Teoria do Fato Jurídico   Plano da Existência   Marcos Bernardes de Mello   CAP 1
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Teoria do Fato Jurídico Plano da Existência Marcos Bernardes de Mello CAP 1


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Teoria do fato jurídico; plano da
existência
CAPÍTULO I - O Fenômeno Jurídico
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CAPÍTULO I
O Fenômeno Jurídico
(uma visão integrada)
§ 1º O homem, a adaptação social e o direito
A vida humana em sociedade, a vida do homem diante de outro 
homem ou dos homens, em face dos entrechoques de interesses que, 
inevitavelmente, ocorrem, precisa de ser ordenada pela comunidade, a 
fim de que essa convivência seja a mais harmônica possível. O ser hu-
mano, naturalmente inadaptado ao ambiente em que vive, tanto social 
quanto culturalmente, sente a necessidade de adquirir aptidões para 
sobreviver dentro da sociedade. Essa aquisição de aptidões traz como 
consequência a sua adaptação ao meio social, o que se revela através dos 
comportamentos que o indivíduo integra em si, ao longo de sua existên-
cia, alguns adquiridos espontaneamente, instintivamente, outros molda-
dos de forma consciente, muitas vezes até contra a sua própria vontade, 
pelos ensinamentos que a comunidade lhe concede ou impõe.
Porque o ambiente social constitui seu habitat mais propício, o 
homem tende, naturalmente, à vida em sociedade, isso também como 
condicionamento decorrente do milenar hábito, que começa a influir 
sobre a sua psique desde o momento de seu nascimento, de viver em 
comunidade. O ser humano, em situação normal, nasce no seio da famí-
lia \u2014 o grupo social básico \u2014 e a partir daí tem início a moldagem de 
suas potencialidades no sentido da convivência social. A ampliação 
gradativa dos círculos sociais em que o homem se vê envolvido no de-
senrolar de sua existência faz crescer, proporcionalmente, o grau de 
influência que a sociedade exerce em sua formação. À medida que o 
indivíduo expande a área de seu relacionamento com os outros, partici-
pando de grupos maiores, como os companheiros de brincadeiras, a 
escola, as congregações e comunidades religiosas, os clubes, e. g., au-
mentam também as pressões dos condicionantes sociais que procuram 
conduzir a sua personalidade conforme os padrões da sociedade.
Os diversos processos de adaptação social \u2014 como a religião, a 
moral, a política, a educação, a economia, a ciência, a arte, a moda, 
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a etiqueta, o direito \u2014 são os instrumentos de que se vale a comunidade 
para agir sobre o homem, instilando em sua personalidade os valores, as 
concepções e os sentimentos que integram e representam a própria cul-
tura da sociedade em que se encontra inserido. As experiências vivenciais 
que o ambiente social lhe proporciona atuam como elementos determi-
nantes de seu comportamento e, em razão delas, o homem aprende a 
falar e o que falar, veste-se e sabe como vestir-se, sabe o que comer e 
como comer, enfim aprende a comportar-se diante dos outros homens 
e da comunidade que condicionou as suas aptidões.
O homem (homo sapiens) não é um produto simples da natureza, mas 
o resultado do convívio com os outros homens. A assembleia fez o homem, 
e não o homem a assembleia, já observara Pontes de Miranda. Por isso, 
apesar de sua sociabilidade, que é adquirida, há nele, sempre, algo de pró-
prio, que é natural, tipicamente individual e que não se dissolve no social 
nem se torna comum aos outros. Assim, não é possível negar que o homem 
jamais se despe, por completo, de seus instintos egoístas, motivo pelo qual 
não se consegue apagar, nem mesmo superar, a sua inclinação, muito na-
tural, de fazer prevalecer os seus interesses quando em confronto com os 
de seus semelhantes. Além disso, todo o arcabouço social, respaldado no 
aparato de meios que visam a adaptá-lo, não consegue suprimir ou reduzir 
o seu livre-arbítrio na escolha de como comportar-se. Parece indiscutível, 
no entanto, que se a cada qual fosse permitido conduzir-se socialmente 
como bem lhe aprouvesse, deixando-se governar pelo seu egoísmo e 
ambição, tendo como medida de ação o seu poder e a fraqueza do outro, 
a vida em comunidade seria intolerável e praticamente impossível o avanço 
para formas superiores de civilização. Não se poderia, ao menos, consi-
derar sociedade humana um agrupamento dessa ordem1. O jugo social 
representado pela atuação no sentido da adaptação é aceito como uma 
imposição necessária à vida social. Por isso mesmo traz como resultante 
ineliminável a possibilidade sempre presente de reação e rebeldia do ho-
mem aos padrões traçados pela sociedade2. Disso decorre, evidentemente, 
1. Vide, a respeito, Bockelmann, The principles of the rule of law, p. 97, e 
Bodenheimer, Ciência do direito, p. 190. Indicação bibliográfica completa no final 
da obra.
2. Esse inconformismo do homem à adaptação social é encontrável perma-
nentemente em todo o desenrolar da história e revela, sempre, discordância com os 
padrões sociais que lhe são impostos. Há momentos em que essa discordância gera 
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a imperiosa exigência da comunidade de estabelecer normas de conduta 
que tenham um caráter obrigatório em decorrência do qual a sua impo-
sitividade ao homem seja incondicional e independente da adesão das 
pessoas3. Essas regras constituem as normas jurídicas que, no seu conjunto, 
consubstanciam o direito da comunidade em que elas são vigentes.
reações que, alcançando níveis paroxísmicos, levam à revolução, com alterações, 
muitas vezes profundas, nos modelos de conduta social.
É preciso destacar, porém, que qualquer dessas mudanças jamais conseguiu 
eliminar ou neutralizar a exigência de adaptação; pelo contrário, nas épocas de maior 
ebulição social sempre recrudesce o despotismo e exacerba-se a adaptação social. A 
nova ordem em geral necessita de maior força de imposição para substituir a anterior 
e instaurar-se.
Teoricamente, tem havido sugestões no sentido de libertar o homem da tirania 
social, que seria representada pelo direito, usado como instrumento de dominação 
pelo Estado. O regime anárquico, preconizado por Bakunin e Kropotkin, baseava-se 
no pressuposto, inconciliável com a realidade, de que o homem é naturalmente bom 
e os males e distorções nesse estado de bondade seriam consequências da corrupção 
que as instituições estatais lhe impõem. O próprio marxismo se funda, em última 
análise, na ficção de que o desaparecimento das lutas de classe pelo comunismo 
teria como resultante tornar despiciendo o direito e também o Estado. Atualmente 
mesmo, o Movimento Criticista do Direito, fundado pelo ilustre jurista francês 
Michel Miaille (Uma introdução crítica ao direito), de orientação marxista, e outros 
ditos contradogmáticos refletem essa tendência contra o direito posto pela socieda-
de e as suas pressões sobre o indivíduo. O movimento hippie da década de 60 é 
exemplo vivo e prático desse anseio de eliminar o jugo social.
Teoricamente ou na prática, a verdade histórica, porém, frustra qualquer es-
perança de que a sociedade humana possa prescindir dos instrumentos de adaptação 
social, especialmente o direito. Em todos os tempos as transformações sociais jamais 
passaram de metamorfoses, quer dizer, de mudanças de forma, apenas. Quando al-
guém, como os criticistas, propõe o abandono da dogmática jurídica, porque escra-
vizadora do homem pela classe dominante representada pela burguesia, o que na 
verdade está propondo, em última análise, é a substituição dessa dogmática por uma 
outra que lhe parece mais justa. Eliminar o direito da sociedade é impossível, como 
inviável haver um direito não dogmático, porque, mais do que os outros processos 
de atuação da sociedade, consubstancia o elemento de estabilidade e de manutenção 
da própria convivência social.
3. Os processos de adaptação social, embora se constituam de normas de na-
tureza comportamental, não têm, exceto o direito, o poder de vincular incondicional-
mente as condutas, donde ficarem à mercê da adesão das pessoas. O direito, diferen-