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Teoria do Fato Jurídico   Plano da Existência   Marcos Bernardes de Mello  CAP 3

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Teoria do fato jurídico; plano da
existência
CAPÍTULO III - Os Elementos da Estrutura da
Norma Jurídica
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CAPÍTULO III
Os Elementos da Estrutura da 
Norma Jurídica
§ 12. O suporte fáctico
1. Conceito
No estudo da problemática da juridicidade o primeiro elemento 
essencial a considerar é a previsão, por norma jurídica, da hipótese 
fáctica condicionante da existência do fato jurídico (= o antecedente 
da estrutura lógica da proposição normativa, a que Pontes de Miranda 
denominou suporte fáctico, traduzindo a expressão Tatbestand, criada 
pela doutrina alemã).
Quando aludimos a suporte fáctico, estamos fazendo referência a 
algo (= fato, evento ou conduta) que poderá ocorrer no mundo e que, por 
ter sido considerado relevante, tornou-se objeto da normatividade ju-
rídica. Suporte fáctico, assim, constitui um conceito do mundo dos 
fatos, não do mundo jurídico, porque somente depois que se concretizam 
(= ocorram) no plano das realidades todos os elementos que o compõem 
é que se dá a incidência da norma, juridicizando-o e fazendo surgir o fato 
jurídico. Portanto, somente a partir da juridicização poder-se-á falar em 
mundo e conceitos jurídicos.
2. Espécies
Por aí já se vê, há duas conotações a considerar quando se fala em 
suporte fáctico48:
48. Domenico Rubino (La fattispecie e gli effetti giuridici preliminari, p. 3) se 
refere a três espécies de fattispecie (suporte fáctico): (a) abstrata ou legislativa — que 
corresponde ao que denominamos hipotético; (b) concreta, que corresponde à fattis-
pecie abstrata “mas pensada no seu devir histórico” e ‘‘distingue-se da fattispecie 
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(a) uma que designa a parte do enunciado lógico da norma em que 
se descreve a situação de fato relevante condicionante de sua incidência;
(b) outra, que nomeia o próprio fato quando materializado no 
mundo.
 (a’) Ao suporte fáctico, enquanto considerado apenas como 
descrito no enunciado lógico da norma jurídica, se dá o nome de supor-
te fáctico hipotético ou abstrato, uma vez que existe, somente, como 
hipótese prevista pela norma sobre a qual, se vier a ocorrer, dar-se-á sua 
incidência juridicizante.
 (b’) Ao suporte fáctico quando já materializado, vale dizer, 
quando os fatos previstos como hipótese se torna realidade no mundo 
fáctico, denomina-se suporte fáctico concreto.
3. Significação e importância do conceito
A expressão suporte fáctico foi utilizada inicialmente no direito 
penal, e trazida para o direito privado por Tohl, segundo o depoimento 
de Cammarata49. O conceito, conforme demonstra Pontes de Miranda no 
prefácio do seu Tratado de direito privado, é de aplicação universal na 
Ciência Jurídica, não sendo privativo de um determinado ramo do direi-
to. Tanto isso é verdade que nos diversos campos jurídicos o vemos 
legislativa porque não é concebida como parte constitutiva da norma; mas volta a 
assemelhar-se à fattispecie legislativa porque é simplesmente pensada e é, num 
certo sentido, uma abstração: não uma abstração criada pela lei, como a fattispecie 
legislativa, mas uma abstração que o intérprete extrai de todas as possíveis fattispe-
cies reais”; e (c) fattispecie real, que corresponde àquele que denominamos suporte 
fáctico concreto, ou seja, “os fatos da vida individuados no tempo e no espaço”. Essa 
proposta de Rubino, no que se refere à fattispecie concreta, segundo sua terminolo-
gia, parece-nos sem importância prática ou científica. A abstração do intérprete não 
pode ser diferente da abstração do legislador. A diferença entre as duas reside, 
apenas, no nível de linguagem prescritiva na norma e descritiva da ciência. Se a 
descrição do suporte fáctico feita pelo intérprete é diferente da previsão da norma, 
há erro e a formulação é não verdadeira (inverídica, como anota Kelsen, Teoria pura 
do direito, p. 82). Além disso, as formulações que o intérprete faça de suportes 
fácticos, a partir do suporte fáctico previsto na lei, não constituem suportes fácticos 
concretos, mas permanecem abstratos: a concreção exige realidade. Por isso, prefe-
rimos a menção, apenas, às duas espécies, como no texto.
49. Formalismo e sapere giuridico, p. 256. Também Domenico Rubino, La 
fattispecie, cit., p. 3, nota 1.
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empregado muitas vezes disfarçado em outras denominações, tais como 
pressuposto de incidência, tipificação legal, tipo legal, hipótese de inci-
dência. No direito tributário, emprega-se a expressão fato gerador, em-
bora com muita impropriedade, como mostramos em nossa Contribuição 
ao estudo da incidência da norma jurídica tributária, p. 34, porque na 
verdade o fato gerador da obrigação tributária é o fato jurídico, portanto, 
o suporte fáctico depois de juridicizado pela incidência, e não o suporte 
fáctico quando ainda tão somente conjunto de fatos. Entre os autores 
italianos está difundido o uso do termo fattispecie — proposto por Betti 
—, e entre os autores de língua espanhola a expressão supuesto de hecho50.
4. Elementos do suporte fáctico
4.1. Relevância dos fatos
A norma jurídica representa a valoração de fatos da vida feita pela 
comunidade jurídica. Realmente, quando a comunidade jurídica traça as 
50. E. García Máynez (Introducción al estudio del derecho, p. 170) condena 
todas as expressões empregadas pela doutrina quando nelas se inclua alusão a fato, 
tais como suporte fáctico, Tatbestand, supuesto de hecho, fattispecie, com o argu-
mento de que, muitas vezes, o suporte fáctico da norma jurídica é precisamente o 
não ser, o não ter acontecido, a omissão, o silêncio, donde parecer incoerente a 
referência a um ser (o fato), onde não há qualquer fato previsto. Propõe, por isso, o 
emprego da expressão hipótese jurídica (supuesto jurídico) que evitaria o inconve-
niente da referência ao não ser como ser.
Esse argumento, aparentemente coerente e inegavelmente atraente, peca, no 
entanto, por confundir com a causalidade natural a causalidade jurídica — que é 
imputacional — e também por desconsiderar um dado fundamental da juridicidade: 
o plano lógico em que se desenvolve o fenômeno jurídico. A ordem jurídica não está 
sujeita à causalidade natural, porque sendo uma ordem de valência se constitui in-
dependentemente das leis físicas de causa e efeito. Por isso, na formulação dos 
preceitos jurídicos os fatos da vida são tomados em um certo sentido que pode não 
ser, exatamente, o da natureza. Nisso há, inegavelmente, uma certa arbitrariedade 
conforme denotam autores como Von Tuhr, Pontes de Miranda, Larenz, entre tantos 
outros — mas admissível em face da necessidade de atender aos interesses da con-
vivência humana. É certo, porém, que a causalidade natural é indiferente às impu-
tações da norma jurídica. Disso se conclui que o não acontecer que eventualmente 
esteja previsto como integrante do suporte fáctico de uma norma jurídica, embora 
no plano da natureza configure o não ser, no plano jurídico representa um dado 
fáctico cuja verificação faz composto o suporte fáctico e nascido o fato jurídico 
correspondente.
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regras jurídicas de convivência social trata os fatos segundo critérios 
axiológicos, em razão dos quais é medida a importância que possam ter 
para o relacionamento inter-humano. A regulação dos fatos, assim, de-
pende da sua maior ou menor interferência no meio social, afetando as 
necessidades dos homens. Por isso é que, para serem erigidos à catego-
ria de fato jurídico, basta que os fatos do mundo — meros eventos ou 
condutas — sejam relevantes à vida humana em sua interferência inter-
subjetiva, independentemente de sua natureza. Tanto o simples evento 
natural como o fato do animal e a conduta humana podem ser suportes 
fácticos de normas jurídicas e receber

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