha avançado bastante 
nos caminhos da oração durante os primeiros anos 
da sua vida religiosa, se achou mais tarde incapaz 
de orar sein um livro durante mais de catorze anos. 
Um livro adequado pode, portanto, constituir urna 
grande ajuda para almas nestas circunstâncias. Têm, 
no entanto, de precaver-se não vão passar todo o 
tempo da oração em simples leitura. Mas devem 
fazer pausas frequentes, seja para fazer tentativas de 
mover quaisquer afectos, com ou sem palavras, ou 
pelo menos para permitir o desenvolvimento de 
qualquer afecto ainda que imperceptível que possa 
ter despertado da leitura. Às vezes sucede que o 
único modo de manter a luta contra as distracções é 
conservar aberto um livro e insistir neste método. 
O melhor tipo de livro é o que contém bastantes 
actos, mas a sua índole e a sua matéria hão-de estar 
de acordo com a formação da alma, devendo pas­
sar-se por alto e que se revelar inadequado. Mesmo 
que só se faça uma pausa para murmurar o nome 
de Jesus ou o da sua santa Mãe, pode-se ficar muito 
satisfeito com estas tentativasde oração. 
179 
http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
1 N D 
Prefâcio 
I c E 
Págs. 
9 
Introdução . . . . . . . . • . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 
As potências da alma • . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 
Oração discursiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 
Mudança de método . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 3 
Origens das dificuldades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 
O caminho da oração afectiva . . . . . . . .. . . . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . . . 47 
Oração afecLiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 
Novos progressos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 
Rectidão de vida ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 
Oração e vida espiritual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75 
A senda do progresso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 
As dificuldades de não orar .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
A oração do Sacerdote . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . . . .. . 97 
O Espirito de Adopção . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . 107 
A nossa identificação com Cristo • • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 
O crescimento de Cristo em nós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 
Emmanuel - Deus connosco . .. . . .. . .. . . . . . . . . . . . .. .. . . . . . . . . . .. 133
Balanço. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139 
A oração de fé . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... . . . . . . . . . . . . .. 147 
«Muitos são os chamados».. . .... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157 
Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167 
Apêndice •. . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177 
NIHIL OBSTA T : 15 DE SETEMBRO DE 1956, 
CÓNEGO ANTÓNIO DE BRITO CARDOSO 
IMPRIMATUR : 23 DE SETEMBRO DE 1956. 
f ERNES TUS, ARCEBISPO-BISPO D E
COIMBRA 
ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTA EDIÇÃO 
A 14 DE JANEIRO DE 1957, NAS OFICI­
NAS DA IMPRENSA DE COIMBRA, L.DA 
LARGO DE SÃO SALVADOR, I A 3 
COIMBRA 
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