Prévia do material em texto
volume 10 - número 01 • Jan/Mar 2011www.at lant icaedi tora.com.br R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A DO E X E R C Í C I O Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c i s e P h y s i o l o g y ISSN 16778510 ESPORTE • Lesões em atletas de seleção amadora de futebol • Riscos e benefícios do treinamento resistido para adolescentes • Manipulação da ordem dos exercícios no treinamento resistido NUTRIÇÃO • Consumo de cálcio por mulheres FISIOLOGIA • Cinesioalongamento e propriocepção de joelho • Diferentes repetições no alongamento dos músculos isquiotibiais CARDIOLOGIA • Exercícios físicos para hipertensos ELETROMIOGRAFIA • Atividade eletromiográfica da musculatura abdominal SÍNDROME METABÓLICA • Síndrome metabólica: aspectos clínicos e tratamento R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A D O E X E R C Í C I O vo lu m e 1 0 - n ú m e ro 0 1 • Ja n / M a r 2 0 1 1 21-24 ABRIL 2011 SANTOS|SP PRATIQUE CONTEÚDO ESTE 90 DOS MAIORES PALESTRANTES DO BRASIL EM 88 CURSOS: MUSCULAÇÃO E PERSONAL TRAINING, TREINAMENTO FUNCIONAL, BEM-ESTAR, FITNESS, ESPORTES E MUITO MAIS 12 PALESTRANTES INTERNACIONAIS TRAZEM AS NOVIDADES E TENDÊNCIAS MUNDIAIS WORKOUT FITNESS SHOW: O GRANDE ESPETÁCULO DO FITNESS RESGATA A AERÓBICA E OUTRAS MODALIDADES ATUAÇÃO MULTIDISCIPLINAR COM IDOSOS, FÓRUM INTERNACIONAL DE TREINAMENTO FUNCIONAL E BELEZA SAUDÁVEL: CURSOS ESPECIAIS COM A CHANCELA DO INSTITUTO FITNESS BRASIL (11) 5095 2699 | (13) 3231 3164 | WWW.FITNESSBRASIL.COM.BR MARCAS OFICIAIS REALIZAÇÃO Marca Esportiva Bebida EsportivaPilatesEquipamento FACEBOOK.COM/FITNESSBRASIL @FITNESSBRASIL volume 10 - número 02 • Abr/Jun 2011www.at lant icaedi tora.com.br R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A DO E X E R C Í C I O Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c i s e P h y s i o l o g y ISSN 16778510 ESPORTE • Agilidade no futsal • Autonomia funcional de idosos NUTRIÇÃO • Imagem corporal de atletas • Estado de hidratação de idosos • Antioxidantes na prevenção da lesão muscular FISIOLOGIA • Movimento repetitivo e fadiga muscular • Treinamento aeróbio em hemiparéticos HIPERTENSÃO ARTERIAL • Benefícios do treinamento resistido e aeróbio DIABETES • Exercícios de alta intensidade para indivíduos com resistência à insulina R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A D O E X E R C Í C I O vo lu m e 1 0 - n ú m e ro 0 2 • A b r/ Ju n 2 0 1 1 13 anos volume 10 - número 03 • Jul/Set 2011www.atlanticaeditora.com.br ISSN 16778510 ESPORTE • Percentual de carga máxima dinâmica e treinamento de força • Flexibilidade no desenvolvimento da força muscular • Exercício físico e alterações hormonais • Cortisol e exercício NUTRIÇÃO • Nutrição e suplementação no futebol • Taxa de sudorese e antropometria de nadadoras FISIOLOGIA • Centro de pressão corporal após estabilização central • Maturação esquelética versus idade cronológica no futebol • Idade cronológica e idade motora de alunos do ensino fundamental CARDIOLOGIA • Exercício resistido em indivíduos com cardiomiopatia chagásica R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F i s i o l o g i a d o e x e r c í c i o vo lu m e 1 0 - n ú m e ro 0 3 • Ju l/S e t 2 0 1 1 13 anos R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F i s i o l o g i a do e x e r c í c i o Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c i s e P h y s i o l o g y volume 10 - número 04 • Out/Dez 2011www.atlanticaeditora.com.br ISSN 16778510 ESPORTE • Efeitos do método Pilates nos valores glicêmicos • Utilização do strap na puxada fechada • Lesões em atletas de elite da prova de salto em altura • Treinamento aeróbio em portadores de diabetes tipo 2 • Vibração mecânica e treinamento de força NUTRIÇÃO • Atividade física e suplementos dietéticos • Efeitos da suplementação com carboidrato gel FISIOLOGIA • Alterações fisiológicas em praticantes de ciclismo indoor HIV/AIDS • Disfunção anatômica em HIV/AIDS R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F i s i o l o g i a d o e x e r c í c i o vo lu m e 1 0 - n ú m e ro 0 4 • O u tu b ro /D e ze m b ro 2 0 1 1 13 anos R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F i s i o l o g i a do e x e r c í c i o Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c i s e P h y s i o l o g y EDITORIAL No mundo do conhecimento, Pedro Paulo da Silva Soares ...................................................................................................3 ARTIGOS ORIGINAIS Recomendação de exercícios físicos para hipertensos por cardiologistas de Londrina/PR, Alexandre Antunes Imazu, Marcos Doederlein Polito .............................................................................................................4 Efeitos do cinesioalongamento na propriocepção de joelho: ensaio clínico controlado, Marina Bernardi, Alberito Rodrigo de Carvalho .....................................................................................................................8 Consumo de cálcio por mulheres praticantes de atividade física de um parque do município de São Paulo, Alessandra Hellbrugge, Andrea Vargas G. Soares, Caroline Raele, Cássia R. Rolim Cauchioli, Edinéia Menezes, Giovanna Mauro, Marcia Nacif ............................................15 Levantamento das lesões ocorridas em atletas da seleção amadora de futebol de Primavera do Leste/MT em 2010, Joaquim Ribeiro de Souza Junior, Milton Alcover Neto ...........................................19 Atividade eletromiográfi ca da musculatura abdominal associada à expiração forçada, Nilton Souza Carvalho Júnior, Gabriel Ribeiro, Mauricio Malthes Ribeiro .........................................................................23 Máxima oxidação de gorduras em bombeiros da polícia militar do Paraná: análise da correlação entre o consumo máximo de oxigênio e o quociente respiratório não-protéico, Denis Bruno Ranzani, Francisco Navar ro ..................................................................................31 Comparação de diferentes números de repetições no alongamento dos músculos isquiotibiais em atletas do sexo feminino, Alisson Guimbala dos Santos Araújo, Karina da Costa Casagrande, Kátia da Maia .........................................................................................................................36 REVISÕES Manipulação da ordem dos exercícios na prescrição do treinamento resistido, Ramires Alsamir Tibana, Sandor Balsamo .............................................................................................................................41 Riscos e benefícios do treinamento resistido para adolescentes, Ana Carolina de Campos, Luis Fernando da Silva, Jean Flávio Alves, Paulo Ferreira de Araújo, Rita de Fátima da Silva..................................................................................................................46 Síndrome metabólica: aspectosclínicos e tratamento, Izulpério Cardoso Olevate, Marcus Vinicius de Mello Pinto, Lamara Laguardia Valente Rocha, Mário Antônio Baraúna ...............................................53 NORMAS DE PUBLICAÇÃO ............................................................................................................................... 61 EVENTOS ................................................................................................................................................................. 62 Índice volume 10 número 1 - janeiro/março 2011 R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A DO E X E R C Í C I O Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c i s e P h y s i o l o g y Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 20112 © ATMC - Atlântica Multimídia e Comunicações Ltda - Nenhuma parte dessa publicação pode ser reproduzida, arquivada ou distribuída por qualquer meio, eletrônico, mecânico, fotocópia ou outro, sem a permissão escrita do proprietário do copyri- ght, Atlântica Editora. O editor não assume qualquer responsabilidade por eventual prejuízo a pessoas ou propriedades ligado à confiabilidade dos produtos, métodos, instruções ou idéias expostos no material publicado. Apesar de todo o material publicitário estar em conformidade com os padrões de ética da saúde, sua inserção na revista não é uma garantia ou endosso da qualidade ou do valor do produto ou das asserções de seu fabricante. Atlântica Editora edita as revistas Fisioterapia Brasil, Enfermagem Brasil, Neurociências e Nutrição Brasil I.P. (Informação publicitária): As informações são de responsabilidade dos anunciantes. R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A DO E X E R C Í C I O Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c i s e P h y s i o l o g y Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício Corpo Diretivo: Paulo Sérgio C. Gomes (Presidente), Vilmar Baldissera, Patrícia Brum, Pedro Paulo da Silva Soares, Paulo Farinatti, Marta Pereira, Fernando Augusto Pompeu Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício está indexada no SIBRADID (Sistema Brasileiro de Documentação e Informação Desportiva) Editor Chefe Paulo de Tarso Veras Farinatti Editor Associado Pedro Paulo da Silva Soares Walace Monteiro Conselho Editorial Amandio Rihan Geraldes (AL) Antonio Carlos Gomes (PR) Antonio Cláudio Lucas da Nóbrega (RJ) Benedito Sérgio Denadai (SP) Dartagnan Pinto Guedes (PR) Douglas S. Brooks (EUA) Emerson Silami Garcia (MG) Francisco Martins (PB) Francisco Navarro (SP) Luiz Carnevali (SP) Luiz Fernando Kruel (RS) Martim Bottaro (DF) Patrícia Chakour Brum (SP) Paulo Sérgio Gomes (RJ) Robert Robergs (EUA) Rosane Rosendo (SC) Sebastião Gobbi (SP) Steven Fleck (EUA) Yagesh N. Bhambhani (CAN) Vilmar Baldissera (SP) Todo o material a ser publicado deve ser enviado para o seguinte endereço de e-mail: artigos@atlanticaeditora.com.br Administração e vendas Antonio Carlos Mello mello@atlanticaeditora.com.br Atlântica Editora e Shalon Representações Praça Ramos de Azevedo, 206/1910 Centro 01037-010 São Paulo SP Atendimento (11) 3361 5595 / 3361 9932 E-mail: assinaturas@atlanticaeditora.com.br Assinatura 1 ano (4 edições ao ano): R$ 160,00 Editor executivo Dr. Jean-Louis Peytavin jeanlouis@atlanticaeditora.com.br Editor assistente Guillermina Arias guillermina@atlanticaeditora.com.br Direção de arte Cristiana Ribas cristiana@atlanticaeditora.com.br E-mail: atlantica@atlanticaeditora.com.br www.atlanticaeditora.com.br 3Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Editorial No mundo do conhecimento Pedro Paulo da Silva Soares, Editor Associado O Corpo Editorial da Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício (RBFEx) saúda a todos os leitores, autores e colaboradores de nossa revista nesse ano de 2011 que, para nós, se inicia efetivamente com a publicação de mais um número da RBFEx. Sabemos que os manuscritos que se encontram neste número são frutos de intenso trabalho desenvolvido bem antes do início do ano corrente e traduzem um investimento de longo prazo na investigação da fi siologia do exercício nas suas diversas vertentes. Identifi camos com satisfação que, hoje, a RBFEx tem se tornado a primeira opção de diversos autores como o veículo de divulgação científi ca de seus trabalhos. Observamos uma evolução positiva tanto no número de submissões, quanto na qualidade dos manuscritos, no que se refere a desenhos experimentais bem elaborados e métodos que mostram progressiva sofi sticação. Nossa revista se apresen- ta como uma atraente opção para a publicação de estudos nas áreas básica, experimental e aplicada da fi siologia do exercício, uma vez que nosso público alvo é bastante amplo e tem nos apresentado, para além do interesse constante, avaliações positivas da RBFEx tanto para o formato e apresentação, quanto para seu conteúdo. Gostaríamos de enfatizar que estamos num momento bastante promissor em nosso país, com fi nanciamento para pesquisa como nunca antes visto e com a proximidade de dois eventos de dimensões globais, a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. Esse conjunto de fatores fa- vorece um ambiente favorável para a produção e divulgação científi ca em nossa área, cabendo a nós o dever de atender a uma crescente demanda que se apresenta na procura de profi ssionais interessados na pós-graduação ou na aplicação direta do conhecimento científi co para promoção da saúde e desempenho esportivo. Nestes últimos anos no Brasil, observamos um crescimento extraordinário do número de pesquisadores e de nossa pro- dução científi ca, o que simboliza nossa inserção no “mundo do conhecimento”. De fato, nosso crescimento foi superior a diversos países considerados desenvolvidos e grandes pro- dutores de conhecimento científi co. Entretanto, muito ainda precisa ser feito. Embora publicações internacionais tenham maior impacto e visibilidade externa, o fortalecimento das publicações nacionais também consiste em fator determinante do nosso desenvolvimento. Devemos, portanto, valorizar nossas revistas em língua portuguesa e acolher trabalhos de qualidade comprovada em nossas publicações, abrindo espaço para a consolidação de grupos de pesquisa em todo o país e oferecendo aos profi ssionais da área uma leitura atualizada e de qualidade. Ainda mais, um passo determinante a ser dado é o da incorporação efetiva dos achados científi cos com toda sua interdisciplinaridade na comunidade dos profi ssionais envolvidos com o exercício físico. A RBFEx está em consonância com esta demanda, o que pode ser observado nas suas páginas. Estamos certos de que os autores encontrarão na RBFEx um periódico de qualidade crescente e leitores críticos e ávidos por material original e revisões bem redigidas e atualizadas. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 20114 Artigo original Recomendação de exercícios físicos para hipertensos por cardiologistas de Londrina/PR Physical exercise recommendation to hypertensive patients suggested by cardiologists from Londrina/PR Alexandre Antunes Imazu*, Marcos Doederlein Polito, D.Sc.** *Unidade de Medicina Preventiva - Unimed Londrina,** Departamento de Educação Física, Universidade Estadual de Londrina Resumo Introdução: O médico cardiologista deve possuir um conhe- cimento sufi ciente sobre exercício físico para poder realizar reco- mendações básicas aos pacientes hipertensos. Objetivo: Verifi car as recomendações de exercícios físicos para pacientes hipertensos realizadas pelos médicos cardiologistasda cidade de Londrina - PR. Método: Foi elaborado um questionário contendo seis questões que abordaram conceitos e condutas nas recomendações de exercícios. O documento foi entregue e recolhido pessoalmente no local de atendimento dos médicos. Dos 64 profi ssionais cadastrados no Conselho Regional de Medicina do Paraná, 40 foram localizados e 25 participaram do estudo. Resultado: O teste do qui-quadrado não identifi cou diferenças entre as recomendações dos médicos e as recomendação atuais de exercícios físicos para hipertensos. Conclusão: Embora no contexto geral os cardiologistas recomen- dem adequadamente o exercício físico para hipertensos, ainda foi identifi cado que uma pequena quantidade de profi ssionais possui superfi cialidade em relação ao tema em questão. Palavras-chave: pressão arterial, exercício físico, hipertensão arterial sistêmica. Abstract Introduction: Th e cardiologist physician should have suffi cient knowledge about physical exercise in order to recommend it for hypertensive subjects. Aim: To verify which are the recommenda- tions concerning physical exercise for hypertensive subjects suggested by cardiologists from Londrina/PR. Methods: A questionnaire with six questions which consisted of concepts and conducts in exercise recommendations was elaborated. Th e questionnaire was handed and collected in person at the work place the cardiologists provided consultation. Sixty-four cardiologists were registered at the Regio- nal Medical Council of Paraná, but 40 were found and only 25 participated in this study. Results: Th e chi-square test did not fi nd diff erences between cardiologists and current exercise recommenda- tions to hypertensive subjects. Conclusion: Although cardiologists, in general, recommend adequate exercise to hypertensive patients, a small group of professionals have still little information about exercise and hypertension. Key-words: blood pressure, exercise, hypertension. Recebido em 8 de outubro de 2010; aceito em 8 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Prof. Dr. Marcos Doederlein Polito, Departamento de Educação Física, Universidade Estadual de Londrina, Rodovia Celso Garcia Cid km 380, 86051-980 Londrina PR, Tel: (43) 3371-4238, E-mail: marcospolito@uel.br 5Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Introdução Dentre as diversas estratégias para auxiliar na prevenção e no tratamento da hipertensão arterial sistêmica, o exercício físico regular é uma das menos onerosas [1]. Além disso, pos- sibilita modifi cações fi siológicas nos tecidos cardíaco, vascular e musculoesquelético que, independentemente da alteração na pressão arterial de repouso, pode representar menor chance de morte por doença do coração [2]. Contudo, para que ocorram os benefícios induzidos pelo exercício físico, a sua prescrição deve respeitar determinadas variáveis, tais como intensidade, duração e frequência se- manal do esforço [3]. Após os exames clínicos necessários, o profi ssional da área da educação física, na maioria dos casos, é o responsável pela prescrição e acompanhamento do exercício físico tanto no indivíduo hipertenso quanto no não hipertenso [4]. Entretanto, devido ao médico estabelecer o primeiro contato com o paciente, frequentemente é sugerido por este profi ssional algum tipo de atividade física. Porém, a formação universitária do médico pode não contemplar todo o conhecimento científi co necessário para o entendimento da fi siologia do exercício [5], o que poderia se relacionar com recomendações não adequadas de exercício para determinado grupo de indivíduos. Nesse contexto, o objetivo do presente estudo foi comparar as recomendações de exercício físico para pessoas hipertensas realizadas pelos cardiologistas da cidade de Londrina (PR) com as recomendações do Colégio Americano de Medicina do Esporte - ACSM [6]. Material e métodos Através de consulta à página eletrônica do Conselho Regional de Medicina do Paraná em julho de 2009, foram identifi cados 64 médicos cardiologistas que atuavam na cidade de Londrina/PR. O endereço profi ssional de cada médico foi obtido pela página eletrônica da Associação Médica de Londrina ou pela listagem impressa de planos de saúde. Do total dos 64 médicos, 24 não receberam o questionário para participação. Destes, cinco atuavam somente em um hospi- tal da cidade, o que difi cultou o acesso aos profi ssionais por não possuir um responsável pela entrega do documento; 12 médicos não foram localizados devido aos endereços estarem incompletos ou desatualizados; seis não foram encontrados por incompatibilidade de horários entre o médico e o pes- quisador; um médico estava viajando no período da pesquisa. Deste modo, 40 questionários foram entregues pesso- almente nos endereços profi ssionais. Para assegurar impar- cialidade nas respostas, os questionários foram confi ados à secretária ou recepcionista no local de atuação após breve explanação da pesquisa. Após uma semana, o pesquisador recolhia os questionários, os quais se encontravam inseridos em envelope lacrado e sem qualquer identifi cação pessoal dos médicos. Dos 40 questionários, 12 não foram devolvidos, apesar de contato telefônico e duas passagens do pesquisador para recolhimento. De forma explícita, dois cardiologistas se negaram a participar da pesquisa e um justifi cou a devolução do questionário em branco por não atuar clinicamente. Assim, foram devolvidos 25 questionários devidamente preenchidos, correspondendo a 62,5% do total entregue. O questionário foi elaborado contendo seis questões fechadas com o intuito de se conhecer as recomendações dos médicos cardiologistas sobre exercício físico/atividade física para a população hipertensa na prevenção e tratamento da doença. Por escrito, foi incluída a orientação de respostas das questões. O conteúdo das questões e as opções de respostas podem ser visualizados na Figura 1. O modelo de comparação entre as respostas dos médicos e as respostas esperadas foi o Posicionamento Ofi cial do Colégio Americano de Medicina do Esporte [6], por se tratar de uma entidade de pesquisa internacionalmente reconhecida que associa o aspecto clínico à prescrição do exercício. Além disso, no referido documento, há uma indicação qualitativa sobre as evidências científi cas nos temas abordados. A análise dos dados foi realizada de forma descritiva e, de forma inferencial, pelo teste do qui-quadrado e pela correlação de Spearman, considerando como nível de signifi cância esta- tístico o valor de p menor que 0,05. Os dados foram analisados no programa Statistica (7.0, Statsoft, Tulsa, OK, EUA). Figura 1 - Modelo do questionário aplicado aos cardiologistas de Londrina/PR. Em sua opinião, a atividade física regular pode auxiliar no tratamento de hipertensão arterial? ( ) concordo totalmente ( ) concordo parcialmente ( ) discordo totalmente ( ) discordo parcialmente ( ) não tenho opinião Em sua opinião, a atividade física regular pode auxiliar na prevenção da hipertensão arterial? ( ) concordo totalmente ( ) concordo parcialmente ( ) discordo totalmente ( ) discordo parcialmente ( ) não tenho opinião Você recomenda exercício de musculação ou outra atividade com pesos para pacientes hipertenso? ( ) sempre ( ) na maioria dos casos, dependendo do paciente ( ) na minoria dos casos, dependendo do paciente ( ) não Você recomenda exercício aeróbico (caminhada, bicicleta, hidroginástica, etc.) para pacientes hipertensos? ( ) sempre ( ) na maioria dos casos, dependendo do paciente ( ) na minoria dos casos, dependendo do paciente ( ) não Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 20116 Em geral, qual a duração aproximada que você indicaa prá- tica da atividade física para a maioria dos pacientes hiperten- sos? ( ) até 20 min ( ) até 30 min ( ) acima de 30 min ( ) não recomendo duração fixa ( ) não recomendo atividade física Em geral, qual a intensidade de esforço aproximada que você indica a prática da atividade física para a maioria dos pacien- tes hipertensos: ( ) leve ( ) moderada ( ) forte ( ) não recomendo intensidade fixa ( ) não recomendo atividade física Resultados Em relação à primeira questão: “Em sua opinião, a ativi- dade física regular pode auxiliar no tratamento da hipertensão arterial?”, todos os médicos assinalaram a opção “concordo totalmente”. Na segunda questão: “Em sua opinião, a ativi- dade física regular pode auxiliar na prevenção da hipertensão arterial?”, 23 médicos (92%) assinalaram a opção “concordo totalmente” e os demais assinalaram a opção “concordo parcialmente”. Houve maior divergência de opiniões na terceira questão: “Você recomenda exercício de musculação ou outra atividade com pesos para pacientes hipertensos”. Nesse caso, a maior parte dos médicos (60%) assinalou a opção “na maioria dos casos, dependendo do paciente”, enquanto 28% assinalaram a opção “na minoria dos casos, dependendo do paciente”. Ainda houve médicos (8%) que alegaram nunca recomendar tal atividade, enquanto 4% sempre recomendariam. Em relação à quarta questão: “Você recomenda exercício aeróbio – caminhada, bicicleta, hidorginástica etc. – para pacientes hipertensos?”, 80% dos médicos sempre recomendam o exercício aeróbio para pacientes hipertensos, enquanto 16% assinalaram a opção “na maioria dos casos, dependendo do paciente” e 4% marcaram “na minoria dos casos, dependendo do paciente”. Na quinta questão: “Em geral, qual a duração aproximada que você indica a prática da atividade física para a maioria dos pacientes hipertensos?”, 21 médicos (84%) recomendam du- ração acima de 30 min, dois (8%) não recomendam duração fi xa e outros dois (8%) recomendam duração de até 30 min. Finalmente, na última questão: “Em geral, qual a inten- sidade de esforço aproximada que você indica a prática da atividade física para a maioria dos pacientes hipertensos?”, 22 médicos (88%) indicaram a intensidade moderada; um (4%) recomendou intensidade leve, um (4%) recomendou intensidade forte e um (4%) não recomenda intensidade fi xa. De acordo com as recomendações do ACSM [6], as respos- tas esperadas seriam: “concordo totalmente” para as questões 1 e 2; “na maioria dos casos, dependendo do paciente” para a questão 3; “sempre” para a questão 4; “acima de 30 min” para a questão 5; “moderada” para a questão 6. Nesse sentido, o teste do qui-quadrado não identifi cou diferenças signifi cativas entre as respostas dos médicos e as respostas esperadas. A cor- relação de Spearman não identifi cou médicos que atribuíssem as mesmas opções em diferentes respostas. Discussão De forma geral, os cardiologistas de Londrina (PR) orientam seus pacientes hipertensos de acordo com as atuais recomendações de exercício físico [6]. Independentemente de possíveis lacunas existem nos currículos das faculdades de medicina sobre o conteúdo de medicina do esporte (ou do exercício) [5], os eventos periódicos de atualização profi ssional tendem a contemplar temas relacionados com o exercício. Isso pode contribuir para que as recentes evidências científi cas em relação ao exercício e à doença sejam apresentadas e discutidas. Contudo, a análise minuciosa das respostas possibilita verifi car algumas discrepâncias. Por exemplo, na segunda questão, 92% concordaram totalmente que o exercício físico pode auxiliar na prevenção da hipertensão arterial. Os demais concordaram parcialmente. De fato, o ACSM [6] não afi rma que o exercício físico previna o aparecimento da hipertensão arterial. No entanto, existe a possibilidade de pessoas com melhor condicionamento físico possuírem menores valores de pressão arterial em repouso [7]. Nessa ótica, como a questão sugere uma possibilidade, alguns médicos parecem não estar totalmente atualizados em relação ao assunto exposto. Na terceira questão, sobre o treinamento com pesos ou musculação, o ACSM [6] não considera tal atividade como signifi cativamente efi ciente para auxiliar na redução da pressão arterial de repouso, mas pode ser indicada para compor a rotina de treinamento físico por aumentar os níveis de força e resistência muscular. No entanto, durante o exercício de musculação, a pressão arterial possui grande potencial de aumento e em curto tempo [8], o que limita a indicação desta modalidade de exercício a algumas pessoas [9]. Por outro lado, pessoas com maior força muscular possuem menor incremento da pressão arterial durante o exercício, o que pode resultar em considerável segurança cardiovascular nas atividades diárias que exigirem contração muscular com elevado componente estático [10]. Dessa forma, entende-se que a musculação é uma atividade que pode ser indicada aos hipertensos, dependendo do caso. No presente estudo, 36% dos médicos são resistentes a tal atividade física (somando os que não recomendam com os que recomendam na minoria dos casos) e 4% recomendam sempre. Assim, 40% da amostra não segue as recomendações adequadas, o que sugere necessi- dade de maior investimento sobre o conhecimento dos efeitos do exercício de musculação no hipertenso. Em contrapartida, quanto ao exercício aeróbio, 80% dos médicos afi rmaram recomendar sempre tal atividade física, 7Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 enquanto os demais recomendam com algum tipo de restri- ção. Segundo o ACSM [6], as evidências científi cas permitem concluir que o exercício aeróbio é o mais efi ciente para reduzir a presão arterial. Devido ao fácil controle de intensidade e duração, são raras as situações em que uma pessoa hipertensa seria clinicamente impedida de se exercitar aerobiamente. Apenas em casos de a doença estar sem controle ou existir problemas associados, como a doença cardíaca, poderia limitar o esforço físico [11]. As demais questões abordaram a duração e a intensidade do exercício. Sobre a duração do esforço, pode-se concluir que todos os médicos a recomendaram de forma adequada, não se afastando das sugestões do ACSM [6]. Ou seja, em torno de 30 min ou de acordo com as condições físicas do praticante. Já em relação à intensidade, a mais indicada seria a moderada [7]. Contudo, houve também a indicação de in- tensidade forte, o que pode representar esforço desnecessário. A redução da pressão arterial pelo exercício aeróbio é mais efi ciente em níveis de esforço moderado ou baixo; e durante o exercício com pesos, a intensidade forte pode representar aumentos exagerados na pressão arterial. Embora seja pos- sível uma pessoa hipertensa realizar um treinamento físico em nível de grande intensidade [12], ainda são necessárias maiores investigações. Conclusão Os resultados do presente estudo permitiram mostrar que os médicos da cidade de Londrina (PR) recomendam adequadamente exercícios para hipertensos. Não obstante, em alguns casos, houve respostas diferentes daquelas que seriam esperadas (mesmo que não signifi cativas). Como a análise estatística não acusou que o mesmo médico “errasse” em diferentes questões, signifi ca que alguns médicos são mais atualizados que outros em certos conceitos. Referências 1. Hamer M. Th e anti-hypertensive eff ects of exercise: integrating acute and chronic mechanisms. Sports Med 2006;36:109-16. 2. Church TS, Earnest CP, Skinner JS, Blair S. Eff ects of diff erent doses of physical activity on cardiorespiratory fi tness among sedentary, overweight or obese postmenopausal women with elevated blood pressure: a randomized controlled trial. JAMA 2007;297:2081-2091.3. Pescatello LS. Exercise and hypertension: recent advances in exercise prescription. Curr Hypertens Rep 2005;7:281-286. 4. V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. Arq Bras Car- diol 2007;89(3):24-79. 5. Nóbrega ACL, Araújo CGS. Medicina do exercício: o que é ensinado nos cursos de graduação médica brasileiros. Rev Bras Educ Médica 1988;12:69-72. 6. American College of Sports Medicine. American college of sports medicine position stand. Exercise and hypertension. Med Sci Sports Exerc 2004;36:533-53. 7. Whelton SP, Chin A, Xin X, He J. Eff ect of aerobic exercise on blood pressure: a meta-analysis of randomized, controlled trials. Ann Intern Med 2002;136:493-503. 8. MacDougall JD, Tuxen D, Sale DG, Moroz JR, Sutton JR. Arterial blood pressure response to heavy resistance exercise. J Appl Physiol 1985;58:785-90. 9. Haykowsky MJ, Eves ND, Warburton DER, Findlay MJ. Resistance exercise, the valsalva maneuver, and cerebrovascular transmural pressure. Med Sci Sports Exerc 2003;35:65-8. 10. Sale DG, Moroz DE, McKelvie RS, MacDougall JD, McCar- tney N. Eff ect of training on the blood pressure response to weight lifting. Can J Appl Physiol 1994;19:60-74. 11. Chobanian AV, Bakris GL, Black HR, Cushman WC, Green LA, Izzo Junior JL, et al. Th e seventh report of the joint na- tional committee on prevention, detection, evaluation, and treatment of high blood pressure: Th e JNC 7 Report. JAMA 2003;289:2560-71. 12. Tjønna AE, Lee SJ, Rognmo Ø, Stølen TO, Bye A, Haram PM, et al. Aerobic interval training versus continuous moderate exercise as a treatment for the metabolic syndrome: a pilot study. Circulation 2008;118:346-54. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 20118 Artigo original Efeitos do cinesioalongamento na propriocepção de joelho: ensaio clínico controlado The effects of multiple stretching stimuli (kinesio-stretching) in knee proprioception: controlled clinical trial Marina Bernardi, Ft.*, Alberito Rodrigo de Carvalho** *Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) – Campus Cascavel, **Docente do Curso de Fisioterapia da Universida- de Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Campus Cascavel, Especialista em Fisioterapia Traumato Ortopédica, Mestrando no programa de Ciências do Movimento Humano UFRGS Os dados deste trabalho foram apresentados no I Congresso Internacional de Fisioterapia da Faculdade de Ciências e Tecnologia – UNESP – Presidente Prudente/SP em agosto de 2010 e constam nos anais do evento. Resumo Objetivo: Avaliar o efeito do cinesioalongamento para membros inferiores em jovens sedentárias, com encurtamento de cadeia posterior, sobre a acurácia proprioceptiva do joelho representada pelo senso de posição articular (T2) e o limiar de percepção de movimentos passivos lentos (T1). Métodos: 17 mulheres divididas aleatoriamente em dois grupos: GC (n = 7/20,7 ± 1,7anos) e GCA (n = 10/21,2 ± 1,8anos). Mensurou-se a acurácia proprioceptiva pelos testes (T1) e (T2). Nos dois testes as participantes sinaliza- ram ao atingir o ângulo alvo, registrando-se os valores angulares realizados efetivamente. O “valor de erro”, que refl etiu a acuidade proprioceptiva, foi determinado pela diferença entre o ângulo alvo e aquele realizado. As medidas foram feitas antes (ΔINI) e após (ΔFIN) a intervenção. O grupo GCA foi submetido a oito padrões do cinesioalongamento. Resultados: Nas comparações intragrupos o GCA melhorou no T1 (ΔINI = 7,11/ΔFIN = 2,56/p < 0,05) e no T2 (ΔINI = 5,01/ΔFIN = 2,75/p < 0,05). Já o GC piorou no T2 (ΔINI = 3,34/ΔFIN = 4,38/p < 0,05) e não houve diferença no T1. Nas comparações intergrupos, não houve diferença, para ambos os testes, na acuidade proprioceptiva no ΔINI; já no ΔFIN o GCA apresentou valores de erro signifi cativamente menores (p < 0,05) que o GC (ΔFIN: T1/GC = 5,64 GCA = 2,56; T2/GC = 4,38 GCA = 2,75). Conclusão: O cinesioalongamento foi efi caz para aprimorar a acuidade proprioceptiva de joelho. Palavras-chave: propriocepção, artrometria articular, cinestesia, joelho, exercícios de alongamento muscular. Abstract Objective: To evaluate the eff ect of multiple stretching stimuli for lower limbs in young sedentary, with shortening of the posterior chain, on proprioceptive accuracy represented by the knee joint position sense (T2) and threshold of perception of passive move- ments slow (T1). Methods: 17 women were divided randomly into two groups: GC (n = 7/20.7±1.7 years) and GCA (n = 10/21.2 ± 1.8 years). Th e accuracy was measured by tests (T1) and (T2. In both trials participants signaled when it reaches the target angle, registering the angles be performed eff ectively. Th e “value error”, which refl ected the proprioceptive acuity was determined by the diff erence between the angle target and that done. Measurements were made before (ΔINI) and after (ΔFIN) intervention. Th e GCA group underwent eight standards multiple stretching stimuli. Results: Th e intra-group comparisons at T1 improved the GCA (ΔINI = 7.11/ΔFIN = 2.56/p < 0.05) and T2 (ΔINI = 5.01/ ΔFIN = 2.75/p < 0.05). But the GC has worsened in T2 (ΔINI = 3.34/ΔFIN = 4.38/p < 0.05) and no diff erence in T1. Comparisons between groups showed no diff erence, for both tests, the proprioceptive acuity in ΔINI, already presented in the GCA ΔFIN error values signifi cantly lower (p < 0.05) than the GC (ΔFIN: T1/GC = 5.64 GCA = 2.56; T2/GC=4.38 GCA=2.75). Conclusion: Th e multiple stretching stimuli were eff ective to improve proprioceptive acuity in knee. Key-words: proprioception, articular arthrometry, kinesthesis, knee, muscle stretching exercises. Recebido em 12 de janeiro de 2011; aceito em 9 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Prof. Alberito Rodrigo de Carvalho, Clínica Escola de Fisioterapia da UNIOESTE, Rua Universitária, 1619, Jardim Universitário, 85819-110 Cascavel PR, Tel: (45) 3220-3000, E-mail: rct_ina@yahoo.com.br, alberitorodrigo@gmail.com 9Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Introdução A maioria dos portadores de distúrbios musculoesquelé- ticos podem se benefi ciar dos recursos fi sioterapêuticos, pois entre os principais objetivos da fi sioterapia encontram-se a restauração e/ou manutenção da capacidade funcional através de várias técnicas, dentre elas, os exercícios terapêu- ticos. Muito embora vários desses recursos já tenham sido investigados quanto a sua efi cácia [1,2], outras técnicas vêm ganhando mercado sem que haja, ainda, evidências científi cas a seu favor. Profissionais do Centro Brasileiro de Fisioterapia (CEBRAF) preconizam a utilização de uma modalidade terapêutica alternativa para ganho de fl exibilidade denomi- nada cinesioalongamento [3]. Trata-se de um conjunto de movimentos de fl exibilidade que combina três momentos de alongamento: alongamento estático ativo, passivo e facilita- ção neuromuscular proprioceptiva (FNP), respectivamente, sendo que este último momento é, por si só, um método de fl exibilização que combina alongamento estático, contração e relaxamento isométricos, seguidos de outro alongamento estático [4]. Desta forma o cinesioalongamento tem o ob- jetivo de desenvolver a valência física da fl exibilidade por meio de mecanismos neurológicos e biomecânicos pautados na melhora do recrutamento neuromotor, que pode ser jus- tifi cado pela potencialização das aferências proprioceptivas, alcançada com os movimentos realizados dentro de padrões funcionais [3]. A argumentação para o uso clínico do cinesioalongamento se apoia em conceitos, previamente estabelecidos por outros estudos, relacionados à infl uência da força muscular e da fl e- xibilidade sobre a propriocepção e o equilíbrio. Isto porque os mecanorreceptores, fusos musculares e órgãos tendinosos de golgi(OTGs) convertem as cargas impostas aos tecidos em impulsos aferentes, os quais são integrados na programação motora, após terem sido processados pelo sistema nervoso central (SNC), que controla o tônus e a ativação/desativação da dinâmica agonista/antagonista do controle neuromuscular [5-7]. Durante estímulos funcionais, há uma adaptação dos refl exos proprioceptivos com consequente alteração do estado mecânico dos músculos e tecidos adjacentes [8]. Entretanto, em virtude da recente comercialização do método, visto que ainda poucos profi ssionais são habilitados a empregá-la, há uma carência de trabalhos científi cos que sustentem sua aplicação. Portanto este estudo testa a hipótese que há melhora da acuidade proprioceptiva do joelho em sujeitos submetidos à intervenção baseada no cinesioalonga- mento para membros inferiores. Esta investigação teve por objetivo avaliar o efeito do cinesioalongamento para membros inferiores em jovens sedentárias, com encurtamento de cadeia posterior, sobre a acurácia proprioceptiva do joelho representada pelo senso de posição articular e o limiar de percepção de movimentos passivos lentos. Materiais e métodos Caracterização do estudo e ética da pesquisa Este estudo, cujo delineamento classifi cou-se como um ensaio clínico controlado, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) sob o registro CAAE 0269.0.276.000-08. Caracterização da amostra e divisão dos grupos A amostra foi composta de forma intencional e não probabilística. Inicialmente, após convite aberto, 20 mu- lheres, sedentárias, acadêmicas do curso de Fisioterapia da UNIOESTE-Cascavel/PR, com idade entre 18 e 35 anos, demonstraram interesse em se voluntariar para a pesquisa. Os objetivos e procedimentos metodológicos foram expli- cados logo no primeiro contato, e as participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido em duas vias. Em seguida foram submetidas a uma avaliação clínica de triagem para verifi cação de possíveis fatores de não inclusão e confi rmação da elegibilidade. Como critério de inclusão a voluntária deveria apresentar retração da cadeia posterior e ser sedentária. Os critérios de não inclusão adotados foram: indivíduos diabéticos, hipertensos descompensados, com história de cardiopatia ou pneumopatias diagnosticadas; indivíduos com história de lesões osteomusculares dos membros inferiores nos últimos quatro meses; portadores de disfunções tempo- romandibulares; portadores de disfunções vestibulares; uso de drogas que afetam o sistema nervoso central ou o equilíbrio tais como os sedativos ou ansiolíticos; etilistas crônicos ou uso de álcool nas 24 horas que antecederam os testes; indivíduos com comprometimento importante da acuidade visual (ca- racterizado pela necessidade de ajuda de outras pessoas ou de dispositivos de auxílio para a realização das atividades diárias em condições de privação do uso de óculos ou lentes). Foram excluídas aquelas que faltaram em mais de 40% da interven- ção, e que não participaram de qualquer uma das avaliações. Para aquelas aptas a participar do estudo, avaliou-se a retração muscular da cadeia posterior, cujo objetivo foi ape- nas de confi rmar ou refugar o encurtamento muscular para inclusão na pesquisa. Descalças, as voluntárias permaneceram em posição ortostática com os pés levemente separados (cerca de 10 cm) e os joelhos estendidos; na sequência inclinaram a cabeça lentamente para baixo, seguida do tronco; e, pos- teriormente, levaram as mãos em direção ao chão, como se quisessem tocá-lo, porém, sem forçar. Ao menor sinal de dor ou tensão incômoda o movimento foi cessado. A cadeia poste- rior foi considerada encurtada se, no momento de interrupção do teste, o avaliador observasse ao menos dois dos seguintes itens: a) ângulo tíbio-társico maior que 90º (mensurado por goniômetro); b) hiperextensão de joelho evidente; c) ângulo Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201110 coxofemoral maior que 90º (medido por goniômetro); d) retifi cações vertebrais, reconhecidas como regiões de aplana- mento da coluna vertebral; e) posição cervical retraída (cabeça fi xa em póstero-fl exão). Das 20 voluntárias que demonstraram interesse todas foram incluídas, fi zeram as avaliações iniciais (ΔINI), e foram distribuídas de maneira aleatória, por sorteio, em dois grupos com 10 voluntárias cada. Porém, durante a intervenção houve exclusão de três participantes. Assim, as composições fi nais dos grupos amostrais foram: grupo controle (GC / n = 7; 20,7 ± 1,7 anos) que não recebeu nenhum tipo de intervenção; e grupo experimental que foi submetido ao cinesioalongamento (GCA / n = 10; 21,2 ± 1,8 anos). Procedimentos de avaliação A mensuração proprioceptiva foi dada pela avaliação do senso de posição articular e do limiar de percepção de movimentos passivos lentos. Nos dois testes, os valores ob- tidos foram registrados em graus e avaliados sempre por um único examinador, previamente treinado para tal, conforme metodologia descrita nos trabalhos de Carvalho et al. [9], em 2007, e Carvalho et al. [10]. Para a mensuração dos valores angulares, utilizou-se um goniômetro cujo eixo permaneceu paralelo ao eixo articular do joelho com os dois braços do goniômetro fi xados por talas de madeira presas a duas faixas de tecido de algodão inelás- tico e antialérgico com velcros nas duas extremidades para a adaptação às distintas circunferências do membro inferior de cada avaliada. Uma extremidade foi fi xada na parte distal da coxa e a outra na parte proximal da perna. Denominou-se este dispositivo de goniômetro fi xo (GF). O membro inferior escolhido para os testes foi o domi- nante. As voluntárias se sentaram confortavelmente sobre uma maca com altura de 1,20 cm, com as pernas balançando livremente e o GF ajustado à articulação na sua face lateral. O centro deste se posicionou paralelamente ao eixo articular do joelho, localizado sobre a linha articular do joelho. Os olhos das voluntárias foram vendados para remover as informações visuais. Para ambos os testes realizaram-se testes piloto, sem valor para registro, de forma que o indivíduo se familiarizasse com o procedimento e erros relacionados à aprendizagem fossem evitados. Para a mensuração do limiar de percepção de movimentos passivos lentos (T1) foram estabelecidos dois ângulos, de forma aleatória e por sorteio em um universo de seis ângulos entre 10 a 60° graus com intervalos fi xos de 10º entre eles, sendo um ângulo para extensão e o outro para fl exão de joelho. Em sequência, partindo de uma angulação de 90° de fl exão, a perna da voluntária foi movida passivamente em movimento de extensão até chegar à angulação pré-determinada pelo sorteio e, nesta, o membro foi mantido durante dez segundos e depois levado para a posição neutra. Após cinco segundos, a perna foi movida novamente, e por três vezes consecutivas com intervalos de cinco segundos entre elas, de forma pas- siva e lenta em direção ao mesmo ângulo, e a voluntária foi previamente instruída a comunicar ao examinador para que parasse o movimento quando sentisse que sua perna atingiu a posição alvo desejada. A posição alcançada foi observada no aparelho e registrada pelo examinador. Posteriormente, o teste foi repetido para o ângulo estabelecido na fl exão do joelho. Figura 1 - Goniômetro fi xo (GF) utilizado para a mensuração tanto do senso de posição articular quanto do limiar de percepção dos movimentos passivos lentos. Para realizar o teste de senso de posição articular (T2), o posicionamento anterior foi mantido e os olhos da voluntária permaneceram vendados. Porém, neste teste, três ângulos foram sorteados de forma idêntica ao do T1 e estes foramdistribuídos, também por sorteio, entre os movimentos de fl exão, um ângulo, e extensão, dois ângulos, da articulação do joelho. Em seqüência, uma dessas posições angulares foi repro- duzida em movimento passivo. Ao se alcançar o ângulo pré- determinado pelo sorteio, o membro foi mantido por dez segundos e posteriormente devolvido à posição neutra. Após cinco segundos a voluntária foi instruída a realizar ativamente o movimento e pará-lo ao atingir a posição alvo desejada por três vezes consecutivas com intervalos de cinco segundos entre cada repetição. O ângulo alcançado foi observado no aparelho e registrado pelo examinador. O teste foi realizado também para os dois outros ângulos pré-estabelecidos. Durante os testes, as examinadas receberam estímulos verbais para se concentrarem na posição da articulação do joelho e, assim, evitar que o tempo gasto no movimento servisse de estratégia para o reposicionamento. O avaliador manteve, subjetivamente, velocidade média de dois segundos para cada dez graus. Para os dois testes, foi realizada uma avaliação fi nal (ΔFIN) após o término da intervenção, ou o tempo correspondente a este no grupo controle. 11Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Procedimentos de intervenção Previamente ao início da intervenção, as voluntárias aloca- das no grupo intervenção foram reunidas e todos os detalhes da intervenção foram explicados. Neste mesmo encontro foi realizada uma sessão piloto com a demonstração prática das técnicas, para facilitar o aprendizado, que não foi contabili- zada como efetiva. A intervenção durou cerca de 40 minutos e foi realizada na Clínica de Fisioterapia da UNIOESTE. Seis acadêmicas voluntárias do curso de Fisioterapia, com formação no método e previamente treinadas, aplicaram as intervenções, que foram realizadas com frequência de duas vezes por semana, por cinco semanas, totalizando dez sessões. O grupo GCA participou da intervenção com oito padrões do cinesioalongamento [3] conforme ilustração na fi gura 2. Após a verifi cação da frequência cardíaca de repouso, com o frequencímetro da marca Polar®, fez-se um aquecimento na esteira de cinco minutos e em seguida realizou-se os padrões de cinesioalongamento. Tratamento estatístico Para os dois testes proprioceptivos, as diferenças, em va- lores absolutos, entre o ângulo sorteado e o ângulo realizado pela examinada foram defi nidas como valor de erro. Quanto mais próximo de zero fosse essa medida, melhor a acuidade proprioceptiva. Para o tratamento estatístico foi utilizado o software Gra- phPad Prism 3.0. Para o teste de normalidade foi utilizado o Kolmogorov-Smirnov. Além da estatística descritiva na forma de média, as comparações foram feitas por testes não paramétricos de Wilcoxon, nas comparações intragrupos, e Mann Whitney, nas comparações intergrupos, já que os dados não respeitaram distribuição normal. A signifi cância estatística adotada foi = 0,05. Figura 2 - Ilustração e descrição dos padrões de cinesioalongamento utilizados. Dissociação do quadril: movimento passivo, em que se alternou o padrão de tríplice flexão (flexão do tornozelo junto coma flexão do joelho e flexão do quadril) por tríplice extensão (extensão do torno- zelo junto com extensão do joelho e extensão do quadril) no plano sagital, associado a movimentos circulares do quadril, por 8 vezes. Cinesioalongamento ísquiotibial: movimento ativo-assistido, com estabilização do membro inferior no máximo de amplitude possível de extensão de joelho, do posicionamento do quadril (que variou com o exercício) e dorsiflexão. A cada exercício foi dado o coman- do contrai/relaxa (CR) no qual a voluntária fez uma força contra a resistência do terapeuta durante 8 segundos, relaxando em seguida e, nesse momento, buscou-se uma nova amplitude articular. A) inter- médio: quadril em flexão e o membro estimulado a 90° em relação à linha do solo. Solicitou-se o comando CR. B) lateral: quadril em adu- ção, com o membro estimulado a 45° em relação à linha do solo. Solicitou-se o comando CR. C) medial: quadril em abdução, com o membro estimulado a 45° em relação à linha do solo. Solicitou-se o comando CR. Cada exercício foi feito 3 vezes, com 8 segundos de intervalo entre os exercícios. Cinesioalongamento lombar: movimento ativo-assistido, em que a participante sentou em tríplice flexão, apoiando as zonas reflexas dos antepés no terapeuta. Solicitou-se uma inspiração nasal profunda e, durante a expiração, o deslocamento do corpo para frente. Ao che- gar ao seu limite, a voluntária permaneceu nesta postura sustentada pela estabilização do terapeuta. Na segunda repetição a participante expirou deslocando seu corpo para frente e foi tracionada pelo tera- peuta. Já na terceira a participante foi tracionada por 8 segundos, e, em seguida, ela tracionou o terapeuta que ofereceu resistência por 4 segundos, A seguir a participante relaxou e o terapeuta buscou uma nova amplitude sustentando por mais 4 segundos. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201112 Cinesioalongamento isquiotibial dominante: movimento ativo- assistido. A participante sentou com extensão do membro inferior a ser alongado e o membro contralateral fletido. Solicitou-se que ela apoiasse a mão do mesmo lado do membro em extensão sobre o joelho estendido, e com o membro superior contralateral alcançasse o terapeuta. Foi realizada inspiração nasal profunda e, durante a expiração, o deslocamento do corpo para frente. Ao chegar ao seu limite, a voluntária permaneceu nesta postura sustentada pela esta- bilização do terapeuta. Na segunda repetição a participante expirou deslocando seu corpo para frente e foi tracionada pelo terapeuta. Já na terceira a participante foi tracionada por 8 segundos, e, em seguida, ela tracionou o terapeuta que ofereceu resistência por 4 segundos. A seguir a participante relaxou e o terapeuta buscou uma nova amplitude sustentando por mais 4 segundos. Cinesioalongamento ísquiotibial unidos: movimento ativo-assisti- do. Segue a mesma postura do cinesioalongamento lombar, com a única diferença para a extensão funcional dos membros inferiores. Discussão A melhora da acuidade proprioceptiva observada no teste ativo (T2) é mais facilmente explicada do que a melhora no teste de movimento passivo (T1), já que, no T2, além das aferências provenientes dos mecanoceptores articulares, há uma importante participação das aferências provenientes dos receptores musculares. Embora, no presente estudo, a força muscular não tenha sido mensurada, há relatos na literatura que o encurtamento muscular induz a certo grau de fraqueza muscular, com con- sequente instabilidade postural; pois, embora os sujeitos com encurtamento possam detectar seu desequilíbrio, muitas vezes não são capazes de gerar torques de estabilização adequados para corrigi-lo. Assim, para compensar a fraqueza, o estado contrátil dos músculos altera-se para manter o equilíbrio e isso pode afetar a acuidade proprioceptiva [11,12]. Desta forma, sugere-se que o cinesioalongamento foi capaz de reverter o encurtamento muscular e, tal efeito aprimorou a capacidade proprioceptiva. A melhora da propriocepção no GCA pode ter sido secundária às mudanças ocorridas no comprimento do mús- culo, capazes de estimular os mecanoceptores articulares e promover dessensibilização dos órgãos tendinosos de Golgi (OTG). Ao dessensibilizar o OTG, aumenta-se a sensibilidade ao estiramento do músculo, o que aumenta as contribuições aferentes para o sistema nervoso central no que diz respeito ao senso de posição articular [13-15]. Resultados As comparações intergrupos, dos dados obtidos nas ava- liações iniciais (ΔINI), tanto para o T1 quanto para o T2, indicam que os doisgrupos tinham o mesmo nível de acu- rácia proprioceptiva. Já após a intervenção, na avaliação fi nal (ΔFIN), apenas o GCA teve seus níveis de acurácia propriocep- tiva aprimorados (menores valores de erro). Nas comparações intragrupos, observou-se que o GCA foi mais assertivo em reproduzir os ângulos alvos, evidenciado por valores de erro signifi cativamente menores na ΔFIN, tanto no T1 quanto no T2. O mesmo não aconteceu com o GC, sendo que a única diferença estatística encontrada indicou uma piora da acuidade proprioceptiva (valores de erro maiores) na ΔFIN para o T2. A estatística descritiva e inferencial pode ser visualizada na Tabela I. Tabela I - Estatística descritiva e inferencial das comparações in- tergrupos e intragrupos para os dois testes que mensuram a acurácia proprioceptiva nos dois momentos de avaliação. TESTE GC ∆INI GC ∆FIN GCA ∆INI GCA ∆FIN T1 5.14 5.64 7.11 2.56 ╫ * / ▲* T2 3.34 4.38╫ * 5.01 2.75╫ * / ▲* Teste de movimentos passivos lentos (T1); teste de senso posição articular (T2); grupo controle (GC); grupo cinesioalongamento (GCA); avaliação inicial (∆INI); avaliação final (∆FIN); diferença em relação à ∆INI (╫); diferença em relação ao GC no mesmo momento de avalia- ção (▲); nível de significância encontrado: p < 0,05 (*). 13Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Ainda, a estimulação dos mecanoceptores das estruturas articulares aumenta a atividade motora local e isso torna os fusos dos músculos, relacionados às articulações envolvidas no movimento, mais sensíveis. Esse aumento da sensibilidade fusal gera um estado de prontidão muscular capaz de reagir mais rapidamente em situações de perturbação articular [16]. As adequações protetoras nas forças regulatórias que agem nas articulações modifi cam a rigidez muscular que é determinada por um complexo sistema de controle neural por feedback. Há uma hierarquia nas estratégias de controle neuromuscular que se iniciam com a ativação das fi bras musculares e evoluem até que mudanças nas propriedades mecânicas de todo o músculo sejam alcançadas. Alguns aspectos da fi siologia e biomecânica muscular relacionados com a regulação da rigidez muscular são: frequência de ativação (somação temporal); recrutamento das fi bras (somação espacial); relação tensão-comprimento do sarcômero; relação força-velocidade do sarcômero; relação tensão-comprimento do sarcômero mantido por estruturas passivas; mecanismos de feedback das fi bras intra e extra fusais; regulação da força muscular e do torque determinado pela arquitetura muscular [17]. Os mecanoceptores periféricos enviam informações con- tínuas para ajuste dinâmico da co-contração dos músculos envolvidos no movimento. As informações partem dos recep- tores e se dirigem para a medula onde farão sinapses com os motoneurônios gama. Estes motoneurônios infl uenciam as fi bras intrafusais que, por sua vez, enviam aferências para os motoneurônios alfa, direcionados para as fi bras extrafusais, sobre o estado de tensão do músculo e a rigidez muscular é, por fi m, adequada ao movimento [18]. Assim, acredita-se que a melhora na acuidade proprio- ceptiva observadas no presente estudo possa, também, ser secundária a melhora do recrutamento motor, já que o sistema nervoso central dispõe de uma quantidade maior de aferências por parte dos mecanoceptores articulares e receptores mus- culares, que foram aprimorados pelo cinesioalongamento, e isso possibilitou um controle neuromuscular mais adequado. Os argumentos acima descritos podem justifi car a me- lhora no T2, porém não no T1, já que esse, por ser passivo, não deveria ter contribuição dos receptores musculares. Al- guns estudos questionam a validade dos testes passivos para avaliação da propriocepção e colocam que os testes ativos trazem uma informação clínica mais relevante justamente pela contribuição das informações musculares [13,19]. Con- trapondo, estudos mostram que na presença de lesões liga- mentares observa-se défi cit proprioceptivo pela diminuição das informações provenientes dessas estruturas, especialmente as lesões no ligamento cruzado anterior (LCA), já que este é responsável pela maior parte da restrição passiva que con- tribuiu para estabilidade articular funcional porque fornece feedback sensorial consequentes as mudanças na tensão do ligamento [20]. Porém nem todos os estudos revelam esses défi cits nas lesões de LCA e apontam que os proprioceptores ligamentares não são os principais responsáveis pela acuidade proprioceptiva e sim os receptores musculares, pois frente à lesão há uma adaptação negativa na massa muscular que é mais importante para o défi cit propriceptivo do que a diminuição das informações por parte dos ligamentos [18]. Muito embora os sujeitos que compuseram a amostra do presente estudo não apresentassem lesões ligamentares, o reconhecimento de que as estruturas passivas, de fato, determinam a acuidade proprioceptiva, poderia conduzir a discussão para uma possível infl uência do cinesioalongamento sobre estas estruturas. Assim, este estudo não consegue explicar a melhora no T1 pelo prisma da infl uência do cinesioalongamento diretamente sobre os mecanoceptores articulares. Contudo, hipotetiza-se que, mesmo no T1, possa ter havido infl uência da contração muscular. Como não houve um controle da atividade elétrica muscular durante os testes, que pode ser feita por eletromio- grafi a de superfície, não se pode garantir que durante os pro- cedimentos do teste passivo os sujeitos tenham mantido uma atividade muscular silenciosa e, por consequência, não se pode afi rmar ausência total das informações musculares durante o referido teste. Sendo esta a limitação do presente estudo, sugere- se que em estudos futuros, que envolvam testes passivos para avaliar a acuidade proprioceptiva, seja controlada a atividade muscular para se quantifi car a participação desta nestes testes. Conclusão Conclui-se que as técnicas de cinesioalongamento foram efi cazes para aprimorar o senso de posição articular e o limiar de percepção de movimentos passivos lentos do joelho na amostra estudada. Contudo, o efeito da técnica de cinesioa- longamento sobre o teste ativo parece ser mais reconhecido do que no teste passivo pela maior contribuição dos receptores musculares. Referências 1. Moseley AM, Herbert RD, Sherrington C, Maher CG. Evidence for physiotherapy practice: a survey of the physiotherapy evi- dence database (PEDro). Aust J Physiother 2002;48(1):43-9. 2. Fransen M. When is physiotherapy appropriate? Best Pract Res Clin Rheumatol 2004;18(4):477-89. 3. Musculação Terapêutica, STS – Strength Training Strategies. [CD ROM], Lucas RWC. 1ª ed. Curitiba: Digital; 2003. 4. Woods K, Bishop P, Jones E. Warm-up and stretching in the pre- vention of muscular injury. Sports Med 2007;37(12):1089-99. 5. Behm DG, Anderson KG. Th e role of instability with resistance training. J Strength Cond Res 2006;20(3):716-22. 6. Martimbianco ALC, Polachini LO, Chamlian TR, Masiero D. Efeitos da propriocepção no processo de reabilitação das fraturas de quadril. Acta Ortop Bras 2008;16(2):112-6. 7. Ribeiro F, Oliveira J. Efeito da fadiga muscular local na proprio- cepção de joelho. Fisioter Mov 2008;21(2):71-83. 8. Bagrichevsky M. Os efeitos dos exercícios de alongamento me- diados pela propriocepção: discussão conceitual sobre processos adaptativos. Revista Unicastelo 2001;4(6):54-61. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201114 9. Carvalho AR, Piccinin MIW, Bley AS, Faria APG, Iglesias Soler E, Dantas EHM. Evaluación de un protocolo de prevención sobre propriocepción de futbolistas. RED – Rev Entrenam Deport 2007;21(3):5-9. 10. Carvalho AR, Rahn ME, Diedrichs M, Lopes AC, GregolF, Grochoski R, et al. Concordância inter-observador em testes de avaliação proprioceptiva do joelho por goniometria. Fisioter Pesq 2010;17(1):7-12. 11. Butler AA, Lord SR, Rogers MW, Fitzpatrick RC. Muscle we- akness impairs the proprioceptive control of human standing. Brain Res 2008;1242:244-51. 12. Lee HM, Cheng CK, Liau JJ. Correlation between propriocep- tion, muscle strength, knee laxity, and dynamic standing balance in patients with chronic anterior cruciate ligament defi ciency. Knee 2009;16(5):387-91. 13. Stillman BC. Making sense of proprioception: Th e meaning of proprioception, kinaesthesia and related terms. Physiotherapy 2002;88(11):667-76. 14. Hurley MV. Th e eff ects of joint damage on muscle function, proprioception and rehabilitation. Man Th er 1997;2(1):11-17. 15. Swanik KA, Lephart SM, Swanik CB, Lephart SP, Stone DA, Fu FH. Th e eff ects of shoulder plyometric training on pro- prioception and selected muscle performance characteristics. J Shoulder Elbow Surg 2002;11(6):579-86. 16. Fitzgerald GK, Axe MJ, Snyder-Mackler L. Th e effi cacy of perturbation training in nonoperative anterior cruciate ligament rehabilitation programs for physically active individuals. Phys Th er 2000;80(2):128-140. 17. Torry MR, Schenker ML, Martin HD, Hogoboom D, Phili- ppon MJ. Neuromuscular hip biomechanics and pathology in the athlete. Clin Sports Med 2006;25(2):179-97. 18. Aquino CF, Viana SO, Fonseca ST, Bricio RS, Vaz DV. Meca- nismos neuromusculares de controle da estabilidade articular. Rev Bras Ciênc Mov 2004;12(2):35-42. 19. Abboud RJ, Agarwal SK, Rendall GC, Rowley DI. A direct method for quantitative measurement of ankle proprioception. Foot 1999;9:27-30. 20. Shultz SJ, Carcia CR, Perrin DH. Knee joint laxity aff ects muscle activation patterns in the healthy knee. J Electromyogr Kinesiol 2004;14:475-83. 15Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Artigo original Consumo de cálcio por mulheres praticantes de atividade física de um parque do município de São Paulo Calcium intake of women practitioners of physical activity in São Paulo Alessandra Hellbrugge*, Andrea Vargas G. Soares*, Caroline Raele*, Cássia R. Rolim Cauchioli*, Edinéia Menezes*, Giovanna Mauro* , Marcia Nacif, D.Sc.** *Alunas do Curso de Nutrição do Centro Universitário São Camilo – São Paulo, **Nutricionista, Professora do Centro Universitário São Camilo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie Resumo Introdução: A ingestão adequada de cálcio tem sido apontada como um importante fator de proteção para o desenvolvimento da osteoporose em mulheres. Destaca-se a necessidade de um adequado consumo de alimentos fonte de cálcio para garantir a saúde óssea dos indivíduos. Metodologia: Trata-se de um estudo transversal, realizado com 20 mulheres com idade média de 61,3 ± 10,6 anos, participantes de um projeto de promoção da qualidade de vida através da atividade física de um parque do município de São Paulo. Foram coletadas informações sobre peso, estatura e circunferência abdominal. O consumo de cálcio foi avaliado por meio da aplica- ção de um Recordatório Alimentar Habitual. Resultados: Pôde-se observar que 50% (n = 10) das mulheres eram eutrófi cas, porém, apresentaram risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Observou-se consumo inadequado de cálcio (719,50 mg), devido a baixa ingestão de alimentos fontes deste mineral. Conclusão: A maioria das participantes apresentou ingestão inadequada de cálcio. Tais dados sugerem a necessidade de orientação nutricional voltada à melhoria dos hábitos alimentares desta população. Palavras-chave: atividade física, cálcio, consumo alimentar, osteoporose. Abstract Introduction: Th e appropriate intake of calcium has been poin- ted as an important protection factor against the development of osteoporosis in women, once the consumption from vital sources of calcium could guarantee the individuals’ bony health. Methods: Th is was a transversal study with 20 women 61.3 ± 10.6 years old, participants of a project in which life quality is encouraged through physical activities at a park in São Paulo city. Weight, stature and waist circumference were evaluated. Th e consumption of calcium was evaluated through the application of a Habitual Food Recall. Results: It could be observed that 50% (n = 10) of the women were eutrophic, however, some of them were likely to develop cardiovas- cular diseases due to inadequate and low consumption of calcium as a vital source (719.50 mg). Conclusion: Most of the participants presented an inadequate ingestion of calcium. Th ese data suggests the need of nutritional orientation for the improvement of eating habits by the population. Key-words: physical activity, calcium, food consumption, osteoporosis. Recebido 21 de dezembro de 2010; aceito em 15 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Cássia R. Rolim Cauchioli, Rua Aimberê, 156, Perdizes 05018-010 São Paulo SP, E-mail: cassia. nutriodonto@gmail.com Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201116 Introdução A Organização Mundial de Saúde (OMS) defi ne a popu- lação idosa como o grupo etário de 60 anos ou mais de idade para os países em desenvolvimento e para os países desenvolvi- dos, aqueles acima de 65 anos de idade. No Brasil, segundo o Estatuto do Idoso são considerados idosos os indivíduos com faixa etária igual ou superior a 60 anos, de ambos os sexos, sem distinção de cor, raça e ideologia [1]. O Brasil passa por um envelhecimento rápido e intenso, estima-se que houve um crescimento de mais de 7,3 milhões de 1780 a 2000, totalizando mais de 14,5 milhões de idosos em 2000 e que em 2020 este número será maior que 26 milhões, 12,9% da população total, com isso o Brasil será o sexto país em número de idosos [2]. Paralelamente ao processo de envelhecimento, trans- formações signifi cativas têm ocorrido nos últimos séculos nos padrões dietéticos e nutricionais de populações, e essas mudanças vêm sendo analisadas como parte de um processo designado de transição nutricional. No Brasil, a desnutrição vem diminuindo, e a obesidade e problemas a ela relaciona- dos vêm aumentando. Isso ocorre por causa de mudanças nos padrões nutricionais da população, caracterizados por uma dieta rica em gorduras e açúcar refi nado e reduzida em carboidratos complexos e fi bras [3]. Dentre as várias defi ciências alimentares encontradas destaca-se a defi ciência de cálcio que, em longo prazo, pode contribuir para o desenvolvimento da osteoporose, ou para o seu agravamento, quando já instalada [4,5]. Aproximadamente 99% total do cálcio encontram-se nos ossos e dentes. O 1% restante do cálcio está presente no sangue, fl uído extracelular, músculos e outros tecidos, onde participa de diversos processos metabólicos como: coagulação sanguínea (participa da formação de fi brina) age como um estabilizador de membranas celulares excitáveis como múscu- los e nervos, e em inúmeras células participa como o segundo mensageiro ao mediar efeito de sinalização de membranas para a liberação de substâncias e hormônios [6]. A osteoporose é a doença osteometabólica [7] caracteri- zada pela diminuição da densidade mineral óssea (DMO), com deterioração da microarquitetura óssea, levando a um aumento da fragilidade esquelética e do risco de fraturas e é mais frequente no paciente idoso [8]. Acomete a ambos os sexos, sendo mais frequente na mulher, já que, no climatério, a diminuição dos níveis estrogênicos precipita as perdas de massa óssea. Aos 50 anos, a cada cinco fraturas por osteoporose na mulher ocorrem duas no homem. Aos 70 anos, essa relação cai para três fraturas na mulher a cada duas no homem [4,7]. De acordo com o Consenso Brasileirode Osteoporose (CBO) [8], a prevalência de osteoporose e incidência de fraturas varia de acordo com o sexo e a raça. As mulheres brancas na pós- menopausa apresentam maior incidência de fraturas. A partir dos 50 anos, 30% das mulheres e 13% dos homens poderão sofrer algum tipo de fratura por osteoporose ao longo da vida. A ingestão adequada de nutrientes tem sido apontada como indicador importante do estado de saúde dos indivídu- os, assim como um fator de proteção no desenvolvimento de doenças. Destaca-se consequentemente a importância de um adequado consumo de alimentos fonte de cálcio ao longo da vida para garantir a saúde óssea em idosos [4,9]. O desenvolvimento do presente trabalho visou, portanto, verifi car o consumo de cálcio por mulheres praticantes de atividade física de um parque do município de São Paulo. Material e métodos Trata-se de um estudo transversal e descritivo que contou com a participação de 20 mulheres, com faixa etária entre 39 a 75 anos, integrantes de um projeto de promoção da qualidade de vida através da atividade física de um parque do município de São Paulo, realizado no período de outubro a novembro de 2010. Todas as participantes, no ato da primeira orientação nutricional, assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido e este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário São Camilo (COEP-047/05). As medidas antropométricas coletadas foram peso, estatura (referida) e circunferência abdominal (CA). O peso foi aferido por meio do uso de uma balança ele- trônica digital portátil de marca Ultralife®, com precisão de 100 g e capacidade de 150 Kg, com o indivíduo sem sapatos e usando roupas leves. A circunferência abdominal foi mensurada em centíme- tros, com a pessoa em pé, ereta, abdômen relaxado, braços estendidos ao longo do corpo e os pés separados numa dis- tância de 25-30 cm. A roupa foi afastada para que o abdômen fi casse exposto. Após uma expiração normal, posicionou-se uma fi ta métrica inelástica posicionada no plano horizontal ao nível da cicatriz umbilical. O critério de classifi cação para avaliar o risco de doenças car- diovasculares (DC) foi o proposto pela WHO (World Health Organization) (2000) [10]. Segundo esta classifi cação, homens com circunferência abdominal acima ou igual a 94 cm apre- sentam risco alto de desenvolverem DC e com valores aferidos acima ou igual a 102 cm o risco é muito alto. Para as mulheres valores aferidos acima ou igual a 80 cm são classifi cadas como risco alto, e acima ou igual a 88 cm o risco é muito alto. A partir dos valores de peso e estatura foi calculado o IMC, que seguiu o critério de classifi cação da WHO (1995) [11] para adultos e SABE/OPAS (2002) [12] para idosos. As mulheres responderam, durante orientação nutricio- nal, a uma anamnese que continha questões sobre aspectos gerais, como grau de escolaridade, uso de medicamentos e ocorrência de doenças. O instrumento de pesquisa utilizado para avaliação do consumo alimentar e ingestão de cálcio foi um Recordató- rio Alimentar Habitual. A aplicação do respectivo método consiste em obter informações escritas ou verbais sobre a ingestão habitual do indivíduo, com dados sobre os alimen- 17Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 tos atualmente consumidos e informações sobre quantidade das porções. Após a coleta de dados, os valores de Energia total (Kcal), carboidratos, lipídeos, proteínas e cálcio foram calculados e analisados com o auxílio do programa Avanu- tri 4.0 (Sistema de avaliação e prescrição nutricional). Os macronutrientes foram apresentados em porcentagem (%) em relação ao Valor Energético Total (VET), e o cálcio foi apresentado em mg/dia. Os resultados de macronutrientes foram comparados com as recomendações da WHO [13] que preconiza valores de carboidratos entre 55 e 75% do VET, 15 a 30% de lipídios e 10 a 15% de proteínas. A ingestão de cálcio foi comparada a AI Ingestão Adequada (AI) sugerida pela Dietary Reference Intakes (DRI) [14] que preconiza a ingestão de acordo com a faixa etária: 31 a 50 anos igual a 1000 mg/dia e de 51 a mais de 70 anos igual a 1200 mg/dia. Resultados e discussão Foram avaliadas 20 mulheres com idade média de 61,3 anos (± 10,6) praticantes de atividade física de um parque da Zona Oeste de São Paulo. As características antropométricas das participantes do estudo podem ser observadas na Tabela I. Tabela I - Características antropométricas das mulheres avaliadas. São Paulo, 2010. Variáveis Média DP Peso (Kg) 70,70 11,10 Estatura (m) 1,57 0,06 IMC (Kg/m²) 28,52 3,68 CA (cm) 92,70 10,00 Segundo os resultados observados na Tabela II, 50% (n =10) da população estudada apresentava-se eutrófi ca, porém metade destas mulheres encontrava-se com risco alto para desenvol- vimento de DC. Dado este que se contrapõe ao encontrado no estudo de Ferreira [15], que contou com a participação de sessenta e quatro mulheres fi sicamente ativas incluídas em um programa de incentivo ao incremento de atividade física e verifi - cou, a partir dos valores do IMC, que todas as mulheres estavam com excesso de peso. Nota-se, contudo, que os resultados do presente estudo corroboram com os encontrados por Ribeiro [9] que ao buscar identifi car aspectos do estado nutricional de idosas participantes de um programa de educação física, constatou que a maioria das idosas participantes da pesquisa possui risco muito alto para doenças cardiovasculares. Tabela II - Estado nutricional das participantes do estudo de acordo com o IMC e a circunferência abdominal. São Paulo, 2010. CA IMC Sem Risco Risco Alto Risco Muito Alto N % N % N % Baixo Peso 1 5 - - - - Eutrofia 1 5 5 25 4 20 Excesso de Peso - - 1 5 8 40 Tabela III - Média do consumo alimentar das mulheres avaliadas. São Paulo, 2010. Nutrientes Consumo Médio DP Energia (kcal) 1706,42 549,21 Carboidratos (%VET) 53,40 9,36 Lipídios (% VET) 26,76 9,20 Proteínas (%VET) 19,81 5,24 Cálcio (mg) 719,50 411,33 Neste estudo, o consumo médio de energia e de cálcio foi de 1.706,42 Kcal e 719,50 mg, respectivamente, demonstran- do assim estarem abaixo das recomendações (Tabela III). Tal inadequação pode ser explicada pelo baixo consumo de leite e derivados (em média 1,9 porções). Assim como no presente estudo, a literatura tem descrito um consumo inadequado de cálcio por mulheres, muito aquém do preconizado pelas recomendações da Dietary Reference Intakes (DRI) [14,16]. Vale salientar que nenhuma participante do estudo consumia suplementos de cálcio. Em relação aos macronutrientes, observou-se um consu- mo abaixo das recomendações em relação aos carboidratos (53,4%), acima para proteínas (19,81%) e adequado quanto aos lipídios (26,76%). O consumo médio de energia das participantes de nosso estudo foi maior que o encontrado por Moura [17] em idosos, praticantes de atividade física e integrantes do projeto “Feliz Idade” da Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal – FACIMED. Por meio da aplicação de um questionário de frequência alimentar habitual, os pesquisadores encontraram valor de 1340,27 calorias. O estudo de Lopes [18], realizado com habitantes do município de Bambuí, Minas Gerais, verifi cou inadequações no consumo de minerais e vitaminas, evidenciando assim a importância de uma dieta adequada como fator preventivo para doenças crônicas não transmissíveis, enfatizando para tanto, o consumo de vitaminas antioxidantes (A, C e E) e nutrientes como cálcio, zinco e ferro. Estudo realizado por Carvalho [19], com idosos matriculados em um centro de convivência no Rio de Janeiro, que realizaram exame de densitometria óssea, observou que 62,5% dos idosos participantes apresentavam osteoporose. Uma das explicações para este alto número de pacientescom osteoporose deve-se às intensas mudanças fi siológicas no idoso, desde alterações no paladar e mastigação, quanto à redução da motilidade gástrica e da produção de ácido clorídrico, o que difi culta a alimentação adequada e variada principalmente de leites e derivados. Estudos de avaliação do consumo de cálcio por indivíduos do gênero feminino trazem a tona a importância de uma adequada ingestão deste mineral, uma vez que esta atitude torna-se um fator de prevenção para as doenças crônicas não transmissíveis, evidenciando a osteoporose, tão comum nesta população [9,16,19]. Mesmo conhecendo as fontes alimentares de cálcio, alguns idosos preferem ingerir suplementos pela facilidade Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201118 e praticidade que o mesmo apresenta. Porém, é necessário informar que os alimentos como leites, derivados e vegetais verdes escuros, além de fornecerem cálcio, são fontes essen- ciais de outros nutrientes indispensáveis à manutenção do organismo [5,19]. Diante dos dados apresentados como inadequação no consumo de cálcio e risco para doenças cardiovasculares, é de extrema importância a conscientização educacional através da criação de programas que visem o consumo adequado de cálcio por meio da alimentação, sempre em conjunto com a prática de atividade física, que favorece o bem estar da população idosa e sua saúde como um todo, refl etindo assim em uma melhor qualidade de vida. Conclusão Pôde-se observar neste estudo, que mesmo eutrófi cas a maioria das mulheres avaliadas neste estudo apresentava risco para doenças cardiovasculares. Observou-se consumo inadequado de cálcio, devido à baixa ingestão de alimentos fonte deste nutriente. Tais dados sugerem a necessidade de orientação nutricional voltada a maximizar o consumo de alimentos fonte de cálcio e melhoria dos hábitos alimentares desta população, visando uma alimentação equilibrada im- portante para a prevenção de doenças crônicas e redução do risco de osteoporose. Referências 1. Monteiro MAM. Percepção sensorial dos alimentos em idosos. Revista Espaço para a Saúde 2009;10:34-42. 2. Schneider RH, Irigaray TQ. O envelhecimento na atualidade: aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos, sociais. Estud Psicol 2008;25:585-93. 3. Garcia RN, Almeida EB, Souza K, Vechi G. Nutrição e Odon- tologia: a prática interdisciplinar em um projeto de extensão. RSBO 2008;5(1):50-7. 4. Carvalho CMRG, Fonseca CCC, Pedrosa JI. Educação para a saúde em osteoporose com idosos de um programa universitário: repercussões. Cad Saúde Pública 2004;20:719-26. 5. Menezes TN, Marucc i MFN, Holanda IMM. Ingestão de cálcio e ferro alimentar por idosos residentes em instituições geriátricas de fortaleza. Rev Saúde Com 2005;1:100-9. 6. Heaney RP. Calcium intake and disease prevention Arq Bras Endocrinol Metab 2006;50(4):685-93. 7. Yazbek MA, Marques Neto JF. Osteoporose e outras doenças osteometabólicas no idoso. Einstein (São Paulo) 2008;6:74-8. 8. Pinto Neto AM, Soares A, Urbanetz AA, Souza ACA, Ferrari AEM, Amaral B, et al. Consenso brasileiro de osteoporose. Rev Bras Reumatol 2002;42(6):343-54. 9. Ribeiro SML, Ribeiro SML, Hidalgo CR, Miyamoto MV, Bavutti H, Velardi, et al. Estado nutricional de um grupo de idosas participantes de um programa de educação física: discussão de diferentes padrões de referencia. Rev Bras Ciênc Mov 2006;14(4):55-62. 10. WHO. Obesity: preventing and managing the global epidemic. Geneve: WHO; 2000. 11. World Health Organization. Physical status: Th e use and in- terpretation of anthropometry. In: Report of the WHO expert Committee. Geneva: WHO, 1995. 12. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). XXVI Reuni- ón del Comité Asesor de Investigaciones en Salud-Encuestra Multicêntrica – Salud Bienestar y Envejecimento (SABE) en América Latina y el Caribe, 2002. – Informe preliminar. [citado 2010 Dez 10]. Disponível em: URL: http://www.opas.org/ program/sabe.htm>. 13. WHO. Diet, nutrition and prevention of diseases. Report of a joint WHO/FAO Expert consultation. Genebra: WHO; 2003. 14. Dietary Reference Intakes (DRIs): Recommended Intakes for Individuals, Food and Nutrition Board, Institute of Medicine, National Academies. Washington: Institute of Medicine; 2004. 15. Ferreira M, Matsudo S, Matsudo V, Braggion G. Efeitos de um programa de orientação de atividade física e nutricional sobre a ingestão alimentar e composição corporal de mulheres fi sicamente ativas de 50 a 72 anos de idade. Rev Bras Ciênc Mov 2003;11(1):35-40. 16. Dietary Reference Intakes and Recommended Dietary Allo- wances. Tables and reports. [citado 2010 Dez 12]. Disponível em: URL: http://www.nal.usda.gov/fnic/etext/000105.html. 17. Moura SA, Santos EL, Nunes W, Borges KF, Ramanholo RA. Relação entre ingestão alimentar, índice de massa corporal e nível de atividade física de idosos com idade entre 60 a 70 anos do projeto de extensão feliz idade da Faculdade de Ciências Biomédicas de CACOAL/ RO- FACIMED. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva 2009;3:286-94. 18. Lopes ACS, Caiaff a, WT, Sichieri R, Mingoti AS, Lima-Costa, MF. Consumo de nutrientes em adultos e idosos em estudo de base populacional: Projeto Bambuí. Cad Saúde Pública 2005;4:1201-9. 19. Carvalho CMRG, Fonseca CCC, Pedrosa JI Educação para a saúde em osteoporose com idosos de um programa universitário: repercussões Cad Saúde Pública 2004;20(3):719-26. 19Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Artigo original Levantamento das lesões ocorridas em atletas da seleção amadora de futebol de Primavera do Leste/MT em 2010 Injury incidence in athletes of the amateur football team at Primavera do Leste/MT in 2010 Joaquim Ribeiro de Souza Junior*, Milton Alcover Neto** *Acadêmico do Curso de Educação Física da Universidade de Cuiabá – UNIC, Unidade de Primavera do Leste, Mato Grosso, **Professor do Curso de Educação Física da Universidade de Cuiabá – UNIC, Unidade de Primavera do Leste, Mato Grosso Resumo O futebol é hoje o esporte mais popular e mais praticado no Brasil e no mundo. Com o aumento desta prática houve o aumento das lesões, pelo fato de ser um esporte com muita exigência física. O objetivo deste trabalho foi realizar o levantamento das lesões ocorridas em atletas da seleção amadora de futebol de Primavera do Leste/MT. O presente estudo foi realizado com 18 atletas do sexo masculino com idade entre 18 e 31 anos, obtendo os dados a partir da aplicação de um questionário onde os atletas respondiam sobre as lesões ocorridas no ano de 2010. O resultado constatou um número de 09 lesões sendo, o maior número das mesmas no tornozelo e coxa esquerda (22%); a lesão que mais se repetiu foi a entorse com 56%, e o estiramento com 22%. O mês com maior incidência de lesões foi o mês de setembro com 56%, isto ocorreu pelo fato de os atletas estarem participando de uma maior quantidade de jogos. Das lesões ocorridas, 78% ocorreram sem contato físico entre os jogadores, e 89% dos atletas acometidos por estas lesões fi caram ao menos um dia afastados de suas atividades, sendo que os mais afetados pelas lesões foram os goleiros e os meio campistas. Conclui-se que há a necessidade de um trabalho com médico ortopedista, fi sioterapeutas e profi ssionais de educação física no período pré-competição para prevenir que tais lesões ocorram. Palavras-chave: futebol, lesões, incidência de lesões. Abstract Football is nowadays the most popular sport and widely played in Brazil and worldwide. Consequently there has been an increase in the number of injuries, due to the fact that it is a very physically demanding sport. Th e aim of this study was to investigate injuries incidence in athletes of Primavera doLeste/MT amateur football team. Th is study was conducted with 18 male athletes aged between 18 and 31 years. A questionnaire was applied with questions related to injuries which occurred in 2010 in order to collect data. Th e results showed nine types of injuries and the majority was ankle injuries and left thigh (22%), the sprain injury was the most repea- ted injury with 56% and 22% the stretch. Th e highest incidence of injuries was in September with 56%, as in this period athletes were participating in plenty of games. 78% of injuries occurred without physical contact between players; 89% of athletes with lesions spent at least a day away from their activities, and the goalkeepers and midfi elders players were most aff ected. We conclude that there is a need to work with an orthopedic physician, physical therapists and physical education teachers during pre-competition period in order to prevent injuries. Key-words: football, injuries, incidence of injuries. Recebido 20 de dezembro de 2010; aceito em 8 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Joaquim Ribeiro de Souza Junior, Rua Joinville, 146, Novo Horizonte 78850-000 Primavera do Leste MT, E-mail: junior_pvadoleste@hotmail.com Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201120 Introdução O futebol é hoje o esporte mais popular do Brasil e do mundo, com aproximadamente 200 milhões de praticantes em 186 países registrados na International Federation of Football Association (FIFA). Desde 1970, a popularidade deste esporte tem crescido consideravelmente. O aumento da prática de esportes competitivos ocorreu durante o século XX, iniciando-se com os Jogos Olímpicos Modernos em Atenas, Grécia, no ano de 1896. As populações de diversos países foram estimuladas a mostrarem suas performances esportivas e, com isto, buscarem a superioridade. Muitos esportes foram criados e desenvolvidos, e alguns alcançaram fantástica popularidade, destacando-se entre eles o futebol, que se encontra entre os mais praticados por ambos os sexos em diferentes faixas etárias. Por virtude do crescimento dos esportes coletivos essencialmente constituídos por movimentos naturais e pelos diferentes gestos específi cos de cada desporto, aumentou-se o número de lesões. Sabe-se que as lesões são bastante comuns em indivíduos que praticam esportes, e no futebol não é di- ferente. O grande índice de lesões relacionadas ao esporte se torna cada vez maior [1]. Entretanto, lesões não tratadas ou mal tratadas pode ser a maior causa de recidivas destas lesões, fazendo com que o atleta e a equipe tenham um grande des- gaste até que este jogador esteja apto ao retorno. Desta forma, muitos jogadores vêem suas carreiras se acabando devido à grande incidência de lesões que os próprios são acometidos, e com isso, são obrigados a pararem de jogar, pois, chega uma hora que os atletas têm que optar por andar ou jogar. Para conhecer mais sobre os tipos de lesão verifi cados na modalidade futebol e sobre suas causas, tanto no período de treinamento como durante os jogos, surgiu o interesse em verifi car a incidência de lesões em atletas de futebol, além de identifi car as causas das lesões durante os treinamentos e/ ou jogos realizados pela equipe, bem como em identifi car os principais segmentos corporais atingidos e os principais tipos de lesão que ocorrem nesse meio. Segundo Flegel [2], as lesões são classifi cadas de acordo com suas causas e o tempo que levam para ocorrer: • Causas: as lesões são resultantes de diversas causas como: compressão, tensão ou estiramento e maceração; • Tempo: as lesões ou doenças podem ocorrer de modo sú- bito ou desenvolver-se lentamente com o tempo. Elas são divididas em lesões agudas e lesões crônicas: • Lesões agudas: Lesões agudas ocorrem subitamente e são causadas por um mecanismo específi co de lesão. Entre as lesões agudas estão: contusões, abrasões, perfurações, cortes-incisões, lacerações e avulsões, entorses, distensões, lesões na cartilagem, luxações e subluxações e fraturas ósseas. • Lesões crônicas: as lesões crônicas ocorrem ao longo do tempo e frequentemente são causadas por golpes repetidos, excessivo estiramento, atrito recorrente ou desgaste. Entre elas estão: distensão muscular crônica, bursite, tendinite, lesões ósseas crônicas, osteoartrite, fraturas por estresse. O objetivo deste trabalho foi realizar um levantamento das lesões ocorridas em atletas da seleção amadora de futebol de Primavera do Leste em 2010. Material e métodos Nesta pesquisa foi realizado um levantamento de lesões em atletas de futebol, tendo aprovação do comitê nacional de ética em pesquisa – CONEP. A coleta de dados foi realizada durante dois dias, no período noturno, quando eram realiza- dos os treinos. A amostra foi realizada com 18 atletas, todos eles da seleção amadora de Primavera do Leste, com faixa etária entre 18 e 31anos, do sexo masculino. O instrumento utilizado na coleta de dados foi um questionário adaptado da Escola Superior de Dança de Lisboa [3], contendo nome, profi ssão, tempo de prática de futebol, média de treino por semana, duração de cada treino, se realizava aquecimento, uma tabela para identifi car segmento corporal onde ocorreu lesão, tipo de lesão, mês, treino ou jogo, contato ou sem contato, houve afastamento e quanto tempo e a posição em que jogava. Resultados e discussão A idade dos jogadores variou entre 18 e 31 anos média de 23,7 anos, com tempo de prática entre 7 a 22 anos e média de 13,2 anos, com treinos 04 vezes por semana e com média de 40 minutos por dia, incluindo o aquecimento. Local da lesão, 02 (22%) atletas sofreram lesões na coxa esquerda; 02 (22%) no tornozelo esquerdo; 01 (11%) atleta no joelho esquerdo; 01 (11%) na mão esquerda; 01 (11%) na perna direita; 01 (11%) no tornozelo direito e 01 (11%) na coxa direita. Reafi rma o que outros autores encontraram anteriormente, como o estudo de Silva et al. [4], que os prin- cipais locais de lesões em atletas de futebol são joelho, coxa e tornozelo, e também Junge et al. apud Zanuto [5], na copa do mundo de 2002, não na mesma ordem neste estudo eles também foram os três principais segmentos lesados, isso se deve a grande exigência no futebol em membros inferiores, conforme Gráfi co 1. Gráfi co 1 - Local da lesão. 22% 22% 11% 11% 11% 11% 11% tornozelo esquerdo coxa esquerda joelho esquerdo mão esquerda perna direita tornozelo direito coxa direita 21Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Em relação ao tipo de lesões, a lesão por entorse foi a que mais teve relato nesta pesquisa com 56%, parecido com o resultado obtido por Beirão et al. [6], que constataram 54% de entorses e confi rmado por Bertolini e Junge et al. apud Beirão [6] que citam que o entorse de tornozelo é a lesão mais comum em atletas de futebol, seguida de 22% de estiramento, 11% fratura e 11% fratura. Gráfi co 2 - Tipo de lesão. estudo deles a forma da coleta foi diferente, pois analisaram os treinos técnicos-táticos onde o nível de competitividade é semelhante ao jogo. Gráfi co 4 - Lesões ocorridas no treino ou jogo. 56% 22% 11% 11% Quanto ao mês de lesão 01 (11%) ocorreu no mês de janeiro; 01(11%) ocorreu no mês de maio; 01(11%) ocorreu no mês de junho; 05 (56%) ocorreram no mês de setembro e 01 (11%) ocorreu no mês de outubro conforme fi gura 03. Weineck apud Silva [4] citam que o início da temporada é marcado pelas altas sobrecargas aeróbicas presentes no treina- mento, o que leva a um considerável aumento da performance aeróbica; já no meio da temporada ou período competitivo, as sobrecargas aeróbicas são deixadas de lado, priorizando os treinamentos táticos, que somado a grande frequênciade jogo neste período, justifi ca um maior índice de lesões nos atletas. Apesar deste estudo não ser com amadores, é possível observar certa semelhança entre os grupos. Gráfi co 3 - Mês em que ocorreu a lesão. 11% 11% 11% 56% 11% Janeiro Maio Junho Setembro Outubro Lesões ocorridas no treino ou jogo, 03 (33%) ocorreram no treino e 06 (67%) ocorreram no jogo. Podemos observar que houve mais lesões no jogo devido aos jogos serem mais exigentes que nos treinos. Na pesquisa de Silva et al. [4] houve quase uma igualdade de lesões em jogos ou treinos; 44% das lesões foram nos jogos e 43% foram nos treinos, porém no 67% 33% Treino Jogo entorse estiramento fratura contusão Lesões decorrentes de contato e sem contato, 02 (22%) ocorreram contato e 07 (78%) das lesões ocorreram sem contato, dados não muito parecidos com o estudo de Cohen et al. [7] que apontaram 40% de lesões com contato e 59,3 sem contato e também no estudo de Zanuto et al. [5] que as lesões com contato tiveram maior incidência (57%). O índice de lesões sem contato neste estudo pode estar relacionado com o terreno de jogo ou tipo de chuteira não verifi cada nesta pesquisa. Gráfi co 5 - Lesões ocorridas com contato ou sem contato. 22% 78% Contato Sem contato Em relação ao tempo de afastamento, 08 (89%) das le- sões encontradas tiveram pelo menos 01 dia de afastamento, tendo uma média de 26,2 dias e um máximo de 80 dias de afastamento e 01(11%) não houve afastamento. De acordo com o estudo de Ribeiro e Costa [8], em 34% das lesões en- contradas houve afastamento e em 66% das lesões não houve, o que segundo eles pode ser um indicativo de que os atletas tiveram tempo insufi ciente de preparação para a demanda do torneio e/ou não houve tempo hábil para a recuperação de lesões durante a competição. Gráfi co 6 - Houve afastamento ou não houve afastamento. 89% 11% Houve afastamento Não houve afastamento Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201122 Nas lesões por posição houve uma igualdade entre goleiros 03 (33%) e meio campistas também com 03 (33%) das lesões, em seguida por laterais 02 (22%) e atacantes 01 (11%), não houve lesão nos zagueiros. O resultado dos goleiros não condiz com resultados de outros estudos, como o de Cohen et al. [7] em que os goleiros tiveram o menor índice de lesões, enquanto os meio campistas estão parecidos com o resultado do estudo de Selistre et al. [9] que apontam a dos meio campistas como a posição mais acometida por lesão. Gráfi co 7 - Lesão por posições dos jogadores. entorses. Em relação ao número de lesões na coxa esquerda e tornozelo esquerdo sofrido pelos atletas, a quantidade de 44% detectada nesta pesquisa foi bastante relevante, mostrando a necessidade de fazer um programa de prevenção voltado ao problema, incluindo uma equipe multidisciplinar com médico ortopedista, fi sioterapeuta além dos educadores físicos para prevenir e reabilitar essas lesões. Referências 1. Bonetti LV. Exercícios proprioceptivos na prevenção de lesões de tornozelo e joelho no esporte [TCC]. Colégio Brasileiro de Estudos Sistêmicos: Rio Grande do Sul; 2006. 2. Flegel MJ. Primeiro Socorros no Esporte. 3ª ed. São Paulo: Manole; 2008. 3. Escola Superior de Dança. Instituto Politécnico de Dança [on- line]. [citado 2010 Set 15]. Disponível em URL: http://www. esd.ipl.pt/znew/formularios/pdf/questionario_b.pdf 4. Silva DAS, Souto MD, Oliveira ACC. Lesões em atletas de futebol e fatores associados. Revista Digital EFDesportes 2008;13:121. 5. Zanuto EAC, Harada H, Gabriel Filho LRA. Análise epi- demiológica de lesões e perfil físico de atletas do futebol amador na região do Oeste Paulista. Rev Bras Med Esporte 2010;16(2):116-20. 6. Beirão ME, Marques TAR. Estudo dos fatores desencadeantes de entorse do tornozelo em jogadores de futebol e elaboração de um programa de fi sioterapia preventiva. Revista de Pesquisa e Extensão em Saúde 2007;3(1). 7. Cohen M, Abdalla RJ, Ejnisman B, Amaro JT. Lesões ortopédi- cas no futebol. Rev Bras Ortop Traumatol 1997;32(12):940-4. 8. Ribeiro RN, Costa LOR. Análise epidemiológica de lesões no futebol de salão durante o XV Campeonato Brasileiro de Seleção Sub 20. Rev Bras Med Esporte 2006;12(1):1-5. 9. Selistre LFA, Taube OLS, Ferreira LMA, Barros Junior EA. Incidência de lesões nos jogadores de futebol masculino Sub – 21 durante os jogos regionais de Sertãozinho/SP de 2006. Rev Bras Med Esporte 2009;15(5):351-4. 33% 22% 33% 11% Goleiro Lateral Meio campo Atacante Conclusão Este estudo teve como objetivo fazer uma investigação do número de lesões ocorridas, no ano de 2010, na Seleção ama- dora de futebol de Primavera do Leste. A entorse do tornozelo é uma das lesões mais comuns no esporte especialmente no futebol, e na Seleção Amadora de Primavera do Leste não foi diferente. Em sua realização constatou-se a ocorrência de cinco 23Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Artigo original Atividade eletromiográfica da musculatura abdominal associada à expiração forçada Electromyographic activity of the abdominis muscles associated with forced expiration Nilton Souza Carvalho Júnior*, Gabriel Ribeiro, M.Sc.**, Mauricio Malthes Ribeiro, D.Sc.*** *Educação Física pelo Centro Universitário Jorge Amado, Pós graduando em Gestão Pública pelo Instituto Mentoring, Fortaleza/CE, **Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), ***Professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Resumo A atividade eletromiográfi ca produzida durante a realização de exercícios abdominais em apneia pode potencializar signifi ca- tivamente esta musculatura. O objetivo deste estudo foi avaliar a atividade eletromiográfi ca do músculo reto do abdômen associado à expiração forçada. Foram selecionados 23 voluntários (21,65 1,33 anos) inativos fi sicamente que realizaram Contração Isométrica Vo- luntária Máxima (CIVM) em apneia inspiratória e CIVM associada à expiração forçada. Foram avaliados os dados eletromiográfi cos do músculo reto do abdômen (direito e esquerdo), utilizando o teste T. Os valores foram comparados com um nível de signifi cância de (0,05). Nessas condições experimentais, os resultados do presente estudo mostraram que os valores são estatisticamente maiores na tarefa de CIVM em apneia do que na tarefa de CIVM associada à expiração forçada. Esses achados sugerem que os exercícios ab- dominais sejam realizados em apneia voluntária. Conclui-se que a CIVM do reto abdominal em apneia, quando comparada a CIVM do mesmo músculo em expiração forçada, provoca maiores níveis de atividade em relação à segunda tarefa. Palavras-chave: eletromiografia, musculatura abdominal, exercícios, fitness. Abstract Th e activity produced during breath holding (apnea) abdominal exercises performance can signifi cantly increases the muscle. Th e purpose of this study was to evaluate the electromyographic activity of the rectus abdominis muscle associated with forced expiration. We selected 23 volunteers (21.65 ± 1.33 years old) physically inactive who performed isometric maximal voluntary contraction (MVIC) during inspiratory apnea associated with forced expiration. Elec- tromyographic data of the rectus abdominis muscle (right and left) were evaluated, using the t Test. Th e values were compared with a signifi cance level of (0.05). In these experimental conditions, the results of this study showed that the values are statistically higher during breath holding in MVIC task than in MVIC task associated with the forced expiration. Th ese fi ndings suggest that abdominal exercises should be performed during voluntary apnea. We conclu- ded that the rectus abdominis MVIC during apnea, comparedto the MVIC of the same muscle in forced expiration, causes higher levels of activity in relation to the second task. Key-words: electromyography, abdominal muscle, exercises, fitness. Recebido em 8 de janeiro de 2010; aceito em 8 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Nilton Souza Carvalho Júnior, Rua Raimundo Ribeiro, 4, 43900-000 São Francisco do Conde BA, E-mail: niltinhosz@hotmail.com Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201124 Introdução Os músculos abdominais desempenham grande importân- cia nas funções de sustentação e contenção do conteúdo ab- dominal, auxiliando no processo respiratório, principalmente na expiração forçada, além de possuir papel de destaque na postura normal da pelve. Os mesmos são responsáveis indi- retamente pela curvatura da coluna lombar, sendo de grande importância na postura do corpo [1]. Poucas evidências na literatura relacionam a atividade eletromiográfica da musculatura abdominal associada à expiração forçada, principalmente no âmbito da educação física e/ou no fi tness. Desta forma, tornam-se necessários estudos mais apro- fundados que comprovem a relação entre uma maior ativi- dade elétrica gerada pelos músculos abdominais associada à expiração forçada e a melhora da resistência e da força destes músculos, podendo proporcionar um melhor bem-estar para os praticantes de musculação. A eletromiografi a de superfície consiste em uma técnica que utiliza um equipamento eletrônico que revela ao ser humano algum dos seus eventos fi siológicos, normais ou anormais [2]. Sendo assim, este equipamento é de grande importância para evidenciar a atividade muscular. A eletro- miografi a de superfície em diferentes músculos do corpo humano tem elucidado vários diagnósticos de disfunções musculoesqueléticas. Este equipamento é corriqueiramente utilizado por fi sioterapeutas clínicos e do esporte e também por profi ssionais de educação física. A musculatura abdominal nos últimos anos tornou-se um dos temas mais pesquisados pelas várias áreas da saúde liga- das a este objeto. Os músculos abdominais têm uma função importante no controle postural e na prevenção de lesões na coluna lombar. Evidências médicas sugerem que mais de 80% dos problemas de dores na coluna são causados por músculos fracos no tronco [3]. A parede abdominal anterior consiste de quatro músculos divididos em dois grupos: músculos superfi ciais – o reto do abdominal e o oblíquo externo do abdômen, e os músculos profundos – oblíquo interno e o transverso abdominal. No entanto, o músculo iliopsoas também deve ser considerado por estar na parede abdominal ântero-inferior e estar envol- vido na maioria dos exercícios abdominais [3]. Os músculos abdominais são de extrema importância para a função de expansão e compressão da cavidade abdominal e das vísceras ocas, sua ação contribui também na micção, no parto, na defecação e no vômito [2]. Trabalhar de maneira efi ciente os músculos abdominais é assunto cada vez mais discutido pelos pesquisadores inte- ressados nesta temática. A mensuração acerca do trabalho da unidade motora destes músculos nos últimos anos vem sendo realizada por meio de testes eletromiográfi cos. Diversos pes- quisadores têm recorrido a este método para medir o trabalho muscular por ativação elétrica. Grandes avanços teóricos já aconteceram no tratamento de disfunções musculoesquelé- ticas, ajudando a evidenciar com mais coerência as diversas atuações da musculatura humana. A sistematização deste estudo partiu de uma indagação pertinente e atual: a atividade eletromiográfi ca do músculo reto do abdômen pode ser modifi cada quando associada à expiração forçada? Seguido do seguinte objetivo: avaliar a atividade eletromiográfi ca do músculo reto do abdômen associada à expiração forçada. Esta indagação poderá ser evidenciada, visto que os músculos do abdômen participam contundentemente na realização da expiração forçada. A expiração forçada requer a força ativa produzida pelos músculos expiratórios, como, por exemplo, a musculatura abdominal [4]. Sendo assim a atividade eletromiográfi ca poderá ser modifi cada quando for associada à expiração forçada. Estudos demonstram que o músculo transverso do abdô- men, associado com o aumento da co-contração dos músculos antagonistas, pode ocasionar uma melhor estabilidade dos músculos lombo-pélvicos, contribuindo para uma melhor postura do tronco [5]. Kera e Maruyama [6], em 2005, analisaram a infl uência da postura na atividade expiratória dos músculos abdominais. Foram mensuradas a atividade eletromiográfi ca dos músculos oblíquo externo do abdômen (OEA), oblíquo interno do abdômen (OIA) e o reto abdominal (RA) em diferentes po- sições: supino; em pé; sentado e sentado com o cotovelo no joelho. Foi observado que o volume do pulmão mudou com a postura. Entretanto, o padrão de respiração sobre a carga respiratória não modifi cou. Durante a ventilação voluntária máxima, a atividade expiratória do músculo oblíquo interno do abdômen, foi menor na posição sentado com o cotovelo no joelho do que em qualquer outra posição. A atividade ins- piratória do músculo oblíquo externo do abdômen e oblíquo interno do abdômen foram maiores na posição em pé do que em qualquer outra posição. Utilizar de maneira efi ciente os músculos abdominais é assunto cada vez mais discutido na comunidade científi ca. Sendo assim pesquisadores ainda procuram a melhor forma para trabalhar com mais efi cácia a musculatura abdominal, e assim melhorar o desempenho atlético. Evelyn et al. [7] verifi caram a atividade elétrica dos músculos oblíquo externo, reto femoral e reto abdominal, durante a execução do exercício abdominal sit up em terra e água, em velocidade padrão e máxima. Evidenciou-se que o exercício na velocidade máxima realizado em terra e no meio líquido apresentou uma atividade eletromio- gráfi ca maior que o exercício padrão, com exceção do reto femoral [7]. Análise eletromiográfi ca A análise eletromiográfi ca trata-se de um método que avalia a ativação muscular mediante a captação do estímulo 25Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 elétrico enviado pelo sistema nervoso, o qual gera contração do músculo. Essa técnica é denominada eletromiografi a - super- fi cial ou profunda (que é mais invasiva) [8]. A eletromiografi a de superfície pode ser descrita como uma técnica que utiliza um equipamento eletrônico que revela ao ser humano algum dos seus eventos fi siológicos [2]. A eletromiografi a é o estudo da atividade elétrica do músculo, proporcionando informa- ções concernentes ao controle dos movimentos voluntários e/ou refl exos [9]. Os aparelhos de eletromiografi a, construídos especifi - camente para biofeedback, proporcionam tanto respostas auditivas quanto visuais. Com a utilização de eletrodos de superfície, a localização do sinal do eletromiograma não é exata, aplicando-se apenas a músculos razoavelmente super- fi ciais [10]. A validade e precisão de qualquer medida eletromiográfi ca são dependentes do processo de detecção dos sinais. Este processo inclui a distância entre os eletrodos, seu tamanho, suas localizações, e preparação da pele para minimizar a im- pedância. Esses parâmetros devem ser controlados em todos que utilizam a eletromiografi a de superfície como técnica de mensuração da atividade muscular [11]. O potencial de ação muscular é representado em microvolts (mV), de modo que o instrumento de eletromiografi a torna-se um amplifi cador muito potente. Isso signifi ca que qualquer sinal elétrico estranho será também amplifi cado, e tende a interferir com a saída [10]. O sinal de EMG é relativamente pequeno, variando de 5 a 10 mV. Portanto, é imperativo queo sinal seja amplifi cado [9]. A eletromiografi a de superfície é muito utilizada para avaliar o tratamento de disfunções musculoesqueléticas [12]. Eletrodos de superfície são aplicados sobre a pele, por cima de um músculo, sendo utilizados principalmente para músculos superfi ciais; eles não devem ser utilizados para músculos pro- fundos [9]. Okano et al. [12] avaliaram a atividade elétrica da musculatura abdominal e paravertebral durante exercícios utilizados no tratamento de lombalgias crônicas. Foi verifi - cado que a inclinação pélvica pode ser indicada para ativar a musculatura extensora do tronco durante o tratamento da lombalgia. Em outro estudo, foi evidenciado que o músculo oblíquo externo do abdômen não tem diferença signifi cativa no sinal eletromiográfi co em relação aos outros músculos abdominais [13]. Alguns pesquisadores demonstraram que durante o exer- cício, com fl exão completa do tronco, nos últimos 40° de execução do exercício, não existe participação signifi cativa dos músculos abdominais [14]. Este estudo sugere que os músculos fl exores do quadril fi cariam ativos no restante do movimento, não permitindo que os músculos abdominais participassem com vigor. A eletromiografi a superfi cial parece ser apropriada como meio de treinamento da habilidade motora, já que é possível quantifi car a atividade no músculo desejado. Aspectos respiratórios A ventilação é o processo mecânico que o ar é inalado e exalado pelos pulmões e vias aeríferas [4]. Este processo rítmico ocorre em media 12 a 20 vezes por minuto em repouso e é essencial para manutenção da vida [4]. A respiração é o processo que é auxiliado pelos músculos abdominais, aumentando a pressão intra-abdominal, o que facilita a liberação do ar de dentro do sistema respiratório para a atmosfera, reduzindo o tamanho da cavidade torácica [15]. Os músculos que participam do processo respiratório incluem o diafragma como o principal músculo da inspi- ração e os músculos intercostais e escalenos. Este último juntamente com o esternocleidomastóideo são conhecidos como músculos acessórios, mas, na verdade, têm um papel de estabilizadores na respiração corrente [16]. O tipo de respiração mais adequada para realizar o exercí- cio abdominal é a respiração passiva (inspiração durante a fase excêntrica e expiração na fase concêntrica). A utilização desse padrão é indicada devido à ação do transverso do abdômen e oblíquos externo e interno na fase da expiração forçada, sendo responsáveis pelo movimento de depressão das costelas [8]. Os padrões de respiração normais ao repouso envolvem uma fase inspiratória ativa e uma fase expiratória passiva. O movimento do corpo é, predominantemente, marcado por uma suave distensão do abdômen durante a inspiração que retorna ao repouso na expiração [16]. A expiração forçada, como aquela exigida para tossir ou soprar uma vela, requer a força ativa produzida pelos mús- culos expiratórios, como, por exemplo, os músculos do ab- dômen [4]. Kera e Maruyama [6] analisaram a infl uência da postura na atividade expiratória dos músculos abdominais. Foram medidas a atividade eletromiográfi ca dos músculos oblíquo externo do abdômen, oblíquo interno do abdômen e o reto abdominal em diferentes posições. Foi esclarecido que o volume do pulmão teve modifi cações com a postura. Portanto, o padrão de respiração sobre a carga respiratória não modifi cou. Durante a ventilação voluntária máxima, a atividade expiratória do músculo oblíquo interno do abdômen foi menor na posição sentado com o cotovelo no joelho do que as outras posições. A atividade inspiratória do músculo oblíquo externo do abdômen e oblíquo interno do abdômen foram maiores na posição em pé do que nas outras posições. Análise da musculatura abdominal Os músculos abdominais são de extrema importância para a função de expansão e compressão da cavidade abdominal e das vísceras ocas, sua ação contribui também na micção, no parto e na defecção [17]. A contração destes músculos possui efeitos signifi cativos sobre a expiração forçada [4]. Todos os músculos do tronco agem em conjunto, no controle dos movimentos. Este trabalho coletivo também infl uencia no Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201126 controle da postura [18]. Sua habilidade em manter a caixa torácica expandida e a coluna vertebral alinhada todo dia propicia o espaço interno para movimentos de respiração, digestão, e outras funções [18]. O músculo reto do abdômen tem origem na sínfi se e cristas púbicas e inserção nas cartilagens costais da quinta, sexta e sétima costelas e processo xifóide do esterno. As suas fi bras são na direção vertical e o seu ventre muscular é poligástrico. A ação do músculo reto do abdômen consiste em fl exionar a coluna vertebral. Com a pelve fi xa o tórax se movimenta na direção da pelve; com o tórax fi xo, a pelve se movimenta na direção do tórax [3]. Além destas ações o músculo abdominal ainda fl exiona lateralmente a coluna vertebral e deprime as costelas na expiração forçada [3]. Já o músculo transverso do abdômen associado com o aumento da co-contração dos músculos antagonistas, pode ocasionar uma melhor estabili- dade dos músculos lombo-pélvicos, contribuindo para uma melhor postura do tronco [5]. Balbino et al. [1] analisaram a atividade eletromiográfi ca comparativa dos músculos reto do abdômen e reto femoral, durante a execução do exercício abdominal tradicional e com utilização da bola de ginástica. Foi observado que a utilização da bola de ginástica no exercício abdominal não parece ativar estes músculos com maior intensidade do que o exercício tradicional [1]. Algumas pesquisas demonstraram a atividade elétrica dos músculos oblíquo externo do abdômen, reto femoral e reto abdominal, durante a execução do exercício abdominal em terra e água, em velocidade padrão e máxima [7]. Foi demonstrado que o exercício na velocidade máxima reali- zado em terra e no meio líquido apresentou uma atividade eletromiográfi ca maior que o exercício padrão, com exceção do reto femoral [7]. Furlani e Bankoff [14] analisaram eletromiografi camente quatro formas de exercícios abdominais, dividindo entre fase excêntrica e concêntrica. Encontrou-se que o melhor trabalho para o músculo reto abdominal ocorreu durante o exercício, deitado em decúbito dorsal, com os joelhos fl etidos a 45°, pés fi xos ao solo, mãos entrelaçadas na nuca, realizando o movimento de subir o tronco em linha reta até a posição sentada. Sendo assim estes achados corroboram para melho- rias na realização dos exercícios abdominais que são pouco investigados contemporaneamente, e muito infl uenciados por pesquisas anacrônicas. Material e métodos Sujeitos Foram selecionados 23 sujeitos saudáveis (13 homens e 10 mulheres), com idade variando entre 18 e 24 anos inativos fi sicamente - segundo os critérios estabelecidos pelo questioná- rio de inclusão e exclusão (Apêndice A). Foram incluídos no estudo apenas os indivíduos que não apresentaram qualquer defi ciência orgânica, cirúrgica ou dor na região abdominal, e também nenhuma patologia respiratória. Tabela I - Demonstração dos valores médios das variáveis dos sujeitos envolvidos no estudo. N=23 Média Desvio padrão Peso (Kg) 67,76 11,39 Altura (m) 1,71 0,10 Idade (anos) 21,65 1,33 IMC 22,90 2,85 Valores obtidos através do questionário de inclusão e exclusão (Apên- dice A). Para a participação no experimento os sujeitos preen- cheram o questionário de inclusão e exclusão (Apêndice A). Foram selecionados somente os sujeitos que apresentaram os requisitos de inclusão na pesquisa. Os resultados obtidos foram usados especifi camente para a realização da pesquisa. Os sujeitos assinaram o termo de consentimento livre e esclareci-do nos moldes da comissão de ética do Centro Universitário Jorge Amado. Instrumentação Registro dos dados eletromiográfi cos (EMG) Para a coleta dos dados foram utilizados eletrodos de superfície bipolares, com o diâmetro de 12 mm, (fi gura 1) que foram limpos com álcool para facilitar sua aderência e a condução do sinal elétrico. Os eletrodos de superfície foram umedecidos com um gel condutor (fi gura 2) e colocados no músculo reto abdominal (RA), fi xando a pele através de uma fi ta autoadesiva (fi gura 2). Os eletrodos foram posicionados numa distância de 1 cm usando uma fi ta métrica (fi gura 2). Para fi xação dos eletrodos no músculo reto abdominal (RA) foi seguido o procedimento descrito por Willett e colabora- dores [19]. Em todas as coletas de dados o local foi identifi cado e preparado pelo mesmo pesquisador para minimizar erros na gravação. O sinal eletromiográfi co captado pelos eletrodos foi processado pelo eletromiógrafo portátil de dois canais EMG Retrainer (Chatanooga Group, Inc. USA) (fi gura 1). Sendo por este amplifi cado, fi ltrado e retifi cado. Por meio de um leitor de infravermelho, o sinal foi integrado a um computador, pelo programa de computador EMG Retrainer IR. Os dados obtidos foram gravados em sessões de arquivo e permaneceram disponíveis em formato gráfi co, para poste- riores consultas. Os dados eletromiográfi cos foram coletados por um processador Intel de 333 MHz, executando o MS Windows XP; com resolução de SVGA 800/600, uma porta COM aberta para a aplicação do leitor de infravermelhos e foram expressos em micro volts. 27Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Figura 1 Figura 3 Figura 2 Local da pesquisa A pesquisa foi realizada no Centro Universitário Jorge Amado, no consultório 1 da clínica escola. Procedimentos O indivíduo foi posicionado, na posição de decúbito dorsal, sobre uma maca, onde foi solicitado que cada parti- cipante no momento da execução fi casse de joelhos fl etidos, (a aproximadamente 45°) e pés fi xos ao solo (Figura 3). Uma faixa (tamanho adulto de aproximadamente 2,90 m de comprimento e 4,7 cm de largura) (fi gura 2) foi amarrada em volta do sujeito (na altura do peitoral) e a maca, servindo como resistência para a realização da contração isométrica voluntária máxima (CIVM). A partir da posição inicial, com o indivíduo em atividade elétrica do reto do abdômen em 0 mV, ao ouvir o comando verbal, o sujeito realizou o primeiro protocolo experimental, que consistiu na contração isométrica voluntária máxima do músculo reto abdominal por 15 segundos em apneia voluntá- ria (Figura 4). Decorridos 5 minutos da realização do primeiro protocolo, o mesmo sujeito realizou (na mesma posição inicial supracitada) o segundo protocolo experimental, que consistiu na contração isométrica voluntária máxima do músculo reto abdominal por 15 segundos, realizando concomitantemente a expiração forçada. Os dois protocolos foram analisados nos seus respectivos 15 segundos de execução. Os sinais eletromio- gráfi cos foram integrados na fase concêntrica da isometria. Figura 4 Análise dos dados Os dados coletados foram transcritos para fi cha de anota- ções dos dados experimentais (Anexo B), foi utilizado o teste T de (Student) [20], verifi cando se os mesmos apresentariam relevância signifi cativa pertinente ao assunto em estudo. Foi considerado como signifi cante, os resultados de P < 0,05. Resultados A análise entre os valores médios, correspondentes aos testes em apneia e com expiração forçada são apresentados nos Gráfi cos 1 e 2. O protocolo descrito mostrou diferenças signifi cantes no sinal eletromiográfi co entre os protocolos estudados (p < 0,05). Gráfi co 1 - Valores máximos dos sinais eletromiográfi cos nor- malizados registrados durante a realização da sessão 1 CIVM do reto abdominal em apneia e a sessão 2 CIVM do reto abdominal associada à expiração forçada. % 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 Sessão 1 Sessão 2 Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201128 Gráfi co 2 - Valores médios dos sinais eletromiográfi cos normalizados registrados durante a realização da sessão 1 CIVM do reto abdo- minal em apneia e a sessão 2 CIVM do reto abdominal associada à expiração forçada. Segundo Graig et al. [22] os músculos inspiratórios não recebem descargas instantâneas de sinais dos neurônios ins- piratórios dorsais e ventrais. A taxa de disparo dos neurônios aumenta gradualmente no fi nal da fase expiratória. Sendo assim, quando está ocorrendo uma apneia inspiratória, com o bloqueio da respiração, faz com que a taxa de CO2 (gás carbônico) do sangue se eleve a níveis anormais, consequente- mente irá exaurir todo o CO2 dos pulmões, fazendo com que os sinais dos neurônios ventrais e dorsais aumentem gradati- vamente a atividade dos músculos. Os músculos abdominais também podem contribuir com a inspiração contraindo no fi nal da expiração. Esse processo retrai a parede torácica para fora auxiliando o próximo esforço inspiratório [22]. Esse me- canismo pode ser constatado também em apneia inspiratória, ocasionando maior atividade eletromiográfi ca, principalmente dos músculos abdominais. Vários estudos foram realizados a fi m de identifi car diferenças entre os músculos abdominais, mas os resultados não foram signifi cantes [1,3,5,6,7,14]. Balbino et al. [1] analisaram a atividade eletromiográfi ca comparativa dos músculos reto do abdômen e reto femoral, durante a execução do exercício abdominal tradicional e com utilização da bola de ginástica. A atividade elétrica dos mús- culos não teve diferenças signifi cantes quando comparados em tarefas diferentes. Segundo McArdle et al. [15] o fechamento da glote após uma inspiração plena, enquanto estão sendo ativados ao má- ximo os músculos expiratórios, produz forças compressivas que irão elevar a pressão intratorácica. A pressão dentro da cavidade abdominal aumenta em níveis consideráveis durante uma expiração máxima com uma glote fechada. Sendo assim, provavelmente a atividade elétrica dos músculos abdominais irá aumentar signifi cativamente, pois a apneia inspiratória é também uma expiração interrompida, que poderá levar ao au- mento da pressão da cavidade abdominal, consequentemente poderá atingir maiores níveis de atividade eletromiográfi ca. Portanto esses fatores podem ter infl uenciado nos resul- tados. Porém novos estudos que possam controlar outras variáveis devem ser investigados para justifi car a indicação clínica e a aplicabilidade em protocolos de treinamento. Segundo Wilmore & Costil [23] na execução de um fecha- mento da glote – que pode ser considerada uma apneia volun- tária – ocorre o aumento da pressão intra-abdominal contraindo forçadamente o diafragma e os músculos abdominais, e também aumenta a contração forçada dos músculos respiratórios. Com base nesta afi rmação o presente estudo sugere que os exercícios abdominais sejam realizados em apneia voluntária. Esse meca- nismo poderá potencializar a ação dos músculos abdominais, e consequentemente melhorar o desempenho físico dos pratican- tes, tanto no fi tness quanto na reabilitação em clínicas. Conclusão Nessas condições experimentais, os resultados demonstra- ram que a Contração Isométrica Voluntária Máxima (CIVM) 0,0 % 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 Sessão 1 Sessão 2 Quando os valores da ativação elétrica foram comparados, para evidenciar diferenças entre as tarefas propostas, foram encontradas diferenças estatisticamente signifi cantes (p = 0,006) entre a atividade elétrica do músculo reto abdominal quando comparado em tarefas de CIVM em apneia e CVIM realizando concomitantemente a expiração forçada. Osvalores são estatisticamente maiores na tarefa de CIVM em apneia do que na tarefa de CIVM associada à expiração forçada. Discussão O presente estudo mostrou que no tipo de exercício abdo- minal estudado existem mudanças signifi cantes na atividade elétrica do músculo reto abdominal quando comparado em tarefas diferentes. Esse resultado é contrário à hipótese do estudo. O aumento signifi cativo da atividade Eletromiográfi ca (EMG) em apneia pode ser explicado pelo mecanismo de execução da tarefa, por ter sido realizada em apneia inspirató- ria, que contribuiu contundentemente para que os músculos auxiliares pudessem permanecer ativos, colaborando para que a atividade eletromiográfi ca do reto abdominal fosse signifi - cativamente maior quando comparada a sessão 2 que obteve resultados menores, pois na expiração os músculos auxiliares também contribuem, mas não de forma tão signifi cativa quanto na apneia inspiratória. O ritmo básico da respiração é gerado na área inspi- ratória. A cada poucos segundos essa área fi ca excitada e transmite sinais neurais para os músculos inspiratórios, em especial para o diafragma. Os sinais começam muito fracos mais aumentam progressivamente, fazendo com que os músculos inspiratórios contraiam com força crescente [21]. No entanto a atividade elétrica do abdômen será maior na apneia inspiratória do que na expiração forçada, por conta da pressão interna ocorrer durante a expiração. A contração dos músculos abdominais aumenta a pressão intra-abdominal, forçando o diafragma para cima [21]. Outro ponto a ser considerado é a pressão contrária que é gerada durante a apneia inspiratória. Esses dois fatores conjugados podem ocasionar uma dupla pressão, aumentando desta forma a atividade elétrica dos músculos. 29Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 do reto abdominal em apneia, quando comparada a CIVM do mesmo músculo em expiração forçada, provoca alterações na atividade eletromiográfi ca dos músculos estudados. Porém a atividade elétrica do músculo reto abdominal na tarefa de CIVM em apneia promoveu maiores níveis de atividade em relação à segunda tarefa, de acordo com a metodologia descrita. Estes achados contrariam os resultados de outros estudos que buscavam detectar a melhor maneira de realizar os exercícios abdominais. Futuros estudos devem ser realiza- dos a fi m de verifi car se existem modifi cações da atividade elétrica em diferentes tarefas, considerando outras variáveis imprescindíveis para resultados mais plausíveis. Referências 1. Balbino FL, Cunha GS, Cristina DSO, Valle KM, Bernardino RJ. Análise eletromiográfi ca da atividade elétrica dos músculos reto do abdome e reto femoral em exercícios abdominais com e sem bola de ginástica. Coleção Pesquisa em Educação Física 2007;6(1):87-94. 2. Basmajian JV, De Luca CJ. Muscle alive: their revealed by electromyography. 5ª ed. Baltimore: Williams & Wilkins; 1985. 3. Campos MA. Exercícios abdominais: uma abordagem pratica e cientifi ca. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Sprint; 2004. 4. Neumann DA. Cinesiologia do aparelho musculoesquelético: fundamentos para a reabilitação física. Rio de Janeiro: Guana- bara Koogan; 2001. 618 p. 5. McCook DT, Vicenzino B, Hodges PW. Activity of deep abdominal muscles increases during submaximal fl exion and extension eff orts but antagonist co-contraction remains unchan- ged. J Electromyography Kinesiol 2007;1:2-9. 6. Kera TE, Maruyama H. Th e eff ect of posture on respiratory activity of the abdominal muscles. J Physiol Anthropol Appl Human Sci 2005;24(4):259-65. 7. Evelyn SM, Gabriela LB, Paulo PF, Luiz FMK, Claudia H, Hans JA. Comparação eletromiográfi ca do exercício abdominal dentro e for a da água. Rev Port Cien Desp 2005;5(3):255-65. 8. Cláudia SL, Ronei SP. Cinesiologia e musculação. Rio de Ja- neiro: Artmed; 2006. 188 p. 9. Hamill J, Knu KM. Bases biomecânicas do movimento huma- no. 2ª. ed. São Paulo: Manole; 2008. 508 p. 10. Low J, Reed A. Eletroterapia explicada – princípios e prática. 1ª. ed. São Paulo: Manole; 2001. 173 p. 11. Fonseca ST. Análise de um método eletromiográfi co para quantifi cação de co-contração muscular. Rev Bras Ciênc Mov 2001;9(3):23-30. 12. Okano RG, Marin A, Cosialls A, Helena RCG, Monteiro PB. A utilização da eletromiografi a de superfície na avaliação e tratamento das disfunções musculoesqueléticas: uma revisão da literatura. Centro Universitário São Camilo 2006;12(4):59-67. 13. Fernando DC, Schmarczek GB, Araújo KB, Nóbrega MCG, Trindade SA. Análise do músculo reto do abdômen. Pós gra- duação Lato-Sensu em Musculação e Treinamento da Força – Universidade Gama Filho, 2005. [citado 2008 Abril 15]. Disponível em URL: http://www.baseacademia.com.br/artigos 14. Furlani J, Bankoff ADP. Estudo eletromiográfi co dos músculos: reto do abdômen e obliquo externo. Rev Bras Ciênc Morfol 1985;1(4):45-51. 15. McArdle W, Katch FI, Katch VL. Fisiologia do exercício: ener- gia, nutrição e desempenho humano. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998. 16. Jennifer AP, Barbara AW. Fisioterapia para problemas respirató- rios e cardíacos. 2ª. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2002. 324 p. 17. Basmajian JV. Anatomia de Grant. 10ª ed. São Paulo: Manole; 1993. 139-148 p. 18. Alexandre MN. Exercícios abdominais. Universidade Estadual de Londrina, 2007. [citado 2007 Nov 10]. Disponível em URL: http://www.hipertrofi a.org/blog 19. Willett GM, Hyde JE, Uhrlaub MB, Wendel CL, Karst GM. Relative activity of abdominal muscles during commonly prescribed strengthening exercises. J Strength Cond Res 2001;15(4):480-5. 20. Dora Filho U. Introdução à bioestatística: para simples mortais. Rio de Janeiro: Elsevier; 1999. 89 p. 21. Guyton AC. Fisiológia humana. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guana- bara Koogan; 1988. 22. Graig LS, Wilkins RL, Stoller JK. Fundamentos da teoria res- piratoria de Egan. 1a ed. São Paulo: Manole; 2000. 23. Jack HW, David LC. Physiology of sport and exercise. 1ª ed. São Paulo: Manole; 2001. Apêndice A - Questionário de inclusão e exclusão Nome:_______________________________________________ Idade:________________________________________________ Altura:________________________________________________ Peso:_________________________________________________ Sexo: ( ) M ( ) F Curso:_________________________________ Semestre:___ Turno:____________ Aspectos gerais: Apresenta alguma deficiência orgânica? ( ) sim ( ) não Se apresentar quais são? _____________________________________________________ _____________________________________________________ Já realizou alguma cirurgia na região abdominal que venha comprometer o estudo? ( ) sim ( ) não Quais? _____________________________________________________ _____________________________________________________ Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201130 Apresenta ou apresentou nos últimos meses alguma dor na região abdominal? ( ) sim ( ) não Qual a causa? _____________________________________________________ _____________________________________________________ Alguma patologia respiratória? ( ) sim ( ) não Esta com dificuldade respiratória ou gripe? ( ) sim ( ) não Declaro que estou de acordo com o seguinte questionário, e estou ciente das informações supracitadas, sendo assim consin- to em participar da presente pesquisa. Anexo B – Ficha de anotações dos dados experimentais (Chattanooga Group, 2001) Nome:____________________________ Nota:____________ Data:___/___/___ Clínica:___________________ Sessão 1 Sessão 2 Data:___/___/___ Data: ___/___/___ Músculo:______________ Músculo:_______________ Tempo da sessão=____:____ Tempo da sessão=____:____Resultado Sessão 1 Sessão 2 % de variância SEMG Média SEMG Máximo SEMG Mínimo Valor alvo Trabalho acima do valor alvo Trabalho no alvo Trabalho abaixo do alvo Salvador,___de________________de 2008. _________________________________ Assinatura do sujeito da pesquisa 31Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Artigo original Máxima oxidação de gorduras em bombeiros da polícia militar do Paraná: análise da correlação entre o consumo máximo de oxigênio e o quociente respiratório não-protéico Maximal fat oxidation in recruits of the fire department military police of Parana: analysis of the correlation between the maximal oxygen consumption and non-protein respiratory quotient Denis Bruno Ranzani*, Francisco Navarro** *Aluno do curso de Pós-Graduação “Lato-Sensu” da Universidade Gama Filho – Fisiologia do Exercício: Prescrição de Exercício (à distância) e Sargento do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Paraná, **Coordenador e Professor d os Cursos de Pós-Graduação “Lato-Sensu” em Fisiologia do Exercício: Prescrição de Exercício, Obesidade e Emagrecimento e Nutrição Esportiva da Universidade Gama Filho Resumo Introdução: Com a hipótese de que a intensidade do exercício é essencial para a regulação do catabolismo de lipídios, o objetivo deste estudo foi estimar a intensidade onde ocorre a máxima oxi- dação de gorduras, através da análise da correlação entre o VO2máx. e o QRnp, via cálculo linear. Material e métodos: Foram avaliados 45 homens saudáveis, sendo aplicado o teste de 12 minutos (protocolo de Cooper), para obtermos o VO2máx.. A oxidação de substrato foi estimada por meio de cálculos, com base nos valores de combustão das gorduras para o QRnp. Resultados e discussão: A intensidade de pico de oxidação de gorduras foi em média 50,6% ± 2,1% do VO- 2máx. (QRnp 0,89 ± 0,005). A zona de máxima oxidação de gorduras fi cou entre 33,7% ± 6,2% e 67,0% ± 6,3% do VO2máx.. O coefi - ciente de correlação foi (r = 1). Confrontando com outros estudos, o percentual de diferença das intensidades de pico de oxidação de gorduras foi -1,0% (50,6% vs. 50,1%) e das zonas de máxima oxidação de gorduras foram -2,1% (33,7% vs. 33,0%) e -3,0% (67,0% vs. 65,0%). Conclusão: Os resultados foram consistentes quando comparados a outros experimentos, podendo este método ser aplicado numa vasta população. Palavras-chave: oxidação de gorduras, consumo de oxigênio, quociente respiratório não-proteico, cálculo linear. Abstract Introduction: With the hypothesis that exercise intensity is essen- tial for the regulation of lipid catabolism, the objective of this study was to estimate the intensity where occurs the maximal fat oxidation, by analyzing the correlation between VO2max. and the QRnp, by linear calculation. Material and methods: We evaluated 45 healthy men, and applied the 12-minute test protocol (Cooper) to obtain VO2max.. Th e substrate oxidation was estimated by calculation based on values for the combustion of fat QRnp. Results and discussion: Th e intensity of peak fat oxidation averaged 50.6% ± 2.1% of VO2max. (QRnp 0.89 ± 0.005). Th e zone of maximal oxidation of fat was between 33.7% ± 6.2% and 67.0% ± 6.3% VO2max.. Th e correlation coeffi cient was (r = 1). Comparing with other studies, the percentage diff erence of intensities of peak fat oxidation was -1.0% (50.6% vs. 50.1%) and areas of maximal fat oxidation were -2.1% (33.7% vs. 33.0%) and -3.0% (67.0% vs. 65.0%). Conclusion: Results were consistent when compared to other experiments; this method can be applied to a large population. Key-words: fat oxidation, oxygen consumption, respiratory quotient non-protein, linear calculation. Recebido em 16 de novembro de 2010; aceito em 8 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Denis Bruno Ranzani, Rua Conrado Schiffer 350/22 – Bl. 01, Estrela 84050-280 Ponta Grossa PR, Tel: (42) 3028-4254, E-mail: profefdenis@yahoo.com.br Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201132 Introdução A obesidade é um grave problema de saúde pública em países industrializados [1] e, quando inicia na infância, a probabilidade do adulto ser obeso é três vezes maior [2]. Caracterizada pelo excesso de tecido adiposo [3], usual- mente acima de 25% para os homens e acima de 32% para as mulheres [4], a obesidade tem como causa a defi ciência na utilização de gorduras como substrato energético [5], princi- palmente, pela carência de atividade física [6]. Nesse sentido, a prática de exercícios físicos pode ser capaz de compensar esta diminuição da capacidade de oxidar gor- duras [5], pois, o exercício físico está associado à redução na gordura corporal total de uma maneira dose-resposta [1]. En- tretanto, a escolha mais adequada da intensidade do exercício físico para indivíduos acima do peso ainda é um desafi o [7]. Com o intuito de avaliar tal intensidade, a utilização da calorimetria indireta fornece evidência convincente acerca de sua validade em estimar o metabolismo energético [2]. Pois, supondo-se que a permuta de oxigênio e dióxido de carbono medida nos pulmões refl ete a troca gasosa real do catabolismo dos nutrientes na célula, a aplicação do quociente respiratório (QR) em condições de exercício físico com ritmo estável é razoavelmente válida [2], por fornecer uma estimativa aceitável das proporções de carboidratos e lipídios que estão sendo oxidados [8]. Julgando que as reações que liberam energia no organis- mo são dependentes da utilização do oxigênio, nesse caso, poderemos estimar indiretamente o metabolismo energético ao conhecer o consumo de oxigênio (VO2) durante a prática de exercícios físicos em ritmo estável [2]. Contudo, a utilização da calorimetria indireta para a mensuração do dispêndio energético pode ser inadequada para sua aplicação numa ampla população, como em acade- mias, devido ao alto custo dos equipamentos, espaço, tempo e pessoal especializado para a administração do protocolo. Portanto, o objetivo deste estudo foi estimar a intensidade relativa do exercício onde ocorre a máxima oxidação de gorduras em quarenta e cinco recrutas do Corpo de Bombeiros, através da análise da correlação entre o consumo máximo de oxigênio e o quociente respiratório não-proteico (QRnp), via cálculo linear. Material e métodos O presente estudo está em conformidade com a Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, tendo o Comando do 2º Grupamento de Bombeiros autorizado a utilização dos dados para o referido estudo. • Sujeitos: Quarenta e cinco recrutas do gênero masculino (idade, 24 ± 3 anos), fi sicamente ativos, foram submetidos a um teste de aptidão física no curso de formação de sol- dados bombeiro militar. Nenhum dos participantes tinha alguma doença evidente e não estava em tratamento com dietas ou medicamentos. • Biometria: A massa corporal e a estatura foram mensuradas com a balança mecânica antropométrica e estadiômetro da marca Welmy. Cada indivíduo permaneceu sobre a balança com o mínimo de vestimentas, descalços, na po- sição ortostática, de costas para o avaliador, calcanhares unidos e os braços relaxados, executando uma inspiração forçada, com a cabeça posicionada de acordo com o plano de Frankfurt [9]. • Avaliação da composição corporal: Na composição corporal, a densidade corporal (Dc) foi estimada a partir do proto- colo de sete dobras cutâneas (DC): peitoral, abdômen, coxa, tríceps, subescapular, supra-ilíaca e axilar média, de Jackson e Pollok [1], através do plicômetro da marca Cescorf e modelo científi co, onde: Dc = 1,112 – 0,00043499 . ( sete DC) + 0,00000055 . (sete DC)2 – 0,00028826. (idade) Enquanto que o percentual de gordura corporal (%GC) foi calculado pela equação de Siri [1]: % GC = (495 . Dc-1) – 450• Avaliação do consumo máximo de oxigênio: O VO2máx. foi estimado através de teste de campo, utilizando-se o pro- tocolo de doze minutos de Cooper [9], onde: VO2máx. (mL.kg -1.min-1) = (Distância percorrida em metros – 504) . 45-1 Em repouso foram aferidas a pressão arterial e a frequên- cia cardíaca com o aparelho digital da marca fi tness, modelo MF-34. Nos cinco minutos precedentes ao teste foi realizado aquecimento. • Elaboração da planilha de cálculo: para desenvolvermos a planilha de cálculo, a presente pesquisa partiu do pressuposto que a calorimetria indireta, que é uma técnica não invasiva, utilizada para estimar a participação dos carboidratos e gorduras no metabolismo energético durante o exercício físico em estado estável, através do QR [10], poderia ser reproduzida pela correlação entre o VO2máx. e o QRnp. Em razão disso, verifi cou-se que a utilização da molécula de gordura no metabolismo energético equivale ao QRnp 0,70, enquanto que a utilização da molécula de carboidrato equivale ao QRnp 1,00 [10]. Entretanto, o metabolismo humano utiliza uma combi- nação de substratos energéticos [11] e, para determinamos o valor de combustão dessa mistura de combustíveis, durante o repouso, consideramos que cada decilitro de sangue transpor- tam aproximadamente 5 mL de oxigênio dos pulmões para os tecidos e eliminam aproximadamente 4 mL de dióxido de carbono dos tecidos para os pulmões [12]. Ponderando que a estimativa da contribuição dos carboidra- tos e das gorduras no metabolismo energético durante o exercício físico, através do QR, é expresso pela razão entre o dióxido de carbono produzido e o oxigênio consumido [10], então: Se, QR = VCO2 . VO2 -1; Logo, QR = 4 . 5-1 = 0,80. 33Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Outros estudos também corroboraram que na maioria das pessoas em repouso alimentadas com uma dieta mista é comum um valor de QR igual a 0,80 [11]. Para a realização dos cálculos ignoramos a contribuição da proteína na produção de energia, em virtude da utilização dos valores de combustão para o QRnp. Sabe-se que o VO2repouso equivale aproximadamente 3,5 mL.kg-1.min-1 [6], então, correlacionamos este com o QRnp 0,80, enquanto que os demais valores da reserva do consumo de oxigênio (VO2R) foram ordenados em sequência linear a partir do QRnp 0,81. Foi verifi cado que o VO2 progride como uma função linear em relação à intensidade, até que o VO2máx. seja atingido [10] e, que o QR aumenta linearmente a partir do repouso até o valor de 1,00 com o aumento do VO2 [13]. Nesse projeto experimental, o coefi ciente linear foi deter- minado através da razão entre o VO2R pela diferença entre o QRnp 1,00 e o QRnp 0,80, multiplicado por 100, onde: coefi ciente linear = VO2R . 20 -1 • Tratamento estatístico: o grau de correlação (r) entre o VO2máx. e o QRnp foi apresentado em estatística analítica, pelo coefi ciente de correlação produto-momento, ao passo que os dados coletados e os resultados foram descritos de forma sumária através da média, mediana, desvio padrão, coefi ciente de variação (%) e função máximo. • Interpretação dos dados: o pico de oxidação de gorduras foi determinado com a função máximo, que retorna o maior valor num intervalo de dados da planilha de cálculo e a zona de máxima oxidação de gorduras foi estabelecida através de um conjunto de valores, que não tiveram diferença entre si, até a primeira casa decimal. Resultados A Tabela I apresenta os parâmetros físicos e composição corporal de 45 recrutas. Tabela I - Parâmetros físicos e composição corporal dos recrutas do Corpo de Bombeiros, 2010. Variáveis Média (n = 45) Desv. Pad. Varia- ção (%) Idade (anos) 24 ± 3 12,5 Massa Corporal (kg) 74 ± 9,3 12,6 Estatura (cm) 178 ± 5 2,8 IMC (kg.m-²) 23,3 ± 2,3 9,9 Massa Gorda (%) 13,8 ± 5,2 37,7 Massa Gorda (kg) 10,6 ± 4,9 46,2 Massa Livre de Gordura (kg) 63,4 ± 5,7 9 VO2máx. (mL.kg -1.min-1) 49,9 ± 4 8 VO2máx. (L.min -1) 3,69 ± 0,5 13,5 Valores expressos em média ± desvio padrão, com o coeficiente de variação (%). A Tabela II apresenta os resultados para a oxidação de gorduras através da correlação entre o VO2máx. e o QRnp. Tabela II - A máxima oxidação de gorduras obtida na correlação entre o VO2máx. e o QRnp. Variáveis Média (n = 45) Desv. Pad. Variação (%) Pico de oxidação de gorduras (% VO2máx) 50,6 ± 2,1 4,2 Zona de oxidação de gorduras, limite inferior (% VO2máx) 33,7 ± 6,2 18,4 Zona de oxidação de gorduras, limite superior (% VO2máx) 67,0 ± 6,3 9,4 QRnp do pico de oxi- dação de gorduras 0,89 ± 0,005 0,6 Velocidade de oxi- dação de gorduras (g.min-1) 0,35 ± 0,05 14,3 Fonte: Elaborado pelo autor. Resultados expressos em valores médios ± desvio padrão e coeficiente de variação (%). Figura 1 - Progressão linear do VO2 absoluto em função do QRnp. Correlação produto-momento 4,00 3,50 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 0,50 0,00 0,8 0,85 0,9 0,95 1 QRnp VO 2( L. m in -1 ) A Figura 1 demonstra o coefi ciente de correlação produto- momento entre o VO2máx. absoluto e o QRnp. Conseguiu-se uma correlação perfeita positiva entre as duas variáveis (r = 1), ou seja, todos os pontos no gráfi co de dispersão caem exatamente numa linha reta. Figura 2 - Velocidade de oxidação de gorduras vs. intensidade do exercício (n = 45). Pico de oxidação de gorduras 0,40 0,35 0,30 0,25 0,20 0,15 0,10 0,05 0,00 0,0 20,0 40,0 60,0 80,0 100,0 Intensidade relativa (% VO2 máx.) O xi da çã o de g or du ra s (g .m in -1 ) Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201134 A Figura 2 demonstra a relação entre a taxa de oxidação de gorduras e a intensidade do exercício, expressa em percen- tual do VO2máx., em recrutas do Corpo de Bombeiros. Com o aumento da intensidade do exercício, a taxa de oxidação de gorduras aumentou para 0,35 g.min-1 ± 0,05 em 50,6 ± 2,1% do VO2máx., onde, acima dessa intensidade ocorreu a queda na taxa de oxidação. A zona de máxima oxidação de gorduras fi cou situada entre 33,7 ± 6,2 a 67,0 ± 6,3% do VO2máx. O QRnp foi em média 0,89 ± 0,005, no pico de oxidação de gorduras. Na intensidade média, onde as taxas de oxidação de gorduras fo- ram máximas, a contribuição relativa de oxidação de gorduras para o dispêndio energético foi de 34,6 ± 1,6%. Discussão A seleção de combustível durante o exercício físico é depen- dente de diversos fatores, entretanto, a intensidade do exercício é um fator determinante. Quando a intensidade do exercício aumenta, o valor do QR aumenta concomitantemente [14], di- minuindo a contribuição das gorduras como fonte de energia [10]. Esse aumento do QR ocorre à medida que a produção do volume de CO2 aumenta desproporcionalmente em relação ao consumo de O2 [11], causando o acúmulo de íons de hidrogênio (H+) e, consequentemente, a diminuição do pH dos líquidos corporais e assim, podendo alterar a velocidade das reações metabólicas controladas por enzimas [10]. A teoria do cruzamento conceitua os efeitos da intensidade do exercício sobre o equilíbrio do metabolismo de carboidra- tos e lipídios durante o exercício prolongado [15]. Quando a intensidade do exercício aumenta além do pon- to de cruzamento, ocorre um desvio gradativo do catabolismo das gorduras para o catabolismo dos carboidratos, devido principalmente, ao recrutamento das fi bras rápidas, com o respectivo aumento das enzimas glicolíticas e pelo aumento do nível sérico de adrenalina [10]. Nossos resultados, no que diz respeito à intensidade do exercício e a oxidação do substrato, são consistentes com a teoria do cruzamento, já que os lipídios forneceram um pouco mais da metade da energia duranteo exercício de baixa in- tensidade, mas, com o aumento da intensidade do exercício, a participação relativa de lipídios diminuiu, enquanto que a participação de carboidratos aumentou. Em comparação com a tendência central da população apresentada na tabela III, o percentual de diferença entre as intensidades relativas médias do pico de oxidação de gorduras foi -1,0% (50,6% vs. 50,1%). As maiores taxas de oxidação de gorduras geralmente são encontradas em exercícios com intensidades baixa a moderada (variação de 33,0% a 65,0% do VO2máx.) [16]. Então, confrontando as intensidades da zona de máxima oxidação de gorduras com os nossos resultados, obtivemos o percentual de diferença -2,1% (33,7% vs. 33,0%) e -3,0% (67,0% vs. 65,0%). Tabela III - Intensidade relativa do exercício onde ocorre a taxa máxima de oxidação de gorduras. Autores População % VO2máx. Achten et al. [16] Ciclistas moderadamente trei- nados 64,0 Achten et al. [17] Homens treinados em endurance 62,5 Bogdanis et al. [7] Homens sedentários com sobre- peso 40,1 Mulheres sedentárias com sobrepeso 39,5 Deriaz et al. [18] Homens obesos 42,0 Maffeis et al. [5] Meninos pré-púberes (I tercil: SDS IMC 2,25) 44,0 Meninos pré-púberes (II tercil: SDS IMC 3,38) 49,0 Meninos pré-púberes (III tercil: SDS IMC 4,59) 52,0 Pérez-Martin et al. [19] Homens e mulheres com sobre- peso 33,3 Homens e mulheres com peso normal 50,1 Riddell et al. [20] Meninos (estágio de desenvolvi- mento: Tanner 1) 56,0 Meninos (estágio de desenvolvi- mento: Tanner 2/3) 55,0 Meninos (estágio de desenvolvi- mento: Tanner 4) 45,0 Steffan et al. [21] Mulheres obesas e mulheres com peso normal 50,0 Stisen et al. [22] Mulheres treinadas 53,0 Mulheres não treinadas 56,0 Venables et al. [23] Homens saudáveis 45,0 Mulheres saudáveis 52,0 Tendência central das amostras: 50,1 As intensidades relativas das dezoito populações heterogêneas foram expressas em médias. É interessante ressaltar que valores análogos ao do QRnp médio do pico de oxidação de gorduras (0,89 ± 0,005) foram encontrados em outros dois estudos. Em uma pesquisa das variações do QR, durante o exercício moderado (47,4% VO2máx.), em nove indivíduos saudáveis, com base na duração do exercício (30 minutos) e nas respostas metabólicas, foi alcançado o QR médio de 0,89 ± 0,02 após o nono minuto de exercício [24]. O QR médio de 0,89 ± 0,07 foi encontrado, também, durante a investigação da intensidade de pico de oxidação de gorduras em 55 indivíduos do sexo masculino treinados em endurance [17]. Nossos experimentos demonstraram ainda que o metabo- lismo de gorduras é um processo limitado em vários fatores 35Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 e que existe uma intensidade ideal para esta oxidação. Por exemplo, se um indivíduo com massa corporal de 65,9 Kg e VO2máx. absoluto de 2,94 L.min -1, permanecesse em repouso durante 60 minutos, então, 66,6% do gasto calórico seria de gorduras (QRnp 0,80), mas seriam gastos apenas 66 Kcal. No entanto, se este indivíduo praticasse exercício físico durante o mesmo período de tempo, na intensidade de pico da oxidação de gorduras (VO2máx., 49,3%), o percentual de utilização de gorduras diminuiria para 35,8% (QRnp 0,89), entretanto, o dispêndio energético subiria para 427 Kcal. Nesse caso, a velocidade de oxidação de gorduras durante o exercício, au- mentaria em aproximadamente 3,5 vezes do valor em repouso. Analisando-se o exemplo acima, verifi camos que o VO2 do exercício determinou o dispêndio energético global. Enquanto que o QRnp estabeleceu a quantidade de substratos energéticos que estavam sendo oxidados. Foi verifi cado, também, que o VO2 é diretamente propor- cional à velocidade de oxidação de gorduras, enquanto que o QRnp é inversamente proporcional. Assim, parece existir um ponto ideal na correlação entre o VO2 e o QRnp para a velocidade máxima de oxidação de gorduras (g.min-1). Conclusão Os resultados obtidos mostraram que a máxima utilização de gorduras durante o exercício ocorreu entre as intensidades de 33,7% e 67,0% do VO2máx., enquanto que o pico de oxida- ção de gorduras aconteceu em 50,6% do VO2máx. (QRnp 0,89). As semelhanças dos resultados, quando comparados a outros experimentos, demonstraram que a correlação entre o VO2máx. e o QRnp, através do cálculo linear, foi um efi ciente instrumento para se estimar a intensidade onde ocorre a má- xima oxidação de gorduras, podendo este método de baixo custo ser empregado numa extensa população. Referências 1. ACSM. Diretrizes do ACSM para os testes de esforço e sua prescrição. 7a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2007. 2. Mcardle WD, Katch FI, Katch VL. Fisiologia do exercício: ener- gia, nutrição e desempenho humano. 4nd ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998. 3. ACSM. Manual do ACSM para avaliação da aptidão física relacionada à saúde. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2006. 4. Heyward VH, Stolarczyk LM. Avaliação da composição corporal aplicada. São Paulo: Manole; 2000. 5. Maff eis C, Zaff anello M, Pellegrino M, Banzato C, Bogoni G, Viviani E, Ferrari M, Tatò L. Nutrient oxidation during moderately intense exercise in obese prepubertal boys. J Clin Endocrinol Metab 2005;90:231-36. 6. Åstrand PO, Rodahl K, Dahl HA, Strømme, SB. Tratado de fi siologia do trabalho: bases fi siológicas do exercício. 4a ed. Porto Alegre: Artmed; 2006. 7. Bogdanis GC, Vangelakoudi A, Maridaki M. Peak fat oxidation rate during walking in sedentary overweight men and women. Sports Sci Med 2008;7:525-31. 8. Maughan R, Gleeson M, Greenhaff PL. Bioquímica do exercício e do treinamento. São Paulo: Manole; 2000. 9. Marins JCB, Giannichi RS. Avaliação e prescrição de atividade física: guia prático. 3a ed. Rio de Janeiro: Shape; 2003. 10. Powers SK, Howley ET. Fisiologia do exercício: teoria e aplica- ção ao condicionamento e ao desempenho. 3a ed. São Paulo: Manole; 2000. 11. Wilmore JH, Costill DL, Kenney WL. Fisiologia do esporte e do exercício. 4a ed. São Paulo: Manole; 2010. 12. Guyton AC, Hall JE. Tratado de fi siologia médica. 9a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1997. 13. Jeukendrup AE, Achten J. Fatmax: a new concept to optimize fat oxidation during exercise? Eur J Sport Sci 2001;1(5):1-5. 14. Lindholm A. What determines fuel selection in relation to exercise? Proceedings of the Nutrition Society 1995;54:275-82. 15. Brooks GA, Mercier J. Balance of carbohydrate and lipid utili- zation during exercise: the “crossover” concept. J Appz Physiol 1994;76(6):2253-61. 16. Achten J, Gleeson M, Jeukendrup AE. Determination of the exercise intensity that elicits maximal fat oxidation. Med Sci Sports Exerc 2002;34:92-7. 17. Achten J, Jeukendrup AE. Maximal fat oxidation during exercise in trained men. Int J Sports Med 2003;24:603-8. 18. Dériaz O, Dumont M, Bergeron N, Després J-P, Brochu M, Prud´homme D. Skeletal muscle low attenuation area and maximal fat oxidation rate during submaximal exercise in male obese individuals. Int J Obes Relat Metab 2001;25:1579-84. 19. Pérez-Martin A, Dumortier M, Raynald E, Brun JF, Fédou C, Bringer J, Mercier J. Balance of substrate oxidation during submaximal exercise in lean and obese people. Diabets Meta- bolism 2001;27:466-74. 20. Riddell MC, Jamnik VK, Iscoe KE, Timmons BW, Gledhill N. Fat oxidation rate and the exercise intensity that elicits maximal fat oxidation decreases with pubertal status in young male subjects. J Appl Physiol 2008;105:742-48. 21. Steff an HG, Elliot W, Miller WC, Fernhall B. Substrate utili- zation during submaximal exercise in obese and normal-weight women. Eur J Appl Physiol Occup Physiol 1999;80:233-39.22. Stisen AB, Stougaard O, Langfort J, Helge JW, Sahlin K, Madsen K. Maximal fat oxidation rates in endurance trained and untrained women. Eur J Appl Physiol 2006;98:497-506. 23. Venables MC, Achten J, Jeukendrup AE. Determinants of fat oxidation during exercise in healthy men and women: a cross- sectional study. J Appl Physiol 2005;98:160-7. 24. Toda K, Oshida Y, Tokudome M, Manzai T, Sato Y. Eff ects of moderate exercise on metabolic responses and respiratory exchange ratio (RER). Nagoya J Med Sci 2002;65:109-13. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201136 Artigo original Comparação de diferentes números de repetições no alongamento dos músculos isquiotibiais em atletas do sexo feminino Comparison of different numbers of repetitions on the stretching of the hamstring muscles in female athletes Alisson Guimbala dos Santos Araujo, Ft. M.Sc.*, Karina da Costa Casagrande**, Kátia da Maia** *Especialista em Ortopedia e Traumatologia – FGG, Supervisor do Ambulatório de Disfunções Músculo-Esqueléticas – FGG, **Acadêmicas do Curso de Fisioterapia da Faculdade Guilherme Guimbala – FGG Resumo O alongamento é um exercício terapêutico que tem por função o aumento da extensibilidade musculotendínea, sendo no meio espor- tivo um dos recursos mais utilizados no aumento da fl exibilidade e prevenção de lesões. Portanto, o objetivo do estudo foi verifi car qual número de repetições é mais efi caz no alongamento dos músculos isquiotibiais em atletas do sexo feminino. A amostra foi composta de 36 atletas do sexo feminino, com idade 15-20 anos, distribuídas aleatoriamente em três grupos (n = 12) com variação no número de repetição em 1, 5 e 10 repetições. Os instrumentos utilizados foram cronômetro, banco de Wells e fl exímetro, e os sujeitos foram avaliados antes e após a intervenção que durou no total 4 semanas. A análise estatística foi descritiva (coefi ciente de variação) e paramétrica (ANOVA). Foi observado intragrupos um ganho percentual maior de G3 (8,2%) em relação aos outros grupos quando utilizado o fl exímetro, o mesmo ocorrendo com a utilização do banco de Wells G3 (9,4%), porém pela ANOVA os dados apresentaram resultados diferentes entregrupos sendo que G3 apresentou melhor desempe- nho com o uso do fl eximentro e com o banco. Conclui-se que 10 repetições é o número ideal para o ganho de fl exibilidade quando comparado intragrupos e entregrupos. Palavras-chave: flexibilidade, alongamento muscular, sistema musculoesquelético, atletas. Abstract Stretching is a therapeutic exercise which aims at increasing musculotendinous extensibility, and in sports it is one of the most commonly used resources to increase fl exibility and prevent injuries. Th erefore, the purpose of this study was to determine which number of stretching repetitions of the hamstring muscle in female athletes is the most eff ective. Th e sample consisted of 36 female athletes, aged 15-20 years, randomly divided into three groups (n = 12) with variation of repetition 1, 5 and 10 repetitions. Chronometer, Wells Bench and fl eximeter were used as instrument, and the subjects were evaluated before and after the intervention which lasted 4 weeks in total. Th e analysis used descriptive statistics (coeffi cient of variation) and parametric (ANOVA). It was observed within the groups a higher percentual gain of G3 (8.2%) compared to the other groups when using a fl eximeter as well as with the Wells bench G3 (9.4%); on the other hand, data showed diff erent results by ANOVA among groups, the G3 showed better performance with the fl eximeter and the bench. We conclude that 10 repetitions is the ideal number to gain fl exibility when compared within groups and among groups. Key-words: flexibility, stretch muscular, musculoskeletal system, athletes. Recebido em 8 de setembro de 2010; aceito em 1 de dezembro de 2010. Endereço para correspondência: Alisson Guimbala dos Santos Araujo, Rua São José, 490, 89202-010 Joinville SC, Tel: (47) 3026- 8251, E-mail: alisson.araujo@ace.br 37Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Introdução Flexibilidade pode ser defi nida como a capacidade do músculo estender-se movimentando uma ou mais articulações em uma determinada amplitude de movimento (ADM) [1,2], sendo essencial para um bom desempenho físico, e impor- tante componente ao bem-estar e melhora da performance esportiva [3]. Já alongamento é uma manobra terapêutica aplicada para aumentar a extensibilidade musculotendínea, do tecido conjuntivo muscular e periarticular, contribuindo para melhorar a fl exibilidade [4,5], onde as modalidades mais utilizadas são o método estático, o ativo e a facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP) [4-6]. Algumas alterações no músculo como encurtamentos ou contraturas podem limitar a ADM, restringindo assim a ação muscular e alterando toda a biomecânica articular, tor- nando as articulações mais suscetíveis a lesões [7]. O grupo muscular isquiotibial é um dos mais encurtados devido ao sedentarismo, o qual é caracterizado pela redução parcial de uma unidade musculotendínea saudável resultando em limi- tação da mobilidade [8]. Estudos descrevem o alongamento estático como o mais efetivo para o aumento de fl exibilidade dos isquiotibiais [9,10]. Vários autores destacam a importância e os efeitos favo- ráveis do alongamento, tais como o aumento do rendimento do atleta, prevenir e tratar lesões musculoesqueléticas e dis- túrbios posturais, recuperar funções em pós-operatório ou pós-imobilização, relaxamento, aquecimento muscular e pro- mover saúde [5-7,10]. Em um estudo que objetivou verifi car o aumento da fl exibilidade nos isquiotibiais, observou-se como resultado a diminuição do número de lesões nos membros inferiores de militares e aumento da fl exibilidade, realizando um protocolo de alongamento com três sessões diárias durante 13 semanas [4]. Torna-se notável, em estudos utilizando o alongamento estático, a variedade de tempos recomendados para a manu- tenção da posição fi nal (7 a 60 segundos) e do número de repetições (1 a 10) [11-15]. Um estudo comparou os efeitos de três diferentes tempos (15, 30 e 60s), utilizando alonga- mento estático nos isquiotibiais por vários dias, encontrando ganho na ADM com o tempo de 30s [11], três estudos sendo 2 em humanos [16,17] e um em animais [18] que avaliaram o efeito do alongamento, observaram que a maior parte do relaxamento de estresse ocorria durante os primeiros 12 a 20s, entretanto nos animais foi pesquisado o número de repetições e observou-se aumento signifi cativo do comprimento em relação à repetição anterior durante as 4 primeiras repetições. Outro estudo [19] atribuiu também que quanto maior o número de repetições e mais tempo de duração melhor será o efeito do alongamento. Porém Grandi [20] apresenta a possibilidade de que quan- to maior o tempo de duração, maior intensidade dos efeitos de cada sessão utilizando 4 repetições e considera o tempo de 30s para cada repetição exagerado, pois o relaxamento do estresse ocorre em 18s. Já Achour Junior [21] descreve que poucas repetições de alongamento estático de curta duração (10 a 20s) podem ser realizadas antes de algum exercício que utilize força prevenindo assim lesões musculares. Portanto, para um bom treino de fl exibilidade é necessário o uso de parâmetros adequados de alongamento. Estudos de- monstram técnica adequada, tempo entre as sessões, número de repetições, frequência e intensidade de tensão que deve ser aplicada no músculo durante o alongamento [1,5-10]. Porém ainda existem divergências quanto ao número de repetições, sobre qual seria o mais ideal para se utilizar na área clínica ou no desporto, pois esses estudos são realizados com tempose números de repetições diferentes não sendo padronizados mesmo tempo e alternância nas repetições e na aplicação do alongamento estático. Na pesquisa se trabalhou com a seguinte hipótese: será que existe diferença no ganho de fl exibilidade se trabalhando com o mesmo tempo, mas alternando as repetições? O objetivo foi verifi car qual número de repetições é mais efi caz no alongamento dos músculos isquiotibiais em atletas do sexo feminino. Material e métodos A amostra foi composta por 36 atletas das modalidades de basquete, voleibol e handebol do sexo feminino, com idade entre 15 e 20 anos, do Centro de Treinamento Ivo Varela. Como critério de inclusão todas as atletas deveriam ser fi si- camente ativas, sem nenhuma lesão associada que pudesse vir a comprometer a pesquisa. As atletas receberam uma explicação do procedimento a que seriam submetidas, do objetivo do estudo e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. As menores de idade foram autorizadas pelos pais ou responsáveis através do mesmo termo. O projeto foi submetido e teve a aprovação do Comitê de Ética do Hospital Municipal São José (parecer 10033) conforme as resoluções nacionais 196/96 e 251/97 relacionadas a pesquisas envolvendo seres humanos. Como instrumento de pesquisa utilizou-se um cronô- metro da marca Cassio® para marcar o tempo, o Banco de Wells da marca Terra Azul® para avaliação da fl exibilidade da musculatura de cadeia posterior e o fl exímetro da marca TM, Code Research Institute®, para avaliação da fl exibilidade da musculatura dos isquiotibiais. Inicialmente foi realizada uma pré-avaliação em que cada procedimento foi repetido três vezes e a média das três men- surações foi o valor considerado no estudo. As atletas foram posicionadas em decúbito dorsal com o membro oposto ao da medida em zero graus no quadril e joelho, para melhor controle do posicionamento da pelve. O membro inferior medido foi posicionado a 90 graus de quadril e joelho sendo lentamente estendido até a primeira sensação de desconforto, enquanto a posição era mantida a avaliação foi realizada com o fl exímetro. A medida com o Banco de Wells foi realizada com as atletas sentadas de frente para o banco, colocando os pés no Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201138 apoio com os joelhos estendidos, ergue-se o braço e sobrepõe uma mão a outra e leva as duas para frente até que toquem a régua que está no banco. Os resultados foram obtidos de acordo com a pontuação atingida na régua. Após as avaliações as atletas foram submetidas a séries de alongamento que foram realizadas de forma ativo-assistido, onde uma atleta manteve-se sentada com membros inferiores estendidos e paralelos um ao outro, enquanto a outra auxiliava de forma passiva. Cada grupo de atletas realizou números de repetições diferentes, sendo grupo G1 uma repetição, grupo G2 cinco repetições e grupo G3 dez repetições de 30 segun- dos cada um, realizando 3 sessões por semana, com total de 10 minutos cada sessão perfazendo um total de 10 sessões de intervenção. Ao término das sessões de alongamento as atletas submete- ram-se a novas avaliações com os mesmos instrumentos e pro- cedimentos no intuito de verifi car qual número de repetições foi mais efi caz. O período total da pesquisa foi de 4 semanas. A fi m de analisar a relevância de diferença foi aplicada a análise paramétrica pelo programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS/15), utilizando o teste estatístico ANOVA (p < 0,05) para comparação entre grupos G1, G2 e G3, e análise descritiva (média, desvio padrão e coefi ciente de variação). Resultados Observa-se nas tabelas apresentadas abaixo alterações ocorridas na avaliação do nível de fl exibilidade das atletas durante a aplicação do protocolo, cuja participação foi de 98%, pois 2% da amostra faltou durante a intervenção sendo, dessa forma, excluída. A Tabela I apresenta a avaliação intragrupo do fl exímetro, pré e pós-avaliação calculados pela média e desvio padrão, de acordo com cada número de repetição onde identifi cou-se ganhos de -0,2% (G1), 1,2% (G2) e 8,2% (G3) pelo coefi - ciente de variação. Tabela I - Média e desvio padrão dos grupos utilizando o fl exímetro. Pré Pós 1 repetição 150,30 (± 11,82) 149,85 (± 10,31) 5 repetições 157,58 (± 9,03) 159,55 (± 11,37) 10 repetições 143,03 (± 11,50) 154,85 (± 12,50) Calculando-se pelo teste estatístico ANOVA (p < 0,05*), os resultados demonstram que G3 apresentou maior ganho de fl exibilidade quando comparados entre grupos G1xG2 (0,836*) e G1xG3 (1,789*). A Tabela II apresenta os resultados da média e desvio padrão pelos grupos. Os resultados intragrupos do Banco de Wells pré e pós-avaliação calculados pelo coefi ciente de variação foram de 8,1% (G1), 2,7% (G2) e 9,4% (G3). Tabela II - Média e desvio padrão dos grupos utilizando o Banco de Wells. Pré Pós 1 repetição 29,64 (± 6,28) 32,06 (± 5,07) 5 repetições 31,04 (± 5,05) 31,89 (± 5,95) 10 repetições 32,02 (± 6,61) 35,05 (± 5,39) Os dados relativos ao teste estatístico ANOVA (p < 0,05*) evidenciaram também que G3 apresentou diferença signifi ca- tiva (maior ganho de fl exibilidade) quando comparados entre grupos G1xG2 (0,624*) e G1xG3 (3,350*). Discussão A presente pesquisa demonstrou que o alongamento es- tático utilizado com 10 repetições em um grupo de mulheres adultas jovens, após 4 semanas de intervenção, tornou-se efi ciente para o ganho de fl exibilidade do grupo muscular isquiotibial. Outro fator importante foi o tempo de 30s, pois estudos comentam ser esse o ideal corroborando com o tempo utilizado na pesquisa. Em um estudo que avaliou a duração do alongamento estático dos isquiotibiais, verifi cou-se que entre 30 e 60 s não houve diferença signifi cativa, demonstrando que 30 segundos é um tempo favorável de alongamento estático [11,22] igualando com outro estudo que comenta também ser 30 s o tempo ideal [2]. Porém, outro discorda comentando que 10 s seriam ideais para o ganho de fl exibilidade [23]. Entretanto, em relação ao número ideal de repetições, ainda ocorrem várias divergências em relação aos resultados dos estudos. O presente estudo relata serem 10 repetições o número ideal, o que não corrobora com os estudos em questão. Como o estudo que avaliou a frequência ideal de alongamento em 93 indivíduos, com idade de 21 a 39 anos, divididos em 5 grupos comprovando ser uma repetição de 30 s a mais efi caz para o ganho de fl exibilidade [22]. Outro objetivou comparar duas doses ideais de alongamento realiza- do em 8 indivíduos com idade entre 22 a 33 anos utilizando em um grupo 4 repetições e outro uma repetição. Verifi cou- se que, após três semanas, realizando os exercícios uma vez por semana encontrou-se ganho de ADM nos dois grupos e, portanto, não havendo diferença signifi cativa [20]. O mesmo ocorreu em estudo que avaliou a frequência de alongamento dos músculos isquiotibiais, utilizando uma amostra de 36 mulheres distribuídas em 4 grupos (n = 9), com intervenção de alongamento, cinco dias por semana, durante duas semanas consecutivas, com variação de uma, três e seis manobras por sessão. Verifi cou-se que houve ganho de amplitude signifi cativo em relação ao grupo controle, mas não entre eles mesmos, concluindo não haver diferença em relação ao ganho tardio quando se utilizam uma, três ou seis manobras de alongamento [24]. Outro comparou diferentes números de repetições no alongamento dos isquiotibiais em uma amostra de 33 indi- víduos com idade entre 8 e 11 anos, de ambos os sexos, divi- 39Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 didos em três grupos, realizando 1, 5 e 10 intervenções com o tempo de 30s. Todos os resultados apresentaram diferença significativa entre grupos evidenciando-se que 5 repetições seriam ideais [25]. Porém estudos corroboram com a presente pesquisa, pois atribuem que quanto maior o número de repetições melhor será o efeito do alongamento [19,20], tal como o que objetivou avaliar os efeitos de 10 séries de 30s e três séries de três minutos de alongamento estático passivo na fl exibi- lidade dos músculos isquiotibiais, realizado em 25 mulheres (17 a 25 anos) dis tribuídas aleatoriamente em três grupos, durante 6 semanas. Verifi cou-se que não houve diferença estatisticamente signifi cante na ADM de joelho entre 30s e três minutos após seis semanas e que 10 séries de 30 segundos e três séries de três minutos podem aumentar a fl exibilidade dos isquiotibiais [26]. Outra pesquisa realizada para avaliar a melhora da fl exi- bilidade do ombro com limitação de ADM, após um treino de 6 semanas, com 1 repetição de 30s de alongamento pas- sivo estático, constatou que houve ganho de ADM. Porém quanto maior a limitação menor o ganho de amplitude [27]. Dessa forma a presente pesquisa evidencia que 10 repetições seriam ideais para o ganho de fl exibilidade no grupo muscular isquiotibial. Conclusão Este estudo apresenta limitações, pois a amostra se res- tringiu drasticamente a 12 atletas por grupo não sendo pos- sível generalizar os dados encontrados. Porém ressalta-se, no entanto, que foi possível observar diferenças entre os grupos estudados tanto com o uso do fl exímetro quanto do banco de Wells, mesmo com a amostra relativamente pequena. Os dados apresentados não corroboram com a literatura devido aos poucos estudos realizados com número de repetições di- ferentes e mesmo tempo, pois a literatura estudada emprega número de repetições diferentes com tempos diferentes. O presente estudo contribuiu para dar suporte à evidência de que 10 repetições, quando comparada intragrupos e entre grupos, tanto com o fl exímetro quanto com o banco, se tornou mais efi caz verifi cando, assim, que a realização de alongamento antes da prática esportiva contribuiu para a melhora signifi cativa do comprimento do músculo (ganho de amplitude de movimento), podendo assim levar a prevenção de lesões musculares. Referências 1. Voigt L, Vale RGS, Abdala DW, Freitas WZ, Novaes JS, Dantas EHM. Efeitos de uma repetição de dez segundos de estimulo do método estático para o desenvolvimento da fl exibilidade de homens adultos jovens. Fitness and Performance Journal 2007;6:352-6. 2. Rosario JLP, Sousa A, Cabral CMN, João SMA, Marques AP. Reeducação postural global e alongamento estático segmentar na melhora da fl exibilidade, força muscular e amplitude de mo- vimento: um estudo comparativo. Fisioter Pesqui 2008;15:12-8. 3. Badaro AFV, Silva AH, Beche D. Flexibilidade versus alonga- mento: esclarecendo as diferenças. Saúde 2007;33:32-6. 4. Almeida PHF, Barandalize D, Ribas DIR, Gallon D, Macedo ACB, Gomes ARS. Alongamento muscular: suas implica- ções na performance e na prevenção de lesões. Fisioter Mov 2009;22:335-43. 5. DI Alencar TAM, Matias KFS. Princípios fi siológicos do aque- cimento e alongamento muscular na atividade esportiva. Rev Bras Med Esporte 2010;16:230-4. 6. Gama ZAS, Dantas AVR, Souza TO. Infl uência do intervalo de tempo entre as sessões de alongamento no ganho de fl exibi- lidade dos isquiotibiais. Rev Bras Med Esporte 2009;15:110-4. 7. Rosa AC, Montandon I. Efeitos do aquecimento sobre a am- plitude de movimento: uma revisão critica. Rev Bras Ciênc Mov 2006;14:103-10. 8. Tirloni AT, Belchior ACG, Carvalho PTC, Reis FA. Efeito de diferentes tempos de alongamento na fl exibilidade da muscula- tura posterior da coxa. Fisioter Pesqui 2008;15:62-70. 9. Davis DS, Ashby PE, McCale KL, McQuain JA, Wine JM. Th e eff ectiveness of 3 stretching techniques on hams tring fl exibility using consistent stretching parameters. J Strength Cond Res 2005;19:27-32. 10. Bandy WD, Irion JM, Briggler M. Th e eff ect of static stretch and dynamic range of motion training on the fl exibility of the ha- mstring muscles. J Orthop Sports Phys Th er 1998;27: 295-300. 11. Bandy WD, Irion JM. Th e eff ect of time on static stretch on the fl exibility of the hamstring muscles. Phys Th er 1994;74:845-50. 12. Condon SM, Hutton RS. Soleus muscle electromyographic activity and ankle dorsifl exion range of motion during four stretching procedures. Phys Th er 1987;67:24-30. 13. Godges JJ, MacRae PG, Engelke KA. Eff ects of exercise on hip range of motion, trunk muscle performance, and gait economy. Phys Th er 1993;73:468-77. 14. Li Y, McClure PW, Pratt N. Th e eff ect of hamstring muscle stretching on standing posture and hip motions during forward bending. Phys Th er 1996;76:836-45. 15. Tanigawa MC. Comparison of the hold-relax procedure and passive mobilization on increasing muscle length. Phys Th er 1972;52:725-35. 16. Magnusson SP, McHugh M, Gleim G, Nicholas J. Tension decline from passive static stretch. Med Sci Sports Exerc 1993;25:140. 17. McHugh M, Magnusson SP, Gleim G, Nicholas J. Viscoelastic stress relaxation in human skeletal muscle. Med Sci Sports Exerc 1992;24:1375-82. 18. Taylor DC, Dalton JD, Seaber AV, Garret WE. Viscoeiastic properties of muscle-tendon units: Th e biomechanical eff ects of stretching. Am J Sports Med 1990;18:300-9. 19. Magnusson SP, Simonsen EB, Aagaard, P, Gleim G, McHugh M, Kjaer M. Viscoelastic response to repeated static stretching in human skeletal muscle. Scand J Med Sci Sport 1995;5:342-7. 20. Grandi L. Comparação de “Duas doses” ideais de alongamento. Acta Fisiátrica 1998;5:154-8. 21. Achour Junior A. Exercícios de alongamento: anatomia e fi sio- logia. São Paulo: Manole; 2002. 22. Bandy WD, Irion JM, Briggler M. Th e Eff ect of time and frequency of static stretching on fl exibility of the hamstring muscles. Phys Th er 1997;77:1090-6. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201140 23. Borms J, Van Roy P, Santens JP, Haentjeans A. Optimal dura- tion of static stretching exercises for improvement of coxofe- moral fl exibility. J Sports Sci 1987;5:39-47 . 24. Gama ZAS, Medeiros CAS, Dantas AVR, Souza TO. Infl uência da frequência de alongamento utilizando facilitação neuromus- cular proprioceptiva na fl exibilidade dos músculos isquiotibiais. Rev Bras Med Esporte 2007;13:33-8. 25. Araujo AGS, Maiochi AM. Comparação diferentes números repetições no alongamento de isquitibiais. In: XVII Congresso Brasileiro de Fisioterapia 2009, Rio de Janeiro. Fisioter Pesqui 2009;16. 26. Milazzotto MV, Corazzina LG, Liebano RE. Infl uência do número de séries e tempo de alongamento estático sobre a fl e- xibilidade dos músculos isquiotibiais em mulheres sedentárias. Rev Bras Med Esporte 2009;15:420-3. 27. Azevedo DC, Carvalho SC, Leal EWPS, Damasceno SP, Ferreira ML. Infl uencia da limitação da amplitude de movimento sobre a melhora da fl exibilidade do ombro após um treino de seis semanas. Rev Bras Med Esporte 2008;14:119-21. 41Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Revisão Manipulação da ordem dos exercícios na prescrição do treinamento resistido Manipulation of the order of exercises in the prescription of resistance training Ramires Alsamir Tibana*, Sandor Balsamo** *Centro Universitário UNIEURO, Curso de educação física, Brasília/DF, GEPEEFS (Grupo de Estudo e Pesquisa em Exercício de Força e Saúde), Brasília/DF, **Centro Universitário UNIEURO, Curso de educação física - Brasília/DF, GEPEEFS (Grupo de Estudo e Pesquisa em Exercício de Força e Saúde), Brasília/DF, Programa de Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Brasília, Brasília/DF Resumo Esta revisão foi realizada a partir da seleção de 11 estudos, queforam agrupados por similaridade de tratamento (estudos com respostas agudas e crônicas). Os mesmos foram analisados qualitativamente com descrições de doses e respostas. Nos estudos que avaliaram as respostas agudas, os resultados indicaram que os exercícios realizados ao fi nal de cada sequência sempre haverá uma diminuição no número de repetições, independente da ordem dos exercícios. A maioria dos estudos foram realizados com indivíduos jovens e treinados, em idosas limitações de estudos não permitem estabelecer conclusões. Os estudos crônicos são escassos, apenas dois realizados até o momento, e a resposta da força muscular parece responder melhor nos grupamentos musculares treinados no início da sessão, independente da ordem. Quanto à hipertrofi a muscular, esta parece não ser dependente da ordem dos exercícios. No entanto, apenas um estudo foi realizado até o momento. Palavras-chave: ordem dos exercícios, número de repetições, força muscular, espessura muscular. Abstract Th is review was carried out based on 11 selected studies, which were grouped by treatment similarity (studies of acute and chronic responses). Th ey were analyzed qualitatively with dose-response descriptions. Studies which evaluated acute responses showed that exercises performed at the end of each sequence will always result in a decrease in the number of repetitions, independent of the exercise order. Th e majority of studies were conducted with young and trained individuals; in elderly women limitations of studies do not allow conclusions. Chronic studies are restricted (only two) and the response of the muscle strength seems to respond better in the muscle groups trained at the beginning of the training session regardless of the order. As for muscle hypertrophy, it seems not to be dependent on the order of the exercises. However, only one study was carried out until now. Key-words: exercise order, repetitions, muscle strength, muscle thickness. Recebido em 1 de setembro de 2010; aceito em 8 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Ramires Alsamir Tibana, Centro Universitário Euro-Americano, Laboratório de Avaliação do Desempenho Físico e Saúde, Av. das Nações, Trecho 0, Conjunto 5, Brasília DF, Tel: (61) 9616-8340, E-mail: ramirestibana@hotmail.com Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201142 Introdução O treinamento resistido (TR) é geralmente prescrito para promover o aumento na força absoluta, potência, hipertrofi a e resistência muscular. Dependendo dos objetivos e das neces- sidades individuais, diversas variáveis podem ser consideradas no delineamento do TR, como o número de exercícios, séries, intensidade de esforço, ordem dos exercícios, velocidade de execução e intervalo de recuperação entre as séries [1]. A sequência tradicional dos exercícios determina que sejam realizados os exercícios para grandes grupos musculares ou os que envolvem várias articulações antes dos pequenos grupos musculares. O raciocínio para essa sequência de exercícios é que, ao realizar os exercícios que envolvem várias articulações no início de uma sessão de treinamento, um estímulo superior é fornecido aos músculos envolvidos, o qual acredita ser de- corrente de uma maior resposta neural, metabólica, hormonal, e circulatória [2-4]. Contudo, estudos têm demonstrado que exercícios po- sicionados ao fi nal de uma sequência de exercícios resultam em menores repetições quando comparados com os mesmos exercícios realizados no início da sessão de treinamento, inde- pendente do grupamento muscular [5-8]. Além disso, Dias et al. [9], em um primeiro estudo prospectivo de oito semanas com 48 homens destreinados (18,7 ± 1,5 anos), compararam aleatoriamente três grupos: o primeiro iniciava os exercícios para grandes grupamentos e progredia para pequenos gru- pamentos musculares; o segundo realizava a série oposta; e o terceiro serviu como grupo controle. E constataram que os exercícios posicionados no início da sessão foram os que ob- tiveram maiores níveis de força muscular, quando comparado aos exercícios posicionados ao fi nal da sessão de treinamento, independente do grupamento muscular. Entretanto, diferen- ças signifi cativas entre os grupos de treinamento ocorreram apenas para o grupo que iniciou a sessão de treino do pequeno para o grande grupamento muscular, onde os exercícios de extensão e fl exão de cotovelo foram signifi cativamente supe- riores ao grupo que iniciava a sessão dos exercícios multi para os monoarticulares. Com diversos confl itos na literatura acerca da manipulação da ordem dos exercícios na prescrição do TR, esta revisão teve como objetivo analisar e discutir a relação da ordem dos exercícios no desempenho das séries subsequentes, na potência e na força e hipertrofi a muscular. Métodos Foi conduzida uma revisão com base nos seguintes critérios de inclusão: a) estudos experimentais cujos tratamentos en- volviam exclusivamente treinamento com pesos e ordem dos exercícios; b) amostras compostas por indivíduos saudáveis de ambos os sexos. Foram analisados estudos publicados e encontrados através de busca eletrônica no Pubmed, Medline, Scielo e SportDiscus. Na seleção inicial foram encontrados 15 estudos, dos quais 11 atenderam aos critérios para inclusão. A partir de então, foram analisados separadamente os resultados obtidos em estudos agudos e crônicos. Resultados Os resultados estão apresentados em respostas agudas do treinamento (Tabela I) e respostas crônicas (Tabela II) de acordo com as características gerais dos 11 estudos de acordo com: amostra, protocolos, coletas e resultados. Tabela I - Efeitos agudos de diferentes ordens dos exercícios. Estudo Amostra Protocolo Coletas Resultados Sforzo e Touey [2] 17H –T (18 a 29 anos) 4 séries, 8RM; IR: 3 min. entre as séries; IR: 5min, entre os exercícios; SEQ-GP = AG, CE, FP, SH, DS, TP SEQ-PG = TP, DS, SH, FP, CE, AG VT (kg) e IF VT: SEQ GP > PG VT SEQ GP 1ª série: 5049 kg VT SEQ PG 1ª série: 3674 kg VT SEQ GP 4ª série: 1301 kg VT SEQ PG 4ª série: 1137 kg IF SEQ GP 1ª para 4ª série: – 44% IF SEQ PG 1ª para 4ª série: – 31,9% Simão et al. [5] 14H - T 4M - T (20 anos) 3 séries, 10RM, IR. 2min; SEQ-GP = SH, PF, DS, RB, TP. SEQ-PG = TP, RB, DS, PF, SH. Número de repetições e PSE (Borg CR 10) Em ambas as sequências uma queda simi- lar no número de repetições nos exercícios realizados ao final da série; PSE: SEQ-GP = SEQ-PG Monteiro et al. [6] 12M - T (22 ± 2 anos) 3 séries, 10RM, IR. 3min; SEQ- GP = SH, DS, TP; SEQ-PG = TP, DS, SH Número de repetições e PSE (Borg CR 10) Em ambas as sequências uma queda simi- lar no número de repetições no exercícios realizados ao final da série; PSE: SEQ-GP = SEQ-PG Simão et al. [7] 23M - T (24 ± 4,5 anos) 3 séries, 80% de 1RM, IR. 2min; SEQ-GP = SH, DES, TP, LP, CE, FP; SEQ-PG = FP, CE, LP, TP, DES, SH Número de repetições e PSE (Borg CR 10) Em ambas as sequências uma queda simi- lar no número de repetições nos exercícios realizados ao final da série para membros inferiores e membros superiores; PSE: SEQ-GP = SEQ-PG 43Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Novaes et al. [8] 13H - T (23 ± 2,5 anos) 3 séries, 8RM; IR: 3 min. entre as séries; IR: 5min, entre os exercícios; SEQ-GP = SH, SI, SD, TP, TT; SEQ-PG = TT, TP, SD, SI, SH Número de repetições SEQ-GP e SEQ-PG: NS Bellezza et al. [11] 18M – T 11H - T (20,9 ± 1,9 anos) 2 séries: 1ª série, 80% de 10RM, 2ª série 10RM; IR. 1min. SEQ-GP = SM, LP, RE, CE, DS, FP, RB, FPA, TP; SEQ-PG = TP, FPA, RB, FP, DS, CE, RE, LP, SM Média no número total de repetições, lactato san- guíneo e PSE (BorgCR 10) SEQ-PG média total de repetições > SEQ- GP (9,9 ± 0,3 vs 9,8 ± 0,1; p = 0,01); Lactato: SEQ-GP = SEQ-PG; PSE:SEQ-GP = SEQ-PG Farinatti et al. [10] 10M - T (22 ± 2 anos) 3 séries, 10RM, IR. 3min; SEQ-GP = SH, DS, TP; SEQ-PG = TP, DS, SH Número de repetições Em ambas as sequências uma queda simi- lar no número de repetições nos exercícios realizados ao final da série Silva et al. [14] (a) 12 M jovens - T (22 ± 2 anos); (b) 8 M idosas- T (69 ± 7 anos) 3 séries, 10RM, IR. 3min; SEQ-GP = SH, DS, TP; SEQ-PG = TP, DS, SH Média nú- mero total de repetições em 3 séries e PSE (Borg CR 10) (a) Em ambas as sequências uma queda similar no número total de repetições no exercício realizado ao final da série; Curiosamente no exercício TP quando realizado primeiramente (SEQ-PG) ocorreu um maior número total de repetições quan- do comparado ao exercício SH quando realizado inicialmente (SEQ-PG); SEQ-GP = SEQ-PG para o exercícios DP (no meio da série); PSE: SEQ-GP = SEQ-PG (b) SEQ-GP o número total de repetições permaneceu estável ao final da série nos exercícios DS e TP; SEQ-PG: queda no número total de repe- tições apenas no exercício SH; (exercício executado ao final da série); PSE: SEQ-PG > SEQ-GP (p < 0,05) (a,b) PSE: SEQ-GP idosas > jovens Spreuwenberg et al. [12] 9H - T (24 ± 4 Anos) AG 4 séries a 85% de 1RM; demais exercícios 3 séries de 8 a 10RM, IR. 2 min. menos para a última série do AR que foi de 4-5 min. Protocolo A = Apenas AG; Protocolo B = SH, AV, RE, RB, LT, AB, AR e por fim o AG. Número de repetições, potência mus- cular (Fitro Dyne) e PSE (Borg CR 10) Protocolo A: maior número de repetições; Protocolo B: maior potência muscular; PSE: Protocolo A = Protocolo B H = Homens; M = Mulheres; D = Destreinados; T = Treinados; VT = Volume de treinamento (carga x número de repetições) SEQ-GP = Seqüência grande para pequenos grupamentos musculares; SEQ-PG = Seqüência pequenos para grandes grupamentos musculares; IF = fatiga em percentual da 1ª para 4ª série; PSE (Borg CR 10) = Percepção subjetiva de esforço pela escala de Borg; Int. = Intervalo; Vel. = Velocidade; CE = Cadeira extensora; LP = Leg press; AG = Agachamento; RM = Repetição máxima; IR = Intervalo de recuperação; AG = Agachamento; AR = Arremesso; AB = Abdominal; SH = Supino Horizontal; AV = Avanço; RE = Remada; RB = Rosca Bíceps; LT = Levantamento Terra; AB = Abdominal; NS = Sem diferença; Respostas agudas em diferentes ordens dos exercícios Em 2002, o Colégio Americano de Medicina do Esporte [3] recomendou que para os ganhos ótimos na força muscular os exercícios deveriam ser realizados primeiramente para os grandes grupamentos musculares e em seguida os exercícios para os pequenos grupamentos musculares. Esta recomendação partiu apenas do estudo realizado por Sforzo e Touey [2], que analisaram a manipulação da ordem do exercício no volume de treino, utilizando-se de duas sessões de treinamento, sendo que a primeira sequência consistia dos exercícios: agachamento, cadeira extensora, cadeira fl exora, supino, desenvolvimento e extensão de cotovelo, e a segunda sequência foi o inverso da primeira. Demonstraram que a taxa de fadiga e o volume Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201144 total de treino, para o supino e agachamento sofreram um decréscimo substancialmente signifi cativo, quando exercícios uniarticulares foram precedidos de exercícios multi-articulares. No entanto, os estudos de Simão et al., Monteiro et al., Simão et al., Novaes et al. e Farinatti et al. [5-8,10] examinaram o número de repetições realizadas com a utilização de diferentes ordens dos exercícios, durante uma sessão de treinamento, divi- dindo os grupos em ordem dos grandes para os pequenos e de pequenos para os grandes grupamentos musculares, e demons- traram que independente da ordem dos exercícios o número de repetições foi sempre menor nos exercícios posicionados no fi nal da sequência dos exercícios. Entretanto, o estudo realizado por Bellezza et al. [11] apresentou resultado contraditório ao anali- sarem o efeito de diferentes ordens dos exercícios no número de repetições, lactato sanguíneo e percepção subjetiva de esforço (PSE), em que o número de repetições foi signifi cativamente superior quando eram realizados os exercícios de pequenos para os grandes grupamentos musculares, já para o lactato e a PSE não houve diferenças signifi cativas entre as sequências. Em relação à potência muscular, o único estudo realiza- do analisando a taxa de potência após diferentes ordens dos exercícios (Tabela I) foi desenvolvido por Spreuwenberg et al. [12] que demonstraram que a sequência dos exercícios também é capaz de facilitar a potência de um exercício apesar das reduções do trabalho total e do número de repetições realizadas em uma série. Quando o exercício de agachamento foi executado em primeiro lugar em uma sessão de exercícios, um número maior de repetições pôde ser realizado com 85% de 1RM (8,0 ± 1,9). Opostamente, quando o agachamento foi feito no fi nal de uma sessão de treinamento, um menor número de repetições pôde ser realizado (5,4 ± 2,7) uma diferença de 32%, no entanto, não foi signifi cativamente diferente. Mas, uma maior potência resultante (p < 0,01) foi observada durante as repetições executadas. Respostas crônicas em diferentes ordens dos exercícios Recentemente Dias et al. [9] em um primeiro estudo prospectivo de oito semanas com 48 homens destreinados (18,7 ± 1,5 anos) comparou aleatoriamente três grupos (tabela II): o primeiro (G1) começava com exercícios para grandes Tabela II - Efeitos crônicos de diferentes ordens dos exercícios. Estudo Amostra Protocolo Coletas Resultados Dias et al. [9] G1 = 16H – D (18,7 ± 1,5 anos); G2 = 17H – D (19,4 ± 1,4 anos); GC = 15H - D (18,8 ± 1,6 anos) Estudo controlado randomizado e prospectivo de 8 semanas, 3x por semana: 3 séries, 8 a 12 RM, IR. 2min entre as séries, 48 horas entre as sessões de treino; G1 = SEQ-GP: SH, PF, DS, RB e TP; G2 = SEQ-PG: TP, RB, DS, PF, SH; GC = Grupo controle Pré e após 8 sema- nas: 1RM 1RM: G1 e G2 aumentaram a força no teste de 1RM após 8 semanas, no entanto, apenas o G2 apresentou diferença significativa em relação ao GC e ao G1 no aumento da força muscular no TP e RB Simão et al. [13] G1 = 9H – D (29,9 ± 1,9 anos); G2 = 13H – D (29,1 ± 2,9 anos); GC = 9H – D (25,9 ± 3,6 anos) Estudo controlado randomizado e prospectivo de 12 semanas 2x por semana: Semana 1-4: 4 séries, 12 a 15 repetições, IR. 1min; Semana 5 a 8: 3 séries 8 a 10 repetições, IR. 2min; Semana 9 a 12: 2 séries 3 a 5 repetições, IR. 3min, com pelo menos 72h de intervalo entre as sessões de treino; G1 = SEQ-GP: SH, PF, TP e RB, TP; G2 = SEQ-PG: RB, TP PF, SH; GC = Grupo controle Pré e após 12 semanas: 1RM e avaliação do volume muscular do tríceps e bíceps braquial (ultrasom) 1RM: G1 e G2 > GC (exceto a RB para o grupo G1); Volume muscular tríceps braquial: G1 e G2 > GC; Volume muscular bíceps braquial: G1 > GC G = Grupo; GC = Grupo controle; IR = Intervalo de recuperação; SH = Supino horizontal; PF = Puxada pela frente; DS = Desenvolvimento; RB = Rosca bíceps; TP = Tríceps; RM = Repetição máxima; SEQ-GP = Sequência do grande para o pequeno grupamento muscular; SEG-PG = Sequência do pequeno para o grande grupamento muscular. 45Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 grupamentos e progredia para pequenos grupamentos mus- culares; o segundo (G2) realizava a série oposta e o terceiro (G3) serviu como grupo controle. Foi realizado o teste de 1RM como parâmetro para avaliar aforça muscular nos exercícios descritos na Tabela II. Os resultados mostraram que para os grupos G1 e G2 houve melhora signifi cativa da força (p < 0,05) em relação do pré para o pós-teste e em relação ao GC, porém contrariamente ao que era recomendado pela literatura, o G2 foi o que obteve diferenças signifi cativas (p < 0,05) entre o grupo controle em todos os exercícios e o G1 nos exercícios de fl exão e extensão de cotovelo. Outro dado interessante do estudo foi que os exercícios posicionados no início da sessão tiveram maiores ganhos de força em relação aos exercícios posicionados no fi nal. Com estes resultados parece que, particularmente, no estágio inicial do treinamento de força, homens jovens destreinados podem responder de certa forma diferente ao que é realmente recomendando atualmente na literatura. Posteriormente, Simão et al. [13] analisaram durante doze semanas 31 homens destreinados, os quais foram ran- domizados em 3 grupos: exercícios de grandes para pequenos grupos musculares (GP); exercícios de pequenos para grandes grupamentos musculares (PG) e grupo controle (GC). A sequência dos exercícios realizados para o GP foi supino reto (SR), puxada (PD), extensão de cotovelo (EC) e fl exão de cotovelo (FC). Já para o grupo PG a sequência foi a inversa do grupo GP: FC, EC, PD e SR. Foram avaliadas a força (teste de 1RM) em todos os exercícios e espessura muscular (ultrassom) do tríceps e bíceps braquial. Após o período de treinamento, todos os exercícios para ambos os grupos de treinamento apresentaram ganhos signifi cativos no teste de 1RM quando comparado ao grupo controle, exceto o exercício de FC para o grupo GP. Já entre o pré e o pós-treinamento todos os exercícios para ambos os grupos de treinamento apresentaram ganhos de força com exceção dos exercícios de FC para o grupo GP e SR para o grupo PG. Em relação à espessura muscular do tríceps braquial, ambos os grupos de treinamento apresentaram ganhos signifi cativamente maiores que o GC, contudo, para o pré e o pós-treinamento apenas o grupo PG apresentou ganhos signifi cativos, já em relação ao bíceps braquial a única diferença foi entre o grupo GP e GC. Os superiores ganhos de força muscular nos exercícios rea- lizados no início de uma sessão de treinamento parecem estar relacionados ao maior volume de treino, quando comparado aos exercícios realizados ao fi nal de uma sessão. Conclusão Por meio desta revisão, podemos concluir que em exercí- cios realizados ao fi nal de cada sequência, sempre haverá uma diminuição no número de repetições e força muscular, não importando se o exercício é de pequeno ou grande grupamen- to muscular, no entanto, se o objetivo é potência muscular, parece que os exercícios posicionados ao fi nal da sequência podem ser benefi ciados. Em relação à espessura muscular de pequenos grupamentos (tríceps e bíceps braquial) parece não ser dependente da ordem dos exercícios. Portanto, se o objetivo do treinamento é força muscular em determinado grupamento, este deve ser realizado no início da sessão de treinamento, independentemente se é ou não um grande grupamento muscular. Referências 1. Kraemer WJ, Ratamess NA. Fundamentals of resistance trai- ning: progression and exercise prescription. Med Sci Sports Exerc 2004;36:674-88. 2. Sforzo GA, Touey PR. Manipulating exercise order aff ects mus- cular performance during a resistance exercise training session. J Strength Cond Res 1996;10:20-4. 3. American College of Sports Medicine. Progression models in resistance training for healthy adults. Med Sci Sports Exerc 2002;34:364-80. 4. Kraemer WJ, Fleck S. Optimizing strength training. Cham- paign: Human Kinetics; 2007. 5. Simão R, Farinatti, PTV, Polito MD, Maior AS, Fleck, SJ. In- fl uence of exercise order on the number of repetitions performed and perceived exertion during resistive exercises. J Strength Cond Res 2005;19:152-6. 6. Monteiro W, Simão R, Farinatti PTV. Manipulação na ordem dos exercícios e sua infl uência sobre número de repetições e percepção subjetiva de esforço em mulheres treinadas. Rev Bras Med Esporte 2005;11:146-50. 7. Simão R, Farinatti PTV, Polito MD, Viveiros L, Fleck SJ. In- fl uence of exercise order on the number of repetitions performed and perceived exertion during resistance exercise in women. J Strength Cond Res 2007;21:23-8. 8. Novaes J, Salles B, Novaes G, Monteiro M, Monteiro G, Monteiro MD. Infl uência aguda da ordem dos exercícios re- sistidos em uma sessão de treinamento para peitorais e tríceps. Motricidade 2007;3:38-45. 9. Dias I, Salles BF, Novaes J, Costa PB, Simão R. Infl uence of exercise order on maximum strength in untrained young men. J Sci Med Sport 2010;13:65-69. 10. Farinatti PTV, Simão R, Monteiro WD, Fleck SJ. Infl uence of exercise order on oxygen uptake during strength training in young women. J Strength Cond Res 2009;23:1037-44. 11. Bellezza, PA, Hall EE, Miller PC, Bixby WR. Th e infl uence of exercise order on blood lactate, perceptual, and aff ective responses. J Strength Cond Res 2009;23:203-8. 12. Spreuwenberg LP, Kraemer WJ, Spiering BA, Volek DL, Hatfi eld R, Silvestre JL et al. Infl uence of exercise order in a resistance-training exercise session. J Strength Cond Res 2006;20:141-4. 13. Simão R, Spineti J, Salles BF, Oliveira LF, Matta T, Miranda F, Miranda H, Costa P. Infl uence of exercise order on maximum strength and muscle thickness in untrained men. J Sports Sci Med 2010;9:1-7. 14. Silva NSL, Monteiro WD, Farinatti PTV. Infl uência da ordem dos exercícios sobre o número de repetições e percepção sub- jetiva do esforço em mulheres jovens e idosas. Rev Bras Med Esporte 2009;15;219-23. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201146 Revisão Riscos e benefícios do treinamento resistido para adolescentes Risks and benefits of resisted training in teenagers Ana Carolina de Campos*, Luís Fernando da Silva*, Jean Flávio Alves**, Paulo Ferreira de Araújo, D.Sc.***, Rita de Fátima da Silva, D.Sc.**** *Educação Física, Instituto Adventista de São Paulo (IASP), **Pós-Graduado em Exercício Físico Aplicado à Reabilitação Cardíaca e a Grupos Especiais – UGF, ***Docente da Faculdade de Educação Física – UNICAMP, ****Docente da Faculdade de Educação Física, Instituto Adventista de São Paulo - IASP Resumo O treinamento resistido se fragmenta em vários aspectos po- sitivos para os adolescentes que estão na faixa etária entre 12 a 20 anos de idade. Nessa fase o treinamento resistido não tem como objetivo criar músculos volumosos e nem mesmo formar atletas juvenis de fi siculturismo, e sim benefi ciar através dos programas de treinamento resistido a melhora do condicionamento físico e do desempenho no desporto e, também, reduzir a probabilidade das lesões que ocorrem durante a prática do treinamento. Assim, o presente trabalho busca identifi car, através de uma revisão literária, quais são os possíveis riscos e benefícios da prática do treinamento resistido efetuado por adolescentes em academias de ginástica ana- lisando o desenvolvimento físico, mental e o impacto na qualidade de vida de seus praticantes. Palavras-chave: treinamento resistido, adolescentes, riscos e benefícios do treinamento resistido. Abstract Resisted training is fragmented in several positive aspects to the teenagers who are between 12 and 20 years old. In that phase, resisted training does not aim to build bulky muscles or even to form young bodybuilding athletes; instead, it aims to benefi t the improvement of physical conditioning and sports performance through the programs of resisted training and also to reduce the probability of lesions that occur during the training practice. Th us, the present paper tries to identify the possible risks and benefi tsof teenagers practicing resisted training at health clubs, analyzing physical and mental development and the impact to the life quality of its practitioners through a literary review. Key-words: resisted training, teenagers, risks and benefits of resisted training. Recebido em 14 de fevereiro de 2011; aceito em 23 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Jean Flávio Alves, Rua Goiás, 21, Jardim Nova Veneza, 13177-062 Sumaré SP, Tel: (19) 3832-1117, E-mail: jeanedfis@yahoo.com.br 47Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Introdução Percebe-se na atual sociedade moderna, uma busca frené- tica por padrões de beleza e autoimagem que são idealizadas e reforçadas pela mídia que em grande parte é responsável pela infl uência de seu desenvolvimento [1]. A insatisfação precoce com a imagem corporal pode induzir o adolescente à sub- missão de atividades físicas com altas intensidades e grandes volumes de treinamento, levando muitas vezes a sobrepor a própria saúde em decorrência da valorização do corpo e da imagem a qual idealizam e almejam atingir [2]. A adolescência é marcada por um período de desen- volvimento e mudanças tanto no peso corporal como na estatura, que são fundamentadas individualmente por suas bases genéticas e diferenciadas principalmente entre os sexos [3]. Esse desenvolvimento não acontece de forma contínua, os segmentos esqueléticos, por exemplo, possuem diferentes épocas de desenvolvimento, sendo no período da puberdade a de maior aceleração, como também do aumento dos níveis de testosterona, da diferenciação antropométrica, das fi bras musculares lentas e rápidas, do volume muscular e da menarca (início da função menstrual) [4]. A atividade física se desenvolvida nos princípios biológi- cos, proporciona aumento no desempenho motor e benefícios psicológicos, devendo considerar sempre o nível maturacional do adolescente [5]. É de suma importância estimular a prá- tica de atividade física de forma regular durante toda a vida, porém, visando sempre à saúde e o bem estar. Durante muitos anos, o treinamento de força para ado- lescentes era tido como algo prejudicial a essa faixa etária, descrevendo que poderia atrapalhar o desenvolvimento físico e o crescimento, além de proporcionar uma grande proba- bilidade de lesões. A maioria dos praticantes de treinamento de força eram homens maduros que pretendiam esculpir seus corpos tanto para a estética como para competições como o fi siculturismo [6]. O treinamento resistido tornou-se uma das formas mais conhecidas de exercício tanto para o condicionamento de atletas como para melhorar a forma física de não atletas, sendo o método disponível mais efetivo para se manter e au- mentar a capacidade de força e de resistência muscular, além de promover benefícios substanciais em fatores relacionados à saúde [7-9]. De acordo com Carnaval [10], o treinamento resistido, além de apresentar fi nalidades terapêuticas, profi láticas, psi- cológicas e específi cas, apresenta ainda características estéticas, uma vez que pode modifi car a massa corporal, objetivando formas corporais desejáveis a quem pratica. Essa atividade quando voltada para o desenvolvimento das funções muscula- res pode ser imposta através de pesos livres, elásticos, máquinas específi cas ou até mesmo com a própria massa corporal através da aplicação de sobrecargas [11]. A Academia Americana de Pediatria [12] admite a im- plantação de programas de treinamento para crianças e ado- lescentes, porém sugere que é necessário evitar treinamentos extenuantes até que se atinja o estado de maturidade nível V proposto por Marshall e Tanner [13] que tem a fi nalidade de evitar possíveis lesões nas placas epifi sárias antes do ama- durecimento fi siológico. Crescimento e maturação Crescimento e maturação: a transição entre a criança e o adolescente O crescimento maturacional é dividido em duas fases, infância e adolescência podendo essa transição da infância para a adolescência ser afetada no início da maturação sexu- al pela ação biológica (genótipo), como pela ação cultural (fenótipo) no fi nal da adolescência, que se propaga e altera constantemente através dos veículos de comunicação [3]. Infância A infância é dividida em dois períodos: período inicial entre 2 a 6 anos de idade, e período posterior, entre 6 a 10 anos. No período da infância, o aumento da altura e do peso não é tão acelerado, e se observada entre os sexos, as diferenças são mínimas, o desenvolvimento ósseo por sua vez é dinâmico, e o sistema esquelético particularmente é vulnerável à má nutrição, à fadiga e à doença. Nesse período, até o aparecimento do período pré-púbere, há pouca diferença no físico e no peso exibidos, portanto, ambos (meninos e meninas) devem ser de forma geral capazes de participarem de atividades juntos. A educação infantil é um período de aptidão em que se promove a transição gradual do mundo de brincadeiras para o mundo dos conceitos e da lógica dos adultos [3]. Adolescência Na adolescência ocorrem alterações signifi cativas que podem ser infl uenciadas tanto pelo genótipo (potencial de crescimento) quanto pelo fenótipo (condições ambientais) que podem variar consideravelmente de indivíduo para indivíduo [3]. Meneses, Ocampos e Toledo [14] descrevem a sequência maturacional para o período da adolescência, caracterizando o aparecimento de pelos, formação de genitália, produção de esperma, de óvulos, agravamento da voz e o aparecimento de acne mapeada por Tanner em 1962 [13]. (Tabela I). Tabela I - Sequência maturacional completa na adolescência. Idade de início aproximada Masculino Feminino 9 – 10 Primeiro desenvolvi- mento testicular Início do surto de crescimento Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201148 10 - 11 Intumescimento dos mamilos 11 – 12 Início do surto de crescimento Intumescimento das mamas Início do crescimento dos pêlos pubianos 12 - 13 Início do crescimento dos pêlos pubianos Crescimento da genitália Auge do surto de crescimento Formação de pelos nas axilas Menarca 13 – 14 Auge do surto de crescimento do pênis e dos testículos Formação de pelos nas axilas Produção madura de óvulos (fim da puberdade) 14 – 15 Agravamento da voz Produção madura de esperma (fim da puberdade) Desenvolvimento maduro dos pelos pubianos e dos seios, acne. 15 - 16 Pelos faciais Peêlos corporais 16 – 17 Desenvolvimento maduro dos pêlos pubianos Fim do crescimento do esqueleto 18 - 19 Fim do crescimento do esqueleto Fonte:Adaptado de Tanner J.M. Growth at adolescence. 2 ed. Oxford: Blackwell Scientific Publications 1962. A puberdade é a fase que mais apresenta modifi cações, e as principais alterações decorrentes é a maturação biológica, a infl uência hormonal, o crescimento ósseo e o crescimento dos órgãos. Maturação biológica Na adolescência, o crescimento e a maturação biológica não ocorrem necessariamente em sincronia com a idade cro- nológica, podendo variar de indivíduo para indivíduo, sendo em alguns de forma mais precoce e em outros de forma mais lenta. Vários estudos relatam as variações da idade biológica ou do nível de maturação biológica dentro de um grupo de adolescentes do mesmo sexo e da mesma idade cronológica [3,15]. A avaliação maturacional é um meio de determinar até que ponto o indivíduo progrediu em relação à sua maturação física, sendo esta avaliação de fundamental importância para se determinar o nível de amadurecimento biológico, o qual permitirá uma melhor classifi cação do diagnóstico, da pres- crição e do prognóstico do indivíduo avaliado. A maturação biológica é o processo que leva a um com- pleto estadode desenvolvimento morfológico, fi siológico e psicológico e que, necessariamente, tem controle genético e ambiental. O indicador mais comum usado em estudos de maturação somática longitudinais com adolescentes é a idade do pico de velocidade da estatura, amplamente difundida como estirão de crescimento, ocorrendo, nesta fase, um enfraquecimento relativo dos ossos somado ao acelerado crescimento dos mús- culos, o que geralmente causa desequilíbrio entre os músculos fl exores e extensores, o que propicia um importante fator de risco para lesões através da ação da contração das unidades músculo – tendão [16]. Outra forma utilizada na determinação da maturação biológica é através de métodos observacionais propostos por Tanner [13], que visam uma análise através do crescimento de pelos pubianos (Tabela II). Tabela II - Protocolo de Marshall e Tanner quanto à análise de pelos pubianos. Pré-Púbere Estágio I Não há pelos púbicos verdadeiros. Pode-se encontrar uma fina penugem sobre o púbis, semelhante a de outras partes do abdômen. PUBERE Estágio II Crescimento esparso de pelos levemente pigmen- tados, geralmente lisos ou levemente encaracola- dos; começam, na maioria, ao lado da base do pênis. Estágio III O pelo espalha-se pela sínfise púbica e é consideravelmente mais escuro mais grosso e, geralmente, mais encaracolado. Estágio IV O pelo já está com características adultas, mas cobre uma área consideravelmente menor que na maioria dos adultos. O pelo não atinge a face medial das coxas. PÓS-PUBERE Estágio V O pelo está distribuído em um triângulo invertido, como na mulher. Atinge a face medial das coxas, mas não a linha alba ou qualquer outro local acima da base do triângulo. Fonte:Adaptado de Tanner J.M. Growth at adolescence. 2 ed. Oxford: Blackwell Scientific Publications 1962. Nas meninas, o crescimento dos seios assinala o primeiro sinal visível da jornada em direção à maturidade sexual. Os pelos pubianos são usualmente o segundo sinal de progresso em direção à maturidade sexual. As alterações na genitália feminina acontecem usualmente na terceira fase no progresso em direção à maturidade reprodutiva. Os órgãos sexuais inter- nos femininos também passam por consideráveis alterações: o útero e os ovários aumentam de peso e a menarca ocorre, após o pico do surto de crescimento, cerca de dois anos após o início do desenvolvimento dos seios, mas não assinala o início da maturidade reprodutiva, que de forma geral, em aproximadamente um ano e meio, pode passar do primeiro 49Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 ciclo menstrual a estar fi siologicamente capaz de conceber uma criança, período esse conhecido como esterilidade relativa da puberdade [3,17]. Nos meninos, a puberdade inicia-se com o desenvolvi- mento dos testículos, glândulas reprodutivas masculinas, que produzem o esperma e os hormônios sexuais masculinos. Esse aumento no comportamento sexual vincula-se a níveis crescentes de testosterona. O crescimento de pelos pubianos começa de forma precoce por volta de 10 anos de idade ou mais tardiamente, aos 15 anos de idade, podendo também haver desenvolvimento testicular sem a presença de pelos pubianos. A genitália externa masculina, o pênis e o escroto apresentam poucas alterações durante a infância, iniciando seu desenvolvimento em aproximadamente um ano após o início do crescimento testicular e do surgimento dos pelos pubianos, pelos axilares, faciais e o agravamento da voz, que estão vinculados ao progresso gradativo da maturidade reprodutiva [3,18]. Crescimento na puberdade Infl uência hormonal Durante a adolescência, há um aumento na produção de testosterona nos garotos que resulta em um aumento marcante na massa muscular, ao passo que nas garotas, há um aumento na produção do estrogênio, que proporciona aumento no depósito de gordura corporal, desenvolvimento dos seios e alargamento dos quadris [9]. Crescimento ósseo O esqueleto é um indicador ideal de maturação, porque seu desenvolvimento abrange todo o período de crescimento podendo ser monitorado por radiografi as. Cada osso possui uma diáfi se (extensão óssea entre as epífi ses) e uma epífi se (extremidades do osso), que são separadas pela placa de cres- cimento que é formada por cartilagem. Todos os ossos sejam eles grandes ou pequenos, crescem em seu comprimento pela proliferação de células cartilaginosas situadas nessas placas [16]. A cartilagem de crescimento está localizada em três re- giões sendo uma na placa epifi sária ou placa de crescimento (situadas nas extremidades das articulações); outra na epífi se ou superfície articular (uma cartilagem que atua como um amortecedor articular) e outra na inserção apofi siária ou tendão de inserção (que assegura a conexão sólida do osso com o tendão), devido às mudanças hormonais. Estas placas se solidifi cam após a puberdade [7]. Crescimento de órgãos O crescimento do coração e dos pulmões é bastante signi- fi cativo na adolescência, fator básico na capacidade funcional. O coração chega a aumentar cerca de 50% em seu tamanho quase dobrando o seu peso [15], e os pulmões têm um crescimento paralelo ao do coração [3]. Com o aumento do tamanho do coração e dos pulmões, fi ca marcado o aumento da capacidade cardiorrespiratória na adolescência. Fatores psicológicos da puberdade As alterações físicas e o aparecimento das características sexuais secundárias são causas do aumento do interesse do indivíduo por seu próprio corpo e do nível de autopercepção. Essas rápidas alterações que estão ocorrendo diante de seus olhos, somado as constantes alterações sociais, o tornam bastante vulnerável, podendo motivar, inibir ou ainda desen- cadear comportamentos comprometedores a saúde [3,19-21]. Treinamento resistido O tema treinamento resistido para adolescentes vem sendo discutido desde a década 1950, porém, somente por volta da década de 80 é que as publicações científi cas referente ao assunto começaram a ganhar força tornando-se uma das formas mais efetiva de exercício para se manter e aumentar a capacidade de força, resistência muscular e o condicionamento físico de atletas e não atletas, além de promover benefícios substanciais em fatores relacionados à saúde [7-9,22]. O treinamento resistido, além de apresentar fi nalidades terapêuticas, profi láticas, psicológicas e específi cas, apresenta ainda características estéticas, uma vez que pode modifi car a massa corporal, objetivando formas corporais desejáveis a quem pratica. Essa atividade quando voltada para o desen- volvimento das funções musculares pode ser imposta através de pesos livres, elásticos, máquinas específi cas ou até mesmo com a própria massa corporal através da aplicação de sobre- cargas [10,11]. O número crescente de academias, de escolas e de universi- dades com esses recursos vem sendo amplamente popularizado entre as pessoas de ambos os sexos, pois esse recurso reproduz alguns benefícios, tais como aumento de força, aumento de tamanho dos músculos, melhor desempenho esportivo e diminuição de gordura corporal [6,7]. O treinamento de força, também conhecido como trei- namento com pesos ou treinamento com cargas, na maioria das vezes é desencorajado para o público jovem, devido ao seu potencial de risco nas placas epifi sárias que ainda não tem ossifi cação sufi ciente, mesmo não havendo relatos em estudos de fratura da placa epifi sária. Segundo o estudo de Greco [23], a literatura sugere que fraturas na placa epifi sária podem ocorrer com mais frequência em púberes e pós-púberes do que em pré-púberes, em consequência de, na fase pré-púbere, as placas estarem mais resistentes ao estresse de cisalhamento e não estarem em forte infl uência da atividadehormonal como nas outras fases, e apesar de haver muitos benefícios em decorrência do treinamento de força, não há nenhuma Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201150 diretriz estabelecida para treinamento de força no período da juventude [7,9]. Benefícios do treinamento resistido na adoles- cência Diversos são os benefícios atualmente apontados na lite- ratura que podem ser obtidos com o treinamento com pesos na adolescência. Entidades norte-americanas de alto renome e prestígio como Th e American College of Sports Medicine, American Academy of Pediatrics, American Orthopaedic Society for Sports Medicine e o National Strength and Conditioning Research aprovam e prescrevem o exercício resistido para adolescentes. Um programa bem elaborado, adequadamente supervisio- nado, com ênfase à boa técnica de execução dos movimentos torna a sua realização quase que totalmente isenta de riscos [25]. Esse método de treinamento exige uma contração muscu- lar que promove um aumento da atividade osteoblástica na região óssea, próxima aos locais onde os músculos se inserem gerando um aumento da mineração óssea. Esse mecanismo de carga imposto pelo exercício aumen ta a densidade óssea, fortalece os tendões, ligamentos e articulações, gerando um aumento na estabilidade articular e resistência às sobrecargas, o que contribui para a prevenção e redução dos números e ou da gravidade de lesões musculares em atletas jovens indepen- dentemente do sexo e da idade de quem os pratica [25,26]. Os benefícios do treinamento resistido são evidentes nos mais variados órgãos e sistemas: cardiovascular (aumento do consumo de oxigênio, manutenção de boa frequência cardíaca e volume de ejeção), respiratório (aumento dos parâmetros ventilatórios funcionais), muscular (aumento de massa, força e resistência), esquelético (aumento do conteúdo de cálcio e mineralização óssea), cartilaginoso (aumento da espessura da cartilagem, com maior proteção articular) e endócrino (aumento da sensibilidade insulínica, melhora do perfi l lipídico) [27]. O treinamento resistido praticado em intensidade mode- rada promove aumento dos níveis circu lantes do hormônio de crescimento, somatotrofi na ou GH e do fator de cres- cimento semelhante à insulina também conhecidos como somatomedinas ou IGF-1, por meio do estímulo aferente direto do músculo para a adenohipófi se, além do estímulo por cate colaminas, lactato, óxido nítrico e mudanças no ba- lanço ácido-básico. Esse efeito é, portanto, benéfi co para o crescimento linear dos indivíduos pré-púberes [28]. De acordo com o estudo de Nascimento, Glaner e Pac- cini [29], o exercício físico se destaca por ser o único meio de intervenção, que pode aumentar potencialmente a força muscular e a massa óssea. Torna-se ainda mais efetivo quando realizado próximo ao pico máximo da velocidade de cresci- mento, ou seja, no início da puberdade se associado a esse método de treinamento resistido, potencializa principalmente o ganho da massa óssea. Segundo a literatura, 90% de seu desenvolvimento é maturado até os 20 anos de idade, sendo um quarto desse percentual atingido durante os dois anos de pico da aceleração do crescimento [27]. Riscos do treinamento resistido na adolescência Especifi camente no que se refere ao trabalho de força com adolescentes, há alguns conceitos culturais equivocados de que este tende a acarretar uma série de lesões ósteo-mio-articulares, que pode favorecer a inibição do crescimento, prejudicando a estatura fi nal [30]. Muitas das lesões são provocadas por negligências por parte de seus praticantes e orientadores que deixam de ob- servar, por exemplo, se o calçado é adequado para a atividade proposta, se a execução mecânica do exercício está correta, se a intensidade ou a carga do exercício não está muito alta podendo comprometer a segurança [30], por exemplo, das lombalgias, uma das lesões mais comum em adolescentes e pré-púberes que realizam treinamento de força, devido à execução incorreta do exercício e das cargas elevadas que se comprometem a executar [7]. Weineck [6] alerta aos praticantes sobre a importância do uso correto da técnica para o levantamento de uma carga, especialmente durante a fase da juventude, já que pode oca- sionar possíveis traumas lombares devido à forma incorreta da execução dos exercícios. Um programa de treinamento resistido para adolescentes não deve concentrar cargas máximas durante seu período de estirão de crescimento, pois esta é uma fase vulnerável e propícia às lesões. Nessa fase, pode ocorrer um acelerado aumento na massa muscular proporcionado pela liberação do hormônio de crescimento (GH), o qual contribui para uma série de alterações morfológicas e funcionais que alteram a capacidade dos tecidos como tendões e ligamentos por su- portar grandes cargas mecânicas [7,23]. Considerações de um programa para adolescentes O treinamento resistido pode ser desenvolvido em adoles- centes desde que o programa seja organizado e sistematizado para contribuir no desenvolvimento harmonioso dos movi- mentos e da parte estrutural de cada indivíduo. Deve-se ter muito cuidado na execução dos movimentos e na sobrecarga utilizada para cada exercício proposto, devendo o adolescente ser assistido por profi ssionais capacitados, e o programa básico não precisa exceder a 60 minutos de atividade, e ser aplicado mais que 3 vezes na semana [23]. O treinamento com sobrecarga produz um processo de melhor adaptação neuromuscular no adolescente, levando-o a um aumento signifi cativo da força muscular e sem grandes alterações nas suas medidas antropométricas. O treinamento resistido é mais uma opção de atividade física para adolescentes, assim como esportes, lutas, jogos, 51Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 entre outros. O professor, assim como em outras áreas da Educação Física, deverá estar preparado para a atividade que irá conduzir, planejando o treinamento e respeitando a individualidade de cada adolescente (Tabela III). Tabela III - Sugestões para o treinamento resistido para adolescentes. Ter bem claro os objetivos de realização de exercícios com peso, tais como, desempenho físico, força, hipertrofia e saúde. Os equipamentos devem ser adequados ao tamanho dos adolescen- tes biomecanicamente, caso não seja possível a utilização de pesos livres (halteres e barras), o próprio peso corporal pode ser uma boa opção. Periodização de microciclos, macrociclos e mesociclos. Observar o grau de stress no adolescente, evitando overtraining. As cargas iniciais devem ser sempre leves, permitindo uma boa adaptação. Aumentar a carga sempre de forma progressiva (5 a 10%). Dependendo das necessidades individuais e objetivas, devem ser priorizadas de uma a três séries de 6 a 15 repetições com preferência para exercícios multiarticulares. A frequência deve ser de 2 a 3 vezes por semana com intervalos adequados para a recuperação de estímulos causados (traumas) pelo treinamento. Realizar avaliações posturais e maturacionais, para ver que estado se encontra no protocolo de Tanner. A ingestão de líquido deve ser constante a cada 15 – 20 minutos. A alimentação adequada é fundamental para melhora da saúde na qualidade de vida e performance. Levar mais em conta a maturação biológica do que a cronológica. Fonte: Adaptado de American Academy of Pediatrics Council on Sports Medicine, (2008) e Fleck e Kraemer (1999). Conclusão A participação regular de adolescentes em programas de treinamento resulta em diversos benefícios relacionados à saúde e ao desempenho, bem como melhora nas habilidades motoras e redução nas lesões propiciadas em atividades es- portivas e recreativas. Recentemente, otreinamento resistido voltado ao público adolescente tem aumentado, e com isso recebido muita aten- ção dos profi ssionais da área da saúde. Os treinamentos devem ser projetados de acordo com o sexo, faixa etária, composição corporal e desempenho muscular de cada indivíduo. O treinamento resistido para adolescentes visa em conjunto com o fortalecimento da musculatura postural a prevenção do desequilíbrio dos músculos, favorecendo o desenvolvimento geral e harmônico como um todo, além de poder propiciar uma melhor desenvoltura da capacidade coordenativa e uma melhor inervação intramuscular a um número maior de fi bras. Atualmente existem muitos estudos que valorizam o treinamento de força para esta faixa etária, deixando para trás o conceito de que a musculação não proporciona bene- fícios ao adolescente. Este método de treinamento além de proporcionar ao orientador um total controle em relação à carga, pausa, amplitude, velocidade de execução, controle de execução mecânica, entre outros, também contém estímulos para o alongamento e para o encurtamento da musculatura que em determinados períodos é de suma importância para o adolescente. Portanto, a musculação entra em cena com segurança e efi cácia comprovada nessa população, para que se diminuam os índices de sedentarismo e sua forma isolada de atividade física ou como parte de um programa de condicionamento físico. As cargas máximas só devem ser realizadas pelos adoles- centes que já tenham atingido o estágio puberal maturacional no nível V da escala de Tanner. Referências 1. Tavares MCGCF. Imagem Corporal – conceito e desenvolvi- mento. São Paulo: Manole; 2003. 2. Silva CC, Teixeira AS, Goldberg TBL. O esporte e suas impli- cações na saúde óssea de atletas adolescentes. Rev Bras Med Esporte 2003;9(6):426-32. 3. Gallahue DL, Ozmun JC. Compreendendo o desenvolvimento motor - bebês, crianças, adolescentes e adultos. 3ª ed. São Paulo: Phorte; 2005. 4. Ramos AT. Criança, adolescente e a atividade física. Revista Técnica de Educação Física e Desportos 1998;17(94):1-2. 5. Oliveira AR. Fatores infl uenciadores na determinação do nível de aptidão física em crianças. Synopsis 1996;7:48-62. 6. Weineck J. Atividade física e esporte para quê? São Paulo: Manole; 2003. 7. Fleck SJ, Kraemer WJ. Fundamentos do treinamento de força muscular. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed; 1999. 8. Ciolac EG, Guimarães GV. Exercício físico e síndrome meta- bólica. Rev Bras Med Esporte 2004;10(4):319-24. 9. Simão R. Fisiologia e prescrição de exercícios para grupos especiais. 2ª ed. Rio de Janeiro: Phorte; 2007. 10. Carnaval PE. Medidas e avaliação em ciência do esporte. 5ª ed. Rio de Janeiro: Sprint; 2002. 11. Novaes JS. Ciência do treinamento dos exercícios resistidos. São Paulo: Phorte; 2008. 12. American Academy of Pediatrics. Committee on Sports Medi- cine and Fitness: Intensive Training and Sports Specialization in Young Athletes. Pediatrics 2000;106(1):154-7. 13. Tanner JM. Growth at adolescence. 2a ed. Oxford: Blackwell; 1962. 14. Meneses C, Ocampos DL, Toledo TB. Estagiamento de Tanner: um estudo de confi abilidade entre o referido e o observado. Revista Adolescência e Saúde 2008;5(3):54-6. 15. Malina R, Bouchard C. Growth, maturation and physical activity. Champaign: Human Kinetics; 1991. 16. Malina R, Bouchard C. Atividade física do atleta jovem: do crescimento à maturação. São Paulo: Roca; 2002. 17. Katchadourian H. Th e biology of adolescence. San Francisco: WH Freeman; 1977. 18. Biro FM, Lucky AW, Huster GA, Morrison JA. Pubertal staging in boys. J Pediatr 1995;127:100-2. 19. Tritchler K. Medida e avaliação em educação física e esportes de Barrow & Mecgee. 5ª ed. São Paulo: Manole; 2003. 829p. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201152 20. Silva CC, Goldberg TBL, Teixeira AS, Marques I. O exercício físico potencializa ou compromete o crescimento longitudinal de crianças e adolescentes? Mito ou verdade? Rev Bras Med Esporte 2004;10(6):520-28. 21. Alves JF. A infl uência do esporte na construção da imagem corporal na adolescência. Movimento e Percepção 2010;11(16). 22. Vrijens J. Muscle strength development in pre-and post- pubescent age. Med Sport 1978;11:152-58. 23. Greco G. Treinamento de força, crianças e adolescentes. Rev Digital EFDeportes 2010;15:149. 24. American Academy of Pediatrics. Strength training by children and adolescents. Council on Sports Medicine and Fitness. Pediatrics 2008;121(4):835-40. 25. Faigenbaum A, Miliken LA, Westcott WL. Maximal strength test in healthy children. J Strength Cond Res 2003;17:162-6. 26. Silva CC, Goldberg TBL, Teixeira AS. O esporte e suas impli- cações na saúde óssea de atletas adolescentes. Rev Bras Med Esporte 2003;9(6):426-38. 27. Broderick CR, Winter GJ, Allan RM. Sport for special groups. Med J Aust 2006;184(6):297-302. 28. Godfrey RJ, Madgwick Z, Whyte GP. Th e exercise-induced gro- wth hormone response in athletes. Sports Med 2003;33(8):599- 613. 29. Nascimento TBR, Glaner MF, Paccini MK. Infl uência da composição corporal e da idade sobre a densidade óssea em relação aos níveis de atividade física. Arq Bras Endocrinol Metab 2009;53(4):440-5. 30. Braga F, Generosi RA, Garlipp DC, Gaya A. Benefícios do treinamento de força para crianças e adolescentes escolares. Rev Digital EFDeportes 2008;13(119). 53Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Revisão Síndrome metabólica: aspectos clínicos e tratamento Metabolic syndrome: clinical aspects and treatment Izulpério Cardoso Olevate*, Marcus Vinicius de Mello Pinto, D.Sc.**, Mário Antônio Baraúna, D.Sc.**, Lamara Laguardia Valente Rocha, D.Sc.*** *Médico, Aluno do Programa de Mestrado Ciências da Reabilitação do Centro Universitário de Caratinga/MG, **Professores e Pesquisadores do Núcleo de Tratamento das Desordens Craniofaciais e Reparo Tecidual da Universidade Católica de Petrópolis/RJ, ***Professora e Pesquisadora do Departamento de Ciências Biológicas – Centro Universitário de Caratinga UNEC, Caratinga/MG Resumo A síndrome metabólica (SM) é um transtorno complexo, usu- almente relacionado à deposição central de gordura e à resistência à insulina. No entanto, a alimentação adequada, associada à mo- difi cação no estilo de vida, tais como prática regular de atividade física, contribui para um controle da doença, prevenindo compli- cações e aumentando a qualidade de vida. Tem sido demonstrado que a prática regular de exercício físico apresenta efeitos benéfi cos na prevenção e tratamento da hipertensão arterial, resistência à insulina, diabetes, dislipidemia e obesidade. Os estudos sobre me- canismos fi siopatológicos e tratamentos, assim como as tentativas de defi nição da síndrome metabólica, são recentes e ainda existem muitas dúvidas e indefi nições sobre o assunto. O objetivo desta revisão sistemática foi analisar a literatura dos últimos anos acerca da prevalência, fi siopatologia, fatores de risco e tratamento referentes à síndrome metabólica. Palavras-chave: síndrome metabólica, fatores de riscos, fisiopatologia, tratamento. Abstract Metabolic syndrome (MS) is a complex disorder usually related to abdominal obesity and insulin resistance. However, proper nutrition, associated with a change in lifestyle such as regular physical activity helps to control the disease, preventing complica- tions and improving quality of life. It has been shown that regular physical exercise has benefi cial eff ects on prevention and treat- ment of hypertension, insulin resistance, diabetes, dyslipidemia and obesity. Studies on pathophysiology and treatment, as well as attempts to defi ne the metabolic syndrome, are recent and there are still many doubts and uncertaintiesabout the subject. Th e objective of this systematic review was to analyze the recent literature on the prevalence, pathophysiology, risk factors and treatment related to the metabolic syndrome. Key-words: metabolic syndrome, risk factors, pathophysiology, treatment. Recebido em 21 de janeiro de 2011; aceito em 11 de fevereiro de 2011. Endereço para correspondência: Marcus Vinicius de Mello Pinto, Rua Benjamin Constant, 213, 25610-130 Petrópolis RJ, E-mail: orofacial_1@hotmail.com Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201154 Introdução A Síndrome Metabólica (SM) é um transtorno represen- tado por um conjunto de fatores de risco cardiovasculares, tais como hipertensão arterial, deposição central de gordura, dislipidemia (LDL-colesterol, triglicérides elevados e HDL- colesterol reduzido) e resistência à insulina. Essa síndrome foi identifi cada pela primeira vez em 1922 e tem sido descrita por diferentes terminologias como quarteto mortal, síndrome X, síndrome plurimetabólica e síndrome de resistência à insulina [1]. Os critérios diagnósticos da SM mais utilizados são os da Organização Mundial da Saúde (OMS) e os do National Cholesterol Education Program’s Adult Treatment Panel III (NCEP-ATP III), e algumas diferenças entre eles são obser- vadas. A defi nição da OMS requer a avaliação da resistência à insulina ou do distúrbio do metabolismo da glicose. Por outro lado, a defi nição da NCEP-ATP III não exige a mensuração de resistência à insulina, facilitando sua utilização em estudos epidemiológicos [1-4]. Segundo o NCEP-ATP III, a síndrome metabólica repre- senta a combinação de três ou mais dos seguintes componen- tes: deposição central de gordura, triglicérides elevados, baixos níveis de HDL colesterol, pressão arterial elevada e glicemia em jejum elevada. Pela simplicidade e praticidade é a defi nição recomendada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia [1-4]. O rápido crescimento da ocorrência dessa condição nas últimas décadas, bem como de diversas doenças crônicas, tem sido atribuído principalmente às mudanças da composição de- mográfi ca, com ênfase para a urbanização e o envelhecimento das populações bem como às alterações do estilo de vida com hábitos alimentares menos adequados e sedentarismo [5]. Os estudos sobre mecanismos fi siopatológicos e riscos cardiovasculares, assim como as tentativas de defi nição da SM, são recentes e ainda existem muitas dúvidas e indefi nições sobre o assunto. A síndrome metabólica ainda carece de uma defi nição bem estabelecida, mas há uma indicação consen- sual de que o aumento da pressão arterial, os distúrbios do metabolismo dos glicídios e lipídios e o excesso de peso estão de forma defi nitiva associados ao aumento da morbidade e mortalidade cardiovascular, fato observado não só nos países desenvolvidos, mas também nos países em desenvolvimento como o Brasil. No Brasil há poucos estudos sobre a prevalência da síndrome [5]. Sendo assim, o objetivo desta revisão sistemática é revisar e analisar a literatura dos últimos anos acerca da prevalência, fi siopatologia, fatores de risco e tratamento referentes à sín- drome metabólica. Síndrome metabólica A Organização Mundial de Saúde (OMS) descreve a síndrome metabólica como um transtorno complexo, repre- sentado por um conjunto de fatores de risco cardiovascular, usualmente, relacionados à deposição central de gordura e à resistência à insulina. Independentemente do grupo ou entidade que defi ne SM, os fatores de risco, ou seja, os componentes adotados para sua defi nição são praticamente os mesmos. Estão inclu- ídos os seguintes componentes: obesidade – especialmente a obesidade abdominal –, níveis pressóricos elevados, distúrbios no metabolismo da glicose e hipertrigliceridemia e/ou baixos níveis de HDL colesterol (HDL-c). De acordo com a OMS, a presença de resistência à insulina é necessária para o diagnós- tico de SM, mais a presença de dois ou mais componentes. Já para o National Cholesterol Education Program – Adult Treatment Panel III, o diagnóstico SM é fi rmado pela presença de três dentre quaisquer dos cinco componentes adotados. Já a obesidade abdominal, associada à presença de dois ou mais componentes, é obrigatória para fi rmar o diagnóstico de SM de acordo com o International Diabetes Federation [1-4]. A Organização Mundial de Saúde (OMS) adaptaram os critérios do NCEP-ATP III e propuseram como defi nição de síndrome metabólica em populações pediátricas a presença de três ou mais dos seguintes critérios: obesidade abdominal > percentil 80, glicemia de jejum > 110 mg/dL, Triglicerídeos > 100 mg/dL, HDL-colesterol < 40mg/dL e pressão arterial > percentil 90 ajustados para idade, sexo e percentil de altura. Contudo, não há padronização sobre a medida de circunfe- rência abdominal em adolescentes [1-4]. Embora os critérios propostos apresentem algumas di- ferenças em relação à presença dos componentes, todos eles incluem medidas de distúrbio da homeostase da glicose, hipertensão arterial, dislipidemia e obesidade central. Alguns estudos têm sugerido a participação de fatores de risco não tradicionais, por exemplo, indicadores de infl amação e indi- cadores pró-trombóticos, como componentes da síndrome metabólica, porém estes indicadores ainda são objeto de muitas controvérsias e não foram incluídos em nenhum dos critérios diagnósticos da síndrome metabólica [6] Diversos ensaios clínicos confi rmam a associação entre diabetes mellitus tipo 2 e doença cardiovascular. No Paris Prospective Study, após 11 anos de seguimento, observou-se que os níveis plasmáticos elevados da insulina em jejum au- mentam o risco de doença cardiovascular. No ensaio clínico San Antonio, após sete anos de seguimento, também se notou que a maioria dos pacientes com resistência insulínica elevada e desordens metabólicas múltiplas (HDL baixo, triglicérides elevados e hipertensão arterial sistêmica) evoluiu para diabetes mellitus tipo 2 [7]. Em 2001, o Programa Nacional de Educação para o Co- lesterol-Terceiro Painel para Tratamento do Adulto (NCEP- ATPIII) apresentou sua defi nição da SM como parte de um programa educacional para prevenção da doença arterial coronariana, com o objetivo de facilitar o seu diagnóstico na prática clínica. Não incluiu a medida de resistência insulínica e nem privilegiou o distúrbio da glicose. Todas as alterações teriam igual importância. O NCEP-ATPIII propôs a iden- 55Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 tifi cação da SM através da presença de quaisquer dos três ou mais dos seguintes componentes: • Glicose de jejum > 110 mg/dL; • Triglicerídeos > 150 mg/dL; • HDL Colesterol < 40 mg/dL para homens e < 50 mg/dL para mulheres; • Pressão arterial > 130x85 mmHg; • Circunferência abdominal > 102 cm para o homem e > 88 cm para mulheres. Observa-se que o indivíduo pode ser caracterizado como portador de SM independente do nível de glicose no sangue. Em 2004, os valores da normalidade da glicemia de jejum diminuíram para > 100 mg/dL, de acordo com a Associação Americana de Diabetes e foram adotados pelo NCEP. A As- sociação Americana de Endocrinologia Clínica (AACE), em 2002, também se posicionou sobre a síndrome de resistência à insulina [1-4,8]. A Sociedade Brasileira de Cardiologia então escolheu a proposta NCEP-ATPIII por sua simplicidade e praticidade para a I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica (I-DBSM), em 2005 [8]. Uma defi nição única e aceita mundialmente permitiria comparações da prevalência da síndrome em populações diferentes e seus desenlaces. Com esta fi nalidade, a Federação Internacional de Diabetes (IDF), em 2004, reuniu especia- listas em diabetes, saúde pública, epidemiologia,genética, metabolismo, nutrição e cardiologia. Estudiosos dos cinco continentes do mundo, inclusive da OMS e do NCEP- ATPIII, se reuniram para este desafi o, isto é, elaborar uma diretriz diagnóstica simples para a síndrome metabólica e de ampla utilização [1-4,8]. A nova defi nição, para diagnóstico de SM, inclui a pre- sença de obesidade central, como condição essencial, e dois ou mais dos critérios a seguir: • Triglicerídeos elevados: > 150 mg/dL; • HDL-Colesterol reduzido: < 40 mg/dL em homens e < 50 mg/dL em mulheres (ou tratamento específi co para estas alterações lipídicas); • Pressão sanguínea elevada: Pressão sistólica > 130 ou diastólica > 85 mmHg (ou tratamento para hipertensão previamente diagnosticada); • Glicose plasmática de jejum: > 100 mg/dL (ou diagnóstico prévio de DM) [8]. Fatores de risco O excesso de peso é o principal fator de risco para o desenvolvimento da SM. O estudo NHANES III mostrou que de acordo com os critérios da ATP III, teriam síndrome metabólica: • 4,6% dos homens com IMC normal; • 22,4% dos homens com sobrepeso; • 59,6% dos homens obesos; • 6,2% das mulheres com IMC normal; • 28,1% das mulheres com sobrepeso; • 50,0% das mulheres obesas. A obesidade contribui para a hipertensão, níveis elevados de colesterol total, baixos níveis de HDL-colesterol e hipergli- cemia, que por si próprios estão associados a um risco elevado de doença cardiovascular [9]. Outro fator de risco para a SM é a resistência à insulina, que geralmente acompanha a obesidade. Porém, em algumas populações, como os sul-asiáticos, por exemplo, existe um componente genético que pode levar à resistência à insulina mesmo em pessoas com peso normal ou sobrepeso, contri- buindo para uma alta prevalência de diabetes e de doença cardiovascular prematura [9]. Segundo o estudo SESI o gênero masculino é um fator de risco não modifi cável para as doenças crônicas não trans- missíveis, entre elas a hipertensão arterial. No entanto, as V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2006) apresentam como prevalência global entre homens (26,6%; IC 95,0% 26,0-27,2%) e mulheres (26,1%; IC 95,0% 25,5-26,6%), in- sinuando que gênero não é um fator de risco para hipertensão. Com relação às idades relatadas neste estudo, evidenciou-se que a maioria dos hipertensos tem acima de quarenta anos de idade, semelhante com os estudos de Jardim et al. [10] e Barbosa et. al. [11] que demonstraram que a HAS aumentou com a idade. Através do estudo Framingham, realizado em Massachusetts nos Estados Unidos, que transcorreu durante trinta anos, evidenciou-se que a obesidade acarretou hiper- tensão em 78,0% dos homens e 65,0% das mulheres [12]. Santos et al. [13], em um modelo exploratório visando observar a prevalência da síndrome metabólica e verifi car sua associação com o excesso de peso e inatividade física, utili- zaram uma amostra por conveniência de 47 homens (34,6 anos) funcionários de empresas e estabelecimentos de ensino e observaram que todos os portadores de síndrome metabólica apresentavam excesso de peso ou obesidade. Esse perfi l corro- bora o estudo de Meigs et al. [14] que, a partir dos critérios do NCEP-ATP III , avaliou o risco de diabetes e doenças car- diovasculares através da incidência de obesidade, concluindo que 63,0% dos obesos apresentam síndrome metabólica. As explicações dadas pelos epidemiologistas para o crescimento epidêmico da obesidade apontam para a modernização das sociedades, que, entre outras coisas, proporciona maior oferta de alimentos e desequilíbrio na qualidade da dieta, aliada à melhoria dos instrumentos de trabalho, que gera baixo nível de atividade física ocupacional e de lazer. Fisiopatologia da síndrome metabólica A SM é a combinação de fatores de risco que inclui obesidade abdominal, hipertensão arterial, dislipidemia e alteração da glicemia e predispõe o indivíduo à morbidade e mortalidade por doença cardiovascular (cardíaca e cerebral) e Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201156 ao desenvolvimento de diabetes (tipo 2), se ainda não estiver presente. Como toda síndrome, se caracteriza por um con- junto de sintomas e sinais físicos bioquímicos para os quais não se conhece uma causa direta. Enquanto a patogênese da SM e de cada um de seus componentes não for esclarecida, duas características parecem despontar como fatores causais potenciais: a resistência à insulina e a distribuição anormal da gordura (obesidade abdominal). Outros fatores podem estar envolvidos como: estado pró-infl amatório, desequilíbrio hor- monal, perfi l genético, inatividade física e envelhecimento [8]. Resistência à insulina Resume-se a um defeito na ação da insulina sobre tecidos alvo, com origem na secreção inadequada e/ou respostas teciduais diminuídas à ação desse hormônio, que envolve mecanismos fi siológicos importantes para as outras caracte- rísticas da SM. No músculo esquelético e no tecido adiposo, a resistência à insulina pode ser consequência de defeitos na translocação, exposição ou ativação das proteínas transpor- tadoras de glicose (GLUT-4), difi cultando o trânsito deste nutriente do meio extra para o intracelular [8,15]. Essas anormalidades podem estar relacionadas ao próprio tecido (defeitos na sinalização intracelular) ou a fatores exter- nos às células, como hiperglicemia, aumento nas concentra- ções séricas do TNF-a e de ácidos graxos; destes últimos viria a maior contribuição para o desenvolvimento da resistência à insulina. As anormalidades no armazenamento de ácidos graxos e a lipólise em tecidos com sensibilidade à insulina proporcionam fl uxo aumentado desses lipídeos para tecidos, podendo diminuir a captação de glicose [8,15]. O quadro de resistência à insulina aumenta a lipólise nos adipócitos, por estímulo à lipoproteína lipase, produzindo ainda mais ácidos graxos; estes estimulam a neoglicogênese no fígado e inibem a depuração hepática da insulina, acu- mulando esses lipídeos no fígado e nos músculos. Por fi m, o excesso de gordura nos músculos leva à resistência à insulina e no fígado é promovida a dislipidemia aterogênica, tornando seus portadores mais sujeitos às alterações nas concentrações de lípides séricos [8,14]. Natali et al. [16] verifi caram que a condição de resistência à insulina proporciona os estados infl amatório e trombóti- co, além de causar anormalidades endoteliais por reduzir as vasodilatações endotélio-dependentes e não-dependentes em pacientes com DM tipo 2. Fernández-Real et al. [17] obtive- ram, adicionalmente, associação positiva entre resistência à insulina e concentração de lípides séricos, fato relacionando à qualidade da ingestão destes nutrientes. Obesidade A obesidade, principalmente a abdominal, é considerada como um poderoso fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis como diabetes do tipo 2 (DM2) e doença cardiovascular (DCV). O achado de hipe- rinsulinemia e resistência insulínica relacionado à presença de excesso da gordura perivisceral, por diversas técnicas inclusive Tomografi a Computadorizada, não permite questionamentos. Clinicamente, o uso da circunferência abdominal para acessar adiposidade visceral é superior ao índice de massa corporal (IMC) e os valores de corte para esta medida devem ser espe- cífi cos para cada população, já que existem diferenças étnicas na relação entre adiposidade total, obesidade abdominal e acúmulo de gordura [8,15,18]. O excesso de tecido adiposo, particularmente o de con- centração abdominal, tem sido associado com hipertensão, alterações lipídicas plasmáticas, resistência à insulina, estados infl amatórios e trombóticos. Características da SM: esses fa- tores de risco normalmente ocorrem em indivíduos obesos ou com sobrepeso, porém a obesidade porsi só não explica estas alterações: a provável causa é a predisposição dessa morbidade à resistência à insulina [8,15,18]. Órgão endócrino, o tecido adiposo é capaz de secretar uma série de substâncias, incluindo hormônios (leptina e adiponectina), citocinas (as principais são o Fator de Necrose Tumoral - TNF-a e a Interleucina série 6 – IL-6) e outras proteínas (como Inibidores do Ativador de Plasminogênio série 1 – PAI-1, proteínas do Sistema Renina-Angiotensina – RAS, fator de grupo em comparação aos grupos controle e pré-obesidade, indicando quadro infl amatório precoce e possível prognóstico de obesidade. Dessa forma, pode-se dizer que o percentual de gordura corporal aumentado predispõe ao aparecimento das características da SM [8,15,18]. Hipertensão arterial A elevação da pressão arterial em obesos está relacionada à natriurese pressórica pouco efi ciente. O aumento da excreção renal de sódio é um mecanismo de defesa encontrado pelo organismo quando a pressão arterial se eleva, possibilitando seu retorno ao normal. Nos obesos, níveis pressóricos mais elevados são necessários para que este mecanismo seja de- sencadeado. Ocorre também a ativação do sistema nervoso simpático, mediada pela leptina liberada dos adipócitos, cujo mecanismo de ação ainda não foi totalmente esclarecido e talvez haja interações importantes com outros neuroquímicos hipotalâmicos. A ativação do sistema renina-angiotensina-al- dosterona, pela produção de angiotensinogênio, no adipócito, também é observada. O sistema renina-angiotensina-aldoste- rona é um poderoso sistema hormonal que regula a pressão arterial e o equilíbrio hídrico do organismo. Em indivíduos normais quando a pressão arterial ou a concentração de sódio plasmática diminuem, o rim aumenta a secreção de renina que estimula o angiotensinogênio para formar angiotensina, potente vasoconstrictor, levando ao aumento da pressão arterial sistêmica [8,15,18]. Proteínas do sistema RAS, tais como angiotensinogênio, angiotensinas I, II e enzima conversora de angiotensina, 57Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 contribuem para a hipertensão e aterogênese com efeitos va- soconstritores, estimuladores da secreção de aldosterona pelas glândulas suprarrenais e da reabsorção de sódio pelos rins. A hiperinsulinemia atua na maior reabsorção renal de sódio, no estímulo da atividade do SNS (que aumenta as concentrações séricas de norepinefrina, aumentando a resposta à ação da angiotensina) e na redução da vasodilatação mediada pelo óxido nítrico. Cerca de 50% dos indivíduos que apresentam distúrbios insulínicos desenvolvem hipertensão arterial [18]. Dislipidemia Caracterizada por anormalidades no perfi l lipídico sérico, tais como elevação de triglicerídeos, baixo HDL-colesterol e LDL-colesterol (Low Density Lipoprotein) sob forma pequena e densa, a dislipidemia aterogênica presente em indivíduos com SM está associada à resistência à insulina e à obesidade abdominal. De forma especial, a resistência à insulina pode alterar cada um dos componentes dessa desordem lipídica, sendo que anormalidades na secreção de VLDL-colesterol (Very Low Density Lipoprotein), apolipoproteína B (Apo-B) e triglicerídeos são as principais. Elevados níveis de ácidos graxos livres levam a maior produção de partículas contendo Apo-B, proteína estrutural componente das lipoproteínas aterogênicas (VLDL, IDL - Intermediate Density Lipoprotein - e LDL), sendo suas concentrações consequência do número total de partículas aterogênicas circulantes. Dessa forma, indivíduos com SM podem apresentar maiores concentrações de Apo-B se comparados aos não portadores da síndrome [8,15,18,19]. Baixos níveis de HDL em indivíduos com SM são secun- dários aos altos níveis de triglicerídeos, associados em parte à maior transferência destes para o HDL e ao menor metabolis- mo do VLDL. Por ação da enzima colesteril éster transferase, o HDL e o LDL são enriquecidos com triglicerídeos vindos do VLDL, tornando-se mais susceptíveis à hidrólise por li- pases hepáticas ou pela lipoproteína lipase. Tal fato, além de diminuir os níveis de HDL, gera partículas pequenas e densas de LDL com alto poder aterogênico, capazes de penetrar no endotélio e serem captadas e oxidadas pelos macrófagos. A partir daí, essas células tornam-se espumosas e dão início ao processo aterosclerótico. Dessa forma, associadas ao estresse oxidativo, infl amação e adiposidade central levam ao desen- volvimento da SM e de eventos cardiovasculares [8,15,18,19]. Prevalência da síndrome metabólica no Brasil e no mundo A Síndrome Metabólica (SM) constitui um conjunto de componentes que revela alimentação hipercalórica, além de um estilo de vida sedentário e, como consequência, o desen- volvimento de sobrepeso/obesidade. A SM refl ete, metafori- camente, o aumento da circunferência do mundo. Além disso, por corresponder a um conjunto de diferentes condições e não apenas uma doença, possibilita a existência de múltiplas defi nições concorrentes. Muitos estudos mostraram que a SM duplica o risco cardiovascular e aumenta em cinco vezes a chance de desenvolver diabetes. Embora, tenha sido perme- ada de controvérsias, a SM encontrou seu lugar na literatura médica e tem hoje mais de 24.000 citações no PubMed. As divergências ocorrem porque as defi nições utilizam critérios e pontos de corte diferentes para identifi car os portadores da mesma síndrome. Há necessidade de adoção de um critério único para a SM. Isto permitiria seu rastreio com utilização de protocolos para a prática clínica e estabelecimento de políticas de saúde [8]. No Brasil vários estudos foram realizados nos últimos anos. Em 2007, Salaroli et al. [20] realizaram um estudo transversal em Vitória-ES, com 1.663 indivíduos com idades de 25 a 64 anos e mostraram que a prevalência da SM, de acordo com os critérios da NCEP/ATP III, é de quase 30% para a população geral, sendo maior com o avançar da idade: 15,5% na faixa entre 25 e 34 anos e 48,3% na faixa entre 55 e 64 anos. Também em 2007, foi publicado um estudo transversal de Marquezine et al. [21], com 1.561 indivíduos de uma área urbana, que mostrou uma prevalência de SM de 25,4% nesta população estudada, sendo cada vez maior com o avançar da idade, especialmente em mulheres, e com a piora do nível sócio-econômico. Nakazone et al. [22], em 2007, realizaram um estudo para analisar o perfi l bioquímico e caracterizar SM a partir de critérios propostos por NCEP/ATPIII e IDF, com o intuito de verifi car a predisposição para doença cardiovascular em 340 indivíduos (200 pacientes e 140 controles). A prevalência de SM no grupo de pacientes foi de 35,5%, segundo os critérios na NCEP/ATP III, e de 46%, segundo os critérios da IDF. Marcondes et al. [23] realizaram um estudo transversal com o objetivo de determinar a prevalência, características e preditores da síndrome metabólica em 73 mulheres com a síndrome dos ovários policísticos. A prevalência da síndrome metabólica foi de 38,4%, estando ausente nas mulheres com índice de massa corporal normal (n = 18) e presente em 23,8% das com sobrepeso (n = 17), 62,9% das obesas (n = 28) e 85,5% das obesas mórbidas (n = 7). Quando comparadas, as mulheres com síndrome metabólica apresentaram uma idade mais avançada (27,3 ± 5,3 vs. 24,2 ± 4,6 anos; p = 0,031) e um índice de massa corporal maior (36,3 ± 7,7 vs. 26,9 ± 5,4; p < 0,001) que as mulheres sem a síndrome. Ford et al. [24] publicaram os resultados de um estudo transversal que tinha como objetivo determinar a prevalência da SM nos Estados Unidos de acordo com os critérios da ATP III. Foram analisados 8814 indivíduos com 20 anos de idade ou mais. A prevalência de SM foi de 21,8% (sem ajuste para idade) e 23,7% (ajustada para idade), sendomais alta em pessoas mais velhas (43,5% em indivíduos com idades entre 60 e 69 anos). Estudo publicado por Park et al. [25] demonstrou que a SM estava presente em mais de 20% da população adulta americana e que variava signifi cativamente de acordo com a Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201158 etnia: 13,9% em homens negros e 27,2% em mulheres de origem hispânica. Marccoli et al. [26] realizaram um estudo transversal com 2.100 indivíduos na região de Lucca, na Itália, que mostrou uma prevalência de SM na população geral de 18% em mulhe- res e 15% em homens, segundo os critérios da ATP III. Além disso, notaram que, em pessoas mais velhas, a prevalência era maior (25% em indivíduos com mais de 70 anos). Hu et al. [27] publicaram um estudo que avaliou 11 co- ortes européias, totalizando 6156 homens e 5356 mulheres, não-diabéticos, com idades entre 30 e 89 anos, com cerca de 8 anos de seguimento. Segundo os critérios modifi cados da OMS utilizados, a prevalência de SM entre os europeus é de 15% (15,7% em homens e 14,2% em mulheres). Pesquisas mostram que a prevalência é alta também em populações rurais. A prevalência em uma população rural mexicana foi de 45,2% e os autores sugerem que o motivo seja a incorporação de hábitos de vida urbanos destas populações, com maior consumo de alimentos industrializados e menor nível de atividade física. No Brasil, essas prevalências variaram entre 24,8% e 19% em dois estudos [6]. Tratamento Independentemente da redução da PA, são vários os efeitos benéfi cos da redução do peso, entre eles: melhora da tolerância à glicose e do perfi l lipídico; diminuição das doenças dege- nerativas articulares; melhora dos sintomas depressivos e da apneia do sono, aumento da tolerância aos exercícios físicos e melhora da autoestima que, em última análise, signifi ca melhora da qualidade de vida. Além disso, o tratamento não medicamentoso, senso amplo (medidas higieno-dietéticas), não causa os efeitos colaterais geralmente associados ao uso de drogas anti-hipertensivas [28]. A dieta recomendada para os portadores de SM deve ser composta por carboidratos complexos e integrais (representan- do entre 45 e 65 % do valor calórico total diário), proteínas (10-35% do valor calórico diário total) e gorduras (20-35% do valor calórico diário total), dando-se preferência às gorduras mono e poliinsaturadas. Além disso, deve haver um controle da ingestão de sódio, que tem signifi cante impacto no controle da pressão arterial [9]. A recomendação tradicional de no mínimo 150 minutos semanais (30 minutos, cinco dias por semana) de atividade física de intensidade leve a moderada prescrita por um profi s- sional credenciado, que é baseada primariamente nos efeitos da atividade física sobre a doença cardiovascular e outras diabetes mellitus, demonstra não ser doenças crônicas como o sufi ciente para programas que priorizem a redução de peso. Com isso, tem sido recomendado que programas de exercício para obesos comecem com o mínimo de 150 minutos sema- nais em intensidade moderada e progridam gradativamente para 200 a 300 minutos semanais na mesma intensidade. Entretanto, se por algum motivo o obeso não puder atingir essa meta de exercícios, ele deve ser incentivado a realizar pelo menos a recomendação mínima de 150 minutos semanais, pois mesmo não havendo redução de peso haverá benefícios para a saúde, existem evidências de que haja redução do tecido adiposo visceral. A atividade aeróbica melhora a homeostase da glicose, promovendo o transporte de glicose e a ação da insulina na musculatura em exercício. Além disso, melhora o perfi l lipídico, aumentando os níveis de HDL-colesterol e diminuindo os triglicérides [9,29]. No músculo esquelético, o exercício físico aumenta a captação e oxidação de glicose e de ácidos graxos a partir do sangue, melhora a sinalização insulínica, aumenta a atividade e expressão de transportadores e enzimas reguladoras do me- tabolismo de glicose e de ácidos graxos, promove biogênese mitocondrial e melhora a vasodilatação endotélio-dependente [30]. Estudos epidemiológicos e de coorte têm demonstrado forte associação entre obesidade e inatividade física, assim como tem sido relatada associação inversa entre atividade física, índice de massa corpórea (IMC), razão cintura-quadril (RCQ) e circunferência da cintura. Esses estudos demons- tram que os benefícios da atividade física sobre a obesidade podem ser alcançados com intensidade baixa, moderada ou alta, indicando que a manutenção de um estilo de vida ati- vo, independente de qual atividade praticada, pode evitar o desenvolvimento dessa doença [29]. O treinamento de força (TF), ou treinamento contra resis- tência, vem sendo reconhecido como importante componente do programa de condicionamento físico para adultos devido à promoção de diversos benefícios à saúde. Há fortes indícios de que altos níveis de força muscular podem estar associados à diminuição da prevalência de síndrome metabólica [31]. O Colégio Americano de Medicina do Esporte-ACSM preconiza o treinamento de força para adultos jovens a partir de uma progressão gradual. A qualidade do programa de trei- namento de força deve ser otimizada, sequenciando a execução de exercícios multiarticulares antes de monoarticulares, de alta intensidade antes daqueles de menor intensidade. Para indiví- duos iniciantes, as cargas de treinamento devem corresponder a uma intensidade de 8-12 repetições máximas (RM) [32]. Jurca et al. [33] realizaram um estudo no qual um dos objetivos principais era examinar a associação entre a força muscular e a prevalência de síndrome metabólica. Partici- param do estudo 8.570 homens, com idade de 20-75 anos. Concluiu-se que a força muscular é independentemente associada à prevalência de síndrome metabólica. Os homens com maiores níveis de força tiveram uma probabilidade 67% menor de ter síndrome metabólica, comparados aos homens com menores níveis de força. Estudos de intervenção demonstram que perfi s desfavorá- veis de lipídios e lipoproteínas melhoram com o treinamento físico. Essas melhoras são independentes do sexo, do peso corporal e da adoção de dieta, porém, há possibilidade de ser dependentes do grau de tolerância à glicose. A atividade física 59Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 tem demonstrado ser efi ciente em diminuir o nível de VLDL colesterol em indivíduos com diabetes do tipo 2; entretanto, com algumas exceções, a maioria dos estudos não tem de- monstrado signifi cante melhora nos níveis de HDL e LDL colesterol nessa população, talvez devido à baixa intensidade de exercício utilizada [29]. Uma metanálise de 54 estudos longitudinais randomi- zados controlados, examinando o efeito do exercício físico aeróbio sobre a pressão arterial, demonstrou que essa moda- lidade de exercício reduz, em média, 3,8 mmHg e 2,6 mmHg a pressão sistólica e diastólica, respectivamente. Reduções de apenas 2 mmHg na pressão diastólica podem diminuir substancialmente o risco de doenças e mortes associadas à hi- pertensão, o que demonstra que a prática de exercício aeróbio representa importante benefício para a saúde de indivíduos hipertensos [29]. Além do tratamento da obesidade, o tratamento medicamentoso dos componentes da SM deve ser conside- rado, quando não há melhora destes apesar das mudanças de estilo de vida, para que haja diminuição do risco de doença aterosclerótica. Até o momento não existe nenhuma droga específi ca recomendada para tratamento da SM. O uso das estatinas no tratamento da dislipidemia aterogênica reduz o risco de eventos cardiovasculares em pacientes com SM. Os fi bratos também melhoram o perfi l lipídico desses pacientes, com capacidade de reduzira aterogênese. O mesmo é válido para o tratamento da hipertensão arterial e da hiperglicemia [9]. Os glicocorticóides (GCs) teriam um papel na fi siopato- logia da síndrome metabólica ou plurimetabólica. Recente- mente, demonstrou-se que elevada expressão gênica de GR no músculo esquelético está associada a menor sensibilidade à insulina. Por sua vez, a 11-beta-hidroxiesteróide desidro- genase, que converte cortisona (GC inativo) em cortisol (GC, biologicamente, ativo), também tem sido implicada no desenvolvimento da obesidade, na resistência a insulina e no diabete tipo II [30]. A dexametasona (Dex) tem sido bastante utilizada como modelo experimental para o estudo da síndrome metabólica em razão de um dos seus principais efeitos adversos: a resis- tência à insulina. Segundo alguns autores, ratos tratados com Dex apresentam diminuição na captação de glicose estimulada por insulina no músculo esquelético e no tecido adiposo, ao passo que no fígado há uma reversão da supressão da glicone- ogênese. No tecido adiposo, observa-se um efeito permissivo à ação de hormônios lipolíticos (adrenalina, noradrenalina e hormônio do crescimento), resultando no aumento da hidrólise de triglicerídeos, liberação de ácidos graxos para o sangue (substâncias indutoras de estresse oxidativo e disfun- ção endotelial) e de glicerol para gliconeogênese hepática. A resistência periférica à insulina e o aumento na gliconeogênese mediados por GCs causam hiperglicemia persistente, diabetes, dislipidemia e hipertensão arterial decorrente da disfunção endotelial [30,34]. No contexto da síndrome metabólica, observa-se que a metformina também apresenta efeito regularizador sobre o perfi l lipídico e função endotelial. Esse efeito, apesar de esta- tisticamente signifi cativo, é menos intenso que a normalização da glicemia e pode passar despercebido na prática clínica. No entanto, deve ser considerado que o mecanismo de ação da metformina é distinto de outras drogas usadas no tratamento da síndrome metabólica, podendo haver potencialização de seu efeito em terapias combinadas [34]. Existem fortes evidências bioquímicas de que a ativação da enzima AMPK seja o mecanismo principal pelo qual a metformina produz seus efeitos metabólicos benéfi cos. No contexto não farmacológico, a ativação da AMPK ocorre em resposta ao exercício, uma atividade conhecida por ter impacto positivo para pacientes com DM2. Desta forma, existe uma procura por agentes seletivos e mais potentes ativadores da AMPK, pois poderão tornar-se drogas im- portantes no tratamento das doenças que compõem a sín- drome metabólica, como DM2, obesidade, dislipidemias, hipertensão e doença cardiovascular. Neste sentido, torna-se fundamental o conhecimento dos mediadores envolvidos na ativação dessa enzima [34]. Conclusão A Síndrome Metabólica é uma entidade complexa, sem ainda uma causa bem estabelecida. Sua prevalência aumenta com o excesso de peso, principalmente com a obesidade ab- dominal, e está associada a um aumento de risco de doenças cardiovasculares e de diabetes do tipo 2. Os profi ssionais de saúde têm importância fundamental no cuidado destes pacientes, já que a síndrome pode ser reversível, dado que os fatores de risco a ela relacionados são controláveis e modifi - cáveis. Convém também salientar que, independentemente do diagnóstico da síndrome, os pacientes com qualquer fator de risco cardiovascular devem ser investigados para detectar a presença de outros fatores de risco e tratados individualmente de acordo com as diretrizes específi cas. É de comum acordo que mudanças no estilo de vida, com o objetivo primário de perda de peso, sejam introduzidas. Referências 1. Moraes ACF, Fulaz CS, Netto Oliveira. Prevalência de síndrome metabólica em adolescentes: uma revisão sistemática. Cad Saúde Pública 2009;25(6):1195-02. 2. Carvalho EMG, Rabelo JN. Identifi cação, prevenção e trata- mento dos fatores de riscos associados à síndrome metabólica em pacientes atendidos no programa integrado de atividade física, esporte e lazer para todos os servidores da UFV campus fl orestal: estudo piloto – PIAFEL-EP. SynTh esis Revista Digital FAPAM 2009;1. 3. Pontes LM, Sousa MSC. Estado nutricional e prevalência de síndrome metabólica em praticantes amadores de futebol. Rev Bras Med Esporte 2009;15(3):185-89. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201160 4. Saad MJA, Zanella MT, Ferreira SRG. Síndrome metabólica: ainda indefi nida, mas útil na identifi cação do alto risco cardio- vascular. Arq Bras Endocrinol Metab 2006;50(2):161-2. 5. Olmi PCB, Moretti MP. Prevalência de síndrome metabólica nos pacientes atendidos no ambulatório médico da UNESC. ACM Arq Catarin Med 2009;38(2):22-7. 6. Freitas ED, Haddad JPA, Velásquez-Meléndez G. Uma ex- ploração multidimensional dos componentes da síndrome metabólica. Cad Saúde Pública 2009;25(5):1073-82. 7. Souza MSF. Síndrome metabólica em adolescentes com sobre- peso e obesidade. Rev Paul Pediatr 2007;25(3):214-20. 8. Rocha AC. Exame médico periódico e risco cardiovascular em trabalhadores de uma grande empresa do Rio de Janeiro [tese]. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca; 2009. 62 p. 9. Penalva DQF. Síndrome metabólica: diagnóstico e tratamento. Rev Med (São Paulo) 2008;87(4):245-50. 10. Jardim PCB. V Hipertensão Arterial e alguns fatores de risco em uma capital brasileira. Arq Bras Cardiol 2007;88(4):452-7. 11. Barbosa JB. Prevalência da hipertensão arterial em adultos e fatores associados em São Luís - MA. Arq Bras Cardiol 2008;91(4):260-6. 12. Garrison RJ, Kannel WB, Stokes III J, Castelli WP. Incidence and precursors of hypertension in young adults: the Framin- gham Off spring Study. Prev Med 1987; 16:235-51. 13. Santos R, Nunes A, Ribeiro JC, Santos P, Duarte JAR, Mota J. Obesidade, síndrome metabólica e atividade física: estudo exploratório realizado com adultos de ambos os sexos, da Ilha de S. Miguel, Região Autônoma dos Açores, Portugal. Rev Bras Educ Fís Esp 2005;19:317-28. 14. Meigs JB, Wilson PW, Fox CS, Vasan RS, Nathan DM, Sulli- van LM, et al. Body mass index, metabolic syndrome, and risk of type 2 diabetes or cardiovascular disease. J Clin Endocrinol Metab 2006;91:2906-12. 15. Dias JCR. Aspectos clínicos e nutricionais na síndrome meta- bólica. Rev Bras Nutr Clin 2009;24(1):72-8. 16. Natali A, Toschi E, Baldeweg S, Ciociaro D, Favilla S, Saccà L, et al. Clustering of insulin resistance with vascular dysfunc- tion and low-grade infl ammation in type 2 diabetes. Diabetes 2006;55(4):1133-40. 17. Fernández-Real JM, Broch M, Vendrell J, Ricart W. Insulin resistance, infl ammation, and serum fatty acid composition. Diabetes Care 2003;26(5):1362-8. 18. Miranda PJ, Defronzo RA, Califf RM, Guyton JR. Metabolic syndrome: defi nition, pathophysiology, and mechanisms. Am Heart J 2005;149(1):33-45. 19. Ginsberg HN, Zhang YL, Hernandez-Ono A. Metabolic syndrome: focus on dyslipidemia. Obesity (Silver Spring) 2006;14(Suppl 1):41S-9. 20. Salaroli LB, Barbosa GC, Mill JG, Molina MCB. Prevalência de Síndrome Metabólica em Estudo de Base Populacional, Vitória, ES – Brasil. Arq Bras Endocrinol Metab 2007; 51(Pt 7): 1143-52. 21. Marquezine GF, Oliveira CM, Pereira AC, Krieger JE Mill JG. Metabolic syndrome determinants in an urban population from Brazil: Social class and gender-specifi c interaction. Int J Cardiol 2008;129(2):259-65. 22. Nakazone MA, Pinheiro A, Braile MC, PinheL MA, Sousa GF, Pinheiro SJR, et al. Prevalence of metabolic syndrome using NCEP-ATPIII and IDF defi nitions in Brazilian individuals. Rev Assoc Med Bras 2007;53(5):407-13. 23. Marcondes JA, Hayashida SA, Barcellos CR, Rocha MP, Maciel GA, Baracat EC. Metabolic syndrome in women with polycystic ovarysyndrome: prevalence, characteristics and predictors. Arq Bras Endocrinol Metabol 2007;51(6):972-9. 24. Ford ES, Giles WH, Dietz WH. Prevalence of the meta- bolic syndrome among US adults: fi ndings from the third National Health and Nutrition Examination Survey. JAMA 2002;287:356-9. 25. Park YW, Zhu S, Palaniappan L, Heshka S, Carnethon MR, Heymsfi eld SB. Th e metabolic syndrome: prevalence and associated risk factor fi ndings in the US population from the Th ird National Health and Nutrition Examination Survey, 1988-1994. Arch Intern Med 2003;163(4):427-3. 26. Marccoli R, Bianchi C, Odoguardi L. Prevalence of the me- tabolic syndrome among Italian adults according to ATP III defi nition. Nutr Metab Cardiovasc Dis 2005;15:250-4. 27. Hu G, Qiao Q, Tuomilehto J, Balkau B, Borch-Johnsen K, Pyo- rala K. Prevalence of the metabolic syndrome and its relation to all-cause and cardiovascular mortality in nondiabetic European men and women. Arch Intern Med 2004;164(10):1066-76. 28. Barreto-Filho JAS, Consolim-Colombo FM, Lopes HF. Hi- pertensão arterial e obesidade: causa secundária ou sinais inde- pendentes da síndrome plurimetabólica? Rev Bras Hipertens 2002;9(2):174-84. 29. Ciolac EG, Guimaraes GV. Exercício físico e síndrome meta- bólica. Rev Bras Med Esporte 2004;10(4):319-24. 30. Pinheiro CHJ, Sousa Filho WM, Oliveira Neto J, Marinho MJF, Motta Neto R, Smith MMRL, et al. Exercício físico previne alterações cardiometabólicas induzidas pelo uso crônico de glicocorticóides. Arq Bras Cardiol 2009;93(4):400-408. 31. Guttierres APM, Martins JCB. Os efeitos do treinamento de força sobre os fatores de risco da síndrome metabólica. Rev Bras Epidemiol 2008;11(1):147-58. 32. American College Sports Medicine. Diretrizes do ACMS para os testes de esforço e sua prescrição 6ª ed. Rio de Janeiro: Gua- nabara Koogan; 2003. p.136-41. 33. Jurca R, Lçamonte MJ, Church ST, Earnest CP, Fitzgerald SJ, Barlow CE et al. Association of muscle strength and aerobic fi tness with metabolic syndrome in men. Med Sci Sports Exerc 2004;36(8):1301-7. 34. Santomauro JUN, Augusto Cézar. Metformina e AMPK: um antigo fármaco e uma nova enzima no contexto da síndrome metabólica. Arq Bras Endocrinol Metab 2008;52/1:120-5. 61Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 2011 Normas de publicação Fisiologia do Exercício A Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício é uma publicação com periodicidade bimestral e está aberta para a publicação e divulgação de artigos científi cos das áreas relacionadas à atividade física. Os artigos publicados na Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício poderão também ser publicados na versão eletrônica da revista (Internet) assim como em outros meios eletrônicos (CD-ROM) ou outros que surjam no futuro, sendo que pela publicação na revista os autores já aceitem estas condições. A Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício assume o “estilo Vancouver” (Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical journals) preconizado pelo Comitê Internacional de Diretores de Revistas Médicas, com as especifi cações que são detalhadas a seguir. Ver o texto completo em inglês desses Requisitos Uniformes no site do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE), www.icmje.org, na versão atualizada de outubro de 2007 (o texto completo dos requisitos está disponivel, em inglês, no site de Atlântica Editora em pdf ). Os autores que desejarem colaborar em alguma das seções da revista podem enviar sua contribuição (em arquivo eletrônico/e-mail) para nossa redação, sendo que fi ca entendido que isto não implica na aceitação do mesmo, que será notifi cado ao autor. O Comitê Editorial poderá devolver, sugerir trocas ou retorno de acordo com a circunstância, realizar modifi cações nos textos recebidos; neste último caso não se alterará o conteúdo científi co, limitando-se unicamente ao estilo literário. PREPARAÇÃO DO ORIGINAL 1. Normas gerais 1.1 Os artigos enviados deverão estar digitados em processador de texto (Word), em página de formato A4, formatado da seguinte maneira: fonte Times Roman (English Times) tamanho 12, com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico, sobrescrito, etc. 1.2 Numere as tabelas em romano, com as legendas para cada tabela junto à mesma. 1.3 Numere as figuras em arábico, e envie de acordo com as especifi cações anteriores. As imagens devem estar em tons de cinza, jamais coloridas, e com resolução de qualidade gráfi ca (300 dpi). Fotos e desenhos devem estar digitalizados e nos formatos .tif ou .gif. 1.4 As seções dos artigos originais são estas: resumo, introdução, material e métodos, resultados, discussão, conclusão e bibliografi a. O autor deve ser o responsável pela tradução do resumo para o inglês e também das palavras-chave (key-words). O envio deve ser efetuado em arquivo, por meio de disquete, CD-ROM ou e-mail. Para os artigos enviados por correio em mídia magnética (disquetes, etc) anexar uma cópia impressa e identifi car com etiqueta no disquete ou CD-ROM o nome do artigo, data e autor. 2. Página de apresentação A primeira página do artigo apresentará as seguintes informações: - Título em português, inglês e espanhol. - Nome completo dos autores, com a qualifi cação curricular e títulos acadêmicos. - Local de trabalho dos autores. - Autor que se responsabiliza pela correspondência, com o respectivo endereço, telefone e E-mail. - Título abreviado do artigo, com não mais de 40 toques, para paginação. - As fontes de contribuição ao artigo, tais como equipe, aparelhos, etc. 3. Autoria Todas as pessoas consignadas como autores devem ter participado do trabalho o sufi ciente para assumir a responsabilidade pública do seu conteúdo. O crédito como autor se baseará unicamente nas contribuições essenciais que são: a) a concepção e desenvolvimento, a análise e interpretação dos dados; b) a redação do artigo ou a revisão crítica de uma parte importante de seu conteúdo intelectual; c) a aprovação defi nitiva da versão que será publicada. Deverão ser cumpridas simultaneamente as condições a), b) e c). A participação exclusivamente na obtenção de recursos ou na coleta de dados não justifi ca a participação como autor. A supervisão geral do grupo de pesquisa também não é sufi ciente. Os Editores podem solicitar justifi cativa para a inclusão de autores durante o processo de revisão do manuscrito, especialmente se o total de autores exceder seis. 4. Resumo e palavras-chave (Abstract, Key-words) Na segunda página deverá conter um resumo (com no máximo 150 palavras para resumos não estruturados e 200 palavras para os estruturados), seguido da versão em inglês e espanhol. O conteúdo do resumo deve conter as seguintes informações: - Objetivos do estudo. - Procedimentos básicos empregados (amostragem, metodologia, análise). - Descobertas principais do estudo (dados concretos e estatísticos). - Conclusão do estudo, destacando os aspectos de maior novidade. Em seguida os autores deverão indicar quatro palavras-chave para facilitar a indexação do artigo. Para tanto deverão utilizar os termos utilizados na lista dos DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) da Biblioteca Virtual da Saúde, que se encontra no endereço Internet seguinte: http://decs.bvs.br. Na medida do possível, é melhor usar os descritores existentes. 5. Agradecimentos Os agradecimentos de pessoas, colaboradores, auxílio financeiro e material, incluindo auxílio governamental e/ou de laboratórios farmacêuticos devem ser inseridos no fi nal do artigo, antes as referências, em uma secção especial. 6. Referências As referências bibliográfi cas devem seguir o estilo Vancouver defi nido nos Requisitos Uniformes. As referências bibliográfi cas devem ser numeradas por numerais arábicos entre parêntesese relacionadas em ordem na qual aparecem no texto, seguindo as seguintes normas: Livros - Número de ordem, sobrenome do autor, letras iniciais de seu nome, ponto, título do capítulo, ponto, In: autor do livro (se diferente do capítulo), ponto, título do livro (em grifo - itálico), ponto, local da edição, dois pontos, editora, ponto e vírgula, ano da impressão, ponto, páginas inicial e fi nal, ponto. Exemplo: 1. Phillips SJ, Hypertension and Stroke. In: Laragh JH, editor. Hypertension: pathophysiology, diagnosis and management. 2nd ed. New- York: Raven press; 1995. p.465-78. Artigos – Número de ordem, sobrenome do(s) autor(es), letras iniciais de seus nomes (sem pontos nem espaço), ponto. Título do trabalha, ponto. Título da revista ano de publicação seguido de ponto e vírgula, número do volume seguido de dois pontos, páginas inicial e fi nal, ponto. Não utilizar maiúsculas ou itálicos. Os títulos das revistas são abreviados de acordo com o Index Medicus, na publicação List of Journals Indexed in Index Medicus ou com a lista das revistas nacionais, disponível no site da Biblioteca Virtual de Saúde (www.bireme.br). Devem ser citados todos os autores até 6 autores. Quando mais de 6, colocar a abreviação latina et al. Exemplo: Yamamoto M, Sawaya R, Mohanam S. Expression and localization of urokinase-type plasminogen activator receptor in human gliomas. Cancer Res 1994;54:5016-20. Os artigos, cartas e resumos devem ser enviados para: Guillermina Arias - E-mail: artigos@atlanticaeditora.com.br As normas completas são disponiveis em nosso site: www.atlanticaeditora. com.br Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 1 - janeiro/março 201162 Calendário de eventos 2011 Abril 7 a 11 de abril Goiânia Capital Fitness Goiânia, GO Informações: www.bsbfitness.com.br 13 a 15 de abril VI Congreso Internacional Rehabilitación 2011 y III Encuentro Internacional de Gestión de la Información e Investigación en Rehabilitación Cuba Informações: http://promociondeeventos.sld.cu/ rehabilitacion2011/ 13 a 20 de abril Curso de Prescrição de Treinamento Físico Aeróbio e Resistido para populações especiais São Paulo, SP Informações: (11) 3091-3183/2714-5656 21 a 24 de abril 21ª Fitness Brasil Internacional Santos, SP Informações: fitnessbrasil.com.br Maio 26 a 29 de maio VII Congresso Internacional de Educação Física e Motricidade Humana XIII Simpósio Paulista de Educação Física Rio Claro, SP Informações: www.rc.unesp.br/ib/simposio/ Junho 11 de junho Fórum Internacional de Treinamento de Força e Qualidade de Vida Natal, RN Informações: (84) 9119-9400 23 a 25 de junho 10º Fórum Internacional de Esporte Florianópolis, SC Informações: (48) 3335-6050/4104-0816 E-mail: unesporte@unesporte.org.br Julho 14 a 16 de julho 13ª Rio Sport Show Rio de Janeiro, RJ Informações: riosportshow.com.br 28 a 31 de julho Costão Fitness – Meeting Sport/Business Costão do Santinho Resort, Florianópolis, SC Informações: (48) 3335-6050 E-mail: unesporte@unesporte.org.br Novembro 9 a 12 de Novembro VIII Congresso Brasileiro de Atividade Física Gramado, RS Informações: www.cbafs.org.br EDITORIAL Editorial, Paulo Farinatti ....................................................................................................................................................67 ARTIGOS ORIGINAIS Impacto do exercício físico sobre a autonomia de ação de idosas participantes de um programa de atividade física, Nádia Souza Lima da Silva, Rafael Ayres Montenegro, Lis Bentes dos Santos, Juliana Ramos de Almeida, Paulo de Tarso Veras Farinatti .................................................................68 Efeito do uso de antioxidantes na prevenção da lesão muscular em atividades físicas intensas, Fábio Gilberto Valente, Rita de Cássia Dorácio Mendes, Wanderlei Onofre Schmitz ..................................................................................................................................................74 Estado de hidratação de idosos praticantes de hidroginástica de uma academia da cidade de São Paulo, Deborah Rivelli Pires, Lygia Russo Xavier, Márcia Nacif, Mariana Söncksen Garbin ....................................................................................................................................................82 Benefícios do treinamento aeróbio em indivíduos hemiparéticos crônicos, Kérima Giamarim Batista, Narla Couto, Maria Imaculada Ferreira Moreira Silva, Regiane Luz Carvalho ..........................................................................................................................................................86 Infl uência do treinamento do futsal na agilidade de adolescentes, Mauro Lucio Mazini Filho, Rosimar da Silva Salgueiro, Julio Cesar Correa Neto Carias, Ricardo Luiz Pace Junior, Felipe José Aidar, Ricardo Luiz Pace, Bernardo Minelli Rodrigues, Dihogo Gama de Matos .........................................................................................................90 Imagem corporal de atletas de voleibol de um clube de São Paulo, Adriana Passanha, Fernanda Santos Th omaz, Lídia Regina Barbosa Pereira, Gleice Amancio, Julia Alves Stein, Marcia Nacif ...........................96 RELATO DE CASO Treinamento resistido e aeróbio promovem regularização nos níveis pressóricos em um indivíduo sedentário e hipertenso, Alexsandro Fernandes Generoso, Antonio Coppi Navarro .............................100 REVISÕES Adaptações agudas promovidas por exercícios no aumento da expressão gênica, conteúdo e translocação da proteína GLUT-4 no músculo esquelético e melhora na responsividade à insulina, Henrique Quintas Teixeira Ribeiro, Rodolfo Gonzalez Camargo, Waldecir Paula Lima, Ricardo Zanuto, Luiz Carlos Carnevali Junior ..................................................................................106 Movimento repetitivo e fadiga muscular, Heros Ferreira, Neusa Moro ............................................................................111 NORMAS DE PUBLICAÇÃO ............................................................................................................................. 117 EVENTOS ............................................................................................................................................................... 119 Índice volume 10 número 2 - abril/junho 2011 R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A DO E X E R C Í C I O Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c i s e P h y s i o l o g y Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201166 © ATMC - Atlântica Multimídia e Comunicações Ltda - Nenhuma parte dessa publicação pode ser reproduzida, arquivada ou distribuída por qualquer meio, eletrônico, mecânico, fotocópia ou outro, sem a permissão escrita do proprietário do copyri- ght, Atlântica Editora. O editor não assume qualquer responsabilidade por eventual prejuízo a pessoas ou propriedades ligado à confiabilidade dos produtos, métodos, instruções ou idéias expostos no material publicado. Apesar de todo o material publicitário estar em conformidade com os padrões de ética da saúde, sua inserção na revista não é uma garantia ou endosso da qualidade ou do valor do produto ou das asserções de seu fabricante. Atlântica Editora edita as revistas Fisioterapia Brasil, Enfermagem Brasil, Neurociências e Nutrição Brasil I.P. (Informação publicitária): As informações são de responsabilidade dos anunciantes. R e v i s t a B r a s i l e i r a d e F I S I O L O G I A DO E X E R C Í C I O Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício B r a z i l i a n J o u r n a l o f E x e r c is e P h y s i o l o g y Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício Corpo Diretivo: Paulo Sérgio C. Gomes (Presidente), Vilmar Baldissera, Patrícia Brum, Pedro Paulo da Silva Soares, Paulo Farinatti, Marta Pereira, Fernando Augusto Pompeu Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício está indexada no SIBRADID (Sistema Brasileiro de Documentação e Informação Desportiva) Editor Chefe Paulo de Tarso Veras Farinatti Editor Associado Pedro Paulo da Silva Soares Walace Monteiro Conselho Editorial Amandio Rihan Geraldes (AL) Antonio Carlos Gomes (PR) Antonio Cláudio Lucas da Nóbrega (RJ) Benedito Sérgio Denadai (SP) Dartagnan Pinto Guedes (PR) Douglas S. Brooks (EUA) Emerson Silami Garcia (MG) Francisco Martins (PB) Francisco Navarro (SP) Luiz Carnevali (SP) Luiz Fernando Kruel (RS) Martim Bottaro (DF) Patrícia Chakour Brum (SP) Paulo Sérgio Gomes (RJ) Robert Robergs (EUA) Rosane Rosendo (SC) Sebastião Gobbi (SP) Steven Fleck (EUA) Yagesh N. Bhambhani (CAN) Vilmar Baldissera (SP) Todo o material a ser publicado deve ser enviado para o seguinte endereço de e-mail: artigos@atlanticaeditora.com.br Administração e vendas Antonio Carlos Mello mello@atlanticaeditora.com.br Atlântica Editora e Shalon Representações Praça Ramos de Azevedo, 206/1910 Centro 01037-010 São Paulo SP Atendimento (11) 3361 5595 / 3361 9932 E-mail: assinaturas@atlanticaeditora.com.br Assinatura 1 ano (4 edições ao ano): R$ 160,00 Editor executivo Dr. Jean-Louis Peytavin jeanlouis@atlanticaeditora.com.br Editor assistente Guillermina Arias guillermina@atlanticaeditora.com.br Direção de arte Cristiana Ribas cristiana@atlanticaeditora.com.br E-mail: atlantica@atlanticaeditora.com.br www.atlanticaeditora.com.br 67Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 Editorial Paulo Farinatti, Editor-Chefe da RBFEx Chegamos ao segundo número deste décimo volume da Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício (RBFEx). O processo de revisão por pares foi aperfeiçoado ao longo dos últimos dois anos e os pesquisadores que contribuem com a revista já percebem que um aumento da agilidade no decur- so da recepção, análise e resposta dos revisores em relação à aceitação ou recusa dos artigos. Isso é importante para manter a confi ança dos interessados em divulgar seus trabalhos na revista. Os artigos submetidos têm abordado assuntos va- riados, o que apenas demonstra o quanto é rica esta área do conhecimento. Esperemos ter condições de permanecer como um veículo reconhecido pelos pares como merecedor de sua confi ança para publicação dos resultados de seus esforços. O presente número da RBFEx traz nove artigos, seis deles originais, um relato de caso e duas revisões. Inicialmente, grupo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro traz um estudo sobre a autonomia de idosos, valendo-se de instrumen- to de avaliação desenvolvido naquela instituição. O segundo estudo, encaminhados por docentes de Mato Grosso do Sul e Paraná, aborda o possível efeito de antioxidantes sobre le- sões musculares. No terceiro e quarto estudos, a temática do exercício para populações com necessidades especiais volta à pauta, com uma avaliação do estado de hidratação de idosos praticantes de hidroginástica em uma academia de São Paulo e dos efeitos do treinamento aeróbio em indivíduos hemi- paréticos. Completando os artigos originais, o treinamento aplicado ao desporto de rendimento é contemplado por dois estudos com adolescentes praticantes de futsal e atletas de volibol. Um interessante relato de caso foi incluído nessa edição, sobre efeitos do treinamento resistido e aeróbio em hipertenso dependente de fármacos. Os artigos de revisão abordam temas bem diversos, desde a expressão gênica de proteína do músculo esquelético em resposta ao exercício, até aspectos da fadiga muscular em virtude de movimentos cíclicos. Bom proveito! Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201168 Artigo original Impacto do exercício físico sobre a autonomia de ação de idosas participantes de um programa de atividade física Impact of exercise on autonomy of action among elderly women in a physical activity program Nádia Souza Lima da Silva*, Rafael Ayres Montenegro**, Lis Bentes dos Santos***, Juliana Ramos de Almeida***, Paulo de Tarso Veras Farinatti**** *Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde – LABSAU/IEFD/UERJ, Universidade Federal de Juiz de Fora, **Labo- ratório de Atividade Física e Promoção da Saúde – LABSAU/IEFD/UERJ, Grupo de Estudo e Pesquisa em Biologia Integrativa do Exercício (GEPEBIEX) – DEF/UFRN, Programa de Mestrado em Nutrição da Faculdade de Nutrição. Universidade Federal de Alagoas – UFAL, ***Universidade Gama Filho, ****Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde – LABSAU/IEFD/ UERJ, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Atividade Física da Universidade Salgado de Oliveira Resumo O estudo teve por objetivo analisar o impacto do exercício físico sobre o perfi l de autonomia de ação de idosas participantes de um programa de atividades físicas regulares. Participaram do estudo 60 idosas (74,3 ± 6,7 anos) distribuídas em dois grupos: Grupo Controle, composto por idosas sedentárias, e Grupo Experimental, composto por frequentadoras de projeto de atividades físicas há pelo menos seis meses. A autonomia de ação foi aferida pelo Sistema Sênior de Avaliação da Autonomia de Ação (SysSen), composto por um questionário de atividades físicas para obtenção de um índice de autonomia exprimida (IAE) e um teste de caminhada de 800 m com transporte manual de cargas, para obtenção de um índice de autonomia potencial (IAP). Uma ANOVA de dupla entrada foi aplicada para comparar IAP, IAE, ISAC e Idade cronológica entre GC e GE (p < 0,05). Os resultados revelaram que GE exibiu níveis maiores de aptidão física e funcional. Apesar de cronologicamente mais velhas, as idosas ativas exibiram autonomia de ação equivalente às idosas inativas. Palavras-chave: envelhecimento, autonomia, qualidade de vida, aptidão física, saúde. Abstract Th e study aimed to analyze the impact of physical exercise on the profi le of autonomy of action defi ned SysSen in elderly participants in a program of regular physical activity. Sixty subjects enrolled in the study (74.3 ± 6.7 years), being assigned into two groups: control group composed by sedentary elderly, and experimental group, elderly women who participated in a physical activity program for at least six months. Th e functional autonomy was assessed by the Senior System for the Evaluation of the Autonomy of Action (SysSen) which is composed by a physical activity questionnaire providing an Expressed Autonomy Index (IAE) and a 800 m walking test carrying weights providing a Potential Autonomy Index (IAP). An overall autonomy index (ISAC) was obtained from the IAP/IAE ratio. A 2-way ANOVA was applied to within and between group comparisons regarding IAP, IAE, ISAC, and chronological age. Th e EG exhibited higher levels of physical fi tness and functional auto- nomy (P < 0.05), although similar profi les of overall autonomy as defi ned by the ISAC. Hence, although being signifi cantly older, the active women had similar levels of autonomy of action compared to the inactive group. Key-words: aging, autonomy, quality of life, physical fitness, health. Recebido em 23 de fevereiro de 2011; aceito em 25 de maio de 2011. Endereço de correspondência: Nádia Lima da Silva, Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LABSAU-UERJ), Rua São Francisco Xavier 524, 80 andar, sala 8133, Bloco F, 20599-900 Rio de Janeiro RJ, E-mail: nadialima@globo.com 69Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume10 Número 2 - abril/junho 2011 Introdução O processo de envelhecimento caracteriza-se pela perda progressiva das capacidades fi siológicas [1]. Dentre as prin- cipais implicações do processo de envelhecimento, a perda de força muscular é uma das que invariavelmente repercute sobre a aptidão na execução das atividades diárias e, conse- quentemente, interfere veementemente na qualidade de vida dos idosos [2,3]. Níveis elevados de fadiga durante as atividades diárias estão altamente relacionados com incapacidade funcional futura nos idosos [4-7]. A aptidão aeróbia e a força muscular fi guram entre as capacidades físicas essenciais para a realização das tarefas do cotidiano [8,9] e estão diretamente relacionadas com os aspectos cognitivos [10-13] e com a mortalidade em idosos [14,15]. Todas essas repercussões afetam drasticamente a auto- nomia dos idosos [16,17]. Neste contexto, vários métodos de avaliação tentaram quantifi car a autonomia de idosos, relacionando a autonomia às condições do ambiente físico do indivíduo ou às suas características físicas individuais. Porém, de acordo com Farinatti et al. [18] estes métodos voltam-se eminentemente aos interesses do observador e não aos do indivíduo observado. Ao contrário, o Sistema de Avaliação da Autonomia de Ação de Idosos (SysSen) constitui um sistema de avaliação física e funcional que se vale de uma abordagem positiva, perante a avaliação da autonomia pelos próprios idosos [16]. Apesar dos estudos prévios terem demonstrado que o SysSen reveste-se de boa validade e reprodutibilidade [18- 20], é importante testá-lo em diferentes contextos para ratifi cação desses resultados. Uma questão que se apresenta, por exemplo, é a capacidade do sistema discriminar aspectos da autonomia de ação entre idosos ativos e sedentários, bem como os efeitos da prática regular de atividades físicas sobre a autonomia assim defi nida. Desse modo, o presente estudo teve por objetivo analisar o impacto do exercício físico sobre o perfi l de autonomia de ação defi nida pelo SysSen, em idosas participantes de um programa de atividades físicas regulares, o Projeto Idosos em Movimento: Mantendo a Autonomia (IMMA) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Materiais e métodos Sujeitos Participaram do estudo 60 idosas (74,3 ± 6,7 anos), distribuídas igualmente em dois grupos: (I) Grupo Controle (GC), não praticantes de exercício físico regular e (II) Grupo Experimental (GE), idosas que participavam do projeto de extensão universitário intitulado “Idosos em Movimento: Mantendo a Autonomia (IMMA)”, desenvolvido na Uni- versidade do Estado do Rio de Janeiro, há pelo menos seis meses. Para a seleção da amostra foram adotados os seguintes critérios de exclusão: a) restrições médicas para a prática de exercício físico; b) defi ciência motora ou cognitiva impeditiva da aplicação das atividades previstas (questionário e teste de campo); c) problemas ósteomioarticulares que comprome- tessem a realização dos testes. Todas as voluntárias foram devidamente esclarecidas a respeito de todos os procedimentos experimentais e possíveis riscos envolvidos no estudo e, então, assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, conforme determina a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Avaliação antropométrica Para determinação do Índice de Massa Corporal (IMC), expresso em kg/m2, foram aferidas a massa corporal e a esta- tura, de acordo com as padronizações descritas por Gordon et al. [21] e Martin et al. [22], respectivamente. O IMC foi calculado pelo quociente entre peso (kg) e o quadrado da estatura (m2). As medidas foram coletadas em uma balança digital da marca Filizola® devidamente calibrada. Avaliação da autonomia de ação Para a avaliação da autonomia de ação das idosas foi uti- lizado o Sistema Sênior de Avaliação da Autonomia de Ação (SysSen) [18]. O SysSen é composto por dois instrumentos independentes e complementares: o QSAP (Questionário Sênior das Atividades Físicas) e o Teste Sênior de Caminhar e Transportar (TSMP). O QSAP tem por fi nalidade observar a autonomia do idoso através de questões sobre atividades de seu cotidiano. O questionário é composto por quatro partes: (1ª parte) abrange as atividades que o entrevistado faz em seu domicílio, em seu trabalho e no tempo livre; (2ª parte) abrange as atividades que o entrevistado deve fazer como, por exemplo, quantos lances de escada o indivíduo deve, obrigatoriamente, subir por dia, ou quanto tempo o indivíduo leva caminhando de sua casa até o ponto de ônibus ou outro transporte público mais próximo; (3ª parte) as atividades que o entrevistado deseja fazer - é apresentada uma lista de atividades ao entrevistado, o qual deve dizer se suas condições físicas e de saúde representam impedimento durante a execução das atividades listadas, bem como é atribuída uma pontuação aos sentimentos suscitados pelo fato de não realizar atividades que desejaria fazer; a últi- ma parte (4ª parte) é constituída de itens para obter o ponto de vista do entrevistador quanto à realidade do entrevistado, buscando minimizar possíveis erros de avaliação. Cada atividade possui uma pontuação pré-determinada e no fi nal de todas as respostas às partes do questionário, os pontos são somados, dando resultado aos chamados “TOT 1, TOT2, TOT3 e TOT4”. A soma do “TOT 1”, “TOT 2”, “TOT 3” e “TOT 4”, dividida por quatro, nos leva ao “ITOT”, que consiste nos índices totais do QSAP. Com base nesses índices calcula-se o IAE (Índice de Autonomia Exprimida), que re- Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201170 presenta o resultado geral do questionário, através da seguinte fórmula: IAE = 6,99 x IAEbruto + 69,88, onde IAEbruto = 7,496x1 + 7,899x2 - 3,423, onde x1 = ITOT (PA), x2 = ITOT (FO) O segundo instrumento do SysSen, o TSMP, foi pensado de forma a permitir, em um teste físico, a interação da força mus- cular de membros superiores e da capacidade cardiorrespiratória em um contexto funcional [19-20]. Trata-se de uma caminhada de 800 metros transportando-se cargas de 6,5 kg em cada mão para as mulheres e 8,0 kg para os homens. Os idosos devem caminhar o mais rápido que puderem, porém, têm liberdade para fazer pausas durante o percurso. Nesse teste, as variáveis observadas são: IMC (Índice de Massa Corporal), tempo total de percurso em segundos (T-800), S-PAUSA (correspondente ao número de pausas que o indivíduo fez) e percentual da frequência cardíaca máxima (%FC máx), determinado pela fórmula: “%FCmáx = (FCtest x 100) / FCmáx”, sendo a FCtest a máxima frequência obtida no teste e a FCmáx a frequência máxima estipulada pela fórmula “220 - idade”. O TSMP é composto por 3 fases: a) fase de pré-fadiga, imóvel e de pé, o indivíduo sustenta pesos predeterminados para seu sexo em cada uma das mãos durante 3 minutos, ao fi m dos quais é autorizado a começar a caminhada; b) fase de trabalho, o indivíduo é convidado a percorrer, sem correr, 800 m (o mais rapidamente possível sem colocar em risco a saúde), portando os pesos específi cos ao seu sexo. Por razões operacionais, o teste é feito em uma distância de 50 ou 100 m, percorrida 16 ou 8 vezes; e c) fase de recuperação, ao fi m dos 800 m, o sujeito coloca os pesos no chão e sua FC (e, preferencialmente, a pressão arterial) é aferida imediata- mente e após 3 minutos. Esse período de recuperação pode ser aumentado, se essas variáveis mostram-se anormalmente elevadas. A partir das quatro variáveis observadas durante o teste foi determinado o IAP (Índice de Autonomia Potencial). O resultado fi nal do SysSen é a razão entre os valores cor- rigidos de IAP e o IAE, que resulta no ISAC (Índice Sênior de Autonomia de Ação) (Quadro 1). Foram classifi cados como autônomos os idosos cujo ISAC era maiorou igual a um [18,19]. Protocolo experimental Todas as idosas que compuseram o GE faziam parte do IMMA há, no mínimo, seis meses. Portanto, todas foram classifi cadas como fi sicamente ativas e bem adaptadas aos exercícios propostos pelo programa. A metodologia de traba- lho no IMMA é pautada no desenvolvimento de atividades corporais como ginástica, dança e jogos recreativos, realizadas duas vezes por semana em sessões com duração aproximada de 60 minutos. O esquema de aula engloba estímulos vol- tados para o desenvolvimento dos seguintes componentes da aptidão física: força muscular, fl exibilidade, equilíbrio, coordenação e resistência aeróbia, além de valências como a memória e funcionalidade, por meio de exercícios diários funcionais específi cos. Quadro 1 - Fórmulas para Cálculo dos Índices Parciais (IAE e IAP) e Total do SysSen (ISAC). Índice Senior de Autonomia Exprimida (IAE) 6,99 x IAEbruto + 69,88 IAEbruto = 7,496 x ITOT (PA) + 7,899 x ITOT (FO) - 3,423 ITOT (PA) = somatório dos índices parciais das partes do QSAP para FO Índice Senior de Autonomia Potencial (IAP) IAP = 69,02 - 4,49 x IAPbruto IAPbruto (homens) = 0,005x1 + 0,053x2 + 0,514x3 - 0,013x4 - 3,28 IAPmulheres = 68,51 - 6,84 x IAPbruto IAPbruto (mulheres) = 0,006x1 + 0,080x2 + 0,233x3 + 0,029x4 - 8,32 x1 = T-800 (seg); x2 - BMI (kg;m 2); x - S-PAUSW (s/dim); x4 = %FCmax (%) Índice Senior de Autonomia de Ação (ISAC) ISAC = IAPcorr/IAEcorr IAPcorr (mulheres) = 1,48 x IAPmulheres - 52,43 IAEcorr (mulheres) = 2,04 x IAE - 91,65 IAPcorr (homens) = 2,23 x IAPhomens - 102,86 IAEcorr (homens) = 1,37 x IAE - 46,10 Fonte: Farinatti et. al., 2000. O SysSen foi aplicado durante o período de 28 dias. Toda a avaliação era realizada em um único dia, portanto, avaliou- se cerca de duas idosas/dia. Após explanação dos objetivos e metodologia do estudo, os participantes assinavam o TCLE e, em seguida, eram realizadas as medidas antropométricas. Feito isso, dava-se início a aplicação do QSAP. A duração média da aplicação do QSAP era de 15 minutos por idosa. Após todas as idosas responderem o questionário iniciava-se a fase de aplicação do TSMP. A aferição da frequência cardíaca e da pressão arterial de re- pouso era realizada antes da caminhada. Caso o sujeito exibisse FC maior que 120 bpm, PA sistólica acima de 150 mmHg ou PA diastólica acima de 100 mmHg, o teste não era realizado, sendo remarcado o dia de aplicação do teste. A avaliação era realizada sempre individualizada, somente com o avaliador responsável. A FC foi monitorada continuamente, da fase pré-fadiga até o fi nal da recuperação. Na fase de recuperação eram aferidas a FC e a PA imediatamente após o término do TSMP e três minutos após. A frequência cardíaca (FC) foi aferida pelo Polar ® Accurex (Tampere, Finlândia) e a pressão arterial (PA) aferida pelo esfi gmomanômetro aneróide BIC®. Análise estatística Os resultados foram apresentados sob a forma de média e desvio-padrão. Após a comprovação de normalidade e heteros- cedasticidade, foi utilizado, para comparação dos valores médios dos índices fornecidos pelo QSAP e TSMP, o teste t-Student para amostras independentes. Uma ANOVA de dois fatores, seguida de verifi cação post-hoc de Tukey, foi aplicada conside- 71Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 rando IAP, IAE e Idade cronológica para os grupos controle e experimental. Foi adotado um nível de signifi cância de p ≤ 0,05. Resultados A Tabela I apresenta as características da amostra (n = 60). Os grupos controle e experimental revelaram-se homogêneos. E de acordo com a NSI (1992), ambos os grupos se apresen- tam na faixa de normalidade para o índice de massa corporal. Tabela I - Caracterização da amostra. Sujeitos N Idade Altura Massa IMC Ativos 30 77,4 ± 4,7* 1,56 ± 0,1 60,8 ±11,4 25,1 ±4,5 Inativos 30 71,2 ±8,7 1,58 ±0,1 61,3 ±10,3 24,6 ±3,8 Na Tabela II apresentam-se os resultados da comparação entre as médias dos resultados obtidos no QSAP e TSMP para GE e GC. Observa-se que, para o escore do “TOT1 PA”, que compreende questões referentes às necessidades relacionadas à potência aeróbia impostas pelas atividades que os avaliados fazem no seu cotidiano, o GE apresentou valores signifi cativa- mente maiores que o GC. Em contrapartida, para os escores do “TOT1 FO”, que compreendem atividades que exigem força muscular de membros superiores, não foi encontrada diferença signifi cativa entre os grupos estudados. Para os escores “TOT3 PA” e “TOT3 FO” os resultados foram signifi cativamente superiores para GC que para GE. Já em relação ao IAE e IAP, não foram encontradas diferenças signifi cativas entre os grupos. Tabela 2 - Valores médios dos resultados do QSAP E TSMP. GE GC TOT1 PA 0,16 ±0,1* 0,11 ±0,06 TOT1 FO 0,12 ±0,05 0,10 ±0,06 TOT2 PA 0,29 ±0,12 0,28 ±0,17 TOT2 FO 0,25 ±0,10 0,25 ±,16 TOT3 PA 0,07 ±,006* 0,21 ± 0,20 TOT3 FO 0,08 ±0,08* 0,22 ±0,21 TOT4 PA 0,31 ±0,14 0,31 ±0,7 TOT4 FO 0,31 ±0,14 0,29 ±0,15 ITOT PA 0,21 ±0,06 ,023 ±0,12 ITOT FO 0,19 ±0,05 0,21 ±0,11 IAE BRUTO -0,36 ±0,9 0,04 ±1,7 IAP BRUTO 1,47 ±1,42 1,68 ±2,24 IAE 67,36 ±6,26 69,63 ±12,09 IAP 58,5 ±9,7 57,02 ±15,35 *Diferença significativa entre os grupos experimental e controle. A Figura 1 apresenta os resultados da ANOVA para a comparação entre IAE, IAP e idade cronológica em GC e GE. Nota-se que os valores de IAE foram superiores em GC, embora o “TOT 1 PA” tenha sido maior no GE, conforme mostrado na Tabela II. Em relação ao IAP, que traduz o re- sultado do teste de caminhar e transportar pesos, o resultado tendeu a ser menor para o GC do que para o GE. Mesmo não havendo diferenças estatísticas entre os grupos estudados, vale ressaltar os valores absolutos dos IAPs entre os grupos. No GC, somente sete das 30 idosas conseguiram transportar os pesos por todo o percurso de 800 m, enquanto que no GE, 21 das 30 idosas completaram com êxito o transporte dos pesos. Figura 1 - Resultados para os índices gerais do SysSen e idade cronológica. U ni da de N or m al iz ad a (a no s) 85 80 75 70 65 60 55 50 45 Idade IAPIdade IAP IAE IAP IAE IAP Idade IAE Idade IAP IAE Idade IAP Ativas Inativas IAE: Índice de autonomia exprimida; IAP: índice de autonomia potencial. * Diferença significativa entre GE e GC (P = 0,013). As indicações in- ternas indicam diferença significativa em relação ao índice mencionado ( P < 0,01). As barras representam os intervalos de confiança a 95%. A Figura 2 exibe o Índice Sênior de Autonomia de Ação (ISAC), resultante do cruzamento entre IAP e IAE. Percebe-se que, em média, ambos os grupos analisados não atingiram os escores mínimos estabelecidos para que fossem considerados autônomos (ISAC ≥ 1). Observa-se também, que os ISACs dos grupos não diferiram signifi cativamente (p = 0,88). Figura 2 - Resultados para o Índice Sênior de Autonomia de Ação. IS AC (a di m en si on al ) 1,1 1,0 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 Ativas Inativas (ISAC) entre os grupos GE e GC. NS: Diferença não-significativa (P = 0,88). As barras representam os intervalos de confiança a 95%. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201172 Discussão O objetivo do presente estudo foi analisar o impacto do exercício físico praticado regularmente por idosas participan- tes do Projeto Idosos em Movimento: Mantendo a Autono- mia (IMMA) sobre o perfi l de autonomia de ação defi nida pelo SysSen, em comparação com um grupo não vinculado a quaisquer programas de atividades físicas. Apesar de o SysSen ter reduzido poder de discriminação quando aplicado a idosos cujo grau de comprometimento da autonomiaseja elevado [18], tal limitação não chegou a comprometer os resultados obtidos. Mesmo o grupo inativo era composto de idosas hígidas e vivendo em comunidade, com funcionalidade compatível com as atividades propostas pelo TSMP. A comparação entre as médias obtidas no QSAP entre os grupos mostrou que, no tocante ao “TOT1 PA” (total das necessidades associadas à potência aeróbia na Parte I do ques- tionário), o GE apresentou valores signifi cativamente maiores que o GC (p < 0,05). Em contrapartida, para os escores do “TOT1 FO”, que compreendem atividades que exigem força muscular de membros superiores, não foi encontrada diferença signifi cativa entre os grupos estudados. Pode-se suspeitar, portanto, que as exigências físicas de características aeróbias possam produzir maiores infl uências sobre o desempenho nas atividades diárias cotidianas das idosas inativas, do que as exigências físicas relativas à força muscular de membros superiores. Corroborando esse achado, Skelton et al. [23] e Miszko et al. [24] analisaram o efeito do treinamento da força e da potência muscular sobre as funções físicas e capacidades funcionais de idosos, concluindo que, se o treinamento resistido gera ganhos de força muscular signifi cativos, isso não se refl etiria na mesma proporção no desempenho das tarefas funcionais diárias. Em adição, Vreede et al. [25] compararam o efeito do treinamento de força muscular e de exercícios para tarefas funcionais em idosas utilizando um questionário que objeti- vava avaliar o desempenho nas atividades funcionais diárias de idosos (ADAP). O treinamento da força produziu efeitos inferiores aos produzidos pelos exercícios funcionais especí- fi cos, porém conseguiu melhorar o desempenho de idosos em comparação com grupo controle. Este estudo ratifi ca a importância da prática de exercícios que visam trabalhar musculaturas específi cas recrutadas em tarefas diárias dos ido- sos, o que se aproxima bastante das atividades ofertadas pelo IMMA. Além disso, Arnett et al. [8] avaliaram o desempenho funcional e a reserva aeróbia de idosos durante uma série de atividades diárias funcionais, utilizando como instrumento de avaliação o CS-PFP, que se constitui num protocolo que inclui 16 tarefas de vida diárias, quantifi cadas pelo tempo e distância percorrida, considerando o peso dos avaliados. Este instrumento tem sua validade e reprodutibilidade testadas [26,27]. Concluiu-se que tarefas domésticas, como o ato de carregar mantimentos, requerem de 40 a 50% do VO2 de pico dos idosos. Isso ilustra o quão necessária é a aptidão aeróbia para um bom desempenho nas atividades de vida diárias à medida que se envelhece. Para os escores “TOT3 PA” e “TOT3 FO”, houve dife- rença estatística entre os grupos GE e GC, as idosas inativas revelando maior necessidade de força nas atividades relatadas como desejadas, apesar de não realizadas (p < 0,05). Pode-se pensar que as idosas do GE, por pertencerem ao IMMA e realizarem atividades físicas variadas e lúdicas, executariam cotidianamente um maior leque de atividades do que as idosas do GC, daí um nível menor de desejo por atividades novas do que o exibido pelas idosas inativas. Já para o IAP, não houve diferenças signifi cativas entre os grupos. Porém, deve-se levar em consideração que a quanti- dade absoluta de idosas que completaram o teste em GC foi nitidamente menor que em GE (7 em 30 vs 21 em 30). Além disso, como apresentado na Tabela I, a média de idade do GE foi superior à do GC (p = 0, 001). Portanto, em função da maior idade, era de se esperar que o GE apresentasse um pior resultado, uma vez que idades mais avançadas implicariam em maiores difi culdades na manutenção da autonomia funcional [28]. Em vez disso, as idosas pertencentes ao IMMA tenderam a possuir melhor desempenho no teste proposto. Em relação ao índice Sênior de Autonomia de Ação (ISAC), nenhum dos grupos atingiu os escores mínimos estabelecidos como ponto de corte para a autonomia (ISAC ≥ 1), sem diferença estatística entre eles (p = 0,88). Todavia, deve-se levar em consideração as características do método de avaliação. Por se tratar de um índice que nasce da comparação entre os resultados do QSAP e TSMP (leia-se, IAE e IAP), é possível que um mesmo ISAC seja obtido para sujeitos com marcada diferença no desempenho físico obtido no TSMP. Basta que as necessidades do IAE sejam igualmente elevadas no sujeito fi sicamente mais apto. Nesse sentido, indivíduos sedentários e felizes de o serem, sem desejos de novas ati- vidades (Parte III do QSAP), podem ser considerados tão autônomos quanto outros, fi sicamente ativos, mas que, por conta disso, realizam muito mais atividades em seu cotidiano (Partes I e II do QSAP). Assim, a infl uência de partes específi cas do QSAP pode levar a uma igualdade entre os grupos, igualdade essa que nasce de uma desigualdade proporcional que equilibra as necessidades em termos de atividades tidas pelo próprio idoso como importantes para uma vida autônoma e a capacidade físico-funcional de responder e fazer frente a elas. Conclusão Considerando os resultados obtidos, pode-se concluir que idosas que participam regularmente do Projeto IMMA tendem a exibir níveis maiores de aptidão física e funcional, ainda que perfi s similares de autonomia de ação conforme defi nida pelo SysSen. Apesar de cronologicamente mais velhas, as idosas ativas exibiram autonomia de ação, necessidades em 73Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 termos de atividades físicas e desempenho físico-funcional equivalente às idosas inativas. Em ambos os grupos, as neces- sidades para uma vida autônoma pareceram se relacionar mais proximamente com a aptidão aeróbia do que com a força de membros superiores. Enfi m, os resultados obtidos pelo SysSen pareceram revestir-se de consistência interna e lógica externa, reforçando com isso sua validade de potencial de aplicação a diferentes populações de idosos. Referências 1. Marin RV, Matsudo S, Matsudo V, Andrade E, Braggion G. Acréscimo de 1 kg aos exercícios praticados por mulheres acima de 50 anos: impacto na aptidão física e capacidade funcional. Rev Bras Ciên Mov 2003;11:53-8. 2. Smilios I, Pilianidis T, Karamouzis M, Parlavantzas A, Tok- makidis SP. Hormonal responses after a strength endurance resistance exercise protocol in young and elderly males. Int J Sports Med 2007;28:401-6. 3. Hunter GR. Wetzstein CJ, Mclaff erty CL, Zuckerman PA, Landers KA, Bamman MM. High-resistance versus variable- resistance training in older adults. Med Sci Sport Exerc 2001;33:1759-64. 4. Avlund K, Rantanen T, Schroll M. Tiredness and subsequent disability in older adults: Th e role of walking limitations. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2006;61:1201-5. 5. Avlund K, Rantanen T, Schroll M. Factors underlying tiredness in older adults. Aging Clin Exp Res 2007;19:16-25. 6. Avlund K, Vass M, Hendriksen C. Onset of mobility disability among community-dwelling old men and women. Th e role of tiredness in daily activities. Age Ageing 2003;32:579-84. 7. Wick JY, Lafl eur J. Fatigue: implications for the elderly. Consult Pharm 2007;22:566-70. 8. Arnett SW, Laity JH, Agrawal SK, Cress ME. Aerobic reserve and physical functional performance in older adults. Age Age- ing 2008;37:384-9. 9. Pugh KG, Wei JY. Clinical implications of physiological changes in the aging heart. Drugs Aging 2001;18:263-76. 10. Colcombe SJ, Kramer AF, Erickson KI, Scalf, P, Mcauley E, Cohen NJ et al. Cardiovascular fi tness, cortical plasticity, and aging. Proc Natl Acad Sci 2004;101:3316-21. 11. Colcombe SJ, Kramer AF, Mcauley E, Erickson KI, Scalf P. Neurocognitive aging and cardiovascular fi tness: recent fi ndings and future directions. J Mol Neurosci 2004;24:9-14.12. Marks BL, Madden DJ, Bucur B, Provenzale JM, White LE, Cabeza R et al. Role of aerobic fi tness and aging on cerebral white matter integrity. Ann N Y Acad Sci 2007;1097:171-4. 13. Mcauley E, Kramer AF, Colcombe SJ. Cardiovascular fi tness and neurocognitive function in older adults: a brief review. Brain Behav Immun 2004;18:214-20. 14. Sui X, Laditka JN, Hardin JW, Blair SN. Estimated functional capacity predicts mortality in older adults. J Am Geriatr Soc 2007;55:1940-7. 15. Sui X, Lamonte MJ, Laditka JN, Hardin JW, Chase N, Hooker SP, et al. Cardiorespiratory fi tness and adiposity as mortality predictors in older adults. Jama 2007;298:2507-16. 16. Farinatti PTV. Avaliação da autonomia do idoso: defi nição de critérios para uma abordagem positiva a partir de um modelo de interação saúde-autonomia. Arq Gerontol Geriatr 1997;1:31-38. 17. Heathcote G. Autonomy, health and ageing: transnational perspectives. Health Ed Res 2000;15:13-24. 18. Farinatti PTV, Assis BFCB, Silva NSL. Estudo comparativo da autonomia de ação de idosas participantes de programas de atividade física no Brasil e Bélgica. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum 2008;10:107-14. 19. Farinatti PTV. Mise au Point d’un Systeme d’Evaluation de l’Autonomie d’Action des Seniors: de la théorie à la pratique [Tese]. Bruxelas: Universidade Livre de Bruxelas; 1998. 20. Farinatti PTV. Proposta de um instrumento para avaliação da autonomia do idoso: o Sistema Sênior de Avaliação da Auto- nomia de Ação (SysSen). Rev Bras Med Esp 2000;6:224-30. 21. Gordon C, Chumlea WC, Roche AF. Stature, recumbent length, and weight. Champaign: Human Kinetics; 1988. 22. Martin AD, Carter JEL, Hendy KC, Malina RM. Segment lengths. Champaign: Human Kinetics; 1988. 23. Skelton DA, Young A, Greig CA. Malbut KE. Effects of resistance training on strength, power, and selected func- tional abilities of women aged 75 and older. J Am Geriatr Soc 1995;43:1081-7. 24. Miszko TA, Cress ME, Slade JM. Covey CJ, Agrawal SK, Doerr, CE. Eff ect of strength and power training on physical function in community-dwelling older adults. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2003;58A:M171-75. 25. Vreede PL, Samson MM, Van Meeteren NLU, Duursma SA, Verhaar HJJ. Functional-task exercise versus resistance strength exercise to improve daily function in older women: a random- ized, controlled trial. J Am Geriatr Soc 2005;53:2-10. 26. Cress ME, Buchner DM, Questad KA, Esselman PC, DeLa- teur BJ, Schwartz RS. Continuous-scale physical functional performance in healthy older adults: a validation study. Arch Phys Med Rehabil 1996;77:1243-50. 27. Cress ME, Buchner DM, Questad KA, Esselman PC, deLateur BJ, Schwartz RS. Exercise: eff ects on physical functional per- formance in independent older adults. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 1999;54:242-8. 28. Van Den Hombergh CEJ, Schouten EG, Van Staveren WA, Van Amelsvoort LGPM, Kok FJ. Physical activities of non- institutionalized Dutch elderly and characteristics of inactive elderly. Méd Sci Sports Exerc 1995;27:334-9. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201174 Artigo original Efeito do uso de antioxidantes na prevenção da lesão muscular em atividades físicas intensas Effect of antioxidant in the prevention of muscular lesion in intense physical activities Fabio Gilberto Valente*, Rita de Cassia Doracio Mendes, M.Sc.**, Wanderlei Onofre Schmitz, M.Sc.*** *Biomédico graduado pelo Centro Universitário da Grande Dourados, **Professora do curso de Nutrição do Centro Universitário da Grande Dourados, ***Professor do curso de Farmácia do Centro Universitário da Grande Dourados Resumo O exercício intenso tem sido reconhecido como principal causa evitável de lesão muscular. Isso ocorre devido à produção dos radicais livres durante o exercício. Por isso seria importante o uso de substâncias antioxidantes para minimizar as lesões durante os exercícios. Este estudo avaliou o uso de antioxidante (vitamina C) na prevenção da lesão muscular em atletas. A pesquisa foi realizada com um grupo de 9 fi siculturistas. Cada atleta realizou uma série de exercícios e posteriormente foram tomadas as medidas antropomé- tricas e, para avaliar o grau de lesão muscular, foi dosada a atividade enzimática (CPK, CK-MB, ALT, AST) no soro dos atletas. O IMC dos atletas foi adequado (23,1 ± 0,4 kg/m2), e a porcentagem de gordura corporal (14,2 ± 1,5%), próximo da média recomendada para os homens. Os níveis séricos de CPK decaíram de maneira signifi cativa, atividade sérica da CK-MB apresentou uma diminuição de 8% na sua atividade, já a AST apresentou uma queda de 15% da sua atividade e a Enzima ALT não teve alterações signifi cativas, após o tratamento com vitamina C. Os resultados do estudo sugerem que o consumo regular da vitamina C melhora os mecanismos de defesa antioxidante e reduz as manifestações de danos musculares induzidos pelo esforço, possivelmente por meio da neutralização da ação dos radicais livres. Palavras-chave: radicais livres, lesão muscular, antioxidantes, vitamina C. Abstract Th e intense exercise has been recognized as the main avoidable cause of muscular lesion, which happens because of the production of free radicals during the exercise. Th erefore, it would be impor- tant to use antioxidant substances to minimize the lesions during exercises. Th is study evaluated the use of antioxidant (vitamin C) in the prevention of muscular lesion in athletes. Th e study was performed with a group of 9 body-builders who carried out several series of exercises. In order to evaluate the level of muscular lesion, the enzymatic activity in the serum of the athletes was dosed (CPK, CK-MB, ALT, AST). Th e BMI of the athletes was adequate (23.1 ± 0.4 kg/m2) and the percentage of body fat (14.2 ± 1.5%) was close to the average recommended for men. Th e serum levels of CPK decreased signifi cantly. Th e serum activity of CK-MB presented a decrease of 8% in its activity while the AST presented a decrease of 15% in its activity and the enzyme ALT have not had any signifi cant alterations after the treatment with vitamin C. Th e results suggest that a regular consumption of vitamin C improves the antioxidant defense mechanisms and reduce the manifestations of muscle tissue damage induced by eff ort, possibly by means of neutralization of the damaging action of free radicals. Key-words: free radicals, muscular lesion, antioxidants, vitamin C. Recebido em 28 de fevereiro de 2011; aceito em 15 de maio de 2011. Endereço para correspondência: Wanderlei Onofre Schmitz, Rua Ranulfo Saldivar, 458, Parque Alvorada, 79823-420 Dourados MS, Tel: (67) 3426-7442, E-mail: wandererita@ig.com.br 75Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 Introdução O exercício exaustivo e extenuante tem sido reconhecido como causa comum e evitável de lesão muscular, principalmen- te em homens não condicionados, pois, durante a atividade fí- sica, ocorrem diversas adaptações fi siológicas, sendo necessários ajustes cardiovasculares e respiratórios para compensar e manter o esforço realizado. O aumento do consumo de oxigênio, assim como a ativação de vias metabólicas específi cas, resulta na formação de radicais livres (RL) durante o exercício [1]. Segundo Clarkson e Th ompson [2], essas espécies reativas são moléculas que apresentam um elétron desemparelhado na sua camada de valência, podendo contribuir para danos celulares e também prejudicando o desempenho do atleta. O treinamento resistido consiste em um tipo de trei- namento de força, que é predominantemente um processo anaeróbico, ou seja, com suprimento de O2 reduzido, nestes casos o músculo converte o ATP em ADP e o ADP em AMP. O AMP acumulado no músculo é degradado a inosina mono- fosfato(IMP) e a IMP formada é degradada à inosina, e esta, à hipoxantina. A hipoxantina sofre ação da xantina oxidase que durante o processo de oxidação da hipoxantina a xantina, gera diretamente moléculas de radicais livres (superóxido, peróxido de hidrogênio e radical hidroxila) [3]. Os RL podem atacar todas as principais classes de biomo- léculas do organismo, sendo os lipídeos os mais suscetíveis. Os ácidos graxos poliinsaturados (PUFA) das membranas celula- res sofrendo lipoperoxidação, que é uma destruição oxidativa que se autopropaga na membrana. Uma grande produção de RL pode conduzir ao estresse oxidativo, que causa danos à estrutura do DNA, lipídios, carboidratos e proteínas, além de outros componentes celulares. Estes danos ocorridos nas células ampliam o tempo necessário para a reparação celular e isso obriga os atletas a manter um determinado tempo para a recuperação da musculatura, que foi exigida durante o treino, sob o risco de sobrecarga à musculatura produzindo fadiga e perda de massa muscular [4]. Uma das maneiras de avaliar as lesões causadas por RL é dosar os metabólitos formados durante o estresse oxidativo, estes metabólitos são: a produção de malondialdeido (MDA) e dienos conjugados [2]. Ramel et al. [5] avaliaram o perfi l antioxidante, a lipoperoxidação, a produção de MDA e dienos conjugados em atletas que realizavam exercícios resistivos e em atletas que não realizavam exercícios resistivos e encontrou um aumento da produção de RL nestes dois tipos de atletas não havendo diferença entre o tipo de treino na produção dos RL. Estas lesões causadas às células musculares durante o treino podem ser prevenidas ou reduzidas por meio da ação dos antioxidantes encontrados nos alimentos, os quais podem ocorrer naturalmente na dieta do atleta ou ser introduzidos especifi camente durante o processo de treinamento para melhorar o rendimento do mesmo [6]. Zoppi et al. [7] tentaram explicar a etiologia da lesão muscular, em um estudo sobre alterações em biomarcadores de estresse oxidativo em atletas, eles observaram que, durante o exercício físico, o consumo de oxigênio aumenta em até 20 vezes. Considerando-se que 2 a 5% do oxigênio consumido dão origem a RL, consequentemente ocorre aumento da pro- dução de tais agentes nocivos. Assim, ocorre uma associação direta entre a produção de RL durante o exercício físico, o processo de fadiga muscular e a lesão celular. Segundo Gar- cía [8], o exercício forçado se caracteriza por um aumento no consumo de oxigênio levando a um desequilíbrio entre os mecanismos pró-oxidantes da homeostase celular e os mecanismos de defesa antioxidantes, causando a produção excessiva de RL que pode induzir destruição celular. O nível da lesão é determinado pela duração e intensidade do exer- cício. Desta forma, atividades de resistência ou de explosão produzem vários níveis de resposta celular e de lesão muscular. O maior risco de lesão muscular ocorre durante a contração excêntrica, pois, neste tipo de ação, realiza-se trabalho de força e de alongamento ao mesmo tempo, aumentando o estresse sobre os tecidos [9]. Marcadores de lesão muscular As lesões causadas no músculo esquelético pelo exercício podem variar dependendo da fi bra muscular e do tipo de trauma ocorrido. O exercício normalmente eleva os valores das enzimas musculares de 12 a 48 horas após o mesmo. O aumento das proteínas presentes no citosol celular na circu- lação plasmática refl ete diretamente na lesão da membrana da célula muscular [10]. Para o diagnóstico dos danos musculares esqueléticos é utilizada a dosagem da atividade enzimática da creatinafos- foquinase (CPK), já para avaliar a lesão muscular cardíaca utiliza-se a creatinafosfoquinase fração MB (CK-MB). Dentre essas enzimas, a CPK é frequentemente descrita como me- lhor marcador de dano ao tecido muscular, sobretudo após o exercício de força [11]. A CPK é um indicador altamente sensível e específi co de lesão muscular em humanos. A CPK pode apresentar um aumento de suas taxas no soro em casos de lesão muscular reversível ou na necrose muscular. Assim, altas taxas de CPK sérica indicam doença muscular ativa ou de ocorrência recente, enquanto valores persistentemente altos refl etem a continuidade da lesão. Já a CK-MB é uma isoenzima da CPK que corresponde à principal enzima liberada pelo músculo estriado cardíaco. Esta enzima eleva-se quando ocorre isque- mia em uma determinada região do músculo cardíaco e sua determinação é altamente específi ca para o diagnóstico da lesão celular aguda do miocárdio. O aumento da CK-MB atinge seu pico entre 12 e 24 horas, para depois regressar ao normal dentro de 48 a 72 horas [12]. Também é possível diagnosticar a lesão muscular através da dosagem da atividade enzimática da aspartato aminotrans- ferase (AST) e da alanina aminotransferase (ALT), já que essas enzimas são enzimas intracelulares e, devido à lesão celular, são Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201176 liberadas no plasma onde se tornam elevadas. Esse aumento ocorre poucas horas após a lesão e atinge valores máximos em 12 horas, voltando ao normal 24 a 48 horas depois de cessar a alteração de permeabilidade muscular. A AST é encontrada principalmente no fígado, nos eritrócitos e no músculo es- triado esquelético e cardíaco. Normalmente é utilizada para avaliar lesão muscular juntamente com a ALT. A utilização da enzima AST oferece informações mais precisas sobre o grau da lesão, pois é encontrada em maior concentração no interior da mitocôndria e seu aumento sugere lesão mitocondrial [10]. O uso de antioxidantes Os antioxidantes são capazes de sequestrar os RL gerados pelo metabolismo celular ou por fontes exógenas, impedindo o ataque destes sobre os lipídeos, os aminoácidos das prote- ínas, a dupla ligação dos ácidos graxos poliinsaturados e as bases púricas e pirimídicas do DNA, evitando assim a for- mação de lesões e perda da integridade da membrana celular. O controle do estresse oxidativo pela ação dos antioxidantes nas células é extremamente importante para a sobrevivência do ser humano no ambiente aeróbico [13]. Atua nesse sentido a vitamina C, que proporciona proteção contra a oxidação descontrolada no meio aquoso da célula, pois apresenta a habilidade de atuar como agente redutor (doador de elétrons). A recomendação diária (RDA) de vitamina C para mulheres adultas foi estipulada em 75 mg/ dia e, para homens, em 90 mg/dia. Já os fumantes, que têm maior estresse oxidativo, devem aumentar a sua ingestão em 35 mg/dia. O limite máximo tolerável para um indivíduo com idade de dezenove (19) a cinquenta (50) anos é de 2000 mg/dia de vitamina C, essa dosagem foi baseada no efeito adverso da indução de diarréia osmótica causada pela alta ingestão de vitamina C. A vitamina C da dieta é absorvida de forma rápida e efi ciente por um processo dependente de energia, o seu consumo em doses altas leva ao aumento da sua concentração em praticamente todos os tecidos do organismo e diretamente no plasma sanguíneo [14]. A defi ciência de vitamina C no organismo pode resultar em câimbras musculares, promover sensações de fraqueza, baixo desempenho físico e difi culdade na resistência aeróbica. Estes sintomas prejudicam o desempenho dos atletas durante os treinamentos físicos, podendo favorecer a lesão muscular e a dor. Assim o uso de antioxidantes pode atuar na prevenção de danos no tecido muscular e tornar o treinamento mais efi caz melhorando os resultados nas competições [8,15]. Goldfarb et al. [16] ministraram doses de 500 ou 1.000mg de vitamina C/dia a voluntários durante duas semanas e no fi nal do tratamento, os pacientes foram submetidos a uma corrida de 30 minutos. Após o exercício, o grupo que recebeu a vitamina C apresentouuma menor oxidação das suas prote- ínas em relação ao grupo controle não tratado, demonstrando a ação da vitamina C. A suplementação com vitamina C por um tempo mais prolongado e em menores doses pode trazer benefícios em relação à dor e à lesão musculares, que os atle- tas enfrentam após uma competição. Th ompson et al. [17] avaliaram o efeito de duas semanas de suplementação com vitamina C sobre a recuperação dos atletas após um protocolo de exercício intenso e prolongado, a concentração de CPK e de mioglobina não foram alteradas pela suplementação, mas a suplementação atenuou a concentração de MDA e da dor muscular, benefi ciando a recuperação da função do músculo. Tendo em vista os dados apresentados, este trabalho tem como objetivo avaliar a ação da vitamina C como agente antioxi- dante e mioprotetor, amenizando as lesões musculares ocorridas durante o treinamento físico em atletas e com isso possibilitando uma melhor recuperação muscular destes indivíduos. Material e métodos Caracterização e recrutamento da amostra A pesquisa foi realizada com nove atletas fi siculturistas, na cidade de Dourados/MS, que praticavam musculação, no mínimo por um ano, sendo todos do sexo masculino, com idade de 18 a 25 anos e com peso entre 65 a 100 kg. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Centro Universitário da Grande Dourados - Unigran (CEP - Unigran), mediante o processo n.º 246/07, de que resultou o ofício de aprovação em 30 de outubro de 2008, todos os participantes da pesquisa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). Coleta da amostra A coleta sanguínea foi realizada no laboratório de Análises Clínicas do Centro Universitário da Grande Dourados – Uni- gran, onde foi coletado 6 mL de sangue por punção venosa da fossa cubital e o sangue coletado em tubo da marca BD Vacuntainer® sem anticoagulante. O tubo sem anticoagulante foi deixado por 30 minutos em banho-maria à 37º C e centri- fugado por 10 minutos a 3000 rpm para a obtenção do soro. Delineamento experimental A primeira coleta de sangue dos atletas foi realizada após uma semana de descanso e antes dos testes físicos. No dia seguinte após a coleta, iniciou-se a primeira série de exercícios físicos, com carga máxima de 80% da capacidade física de cada atleta e até ocorrer exaustão muscular. No protocolo adotado cada atleta foi avaliado para determinar a sua carga máxima e foi selecionado o peso correspondente a 80% desta carga máxima para cada atleta, em seguida os atletas realizaram uma série de repetições até a fadiga [18]. Cada atleta realizou uma série de exercícios: crucifi xo inclinado (peito), puxador articulado (ombro), ramada cavalo (costas), rosca concentrada scott (braço), tríceps testa (braço), agachamento guiado (perna), levantamento terra (perna), pan- 77Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 turrilha sentado (perna). Sendo que 12 horas após os exercícios, foi realizada a segunda coleta de sangue. Uma semana depois dos exercícios, tempo este necessário para a recuperação das células musculares dos atletas. Cada um dos atletas fez ingestão de 20 mg/kg de vitamina C e 2 horas após a ingestão, tempo necessário para o início da absorção da vitamina C, foi realizada a mesma série de exercícios para cada um dos indivíduos. A terceira coleta foi realizada 12 horas após o término da segunda série de exercícios. As medidas antropométricas foram obtidas no Núcleo de Nutrição da Unigran sendo compostas da ava- liação da estatura utilizando o estadiômetro que se encontra acoplado a balança e a avaliação do peso em balança mecânica da marca Welmy. Os dados foram usados para o cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC= P/A2) e avaliação de gordura corporal e da água corporal foi feita através do equipamento de bioimpedância da marca TBW [19,20]. Dosagem das enzimas CPK, CK-MB, AST e ALT A dosagem das enzimas séricas dos atletas foi realizada utili- zando kits comerciais da marca Gold Analisa Diagnóstico LTDA, os quais apresentavam método cinético-colorimétrico, sendo a leitura das absorbâncias feitas em espectrofotômetro semiauto- matizado a 340 nm (UV) da marca Bioplus, modelo BIO 200. Análise estatística As análises foram apresentadas como média e o erro pa- drão da média (SE). Empregando-se o programa de análise estatística computadorizada Statistica 6.0 (STAT SOFT), a comparação entre os atletas foi realizada pela análise de variân- cia (ANOVA) e Teste de Tukey. Todas as conclusões estatísticas foram efetuadas em nível de 5% de signifi cância (p < 0,05). Resultados e discussão Os dados dos atletas que participaram da pesquisa, referen- tes à massa magra, massa gorda e o índice de massa corpórea dos participantes da pesquisa são apresentados na Tabela I. Analisando os resultados obtidos os atletas estão com o peso adequado (23,1 ± 0,4 kg/m2), fi cando entre 18,5 e 25 que é o esperado para a população e com a porcentagem de gordura corporal (14,2 ± 1,5%), próximo da média recomendada para os homens que é de 15% [21]. Os valores encontrados neste experimento se mostram muito próximos dos valores encontrados em um estudo rea- lizado por Maestá et al. [22], sendo que a Massa Gorda (MG) dos atletas aqui testados estava apenas 3% acima dos valores encontrados no estudo acima citado, mas em compensação o IMC dos nossos atletas está menor que o encontrado no estudo de Maestá et al. [22], que também avaliou parâmetros antropométricos em atletas fi siculturistas, isso pode indicar que nossos atletas apresentavam menor massa muscular. Tabela I - Avaliação nutricional dos atletas quanto a sua massa corporal. Atle- tas MM MG IMC kg % kg % kg/m2 1 59,2 80,5 14,3 19,5 23,7 2 57,8 85,6 9,7 14,4 22,6 3 56,6 84,1 10,7 15,9 23,2 4 50,6 85,5 8,6 14,5 22,8 5 57,1 83,3 11,4 16,6 22,9 6 70,5 79,3 18,4 20,7 26,0 7 60,4 90,0 6,7 10,0 21,1 8 65,9 91,7 6,0 8,3 23,5 9 62,5 86,5 5,3 7,9 22,1 Total 60,1 ± 1,9 85,2 ± 1,3 10,1 ± 1,4 14,2 ± 1,5 23,1 ± 0,4 MM: Massa Magra; MG: Massa Gorda; IMC: Índice de Massa Corpó- rea. Média ± desvio padrão. Os dados dos participantes da pesquisa, referentes à altura, peso, água intracelular e água extracelular são apresentados na Tabela II. A quantidade de água intracelular apresentou-se ligeiramente acima dos valores de referência que variam de 50 a 60%, uma possível explicação para este fato é que as frequentes lesões celulares dos atletas levam a um quadro de tumefação turva, que é o aumento da concentração de água dentro das células, causando uma retenção maior de líquido intracelular. A tumefação turva é a primeira alteração a ser observada durante a agressão a uma célula, mas esta lesão é totalmente reversível, com a retirada do agente agressor. Já a água corporal total (ACT) apresentou-se dentro dos parâmetros normais. Comparando esses resultados com os obtidos de outros estudos em atletas de elite, pode-se concluir que os resultados estão coerentes com os encontrados na literatura [23]. Tabela II - Avaliação nutricional dos atletas quanto ao índice de água corporal. Atle- tas Altura (m) Peso (kg) AIC AEC kg % kg % 1 1,76 73,5 24,8 59 17,2 41,0 2 1,73 67,8 25,7 62,1 15,7 37,9 3 1,70 67,3 26,0 64,4 14,4 35,6 4 1,61 59,2 23,6 65,7 12,3 34,3 5 1,73 68,5 24,4 60,0 16,3 40,0 6 1,85 88,9 29,5 57,8 21,5 42,2 7 1,78 67,1 26,8 61,3 16,9 38,7 8 1,75 71,9 31,4 64,1 17,6 35,9 9 1,77 76,4 29,5 61,4 17,0 32,0 Total 1,74 ± 0,02 71,2 ± 2,74 26,9 ± 0,9 61,8 ± 0,9 16,5 ± 0,8 37,5 ± 1,1 AIC: Água Intracelular; AEC: Água Extracelular; Média ± desvio padrão. Os exercícios físicos realizados pelos atletas são apresen- tados na Tabela III. A maioria dos experimentos realizados com atletas utilizapoucos grupos musculares, com maior Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201178 número de repetições do mesmo exercício, ocorrendo assim uma extensa lesão do mesmo músculo, semelhante ao estudo proposto por Mayhew, Th yfault, Koch [24] no qual foram desenvolvidos dois tipos de treinamento de força para indi- víduos. Os dois foram realizados no leg-press, com 10 séries de 10 repetições a 65 % de (RM). Um grupo realizou os exercícios com intervalo entre as séries de 1 minuto e o outro grupo o intervalo foi de 3 minutos. No grupo com intervalo de 1 minuto, a concentração sérica de CPK aumentou 24 horas após o término da sessão de treinamento. Já o grupo que treinou com intervalo de 3 minutos não apresentou diferença signifi cativa na CPK, sugerindo que o dano muscular pode ser infl uenciado pelo tempo de intervalo entre as séries e exercí- cios. Em um estudo visando observar marcadores de estresse oxidativo em jogadores de futebol, Zoppi et al. [7] também avaliaram a concentração de CPK no plasma e encontraram níveis bem acima da média de valores de sujeitos não-atletas, confi rmando a alteração muscular nesses atletas. Estes quadros não são tão fi éis ao que acontece no dia-a-dia dos atletas, pois na maioria das vezes os atletas treinam vários grupos musculares com várias repetições. Tendo em vista estes experimentos e com a orientação de um professor de educação física, foi montado um quadro de treinamento onde os atletas exercitaram vários grupos musculares, para que, assim, fosse possível conseguir um grau de lesão em vários músculos, mas evitando-se a fadiga muscular ou a fratura muscular. Os exercícios físicos realizados pelos atletas (Tabela III) foram crucifi xo inclinado (17,8 ± 0,4 kg e frequência de 29,3 ± 1,0 vezes), puxador articulado (45 ± 0 kg e frequência de 23,8 ± 0,9 vezes), remada a cavalo (61,5 ± 0,8 kg e frequência de 44,2 ± 0,6 vezes), rosca concentrada scott (14 ± 0 kg e frequência de 23,8 ± 1,7 vezes), tríceps testa (12,3 ± 0,4 kg e frequência de 13,1 ± 0,6 vezes), agachamento guiado (22 ± 0 kg e frequência de 27,2 ± 0,6 vezes), levantamento terra (40 ± 0 kg e frequência de 6,6 ± 0,5 vezes) e panturrilha sentado (50 ± 0 kg e frequência de 25 ± 0,0 vezes). Tabela III Treinamento físico com carga máxima realizado pelos atletas até ocorrer exaustão muscular. Tipo de exercícios realizados Peso utiliza- do no exer- cício (kg) Frequência (número de repetições) Crucifixo Inclinado 17,8 ± 0,4 29,3 ± 1,0 Puxador Articulado 45,0 ± 0,0 23,8 ± 0,9 Remada Cavalo 61,5 ± 0,8 44,2 ± 0,6 Rosca Concentrada Scott 14,0 ± 0,0 23,8 ± 1,7 Triceps Testa 12,3 ± 0,4 13,1 ± 0,6 Agachamento Guiado 22,0 ± 0,0 27,2 ± 0,6 Levantamento Terra 40,0 ± 0,0 06,6 ± 0,5 Panturrilha Sentado 50,0 ± 0,0 25,0 ± 0,0 Média ± desvio padrão. A atividade sérica da CPK (Figura 1 A) na primeira coleta (condição controle) apresentou níveis considerados normais para indivíduos normais ou atletas em repouso (109,8 ± 17,2 UI/L). Após 12 horas do exercício intenso os níveis de CPK tiveram um signifi cativo aumento (325,3 ± 57,8 UI/L), che- gando até a ultrapassar os valores de referência para indivíduos normais do sexo masculino (até 174 UI/L). Nas comparações dos resultados individuais de cada atleta, foi encontrado em um determinado atleta um aumento de 6,8 vezes nos valores de CPK, em relação ao valor basal deste mesmo atleta. Com a ingestão da vitamina C devidamente calculada para cada atleta, os níveis séricos de CPK decaíram de maneira signifi cativa, vol- tando para próximo dos limites dos valores de referência (181,3 ± 10,6 UI/L), indicando uma proteção da vitamina C contra os radicais livres gerados durante o exercício físico e minimizando o grau de lesão muscular. O mesmo atleta que apresentou o maior aumento dos valores de CPK, após o uso da vitamina C apresentou uma redução de 2,8 vezes seus valores de CPK, isso indica que quanto maior a lesão causada pelos RL maior a efi ciência do uso de antioxidantes para bloquear estas agressões. Torres, Carvalho e Duarte [25] também realizaram um es- tudo com objetivo de determinar o estiramento do músculo e saber as manifestações clínicas e bioquímicas de lesão muscular esquelética após exercício em jovens sedentários. A avaliação bioquímica neste estudo compreendeu a quantifi cação da atividade plasmática da CPK e da AST, neste estudo também foram encontrados valores acima dos valores de referência nos indivíduos submetidos a contrações excêntricas, confi rmando assim o dano muscular. Outro estudo citado por Foschini [11] também observou lesões musculares induzidas pelas ações concêntricas e excêntricas à atividade física de 3 séries de 12 repetições a 80 % de uma repetição máxima (RM). Observou-se que em 48 horas após a execução do exercício, a concentração sérica de CPK teve um aumento signifi cante, mostrando que o exercício de força também é capaz de pro- vocar dano muscular. Foi ainda descrito que a lesão muscular não depende só do tipo de ação, mas também do tempo de intervalo entre as séries, pois quanto maior o tempo de descanso entre as séries, menor é o grau de lesão muscular. Figura 1 - Avaliação da atividade da creatinafosfoquinase (CPK) (A) e da atividade da creatinafosfoquinase fração MB (CK-MB) (B) no soro de atletas submetidos ao exercício físico intenso. Médias seguidas por letras distintas diferem signifi cativamente entre si em nível de p < 0,05 (teste de Tukey); * p < 0,05 entre grupo exercício e exercício + Vit. C. Controle Exercício Avaliações Exercício + Vit. C 0 100 200 300 400 500 b b C PK (U I/ L) a* A 79Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 Maxwell et al. [26] observaram que os atletas que fi zeram ingestão de 400 mg de vitamina C por dia, durante 3 sema- nas apresentaram um aumento da atividade antioxidante no plasma e com isso apresentaram menores lesões oxidativas decorrentes da ação dos RL. Th ompson et al. [27] também suplementaram atletas que posteriormente foram submetidos a uma corrida de 90 minutos. A suplementação consistiu de uma dose de 200 mg de vitamina C, sendo que este autor também obteve um aumento da ação antioxidante no plasma, mas esta dose de vitamina C foi incapaz de inibir o aumento das enzimas musculares no soro destes atletas, sendo que a enzima CPK e a proteína mioglobina foram os marcadores de lesão que mais aumentaram nestes atletas. De acordo com a Figura 1 B podemos constatar que os níveis séricos de CK-MB tiveram um aumento de 12% durante o exercício (de 13,6 ± 1,4 para 16,6 ± 1,5 UI/L). Apesar de não ser signifi cativo e não ultrapassar os valores de referência para esta enzima (até 24 UI/L), este aumento indica um desgaste maior do músculo cardíaco. Podemos observar também que a ação antioxidante da vitamina C levou a diminuição de 8% na atividade sérica da CK-MB no plasma dos atletas, mas, apesar de esta diminuição não ter sido signifi cativa, demonstrou uma tendência para este marcador. Vale à pena lembrar que os miócitos cardíacos são células permanentes, pois não se dividem mais e que qualquer lesão nessas células leva a perda irreparável destes miócitos. Por isso, lesões crônicas do músculo cardíaco podem levar a presença de fi brose no tecido cardíaco, com perda da atividade contrátil do coração e possivelmente a hipertrofi a das células restantes, alterações estas comuns de serem encontradas em atletas, pois o exercício físico é um estímulo bem identifi ca- do para o desenvolvimento, principalmente, de hipertrofi a ventricular esquerda, sendo que estas alterações estruturais são resultantes do tipo de treinamento físico, da natureza do exercício, duração e intensidade do exercício [28,12]. França etal. [29] realizaram um estudo analisando os valores das enzimas (CPK, CK-MB e LDH), em 20 atletas masculinos, sadios, com idade de 25 a 40 anos, participantes de uma maratona, para avaliar o desgaste muscular e o grau do dano muscular sofrido por estes atletas. Foram realizadas várias coletas de sangue venoso (48 horas antes da maratona, logo após o término da corrida e na manhã seguinte, 20 horas após a realização da prova). Os níveis de CPK, CK-MB e LDH estavam signifi cativamente mais elevados ao fi nal da corrida e mais ainda na recuperação (exceto a CK-MB), caracterizando um grande desgaste muscular. Após vários estudos e comparações Brown et al. [30] também observaram que após exercícios físicos os níveis de CK-MB não se elevam muito, mas se o exercício for com grande intensidade pode ocorrer uma elevação sufi ciente para diagnosticar uma lesão no miócito cardíaco. Perseguindo ob- jetivos similares, Croisier et al. [31] utilizaram um protocolo composto de contrações excêntricas/concêntricas máximas para os grupos musculares fl exores e extensores do joelho. Todas as sessões de treinamento foram executadas num dina- mômetro isocinético. Os sujeitos desta pesquisa apresentaram níveis elevados de CPK e CK-MB, 24-48 horas após a carga de exercício. A elevação da concentração destas enzimas no sangue foi observada, concomitantemente, com a presença de dor muscular severa no quadríceps femoral e, especialmente, no grupo muscular dos posteriores da coxa. Os níveis eleva- dos de CPK e CK-MB no sangue foram interpretados como indicativos de danos na estrutura celular do músculo estriado esquelético e cardíaco. A atividade sérica da enzima AST (Figura 2 A), durante a atividade física sem vitamina C, apresentou valores mais elevados no soro (24,2 ± 2,0 UI/L), quando comparado com os valores do controle (18,3 ± 1,8UI/L), mas, após o uso de vitamina C, durante os exercícios físicos, os níveis séricos da AST apresentaram uma queda de aproximadamente 15% da sua atividade, confi rmando que a vitamina C é um excelente antioxidante capaz de minimizar a lesão muscular causada pela produção de radicais livres durante o exercício. É importante lembrar que a geração de radicais livres ocorre preferencialmente no interior das mitocôndrias, sendo que a AST é encontrada justamente neste local e a diminuição da concentração da AST no soro dos atletas é um importante indicativo que a vitamina C age como um antioxidante in- tracelular, minimizando a ação dos RL nas mitocôndrias e isso é fundamental para a integridade da célula, pois lesões na mitocôndria são o passo sem retorno entre a lesão reversível e a lesão irreversível nas células. Após uma comparação deste experimento com o expe- rimento que Torres et al. [25] realizaram, pode-se observar que se houver lesão muscular com alto gasto de energia, pode ocorrer lesão na membrana da mitocôndria, e esta lesão pode alterar a atividade enzimática da AST na corrente sanguínea. Já Th ompson et al. [19], ao estudar a ação da vitamina C em atletas estimulados a correr por 90 minutos e que fi zeram a ingestão de 1 g de vitamina C 2 horas antes de começarem o exercício, observou que os valores de CPK e AST não foram estatisticamente diferentes dos valores encontrados no grupo que fez o exercício e tomou apenas placebo. A conclusão deste estudo indica que são necessários valores maiores de vitamina C para que ocorra uma alteração no perfi l sorológico do atleta quanto aos marcadores de lesão muscular, pois 1 g de vitamina C não conseguiu atingir o interior das células em concentra- ção sufi ciente para bloquear a ação dos RL na membrana da Controle Exercício Avaliações Exercício + Vit. C 0 4 8 12 16 20 aa C K- M B (U I/ L) a B Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201180 mitocôndria. Por outro lado, a dose de 2 g de vitamina C se mostrou mais efi caz em atuar nas mitocôndrias, apresentando uma diminuição dos valores da AST nos atletas. Figura 2 - Avaliação da atividade da aspartato aminotransferase (AST) (A) e da atividade da alanina aminotransferase (ALT) (B) no soro de atletas submetidos ao exercício físico intenso. Médias seguidas por letras distintas diferem signifi cativamente entre si em nível de p < 0,05 (teste de Tukey). ALT, pois o exercício físico intenso provoca um aumento no gasto de energia, levando a uma maior produção de radicais livres que agem primordialmente na membrana da mitocôn- dria e não no citoplasma das células. Conforme o resultado apresentado comprovou-se uma ação protetora antioxidante para as células estriadas musculares e com isso um importante efeito na prevenção de lesões musculares provocadas pela formação de radicais livres durante os exercícios. Referências 1. Schneider DC. Radicais livres de oxigênio e exercício: mecanis- mos de formação e adaptação ao treinamento físico. Rev Bras Med Esporte 2004;10(4):308-13. 2. Clarkson PM, Th ompson HS. Antioxidants: what role do they play in physical activity and health? Am J Clin Nutr 2000;72:637-46. 3. Gomez-Cabrera MC, Domenech E; Viña, J. Moderate exercise is an antioxidant: Upregulation of antioxidant genes by training. Free Radic Biol Med 2008;44:126-31. 4. Koury JC, Donangelo CM. Zinco, estresse oxidativo e atividade física. Rev Nutr 2003;16(4):433-41. 5. Ramel A, Wagner KH, Elmadfa I. Plasma antioxidants and lipid oxidation after submaximal resistance exercise in men. Eur J Nutr 2004;43:2-6. 6. Leite HP, Sarni RS. Radicais livres, anti-oxidantes e nutrição. Rev Bras Nutr Clin 2003;18(2):87-94. 7. Zoppi CC, Antunes-Neto J, Catanho FO, Goulart LF, Moura NM, Macedo DV. Alterações em biomarcadores de estresse oxidativo, defesa antioxidante e lesão muscular em jogadores de futebol durante uma temporada competitiva. Rev Bras Educ Fís Esp 2003;17(2):119-30. 8. Garcia JAV, Daoud R. Efeitos dos antioxidantes fenólicos na prática desportista. Fitness & Performance 2002;1(4):21-7. 9. Clebis NK, Natali MJM. Lesões musculares provocadas por exercícios excêntricos. Rev Bras Ciênc Mov 2001;9(4):47-53. 10. Cruzat VF, Rogero MM, Borges MC, Tirapegui J. Current aspects about oxidative stress, physical exercise and supplemen- tation. Rev Bras Med Esporte 2007;13(5):336-42. 11. Foschini D, Prestes J, Charro MA. Reação entre exercício fí- sico, dano muscular e dor muscular de inicio tardio. Rev Bras Cineantrop Desempenho Hum 2007;9(1):101-6. 12. Nigam PK. Biochemical markers of myocardial injury. Indian J Clin Biochem 2007;22:10-7. 13. Amaya-Farfan J, Domene SMA, Padovani RM. DRI: síntese comentada das novas propostas sobre recomendaçoes nutricio- nais para antioxidantes. Rev Nutr 2001;14(1):71-8. 14. Miranda CEL, Viaro F, Ceneviva R, Evora BRP. As bases ex- perimentais da lesão por isquemia e reperfusão do fígado. Acta Cir Bras 2004;19(1):3-12. 15. Fanhani APG, Ferreira MP. Agentes antioxidantes: seu papel na nutrição e saúde dos atletas. Rev Saúde Biol 2006;1(2):33-41. 16. Goldfarb AH, Patrick SW, Bryer S, You T. Vitamin C supple- mentation aff ects oxidative-stress blood markers in response to a 30-minute run at 75% VO2max. Int J Sport Nutr Exerc Metab 2005;15:279-90. 17. Th ompson D, Bailey DM, Hill J, Hurst T, Powell JR, Willia- ms C. Prolonged vitamin C supplementation and recovery Controle Exercício Avaliações Exercício + Vit. C Controle Exercício Avaliações Exercício + Vit. C 0 5 10 15 20 25 30 a a AS T (U I/L ) a A 5 10 15 20 25 30 aa AL T (U I/L ) a B A atividade sérica da ALT (Figura 2B) não apresentou mo- difi cações signifi cativas em nenhum momento da avaliação, tanto no controle (21,8 ± 1,7 UI/L), como após exercício físico com a ingestão da vitamina C (21,8 ± 1,8UI/L) ou não (23,3 ± 2,0 UI/L). A enzima ALT é encontrada no cito- plasma das células enquanto que a enzima AST é encontrada na mitocôndria. Como os radicais livres são produzidos na mitocôndria, durante a fosforilação oxidativa, e devido a um gasto de energia muito grande durante os exercícios, há maior concentração de radicais livres na mitocôndria e, portanto, maior lesão na membrana mitocondrial e com isso uma au- mento mais signifi cativo da AST em comparação com a ALT. Segundo Ribeiro et al. [32] que realizaram um experimen- to com 12 atletas de judô do sexo masculino, os atletas foram divididos em duplas onde realizaram três lutas com tempos diferentes (90s, 180s e 300s), a enzima ALT foi quantifi cada durante as lutas e foi observado um aumento signifi cativo em todas as lutas. Este aumento pode ser justifi cado devido ao tipo de atividade física que é de contato e causa maior lesão celular muscular, diferente da musculação que leva a uma lesão por desgaste metabólico. Conclusão De acordo com os dados obtidos na pesquisa, conclui-se que a alteração das enzimas CPK, CK-MB e AST ocorreu devido à lesão no músculo estriado esquelético e no músculo cardíaco, provocado pela prática do exercício físico intenso. Suspeita-se que não ocorreu uma alteração signifi cativa da 81Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 from demanding exercise. Int J Sport Nutr Exerc Metab 2001;11:466-81. 18. Tritschler K. Medida e avaliação em Educação Física e Esportes de Barrow & Mc Gee. São Paulo: Manole; 2003. 828p. 19. Th ompson D, Williams C, Kingsley M, Nicholas CW, Lakomy HK, McArdle F, et al. Muscle soreness and damage parameters after prolonged intermittent shuttle-running following acute vitamin C supplementation. Int J Sports Med 2001;22:68-75. 20. Gomez-Cabrera MC, Domenech E, Romagnoli M, Arduini A, Borras C, Pallardo FV, et al. Oral administration of vitamin C decreases muscle mitochondrial biogenesis and hampers training-induced adaptations in endurance performance Am J Clin Nutr 2008;87:142-49. 21. Lohman TG, Roche AF, Martorell R. Anthropometric stan- dardization reference manual. Abridged edition. Champaign: Human Kinetics Books; 1991. 22. Maestá M, Cyrino ES, Nardo Júnior N, Morelli MYG, Sobrinho JMS, Burini RC. Antropometria de atletas culturistas em relação a frequência populacional. Rev Nutr 2000;13(2):135-41. 23. Rossi L, Tirapegui J. Comparação dos métodos de bioimpedân- cia e equação de Faulkner para avaliação da composição corporal em desportistas. Rev Bras Ciênc Farm 2001;37(2):137-42. 24. Mayhew DL, Th yfault JP, Koch AJ, Rest-interval length aff ects leukocyte levels during heavy resistance exercise. J Strength Condit Res 2005;19(1):16-22. 25. Torres R, Carvalho P, Duarte JA. Infl uência da aplicação de um programa de estiramentos estáticos, após contrações excêntricas, nas manifestações clínicas e bioquímicas de lesão muscular esquelética. Rev Port de Ciênc Desp 2005;5(3):274-87. 26. Maxwell SRJ, Jakeman P, Th omason H, Leguen C, Th orpe GHG. Changes in plasma antioxidant status during eccentric exercise and the eff ect of vitamin supplementation. Free Radic Res Commun 1993;19:191-202. 27. Th ompson D, Williams C, Garcia-Roves P, McGregor SJ, McArdle F, Jackson MJ. Post-exercise vitamin C supplementa- tion and recovery from demanding exercise Eur J Appl Physiol 2003;89:393-400. 28. Ghorayeb N, Batlouni M, Pinto IMF, Dioguardi GS. Hipertro- fi a ventricular esquerda do atleta. Resposta adaptativa fi siológica do coração. Arq Bras Cardiol 2005;85(3):191-7. 29. França SCA, Neto TLB, Agresta MC, Lotufo RFM, Kater CE. Resposta divergente da testosterona e do cortisol séricos em atletas masculinos após uma corrida de maratona. Arq Bras Endocrinol Metab 2006;50(6):1082-7. 30. Brown SJ, Child RB, Day SH, Donnelly AE. Th e role of eccen- tric exercise duration in experimental skeletal muscle damage in man. J Physiol 1995;489:148. 31. Croisier JL, Camus G, Deby-Dupont G, Bertrand F, Lher- merout C, Crielaard JM et al. Myocellular enzyme leakage, polymorphonuclear neutrophil activation and delayed onset muscle soreness induced by isokinetic eccentric exercise. Arch Physiol Biochem 1996;104(3):322-29. 32. Ribeiro SR. Efeitos de diferentes esforços de luta de judô na atividade enzimática, atividade elétrica muscular e parâme- tros biomecânicos de atletas de elite. Rev Bras Med Esporte 2006;12(1):27-32. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201182 Artigo original Estado de hidratação de idosos praticantes de hidroginástica de uma academia da cidade de São Paulo Hydration status of elderly people who practice hydrogymnastics in an academy of São Paulo Deborah Rivelli Pires*, Lygia Russo Xavier*, Márcia Nacif, D.Sc.**, Mariana Söncksen Garbin*** *Graduandas do Curso de Nutrição pelo Centro Universitário São Camilo, **Nutricionista, especialista em Nutrição Hospitalar (HC-FMUSP), professora do curso de Nutrição do Centro Universitário São Camilo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ***Nutricionista, pós-graduanda em Nutrição Esportiva pela Universidade Gama Filho Resumo Objetivo: Avaliar a perda hídrica em idosos praticantes de hidro- ginástica. Material & métodos: A amostra foi composta por 15 idosos (72,47 ± 7,92 anos), de ambos os gêneros. Os seguintes dados foram coletados, antes e depois da aula: temperatura ambiente (°C), umi- dade relativa do ar (%), duração da aula (min), consumo médio de líquidos (mL), massa corporal (kg) e coloração urinária. Resultados: Verifi cou-se uma porcentagem de perda de peso de 0,25 ± 0,17 % e taxa de sudorese de 4,88 ± 3,26 mL/min. Nenhum dos participantes consumiu qualquer tipo de bebida durante a aula. Observou-se que 33,3% (n = 5) dos idosos tiveram uma perda de peso menor que 1%, enquanto 53,3% (n = 8) dos participantes ganharam peso após a atividade física. Segundo o índice de coloração urinária todos os participantes apresentaram algum grau de desidratação, sendo que antes e após a aula 85,7% (n = 6) estavam levemente e 14,3% (n = 1) moderadamente desidratados. Conclusão: Não foi identifi cada uma elevada perda hídrica nos participantes, entretanto essa população é um grupo de risco para desidratação e o clima do local da aula propicia uma elevada perda hídrica e, portanto, deve-se enfatizar a hidratação destes indivíduos. Palavras-chave: idosos, hidratação, sudorese, atividade motora. Abstract Objective: To evaluate the water loss of elderly people who practice hydrogymnastics Methods: Th e sample was composed of 15 elderly people (72.47 ± 7.92 years old), of both genders. Th e following data were collected, before and after the class: room tem- perature (ºC), relative humidity (%), the time of the class (min), liquids intake (mL), body mass (kg) and urinary color. Results: Th e loss weight’s percentage was 0.25 ± 0.17% and the sweating rate was 4.88 ± 3.26 mL/min. None of the participants had any kind of drinking intake. Th ere was weight loss lower than 1% in 33.3% (n = 5) of the people, and a weight gain in 53.3% (n = 8) after the physical activity. According to the urinary color index, all of the participants presented some dehydration degree, before and after the class 85.7% (n = 6) was slightly and 14.3% (n = 1) moderately dehydrated. Conclusion: A high water loss has not been identifi ed in the participants, however this population is a risk group for dehydration and the weather conditions for the location of the class provides a high water loss, therefore the hydration of these individuals must be emphasized. Key-word: elderly, fluid therapy, sweating, motor activity. Recebido em 18 de abril de 2011; aceito em 31 de maio de 2011. Endereço para correspondência: Déborah RivelliPires, Rua Fábia, 800/192A, 05051-030 São Paulo SP, E-mail: rivelli_de@hotmail. com 83Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 Introdução O crescimento da população de idosos, em números absolutos e relativos, é um fenômeno mundial. Em 1988 o número de idosos no mundo alcançava 579 milhões de pessoas e, segundo o IBGE, as projeções para 2050 para a população idosa será de 1,9 bilhões de pessoas – o que equivale a um quinto da população mundial. O Brasil é um país que está envelhecendo em considerável progressão, fato que se deve, fundamentalmente, ao aumento da expectativa de vida que abrange desde investimentos nos serviços de saúde de alta complexidade até as ações primárias de saúde [1,2]. Atualmente, vários idosos têm praticado atividades físicas. Dentre as atividades físicas mais indicadas por médicos e educadores físicos, especialmente para os idosos, encontra-se a hidroginástica, considerada uma atividade segura, prazerosa e efi ciente devido aos efeitos terapêuticos proporcionados pela água. Além de ser uma atividade que causa um baixo impacto nas articulações e melhora o nível cardiorrespiratório, atua de forma importante na tonifi cação muscular [3]. No entanto, a prática de atividade física expõe o indivíduo a uma elevação da temperatura corporal. A liberação desse calor produzido se dá, primeiramente, através da evaporação do suor sobre a pele. Em esportes aquáticos a produção de suor é um pouco mais limitada que em outras modalidades esportivas, sendo a perda de calor obtida principalmente através da condução e convecção [4]. O suor contém água e eletrólitos que, se não forem apro- priadamente repostos, podem favorecer o desenvolvimento de quadros de desidratação e hiponatremia, refl etindo em prejuízos ao rendimento e às respostas fi siológicas, além de produzir riscos à saúde [5]. Os efeitos podem ocorrer mesmo que a desidratação seja leve ou moderada, com até 2% de perda, agravando-se à medida que ela se acentua. Em torno de 3%, há uma redução importante do desempenho; com 4 a 6% pode ocorrer fadiga térmica; a partir de 6% existe risco de choque térmico, coma e morte. A desidratação afeta o desempenho aeróbio, diminui o volume de ejeção ventricular e aumenta a frequência cardíaca. O reconhecimento dos sinais e sintomas da desidratação é fundamental. Quando leve a moderada, ela se manifesta com fadiga, perda de apetite, sede, pele vermelha, intolerância ao calor, tontura, oligúria e aumento da concentração urinária. Quando grave, ocorre difi culdade para engolir, perda de equilíbrio, a pele se apresenta seca e murcha, olhos afunda- dos e visão fosca, disúria, pele dormente, delírio e espasmos musculares [6]. A desidratação decorrente do exercício pode ocorrer não apenas devido à sudorese intensa, mas, também, devido à ingestão insufi ciente e/ou defi ciente absorção de líquidos. Com o envelhecimento há diminuição da taxa de sudorese, da percepção da sede e saciedade e da efi ciência dos mecanismos renais e pulmonares, comprometendo a ingestão sufi ciente de líquidos e, assim, expondo os indivíduos idosos com mais fa- cilidade à desidratação. Portanto, deve-se aumentar a ingestão de líquidos antes, durante e depois de atividades físicas [6,7]. Para garantir que o indivíduo inicie o exercício bem hidratado, recomenda-se que ele beba entre 250 a 500 mL de água duas horas antes do exercício. Durante o exercício recomenda-se iniciar a ingestão já nos primeiros 15 minutos e continuar bebendo a cada 15 a 20 minutos. O volume a ser ingerido varia conforme as taxas de sudorese, na faixa de 500 a 2.000 mL/hora. Após o exercício, deve-se continuar ingerindo líquidos para compensar as perdas adicionais de água pela urina e sudorese [6]. Desta forma, este estudo teve como principal objetivo avaliar a perda hídrica em idosos praticantes de hidroginástica de uma academia na cidade de São Paulo/SP. Materiais e métodos A amostra foi composta por 15 idosos com idade entre 63 e 90 anos, de ambos os gêneros, praticantes de uma aula de hidroginástica com uma duração de 45 min, voluntários e residentes no município de São Paulo - SP. Nenhum dos participantes consumia substâncias ergogênicas ou qualquer outro tipo de droga que pudesse alterar o resultado do estudo. Todos foram informados e orientados com antecedência sobre a realização do estudo e assinaram um termo de consenti- mento livre e esclarecido, o qual garantiu a privacidade de informações pessoais. O presente trabalho também atendeu às normas para a realização de pesquisa em seres humanos, resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde de 10/10/96, e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário São Camilo, sob número 097/06. No dia da coleta, tanto antes como depois da aula, os seguintes dados foram coletados: temperatura ambiente (em graus centígrados, °C), umidade relativa do ar (em per- centual, %), duração da aula (em minutos, min), consumo médio de líquidos (em mililitros, mL), massa corporal (em quilograma, kg) e coloração urinária. Os dois últimos foram utilizados como marcadores simples para avaliação do estado de hidratação. Os alunos podiam ingerir água ou bebidas esportivas ad libitum. A massa corporal foi registrada antes (pré) e após (pós) a aula, utilizando-se para tal uma balança digital antropométrica da marca Plenna, modelo Lumini, com capacidade de 150 kg e precisão de 100 g. No momento da medida os indivíduos estavam em pé, de frente para o avaliador, na posição ereta, pés afastados à largura do quadril, descalços e usando roupas de banho. A coloração da urina foi avaliada antes (pré) e imedia- tamente após a aula por meio da escala de Armstrong et al. [8]. Os resultados obtidos da massa corporal e coloração urinária foram classifi cados perante a tabela proposta por Casa et al. [9]. Foram calculados a porcentagem de perda de peso (% pp) e a taxa de sudorese. O cálculo da porcentagem de perda de peso foi obtido subtraindo-se o peso fi nal pelo peso inicial em Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201184 quilos e dividindo esse resultado pelo peso inicial em quilos. O resultado fi nal foi obtido em porcentagem. A taxa de sudorese foi calculada dividindo-se o peso perdi- do em mL pelo tempo de exercício em minutos. O resultado fi nal foi obtido em mL/min. Resultados Foram convidados a participar do estudo, todos os idosos que estavam presentes na aula de hidroginástica no dia da coleta de dados. Destes, 15 aceitaram fazer parte da pesquisa, sendo 66,7% (n = 10) do sexo feminino e 33,3% (n = 5) do masculino, com idade média de 72,47 + 7,92 anos. As condi- ções ambientais, a duração da aula, bem como o consumo de água e bebida esportiva estão descritos na Tabela I. Durante a aula, a temperatura era de 28,5ºC. Pôde-se observar que nenhum participante do estudo consumiu qualquer tipo de bebida durante a aula de hidroginástica. Tabela I - Caracterização do controle amostral. Temperatura (ºC) 28,5 Duração da aula (min) 45 Consumo médio de água ± desvio padrão (mL) - Consumo médio de bebida esportiva ± desvio padrão (mL) - O peso inicial e fi nal de cada indivíduo avaliado, a porcenta- gem de perda de peso, a taxa de sudorese, assim como seus valores médios e de desvio padrão (DP) estão descritos na Tabela II. Tabela II - Variações de peso (kg), porcentagem de perda de peso (%) e taxa de sudorese (mL/min). Indivíduo Peso ini- cial (kg) Peso final (kg) perda de peso (%) Sudorese (mL/min) 1 70,1 70,1 - - 2 67,6 67,9 * * 3 73,7 74,2 * * 4 77,5 77,6 * * 5 71,6 71,9 * * 6 68,8 69,1 * * 7 61,3 61,2 0,16 2,22 8 86,7 86,7 - - 9 80,0 82,2 * * 10 81,5 81,3 0,25 4,44 11 60,1 60,7 * * 12 48,0 47,8 0,42 4,4413 96,3 95,8 0,52 11,1 14 62,1 62,4 * * 15 82,0 81,9 0,12 2,22 Média 72,49 72,72 0,25 4,88 DP 11,7 11,69 0,17 3,26 *ganho de peso A média do peso inicial e fi nal dos indivíduos partici- pantes do estudo foi de 74,49 ± 11,7 kg e 72,72 ± 11,69 kg, respectivamente, sendo que a média da porcentagem de perda de peso foi de 0,25 ± 0,17 % e da taxa de sudorese de 4,88 ± 3,26 mL/min. Ao serem analisados os dados de porcentagem de perda de peso, pôde-se perceber que após a aula todos os indivíduos apresentaram um estado de euidratação. Apesar deste resulta- do, 33,3% (n = 5) sofreram uma perda de peso, porém esta não foi elevada, já que não representou uma perda maior que 1%. Também houve ganho de peso em 53,3% (n = 8) dos idosos. Dos 15 idosos participantes do estudo, apenas 7 realizaram a coleta da urina de forma correta. As médias e respectivos desvios padrão de massa corporal e índice de coloração uriná- ria antes (pré) e após (pós) a aula estão descritos na Tabela III. Tabela III - Valores absolutos da massa corporal e índice de coloração urinária antes (pré) e depois (pós) da aula, expressos como média ± desvio padrão. Massa Corporal (kg) Índice de Colora- ção Urinária Pré 72,49 ± 11,7 3 ± 0,93 Pós 72,72 ± 11,69 3 ± 0,84 Segundo o índice de coloração urinária todos os idosos participantes apresentaram algum grau de desidratação, sendo que antes e após a aula 85,7% (n = 6) estavam levemente e 14,3% (n = 1) moderadamente desidratados. Discussão A participação em atividades esportivas expõe o indivíduo a uma variedade de fatores que infl uenciam a quantidade de água eliminada pelo suor. Estes fatores incluem a duração e a intensidade do exercício, as condições ambientais e o tipo de roupas/equipamentos utilizados. Características individuais, como a idade, o peso corporal, a predisposição genética, o estado de aclimatização e a efi ciência metabólica também podem ter infl uência nas taxas de suor de determinada atividade [10]. Em esportes aquáticos a produção de suor é um pouco mais limitada que em outras modalidades esportivas, sendo a perda de calor obtida principalmente através da condução e convecção [4]. Existem diferentes métodos de avaliação do estado de hidratação dos indivíduos. As mudanças no peso corporal podem refl etir as perdas pela sudorese durante o exercício e podem ser usadas para calcular as necessidades individuais de reposição hídrica para atividades físicas específi cas e condições ambientais [10]. No presente estudo, verifi cou-se uma média de porcentagem de perda de peso de 0,25 ± 0,17 % e taxa de sudorese de 4,88 ± 3,26 mL/min. Estes dados corroboram os estudos que demonstram uma perda reduzida de suor em atividades aquáticas [4]. Observou-se ganho de peso em 53,3% (n = 8) dos idosos, o que provavelmente deve-se ao fato de não terem molhado 85Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 suas vestimentas corretamente no momento da aferição do peso inicial e/ou terem ingerido líquido (água da piscina) in- voluntariamente, pois estes idosos não consumiram o líquido fornecido pelas pesquisadoras. Ademais, embora a pele tenha baixa permeabilidade à água, um pouco de líquido pode ter sido absorvido pela pele durante a imersão [4], o que também contribuiria para o au- mento de peso dos participantes do estudo. Vale mencionar que a umidade relativa do ar no dia da coleta estava muito alta, fato que prejudica a perda de suor pelos indivíduos. O estudo de Cunha e Viebig [3] realizado com 14 adultos e idosos, praticantes de hidroginástica, de ambos os gêneros, verifi cou uma porcentagem de perda hídrica de 1,3 + 0,4% e taxa de sudorese de 1,98 + 0,4 mL/min. O consumo de água ou líquidos era ad libitum, e notou-se que nenhum dos participantes ingeriu qualquer tipo de líquido durante a aula, assim como ocorreu no presente estudo, o que reforça a diminuição da sensação de sede em idosos. A desidratação é o distúrbio hidroeletrolítico mais comum evidenciado em idosos. O menor consumo de água associado ao uso de medicamentos diuréticos e ao exercício físico pode levar a desidratação. É necessária uma preocupação ainda maior quando as aulas são realizadas em piscinas muito aquecidas (>28ºC), pois a troca de calor entre a temperatura corporal do indivíduo e a do meio ambiente é muito maior na água. Assim, a temperatura do corpo iguala-se à da água de forma bem mais rápida, aumentando a possibilidade de desidratação [6]. Em relação à coloração da urina, todos os idosos par- ticipantes apresentaram algum grau de desidratação. Esta ocorrência deve-se ao fato dos indivíduos não se hidratarem adequadamente, levando a um estado de desidratação cumu- lativa e progressiva. A desidratação pode ser decorrente tanto da sudorese intensa durante a prática do exercício quanto de uma defi ciência na absorção de líquidos e/ou ingestão insu- fi ciente. Esta por sua vez, deve-se a uma redução na sensação de sede que acomete principalmente idosos, sendo, portanto um indicador defi ciente das necessidades corporais de líquidos para esta população [11]. Conclusão O presente estudo não identifi cou uma elevada perda hídrica em idosos praticantes de hidroginástica. Entretanto, esta população é um grupo de risco para desidratação e o clima do local onde é praticada a hidroginástica (quente e úmido) propicia uma elevada perda hídrica e, portanto, deve-se enfa- tizar a hidratação destes indivíduos na orientação nutricional, conscientizando os praticantes desta atividade física. Sugere-se que sejam realizados mais estudos envolvendo a hidratação e a perda hídrica de idosos praticantes de hidroginástica. Referências 1. Pinho ST, Alves DM, Schild JFG, Afonso MR. A hidroginástica na terceira idade. Revista Digital EFDesportes 2006;102. 2. Pereira AB, Alvarenga H, Pereira Júnior RS, Barbosa MTS. Pre- valência de acidente vascular cerebral em idosos no município de Vassouras, Rio de Janeiro, Brasil, através do rastreamento de dados do Programa Saúde da Família. Cad Saúde Pública 2009;25(9):1929-36. 3. Cunha LSA, Viebig RF. Perda hídrica e taxa de sudorese de adultos e idosos praticantes de hidroginástica observando-se a hidratação voluntária e realizando-se a hidratação monitorada com água e bebida esportiva. Revista Digital EFDesportes 2008;117. 4. Maughan RJ, Dargavel LA, Hares R, Shirreff s SM. Water and salt balance of well-trained swimmers in training. Int J Sport Nutr Exerc Metabol 2009;19:598-606. 5. Silva RP, Altoé JL, Marins JCB. Relevância da temperatura e do esvaziamento gástrico de líquidos consumidos por praticantes de atividade física. Rev Nutr 2009;22(5):755-65. 6. Hernandez AJ, Nahas RM. Modifi cações dietéticas, reposição hídrica, suplementos alimentares e drogas: comprovação de ação ergogênica e potenciais riscos para a saúde. Rev Bras Med Esp 2009;15(3):3-12. 7. Hirschbruch MD, Carvalho JR. Nutrição esportiva: uma visão prática. 2ª ed. São Paulo: Manole; 2008. 430p. 8. Armstrong LE, Maresh CM, Castellani JW, Bergeron MF, Kenefi ck RW, Lagasse KE et al. Urinary indices of hydration status. Int J Sport Nutr 1994;4(3):265-79. 9. Casa DJ, Armstrong LE, Hillman SK, Montain SJ, Reiff RV, Rich BS. National Athletic Trainer’s Association Posi- tion Statement: fl uid replacement for athletes. J Athl Train 2000;35(2):212-24. 10. American College of Sports Medicine - ACSM. Position stands: exercise and fl uid replacement. Med Sci Sports Exerc 2007;39(2):377-90. 11. Kenny WL. Dietary water and sodium requirements for active adults. Sports Science Exchange 2004;17(1). Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 201186 Artigo original Benefícios do treinamento aeróbio em indivíduos hemiparéticos crônicos Benefits of aerobictraining in patients with chronic hemiparesis Kérima Giamarim Batista, Ft.*, Narla Couto, Ft.**, Maria Imaculada Ferreira Moreira Silva, M.Sc.***, Regiane Luz Carvalho, D.Sc.**** *Especialista em Fisioterapia em Neurologia Infantil/UNICAMP, **PUC/MG - Campus Poços de Caldas,***Especialista em Fisio- logia do Exercício – UNIFESP, Professora do curso de Fisioterapia da PUC-Minas Campus Poços de Caldas, ****Pós-doutoranda em bioengenharia-USP/RP, Professora do curso de Fisioterapia do Centro Universitário de São João da Boa Vista-FAE, São João da Boa Vista/SP Resumo O acidente vascular encefálico (AVE) ocasiona défi cits sensitivos e motores que predispõem ao sedentarismo e agravam o risco de complicações cardiorrespiratórias. Este estudo propôs investigar o efeito do treinamento aeróbico na capacidade funcional, força muscular respiratória, espasticidade e equilíbrio de indivíduos com AVE. Participaram sete indivíduos do sexo masculino (idade média 59,7 ± 10,8 anos) com AVE crônico (média 4,05 anos). Todos foram avaliados por teste ergométrico (TE), teste de caminhada de seis minutos (TC6), manovacuometria, escala de Asworth e de equilíbrio antes e após 16 sessões de treinamento em bicicleta ergométrica por 30 minutos com carga entre 60 a 70% da FC atingida no TE. Houve melhora signifi cativa na FC, PA diastólica, escore de percepção de esforço na isocarga do TE, distância percorrida no TC6, pressão inspiratória máxima na manovacuometria e no equilíbrio, sendo que o grau de espasticidade não foi alterado. O treinamento aeróbico trouxe benefícios cardiorrespiratórios e funcionais aos indivíduos hemiparéticos estudados. Palavras-chave: acidente cerebral vascular, treinamento aeróbico, atividade física, hemiparesia. Abstract Th e sensitive and motor disabilities observed on individuals with stroke result in deconditioning, increasing the risk of cardiorespi- ratory injury. Th e objective of this study was to assess the eff ects of exercise intervention on functional capacity, respiratory muscles strength, balance and spasticity in patients after stroke. Seven men (mean age 59.7 ± 10.8 years old) with chronic stroke (mean 4.05 years) participated in this study. All subjects were assessed by cyclo- ergometric test, six-minute walk test (SWT), maximal inspiratory and expiratory pressure, Asworth and Balance Scales before and after sixteen cycling training sessions at an intensity determined by 60-70% of heart rate reserve (HR). Signifi cant improvements were observed in HR, Borg scale, diastolic pressure, maximal inspiratory pressure, distance running on SWT and balance. No diff erence was observed on spasticity. Th ere is good evidence that aerobic exercise was benefi cial for improving aerobic and functional capacity to the hemiparetic individuals in our study. Key-words: stroke, aerobic training, physical activity, hemiparetic. Recebido em 29 de abril de 2011; aceito em 31 de maio de 2011. Endereço para correspondência: Regiane Luz Carvalho, Centro Universitário de São João da Boa Vista-FAE, Curso de Fisioterapia, Paulo de Almeida Sandeville, 15, 13870-377 São João da Boa Vista SP, Tel: (19) 3623-3022, E-mail: regianeluzcarvalho@gmail.com, narlanet@yahoo.com.br, imaculada@pucpcaldas.br 87Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 2 - abril/junho 2011 Introdução O acidente vascular encefálico (AVE) merece grande aten- ção dos profi ssionais da saúde por ser um problema de saúde pública não só no Brasil, mas também no mundo. As sequelas deixadas pelo AVE são variáveis incluindo alte- rações sensitivas, cognitivas e motoras. As disfunções motoras restringem a mobilidade e a realização de atividades funcionais e contribuem para o isolamento social e sedentarismo. Este quadro aumenta os fatores de risco cardiovasculares e a recor- rência do AVE formando um circulo vicioso [1]. A função respiratória também fi ca normalmente comprometida devido ao estilo de vida, alta incidência de tabagismo, diminuição dos volumes pulmonares, alteração na ventilação, difusão e perfu- são, restrição da mobilidade torácica e fraqueza muscular [2]. O que é oferecido a esta população como opção de ativida- de se resume a prática de exercícios de manutenção no âmbito da fi sioterapia. Na maioria das vezes a rotina de reabilitação enfatiza o ganho de força, melhora da coordenação motora e da execução de atividades de vida diária [3]. Apesar das evidências do descondicionamento físico em hemiparéticos crônicos [4], o treinamento aeróbico é pouco utilizado dentro da reabilitação, possivelmente devido ao desconhecimento de seus efeitos [5]. Tem sido mostrado que o treinamento aeróbico entre os sobreviventes do AVE tem um impacto positivo na redução de vários fatores de risco de doenças cardiovasculares [6] e na melhora da qualidade de vida [7]. Resultados positivos também têm sido descritos na mobilidade e execução de funções cognitivas relacionadas ao aprendizado motor [8] e na capacidade de caminhar. Tendo em vista a importância da atividade física e sua pouca utilização nos protocolos de reabilitação, este estudo tem por objetivo avaliar os benefícios do condicionamento aeróbico sobre a capacidade funcional e força muscular respiratória, assim como sua infl uência no tônus muscular e equilíbrio de indivíduos hemiparéticos após AVE crônico. Material e métodos Participaram deste estudo sete indivíduos do sexo mascu- lino, idade média de 59,7 ± 10,8 anos, com diagnóstico de AVE crônico (tempo médio de evolução pós AVE de 4 anos) hemiparéticos espásticos, com marcha independente (57% dos participantes utilizavam dispositivo de auxílio de marcha e 43% não) conforme características descritas na Tabela I. Todos foram informados a respeito dos procedimentos e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE 0055.0.213.000-07). Inicialmente os indivíduos foram submetidos a uma avaliação clínica com coleta da história, medicações de uso rotineiro e estilo de vida, seguida pelo teste ergométrico (TE) em bicicleta, protocolo em degrau contínuo com aumento de carga de 0,5 KPM a cada 2 minutos. Em cada nível de esforço, assim como no repouso e no 1º, 3º e 6º minutos de recuperação, foram avaliados: o eletrocardiograma (derivação MC5), pressão arterial (PA), frequência cardíaca (FC), e a percepção de esforço através da escala de Borg [7]. A força muscular respiratória foi avaliada através do ma- nuvacuômetro, equipado com adaptador de bocais, orifício de 2 milímetros de diâmetro, servindo com uma válvula de alívio dos músculos da parede bucal. As manobras foram mensuradas na posição sentada utilizando clipe nasal. O teste de caminhada de seis minutos (TC6) foi realizado em um percurso de 18 metros demarcado a cada 3 metros, com terapeuta monitorando PA inicial e fi nal, FC, grau de dispneia e fadiga de membros inferiores a cada 2 minutos e no 1º, 3º e 6º minuto de recuperação. Os pacientes foram encorajados verbalmente com frases padronizadas de incentivo a cada minuto do teste. O TC6 foi realizado duas vezes para minimizar o efeito aprendizagem. O equilíbrio foi avaliado na posição sentada, em pé e du- rante as transferências pela escala funcional de equilíbrio [10]. O grau de espasticidade dos fl exores plantares e dos ex- tensores de joelho foi avaliado através da escala de Ashworth modifi cada [11]. O treinamento ocorreu durante oito semanas, sendo duas sessões por semana em dias alternados, com duração aproxi- mada de uma hora, sendo 15 minutos de aquecimento, 30 minutos de bicicleta ergométrica com carga entre 60 a 70% da FC atingida no TE, e 15 minutos de desaquecimento. A efi cácia do treinamento na FC, PAS e PAD foi avaliada pelo teste -t pareado de Student. Para as comparações das