Teoria do Fato Jurídico   Plano da Existência   Marcos Bernardes de Mello  CAP 3
36 pág.

Teoria do Fato Jurídico Plano da Existência Marcos Bernardes de Mello CAP 3


DisciplinaDireito Civil I73.294 materiais867.549 seguidores
Pré-visualização12 páginas
Extraído de
Teoria do fato jurídico; plano da
existência
CAPÍTULO III - Os Elementos da Estrutura da
Norma Jurídica
83
CAPÍTULO III
Os Elementos da Estrutura da 
Norma Jurídica
§ 12. O suporte fáctico
1. Conceito
No estudo da problemática da juridicidade o primeiro elemento 
essencial a considerar é a previsão, por norma jurídica, da hipótese 
fáctica condicionante da existência do fato jurídico (= o antecedente 
da estrutura lógica da proposição normativa, a que Pontes de Miranda 
denominou suporte fáctico, traduzindo a expressão Tatbestand, criada 
pela doutrina alemã).
Quando aludimos a suporte fáctico, estamos fazendo referência a 
algo (= fato, evento ou conduta) que poderá ocorrer no mundo e que, por 
ter sido considerado relevante, tornou-se objeto da normatividade ju-
rídica. Suporte fáctico, assim, constitui um conceito do mundo dos 
fatos, não do mundo jurídico, porque somente depois que se concretizam 
(= ocorram) no plano das realidades todos os elementos que o compõem 
é que se dá a incidência da norma, juridicizando-o e fazendo surgir o fato 
jurídico. Portanto, somente a partir da juridicização poder-se-á falar em 
mundo e conceitos jurídicos.
2. Espécies
Por aí já se vê, há duas conotações a considerar quando se fala em 
suporte fáctico48:
48. Domenico Rubino (La fattispecie e gli effetti giuridici preliminari, p. 3) se 
refere a três espécies de fattispecie (suporte fáctico): (a) abstrata ou legislativa \u2014 que 
corresponde ao que denominamos hipotético; (b) concreta, que corresponde à fattis-
pecie abstrata \u201cmas pensada no seu devir histórico\u201d e \u2018\u2018distingue-se da fattispecie 
Book 21ed Teoria do Fato Juridico.indb 83 09/10/16 14:10
84
(a) uma que designa a parte do enunciado lógico da norma em que 
se descreve a situação de fato relevante condicionante de sua incidência;
(b) outra, que nomeia o próprio fato quando materializado no 
mundo.
 (a\u2019) Ao suporte fáctico, enquanto considerado apenas como 
descrito no enunciado lógico da norma jurídica, se dá o nome de supor-
te fáctico hipotético ou abstrato, uma vez que existe, somente, como 
hipótese prevista pela norma sobre a qual, se vier a ocorrer, dar-se-á sua 
incidência juridicizante.
 (b\u2019) Ao suporte fáctico quando já materializado, vale dizer, 
quando os fatos previstos como hipótese se torna realidade no mundo 
fáctico, denomina-se suporte fáctico concreto.
3. Significação e importância do conceito
A expressão suporte fáctico foi utilizada inicialmente no direito 
penal, e trazida para o direito privado por Tohl, segundo o depoimento 
de Cammarata49. O conceito, conforme demonstra Pontes de Miranda no 
prefácio do seu Tratado de direito privado, é de aplicação universal na 
Ciência Jurídica, não sendo privativo de um determinado ramo do direi-
to. Tanto isso é verdade que nos diversos campos jurídicos o vemos 
legislativa porque não é concebida como parte constitutiva da norma; mas volta a 
assemelhar-se à fattispecie legislativa porque é simplesmente pensada e é, num 
certo sentido, uma abstração: não uma abstração criada pela lei, como a fattispecie 
legislativa, mas uma abstração que o intérprete extrai de todas as possíveis fattispe-
cies reais\u201d; e (c) fattispecie real, que corresponde àquele que denominamos suporte 
fáctico concreto, ou seja, \u201cos fatos da vida individuados no tempo e no espaço\u201d. Essa 
proposta de Rubino, no que se refere à fattispecie concreta, segundo sua terminolo-
gia, parece-nos sem importância prática ou científica. A abstração do intérprete não 
pode ser diferente da abstração do legislador. A diferença entre as duas reside, 
apenas, no nível de linguagem prescritiva na norma e descritiva da ciência. Se a 
descrição do suporte fáctico feita pelo intérprete é diferente da previsão da norma, 
há erro e a formulação é não verdadeira (inverídica, como anota Kelsen, Teoria pura 
do direito, p. 82). Além disso, as formulações que o intérprete faça de suportes 
fácticos, a partir do suporte fáctico previsto na lei, não constituem suportes fácticos 
concretos, mas permanecem abstratos: a concreção exige realidade. Por isso, prefe-
rimos a menção, apenas, às duas espécies, como no texto.
49. Formalismo e sapere giuridico, p. 256. Também Domenico Rubino, La 
fattispecie, cit., p. 3, nota 1.
Book 21ed Teoria do Fato Juridico.indb 84 09/10/16 14:10
85
empregado muitas vezes disfarçado em outras denominações, tais como 
pressuposto de incidência, tipificação legal, tipo legal, hipótese de inci-
dência. No direito tributário, emprega-se a expressão fato gerador, em-
bora com muita impropriedade, como mostramos em nossa Contribuição 
ao estudo da incidência da norma jurídica tributária, p. 34, porque na 
verdade o fato gerador da obrigação tributária é o fato jurídico, portanto, 
o suporte fáctico depois de juridicizado pela incidência, e não o suporte 
fáctico quando ainda tão somente conjunto de fatos. Entre os autores 
italianos está difundido o uso do termo fattispecie \u2014 proposto por Betti 
\u2014, e entre os autores de língua espanhola a expressão supuesto de hecho50.
4. Elementos do suporte fáctico
4.1. Relevância dos fatos
A norma jurídica representa a valoração de fatos da vida feita pela 
comunidade jurídica. Realmente, quando a comunidade jurídica traça as 
50. E. García Máynez (Introducción al estudio del derecho, p. 170) condena 
todas as expressões empregadas pela doutrina quando nelas se inclua alusão a fato, 
tais como suporte fáctico, Tatbestand, supuesto de hecho, fattispecie, com o argu-
mento de que, muitas vezes, o suporte fáctico da norma jurídica é precisamente o 
não ser, o não ter acontecido, a omissão, o silêncio, donde parecer incoerente a 
referência a um ser (o fato), onde não há qualquer fato previsto. Propõe, por isso, o 
emprego da expressão hipótese jurídica (supuesto jurídico) que evitaria o inconve-
niente da referência ao não ser como ser.
Esse argumento, aparentemente coerente e inegavelmente atraente, peca, no 
entanto, por confundir com a causalidade natural a causalidade jurídica \u2014 que é 
imputacional \u2014 e também por desconsiderar um dado fundamental da juridicidade: 
o plano lógico em que se desenvolve o fenômeno jurídico. A ordem jurídica não está 
sujeita à causalidade natural, porque sendo uma ordem de valência se constitui in-
dependentemente das leis físicas de causa e efeito. Por isso, na formulação dos 
preceitos jurídicos os fatos da vida são tomados em um certo sentido que pode não 
ser, exatamente, o da natureza. Nisso há, inegavelmente, uma certa arbitrariedade 
conforme denotam autores como Von Tuhr, Pontes de Miranda, Larenz, entre tantos 
outros \u2014 mas admissível em face da necessidade de atender aos interesses da con-
vivência humana. É certo, porém, que a causalidade natural é indiferente às impu-
tações da norma jurídica. Disso se conclui que o não acontecer que eventualmente 
esteja previsto como integrante do suporte fáctico de uma norma jurídica, embora 
no plano da natureza configure o não ser, no plano jurídico representa um dado 
fáctico cuja verificação faz composto o suporte fáctico e nascido o fato jurídico 
correspondente.
Book 21ed Teoria do Fato Juridico.indb 85 09/10/16 14:10
86
regras jurídicas de convivência social trata os fatos segundo critérios 
axiológicos, em razão dos quais é medida a importância que possam ter 
para o relacionamento inter-humano. A regulação dos fatos, assim, de-
pende da sua maior ou menor interferência no meio social, afetando as 
necessidades dos homens. Por isso é que, para serem erigidos à catego-
ria de fato jurídico, basta que os fatos do mundo \u2014 meros eventos ou 
condutas \u2014 sejam relevantes à vida humana em sua interferência inter-
subjetiva, independentemente de sua natureza. Tanto o simples evento 
natural como o fato do animal e a conduta humana podem ser suportes 
fácticos de normas jurídicas e receber