JULGADO REPRESENTANTE COMERCIAL - VINCULO TRABALHISTA
12 pág.

JULGADO REPRESENTANTE COMERCIAL - VINCULO TRABALHISTA


DisciplinaDireito Processual do Trabalho e Direito do Trabalho394 materiais1.598 seguidores
Pré-visualização7 páginas
Identificação
PROCESSO N. 0002644-18.2016.5.06.0371 (RO) 
Órgão Julgador : 2ª Turma
Relatora : Desembargadora Eneida Melo Correia de Araújo
Recorrente:AURICELIA LOPES DINIZ
Recorrida : NATURA COSMÉTICOS S/A
Advogados : Estefferson Darley Fernandes Nogueira e Rafael Alfredi de Matos
Procedência : Vara do Trabalho de Serra Talhada (PE)
EMENTA
RECURSO ORDINÁRIO. RELAÇÃO DE EMPREGO CONFIGURADA. CONSULTORA NATURA ORIENTADORA (CNO). Comprovada a conjugação dos elementos fático-jurídicos que caracterizam uma relação de emprego, relacionados no art. 3.º da CLT, faz-se mister o reconhecimento do vínculo empregatício entre as partes. No caso em apreço, por meio de contrato firmado por prazo indeterminado, a Reclamante tinha sua prestação pessoal de serviços orientada e dirigida pela gerência da Reclamada, a quem competia, inclusive, a aplicação de penalidade em caso de descumprimento das metas fixadas. Apelo Obreiro provido, no aspecto.
RELATÓRIO
Vistos etc.
Trata-se de Recurso Ordinário interposto por AURICELIA LOPES DINIZ contra Decisão proferida pela MM. Vara do Trabalho de Serra Talhada (PE), por meio da qual foram julgados improcedentes os pedidos formulados na Reclamação Trabalhista ajuizada em face da NATURA COSMÉTICOS S/A, conforme fundamentação da Sentença Id 5d4d0dd.
Nas razões recursais, produzidas no Id cd43d3b, a Recorrente se insurge contra o pronunciamento de Primeira Instância, em que não foi reconhecido o vínculo empregatício entre as Partes. Para tanto, assegura ter se desincumbido do ônus probatório que lhe competia por meio da prova oral e documental, comprovando que coordenava um grupo de vendedoras de produtos da Reclamada, orientando novas vendedoras e recebendo ordens diretas de uma Gerente da NATURA.Sobreleva que cabia a Ré demonstrar o ônus impeditivo do seu direito, qual seja, uma relação de trabalho autônoma e sem subordinação, eis que admitida a prestação de serviços em outros moldes. Registra que estava presentes os requisitos da subordinação, pessoalidade, não eventualidade e onerosidade. Pondera que "Evidenciou-se, ainda, que a reclamante angariava/ativava revendedoras indicando-as à reclamada, seguindo as regras impostas pela empresa, que fiscalizava seu serviço e impunha sanções caso não fossem atingidas as metas de produtividade previstas, atuando a reclamante como um elo entre as consultoras - CN (estas efetivamente autônomas, com labor com características nitidamente distintas da CNO) e a gerente da reclamada, prestando-lhe auxílio."Reproduz cláusulas do contrato de prestação de serviços firmado com a Reclamada, em favor da sua tese. Ressalta que o intuito da Reclamada é burlar a CLT, ao impor a condição de autônoma à Reclamante, notadamente porque desenvolva a atividade-fim da Empresa. Requer o reconhecimento do vínculo de emprego, na função de Consultora Orientadora Natura - CNO, com a devida anotação na CTPS, no período indicado na exordial. Pede provimento ao Apelo.
Notificada, a Reclamada apresentou as Contrarrazões, Id 394e035.
Desnecessária a remessa dos presentes autos ao Ministério Público do Trabalho, em razão do disposto na Resolução Administrativa n.º 5/2005, que alterou o art. 50 do Regimento Interno desta Corte.
É o relatório.
VOTO:
FUNDAMENTAÇÃO
MÉRITO
Recurso da parte
Vínculo empregatício
A Recorrente se insurge contra o pronunciamento de Primeira Instância, em que não foi reconhecido o vínculo empregatício entre as Partes. Para tanto, assegura ter se desincumbido do ônus probatório que lhe competia por meio da prova oral e documental, comprovando que coordenava um grupo de vendedoras de produtos da Reclamada, orientando novas vendedoras e recebendo ordens diretas de uma Gerente da NATURA.
Sobreleva que cabia a Ré demonstrar o ônus impeditivo do seu direito, qual seja, uma relação de trabalho autônoma e sem subordinação, eis que admitida a prestação de serviços em outros moldes. Registra que estava presentes os requisitos da subordinação, pessoalidade, não eventualidade e onerosidade. Pondera que "Evidenciou-se, ainda, que a reclamante angariava/ativava revendedoras indicando-as à reclamada, seguindo as regras impostas pela empresa, que fiscalizava seu serviço e impunha sanções caso não fossem atingidas as metas de produtividade previstas, atuando a reclamante como um elo entre as consultoras - CN (estas efetivamente autônomas, com labor com características nitidamente distintas da CNO) e a gerente da reclamada, prestando-lhe auxílio."Reproduz cláusulas do contrato de prestação de serviços firmado com a Reclamada, em favor da sua tese. Ressalta que o intuito da Reclamada é burlar a CLT, ao impor a condição de autônoma à Reclamante, notadamente porque desenvolva a atividade-fim da Empresa.
Requer o reconhecimento do vínculo de emprego, na função de Consultora Orientadora Natura - CNO, com a devida anotação na CTPS, no período indicado na exordial.
Procede a insurgência.
Como é cediço, o ordenamento jurídico prescreve que somente haverá vínculo empregatício quando existentes a prestação pessoal de serviço não eventual, mediante remuneração e de forma subordinada. É o que se infere da leitura do art. 3.º da Consolidação das Leis do Trabalho, o qual assim dispõe:
"Art. 3º Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário".
A esse respeito, importa consignar as lições da renomada jurista Alice de Barros Monteiro a respeito do tema (Curso de direito do trabalho, 2009. p. 221):
"os principais elementos da relação de emprego gerada pelo contrato de trabalho são: a) a pessoalidade, ou seja, um dos sujeitos (o empregado) tem o dever jurídico de prestar os serviços em favor de outrem pessoalmente; b) a natureza não-eventual do serviço, isto é, ele deverá ser necessário à atividade normal do empregador; c) a remuneração do trabalho a ser executado pelo empregado; b) finalmente, a subordinação jurídica da prestação de serviços ao empregador".
Na hipótese, ao admitir a prestação de serviços da Autora, caberia à Ré demonstrar que a relação jurídica estabelecida entre as Partes se deu em modalidade diversa do contrato de emprego, por ser fato impeditivo ao direito postulado. É o que rezam as regras de distribuição do ônus da prova (art. 818 da CLT c/c art. 373, II, do NCPC). Desse ônus não se desincumbiu, todavia.
O cerne da controvérsia, pois, diz respeito à real natureza do contrato celebrado entre a Reclamante e a Reclamada (NATURA), ou seja, se tal ajuste espelha de fato uma relação autônoma de prestação de serviços, ou se foi encetado com o objetivo de desvirtuar, fraudar a legislação do trabalho, a autorizar o reconhecimento da manutenção de vínculo de emprego. E a solução reside na análise da prova oral em atenção ao Princípio da Primazia da Realidade, com vistas à extração da verdade real dos fatos.
Importa realçar, de logo, que a exclusividade (art. 2.º da CLT), assim como a alteridade, não constitui elemento necessário à configuração do contrato de emprego. A bem da verdade, em muitos casos, os empregadores, violando a regra celetista, tentam transferir os riscos do negócio e o custo operacional para os empregados. Essa postura ilegal, todavia, não é capaz de descaracterizar o vínculo empregatício.
E da análise da prova oral colhida nos autos, sobressai a evidência que a Reclamante estava vinculada à Reclamada por meio de um contrato de trabalho. A despeito disso, merece ressalva o teor do depoimento da Testemunha Lucia de Fátima Barbosa Barros, in verbis (fls. 349/350) :
"que trabalhou para a reclamada como CNO, coordenando um grupo de vendedoras; QUE no grupo havia em torno de 140 consultoras; QUE acredita que a rte possuía 110/130 consultoras; QUE a reclamante era exclusivamente CNO, não vendendo produtos; QUE como CNO ela depoente coordenava o grupo de consultoras, ajudando de uma forma geral, tirando dúvidas, dando orientação e ajudando a desenvolver o trabalho como consultora; QUE algumas consultoras faziam vendas sem a ajuda